14 DE fEvErEiro DE 2012 • ANo XXi • N.º 240 • QUiNZENAL GrATUiTo DirETor cAmiLo soLDADo • EDiTorEs-EXEcUTivos iNês AmADo DA siLvA E João GAspAr
acabra JorNAL UNivErsiTÁrio DE coimBrA
felipe grespan
Um ano dePoiS da eleição “O aumento das propinas é à volta de 30 euros por aluno e não dá, nem de perto nem de longe, para cobrir o corte do Orçamento de Estado” PP. 2 e 3
Arte de Rua Um Salazar coisificado e outros ícones culturais Pág.8
Pescas: “um sistema de quotas pouco equilibrado e com graves defeitos”
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Opinião: Representantes dos estudantes no PP. 22 e 23 Conselho Geral da UC fazem balanço
joSé xavier
Prémio UC 2012
Quebrar barreiras na ciência polar
Perfil: António Pinho Vargas
A maior estadia de José Xavier na Antártida demorou noves meses. O cientista polar do Instituto do Mar da Universidade de Coimbra, fala da sua experiência no meio dos pinguins, das sete expedições ao continente branco, da adaptação dos animais às alterações climáticas e evolução da ciência polar em Portugal. A ligação à Universidade de Cambridge traça o caminho “ideal” para a investigação, sempre com a preocupação de levar a ciência a todos.
Recentemente consagrado com o Prémio Universidade de Coimbra 2012, António Pinho Vargas reflete a qualidade da produção artística em Portugal. Desde cedo se fez notar, seja pela participação em movimentos de contestação estudantil durante o período do Estado Novo, seja pela vasta carreira musical, que incidiu numa primeira fase no jazz e depois num recuo à fase erudita, à música dita clássica. Hoje, é músico benemérito e é considerado um intelectual da produção artística na sua contemporaneidade.
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não te PriveS
deSemPrego Coimbra
10 anos pela defesa dos direitos sexuais
Distrito é dos mais afetados do país
A Não Te Prives veio marcar posição perante uma sociedade profundamente estereotipada e homofóbica. Permanece, porém, a necessidade de lutar pela aplicação do princípio da igualdade em Portugal. Moldes sociais, educação tradicional e religião constituem alguns dos entraves ao respeito pela diversidade em termos de defesa dos direitos sexuais. Entre avanços e recuos, a minoria ganha força, desbravando mentalidades através das suas vitórias no campo jurídico.
Uma situação transversal a todos os setores económicos e a toda a população - o desemprego. O distrito de Coimbra não é exceção no panorama nacional e até internacional, sendo o segundo distrito do país com o maior índice de desemprego. Em discurso direto, desempregados da cidade contam como é difícil arranjar emprego na conjuntura atual.
PP. 12 e 13
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Mais informação em
acabra.net
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deStaqUe
João Gabriel silva • reitor da universidade de coimbra
“Não disse que ia haver congelamento das propinas” Por entre o trabalho que implicam os desafios que a Universidade de Coimbra (UC) enfrenta, durante pouco mais de meia hora, o reitor da UC faz o balanço do mandato até agora, um ano depois da eleição a 14 de fevereiro de 2011. Por Inês Balreira e Camilo Soldado Um ano depois de ser eleito, que balanço faz do seu mandato? O primeiro ano desenvolveu-se num ambiente bastante diferente daquilo que estava previsto. Na altura da eleição a palavra troika não fazia parte do nosso vocabulário, o que acabou por influenciar muito devido à falta de dinheiro. Fora isso, tem estado a decorrer como esperava. Temos feito um trabalho de melhoria da organização interna da universidade em resultado da grande transformação que a administração sofreu no início do ano passado e um esforço para colocar a criação do conhecimento no centro da intervenção da UC. Que opinião tem sobre o trabalho desenvolvido pelo ministro Nuno Crato até agora? Se o trabalho da universidade está condicionado pela troika, o do ministro da educação e ciência está ainda mais. Algo que me tem agradado é o facto de haver um esforço muito grande para preservar as universidades de muitas das restrições que têm surgido por causa das questões orçamentais. Felizmente o governo não tem tido, ao contrário do que às vezes acontece, a atitude de que agora vai ser tudo bem feito e tudo o que vem de trás é para deitar fora. Tem tentado introduzir alterações paulatinas embora, ao nível do ensino superior (ES), ainda poucas. É preciso perceber que o governo entrou em funções a meio do ano passado e este é que será o ano em que nós poderemos ver alguma coisa mais substancial a aparecer. Estou expectante. Quando foi eleito falava da necessidade de “chegar ao fim do ano com as contas tão saudáveis quanto possível”. Qual é a situação financeira da UC neste momento? Chegámos ao fim do ano com uma situação que não é excelente, mas é controlada. A minha expectativa é que consigamos chegar ao fim de 2012 sem ruturas financeiras, mas com o cinto muito apertado. O grande desafio é conseguir, com recursos tão escassos,
não afetar o essencial. Uma área que tem sido muito falada é o Estádio Universitário (EU). Não temos dinheiro para continuar a pagar as despesas nos termos anteriores, mas estamos a trabalhar intensamente com a AAC para encontrar uma solução que não ponha em causa a atividade. A preocupação é essa: encontrar uma forma de fazer o mesmo ou melhor com menos dinheiro. Disse que não ia atualizar as propinas à taxa de inflação no próximo ano letivo. O congelamento estará a ser contornado pelo aumento de propinas de segundo e terceiro ciclo que tem sido fixado pelo Conselho Geral (CG) no último ano? Aproveito para desfazer aí um equívoco. Não disse que ia haver congelamento das propinas. Disse que não íamos obter, através das propinas, o dinheiro que tinha sido cortado no orçamento da UC. O aumento das propinas é à volta de 30 euros por aluno e não dá, nem de perto nem de longe, para cobrir o corte do Orçamento de Estado. O aumento teria de s e r entre 300
a 400 euros para compensar o corte. O que eu disse é que não vamos fazer nenhum aumento fora do normal porque o mecanismo de atualização segundo a inflação vem da lei, sendo que há sempre um curso ou outro onde há um ajuste, que é parte do normal funcionamento da instituição. Seria muito difícil explicar a entidades financiadoras que estávamos a deitar fora uma coisa que não tem um significado por aí além mas daria um sinal completamente errado. Em alguns setores do ES já se fala no debate sobre o modelo de financiamento do ensino superior. Faz sentido lançar esse debate? Faz, embora não se deva ter ilusões porque o problema é que o saco é curto. É relevante
Felipe Grespan
que se debata isso porque em situações como aquela em que estamos, há tendência para pagar as contas e ponto final. A partir do momento em que se faz apenas isso, está a passarse um sinal que não é positivo. Aqueles que, antes deste momento, se esforçaram para obter
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deStaqUe mais financiamento para as atividades, mais poupança nos gastos correntes, vão ter apenas o necessário para cobrir custos que já estão cuidadosamente geridos. Aqueles que geriram à vontade e não se preocuparam vão receber uma dotação que dá para cobrir esses custos que estão a mais. Nessa medida é importante que se discuta o modelo de financiamento para introduzir algum fator que tenha em conta o desempenho. Há condições para que, num futuro próximo, a receita obtida pela cobrança das propinas deixe de ser aplicada em despesas estruturais? Não vejo como. Só se houvesse um aumento substancial de financiamento de outra proveniência. Há cortes no ES em imensos países da União Europeia e todos vão olhar para as fontes de financiamento europeias. A concorrência, que já era fortíssima, é ainda pior. Por isso há alguma perspetiva que se consiga aumentar as fontes de financiamento, mas não ao ponto de conseguir libertar as propinas para fins mais interessantes. Tomara eu poder utilizar as receitas de propinas para fins de desenvolvimento.
“É importante que se discuta um modelo de financiamento que tenha em conta o desempenho ” Na primeira entrevista depois de ser eleito disse que ninguém o ia ouvir dizer que não há recursos mas já disse que, se para o ano os cortes forem da mesma dimensão, a UC fecha portas. O encerramento é um cenário irrealista? Acho que é. Não há nenhum governo que ponha a hipótese de fechar uma instituição com a história da UC. Quando eu disse que não me vão ouvir dizer que não há recursos para o ES, não é para me desculpar para não fazer coisas. Há muitas que ficam limitadas pelo facto de haver menos dinheiro, mas não podemos ficar parados. Quando falamos na construção de um edifício novo, isso é verdade. Em relação à universidade, é importante que tenham consciência que estamos no absoluto limite do funcionamento. Registam-se mais uma vez problemas no processo de atribuição de bolsas. Nuno Crato responsabilizou os Serviços de Ação Social (SAS). Como vê o processo? A responsabilidade dos atrasos é do ministério ou dos SAS? É partilhada. O regulamento saiu muito tarde e a plataforma informática que está a ser utilizada esteve disponível já muito tardiamente, o que é responsabilidade do governo. No entanto, deve ter-se em conta que o governo tomou posse em junho, com trabalho por fazer ao
nível do regulamento das bolsas. Esse atraso influenciou tudo nos SAS. Depois há melhorias a fazer no processo. Numa altura de grande transição de regras, os SAS têm de ter o cuidado de não cortar o acesso à bolsa a um estudante por questões processuais e têm tido uma preocupação grande de, em diálogo com os vários candidatos, conseguir resolver os problemas. Também é profundamente negativo que no início do segundo semestre ainda tenhamos tantas bolsas por decidir. O resultado é obviamente negativo e espero que no próximo ano, com outra estabilidade regulamentar, se consiga ter o processo concluído muito mais cedo senão as próprias bolsas perdem sentido. Como é que estamos à espera que as pessoas com mais dificuldades aguentem um semestre sem esse suporte? É difícil. Em dois anos letivos há menos 25 mil bolsas de ação social escolar atribuídas no ensino superior. Que consequências poderá ter esta diminuição? Não tenho números finais. Há alguma diminuição, não sei se é dessa ordem de grandeza. Depois de insistência, o ministério entendeu abrir um novo período [de candidatura a bolsas] para os recém-chegados ao ES e é possível que esse número não seja tão alto. A minha expectativa é que não seja tão alto, mas é uma fonte de preocupação porque muitas famílias estão com dificuldades e é nesta altura que a ajuda é mais importante para manter as pessoas no ES. Estar a encurtar a ajuda social no momento em que ela é mais necessária, não é positivo. Não há nada mais profundo numa sociedade democrática do que a mobilidade social. A partir do momento em que o acesso ao ES é limitado estamos a introduzir na sociedade tensões que podem dar muito mau resultado e não são positivas para o desenvolvimento do país.
“Não é positivo estar a encurtar a ajuda social no momento em que ela é mais necessária” No ano passado dizia que faria “tudo o que pudesse para se opor a qualquer tentativa de redução dos níveis de apoio social”. O que é que tem feito para evitar que os estudantes abandonem a UC? Continuamos a ser a única universidade portuguesa que tem um fundo de apoio social e, apesar dos cortes, aumentámos o fundo para contrabalançar o efeito de redução de bolsas. Só conseguiremos reforçar a ação social se a sociedade tiver uma noção muito aguda de que as universidades são a solução para o país. Nós cumprimos uma missão, não somos uma elite que vive à conta do Estado. Isso tem muito que ver com o esforço enorme que a reitoria tem
feito para mostrar ao país que somos a charneira para a saída da crise e para o desenvolvimento sólido do país. Espero que esse esforço tenha efeito e o governo aumente, se possível, as dotações para as bolsas de ação social. No planeamento estratégico para a UC há metas muito concretas para cumprir a curto
“Chegámos ao fim do ano com uma situação financeira que não é excelente, mas é controlada” prazo e volta a realçar nele a importância da investigação no papel que a UC pode desempenhar a nível regional. Tendo em conta o momento que vivemos, é realista apontar para uma melhoria tão significativa do desempenho da UC a esse nível? Isso tem que ver com a questão de ninguém me ir ouvir falar que há falta de recursos. Não há nada pior do que nos deixarmos paralisar pela crise porque, então, ela será completamente incontornável. Trata-se de um planeamento mas há tanta coisa variável que não podemos controlar. Temos que aceitar que o planeamento tenha uma incerteza dessa ordem de grandeza.
euros na melhoria das infra estruturas. Faz sentido cobrar pela utilização do espaço a um organismo que já nele investiu? Há algumas secções que investiram dinheiro na melhoria das condições do estádio, mas a quantidade de dinheiro por elas investida é uma gota de água comparada com a quantia que a universidade coloca anualmente no estádio. Quando chegarmos a um acordo sobre as novas regras de funcionamento vamos ter em conta as secções que investiram mais, o que não invalida a necessidade da contribuição. Chamo a atenção para dois aspetos: uma parte muito substancial dos utilizadores do estádio não são estudantes universitários. A UC não tem a obrigação de subsidiar o desporto dos não universitários. O segundo passa por situações em que há alugueres de espaços a terceiros que também deverão contribuir para o funcionamento do estádio. Tem havido um espírito
de, em conjunto, encontrar soluções. Estou bastante otimista. A UC tem feito grandes investimentos para cumprir os requisitos da candidatura à UNESCO. Há uma estratégia para o caso de haver uma nova reprovação? Não houve nenhuma reprovação até ao momento. O que houve faz parte do normal decorrer destes processos: a submissão de uma candidatura provisória para lhe ser feita uma análise prévia por parte da UNESCO. A submissão formal ocorreu agora e pode, obviamente, acabar numa reprovação mas estou convencido que isso não vai acontecer. Pode surgir a necessidade de algum acerto na candidatura uma vez que o nível de exigência da UNESCO para com as candidaturas da Europa e da América do Sul é muito mais exigente relativamente às candidaturas de outras partes do mundo.
O que é que já foi feito para que houvesse um maior envolvimento da UC com a região? Por exemplo, neste momento já está em construção a aceleradora de empresas junto ao Instituto Pedro Nunes (IPN). O IPN tem andado em negociações e já há colaborações com várias autarquias da região para que também elas passem a ter alguma capacidade de empreendedorismo. Os centros de investigação estão também em colaboração contínua. Um novo polo de desenvolvimento, na área da energia, vai surgir em Montemor-o-Velho. Associado ao BIOCANT já se começou a construir um novo edifício para concentrar investigação na área da biotecnologia – o UC BIOTEC. Apesar da falta de recursos estão imensos projetos em andamento. Como é que está a questão do EU? Temos estado a discutir a forma de conseguir manter a atividade e melhorá-la se possível, com redução dos custos. Essa forma vai passar também pelo princípio do utilizador-pagador. Estamos a olhar para novas formas de angariação de receitas. Um exemplo é o regulamento de publicidade que existia no estádio, que obrigava o reitor a autorizar cada anúncio. Esse regulamento está em fase final de alteração e as secções vão ter uma capacidade completamente diferente de trabalhar com os seus patrocinadores. A Secção de Ténis, por exemplo, já gastou milhares de
Felipe Grespan
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EnsInO sUPErIOr
A candidatura patrimonial do conhecimento Oficializada a 20 de janeiro, a candidatura da Universidade de Coimbra (UC) a património mundial da humanidade assume-se muito para além do património material histórico de Coimbra. É uma pretensão que associa o passado, presente e futuro nos seus moldes tangíveis e intangíveis. Por Inês Balreira
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ecuemos a 2004, ano em que a UC é incluída na lista indicativa pela Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) como candidata à classificação de Património Mundial da Humanidade. Nove anos volvidos, a 20 de janeiro de 2012, a assinatura do secretário de Estado da Cultura, Francisco Viegas, em representação do Estado português, terminou a odisseia da candidatura. Associando o passado, o presente e o futuro, a candidatura, que inclui a Alta e a Rua da Sofia, encontra-se condensada num dossier de duas mil páginas, dividido em sete volumes, onde estão incluídos textos como “a justificação da candidatura, a descrição da área candidata e o respetivo plano de gestão”, bem como a explanação de “vários critérios a que UC é candidata, como a integridade, o bem e a universalidade”, como refere a vice-reitora para a cultura e comunicação, Clara Almeida Santos. Raimundo Mendes da Silva, próreitor no mandato do reitor Seabra Santos e responsável pela candidatura entre 2004 e 2011, conta que “este dossier final é o resultado da atualização do dossier preliminar que foi entregue em dezembro de 2010” à Comissão Nacional da UNESCO. Comparado com o documento entregue em 2010 o dossier final difere apenas em “ajustamentos e melhorias de detalhe que resultam de um processo natural de diálogo”, afirma Raimundo Mendes da Silva, frisando a dinâmica do processo. A vice-reitora para a cultura e comunicação revela que “cada vez que é entregue uma versão a UNESCO verifica o cumprimento de vários critérios”. “Na última versão que foi enviada antes da final havia alguns formulários e questões formais que tinham mudado e tivemos que fazer algumas
adaptações”, conta a vice-reitora.
Requalificação do património Para que os requisitos da UNESCO fossem cumpridos foi necessário proceder à requalificação de vários espaços da UC. Esta requalificação, enquadrada num plano de gestão a 30 anos, já abrangeu espaços como o Laboratório Chimico, que alberga o Museu da Ciência, a Casa das Caldeiras, a Torre da UC, a Via Latina, o Pátio das Escolas e as Escadas de Minerva. Contudo, existem ainda espaços que fazem parte do projeto que ainda não foram requalificados, como é o caso do Tribunal Universitário Judicial Europeu, a Biblioteca da Faculdade de Direito da UC, o Centro de Interpretação e Divulgação da UC, a Rua da Sofia e o Colégio da Graça que
“As limitações da economia nacional repercutem-se no faziamento e prazos previstos” vai alojar o Centro de Documentação 25 de Abril e uma parte do Centro de Estudos Sociais. O antigo pró-reitor ressalva que durante a elaboração do dossier final foi preciso “adaptar o plano de gestão em função da política universitária e municipal, tendo em atenção as atuais limitações da economia nacional que se repercutem no faseamento e prazos previstos para algumas intervenções”. No que toca a valores “a UC suportou os custos de funcionamento das equipas de especialistas que elaboraram os planos e produziram o dossier”, revela Raimundo Mendes da Silva, contando ainda que “para tal a
universidade teve apoios do Banco Santander Totta”. Parte da investigação foi também financiada “com o apoio de fundos estruturais, nomeadamente o Programa Pós-Conhecimento, sendo que, em momentos específicos do processo, houve outras entidades a apoiar eventos e realizações, das quais se destacam a Câmara Municipal de Coimbra, o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, o Turismo de Portugal e a própria UNESCO”, acrescenta Raimundo Mendes da Silva.
liliana CUnha
Uma candidatura para além dos edifícios Clara Almeida Santos revela que “a candidatura da UC não implica somente a requalificação do edificado”. “A candidatura é muito mais que isso: neste caso particular junta o tangível e o intangível, como é o caso da tradição de Coimbra, o espírito académico, a canção de Coimbra, a língua portuguesa e a importância de Coimbra na expansão da língua portuguesa”, afirma a vice-reitora. “Esta é a candidatura do conhecimento”, acrescenta. A vice-reitora frisa ainda que a candidatura “é um reconhecimento daquilo que quem conhece a UC já sabe”. “Só quem não conhece a história e o presente da instituição é que tem alguma dúvida quanto ao reconhecimento da UC como património da humanidade”, assevera. Raimundo Mendes da Silva considera que com o reconhecimento, do qual se espera um parecer positivo em 2013, “a universidade cumpre com maior segurança e apoio a sua missão cultural”. Clara Almeida Santos salienta ainda “consequências muito óbvias” deste reconhecimento, como a “maior capacidade de atração em termos de turismo mas também de estudantes, sobretudo os de mobilidade internacional”.
