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Edição 242

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13 DE Março DE 2012 • aNo XXI • N.º 242 • QUINZENaL GraTUITo DIrETor caMILo soLDaDo • EDITorEs-EXEcUTIVos INês aMaDo Da sILVa E João Gaspar

MicroConto por

acabra

Afonso Cruz “Fragmentos sobre o Sultão Osman III”

JorNaL UNIVErsITárIo DE coIMbra

Pág. 17

oCuPação das Cantinas

Reocupação das cantinas é cenário viável No último fim-de-semana os estudantes ocuparam a Cantina dos Grelhados contra o fecho dos restaurantes universitários ao fim de semana. Contudo, o presidente da DG/AAC acredita na sua reabertura a curto prazo, mas caso a situação não se verifique o dirigente afirma que os estudantes vão repetir a ocupação. No final

da tarde de domingo estiveram também presentes o PS e PDS, encabeçados por Pedro Alves e Duarte Marques, respectivamente. Este último desresponsabilizou o governo de qualquer culpa na atual situação dos serviços de ação social, considerando que o fecho das cantinas aos finsde-semana é opção do reitor. Pág. 4

Fórum Jornalismo e soCiedade

Prespetivar o Jornalismo nos dias de hoje Hoje, pelas 14 horas discutir-se-á jornalismo no auditório da reitoria da Universidade de Coimbra. É tempo de perspetivar o futuro do setor e encontrar por entre académicos, alunos e cidadãos uma resposta para os desígnios de um novo paradigma. O papel parece esgotar-se, o online adquire uma outra forma, e a informação ganha uma veleidade

nunca antes vista. A discussão estende-se para outros pólos urbanos. A iniciativa irá atravessar o país até Maio, procurando-se uma possível antevisão do que vai valer a informação nos dias do agora. É por isso premente pensar o jornalismo pelos olhos de quem o faz e de quem o lê, vê e ouve. Pág. 12

mundo: sérvia

As vantagens da União Europeia Dois anos depois do pedido de adesão, eis que é conferido à Sérvia o estatuto de candidata à União Europeia (EU). Apesar da UE se encontrar numa situação oscilante, dominada nos últimos anos pela crise, tal não parece, no entanto, estar a influenciar as pretensões de integração. A democracia e o estado de direito, o

respeito pelos direitos humanos e as potencialidades económicas parecem continuar a aliciar países a entrar. As exigências impostas pelos critérios de Copenhaga foram cumpridas e a entrada no espaço Schengen é um objetivo a ser conseguido gradualmente Pág. 13

Casa modular

Casa lego: adapta-se ao gosto do morador Carlota rebelo

Respeitar a individualidade da criança Estimular a procura e a participação ativa das crianças é o objetivo do JISASUC, que se inspira em Reggio Emilia, uma abordagem italiana de aprendizagem

Pág. 10 e 11

Construir uma casa que cabe num contentor pode parecer impossível, mas é essa a ideia que a CoolHaven pretende. A empresa de Coimbra, sediada no iParque, desenvolve uma casa modular, isto é, uma casa construída por módulos, baseada em princípios ecológicos e que utiliza materiais reciclados. A casa funciona como um lego que pode ser aumentado

e ajustado a qualquer arquitetura. O conceito de habitação da CoolHaven inclui um sistema de domótica que controla todas as funções da casa e que poupa 25 por cento de energia. No futuro, a empresa não quer construir casas, mas sim vender o conceito para o mundo e fazer franchising. Pág. 9

edição especial: 50 anos do dia a sair a 21 de março do estudante

Reforma administrativa

Carlota rebelo

Coimbra com preocupações transversais ao país

Pág. 2 e 3

@

Mais informação em

acabra.net


2 | a cabra | 13 de março de 2012 | terça-feira

deStaque

Carlota rebelo

Uma reforma administrativa contestada

“N

Por entre as vozes críticas, a reforma administrativa avança e estará concluída no fim do próximo ciclo eleitoral local. Presidentes de Juntas de Freguesia e sindicato contestam a medida enquanto os deputados dos partidos da coligação governamental defendem a necessidade e urgência da reestruturação. Por Filipe Furtado e Camilo Soldado

ão se justifica haver para aí freguesias com meia dúzia de gatos-pingados”, afirma José Rosado, sentado na esquina do café Bem-Estar, situado ao fundo da mesma rua que a Junta de Freguesia (JF) de Almalaguês. Reformado e com 73 anos, o habitante desta freguesia de Coimbra enumera várias possibilidades de reestruturação autárquica nas freguesias e municípios circundantes. Ao seu lado está Amândio Pereira, da freguesia vizinha de Castelo Viegas, que dá o exemplo de Penela como um município que devia ser agregado e até é a favor da extinção da própria freguesia: “O único problema é os velhos. Antigamente é que se justificava mas agora há transportes, a única questão é dar um subsídio a quem queira deslocar-se à junta” Almalaguês é uma das 31 freguesias do concelho de Coimbra e é também uma das muitas que fazem parte da lista de freguesias abrangidas pela reforma administrativa local. O início deste processo remonta a maio de 2011, quando o governo, à data socialista, assinou o Memorando de Entendimento sobre Condicionalidades de Política Económica da Comissão Europeia. No documento ficou estipulado que o governo, ou os partidos que mais tarde viriam a ser elei-

tos, se comprometiam a “reorganizar a estrutura da administração local”. Atualmente, Portugal tem 308 municípios e 4259 freguesias, número que se prevê “reduzido significativamente”, tendo o governo que apresentar um plano até julho de 2012. No memorando está patente que as alterações, que “deverão entrar em vigor no próximo ciclo eleitoral local”, vão num sentido de “reforçar a prestação do serviço público, aumentar a eficiência e reduzir os custos”. Desde que o documento verde foi publicado pelo governo de Portugal em Setembro de 2011, o processo da reforma administrativa já evoluiu para o Decreto-Lei nº 44/12. No entanto, a implementação desta medida está longe de ser pacífica e as posições de autarcas e partidos da coligação governamental não geram consenso. O presidente da Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE), Armando Vieira acredita que se “está a pôr em causa a existência da base do sistema político-administrativo” e que a freguesia “é o verdadeiro alicerce do edifício democrático em Portugal”. Quem se opõe a esta reforma alerta para uma perda de proximidade do poder local com as populações. Exemplo disso é José Barroca. O autarca de Taveiro faz uma declaração

de interesses antes de acusar o governo de falta de sensibilidade. “Fui eleito pela mesma coligação partidária que o governo ”, afirma, para depois comparar o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, ao führer da Alemanha nazi.

Especificidades locais O dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Administração Local

“Está-se a pôr em causa a existência da base do sistema político-administrativo”


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deStaque (STAL), José Manuel Marques afirma que “impor um processo de régua e esquadro é não perceber que no território existem outras realidades diferentes”. Por sua vez, a professora catedrática na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) e investigadora no Centro de História da Sociedade e da Cultura, Maria Helena da Cruz Coelho sustenta que “as reformas nunca podem atender a todas as especificidade e contêm sempre riscos de padronização” apesar de ressalvar a salvaguarda das “necessidades das comunidades locais, não as fazendo perder direitos nem um serviço de proximidade de que dispõem ou devem dispor”. O deputado do Partido Social Democrata eleito pelo círculo de Coimbra, Maurício Marques destaca o desejo de participação de todos os intervenientes no debate: “queremos envolver as pessoas, os autarcas dos diferentes municípios, para que apresentem as suas propostas de reorganização administrativa do seu território”. No entanto, a grande maioria dos autarcas não perspetiva um debate profícuo, uma vez que, na sua generalidade, não encontra pontos positivos nesta alínea do acordo com a troika. O presidente da Junta de Freguesia de S. Silvestre, José António Cortesão, questiona as vantagens desta reforma para a população. “Discordo completamente”, afirma, considerando que os moldes da restruturação teriam que ser completamente revistos. No entanto, há quem veja a reforma administrativa como uma possibilidade de solução de problemas antigos. Em Coimbra há um caso peculiar. O lugar de Carregais, pertence à freguesia de Taveiro mas está no meio da de Ribeira de Frades, fazendo parte de um enclave territorial. José Albuquerque, habitante de Carregais, confessa que não se importava de pertencer à freguesia mais próxima e que até utiliza os serviços da junta vizinha. “Até já cheguei a votar em Ribeira de Frades quando tinha autorização do presidente da JF”, recorda. Com 87 anos, José desabafa: “já me é indiferente”. No entanto, a indiferença de José Albuquerque – que não vê a perda de identidade como um risco – não é generalizada. O presidente da Junta de Freguesia de Cernache, Victor Carvalho, lamenta o desaparecimento do “primeiro balcão do Estado na sociedade”. Para o autarca, o desaparecimento de algumas freguesias vem acompanhar a extinção paulatina de “postos médicos, correios e transportes”, principalmente nas localidades do interior, onde a ausência destes serviços públicos se faz notar mais. Mas aqui deve fazer-se a distinção entre freguesias rurais e urbanas.

Casos rurais e urbanos O deputado do CDS PP eleito pelo círculo de Coimbra, João Serpa Oliva, acredita que, nas zonas urbanas, a questão é “mais ou menos pacífica” e que “não haverá grande

“A reforma, toda ela, é condenável e reprovável”, considera José Manuel Mendes

contestação”. Por inverso, nas freguesias rurais “é um pouco mais delicado porque há a questão da identidade”, considera. Também Mário Ruivo, eleito pelo mesmo círculo eleitoral mas pelo Partido Socialista (PS), vê como “consensual” a “aglomeração de algumas freguesias urbanas”. Por oposição, José Manuel Mendes, considera que “a reforma, toda ela, é condenável e reprovável”. Por isso, também nesta área, o governo encontrará pontos de resistência. O autarca da Sé Nova, freguesia do centro de Coimbra, Hélder de Abreu, acredita que a tutela “menospreza a ação das freguesias urbanas”. Afirmação rebatida por Serpa Oliva que acredita que o governo “não menospreza a ação das freguesias urbanas” mas quer apenas que estas “se unam para ter projetos comuns mais viáveis”. É nas freguesias rurais que a agregação causa mais celeuma. O pre-

Almalaguês e delegado da ANAFRE para o distrito de Coimbra. O autarca acredita na necessidade de uma reforma administrativa mas em moldes diferentes. “Acabamos por ser mais emocionais em vez de apresentar propostas”, confessa. Para Victor Costa, devia aproveitar-se para fazer a regionalização, criando novas regiões administrativas. Também Maria Helena da Cruz Coelho aponta para a necessidade de uma reforma administrativa ”coerente e global para conseguir um melhor ordenamento do território, maior eficácia e proveito da gestão e financiamento municipal”. No entanto, a catedrática da FLUC avisa que “Coimbra verá, como qualquer outro concelho, o número das suas freguesias reduzido, ganhando as novas freguesias maior dimensão e escala, mas possivelmente sem que isso corresponda a um maior e melhor desenvolvimento social, económico, cultural e ambiental da sua população e do seu território”. Mário Ruivo salienta a importância de definir primeiro ”quais são as novas competências, os novos modelos de financiamento local, a reorganização do processo eleitoral e a reorganização administrativa”, consultando as populações afetadas.

mos anos”, logo, “não há garantias”. Já Armando Vieira faz as contas: “está prevista uma majoração de 15 por cento, o que nós não aceitamos dado que o bolo global distribuído pelas freguesias é inalterável”. Segundo o presidente da ANAFRE, o aumento a ser atribuído às freguesias que optem por se agregar seria feito “à custa daquelas que não agregam”. Armando Vieira acrescenta ainda que “não é por aqui que passa a resolução da diminuição da despesa pública de Portugal, uma vez que a dotação do Orçamento do Estado de 2012 destinada às freguesias repre-

Só “fazendo a reforma à força” é que o governo poderá cumprir os prazos

Dúvidas em relação ao financiamento Uma das principais interrogações dos autarcas prende-se com o novo estatuto e forma de financiamento das freguesias que optem por se agregar. O incentivo do governo às fusões é de 15 por cento no aumento do financiamento,

senta uma despesa de 0,089 por cento”. Para o dirigente da STAL, ligado à questão financeira, está a dúvida do futuro dos trabalhadores. “Não podemos esquecer que o governo prevê a redução entre um a três por cento de trabalhadores na administração local, quando se conhece que a generalidade de autarquias tem falta de trabalhadores e não excesso”, lembra.

Referendo é solução?

sidente da JF de Ceira não tem problemas em afirmar que “nenhum dos colegas está de acordo, pelo que a reforma terá que ser imposta”. Pelo mesmo tom alinha José António Cortesão, autarca de São Silvestre, que manifesta que “da forma como está apresentada”, discorda totalmente. Cortesão refere a necessidade de uma reforma global que “passe por distritos, concelhos e só depois pelas freguesias”. “Um pouco como uma pequena regionalização”, defende. Victor Costa é presidente da JF de

mas há várias vozes críticas. Victor Carvalho está séptico em relação a esta medida pois garante que essa percentagem “já foi retirada ao financiamento das freguesias nos últi-

Parte da solução do diferendo passaria pela proposta de um referendo apresentada pelo Bloco de Esquerda (BE), uma proposta que é acolhida pelos autarcas, independentemente do partido pelo qual foram eleitos. Os autarcas, tal como Mário Ruivo, defendem um referendo, desde que este seja realizado localmente. Apesar disso, José Manuel Mendes acredita que não vale a pena referendar esta reforma porque está provado que ela não serve”.

Para os deputados dos partidos que formam a coligação governamental, a proposta do BE é falível. Enquanto Serpa Oliva classifica a exequibilidade do projeto como “difícil”, Maurício Marques considera que se “se estiver à espera da contribuição de toda a gente para fazer uma reforma, não fazemos reforma nenhuma”. E porque para cumprir o memorando de entendimento o tempo importa, as críticas à celeridade do projeto multiplicam-se. Maria Helena da Cruz Coelho entende que a “reforma administrativa não foi devida e suficientemente debatida na sua generalidade ou especificidade e apresenta um tempo muito curto para a sua aplicação”. Já a ANAFRE vê os prazos como sendo “muito apertados”. Armando Vieira acrescenta que, só o governo “fazendo a reforma à força contra os eleitos locais, contra as populações é que poderá cumpri-los”. Maurício Marques reitera o compromisso com as entidades externas e a necessidade de cumprir as metas.

