Editorial Revista “ZACATRAZ”
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Nuno António Bravo Mira Vaz 277/1950
Editorial No nosso tempo... Estas palavras, ouvidas amiúde em reuniões de Curso, conduzem com frequência a comentários acerca das tradições colegiais que já não são o que eram, da disciplina que se adulterou ou, mais prosaicamente, acerca do «amarelo de carne» que já não tem o sabor do nosso tempo. Inevitavelmente, uns quantos serão acertados, outros não. A reflexão inteligente é uma peça fundamental na regeneração de todos os aspectos da vida humana. Mas quando, no decurso dela, comparamos o passado com o presente, raramente nos damos conta de que muitos outros, antes de nós, emitiram comentários semelhantes. Sejamos sérios: que juízo farão os actuais alunos
dos comportamentos, das praxes e da disciplina que caracterizaram o Colégio no tempo de cada um de nós? E que juízo farão eles daqui por cinquenta anos dos comportamentos, das praxes e da disciplina que então vigorarem no Colégio? As instituições são criadas pelo homem para cumprir determinadas finalidades em cada tempo histórico e deixam de fazer sentido na versão original sempre que os contextos sofrem alterações profundas. Na maioria dos casos, o que determina a conveniência de continuarem a desempenhar funções é a fidelidade aos valores fundacionais. Quando aplicamos este aforismo ao nosso Colégio, não é difícil detectar o traço permanente: a educação da
juventude nos valores do Dever, da Honra e da Camaradagem. Foi assim ontem, é assim hoje, e tem que ser assim amanhã. Nós, Antigos Alunos, podemos ser peças relevantes neste sistema. Temos obrigação de o ser. Pugnando sem desfalecimento pelos ideais que nortearam o Fundador há mais de duzentos anos. Sugerindo caminhos. Fornecendo exemplos. Aceitando mudanças que não adulterem os ideais de Teixeira Rebelo. Mostrando aos Alunos de hoje como se pode ser fiel aos valores do Dever, da Honra e da Camaradagem. Estabelecendo com eles um compromisso capaz de unir todas as gerações.
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Ficha Técnica
CORPOS SOCIAIS DA ASSOCIAÇÃO PARA O TRIÉNIO 2016-2018
Ficha Técnica PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL Fundada em 1965 Nº 211 Abril/Junho - 2018 FUNDADOR Carlos Vieira da Rocha (189/1929)
ASSEMBLEIA GERAL Presidente Vice-Presidente 1º Secretário 2º Secretário
DIRECTOR Nuno António Bravo Mira Vaz (277/1950) nunomira.vaz@aaacm.pt
Raul Miguel Socorro Folques - 380/1952 José António Pina de Bastos e Silva - 67/1957 António Luís Henriques de Faria Fernandes 454/1970 Pedro Gonçalo Coelho Nunes de Melo - 51/1982
CHEFE DE REDACÇÃO Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa (71/1957) luisfbarbosa@aaacm.pt REDACÇÃO Pedro Manuel do Vale Garrido da Silva (53/1961) Gonçalo Miguel de Matos Gonçalves (105/1984)
DIRECÇÃO Presidente Vice-Presidente Secretário Tesoureiro 1º Vogal 2º Vogal 3º Vogal 4º Vogal 5º Vogal 1º Vogal Suplente 2º Vogal Suplente 3º Vogal Suplente
José Eusébio Pereira Barata Cordeiro de Araújo - 591/1973 Artur Manuel de Spínola e Santos Pardal - 587/1961 João Eduardo Correia Barrento Sabbo - 17/1967 Luís Manuel Borges de Albuquerque Nogueira - 323/1969 Francisco Eduardo Moreira da Silva Alves - 392/1954 António Vítor Reynaud da Fonseca Ribeiro - 43/1968 José Miguel Teixeira de Faria - 2/1969 José Maria Gouveia de Azevedo e Bourbon - 598/1971 João Pedro Mendes Carreiro Gomes - 390/1983 Gonçalo Miguel de Matos Gonçalves - 105/1984 Tiago Simões Baleizão - 200/1987 Manuel Soares Albergaria Felgueiras e Sousa - 498/2006
CAPA Escolta ©Foto Leonel Tomaz ENTIDADE PROPRIETÁRIA E EDITOR Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar MORADA DO PROPRIETÁRIO e SEDE DA REDACÇÃO Quartel da Formação - Largo da Luz 1600-498 Lisboa Tel. 217 122 306/8 Fax. 217 122 307 TIRAGEM - 1350 exemplares DEPÓSITO LEGAL Nº 79856/94 DESIGN E EXECUÇÃO GRÁFICA: Tm. (+351) 933 738 866 Tel. (+351) 213 937 021 info@smash.pt www.smash.pt
CONSELHO FISCAL Presidente 1º Vogal 2º Vogal 1º Vogal Suplente 2º Vogal Suplente
Manuel Ramos de Sousa Sebastião - 604/1961 Rui Joaquim Azevedo de Avelar - 25/1960 Eugénio de Campos Ferreira Fernandes - 180/1980 Rui Manuel Gomes Correia dos Santos – 225/1981 Bruno Miguel Fernandes Pires - 27/1995
DISTRIBUIÇÃO GRATUITA AOS SÓCIOS DA AAACM Isenta de registo na Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), ao abrigo do nº 1 da alínea a), do Artigo 12º do Decreto Regulamentar nº 8/99, de 9 de Junho. Os artigos publicados são da responsabilidade dos seus autores. Esta publicação não segue o novo acordo ortográfico.
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Sumário
04 Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
13 Comemorando o 3 de Março 22 Homenagem ao Colégio Militar
e a Professores e Oficiais do Curso de 1948-1955
23 A Classe Especial de Ginástica de 1958 33 Dia do Combatente 34 400 Anos do Hospital de Nª Srª da Luz
36 O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
45 Sobre Moedas e Papel-Moeda 57 O dealbar de Portugal 60 Operação Viriato 62 A Importância da Tradição 65 AAACM, que futuro? 66 Curso de 1987/1995
Romagem dos 30 Anos de Entrada
67 Curso de 1971/1978
Romagem dos 40 Anos de Saída
68 Curso de 1957/1964
Romagem dos 60 Anos de Entrada
70 Curso de 1982/1990
Romagem dos 35 Anos de Entrada
71 Curso de 1980/1988
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Assembleia Geral da Associação
28 La Lys
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Allegro A Volta ao Mundo do Veleiro onde também navegou a Barretina
Romagem dos 30 Anos de Saída
72 Curso de 1990/1998
Romagem dos 20 Anos de Saída
73 Antigos Alunos em Destaque 80 Histórias e Memórias 83 Antigos Alunos nas Artes e nas Letras 86 Os que nos deixaram
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O 205 de 1882
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Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957
Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito Mortos na 1ª Guerra Mundial. Moçambique Quem entra no átrio principal do Colégio encontra várias lápides de homenagem aos Antigos Alunos mortos pela Pátria, começando nos que morreram na Guerra Peninsular e acabando nos que morreram na Guerra do Ultramar, terminada em 1974. Dentre essas placas, sobressai uma grande lápide de mármore negro, encimada pela frase «AD PERPETUAM GLORIAM», da autoria de Salvador Joaquim Barata Feyo (105/1911), oferecida ao Colégio pela nossa Associação em 1946, com os nomes dos Antigos Alunos tombados no decurso da 1ª Guerra Mundial. Nessa placa figuram os nomes de quatro Antigos Alunos tombados em Moçambique, um teatro de guerra completamente ignorado pela esmagadora maioria dos portugueses. Foi uma guerra desastrosa para as nossas Forças Armadas, por razões que referiremos, mas onde não deixaram de se praticar actos de abnegação e heroísmo, que não devem cair no esquecimento. Os quatro Antigos Alunos que aí pereceram, foram os seguintes: - Alferes Jorge de Sousa Gorgulho (214/1905). - Major João Teixeira Pinto (144/1888). - Tenente Viriato António da Rocha Portugal Correia de Lacerda (38/1897). - Capitão Humberto de Athayde Ramos e Oliveira
(154/1899). Promovido a major a título póstumo. Uma das razões pela qual a guerra em Moçambique foi desastrosa, consistiu no facto de as nossas forças terem de enfrentar um inimigo comandado por um homem de génio e de rija têmpera, corajoso e audacioso como poucos, que foi o general alemão Paul Emil von Lettow-Vorbeck, considerado por alguns contemporâneos seus como um homem com laivos de loucura que, com o seu carisma e o seu exemplo, conduziu superiormente as diminutas forças de que dispunha, na então designada África Oriental Alemã (actual Tanzânia), durante quatro anos e quatro meses, sem que tivesse sido derrotado. Só se entregou aos ingleses, mais de uma semana depois de a Alemanha ter assinado o armistício na Europa. A sua entrega deu-se em Abercorn (actual Mbala), na colónia inglesa da Rodésia do Norte (actual Zâmbia), onde tinha penetrado, de regresso de Moçambique, onde se mantivera em permanente «nomadização» durante 10 meses. É essa guerra esquecida que agora aqui se recorda, numa sumaríssima descrição e análise, homenageando todos os que nela caíram e lembrando a figura extraordinária do comandante nosso inimigo, que atingiu completamente os seus objectivos. Manteve activo, durante toda a guerra, um teatro de operações numa região remota em África, obrigando as potências aliadas a fazer aí um esforço de guerra considerável, empregando
um total de cerca de 160.000 homens, em prejuízo dos meios disponíveis para empenhar no teatro de operações em França.
Paul von Lettow-Vorbeck A escritora dinamarquesa Karen Blixen, autora do conhecido livro «Out of Africa» (África Minha, na versão portuguesa), conheceu von Lettow-Vorbeck no paquete em que ambos foram para África em 1914. Descreveu-o da seguinte forma «Era um homem dos velhos tempos, eu nunca tinha encontrado um alemão que me tivesse transmitido uma tão forte impressão do que era o Império Alemão». O coronel britânico Brian Hawkins, que
Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
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Não podendo regressar à Alemanha, ofereceu-se para combater às ordens de von Lettow, tendo sido provavelmente o militar mais idoso que participou nesta campanha.
Portugal e o início da Guerra
Navio de guerra alemão Konigsberg
assistiu à sua rendição, em 25 de Novembro de 1918, escreveu o seguinte: «Von Lettow era uma pessoa muito diferente do que pensáramos. Estatura um pouco acima do normal, com barba curta e bicuda, era nos seus 49 anos de idade um homem com um aspecto distinto – não o prussiano arrogante que esperávamos encontrar». Von Lettow-Vorbeck nasceu em 1870. A sua primeira missão fora da Alemanha ocorreu em 1901, participando nas forças internacionais de combate à rebelião dos «boxers», na China. Em 1904, foi destacado para a África Ocidental Alemã (actual Namíbia), participando na «pacificação dos Hereros», onde foi ferido, tendo perdido uma vista. Em 1914, no posto de Tenente-Coronel foi comandar as tropas da África Oriental Alemã, compostas por um número reduzido de militares alemães, que enquadravam companhias de soldados nativos, com boa preparação militar, designados por “askaris.” Iniciada a guerra, von Lettow-Vorbeck, apesar das pequenas forças de que dispunha, toma a ofensiva e faz ataques pontuais às colónias inglesas e belga, que confinavam com a África Oriental Alemã, iniciando aquela que é considerada a maior e a mais bem-sucedida operação de guerrilha da história. Fica completamente isolado em África, tendo sido reabastecido durante toda a guerra,
por via marítima, por duas vezes apenas em 1915. Uma tentativa de reabastecimento por meio de um grande dirigível “Zeppelin”, em 1917, foi abortada. O único grande navio de guerra alemão que estava na África Oriental Alemã, o “Konigsberg”, foi destruído pela “Royal Navy”, em 1915, na embocadura do rio Rufigi. Os canhões do navio foram retirados, montados em reparos sobre rodas, passando a ser usados como artilharia de campanha. O comandante do navio e a sua tripulação foram reforçar os efectivos das tropas terrestres. Em Outubro de 1917 von Lettow-Vorbeck, após a batalha de Mahiva com os ingleses, foi promovido a Major-General. De seguida, pressionado pelos ingleses, penetra em Moçambique, fica sem linhas de abastecimento, passando as suas tropas a constituir uma «tribo nómada», que vivia dos despojos das forças portuguesas e inglesas, que ia batendo, e também do saque dos povoados nativos por onde ia passando, deixando atrás de si um rasto de destruição. Foi um longo «safari» que empreendeu e que o levou até ao coração de Moçambique. Nesse «safari» levou consigo o governador da África Oriental Alemã, para que este não se rendesse aos ingleses, bem como o general alemão Kurt Wahle. Este oficial foi surpreendido pelo início da guerra nesta colónia, onde se encontrava de visita ao seu filho, que era tenente.
O início da Grande Guerra dá-se no dia 28 de Julho de 1914, com a declaração de guerra do Império Austro-Húngaro à Sérvia. Dadas as duas alianças existente na altura entre as grandes potências europeias, as declarações de guerra entre elas sucederam-se nos dias que se seguiram, tendo como consequência, passada apenas uma semana, uma situação de guerra generalizada na Europa. Portugal, que não fazia parte de nenhumas das duas alianças referidas, decide perguntar à Grã-Bretanha, que acção devia tomar. Recebe como resposta que se deve declarar não-beligerante e não neutral. Era uma situação dúbia, da qual a Grã-Bretanha pretendia tirar vantagens, o que não se fez esperar. Logo a 13 de Agosto, a Grã-Bretanha solicita a Portugal autorização para fazer transitar tropas suas através de Moçambique, a partir do porto da Beira, para reforçar as suas forças na Niassalândia (actual Malawi). A autorização foi dada. No dia 25 de Agosto, uma pequena força alemã atravessa o rio Rovuma, que constitui a fronteira norte de Moçambique, e ataca de surpresa o posto de Maziúa, que tinha uma pequena guarnição nativa comandada por um sargento europeu. O sargento é morto, a guarnição dispersa-se, o posto é incendiado e os alemães retiram. Foi uma acção pontual. A Alemanha não estava na altura interessada em ter mais um inimigo nas fronteiras da sua África Oriental. Já estava em guerra com a Inglaterra, com cujas colónias do Quénia e da Rodésia do Norte (actual Zâmbia) a África Oriental Alemã confinava, bem como com o Congo Belga. Moçambique, onde a Alemanha tinha representantes diplomáticos e agentes comerciais, representava para a África Oriental Alemã a única porta para contacto com a sua metrópole e o resto do mundo. Era do seu interesse manter essa porta aberta. Iniciada a guerra, era consensual em Portugal a necessidade de proteger os seus territórios ultramarinos. Assim sendo, logo a 18 de Agosto, o
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Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
Triângulo de Quionga
governo português ordena a preparação de duas expedições militares, que deviam partir, com a maior brevidade possível, para Angola e para Moçambique, para protecção das suas fronteiras confinantes, respectivamente a sul e a norte, com as colónias alemãs. No caso específico de Moçambique, esta foi a primeira de quatro expedições militares durante o período da guerra, que de seguida se apresentam.
1ª Expedição A primeira expedição, com um efectivo de 1539 homens, teve o comando do Tenente-Coronel Pedro Massano de Amorim, oficial conhecedor de Moçambique, onde já servira. A expedição embarca em Lisboa, a 11 de Setembro de 1914, num vapor britânico, chega a Lourenço Marques a 16 de Outubro, onde é transferida para um navio nacional, que a transporta para Norte, para Porto Amélia, onde aportou a 1 de Novembro. A missão da expedição era reforçar a fronteira norte de Moçambique, ao longo do rio Rovuma. A escolha de Porto Amélia para base de operações não seria a melhor para este propósito, dado estar a cerca de 300 km da fronteira que se queria defender. As doenças tropicais bem como as devidas a
uma deficiente alimentação e ao consumo de água inapropriada, fizeram a breve prazo sentir os seus efeitos. Seis meses após a sua chegada a expedição já tinha 21% de baixas por doença. Verificou-se que os comprimidos de quinino de que se dispunha para a prevenção da malária eram na realidade de farinha, fruto de uma fraude no fornecimento de medicamentos. O Governador-Geral da província pretendia, de acordo com alegadas instruções recebidas de Lisboa, que esta expedição procedesse à ocupação do triângulo de Quionga, pequeno território situado na margem sul da embocadura do rio Rovuma, e que fora ilicitamente ocupado pelos alemães em 1894, violando as fronteiras estabelecidas na Conferência de Berlim de 1886. Em meados de 1915, Massano de Amorim informa que as suas tropas, por razões sanitárias, não estão em condições de avançar sobre Quionga sem reforços e que uma acção ofensiva só seria possível no ano seguinte, passada a época das chuvas. A expedição ocupou-se com a construção de estradas (picadas) e linhas telegráficas para a fronteira do Rovuma. Nestes trabalhos empregou muita mão-de-obra local. Foi-lhe apontada a falha de não ter elaborado estudos da fronteira, nem ter efectuado reconhecimentos que pudessem ser úteis em previsíveis operações
futuras. A falta de obtenção de informações oportunas e fiáveis, foi aliás uma carência que se veio a verificar ao longo de toda a campanha de Moçambique. A expedição manteve a sua base em Porto Amélia até à chegada da 2ª expedição, a 7 de Novembro de 1915. Esteve, assim, um ano em actividades não operacionais.
2ª Expedição A 2ª expedição tinha um efectivo de 1558 homens, sendo comandada pelo Major Moura Mendes. Partiu de Lisboa no início de Outubro de 1915, levando a bordo o novo Governador-Geral de Moçambique, Álvaro Xavier de Castro (206/1890), um capitão em situação de licença ilimitada, licenciado em Direito, que se dedicara à política. De acordo com o sistema vigente à época, era o comandante supremo das forças da província, com honras de general. Por outro lado, os comandantes das expedições tinham a competência da conduta operacional das mesmas. Esta situação veio a dar origem a conflitos na área da competência operacional militar. Tal como a expedição anterior, esta expedição desembarca também em Porto Amélia, a 7 de Novembro de 1915, não havendo ainda uma si-
Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
tuação de guerra entre Portugal e a Alemanha. Esta expedição foi encontrar as estradas abertas pela expedição anterior que permitiam, a partir de Porto Amélia, atingir no litoral, Mocímboa da Praia e Palma (a uma dezena de quilómetros de Quionga) e, paralelamente ao rio Rovuma, Diaca, Mueda, Mocímboa do Rovuma e Negomano (na confluência dos rio Lugenda e Rovuma). Esta expedição sofreu de problemas sanitários ainda mais graves do que os da expedição anterior, com uma elevadíssima percentagem de baixas por doenças, ficando com a sua capacidade operacional bastante afectada. De acordo com as normas então vigentes, o conceito de defesa da fronteira do Rovuma era um conceito estático, com postos militares ao longo do rio e muito distanciados entre si, dada a extensão desta fronteira (900km), subdividida em dois sectores: o 1º sector, do lado leste, da foz do Rovuma à confluência com o Lugenda (em Negomano) e o 2º sector, do lado oeste, de Negomano ao lago Niassa. Parte do efectivo foi guarnecer estes postos, que eram mais numerosos no 1º sector. Os postos estavam ligados entre si por rede telegráfica com fios, o que tornava as comunicações muito vulneráveis. Na sequência do apresamento dos navios alemães surtos nos portos portugueses, ocorrido
no início de 1916, a Alemanha, em 9 de Março de 1916, declara a guerra a Portugal. No final deste mês, o Governador-Geral Álvaro de Castro transmite ao comandante da expedição o plano de acção para a guerra em Moçambique, recebido do Governo Central, que estabelecia os três seguintes objectivos: 1º - Reocupar Quionga, como objectivo principal. 2º - Ocupar o território a norte da foz do Rovuma, acção não prioritária mas importante. 3º- Atacar o núcleo principal alemão em Tábora, por uma operação conjunta com os britânicos. À reocupação de Quionga devia seguir-se a travessia do Rovuma, com subsequente marcha para Norte, para a ocupação das povoações litorais de Mikindani e de Lindi, respectivamente a 60 e 100 quilómetros da foz do rio. Face aos escassos efectivos em condições operacionais, o segundo e sobretudo o terceiro objectivo eram utópicos. Acrescia o facto de não estar programada qualquer acção conjunta com as forças britânicas. Para reocupar Quionga foi formado um destacamento, sob o comando do Major Portugal da Silveira, que foi transportado, por via marítima, para Palma (a 12 km de Quionga), onde recebeu o reforço de uma Companhia Indígena. A marcha e entrada em Quionga, em 10 de Abril de 1916, decorreu sem qualquer incidente, pois Quionga tinha sido evacuada pelos alemães. A povoação estava deserta. Para o prosseguimento das operações, foram de seguida transportadas para Palma as forças restantes da expedição. Foi estabelecido um conjunto de postos na margem sul do Rovuma, na zona da sua foz, para sua defesa e para preparação da operação da travessia do rio. A zona era muito insalubre e em breve muitos militares ficaram doentes e incapazes para o serviço. Apesar da situação da 2ª expedição, o Governador-Geral decide lançar uma operação para cumprir a primeira parte do 2º objectivo, atravessar o Rovuma e ocupar a sua margem norte. Para tal, o Governador-Geral embarca em Lourenço Marques e ruma a norte com alguns reforços que conseguira reunir: três companhias (duas da Guarda Republicana) e uma bataria de artilharia de campanha. A 19 de Maio, chega à foz do Rovuma o cruzador “Adamastor”, para apoiar a operação da travessia do rio. Devido ao seu cala-
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do, o cruzador não podia passar a barra. Os seus sistemas de comunicações não eram compatíveis com os das forças terrestres. A 23 de Maio, a Marinha, com duas lanchas do “Adamastor” e com a canhoneira “Chaimite”, tenta a travessia do rio. A tentativa não tem êxito, havendo alguns mortos e feridos. A 27 de Maio, tenta-se de novo a travessia, agora por duas colunas, nos vaus de Namaca (coluna leste) e de Nhamiranga (coluna oeste). A coluna leste foi comandada por Moura Mendes, o comandante da 2ª expedição. O Governador-Geral estava a bordo do “Adamastor”. O ataque foi precedido de uma preparação de artilharia, durante uma hora. A coluna leste, embarcada numa dúzia de baleeiras do “Adamastor”, foi detida pelo fogo de metralhadoras alemãs instaladas na margem norte do rio e retrocedeu, tendo tido 33 mortos e 28 feridos. Face a esta situação, foi dada ordem à coluna oeste para retirar. A partir deste combate, os alemães iniciam um conjunto de acções isoladas, de pequena envergadura, contra os postos militares existentes ao longo da fronteira, numa manobra de desgaste e de fixação das forças portuguesas dispersas, para evitarem concentrações de tropas que permitissem a invasão da sua colónia. Pareceria estar assim aberta uma frente sul para os alemães, o que não era, porém, o caso. Von Lettow não tinha frentes com localização geográfica fixa, a sua guerra era de permanente movimento, com ataques pontuais repentinos e muito fortes, seguidos de retirada quando o inimigo não ficava derrotado. Após a tentativa gorada de travessia do Rovuma, a capacidade da 2ª expedição estava esgotada, tendo ficado paralisada durante cerca de 4 meses. Em Lisboa já se preparava uma 3ª expedição, de maior dimensão, tendo em consideração o estado de guerra e os objectivos estabelecidos.
3ª Expedição A 3ª expedição, sob o comando do General Ferreira Gil, tinha um efectivo de 4386 homens muito superior aos efectivos das duas expedições anteriores, o que implicou o seu transporte em vários navios, zarpando o primeiro de Lisboa no final de Maio. As primeiras tropas chegam a Palma (nova base de operações) a 5 de Julho. As
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Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
últimas tropas a chegar, meses depois, são duas companhias de Infantaria condenadas por insubordinação, inicialmente destinadas a França. O núcleo da expedição era formado por três batalhões de Infantaria, reunidos em Mafra, para instrução, antes do embarque. Os batalhões insubordinaram-se e foram transferidos para Lisboa, com a instrução incompleta, a fim de aguardarem embarque. Seria difícil imaginar cenário menos auspicioso para o início de uma expedição. Chegada a Moçambique a 3ª expedição, a mesma pouco pessoal herdou da anterior, pois a maioria do pessoal, ou já tinha sido repatriado por doença, ou aguardava repatriamento pelo mesmo motivo. Os serviços de saúde e alimentação continuavam deficientes, afectando a capacidade das tropas. Dado o deficiente rendimento operacional das tropas metropolitanas, por inadaptação ao clima local, foi decidido na altura organizar 10 companhias indígenas, sujeitas a instrução acelerada. O objectivo da 3ª expedição era, de novo, a travessia do Rovuma e a invasão da África Oriental Alemã, já então parcialmente ocupada pelas forças britânicas e belgas. No entanto, von Lettow-Vorbeck continuava capaz de conduzir o tipo de guerra que tinha escolhido. A coluna principal portuguesa, comandada pelo General Ferreira Gil, atravessou o Rovuma, em 19 de Setembro, usando dois vaus perto da foz. Num dos vaus foi de seguida construída pela engenharia militar uma ponte de cavaletes, para facilitar a passagem de pessoal e reabastecimentos. O plano estabelecido consistia em progredir para Oeste, paralelamente à margem norte do rio, inflectindo de seguida para Norte, para Liwale, passando pelo forte de Nevala e por Massassi, considerados objectivos intermédios. A tomada de Mikindani e Lindi, no litoral, deixaram de ser objectivo, por já terem sido ocupadas pelos britânicos. Depois de luta com os alemães em Maúta (a 15 Km de Nevala), dá-se, a 22 de Outubro, o combate pela posse dos poços de água de abastecimento de Nevala (a 5 km desta). Os alemães são obrigados a abandonar os poços. A 26 de Outubro, após novos combates, o forte de Nevala é ocupado. A 7 de Novembro, chega a Nevala, com reforços, o Major Jorge da Silva, que toma o comando das tropas. No dia seguinte, a chamada Coluna de Mas-
Companhia de “askaris”
sassi parte de Nevala sob o comando deste oficial. Os alemães tinham-se entretanto reagrupado e preparado para deter o avanço da coluna na estrada. Na luta que se travou o Major Jorge da Silva é gravemente ferido, vindo a morrer. A coluna, agora
sob o comando do Capitão Curado, que se notabilizou nesta campanha, continua o seu movimento e ocupa Lulindi, a meio caminho para Massassi. Face à concentração de tropas alemães, para um contra-ataque, a coluna de Massassi retrocede para
Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
Forte Nevala - Tanzania
Nevala. A 22 de Novembro os alemães contra-atacam. Após 12 horas de combate, obrigam os portugueses a retirar dos poços de água de abastecimento a Nevala, deixando os portugueses no forte sem água. Era a inversão de papeis das forças em presença. Seguiu-se o cerco do forte pelos alemães. A 28 de Novembro uma coluna portuguesa de socorro a Nevala é detida pelos alemães, a 10 km do objectivo. Dado este facto e a situação de sede extrema dos sitiados, os oficiais do forte, reunidos em conselho, decidem a retirada do forte, de surpresa, a coberto da noite. O efeito de surpresa foi conseguido, a retirada foi executada com êxito, sendo atingido o Rovuma no dia 30 de Novembro, refugiando-se a tropa portuguesa em Nangade, que é de seguida bombardeado pela artilharia alemã. O posto é destruído e abandonado a 1 de Dezembro de 1916. A presença portuguesa na colónia alemã durara cerca de 40 dias. Seguiram-se ataques pelos alemães aos postos portugueses da fronteira. Em meados de Dezembro começou o período das fortes chuvas tropicais, que levou à suspensão da ofensiva alemã. Entretanto o General Ferreira Gil adoece gravemente e regressa à metrópole, sendo substituído, a 2 de Janeiro
de 2017, pelo Governador Álvaro de Castro. O ano de 2017 decorre numa situação de expectativa, com pouca actividade operacional. Os alemães vão atacando postos fronteiriços portugueses, onde se reabastecem, destruindo-os depois. Os portugueses não estavam em condições de empreender nova ofensiva sem o refrescamento das tropas. Ficou-se à espera da chegada da 4ª expedição.