O plano de requalificação já abrangeu a Torre da UC e o Páteo das Escolas PUBliCiDaDE
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EnsInO sUPErIOr CarlOTa rEBElO
Eugénio Costa considera que é “muito difícil, ou até impossível, atingir os 17 por cento de redução de custos sem investimento em equipamento que permita uma eficiência energética”.
SASUC impõem contenção de consumos energéticos nas residências residências vão ter que reduzir em 17 por cento nos gastos energéticos, mas as condições dos edifícios e equipamentos podem dificultar a aplicação da medida João Gaspar As reduções de orçamento das instituições universitárias tornaram-se numa constante e a ação social não passa incólume. A 12 de janeiro, um despacho emitido pelos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra (SASUC) constata uma redução de 17 por cento do orçamento para 2012 em relação ao disponibilizado no ano anterior, no que toca a encargos energéticos das
instalações. Assim sendo, os SASUC têm menos 123 mil euros para gastar em eletricidade, gás e água. O administrador dos SASUC, Gouveia Monteiro, considera esta medida como “uma contenção prudente”, afirmando que, com a poupança feita nos primeiros meses de implementação desta política, poderá ser adquirido algum equipamento que facilite a eficiência energética. Contudo, a própria medida, forçada, segundo Gouveia Monteiro, pelo corte no orçamento por parte do governo, vê algumas dificuldades na sua aplicação devido ao aumento dos impostos no setor energético. Para além desse ponto, as próprias condições e infraestruturas de algumas residências poderão levantar obstáculos na poupança energética. A delegada da residência São Salvador, Nilce Carvalho, verifica que a poupança não “é viável” em
alguns setores energéticos. Com menos 240 euros para gastos em água no presente orçamento, Nilce Carvalho lembra que as residentes “já poupam muito em água”, recordando que os próprios cilindros para o aquecimento de água impedem banhos demorados. “Chegamos a tomar banho juntas para termos água quente”, afirma.
Dificuldade em atingir a meta Também o delegado da residência da Alegria, Eugénio Costa, levanta alguns problemas na aplicação da medida, apesar de se mostrar solidário para com a contenção de custos. “É muito difícil, ou até impossível, atingir os 17 por cento de redução de custos sem investimento em equipamento que permita uma eficiência energética”, afirma. O delegado recorda que o próprio edifício da residência não
apresenta grandes condições para uma melhoria dessa eficiência, asseverando, também, que os SASUC não deveriam aplicar o corte da mesma forma a todas as residências: “devia haver uma atenção às especificidades de cada uma das habitações”. Patrícia Sousa, residente no Penedo da Saudade, e antiga delegada da mesma habitação, vai ao encontro às afirmações de Eugénio Costa, considerando que a “redução deveria ser repensada, visto que não pode ser aplicada de forma uniforme”. A ex-delegada afirma que “é quase impraticável atingir os 17 por cento” na sua residência, constatando que existem vários equipamentos pouco eficazes no que toca a consumos de energia. “Nós temos todo o interesse em diminuir os consumos, contudo preocupa-nos o que pode acontecer se não atingirmos o patamar pretendido”.
Sobre esse mesmo ponto, Gouveia Monteiro não admite essa possibilidade: “tenho a certeza que vamos conseguir”, garantindo que as despesas na energia serão sempre da responsabilidade dos SASUC. O administrador dos serviços considera que, através da colaboração entre funcionários, administração e residentes é possível o cumprimento da meta a atingir e que a mesma medida “não tem qualquer sentido de sancionamento”. “Se conseguirmos reduzir os consumos podemos investir até em algum equipamento ou em melhores condições de conforto”, afirma Gouveia Monteiro. O mesmo, apesar de considerar que há alguma folga, afirma que esta foi, de certo modo, suprimida pelo “corte abrupto no orçamento”. O administrador acredita que só com medidas deste tipo é que se vai “conseguir fazer frente a estas políticas desgraçadas”.
Acesso à AAC volta a ser controlado a partir de hoje Após a meia-noite, é obrigatório apresentar cartão de estudante para aceder ao edifício. Depois do horário de encerramento, apenas os sócios com credenciais podem circular Inês Balreira A partir de hoje, 14, a circulação no edifício da Associação Académica de Coimbra (AAC) vai voltar a ser condicionada, à semelhança do que já aconteceu em anos ante-
riores. De acordo com um comunicado emitido pela administração da AAC, vai passar a ser “proibida a entrada no edifício a quem não se fizer acompanhar do cartão de estudante ou credencial todas as terças, quintas, sextas e sábados, exceto em situações pontuais”. As credenciais emitidas pela direção-geral da AAC (DG/AAC) apenas para as secções e organismos vão permitir a entrada e acesso dos sócios aos pisos superiores depois da hora do encerramento do edifício – quatro da manhã. Por sua vez, o cartão de estudante permitirá o acesso dos estudantes a partir da meia-noite. O administrador da AAC, João Sei-
xas, afirma que esta é uma medida para “reforçar a segurança no edifício”, uma vez que os dias abrangidos são os de maior afluência a espaços noturnos. O administrador acrescenta que “quem se fizer acompanhar de capa e batina ou certificado de matrícula” também vai poder entrar no edifício. Quanto às “situações pontuais” mencionadas no comunicado, o administrador afirma que esses casos são “o esquecimento de credencial ou cartão de estudante de pessoas que frequentam a AAC todos os dias”. Contudo, João Seixas ressalva que essas situações vão passar pelo “bom senso dos seguranças”. Relativamente aos
colaboradores das secções que não possuam credencial de acesso, o administrador diz que “quem quiser entrar depois da hora tem de ter alguma coisa que prove que são colaboradores ou entram com alguém efetivo da secção que tenha credencial”. O tesoureiro do Conselho Desportivo, Miguel Franco, considera que se esta medida for “bem implementada pode aumentar a segurança”. Porém, adverte para uma situação: “quando se implementam as credenciais é para funcionar do início ao fim, não se pode implementar esta medida e depois o sistema desaparecer”. Por sua vez, João Seixas assegura que
“esta é uma medida que a DG/AAC quer levar até ao fim do mandato”, uma vez que a “ideia é diminuir o risco de incidentes no edifício”. O secretário da comissão executiva do Conselho Cultural, António Arnaut, acredita que esta medida “vai aumentar um pouco a segurança”. Contudo, António Arnaut considera que “garantir a segurança num local que tem um bar que parece uma discoteca à noite pode dificultar a medida”. O secretário alerta ainda para outro fator: “não é por haver credenciais que vai deixar de acontecer alguma coisa, até porque as credenciais são falsificáveis”.
6 | a cabra | 14 de fevereiro de 2012 | Terça-feira
CULTUrA Acabar com a exclusão social cá através do teatro
cultura por 11 25
fotografia cedida por edUardo marqUes
e FEV
“FInAnCIAMenTO de PrOjeTOS CULTUrAIS ATrAVéS dO PATrOCInIO, MeCenATO e CrOwdFUndInG” CurSo CaSa da eSquina várioS horárioS 55 euroS (Sujeito
a inSCrição)
14 FEV
“O GAbIneTe dO dr. CALIGArI” de rOberT wIene
Cinema Cinema FiLa K - amSCav 21h30 • entrada Livre
14 FEV
“AFeTOS (COn)SenTIdOS” muSiCa e outroS PaviLhão de PortugaL • 21h00 6,5 a 10 euroS
15 FEV
“SeXO, MenTIrAS e VídeO”, de STeVen SOderberGH Cinema FnaC •21h00 entrada Livre
16 FEV
THe UnderdOGS muSiCa taBaCaria 5 euroS
omt • 21h00
da
17 18 e
FEV
“bOneCOS de SAnTO ALeIXO” teatro tCSB • 18h30 e 21h30 •5 a 10 euroS
22 FEV
“PATrIMónIOS, MUSeUS e TrAnSFOrMAçãO SOCIAL: O CASO dO brASIL” Seminário SaLa 1, CeS 22h00 • entrada Livre
23 FEV
“AdALberTO SILVA SILVA”, de jACInTO LUCAS PIreS e IVO ALeXAndre teatro tagv • 21h30 4 a 7,5 euroS
24 FEV
THe GIFT muSiCa tagv • 21h30 10 a 15 euroS
25 FEV
HyPer nOVA UTOPIC eMPIre dança SaLa grande da omt 21h30 • 4 a 10 euroS
Por Ana Duarte
Um dos objetivos fundamentais é a atenuação da vulnerabilidade social dos intervenientes
A Hemisférios Solidários une-se ao Grupo de Teatro do Oprimido num projeto de intervenção cívica. O meio escolhido é o teatro, como forma reflexiva e terapêutica Ana Duarte Teatro do oprimido. Método teatral que tem como objetivos a democratização dos meios de produção teatrais e o acesso das camadas sociais menos favorecidas. Em Coimbra, há um lugar onde tudo isto se pratica. Onde a inibição fica à porta, para que entre o espírito de solidariedade – através da vertente artística. O Grupo de Teatro do Oprimido, companhia teatral de Coimbra, uniuse à associação cultural e de intervenção cívica, Hemisférios Solidários, para dar voz àqueles que nada têm – os sem-abrigo. Todos os sábados, reunido na Andy Warhol’s
Factory (antiga fábrica de porcelanas de Coimbra), o grupo de teatro trabalha para combater a vulnerabilidade social. A dirigir este projeto, com cerca de um mês, está Luísa Conceição, que já trabalhou com vários grupos de exclusão social, incluindo no Estabelecimento Prisional de Coimbra. Conta que a ideia surgiu num “encontro cultural que a Hemisférios Solidários estava a fazer no Dia Mundial dos Direitos Humanos”. “Conversámos um pouco e surgiu essa ideia, de trabalhar com esse tipo de grupo através do teatro”, acrescenta. O diretor executivo da Hemisférios Solidários, Eduardo Marques, afirma que os projetos da associação tendem a focar-se na intervenção social através da arte. “Pretendemos consciencializar a sociedade e dar voz a pessoas que não a têm”, explica Eduardo, “sempre que possível através de atividades culturais, que possam também ser terapêuticas e reflexivas, como esta”. A adesão ao Grupo de Teatro do Oprimido têm sido “bastante boa”, tanto nas palavras de Eduardo Marques, como nas de Luísa Conceição.
Com todas as dificuldades inerentes, e apesar de ainda só se terem realizado dois ensaios, a interação revelase natural e não há constrangimentos. E fala-se em constrangimentos, tendo em conta a condição de alguns dos participantes: pessoas em situação de rua, muitas das vezes privadas de auxílio. Mas a intenção é mesmo essa. Reverter a situação de exclusão social, apoiando e ajudando aqueles que, segundo Luísa, “estão na base dos oprimidos”. Paulo Nogueira, um dos participantes, revela que “isto do teatro é porreiro. Ocupa-nos o tempo e ajuda-nos na concentração e a ter algum auto-controlo”. Apesar de tudo, ainda estão numa fase de adaptação. E assim será por mais algum tempo, até conseguirem ganhar a confiança uns nos outros. “O grupo é um pouco instável, nem sempre vem toda a gente”, lamenta Luísa. Porém, expressa o desejo de que, com o tempo, isso possa mudar e que a inibição nunca seja obstáculo.
Teatro solidário vs. Voluntariado O voluntariado pode ser um conceito
de fácil associação a este trabalho. Contudo, para o que se pretende, é um conceito fechado. Eduardo Marques explica que “as pessoas, ao integrarem esta nova ‘companhia’, transformam-se em atores”, não estando a praticar voluntariado na sua definição etimológica. Mas as relações de amizade vão-se estabelecendo e o “ambiente no trabalho é ótimo”, segundo Paulo Nogueira. Trabalhar o ser humano é o objetivo final. “Nós não trabalhamos na vertente da sopa, das matérias básicas. Trabalhamos, sobretudo, na pessoa, que eu acho que é o mais importante”, revela Luísa Conceição. Esse percurso traduz-se num resgate de confiança e autoestima que este tipo de comunidade foi perdendo. A comunicação entre os elementos é “horizontal, somos todos iguais e não há o peso institucional das regras”, explana Eduardo Marques, que refere ainda que este é um dos pontos fortes de “ajudar com o teatro”. A única regra, para Eduardo, é “a do compromisso que nós temos por partilhar o mesmo espaço e tentar construir futuros de otimismo e de esperança”.
Sem truques e técnicas, declama-se Camões na OMT Três anos depois, António Fonseca volta à OMT para apresentar os cantos VIII e IX d’ “Os Lusíadas”. Pelas 22 horas de hoje, assiste-se “ao dizer” da epopeia de Camões Ana Duarte Para quem ainda pensa que decorar e interpretar “Os Lusíadas” de Luís de Camões é impossível, eis que
o ator António Fonseca se lança nessa(s) epopeia(s). Ator profissional desde 1997, começou a trabalhar neste projeto porque sentiu necessidade de “(re)propor esse imaginário que são ‘Os Lusíadas’, esse património da nossa história”. Assim, esta noite, pelas 22 horas, na Oficina Municipal de Teatro (OMT), António Fonseca apresenta os cantos VIII e IX - um vaguear pelo “vil interesse e sede inimiga/ Do dinheiro que a tudo nos obriga”, terminando na alegórica Ilha dos Amores. A relação entre António Fonseca e O Teatrão/OMT não é recente. A atriz
da companhia, Margarida Sousa, refere que “o Fonseca é um grande amigo nosso, já colaborámos muitas vezes”. Deste modo, o acolhimento do trabalho revela-se inevitável. “Feznos esta proposta e achámos muito interessante. A primeira vez que ele diz em público algum dos cantos, fálo sempre na OMT”, destaca Margarida. A proposta remonta ao ano de 2010, quando António Fonseca apresentou em Coimbra os primeiros cantos da obra de Camões. Mas o ator iniciou o seu trabalho mais cedo: “comecei a trabalhar há quatro anos ”. E
a partir daí, com o feedback que recebeu, o trabalho continuou. “Sei que não é nenhum golo do Benfica numa final da Liga dos Campeões, mas penso que é algo interessante de se fazer e estou muito entusiasmando com as reações positivas”, acrescenta. O que se pretende é “fazer os dez cantos em formatos e versões diferentes, mexer com a história toda durante muito tempo”, explica António Fonseca. A realização desta experiência traduz-se, na opinião de Margarida Sousa, na “forma como o António trabalha o texto e comunica com as pessoas”.
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CULTUrA Perfil • António Pinho VArgAs • Prémio dA uniVersidAde de coimbrA 2012
“Havia mais mundo para além do que me era dito” António Pinho Vargas, vencedor do Prémio UC 2012, é exemplo do empreendedorismo a que os novos talentos nacionais devem aderir. Imprimir uma assinatura para que seja reconhecida num qualquer lado, por um determinado alguém, é o principal desafio imposto na criação conceptual. Por Liliana Cunha e Ana duarte
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lasmar a música nas mãos. O solo erudito de Vargas, completo na articulação de umas quaisquer cordas percutidas, é indissociável. Indissociável de tempos anacrónicos. Estes, aliados à contemporaneidade. É nesta característica que reside a particularidade da obra de António Pinho Vargas enquanto compositor. Português, nascido em Vila Nova de Gaia há 60 anos, vive as contrariedades da afirmação da música portuguesa e da sua cultura a uma escala europeia. Este “complexo de inferioridade”, como lhe chama, deve-se à ineficácia do regime de trocas culturais entre civilizações. Gostar da música portuguesa cá dentro sempre foi uma batalha para quem quer viver dela. Mas António não escolheu viver assim. Nascer na segunda metade do século XX implica tocar os momentos históricos mais determinantes para o país: Estado Novo, Salazar, Lisboa. O então estudante de Direito rebelouse contra o sistema dogmático de ensino, que sempre associou ao poder político, numa forma negativa. Preteriu a formação académica e foi para a
1983. Depois, ruma à Holanda, após conseguir uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Lá, conviveu com outros compositores e apercebeu-se da importância que o centro da Europa representava no pano-
De resto, compor fora do ambiente patriota envolveu uma aproximação mais heterodoxa na forma de olhar a arte. As condições estruturais das salas onde se podia tocar eram consideráveis. Pelo contrário, em Portugal,
seus alunos a problemática do ego na produção artística. Saber dosear a interseção das dicotomias composição/indivíduo (compositor que escreve, em primeiro, para si) e música/público (repercussão da sua obra
Espaço de Vargas na Europa O primeiro disco foi gravado em
Prémio Universidade de Coimbra 2012 “A primeira reação foi de surpresa. Nunca pensei que ia receber um prémio em Portugal”. A falta de crença nos prémios atribuídos a músicos portugueses, por portugueses, foi preponderante ante a sua perplexidade. Contudo, a partir das mostras “de sensibilidade artística, intelectual e de composição musical” que se repercutiram numa reflexão sobre a sociedade atual, José Manuel Pureza, investigador do Centro de Estudos Sociais tal como Pinho Vargas, classifica positivamente a decisão da Universidade de Coimbra – “um gesto de grande alcance, de grande saber estratégico”. Em Coimbra, captar a essência do humano em sociedade torna-se uma questão de conceitos antropomórficos. Observar a perceção e aptidão para capturar o sentido musicológico é tema central da sua tese de doutoramento, esta em Sociologia da Cul-
“Afinal, a minha inquietude em Portugal tinha razão de ser”, justifica o compositor
“Estive mais na rua a fugir da polícia do que propriamente a frequentar as aulas” rua. A extrema esquerda estava conferida aos estudantes nos idos anos 70 e iam-se formando “as listas”. “Estive mais na rua a fugir da polícia do que propriamente a frequentar as aulas”, conta o músico, que na altura presenciou um dos mais quentes episódios no seio da comunidade estudantil – o assassinato do companheiro de luta Ribeiro Santos, pela PIDE, em 1972. Direito não avistou bom porto, todavia, de volta a Gaia, António enveredou pela História. Gradativamente. Não urgia terminar o bacharelato porque, entretanto, o piano assume protagonismo. Foi no jazz que encontrou a reivindicação que almejava, junto dos seus amigos com quem formou grupos. Do outro lado do Atlântico, era este o estilo privilegiado para a intervenção. Era o que Vargas pretendia para o seu país e para a sua criação.
música contemporânea vasta, e não cingida àquela que demagogicamente se incutia em Portugal.
ilUstração por ana beatriz marqUes
rama musical da altura. Alemanha, França e Inglaterra eram as referências, sendo que, na periferia, encontrar-se-iam aqueles que viviam na sua sombra – Holanda, Bélgica e, consequentemente, Portugal. “Ouvia-se muita música de Pinho Vargas. Sabia a Portugal”. Manuel Pires da Rocha, diretor do Conservatório de Música de Coimbra, recolheu na música de Vargas o sentimento nacionalista, que evocava enquanto emigrante, e reteve-a na memória, como jovem músico, que encontrou o jazz nas composições de António. Isto, em 1982.
a falha apontada pelo compositor é essa mesma: “tive que inventar sítios para tocar, porque não os havia. Pedir a amigos e coisas do género”. E na qualidade de professor, tenta transmitir o empreendedorismo que um músico, em Portugal, tem de ter. Impreterivelmente. A audácia exige que se gere autonomia no que toca à profissão. Se o músico não tem, procura ter.