Até ao fecho da edição, o Jornal A CABRA tentou, sem sucesso, entrar em contacto com o deputado do Bloco de Esquerda membro da comissão parlamentar do ambiente, ordenamento do território e poder local. O Jornal A CABRA também não obteve resposta, em tempo útil, às perguntas endereçadas à deputada do Partido Comunista Português membro da mesma comissão parlamentar. Depois de contactar o gabinete do Secretário de Estado da Administração Local e Reforma Administrativa, foi-nos informado que, devido a uma agenda muito preenchida, não seria possível responder às questões sobre a reforma administrativa. Freguesias do concelho de coimbra 1 – lamarosa 2 – são martinho da àrvore 3 – são silvestre 4 - ameal 5 – arzila 6 - Taveiro 7 – ribeira de Frades 8 - são João de campo 9 - são martinho do bispo 10 - antanhol 11 - cernache 12 - assafarge 13 - almalaguês 14 – castelo Viegas 15 - ceira 16 – Torres do mondego 17 - santo antónio dos olivais 18 – sé nova 19 – são bartolomeu 20 – santa clara 21 - almedina 22 – santa cruz 23 - antuzede 24 – Vil de matos 25 - Trouxemil 26 – Torre de Vilela 27 - souselas 28 – botão 29 - brasfemes 30 - eiras 31 – são Paulo de Frades


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EnSinO SUpERiOR

Cantinas ocupadas e com destaque nacional De 9 a 11, ocupou-se a Cantina dos Grelhados contra o encerramento dos refeitórios ao fim de semana, com a mediatização a pautar a ação de reivindicação João Gaspar Sábado à noite, e na Cantina dos Grelhados comia-se. Não fosse o encerramento de cantinas ao fim de semana pelos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC), no presente ano letivo, e este acontecimento não teria nada de relevante. Lá dentro, e por três dias, entre 9 e 11 de março, estudantes ocuparam os refeitórios da UC reivindicando a reabertura dos mesmos, depois de a ação ter sido

aprovada na Assembleia Magna realizada no dia 7. O presidente da direção-geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Ricardo Morgado, afirmou que as negociações com a reitoria da UC e os SASUC já estão a decorrer, dependentes também da reestruturação que está a decorrer nos serviços de ação social. O dirigente acredita que “a curto prazo” as cantinas voltem a abrir ao fim de semana. E se isso não se verificar? “Sem dúvida que voltamos a ocupálas”, afirma.

A importância da mediatização Na noite de sexta-feira, no arranque da iniciativa, estiveram presentes as três televisões nacionais na Cantina dos Grelhados, ampliando a voz daqueles que por lá reivindicavam. Ricardo Morgado salienta este aspeto e aponta para que, cada vez mais, “as reivindicações passem pela

questão de como conseguir comunicar”, acrescentando que “a mediatização passa a levar a reivindicação para um âmbito nacional”. Apesar de assinalar que o mais importante é a ação em si, o dirigente garante que a DG/AAC pretende uma aposta forte na comunicação e na assessoria de imprensa. “A guerra de gabinete não está a resultar; a guerra de rua, com a sua sobreutilização, perde o seu valor ideológico e torna-se inconsequente, e é este tipo de iniciativas que permite uma revitalização da ideologia”, explica o presidente do Núcleo de Estudantes de Psicologia e Ciências da Educação (NEPCE/AAC), Ricardo Viegas, aplaudindo a reação dos media à iniciativa que foi resultado do fórum Estados Gerais, entre DG/AAC e núcleos de estudantes. Apesar de lamentar o “parco tempo” para a mobilização de estudantes, o presidente do NEPCE enalteceu a

importância deste tipo de atividades, considerando que a presença dos media se torna cada vez mais fundamental para a mobilização e consciencialização da comunidade estudantil: “não se pode esperar representar uma comunidade se ela não estiver motivada para ser representada”, acrescentando ainda que o mediatismo “é o reconhecimento social, não só da ideologia mas também do esforço dos estudantes”.

Um caminho de consciencialização a percorrer “Importa criar um rumo político da Académica e não da DG/AAC apenas”, atesta o coordenador-geral do pelouro da Política Educativa da DG/AAC, Tiago Martins, declarando que “é fundamental envolver os núcleos na discussão da política educativa”. Ricardo Morgado lembra o conformismo entre os estuInês AmAdo dA sILVA

dantes e acredita que, face a novos desafios, “é importante encontrar outra forma de abordar o associativismo”. Assim sendo, esta iniciativa, como o próprio o afirma, “é apenas o começo de um caminho de consciencialização e mobilização interna para conseguir mais facilmente ter os jovens preparados para as ações que se possam desenvolver”. “Há que haver uma política da base para o topo, em que têm que estar todos em bloco neste tipo de causas”, declara. O presidente da DG/AAC frisou a importância de envolver núcleos, assim como movimentos que concorreram às últimas eleições, no espaço de discussão de ideias e planeamento de iniciativas para um gradual envolvimento dos estudantes. “Não queremos só uma cantina aberta, queremos um futuro”, assevera, vincando a importância da atividade como momento simbólico do início de uma política de consciencialização.

“É uma opção do reitor”

no domingo, delegações do Ps e do Psd, encabeçadas por Pedro Alves e duarte marques repetivamente, marcaram presença na iniciativa

No domingo, ao final da tarde, o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD) marcaram presença na iniciativa, encabeçados pelos deputados Pedro Alves e Duarte Marques, respetivamente. O deputado socialista teme que o fecho das cantinas ao fim de semana na UC seja apenas o primeiro exemplo de mais situações semelhantes, considerando que “não se pode criar uma sociedade em que regressa atrás e se fecha a porta a quem não tem ainda condições”. Já Duarte Marques acha “despropositada” a opção de se encerrar as cantinas nestes dias, desresponsabilizando o governo de qualquer culpa na atual situação das cantinas dos SASUC, considerando que “é uma opção do reitor: ele pode cortar noutras coisas que não nas cantinas”.

Reestruturação dos Saberes: criação de faculdades sem consenso O relatório final da comissão de Reestruturação dos Saberes aponta para uma maior aposta no domínio das artes e interdisciplinaridade dentro da UC Inês Balreira No seguimento da discussão da Reestruturação dos Saberes da Universidade de Coimbra (UC), o relatório elaborado pela comissão foi discutido ontem, 12, em plenário do Conselho Geral (CG). No decorrer do debate em torno da reestruturação foram apresentadas propostas que implicavam alterações na Faculdade de Economia da UC, na Faculdade de

Letras e Faculdade de Ciências e Tecnologia. As propostas apresentavam cenários hipotéticos, como a criação da Faculdade de Ciências Económicas e Sociais ou a criação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e, paralelamente, a Faculdade de Economia e Ciências Empresariais. A comissão não conseguiu, contudo, chegar a um consenso relativamente às várias alternativas. “O caso das Ciências Sociais foi amplamente discutido, não havendo um consenso total dentro da comissão quanto a um cenário específico”, afirma o coordenador da comissão, João Carlos Marques. “A conclusão a que se chegou é que as Ciências Sociais estão dispersas no tecido universitário e devem ser alvo de uma maior congregação”, diz o coordenador. O estudante representante dos estudantes de primeiro e segundo ciclo no CG e membro da comissão, Luís Rodrigues, aponta para uma “fraca

vontade de discutir os cenários”. “Foi interessante ver a reação anafilática dos professores com medo do que ia acontecer”, conta o estudante, que critica ainda “não se avançar na discussão dos cenários porque não convinha aos agentes políticos da universidade”. Por sua vez, o coordenador da comissão contrapõe que “a discussão foi extremamente aberta e a comissão se esforçou por implementar debates, discussões com entidades externas e conversas mais alargadas em plenário”. Outro ponto que também é referido no relatório final é a “necessidade de criar mecanismos de transversalidade e interdisciplinaridade dos saberes dentro da própria UC, ao nível do ensino e da investigação”, acrescenta João Maria André, também membro da comissão e do CG. João Carlos Marques diz que outra questão que consta no relatório e que

é “aceite pelos membros da comissão” é uma maior aposta no ensino das artes na UC. “É uma área que deve ter maior visibilidade e ser uma aposta da universidade”, explica o coordenador. João Carlos Marques aclara ainda que o relatório “pretende ser um documento que possa servir de guia para o CG planear a estratégia e não um conjunto de instruções”. Quase dois anos depois do início da discussão e com o término dos trabalhos da comissão, o balanço final deste debate também não é consensual dentro dos membros da comissão. Se para o coordenador da comissão o balanço é positivo, uma vez que a comissão “fez o que lhe foi mandatado”, para Luís Rodrigues o balanço é “francamente negativo”. “Não houve grande entusiasmo da comunidade académica para discutir o tema e penso que a discussão poderia ter ido mais longe”, assevera o estudante. Já Ana Paula Relvas,

membro da comissão e do CG, considera que o processo “poderia ter sido menos longo e estar sujeito a fases posteriores de discussão”. cArLotA rebeLo


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CUlTURA

Ao fim de 17 anos de silêncio cultural, A Brasileira reabre portas e evoca memórias A 1 de março, a nova Brasileira apresentou-se ao público. Apesar do sentimento nostálgico, o espaço perdeu a sua aura tradicional, bem como o seu rosto antigo. Texto e fotografia por nicole inácio e Juliana pereira

M

ais do que um estabelecimento onde se tomava café, A Brasileira era paragem obrigatória para trocar ideias, fazer cultura e discutir política. Ao sabor do “melhor café” reuniam-se tertúlias que debatiam a atualidade, não só do país mas também do mundo. Nas palavras de Mário Nunes, ex-vereador da cultura da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e antigo frequentador do café, A Brasileira era como “uma agência de notícias”. Apesar de toda esta aura emblemática, o atual proprietário do espaço, Lúcio Borges, desconhecia este passado: “para mim era apenas um estabelecimento”. No entanto, Lúcio tem razões para estar satisfeito, uma vez que “os primeiros três dias superaram todas as expectativas, foi uma adesão a 500 por cento”. E é com satisfação que garante ter vendido “cerca de duas mil doses de café”. Motivados pela curiosidade, ou talvez pelo desejo de reviver os velhos tempos, foram muitos os que visitaram o local no dia da sua inauguração. Contudo, é com nostalgia que Gonçalo Torgal, antigo estudante de Coimbra e frequentador assíduo d’A Brasileira assume que “foi uma alegria triste ver a sua reabertura”. Além disso, lamenta o facto de esta não se ter mantido fiel ao cunho tradicional que a caracteriza: “a mim chocame o branco excessivo, demasiado

virgem”. Opinião partilhada por Mário Nunes, que afirma mesmo que “agora não há relação, apenas o local e o nome permanecem iguais”. Já Lúcio Borges justifica que “esta é uma Brasileira moderna, nós não tínhamos nada relativamente às outras do país”.

Um espaço cultural e político “A Brasileira era o coração da baixa, em tudo o que transcendesse a vida comercial”, recorda o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), José Seabra Pereira. Porém, a baixa de agora desconhece a época dourada de outros tempos. Uma rua onde o estatuto social era assinalado através do vestuário e de valores, a baixa tinha n’A Brasileira “uma montra de como a sociedade em Coimbra se pavoneava e se exibia”, revela o ex-vereador da cultura da CMC. Também as tertúlias caracterizavam o passado histórico do café, onde figuravam intelectuais de diferentes afinidades políticas. A fisionomia do estabelecimento parecia já estar modelada à sua presença. O professor da FLUC explicita que “havia o espaço dominado pela Esquerda cultural e política, de um lado mesas onde permanecia o Partido Comunista, noutro subsetor figuras de oposição salazarista e um espaço de Direita mais para o fundo, constituído por gerações mais anFotogrAFIA cedIdA Por LucIo borges

tigas”. Apesar dos contrastes entre ideologias políticas, n’A Brasileira a cordialidade era garantida, aquilo que havia em comum “era a ligação a Coimbra e a paixão pela Briosa”. A nova Brasileira recorda esses tempos nos versos de “Vampiros” de Zeca Afonso, reproduzidos numa das paredes do primeiro piso. As visitas da PIDE eram recorrentes e muitas vezes “os que lá estavam a discutir ideias tinham de sair pela porta das traseiras, que ia dar à Praça do Comércio”, desvenda Mário Nunes. O café era, assim, um es-

As tertúlias de intelectuais políticos caracterizavam o passado histórico do café paço de circulação de informações, onde se praticava política de intervenção. As cadeiras d’A Brasileira eram ocupadas por personalidades como Joaquim Namorado, Alberto Vilaça, Francisco Pires, os artistas Pedro Olaio, Nunes Pereira e Cabral Antunes, jornalistas como Rocha Pato e José Maria dos Santos, o cantor Zeca Afonso e António Arnaut. “Eram várias as figuras intelectuais, jornalistas e escritores que vinham sempre ao

café e tinham uma posição política”, acrescenta Seabra Pereira.

Uma Brasileira moderna O tempo passava e o estabelecimento ia-se desatualizando. No entanto, Seabra Pereira reitera que “esse era o seu encanto, tinha o seu caráter como se fosse uma velha casa de família”. A Brasileira teimava em continuar a vender o tradicional café de saco, distanciando-se da concorrência que se modernizava ao adotar o café de máquina. Foi em 1995 que o café fechou para se transformar num prontoa-vestir. Contudo, “ninguém compreendeu como é que nessa altura as suas portas encerraram”, contesta Mário Nunes. Os clientes foram obrigados a dispersar e a criar hábitos noutros locais. 17 anos depois da reabertura d’A Brasileira espera-se voltar a animar a baixa coimbrã: “é um templo que poderá ressuscitar aquilo que caiu em desuso”, opina o ex-vereador da cultura da CMC. Todavia o professor Seabra Pereira declara “que estando tão transformado como está, tem poucas possibilidades de reativar a memória afetiva, política e cultural”. No seu ponto de vista, este deverá ser um espaço “de convívio agradável, onde as pessoas se revejam”. Apesar da remodelação, o proprietário decidiu manter o slogan

característico, «o melhor café é o d’A Brasileira», recuperar o candeeiro do piso de entrada e manter as especialidades emblemáticas da casa: “o bacalhau e o bife À Brasileira” e acrescenta que está a “fazer um preço acessível para que as pessoas possam provar”. Relativamente ao café, salienta que foi “criado e trabalhado por nós para ser o melhor”. Lúcio Borges não descura o facto de A Brasileira ser um marco importante na cidade e que por isso poderá atrair alguns turistas, mas releva, no entanto, que “o café foi feito para Coimbra, para os coimbrões”. Não existe ainda um programa cultural delineado, mas é expectável que no futuro se realizem as afamadas tertúlias. Lúcio pretende atrair também a comunidade estudantil para os debates mas mantém algumas reservas, dizendo que “os jovens têm de ser respeitados mas também têm de respeitar o espaço”. “Os estudantes de agora já não são os mesmos de há trinta ou cinquenta anos atrás”, conclui. Coimbra recuperou um espaço histórico, que não obstante as mudanças continua a atrair clientes e a despertar memórias antigas. Gonçalo Torgal garante que sempre que vier a Coimbra é lá que tomará o seu café, “apesar de com alguma nostalgia”.