4ª Expedição A 4ª e última expedição, comandada pelo Coronel Sousa Rosa, embarcou em Lisboa de forma escalonada de Julho a Outubro de 1917. Tinha um total de 5267 homens, a que se somavam 4509 homens para reforço e enquadramento das tropas da expedição anterior e das tropas indígenas. Com esta força seguiu uma Esquadrilha de Aviação Expedicionária, com 3 aviões “Farman F40” que chegou a Mocímboa da Praia em Agosto de 1917. Passado um mês o primeiro avião estava em condições de voar. Em 17 de Setembro, o Alferes Jorge Sousa Gorgulho (214/1905) faz o primeiro voo de experiência. No dia seguinte faz segundo voo, despenha-se no solo, o avião incendeia-se e o piloto gravemente queimado
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acaba por morrer. Foi o primeiro piloto a voar na África Portuguesa e a primeira vítima mortal da nossa Aviação Militar. O comandante da 4ª expedição, tinha defendido no Parlamento, em que era deputado, a passagem à ofensiva das tropas portuguesas. O Governador-Geral instruiu-o, porém, para se limitar à defesa da fronteira do Rovuma. O Governo Britânico considerava, na altura, inoportuna qualquer ofensiva portuguesa. A situação passiva daqui resultante só servia para deteriorar a disciplina e o moral das tropas. No que se refere à situação sanitária, pouco se evoluíra. Um Batalhão de Infantaria, estacionado em Mocímboa da Praia, teve uma tal quantidade de doentes, que ficou inoperacional. O que se seguiu foi a ofensiva alemã. Von Lettow sai de Nevala, trazendo consigo o Dr. Heinrich Schnee, Governador-Geral da África Oriental Alemã, com um total de cerca de 2200 combatentes, 300 alemães e 1900 nativos (designados por “askaris”), organizados em 15 companhias, dispondo de metralhadoras e peças de artilharia, e com 3000 carregadores para o transporte de munições e mantimentos. A 25 de Novembro de 1917, atravessa o rio Rovuma e ataca o posto português de Negomano, comandado pelo Major João Teixeira Pinto (144/1888), o conhecido pacificador da Guiné. Parte das tropas alemãs atacam frontalmente, fazem a fixação das tropas portuguesas, enquanto 3 companhias fazem uma manobra de envolvimento, seguindo-se o ataque final e a derrota das nossas tropas. O Major Teixeira Pinto é dos primeiros a cair, morrendo neste combate. Vencidas as defesas de Negomano os alemães internam-se em Moçambique e dirigem-se às defesas da serra Mecula, que cobriam as linhas portuguesas de comunicações e de reforço e reabastecimento aos postos fronteiriços do médio Rovuma. A defesa das posições de serra Mecula, sob o comando do já mencionado Capitão Curado, foi um acto notável das nossas tropas. Combateu-se renhidamente durante cinco dias. No dia 8 de Dezembro, os alemães com todo o efectivo da sua coluna e com o recurso à artilharia, envolvem a posição e apoderam-se da fonte de água, indispensável à defesa, o que leva a pequena força portuguesa a retirar. Na defesa de serra Mecula morre o Tenente Viriato Lacerda (38/1897).
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Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
Canhão retirado do navio Konigsberg
Foi sepultado pelos alemães, com honras militares, a que assistiu o governador da colónia alemã, que acompanhava as suas tropas. Após o combate de serra Mecula, os alemães prosseguem na sua longa deambulação por Moçambique, marchando para Sul, pelo eixo da província, com duas colunas paralelas sempre ligadas por TSF, seguindo von Lettow na coluna principal, sendo a segunda coluna segmentada em patrulhas de efectivos variáveis. Face à invasão de Moçambique, tropas britânicas são desembarcadas em Porto Amélia a 13 de Dezembro de 1917, para, em coordenação com os portugueses, se oporem às forças alemãs. Esta coordenação nunca chegou a ser bem conseguida. O comando operacional das tropas passou a ser feito pelos ingleses. Entra-se assim em 1918, com os alemães bem no interior de Moçambique, progredindo para Sul, em actividade de saque com vista à sua sobrevivência. A época das chuvas não era propícia à sua perseguição. Em Junho de 1918 von Lettow aproxima-se de Quelimane. As forças anglo-lusas concentram-se então em Nhamacurra (40 km a norte de Quelimane), um posto onde havia uma estação de caminho-de-ferro e uma fábrica e armazéns de uma
companhia açucareira. Os alemães atacam as posições anglo-lusas, comandadas por um tenente-coronel britânico. Os combates duram três dias. Ao terceiro dia o fogo da artilharia alemã leva à fuga desordenada dos defensores.
A última manobra de von Lettow-Vorbeck Depois de terminado o combate de Nhamacurra (3 de Julho de 1918), com o sucesso das forças alemãs, os portugueses e os ingleses pensavam que aquelas iriam, de seguida, avançar mais para Sul sobre Quelimane, a cerca de 40 quilómetros de distância. Mais uma vez foram enganados pelo comandante alemão, que se dirigiu para Norte, para Nameti (22 de Julho de 1918), de seguida para Oeste, na direcção da Niassalândia (actual Malawi), para Namarroi, que ataca e conquista (Agosto de 1918). Inflecte então para Norte, começando a marcha de regresso à África Oriental Alemã. A marcha para Norte das tropas alemãs, perseguidas pelas tropas inglesas, foi terrível. Muitos homens ficaram pelo caminho, em consequência de ferimentos e de doenças, sendo alguns recolhidos pelos ingleses. No final de Agosto, os ingleses conseguem forçar os alemães a combater e
impõem-lhe pesadas baixas. Num dado combate os ingleses capturam o médico das tropas alemãs e apreendem o seu hospital de campanha. Numa semana apenas, no final de Agosto e início de Setembro de 1918, os alemães perdem 15% da sua força de combate. Quando von Lettow transpõe o rio Rovuma, dez meses depois do combate de Negomano, já só tem consigo 172 alemães, 1260 “askaris” e cerca de 3000 carregadores. Transposto o rio Rovuma von Lettow continua a sua marcha para Norte, acompanhando o lago Niassa, que contorna no seu extremo norte, inflectindo para Oeste, para se internar na Rodésia do Norte (actual Zâmbia), onde pensava encontrar comida, devido a não haver guerra nessa zona. Nesta parte final da marcha, o «velho» general alemão Kurt Wahle, que se pusera logo no início da guerra às ordens de von Lettow, tem de renunciar à marcha, devido a uma hérnia que o atormentava. Foi recolhido pelos ingleses que perseguiam a coluna de von Lettow, que o trataram com toda a dignidade devida à sua patente, sendo além disso o mais velho combatente da Grande Guerra em África. Quando mais tarde regressa à Alemanha, é agraciado com a Cruz de Ferro de primeira classe. Von Lettow continua a sua marcha e, a 4 de Novembro, ataca a missão religiosa de Muembo, onde se apodera de 400 cabeças de gado e de uma quantidade de quinino para os seus homens suficiente para 6 meses. A 12 de Novembro, em Abercorn (actual Mbala), os alemães interceptam um estafeta britânico com uma carta que anunciava o armistício assinado na Europa no dia anterior. Von Lettow suspende então a sua marcha e aguarda em Abercorn os britânicos, a quem se entrega a 25 de Novembro. Fazia nesse dia exactamente um ano que atravessara o Rovuma para Sul, batendo as tropas portuguesas no combate de Negomano. Entregaram-se aos britânicos o governador, 25 oficiais, 5 oficiais do serviço de saúde, 1 médico voluntário, 1 veterinário chefe, 1 farmacêutico de 1ª classe, 1 secretário telegrafista, 125 europeus de várias graduações, 1156 “askaris” e 1588 carregadores. Von Lettow assinou o acto de rendição e entregou a sua espada, de acordo com os usos cavalheirescos da época. Os britânicos, de forma igualmente cavalheiresca, recusaram receber a espada. Tinham
Paul Emil von Lettow-Vorbeck Um inimigo de respeito
Percurso das tropas alemãs em Moçambique, 1917/1918
à sua frente um Soldado de gabarito impar, que tinha conseguido combater e iludir, durante mais de quatro anos, as forças aliadas, as quais, ao longo daquele período, tinham mobilizado cerca de 160 mil homens para o perseguir e capturar.
Consagração e queda de von Lettow-Vorbeck De Abercorn, von Lettow-Vorberck foi conduzido com os seus companheiros de armas alemães para Dar-es-Salaam, onde embarcou de regresso à Europa no dia 17 de Janeiro de 1919, exactamente cinco anos depois de aí ter chegado. Desembarca em Roterdão, com 114 soldados, onde os aguarda um combóio especial, que os leva em triunfo até Berlim. Nesta capital, a 2 de Março de 1919, von Lettow-Vorbeck é recebido apoteoticamente, como um herói nacional, num país derrotado na guerra e humilhado pelas condições de paz que lhe foram impostas (que acabariam por dar origem a nova guerra vinte anos mais tarde). A partir da sua consagração, von Lettow-Vorbeck começa o seu calvário, num país mergulhado na miséria e na anarquia. Envolveu-se, sem sucesso, num golpe da extrema direita para
derrubar o partido no poder. Em 1920 reforma-se, escreve as suas memórias de África e fixa residência em Bremen, onde se dedica a actividades de import-export. Tentou uma oposição conservadora a Hitler, sem sucesso. Receando a sua popularidade e prestígio, Hitler tenta afastá-lo, em 1935, convidando-o para embaixador da Alemanha no Reino Unido, o que von Lettow recusa de forma desabrida. Durante a 2ª Guerra Mundial são mortos os seus dois filhos varões. No final dessa guerra fica em condições económicas difíceis. Num gesto de grande nobreza, o General sul-africano Jan Smuts e outro General britânico, que tinham sido seus inimigos em África, auxiliaram-no. Em 1953, volta à Tanzânia, onde é recebido pelos ingleses com honras militares, enquanto os seus “askaris”, aí reunidos, o recebem entoando a sua canção de marcha «Heia Safari». Acaba por morrer, com a provecta idade de 94 anos, em Março de 1964. No seu funeral, feito com todas as honras militares estão presentes, a convite do governo alemão, dois dos seus “askaris” então ainda vivos e que nunca esqueceram o «seu» general. Na Alemanha podem-se encontrar ruas com o seu nome em várias cidades.
O fim da guerra. O regresso a casa O fim da guerra foi entusiasticamente celebrado em Moçambique. Em Lourenço Marques a população encheu a praça Mouzinho de Albuquerque e as casas comerciais exibiram bandeiras. Durante três dias não se trabalhou. O pesadelo tinha terminado. Para os militares os seus padecimentos estavam longe de terminar. Os doentes sem tratamento adequado eram aos milhares. A perspectiva de regresso a suas casas era uma hipótese distante, dado não haver barcos em quantidade suficiente para transportar rapidamente os militares de regresso a Lisboa. Houve militares que esperaram cerca de um ano para serem retirados. Houve alguns ainda que, por desdita sua, chegados finalmente a Lisboa foram impedidos de desembarcar, por se terem declarado doenças a bordo, que obrigaram passageiros e tripulação a ficar de
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quarentena até terem autorização de desembarque. Ainda tiveram de passar por esta última provação. O General Gomes da Costa (66/1873), depois de comandar uma das divisões do Corpo Expedicionário Português em França, foi enviado para Moçambique, para aí assumir o comando das tropas portuguesas. Chegou a Moçambique com a guerra terminada. Permaneceu aí alguns meses, o que foi suficiente para se indignar com o que lhe foi dado testemunhar, que feriu a sua alma de Soldado. Chegou a Lisboa, em 19 de Agosto de 1919, revoltado e convicto de que algo tinha de mudar em Portugal. Revoltava-se contra os «hábeis da chamada politica», que segundo ele «nos subjugam envolvem e amordaçam, fazendo-nos morrer à fome e á sede nos areais africanos, enquanto eles enriquecem com os negócios da guerra e vivem uma vida de gozo e dissipação». Foi este sentimento que o levou, anos mais tarde, ao golpe militar do 28 de Maio de 1926.
Balanço da guerra em Moçambique Em termos territoriais Portugal garantiu a integridade da província de Moçambique e recuperou o triângulo de Quionga, ocupado ilegitimamente pelos alemães em 1894. As perdas humanas foram em número elevado sendo, porém, o número de mortos e desaparecidos em combate muito inferior à dos mortos por doença ou exaustão física, o que decorreu de alimentação e de água impróprias para a tropa e da falta de medidas profilácticas adequadas às doenças tropicais. Foi um fracasso logístico e sanitário. Segundo os dados publicados na História do Exército Português, edição do Estado-Maior do Exército de 1994, o pessoal utilizado durante a guerra em Moçambique foi o seguinte: Militares europeus - 19.650 Militares indígenas -11.600 Auxiliares Indígenas - 8.000 Carregadores - 60.000 Dos militares europeus 500 eram de Marinha e 650 eram oficiais e sargentos que comandavam
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de 2.500 morreram e cerca de 5.500 foram dados como desaparecidos. Finalmente há que considerar as baixas na população civil. Para base de um pedido de indemnização aos alemães no final da guerra, foi indicado um número de 100.000 mortos na população nativa, o que foi considerado exagerado na Conferência da Paz de Paris. Fontes externas estimaram um número de 30.000. Não se sabe onde estará a verdade, mas são ambos números impressionantes.
Desfile em Berlim
unidades de indígenas, incluindo as companhias de Guarda Republicana de Lourenço Marques. No que se refere a baixas os números indicados são os seguintes: Militares europeus mortos em combate ou em desastre - 62 Militares europeus mortos por doença - 1.945 Militares indígenas mortos em combate ou em desastre - 88 Militares indígenas mortos por doença - 209 Auxiliares indígenas mortos em combate ou desastre - 1 Auxiliares indígenas mortos por doença - 20 Carregadores mortos - 2.487 A análise destes números indica-nos o seguinte: O número de militares europeus e indígenas mortos em combate, ou em desastre, foi diminuto (150). O número de militares europeus mortos por doença foi desastroso (1.945), representando cerca de 10% do efectivo utilizado.
A percentagem de militares indígenas mortos por doença é baixa (cerca de 2%), o que é normal, dado estarem no seu habitat natural. Às baixas devidas a morte, anteriormente referidas, há que adicionar as baixas, temporárias ou definitivas, devidas a ferimentos ou doenças. Os militares feridos foram cerca de 1.600, para um total de cerca de 30.000 militares, o que dá uma percentagem de cerca de 5%. O número de baixas temporárias por doença não é conhecido, mas foi elevadíssimo, reduzindo fortemente a capacidade operacional das nossas tropas. Os doentes mais graves eram evacuados para Lourenço Marques. Não longe desta cidade foi criado um centro de recolha de doentes, destinado ao seu tratamento e convalescença. No final da guerra estavam lá cerca de 2.400 homens. O número de carregadores indígenas mortos, recrutados à força por todos os exércitos intervenientes nesta guerra na África Oriental foi elevadíssimo, havendo apenas estimativas acerca dos mesmos. Eram homens sem nome e sem número, a quem se punha uma carga às costas e se obrigava a acompanhar a tropa. Estima-se que em Moçambique tenha sido utilizado um total de 90.000 carregadores, 60.000 pelo Exército Português e 30.000 pelo Exército Anglo-Boer. Dos carregadores utilizados pelo nosso exército cerca
Notas Finais - O Antigo Aluno Humberto de Athayde Ramos e Oliveira (154/1899), foi incluído neste texto no número de mortos no teatro de operações de Moçambique, sem que posteriormente fosse mencionado. Este militar tinha servido, no posto de Tenente, sob o comando do General Pereira de Eça (73/1864), na campanha do Sul de Angola, onde foi gravemente ferido em Tchipelongo, em 29 de Maio de 1915, voltando a ser ferido posteriormente por mais três vezes, sendo condecorado com a medalha de Valor Militar, a mais alta condecoração dada em combate. Como capitão, já em Moçambique, morreu no posto administrativo de Muata (Angoche). Tendo ouvido injustos comentários depreciativos de oficiais ingleses, acerca de uma acção por si tomada, no cumprimento de ordens recebidas, não suportou tal situação e possuído de um sentimento de honra, suicidou-se com um tiro de pistola, a 4 de Agosto de 1918. Foi promovido a Major a título póstumo. - Uma das bases de operações no norte de Moçambique foi a povoação de Palma. Como foi indicado na ZacatraZ 208, de Julho/Setembro 2017, na rúbrica «Colégio Militar – Berço de Grandes Portugueses», da autoria de José Alberto da Costa Matos (96/1950), o nome foi atribuído a essa povoação em homenagem ao Antigo Aluno José Raimundo da Palma Velho (137/1842), que exerceu, entre outros, o cargo de Governador do Distrito de Cabo Delgado, onde se situava a mesma povoação. - O heróico Tenente Viriato Lacerda (38/1897), tinha como nome completo Viriato Sertório da Rocha Portugal Correia de Lacerda.
Comemorando o 3 de Março
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Comemorando o
3 de Março Algarve Os Antigos Alunos residentes no reino dos Algarves reuniram-se de novo, para comemorar mais um aniversário do Colégio. Como é habitual àquela latitude, a comemoração consistiu num almoço, em que os que quiseram foram acompanhados pelas suas mulheres. É uma originalidade, que tanto se pode saudar como lamentar. Saudar pelo avanço civilizacional que representa. Lamentar pela perda de liberdade de movimentos resultante para os que comparecem acompanhados. Cada um que avalie por si o cômputo final das vantagens e desvantagens. O repasto realizou-se no dia 17 de Março, no restaurante «Marsol», em Faro. Compareceram os seguintes Antigos Alunos: Martiniano Nunes Gonçalves (9/1958), Carlos Manuel Caramês Mendes (42/1959), Fernando José Vieira Cardoso de Sousa (28/1960), António Carlos da Cruz Cordeiro (175/1960), Artur Joaquim dos Reis Ferreira (274/1962), António Carlos da Palma Estanislau (376/1964), João Manuel Simões de Carvalho (464/1964), João Manuel Caçorino da Palma Baracho (545/1964), Artur Manuel Canas Soares Coelho (89/1965), José Manuel Machado dos Santos (200/1965), Joaquim Paleta Marreiros (413/1965), José Manuel Pais Sampaio (483/1965), Mário Manuel Godinho Simonette (544/1965), José Alberto de Barros Lopes Coelho Casquilho (322/1966), José Pedro Duarte Lupi Fialho (515/1967), José Carlos Pereira de Matos Duque (123/1968), António Manuel Freitas Soares de Almeida Pires (492/1969), António Emídio da Silva Salgueiro (461/1972), José Eusébio Pereira Barata Cordeiro de Araújo (591/1973), Paulo Jorge Messias Filipe Viegas (595/1974), Luis Augusto Pereira de Matos Duque (269/1975) e Pedro Miguel Ribeiro Fernandes (217/1996). De assinalar a presença de um actual Aluno, o Bernardo Duque (123/2017), que foi acompanhar o seu pai, que teve o mesmo número no Colégio.
Aveiro Na «Veneza portuguesa» também houve uma reunião comemorativa do aniversário do Colégio. Não sabemos se nesta conhecida capital dos ovos moles foi esta iguaria servida à sobremesa, em lugar do clássico leite de creme, mas podemos ver pela foto, que os comensais estavam com um ar bem disposto. Os ditos comensais foram os seguintes: António José Resende Fernandes Matias (284/1954), Fernando Martins Machado da Silveira (555/1961), Fernando José Lemos de Araújo de Faria Barbosa (367/1968), Afonso José Leal Duarte de Oliveira (647/1968), Mário António Marques Barbosa (516/1970), Luis Fernando Leal Duarte de Oliveira (628/1972) e Pedro Manuel Alpoim e Marques (433/1982).
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Comemorando o 3 de Março
Bruxelas O jantar comemorativo do 3 de Março em Bruxelas, realizou-se este ano no dia 7 de Março, no restaurante português Avenida. Na foto que se anexa podem-se ver os Antigos Alunos participantes no mesmo, que se identificam seguidamente, da esquerda para a direita: David Miguel Alves de Brito Antunes (315/1990), Paulo Sérgio da Silva Antunes (405/1982), Pedro Rui Bastos Teixeira Chaves (277/1966), António de Jesus Neves Correia (358/1977), André Salgado Paula Santos (192/1995), Rodrigo Filipe de Oliveira de Ataíde Rodrigues Dias (473/1985). Esteve também presente João Francisco Ramalho Ortigão Delgado (531/1969), que presumimos que tenha sido quem tirou a fotografia.
Évora
Os Antigos Alunos alentejanos ouviram dizer que lá para o Norte, no Porto, os Antigos Alunos nortenhos iam realizar um grande jantar comemorativo do 3 de Março. Esta notícia fê-los meterem-se em brios e responder com um jantar não menos grandioso, realizado nas conhecidas salas do Café Alentejano, em Évora, onde compareceram mais de 40 Antigos Alunos. Não temos conhecimento da ementa, mas garantidamente não faltaram à mesa os bons vinhos alentejanos. Os participantes nesta jornada gastronómica de saudade colegial foram os que de seguida se assinalam: José Domingos Mantero Morais (16/1941), Jerónimo José Nunes Vieira Lopes (59/1943), António Eduardo Queiroz Martins Barrento (40/1948), José Manuel de Lencastre Leitão (183/1954), António Eduardo Barbosa Alves (427/1954), José António Saturnino Balula
Cid (152/1957), Martiniano Nunes Gonçalves (9/1958), Nuno Joaquim Costa Cara de Anjo Lecoq (269/1958), Manuel José Marcelly Coelho de Carvalho (443/1958), Carlos Manuel Pires Nobre Biscaya (469/1958), João Luis da Costa Ruas (118/1959), Fernando Faustino Roque do Vale (518/1959), Joaquim José Arranhado Bação (77/1960), Artur Manuel de Spínola e Santos Pardal (587/1961), Marcial António Estrela Rodrigues (81/1963), Joaquim de Calça e Pina Duarte Silva (8/1964), Frederico Manuel Petrucci Guterres da Fonseca (232/1964), José Carlos Benito e Bismarck de Melo (187/1967), Fernando José Loureiro Ramires Ramos (211/1968), Carlos Manuel de Vasconcelos e Sá Grave (396/1968), Joaquim Francisco Braga Marquilhas (132/1969), Luis Manuel Botelho Moreira Guerra (309/1969), António Luis Henriques de Faria Fernandes (454/1970), Edmundo José Henriques Melo do Cruzei-
ro (95/1971), António Manuel de Carvalho Simas e Couceiro Braga (278/1971), Pedro Frazão Alpendre (412/1972), Carlos Alberto Caçorino da Palma Baracho (545/1972), António Luis Sanches de Castro Forte (161/1973), João Paulo Alves de Paiva (341/1973), José Manuel Montes Pais (474/1973), João Nuno Santos Trabucho (588/1973), José António Gonçalves da Câmara Tavares (597/1973), Francisco José Pereira Barata Cordeiro de Araújo (366/1974), António José Sousa Costa Godinho de Carvalho (153/1980), João José Pacheco de Almeida Tété (383/1984), José Nuno de Almeida Garcia Lopes de Oliveira (350/1985), Diogo Costa Freitas Pestana de Vasconcelos (60/1989), Pedro Pereira Dagge (14/2000), António Maria Tavares Pires e Couceiro Braga (60/2006), Bernardo José Fialho e Melo do Cruzeiro (95/2007), António Godinho de Carvalho (150/2008) e Francisco Gamboa Vicente (415/2008).
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Golegã Os Antigos Alunos residentes na zona da Golegã, conseguiram este ano, numa surpreendente jogada de antecipação, ser os primeiros a festejar o 3 de Março. No dia 2 de Março já estávamos a receber a notícia da sua reunião. Os participantes nesta confraternização, que teve lugar na «capital do cavalo», foram os seguintes: João Franco Braga Marquilhas (132/1969), António Manuel Lucas de Lemos (238/1969), Luis Maria Albuquerque de Saldanha Oliveira e Sousa (123/1976), Eleutério João Laranjinho Faleiro (264/1976), António José Sousa Costa Godinho de Carvalho (153/1980), João Pedro Franco Pancada da Silveira (356/1980), Arturo João Loureiro de Nazaré Cortês Fernandez (126/1985) e Miguel Henrique Domingos Dias Sereno (331/1988). Sendo este um grupo de tradicionalistas, cumpriram o ritual com todo o rigor, sendo a refeição constituída por caldo verde, amarelo de carne e arroz doce. Como não o indicaram, não podemos garantir que tenham no final tomado um cálice de vinho do Porto.
Lisboa Realizou-se no passado dia 2 de Março nas instalações do “Turf Club”, em Lisboa, um almoço de confraternização dos Antigos Alunos do Colégio Militar que são sócios do “Turf Club”, do “Real Club Tauromáquico Português”, ou do “Pé-Leve”. Abaixo segue a identificação dos presentes, por referência à fotografia que se anexa, da esquerda para a direita: José António da Costa Limão Gatta (263/1965); José António Fiúza Correia de Sá (228/1959); Filipe Soares Franco (62/1963); António José Passanha Braancamp Sobral (112/1950); José Luis Guimarães dos Santos Bessa (73/1955); Eduardo Pinto Basto (318/1954); S.A.R. o Duque de Bragança (97/1960); João Diogo Weinstein (386/1949); Pedro Miguel Prazeres Fuzeta da Ponte (143/1969); Luis Miguel Guerreiro Félix António (302/19172); Eurico Jorge Henriques Paes (306/1957); Duarte Nuno de Carvalho Gomes da Costa (288/1949); João Carlos Chaves de Almeida Fernandes (208/1959); António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963); João Bernardo Pablo de Brito e Cunha (121/1982); Ricardo José Vassalo Galiano Tavares (651/1968); Pedro Roberto Menéres Cudell (3/1961); João Carlos Leite Clara (372/1964).
Luanda Em Luanda deu-se a já habitual reunião comemorativa do 3 de Março, que este ano foi menos concorrida do que o costume. Estiveram presentes os seguintes Antigos Alunos: Carlos José Correia dos Santos Silva (452/1973), Rui Carlos Sobrinho Fernandes (463/1983), Pedro Filipe Moreira de Andrade Tavares (145/1984), Paulo Jorge da Silva Curto (431/1984), Júlio Fernandes Gonçalves de Oliveira (270/1987) e Marco Filipe Menezes Romero (122/2004).
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Comemorando o 3 de Março
Madrid Na capital espanhola reuniu-se o seguinte quinteto de Antigos Alunos: Jaime Miguel Faria Conde Rendeiro (255/1989), Luis Filipe Parreira Augusto (464/1978), Nuno José Lopes da Costa Alves Caetano (99/1998), Alexandre Miguel Rebelo Teixeira Cardoso (492/1985) e Pedro Manuel Castanheira da Silva (459/1985). Presume-se que esta seja a identificação da esquerda para a direita. Se assim não for, as nossas desculpas.
Maputo Na antiga e bela cidade de Lourenço Marques (The garden city by the sea) reuniu-se um grupo de cerca de uma dezena de Antigos Alunos, para recordar os seus tempos e vivências colegiais. Os presentes foram os seguintes: Vitor Manuel Patricio Corrêa Mendes (524/1963), Vasco José Duarte Raposo (332/1971), Luis Filipe dos Santos Paulo Antunes (73/1982), Jorge Miguel Afonso Marques (119/1986), Tiago Miguel Carrilho de Oliveira (435/1990), Cláudio Isaac Ivan Moty Julaia (250/1993), Patrício Chambwara Munhepe Muhlanga (245/1995), José Maria Limpo Serra Marques Paixão (296/1995) e Artur Danilson Pereira Augusto (165/1998).
Madeira Na «Pérola do Atlântico», os Antigos Alunos ali residentes não esquecem o Colégio, pelo que se realizou uma reunião comemorativa da passagem de mais um 3 de Março, que contou com a presença dos seguintes Meninos da Luz: José Coelho Cardoso de Ávila (343/1959), João Filipe Pereira Nunes Prudente (337/1964), José Manuel Cunha Leal Molarinho Carmo (72/1966), Nuno Bettencourt Sardinha Portela Ribeiro (396/1976), Paulo Jorge da Silva Ramos Lourenço (484/1977), Pedro Miguel Mendes Cunha (316/1988) e Luis Mário Bugalho Gaspar (468/1988).
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New York Das terras do «Uncle Sam», mais propriamente de New York, recebemos a foto que apresentamos, relativa aos festejos do 3 de Março por aquelas paragens. A identificação dos três magníficos Antigos Alunos que tomaram parte no repasto comemorativo, é a seguinte: Pedro Miguel Saraiva Pinheiro (447/1983), João Maria Baptista Antunes Gonçalves (386/1982) e Francisco Júlio Timóteo Thó Madeira Monteiro (27/1978). É caso para dizer, que eram poucos mas bons.
Curso de 1983/1991 Chegou até nós a noticia do jantar comemorativo do 3 de Março realizado pelo curso de 1983/1991. A noticia foi acompanhada da «selfie» que apresentamos, tirada durante o repasto. A fotografia não é das melhores, mas foi o que se conseguiu arranjar. Pensamos ter sido esta uma comemoração inédita, pois não nos lembramos de ver noticiado um jantar de 3 de Março realizado por um curso. Normalmente são acontecimentos que têm a participação de Antigos Alunos dos 18 aos 81 anos, ou ainda mais antigos (mas não velhos). Se esta moda pegar, teremos no futuro um número especial da ZacatraZ só para noticiar este tipo de celebrações, pois teremos dezenas de cursos a fazer a sua própria festa. Para que fique registado para a posteridade, apresentamos de seguida a relação dos participantes no evento: Rodrigo Maia de Abreu Seabra de Albuquerque (6/1983), Mário Jorge Fidalgo Balas de Matos (28/1983), Nuno Miguel Almeida e Sousa Elias de Sousa (57/1982), Francisco António Exposto de Olivença (84/1982), Carlos Alexandre da Fonseca Pires (141/1982), Paulo Jorge da Fonseca Cunha e Martins de Almeida (150/1983), André Dias Alves Correia (154/1983), José Miguel Varela Anastásio de Azevedo Cardoso (189/1983), Luis Carlos Silva Serafim (237/1983), Luis Miguel Cabral de Sousa Aragão (271/1982), Pedro Filipe Paulo Marinho Falcão (330/1983), João Pedro Mendes Carreiro Gomes (390/1983), Nuno Miguel Spencer Salomão de Abreu (423/1982) e Luis Gabriel Barbosa Vicente Rodrigues (468/1983). Como se pode presumir do exposto, houve vários Antigos Alunos entrados no Colégio em 1982, que terão optado por ficar a marcar passo um ano, para se poderem integrar no “glorioso” curso de entrada de 1983.
Pequim Pequim passou a ser uma das capitais que tiveram o privilégio de receber um comemoração do 3 de Março. Não sabemos se ao repasto foi comida, com o auxílio de pauzinhos em vez do talher clássico, uma versão chinesa do nosso amarelo. Seja qual tenha sido o menu, decerto que a refeição terá sido apreciada pelos 3 Antigos Alunos presentes, pioneiros cujos nomes aqui se registam para a posteridade: Diogo de Brito Calado (115/1987), João Filipe Saraiva Pinheiro (277/1987) e Simão Pedro Pereira Freire (132/1996). São decerto dignos sucessores de Fernão Mendes Pinto, que gostaria de ter sido Menino da Luz.