“Compreender o nosso lugar no mundo” Para além do empreendedorismo, Pinho Vargas também transmite aos
nas massas), é o ideal para uma simbiose empática. “Afinal, a minha inquietude em Portugal tinha razão de ser”, justifica o compositor. Razão essa encontrada na evolução das correntes estilísticas de um modernismo que aumentava em proporção dos hábitos de povos diferentes, onde se adquiria uma nova forma de olhar o mundo e a pátria de onde se proveu. Permanecer no país de origem é redutor e, como tal, Vargas percorreu um sem número de países intra e intercontinentais. Viajou à leva com o seu grupo de jazz e descobriu a amplitude de uma
tura. Daí vem o afastamento ou até possível repúdio português em relação à música erudita que, por vezes, é alvo de algum elitismo e de subaproveitamento das potencialidades dos compositores nacionais. Fazer. A última etapa da criação reflete, para o compositor, a produção da obra de acordo com a individualidade do autor. Mergulhar no problema de produzir é acima de qualquer coisa a dificuldade em demarcar uma assinatura. “Componho de acordo com as minhas conceções do que deve ser uma peça musical, e componho num estado de isolamento”. António Pinho Vargas lança o desafio aos compositores da nova guarda – muitos deles, antigos alunos seus – para que deixem sempre o seu carimbo naquilo que produzem. Há que esquecer o preconceito português por aquilo que se faz por cá e reinventar novas formas que possam agradar a todos. Porque para valorizar o outro, é preciso valorizar-se a si mesmo. E Vargas é exemplo disso.
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CULTUrA
A arte de rua dentro da Casa Felipe GRespan
Até ao dia 16 de março, o resultado de uma residência artística peculiar, decorrida em Lagos, visita Coimbra. A arte de rua dentro da Casa da Esquina
Felipe GRespan
Felipe GRespan
Inês Amado da Silva Numa tela de grandes dimensões, os três pastorinhos surgem pela técnica do “stencil”. Estão ao lado de uma Virgem Maria que aparece não sobre numa nuvem normal, mas de fumo de uma explosão, e as cores da roupa que envergam sugerem uma espécie de efeito psicotrópico. Francisco Marto tem um lacinho vermelho de campanha contra a SIDA na lapela e metralhadora na mão. Rodeando esta grande tela, estão duas malas abertas que contam duas memórias diferentes. Um álbum de Maria Benta, artista de Lagos, parece personificar uma das história: os objetos têm tons de vermelho, dourado, pérola e pó. Um gira-discos está na base da mala, forrado por um veludo coçado. “Muitas das coisas fazem parte do espólio dela”, conta a responsável da direção da Casa da Esquina, Filipa Alves. Do lado oposto da sala, uma outra mala conta a história de um barbeiro: cabelo, pincéis, lâmina enferrujada. Bilhetes para o Sporting em 1957. Pequenas imagens de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus. A primeira edição do ARTUR – Artistas Unidos em Residência, promovida pelo Laboratório de Actividades Criativas (LAC), sediado em Lagos, foi o mote para a criação destas obras de Jorge Pereira. Durante 20 dias, no verão de 2011, seis artistas convidados estiveram à “descoberta do espaço urbano como D.R.
Felipe GRespa
seis nomes nacionais e internacionais da arte de rua estão na Casa da esquina. para ver até 16 de março. cenário para a criação artística”, o mote da residência, e ocuparam não só a antiga cadeia de Lagos como também o espaço urbano envolvente. Explica Filipa Alves que o que foi feito foi “pegar em celas e dá-las aos artistas” e “cada um, dentro da sua cela, criou um espaço”. O melhor que se faz na arte urbana está agora para ver em Coimbra, na Casa da Esquina, até ao dia 16 de março. Não deve deixar-se de visitar as obras de alguns dos nomes mais proeminentes da cena mundial da arte de rua – tanto internacionais, como o grego Alexandros Vasmoulakis e o brasileiro Antonio Bokel, como quatro outros artistas nacionais.
ARTUR adaptado à Esquina
Para além de ser um dos artistas em residência, Jorge Pereira é também membro da direção do LAC. “Trabalho muito o retrato dos ícones culturais”, admite, como Amália e José Afonso, bem lembrados na exposição, e afirma fazê-lo “não tanto por crítica social”. O artista desmistifica, assim, a associação que é muitas vezes feita da arte de rua à crítica social, assegurando que, atualmente, “muitas das grandes obras que se fazem” nesta área, geralmente comissariadas ou pagas por instituições e câmaras municipais, “são simplesmente decorativas ou têm mensagem do artista”. Por oposição, o trabalho de maismenos, nome artístico de Miguel Januário, surge dentro de um espectro de crítica social. Um autoclismo ligado a uma urna (que remete ime-
diatamente para Marcel Duchamp), uma corda que enforca uma gravata. Uma evocação do Estado Novo através de um Salazar coisificado no objeto de cozinha. “O trabalho que o Miguel faz na rua, ou seja onde for, é um trabalho de crítica social assumido”, aclara Jorge Pereira. A obra dos outros artistas presentes alinha mais com a arte de rua pela forma: tal como Jorge Pereira, Paulo Arraiano e Antonio Bokel utilizam madeiras recicladas para os trabalhos expostos, invocando motivos tribais e uma reflexão mais espiritual. Por sua vez, a obra de Vasmoulakis evoca questões de género através de uma espécie de um fauvismo contemporâneo, risonho e cínico, expresso em telas a óleo. “Houve trabalhos feitos diretamente nas celas”, explica Filipa Gon-
çalves, o que impossibilitou a transposição completa da exposição para Coimbra. Adaptada agora à Casa da Esquina, ela ganha, ainda assim, contornos interessantes. Jorge Pereira estava longe de prever que a tela com os três pastorinhos iria ser exibida na casa ao lado daquela em que a irmã Lúcia terá passado os últimos anos da sua vida, no Carmelo. Do lado de fora da Casa, o artista deixou também repercutidas pelo “stencil” duas noviças, descalças e com máscaras de gás. “Não tinha noção da vizinhança”, brinca. É uma crítica? “Acho que ficou bastante bem encaixado: as duas freiras a olharem, porque estão num muro de fora e são visíveis das janelas das senhoras. Não é nada crítico em relação à igreja, nem a elas próprias, mas são acasos que acontecem”.
A busca do sentido da vida às escuras “Um Precipício no Mar”, da autoria de Simon Stephens, é a peça a estrear dia 16 deste mês, no TAGV, que conta com a produção de Jorge Silva Melo e Artistas Unidos Ana Duarte Sem cenário, sem luzes e com um ator. Um monólogo de intensa partilha. Uma história contada de forma fria e analítica. Assim é a peça “Um Precipício no Mar”, que estreia no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), quinta feira, pelas 21h30. A produção do espetáculo cabe à com-
panhia Artistas Unidos e a encenação conta com o seu diretor, Jorge Silva Melo. O diretor do TAGV, Fernando Matos de Oliveira, classifica esta vinda dos Artistas Unidos a Coimbra como uma “estratégia de programação”. “Queremos um programa que se foque no teatro contemporâneo” e que também “seja capaz de refletir sobre projetos de teatro emergentes, novas companhias e novos produtores”, acrescenta. Deste modo, “Um Precipício no Mar” completa a simbiose que Matos de Oliveira procura para a nova programação de teatro: da autoria de Simon Stephens, famoso na nova dramaturgia britânica, este é um texto que conta uma história intensa de um pai que, após a morte da filha, tenta procurar um novo
sentido para a sua vida. João Meireles é o protagonista da peça e, também, o seu único interpretante. O monólogo revela-se elemento crucial, porque, na opinião do ator “é uma forma teatral e muito estimulante, pois a comunicação estabelece-se entre ator e público, de forma direta e exclusiva”. Assim, a intensidade do drama é transmitida de forma penetrante, através de uma história contada “olhos nos olhos e não apenas a um público coletivo”, explica João Meireles. A ideia de executar esta peça, conta o encenador Jorge Silva Melo, partiu de dois atores dos Artistas Unidos: “eles foram ao Festival Internacional de Edimburgo em 2009 e assistiram ao espetáculo britânico”. O sucesso que “The Sea Wall” (nome origi-
nal) obteve foi tão grande que Silva Melo pediu que lhe trouxessem o texto e, quando o leu, João Meireles foi escolha imediata para a interpretação. “É um dos atores que está desde a fundação da companhia e não tem tido os papéis que merece”, comenta. O diretor do TAGV destaca a dupla Jorge Silva Melo e Artistas Unidos, que, com a qualidade e trabalho que tem mostrado, “poderá abrir algumas portas e chegar a um público mais abrangente”. O ator, que aquando da proposta para protagonizar “Um Precipício no Mar” revelou algum medo, mostra-se agora confiante, esperando “lotação esgotada”. Lança também um convite ao público para a reflexão sobre a família, o medo, o luto e a perda.
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dESPorTo a
18 FEV
V ol e I Bo l CDPoVoa x académica 18h • Pavilhão Gimnodesportivo
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F u t e B ol académica-sF x eirense 18h • estádio universitário
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Futsal sC Braga x académica 16h • Pavilhão Desportivo universitário de Gualtar
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a n D e B ol académica x sIR 1º Maio 18h •estádio universitário nº 3
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ExErcício na tErcEira idadE
Foto CeDiDa poR iolanDa FeRnanDes
A atividade física na terceira idade contribui para a integração social.
O desporto a partir dos 65 Entre dentes que falham nos sorrisos de alguns, bigodes brancos e olhos polidos, há lugar para animação. Nos centros de dia que promovem atividades físicas para os idosos, multiplicam-se as estratégias de cativo dos utentes. Por Fernando Sá Pessoa
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ão se admire quem assistir a uma aula na Cáritas Diocesana de Coimbra se ouvir o “tiro liro”, ou se vinte pessoas entoarem ordem para “pôr aqui o seu pezinho”. Não mais é do que dar música a pessoas que, fruto da idade, precisam dela para se motivarem. Iolanda Fernandes, professora no centro de dia da Cáritas, explica a sua fórmula, em que a parte humana adquire uma dimensão muito grande. No centro de dia Rainha Santa Isabel da Santa Casa da Misericórdia, a professora congratula-se: “começámos com sete pessoas e hoje temos vinte e quatro”. Às vezes, explica, “é preciso ir buscar os alunos à tasca. Mas veem”. É ali, numa sala a meias com uma outra de fisioterapia, na Cáritas, que decorrem, semanalmente, duas sessões de desporto para pessoas da terceira idade. Com um espelho de vidro e rugas pela frente, não mais do que 20 metros quadrados servem a Iolanda e a cada um dos seus alunos para esticarem braços e pernas, prolongamentos da vitalidade no tempo. “São pessoas mais velhas e teimosas”, admite, mas a atitude tem de ser positiva. Pôr de castigo o utente por causa de uma conversa que não
acaba, ou por um cantarolar que não obedece aos pedidos de moderação, tem que ser algo feito de forma especial. “Com as crianças mandamos um berro e elas calamse. Aqui, manda-se de castigo. Mas a rir”, entende. Fustigada pelos onze dias em que esteve em coma e durante os quais perdeu o marido, na sequência de um acidente de viação, a utente da Cáritas Maria da Graça
“São pessoas mais velhas e teimosas”, nas palavras da professora Iolanda Fernandes Fernandes mostra a importância do fator mental. “Por causa do acidente, não consigo esticar o braço esquerdo. Mas este posso”, rejubila o olhar, acompanhado do respetivo movimento. Acima de tudo, explica Iolanda, procura-se proporcionar “satisfação com a vida”.
“Prevenção, controlo e tratamento de doenças” A ginástica funcional que decorre
nos centros de dia pretende melhorar os movimentos do quotidiano, contribuindo para a independência do idoso. “Prevenção, controlo e tratamento de doenças” são, para Iolanda, os três pilares em que assenta este tipo de dispêndio de exercício programado. O objetivo, nas palavras de Iolanda, passa por “aumentar a resistência cárdio-vascular, a flexibilidade, a agilidade e diminuir o tempo de reação”, com exercícios que envolvem a força e a tonificação muscular. Halteres e bolas medicinais não são só para jovens. Com um grau de dificuldade progressivo, explica a professora que esses instrumentos podem ser usados para a prevenção de problemas relacionados com a diabetes e com a hipertensão. “Primeiro a resistência, depois a força e, mais tarde, o equilíbrio”, concretiza, realçando que se procura fazer determinados exercícios que acompanhem, de forma geral, as variadas maleitas que importunam quem chega ao pós sessenta e cinco. Profissão semelhante tem Noelie Sangiovo, função que desempenha no Ateneu de Coimbra, e para quem é necessário atender às “limitações de cada um”. Com a normalidade do hábito que faz o
monge, afirma a professora formada na Universidade de Santa Catarina, no Brasil, que uma prótese de perna lhe faz “mudar o plano do exercício”.
Papel de coesão integração social
e
Numa abordagem sociológica, Rui Machado Gomes, professor da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade
“Faltam projetos que promovam a prevenção de doenças”, afirma Noelie Sangiovo de Coimbra, afirma que, pese embora o desporto ser “passaporte para a saúde”, existe uma inconsistência de estudos que mostra não “haver prova científica de que o exercício físico tenha contribuído para o aumento da esperança média de vida”. No entanto, outros dados apontam para “relações epidemiológicas entre atividade física e a menor prevalência de certo tipo
de doenças”. O exercício poderá também ser encarado de outro modo. Se a imagem de um homem de cabelos grisalhos a dançar poderá não ser bem aceite, o professor explica que a arte performativa pode ser “usada como meio terapêutico”, pelo que, neste âmbito, ela poderá desempenhar um papel importantíssimo “na coesão e na integração social” neste ciclo da vida. No que respeita às condições sociais do desporto em geral, Rui Gomes defende a ideia de que, de há um tempo a esta parte, os estados sociais se têm vindo a afastar da responsabilidade nessa área, “remetendo para o cidadão individual a responsabilidade de assumir essa gestão através dos seus estilos de vida”. Noelie Sangiovo confere a tal facto contornos pejorativos, sublinhando a falta de valor que se dá ao exercício físico em idades avançadas. Por vezes, refere, poder-se-ia investir mais em “projetos que promovam a prevenção de doenças, do que com o tratamento dessas, muitas das quais sem cura”. “Ainda não é dado o devido valor ao desporto”, acrescenta a professora, nomeadamente no que toca às pessoas com idade mais avançada.
10 | a cabra | 14 de fevereiro de 2012 | Terça-feira
dEsporTo Prolongamento
Pagamento do estádio não é para já
BASQUETEBOL
Naquela que foi a terceira vitória consecutiva, a Académica foi a Barcelos vencer por 70-72, num jogo marcado pela lesão de Artnett Hallman. A equipa de Orlando Simões encontra-se agora no oitavo posto, mais seis que o último, a equipa do Casino Ginásio. A próxima jornada poderá ser decisiva na definição da tabela, uma vez que se defronta com o Vitória Sport Club, que está a apenas um ponto da Briosa.
F UT E BO L
No passado domingo, os estudantes foram alcançar três pontos ao campo do décimo primeiro classificado, o Touring, por 1-0, naquele que foi um regresso às vitórias. Sendo que apenas o primeiro classificado terá acesso à seguinte divisão e tendo em conta que os lugares de despromoção estão também já afastados de hipótese, a Académica encontra-se num confortável oitavo lugar.
A N DE B O L
A Académica foi perder, no passado sábado, dia 11, ao Municipal de Almeirim, por 22-30, num resultado que desilude por ser frente ao último lugar. Assim sendo, a equipa de Coimbra cai para o sexto lugar, e vê o primeiro a sete pontos. Ficam, para já, difíceis as perspectivas de luta pela promoção na terceira divisão nacional, zona centro.
V O LE I B O L
A contar para a segunda divisão nacional de voleibol, a equipa feminina da AAC venceu, no passado Domingo, dia 12 de Fevereiro, a equipa do Pacense, com os parciais de 3-1. Na segunda divisão de seniores, segunda fase, série dos primeiros, a Académica encontra-se no terceiro lugar, a apenas dois do próximo. A subida de divisão mantém-se, por isso, no horizonte das atletas conimbricenses.
Por Fernando Sá Pessoa
olga juskiewiczs
Apesar de o princípio do utilizador-pagador do Estádio Universitário de Coimbra devesse ter entrado em vigor no mês de janeiro, tais pretensões abrandaram Fernando Sá Pessoa Depois de ter havido um atraso nas negociações do princípio utilizador pagador, as atenções estão agora focadas num modelo de gestão partilhado, após o Conselho Desportivo (CD) e as secções desportivas da Associação Académica de Coimbra terem chegado a um consenso quanto a métodos de gestão eficiente do Estádio Universitário de Coimbra (EUC). Em relação à primeira abordagem feita pela Fundação Cultural da Universidade de Coimbra (FCUC), o tesoureiro do CD, Miguel Franco, afirma que “há pequenos males que veem por bem”. O que neste momento acontece é uma “grande aproximação entre o CD e a FCUC, pelo que essas decisões colocam a DG/AAC no centro da gestão do estádio”. A respeito desta matéria, a vice reitora Clara Almeida Santos admite que, numa fase inicial, terá havido “algum clima de tensão motivado pela mudança do histórico de relação”. No entanto, estando as negociações a decorrer agora em torno de um paradigma de gestão partilhada do EUC, a vice reitora congratula-se com o facto de que “o ambiente, neste momento, dificilmente poderia ser melhor”. Os intentos de um pagamento do EUC feito pelas secções desportivas da AAC a partir do dia 1 de janeiro não tiveram êxito, pelo que a primeira proposta, feita pela FCUC, foi devolvida pelo CD com uma contra-
Prosseguem as negociações de gestão do Estádio Universitário de Coimbra proposta. Apesar de “as coisas não se estarem a desenrolar com a velocidade que se desejava”, também por causa da recente mudança na direção da AAC, a vice reitora julga que, na pior das hipóteses, “a situação deverá estar resolvida no início da próxima temporada”. No âmbito da primeira abordagem por parte da reitoria, que Miguel Franco entende que seria “fatal para o desporto universitário”, o documento que veio a público apontava para cerca de duzentos mil euros anuais como valor de pagamento a ser comportado pelas várias secções utentes do EUC. Quanto às requalificações que foram realizadas pelas secções desportivas ao longo dos anos, Clara Almeida Santos justifica a sua não inclusão nas contas por “não serem exigidos pagamentos retroativos”.
Aumento das receitas de publicidade Nesta senda de propostas que o CD
fez, muitas já começaram a ser postas em prática. Miguel Franco e Clara Almeida Santos apontam como principal medida a revisão do regulamento de publicidade do EUC. O tesoureiro do CD critica o atual regime, apontando-lhe o cariz excessivamente burocrático. E concretiza que, “se uma secção quisesse um patrocínio de mil euros, o reitor tinha que autorizar as percentagens que iam para o estádio, para a secção e para os outros sítios”. Outras soluções têm sido também discutidas e já avançadas. São os casos da captação de água do subsolo para consumo próprio, como banhos. Para Franco, o esforço da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra tem, neste sentido, sido “essencial”. A racionalização da energia é igualmente foco de controlo, agora com a instalação de contadores de luz e de água em cada pavilhão do EUC, em detrimento de um contador geral que, nas palavras do membro
do CD, não permitia “controlar os gastos”. Entretanto, está também em agenda uma eventual campanha para o EUC celebrar os cinquenta anos, em 2013, num contexto de requalificação do estádio.