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CUlTUrA

Stilofone em delírio despretensioso cá

cultura por 13

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“VAn GoGh” ciclO dE cinEMa audiTóriO dO MscaV 21h30 • EnTrada liVrE

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“PAlAVrA E UToPiA” DE MAnoEl DE oliVEirA

cinEMa dO cEs casa das arTEs 21h30 • EnTrada liVrE ciclO

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“JoJo, o rEinCiDEnTE” TEaTrO TaGV • 15h E 21.30h EnTrada EnTrE 4€ E 7,5€

15

MAR

Um exercício pouco provável sobre o absurdo, num teatro-musical protagonizado por dois indivíduos delirantes. “Mal-Empregados” faz pouco sentido, mas é bem-disposto

Ana Duarte Catarina Gomes Numa sala debilmente iluminada, o público espera. Dois artistas entram na sala e encaminham-se para o palco. Fixam o público em silêncio, como quem provoca usando do suspense. E a audiência responde, gargalhando. Como um dos artistas do projeto “Mal-Empregados”, Luís Fernandes, explica, parte do que é feito em palco tem como

base as reações de quem assiste. “Nós estamos ali também um pouco à espera, a dar a entender que nós próprios nos questionamos sobre o que é que estamos ali a fazer”. Entoando onomatopeias enquanto gesticulam coordenadamente uma espécie de coreografia, eis que sacam de um qualquer instrumento tecnológico, o raro stilofone, algo “rudimentar” na opinião de Luís Fernandes, mas que lhes permite os ‘mash-up’ a que tanto recorrem. Com eles, percorrem um reportório facilmente reconhecido pelo público, atualizando-as para algo dançável em discoteca. De facto, há entre o público quem diga “eu dançava isto”. Segundo os artistas, ambos músicos, a ideia foi sempre criar algo ‘nonsense’, ‘sui generis’, ousando, no que diz respeito aos recursos sonoros, criar uma “linguagem musical”. Assim, o “Jardim da Celeste” e a “Abelha

Maia” misturam-se, tal como artistas e público, e a atuação ganha dinamismo com a interação. Luís Fernandes balbucia numa linguagem estranha, enquanto Ricardo Falcão se barbeia. De seguida, surge uma voz de criança que pergunta “o que é que queres ser quando fores grande?”. Os atores personificam algumas profissões negligenciadas, como a voz que anuncia a passagem de um comboio sem paragem, ou a que deseja “boa viagem” nas portagens portuguesas um pouco alto de mais. O “trabalho mais baixo”, como diz Luís Fernandes, mas “sem desprimor nenhum”, é aquele que pretendem representar. Aqui se verifica a analogia com o nome do espetáculo, “Mal-Empregados”, onde apenas duas pessoas fazem um pouco de tudo, “à bom português”, como explica Ricardo Falcão. “É uma espécie de trabalho de biscateiro”, reforça.

De acordo com Ricardo Falcão, a ideia sempre fora “trabalhar num objeto que é estranho, e que vai ser estranho para as pessoas”. A caminho do fim, Ricardo aproveita a melodia de “Bésame Mucho” para dançar com uma mulher, aos nossos olhos, vulgar esfregona. Luís acaba por se juntar, agarrando num balde. Os dois encontram-se no meio do palco, juntando os elementos e virando-os para o público. E esperam que fique no ar algo remotamente parecido com a sensação de que quem os entreteve por uma hora: “podiam, afinal, ser empregados de limpeza, que se calhar passaram aqui e fizeram isto, sem estar previsto”, diz Luís. O espetáculo “Mal-Empregados” pode ser apelidado de várias coisas, mas o conceito que logo surge é o do ‘nonsense’. “Sim, mas com subtileza e na dose certa, com substância social”. Catarina gomes

“ConCErTo PArA olhos VEnDADos” Música Tabacaria da OMT 22h • EnTrada 5€

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neste teatro-musical, ricardo Falcão e Luís Fernandes usam poucos adereços, o que o torna, na opinião dos artistas, ‘sui generis’

TEaTrO cc dOM dinis • 21h30 EnTrada liVrE

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rADiCAl WronG dança TaGV • 21h30 EnTrada EnTrE 4€ E 7,5€

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“ProVAVElMEnTE UMA PEssoA” PElo TEATro DAs BEirAs TEaTrO Tcsb • 21h30 EnTrada EnTrE 5€ E 10€

Oficinas teatrais: um projeto-tipo Decorrem, desde o dia 29 de Fevereiro até ao final de abril, as oficinas teatrais do TAGV, que antecedem a apresentação de uma peça teatral, em junho Daniel Alves da Silva

22 29 MAR

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“shAkEsPEArE PElAs BArBAs” TEaTrO OMT • 21h EnTrada EnTrE 4€ E 10€

Por Carlota Rebelo

“A ideia de viagem, o que é viajar”. Esse é o ponto de partida da peça “Pequena História Trágico-Marítima”, que será apresentada nos dias 26, 27 e 28 de Junho, e das oficinas teatrais, integradas no programa da XIV Semana Cultural da Universidade de Coimbra. Quem expõe este conceito é a doutoranda no curso de Estudos Artísticos (EA) e responsável pela realização das oficinas, Filipa Malva. A partir da

sua tese de doutoramento, “Play Set: Scenography in Portuguese Children’s Theatre“, na área da cenografia para espetáculos infantis. Com o apoio do seu professor orientador e também diretor do Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) Fernando Matos Oliveira, surgiu a ideia de “colocar a tese em prática fazendo uma peça, no TAGV, não só infantil, mas para todas as idades”.

Oficinas em paralelo As oficinas estão divididas por quatro géneros: cenografia/figurinos, música, que neste momento já estão a decorrer, e interpretação e dramaturgia, que se iniciarão no final de março e abril. A orientação estará a cargo de Filipa Malva, Patrícia Sucena Almeida (da Universidade de Aveiro), Ricardo Correia e Jorge Louraço Figueira (que também lidera a oficina de interpretação juntamente com Ricardo Correia, ambos pertencentes à Uni-

versidade de Coimbra). O convite de Filipa Malva para integrar o projeto, adiantou Jorge Louraço Figueira, surgiu pela admiração mútua e por “partilharem algumas ideias sobre como fazer teatro”. Com o intuito de “aproximar o lado académico ao profissional”, como refere a organizadora das oficinas, “fazia sentido abrir o processo aos alunos”. Portanto, o principal objetivo é trazer estudantes, “quer de EA, quer de outros cursos”, para o teatro, “trabalhando com pessoas que já têm alguma experiência profissional”. Urbano Ferreira, aluno de EA que está a frequentar a oficina de música, considera que está a ser “uma boa experiência”, acrescentando que as diversas atividades lá realizadas irão “contribuir para o seu desenvolvimento musical e pessoal”. Assim, cumpre-se um dos objetivos das oficinas referidos por Jorge Louraço Figueira: “abrir o processo criativo, a partilhar com

outras pessoas com um intuito pedagógico”. “Está tudo em aberto”. Quem o diz é o formador de dramaturgia, relativamente à peça. Há “alguns pontos de partida, o autoconhecimento, a memória e a identidade cultural”, que se traduzirão numa história onde “dois homens do mar estão a tentar salvar-se de um naufrágio”, num espetáculo que será baseado em memórias pessoais que foram sendo recolhidas. E as atividades que estão e que irão ser desenvolvidas nas oficinas, cruzam-se entre si, a dramaturgia com interpretação, a cenografia com a música. “Será uma coleção de esboços” que poderá influenciar e integrar o espetáculo final, havendo a possibilidade de alguns dos participantes nas oficinas terem a hipótese de integrar a exibição final. Como explica Filipa Malva: “tudo aquilo que vamos criar vai ser influenciado por aquilo que vai acontecer nas oficinas”.


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DEsPorTo Remo em CoimbRa

Entre o amadorismo e o nível mundial Junto ao rio Mondego, a secção de desportos náuticos treina diariamente com o intuito de chegar a um patamar internacional. o pavilhão, que desde 2004 alberga a Académica, tem sido a catapulta de uma das secções com mais destaque ao nível desportivo. Por Fernando sá Pessoa

M

esmo à entrada da ponte pedonal, na margem esquerda do rio Mondego, encontram-se as instalações da Secção de Desportos Náuticos da Associação Académica de Coimbra. Até ao edifício, a ponte, com idade semelhante, indicia um local com boas condições de trabalho, à medida que se descortinam os atletas, nas imediações ribeirinhas, a fazer uso do bom tempo ao volante dos ergómetros. Na verdade, afirma o presidente da modalidade, Afonso Sousa, “estamos num país com excelentes condições para o remo, mas há ainda muito a fazer”. No pavilhão, encontram-se atletas a descer e a subir degraus, abraçados a pesos de musculação, num vai e vem temporizado pelo treinador. Quem quiser circular nas escadas, espera, porque a prioridade vai para os formandos. No piso de cima, há um ginásio, curto, e agregado à secretaria. Apenas uma porta de madeira separa os ferros dos papéis, tal como presidente e tesoureiro se multiplicam entre a direção e os remos. Por sua vez, no piso inferior, estão dispersas as embarcações que servem à modalidade, muitas das quais em segunda mão, utilizadas em campeonatos do mundo. De acordo com o tesoureiro João Ca-

tarro, “é uma das maneiras que existem para gastar menos”, num momento em que os apoios financeiros “deverão sofrer uma quebra na ordem dos 20 a 30 por cento”. No entanto, contrapõe o dirigente e atleta, “só há coisas boas a dizer sobre a Câmara Municipal de Coimbra”. É graças a ela que o pavilhão possui, atualmente, a coqueluche das embarcações, oferta camarária que ascende aos quarenta mil euros. Acresce a própria habitação, que Afonso Sousa considera ter sido “importantíssima para o desenvolvimento” da secção, custeada também pela câmara e nascida com o Programa Pólis. Isto após 25 anos estagnados que antecederam os sucessos recentes, já que, durante esse tempo, estiveram em instalações “provisórias”, no choupalinho. Mas, assevera João Catarro, “quando a obra arrancou, tivemos um crescimento de grande nível”. Antes de as coisas estarem no patamar onde estão, recorda, viu as cheias de 2001 atirarem “as frotas rio abaixo”.

Aposta na relação com a universidade O pulo que a secção teve nos últimos anos deve-se, muito em parte, à aposta na experiência. Essa ideia está expressa no percurso do técnico

Pedro Figueira que, em funções semelhantes desde 1996, treinou em Inglaterra durante seis anos. Mesmo com as boas campanhas que os desportos náuticos da academia têm apresentado, dentro das quais o tricampeonato entre 2008 e 2011 e o segundo lugar nos europeus universitários, o treinador entende que “ainda há muito caminho a percorrer”. Em qualquer ‘ranking’ universitário, afiança, “as dez melhores faculdades têm programas de remo bastante fortes. E, também por falta

O pulo que a secção teve nos últimos anos deve-se à aposta na experiência nossa, não temos uma relação com a Universidade de Coimbra tão forte como gostaríamos”, à imagem do que acontece em países como os Estados Unidos ou Inglaterra. Entre alguns sorrisos de rendição, Afonso Sousa confessa a dificuldade em adquirir atletas do meio universitário. “O mais fácil é captá-los ainda jovens e fazer com que não deixem o

remo”, garante.

Situação desportiva Para Afonso Sousa, em termos de provas em Portugal, “ainda se treina a um nível muito amador”. Muito embora assumindo as dificuldades contra as quais têm lutado, como o excessivo assoreamento do rio Mondego, que estraga, não raras vezes, as hélices das embarcações, é com orgulho que o presidente comenta as prestações da Académica. A evolução, resguarda-se, “não se faz da noite para o dia”, mas o vigésimo oitavo lugar na última regata internacional, entre mais de 440 formações, é “de nível mundial”. “Ainda não nos consideramos nesse patamar, mas acreditamos que para lá caminhamos”, assumindo a disparidade entre alguns clubes e a impreparação do país para a modalidade. Este facto está patente, de resto, na dívida que a Federação Portuguesa de Remo tem para com a secção. Este ano, acrescente-se, dado a não compensação financeira para quem vence as provas nacionais, a aposta é outra. Ambições além fronteiras, Afonso Sousa aponta para as “regatas internacionais como forma de evolução das competências e de profissionalização”. stePHanie sayuri komatsu

PRolongamento h ó Q uE i E M  P a T in s

A Académica deslocou-se, no passado sábado, ao reduto do Hóquei Clube de Sintra para sofrer uma derrota de 7-4, num jogo em que os últimos três minutos foram cruciais para a remontada dos locais. Com esta derrota, a Briosa mantém-se no décimo primeiro lugar, com doze pontos, apenas dois a mais do que a linha de água. No próximo sábado, a equipa de Coimbra viaja a Fão para uma eliminatória a contar para a Taça de Portugal.

ba s Q u E T E b O l

Os pupilos de Orlando Simões foram derrotados, no seu pavilhão, pelo Lusitânia, ficando afastados do sexto posto da liga. No entanto, as atenções viram-se agora para a Taça de Portugal, já que os estudantes defrontam, no próximo dia 15, a Ovarense, em jogo da final 8 da competição

VO l E i bO l

A equipa da Secção Académica de Voleibol venceu, no passado dia 10 de março, em visita ao Clube Nacional Ginástica, com os parciais de 3-0. Deste modo, os conimbricenses alcançam uns importantes oito pontos, ascendendo ao segundo lugar, na luta pela manutenção na segunda divisão nacional. Recorde-se que este jogo pertence à segunda fase, onde seis equipas disputam a permanência no campeonato.

Fu T s a l

Ao perder em casa com o Freixieiro por 4-3, que se encontra no quinto posto da primeira divisão nacional, a Académica cavou ainda mais o fosso para o oitavo lugar, cuja diferença é agora de seis pontos para o nono. No próximo sábado, a equipa dos estudantes vai ao terreno do quarto lugar, o Modicus, defender os seus 22 pontos, mais um que a desilusão da época, o Belenenses.