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Comemorando o 3 de Março
Porto
No passado dia 9 de Março, os Antigos Alunos residentes no Norte do País reuniram-se de novo na cidade do Porto, para celebrarem mais um aniversário do seu Colégio. Desta vez a reunião e o jantar decorreram na messe da Guarda Nacional Republicana, no Porto, por amável convite do Comandante Territorial da mesma, Coronel Victor Carlos Mesquita Fernandes, que desta forma quis retribuir o convite que lhe foi feito e a que acedeu, de comemorar com os Antigos Alunos da Delegação Norte da nossa Associação o Natal de 2017. Graças ao dinamismo do chefe da nossa Delegação, o jantar foi muito concorrido, tendo-se registado a presença dos Antigos Alunos seguintes: António Rui Prazeres de Castilho (147/1948), José António Campos Resende Campos (23/1949), José Manuel Mendes de Araújo (84/1950), José Alberto da Costa Matos (96/1950), José Manuel Simões Ramos de Campos(319/1950), Jorge Manuel Morais Silva Duarte (153/1951), José Faceira Teixeira (234/1952), Luis Manuel Ferraz Pinto de Oliveira (138/1954), Rui Carlos Aires Ferreira (314/1955), Francisco Xavier de Barros Cardoso de Menezes (6/1956), António Ma-
nuel Adão da Fonseca (286/1957), António Norton de Matos Carmo Pereira (522/1959), António Carlos Cyrne Pacheco Lobato Faria (373/1960), Albino Manuel Pereira de Sousa Botelho (342/1961), José João Ponce Centeno Castanho (562/1961), José Júlio Costa de Moura Borges (74/1962), Luis Miguel Morais de Almeida Santos (607/1962), Carlos Alberto da Costa Pimenta Machado (3/1963), José António Marques Salgado Lameiras (281/1963), José Manuel Duarte Presa Fernandes (403/1963), Manuel Maria de Castro e Lemos (423/1963), Luis Filipe da Cruz Cordeiro (130/1964), Rogério de Mesquita Pinto Ribeiro (283/1964), António José Monteiro Afonso (479/1964), António José Mesquita da Cruz (329/1965), José Luis Cardoso Faya Marinho (301/1967), José Carlos Magalhães da Silva Cardoso (604/1967), Carlos José Ramos Moreira dos Santos (175/1968), Gualter Manuel de Mota Santos (229/1969), José Manuel Sanches Roma Moreira Lobo (572/1969), Bruno Pinto Basto Soares Franco (281/1970), António Jaime Tavares Coutinho Lanhoso (176/1971), João Paulo Pereira Delgado (605/1973), Jorge Gentil de Sousa Pinto Faustino (100/1974), Agenor Guerreiro Ranhado Rolo (199/1974),
Boanerges Macedo Fernandes Lobato Faria (258/1974), José Eduardo da Costa Silva Pereira (391/1974), Augusto José Ferreira de Matos (688/1974), Rui Miguel Sena da Costa Branco (37/1978), Pedro Miguel Sena da Costa Branco (38/1984), Nelson José Cordeiro Cajão (496/1984), Marcos Nuno Alves Faceira Teixeira (232/1985), Manuel Nuno Direito de Morais Guerreiro (176/1989), João Margarido Ruivo Chiotte Lopes da Silva (146/1993), Amândio Emanuel Lopes Ribeiro (368/1993), Francisco José Castro Martins (409/1993), Luis Filipe Pinto Leite (384/1994), Filipe Alvarenga Pessanha de Andrade (281/2002), Gonçalo Faria da Silva Fragoso (74/2010), Francisco Principe Vaz de Almada (235/2010) e Pedro Pacheco Veiga Dias da Silva (407/2011). A Direcção da nossa Associação esteve representada pelo seu Presidente, José Eusébio Pereira Barata Cordeiro Araújo (591/1973). É de salientar a presença de muitos Antigos Alunos mais jovens, que são a garantia da continuação destas comemorações no futuro.
Comemorando o 3 de Março
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Sidney
Praticamente nos antípodas, realizou-se uma comemoração do 3 de Março, que reuniu os 3 Antigos Alunos seguintes: Miguel Pinto dos Santos Matias (305/1997), Tiago de Moura Telles Boudry de Carvalho (33/1999) e Salvador Teixeira Beirão Reynaud Ribeiro (43/1999). Presumimos que da ementa terá constado o clássico “amarelo”, mas confeccionado com carne de cangurú.
Sintra
O 3 de Março chegou este ano mais cedo a Sintra. Os Antigos Alunos residentes na zona reuniram-se, no dia 2 de Março, num jantar de festejo da data por antecipação. Possivelmente quiseram fazer uma sessão de aquecimento antes do início oficial dos festejos, aproveitando para armazenar algumas calorias extra, que lhes facilitassem a descida da Avenida, no dia 4, em passo de corrida, a acompanhar e incentivar o
Batalhão. Para a posteridade, aqui fica a identidade dos Antigos Alunos presentes no evento: Francisco José Petrucci Guterres da Fonseca (13/1963), António Manuel do Nascimento Mendes Abóbora (409/1966), Emanuel da Rocha Brito Velhinho (165/1972), Carlos Alberto Grincho Cardoso Perestrelo (329/1972), Rui Miguel Pedrosa Tavares Luc (195/1973), José Manuel Carvalho das Dores
Moreira (251/1973), Paulo Nuno Diniz Ferreira Pinto (324/1973), Carlos Manuel Fael Quintela Marques da Costa (64/1974), José Pedro Diniz Ferreira Pinto (71/1975), José Pedro de Jesus Barreiros (212/1975), Luis Filipe Carvalho das Dores Moreira (480/1975), João Carlos Correia Barreto (446/1976), Carlos Alberto Cabaço Dias (296/1978) e Henrique Manuel da Silva Machado (36/1979).
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Assembleia Geral da Associação
Assembleia Geral da Associação 23 de Março de 2018
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o passado dia 23 de Março de 2018, efectuou-se no teatro D. Luis Filipe, no quartel da Formação, a Assembleia Geral ordinária anual da nossa Associação, para a apresentação, pela Direcção da Associação, do Relatório de Actividades e Contas relativos ao ano transacto, tendo em vista a sua aprovação, e para a apresentação do Plano de Actividades para o ano de 2018, bem como do Orçamento correspondente. Aberta a sessão, em segunda convocatória, pelas 18H00, o Presidente da Mesa propôs a dispensa da leitura da acta da Assembleia Geral anterior, o que foi aprovado, por unanimidade, pela Assembleia. Seguiu-se o período de assuntos «Antes da Ordem do Dia», para eventual apresentação de questões não incluídas na referida ordem, por parte dos associados presentes. A primeira intervenção foi de Nuno Vilares Cepeda (310/1941) que começou por se referir ao jantar de dia 4 de Março no Colégio, em que houve vários aspectos que não foram do seu agrado. Sugeriu de seguida que a Associação criasse um espaço onde os Associados pudessem conviver e jogar bridge, sugerindo ainda que se voltassem a organizar passeios para os associados. Terminou com um apelo à participação de mais associados jovens nas iniciativas promovidas pela Associação.
A segunda intervenção foi de Martiniano Nunes Gonçalves (9/1958), que leu um documento de reflexão, de sua autoria, relativo à Associação, elencando os problemas mais graves com que a Associação se debate e apresentado um conjunto de ideias para a sua resolução. As questões abordadas no documento foram a vertente da solidariedade, a intervenção da Associação na sociedade, a necessidade de melhor aproveitamento e aumento de receitas do PM 34 (Prédio Militar nº 34, vulgo Quartel da Formação) e a questão da falta de continuidade de acção da Associação, fruto das mudanças de Direcção que ocorrem de 3 em 3 anos. No final, entregou o documento lido ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral, para este lhe desse a utilização que achasse mais adequada. O Presidente da Mesa sublinhou a importância do documento recebido e referiu que irá promover uma reunião com os Presidentes dos vários órgãos da Associação, para debate do mesmo. O Presidente da Direcção e o Vogal José Maria Gouveia de Azevedo e Bourbon (598/1971), manifestaram a sua concordância com o exposto no documento e teceram considerações sobre aspectos pontuais do mesmo. A terceira intervenção foi de Luis Jorge Rodrigues Semedo de Matos (165/1965), que opinou que as comemorações dos 400 anos do
edifício do Colégio (antigo hospital de Nª Srª da Luz) se deviam prolongar até ao 3 de Março do próximo ano. O Presidente da Direcção informou acerca de algumas acções relativas à comemoração que estão actualmente a decorrer no Colégio envolvendo os alunos. O Chefe da Redacção da ZacatraZ informou que as conferências proferidas no passado dia 4 de Março irão ser publicadas na revista. Entrando-se de seguida na Ordem do Dia, a Direcção apresentou um voto de pesar por todos os Antigos Alunos falecidos no ano transacto, com uma referência especial a Gonçalo Salema Leal de Matos (371/1949), Director da revista Zacatraz. Foi guardado um minuto de silêncio em sua memória. Foi feita de seguida a apresentação do Relatório e das Contas do exercício de 2017. Postos estes documentos à aprovação da Assembleia foram os mesmos aprovados. Do relatório de actividades constava um conjunto de propostas da Direcção, incluindo o voto de pesar anteriormente referido, que foram aprovadas. As restantes propostas foram as seguintes: - Voto de reconhecimento a Tomaz Júlio Teixeira de Azevedo e Guimarães Metello (462/1958), pelas facilidades mais uma vez proporcionadas para a realização do jantar anual da Associação.
Assembleia Geral da Associação
- Voto de pública distinção a Ângelo Eduardo Manso Felgueiras e Sousa (498/1976), pelo sucesso da sua expedição ao Pólo Sul. - Voto de agradecimento a António Victor Reynaud da Fonseca Ribeiro (43/1968), pelo seu trabalho na reestruturação do Pelouro do Desporto da Associação. - Voto de agradecimento à Mesa da Assembleia Geral e em particular ao seu Presidente, pelo apoio prestado à Direcção no ano de 2017. - Voto de agradecimento ao Conselho Fiscal e em particular ao seu Presidente, pelo acompanhamento e verificação das contas no ano de 2017. - Voto de agradecimento ao Conselho Supremo pelo apoio prestado à Direcção no ano de 2017. - Voto de gratidão a Martiniano Nunes Gonçalves (9/1958), Presidente cessante do Conselho Supremo, pelo seu contributo para a Associação, ao longo dos últimos 15 anos. - Voto de agradecimento ao Conselho de Delegados de Curso, em particular aos seus Presidentes actual e anterior, pelo apoio prestado à Direcção no ano de 2017. - Voto de agradecimento e público reconhecimento a Gonçalo Salema Leal de Matos (371/1949) pelo seu contributo determinante para o elevado nível e prestigio alcançados pela revista ZacatraZ.
- Voto de agradecimento ao Corpo Redactorial da ZacatraZ, pelo empenho posto na gestão da revista. - Voto de agradecimento aos associados que apoiaram e ajudaram a Direcção. - Voto de agradecimento à Direcção do Colégio Militar, pela resposta dada às solicitações da Associação e pelo seu empenhamento na condução dos destinos do Colégio. - Voto de saudação à Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos do Colégio Militar, pelas acções tomadas em defesa do Colégio. - Voto de saudação à Associação de Antigas Alunas do Instituto de Odivelas, pela colaboração na gestão do espaço cedido às duas Associações. Foi de seguida aprovado um voto de louvor à Direcção da Associação, proposto pelo Conselho Fiscal. Feita seguidamente a apresentação do Plano de Actividades para 2018 e do respectivo Orçamento, foram estes dois documentos aprovados pela Assembleia. Na apresentação do Plano de Actividades, o Presidente da Direcção informou acerca de três comissões criadas para o tratamento de questões específicas de maior relevância. Trata-se da comissão relativa ao estudo das utilizações futuras do PM 34 e às correspondentes obras a executar
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no mesmo, da comissão relativa ao estudo do reforço da rede de solidariedade e da comissão de preparação do Congresso que se pretende realizar ainda no presente ano de 2018. A Assembleia aprovou de seguida a proposta de nomeação de Luis Manuel Marques Cóias (190/1990), para o cargo de coordenador do Pelouro do Desporto. Finalmente foi analisada a proposta da Direcção de nomeação de três novos Sócios Honorários. O Presidente da Direcção esclareceu a Assembleia relativamente aos fundamentos da proposta, passando-se de seguida à sua votação. Em resultado da votação, foi aceite a proposta da Direcção, do que resultou a nomeação dos seguintes novos Sócios Honorários: - Tenente-General Vaz Antunes. -Vigilante Francisco Xavier. - Professor Doutor Adriano Moreira. Não havendo outros assuntos a tratar, foi encerrada a sessão. A Redacção
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Homenagem ao Colégio Militar e a Professores e Oficiais do Curso 1948-1955
Homenagem ao Colégio Militar e a Professores e Oficiais do Curso 1948-1955 Capitão Figueiredo Cardoso
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ara esta homenagem recorremos aos textos de dois camaradas do curso Manuel Barão da Cunha (MBC) e Pedro do Canto Lagido (PCL).
PCL: O então Capitão Cardoso foi o oficial comandante da 1ª companhia, no início do curso, em outubro de 1948. Era um comandante de companhia atento, vigilante pela segurança, disciplina e bem-estar dos alunos que iniciavam a sua vida colegial, muitos, separados pela primeira vez, dos seus pais. Era sobretudo um facilitador da inserção dos alunos num ambiente de disciplina militar e de aprendizagem escolar marcadas pela exigência, em que procurava acrescentar a criação dum clima de simpatia. Creio, até, se a memória não me falha, que foi ele que providenciou a aquisição das bolas de plástico vermelho, furadas e ocas, que permitiam jogar futebol, com toda a nossa energia, mas sem partir vidros, no geral da primeira, onde jogávamos. O capitão Cardoso era, aos nossos olhos de então, um jovem oficial, aprumado, sempre impecável no seu uniforme militar. Jogava ténis nas instalações do colégio. Naquele tempo, com a idade que tínhamos, pouco mais podíamos apreciar da sua acção educativa. Em Julho de 1949 deixámos a companhia e até 1954 pouco o víamos e algures no nosso percurso escolar ele saiu do Colégio e foi comandar uma companhia numa unidade do Exército. A sua dimensão humana, a sua actuação e a importância da sua responsabilidade, na estrutura administrativa do Colégio, tive a oportunidade de avaliar melhor, quando no 7º ano fui nomeado comandante-aluno da 1ª companhia
e ele era comandante-oficial da 1ª companhia. Estava-se em Outubro de 1954. Era o oficial responsável a quem eu tinha de reportar. Uma das primeiras conversas que tivemos, a que se seguiram muitas, foi sobre a importância de usar da autoridade e do poder disciplinar, com ponderação, e valorizar, preferencialmente, a motivação. Propôs-me instituir-se prémios de desempenho nas várias vertentes da vida da companhia, formaturas, marcha, limpeza, ordem, desportos internos, etc. Periodicamente chamava-me para reuniões, frente a frente, no seu gabinete, sobre aspectos a corrigir, chamadas de atenção, e uma vez, acerca de um problema delicado que era preciso “tratar com pinças“ em que me referiu a importância dos graduados não terem “ amizades de favoritismo”. Uma vez ficou furioso, com estragos produzidos, em equipamentos da companhia, por alunos da 4ª companhia, no decorrer de uma “tradição colegial”. Ele não me disse nada, directamente, mas eu fiquei a saber que tinha, também, responsabilidade na ocorrência. Considero que foi um dos grandes mestres que tive naquilo que mais tarde se designou, como as verdadeiras qualidades de liderança. Nunca tive a oportunidade pessoal de lhe falar deste meu reconhecimento que aqui expresso e que também testemunhei, a um filho seu, durante um almoço na Feitoria. MBC: Outro adulto que nos marcou, quando éramos crianças e entrámos no Colégio, foi o então capitão António Cardoso, comandante da 1ª companhia. Foi uma entrada muito boa, não só pelo comportamento do oficial comandante, como pelo do aluno
comandante de companhia, o 321, de 1941/49, Cristiano Moreira, que seguiu Arquitetura, acompanhado de outros graduados e, ainda, com a boa influência do aluno comandante de Batalhão, o 47, de 1942/49, José Maria Myre Dores, mais tarde engenheiro e que sempre acompanhou o nosso curso. Recordo que, antes de falecer, numa sardinhada na Caparica, embora ele preferisse carapaus, disse algo que nunca vou esquecer: “Não divido as pessoas como de direita ou de esquerda, mas sim se estão, ou não, atentas aos outros”… Deixo as recordações colegiais do capitão Cardoso para o 330, de 1947/55, Pedro do Canto Lagido, que foi aluno comandante da 1ª com ele, e partilho o gosto de ser comandado por ele, mais tarde, na Guiné, em 1964/65. Ele era tenente-coronel, comandante do Batalhão de Caçadores n º 512, e do setor militar do Gabu, no Leste da Guiné, sedeado em Nova Lamego. Eu comandava a Companhia de Cavalaria nº 704. O Cardoso não saía para operações de campanha connosco, tinha esse bom senso, qualidade imprescindível num líder. Contava com os capitães/”centuriões” para esse efeito e em quem confiava. Mas protegia-nos de outros perigos… O, então, inimigo do PAIGC era connosco, ele protegia-nos do Quartel – General… Foi um dos dois melhores comandantes que conheci na minha vida militar. Deu-me sorte, pouco depois de ele se ter ido embora fui evacuado, tendo ficado deficiente, mas isso são outras histórias… Manuel Júlio Matias Barão da Cunha (150/1948)
Pedro do Canto Lagido (330/1947)
A Classe Especial de Ginástica de 1958
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Bernardo Manuel Diniz de Ayala 171/1953
Congresso Mundial de Educação Física Bruxelas - Julho de 1958
A Classe Especial de Ginástica de 1958 “A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.” Gabriel García Márquez
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uando há uns tempos me perguntaram se estava disponível para preparar um texto para a ZacatraZ alusivo à prestação da classe especial de ginástica do nosso Colégio que representou Portugal no Congresso Mundial de Educação Física de Bruxelas, em Julho de 1958, sem hesitação respondi que faria algumas pesquisas e perguntas e, se conseguisse arranjar factos passados há 60 anos que permitissem construir uma narrativa coerente e minimamente credível, fá-lo-ia com gosto. Das pesquisas que efectuei consegui encontrar o tal conjunto de factos, a maioria assinalados em pé de página, e tudo o resto são recordações que vieram aos poucos e que passo a contá-las. No início do ano lectivo de 1957/1958, os alunos dos antigos 5.º, 6.º e 7.º anos foram informados Ordem de Serviço n.º 270, de 2 de Novembro de 1957, pag. 5
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pelo seu professor de ginástica Tenente José Pereira de Carvalho (180/1934), que as classes de ginástica do Colégio Militar e dos Pupilos do Exército, bem como as classes de senhoras e homens do Ateneu, tinham sido convidadas para representarem Portugal no Congresso Mundial de Educação Física que teria lugar em Bruxelas, de 5 a 12 de Julho de 1958. Começadas as aulas de Educação Física, o Tenente Carvalho foi tomando nota dos alunos que entendia terem as melhores condições para fazerem parte da Classe Especial de Ginástica (CEG). Assim, em 2 de Novembro de 1957, escolheu 43 alunos, para iniciarem os treinos da CEG1. Do 7.º ano: 9 - Silva Ramos, 23 - Prego Durão, 57 - Bandeira Freire, 65 - Silva Bagulho, 70 - Alves Saltão, 75 -
Rodrigues Nascimento, 104 - Epifânio da Franca, 151 - Leite Novais, 174 - Mota dos Santos, 178 - Costa David, 241 - Leite Ginja, 266 - Sousa Lobo, 269 - Velez Caldas e 396 - Reis de Araújo. Do 6.º ano: 10 - Branco Domingues, 72 - Dinis Quintas, 74 - Correia Leal, 88 - Rosa Garoupa, 95 Sousa Lobo, 167 - Carvalho Rosado, 193 - Rosas Leitão, 208 - Cruz Teixeira, 213 - Almeida Pestana, 215 - Mendóça Frazão, 253 - Fidalgo dos Santos, 276 - Gabriel Tamagnini, 300 - Fernandes Nogueira, 343 - Máximo Mocica, 348 - Lobo de Oliveira, 350 - Azeredo Lopes, 374 - Alves Rodrigues, 392 - Silva Alves, 394 Leite da Cunha e 397 - Canto e Castro. Do 5.º ano: 44 - Pinto Soares, 69 - Amado Carreira, 142 -
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A Classe Especial de Ginástica
neste Colégio, por lhe ter sido deferido o requerimento em que pedia para prestar serviço neste Estabelecimento como Adjunto do Mestre de Educação Física, o que será confirmado em Ordem do Exército, o Sr. Alferes Miliciano de Infantaria Henrique Manuel Ruivo Reis Pinto, do Batalhão de Metralhadoras n.º 1”. A confirmação chegou em 19 de Março6 “...Por portaria de 7 de Fevereiro de 1958, coloca no Colégio Militar, como Adjunto do Mestre de Educação Física, o Sr. Alferes Miliciano de Infantaria, Henrique Manuel Ruivo Reis Pinto, do Batalhão de Metralhadoras n.º 1, sem dispêndio para a Fazenda Nacional”.
Da esquerda para a direita, Correia Leal (74/1952),Mendóça Frazão (215/1952), Carvalho Rosado (167/1952), Pinto Tamagnini (276/1953), Sousa Lobo (95/1952) e Rosa Garoupa (88/1951).
Falco Pereira, 166 - Novais Leite, 171 - Diniz de Ayala, 257 - Vasques Osório, 268 - Silva Beja, 354 - Nogueira Fernandes e 405 - Manuel de Lucena. Na mesma Ordem de Serviço ficou expresso o horário dos treinos: À 2.ª e à 6.ª feiras às 11.50 e à 4.ª feira às 17:00. Começados os treinos cedo verificou-se que preparar uma classe especial para representar Portugal num Congresso Mundial de Ginástica com 43 alunos, com assinaláveis diferenças nas suas capacidades gímnicas, era tarefa muito difícil. Assim sendo, em Dezembro foram afastados 13 alunos2. A classe ficou com 30 elementos. Chegadas as férias de Natal, a percepção que nós tínhamos da classe era que sob a batuta do Tenente Carvalho dificilmente conseguiríamos atingir um nível minimamente aceitável para representarmos dignamente o país. Regressados de férias recomeçámos os treinos e, em meados de Janeiro, num dia que não sei precisar, fomos surpreendidos com a presença de um senhor com um pouco mais Ordem de Serviço n.º 308 de 17 de Dezembro de 1957, pag. 4 Ordem de Serviço n.º 19 de 23 de Janeiro de 1958, pag. 64 Ordem de Serviço n.º 19 de 23 de Janeiro de 1958, pag. 64 5 Ordem de Serviço n.º 32 de 7 de Fevereiro de 1958, pag. 110 6 Ordem de Serviço n.º 65 de 19 de Março de 1958, pag. 226 7 Ordem de Serviço n.º 72 de 27 de Março de 1958, pag. 260
de 30 anos, baixo, pouco cabelo, que entrou no ginásio com o Tenente Carvalho, sentou-se num daqueles bancos baixos e compridos que por lá havia e, sem ter dito uma palavra, assistiu ao nosso treino. Acabado o treino, soubemos pelo Carlos Beja (268/1953), ser o professor Henrique Reis Pinto, que leccionava no Lisboa Ginásio Clube e que era uma das maiores estrelas da ginástica em Portugal na época. Mais tarde viemos a saber que o professor Reis Pinto terá dito que conseguiria, em 5 meses, tempo que faltava para o início do Congresso, colocar aquela classe num nível igual ao das melhores do Norte da Europa. Por coincidência, em 23 de Janeiro de 1958, o Tenente Carvalho baixa ao Hospital Militar Principal, por motivo de desastre em serviço3, sendo substituído nas suas funções pelo Tenente Luís Bilstein de Sequeira, (5/1938)4, que teve uma prestação muito curta e irrelevante a dirigir a classe, porque em 7 de Fevereiro, na Ordem de Serviço n.º 325, vem expresso “... que ontem se apresentou
A chegada do professor Reis Pinto alterou completa e radicalmente a maneira e os métodos utilizados até aí nos treinos da classe. A sua capacidade de liderança, competência, exigência e perfeccionismo foram, em grande parte, o valor acrescentado que ele trouxe àquele grupo. Além disso, o número de treinos aumentou e da classe especial foram afastados mais alguns alunos. Em suma, a evolução da classe para níveis compatíveis com as aspirações que todos nós tínhamos e fundamentais para virmos a representar o Colégio e Portugal condignamente, foram atingidos em relativamente pouco tempo. Para essa evolução as horas de treino foram aumentadas. Com efeito, durante as férias da Páscoa desse ano, de 31 de Março a 8 de Abril7, tivemos treinos todos os dias úteis. Os alunos eram recolhidos perto das suas moradas num autocarro que saía do Colégio às 09:00, fazia o percurso, Campolide, Largo do Rato, Av. Duque de Loulé, Largo D. Estefânia, Campo Pequeno e às 10:20 estávamos no Colégio. Após o treino o mesmo autocarro efetuava o percurso inverso. Além disso, em todos os Domingos do mês de Maio tivemos treinos na Colónia de Férias da Feitoria8, nessa altura “acompanhados” pelo Tenente Carvalho que entretanto se tinha apresentado
Ordem de Serviço n.º 103 de 2 de Maio de 1958, pag. 386 Ordem de Serviço n.º 95 de 23 de Abril de 1958, pag. 347 Ordem de Serviço n.º 103 de 2 de Maio de 1958, pag. 386 11 Ordem de Serviço n.º 139 de 17 de Junho de 1958, pag. 542 12 Ordem de Serviço n.º 134 de 9 de Junho de 1958, pag. 516
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A Classe Especial de Ginástica
ao serviço, regressado da convalescença. Convém aqui relembrar, para os menos informados, que a nossa vida colegial ia muito para além da classe especial de ginástica. Tínhamos todas as aulas, teóricas e práticas que a cada ano cabiam, embora em 23 de Abril9 tenhamos sido dispensados da instrução de equitação. Além disso, competíamos nos torneios da Mocidade Portuguesa, em futebol, andebol, basquetebol, voleibol, ténis de mesa, atletismo e outras, onde tínhamos vários alunos da classe especial a praticar uma ou mais destas modalidades. Por curiosidade neste ano lectivo fomos campeões da Ala de Lisboa em futebol10, 1.º classificado na série eliminatória do campeonato de Lisboa de andebol e obtivemos o 2.º lugar na final do referido campeonato11 e, ainda, várias classificações honrosas noutras disciplinas nomeadamente no atletismo. Dado que teríamos que estar em Bruxelas no início do mês de Julho, as aulas dos alunos da classe especial encerraram no dia 6 de Junho12, 15 dias mais cedo do que os restantes alunos, e a Ordem de Serviço n.º 134, de 9 de Junho, estipulava o seguinte: “Art.º 8º - Estudos de preparação para exame dos alunos da Classe Especial de Ginástica Que tendo-se encerrado as aulas no dia 6 do corrente mês para os alunos do 5.º e 7.º anos que constituem a Classe Especial de Ginástica, os estudos de preparação para exame se iniciem na próxima 4.ª feira, dia 11, aos tempos marcados no semanário escolar. Que os Srs. Professores das horas de substituição passem a assistir a estes estudos de preparação que se realizam na sala 19.” Na documentação consultada pôde constatar-se que, entre Fevereiro e finais de Junho, embora o Professor Reis Pinto tivesse sido o único que nos preparou e liderou quer nos
treinos quer nos diversos saraus em que entrámos, o seu nome não vem referido uma única vez naquela função. Por seu lado, o Tenente Carvalho após o seu regresso da convalescença, do acidente sofrido em serviço, apenas aparece quando vai “acompanhar” a classe especial nas deslocações à Feitoria nos fins de semana de Maio. No entanto, há uma mudança significativa, que nos deixou estupefactos, quando em 20 de Junho é expresso em Ordem de Serviço13, no programa para a Festa Final, a constituição da CEG e quem a iria dirigir: 10 - Domingues, 23 - Durão, 44 - Soares, 65 Bagulho, 69 - Carreira, 70 - Saltão, 74 - Leal, 88 - Garoupa, 95 - Lobo, 104 - Franca, 142 - Pereira, 167 - Rosado, 171 - Ayala, 213 Pestana, 215 - Frazão, 266 - Lobo, 268 - Beja, 276 - Tamagnini, 300 - Nogueira, 350 - Lopes, 354 - Fernandes e 394 - Cunha. Dirige esta classe o Sr. Tenente Pereira de Carvalho. Com os exames concluídos e os resultados afixados, em 2 de Julho14, recebemos Guia de Marcha para nos apresentarmos na Repartição do Gabinete do Ministério do Exército, por fazermos parte da Classe Especial de Ginástica do Colégio Militar que iria participar no Congresso Mundial de Educação Física de Bruxelas, tendo sido acompanhados pelo Capitão de Infantaria, Joaquim Inácio Pereira Vaz Júnior, (26/1924), que levava sob o seu comando o Capitão Graduado, Capelão, Joaquim Gomes Costa Peixoto e o Tenente Miliciano de Cavalaria, José Manuel Inglês Gancho Pereira de Carvalho. Em 3 de Julho, às 12:00, partimos do Colégio para a estação de Santa Apolónia aonde nos juntámos à delegação do Pupilos do Exército, liderada pelo Major de Engenharia, Armando de Brito Subtil
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(134/1924), Subdiretor do Instituto Pupilos do Exército e a partir desse momento o Chefe da Missão. Nessa tarde embarcámos no Sud Express que nos transportou durante toda a noite de 3 para 4 de Julho até Irun, fronteira Espanha/França nos Pirinéus, dali seguimos para Hendaye onde noutro comboio, bem mais confortável, seguimos em direção a Paris. Por fim, em Paris na Gare du Nord, mudámos para um outro comboio que nos levou até Bruxelas onde desembarcámos, já a noite ia avançada na Gare du Nord, tendo sido recebidos pelo Coronel António Leal de Oliveira (98/1905)15 16 e por três delegados da Organização. Dali seguimos para uma escola primária, situada no bairro de Anderlecht, aonde ficámos alojados durante toda a estadia. O Congresso Mundial de Educação Física esteve reunido entre os dias 5 e 12 de Julho mas foi no dia 6 que se deu início à grande festa da ginástica no Estádio do Centenário (Heysel), junto à Feira Mundial de Bruxelas, Expo 5817 cujo ícone foi o Atomium18, quando naquele estádio cerca de 1000 atletas de diversos países europeus, fizeram a festa das Bandeiras. Desta festa tenho que confessar que o que mais nos impressionou e ficou nas nossas memórias para a vida, foi o número elevado de ginastas femininas suecas e dinamarquesas, na sua maioria louras e lindíssimas, que fizeram as nossas cabeças andarem um pouco desaustinadas no período em que estivemos em Bruxelas. No dia 7 de Julho tivemos o primeiro contacto com o Palácio dos Desportos da Feira. O nosso treino realizou-se a seguir a uma magnífica classe de homens sueca. Confesso que a maioria de nós ficou surpresa com o nível daquela classe. No entanto, lá fizemos o nosso ensaio e ainda tivemos direito a palmas da assistência.