Negociações com CMC Do mesmo modo, numa proposta que os órgãos gestores do EUC têm, neste momento, em mãos, e que pretendem continuar a discutir entre si, poderá estar uma eventual fonte de receitas. Em causa está a construção de novos acessos ao Convento de São Francisco. Miguel Franco vê esta situação como uma hipótese favorável à estratégia de investimento do EUC. “A única coisa que a câmara pede é o terreno junto aos serviços administrativos, que atualmente é uma estrada”, adianta. Esses mesmos serviços seriam deslocados para outro sítio, pelo que tais encargos seriam comportados pela CMC.
Candidatura aos EUSA Games apresentada em 2013 A um ano da apresentação formal, a organização do evento depende do financiamento comunitário e passa pela melhoria das condições do Estádio Universitário Camilo Soldado Na XIV Gala Salgado Zenha, o presidente da direção geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Ricardo Morgado, anunciou a intenção de apresentar uma candidatura aos European
Sports Association (EUSA) Games de 2016. Para já, não passa mesmo disso, uma intenção, porque a candidatura não depende exclusivamente da vontade da AAC. A candidatura terá que ser formalizada até março de 2013, sendo que, até outubro, o dossier tem de estar “muito bem definido”. Ricardo Morgado acredita que, se a AAC conseguir cimentar pela terceira vez a condição de melhor da Europa no desporto universitário e apresentar uma candidatura bem estruturada, “ninguém nos tira” a organização dos EUSA Games 2016. O dirigente associativo esclarece que a candidatura é feita pela Federação Académica do Desporto Universitário (FADU), que depois
decidirá localmente. Mas o projeto passa também pela Secretaria de Estado do Desporto e Juventude, pela Câmara Municipal de Coimbra e pela Universidade de Coimbra, com quem a DG/AAC já conversou, tendo obtido luz verde para avançar. Para organizar um evento que o presidente da DG/AAC classifica como o maior acontecimento multidesportivo em Portugal depois do Europeu de Futebol de 2004, a académica terá que fazer algum investimento. Porém, Ricardo Morgado afirma que grande parte do financiamento virá “do estado, da União Europeia, da cidade e também da universidade”. Se Coimbra vir aprovada a sua
candidatura, a competição decorreria, maioritariamente, no Estádio Universitário (EU), que não possui atualmente condições para albergar um evento desta envergadura. O presidente da direção geral encara os EUSA Games 2016 como “oportunidade para dotar o EU e a cidade de infra estruturas que fiquem para a posteridade”, à semelhança do que foi feito nos Campeonatos Europeus de Ténis de 2010. A primeira edição destes jogos que decorrem de dois em dois anos acontece, em 2012, entre 13 e 23 de julho em Córdoba, onde estarão presentes atletas da AAC das várias modalidades. Também a DG/AAC estará representada na cidade espanhola.
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ciência & Tecnologia EntrEvista • José XaviEr, ciEntista polar
“A ciência que se faz no Instituto do Mar da UC tem sido de excelência” Filipe Furtado Paulo Sérgio Santos José Xavier, cientista polar, é investigador do Instituto do Mar da UC desde 2009 e soma já sete expedições à Antártida. Depois da licenciatura em Biologia na Universidade do Algarve, em 1997, rumou até Cambridge, onde também é investigador. Procura descobrir como os animais do polo sul se adaptam às alterações climáticas e recebeu, no último ano, o prémio Martha T. Muse, o “nobel” para a ciência polar. A paixão pelo mar e a vontade de levar a ciência a todos marcam o seu precurso. Como foi este percurso até à Antártida? Foi um processo relativamente simples, até era mais giro perceber por que é que segui Biologia. Sempre gostei muito do mar. Nasci numa vila, em Azambuja, que fica a 50 quilómetros da praia. Então, ir para a praia, para mim, era um privilégio. Sempre que estava na praia estava muito contente: praia, biquínis, ondas, sempre fiz muito desporto ligado às ondas. Estava de férias. Depois decidi que queria Biologia, e só a partir do terceiro ano de faculdade é que percebi que precisava de algo mais. Ir às aulas era porreiro, mas faltava algo, não sabia o que era ser cientista. Será que quero ser cientista? Será que quero dar aulas no liceu? O que é que eu vou fazer? Meti-me em vários projetos científicos com professores de que gostava. Passados dois ou três anos, entrei para estágio, falei com uma professora no Algarve e disse-lhe que gostava de dar o passo a seguir. No mundo ideal, eu queria trabalhar com o melhor do mundo. Então, havia um colaborador dela que estava em Cambridge. Já me conhecia há três anos. É raro um professor conhecer um aluno tão bem, já sabia o que era capaz de fazer, e perguntou-me: “gostavas de ir para Cambridge?”. Fui para Cambridge, acabei o estágio e gostaram tanto de mim a partir daí que trabalhei um ano para eles dentro do Instituto da Antártida, a British Antartic Survey, já a candidatar-me para doutoramento, e depois de doutoramento para pós-doutoramento. Fiquei como investigador convidado. Estou aqui como investigador e sou investigador em Cambridge. Isto começou em
97, até agora. Em 2005, voltei a Portugal e ajudei a estabelecer o comité Português para o Ano Polar Internacional. Recebeu, no ano passado, o prémio Martha T. Muse. Ganhei o prémio da fundação americana Martha T. Muse, que é o equivalente ao Nobel para a Ciência Polar. Agora, imagina: dão-te 100 mil dólares para a tua conta bancária, não é para a ciência. Tens americanos, ingleses, franceses que fazem ciência há 200 anos. Nós começámos há cinco anos. O impacto que tivemos foi muito grande. A ciência que se faz aqui, no Instituto do Mar da Universidade de Coimbra, tem sido de excelência. Estou aqui desde 2009.
Quais os objetivos das expedições à Antártida? O projeto tinha como objetivo compreender como os animais na Antártida são capazes de se adaptar às alterações climáticas ou não. O que fui estudar foram duas espécies de pinguim [Gentoos e Chinstrap], que se estão a reproduzir ao mesmo tempo na pior área do planeta. São pinguins adaptados às águas frias e é ali que as águas estão a aquecer rapidamente. O que queríamos ver era como é que estavam a lidar com isso e como é que estavam a competir por comida. A que resultados é que chegaram? Este ano, concluímos que estavam a comer a mesma coisa, o que para nós foi surpreendente. N ã o
felipe grespan
havia qualquer estudo de dieta naquelas colónias, Hannah Point e Sando Point, em Livingston Island. Estavam a comer a mesma coisa, o “krill”, o camarão do antártico, o elemento mais abundante. O que eu esperava, seguindo Darwin, é que se há duas espécies que estão a ocupar o mesmo habitat e a comer a mesma coisa, mais cedo ou mais tarde, uma vai desaparecer. Isto é a teoria. O que temos é duas espécies que se estão a reproduzir, a ocupar o mesmo habitat, a comer a mesma coisa e os mesmos tamanhos. Está aqui algo errado. A dinâmica como exploram o meio ambiente, que nós não conhecemos, começa a ficar interessante. O que queremos perceber agora é como estes animais exploram o meio ambiente quando vão à procura de comida, não sabemos isso. É o que queremos fazer no futuro: pôr pequenos “GPS tracking tags” nas costas deles, para saber a que profundidade e a que áreas vão.
Como é que se lida com os pinguins? Uma das coisas muito interessantes em relação à Antártida é que os animais não têm medo de nós. É engraçado: muitos deles, se não te mexeres, é que vêm para ao pé de ti. Claro que, se temos de os estudar, temos de ser mais proativos. Temos uma rede, do estilo de apanhar borboletas, mas mais rija. Depois, basicamente, é um “sprint” de dez segundos: agarramos os pinguins, sempre pelas pernas. Tínhamos o José Seco, estudante, que os agarrava contra o peito e, passados dez segundos, o pinguim relaxava. Agarrávamos o pinguim por cima das asas, não por baixo, medíamos o bico, retirávamos as penas e sangue. Era um procedimento de cinco a dez minutos. Marcávamo-los com uma pontinha preta, para não trabalharmos mais com aquele animal. O pinguim olhava para nós: “o que é que se passou aqui?”. E continuava com a sua vidinha. Como é viver na Antártida? Antes de ires para a Antártida, tens de te preparar psicologicamente. Há uma preparação de vários cenários, como lidar com pessoal que beba um bocadinho de mais ou alguém que tenha um problema de stress, algo que não tenhas equacionado. “Estou no fim do mundo, não me quero adaptar a isto e vou entrar em depressão”. Se vês um colega teu a fazer isso, como vais proceder? Isto é muito fácil, porque temos um plano de trabalho muito exigente. Preparar esta expedição demora dois ou três anos. Estás muito focado, estás m u i t o con-
centrado com a ciência. O navio abastece e recolhe coisas no início e no fim de cada época com comida para mais de um ano, para não haver problemas. A reciclagem é levada ao extremo. E a alimentação? Temos uma imagem de junho, de quando passou um navio e trocámos garrafas de whisky por um cesto de maçãs. Damos valor a essas coisas muito simples. Depois de dois ou três meses, passas das frutas e dos legumes para os congelados e enlatados. Tínhamos de cozinhar de quatro em quatro dias, limpar a base uma vez por semana. Tínhamos a noite do cinema às quartas e aos domingos; quem cozinhasse tinha de fazer uma sobremesa e depois víamos um filme a comer pipocas. E quem cozinha pode escolher a música. Ouvíamos a BBC e o relato da bola. A ligação com Cambridge é para continuar? É o ideal. Para sermos dos melhores temos de trabalhar com os melhores. O que queremos, em termos de estratégia, em Portugal, é trabalhar com os melhores - definimos como estratégia trabalhar com o Reino Unido, Espanha e Brasil. Espanha porque é aqui ao lado e já são bons; o Brasil porque fala a nossa língua, e o Reino Unido por que é dos melhores do mundo. Tenho trabalhado com eles desde sempre. Eles têm as bases, os navios. Têm uma infraestrutura que nos pode ajudar bastante. Depois dos vários programas educativos, como o Latitude 60!, acha que há uma maior recetividade em relação à ciência? Essa parte de mostrar o que se faz é o teu dever como cientista. Para seres pago pelos teus cidadãos tens o direito e o dever de mostrar esses conhecimentos. Se chegasse aqui, há dez anos atrás, nos sentássemos aqui nesta mesa e dissesse que estudo pinguins na Antártida… pronto, traz aí mais uma cerveja que este gajo está bêbedo. Era impossível. Quebrámos muitas barreiras psicológicas, mostrámos que somos muito jovens mas muito bons. Somos reconhecidos nacionalmente e internacionalmente, e temos essa preocupação educativa muito grande de levar a ciência a todos.
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Não te prives
Dez anos de luta contra o silêncio ea privação Não Te Prives. Nome e desafio da associação que desde 14 de fevereiro de 2002 luta por um abrir de olhos da sociedade face aos direitos sexuais. Dez anos depois, a legislação progrediu, mas mantém-se a necessidade de insistir na defesa do princípio da igualdade. “Quem precisa de ajuda é uma sociedade que discrimina”. Por Ana Francisco e João Gaspar
A evolução legislativa
d.R.
“E
u achava que era gay porque tinha sido abusado, mas depois percebi que não e hoje sou casado com uma mulher e tenho dois filhos”, testemunhava um jovem no instituto Justiça e Paz, em 2001, a convite de um pastor evangélico. O título do debate já fazia antever a tónica do discurso “Homossexualidade: doença ou pecado?”. Perante as convicções homofóbicas do pastor, numa das filas, um grupo de homens, marcou a sua posição. Levantaram-se, viraram as costas ao orador e saíram em fila, salientando a sua indignação através de uma postura corporal que pretendia vincar a sua sexualidade. Ana Cristina Santos, também presente no público, conta este episódio que despoletou a vontade de dizer basta. “Acabou-se. Acabou o tempo em que em Coimbra só se fala de homossexualidade nestes termos vergonhosos”. Sem doença nem pecado, surgiu em 2002 a Não Te Prives, grupo de defesa de direitos sexuais, que pretendia uma Coimbra mais diversa, que reconhecesse a diferença, as minorias sexuais e os direitos das mulheres. Para data de apresentação formal foi escolhido o dia de São Valentim, visto como oportunidade para abalar o pensamento heteronormativo da sociedade. Tudo isto num panorama, segundo a presidente da Não Te Prives, Ana Cristina Santos, “bastante desolador”, onde a palavra lésbica era tabu e a transexualidade não aparecia no léxico da sociedade. Dez anos depois, a Não Te Prives nota diferenças na população portuguesa. Exemplos pequenos, mas que vão reforçando a abertura à liberdade de escolha de cada indivíduo. Cristina Santos lembra uma funcionária do banco onde têm a conta do grupo que, depois de pedir informações sobre a Não Te Prives, se mostrou “bastante interessada” em conhecer melhor as atividades da associação. “Uma funcionária de um banco! Aqui há uns anos ficaria chocada”. Na reprografia da Associação Académica de Coimbra (AAC) também fica o registo de evolução: “Fui imprimir cartazes e os primeiros que estavam na ‘pen’ eram logo de uma campanha do Dia de São Valentim, com estudantes universitários, gays e lésbicas, de capa e batina, aos beijos. A senhora nem piscou o olho”, recorda a presidente da associação. “Tudo isto são sinais muito positivos de mudança. Há vitórias todos os dias”, afirma.
A Não Te Prives é um grupo de defesa de direitos sexuais, que pretende uma Coimbr Gays, Bissexuais e Transgénero (LGBT), o estereótipo da transexual com plumas – “uma imagem muito festivaleira, de carnaval, que não demonstra a diversidade das pessoas que participam”. No plano jurídico também se observaram grandes alterações nos últimos dez anos. O aborto foi despenalizado em 2007, o casamento homossexual foi aprovado em Assembleia da República em 2010 e, em 2011, a Lei de Identidade de Género permitiu a mudança de nome e de género em Portugal. Contudo, segundo a docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), Virgínia Ferreira, é necessário que, para além das mudanças legislativas, haja uma consciencialização da sociedade para que estas sejam de facto seguidas. Este “processo longo e não linear” deve ser uma preocupação política, que incorpore “uma missão pedagógica de, a pouco e pouco, fazer com que as pessoas reconheçam a legitimidade e racionalidade daquela regulação”. Apesar de se encontrar nas leis “um discurso aparentemente progressista e permissivo”, a socióloga considera que tal pode não se verificar na prática, classificando a população portuguesa como “conservadora”.
“Há um discurso aparentemente progressista e permissivo, mas a população é conservadora”
Também nos media, Cristina Santos vê hoje um discurso mais consciente e com uma maior sensibilidade: “nota-se uma evolução tremenda. As imagens que são escolhidas são menos estereotipadas, há uma maior preocupação em escolher os termos corretos e os ativistas são vistos como fontes de informação”. Ainda assim, é inevitável encontrar, nas marchas do orgulho Lésbicas,
Mobilizar a sociedade Em dez anos de ativismo, Cristina Santos e Mário Dinis destacam dois momentos que consideram “marcantes” na história da Não Te Prives. O primeiro surge em 2004, na campa-
nha “Fazer Ondas”, em que a associação, em conjunto com outras três, convidou a Women on Waves para vir a Portugal com o seu barco-clínica, disponibilizando-se para administrar uma pílula abortiva às mulheres portuguesas, numa altura em que a lei criminalizava a interrupção voluntária da gravidez. Feito em águas internacionais, vigorava, assim, a lei do país onde o barco estava registado, ou seja, a lei holandesa. “Teve uma grande repercussão tanto a nível nacional como internacional e o tema nunca mais saiu da agenda política até ter sido resolvido em 2007”, atesta Cristina Santos, destacando o contributo que a Não Te Prives deu para a maior campanha montada em termos de mobilização da sociedade civil para um tema de saúde reprodutiva em Portugal. O caso foi também marcado pelo impedimento, por parte do Estado português, de o barco atracar em território nacional. “Foi pior emenda que o soneto, porque acabou por favorecer uma maior ampliação mediática”, explica Mário Dinis. “Houve uma grande quantidade de pessoas que se ligaram ao ativismo feminista ou LGBT, que começaram como voluntários neste projeto”, conta Cristina. O outro momento surgiu de um sonho, de uma quase “utopia” – organizar uma marcha de orgulho LGBT em Coimbra. A Não Te Prives já coorganizava a marcha em Lisboa, desde o seu ano de fundação, contudo, em 2010, Coimbra viu as cores do arco-íris invadir as ruas da cidade. “É comovente perceber-se a quantidade e diversidade de pessoas que aparecem na marcha”, afirma Cristina, salientando a dimensão cívica do evento que, a 17 de maio, se realiza pela terceira vez, em parceria com outros agentes da cidade.
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Não te prives Uma associação que se quer de todos Em 2001, o projeto começou a ser discutido por um grupo de pessoas, muitas delas ligadas à academia. “Sentíamos a necessidade de ver espaços diversificados na cidade, de haver um maior reconhecimento perante a diferença, perante as minorias sexuais, mas também em relação aos direitos das mulheres”, explica a atual presidente da Não Te Prives, Ana Cristina Santos. A ideia de juntar estes diferentes campos de ação num mesmo grupo de ativismo reside no facto de os processos de discriminação serem semelhantes. “O patriarcado, o machismo, o sexismo, estão intimamente relacionados com a estigmatização de gays, lésbicas, bissexuais e transgéneros”, conta a presidente. A socióloga Virgínia Ferreira considera que esta associação “deu um contributo muito relevante para as questões dos direitos sexuais e reprodutivos na cena coimbrã”. “Foi fraturante o seu desenvolvimento, as suas imagens, as suas iniciativas”, reitera. Das campanhas e eventos organizados pela Não Te Prives, pode-se destacar mensagens alusivas ao dia dos namorados, ciclos de cinema, um debate sobre a presença das mulheres no associativismo estudantil, conferências em torno do feminismo, coorganização da marcha do orgulho LGBT em Coimbra desde 2010 e da marcha em Lisboa desde 2002 e sensibilização para a despenalização do aborto. Ana Cristina Santos, sobre a associação a que preside, considera que a mesma “desconstrói o gueto: não temos apenas mulheres a lutar pelo direito ao aborto ou apenas gays e lésbicas a lutar pelo reconhecimento dos direitos das pessoas LGBT”. Ou seja, sendo “uma questão de direitos humanos, diz respeito a todos”.
oimbra mais diversa, que reconheça a diferença, as minorias sexuais e os direitos das mulheres.