Por Fernando Figueiredo

as ambições dos dirigentes da secção académica de remo passam pela ascenção ao patamar internacional


8 | a cabra | 13 de março de 2012 | Terça-feira

CIdAde

Mercado Municipal

Tanto como a chuva, faltam os clientes Num cenário de seca e de mudança de hábitos de consumo, as vendedoras do Mercado Municipal explicam as dificuldades que assolam a sua produção - porque mais do que a chuva, escasseiam meios para levar de novo os clientes a comprar a estes pequenos produtores. Texto e fotografia por Inês Amado da Silva

As condições atmosféricas atuais prejudicam muito a produção

É

ainda cedo para a cidade, mas no Mercado Municipal Dom Pedro V a manhã já vai longa. As bancas são coloridas por todo o tipo de produtos da região, vindos não só dos quintais e plantações dos pequenos produtores que madrugam para vir vender, mas também de outros pontos comerciais como o Mercado Abastecedor de Coimbra. Na banca de Isabel Gaspar, por exemplo, podem encontrar-se alguns produtos que a própria cultiva – pimento, cebola, couve lombarda, tomate, feijão-verde – mas a vendedora de Casais do Campo, localidade próxima de São Martinho do Bispo, admite ter comprado alguns dos produtos que ali apresenta. Embora algumas produções estejam agora na época de cultivo, outras há que se perderam pelas condições atmosféricas que se têm imposto ao território português. “Perdi produções de batatas, cebolas, alface, porque não há chuva”, queixa-se Isabel

Gaspar, que assegura que “a seca tem afetado muito” e que já teve prejuízos “porque ainda não nasceu nada do que se semeou”. “Toda a gente se queixa do mesmo”, garante. Maria Teresa Marques, de São João do Campo, corrobora as queixas de Isabel Gaspar, ao garantir que “todos os produtos hortícolas são afetados”. Para esta vendedora, que diz ser o seu emprego “semear e vir vender”, a incerteza que a seca vem trazer perante o investimento nos produtos é o problema. Apesar de ainda não ter perdido nenhuma colheita, Maria Teresa explica que “as culturas não desenvolvem e a despesa vai à frente: se vamos ter o resultado ou não, não se sabe”, receia. Desde o ano de 2005 que o território português não era afetado de tal forma pelos baixos níveis de precipitação, e os últimos três meses têm sido comparados com a seca de 1931, há 81 anos atrás. Na escala do Instituto de Meteorologia, 68 por

cento do território português está em seca “severa” e 32 por cento em seca “extrema”, e as dificuldades dos produtores parecem agravar-se um pouco por todo o lado. No entanto, na zona do Baixo Mondego, há opiniões dissonantes: o membro da direção da Associação de Beneficiários da Obra e do Fomento Hidroagrícola do Baixo Mondego, José Ferreira dos Santos, afirma que as culturas afetadas são culturas em regadio, sendo que podem ser regadas por outros meios que não a água das chuvas. “Esta não é uma época que seja principalmente de regadio”, explica Ferreira dos Santos, que aponta o verão como o tempo de maiores preocupações: “nessa altura, poderão surgir problemas nas zonas onde não há obras [de regadio]” e assegura que, neste momento, “se as pessoas pedirem água, terão”.

O Mercado e os novos hábitos de consumo Para estas vendedoras, a vender no Mercado Municipal há já muitos anos, o declínio do consumo tem sido notório, perdido para as grandes superfícies comerciais que Coimbra viu aparecer desde os anos 1990. “Não sei o que é que o povo come, porque não vem ao mercado”, ironiza Maria Teresa Marques. “Ando aqui desde os 14 anos e isto está trinta vezes pior que há 20 anos atrás. O mercado estava muito maior e com muito mais pessoas”, lembra a vendedora. Para Laura Salgado, que vende no mercado há 30 anos e é conhecedora das suas rotinas –“é quase uma vida”, reflete – as vendas crescem quando chega o final da semana. “Há uma ou outra freguesa que a gente tem certa, mas de resto… No princípio vendia-se bem, mas as superfícies comerciais estão a tirar os clientes”, lamenta. Na banca ao lado, Clarinda Fon-

Além do crescente número de grandes superfícies, as vendas decaíram também com o encerrar do edifício dos CTT no verão. “Ponham aqui outros serviços para que as pessoas venham mais”, pede Isabel Gaspar

seca é exceção neste cenário: apesar de vender no mercado há quase 20 anos, a agricultora de São Martinho de Árvore destoa no grupo de vendedoras pelos apenas 41 anos de idade. Apesar disso, mostra-se conhecedora da dinâmica do local, reconhecendo que “antes se vendia mais” e que mesmo dentro do mercado “a concorrência é muito complicada”. Para Clarinda, para além do crescimento do número de grandes superfícies, as vendas decaíram também com o encerramento do edifício dos CTT, no verão de 2011, que antes estavam localizados ao lado do mercado. Isabel Gaspar concorda: “ponham aqui outras coisas, outros serviços, para que as pessoas venham mais. Coisas mesmo necessárias, como eram os correios”. É que, nas palavras de Isabel, “o negócio está muito fraco, não pode estar pior”.

Alternativa às reformas baixas Maria Gonçalves, de 64 anos, parece não ser da opinião das outras vendedoras, assegurando não haver falta de água na zona do Baixo Mondego. No entanto, as suas palavras resumem algo que muitas das vendedoras parecem ter em comum: a necessidade de continuar a vender o produto dos seus cultivos como suplemento a um valor de reforma que é, muitas vezes, insuficiente. “Sou agricultora, e como a reforma é tão pouca, tenho que vir para aqui vender”, afirma Maria Gonçalves. “Só vendo os produtos que cultivo e já chega, porque às vezes nem isso vendo”, lamenta a agricultora. Também Laura Salgado, de 69 anos e residente na cidade, diz não poder fazer mais nada devido à idade. “Sempre se vai dando aos filhos, porque só com a reforma não dá. Nem que a gente ganhe para o conduto”. Com Ana Morais


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CIêNCIA & TeCNologIA

Empresa coimbrã sediada no iParque desenvolve casa modular Uma construção baseada em princípios sustentáveis que pode ser feita pelo próprio proprietário e transformar o estilo habitacional Rafaela Carvalho Paulo Sérgio Santos “Esta casa cabe toda num contentor”. É assim que o diretor da CoolHaven, Joaquim Rodrigues, descreve de forma resumida o conceito de casa modular por detrás desta empresa portuguesa, recentemente implantada no iParque de Coimbra. A tecnologia consiste numa habitação fabricada em módulos e baseada em princípios ecológicos, como a utilização de materiais reciclados, integração de sistemas de aproveitamento de água e calor, entre outros. O objetivo: construir uma casa que, como explica Joaquim Rodrigues, se reja por um “processo limpo do início ao fim” e que possa ser ampliada, diminuída ou transportada em qualquer altura. “Partimos de unidades mais pequenas, como um lego, e juntando-as podemos fazer a arquitetura que quisermos”, acrescenta o diretor. “Quando criámos a CoolHaven, o objetivo era exportar. Nós fizemos uma análise e vimos que o mercado português não ia ser recetivo, mas enganámo-nos”, confidencia Joaquim Rodrigues. Neste momento, a empresa já ultrapassou os dez pedidos por ano que estimara receber na análise de mercado referida e que tornaria o projeto insustentável apenas para consumo nacional. “Claro que em Portugal o negócio é quase impossível no imediato”,

adianta o diretor. Por essa razão, o grosso dos pedidos que chegam à empresa vem neste momento da Europa (especialmente França) e de sítios tão remotos como o Congo.

Construir sem limites Imagine um contentor de 40 metros. Uma chave mestra. Dentro do contentor vêm várias paredes prontas a montar. Isto pode ser comum num futuro próximo. “São casas, não casas pré-fabricadas, apesar de o conceito ser todo feito de forma industrial”, esclarece o responsável da empresa. A grande diferença e vantagem para com a concorrência, na sua opinião, reside no tipo de construção modular: as divisões são desmontáveis e não estanques. A concorrência “tem um grande inconveniente, que é o transporte: para uma casa como esta precisam de cerca de seis contentores”, exemplifica Joaquim Rodrigues. Os exemplos existentes no site da empresa representam moradias que têm entre um a quatro quartos. No entanto, existem já projectos para a construção, por exemplo, de um campus universitário em França, com 14 edifícios. “Connosco não há limites, nós fazemos qualquer tipo de arquitetura”, afirma o diretor da Cool Haven.

pessoas. E isso faz poupança de energia, melhor gestão. A domótica ajuda a gerir isso tudo, é uma poupança de cerca de 25 por cento de eletricidade”, caracteriza Joaquim Rodrigues. Tudo isto pode, inclusive, ser feito através do telemóvel, através de um programa que permite controlar qualquer função robótica da casa, possibilitando ter “a casa na mão”. Todavia, salta imediatamente à

vista um grande senão. “Se falhar a luz e não existir um sistema autónomo, que estamos a desenvolver, nada funcionará”, refere Joaquim Rodrigues, acrescentando que, no entanto, não existe o risco de os habitantes ficarem enclausurados.

Presente e futuro Atualmente, em Portugal, ainda existem restrições nos Planos Diretores Municipais e no Imposto Mu-

nicipal sobre Imóveis ao nível do aumento e diminuição da área de construção. “Temos que ser criativos”, enfatiza Joaquim Rodrigues, “no futuro nós não queremos construir nada, queremos vender um conceito para o mundo inteiro, um franchising”. O ideal será, no final, existir uma casa ‘plug-and-play’, “onde se pode integrar tudo o que se quiser, como tecnologias mais recentes”, conclui. RAfAelA CARvAlho

Ter “a casa na mão” Uma das principais características desta nova conceção de habitação, apesar de não ser obrigatória, é a integração de um sistema de domótica que controla todas as funções da casa, desde o subir e descer dos estores aos sensores responsáveis pela regulação da iluminação e temperatura. “Isso é a domótica. Chegar a um ponto em que não precisa de carregar em botão nenhum. As luzes apagam-se sozinhas, a ventilação só vai agir em sítios onde há

A casa está preparada para incorporar novas tecnologias à medida que vão surgindo no mercado.

FCTUC desenvolve seringa a laser A seringa a laser é uma alternativa a agulhas ou a injeções no uso de alguns medicamentos e cosméticos, que espera apenas por certificação e novo design Filipe Furtado A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) desenvolveu uma seringa desprovida de agulhas ou de dor. A tecnologia desenvolvida pela “LaserLeap” utiliza o laser e ondas de pressão para administrar cosméticos ou

medicamentos através da pele. Os investigadores do departamento de química apresentam esta tecnologia como “algo absolutamente não evasivo, indolor e reversível”. De acordo com o diretor executivo da ‘startup’ “LaserLeap”, Carlos Serpa, o “passo inventivo nesta tecnologia foi desenvolver o material que absorve a luz do laser e a converte numa onda de pressão”. Simplificando é um “conversor de luz em pressão”. É essa onda que interage com a pele, com a camada córnea. A onda de pressão afasta essas células, muito compactas entre si, por alguns momentos, “para a passagem do medicamento ou cosméticos”, explica o investigador. Após a utilização da seringa laser, “as células vão juntar-se outra vez”e re-

tomam “a sua função protetora”, aponta Carlos Serpa. “Se quisermos tomar um analgésico que tenha efeito local, que não tenha efeito sistémico, usamos cremes que têm dificuldades em passar a pele”, exemplifica o docente, que descreve o “LaserLeap” como uma “ajuda” na eficácia destes produtos. O mesmo fala com cautela sobre algumas aplicações da seringa: “alguns medicamentos para o tratamento de cancro podem ter vantagens em passar pela pele”, contudo, “o método tradicional é o comprimido”. A base de comercialização desta tecnologia inclui o laser, um cabo de fibra óptica e um pequeno aplicador descartável, que assenta no modelo de negócio da “lâmina de barbear”.

Isto é, continuar a vender a peça descartável depois de comprar o kit inicial. Numa conferência que reuniu 20 mil especialistas da área da fotónica, em São Francisco, nos Estados Unidos da América, realizou-se uma pequena prova de três minutos de apresentação de tecnologias desenvolvidas nas universidades com possibilidade de negócio. O “Laserleap” venceu o desafio proposto. Carlos Serpa destaca a importância do evento no reforço à viabilidade do projeto, e pelos “contactos interessantes” que estabeleceram. O projeto “LaserLeap” começou em 2008/2009 e já atingiu uma “fase madura”, possuindo uma patente desde abril de 2011. Era “uma tecno-

logia que podia sair dos laboratórios da universidade”, com interesse comercial, afirma o investigador. No prazo de um ano, a ‘startup’ da UC pretende obter certificação junto das autoridades reguladoras e tornar o design mais atraente, mais próximo de um protótipo industrial. “Seria lógico termos um instrumento que é segmentado do ponto de vista do mercado, que serve só para um cosmético, mas não segmentado em termos geográficos”, defende Carlos Serpa, otimista em relação às negociações que decorrem com fabricantes de outros países, embora seja muito cedo para saber se haverá investimento para a produção: “são passos que não dependem inteiramente de nós”, finaliza.


10 | a cabra | 13 de março de 2012 | Terça-feira

JARdIM dE InFânCIA SASUC

Ao provocar o saber, cresce a autonomia O Jardim de Infância dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra acolhe uma abordagem educativa inspirada num modelo italiano. Reggio Emilia pretende incutir desde cedo a autonomia na criança e provocar uma descoberta constante. Por Liliana Cunha e Ana Morais Fotografias por Carlota Rebelo

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o número sete da Avenida Dias da Silva podemos encontrar no interior de uma fachada austera, um local preenchido de cor e vivacidade. Sem qualquer referência à instituição, quem atravessa a porta rapidamente apreende a essência. Os tempos de infância revisitam-se nos trabalhos expostos nos corredores. Por detrás da casa há um típico espaço recreativo: lá se encontram um barco, uma casa, um campo de futebol. Tudo em tamanho reduzido. Apropriado àqueles que brincam de forma a poderem ser gente graúda. “O que andamos a descobrir?”, pergunta a educadora Raquel Maricato. “Cogumelos”, respondem em coro as crianças. “O que são cogumelos?”, volta a questionar. “São fungos”, replicam prontamente os pequenos. À partida poderia pensar-se que este diálogo seria uma mera sessão de um qualquer infantário. No entanto, tal não se verifica. Para as crianças do Jardim de Infância dos

Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (JISASUC) esta é uma situação corrente. Aqui, a rotina diária nunca é imposta. É flexível. Avança à medida que cada criança partilha as suas dúvidas, permitindo que haja envolvimento de todas. Se uma tem a resposta apresenta-a aos restantes, quando não surge uma conclusão há que pesquisar. Todo este processo é inspirado num método italiano – Reggio Emilia – onde se pretende que a criança seja o modelador de todo o processo educativo. “Abrimos todas as pastas no ambiente de trabalho. Eles é que organizam a informação que recolhem”, explica Raquel. Também fomentar o espírito crítico, desde cedo, é fundamental para que no futuro a criança desenvolva de forma mais fácil as suas competências. A responsável por um dos projectos, Marisa Azul, acredita que esta abordagem “contribui para cidadãos mais ativos e com mais vontade de se informarem sobre questões que os ro-

deiam”. O projeto “Experimentar e descobrir o Mediterrâneo” aparece como uma oportunidade para alargar o conhecimento. “Queremos explorar, desenvolver experiências suplementares, estimulantes, criativas sobre a diversidade que existe na Bacia do Mediterrâneo e os processos que

tário ao projeto para desvendar a fauna e a flora da região mediterrânica. Marta, mascote anfitriã, tem a chave de todas as respostas. Foi nos bolsos dela que apareceram pela primeira vez os cogumelos no JISASUC. “Há indutores” para estimular a procura, revela o diretor do jardim de infância, Nuno Freitas.