Ordem de Serviço n.º 142 de 20 de Junho de 1958, pag. 555 Ordem de Serviço n.º 142 de 20 de Junho de 1958, pag. 555 Revista O Colégio Militar n.º 107, Janeiro de 1959, pags. 17 e 18, Carlos Beja 268/1953 16 António Francisco Palermo Leal de Oliveira (1894-1977), foi aluno do Colégio Militar entre 1905 e 1911 tendo posteriormente seguido a carreira das armas como oficial do Exército Português atingindo o posto de Coronel. Licenciado e doutorado em educação física pela Universidade de Gand (Bélgica), foi um dos fundadores e primeiro subdirector do Instituto Nacional de Educação Física (INEF). Manteve-se ligado à educação física até falecer, tendo intervenção destacada em diversas instituições internacionais, com destaque para a vice-presidência (19531958) e presidência (1958-1970) da Federação Internacional de Educação Física. Wikipedia 17 Mais de 42 milhões de pessoas visitaram a Expo 58, entre 17 de abril e 19 de Outubro de 1958. A Feira Mundial de Bruxelas foi a primeira grande Exposição Mundial depois da II Guerra Mundial. Wikipedia 18 O Atomium foi o pavilhão e o ícone da Feira. Simbolizava a vontade democrática de manter a paz entre as nações, confiança no futuro, técnica e científica e finalmente, uma visão optimista do futuro. O Atomium foi construído para durar os seis meses da Feira no entanto, o seu impacto e popularidade adiou a sua destruição ano após ano até ser decidido pelas autoridades belgas restaurá-lo em 2006. O Atomium é hoje um museu com coleções permanentes e exposições temporárias. Wikipedia 19 Suplemento Desportivo do Diário Ilustrado de 21/7/1958, pag. 16, Lisboa, s/n 13 14 15
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minou com a nossa apresentação no Colégio Militar no dia 14 de Julho20 e, nesse mesmo dia, começámos umas merecidas férias. No dia seguinte, a Direção do Colégio expressou em Ordem de Serviço21 o seu apreço aos alunos que constituíram a CEG:
Atomium, Bruxelas.
Da nossa exibição no Palácio dos Desportos, no dia 8 de Julho, nem eu nem nenhum dos elementos da classe que contactei têm qualquer lembrança do que ali se passou. No entanto, há sempre alguém que, 60 anos passados sobre esta efeméride, aparece com um documento19 que permite recordar o que foi a nossa prestação no Congresso Mundial de Educação Física de Bruxelas, que passo a citar: ....“Foi no dia 8, todavia, que marcou com o que podemos designar por vitória portuguesa, conquistada no Palácio dos Desportos da Feira, pelas classes do Colégio Militar e dos Pupilos do Exército postos em confronto – de que não desmereceram – com as equipas de elite da Suécia, a equipa masculina da Dinamarca e a famosa Escola Superior d’ Ollerup (dinamarquesa). Fiéis aos princípios que regem o ensino da ginástica, os professores Tenentes Pereira de Carvalho e Robalo Gouveia, subordinaram os seus alunos a esquemas perfeitos e sérios, realizando exibições de perfeito acordo com os cânones e que provocaram fartos elogios a todos os assistentes e congressistas. E justo será que púnhamos em evidência o largo quinhão de triunfo que coube à classe do 20 21 22
Ordem de Serviço n.º 163 de 15 de Julho de 1958, pag. 633 Ordem de Serviço n.º 163 de 15 de Julho de 1958, pag. 635 Ordem de Serviço n.º 164 de 16 de Julho de 1958, pag. 637
professor Tenente Pereira de Carvalho (Colégio Militar), cuja exibição foi interrompida 10 vezes por aplausos e exclamações de agrado, tendo sido necessário que o professor interrompesse a lição, porque a sua voz de comando não chegava aos alunos. E a vitória desta classe tem para nós portugueses, tanta mais valia quanto é certo que havia sido precedida pelas melhores classes do Mundo e não se intimidou perante a ideia do confronto”...... Terminada a nossa participação neste Congresso aproveitámos o tempo livre que tivemos para fazer algum turismo mas, principalmente, para admirarmos as exibições das classes de ginástica que se exibiram nos dias seguintes com um especial interesse pelas classes femininas nórdicas que tanto nos impressionaram desde o primeiro dia em que as vimos no Estádio do Heisel. O regresso a Portugal não teve, como seria de esperar, a mesma alegria e boa disposição da ida; a nostalgia provocada pelo fim dos momentos magníficos que passámos naquela semana, em jovens que na sua maioria não tinham ido mais longe do que Badajoz, foi determinante. A viagem seguiu o percurso inverso da ida e ter-
Que louva os alunos nºs 10 - Domingues, 23 Durão, 44 - Soares, 65 - Bagulho, 69 - Carreira, 70 - Saltão, 74 - Leal, 88 - Garoupa, 95 - Lobo, 104 - Franca, 142-Pereira, 167-Rosado, 171 Ayala, 213-Pestana, 215 - Frazão, 266 - Lobo, 268 - Beja, 276 - Tamagnini, 300 - Nogueira, 350 - Lopes, 354 - Fernandes, 394 - Cunha, que constituíram a classe especial de ginástica que se deslocou ao Congresso Mundial de Educação Física de Bruxelas pelo grande esforço, boa vontade e interesse que manifestaram em seus treinos, o que, aliado à grandeza de ânimo e entusiasmo que revelaram e entusiasmo que revelaram no referido Congresso, lhes permitiu, não obstante as dificuldades que tiveram que enfrentar, fazerem uma exibição verdadeiramente brilhante, que foi grandemente ovacionada e apreciada por técnicos estrangeiros de renome mundial mantendo-se assim à altura das honrosas e gloriosas tradições do País e do Colégio a que pertencem e que muito prestigiaram. Do mesmo modo, a Direção entendeu reconhecer a prestação dos dois Mestres de Educação Física através de um louvor público22: Que louva o Mestre de Educação Física Interino, Sr. Tenente Mil.º de Cav.ª, José Manuel Inglês Gancho Pereira de Carvalho, pelo zelo, competência e interesse com que preparou e orientou a classe especial de ginástica que se deslocou ao Congresso Mundial de Educação Física de Bruxelas conseguindo pela sua dedicação e esforço que essa classe se apresentasse no referido Congresso com um elevado nível de preparação fazendo uma exibição verdadeiramente brilhante, que foi muito ovacionada e apreciada por técnicos estrangeiros de renome mundial e prestigiou o País e o Colégio.
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Finalmente, registo o despacho exarado em 4 de Outubro de 1958 pelo Ministro do Exército, no relatório apresentado pelo Major Brito Subtil, chefe da Delegação, que é do seguinte teor23: Visto. Registo as boas actuações das classes de ginástica do Colégio Militar e do Instituto Profissional dos Pupilos do Exército no Congresso em que tomaram parte. Leve-se ao conhecimento dos dois estabelecimentos de ensino a minha satisfação pela forma como tudo decorreu. 4.10.58, (a) Almeida Fernandes24.
Que louva o Adjunto do Mestre de Educação Física, Sr. Alferes Mil.º de Inf.ª, Henrique Manuel Ruivo Reis Pinto, pela competência, dinamismo e interesse com que preparou e orientou a classe especial de ginástica que se deslocou ao Congresso Mundial de Educação Física de Bruxelas, durante o período em que esteve doente o Mestre de Educação Física e pela colaboração
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eficiente que continuou a prestar ao Mestre até à partida para Bruxelas, contribuindo assim, de maneira apreciável, para que essa classe se apresentasse no referido Congresso com elevado nível de preparação, fazendo uma exibição verdadeiramente brilhante que foi muito ovacionada e apreciada por técnicos estrangeiros de renome mundial e prestigiou o País e o Colégio.
Ordem de Serviço n.º 238 de 11 de Outubro de 1958, pag.878 Afonso Magalhães de Almeida Fernandes, Brigadeiro, Ministro do Exército de 14.8.58 a 13.4.61
Passados quase 60 anos é com alguma emoção e também estupefação que revivi um pouco do que foi a odisseia porque passámos para nos prepararmos para representar condignamente o Colégio Militar e o País no Congresso Mundial de Educação Física de Bruxelas. Com efeito, desde começarmos com um número exagerado de elementos na classe, a não haver evolução no nível gímnico até à apresentação no Colégio do Professor Reis Pinto, o verdadeiro responsável pelo nível que a classe atingiu devido à sua capacidade de liderança, competência, exigência e vontade obsessiva de atingir a perfeição, às horas e horas de treino semanais, aos treinos diários nas férias da Páscoa e nos fins de semana do mês de Maio a que nos sujeitou, à sua substituição na direção da classe a menos de 15 dias da partida para Bruxelas e, finalmente, o triunfo que coube à classe especial pela forma verdadeiramente brilhante como decorreu a sua exibição que mereceu elogios da assistência e dos congressistas, tudo isto vivido em cerca de 8 meses, parece-me nesta altura da vida um pouco irreal. No entanto, tudo o aqui relatado aconteceu no ano letivo de 1957/1958.
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Nuno António Bravo Mira Vaz 277/1950
La Lys 9 de Abril de 1918
A batalha de La Lys, cujo centenário ocorreu no passado dia 9 de Abril, tem sido objecto no decurso dos anos de um número expressivo de relatos e de comentários. Nuns e noutros, a avaliação do comportamento das tropas portuguesas cobre um vasto leque que vai desde o elogio rasgado até à condenação contundente. Naquele dia, como acontece em todos os dias de todas as guerras, houve quem se distinguisse pela coragem e quem não tivesse ânimo para combater. Ao trazer aos leitores a memória do dia 9 de Abril de 1918, Zacatraz pretende apenas homenagear o sacrifício colectivo. Ciente de que foi ali que as tropas portuguesas suportaram a maior ofensiva da sua história, entende que basta lá ter estado para merecer a consideração de todos nós. Apoiada na extensa bibliografia disponível, Zacatraz fornece aos leitores um resumo dos acontecimentos baseado em três perspectivas: AFONSO, Aniceto e GOMES, Carlos de Matos (coordenadores), Portugal e a Grande Guerra 1914-1918, Lisboa, ed. Diário de Notícias, 2003; CARVALHO, Major Vasco de, A 2.ª Divisão Portuguesa na batalha de La Lys (9 de Abril de 1918), Lisboa, Liga dos Combatentes e Âncora editora, 20161; SARMENTO, General Moraes, «Episódios da guerra actual: o ataque alemão ao sector português, na batalha do Lys», Lisboa, Revista Militar de Agosto de 1918, pp. 451-476. 1
2.ª edição. A 1.ª ocorreu em 1914. O autor pertencera ao Estado-Maior da 2.ª Divisão do C.E.P. e tinha sido encarregado de elaborar o Relatório da batalha.
O dispositivo defensivo
A
frente aliada sobre a qual se abateu o devastador ataque alemão tinha uma extensão de 16 quilómetros e estava articulada em cinco sectores de Brigada: em Fleurbaix estava a 119.ª Brigada britânica, o sector central era guarnecido pela 2.ª Divisão portuguesa (Fauquissart defendida pela 4.ª Brigada, Neuve Chapelle coberta pela 6.ª Brigada e Ferme du Bois ocupada pela 5.ª Brigada) e Givenchy, no flanco Sul, era defendida pela 165.ª Brigada britânica. No sector de Fauquissart, a primeira linha era guarnecida, à esquerda, pelo Batalhão de In-
fantaria 8 e, à direita, pelo Batalhão de Infantaria 20; o Batalhão de Infantaria 29 estava em apoio e em reserva o Batalhão de Infantaria 3. Os apoios de fogos eram prestados pelo 6.º Grupo de Batarias de Artilharia, pela 4.ª Bataria de Morteiros Ligeiros, pela 4.ª Bataria de Morteiros Médios e pelo 4.º Grupo de Metralhadoras. Reforçava o conjunto a 4.ª Companhia de Sapadores-Mineiros. No sector de Neuve Chapelle, ao centro do dispositivo, encontrava-se em primeira linha, à esquerda, o Batalhão de Infantaria 1 e, à direita,
o Batalhão de Infantaria 2; em apoio o Batalhão de Infantaria 11 e em reserva o Batalhão de Infantaria 5. Os apoios de fogos eram fornecidos pelos 1.º e 2.º Grupos de Batarias de Artilharia, pela 6.ª Bataria de Morteiros Médios, pela 6.ª Bataria de Morteiros Ligeiros e pelos 1.º e 3.º Grupos de Metralhadoras. Encontrava-se em reforço a 3.ª Companhia de Sapadores-Mineiros. No sector de Ferme du Bois, a primeira linha era ocupada, à esquerda, pelo Batalhão de Infantaria 17 e, à direita, pelo Batalhão de Infantaria 10; em apoio estava o Batalhão de Infantaria
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Carta de situação das unidades do Corpo Expedicionário Português (CEP) na manhã do dia 8 de Abril de 1918 (pormenor) (AHM).
4 e em reserva o Batalhão de Infantaria 13. Os apoios de fogos eram prestados pelo 5.º Grupo de Batarias de Artilharia, pela 2.ª Bataria de Morteiros Médios, pela 5.ª Bataria de Morteiros Ligeiros e pelo 5.º Grupo de Metralhadoras. O conjunto era reforçado pela 1.ª Companhia de Sapadores-Mineiros. A reserva da 2.ª Divisão estava confiada à 3.ª Brigada. A 2.ª Divisão, cujos efectivos orgânicos eram 1.102 oficiais e 25.582 sargentos e praças, dispunha na ocasião de 689 oficiais e 19.374 sargentos e praças. Além disso, ocupava uma frente que anteriormente estava atribuída a duas Divisões.
Antecedentes próximos No dia 7 de Abril, no decurso de uma reunião de comandos realizada no Quartel-General da 2.ª Divisão em Lestrem, o tenente-general Haking, comandante do XI Corpo britânico, tomou conhecimento da grave penúria de efectivos da Divisão portuguesa. No dia seguinte, o general determinava que a 2.ª Divisão fosse rendida
Aspecto de uma trincheira na frente portuguesa (AHM, col. Garcês)
nas primeiras linhas de acordo com o seguinte calendário: na noite de 9 para 10 de Abril a 55.ª Divisão britânica estenderia a sua frente para Norte por forma a englobar o sector de Ferme du Bois, a cargo da 5.ª Brigada portuguesa; nas noites de 9 para 10 e de 10 para 11, a 50.ª Divisão britânica renderia as 4.ª e 6.ª Brigadas portuguesas – nos sectores de Fauquissart e de Neuve Chapelle, respectivamente –, bem como
a 3.ª Brigada em reserva; o comando da 2.ª Divisão seria rendido na noite de 9 para 10. Foi, pois, contra uma Divisão desfalcada de efectivos, extremamente debilitada física e moralmente pela longa permanência em primeiras linhas e que além disso se encontrava em processo de rendição iminente, que se desencadeou o poderoso ataque alemão.
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Sem meios de comunicação com as Brigadas, porque o bombardeamento destruíra todas as linhas telefónicas instaladas entre os diversos escalões de combate, o comandante da 2.ª Divisão só cerca das 09H30, quando começaram a afluir ao local militares enviados pelas Unidades subordinadas, se apercebeu de que cada fracção combatera isoladamente no seu posto, entregue a si própria. “(…) A falta de uma verdadeira reserva nas mãos do comandante da Divisão, de uma massa de tropa com que pudesse manobrar e contra-atacar, fez desta batalha um conjunto disperso e informe de combates parciais, locais, desconexos, que facilitaram a tarefa ao inimigo (…).”2 Ataque alemão de 9 de Abril, na frente portuguesa.
Os combates Às 04H15 da madrugada de dia 9, a artilharia alemã deu início a um intensíssimo bombardeamento sobre toda a frente do XI Corpo. Para além das granadas explosivas, as trinta mil granadas de gazes tornaram a atmosfera do campo de batalha absolutamente irrespirável. O bombardeamento contínuo, pontuado por breves intermitên-
6.ª Brigada cias de intensidade, só terminou às 08H15. E então, a coberto de espesso nevoeiro que não permitia ver para além de poucas dezenas de metros, as tropas alemãs de assalto atravessaram rapidamente o terreno entre trincheiras e submergiram literalmente as primeiras linhas portuguesas e inglesas do XI Corpo. Em pouco mais de uma hora, a infantaria alemã tinha atingido as terceiras linhas da defesa aliada.
As comunicações telefónicas do Batalhão de lnfantaria n.º 1, que defendia o sector esquerdo da frente portuguesa em Neuve Chapelle, foram cortadas pouco depois das 04H15. Pelas 08H00, o tiro de barragem alemão alongou-se e, atrás dele, surgiram as guardas avançadas alemãs varrendo o terreno a tiros de metralhadora. Cerca das 10H00 apenas cinco oficiais – e nenhum pertencente às Companhias de combate – e 131 sargentos e praças não tinham sido feridos ou aprisionados. O Batalhão de lnfantaria n.º 2, que ocupava o sector direito, ficou igualmente sem comunicações telefónicas cerca das 05H30. De acordo com o relato do comandante do Batalhão “(…) seriam aproximadamente 10H30, surgem inopinadamente pela esquerda [Fauquissart] e rectaguarda patrulhas inimigas, seguidas aquelas de vagas de assalto, que assestando as metralhadoras varrem todas as trincheiras de comunicação do comando do Batalhão ao mesmo tempo que avançam. Toda a resistência era inútil. O Batalhão de lnfantaria 2 já não existia (…)”.3
Obuses destruídos depois da batalha (AHM, col. Garcês) CARVALHO, Major Vasco de, “A 2.ª Divisão Portuguesa na batalha de La Lys (9 de Abril de 1918)”, Lisboa, Liga dos Combatentes e Âncora editora, 2016, p. 206 FRAGA, Luís Alves de, «La Lys – a batalha portuguesa» (in AFONSO, Aniceto e GOMES, Carlos de Matos [coordenadores], Portugal e a Grande Guerra 1914-1918, Lisboa, ed. Diário de Notícias, 2003, p. 433
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do Batalhão, acompanhado por centena e meia de homens, tentou ocupar posições à rectaguarda, onde seria possível uma defesa eficiente. Mas a “(…) desmoralização trazida pelos que da frente vinham fugindo e espalhando boatos terroristas, comunicou-se porém pouco a pouco a todas as praças do Batalhão que acabou por se desagregar (…).”4 4.ª Brigada Era a Brigada da 2.ª Divisão com mais tempo de permanência em primeiras linhas. Na ocasião, faltavam-lhe 51 oficiais e 1300 sargentos e praças e as Companhias tinham uma média de 70 a 80 praças combatentes.
Abrigo nas linhas do CEP, esboço a carvão de Sousa Lopes (MM)
O Batalhão de lnfantaria n.º 11, em apoio, foi igualmente submergido pela artilharia inimiga que batia toda a zona de rectaguarda do sector. Às 11H15, o bombardeamento destruiu o posto de comando, soterrando o pessoal. Pouco depois, já se ouvia o fogo das metralhadoras alemãs. Cerca das 12H00, o comandante do Batalhão retirou, acompanhado pela parte sobrevivente do
seu estado-maior. As baixas da Unidade foram pesadas: 13 oficiais, 21 sargentos e 244 cabos e soldados. O Batalhão de lnfantaria n.º 5, que era reserva da Brigada, ficou sem ligações telefónicas com o comando superior cerca das 04H30. Acorrer à frente sob a torrente de fogo de artilharia, era impossível. O comandante
Pelas 04h15 as granadas da artilharia alemã começaram a varrer todo o sector de Fauquissart. Cerca das 08H00, as primeiras linhas do sub-sector esquerdo, defendido pelo Batalhão de lnfantaria n.º 8, foram submergidas pela infantaria alemã. Pouco depois caíram as segundas linhas. Pelas 10H00, os sobreviventes começaram a retirar para a rectaguarda. O sub-sector direito, defendido pelo Batalhão de lnfantaria n.º 20, foi dos poucos onde as comunicações entre Unidades se mantiveram por algum tempo. O comando do Batalhão ordenou às Companhias em primeiras linhas que recuassem, com a intenção de, passado o bombardeamento, as fazer regressar às posições originais. Porém, entre as 09H00 e as 09H30, começaram a ouvir-se, saídos do denso nevoeiro, os disparos das metralhadoras alemãs. A rendição tornou-se inevitável. Cerca das 10H00, o Batalhão de lnfantaria n.º 29, em missão de apoio, começou a ser envolvido pelo flanco esquerdo, onde as tropas britânicas tinham começado a ceder uma hora antes. Uma vez que já tinha enviado todas as suas Unidades para as primeiras linhas, “(…) Às 10h30, o major Xavier da Costa, tendo reunido à sua volta o máximo possível de homens, tomou a decisão de resistir, entrincheirando-se
Fazendo a barba num posto de frente (AHM, col. Garcês) 4
CARVALHO, Major Vasco de, “A 2.ª Divisão Portuguesa na batalha de La Lys (9 de Abril de 1918)”, Lisboa, Liga dos Combatentes e Âncora editora, 2016, p. 251
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13H00 foi feito prisioneiro o comandante da 5.ª Brigada com o seu estado-maior. Entretanto, o Batalhão de Infantaria n.º 13, em reserva, instalou-se defensivamente no reduto de La Couture. Um pouco mais tarde, o comando, um Destacamento de Metralhadoras e dois Pelotões de Infantaria do Batalhão de Infantaria n.º 15, reforçaram a posição. A intenção era resistir enquanto fosse possível. “(…) Ao cair da tarde, dentro do reduto as tropas de Infantaria 13 e 15, com o apoio de munições de um Batalhão de Ciclistas britânico, continua a opor feroz resistência ao avanço alemão. Em 10 de Abril, às 10H30, as tropas britânicas que combatiam nas trincheiras fora do reduto acabaram por se render aos alemães, que já as cercavam.
Trincheiras com postos cobertos (AHM, col. Garcês)
nos drenos. Apesar da resistência, os homens foram morrendo ou ficando feridos um a um, até que os últimos tiveram de se render. O major Xavier da Costa e os seus bravos ficaram como um dos símbolos de La Lys (…).”5 5.ª Brigada Tal como as restantes Brigadas portuguesas, também esta ficou sem comunicações nos primeiros minutos do bombardeamento ale-
mão. Por volta das 09H00, na sequência da penetração alemã no sector britânico à sua direita, o Batalhão de Infantaria n.º 10 foi envolvido pela direita e pela rectaguarda. O Batalhão de Infantaria n.º 4, em apoio da Brigada, igualmente sem ligações telefónicas, foi aprisionado pelas 11h30. Do Batalhão de lnfantaria n.º 17 só escapou de morrer ou de ser aprisionado um único oficial: o tenente miliciano médico José Viana Correia. Pelas
Às 11H30 os alemães mandam um parlamentário ao fortim para negociar a rendição. Qualquer resistência era inútil. Combinaram-se os pormenores da saída das tropas. Às 12H00, quando saíam desarmados, os últimos resistentes do fortim de La Couture foram metralhados pelos alemães. O fogo cessou, mas ainda houve feridos e mortos portugueses e britânicos (…).”6
No trabalho do general Moraes Sarmento citado no início deste artigo, o autor enuncia três circunstâncias que facilitaram a derrota da 2.ª Divisão portuguesa. A primeira foi o terreno desvantajoso: as trincheiras alemãs estendiam-se ao longo de uma crista cuja cota excedia a das trincheiras portuguesas em vinte metros, facultando aos alemães o domínio sobre todo o sector numa distância superior a trinta quilómetros; a segunda foi a carência de ligação entre as Divisões britânicas e a portuguesa, agravada pela deficiência de efectivos desta e pelo intenso nevoeiro que cobria o campo de batalha; a terceira e porventura definitiva consistiu na enorme desproporção entre as quatro Divisões atacantes e única Divisão portuguesa com muitas falhas de efectivos e de armamento. Mas apesar de todas estas circunstâncias agravantes, houve quem cumprisse para além do Dever: “(…) A fôrça deixada em Armentières cumpríu tão honrosamente, porém, a sua missão, que os próprios alemães citam o seu heroísmo na parte oficial da batalha. Enquanto foi possível aos que a constituíam, pelejáram, e entre as fumegantes ruínas das habitações que defendiam, é que os alemães fôram aprisionar os sobreviventes, mas já sem munições (…).”7
5 FRAGA, Luís Alves de, «La Lys – a batalha portuguesa» (in AFONSO, Aniceto e GOMES, Carlos de Matos [coordenadores], “Portugal e a Grande Guerra 1914-1918”, Lisboa, ed. Diário de Notícias, 2003, p. 435 6 FRAGA, Luís Alves de, «La Lys – a batalha portuguesa» (in AFONSO, Aniceto e GOMES, Carlos de Matos [coordenadores], “Portugal e a Grande Guerra 1914-1918”, Lisboa, ed. Diário de Notícias, 2003, p. 432 7 SARMENTO, General Moraes, «Episódios da guerra actual: o ataque alemão ao sector português, na batalha do Lys», Lisboa, Revista Militar de Agosto de 1918, p. 464
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Dia do Combatente O
Dia do Combatente foi associado este ano à comemoração do centenário da Batalha de La Lys, ocorrida em 9 de Abril de 1918, na 1ª Guerra Mundial, em que as tropas portuguesas, sucumbiram a um ataque avassalador das tropas alemãs, tendo tido um número de perdas enorme, em termos de mortos, feridos e prisioneiros. A nossa Associação fez-se representar oficialmente nas comemorações levadas a cabo pela Liga dos Combatentes no Porto e no mosteiro da Batalha. No Porto a comemoração ocorreu no dia 17 de Abril. Celebrou-se uma missa de sufrágio pelos Combatentes falecidos na Igreja dos Carmelitas, no Largo do Carmo, ao que se seguiu uma cerimónia militar junto ao monumento aos Mortos da Grande Guerra, na Praça Carlos Alberto. A nossa Delegação no Porto fez-se representar pelo Antigo Aluno António Manuel Adão da Fonseca (286/1957), Professor Catedrático da Universidade do Porto. A comemoração principal ocorreu no dia 14 de Abril no mosteiro da Batalha, com a presença do Presidente da República. Tal como no Porto a comemoração iniciou-se com uma celebração eucarística seguindo-se uma cerimónia militar no exterior. Nesta cerimónia, depois de prestadas as Honras Militares ao Presidente da República, foi feita uma alocução pelo Presidente da Liga dos Combatentes, seguida de uma alocução pelo próprio Presidente da República. Seguiu-se uma homenagem simbólica aos Combatentes da Grande Guerra e o desfile das forças em parada. As cerimónias terminaram na Sala do Capítulo, com o hino da Liga dos Combatentes, o descerramento de uma placa evocativa do Centenário da Grande Guerra, a homenagem aos mortos e o Hino Nacional. A nossa Associação fez-se representar nestas cerimónias pelo
Presidente da Mesa da Assembleia Geral, Coronel Comando Raúl Miguel Socorro Folques (380/1952), oficial da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Não podendo estar presentes nas cerimónias no Mosteiro da Batalha, decidimos ver as mesmas no telejornal da RTP 1, das 20H00. A reportagem que foi para o ar não deverá ter tido a duração de um minuto. A seguir passou uma reportagem
de antevisão do jogo de futebol do dia seguinte entre o Benfica e o Futebol Clube do Porto, que terá tido uma duração bem para além dos cinco minutos. Atendendo a que o serviço que a RTP presta é considerado um serviço público, pago por todos os portugueses, só podemos considerar tal facto verdadeiramente lamentável. Nem pelos mortos ao serviço da Pátria há respeito, o que infelizmente já não é novidade. A Redacção
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400 anos do Hospital de Nª Srª da Luz
1618-2018
400 anos
do Hospital de Nª Srª da Luz Comemorações do 215º aniversário do Colégio Militar 4 DE MARÇO DE 2018
O
edifício principal do Colégio Militar, foi construído entre 1601 e 1618 para Hospital e fazia parte de um conjunto mais alargado que incluía a Igreja e o Convento de Nª Srª da Luz. Este conjunto que pertencia à Ordem
de Cristo fazia parte dos três núcleos conventuais da Ordem existentes nos séculos XVI/ XVII em Tomar (Sede da Ordem), Coimbra e Lisboa. O plano reformador de D. João III, foi o impulsionador da construção do núcleo da Luz,
mas terá sido a sua irmã, a Infanta D. Maria, a grande entusiasta e mecenas da sua construção, escolhendo a Igreja da Luz para seu mausoléu. A Igreja terá sido iniciada em 1575, altura em que já arrancavam as dependências conventuais. Por infortúnio, a Infanta morre em 1577 e a sua explícita intenção de construção de um hospital ficará firmada em testamento, deixando claro a sua organização, os seus usufrutuários e os meios financeiros legados, para a sua construção e bom funcionamento. O edifício do Hospital, inaugurado a 23 de abril de 1618, teria de ficar sob administração dos Freires da Luz da Ordem de Cristo, sob a tutela de um Provedor e de um Almoxarife. Os seus testamenteiros ficariam incumbidos de redigir um estatuto de funcionamento, segundo o que tinha sido deixado pela Rainha D. Leonor ao Hospital de Nossa Srª do Pópulo nas Caldas da Rainha referindo ainda, que as enfermarias ligassem directamente com a capela para que os doentes pudessem ouvir a missa1. Destinava-se a acolher 63 enfermos pobres e peregrinos, tendo em diversos momentos recebido doentes da capital.