O impeditivo das instituições religiosas As instituições religiosas apresentam também um entrave social, através de um discurso conservador que promove, de forma indireta, a discriminação. Todavia, na Não te Prives, encontramos em dois dos seus fundadores, cristãos assumidos. Mário Dinis e Cristina Santos frisam a influência da religião no incutir de valores e normas adversos à homossexualidade ou à emancipação feminina. Porém, lembram que tudo passa pela “má educação religiosa”, como explica Mário Dinis: “é uma grande frustração ver que as instituições consideram que ser-se homossexual é um grande pecado”. “Não são os princípios cristãos, nem a bíblia sequer, que criam impeditivos. Porque não se pode usar uma passagem para legitimar o meu preconceito, mas ignorar outra passagem por achar que levar chibatadas não é correto”, exemplifica. O discurso religioso “não é incompatível com a liberdade de escolha, mas vários sofrem no silêncio, numa homofobia eternizada”, afirma a presidente. Mário Dinis conta que muitas das pessoas tentam “passar completamente despercebidas na comunidade católica”. Porém, a solução, de acordo com Cristina Santos, “passa por combater esse silêncio e mostrar diferentes caminhos”.
O contexto académico Estando sediada em Coimbra, é impossível afastar a Não Te Prives de um contexto académico, onde as tradições têm peso. “Por um lado esta cidade tem todo o potencial para ser aberta, tendo uma população flutuante, mas por outro há uma coisa chamada fado, cantado por homens, há a praxe e há dinâmicas de poder e homofóbicas”, expõe Cristina Santos.
A também investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES), apesar de considerar que há hoje um trabalho mais profícuo com a AAC, lembra que esta “não pode usar o seu poder simbólico só para dar estatuto, mas também para se envolver numa ótica de responsabilidade social”. A presidente do grupo lamenta que tenha havido episódios em que se formaram “autênticos muros erguidos a partir da AAC” na questão de tentativas de parceria entre as duas instituições. A atual presidente do conselho fiscal da Não Te Prives e antiga presidente do mesmo grupo, Magda Alves, recorda situações constrangedoras aquando da sua passagem pelo dirigismo associativo na AAC. Em 2004, ajudou a organizar um movimento de solidariedade para com as mulheres que estavam a ser julgadas por terem abortado. Refere a sua ingenuidade ao ter colocado o seu número pessoal nos cartazes de divulgação. “Recebi chamadas anónimas a dizer «tu é que és um aborto»”, conta. Já enquanto membro da direção-geral de Fernando Gonçalves, Magda promoveu um debate sobre a homofobia na universidade, em que recorda que vários dos cartazes foram rasgados pelos próprios membros da direção. Apesar da evolução positiva no panorama nacional, Magda acredita que, nos últimos tempos, “houve um retrocesso” no contexto estudantil: “eu não vejo, hoje, uma AAC a abordar estes temas, muito ou pouco, de forma emancipadora e assumindo-os como seus e não
indo a reboque de outras iniciativas”. Embora critique a posição da associação, enaltece o trabalho conjunto com a Secção de Defesa dos Direitos Humanos da AAC, numa parceria no âmbito da Plataforma Anti-Transfobia e Homofobia. Com uma população jovem, Magda Alves vê em Coimbra potencial de abertura, contudo considera que é necessária uma maior componente reflexiva no seio da academia, tanto em relação ao património histórico, tradição, praxe ou fado. “Reproduzimos estereótipos de género, lemos a história da universidade de uma determinada forma, ocultando outras, não abrindo bandeiras que podiam ser mais e melhores”.
“Tolerância é paternalista. Quem tolera não é quem é igual”
A sociedade é que precisa de ajuda De quando em quando, encontra-se o verbo tolerar agregado a assuntos ligados com a homossexualidade ou transexualidade. Contudo, esse mesmo verbo é rejeitado pela Não Te Prives: “tolerância é paternalista. Quem tolera não é quem é igual”, assegura a presidente do grupo. “Não gostamos dessa palavra. Preferimos respeito, defesa, aceitação – uma lógica de aprendizagem mútua”. Para Cristina Santos a diversidade tem de ser reconhecida como valor. E é nessa mesma lógica que Cristina Santos rejeita o rótulo de grupo de autoajuda para a Não Te Prives. Daí a presidente deixar algo muito claro: “quem precisa de ajuda não são as pessoas lésbicas, gays, mulheres, quem precisa de ajuda é uma sociedade que descrimina”.
10 anos em 10 dias 14 a 23 (18h) Inauguração da exposição "Não te prives: 10 anos a mudar Coimbra" (Casa das Artes)
15 (18-20h) Debate 'Ligações Perigosas?' Ativismos e Estudos Feministas e LGBT (Casa das Artes) 16 (12h30) NTP na Rua: distribuição e colagem de material 18 (21-23h) NTP na Rua: distribuição de material informativo e de prevenção de IST's (Praça da República) 19 (16-18h) De pequenin@ se torce a discriminação: Sessão de contos inclusivos e pinturas faciais; parceria PAHT (Casa das Artes) 20 (21-23h) NTP na Rua: distribuição de material informativo e de prevenção de IST's (Praça da República) 21 (22h) Linguagens homo/eróticas e feministas - leituras (Bar Quebra) 23 (17-19h) Seminário sobre Sexualidade Queer e Homonormatividade; parceria Gender Work Series (Centro de Estudos Sociais) 24 (8-13h) Sessões sobre Violência no Namoro e (Des)igualdades de Género (Esc. Sec. José Falcão) 24 (20h) NÃO NOS PRIVAMOS! Jantar de encerramento com sorteio de Cabaz de Direitos Sexuais
14 | a cabra | 14 de fevereiro de 2012 | Terça-feira
Cidade Rendas “incomportáveis” agravam negócios da Baixa Comerciantes da Baixa queixam-se de “rendas astronómicas” no rés-dochão. Muitos preferem fixar-se no primeiro andar ou fora do centro para fugir aos preços altos Ana Morais “Rendas incomportáveis” e “preços exorbitantes” - é desta forma que os comerciantes da Baixa da cidade classificam as rendas mensais que pagam aos senhorios. Um passeio mais atento por esta zona consegue denotar as várias montras com a palavra de ordem “arrendase” e com os imensos números de telefone que pedem quantias astronómicas a quem queira abrir um negócio. O presidente da Agência de Promoção para a Baixa de Coimbra (APBC), Armindo Gaspar, conta
que “há uns meses as lojas encerradas representavam dez por cento” do comércio daquela zona. O presidente da APBC justifica os encerramentos com os preços praticados, o que faz com que os comerciantes “não tenham rentabilidade e por inerência de despesas acabem por fechar o estabelecimento”. Soluções? Armindo Gaspar explica que já foi feito um trabalho de sensibilização com os senhorios, para baixarem ou aumentarem gradualmente os preços das rendas. Contudo, a maioria dos proprietários não reside em Coimbra: “muitos estão no estrangeiro e não vivem os problemas da cidade”, critica o presidente da APBC. Outra solução consensual para os comerciantes é o aumento do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) aos senhorios que insistam em pedir valores elevados e mantenham as lojas fechadas. No entanto, o vereador da Habitação da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), Francisco Queirós, considera que “o aumento
do IMI só por si não resolve” esta especulação. Queirós acrescenta que o agravamento do IMI já é uma penalização para os senhorios que não fazem obras, mas “não tem sido suficiente”, assegura o vereador. Os comerciantes contam que através da APBC já fizeram chegar à CMC vários pedidos de ajuda para reavivar o comércio da Baixa. Porém, o vereador da Habitação lamenta que no caso das rendas elevadas “a autarquia tem muito pouco poder de intervenção”, visto que são preços de mercado, relacionados com as leis em vigor. “É uma questão do âmbito do Estado Central”, lastima Francisco Queirós. Ainda assim, o vereador adianta que “a CMC tem que resolver rapidamente as situações da Baixa”. Para tal, sugere que se “comecem de imediato as obras de requalificação, para que Coimbra tenha o seu centro histórico reavivado”.
Testemunhos Com o pronto-a-vestir “Gang of
Four” na rua Visconde da Luz, Francisca Moreira decidiu fixar-se no primeiro andar, uma vez que a renda “ficava a um sexto” do que lhe foi pedido num espaço do résdo-chão. A jovem comerciante contesta que “há muita gente que não olha para o primeiro andar e não há mesma facilidade de as pessoas entrarem”. José Alberto, sócio da loja “Festinoivos”, adquiriu um espaço na zona do Arnado e justifica: “não estou no centro porque as rendas lá eram incomportáveis”. O comerciante prefere a descentralização aos “preços exorbitantes pedidos no centro histórico que rondavam os 5000 euros”. O proprietário da loja “Casa dos Enxovais”, José Marques, não partilha do mesmo problema dos casos anteriores, uma vez que é o proprietário do prédio em que se situa a loja. Porém, faz questão de alertar para que “a Baixa está com imensos problemas de falta de obras”. Uma das proprietárias do estabelecimento “Rúben”, Cristina
Barreto, apesar de pagar uma renda antiga, que considera “razoável”, afirma que se nota um “efeito degradado e deprimente nas lojas fechadas”. Armindo Gaspar lamenta o facto de que “vai haver cada vez mais lojas encerradas”. José Marques propõe que se abra de imediato esta zona ao trânsito, uma vez que “contribuiu para o melhoramento do comércio”. Cristina Barreto faz também um apelo: “as pessoas tem que ter consciência de que quando vão ao “shopping” estão a enterrar o dinheiro em dois ou três grupos grandes e contribuir para os monopólios que tanto criticam”. Com o Novo Regime do Arrendamento Urbano, que entrará em vigor em meados deste ano, o vereador da Habitação mostra-se preocupado não só com o arrendamento de espaços comerciais, mas também com o habitacional. “Tem de haver um papel mais forte do Estado na regularização do mercado de habitação”, protesta. Felipe Grespan
Os preços elevados cobrados pelos senhorios da Baixa, estão a contribuir para o encerramento de vários espaços comerciais da zona
Utentes e SMTUC sem consenso quanto às novas alterações Com as alterações introduzidas nos transportes municipais no início deste ano, SMTUC reclamam progresso, mas utentes queixam-se de algumas falhas Ana Morais “É um processo complexo”, afirma o administrador dos Serviços Municipalizados dos Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC), Manuel Correia de Oliveira, referindo-se às novas alterações, nas tarifas e nos cartões, introduzidas no início do corrente ano. Assim, Correia de Oliveira faz questão de alertar que está a ser um “processo gradual”, para que os SMTUC possam informar as
pessoas e “evitar as anomalias que possam surgir”. O administrador explica que o novo sistema “é a última palavra em sistemas de bilhética e é utilizado pela maioria das empresas de transporte da Europa”. No total, este método está implementado em 70 países, explica. As grandes alterações prendem-se com o novo cartão intransmissível “Coimbra ConVIDA”, com o custo de 50 cêntimos, que pode ser carregado com três a 20 viagens. O passe, com o mesmo nome e que serve para todos os perfis, tem o custo inicial de seis euros, para além das mensalidades de cada escalão. Segundo o administrador dos SMTUC, estas alterações servem para “evitar abusos e para permitir números mais fiáveis”. Quando questionado sobre o aumento dos transportes de Coimbra, inferior ao do panorama nacional, Manuel Correia de Oliveira res-
ponde: “a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) entendeu que os tarifários são um dos apoios sociais mais importantes”, tendo subido este ano cerca de cinco por cento, valor inferior à média nacional. Correia de Oliveira alerta ainda para o facto de os SMTUC dependerem exclusivamente do município: “não recebemos mais nenhum tipo de subsídio ou apoio externo”. Segundo o administrador ainda não é possível fazer um balanço dos utentes após as novas alterações, uma vez que “a implementação está a ser feita de forma gradual” – no entanto, “a perceção é de que a procura se mantém”.
Voz de quem viaja nos SMTUC Cristina Santos, utilizadora frequente dos transportes públicos, diz que “as novas alterações são só para [os utentes] gastarem mais di-
nheiro”, uma vez que é necessário comprar o cartão e depois carregálo com as senhas. Gabriele Sifeli, também utente dos SMTUC, conta que com o novo cartão passou a ser mais “difícil de comprar”, uma vez que antes a maioria das bancas de jornais tinham os antigos cartões magnéticos; o novo só pode ser adquirido nas lojas SMTUC. Para além da dificuldade de acesso é também apontada por Cristina Santos a falha de os utentes não saberem quantas senhas têm ainda disponíveis. “O método anterior era melhor”, assegura Cristina antes de sair apressada apanhar o autocarro. Manuel Correia de Oliveira explica que, no caso dos estudantes, as novas tarifas praticadas são responsabilidade da CMC, que contrariou a diretriz do Estado e comparticipa os passes em mais 25 por cento do que o que se pratica no resto do país. Augusto Nunes conta que, ainda assim,
deixou de comprar o passe sénior “porque exageraram no preço”. “Há cada vez menos seniores nos carros”, observa.
Reclamações e Inovação O administrador dos SMTUC alerta também para o facto de não se extinguirem autocarros. Correia de Oliveira afirma que se procedeu apenas a uma “adaptação e racionalização de horários”. Segundo Correia de Oliveira, é também necessário a renovação de frota – contudo, o apoio, proveniente do Plano de Investimento da Administração Central, não chega há dois anos. Quanto a inovações, os SMTUC apresentam projetos ambiciosos, como o Plano SanusMobilis, um programa de mobilidade especial para o Instituto Português de Oncologia, para o Hospital Pediátrico e para o Centro Hospital Universitário de Coimbra.
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Cidade Desemprego
Transversal à economia, a Coimbra e às pessoas indústria, comércio, serviços – a crise é transversal a todos os setores económicos. de jovens qualificados a desempregados já à espera da reforma, a cidade torna-se o reflexo da realidade nacional e complexa do desemprego. É pelos seus números que, em 2011, Coimbra se destaca. Por ana Morais e inês amado da Silva
E
m junho de 2010, a Poceram, fábrica de produtos cerâmicos, enfrentava a liquidação. Em 2006, a Ceres, empresa da mesma área, fechava. Em outubro de 2001, marcava-se a falência de uma das últimas grandes fábricas de Coimbra, a Cerâmicas Estaco. Durante décadas, a cidade albergou várias empresas da área, e de há 20 anos para cá que Coimbra vê perder grande parte da sua indústria. Falências que, entre outros vetores, vêm contribuindo para os números do desemprego, que assolam progressivamente o distrito. Segundo dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional, Coimbra foi, entre agosto e dezembro de 2011, o segundo distrito do país que mais viu crescer a sua taxa de desemprego em relação ao mesmo período do ano anterior. Números que escondem uma realidade qualitativa ainda mais dramática e que espelham a escalada descendente da economia. Pedro Araújo, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, fez do encerramento da Estaco um estudo de caso. “Os 45 anos são um ponto de viragem para o recrutamento no trabalho”, assegura. O investigador fala, assim, de uma “resignação recíproca” por parte dos serviços do Estado e dos trabalhadores no que toca à reintegração dos desempre-
ana MOrais
gados no mercado de trabalho. A mesma realidade repete-se agora: dos cerca de 7000 desempregados só no concelho, 3137 têm entre 35 e 54 anos. O representante da União dos Sindicatos de Coimbra, António Moreira, compõe este cenário: “nos últimos 15 a 20 anos, a cidade perdeu 150 empresas de referência, que atiraram para o desemprego mais de 6000 trabalhadores”. E, “por causa da crise económica”, lamenta Pedro Araújo, “os primeiros a sofrer são sempre os trabalhadores mais velhos”.
Situação transversal na economia “Desde cabeleireiras e contabilistas a pequenas oficinas automóveis: todos estão a atravessar uma grave crise, pois estão associados ao nível de consumo das famílias”, enumera Paulo Mendes. Assim, o presidente da Associação Comercial e Industrial de Coimbra não se inibe de apontar o comércio e os serviços como áreas que mais vão atirando trabalhadores para o desemprego. António Moreira expande a análise ao distrito e não esquece que “o encerramento dos estaleiros [navais da Figueira da Foz] foi determinante”. Outra parcela significativa destes números é preenchida por docentes que não conseguiram colocação e que no último ano fizeram, segundo
Os cartazes e palavras de ordem referentes ao desemprego fizeram-se notar no Terreiro do paço Moreira, “disparar” a estatística.
fez-se sentir, rondando os 1500 participantes. A presença fez-se, em maioria, por faixas etárias afastadas entre si, das quais emergem diferentes perfis de desempregado. O perfil mais recente desenvolve-se entre os jovens, como lamenta António Moreira: “têm qualificações altíssimas, a atividade que desenvolvem não é
1500 de Coimbra em Lisboa Na manifestação nacional do passado dia 11, no Terreiro do Paço, em Lisboa, a representação de Coimbra
Mário vilAS 46 AnoS
“estou sem emprego há um ano e meio. Antes de estar nesta situação trabalhava na Marcopolo, uma fábrica de carroçarias. A empresa era em eiras, mas fechou em agosto de 2009 e, ao que parece, mudaram a fábrica de sítio. Apesar disso, pagaram-me tudo, não me ficaram a dever nada. desde aí já tenho procurado emprego, um pouco por todo o lado, durante este ano e meio. Procuro sobretudo na área da soldadura, que era onde trabalhava. estou no fundo de desemprego, recebo o ordenado e até já fiz um curso. no entanto, continuo à espera, tenho tentado todos os dias. eu em casa não faço nada”.
CAtArinA Albuquerque 18 AnoS
“estou à procura do meu primeiro emprego, para que possa pagar as propinas no próximo ano letivo, o que até agora ainda não consegui. É me impossível pagar as propinas de outra forma, mas temo que se não é possível agora, para o ano seja mais complicado. Procuro em todas as áreas, tenho enviado currículos para todo o lado, desde ‘call centers’ a centros comerciais, tudo o que der. tenho procurado só na cidade, porque como não tenho automóvel não me consigo deslocar para a periferia. estamos todos a sentir um grande aperto. Apelo aos nossos governantes que reparem que nós não somos números, somos pessoas com direitos”.
AldinA SilvA 41 AnoS
estou desempregada há seis anos, desde que fui dispensada do Hotel das termas da Curia, depois de estar de licença de maternidade da minha filha mais nova. quando regressei, já não me quiserem no meu posto de trabalho. trabalhei lá 17 anos, não tinha folgas e feriados e depois de ter a minha filha, fui sacudida. Já procurei mais empregos mas não tenho conseguido, porque tenho filhos pequenos e os patrões querem que esteja sempre disponível para entrar a qualquer hora. Já não recebo o subsídio do fundo de desemprego, o meu marido não recebe desde novembro e tenho que manter 3 filhos. É muito difícil, o governo devia olhar mais às dificuldades das famílias.
ana MOrais
deSeMPregAdoS nA PriMeirA PeSSoA
compatível com o seu grau de formação e são-lhes oferecidos salários muito baixos”. Pedro Araújo resume: o desemprego “é uma realidade muito complexa. Quando se criam medidas destinadas a um determinado perfil de desempregado, quem é que se está a deixar de fora, quem é que se está a incluir?”.