“Abrimos todas as pastas no ambiente de trabalho. Eles é que organizam a informação”

“A bola está do lado deles”

ocorrem na natureza”, explana Marisa Azul. A criança tem, assim, a possibilidade de interagir com o ecossistema e “perceber as atuações que o homem teve e tem no clima”. A descoberta dos cogumelos não é por acaso. Estes vêm da ligação do infan-

O papel da educadora revela-se como “elo de ligação”. Funciona como interlocutora da sede de saber da criança e da concretização das respostas. Estas partem de uma pesquisa científica e são devidamente documentadas - “é um processo que se inicia a partir de pistas que não são dadas verbalmente”, conta a educadora Joana Vila Nova. “A bola está do lado deles”, afirma, orgulhosa, Raquel. Porém, as educadoras são unânimes em afirmar que não há um fim no processo, dado que, por vezes, não têm respostas imediatas para as interrogações dos pequenos. As dúvi-

das chegam mesmo a surpreender as responsáveis – “eles queriam saber quem foram as primeiras pessoas que existiram e nunca imaginei falar de homens primitivos a crianças de cinco anos”, comenta Raquel para demonstrar que são os mais novos que conduzem a aprendizagem. Para descobrir mais sobre cogumelos, as crianças chegaram mesmo a visitar a Biblioteca Municipal a fim de se documentarem cientificamente. “Coleção de momentos com significado para a família, para as educadoras e para as crianças”, é desta forma que Nuno Freitas apresenta o portefólio, instrumento de documentação individual e personalizado pela própria criança. Nele participam os mais pequenos com o que entenderem, as educadoras com a avaliação, e a família que partilha testemunhos. “Nas competências de aprendizagem os ganhos são imensos e não param na criança”, conta a investigadora do Centro de Estudos Sociais, Ângela Filipe, que também participa nesta ini-


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jardim de infância sasuc Um ATOr NA sOciEdAdE A criança enquanto ator e agente ativo desde muito cedo. É assim que se cumpre o objetivo do modelo Reggio Emilia. Este surge, perante o cenário de destruição na Europa, no pós-Segunda Guerra Mundial, e que se estendia a uma destruição social e familiar sem precedentes. Para investir na criação de um novo modelo de aprendizagem escolar, um grupo de mães de uma pequena província, situada no norte de Itália – Reggio Emilia, decide pesquisar sobre este tema. Em Portugal, sobretudo após os anos 50 e 60 desenvolveram-se experiências de pedagogias inovadoras e até alternativas em diversos campos. Reggio Emilia foi uma delas. Metodologia participativa onde se procura com liberdade implicar as crianças na construção das respostas, aos desafios, às interrogações, às suas vivências. A instituição atua de forma a não dirigir as crianças, mas a confiar na capacidade destas para explorarem e, assim, apreender o mundo à sua volta nas mais variadas facetas. Colocar a criança no centro das intervenções que a ela se dirigem.

ciativa como complemento da sua tese de doutoramento. Incorporar “a sociedade é um elemento fundamental”, destaca o membro da comissão de pais, Pedro Serra. A interação com a comunidade interseta-se. “Escuta e torna visível o que cada um dos envolvidos pensa”, acrescenta. Vários parceiros culturais e científicos da cidade juntam-se para “cruzar diferentes áreas do saber e entrelaçar o conhecimento científico com o conhecimento tácito”, esclarece Marisa Azul. Entre outros nomeiam-se o Conservatório de Música de Coimbra, a companhia de teatro Marionet e o Centro de Ecologia Funcional da UC. “Este é um projeto que está muito ramificado e isso é bom para todos”, certifica Nuno Freitas.

Descobrir o ecossistema No âmbito do programa COMPETE (programa proveniente de fundos comunitários) e em parceria com o centro Ciência Viva de Estremoz existe o projeto “Montado - fazer diversidade aos serviços de ecossistema”. É dentro deste que se encontra o plano relacionado com a exploração do Mediterrâneo - “as crianças podem associar a vegetação e descobrir um dos primeiros ecossistemas moldados pelo homem, o montado”, cons-

tata Marisa Azul. As cerca de 70 crianças estão divididas por quatro grupos: tartarugas (três anos), peixes (quatro anos), caracóis e leões (cinco anos). Em salas diferentes desacomodam-se, todavia, há um espaço onde podem interagir e partilhar as descobertas que vão realizando. O atelier surge em grande destaque, uma vez que permite às crianças explanar as múltiplas formas de representação da realidade. “É um sítio para estar mesmo desarrumado”,

“Escutar a criança, dar voz à criança” é a forma de ensinar no JisAsUc brinca Nuno Freitas. Todas as sextas feiras servem para que os grupos se juntem e troquem as impressões do que capturaram durante a semana.

“Escutar a criança, dar voz à criança” A vice-reitora para as Relações Internacionais da UC, Helena Freitas, considera o JISASUC “uma estrutura

fundamental” e acredita que os já anunciados cortes na ação social escolar não vão afetar o jardim - “de modo algum tenho essa expectativa”, garante. Ainda assim, alerta que “há algumas carências que se começam a sentir” e que “estas parcerias podem ser uma forma de chamar a atenção e permitir que essa fragilidade não aconteça”. Desde setembro que o JISASUC se inspira nesta abordagem, mas o tempo de agora é aproveitado para, em retrospetiva, analisar a forma como se desenvolve. “A criança é competente”, assevera o pai Pedro Serra, e é em torno desta ideia que gira todo o processo. “Escutar a criança, dar voz à criança”. Não é em vão que este é o lema utilizado para descrever a forma como tudo é pensado. Segundo Nuno Freitas, independentemente do modelo de aprendizagem seguido, o importante “é valorizar a criança”. Para a educadora Joana Vila Nova no que toca à educação “não há uma receita”. A abordagem educativa neste jardim fez-se a partir de uma identificação que todos sentem ao envolver-se no projeto – “só faz sentido em trabalho de equipa”, conclui a mesma. NOTA: A imagem de fundo é um símbolo desenhado por uma criança da instituição.


12 | a cabra | 13 de março de 2012 | Terça-feira

País

Discutir o jornalismo em pé de igualdade a partir de dia 13, o jornalismo estará em debate em várias cidades do país. “Jornalismo e sociedade” é o nome do projeto que pretende fomentar a discussão sobre o futuro dos media e a elaboração de elementos que poderão pautar a atividade jornalística em Portugal. Por ana Duarte e João Valadão

D

esde os primórdios do século XX que a principal função do jornalismo tem sido fornecer as ferramentas necessárias aos cidadãos para formularem opiniões devidamente informadas. Hoje, assiste-se ao declínio da capacidade exclusiva dos jornalistas para produzir conteúdo noticioso, devido à rápida proliferação da matéria informativa. Esta problemática gerou a discórdia no ecossistema mediático. Para a resolver, uma equipa de “jornalistas preocupados” (tradução livre de “concerned journalists”), liderada por Tom Rosenstiel e Bill Kovach, iniciaram uma série de fóruns pelos Estados Unidos de América (EUA). O objetivo essencial seria elaborar os elementos fundamentais do jornalismo e repor a credibilidade no trabalho das redações. Estava-se a perder a confiança dos leitores. Em 2012, inspirado neste modelo, transpõe-se o fórum de discussão para Portugal, com os mesmos propósitos. “Jornalismo e Sociedade” é o nome do projeto liderado pelo professor do Instituto Universitário de Lisboa, Gustavo Cardoso e pelo jornalista Adelino Gomes. A busca pelo paradigma atual do jornalismo serve como ponto de partida para a realização destes fóruns em diversos pontos do país. A opinião sobre esta temática divide-se. Adelino Gomes realça que ainda não existem elementos suficientes para responder à questão, mas, o objetivo “é dar contributos para se compreender melhor”. Existem, por outro lado,

opiniões mais assertivas. O jornalista da revista Visão, Paulo Pena, afirma que “o jornalismo modelo continua a ser aquele que tem por principal missão dar aos cidadãos a capacidade de tomarem decisões informadas”. A situação atual passa, sobretudo, pela expansão do jornalismo online e a questão da gratuitidade. Para o diretor de informação da TVI e também convidado do fórum em Coimbra, José Alberto Carvalho, “o facto de haver cada vez mais jornalismo digital não é por si só um problema”. Com ele está também Paulo Pena, que dá o exemplo de jornais internacionais de referência como o New York Times e o The Guardian: “estes jornais aumentaram exponencialmente a sua audiência com o online. Eles não têm menos leitores, recebem é menos pelas vendas e pelos anúncios que tinham no negócio exclusivamente em papel”. Segundo o jornalista da Visão, “há uma crise muito grande devido à rentabilidade que era assegurada pela publicidade e que está agora muito ameaçada”. Por outro lado, na opinião do professor da licenciatura de Jornalismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), João Figueira, a questão que se deve levantar é se “ estamos ou não disponíveis para pagar por um serviço de qualidade e que nos faz falta”.

Mas que jornalismo? Ouvir-se dizer que “o jornalismo já não é o que era” é muito banal hoje em dia. Mas que futuro está reservado ao jornalismo? É difícil respon-

der a esta pergunta, pelo que a comunidade de jornalistas interroga-se frequentemente. José Alberto Carvalho lança a reflexão: “temos de pensar o jornalismo que podemos fazer, que seja de qualidade e que seja útil para os cidadãos e, ao mesmo tempo, temos de nos preocupar com a procura desse mesmo jornalismo pelos próprios”. Uma reflexão que é corroborada por João Figueira, que acrescenta que “o que interessa não é o conceito numa perspetiva mais voyeurista, mas no sentido de melhorar a qualidade de participação cívica dos cidadãos”. Uma mais-valia deste tipo de atividades é a oportunidade de juntar três grupos da população em pé de igualdade e que nem sempre cruzam caminhos: os jornalistas, os académicos e os cidadãos. Adelino Gomes acredita que tal reunião irá “certamente ser melhor do que ficarem cinco investigadores na torre de marfim da sua universidade, a discutir”. Apesar da dificuldade em prever qualquer futuro para a atividade jornalística, alguns aventuram-se a traçar algumas linhas que esta poderá seguir. O professor da FLUC esclarece que “o jornalismo escrito poderá começar a adotar um modelo que se afaste da pirâmide invertida” – um jornalismo sem tantas amarras estilísticas e uma maior liberdade criativa.

Centralidade geográfica da informação Fortemente ligado à redução das redações, está o fecho de inúmeras

O Fórum “Jornalismo e Sociedade” tem início em Coimbra, dia 13 de março.

agências locais de diversos orgãos de comunicação, que leva à centralização da produção noticiosa. Se um indivíduo pretende saber algo relacionado com a sua região, não fará sentido comprar um jornal de alcance nacional, como explica o professor João Figueira, dando o exemplo do jornal Público: “preferia que este jornal fizesse uma análise à área onde eu vivo, mas, se não faz, porque é que o vou comprar?”. Em relação aos assuntos mediáticos internacionais, ainda afirma que “para saber o que se passa no mundo ligo a internet e vou ao ‘El País’ ou ao ‘The Guardian’. Para saber o que se passa no mundo, vou aos melhores”. Contrariamente ao EUA, em que o jornalismo regional tem um poder substancialmente maior, a situação em Portugal tende a bipolarizar-se. Contudo, essa questão poderá ser um dos temas a abordar no fórum em Coimbra. A pertinência deste assunto prende-se com a dimensão da cidade. Já em Lisboa, por onde o fórum também passará, a discussão deste tema poderá não se concretizar. Mas é apenas uma especulação, já que “é uma preocupação que não faz muito parte do ADN das discussões de Lisboa”, afirma João Figueira. O fórum atravessará assim várias cidades de todo o país. Nesta iniciativa pretende-se fomentar a discussão e, à semelhança do modelo americano, criar os elementos do jornalismo adequados à realidade portuguesa. com Liliana Cunha

FÓRUM JORNALISMO e SOCIEDADE 13 MARÇO coimBra universidade

de coimBra

auditório da reitoria

5 ABRIL covilhã universidade da Beira interior cinuBiteca

ATÉ MAIO lisB oa universidade

2012

nova de lisBoa

faculdade de ciências sociais e humanas

Braga universidade

do minho

porto universidade do porto faculdade de letras faro universidade do algarve portaleg re escola superior de educação


13 de março de 2012 | Terça-feira | a

cabra | 13

MUnDo

Sérvia

Situação da UE não condiciona o interesse pela adesão após dois anos do pedido de adesão, é oficialmente atribuído à sérvia o estatuto de candidata à integração na Comunidade Europeia. Uma comunidade que vive hoje uma situação preocupante, mas que não deixa, apesar disso, de ser um centro de interesse e mais-valia. Por Maria Garrido e Mariana santos Mendes

P

ara uma candidatura à União Europeia (UE) ser aceite, há critérios a ser cumpridos. São estes os critérios de Copenhaga, exigências impostas pela Comunidade Europeia como garante de instituições estáveis, da democracia e do estado de direito, do respeito pelos direitos humanos, pelas minorias, pelas mulheres, e outros. Critérios que concederam à Sérvia, no passado dia 1 de março, este estatuto de candidato. Ainda que se possa encontrar atualmente a União Europeia envolvida numa “encruzilhada com grandes dificuldades”, tal não parece ser “motivo para pôr em causa o processo de integração”, acredita a docente de Direito da União Europeia da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC), Alexandra Aragão. Uma situação “preocupante”, concorda o jornalista e especialista na questão dos Balcãs, Ricardo Alexandre. Uma UE que “tem sido dominada nos últimos anos pela crise financeira, económica, do petróleo e, finalmente, pela crise da dívida púo completa blica”, ex-eurodeputado Vital Moreira. No entanto, alertando para uma “consciência das vantagens” entre os cidadãos, Alexandra Aragão entende que “rapidamente estes se apercebem que compensa continuar a pertencer à Comunidade”. Vital Moreira salvaguarda, porém, que “a persistente vontade de países que estão a querer entrar na União demonstra que a situação não é negra”. O ex-eurodeputado vê no espaço europeu “grandes potencialidades económicas”, destacando um modelo social que “apesar da crise, resistiu”. Para os países que se mostram interessados nos princípios defendidos pela UE, este espaço “continua”, na opinião do também constitucionalista, “a ser atrativo” e algo onde “aparentemente toda a gente quer entrar”. Vital Moreira expõe como melhor argumento a favor da UE o exemplo da persistência da Croácia, que levou o país a tornar-se o vigésimo-oitavo estado-membro, bem como a atual candidatura da Sérvia e de outros países balcânicos: “não há melhor argumento”, assegura. No caso da Sérvia, compreende Alexandra Aragão, as vantagens contam-se como “um salto qualitativo muito significativo”, ao mesmo tempo que o cumprimento dos critérios de Copenhaga são

FOtOmOntagEm pOr CarlOta rEbElO

O espaço e as potencialidades da União Europeia continuam a aliciar os países a entrar. igualmente benéficos para os cidadãos sérvios.

Outras vantagens Sendo já a União Europeia “o principal parceiro da Sérvia e o seu principal investidor, há outras vantagens como a estabilização da situação política e a criação de novos

Vital Moreira vê “grandes potencilidades económicas” no espaço europeu mercados”, afirma a docente da FDUC. Com a integração, Alexandra Aragão acredita que estas relações “se venham a intensificar”, o que pode ser “bom do ponto de vista da Europa pois teremos um mercado maior”: “ o facto de terem de dar garantias de que a economia está a funcionar bem, de que são respeitadas as regras de concorrência, que esse mercado funciona, são vantagens para os consumidores na Sérvia”, garante.