À semelhança do Hospital Real de Todos os Santos em Lisboa (construído entre 1492-1504), onde também existia ligação entre a capela e as enfermarias.
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400 anos do Hospital de Nª Srª da Luz
Depois de inaugurado foi considerado um dos mais bem equipados e modernos hospitais da época. O seu desenho assenta sobre os mais inovadores princípios estéticos e artísticos de base tratadística, de grande proporcionalidade, ortogonalidade, funcionalismo e geometria. As mais recentes influências hospitalares europeias são aqui aplicadas pelo desenho dos Arquitectos Reais e das Ordens Militares dos quais se destaca Baltazar Alvares. O seu funcionamento terá passado por períodos conturbados, pela constante interrupção e medíocre gestão do legado deixado pela Infanta. O aparente desvio das rendas destinadas ao hospital para outros fins, situação inclusive contestada por alguns freires em cartas dirigidas ao rei, seria agravada pelo facto de uma parte destas rendas serem provenientes de Castela. Durante vários anos o hospital não usufruiu destes valores, situa-
ção provavelmente agravada após a restauração da independência em 1640. Com o terramoto de 1755 o hospital sofreu bastantes danos. As Memórias Paroquiais de 17582 referem entre os efeitos do sismo, os danos e mau estado da capela, das enfermarias, das casas do Provedor, do almoxarife, dos médicos, do cirurgião, do boticário e de outros empregados e ainda os danos nas varandas, no claustro e nalgumas coberturas. Dois anos após o terramoto foi feito um levantamento do estado de conservação do hospital3 e realizadas algumas intervenções, pelo menos até ao ano de 1766, época em que é realizada escritura para outras novas obras4. No início do século XIX as instalações do hospital cessaram o seu funcionamento, tendo sido o edifício ocupado pelo Real Colégio Militar até à actualidade. Até 1814, por falta de meios, não tinha doentes e continuava com
ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 9, nº 140, pp. 915 – 922. ANTT, MCO, Secretaria da Mesa e Comum das Ordens, Hospital de Carnide, Maço 12, Doc. n.º 16. Idem, Doc. n.º 28 5 Arquivo Histórico Militar, Caixa 7, n.º 51. 6 O edifício foi adaptado a enfermaria do Colégio. 2 3 4
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partes em ruína, mantendo ainda alguns dos seus funcionários como atesta uma lista de 1813, onde constam médico, boticário e enfermeiro, que residiam na ala poente do hospital e cirurgião e sangrador, cozinheira, moço de porta e lavadeira, que residiam na ala nascente5. Em 1873, depois de alguns interregnos, o Colégio Militar regressa definitivamente para a Luz. Readapta o edifício e a cerca a sul do Hospital a espaço de ensino ampliando-o, quando da aquisição em 1899, com as terras e edifício do Palácio dos Condes de Mesquitela6 e Quinta da Luz.
Marta Pais Vaz Pereira S. de Ataíde
marta_pais@hotmail.com Arquitecta e Mestre em Recuperação do Património Arquitectónico e Paisagístico. Autora do livro “Convento e Hospital de Nª Srª da Luz da Ordem de Cristo”, com o apoio da AAACM.
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O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
José Alberto da Costa Matos 96/1950
O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
A
s primeiras décadas do pequeno Colégio que Teixeira Rebelo ergueu na Feitoria não foram nada tranquilas. Durante 70 anos o seu Colégio iria andar daqui para além em cinco mudanças que iremos relembrar antes de prosseguirmos. Ora como o motivo que hoje aqui nos reúne são os quatro séculos de existência do edifício do Hospital Real da Luz, foquemo-nos em 1814, ano em que o Colégio deixou a Feitoria e passou a ter uma existência oficial e autónoma. Mas antes recuemos momentaneamente a 1807, ano em que Teixeira Rebelo deixou de comandar o Regimento de Artilharia de S. Julião, mantendo contudo a direcção do Colégio da Feitoria. Por essa altura, Teixeira Rebelo possuía já uma clara noção acerca do seu Colégio, que expôs ao ministro dos Negócios da Guerra e Estrangeiros, D. Miguel Pereira Forjaz. Ele teria que continuar e consolidar-se e, sendo assim, mais tarde ou mais cedo, acabaria por ter que deixar as instalações onde se encontrava, não só porque estas não permitiam aumentar o efectivo de colegiais, mas também porque o seu estado não era o mais aconselhável. Como então escrevia o Fundador, seria necessária uma «maior comodidade e largueza dos Alunos
que já existem no Colégio, e fornecer alojamento para mais doze ou quinze que Sua Alteza Real tem mandado admitir», ou seja, «para receber oitenta até noventa colegiais e toda a gente da sua governança e serviço.» Mas como sempre acontece entre nós, e desta feita sob o espectro das invasões francesas, as coisas foram-se arrastando e só em 19 de Junho de 1813, foi assinada por três dos governadores do Reino uma portaria que determinava o seguinte: «Estando o Hospital Real de Nossa Senhora dos Prazeres no sítio da Luz com bastante ruína, e sem doente algum por falta de meios, e podendo com alguns consertos servir interinamente de Colégio Militar para instrução da mocidade que se destina ao serviço do Exército; Manda o Príncipe Regente Nosso Senhor que o dito Hos-
pital se desembarace e se entregue ao Intendente Geral e Fiscal das Obras Militares, tenente-coronel engenheiro Duarte José Fava, para se poder aprontar para o dito interino exercício, pondo-se em arrecadação todas as rendas e móveis do mesmo Hospital.» Seis meses e meio depois uma outra portaria, datada de 7 de Janeiro de 1814, ordenava a transferência do Colégio de Oeiras para as instalações hospitalares da Luz. Mas esta portaria não escondia que o Hospital Real estava «com bastante ruína» e precisava de «alguns consertos», para poder receber os colegiais e também para o preparar para uma lotação máxima de 100 alunos, que era o que previam os Estatutos de 1814 que oficializavam a existência do Real Colégio Militar.
O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
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o mordomo e o porteiro, a que vieram juntar-se na prática alguns servidores que, deslocados de Oeiras, careciam também de alojamento na Luz. E no começo de 1814 o marechal Teixeira Rebelo e os seus alunos, mestres, pessoal de apoio e todos os trastes e demais pertences, tiveram que transferir-se da Feitoria para a Luz, não existindo de igual modo qualquer relato de como o fizeram, quais os meios que utilizaram e quanto tempo demorou essa operação.
Não são conhecidos projectos, descrições ou mesmo facturas referentes a tais consertos, que nos permitissem conhecer o que foi então realizado. Sabe-se porém que o edifício foi durante vários anos objecto de sucessivos melhoramentos e recuperações, embora os trabalhos iniciais se tenham naturalmente desenvolvido no sentido da beneficiação mínima das camaratas (que eram as antigas enfermarias do Hospital) e da adaptação de aposentos a salas de aula, o mesmo acontecendo com outras dependências, uma vez que, segundo os Estatutos de 1814, teriam que residir dentro do Real Colégio Militar o director, o comandante, o capelão, o prefeito,
O sítio da Luz, embora constituísse uma realidade arquitectónica individualizada, integrava-se em Carnide, um aglomerado populacional situado a escassos trezentos metros, com perto de umas trezentas casas e pouco mais de um milhar de habitantes, alguns dos quais, caseiros e feitores, se dispersavam pelas quintas e demais terrenos agrícolas que circundavam o lugar. Era uma zona conhecida na capital por possuir ares sadios e ambiente tranquilo, e isso fez com que famílias nobres e aristocratas aí tivessem instalado palacetes e residências de Verão que, nalguns casos, estavam associadas a grandes quintas. Chegados ao velho edifício onde iriam viver, houve algumas coisas que prenderam a atenção dos alunos: A primeira foi a imponente frontaria, que era mais estreita do que aquela que hoje conhecemos pois, como veremos adiante, não existiam os dois corpos laterais a seguir às três janelas rasgadas de ambos os lados do corpo central.
Teixeira Rebelo - Fundador do Real Colégio Militar.
Hospital Real de Nª Srª dos Prazeres, no sítio da Luz.
D. Miguel Pereira Forjaz - Ministro dos Negócios da Guerra e Estrangeiros.
As camaratas situavam-se no piso superior, no corpo Sul, de ambos os lados de uma capela sobre a qual se elevava um zimbório; eram as anteriores enfermarias e dispunham ambas de uma porta de ligação àquele espaço religioso, que ainda hoje existem mas que muitos desconhecerão que se destinavam, quando abertas, a possibilitarem aos enfermos hospitalizados assistirem da cama aos ofícios ali celebrados. A meio do piso dos claustros, no seu lado Sul, ficava a cozinha e, por baixo desta, a casa dos banhos. Nas traseiras do conjunto edificado ficava uma «cerca», que era um logradouro de uso geral, limitado a Nascente pelo arruamento que hoje dá acesso ao ginásio, a Poente pela então existente Azinhaga da Fonte, e a Sul por uma linha imaginária que passaria imediatamente além do actual edifício dos laboratórios.
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O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
Porta de ligação entre a capela e uma das enfermarias.
Planta do piso térreo do edifício do hospital (Norte na parte inferior da planta).
Mas vejamos concretamente como foi ocupado o edifício.
No terceiro piso (que apenas existia e existe no centro da fachada principal, portanto sobre a que era sala dos actos), situava-se a aula de desenho.
No piso inferior, os corpos Nascente, Norte e Poente foram destinados ao alojamento dos diversos elementos do estado-maior e estado-menor que tivessem que residir no interior do Colégio; o corpo Sul, que tinha uma maior área coberta, albergou mais alguns empregados e docentes; e todo o resto do corpo Sul foi destinado ao serviço de alimentação (despensa, cozinha, copa e refeitório) e ao armazenamento de móveis, materiais diversos e lenha. No pavimento superior, a meio do corpo da fachada, ficava a “sala dos actos”, em cujos topos existiam duas arrecadações; no corpo do lado Nascente situava-se a secretaria, a então denominada livraria, a sala de visitas e os aposentos do 2.º comandante; o corpo Ocidental era ocupado, na sua quase totalidade, pelas habitações do director e do comandante; no corpo Sul, que, como já foi referido dispunha de maior área, ficavam de um e outro lado da capela as instalações das companhias de alunos e a enfermaria, e ao longo da face desse corpo (voltada para os actuais pavilhões escolares e laboratoriais) situavam-se as salas de aula.
Nos extremos da fachada existiam dois espaços a céu aberto, delimitados por muros de alvenaria, reservados a quintais dos residentes. No espaço correspondente ao átrio da entrada principal tal como hoje o conhecemos, existiam no tempo do hospital três arcos abertos, que davam
Entrada principal do edifício.
guarida aos peregrinos que demandassem a igreja da Luz durante a noite, pelo que a porta do hospital se situava onde hoje existe o guarda-vento que dá acesso aos claustros. Com a vinda do Colégio tais arcos foram fechados sendo fenestrados os dois arcos laterais e deslocando-se a porta de acesso aos claustros para o plano da fachada. Apesar de já terem estado várias vezes neste átrio, o que nem todos terão reparado é que todas as ombreiras das portas e janelas que dão para esse
O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
Átrio de entrada com o busto do Fundador.
Residência do Director.
átrio não são feitas em pedra mas sim em madeira pintada de modo a imitar pedra. Se um dia quiserem confirmar, bastará bater nelas com os nós dos dedos. A sala de armas actual foi desde o início um depósito que acomodava armas, mas também equipamentos e outros materiais e o mais curioso é que os actuais espaços situados sob as escadas de acesso ao piso superior, foram em 1814 cavalariças cujas portas eram voltadas para os claustros. O refeitório colegial ocupou a metade Sul do que é hoje museu colegial; e a outra metade foi destinada a armazém de lenha para a cozinha. Quanto à área reservada à instrução situava-se a nascente do corpo Sul, e aí se manteve durante mais de século e meio sob a velha designação de «pátio da infia». Quanto aos terrenos da «cerca» do antigo hospital foram destinados ao recreio dos alunos. Embora as obras foram prosseguindo lentamente, as marcas de dois séculos e meio de existência iam-se notando cada vez mais, para o que muito contribuíam algumas cicatrizes mal curadas provocadas pelo terramoto de 1755.
da uma placa evocativa. Nas suas traseiras, e com entrada directa a partir do exterior, dispunha de um pátio com acesso à residência, onde havia um depósito de água e um quintal bem como uma cocheira e a cavalariça. E a propósito de residência e do estado das instalações, atentemos nesta carta que Teixeira Rebelo escreveu em 30 de Setembro de 1820 dirigida ao coronel Duarte José Fava, que era então responsável logístico do Exército:
Como se disse, a residência do director ficava do lado Poente dos claustros, onde em 2003 foi afixa-
«Meu Amigo e Sr. Agradeço infenitamente a V.S.ª o obséquio de fazer entrar na contemplação dos concertos a minha casinha de jantar, a qual se achava em estado de se não poder segurar huma cadeira por passarem os pés dellas pelas taboas em razão da sua podridão; este sobrado era ainda da premitiva, assim como o he tambem a pequena escada que da dita casa desce para a cozinha, a qual tem os degraos quasi meios gastos occasionando terem me cahido algumas creadas por ellas abaixo; portanto desejo que V.S.ª me fizesse a mesma graça de a mandar fazer do mesmo modo que se fez na casa que fica do outro lado, quando se mandou preparar para o Caulla1. Em caso que isto não possa ter lugar nesta ocasião, rogo a V.S.ª mo mande dizer porque então
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Placa evocativa do Fundador (no piso inferior dos claustros).
Carlos Frederico de Caula, subdirector do Colégio de 1815 a 1822. Como estatutariamente o subdirector não tinha que residir no Colégio e a casa que ficava «do outro lado» (do claustro) era a do 2.º comandante, presume-se que esta tivesse, entretanto, sido atribuída àquele.
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O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
estado de saúde dos alunos motivado pela muita humidade e frigidez daquele enorme edifício. Mas, como é frequente entre nós, nada se modificou, pelo que chegados a 1851, vários pais requereram ao Governo o regresso do Colégio a Lisboa. E, como também é frequente acontecer, foram necessários dois anos para que o duque de Saldanha ordenasse tal mudança. Só que a sua execução iria tardar porque, entretanto, quer o edifício do antigo hospital da Luz, quer o antigo convento, tinham sido ocupados pelo Depósito de Cavalaria. Assim, só decorridos mais cinco anos, no começo de 1858, é que o Colégio retornou à Luz para aí dar início ao ano lectivo de 1858-1859. O edifício foi reocupado mais ou menos do mesmo modo que em 1814, excepto quanto ao reaproveitamento dos aposentos agora deixados vagos pelos professores e oficiais que outrora nele tinham residido. Mas pouco se conhece sobre o destino dado a todos esses aposentos. Sabe-se sim que as quatro faces do piso superior dos claustros foram transformadas em salas de estudo envidraçadas e que às camaratas foram acrescentados lavatórios.
Duque de Saldanha - Ministro do Reino.
vou mandalo fazer à minha custa só por não ter o disgosto de ver estrupiado algum creado, ou eu mesmo quando desço ou subo por ella.» Apesar de tudo, o número de admissões ao Colégio Militar registava valores sempre crescentes, com especial relevo para os anos de 1822 a 1826. Pôs-se então a questão da insuficiente capacidade das instalações da Luz mas, como o fim das lutas liberais extinguira as ordens religiosas masculinas cujos bens foram nacionalizados, a solução talvez passasse por reinstalar o Real Colégio Militar num convento que fosse facilmente adaptável pois isso implicaria custos inferiores aos necessários para realizar grandes obras no antigo hospital da Luz. E foi assim que, por ordem do ministro do Reino duque de Saldanha, foram feitos os arranjos necessários no extinto Convento de Rilhafoles, e os colegiais, professores e seus pertences para lá se transferiram deixando para trás, ermo e ao aban-
dono, o antigo Hospital da Infanta. Mas a coisa não iria ficar por aqui porque, certo dia de 1848, o duque de Saldanha, resolveu ir visitar o Hospital de S. José e aí foi confrontado com o cenário degradante de como ali estavam instalados os dementes. Impulsivo e decidido, Saldanha logo ordenou que o Real Colégio Militar fosse imediatamente transferido para o convento de Mafra para que os doentes mentais fossem mudados para Rilhafoles. E esta atabalhoada mudança do Colégio Militar para Mafra, motivada por loucos, iria precipitá-lo numa situação de decadência que iria prolongar-se pelos anos seguintes. Com efeito, quer o alojamento dos alunos nas celas outrora habitadas pelos frades, quer a enormidade do convento, não tardaram em ter consequências na frágil resistência dos jovens colegiais, obrigando Teixeira Rebelo a relatar superiormente o mau
No piso inferior: À direita e esquerda da entrada principal ficaram a secretaria e o gabinete do subdirector de um lado, e do outro a sala de visitas e o gabinete do director; No lado nascente do claustro passaram a instalar-se a litografia, o laboratório de química e o gabinete do quartel-mestre; As cavalariças que se situavam no lado sul do claustro, converteram-se em casernas para pessoal dos serviços de apoio; O refeitório aumentou de área, absorvendo o que tinha sido anteriormente a arrecadação da lenha; Para Norte do refeitório, ficaram agora a biblioteca e o gabinete de física e de história natural; A sala de armas passou também a servir como ginásio; e a actual biblioteca tornou-se em enfermaria; Sob a cozinha manteve-se o balneário. Mas a estabilidade colegial estava longe de acontecer porque o marechal Saldanha, mais uma vez impensadamente, resolveu decretar a integração do Asilo dos Filhos dos Soldados, que se situava em Mafra, no Real Colégio Militar. E o Colégio regres-
O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
Convento de Mafra.
sou às más recordações do período em que vivera naquele convento entre 1849 e 1858. Os malefícios de Mafra logo voltavam a manifestar-se, mas só três anos mais tarde, em 1873, o Colégio voltaria à Luz, e agora sim, definitivamente. Então, como novidades, a cozinha passou a dispor de um grande e excelente fogão de ferro e dois depósitos de cantaria para os quais, por meio de bombas, era levada a água necessária ao fogão, às caldeiras e à chamada “casa dos banhos”, que ficava por baixo dela, sendo aquecida por um tubo de ferro, através do qual se fazia a tiragem do fogão. No piso superior, no lado da frente do edifício passaram a estar as salas de aulas dos primeiros anos e, do lado oposto, as dos anos mais adiantados. Lateral e simetricamente dispostas ficavam as instalações das quatro companhias que então compunham o batalhão colegial. Quanto à enfermaria, ficou transitoriamente instalada num aposento do piso superior, que ficava logo por trás da capela, mas no ano seguinte, mais ou menos no local onde hoje se situa o memorial dos 175 anos do Colégio, foram construídos dois edifícios rectangulares, de um só piso, com a maior dimensão orientada na direcção Norte-Sul, e unidos entre si por um corredor transversal. Tal edificação, que demorou dois anos a erguer, viria a ficar conhecida como “hospital-barraca”. Na parte poente da “cerca” e ao longo da Azinhaga da Fonte, foi também erguido um edifício de dois pisos destinado às aulas de desenho,
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Edifício do Real Colégio Militar.
geografia e história, mais conhecido por “edifício das ciências naturais” que serviu durante mais de um século, acabando por ser demolido em 1995, como adiante se referirá. Do lado oposto, ao longo do limite da “cerca”, foi erguida uma carreira de tiro mais ou menos segundo o arruamento que agora conduz ao ginásio, que também acabaria por ser demolida. Decorridos alguns anos, em 1883, foi arrendado o palácio do conde de Mesquitela e para ele foi transferida a enfermaria, libertando o edifício do “hospital-barraca” onde foram então instaladas cinco salas de aula, disponibilizando assim no edifício principal o espaço suficiente para o batalhão colegial passar a ser constituído por seis companhias a partir do ano lectivo de 1883-1884. Com o findar do século XIX o Colégio conheceu um dos seus mais notáveis directores, o general José Estevão de Morais Sarmento, antigo aluno, que delineou uma estratégia para o crescimento colegial que comtemplava: - O aumento do número de colegiais e das correspondentes receitas visando o melhoramento das instalações. - A aquisição do palácio Mesquitela até então arrendado e a sua transformação numa moderna enfermaria, e a transformação do seu jardim do lado Poente num ginásio ao ar livre com todos os aparelhos necessários às instruções de ginástica, esgrima, patinagem, velocipedia e desportos.
- A demolição do “hospital-barraca” e a construção nesse espaço de um edifício para alojar a 1.ª Companhia de alunos que aí se iria manter até 1958, ano em que foi inaugurado o actual edifício do corpo de alunos. - E a transferência da chamada “casa dos banhos”, que era insuficiente para o efectivo colegial, para o vasto aposento do lado Norte da sala de armas (no que é hoje o depósito da biblioteca), onde até 1958 tomaram duche muitas centenas de “Meninos da Luz”. Mas as mudanças prosseguiram com os directores sequentes, salientando-se a construção na parte Sul da área que era utilizada como recreio, e com uma moderna arquitectura, do pavilhão do desenho e trabalhos manuais, que foi inaugurado em 1909 e fez do Colégio Militar o pioneiro em Portugal do ensino dos trabalhos manuais. No ano de implantação da República os 345 alunos então existentes não cabiam de modo minimamente satisfatório nos estreitos limites do edifício principal e do anexo da 1.ª companhia. Foram por isso feitos dois acrescentos do lado Poente que alteraram significativamente o aspecto exterior do Colégio. Um foi a duplicação do corpo lateral dos claustros e o outro foi um novo prédio de dois pisos e águas-furtadas, com a configuração geral de um «T» que avançava para Norte em relação ao alinhamento da facha-
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O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
Hospital – barraca (anexo do lado Sul do edifício).
Edifício das Ciências Naturais (….).
Palácio do conde de Mesquitela (enfermaria).
da, contrastando nitidamente com a harmonia da restante massa edificada. Ligava-se ao edifício dos claustros através de uma passagem coberta e envidraçada e, entre ambas as construções, formou-se assim um espaço ao ar livre que veio a ficar conhecido por «pátio das osgas». Este acrescento passou então a albergar a 2.ª Companhia no piso térreo, e a 3.ª no piso superior. Decorridos nove anos, em Junho de 1919, foi introduzida a iluminação eléctrica nas instalações colegiais e, nos anos que se seguiram, sucederam-se outras alterações das quais saliento: Em 1926 a construção de um posto meteorológico, que foi o primeiro existente em Portugal num estabelecimento de ensino secundário. Em 1927/28 a edificação do pavilhão da química (onde actualmente funciona a messe de oficiais e professores), dispondo de uma aula em anfiteatro e de um excelente laboratório para a execução de trabalhos práticos, sendo na época uma evoluída infra-estrutura pedagógica que serviu durante mais de meio século. E em 1931 o alargamento do refeitório para o dobro da área. Mas a 2.ª Guerra Mundial e os seus reflexos provocaram um impasse nas transformações que vinham ocorrendo e só em 1947 veio a ser construído um edifício para a educação física, inaugurado em 1949, passando o Colégio a dispor nesse tempo das melhores instalações de ginástica do país. Em 1953, no ano em que o Colégio comemorou os seus 150 anos, foi adjudicada a empreitada de construção do actual edifício do internato que, a partir de 1958, passou a albergar as quatro Companhias de alunos deixando disponíveis as instalações que até então ocupavam no edifício principal. Então: O acrescento em T construído em 1910 foi adaptado a aulas; Foi aberta a actual passagem com escadaria que liga os claustros ao espaço da actual Parada do Fundador; E o edifício da 1.ª Companhia foi adaptado a picadeiro enquanto era construído um novo e demais dependências a Sul do ginásio, que foram inauguradas em 1963. Em 1964 e 1965 foi alargado para o dobro da largura o corpo nascente do edifício dos claustros (à semelhança do que acontecera em 1910
O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
Morais Sarmento - Director de 1898 a 1904.
Pavilhão de Desenho e Trabalhos Manuais (1909)
com o lado oposto) daí resultando no piso térreo um mais amplo espaço para os órgãos de direcção e serviços administrativos e, no piso superior, novas e melhores salas de aula. Depois, em 1972 e 1973, foram remodeladas as restantes partes do edifício dos claustros, «com elas quase se acabando a renovação de todo o antigo Hospital de nossa Senhora dos Prazeres», como se pode ler no Anuário colegial de 1973/74. Já depois do «25 de Abril» foram realizados os estudos técnicos para a construção do edifício dos laboratórios, com a comparticipação da Fundação Gulbenkian, mas só em 1977 e 1978 viriam a ser dotados de verba para a sua concretização. Por esta altura, o efectivo de alunos do Colégio rondava os 690, quantitativo que nunca fora atingido em toda a sua existência. Se o edifício do Corpo de Alunos ia suportando com alguma dificuldade tantos colegiais, o mesmo não podia dizer-se das instalações escolares. Foi então que, no começo do ano lectivo de 1978, assumiu a direcção do Colégio o então coronel de Engenharia Perry da Câmara, antigo aluno, que com a sua visão de engenheiro e longa experiência encarou de um modo global a questão das infra-estruturas na óptica do modo como funcionava o Colégio. Para o efeito foram definidas várias zonas: a de internato, as escolares, a de apoio logístico e de uma unidade de apoio, as desportivas e as zonas
Duplicação do corpo lateral Poente dos claustros. Novo edifício para as 2ª e 3ª Companhias (1910).
Pavilhão da Química (1932).
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O Colégio Militar e o edifício do Hospital Real da Luz
Posto Meteorológico (1926).
Duplicação do corpo lateral Nascente dos claustros (….).
General Perry da Câmara.
verdes, ficando então decidido quer o que haveria que demolir quer o que seria necessário erguer. O estudo apontava para que, além do pavilhão de laboratórios (que estava em construção), seria necessário edificar a poente deste um novo bloco de aulas capaz de satisfazer as necessidades detectadas, que viria a ser inaugurado no 3 de Março de 1995. Ainda em conformidade com estudo, concluído o bloco de aulas, foi a vez de serem demolidos todos os sucessivos acrescentos efectuados desde 1873 (quando o Colégio regressara definitivamente à Luz), como era o caso do pavilhão das Ciências Naturais, o edifício em T do «Pátio das Osgas», o edifício da antiga 1.ª Companhia, o pavilhão do Desenho e Trabalhos Manuais e o correr de pequenas construções que bordejavam pelo lado Nascente o chamado «Pátio da Infia». E foi assim que, com o aproximar do século XXI, o Colégio passara por uma radical modernização das suas instalações, preservando contudo, com muito orgulho e respeito, a traça e a configuração originais do centenário hospital da Luz para onde havia mudado em 1814 e onde com grande honra ainda hoje permanece.
Edifício central com a sua configuração actual ( foto do início do século).