16 | a cabra | 14 de fevereiro de 2012 | Terça-feira
PAís Código do Trabalho
A legislação da reforma laboral deixa de lado medidas de criação de emprego Novos contornos laborais são reformulados perante uma obrigação prevista no memorando de entendimento português. As recentes alterações na causa do despedimento, e a estipulação de objetivos a que o empregado se predispõe a acatar, colocam a precariedade e a falta de emprego em evidência, mais uma vez. Por Liliana Cunha
E
m prol da competitividade e produtividade do trabalho em Portugal. A inscrição da nova alteração ao código de trabalho presente na proposta de lei 53/2011 pressupõe mudanças estruturais em termos de causas de despedimento e compensações remuneratórias. Muitos se debateram por mutações ao nível do aumento de uma possível meia hora de trabalho, por um reajustar do salário nacional, e por uma maior transparência nos contratos. Colocar o “desenvolvimento das empresas portuguesas, ao nível do quadro que muitas das suas congéneres europeias dispõem”, como afirma o dirigente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Gregório Novo, é o pacto tácito desenvolvido num acordo de concertação social. Este, gerou de
igual modo uma extensa discussão entre os representantes do executivo e unidades sindicais. “São precisos objetivos realistas, razoáveis para um trabalhador médio, não para um super
“Não há outra alternativa, escusam de andar a inventar” - Gregório Novo homem”, atenta o professor da faculdade de direito da Universidade de Coimbra, João Leal Amado. À margem de uma conferência sobre as alterações em matéria jus laboral, o docente abordou a temática
“Facilitismo. Não sei o que isso é”. Gregório Novo vai de encontro à opinião de Leal Amado e não encontra subjetividade no terreno do despedimento. Acredita que tem de haver uma conjugação de esforços para desenvolver as empresas e criar novas. “Não há outra alternativa, escusam de andar a inventar”, esclarece. Dada a conjuntura atual é preciso ousar e a competitividade é condição obrigatória: “se não a tivermos é como se nascêssemos para a curto prazo morrer”, conclui o representante da CIP.
dos objetivos a que cada trabalhador se sujeitará a cumprir aquando da sua contratação. E a possibilidade de despedimento por incumprimento cabe na nova formulação da lei. O mesmo, acredita que os objetivos fundam “o despedimento e não uma possível retribuição”. O empregado aproxima o seu contrato deste modo a uma possível prestação de serviços ao conceder a fixação ao empregador. “O trabalhador adere, o empregador fixa”, esclarece Leal Amado. Pela cessação de contrato chega o despedimento. E encontra novos contornos. A inaptidão ou falta de competências para corresponder ao pretendido são justa causa. Nomeia-se a incapacidade tecnológica ou de equipamento para exemplo. “O despedimento objetivo passa a subjetivo”, levanta o docente.
Rigidez laboral “O emprego é um bem escasso”, repete o docente de direito do trabalho. Todas as reformas têm em vista o melhoramento e a correção de desacertos já calculados, sendo que a globalização transforma a lei
de mercado num “mercado de leis”, declara João Leal Amado. Sendo uma imposição, a reforma teria obrigatoriamente de ser feita e “é muito mais que as alterações à legislação laboral”, justifica o representante da CIP. O mesmo adianta que “ainda há muito por fazer”. Esta é a terceira revisão ao código de trabalho português que data de 2003. Vem no momento onde a contenção é a palavra-chave no país. Imposta no memorando de entendimento e flexibilizando o mercado de trabalho, a mesma aumenta a preocupação no que concerne aos contratos a termo, e até mesmo às situações precárias em que milhares vivem: o empregador resolve não assinar o contrato do assalariado e limita grosso modo as oportunidades de trabalho. Inês BaçreIra
alteração legislativa ao código de trabalho prejudica a criação de emprego
Renegociar a dívida portuguesa pode impedir novo empréstimo
Liliana Cunha Ser um bom aluno implica organizar, ter método e fazer cumprir as suas obrigações. Esta conotação tem vindo a aplicar-se a Portugal para ilustrar a condição em que vive relativamente à sua condição económica. A dívida pública e privada portuguesa alimentam o quotidiano de milhões de portugueses que veem ameaçada a segurança económica nacional. Porém, en-
quanto a maioria pensa que a dívida deve ser totalmente saldada, outros há que defendem uma renegociação desta. “A melhor ferramenta é ir contra o senso comum e combater o mito”, defende a economista Mariana Mortágua. O senso comum é a consciência geral de que é necessário saldar toda a dívida que Portugal contraiu e que agora se afronta pelo resgate financeiro onde o credor é uma entidade a que todos apelidam de troika (Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia). À escala mundial existe a perceção de que “toda a dívida é imoral e prejudicial ao Estado”; “a austeridade era inevitável” e “os sacrifícios compensam”,no entanto, nas palavras da economista, a dívida é um instrumento para o Estado. “Injeta economia quando ninguém o faz”, clarifica e acrescenta que este é o
primeiro mito a desconstruir. A premissa da renegociação da dívida ou reajustamento do plano financeiro aplicado a Portugal chega porque nem toda a dívida contraída é explícita. “O que contribui são os fossos das empresas públicas”, designa o também economista e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), José Castro Caldas. A falta de transparência na apresentação da nascente da dívida levou à criação de uma comissão para a auditoria cidadã à dívida pública portuguesa, para segundo o mesmo “dar consciência às pessoas do que de facto temos pela frente”.
Iminência de um novo resgate O contrato entre credor e devedor deve ser legitimado como um acordo de obrigações mútuas. Todavia, os juros praticados pelo em-
préstimo da troika ascendem a quase metade do valor total : 34, 4 milhões de euros dos 78 milhões concedidos são o pagamento de juros do mesmo. E daí surge esta necessidade em renegociar o pagamento, porque “a dívida está a ser amortizada por quem beneficiou”, esclarece o economista do CES. A dívida, seja de que índole for, “não pode conduzir à servidão do devedor”, ressalva. “É no plano jurídico e mental que Fotomontagem por Carlota reBelo
A reestruturação da dívida tem vindo a ser contrariada por Portugal. Contudo, perante a ameaça de um novo resgate renegociar pode ser a solução
se desenvolve esta batalha”, justifica Castro Caldas. Assim, se se classifica o não pagamento de uma parte da dívida como uma luta, o caminho feito até agora “não nos leva ao pagamento da dívida”, acrescenta. Um novo resgate financeiro segundo os entendidos pode estar à porta em 2013 quando o atual acabar: “acaba o dinheiro e se a situação for homóloga os dados estão lançados”, remata o economista.
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MUNdo marIa garrIdo
O excesso que vem à rede é peixe No mundo inteiro, o desperdício de peixe ronda os 27 milhões de toneladas. 23 por cento do peixe capturado nas águas da União Europeia é deitado ao mar já morto, o sistema de regulação de quotas é falível e a reforma da Política Comum de Pescas é um processo que deve estar em constante adaptação. Por Maria Garrido
P
elas nove horas da manhã de quarta-feira, a Lota da Figueira da Foz encontra-se quase deserta. Estamos em época baixa da sardinha e os pescadores não andam muito ao mar. Entre dois armazéns, correm-se uns largos metros até encontrar Paulo David e Fernando Santos, ambos pescadores. Era no entanto entre as amarras e as cordas, em terra, que esperavam o final do seu dia. Trabalham madrugada fora, pescam consoante as quotas, pescam excedentes. Quando é assim “sai borda fora. E peixe já morto!”, confirma Fernando Santos. Se o trabalho é desvalorizado? “Claro. A gente apanha o peixe para depois o deitarmos fora? Há muita gente que precisa de comer”. “O trabalho acaba por ser desvalorizado porque é um mal que é feito”, acrescenta Paulo David. “A gente não sabe para onde é que o peixe vai”. Fernando Santos propõe uma solução ao peixe que se encontra ainda em condições: “devia-se ajudar instituições”. Quanto a prejuízos, Fernando Santos acredita que os mesmos se irão sentir nas gerações futuras. “Vamos para o mar e temos de apanhar o que vem à rede”, finaliza o pescador. Já dizia o ditado: tudo o que vem à rede é peixe. Mesmo o excesso. Mesmo que depois regresse ao mar. “Excesso de pesca
há sempre, houve sempre e vai haver sempre”, começa por afirmar o professor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e também diretor da Estação Litoral da Aguda (ELA), Mike Weber. Desde logo o professor alerta para um “futuro dramático”, notando que se estima que em 2030 a população mundial irá chegar aos oito mil milhões e com isto não haverá satisfação no consumo. Com uma visão mais otimista, o também professor do ICBAS e especialista em qualidade de pescado, Paulo Vaz Pires, não considera que estejamos atualmente a viver uma sobre-exploração dos oceanos, acreditando que a mesma tem sido até, nalguns casos, menor: “Na maior parte dos casos os recursos estão a estabilizar”, assevera. Não excluindo que “os desperdícios não são aceitáveis”, o professor realça que devido às tecnologias de extração “apenas os podemos reduzir”.
Sistema de quotas Para qualquer caso de exploração de recursos há regulamentos de controlo. É então que entra a questão do atual sistema de quotas e de outras medidas de regulação de stocks. “O que temos atualmente é o resultado de uma evolução bastante longa que houve na tentativa de gerir os stocks de pesca existentes”,
cas medidas disponíveis: “Também já temos as redes, as licenças, já há o ato de embarcações e inspetores na zona dos barcos”.
expõe o docente do ICBAS, António Afonso, que acredita ser a solução das quotas a “mais razoável” apontada ao longo do tempo. No entanto, são apontados defeitos e falhas a este sistema. “É claro que quando estas regras são impostas e se começa a funcionar com elas, começa-se a perceber que tem pequenas falhas que devem ser corrigidas”, constata António Afonso. Paulo Vaz Pires vê o sistema de quotas como “pouco equilibrado e com graves defeitos” lembrando, ainda assim, que estas não são as úni-
Posto que não há nenhuma regra que impeça o pescador de voltar a deitar o peixe ao mar, sobre os responsáveis pela Política Comum das Pescas, António Afonso remata: “Se a Comunidade Europeia, permitir que venham peixes não aceitáveis ou tamanhos não indicados que possam ser desembarcados, esse
marIa garrIdo
marIa garrIdo
UE:Política Comum de Pescas
seria o princípio do fim da regulação de stocks”. Questionado sobre se deveria haver uma reforma da Política Comum de Pescas, António Afonso é assertivo: “Tem de haver em permanência”. Numa espécie de apelo, o docente dirige-se à Comunidade Europeia: “Que continuem a estudar a melhores formas de organizar e de criar regras melhores para que as pescas não sejam um desastre na altura dos nossos filhos!”
Campanhas e medidas contra o desperdício Em 2010, chega a Portugal uma campanha de sensibilização contra a prática de deitar peixe consumível ao mar – Fish Fight. Confrontado com a dúvida face ao impacto deste tipo de iniciativas de opinião pública, António Afonso determina-as como “essenciais”, uma vez que “ajudam a pressionar as autoridades para que estas encontrem soluções melhores”. A participação de programas internacionais “para garantir uma pesca sustentável”, a erradicação da pesca clandestina, a revisão da pesca e a proibição da mesma em determinadas zonas, são algumas das medidas propostas pelo diretor da ELA para atenuar o desperdício. Paulo Vaz Pires acredita na colaboração e concordância dos pescadores como “a melhor opção”.
18 | a cabra | 14 de fevereiro de 2012 | Terça-feira
Cinema
arTes
“o artista ”
o
de MicheL hazanavicius Com Jean DuJarDin Bérénice BeJo John GooDMan 2011
sem palavras
ver
CrítiCa de josé santiago
“s
ic semper tyrannis”, grita o rebelde à saída do ford theatre - o presidente foi morto. Redford aborda aqui um tema sensível, mas não lhe dá a fantasia heróica que marca este tipo de produções, trata-se de um imenso drama que opõe a necessidade de um bode expiatório e o respeito pelas leis da Constituição. Apanhada entre um grupo de conspiradores e um tribunal militar sedento de vingança está mary surrat (Robin Wright), dona de uma pequena pensão, palco de diversas reuniões secretas dos Confederados, entre os quais o seu filho. Lincoln é assassinado, os criminosos capturados e imedia-
filme com mais nomeações para a cerimónia de entrega dos Óscares deste ano foi rodado em 3d, está repleto de cor e foi realizado por um dos maiores nomes do cinema contemporâneo. Atrás dele, e com apenas uma nomeação a menos, encontramos um filme mudo, rodado a preto e branco e cujo realizador é um ilustre desconhecido oriundo de frança. “o Artista” chega-nos da cabeça de michel Hazanavicius e falanos, nem de propósito, de um actor que se vê confrontado com os avanços tecnológicos da 7ª arte, sendo completamente marginalizado por uma indústria que vê os actores como meros adereços e não como uma parte fulcral para o sucesso de um filme. Importa acrescentar que estamos no maravilhoso ano de 1927, altura em que se passou a poder verbalizar todas as emoções que, até então, eram apenas expressas com linguagem corporal e cartões
de texto. Confesso que me encontrava apreensivo, antes de chegar à sala de cinema. É que ainda são 111 minutos e mesmo os filmes da época raramente chegavam a uma hora. no entanto cheguei ao fim de ”o Artista” com a verdadeira noção de ter visto algo de completamente novo, uma reinvenção do cinema com um olhar sobre o passado e que realçou a importância do actor como chave no processo de contar histórias. Há um cuidado minucioso no aspecto cénico que nos emerge naquele mundo que é assumidamente artificial, mas que não aspira a outra coisa. sentimos uma ligação especial com cada cena, que a voz não é necessária e porventura até seria vista como intruso. Cada passo de cada actor é estudado ao milímetro e é impossível não ficar maravilhado com a força que uma simples expressão pode carregar quando usada na altura certa.
Grande parte da magia do filme tem que ver com a escolha de Jean dujardin para interpretar a personagem principal. michel Hazanavicius já tinha trabalhado com ele na série de filmes “oss 117”, uma espécie de “Get smart” francês, e é fácil perceber a razão da escolha para este papel. um timing cómico exímio que não fica atrás de Charlie Chaplin ou buster Keaton. Quem surge aqui como uma surpresa é John Goodman e James Cromwell. Há muito que pareciam apagados e renascem aqui com as interpretações da vida deles. o mesmo não se pode dizer de malcom mcdowell, que continua a ser a incógnita do filme, com apenas três esquecíveis minutos em ecrã. “o Artista” é um dos melhores filmes dos últimos anos, não precisa de um enredo complexo nem de diálogos pretensiosos. faz-nos lembrar de tempos mais simples, que nos faziam sonhar e quando nada mais importava.
a Conspiradora ” tamente ligados à sua casa. Para a defender, surrat conta com frederick Aiken (James mcAvoy), um herói de guerra que pretende subir no mundo da política. Como a restante comissão encarregue de julgar os arguidos, Aiken não duvida da culpa de mary surrat no assassinato e, só depois de algum conflito interior, se dispõe totalmente a defendê-la. o julgamento é todo ele preparado, encenado e conduzido para uma resolução rápida que alivie o povo em luto. A frustração acompanha mcAvoy, aqui numa bela actuação, que vê todos os seus passos obstruídos e a sua vida pessoal afectada. A solução passa por provar a culpa de John surrat, filho de marry, entretanto fu-
gido. o advogado consegue mesmo obter um novo julgamento civil para a sua cliente, mas surrat acaba por ser enforcada, ao passo que o seu filho escapa a semelhante destino. bastante acurado em termos históricos e com um elenco que não encanta mas tem o seu valor, surpreende a falta de atenção dada pela crítica internacional a este filme. em tempo de guerra, as leis são esquecidas, a película enche-se de sátira a uma sociedade que se vê pioneira na defesa dos direitos humanos, cumprir as leis passa a ser uma opção na gestão do país. Ironicamente, Lincoln, o Presidente, enviou milhares para a prisão sem julgamento prévio. joão Valadão
filme
De RobeRt RedfoRd eDitora Zon Lusomundo 2011
Artigo disponível na:
Linchamento formal
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FeiTas oUvir
ler
the roots”
A
té hoje, o conceito de banda de Hip-Hop foi sempre olhado de soslaio pela crítica. ora pela escassez de bons exemplos, ora pela interpretação de banda como sendo uma negação às raízes de um movimento que nasceu, quer queiramos, quer não, do dJ. talvez por isso, the Roots sejam um caso irónico ao simbolizarem uma das grandes excepções a esse estigma. Ainda assim, se para muitos the Roots são sinónimo de inegável qualidade, não deixa de ser curioso que, para a grande maioria, ainda se tratam apenas dos “tipos que tocam no programa de Jimmy fallon”. unDun em dezembro, e praticamente no fim do seu 24º ano de careditora reira, a banda liderada por ?uesDeF JaM tlove (bateria) e black thought (mC) editou o disco “undun”, o 2011 10º da sua já longa carreira. o título do álbum é retirado do nome de um tema da banda de rock canadiana “the Guess Who”. À semelhança do tema que dá nome ao disco, também o mesmo se baseia em alguém que, por circunstâncias quotidianas, foi chegando tarde demais às “boas” escolhas da vida. esse alguém é apelidado de Redford stephens, numa referência assumida ao tema “Redford” de sufjan stevens. este álbum é um regresso àquilo que é a grande essência do RAP: a mensagem. em “undun”, somos presenteados com uma história que poderia perfeitamente ser um argumento, razão pela qual a banda tenha feito uma curta-metragem em jeito de antecipação do álbum. A história de Redford é contada de forma inversa, começando com o seu fim e acabando no início do sofrimento, numa clara tentativa de passar a mensagem de que, por vezes, a morte é menos triste do que as circunstâncias que levam à mesma. Apesar de se tratar de uma personagem pintada no já costumeiro cenário de drogas, crime e degradação social, não existe qualquer tentativa de juízo de valor, mas sim uma vontade de mostrar o que Redford vai sentindo no seu constante duelo: vontade de fazer bem Vs falta de opções. A responsabilidade pela base instrumental ficou maioritariamente a cargo de ?uestlove. magistralmente planeados e executados, é notória a presença de estilos tão característicos como a soul, o funk, bem como o “boom-bap” clássico do RAP.
Por fazer?