São estas as razões que levam a professora a concluir que “não podemos olhar para esta situação em termos imediatos, mas sim a médio-longo prazo”. Vital Moreira sustenta esta ideia, indicando que o que estes países procuram na UE “é a estabilidade política numa democracia e num estado de direito, de modo a visar o crescimento económico e o bemestar social”. “Para estes países, entrar para um espaço de comércio, económico, de trocas, como é a UE, é entrar para um dos blocos económicos mais fortes do mundo”, explica Ricardo Alexandre. “Fazer parte dele é, por outro lado, uma oportunidade de se integrarem económica e politicamente”, confere.

Um abrir de fronteiras Com a consequente entrada de países na Comunidade, a segurança dos cidadãos europeus é debatida, embora Alexandra Aragão defenda que “não há motivos para estarmos receosos relativamente a este alargamento aos novos estados do leste”. A também jurista relembra que “o facto de novos

estados aderirem não significa que sejam integrados automaticamente nos processos que existem já em curso, nomeadamente no espaço Schengen”. Deste modo, a integração destes países “será gradual e só haverá uma total liberdade se os novos estados aderentes derem garantias de poder

“Fazer parte dela (UE) é uma oportunidade de se integrarem económica e politicamente” controlar as suas fronteiras externas”. Processos de controlo e outros mecanismos de recuperação entre os estados-membros irão, assegura a docente, “permitir controlar situações de eventual criminalidade”, pelo que a segurança dos europeus “não passa por um fechar de fronteiras mas sim pelo contrário”.

O Kosovo e as minorias Entre as condições para a adesão,

distingue-se a da normalização das relações com a ex-província sérvia do Kosovo que declarou a sua independência no ano de 2008, apesar de esta não ser reconhecida por Belgrado. A questão suscita dúvidas face a um real cumprimento dos critérios de Copenhaga, ainda que o governo sérvio tenha acordado recentemente a permissão ao Kosovo de participar em reuniões de algumas instâncias internacionais, mesmo não reconhecendo a sua independência. Ricardo Alexandre explica: “durante muito tempo, a UE exigiu que, para que a Sérvia pudesse avançar com o processo de adesão, entregasse à jurisdição do Tribunal Internacional pessoas que estavam indicadas contra crimes de guerra e contra a humanidade”, exigências que o especialista diz terem sido satisfeitas. O professor constata que, durante essa fase, “a questão do Kosovo não era moeda de troca para o processo de adesão da Sérvia”. Depois de esta cooperação ter sido conseguida, “a questão do Kosovo já passou a ser condição para poderem avançar com o processo”, remata.


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Cinema

arteS

“

a dama de Ferro”

M

de Phyllida llOyd Com Meryl StreeP, JiM BrOadBent alexandra rOach 2011

O filme geriátrico mais caro de sempre

ver

CrítiCa de João ribeiro

l

ongínqua vai a era em que Charlie Chaplin dominava o grande ecrã. essa altura, em que era a estrela, o autor do argumento, o produtor e o realizador. o tempo do mudo, em que quase era possível atribuir toda a genialidade de uma produção cinematográfica a uma única pessoa. num ano em que o cinema está tão retro como nunca, voltando-se para o passado em filmes como “o artista” ou “hugo”, o melhor é mesmo ir ao baú e ver do genuíno. terá sido uma fascinante pessoa, Charlie Chaplin, simultaneamente um conhecido e um desconhecido de todos. a ambiguidade pode parecer curiosa, mas não é fácil definir Chaplin fora do seu pequeno

argaret thatcher teve, sem dúvida, uma vida em cheio. Foi a primeira-ministra britânica com o mais longo mandato do século XX, começou uma guerra com a argentina e implementou uma nova ordem económica mundial. Matéria-prima para um “biopic” interessante e memorável não faltava, como se vê, mas “a dama de Ferro” é um completo tiro ao lado. o filme centra-se sobremaneira no actual momento de Margaret thatcher, totalmente dependente dos cuidados da família, debilitada física e psicologicamente e caminhando para uma senilidade comovente. pelo meio vai-se contando a história de vida de uma das estadistas mais importantes do história mundial, mas sempre à custa de um ziguezaguear constante entre o passado e o presente. tida como uma mulher de pulso forte, inflexível nas suas posições, a thatcher que se nos apresenta tem

tudo isso, mas conjuga-o com uma sensibilidade e até uma certa insegurança surpreendentes. Vemos como foram importantes as figuras do pai (iain Glen), político local, “self-made man”, que advogava as virtudes da economia de mercearia, e do marido denis (Jim Broadbent), um espirituoso gentleman que contrasta com a inalterável seriedade de thatcher, durante toda a vida da primeira-ministra. É inclusive a partir da relação “postmortem” entre thatcher e o falecido marido que se desenrola muito do filme. os diálogos demenciais entre os dois dão azo a recordações que nos levam aos momentos mais importantes da vida da baronesa. no entanto, são encontros fugazes e superficiais com a história. a narrativa adoptada por phyllida lloyd (“Mamma Mia!”) remete, invariavelmente, para os tempos actuais onde aí sim o espectador é brindado com longas sequências da senhora thatcher a enfrentar um quotidiano

típico de uma velhinha de alta sociedade inglesa em fim de vida. pedia-se mais quando a personagem teve uma das vidas mais interessantes do século. Mas quando tudo parece perdido, eis que se afigura impossível não mencionar a brilhante interpretação de Meryl streep, no papel de thatcher. está lá tudo. Cabelo, sotaque, maneirismos, forma de andar. seja no início do mandato, no final dos anos 70, seja na actualidade, parece que vemos na tela a própria. Um bom exercício, após se ter visto o filme, será comparar a prestação de Meryl streep com os vários vídeos de debates e discursos da dama de ferro no Youtube. as parecenças vão até ao mínimo pormenor. nem a tipicamente injusta academia de hollywood se conseguiu furtar ao reconhecimento. o crítico que vos escreve também não, pelo que fica o aviso de que duas cabras da classificação se devem inteiramente a Meryl streep. o resto é novela.

o Circo” personagem, de andar atrapalhado. de facto, assim como este filme, ao cineasta sempre foi dado menos valor do que aquele que merecia. a película, que já conta com 84 anos, continua impressionantemente apta a suscitar gargalhadas a uma população, que à semelhança de então, se vê entristecida pelos dramas da crise financeira. a genial simplicidade das cenas d’ “o Circo” fascina qualquer espectador, mas apela também a reflexões essenciais, visto que esconde inúmeros aspectos que podem escapar à vista do espectador menos atento. porque vejamos, o riso gera-se à volta de um vagabundo, de um sujeito que passa fome e ocupa o tempo a fugir à polícia. será legítimo rirmo-nos disto? na ver-

dade, tem piada. as desventuras amorosas de Chaplin, também aqui, enchemse de contornos humorísticos. no entanto, ajudam a camuflar os infortúnios de um desgraçado, que rapidamente se conforma com o seu fado. a seriedade tocante, nem sempre transparecida, reflecte a melancolia de um artista que não viveu só de humor. não sendo dos filmes mais conhecidos do realizador, continua a ser uma obra-prima. Uma referência cinematográfica que não merece cair no esquecimento, mas algo para ser visto e revisto. porque no fundo, como disse Chaplin, “a gargalhada é um tónico, um alívio, um fim para a dor”.. João valadão

filme

De Charlie Chaplin eDitora Costa do Castelo 1928

artigo disponível na:

“O falhanço não é importante”


13 de março de 2012 | terça-feira | a

cabra | 15

FeitaS oUvir

ler

Cantos da babilónia”

a

música tem um poder que vai além das palaa frescura vras. tem o poder de nos comover e tem o simples do princípio no fim poder físico do som, que literalmente ressoa dentro do nosso corpo enquanto dura. “Cantos da Babilónia” é o trabalho de uma vida. Uma obra sustentada por cantos tradicionais oriundos de lugares do mundo que resultam num conjunto de melodias sublimes de cantares da nigéria, Japão, China, espanha ou portugal. dez faixas devidamente referenciadas à origem geográfica do canto. através delas conseguimos traças e navegar nas diversas paisagens musicais. de pedro osório convida-nos a caPedrO OSóriO minhar em paralelo com a sua música, música desta vez étnica editora onde espanha e portugal são rearthOuSe presentados pelas regiões de andaluzia e Beira Baixa, 2011 respectivamente. “Cantos da Babilónia” é o resultado da última investigação de pedro osório. Mais do que uma procura de três anos, trata-se de uma reflexão de uma vida; um longo passeio pelas músicas do mundo, uma recolha de materiais que procuram ser moldados até chegar à forma desta obra. descobertas naturais através do piano, cordas, vozes ‘sampladas’ ou até mesmo sons electrónicos. Quando se faz música, apesar de não existir uma execução objectiva, tem de existir uma ligação permanente entre subjectividade e objectividade, tal como existe na vida. nem a liberdade de velocidade na música, o tempo rubato, pode ser concebida livremente, antes tem de estar em contacto com a subjacente e inflexível pulsação metronómica (tempo não rubato). assim somos confrontados com a responsabilidade moral do ouvido. o que é essencial na execução da música e difícil na vida é começar sempre do zero. Cada vez que se executa uma nova obra é necessária a frescura de um primeiro encontro e a intensidade do último. “Cantos da Babilónia” é uma profunda e verdadeira homenagem à música. lígia aNJos

trabalhos e Paixões de fernando assis Pacheco”

Memórias do craque

de nunO cOSta SantOS editora tinta da china 2012

n

ão é ao acaso que o autor, aqui leia-se nuno Costa santos, deixa bem claro na nota introdutória de ‘trabalhos e paixões de Fernando assis pacheco’, que todas as restantes 190 páginas se reportam a uma “crónica biográfica”. não há aqui o cuidado de gerar uma minuciosa e, sobretudo, volumosa obra biográfica ou a tentativa de traçar um perfil de Fernando assis pacheco. Muito menos se trata de arquitectar uma colecta de textos ou escritos, embora estes também lá estejam, de quando a quando, em pequenos excertos. ‘trabalhos e paixões’ é sobretudo um exercício de cruzamento de diversos testemunhos, de familiares, camaradas e amigos, num desenrolar de diferentes estágios e facetas da vida , em que ressalta um ou outro episódio. É um tributo, a celebração do “assis luminoso”, a tentativa de ressuscitar o escritor – por quem a adoração, nuno Costa santos deixa implícita ao longo de toda a obra. É uma viagem pela guerra, pelo amor e pelos acasos da existência, longe de um registo austero e exacto ou de uma qualquer tentativa de exacerbar virtudes ou presenças. a vida fluída pela manifestação dos que com ele a viveram. e são vários. Fernando assis pacheco é assim, um magnete, uma força centrípeta que atrai para o seu redor José Cardoso pires, José Carlos de Vasconcelos, Joaquim namorado, rogério rodrigues

ou, até mesmo, Jorge amado. todos eles sem grandes cerimónias. até porque não se conhecem grandes peias a assis. não é pessoa de protocolos, diz o que tem a dizer. Zomba com a direção editorial, numa cantiga de escárnio escrita de uma assentada de dia, para à noite ir dar um passo de dança como concorrente no programa ‘a Visita da Cornélia’. para lá de jornalista, escritor e “versejador” – que não se admitia poeta –, assis é um homem de bem com a vida – e esta obra demonstra-o. Um ‘bon vivant’ a sério, mais preocupado em viver cada dia, do que com o facto de as berrantes camisas nunca combinarem com as calças. e um bom copo e um melhor garfo – afinal, foi ele que batizou a ‘punheta de Marisco’! e um troçador autêntico, sempre pronto a deixar o seu chiste pessoal entre as linhas de um qualquer texto, quando não espraiada ao longo das frases todas. talvez seja esta a singularidade de ‘trabalhos e paixões de Fernando assis pacheco”, a de nos permitir intrometer pela vida de assis, pelas suas paixões, pelos seus gostos, pelas suas aventuras. de descobri-lo para lá das suas crónicas, dos seus livros ou dos seus poemas. e talvez resida também aqui a grande agrura, a de, no final, nos ter sabido a pouco. João miraNda

JoGar

deus ex iii” “não há deus no futuro”

GUerra DaS CaBraS a evitar Fraco podia ser pior Vale a pena a Cabra aconselha a Cabra d’ouro Plataforma PS3, Pc e xBOx artigos disponíveis na: editora Square enix 2011

Q

ual será a reacção da humanidade aos avanços da ciência biónica e do transhumanismo? É a esta pergunta que “deus ex: human revolution” tenta responder, baseandose numa história de ficção científica verosímil e num estilo de jogo híbrido, a variar entre o ‘role playing Game’ (rpG) e o ‘First person shooter’ (Fps). o sistema funciona, no geral, bastante bem - se, por um lado, o componente rpG puro se encontra bastante simplificado, a vertente Fps funciona e, embora não alcançando o nível dos tradicionais jogos deste género, proporciona uma jogabilidade apurada e equilibrada. nesta terceira encarnação do jogo (que funciona como uma prequela da história principal), apesar de ter havido uma simplificação de alguns elementos, a grande força da série mantém-se: as escolhas morais e a sensação de liberdade imperam sobre a história, e várias abordagens podem ser tomadas para completar os muitos objectivos principais e missões secundárias. desde o simples diálogo com personagens não jogáveis, com vista a persuadi-los numa certa direcção, passando pela furtivi-

dade (que envolve desde entrar em computadores via ferramentas de hacking até ao uso de condutas secretas para aceder a locais bem guardados), ou mesmo o tradicional estilo rambo, este é um jogo que permite uma flexibilidade invulgar. a nível gráfico, “deus ex” cumpre a função, com um design industrial brilhante e capaz de nos transportar 15 anos para o futuro (data em que se desenrola a acção), apesar de, a nível técnico, o motor de jogo deixar um pouco a desejar - seria de esperar que hoje, devido aos exemplos de jogos como “l.a. noire”, a animação das personagens estivesse a um nível bastante superior. a banda sonora, ainda que por vezes repetitiva, cumpre bem a função, com peças que realçam a acção e encaixam bem no estilo da obra. ainda assim, “deus ex” é uma aposta ganha, e mantém a sua personalidade ao mesmo tempo que consegue atrair novos públicos ao colar-se a um modelo de jogo mais moderno simplificado. o ponto mais negativo será, provavelmente, a total ausência de ‘multiplayer’, mas, ainda assim, este é um jogo que honra bem a longa herança que carrega. Pedro leitão


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soltas

joão gaspaR

uMa idEia PaRa o Ensino suPERioR caRlos FiolHais • PRoFEssoR dE Física da uniVERsidadE dE coiMbRa

toMai E coMEi

UNIR A cIêNcIA cOm O ENsINO sUPERIOR

PaRa FRuta HouVE PêRa

Para quem fica por cá ao fim-de-semana, este ano letivo ficou pautado ou por um sair da mama da mãe, numas aventuras de dois ingredientes pela cozinha, ou nos pré-feitos de marca branca, ou em tupperwares daqueles que não conseguem largar a mama, ou ainda em ingressos a casas de hambúrgueres para aqueles a quem a mama é rica. Contudo, este fim de semana a coisa foi diferente. Com as cantinas ocupadas pelos estudantes, pôde-se voltar, nem que simbolicamente, a comer uma refeição que até saiu mais barata que a que se diz social. Apesar do atraso, devido a um debate com o sociólogo Elísio Estanque, não se viu uma fila de 900 gajos a esperar sofregamente por uma refeição fornecida pelo… InTocha, que também deu o som ambiente para a comezaina naquele “puntspunts” que já não escapa aos jardins. Para alimentar 65 bocas que ali marcaram presença, veio frango, bastante diferente do servido nos Grelhados. Pedaços maiores, bem cozinhados e temperados, que receberam a aprovação da maioria. Contudo, o início não foi o melhor. A canja, que parecia um coalho de gordura, fez com que se salvassem apenas os pedaços de galinha que por lá nadavam. Mais tarde, quando a sopa já estava remetida para um canto do tabuleiro, ganhou uma crosta de meter inveja a um belo leite pasteurizado. Por falar em inveja, também o John Travolta cobiçaria a bela brilhantina que aprimorava a alface, tremeluzente de óleo que nem estrela de Grease. As batatas, pré-fritas, lá serviram de acompanhamento a um frango que se tornou em coqueluche da refeição. Os talheres de plástico não ajudaram em nada à tarefa, com as manápulas a servirem-se de auxílio para a coisa se tornar mais fácil. Para fruta houve pêra… quando se esperava laranja.