Sobre Moedas e Papel-Moeda
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António Rafael Passarinho Franco Preto 67/1950
Parte 1
Sobre Moedas e Papel-Moeda Introdução O nosso curso1 reune-se mensalmente para almoçar (na 1ª quarta-feira de cada mês, excepto Agosto) desde há mais de 40 anos. No mês de Outubro de 2011 o almoço2 teve lugar no dia 12 porque a 1ª quarta-feira era feriado nacional. Durante esse almoço fiquei ao lado do Manuel Arantes e Oliveira (ex-43 de 1949/1955) que me desafiou – por qualquer razão que não me ficou na memória - a aprofundar os meus conhecimentos sobre o ceitil 3. Tendo recebido a confirmação de que era uma moeda portuguesa do passado, o desafio parecia fácil pois o meu conhecimento de moedas reduzia-se praticamente àquelas com que tenho lidado durante a minha vida. A curiosidade tomou conta de mim e resolvi então dedicar-me durante vários dias a estudar o assunto. Como ‘uma coisa puxa a outra’, passei das moedas para o papel-moeda (vulgo, ‘notas’) e ficaram-me na memória vários factos interessantes (pelo menos para mim...), tanto no que diz respeito a umas como a outras. No
final, achei que valeria a pena organizar alguns dos conhecimentos adquiridos e escrever um artigo para a nossa revista, poupando-vos assim algum tempo de pesquisa4. Acontece que, por razões várias, arquivei o projecto inacabado sem o ter proposto para publicação na nossa revista. Mais de cinco anos passados, reencontrei nos meus arquivos o ‘escrito’ em causa, resolvi alterar o seu título para ‘Sobre Moedas e Papel-moeda’ e reescrevi-o quase na totalidade para o enviar ao Gonçalo – o Gonçalo Salema Leal de Matos, recentemente falecido – propondo a sua inclusão na nossa ‘ZacatraZ’. Antes de iniciar a descrição do que escolhi, aconselho-vos a munirem-se de uma lupa para poderem apreciar melhor as imagens de algumas moedas e papel-moeda que vou incluir no texto (nomeadamente a frente e o verso do morabitino em ouro, descobrindo os elementos gravados que estão descritos no texto). Nota Inicial Esta introdução termina com uma ‘imagem-recordação’ de dois exemplares da moeda de um Escudo da república portuguesa (cer-
tamente a moeda mais representativa para a minha geração) e uma imagem de um Escudo em ouro, de 1432-1481. Interessante notar que a efígie da ‘República Portuguesa’ tem orientações opostas. Gostava de conhecer a sua justificação (política ou simples opção artística?).
1915
1927
Habitualmente identificado como o curso de 1950-1957. Na realidade aqueles que fizeram a totalidade deste percurso juntos, não são provavelmente a maioria. Recebemos valiosos ‘reforços’ (principalmente no 3º ano) e alguns daqueles que continuam a considerar-se (e muito bem) pertencentes ao nosso curso, sairam antes de 1957, por motivos vários. 2 Actualmente, realiza-se sempre no ‘nosso’ restaurante no largo da luz. 3 O ‘malandro’ disse-me que ceitil se escrevia ‘seitil’... 4 Eventualmente o que o Manuel Arantes e Oliveira queria era que eu tivesse o trabalho para ele se limitar a ler! Se era, ‘ganhou’! A minha curiosidade levou a melhor...! 1
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Sobre Moedas e Papel-Moeda
O Escudo em Ouro O nome ‘escudo’ já vem do reinado de D. Duarte, o nosso primeiro rei que terá mandado cunhar moedas em ouro com aquela designação (no que foi seguido por outros monarcas, nomeadamente D. Afonso V, D. João V e os seus sucessores até 1822). O seu nome é devido a ter numa das faces o escudo das quinas coroado. Apresentamos - a terminar esta introdução uma imagem de um escudo em ouro.
Qual o seu valor? Um mês de alimentação? 10 cabras? Não há certezas, mas … Com esta decisão, o mundo do ‘comércio da troca directa’ (e não só) nunca mais foi o mesmo. Para informações adicionais consultem o ‘website’ da Casa da Moeda (ou outros sobre numismática): https://www.museucasadamoeda.pt/video/4 Moedas Portuguesas (Do Dinheiro, ao Real e ao Escudo) A primeira moeda portuguesa foi o dinheiro.
Escudo em ouro, D. Afonso V (1432-1481)
Moedas A 1ª moeda no mundo (?) - O ‘estáter’ (nasceu um novo conceito)
Α Ω - ‘Eu sou o Alfa e o Omega / ‘Eu sou o Princípio e o Fim’ disse o Senhor Deus (Apocalipse 1:8,11) Uma face desta moeda tem gravadas a 1ª e a última letra do alfabeto grego (alfa e omega) com a cruz latina (o mais conhecido símbolo do cristianismo) entre elas. A outra face tem gravada a cruz judaica de 6 pontas. O ministro das finanças de Portugal era um líder religioso e político judaico e Rabino-Mor de Portugal (Yahia Ben-Yahia).
(Século VII A.C. - No reino da Lídia – antiga Turquia – o rei Aliates mandou fazer uma moeda) A moeda era feita de uma liga natural de ouro e prata, fundida em forma de disco e cunhada com o símbolo dum leão (o símbolo da sua família).
D. Afonso Henriques mandou em 1180 cunhar - depois de em 23 de Maio de 1179 ter sido reconhecido pelo Papa Alexandre III como rei de Portugal5 - dinheiros e meios-dinheiros (denominados mealhas6). As mealhas deixaram de ser fabricadas por volta de 1220, no reinado de
D. Afonso II, mas - por serem necessárias para trocas - mantiveram-se engenhosamente em circulação, com a população a cortar os dinheiros mais ou menos ao meio! Estas moedas eram feitas de bolhão, uma liga de prata e cobre. A partir de D. Afonso III aumentou consideravelmente a produção de dinheiros nesta liga metálica. Para efeitos contabilistícos, 12 dinheiros valiam um soldo e 20 soldos valiam uma libra!7 A designação de soldo vem de uma antiga moeda romana (solidus) e a palavra soldo era na Idade Média utilizada para designar o pagamento aos soldados. Por volta de 1200, D. Sancho I introduziu o morabitino em ouro que valia 15 soldos (e que era uma resposta ao dinar8 muçulmano). O morabitino foi a primeira moeda de ouro a ser cunhada em Portugal. No seu anverso, D. Sancho, coroado, é representado a cavalo, com uma espada alçada numa mão e o cetro encimado pela cruz na outra (grafismo que é perfeitamente visível com o auxílio duma boa lupa). No reverso, vêem-se as armas reais. Além do seu valor económico, a sua cunhagem tinha uma dupla simbologia: - afirmar o poder real no reino, tanto pela representação do papel de guerreiro do soberano, como pelo prestígio da sua prerrogativa de cunhagem de moeda; - afirmar o prestígio da monarquia portuguesa, diante dos demais reinos peninsulares.
O ‘morabitino’ em ouro (valia 180 dinheiros)
5 Refª meu artigo ‘Em que dia é que Portugal faz anos?’ na nossa revista do 2º trimestre de 2010. Certamente não foi por mera coincidência que D. Afonso Henriques só mandou cunhar moeda depois de ter sido reconhecido como rei de Portugal pelo Papa. Este facto só vem dar força à minha opinião de que Portugal ‘nasceu de facto’ a 23 de Maio de 1179. Foi a ‘bula’ do Papa (dessa data) que ‘promoveu’ D. Afonso Henriques de um temível ‘senhor da guerra’ a um Rei reconhecido e respeitado em todo o Ocidente cristão, com extensão dessa qualidade a todos os seus descendentes (assim diz a ‘bula papal’). 6 De onde deriva a palavra mealheiro. 7 Em Inglaterra (antes da conversão monetária para o sistema decimal) uma ‘pound’ valia 20 ‘shillings’ e este valia 12 ‘pence’ (tal como em Portugal no século XIII: 1libra=20 soldos e 1 soldo=12 dinheiros). E no século XIV em Florença, uma lira valia 20 ‘soldi’ e este valia 12 ‘denari’. ‘Quem influenciou quem’(nas relações entre as moedas)? - é uma pergunta para a qual não tenho resposta firme. Provavelmente foi o Império Romano a influenciar todo o mundo que conquistou. 8 A descoberta de ouro nos túmulos Egípcios trouxe - na sequência da expansão Árabe - um afluxo daquele metal precioso para a Europa, com reflexos nos reinos muçulmanos de Espanha.
Sobre Moedas e Papel-Moeda
Um século depois, D. Dinis introduziu o ‘tornês’ em prata que valia 5,5 soldos.
(ou réis) no reinado de D. Pedro II. Posteriormente regressou ao valor de 400 reais (ou réis). Em 1835, durante o reinado de D. Maria II, passou a ser utilizado o sistema decimal para as moedas. Existiam então as seguintes: Moedas em cobre (em bronze a partir de 1882) para moedas de 3, 5, 10 e 20 réis. Moedas em prata para as moedas de 50, 100, 200, 500 e 1.000 réis. Moedas em ouro para as moedas de 1.000, 2.000, 2.500, 5.000 e 10.000 réis.
O ‘real’em prata de D. Fernando I
Em 1380, D. Fernando I introduziu várias moedas como a dobra em ouro que valia 6 libras, e o real em prata que valia 10 soldos. Igualmente introduziu várias moedas feitas numa liga de prata e cobre, algumas delas com nomes de equipamento de guerra francês (como reconhecimento pela ajuda recebida na guerra com Castela); uma dessas moedas era o pilarte que valia 7 dinheiros. Durante o reinado de D. João I, foi introduzido um novo real também em prata, designado por real de 3,5 libras ou real branco. Valia 70 soldos (840 dinheiros) e tornou-se a unidade contabilística no princípio do reinado do seu filho, D. Duarte, em 1433. Igualmente foi introduzido o real preto9 , em cobre, que valia 7 soldos. A partir do reinado de D. Manuel I (14951521) o seu nome passou a ser simplesmente, real, e passou a ser cunhado em moedas de cobre (o que significa uma enorme desvalorização da moeda). Moedas houve que foram alterando o seu valor ao longo dos séculos. Como exemplo disso temos o ‘cruzado’ que valia 324 reais (ou réis) brancos no reinado de D. João II, 400 reais (ou réis) durante o reinado de D. João III e 480 reais Um real ‘branco’ valia 10 réis ‘pretos’. Ou moeda-padrão. Que foi o motivo de toda esta ‘história’...
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A moeda de 100 réis foi conhecida com a designação popular de ‘tostão’. Um ‘vintém’ era a designação da moeda de 20 réis (posteriormente, 2 centavos do escudo). Um ‘conto de réis’ era a designação de 1 milhão de réis (mil escudos). A ‘coroa’ era uma moeda de ouro valendo 5.000 réis, havendo ainda moedas de meia-coroa e de um quinto de coroa. (Em 1875 foram emitidas as últimas moedas de 3 réis e as moedas de 50 e 100 réis passaram a ser produzidas numa liga de cobre e níquel). Em resumo, temos: O dinheiro foi a primeira moeda-base10 portuguesa (de 1180 a 1433), seguida pelo real e pelo escudo.
Moeda em prata de 1.000 réis; 1837 - Reinado de D. Maria II
Moeda em ouro de 5.000 réis; 1851- Reinado de D. Maria II
Então e o ceitil ?11 O ceitil foi uma moeda portuguesa de cobre, criada no reinado de D. Afonso V. A sua designação tem origem no nome ‘sextil’, ou seja, um sexto. O seu valor era de 1/6 do real. Saiu de circulação no reinado de D. Sebastião. Eis dois exemplos dela:
O real foi a moeda-base de Portugal desde 1433 até 1911, tendo substituído o dinheiro com a relação 1 real = 840 dinheiros Em 1911 a moeda-base passou a ser o escudo com a relação 1 escudo = 1.000 réis (o plural de real). Exemplos da moeda-base real:
Moeda em cobre de 10 réis; 1853 - Reinado de D. Maria II
Na próxima revista será publicada a 2ª parte deste artigo (O Papel-moeda)
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Allegro A Volta ao Mundo do Veleiro onde também navegou a Barretina
António Rui Prazeres de Castilho 147/1948
Allegro
A Volta ao Mundo do Veleiro onde também navegou a Barretina Santa Lúcia - Martinica
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assada que foi a festa do Natal, despedimo-nos da Magelanus, isto é, da sua simpática tripulação, a Matilde e o João Manuel, que zarparam para o norte rumo a Martinica, tendo como objectivo principal conhecer mais algumas ilhas das Caraíbas, antes de regressarem a Portugal, pois não estava no seu programa fazerem a volta ao mundo. Como Martinica fica relativamente perto, tínhamos pensado os seis, passarmos o fim do ano em Martinica, comemorando também o aniversário do João Manuel que é no dia 31 de Dezembro. O Allegro ficaria em Santa Lúcia e a sua tripulação, o Luís Adão, a Manuela Adão, a Anne Marie e eu iríamos de “ferry” para esta ilha. Consultámos a agência de viagens da marina, horários dos barcos, hotéis, tudo estava acertado quando o Luís Adão levantou o problema do regresso. Não havia “ ferry” no dia 1 de Janeiro de Martinica para Santa Lúcia, por ser feriado. O Luís queria estar impreterivelmente no dia 1/1/2015, em Santa Lúcia, porque no dia 2 abria o escritório do A.R.C. e ele queria fazer a inscrição do Allegro para a volta ao mundo. Não percebemos tal pressa, as inscrições fechavam a oito
e a largada estava marcada para o dia dez de Janeiro… havia tempo para tudo! A Anne Marie não queria perder a oportunidade de conhecer Martinica e o que havia para fazer em Santa Lúcia não justificava, no nosso entender, passar tantos dias numa terra que já estava mais do que vista. Assim, nós os dois confirmámos a passagem no “ferry” e arrancámos no dia 31 de Dezembro para Martinica ao encontro dos “Magelanus”. Não fazíamos a mínima ideia do tipo de barco que iria transportar-nos, nem para tal fomos avisados. Quando a funcionária do escritório nos levou para o cais de embarque, deparámos com uma lancha super rápida, com dois motores fora de borda, de 350 cavalos cada um! Não imaginávamos de todo e de imediato o que nos estaria para acontecer. Os outros passageiros vestiam anoraques e fatos de mar e nós de calções e ”t-shirts”! As malas, sacos e restante bagagem foram muito bem estivados nas locas e eu disse ao piloto que queria levar o meu PC na mão para evitar qualquer acidente. O homem fez uma cara de tanta admiração, como se eu tivesse dito a coisa mais estranha deste mundo. Pouco tempo depois, quando o barco come-
çou a voar a 25/30 nós, realmente cheguei à conclusão que tinha mesmo dito uma coisa muito estranha. O barco cavalgava de onda em onda, puxado pelos fortes motores que roncavam ferozmente atrás de nós; o mar entrava pela proa e saía pela popa, cobrindo-o completamente, havendo momentos que mais parecia um submarino! Nada ficou seco, nem barco nem pessoas. O problema de visão era terrível, pois, com óculos postos, não se via nada, porque as lentes ficavam encharcadas; sem óculos, a força das ondas e a água salgada dificultava a abertura dos olhos. Um pavor autêntico. O piloto estava colocado mesmo à minha frente e apesar de eu lhe reconhecer capacidade profissional acima da média, pois negociava com grande perícia as diferentes situações – barco, leme, aceleração dos motores e mar - eu não queria tirar, nem por um segundo, a minha atenção às suas manobras. À velocidade que navegávamos, com o mar desencontrado, ondas fortes, cheias e puxadas a vento de través, bastaria um pequeno erro de governo para o barco virar e sermos irremediável e brutalmente projectados para dentro de água, o que seria uma situação bastante trágica. Não sou pessoa para entrar em pânico, mas
Allegro A Volta ao Mundo do Veleiro onde também navegou a Barretina
confesso que não me estava a agradar nada aquela viagem. Tentava transmitir à Anne Marie a mensagem de “ tudo bem”, pois ela, apesar de não estar habituada a estas andanças trágico-marítimas, teve um comportamento sensacional. Bem vistas as coisas eu também não estava habituado a estas aventuras em lanchas a motor. A minha”praia” é outra, são barcos à vela . Os barcos são outros, com comportamentos bem diferentes e, por isso, as abordagens que são feitas aos vários elementos da natureza, principalmente vento e mar, em condições adversas, têm outros procedimentos. Este imprevisto e aterrador episódio durou uma hora e meia, para nós uma eternidade.
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e pelo descuido humano, de cabelos escorridos, roupas encharcadas coladas à pele, arrepiados por algum frio e, talvez, um resto de medo que ainda permanecia no nosso consciente - só visto - tentando em vão apanhar um táxi para ir ao encontro dos nossos amigos. As ruas encontravam-se completamente desertas e táxis, nem vê-los! Por sorte avistámos um casal, coisa rara, e perguntámos onde seria possível arranjar um carro para ir até Le Marin. Responderam que era muito difícil, mas que eles poderiam levar-nos; eram franceses e estavam de férias.
tados, são merecedores dos feitos dos navegadores portugueses que descobriram o Mundo, para o Mundo”.
Ficaram curiosos de saber por que estávamos naquele estado e o que fazíamos em Martinica. Contámos a nossa história e que éramos portugueses. Infalivelmente conheciam o
Com um telefonema localizámos o João Manuel a quem perguntámos por um hotel onde pudéssemos ficar durante a estadia em Martinica. Ele respondeu que a Matilde tinha encontrado um
Ronaldo, e também o Figo, mas não esperávamos que se lembrassem do Eusébio! Só depois reparámos que o casal já não era novo, como nós, por isso com idade suficiente para terem ouvido falar nesse grande futebolista moçambicano, também conhecido por “Pantera Negra”. Chegámos rapidamente ao nosso destino, a viagem foi curta e bom caminho, com a vantagem de ser barata. Quando perguntámos quanto devíamos, a resposta foi:
hotel com instalações simples, mas limpas, com quarto com cama de casal e casa de banho privativa. Desconfiámos de tanta fartura, porque a agência de viagens em Santa Lúcia tinha-nos informado que a ilha estava com uma ocupação quase de 100%. Claro o quarto era num hotel flutuante de seu nome “Magelanus”! Foi, mais uma vez, uma demonstração de grande amizade por parte dos nossos amigos, que, embora já tivessem o barco preparado para receber outros convidados, que entrariam na próxima ilha, receberam-nos de uma maneira extraordinária. “Ninguém é pelo que tem…mas pelo que dá”.
Encantados ficámos nós pela simpatia e disponibilidade de dois desconhecidos que, apesar de aparentemente serem pessoas simples, tinham conhecimentos de História Universal para localizarem no tempo e no espaço a nossa epopeia marítima. Foi uma verdadeira bóia de salvação, no meio daquela povoação deserta de gente e de táxis…...!!!
Foto nº 1 - Marina de Le Marin
Finalmente tudo acabou bem, na pequena povoação de Sainte Luce, a norte da marina de Le Marin. O barulho dos motores terminou e com ele também o balanço do barco, já amarrado ao cais. Porém, no nosso imaginário, este movimento continuou espalhado nos nossos corpos, ao qual eu chamo “mal de terre”, comparando-o ao efeito que o “mal de mer” provoca nas pessoas. A terra, por algum tempo, parece dançar aos nossos pés. Após o desembarque e feitas as despedidas à tripulação, a nossa figura, caminhando pelo terminal do “ferry”, num cais empedrado, de piso mal tratado pela força do mar
- “Fica pelo preço da descrição da vossa aventura à volta do mundo. Estamos encan-
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Bem instalados, de banho tomado, com roupas secas e já longe de mais uma aventura, que mais parecia ter sido um sonho ou saída de um programa virtual de computador, fomos à polícia local apresentar os passaportes. O agente de serviço declarou: -“Esta formalidade não é necessária para os senhores que são portugueses. Martinica é francesa e, por isso, pertence à União Europeia, igualmente como Portugal. Estamos na União Europeia”. É uma realidade incontestável da era moderna, mas difícil de realizar à primeira vista, principalmente atendendo à distância que nos separa da Europa.
de rua, numa noite bem quente, tipicamente tropical. Nada disso! Depois de variadíssimas interrogações e cogitações da nossa parte, fomos informados com grande desgosto e admiração, de que a festa do dia 31 de Dezembro é celebrada na noite anterior. Na realidade, mas só posteriormente, reparámos que, por tudo quanto era sítio, havia cartazes alusivos às festividades, com fogo-de-artifício às 24 horas, concertos por bandas de música, bailes de rua, etc., etc., mas para o dia 30! Não lembra nem ao diabo, nem a nós nos passou tal coisa pela cabeça! Nestas paragens tudo é possível….!!!! Dentro das hipóteses colocadas na mesa, a mais votada foi a de regressar ao barco e
tando algumas notas que tirei da minha estadia nesta ilha, resultado do contacto com pessoas simples de rua e na rua e com quem fizemos sempre questão de contactar. São uma fonte de informação viva, genuína, muito valiosa, pois, em pouco tempo, o leque de pessoas diferentes que seleccionámos dá-nos uma panorâmica global de quase tudo o que há para visitar, ver e apreciar, incluindo a riqueza gastronómica. Nestas paragens a cozinha é resultado da mistura de “gente”, de raças, origens e hábitos infalivelmente muito diferentes, sendo o produto final delicioso e muito apreciado pelos visitantes, principalmente os da Europa. Nós não fomos excepção. Os pratos têm algum requinte da comida francesa, com um toque picante de
Foto nº 2 - Aniversário do João Manuel
Como era o último dia do ano e queríamos festejar a sua passagem e principalmente o aniversário do João Manuel, alugámos um carro e fomos para a capital, Fort-de-France, que fica relativamente perto da marina de Le Marin. Atendendo ao dia, entrámos na cidade com muita facilidade - pouco movimento, muitos restaurantes fechados, tudo demasiado tranquilo para a data festiva e mesmo para nosso gosto. Esperávamos divertirmo-nos numa cidade super animada, com programas nocturnos
organizar uma festa com a prata da casa. Se melhor escolhemos, melhor se pôs em prática. A Matilde como “ Dona de Casa” ou seja do barco, super organizada, improvisou uma deliciosa ceia, que não deixou de ser original, alegre e feliz. Festejámos a vinda do Ano Novo – 2015 – com os brindes da praxe e ainda o aniversário do COMANDANTE, o João Manuel Magalhães, a quem desejámos as maiores Felicidades. Antes de prosseguirmos a viagem por Martinica, vamos avivar a nossa memória consul-
influência negra e o sabor aberto e fresco dos frutos tropicais caribenhos. Não deixámos de visitar o Gabinete de Turismo, que nos facultou gratuitamente mapas e roteiros. Os funcionários destes departamentos, normalmente, são pessoas simpáticas e bem preparadas para a sua função, completando assim as informações recolhidas na rua. Martinica foi descoberta por Cristóvão Colombo em 1502, dois anos depois de Pedro Alvares Cabral ter chegado ao Brasil. Propo-
Allegro A Volta ao Mundo do Veleiro onde também navegou a Barretina
sitadamente, digo chegado, e não descoberto, segundo informações de fontes bem documentadas, retiradas do livro “Descida do Amazonas”, cujo autor é o nosso colega, António Bacelar Carrelhas, ex: 159/1947: “ Naquele ano de 1498, o Rei D. Manuel incumbiu Duarte Pacheco Pereira de uma missão secreta. O monarca queria que ele fosse explorar a região da linha do tratado de Tordesilhas. Duarte Pacheco montou uma esquadra de oito navios que partiram de Cabo Verde e teriam chegado a um ponto entre o Maranhão e a Pará - ou seja o Brasil”. Como sabemos, Pedro Alvares Cabral só chegou ao Brasil em 1500. Segundo a mesma fon-
A maioria da população de Martinica é mestiça afro-caribenha, descendente de escravos que foram levados de África para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar e de populações autóctones, para além de um menor número de imigrantes franceses que se fixaram há várias gerações. Uma pessoa, das muitas que contactámos, disse-nos com grande satisfação: - “ Felizmente os movimentos de libertação da ilha não tiveram expressão de relevo, pois assim gozamos de um estatuto de Região Ultramarina, com os mesmos privilégios da França, como país membro da União Europeia”. Lembrei-me logo do erro em que caíram algumas ilhas e pequenos territórios pertencentes às
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colha este local como destino de lazer terá naturalmente umas férias com “accent français”. O francês é a língua oficial e também a corrente, pois o crioulo é muito menos falado. A população é alegre e acolhedora, fazendo gala das suas origens, sem preconceitos negativos visíveis, pelo país que os colonizou, não perdendo, contudo, a sua própria identidade, sempre presente em todas as suas manifestações. Encontrámos com agrado e, também, com alguma surpresa, uma cultura popular mesclada, nitidamente influenciada por três correntes distintas: a colonial francesa, a crioula originária do tecido humano autóctone de Martinica e mais recentemente, a forte corrente multicultural da globalidade, que atinge transversalmente todos os
Foto nº 3 - Praias Tropicais
te, esta viagem tinha como destino principal a Índia, mas com a recomendação secreta de forçar o rumo para oeste, com a desculpa de apanhar melhores ventos. Mesmo sem GPS, quando chegaram à latitude de 17º sul, com esta hábil manobra, resultado das informações da viagem de Duarte Pacheco, a frota portuguesa achou a terra que procurava, o Brasil! Estes jogos secretos do “ Gato e do Rato “ com Espanha, sempre fizeram parte da táctica dos Descobrimentos, tanto do lado português como do espanhol.
Províncias Ultramarinas Portuguesas, ao alinharem na euforia de uma pressuposta “descolonização exemplar”, após Abril de 1975. Hoje provavelmente teriam um estatuto semelhante ao de Martinica, como a nossa Madeira e os Açores e o seu povo certamente não estaria a passar actualmente graves dificuldades. Se o meu parecer está dentro de uma óptica politicamente correcta, então este “navegador” que não é de todo um político, está certo. Martinica é provavelmente a ilha mais francesa das Caraíbas. Qualquer turista que es-
cantos do mundo civilizado. O resultado é nitidamente positivo e visível a todos que a visitam, com um olhar atento e criterioso. Eu atrevo-me a afirmar que Martinica é um bocado do território francês de além-mar, uma fatia do bolo com algum gosto a França, mas regado com um molho nitidamente tropical-caribenho, que a embebe e envolve de um sabor doce, picante e irreverente. Passadas as festas do Natal e Fim de Ano, como não tínhamos todo o tempo do mundo e muito Mundo havia para ver, largámos no
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Allegro A Volta ao Mundo do Veleiro onde também navegou a Barretina
dia 1 de Janeiro de 2015, da Marina de Le Marin para a pequena vila de Sainte-Anne, depois de contornar o cabo Pointe Marin. Sainte-Anne fica numa pequena enseada abrigada do mar, mas não do vento de SW, ventania que nos incomodou durante toda a noite. Como não existe marina, procurámos o melhor local para lançar ferro, com fundos de quatro a cinco metros e sem pedras, que nestes locais podem ser de corais. Depois de colocarmos o “ dinghy” na água, fomos a terra explorar a povoação, tomar um bom banho na praia e almoçar. Os banhos aqui nestas zonas tropicais são imperdíveis pela temperatura das águas, a areia fina e a vegetação de coqueiros e arbustos que vêm mesmo bordejar o mar.
Foto nº 4 - Rochedo “Diamant” tirada de bordo do “Mangelan”
O “dinghy”é mais conhecido pelos portugueses ligados ao mar, pelo nome de “zebro”, por ser a primeira marca portuguesa a fabricar barcos insufláveis para transporte de pessoas. Alguns destes modelos são construídos com especificações próprias para as Forças Armadas, nomeadamente pela Marinha de Guerra Portuguesa, principalmente fuzileiros navais. Foi baptizado com o nome de “zebro”, porque a fábrica fica situada no Vale do Zebro. É um transporte de grande utilidade para pequenas distâncias entre a embarcação principal e a terra ou em curtos passeios para explorar a costa. Pode ser movi-
do por remos ou, para maior comodidade, por um motor fora de bordo, montado no painel de popa, já construído para esse fim. Muitas vezes é utilizado para reboque do veleiro, auxiliar as manobras em condições de mau tempo, ajudar a passar o cabo do barco pelo olhal da bóia de amarração ou guiá-lo em águas apertadas. Era o nosso transporte habitual quando chegávamos a localidades sem marinas. Estes “zebros” são embarcações pequenas, cujo comprimento depende muito do tamanho dos veleiros e dos espaços disponíveis para arrumação. Normalmente são usados “ zebros” de dois a três metros, para embarcações de recreio, à vela ou a motor, com 30 a 45 pés, facilmente estivados em locas, quando se navega em mar alto. Há proprietários de veleiros, por comodidade, isto é, para não
Para compensar a noite mal dormida, a Matilde preparou um pequeno-almoço “para mil milhas”, expressão que uso quando se trata de um lauto “mata-bicho”, onde não falta nada e tudo está delicioso. Maravilha! Com os níveis repostos, de energia e boa disposição, levantámos ferro rumo a Norte mais propriamente Petite Anse d’Arlet, com passagem pelo rochedo de Diamant. Este ponto é um afloramento rochoso imponente e ao mesmo tempo majestoso e rude que se ergue a pouca distância da costa de Martinica, formando um canal revolto de mar e vento. Esta passagem é, como tantas outras, uma zona de aceleração forte e, por isso, foram tomadas medidas de segurança próprias da situação. Rizámos a vela grande e a genoa, verificámos os restantes
Foto nº 5 - Igreja de Petite Anse d’Arlet
terem que os montar e desmontar, amarram-nos directamente no convés da proa, avante do mastro, ou pior ainda, em cima de berços. E digo ainda pior, porque em alto mar, nomeadamente em travessias oceânicas, e não só, acho um risco enorme transportar o “dinghy” ou qualquer volume de dimensões médias nesta zona, colocando-os e expondo-os à força, por vezes brutal, das ondas que eventualmente poderão entrar pela proa ou pela amura de bombordo ou de estibordo! O trabalho de desmontar, dobrar, arrumar e montar novamente, não justifica os perigos daquela opção.
cabos, o comandante desligou o piloto automático e foi para o leme. Demos uma vista de olhos ao interior do barco para verificar se tudo estaria bem estivado, cruzando o canal a uma bolina serrada. Foi um momento de boa e excitante vela, que nos deu muito gozo e que pôs à prova barco e respectiva tripulação. As duas marinheiras, apesar de menos habituadas a situações mais rijas e menos cómodas, portaram-se à altura do momento. Este canal foi palco de batalhas navais e de grandes naufrágios.