Canções mexicanas”
conturbação de tumultos
de GonçaLo M. Tavares editora reLóGio D’ÁGua 2011
n
arra a lenda de qualquer corporação de mecânicos, suficientemente mísera para no seu iletrismo viver de lendas, que, no méxico, os mercedes são já vendidos com a garantia das peças de substituição (uma singularidade local, sobrevinda do país com o maior mercado negro de peças de transportes alemães). “Canções mexicanas” é um mercedes, um desses mexicanos, cujos gicleurs, estequiómetros e demais peças impronunciáveis foram repartidos pelas diferentes feiras do país. É o turista europeu a quem, depois de despojarem o mais ínfimo bem material, desconchavaram o corpo num número infinitivo de partes, deixando as miudezas à mercê dos ratos gigantes da Praça de Zócalo. É um manto de pequenos retalhos narrativos, diferentes no seu estilo e na sua abordagem, mas que opera como um corpo articulado que se move no seu todo. está longe do registo documental de “Viva méxico”, da Lucas Coelho, ou do “méxico Insurgente”, do Reed, até porque não é esse o seu propósito. Relaciona-se mais com um exercício ficcional de paradoxos e intersecções, onde Lisboa e a europa se cruzam com as ruas dos ditadores da Cidade do méxico. onde se dança para não morrer – aquele ponto de equilíbrio
entre a tarantela e a tarântula. onde prostitutas baratas revelam-se as maiores devotas de Cristos negros. e onde a desgovernada lei da arma mais forte inspira as indagações de anões intelectuais. tudo isto complementado pelas mais variadas referências culturais – como diego Rivera ou Heródoto – e religiosas. Gonçalo m. tavares é, bom..., Gonçalo m. tavares. não requere propriamente apresentações – daquelas que ilustram marcadores de páginas ou as contracapas das edições mais manhosas. e está todo plasmado ao longo das diversas páginas de “Canções mexicanas”: a ironia das contradições rotineiras, o elogio do antilogismo do pensamento, o imperativo da indiferença dos elementos, ou a construção empírica da narrativa e do quadro das representações. no fim, apenas algo subsiste – a linha que perdura pelas diferentes curtas histórias que compõem toda a obra, a loucura que percorre todas as personagens e elementos, aquele sentimento que arremessa o leitor para um miscigenado de amargura e vazio sufocantes. e um país inteiro – nada mau para quem se propõe a traçá-lo sem o conhecer – que o autor, no alto da sua frialdade resume a um simples componente, a um peso, 100 gramas. 500, talvez. niCole ináCio
JoGar
Uncharted 3 drake’s deception” a nova Fábrica de sonhos
Carlos Braz
GUerra DaS CaBraS A evitar fraco Podia ser pior Vale a pena A Cabra aconselha A Cabra d’ouro Plataforma Ps3 Artigos disponíveis na: editora scee 2011
A
série “uncharted” parece seguir as modas: copia o tiroteio militar de “Gears of War”, a pirotécnia feérica de “Call of duty” e o combate de “Arkham Asylum”. só que ao invés de se inspirar em imaginários adolescentes – space ‘marines’ brutamontes, romances tom Clancy, ‘comic-books’ inconsequentes – prefere recuperar o género da grande aventura, honrando lendas histórico-literárias de heróis como francis drake ou Lawrence da Arábia, e bebendo inspiração de spielberg, com “Indiana Jones” como foco central. É essa a sua marca de superioridade: Amy Hennig (“Jak and daxter”) tem a coragem de ir buscar referências mais nobres, de dar umas piscadelas de olho ao cinéfilo atento, e de esboçar personagens com densidade e carisma, ao mesmo tempo que discursa num registo popular. onde outros se regem pelo mais primário funcionalismo lúdico, vergando-se perante a falta de cultura das audiências de massas, Amy e a equipa da naughty dog preferem imbuir toda a experiência numa aura de magia e grande espectáculo que evoca a época de ouro do ‘blockbuster’. mas nada disso é novo; nesta sequela, o grande avanço faz-se no domínio das sequências cénicas, que vão além da excitação de montanha russa. embora se
mantenham momentos de acção empolgante (por exemplo, na magnífica fuga de um cruzeiro a afundar-se, em memória do esquecido “septentrion”), também se tentam capturar sentimentos como a fragilidade ou ingenuidade infantil. “uncharted 3” agarra o jogador na base de um leque emocional vasto, demonstrando um desejo sincero de contar histórias juvenis, mas ricas em personagens de carne e osso e cultura genuína. sente-se no trabalho de investigação que está subjacente às reproduções dos opulentos cenários arquitectónicos e naturalistas, repletos de história e mitologia; sente-se na superior animação das personagens, com um nível de expressividade emocional que não se via desde “shadow of the Colossus”; e sente-se na banda sonora, que faz lembrar os tempos mais áureos de John Williams. “uncharted 3” quer ser entretenimento, mas para isso não abdica de ser adulto e sofisticado, primando pelo bom gosto, pela estética cuidada, pela tecnologia mais progressista e pela busca do detalhe narrativo mais tocante. e como já não se fazem blockbusters assim - quanto mais videojogos - restam poucas dúvidas que o futuro do entretenimento digital passa por esta série. rUi CraVeirinHa
20 | a cabra | 14 de fevereiro de 2012 | Terça-feira
SolTaS
AnA FRAncisco
uma ideia Para o enSino SuPerior João SouSa andrade • ProfeSSor de eConomia na feuC;
Tomai e Comei
a unIversIdade, os “IndIgnados” e os contrIbuIntes
maiS que um PraTo Com ParTeS de PorCo
A história não é unânime em atribuir uma data de nascimento ao belo repasto tradicionalmente português, mas podemos encontrar a origem deste aparentado da “fabada asturiana” ou do “cassoulet” francês em meados do século XIX, nos banquetes das classes mais abastadas (ou pelo menos assim o sugere essa fonte indubitável que é a Wikipédia). Pitéu que viria mais tarde a ser um orgulhoso contribuinte para pratos como a feijoada brasileira ou a cachupa, tem estado afastada mais tempo que o desejável da ementa dos Serviços de Ação Social desta centenária instituição. Falamos, claro, da feijoada, que, para os lados de Trás os Montes e Alto Douro, se torna insubstituível no Domingo Gordo. Por Coimbra, a “feijoada à portuguesa” surge oportunamente no menu às quartas-feiras ao almoço. Com pequenas alterações à receita transmontana (o tempo é de escassez e quer-se poupança em presuntos e afins), a sua composição segue analogamente a velha máxima portuguesa segundo a qual todas as partes do porco são para aproveitar. Orelha de porco, pé de porco, focinho de porco, feijão vermelho e, pelo meio, alguns fragmentos de carne. Não se desprezem os pedaços de chouriço e cenoura que dão cor ao que acima a preto e branco está, e uma menção honrosa para o arroz branco que é já um “habitué” nos restaurantes universitários. A receita é simples e o povo gosta, à exceção dos mais niquentos que não se alinham pelos costumes da ancestral cozinha portuguesa, talvez pelo pesado fardo que assenta no estômago minutos depois de deglutida a iguaria. Muito mais haveria para falar sobre este prato, sobre o que o antecedeu e precedeu (ressalvo apenas a consistência do leite creme que se desejaria sempre assim), mas o constrangimento espacial a que estou sujeito obriga a que não me alongue mais.
O nosso sistema do ensino superior público funciona em auto-gestão e esta situação dá-lhe características próprias. A experiência generalizada de auto-gestão verificou-se na extinta Jugoslávia, sistemas deste tipo substituem a eficiência produtiva pela manutenção do emprego. A primeira característica da gestão da Universidade é que esta funciona, em primeiro lugar, para garantir o emprego dos seus docentes e aumentar a influência interna de grupos de disciplinas, área científicas, ou outros tipo de grupos. A segunda característica é a radical negação de que a Univers i d a d e p o s s a estar inserida n u m mercado. Recus a r e s t a ideia, c o m agres-
Por Camilo Soldado
d.r.
“Jardim” • TeaTro da CerCa de São Bernardo • 11 de fevereiro
O
dade não reconhece com qualquer utilidade, porque não a tem em absoluto ou corresponde à acumulação de excedentes. Os jovens acabam por descobrir, quando chegam ao mercado de trabalho, que perderam os seus melhores anos e as famílias, que esbanjaram inutilmente os seus rendimentos. Entretanto, os contribuintes suportam o desperdício financeiro. Não compete ao governo, como representante dos eleitores, zelar pela aplicação dos euros dos contribuintes e informar os jovens e as famílias do que poderão ser escolhas desastrosas? O governo não o faz no que respeita à Universidade! E a autonomia universitária? Na vertente científica e pedagógica deve ser intocável. Na vertente financeira lembremos que a Universidade não tem mandato de soberania sobre o dinheiro dos contribuintes. Tanto quanto sei é o governo, prestando contas à Assembleia da República, que o detém. A formação de jovens em áreas sem empregabilidade é da responsabilidade da Universidade e do governo: os primeiros porque decidiram e os segundo porque fingem que nada veem. Os jovens que foram "enganados" com formações inúteis têm o direito de ser ressarcidos e, pelo menos, têm o direito de frequentar de novo, e gratuitamente, a Universidade. O mínimo que devemos exigir é que as famílias sejam informadas do que as pode esperar e que os contribuintes vejam que o seu dinheiro é aplicado com responsabilidade.
arTe.PonTo
Inês, sotaque brasIleIro e uma mota título chamou a atenção do leitor? Ótimo. A sensação com que fiquei quando saí da peça foi essa mesma, que, neste país, e nesta cidade em particular, a cultura não chama tanto a atenção como uma “Casa dos Segredos” ou a vitória do Benfica sobre o Nacional. É, aliás, embalada por este jogo, que a peça começa, com a nova coqueluche dos encarnados a marcar o 4-1. Uma peça que se chama Jardim e cuja autoria e encenação são de Alexej Schipenko. Uma peça cuja temática é recorrente na companhia do Teatro de Braga e, de igual modo, um ícone de Coimbra: Pedro e Inês. Portanto, abordar uma história de amor requer sempre uma grande dose de coragem. Há um ‘casting’. O diretor desse ‘casting’ gosta de os fazer no seu sofá cor-de-rosa, ‘king size’. A candidata é brasileira e, com o seu sotaque do outro lado do Atlântico, diz que quer ser Inês de Castro. Acaba por ser um pouco das duas
sividade, é a forma mais prática de negar qualquer papel à procura dos serviços que a Universidade presta. A caracterização que faço da instituição universitária não invalida a obrigação moral que a maioria dos docentes se atribui, de ensinar e investigar o melhor que pode e ter orgulho no seu trabalho. A nova lei da organização do ensino superior veio dar roupa nova a um corpo que continua velho de séculos. A entidade para acreditação de cursos dos vários ciclos é certo que racionou o crescimento da oferta, mas ela não se destina a alterar o comportamento que deriva daquelas características, continuando a privilegiar exclusivamente a oferta. Ao mesmo tempo, esta nova lei, ao reduzir a quase nada os departamentos eliminou o que havia de revolucionário na Reforma Veiga Simão. O grupo com coerência científica que forma a base da Universidade de investigação, tipo anglo-saxónica, foi pura e simplesmente extinto. Restam os outros grupos e os seus interesses. As famílias investem, no mínimo, durante 5 anos (1º e 2º ciclos) em formação que, por vezes, a socie-
D.R.
protagonistas da vida amorosa de Pedro, de quem até se diz ter-se perdido por amores também com o seu escudeiro. O diretor é Pedro. A partir daí podemos adivinhar o que se segue. A peça desenrola-se num misto entre realidade e imaginário, presente e passado. O trabalho em palco, e por palco subentenda-se o teatro praticamente todo (com o auxílio de várias câmaras, que à vista do espetador só estavam o palco principal e a cave, por baixo do palco), bem como a caracterização das personagens, são muito bons. A voz-off transporta a audiência para uma biblioteca, com um livro de contos antigos à frente. O espetador mergulha numa narrativa com uma linguagem cuidada, que vai servindo de guião auditivo ao que se passa diante dos seus olhos. Esta não é a típica peça com diálogos estruturados. É antes toda uma experiência sensorial, a todos os níveis, onde o espetador é levado a observar aquilo que se quer
que observe. Mas, se conseguir desviar a atenção por breves instantes, muito mais se passa naquele local de encenação. Os tempos seguintes à morte de Inês são brilhantemente metaforizados através de uma gravação projetada de um dos melhores jogos de xadrez de sempre: Fisher contra Spassky, em 1972. É teatro convencional, daquele que as pessoas imaginam quando dele falam? Não. Tal como Pedro dar, pelo menos, cinco voltas ao palco numa mota. E aqui ficaria bem inserido o tique nervoso do Padre Agostinho. É um teatro diferente mas um teatro que merece ser visto por mais do que as 120 pessoas que por lá passaram em duas noites. É pouco para uma cidade que se queixa da insuficiente oferta cultural. Se, por acaso, tiverem oportunidade de ver a peça, não hesitem. É menos uma noite no Theatrix ou no NB, mas vale bem mais a pena. Por Paulo Sérgio Santos
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SolTaS nu
miCro-ConTo
Por Jorge Silva melo
M
anhã e era bem cedo, o realizador e o assistente chegaram ao local das filmagens, pararam o carro, como combinado, antes da curva, de forma a ficar visível para os que chegariam depois, estava frio e um nevoeiro que ninguém sabia se dissiparia, Janeiro, ninguém. O actor chegaria pelas nove, a câmara já instalada, o local marcado. O assistente estendeu uma toalha na areia, onde o rapaz se irá deitar, verificou o calor dos sacos de água quente, as distâncias da câmara, as duas posições. O rapaz e a namorada chegam, no carro de um amigo, está muito frio (“não faz mal, sou do norte”), levantase o vento do mar, cortante. A equipa arruma-se, o realizador marca o lugar, o movimento, passa ao rapaz os sacos de água quente com que p o d e aquecer a areia p o r baixo do corpo, dálhe o roupão azul. “É para tirar a roupa já?” , pergunta o rapaz . “Ainda não, vemos primeiro a marcação. Estás deitado, assim, o braço direito mais dobrado, a cara para o nosso lado, a perna direita mais dobrada, sim, vamos filmar-te em três esca-
las diferentes, o corpo todo, depois mais perto, pelo rabo, mais perto ainda, pelos ombros, só depois fazemos a última acção em que te levantas apoiando-te no braço esquerdo, cuidado não fiques com areia no corpo e avanças até onde virmos, frente à câmara, sim?” E o rapaz ensaia. “Tudo bem?” per-
ilustRAção poR tiAgo Dinis
gunta o realizador ao director de fotografia, “Podes despir-te agora. Mas põe os sacos de água
quente p o r baixo, está tanto frio.” O rapaz despe-se, corpo miúdo, enxuto, corre para a posição, corrige a perna direita, enterra na areia o saco de água quente que quase o quei-
monumenTaiS PanadoS SoCiaiS
mava. Esplêndido, o seu corpo deitado, nu. O vento é frio, ao longe um casal passeia devagar pela praia, muito ao longe. O rapaz continua deitado, o realizador vai pedindo planos mais aproximados, menos, “só pelos ombros”. E o segundo plano em que o rapaz se levanta da areia e avança até à câmara, ficando o seu sexo em primeiro plano, uma vez, duas vezes, três. “Pronto, já te podes vestir”. E sorrindo, o rapaz responde “agora tenho de me habituar a passear assim, nu”. Quantos anos, quantos salazares foi preciso esquecer, quantas ordens foi preciso deitar abaixo, quanto pudor assassino, quanto crime compensado, quanta hipocrisia, quanta luta, quanto amor, quanta coragem, quanto desassombro para chegarmos assim, agora só, a uma manhã de Janeiro e não ser crime nem porcaria um corpo nu, um sexo, quanto tivemos que passar, antes? O rapaz vestiu-se, ainda se reencontraram antes de passar a ponte, do outro carro lançou um largo adeus. E voltam a ver-se, de vez em quando. E a lembrar o esplendor do seu corpo sexuado na manhã mais fria.
Jorge silva Melo, 63 anos Quando lhe perguntam se é argumentista, ator, dramaturgo ou encenador, Jorge silva Melo responde “sou velho”. não querendo assumir nenhum título, aquele que é considerado o senhor do ar sério, descodifica a chave: “não sou propriamente um criador, sou um organizador do trabalho dos outros”. nascido em agosto de 48, silva Melo desde cedo se interessou pelo cinema, muito por influência do pai. depois da infância e adolescência passadas em lisboa, percorre várias capitais europeias. Berlim e londres foram cidades onde expandiu a sua arte. Teve ainda tempo para viver de perto a revolução dos Cravos e esteve ainda ligado ao Movimento da esquerda socialista. Mas hoje confessa não gostar de aparelhos políticos. em 95, volta a Portugal e cria a companhia “artistas Unidos”, para não entregar os bons atores às novelas. Hoje é o seu director artístico. recebendo inspiração de Júlio verne a almeida garret, silva Melo diz escrever as suas peças de teatro e de cinema durante a madrugada, no silêncio. o artista, que não consegue estar muito tempo sem fumar, “gostava de ser lembrado como alguém que, como os gatos, se passeou”.
Ana Morais
140% de ProBaBilidade de Correr mal
Por doutorando Paulo fernando • facebook.com/paulofernandophd
A
situação na Associação Académica de Coimbra (AAC) começa a roçar o rídiculo, e desta vez ninguém se demitiu. Quando ouço as notícias do que se passa no edíficio sede da AAC questionome se um dos objectivos consecutivamente reiterados pelas DG’s se cumpriu com demasiada eficácia. Sempre se discutiu a necessidade de trazer mais sócios ao edíficio da associação, com o intuito de os aproximar da academia, das suas iniciativas políticas e culturais, mas também das secções e do seu trabalho. Se é verdade que nos últimos anos o número de sócios a frequentarem as instalações do n.º1 da Padre António Vieira se multiplicaram exponencialmente, o problema agora é que já não são apenas os sócios que frequentam a associação. Primeiro vieram os demais estudantes, do politécnico ao secundário, colorir o edíficio. Depois veio a nata coimbrã, dos
betos de Celas aos lenhadores de Vale de Canas. Seguiu-se a classe trabalhadora, dos militares em licença do quartel aos profissionais da noite. E agora... vieram os amigos do alheio e os arruaceiros. Mas será que alguma vez se foram embora? Tudo isto não deixa de ser irónico por vários motivos. O primeiro é que, com substancialmente mais gente no edíficio, a relevância política da AAC definha a olhos vistos, e é cada vez mais patente a inépcia das estratégias de comunicação da sua direcção. Segundo, apesar de mais pessoas deambularem pelo edíficio, as secções travam lutas cada vez mais duras para cativarem mais sócios e sustentarem a sua actividade – algumas, acabam mesmo por “pagar a factura” de partilharem a “casa” com certo tipo de maralha (é perguntar aos colegas da fotografia, do GEFAC, ou mesmo o que já se passou aqui na Secção de Jor-
D.R.
nalismo com os amigos do alheio). Mas a ironia suprema de que se revestem os recentes acontecimentos que preenchem as noites na AAC está na causa/efeito despoletada pelo processo de reconversão dos jardins em discoteca. A intervenção nos jardins da AAC teve lugar precisamente com o in-
tuito de desencorajar um conjunto de práticas muito pouco dignificantes, e claramente à margem da lei, que por ali se desenrolaram e reenrolaram históricamente (e aqui não falo obviamente das magnas apoteoticas dos tempos em que havia luta estudantil). Com uma flora verdejante e uma fauna mais digna de um
jardim zoológico que de um jardim botânico, os jardins poderiam ter-se tornado num pequeno pedaço terreno do Eden, mas deus assim não quis. Preferiu a tal estrutura amovível, janelas a vibrarem até ao alto de Montes Claros ao som dos DJ’s da moda e os convívios de erasmus sem os mesmos. Na troca ainda levou para casa uma facada no abdómen. JP Gangs styla.... Será no entanto possível comprovar uma relação directa entre largas quantidades de alcóol, multidões, total ausência de controlo de entradas num recinto, violência e criminalidade? Creio que cientificamente esta é uma missão apenas ao alcance dos mais brilhantes pesquisadores do CES. Há coisas que são demasiado sérias para se brincar. Felizmente esta não é uma delas.