O alemão Wilhelm von Humboldt criou no início do século XIX o conceito moderno de universidade ao enfatizar o papel da criação de conhecimento. Hoje sabemos que a melhor maneira de transmitir novos conhecimentos às novas gerações é criá-los no local onde se transmitem. A ciência desenvolvida numa escola chega aí imediatamente. E o espírito científico paira aí permanentemente. Em Portugal a ciência experimentou um processo explosivo nos últimos 20 anos. Mas uma parte do sistema científico foi montado à margem das universidades, embora mantendo ligações com elas. Surgiram, por exemplo, instituições privadas sem fins lucrativos, destinadas a absorver os financiamentos e a facilitar a vida aos investigadores, poupando-lhes a burocracia de uma Universidade que, por muito que se fale em autonomia, ainda está sob a alçada do ministro das Finanças. Criaram-se dentro da Universidade muitos, talvez demasiados, centros de investigação, que nem sempre corres-

Elisa RodRiguEs • HEaRt MoutH dialoguEs c/ antónio ZaMbujo • tagV • 8 dE MaRço

NO PRAZER DA REINVENÇÃO

O

dela. Numa situação de aperto financeiro como a

actual, a ocasião é boa para “casar” a ciência com a universidade. Pode-se dizer que já estão “casados”. Mas trata-se de uma “união de facto”, se não mesmo de um simples “namoro”. Por exemplo, existe uma avaliação feita pela Fundação para a Ciência e Tecnologia às unidades de investigação, uma avaliação dos cursos pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior e ainda uma avaliação dos docentes organizado, de uma maneira muito discutível, por cada universidade. Ora, a melhor maneira de não ter uma boa avaliação da Universidade é ter muitas avaliações... Os reitores e os directores de Faculdade deviam ter uma palavra mais forte sobre a organização e o financiamento da investigação. Percebe-se que o sistema tenha sido montado sem a sua intervenção, mas, graças ao progresso da ciência entre nós, a universidade melhorou muito e os líderes universitários têm hoje melhor consciência do papel da ciência. Sabem que as melhores escolas são aquelas onde a investigação está mais bem organizada e desenvolvida. Quanto aos estudantes, eles lucrariam se, desde muito cedo na sua vida universitária, pudessem colaborar nos trabalhos de pesD.R. quisa. Adquiririam mais rapidamente o espírito científico. No 3.º ciclo, eles são, aliás, os protagonistas principais da investigação.

d.r.

Por João Gaspar

Teatro Académico de Gil Vicente foi, no passado dia 8 de março, palco para uma das mais adoráveis revelações dos últimos tempos. A pisar o palco, Elisa Rodrigues, jovem portuguesa que se destacou recentemente no mercado da música com o lançamento de “Heart Mouth Dialogues”, o seu álbum de estreia. Descalça, sobre um tapete branco, Elisa rapidamente ganhou a aprovação do público com a graciosidade da sua voz. O nível musical da artista é patente, fruto de dezoito anos de estudo na área das artes musicais. O seu talento não se esgota na sua qualidade vocal e a sua base musical permite-lhe explorá-la em todo o seu potencial. É por isso agradável saber que em Portugal ainda existem artistas promissores, que se libertam da sombra das efémeras estrelas de televisão. Um acapella, “Sonhos”, iniciou o concerto. À música seguinte juntou-se a perícia de Júlio Resende.

pondem à estrutura dos Departamentos. De facto, a maior parte dos investigadores científicos são professores e se, de manhã, têm de ensinar, na mesma manhã ou de tarde têm de investigar noutro lado. Contudo, a relação entre a ciência e o ensino superior não tem sido suficientemente debatida e, por isso, aprofundada. A relação entre as instituições privadas sem fins lucrativos e as Universidades é, quase sempre, pouco clara. A inserção dos Centros dentro da Universidade é confusa, pese embora algumas melhorias que se têm ensaiado. Muitos investigadores trabalham na Universidade sem terem os devidos direitos dentro

aRtE.Ponto cataRina almeiDa

O músico, pianista, iniciou os estudos no jazz por volta do ano 2000, tendo percorrido desde então um longo percurso, que passou pelas mais diversas colaborações com artistas internacionais. Com o quarteto completo, deu-se início a uma interpretação de temas vastamente conhecidos: “Dumb” dos Nirvana ou “God Only Knows” dos Beach Boys, aqui reinventados, espelharam um talento que transcendeu as fronteiras do jazz. O disco foi mote para todo o concerto, que contou ainda com a presença de António Zambujo, com quem Elisa tem colaborado frequentemente em tempos recentes. Envolvidos numa curiosa cumplicidade, os dois músicos fizeram a graça dos espetadores com “A tua frieza gela”. Ainda antes de finalizar a sua participação, António Zambujo teve tempo para extrair uma “Chamateia” às cordas da guitarra. Numa passagem pelos anos 70,

o quarteto de Elisa mostrou-nos também alguns “hits” do passado, “Roxane” dos The Police e ainda “Ain’t no Sunshine” de Bill Withers. É nova a Elisa Rodrigues que aqui se mostrou, a apresentar um álbum que assenta essencialmente em reinterpretações. Fica, contudo, a consciência de uma mulher que ainda tem muito por onde se dar a conhecer, alguém que consegue pegar num trabalho musical e dar-lhe toda uma nova forma, um toque pessoal merecedor de reconhecimento. Talento, beleza e originalidade são características que, por Portugal ou pelo estrangeiro, lhe vão permitir vingar num futuro próximo. Há, de resto, que dar os parabéns à Rádio Universidade de Coimbra pelo seu 26º aniversário e pela oportunidade que deu aos demais de poderem usufruir da boa experiência que foi, de facto, ouvir Elisa Rodrigues. Por João Valadão


13 de março de 2012 | terça-feira | a

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soltas FRagMEntos sobRE o sultão osMan iii

MicRo-conto

Por afonso cruz

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o último ano do seu reinado, o sultão Osman III mandou coser as pálpebras das mulheres do seu harém, para que estas não pudessem olhar para ele. Um dos seus eunucos, um tártaro caucasiano, realizou a operação a cento e trinta e duas mulheres, cujos olhos se fecharam para sempre, cosidos com fios de crina de cavalo. Osman III tinha dois fantasmas nos olhos, facto que o levava a fechar um deles, ou ambos, quando falava de certos assuntos. No seu olho esquerdo habitava um pintor veneziano que fora assassinado pelos Orsini. No olho direito vivia uma mulher mexicana chamada Amparo, de cabelos lisos, pretos, e que o fazia lacrimejar, pois tinha o costume de enfeitar os cabelos com flores brancas Os fantasmas vêem-se melhor com os olhos fechados e estes que habitavam os olhos de Osman III não eram excepção. Com os olhos abertos, o sultão via o mesmo que

toda a gente, mas quando fechava o direito aparecia-lhe o pintor; e quando fechava o esquerdo, aparecia-lhe a mexicana com flores brancas no cabelo. Amparo era fria e cruel, e era por isso que Osman fechava o olho correspondente ao fantasma da mulher quando queria ser implacável. Por outro lado, sentindo-se benevo-

lente e compassivo, fechava o outro olho e era de imediato cumulado com uma vaga sensação de paz proporcionada pelo espírito do pintor renascentista. Se fechasse os dois olhos, conseguia

uma terceira mosca. Osman III teve a certeza: desaparecera de dentro de si mais um vocábulo. Talvez “complacência”, pensou, mas recusou a ideia, pois fora capaz de o pronunciar. Decidiu então não abrir mais a boca, temendo que as suas palavras saíssem todas de dentro de si e voassem para longe. Ficou em silêncio, de lábios apertados, profundamente entediado. Não poderia sequer chamar um criado. Nessa mesma tarde, começaram a aparecer-lhe uns altos no corpo que acabariam por ser a causa da sua morte. Osman III morreu uma semana depois, vivendo os seus últimos dias com os dentes cerrados, sem dizer uma palavra, sem emitir um som, ilustRação poR ana gRanaDo nem sequer de dor. Uma crósultado, pois voaram para longe e nica apócrifa, fonte desta história, o sultão sentiu que perdera duas garante que das pústulas que lhe palavras. Não sabia quais, mas es- cobriam o corpo saíram milhares tava convicto de que já não as de moscas -- uma grotesca nuvem conseguiria pronunciar. Lenta- negra que atravessou o Bósforo mente, voltou a abrir a boca e saiu até ao deserto sírio.

uma estranha harmonia, apesar de, para quem o ouvia, ser um grande labirinto emocional. Um dia, Osman III fumava narguilé na sua varanda, quando, ao bocejar, lhe saiu uma mosca de dentro da goela. O monarca, espantado, voltou a abrir a boca e saiu mais uma mosca. Tentou matá-las, mas sem qualquer re-

MonuMEntais Panados sociais

Afonso Cruz, 40 Anos desde catraio que gostava de ler e desenhar. Aos 12 já tinha posto a vista em cima de dostoievski, vieram depois Gorki e Gogol. Entretanto, uma pessoa cresce, e ao gosto pelos livros e pela ilustração, vem o cinema, a animação e a música. uma espécie de tutti-frutti, onde vai beber de inspiração a todos os meios que explora. faz-se de viagens - já percorreu mais de sessenta países -, mas pousa num monte alentejano, sem morada, onde, para além da horta e um olival, faz cerveja. Em 2008, estreou-se na literatura com “A Carne de deus – Aventuras de Conrado fortes e Lola Benites”. Antes, em 2002, lançava a curta-metragem “dois diários e um Azulejo”, com Luís Alvoeiro e Jorge Margarido, num trabalho inspirado na obra de Mário sá Carneiro. Em 2007, mais um registo noutro formato, desta vez na música, com os The soaked Lamb, num disco em que a sua polivalência salta novamente à vista, tanto cantando, como agarrando no ukelele, ou num banjo. Em 2009 leva um bom empurrão com o livro de contos “Enciclopédia da Estória universal”, com o qual ganha o Prémio Camilo Castelo Branco. A partir daí, em todos os anos houve sempre mais um prémio. João Gaspar

occuPy all tHE cantinEs!

Por doutorando Paulo Fernando • facebook.com/paulofernandophd

N

a última assembleia magna escutei uma intervenção enternecedora da boca de um alto responsável político da academia: as manifestações não ficam na história da luta. Para tal proclamação, não duvido que este responsável político da academia tenha recorrido à vasta literatura que há sobre o movimento estudantil. Sem dúvida também que os estudos empíricos corroboram a sua tese. Se fizermos nós mesmos, de forma séria e honesta, o nosso exercício de memória, chegamos à conclusão de que não nos recordamos de nenhuma manifestação, muito menos que alguma tenha ficado ligada a um impulso, um memento político, da luta estudantil… ou outra qualquer. O que fica na retina são as passagens pelos gabinetes! Ora vejamos… estamos em 1345… A populaça revolta-se contra a ocupação espanhola, marcha inconsequentemente pelas ruas sem que daí advenham ganhos políticos, e daí resultem sobretudo uma data de chatices, com o trânsito demo-

rado nas principais artérias da capital e muitos autocarros fretados, num acto de incrível despesismo. Até que esta maralha se dirige ao palacete do conde Andeiro e o defenestra, acabando, simbolicamente (que também é algo que se aprecia na Académica de Coimbra), com o reinado filipino sobre os portugueses. Todo este movimento popular teria sido inconsequente, não fosse o facto de o Conde Andeiro estar refugiado no seu gabinete, e, de facto, foi lá que se travou a luta que conduziu ao seu derrube. Estão a ver a relação? Outra…. Estamos agora em 1969, Academia de Coimbra ao rubro, contra o regime fascista, a guerra colonial, em defesa do ensino universitário e contra a repressão política. Tempo agitado, de muita boémia, convívios da porca e do parafuso e festivais de tunas, e a malta divertia-se a correr à frente dos carros da GNR. Profundamente inconsequente. Não fosse Salazar ter caído da cadeira, …. Anos antes, quando estava no seu GABINETE, o 25 de Abril nunca teria aconte-

D.R

cido. Os dirigentes estudantis dos anos sessenta, nunca se teriam tornado lideres icónicos do movimento estudantil, se não tivessem passado pelos GABINETES, de debriefing da sede da PIDE na ….. Última tentativa. Estamos nos anos noventa, as maiores mobilizações estudantis de sempre com a luta contra as propinas como pano de fundo. Eles afluem aos milhares

às ruas de Lisboa, onde a imprensa destaca os glúteos torneados dos manifestantes. O ministro cai (sentido figurado, este não caiu da cadeira) e porquê? Porque enquanto a estudantada exibia o músculo nadegueiro na rua, ele, observando a turba pela janela do GABINETE, percebeu que o seu destino seria o do malogrado andeiro. E já agora… Tahrir e Wall Street são

nomes de GABINETES arejados no Cairo e em Nova Iorque, não são praças nem ruas. Eu percebo a opção pela luta de gabinetes. É claramente um estilo de luta mais cómodo. Não é luta tipo MMA naquelas caixas fechadas a rede e paredes de acrílico, salpicadas de sangue. É mais luta tipo cházinho e scones, e aquecimento central no inverno, e cadeirinhas forradas a napa, coisas que só mais os intrépidos dirigentes podem enfrentar. Ou isso ou estão apenas à procura de exposição mediática, que ajude a diferenciar e distinguir o dirigente da mole estudantil. Mas isso seria uma traição aos interesses estudantis – logo não pode ser considerado. De gabinete em gabinete, até tombar a cadeira do ensino superior em Portugal.