Allegro A Volta ao Mundo do Veleiro onde também navegou a Barretina
“Passada a tormenta, vem sempre a bonança”— entrámos calmamente na baía de Petite Anse d’Arlet. Como habitualmente, estas pequenas baías não têm marinas; procurámos, então, uma bóia, perto de terra, fazendo a respectiva aproximação. Normalmente estas bóias estão presas a poitas com cabos que têm uma certa folga, permitindo que da proa do barco e com auxílio do croque, engatar o olhal da bóia, puxá-lo e passar o nosso cabo por dentro desta argola e amarrar o barco. Negativo! Mais uma vez o “zebro” foi útil. Depois de o descer para a água, um de nós saltou para os comandos, agarrou no cabo de amarração, levou-o para junto da bóia, passou-o pelo olhal, atirou-o para dentro do nosso barco e o outro tripulante amar-
Foto nº 6 - Pôr do sol no Ilhéu à entrada da Anse
rou-o ao cunho respectivo. Manobra perfeita. Sem o “zebro” teria um de nós mergulhar, nadar até á bóia e fazer o restante trabalho. Com o “dinghy”, já na água, fomos a terra visitar a povoação. Estas aldeias são pequenos aglomerados de casas encaixadas nestas costas recortadas, formando enseadas normalmente protegidas. O centro tem um cais, onde podem acostar e amarrar pequenas embarcações, não sendo necessário saltar para a água e deixar o “zebro” na praia, amarrado a um coqueiro!
Petite Anse d´Arlet é uma terra limpa, com poucos recursos naturais, que vive de uma indústria de pesca artesanal e de algum comércio e restauração, sustentados por turismo de passagem. Tem uma bonita igreja, muito bem conservada, como aliás a maioria do casario. Do barco, consegue-se ouvir o cantar dos sinos e à tardinha, antes do sol se pôr, distinguem-se as badaladas das trindades! O crepúsculo invadiu o nosso meio e também o mar, num horizonte quase infinito, até onde a terra e o céu permitem. Com este cenário a Mãe Natureza parece ter adormecido para completar este quadro de paz, só possível nestas paragens, bem longe das grandes metrópoles ditas civilizadas. - Podem crer, isto ultrapassa o BELO!!!
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uma praia e um banho fabuloso, com água a 28º. Entretanto, repentinamente o tempo começou a mudar ( situação normal nas latitudes tropicais e equatoriais) com o vento a soprar forte, nuvens negras carregadas de chuva e o mar a tornar-se revolto. Quando o mar e vento estão perfilados no mesmo enfiamento da boca de entrada destas “anses”, por mais abrigadas que pareçam, tudo muda de figura — a calmaria dá lugar a um balanço contínuo, um verdadeiro “twist”, e aí instala-se o desassossego e o desconforto dentro de todas as embarcações. Estavam reunidas as condições para uma “noite da Pesqueira”, como dizia a minha Avó! E assim foi, ninguém dormiu praticamente nada e levantámo-nos com caras de”sapato apertado”…. até as pos-
Foto nº 7 - Amel 65 da Jaqueline e do Terry a navegar à popa.
Com este cenário de sonho, dormimos tranquilos e prontos para mais uma etapa da nossa agradável visita a Martinica, desta vez para Grande Anse da Arlet. Estávamos no dia 3 de Janeiro de 2015. Os nomes das povoações nesta zona são quase todas Anse, de qualquer coisa! A origem é a mesma da palavra portuguesa, que traduzida à letra, quer dizer enseada. Utilizando o mesmo transporte, fomos a terra conhecer a aldeia e deliciarmo-nos com
tas de bacalhau que a Matilde tinha posto de molho não gostaram da noite! São situações do dia-a-dia com que os marinheiros têm de lidar e estar habituados. Conforto não é palavra que exista no dicionário de um veleiro. Tudo está sempre a mexer, o barco e o nosso corpo nunca param, ao ritmo continuo e desencontrado da massa imensa de água que vem e vai sem sabermos de onde e para onde. Parado, acordado e mesmo a dormir, vinte e quatro horas por dia, vezes N dias, o nosso físico está sujeito a um desgaste
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permanente. Quando digo que é necessário estar preparado fisicamente para uma viagem desta envergadura, as pessoas ficam, umas admiradas, outras cépticas. Mas é uma verdade da qual não me restam dúvidas. Outro sim, posso afirmar quanto a uma boa preparação e mentalização psicológica. Ambas são importantíssimas e colocadas ao mesmo nível. E estou somente a falar de viagem de recreio à volta do mundo, não de voltas ao mundo de alta competição, do tipo Volvo Ocean Race. Essas são coisas de outra galáxia, só para velejadores extraordinariamente bem preparados em todas as vertentes: técnica, física e psicológica. Lá, não há pequenos nadas, tudo é importante; nada, ou quase
Foto nº 8 - Vista de Pointe du Bou
nada, pode falhar. Quando falha, irreparável e fatalmente, surge um acidente, como aconteceu recentemente com um tripulante da equipa do “Sun Hung Kai “, de nacionalidade britânica, John Fisher, que caiu ao mar e apesar das intensas buscas efectuadas pelo Centro de Coordenação de Resgate Marítimo, não foi possível encontrar este homem. Eu faço vela …. eles fazem outro desporto, que não tem o mesmo nome!!!!! No dia quatro de Janeiro, arrancámos mais para norte, para a Anse Mitan, mas antes de
largarmos fomos fazer uma visita ao barco de um casal suíço que estava ao ferro perto de nós e que tínhamos conhecido em Santa Lúcia. A Jaqueline e o Terry vão viver para Portimão quando regressarem das Caraíbas. Têm um Amel 65, um grande barco, incrivelmente cómodo (do que se pode imaginar de comodidade num veleiro) e com um aparelho muito bem concebido, para que facilmente seja governado por duas pessoas, nomeadamente um casal. Encontrámos variadíssimos veleiros desta marca por esse mundo fora, cuja tripulação se resumia a um casal, e, por vezes, nada novos! A Amel é um estaleiro francês, em La Rochelle, que manteve a qualidade de excelência em relação à comodidade e facilidade de manobra, mas aumentou extraordi-
para as tripulações de uma utilidade incalculável. Por vezes trabalha consecutivamente, dias seguidos, ficando fielmente cativo ao rumo que lhe indicamos e que nos foi previamente calculado e fornecido pelo GPS. Governar um barco, em deslocações de longo curso, com pequenas tripulações de duas ou três pessoas, sem piloto automático é tarefa dura e para esquecer. Recordo-me de que “levámos à mão “ o “Aries”, veleiro do meu amigo Rudy Burmester, na nossa primeira viagem de ida e volta aos Açores, partindo de Leixões, em 1993, já lá vão 25 anos, meu Deus! Mesmo com quatro tripulantes foi trabalho de “escravo”. É por isso que eu apelido esta preciosa máquina com um nome tão sugestivo! Normalmente só quando avaria é que nos lembramos da falta que nos faz!
Foto nº 9 - Pôr do sol em Pointe du Bou.
nariamente a”performance” dos seus barcos. A velocidade destes modelos mais recentes nada tem a ver com os “Maramus” e” Super Maramus” dos anos 1990/2000. A viagem para Mitan foi feita com muito vento, a um largo, só com a genoa envergada e risada. O barco comportou-se muito bem com este tipo de solução vélica — ficou com um governo equilibrado, leve e seguro. Fui algum tempo ao leme, o que me deu um enorme gozo, deixando o piloto automático, o nosso “escravo” habitual, descansar um pouco. Este precioso aparelho é
Chegados à baía de Mitan procurámos e arranjámos um lugar muito bom, o mais abrigado possível, pois a Matilde preparava um bacalhau no forno com batatas a murro, que se imaginava ser mais um requintado manjar da cozinha do “Magelanus”. Terminadas as manobras para amarrar o barco a uma bóia, preparámos a mesa para o almoço, que, como se previa, foi muito apreciado e gabado. Realmente a bordo é fundamental haver um bom ou razoável cozinheiro/a, para que os alimentos sejam confeccionado com qualidade. Infelizmente nem sempre se verifica esta possibilidade! A bordo
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as refeições são um momento alto do dia, principalmente o almoço, que em quase todos os barcos é a refeição principal e altura onde se reúne a maior parte da tripulação. Já que a vida a bordo de um veleiro é francamente dura, principalmente em viagens de longo curso, pelo menos que a alimentação seja um ponto de preferencial atenção quando da preparação da viagem. Uma boa alimentação é essencial para manter os “níveis” da tripulação em alta! Não esquecer também as bebidas, pois o ar do mar e a roda do leme fazem muita sede!!!! Fomos fazer uma ronda pelas praias de Anse Mitan — são abrigadas e tranquilas, sem ondas e de águas quentes e cristalinas. Não têm explorações hoteleiras, mas encontram-se
Foto nº 10 - Miradouro de Diamant.
pequenos restaurantes, junto à praia, que servem bons pratos de peixe. A noite foi calma e repousante sem grandes balanços. A próxima paragem foi na marina de Pointe du Bout, onde já tinha estado com os meus amigos Frederico Blanc de Sousa e a João Gaioso, no Vole Au Vent, em 2009. O João Manuel contactou a marina, mas só depois de muita insistência e segundo deram
a transparecer, por grande favor, é que nos arranjaram um lugar! A marina é pequena, apertada e com uma boca de entrada estreitíssima. São necessários bastantes cuidados ao entrar e sair, inicialmente no canal de acesso, que não é largo, e depois lá dentro. O movimento dos ferrys de e para Fort de France, complicam este tráfego, com a agravante deles terem prioridade e os comandantes não guardarem grande simpatia pelas embarcações de recreio. Um tripulante colocado à proa para auxiliar o homem do leme é uma solução recomendável, em nosso entender. Apesar da marina ter os inconvenientes apontados, é muito abrigada e tem uma
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tipo de actividade ao ar livre, quer no mar, quer em terra. No Centro de Turismo, um placar informava o público que num recente trabalho efectuado sobre o grau de satisfação dos visitantes, o resultado foi: 43% dos inquiridos votaram, muito bom. Para conhecer melhor os arredores desta vila e fazer algumas compras no Carrefour, alugámos um carro e partimos em direcção a Le Marin, pois o João Manuel tinha que comprar algumas peças para o barco. Junto a esta grande marina, está instalada uma zona comercial com uma diversidade de lojas e armazéns que vendem todo o tipo de equipamento para barcos e algumas representam marcas conhecidas de moto-
Foto nº 11 - Monumento de Anse Caffara.
envolvente urbanística muito bonita, com casas em madeira pintadas a várias cores, normalmente berrantes, imprimindo ao conjunto uma espécie de palete policromática, contrastando ao mesmo tempo com o verde da vegetação tropical. Quem chega, encontra aqui nesta pequena mas agradável povoação tudo que é necessário: hotéis, restaurantes, comércio geral, onde não falta o artesanato. As praias são bonitas, de água limpíssima e quente e por toda a parte a natureza se abre aos nossos olhos e nos convida a belos passeios e a todo o
res, barcos, velas etc. São genericamente conhecidas pelo nome inglês “Chandles”, e dão apoio precioso a quem chega de uma viagem com problemas a bordo. Eu ofereci ao João Manuel uma defensa que foi borda fora por culpa minha. O nó de fiel, que normalmente é usado para pendurar as defensas ao varandim, ficou mal apertado, e com o balanço do barco….foi inevitável! Regressámos pela estrada à beira-mar com um traçado sinuoso, escarpado, mas encantador. Almoçámos, num restaurante de praia,
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um delicioso peixe na brasa e em seguida visitámos o miradouro de Diamant. Este local é indescritível. É preciso ir lá mesmo, para fazer uma ideia exacta da sua beleza, espectacularidade e rudeza ao mesmo tempo! Eu fiquei sem respiração. Ao seu lado, está o monumento “Anse Caffara”, que é evocativo da triste história da escravatura e do trágico naufrágio dum barco que transportava escravos. São umas dezenas de grandes estátuas humanas, representando os escravos, vitimas desse episódio trágico-marítimo. Elas fazem-nos reflectir e recordar uma época menos brilhante, para não dizer negra, da História da Humanidade e que, infelizmente, em moldes diferentes, ainda se pode encontrar nos nossos dias por esse Mundo fora!
Foto nº 12 - Igreja de Diamant - St. Thomas.
Perto deste local, encontra-se a Igreja de St.Thomas, uma construção ao estilo das igrejas locais, com duas naves e um campanário central em madeira, muito alto, terminado numa agulha que quase faz lembrar o gótico! No interior, o teto da nave central é construído em madeira fazendo lembrar o cavername de um barco antigo. Encontrei uns turistas franceses que estavam encantados com tudo que tinham visto. Faziam mergulho e diziam que não havia lugar para mergulhar nas Caraíbas comparado com o rochedo de Diamant, afirmando com um
certo orgulho e comoção: “Este bocado da França é um Paraíso Imaculado”. Nós, portugueses, deveríamos ter também orgulho nas ilhas dos Açores, porque são verdadeiras pérolas do Atlântico. Os nossos dias no “Magelanus”, na agradável companhia da Matilde e do João Manuel, estavam a terminar. Tínhamos que regressar ao “Allegro” que estava à nossa espera em Santa Lúcia, porque a volta ao mundo ainda estava no início e muitas milhas ainda tinham que passar por aquele casco!!!. Nesta última noite, do dia 6 de Janeiro, festejámos com um grande jantar o Dia de Reis, e fizemos as despedidas deste barco. Foram oito dias maravilhosos a bordo de um barco simpático,
grande que para além de passageiros levava viaturas. A viagem foi calma, com algum mar, mas o tamanho do barco e a perícia do comandante resolveram o problema. A chegada foi na capital, Castries, pelas 12 horas. Como já conhecíamos a cidade, apanhámos um táxi para Rodney Bay, onde o Luís Adão já nos esperava com alguma ansiedade, pois estava com receio que não chegássemos a tempo da largada para a Colômbia, marcada para o dia 10 de Janeiro! Não fazia sentido estar em Rodney Bay uma semana, sem praticamente nada para fazer a bordo (Allegro) e para visitar. Este passeio no” Magelanus”, a convite da Matilde e do João Manuel, era imperdível, não só pela companhia, mas por tudo de bom e de agradável que nos foi dado conhecer.
Foto nº 13 - Teto em madeira da Igreja
alegre e onde se respira felicidade. Obrigado ao casal Magalhães que nos recebeu. No dia seguinte, 7 de Janeiro, apanhámos o ferry para Fort de France, demos um pequeno passeio por esta cidade e dirigimo-nos ao terminal do ferry com destino a Santa Lúcia. A nossa primeira preocupação e curiosidade era saber que tipo de embarcação estava destinada para esta Ilha, para não entrarmos numa aventura do tipo da viagem anterior. Pelas informações prestadas pelos funcionários do terminal, o nosso ferry era um navio
No próximo artigo será feita a descrição da viagem de Santa Lúcia- Colômbia- Panamá.
O dealbar de Portugal
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João Manuel Martins Casaca 458/1960
O dealbar de Portugal 1. No concílio de Braga, realizado em 572 AD, no reinado do suevo Miro, foi criada a diocese de Portuscale (Porto), cujos limites eram o rio Ave, a Norte, o rio Antuã, a Sul, e as dioceses de Braga e Lamego, a Leste. Foi esta diocese que deu o nome a um território que se foi expandindo para o Norte, até ao rio Lima e depois ao Minho, para Sul até ao Mondego e para Leste até Trás-os-Montes, o condado de Portuscale. Curiosamente, o nome da cidade evoluiu para Porto enquanto o nome da diocese evoluiu para Portugal. No início da reconquista Cristã, no reino das Astúrias, depois reino de Leão, vigorava a tradição visigótica da nomeação de governadores de regiões com o título de conde. Nem sempre os governadores eram nomeados condes, nem a sucessão condal era hereditária e o cargo de governador e o título de conde podiam ser revogados em qualquer altura. No actual território de Portugal, existiram vários condados que obedeceram a estas regras: o condado de Portugal (Portuscale), o condado de Coimbra e os efémeros condados de Bragança, Chaves, Santarém e Viseu, de que há muito pouca informação. Num relato da consagração da catedral de Santiago de Compostela, em 899, são referidas as presenças de Hermenegildo Guterres, conde de Portugal e de Tui, Árias Mendes, seu filho, conde de Coimbra, Paio, conde de Bragança e Oduário, conde de Chaves e de Viseu. Noutro
Estátua de Vímara Peres no Porto
relato, relativo a um concílio real realizado em Oviedo, em 907, são referidas as presenças de Ermenegildo, conde de Portuscale e Tude (Tui), Árias (Aires), conde de Eminium (Coimbra) e Pelágio (Paio), conde de Bregancia (Bragança). Em 868 AD, após tomar o Porto aos mouros, o cavaleiro galego Vímara Peres foi nomeado, pelo rei Afonso III das Astúrias, conde de Portugal. Após a sua morte, em 873, sucedeu-lhe outro cavaleiro galego, Hermenegildo (ou Mendo ou Hermígio) Guterres, membro da cúria régia de Afonso III. Lucídio Vimaranes, filho de Vímara Peres, não herdou de seu pai o condado, mas casou com uma filha de Hermenegildo Guterres e sucedeu-lhe como conde de Portugal. Lucídio
residiu em Guimarães, que se tornou a residência condal, e morreu em 926 sem filhos. Sucedeu a Lucídio Vimaranes o conde galego Hermenegildo Gonçalves, casado com Mumadona (dona Muma) Dias (c. 926 a 968) descendente de Vímara Peres. O filho de Hermenegildo e Mumadona, Gonçalo Mendes, herdou o condado em 950 e transmitiu-o, em 999, a seu filho Mendo Gonçalves que não deixou filhos. O conde seguinte foi Alvito Nunes (1008), também descendente de Vímara Peres, que transmitiu (1018) o condado ao filho Nuno Alvites que, por sua vez, o deixou ao filho Mendo Nunes (1028 a 1050). O filho deste último, Nuno Mendes (1050 a 1071), morreu em batalha (Pedroso, perto de
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O dealbar de Portugal
Braga) contra o seu soberano, o rei Garcia da Galiza, que extinguiu o condado de Portugal e assumiu o título de rei de Portugal e da Galiza.
2. Voltando um pouco atrás: em 925, após a morte do rei Fruela II, o trono de Leão foi disputado pelo seu filho Afonso Froilaz e pelos seus sobrinhos Afonso, Sancho e Ramiro, filhos do rei Ordonho II, irmão e predecessor de Fruela. Tendo os três irmãos vencido a disputa, Afonso tomou para si o reino de Leão como Imperator totiius Hispaniae e concedeu aos seus irmãos os títulos de rei da Galiza (Sancho) e rei de Portugal (Ramiro). O rei Ramiro reinou num Portugal alargado como soberano dos condes de Portugal (Hermenegildo Gonçalves) e de Coimbra (Árias Mendes e Gonçalo Moniz). A corte do rei Ramiro foi em Viseu, entre 926 e 931, após o que se tornou o rei Ramiro II de Leão (incluindo a Galiza e Portugal). Os historiadores não dão importância a este breve reino que, no entanto, se tornou um precedente histórico.
3. O conde de Portugal, Hermenegildo Guterres (n. c. 842, f. depois de 912), tomou Coimbra aos mouros em 878 e foi nomeado seu conde pelo rei Afonso III das Astúrias. A lenda diz que o conde terá liderado os portugueses contra os mouros na célebre batalha do Rio Tinto em 920. O condado de Coimbra abrangia toda a região entre o Douro e o Mondego. O filho de Hermenegildo, Árias Mendes, parece ter assumido o título de conde de Coimbra antes da morte do pai (cf. documentos atrás referidos). Em 928, o condado é herdado por Gonçalo Moniz, sobrinho-neto de Árias. Em 983, o condado é herdado pelo filho Munio Gonçalves a quem sucede (990) o irmão Froila Gonçalves. O último conde desta linhagem é Mendo Luz (1017 a 1031), primo de Munio e de Froila.
4. Após um avanço dos mouros até ao Douro (Coimbra foi conquistada pelo rei mouro Almançor, em 987), o rei de Leão, Fernando I o Magno, reconquistou Lamego em 1057, Viseu em 1058 e Coimbra em 1064. O rei Fernando nomeou, ainda em 1064, o cavaleiro moçárabe
Sisnando Davides conde de Coimbra. Sisnando casou com Loba Nunes, filha de Nuno Mendes, o último conde de Portugal da linhagem de Vimara Peres, de quem teve uma filha Elvira Sisnandes. A Sisnando sucedeu o seu genro Martim Moniz de Riba Douro, que foi o último conde de Coimbra (1091 a 1093). Sisnando (ou Sesnando ou Sesinando) Davides (ou Davidiz) foi um moçárabe, natural de Tentúgal, que faleceu em Coimbra em 1091. Estudou em Córdova, combateu no exército de Rodrigo Dias de Bivar (Cid el Campeador) e foi vizir do rei al-Mutadid de Sevilha. Posteriormente, foi conselheiro do rei Fernando I o Magno de Leão e Castela na campanha de reconquista do território do condado de Coimbra, Lamego (1057), Viseu (1058) e Coimbra (1064), após meio século nas mãos dos mouros. O rei Fernando I nomeou Sisnando, ainda em 1064, conde de Coimbra, com a governação de todo o território Cristão a Sul do Douro. Foi conde de Coimbra até à sua morte em 1091. Sisnando, um hábil dirigente e estratega, foi um defensor da cultura moçárabe (nome dado aos Cristãos que viviam sob o domínio muçulmano): i) criou um Estudo na Sé, com dois tratados sobre astrolábios e vários outros livros, entre eles, a “Cidade de Deus” de Santo Agostinho; ii) impôs a regra de Santo Agostinho nos conventos e o rito moçárabe nas igrejas. Entre os homens de confiança de Sisnando, destacam-se os nomes moçárabes: Cide Frederiz, Martinus ibn Atomad, Maruane Mendes; João Sarracinis, Abulfadal, Randulfo Soleimanis, Manferrichi ibn Azaqui etc. Após a morte de Sisnando, a cultura moçárabe foi progressivamente esmagada pela cultura Cristã asturiana com muita influência francesa, que imperava a Norte do Douro, onde estavam em vigor a regra de São Bento (regula Benedicti) e o rito franco-cluniacense. O conde D. Henrique, que sucedeu a Sisnando, foi um dos responsáveis pela adopção, em Leão e Castela, dos ritos religiosos franceses. Nessa época, a cultura moçárabe, influenciada pela cultura árabe, era mais avançada do que a cultura asturiana que a esmagou. De acordo com o historiador José Mattoso (Naqueles Tempos), no princípio do séc. XIII, as bibliotecas de Santa Cruz, em Coimbra, e de São Vicente de Fora, em
Lisboa, possuíam obras de Astronomia, Medicina, Geometria, Aritmética e Ciências Naturais. No final do século, as referidas bibliotecas já se centravam em obras sobre matérias religiosa e jurídicas. O médico lisboeta Pedro Hispano (1205-1277), que veio a ser o Papa João XXI, começou os seus estudos na escola episcopal da Catedral de Lisboa no princípio do séc. XIII. Pedro Hispano, que escreveu livros de Medicina, lidos em toda a Europa Ocidental, e livros de Filosofia, é um produto da escola cultural moçárabe.
5. Em 1093, o rei Afonso VI de Leão nomeou o seu genro Raimundo de Borgonha conde da Galiza, com inclusão dos condados de Portugal e de Coimbra. Nesse mesmo ano, Afonso VI conquistou aos mouros Santarém, Sintra e Lisboa que integrou num condado de Santarém, que deu a Soeiro Mendes da Maia. Em 1096, o rei Afonso VI ressuscitou o condado portucalense, anexando-lhe os condados de Bragança, Coimbra e Santarém e as terras de entre Lima e Minho, ao nomear o seu genro Henrique de Borgonha conde soberano de Portugal. É curiosa a adesão dos senhores de Bragança a Portugal, uma vez que tinham muitas afinidades com as Astúrias/Leão. O conde Dom Henrique, apesar de bom militar, perdeu Santarém para os mouros (1111) e deixou um Portugal até ao Mondego à regência (1114-1128) da condessa Dona Teresa, filha natural de Afonso VI. A condessa Dona Teresa, que se uniu sucessivamente ao cavaleiro Bermudo Peres de Trava e ao seu irmão mais velho, o conde Fernão Peres de Trava, da poderosa família galega de Trava, aspirava a ser rainha de uma Galiza alargada (incluindo Portugal), para o que procurou o apoio da nobreza galega. As famílias mais importantes do condado (senhores do Sousa, de Bragança, da Maia, de Riba Douro, de Baião etc.) começaram a ser excluídas do governo de Portugal e subalternizadas pelos nobres galegos. Em 1125, os membros das referidas famílias, com excepção dos senhores de Baião, abandonaram a corte condal. Entretanto, o “governo” da fronteira com os mouros foi entregue a Fernão Peres de Trava (Coimbra) e a Bermudo Peres de Trava (Viseu).
O dealbar de Portugal
Paralelamente a este conflito, decorria outro conflito na esfera religiosa. Diego Gelmirez, arcebispo de Santiago de Compostela, aliado da família de Trava, montou uma estratégia de assédio ao arcebispado de Braga que passou pela “captura” da jurisdição sobre dioceses portuguesas e teve como auge um assalto armado à Sé de Braga de onde roubou as relíquias sagradas aí guardadas. As acções de Diego Gelmirez colocaram o arcebispo de Braga, Dom Paio Mendes da Maia, na liderança das famílias portuguesas descontentes com a governação da condessa dona Teresa e com o partido galego. Note-se que o bispo do Porto (1113 a 1136), o francês Dom Hugo, era um antigo arcediago de Santiago de Compostela, amigo e aliado de Diego Gelmirez. O bispo de Coimbra, Dom Gonçalo Pais de Paiva, nomeado pelo conde Dom Henrique, dependia do arcebispo de Toledo.
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Castelo de Guimarães
6. O jovem D. Afonso Henriques, herdeiro do condado, também excluído da governação, tornou-se o líder natural dos descontentes. No início de 1128, o arcebispo de Braga, o aio de Dom Afonso Henriques, Egas Moniz de Ribadouro e outros senhores, começaram a percorrer o território do entre Douro e Minho congregando uma hoste para enfrentar os partidários da condessa e colocar o governo do condado nas mãos de Dom Afonso Henriques que, com 19 anos, já podia ser, legalmente, conde de Portugal. Em Junho de 1128, no lugar de São Mamede, perto do castelo de Guimarães, deu-se o confronto entre os partidários de Dom Afonso Henriques, que incluíam o célebre Gonçalo Mendes da Maia (o Lidador) e os irmãos Soeiro Mendes de Sousa (o Grosso) e Gonçalo Mendes de Sousa, e os partidários da condessa, liderados por Fernão Peres de Trava, que incluíam fidalgos galegos e cavaleiros de Coimbra e de Viseu. Na sequência da vitória de São Mamede, Dom Afonso Henriques tornou-se o conde de um Portugal alargado entre o Minho e o Mondego que ele se encarregou de expandir para Sul. Os senhorios de Astorga, Ávila, Toro, Zamora e outros, na posse da condessa, foram usados pelos leoneses para garantir a vassalagem de
A península Ibérica em meados do séc. XII
Dom Afonso Henriques, como conde e depois como rei, ao rei de Leão. Em 1139, após a batalha de Ourique, foi aclamado rei pelos seus vassalos. O título de rei foi reconhecido por Afonso VII de Leão, na qualidade de Imperador das Espanhas, e consagrado no tratado de Zamora (1143), em troca de vassalagem garantida pelos senhorios que atrás referimos. Complicadas manobras diplomáticas, que começaram em 1144 com o pagamento de um censo anual de quatro onças de ouro ao Papa Lúcio II, terminaram em 1179 quando o Papa Alexandre III, na bula “Manifestis Probatum”, reconheceu o título de rei vassalo da Santa Sé a Dom Afonso Henri-
ques. Terminou assim a vassalagem ao Imperador das Espanhas, facto que Castela e Leão tiveram muita dificuldade em aceitar. O rei de Castela e Leão Afonso VII morreu em 1157 e deixou o reino de Leão ao seu filho Fernando II e o reino de Castela ao seu filho Sancho III. Os dois irmãos assinaram, em 1158, um pacto – o pacto de Sahágun – onde se comprometeram a manter uma frente unida contra Portugal e onde o actual Alentejo e Algarve eram considerados áreas da futura reconquista leonesa, de acordo com as fronteiras dos antigos reinos Suevo e Visigodo de que Portugal e Leão eram sucessores. Trata-se de uma orientação geoestratégica que veio a ser seguida pelo reino de Leão enquanto independente.