22 | a cabra | 14 de fevereiro de 2012 | Terça-feira
opinião um aNo de eleição do reitor aos olhos dos estudaNtes No coNselho geral FiliPe jaNuário (rePreseNtaNte 1º e 2º ciclo) Em 2011, a Universidade de Coimbra (UC) conheceu uma corrida à reitoria como há muito não se via. Um ano onde uma eleição renhida deu lugar a uma imagem da UC que pretendia valorizar o “espaço de saber e iniciativa”. João Gabriel Silva tornou-se reitor com a promessa de mudança mas assumindose sempre entre a rutura e a continuidade. Quase um ano inteiro para ouvir e debater com a comunidade universitária, para construir um plano estratégico para o mandato reitoral, foi a primeira ação de João Gabriel Silva. Seria necessário tanto tempo? É provável que não, já que as linhas gerais já estavam delineadas. Mas, ao mesmo tempo, o reitor mostrou-se ambicioso e sensível às necessidades. Foi prova da vontade de João Gabriel Silva de ser diferente e englobar todos numa estratégia comum, compilada num documento único e de enorme valor para o futuro. A universidade foi obrigada a mudar ao longo de 2011. Os sucessivos cortes orçamentais levaram a uma redução gigantesca do orçamento da UC. Os Serviços de Ação Social da UC (SASUC) são a prova mais visível destes cortes: a redução de horários das cantinas, o encerramento de serviços, ou, o mais avassalador de tudo: o constante e cada vez mais crítico atraso na atribuição de bolsas aos estudantes mais carenciados. É urgente assumir este problema como uma prioridade para o futuro. Apesar de salutar o esforço feito na manutenção do fundo de apoio social, esperamos que João Gabriel Silva tenha um papel mais ativo neste tópico nos próximos anos. Não queremos que os SASUC sejam mais um assunto tabu, como se tornou a “discussão”
acerca do regime fundacional para a UC. Mas os problemas que afetam a UC não são apenas do foro financeiro. Cada vez mais temos de assumir a Universidade de Coimbra como um polo de atratividade. Queremos ser uma universidade cada vez mais internacional, cada vez mais uma escolha fora dos grandes polos nacionais para o Ensino Superior. Queremos ser um marco incontornável na ciência e nas inovações tecnológicas e assumir-nos como um ponto de paragem obrigatória também a níveis culturais. Mas, se até cá dentro o caminho é a fuga, como se pretende fazer isto? João Gabriel Silva tem de sabido responder a algumas destas questões. O esforço é, mais uma vez, meritório, mas ainda há muito caminho a percorrer. Resta saber se são os estudantes, mesmo com a sua fraca representação nos órgãos, que vão continuar a assumir o compromisso com a reitoria, e a manter esse esforço. Um ano depois de tomar as rédeas da mais antiga universidade portuguesa, o reitor ainda tem muito a mostrar. A questão da Fundação Cultural da UC, por exemplo, é um dos pontos onde é urgente uma resolução breve: os estudantes esperam , ainda hoje, por uma solução para o Estádio Universitário. Melhores da Europa pelo segundo ano consecutivo em desporto universitário, e sem condições logísticas ou financeiras para praticar desporto. É esta a universidade que queremos no futuro? Deixa-se a página em branco para os próximos três anos. Deixam-se no ar as questões e as dúvidas que esperamos virem a ser respondidas em breve.
Pedro NuNes (rePreseNtaNte 3º ciclo) Cedo se percebeu que a política de austeridade orçamental que afecta Portugal também teria um amplo impacto nas instituições de Ensino Superior (IES). Neste enquadramento, profundamente desafiador, a equipa reitoral apresentou um projecto simultaneamente ambicioso mas avisado. Os cortes nas transferências orçamentais provenientes do Ministério da Educação, cerca de 8,5 por cento relativamente às transferências do ano passado, tiveram profundas repercursões na forma como a Universidade de Coimbra (UC) passou a ser governada, tanto ao nível da sua administração corrente, das unidades orgânicas e centros de investigação e também dos serviços de acção social. Como solução, mas também opção, para contornar estas limitações, as instituições universitárias procuram compensar estes cortes com a captura de receitas próprias. Colocam-se então à UC dois desafios importantíssimos: impedir que esta compensação recaia sobre a contribuição dos estudantes para o orçamento, via propinas, ou aumento do preço de outros serviços prestados e evitar que esta compensação, conjugada com os efeitos das medidas de austeridade na vida das famílias provoque um aumento no número de desistentes nos graus superiores de ensino. Não podemos afirmar que esta tendência está salvaguardada na UC. Apesar dos instrumentos inovadores instroduzidos no modelo de gestão e de um abrangente processo de discussão programática, uma parte relevante da compensação orçamental está a ser obtida através de um incremento substancial
luís rodrigues (rePreseNtaNte 1º e 2º ciclo) Faz agora um ano que o reitor da Universidade de Coimbra (UC) foi eleito. Quero desde já afirmar que foi para mim uma honra ter tido a oportunidade de votar na eleição do dirigente máximo da UC. Tornei público o meu sentido de voto logo após o sufrágio. Ainda que a tal não fosse obrigado, o princípio da transparência assim me orientou. Porém, a votação não foi, como era minha intenção, em bloco. Não houve consenso entre os estudantes sobretudo devido a alguns pontos cruciais que nos levantaram dúvidas. E não foi uma escolha fácil porque estávamos perante dois bons candidatos. É importante sublinhar que embora nesse dia tivesse havido uma efectiva divisão entre os cinco estudantes conselheiros, após esse dia todos continuámos a trabalhar juntos no sentido de reivindicar promessas eleitorais e supervisionar a acção do reitor. Uma conclusão pode por isso retirar-se desta eleição: os estudantes contaram na hora de eleger um reitor, apesar de estarem em número reduzido no Conselho Geral da UC. Começou assim o mandato do novo reitor da UC e começou também um ano complicado para a reitoria. Entre o arrumar da casa, os constrangimentos orçamentais para o ensino superior e a própria crise económica que afectam cada um de nós individualmente, muitas foram as dificuldades que contribuíram para um arranque desafiante para os novos dirigentes da UC. Tenho a destacar, para surpresa de muitos, a grande proximidade deste reitor com os seus estudantes, o seu optimismo, a sua irreverência. A mensagem política do reitor, de
que a solução dos problemas da sociedade passa pelo conhecimento avançado bem como pela correcta e racional utilização dos bens e capitais públicos sob o primado da sustentabilidade, tem sido uma constante nos seus discursos públicos. É uma mensagem na qual eu me revejo. Em relação a conquistas concretas para os estudantes posso referir, pela minha experiência no Conselho Geral com o reitor anterior, que a relação com os estudantes é agora muito mais próxima e aberta. As políticas pedagógicas e científicas orientam-se em torno da qualidade e procura-se incrementar uma política internacional ambiciosa de efectivo apoio à mobilidade. É também de salientar a aprovação de regulamentos que garantem o acesso a condições especiais de avaliação para um leque mais alargado de alunos como aqueles que se dedicam a actividades de âmbito cultural. E não podia deixar de referir uma das minhas próprias reivindicações eleitorais, entretanto já cumprida: o acesso gratuito a disciplinas extracurriculares. Há um ano atrás, o Conselho Geral votou num candidato que apresentava um programa e um perfil de mudança. Consciente do meu papel de supervisão, eu tenho tido como tarefa apreciar os actos do reitor e do Conselho de Gestão no sentido de defender o interesse dos estudantes para termos mais e melhor universidade. E o meu balanço é francamente positivo.
Pedro Pacheco (rePreseNtaNte 1º e 2º ciclo) no valor das propinas da oferta pós-graduada, com enfase em particular no terceiro ciclo - os doutoramentos. Um aparente desenvolvimento que poderia ter contribuido para o progresso das condições pedagógias da UC, com a alteração do enquadramento legal da contratação de docentes, agora possível desde que não ultrapasse o volume salarial orçamentado na execução anterior, poderá constituir na verdade, de acordo com a forma como é praticado actualmente, uma precarização da situação dos docentes em início de carreira, com contratos a prazo, com uma rotatividade quase sazonal, para evitar a transposição dos limites orçamentais e a passagem para os quadros de pessoal. Quando estas operações se revelam insuficentes, as tarefas de docência que têm recaído sobre os estudantes de doutoramento e os bolseiros de investigação têm progredido a um nível alarmante. Além das dificuldades inerentes à gestão de uma situação tão delicada como a que acabei de descrever, impõe-se à reitoria da UC a missão, no quadro mais abrangente das IES portuguesas, de convencer a tutela que a aposta e o investimento no ES em Portugal representa uma via para a saída da crise, e que, em sentido contrário, as restrições orçamentais podem significar um golpe fatal nas ambições da construção de uma sociedade de conhecimento, fundeada na inovação e na qualidade. É assim fundamental que a equipa reitoral esclareça quais são as políticas que decorrem das imposições estruturais e as que constituem opções de fundo.
Quando, a 11 de Novembro de 2010, fui eleito membro do Conselho Geral (CG) da Universidade de Coimbra (UC), tinha a perfeita noção da responsabilidade que assumia e da honra que tal cargo para mim representava. Esta responsabilidade tornou-se ainda maior no momento em que as nossas primeiras posições e decisões se relacionaram com a eleição do novo reitor, que viria a suceder a Seabra Santos. Dos vários candidatos iniciais, chegaram ao fim dois: o professor João Gabriel e a professora Cristina Robalo Cordeiro. Pelos currículos vastamente conhecidos de ambos, fiquei com a certeza que ao fazer uma escolha, estaria a ser injusto. Na verdade, a UC teve sorte em ter dois excelentes candidatos. Depois de receber a confirmação de 18 Conselheiros (maioria em 35 elementos), foi eleito, para o cargo de reitor, o Professor João Gabriel, o primeiro a ser eleito pelo Conselho Geral. Nós, os representantes do Estudantes no maior Órgão de Governo da UC, encontramos sempre, da parte do Senhor Reitor, a maior abertura possível para nos ouvir e para discutir connosco os mais variados assuntos. Sempre que solicitados, participamos em diversas iniciativas da equipa Reitoral, sem nunca esquecer que só com uma atitude empenhada poderíamos contribuir para melhorar a nossa Universidade. A proximidade que temos ao Senhor Reitor estende-se aos Senhores Vice Reitores. Ao longo deste ano, os Estudantes promoveram almoços de trabalho nos diversos Restaurantes Universitários com a equipa Reitoral.
Por nossa iniciativa, o Conselho Geral da Universidade de Coimbra visitou as instalações do Estádio Universitário, com o objectivo de tomarem conhecimento das fracas condições que milhares de jovens encontram todos os dias. No final, a opinião foi unânime: é preciso fazer mais e melhor nestas instalações. Se pudesse resumir em poucas palavras o senhor reitor, eu diria que ele é uma pessoa extremamente bem informada e com um bom senso acima da média. Julgo que ele tem a noção de que só com os Estudantes ao seu lado ele sairá vencedor e se ele sair vencedor, então a universidade ganha, ou seja, ganhamos todos. Recordar o discurso do magnífico reitor na tomada de posse dos corpos gerentes da AAC 2012, é bem demonstrativo disso. Mas no muito que foi dito (bem, na minha opinião), também muito ficou por dizer ou por salvaguardar. Numa altura em que os sacrifícios são exigidos a todos, não serão os estudantes a querer ser a parte privilegiada da equação. Os estudantes certamente que contribuirão, mas contribuirão melhor se forem chamados a discutir esta problemática. O primeiro ano de mandato do actual reitor foi positivo e o futuro estará sempre debaixo das nuvens negras da troika. Estou confiante que continuará com um desempenho positivo, até porque nós, na Universidade de Coimbra, somos diferentes. Temos a garra, a ambição e o engenho necessários para darmos a volta por cima. Porque aqui, de piegas não temos nada!
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OpiniãO editorial Pedro tiago (rePresentante 1º e 2º ciclo) Após um ano, muitos são os momentos que pautaram o mandato da nova equipa reitoral. Não seria justo avaliar o seu mandato sem fazer menção ao momento que o país atravessa e ao corte orçamental que a Universidade de Coimbra (UC) sofreu por parte do Estado no último ano. O primeiro momento que na minha óptica merece destaque foi o dia do estudante, 24 de Março, onde o recém-empossado reitor se colocou ao lado dos estudantes e da Associação Académica de Coimbra (AAC) no boicote às aulas. Também destaco pela positiva o facto de este ter, pela primeira vez, permitido a presença de um estudante no conselho de gestão da UC, o que se traduziu num acréscimo real da representatividade dos estudantes nos órgãos de gestão da universidade. Mais recentemente, houve a apresentação do primeiro radio fármaco português que se espera ser a alavanca para uma nova era de conhecimento e investigação na UC e que comprova que vale a pena investir no ensino superior em Portugal. Existem, porém, aspectos que não posso deixar de salientar como menos positivos neste primeiro ano da equipa reitoral. A questão do estádio universitário, em que a reitoria equaciona cobrar uma taxa de utilização às secções desportivas da AAC, foi uma das que mais polémica gerou durante este primeiro ano. Sei que há uma solução a ser estudada
entre as partes interessadas e espero que esta não fira de morte o desporto universitário em Coimbra. Outro ponto no qual ainda não se verificou qualquer resultado foram os inquéritos pedagógicos realizados pelos estudantes todos os semestres. Gostaria que, em breve, se vejam resultados conclusivos que levem a uma melhoria efectiva da qualidade de ensino na UC. Mais recentemente, a questão da lavandaria dos SASUC e a abertura tardia das cantinas durante o período de exames, quando a UC não disponibiliza mais nenhum espaço de estudo aberto durante a noite. Assim sendo, e um ano volvido, considero prematuro fazer um balanço, quer positivo, quer negativo, visto que muitos dos efeitos das medidas tomadas só a partir de este ano serão visíveis. Penso que a equipa reitoral da UC, tem uma tarefa árdua à sua frente da qual depende o futuro de muitos estudantes. O anúncio do reitor durante a tomada de posse dos novos corpos gerentes da AAC - de não aumentar as propinas durante o próximo ano - é mais uma nota positiva que não será esquecida pelos estudantes da UC. Enquanto membro do Conselho Geral gostaria de deixar aqui, como sempre o fiz, o meu desejo de trabalhar em conjunto com a reitoria na procura de soluções para os problemas da UC, sem nunca esquecer os estudantes, que são, no fundo, a razão de ser desta instituição.
Cartas ao diretor podem ser enviadas para
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a mutação do ecossistema Faz hoje exatamente um ano que o novo reitor da Universidade de Coimbra (UC), João Gabriel Silva, foi eleito. Se, em fevereiro de 2011, as incertezas sobre o que estaria para vir eram muitas, algumas dúvidas parecem não estar dissipadas. Num ano, muito mudou. A realidade nacional transformou-se e, com ela, o ensino superior (ES). O acordo com a troika foi assinado, caiu um governo e outro se levantou. Consequentemente, acabou um Ministério da Ciência, Tecnologia e ES, para ser criado um Ministério da Educação e Ciência que, até agora, pouco mostrou de ensino superior e é portanto cedo para avaliar se Mariano Gago (que foi mau) deixa saudades. Com o novo ministro vem um novo regulamento de atribuição de bolsas, que sai novamente tarde demais para a necessidade daqueles que delas dependem para se manterem no ES. Para além de moroso, o regulamento ficou aquém das pretensões e reivindicações do movimento nacional reivindicativo. Em novembro, a discussão do Orçamento de Estado determina um corte significativo na dotação a ser disponibilizada para as instituições de ES em 2012. Com a metamorfose ministerial, adia-se também a discussão sobre o modelo fundacional, pelo menos para já, pois não se sabe que (des)vantagens podem daí advir.
“
com a metamoforse ministerial, adia-se também a discussão sobre o modelo fundacional, pois não se sabe que (des)vantagens podem daí advir Mais recentemente, a propina sobe, atualizada à taxa de inflação, e passa largamente a barreira psicológica dos 1000 euros no próximo ano letivo, tornando o ES uma miragem cada vez mais distante para as camadas da população mais afetadas pelas medidas draconianas do governo. É neste contexto de profunda mudança que passou um ano desde que o Conselho Geral escolheu o novo inquilino da Via Latina. Para acrescentar ao que já se passou, antevê-se uma discussão sobre o modelo de financiamento das instituições do ES e, num enquadramento em que a austeridade é palavra sacrossanta, não se prognostica que a alteração vá no sentido de aumentar o financiamento. Esta cadeia de acontecimentos acima referida tem vindo a contribuir para a degradação do ES e, consequentemente, para a fragilização dos Serviços de Ação Social, que se vêm impedidos de prestar a assistência devida aos estudantes e delegam neles um peso insuportável, tendo em conta aquilo que é a realidade socioeconómica das famílias portuguesas. Quer os responsáveis das universidades, quer os dirigentes das associações de estudantes, clamam a severidade de uma asfixia incomportável e reclamam mais meios. Não obstante, os apelos desejam-se acompanhados de ações mais efetivas pois sem elas, apesar da contundência de algumas palavras, passam por dóceis aos ouvidos de quem tem mostrado um desnorte quando a sua função é nortear o ensino superior português. Por Camilo Soldado PUBLICIDADE
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Hemisférios Solidários
Numa altura de grande crise económica e de valores, ainda há instituições que tentam reverter a situação. No caso da Hemisférios Solidários, o apoio àqueles que são mais carenciados faz-se através da arte. Aliando-se ao Grupo de Teatro do Oprimido, esta associação promove o auxílio a pessoas em situação de rua. Mas esta atividade não é fechada: qualquer um pode participar, fomentando a intervenção cívica e a prática teatral, como forma terapêutica e reflexiva. O teatro é linguagem humana e, por isso, um dos objetivos principais será o trabalho do ser humano a entreajuda num grupo composto de heterogeneidade. A.D.
SMTUC
Por imposição do memorando da troika, o governo de Passos Coelho anunciou para este ano um novo aumento dos preços dos transportes públicos. Em Coimbra, desde há três anos que o município não atualizava os preços e, em 2012, os SMTUC entenderam que era incontornável o aumento das tarifas. Ainda assim, a Câmara Municipal de Coimbra não subiu tanto os preços como foi imposto pelo governo, sendo a diferença do apoio comportada pelo município. Tal como afirma o administrador dos SMTUC, Manuel Correia de Oliveira, a comparticipação dos transportes “é um dos apoios sociais mais importantes”. A.M.
UE
Entendo que seja difícil para a UE estipular uma regulação perfeita das quotas piscatórias. No entanto, não podemos deixar passar ao lado de duas questões importantes. A primeira é a dos excedentes de peixe morto que retorna ao mar e que vai, progressivamente, danificando os ecossistemas; a outra diz respeito ao peixe, também em excesso, mas ainda consumível, que segue o mesmo caminho. Uma reforma na Política Comum de Pescas é necessária, principalmente neste sentido: o de evitar fins prejudiciais ao ambiente e o desrespeito por uma população mundial em que muitos passam fome. Esta política é também um desrespeito pelo trabalho do pescador. M.G.
InocêncIa nostálgIca por olga Juśkiewicz e Sérgio Henrique
200 x 100 Toda a criança nasce inocente, uma folha em branco, um livro de páginas vazias em espera para serem escritas. Ingénua, sem nenhuma experiência, a criança segue o desejo sem limite nem medo do desconhecido. Essa liberdade que só acabava com uma voz materna ditando o limite. O mundo para descobrir, da coisa mais simples à mais formidável surpresa. Depois eles crescem e tornam-se em nós.. Quem não tem saudades da infância? Todos à nossa maneira.. Éramos melhores? Penso que simplesmente acreditávamos. Não sabiamos tanto como hoje e como a matemática e a física nos eram estranhas, também as políticas e filosofias. O sentido da vida era a felicidade e não ganância ou ideais. A certa altura todos temos de pensar menos e sentir mais para sermos felizes porque o amor é só uma emoção, sem lógica nem razão.