18| a cabra | 13 de março de 2012 | Terça-feira

opinião o sistema monetáRio euRopeu, o euRo e o BCe José Reis**

a discussão à volta do euro hoje, no quadro da crise, é a do significado de uma integração monetária sujeita a fortes restrições de natureza orçamental entre economias (...) muito diferentes”

1. A criação do euro culmina uma longa história de cooperação monetária europeia, de que faz parte a criação do Sistema Monetário Europeu em 1979, assente no ECU, e um plano em três etapas para a União Económica e Monetária (1989), integrado no Tratado de Maastricht em 1991. A criação do euro correspondeu à terceira fase da UEM. Nas duas anteriores estabeleceu-se a liberdade de circulação de capitais, com supressão dos controlos cambiais, e a convergência económica através da supervisão multilateral das políticas económicas dos Estados (1990), e criou-se (1994) o Instituto Monetário Europeu, posteriormente substituído pelo BCE. 2. Em 1997, adoptou-se o Pacto de Estabilidade e Crescimento, revisto em 2005. Trata-se de um compromisso de manutenção da disciplina orçamental que torna possível a aplicação de sanções a qualquer país cujo défice exceda 3%. O acesso ao euro depende da verificação de cinco critérios de convergência nominal relacionados com a estabilidade dos pre-

ços, os défices, a dívida pública, as taxas de juro e as taxas de câmbio. 3. A discussão à volta do euro hoje, no quadro da crise, é a do significado de uma integração monetária sujeita a fortes restrições de natureza orçamental entre economias com características estruturais, capacidades competitivas e modelos sociais muito diferentes. Os efeitos assimétricos dessa integração tornaram-se evidentes e geraram desequilíbrios graves para a economia a portuguesa, que entrou no euro com uma taxa de câmbio sobreapreciada, o que levou a sérias dificuldades de valorização do seu aparelho produtivo e à geração de défices externos elevados. 4. O BCE é hoje a autoridade responsável pela integração monetária europeia. Tem como base jurídico-política o “Tratado que institui a Comunidade Europeia” e os “Estatutos do Sistema Europeu de Bancos Centrais e do Banco Central Europeu”. Iniciou funções em 1 de junho de 1998, preparando a substituição de moedas nacionais pelo euro.

As suas atribuições fundamentais são a definição e execução da política monetária para a área do euro, incluindo as taxas de juro diretoras; a condução de operações cambiais; a detenção e gestão das reservas oficiais dos países da área do euro e o bom funcionamento dos sistemas de pagamentos. 5. Três circunstâncias fazem do BCE uma entidade ortodoxa, sujeita a críticas que o responsabilizam pela dimensão da crise. A primeira resulta de assumir como objetivo primordial, quiçá exclusivo, a manutenção da estabilidade de preços a médio prazo. Esta prioridade tem filiação em doutrinas monetaristas. Para o BCE, a estabilidade de preços é “a base para um crescimento económico sustentável e para a prosperidade”. O apoio ao emprego e ao crescimento, definido como não inflacionista, é secundário. Nisso se distingue da Reserva Federal norte-americana, que prossegue os dois objectivos conjuntamente. A segunda circunstância é a designada independência política do BCE. Também doutrinariamente,

assume que a independência dos bancos centrais “é benéfica para a manutenção da estabilidade de preços”. Por isso, não podem “solicitar ou receber instruções das instituições” da União Europeia ou dos governos. Finalmente, O BCE está proibido de conceder empréstimos à União e aos Estados, na convicção de que assim se protege da influência das autoridades públicas e isenta a economia da influência “perturbadora” da moeda. O facto de conceder empréstimos aos bancos a juros baixos, aceitando como garantias obrigações de Estados que pagam juros elevados, permite defender que o BCE favorece as operações financeiras e não as finanças públicas.

**Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Investigador do Centro de Estudos Sociais carlota rebelo

Cartas ao diretor podem ser enviadas para

acabra@gmail.com PUblIcIDaDe


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opinião editoRial a CultuRa Como salto quântiCo

ClaRa almeida santos **

Há coisas que não nascem connosco. Simone de Beauvoir dizia até que não se nasce mulher. A argumentação da escritora, n’O Segundo Sexo, defendia que o ser mulher era culturalmente determinado. Se for caso disso, tornamo-nos mulheres (On ne naît pas femme, on le devient, escreveu). O que separa o nosso ser natural do nosso ser cultural é uma vasta parte daquilo que somos. A oposição entre natureza e cultura alimentou rios de prosa. A começar na própria Bíblia, logo no “Livro do Génesis”. Os “seres naturais” Adão e Eva ganham consciência de si próprios ao experimentar o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Essa consciência, aprendida da árvore que aproxima o homem do seu criador, faz com que Adão e Eva se sintam mal nus. O ser natural rende-se ao ser cultural. E este último precisa, a partir da invenção do pecado – que é só cultural ou, pelo menos, estritamente racional – de cobrir as partes que passam a ser íntimas. Um dos temas fortes da obra de Claude Lévi-Strauss é precisamente a análise do binómio natureza/cultura. Apesar da impossibilidade de o antropólogo identificar no homem um momento pré-cultural, a socialização, a aprendizagem e o estabelecimento de regras estão na base de toda a forma de cultura. Sem cultura não existem noções simples inerentes à condição humana de racionalidade. Alguns exemplos fundacionais são os conceitos-tabu como incesto ou canibalismo. Ou a utilização de símbolos para comunicar. Na sofisticação progressiva desses sím-

bolos encontramos alguns dos expoentes das manifestações culturais. Poder-se-ia dizer que existe um salto quântico entre natureza e cultura, com a partícula humana a ganhar neste processo a energia que lhe permite sublimar-se. Trazendo a metáfora para um nível mais prosaico, podemos apreciar o que acontece a uma perdiz ao transformar-se em alheira de caça. Ou a um atum a metamorfosear-se em sushi de fusão.

sem cultura não existem noções simples inerentes à condição humana de racionalidade O preâmbulo afigura-se mais longo do que a resposta à pergunta na origem deste artigo de opinião: a cultura deve ser financiada? Mas talvez depois do preâmbulo a resposta possa ser curta. Ou, pelo menos, a questão reformulada. Fará a cultura parte do conjunto de bens e serviços que, pela sua fundamental importância, são total ou parcialmente assegurados pelo Estado? Estará a cultura ao nível da educação, segurança, saúde, justiça...? A Constituição da República Portuguesa é clara: incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais, apoiar as iniciativas que estimulem a criação individual e coletiva, nas suas múltiplas formas e expressões, e uma maior circulação das obras e dos bens culturais de qualidade. As formas de apoio podem e devem ser discutidas. E, sobretudo, a análise concreta do custo-benefício do apoio traduzido em dinheiro deve ser feita com discernimento e sem compadrios.

**Vice reitora para a Cultura e Comunicação

Secção de Jornalismo, Associação Académica de Coimbra, Rua Padre António Vieira, 3000 - Coimbra Tel. 239821554 Fax. 239821554 e-mail: acabra@gmail.com

ViCissitudes de mais uma magna A última semana tem sido profícua em acontecimentos na academia, ao contrário do que se tem notado a partir de dezembro, resultante da habitual ressaca pós eleitoral que desagua, inevitavelmente, num marasmo de dois meses. A Assembleia Magna assinala o regresso, com os vícios e virtudes que lhe são reconhecidas. Relativamente aos vícios, é incompreensível que ainda se teime em queimar as primeiras horas da discussão com questões que, ainda que seja de ressalvar a devida importância, fogem aos meandros dos temas essenciais. Numa hora mais avançada e com a sala substancialmente mais vazia, procede-se à discussão e votação de matérias como ações a desenvolver no dia do estudante, entre outras, que são, de facto, determinantes para o futuro da Associação Académica de Coimbra. Neste extenso processo perde-se a participação da comunidade estudantil que, depois de assistir a este ambiente próprio de proto Assembleia da República, afasta a possibilidade de voltar a pisar os Grelhados para um propósito que não seja o de se alimentar. A ocupação das cantinas peca, à semelhança de outras ações de cariz reivindicativo, por tardia. Não pela ação em si, mas pela necessidade que havia de fazer alguma coisa para que as cantinas dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (UC) voltassem a abrir aos fins-de-semana. Com um atraso de seis meses mas com um denotado consentimento da reitoria, esta ação é mais uma das muitas ações de consciencialização que prometem levar a uma contestação mais consciente, sem que uma contestação pungente se adivinhe. Vale pela exposição mediática. É precisamente por isso que, heis que, no final do último dia de ocupação das

“

neste extenso processo perde-se a participação da comunidade estudantil que, depois de assistir a este ambiente próprio de proto assembleia da República, afasta a possibilidade de voltar a pisar os grelhados para um propósito que não seja o de se alimentar. cantinas, aparecem dois ilustres deputados para demonstrar publicamente algum desassossego pelas condições dos estudantes. Ironicamente admirável é que sejam deputados eleitos pelos mesmos partidos que na última década, quando chamados a formar governo, subfinanciaram consecutivamente o ensino superior público português, ou seja, do Partido Socialista e do Partido Social Democrata. Independentemente da responsabilidade que possa ser imputada aos serviços da UC devido ao encerramento das cantinas, desresponsabilizar o governo, como fez Duarte Marques, é no mínimo risório e afastado da realidade. Embrenhados nesta abjeta forma de fazer política, os dois principais partidos parecem competir entre si. As declarações de Pedro Alves só revelam uma flagrante falha na memória recente. O deputado critica aqueles que “fecham a porta a quem não tem ainda condições”, esquecendo-se, decerto, do excelente trabalho feito nesse sentido por Mariano Gago, trabalho que, até ao momento, tem sido continuado com mestria pelo atual executivo. Se houvesse o mínimo de honestidade e coerência das políticas com as palavras, estes deputados teriam o mínimo de pudor e abdicavam deste pequeno momento de aproveitamento político.

Por Camilo Soldado

Diretor Camilo Soldado Editores-Executivos Inês Amado da Salvia, João Gaspar Editoras-Executivas Multimédia Ana Francisco, Catarina Gomes Editores Carlota Rebelo (Fotografia), Inês Balreira (Ensino Superior), Ana Duarte (Cultura), Fernando Sá Pessoa (Desporto), Ana Morais (Cidade), Filipe Furtado (Ciência & Tecnologia), Liliana Cunha (País), Maria Garrido (Mundo) Paginação Inês Amado da Silva, Rafaela Carvalho, Catarina Gomes. Carlota Rebelo Redação Daniel Alves da Silva, Mariana Santos Mendes, Paulo Sérgio Santos, Rafaela Carvalho Fotografia Catarina Almeida, Inês Amado da Silva, Juliana Pereira, Nicole Inácio, Rafaela Carvalho, Catarina Gomes, Stephanie Sayuri Komatsu Ilustração Ana Granado Colaborou nesta edição Pedro Leitão Colaboradores Permanentes Carlos Braz, João Miranda, João Ribeiro, João Terêncio, João Valadão, José Afonso Biscaia, José Miguel Pereira, José Santiago, Lígia Anjos, Luís Luzio, Nicole Inácio, Pedro Madureira, Pedro Nunes, Rafael Pinto, Rui Craveirinha Publicidade João Gaspar 239821554; 917011120 Impressão FIG – Indústrias Gráficas, S.A.; Telefone. 239 499 922, Fax: 239 499 981, e-mail: fig@fig.pt Tiragem 4000 exemplares Produção Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra Propriedade Associação Académica de Coimbra Agradecimentos Reitoria da Universidade de Coimbra, Carlos Fiolhais, Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra, Afonso Cruz


Mais informação disponível em

Redação: Secção de Jornalismo Associação Académica de Coimbra Rua Padre António Vieira 3000 Coimbra Telf: 239 82 15 54

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Fax: 239 82 15 54 e-mail: acabra@gmail.com Conceção e Produção: Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra

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Reestruturação dos Saberes

Quase dois anos depois de iniciar funções a comissão de Reestruturação dos Saberes dá por concluído o seu trabalho. Depois de todo este tempo de reflexão, as conclusões que a comissão retira parecem ser inconsequentes, uma vez que não existe unanimidade no seu seio quanto aos cenários de criação ou fusão de faculdades. A possibilidade da criação das tão faladas Faculdade de Ciências Socais e Faculdade de Arquitectura e Artes fica assim em aberto, relegado para o Conselho Geral (CG). Se na própria comissão não houve um consenso, muito mais difícil será encontrar este consenso no CG. I.B.

Paulo Júlio

Graças ao memorando da ‘troika’, o governo tem de apresentar um plano de reestruturação de freguesias e municípios (este último tem sido um pouco descurado), já no mês de julho. É certo que é necessário atentar numa reforma administrativa, pois a última data do século XIX. Contudo, é importante compreender as especificidades de cada freguesia, sobretudo no interior. Apesar de Paulo Júlio, Secretário de Estado da Administração Local, se mostrar um defensor da “agenda reformista”, é importante perceber que o interior tem sido um dos principais alvos destas medidas. Depois de se retirarem correios e postos médicos, querem deixar o interior sem juntas de freguesias? A.M.

Desportos Náuticos

A Secção de Desportos Náuticos é mais um exemplo de dedicação dos dirigentes do desporto universitário em Coimbra. É certo que são das secções que mais pontos têm na redistribuição de lucros da Queima das Fitas e que, só da Câmara Municipal, os apoios se têm multiplicado em embarcações e nos encargos das instalações. Porém, esse facto só serve para reforçar ainda mais o papel activo que a secção tem tido, como prova a organização anual da Regata da Queima das Fitas. Com a fraca estrutura da modalidade no país, a direcção já faz planos para voos fora de Portugal. F.S.P.

Tudo a seu Tempo por Stephanie Sayuri KomatSu

200 x 100 O tempo é daquelas coisas supervalorizadas. Há quem diga que não se pode perdê-lo. Há quem se apresse para ganhá-lo. Todos concordam: parece que cada vez está a passar mais rápido. Ele, em seu ritmo, completa horas, dias e anos. O homem criou maneiras de contálo, organizou-o; entretanto, por vezes, parece esquecer que o tempo se conta para além dos ponteiros, está no dia que amanhece, na tarde que cai, na noite que se aproxima. Esquece-se das dádivas que existem neste passar do tempo. E esquecese, sobretudo, de perder tempo neste passar do tempo. Perca tempo aproveitando o sol numa esplanada na Baixa, assistindo ao pôr-do-sol na beira do Mondego ou vendo a lua surgir por trás da Universidade. Perca um pouco de tempo a observar o tempo passar. Ao admirar suas belas metamorfoses, reflita a vida, se dê um tempo. Assim se farão bons tempos.


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