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Operação Viriato Angola 1961
Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957
Operação Viriato Angola 1961
N
o número 210 da ZacatraZ, de Janeiro/ Março de 2018, apresentámos o artigo intitulado «Ciclo de Camaradagem», de autoria de Manuel Júlio Matias Barão da Cunha (150/1948), em que este nos descreveu o que foi o movimento de solidariedade que se gerou em torno de Ruben de Almeida Mendes Domingues (196/1948), vitima dos incêndios do dia 15 de Outubro de 2017, que destruíram completamente a sua grande casa de família situada na Serra do Açor, na Portela da Cerdeira, freguesia de Coja, concelho de Arganil, deixando-o despojado de todos os seus bens, nomeadamente dos relacionados com a sua carreira militar, que eram para si dos que tinham maior valor estimativo. O movimento de solidariedade descrito teve como resultado a «reconstrução da identidade militar» de Ruben Domingues, através da entrega ao mesmo de uma réplica do
Ruben de Almeida Mendes Domingues (196/1948)
seu diploma de curso do Colégio Militar, de uma réplica da sua carta de curso da Academia Militar, de um sabre de Oficial de Cavalaria e da imposição da medalha militar da Cruz de Guerra, que lhe fora concedida na sua comissão de serviço em Angola , no início da guerra do Ultramar. A leitura daquele artigo trouxe-me à memória a famosa «Operação Viriato», desenrolada em Angola em 1961, pelo facto de os dois Antigos Alunos anteriormente referidos terem tido importante participação na mesma. A «Operação Viriato» já foi do antecedente por mim recordada na ZacatraZ, no artigo intitulado «Nambuangongo 1961», em que recordei e homenageei o Antigo Aluno, já falecido, José Júlio da Silva de Santana Pereira (8/1949), que no final do dia 9/8/1961, integrando o escalão de vanguarda do Batalhão de Caçadores 96, retomou Nambuangongo, no Noroeste de Angola, que estava em posse dos guerrilheiros da União dos Povos de Angola (UPA) desde os massacres de 15/3/1961. Como tive oportunidade de indicar no artigo referido, tomaram parte na «Operação Viriato» três colunas, que convergiram sobre Nambuangongo. As colunas eram formadas pelo Batalhão de Caçadores 96, que partiu de Stª Eulália, o Batalhão de Caçadores 114, que partiu de Luanda, e o Esquadrão de Cavalaria 149, que partiu do Ambriz. Os caminhos a percorrer pelas diferentes colunas tinham extensões diferentes e as dificuldades encontradas na progressão, impostas pelo terreno e levantadas pelo inimigo, foram naturalmente tam-
bém diferentes. Os itinerários das três colunas podem ser observados na figura que se apresenta. Ruben Domingues e Manuel Barão da Cunha integraram a coluna que partiu de Ambriz e que acabou por chegar a Nambuangongo meio dia mais tarde do que a coluna de Santana Pereira. Ruben Domingues comandava um dos pelotões do Esquadrão de Cavalaria 149, Barão da Cunha comandava um pelotão do Esquadrão de Dragões de Angola, que actuava como reforço do Esquadrão de Cavalaria 149. O itinerário a percorrer pela coluna destes dois Antigos Alunos era resumidamente o seguinte: Ambriz, Cavunga, Quimbumbe, Bela Vista, Zala, Nambuangongo. Era o itinerário mais ao Norte dos três itinerários convergentes sobre o objectivo. A partida para a operação deu-se às 4H00 do dia 27/7/1961. Desde o início da operação a progres-
Manuel Júlio Matias Barão da Cunha (150/1948)
Operação Viriato Angola 1961
Operação Viriato. Itinerários de progressão
são da coluna foi extremamente dificultada pelos obstáculos que o inimigo tinha disposto, em enorme profusão, ao longo do percurso, nomeadamente árvores cortadas e empilhadas até às quatro e às cinco sobre a picada, enormes embondeiros derrubados e atravessados na picada, grandes valas a cortar a picada e pontes e pontões destruídos. A remoção das árvores, o contornar das valas, entrando pela mata dentro, e a reconstrução de pontões, ou a procura e preparação de passagens a vau alternativas, exigiam um esforço enorme do pessoal e tornavam a progressão lentíssima. Por outro lado, as imobilizações repetidas da coluna para superar estes obstáculos, tornavam-na alvo fácil para as flagelações do inimigo emboscado nas matas ao longo das quais se desenvolvia a picada. Em qualquer paragem, tinha de ser montado de imediato um dispositivo de segurança da coluna. Em resultado da situação sumariamente descrita, a 3/8/1961, oitavo dia da operação, tinham-se percorrido 600 quilómetros e superado 98 obstáculos. Ao décimo primeiro dia da operação a coluna chega a Zala, com 712 quilómetros percorridos, 106 obstáculos superados e 23 baixas (1 morto e 22 feridos). Em Zala procedeu-se de imediato à construção de uma pista de aviação improvisada, onde a 8/8/1961 aterra uma avioneta, onde vem o comandante do 1º esquadrão dos Dragões de Angola, que incentiva o pessoal da coluna a pro-
gredir com rapidez sobre Nambuangongo, que já estava relativamente próximo. A coluna arranca de novo e às 9H25, de 10/8/1961, décimo quinto dia da operação, entra em Nambuangongo, tendo percorrido 754 quilómetros, superado 182 obstáculos e tendo tido, para além de várias flagelações do inimigo, 12 acções de combate. No dia seguinte, 11/8/1961, uma parte da coluna (o pelotão de Dragões reforçado por um pelotão do Esquadrão de Cavalaria 149, um pelotão de Infantaria, uma secção de Artilharia e uma secção de Engenharia) parte de novo, agora em direcção
Vista aérea de Nambuangongo.
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a Quipedro, onde chega a 15/8/1961, com um total de 857 quilómetros percorridos, 14 acções de combate e 205 obstáculos superados. Em Quipedro eram aguardados pelas forças paraquedistas, lançadas em paraquedas sobre esta zona, naquela que foi a primeira operação com largada de paraquedistas na guerra do Ultramar. A 20/8/1961, os paraquedistas deixam Quipedro, permanecendo ainda aí a força do Exército, em operações na zona, durante mais cinco dias. Começa então o regresso. A força que regressa de Quipedro chega de volta a Nambuangongo a 29/8/1961. Daí, com o itinerário livre do inimigo e limpo de obstáculos, dirige-se ao ponto de partida, a Ambriz. Passa por Quimbumbe a 30/8/1961 e chega ao Ambriz a 31/8/1961. Foram 36 dias contínuos de operações, cerca de 1400 quilómetros percorridos, metade deles nas condições dificílimas anteriormente descritas, havendo a registar no final 3 mortos e 38 feridos. O seu sacrifício não foi em vão, tinha-se reposto a autoridade numa vasta zona do Noroeste de Angola, tinha-se reocupado Nambuangongo, que o inimigo considerava ser o seu reduto inexpugnável. Foi este pois o cenário no início da guerra vivido por Ruben Domingues e Barão da Cunha, no qual tiveram papel de grande relevo, no comando dos seus pelotões. Hoje vivem um merecido repouso, recordam o seu passado como briosos militares e têm orgulho nas Cruzes de Guerra com que foram agraciados. Bem hajam.
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A Importância da Tradição
Manuel Velhinho Pereira Nobre de Carvalho 248/1952
A Importância da Tradição
O
Menino da Luz aprende desde a primeira hora a importância das tradições colegiais cujas origens provêm do passado brumoso, transmitidas pelo exemplo dos mais velhos que as honram escrupulosamente, incentivando os “Ratas” a imitá-los e a passar, mais tarde, eles próprios, o testemunho. Inicialmente, algumas parecem-lhe ridículas na sua aparente simplicidade, quiçá incompreensíveis. Todavia, as tradições são securizantes, instilam em nós um sentimento de pertença a um Corpo de Alunos, a um Batalhão Colegial possuidor de um espírito único e a uma instituição perene que nos transcende. Imaginamos os nossos antecessores, em muitos casos os próprios Pais ou avoengos a efectuar os mesmos gestos quando frequentavam o Colégio e sentimo-nos seus fiéis continuadores. Dos Idos de 1952/57 o autor recorda, saudoso, a palmada na parede ao descer a escada do refeitório, o “PG” em uníssono quando se quebrava uma peça de loiça durante a refeição, a luta libertadora do “1º de Dezembro” nos claustros evocando a gloriosa restauração da Independência Nacional, seguida da defenestração do traidor Miguel de Vasconcelos, o “Spelly King” nocturno, inspirado num ritual tribal, a assinalar o fim do ano lectivo e o início das apetecidas férias grandes, as canções em português vernáculo entoadas em unísso-
no nas duras marchas dos exercícios de infantaria, o ritmo cardíaco sintonizado pelo rufar da caixa de guerra, o capote colegial surgindo ao dealbar do dia misteriosamente envergado na cruz encimando a cúpula, rematado por uma barretina devidamente selada e incrustada no pára-raios, os parabéns colectivos aos aniversariantes, consubstanciados no vigoroso “Ramalho”, a “requisição” da “bolama” aos felizardos que regressavam de licença, ensinando a ser solidário com os desfavorecidos asilantes, o passo em frente na formatura, assumindo galhardamente a responsabilidade pelos actos por si praticados, pronto a enfrentar as inevitáveis consequências.
Patrulhando uma muíla do rio Zaire, Angola 1962/64
É claro que nem todas as tradições perduram, face à evolução dos costumes na sociedade, quer por se ter deixado de lhes reconhecer características formativas quer por terem perdido significado. Por outro lado, algumas conquistam um lugar na regulamentação militar, como a continência, por exemplo, talvez proveniente do gesto do Cavaleiro de antanho, ao baixar a viseira do capacete para se dar a conhecer antes do torneio. Concluído o 7º ano do Colégio, o ex-aluno que hoje vos fala, decidiu abraçar a carreira militar, assentou praça primeiro no Exército durante um ano, seguindo depois para a Escola Naval, onde frequentou o curso da
A Importância da Tradição
A Lancha de Filcalização “Rigel” em patrulha no rio Zaire, Angola, 1962/64
Elementos da Guarnição da Lancha de Fiscalização “Rigel” transportando para bordo uma peça de caça abatida na margem Sul do rio Zaire, Angola, 1962/64.
classe de Marinha, por este habilitar para o comando de navios. A propósito, a Marinha comemorou este ano 700 anos de existência, com a nomeação do primeiro Almirante pelo Rei D. Dinis, com a missão de organizar a Marinha portuguesa.
Também a bordo dos navios de guerra perduram tradições criadas durante as laboriosas fadigas ao sulcar os sete mares. Umas, alegres, como a “Passagem da linha”, onde se presta a homenagem a Neptuno, o Rei dos Mares, outras, mais sérias, sempre plenas de
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significado. Talvez o ritual mais marcante seja a cerimónia do arriar da Bandeira Nacional, realizada à hora do pôr do sol, instante astronómico calculado escrupulosamente pelo Oficial Encarregado da Navegação. Este momento, quando as circunstâncias de tempo e mar permitem avistar claramente o astro-rei a rasar o horizonte, é aproveitado para marcar o azimute no ocaso, definindo a direção do Oeste verdadeiro e obtendo assim, por comparação, o desvio da agulha. Estando o navio atracado ou fundeado, em qualquer parte do mundo, o cerimonial assume maior relêvo, realizado na tolda com honras militares, perante os marinheiros perfilados. Executado ao som estridente dos apitos da Ordenança pelo Mestre do navio, lembra à guarnição mais um dia de dever cumprido, frequentemente em circunstâncias penosas, com vento tempestuoso e mar alteroso, amiúde bem, cada um recordando também, emocionado, os entes queridos que ali deixou e o aguardam no jardim à beira-mar plantado. A imagem do glorioso Símbolo verde-rubro a drapejar em fundo azul fica indelevelmente gravada na mente e suscita um forte sentimento de pertença a algo que nos transcende como indivíduos, traduzido nas palavras singelas bem salientes, em letras douradas, na roda do leme de cada navio de guerra: “A Pátria Honrae que a Pátria vos Contempla”. Um dia, em 1962, Segundo-Tenente, com 21 anos, o autor comandava em Angola a Lancha de Fiscalização “Rigel” em patrulha no caudaloso Rio Congo, entre Santo António do Zaire (hoje, Soyo), na foz e Nóqui, mais a montante. Mais tarde teria a honra de comandar mais dois navios, o Draga-Minas “Lagoa” e a Corveta “Augusto Castilho”. A Lancha, dotada de uma guarnição de 1 Oficial, 1 Sargento e 5 Praças, construída na Alemanha, com cerca de 30 toneladas de deslocamento, 27 m de comprimento, cerca de 5 m de boca e 3,5 m de calado, dispunha de um radar, dois potentes motores “Cummings”, estava armada com uma metralhadora pesada “Oerlikon” à proa, duas metralhadoras ligeiras “MG-42” em cada bordo e outro arma-
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A Importância da Tradição
Jangadas com víveres da população ribeirinha, sendo ajudadas a subir o rio Zaire, Angola, através de reboque passado pela Lancha de Fiscalização “Rigel”, 1962/64.
mento ligeiro. Integrada na Esquadrilha de Lanchas do Zaire, tinha por missão patrulhar o rio, quase sempre com Fuzileiros embarcados e dispondo de botes com motor fora de borda, por forma a interceptar cambanças do inimigo proveniente de bases no vizinho Congo. Efectuava também o transporte de pessoal e material, nomeadamente correio e alimentos, para o Batalhão do Exército em Nóqui e para os postos ribeirinhos estabelecidos pelos Fuzileiros, escoltava palhabotes carregando munições, apoiava a população rebocando para montante jangadas com víveres, poupando aos nativos o esforço de remar contra a corrente, inspecionava embarcações de pesca ao largo da costa, identificando os elementos das tripulações. O rio Zaire, havia sido percorrido pelos navios comandados por Diogo Cão, à vela, a remos e à sirga até às Pedras do Ielala, onde existe uma gravação na rocha que se julga atestar o feito. A forte corrente no canal principal, internacional, sempre em direcção à foz, alcançava na época das chuvas 12 nós, cerca de 20 Km/hora, porém, curiosamente, junto à margem esquerda, corria com menor intensidade e por vezes no sentido da nascente. Muitos pedaços de terra com vege-
tação, arrancados das margens pela erosão, deslizavam rio abaixo. De noite, estas ilhas flutuantes eram detectadas pelo radar, exigindo atenção do operador para discernir outros movimentos. No sector do rio mais a juzante, entre Santo António do Zaire e a Pedra do Feitiço, a margem esquerda era baixa e irrigada por inúmeros canais, as muílas, por entre vegetação cerrada, território frequentado por inúmeros animais selvagens, principalmente gazelas e pacaças. Permanecendo no rio por períodos de quinze dias, sem dispôr de frigorífico, com alguma frequência o Comandante abicava à margem, amarrava o navio a um tronco de árvore e desembarcava de madrugada acompanhado de algumas praças, dedicando-se à actividade cinegética para obter um reforço de proteína para o rancho. Um dos marinheiros artilheiros tinha sido magarefe na vida civil e encarregava-se de trinchar as peças. A zona do rio mais a montante, entre a Pedra do Feitiço e Nóqui, era mais estreita e o caudal fluía entre vertentes montanhosas, escarpadas, afectado por inúmeros remoínhos, verdadeiros vórtices, que faziam adornar fortemente a Lancha quando se navegava sobre eles. Em noites de trovoada, via-se como se
fosse dia claro, tal era o brilho dos sucessivos clarões provocados pelos raios que rasgavam o negrume desabando fragorosamente sobre os picos montanhosos. No final do primeiro dia de patrulha no Zaire, o autor resolveu fundear bem junto à densa floresta da margem esquerda, no troço de planície, com o radar em operação, por forma a varrer uma área fluvial sensível durante parte da noite. Aproximava-se a hora do pôr do sol, os vorazes mosquitos começavam a cobrar o seu imposto de sangue mas em compensação o calor dava mostras de querer abrandar e o Comandante começou a pensar na tradicional cerimónia do arriar da Bandeira Nacional, em que o pessoal formado na tolda constituiria um alvo fácil para qualquer elemento inimigo eventualmente emboscado na margem. Analisou os prós e contras da situação: por um lado, cumprir a tradição, agradava-lhe sobremaneira e contribuiria para exaltar o sentimento patriótico, por outro, poderia haver elementos inimigos emboscados, prontos a afinar a pontaria, aproveitando a ostensiva exposição dos militares. No entanto, o intenso chilrear da passarada na densa vegetação e um par de hipopótamos banhando-se a escassos metros da popa indiciavam a ausência de presenca humana indesejável no local. Pelo sim pelo não, o Comandante mandou guarnecer a metralhadora ligeira no bordo de terra. Entretanto, as suas locubrações foram interrompidas pela voz do Mestre do navio, que já se encontrava formado na tolda com duas Praças: fazendo a continência, pediu autorização para iniciar a cerimónia do Arriar da Bandeira Nacional. Na ausência de ordem em contrário, a guarnição seguia, naturalmente, mais uma vez, os ditames da tradição.
AAACM, que futuro?
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Luis Miguel Guerreiro Félix António 302/1972
AAACM, que futuro?
N
ada como um final de tarde de uma fria e chuvosa 6.ª feira, por sinal a primeira da Primavera de 2018, para uma inspiração que, eventualmente, possa ter efeitos controversos. As reuniões das Assembleias Gerais têm destas coisas…e eu não desgosto, de todo, de uma boa polémica. Saí do teatro Dom Luís Filipe, o nosso antigo cinema, no Quartel da Formação, a pensar no futuro da Associação, hoje composta por cerca de 2 mil associados (cerca de metade dos Antigos Alunos vivos?), dos quais pouco mais ou menos metade pagam quotas (5 euros por mês). Temos assim à volta de ¼ dos Antigos Alunos minimamente envolvidos na Associação, não sei se são muitos ou se são poucos, quando comparado com organizações similares. Mas é o que é. Números são números. E vim a imaginar (o Martiniano Gonçalves, 97/1958, deu uma boa ajuda com a sua intervenção cuidada e profunda) como a Associação deveria procurar incrementar o seu valor, ampliando o seu espaço de influência e reforçando a sua capacidade de atração junto dos Antigos Alunos por forma a ser o mais representativa possível do universo potencial que abrange. E aqui, do meu ponto de vista, dois caminhos alternativos se poderiam colocar: Prosseguir, mais ou menos nos mesmos moldes, o percurso que vem sendo traçado, designadamente, nos últimos anos, com um foco muito expressivo na relação com a Associação de Pais e com o Colégio, por vezes com, pelo menos aparente, demasiado envolvimento no quadro do seu funcionamento interno, ainda que mantendo as funções tradicionais de uma organização de Antigos Alunos.
Transformar a Associação no Clube dos Antigos Alunos do Colégio Militar, operando um conjunto de modificações, no qual não é despiciendo o afastamento dessa tendência de excessiva intromissão no Colégio. Como devem calcular, do que acima enuncio, coloco-me claramente do lado dos que gostariam (para além de mim, desconheço se mais alguém partilha esta perspetiva) que a Associação evoluísse para um Clube, num formato similar a tantos outros que existem por esse mundo fora e de que dou um exemplo, apenas porque algumas dezenas de Antigos Alunos serão igualmente dele sócios e muitos outros o conhecem: o Clube Militar Naval. É esta a opção que julgo deveria ir sendo refletida pelos Antigos Alunos, não desconhecendo eu que a componente financeira, que condicionará o seu aprofundamento, será vertente muito importante a ter em conta. Um clube, com espaço de restauração e bar (o atual restaurante Jardim da Luz?), exclusivo para sócios e seus convidados (no qual, por exemplo, pudesse haver pelo menos uma vez por mês um almoço ou jantar em que seria orador um antigo aluno sobre tema previamente acordado), com sala que pudesse ser usada para conferências/ seminários que tenham que ver com a história do Colégio e dos seus protagonistas e, por outro lado, para abordagem de temas da atualidade tratados por Antigos Alunos. Assuntos não faltam e palestrantes nossos também não, estou certo. Um clube, portanto, virado essencialmente para os Antigos Alunos, que reforça os sentimentos de pertença, que permite nos conheçamos melhor, que induz os laços que nos unem, que contribui
para uma melhor visibilidade de quem somos e por onde andamos. Que prossiga algumas das missões atuais da Associação, nomeadamente, a função de solidariedade, mas que alargue e densifique muitas outras valências. Que mantenha a iniciativa dos Prémios Barretina, mas que a retire da semiclandestinidade a que está remetida, dando a conhecer à sociedade os Antigos Alunos que efetivamente mereçam ser distinguidos, com isso mostrando também a excelência do projeto educativo que permitiu esses percursos de vida assinaláveis. Que seja parco na atribuição do estatuto de sócio honorário a não Antigos Alunos (1 por ano no máximo, por exemplo, como me sugeriu um antigo aluno por quem tenho grande amizade e consideração), fazendo dessa distinção uma verdadeira honra para quem a recebe, em cerimónia pública (em que haja quem faça as honras da casa, falando sobre o mérito do homenageado) e não vulgarizando o que deve ser excecional e extraordinário. Que mantenha a revista, em papel, como relevantíssimo instrumento de comunicação que consubstancia na relação entre os Antigos Alunos. Que promova ativamente a realização de encontros de Antigos Alunos por setores profissionais, por graduações, por número e, claro, que mantenha as romagens de saudade dos cursos. Que mantenha o bom trabalho que vem sendo desenvolvido, nomeadamente, no plano editorial e de registo histórico dos principais marcos que influenciaram a vida do Colégio. Que atualize, modernize e aperfeiçoe a ideia dos fundadores da originária Associação, perfazem-se em outubro próximo 115 anos.
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Curso de 1987/1995 Romagem dos 30 Anos de Entrada
Curso de 1987/1995 Romagem dos 30 Anos de Entrada 9 de Março de 2018
Curso 1987/1995 – 30 Anos de Entrada – 9 de Março de 2018 ©Fotos Leonel Tomaz
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ecorridos trinta anos da entrada no Colégio, o Curso de 1987/1995, voltou à casa que os educou, fazendo-se acompanhar por alguns dos seus graduados e por alguns dos seus professores, que quiseram associar ao acto. Estiveram presentes: Tiago Coutinho de Paiva e Pona (4/1986), Ricardo Alberto de Sousa Ribeiro Rebordão de Brito (8/1987), José João Direito de Morais Guerreiro (10/1987), Nuno António Panaças Vilhena (14/1987), João Carlos Benevenuto Falcão Correia Gonçalves (32/1987), João Paulo da Silva Pinharanda Gonçalves Magalhães (37/1987), Tiago Manuel da Gama Barros (49/1987), Ricardo Dinis Fonseca dos Santos Almeida (76/1987), Miguel Alexandre Trindade de Miranda da Conceição Santos (83/1987), Luís Daniel Fachada Fernandes (91/1987), José Miguel Gregório Quesada Pastor (106/1987), Sérgio Paulo Macedo Alves (108/1987), Gil Duarte Santos Gonçalves de Azevedo (111/1987), Rui Pedro Pinheiro da Fonseca (123/1987), Pedro Ferreira do Amaral
Ribeiro Laia (156/1987), Ricardo Miguel Spencer Salomão de Abreu (161/1987), Rodrigo Filipe dos Reis e Rosa Rodrigues (162/1987), Tiago Simões Baleizão (200/1987), Pedro Queiroz Antão (202/1987), Pedro Miguel Domingues Pires (206/1987), Nelson Manuel Cabral dos Santos (219/1986), Rui Gonçalo Pires Pintado (245/1987), João Pedro Teixeira Vaqueiro (260/1986), Álvaro Manuel Garcez de Carvalho de Oliveira Santos (296/1987), Eduardo Hélder de Almeida Pinto Filipe (319/1987), Luís Manuel Nunes de Matos (324/1987), Luís Miguel Gomes Gonçalves (348/1987), Carlos Jorge Rodrigues Valdrez (354/1987), Ricardo Jorge Brilha Leote (360/1987), Nuno Gabriel Barbosa Amado Lopes da Silva (376/1987), Pedro Alexandre Fernandes da Ponte (386/1987), Jorge Miguel Gomes Gonçalves (387/1987), Nuno Miguel Marques Ferreira (388/1987), João António da Silva Lopes Bordalo Matias (395/1987), Frederico João Pereira Veloso (425/1987), Mauro Filipe Romeiras Dias (467/1986), José Ricardo de Oliveira Pereira (475/1986).
Convidados do Curso: Antigos Alunos, Oficiais e Professores. - Rodrigo Martínez-Sellés d’Oliveira Soares (7/1980), Paulo Jorge Roque Matos (60/1980), António José Sousa Costa Godinho de Carvalho (153/1980), Eugénio de Campos Ferreira Fernandes (180/1980), Major Rui Madureira, Prof. João Moreira, Prof. Carlos Perdigão Silva, Prof. Mário Garcia do Carmo, Prof. João Matos, Escultor João Brito.
Curso de 1971/1978 Romagem dos 40 Anos de Saída
Curso de 1971/1978 Romagem dos 40 Anos de Saída 16 de Março de 2018
Curso 1971/1978 – 40 Anos de Saída – 16 de Março de 2018 ©Fotos Leonel Tomaz
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ecorridos quarenta anos de saída do Colégio, estiveram presentes nesta Romagem de Saudade os seguintes Antigos Alunos: Francisco António Ramalho Ortigão Delgado (16/1971), João Manuel Candeias dos Penedos (19/1971), Francisco Miguel Teixeira de Sousa Ferreira (23/1972), (Eduardo Alberto Vieira de Meireles Corte Real (27/1971), Luís Aurélio Gomes Moreno de Matos Trindade (61/1971), Edmundo José Henriques Melo do Cruzeiro (95/1971), Pedro João Braz da Costa Álvares (96/1971), Paulo Jorge Pereira Gomes (106/1973), Rogério Pedro Rebelo Candoso (128/1971), Diogo Campos Barradas de Lacerda Machado (136/1971), Nuno Miguel Feio Ribeiro Mateus (169/1971), Paulo Manuel Santos Lestro Henriques (200/1973), Rodrigo Manuel de Macedo Pires da Cunha (207/1970), Nuno Miguel Ferreira Esquível Carrilho Ribeiro (246/1971), Nuno José de Melo e Sousa Braga Gonçalves
(257/1971), João Paulo de Almeida Rainha Perry da Câmara (270/1971), Carlos Francisco da Silva do Rio Carvalho (307/1971), Carlos Manuel Fernandes Ferreira (320/1971), António Leopoldo Dinis Monteiro Junqueira Coelho (360/1971), Rui Alexandre da Costa Soares (398/1970), Nuno de Albuquerque Epifânio da Franca (525/1971), Manuel António Ricardo Romão da Costa Braz (550/1971), Paulo Renato Faro Geada (574/1970), João Nuno Santos Trabucho (588/1973), Eugénio da Silva Pedra Viana (590/1971), José Eusébio Pereira Barata Cordeiro de Araújo (591/1973), Carlos Manuel Cardoso dos Santos Belfo (592/1973), José Maria Gouveia de Azevedo e Bourbon (598/1971), António Afonso de Abreu Ferreira (601/1971), António José Lamelas Ahrens Novaes (664/1971), Vítor Manuel Galvão Rocha Novais Gonçalves (666/1971).
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Curso de 1957/1964 Romagem dos 60 Anos de Entrada
Curso de 1957/1964 Romagem dos 60 Anos de Entrada 13 de Abril de 2018
Curso 1957/1964 – 60 Anos de Entrada – 13 de Abril de 2018 ©Fotos Leonel Tomaz
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ara comemorarem os seus 60 anos de entrada no Colégio, reuniram-se, no passado dia 13/4/2018, os Antigos Alunos do curso de entrada de 1957. Estiveram presentes Rui Manuel Campos de Almeida Mota (2/1957), Luís Ernesto Albuquerque Ferreira de Macedo (8/1957), Pedro Manuel de Oliveira Silvério Marques (32/1957), Ângelo Manuel Gerald de Queiroz da Fonseca (38/1957), José Joaquim Cortiço da Costa Braga (41/1957), António dos Santos Castro (63/1956), Fernando Alberto Nunes da Silva Bagulho (64/1957), José António Pina de Bastos e Silva (67/1957), António Luciano Carrilho Roma Torres (114/1957), João Luís da Costa Ruas (118/1959), José Manuel Pinheiro Lopes Canavilhas (119/1956), José Manuel de Lorena Costa Nogueira 125/1957), José Paulo Ferreira Saraiva Cabral (142/1958), José António Saturnino Balula Cid (152/1957),
Joaquim Inácio Passanha Braamcamp Sobral (160/1957), António Manuel Pereira de Figueiredo Cardoso (181/1956), Diogo José Brochado de Abreu (190/1957), João Virgílio Soeiro da Costa (196/1956), Duarte Manuel Silva da Costa Freitas (199/1957), João Paulo de Castro e Silva Bessa (200/1957), Nuno Rodrigo Santos Pereira (216/1958), Fernando Manuel Matos Neves Pessoa (217/1957), Diogo Ferrão de Castelo Branco (225/1957), José Eduardo do Amaral Netto e Aguiar (234/1959), Arnaldo João Reis Maya (242/1957), José Luís Nogueira Tolentino (247/1957), António Manuel Adão da Fonseca (286/1957), João Carlos Lombo da Silva Cordeiro (304/1957), Dúlio José da Silva Pinto e Simas (349/1956), João Manuel da Silveira Malheiro de Távora (364/1957), José Manuel Esteves Carvalho (368/1957), José Fernando Décoppét dos Santos Coelho (379/1957), José Joaquim Martins Romão
(488/1958), Manuel Bernardo Cid de Oliveira Peixeiro (498/1959). Do Antigo Aluno deste curso José Paulo Ferreira Saraiva Cabral (142/1958), entrado para o 2º ano, recebemos a crónica que de seguida apresentamos.
Visita dos sessenta anos de entrada no Colégio Militar Lá fomos em 13 de abril de 2018, uma sexta-feira. O protocolo habitual que inclui uma parte muito agradável que é os antigos serem recebidos pelos sucessores: eu, 142 de 1958, recebido pelo sucessor, 142 de 2016: uma miúda de 11 anos, a Mariana, encantadora, com o nome da minha filha. Fácil começar o tratamento mútuo por tu, respeitando a tradição. As boas vindas no vestíbulo, junto ao busto de Teixeira Rebelo, a rece-
Curso de 1957/1964 Romagem dos 60 Anos de Entrada
ção na biblioteca, a referência aos amigos que foram ficando pelo caminho, a visita ao museu e à sala de armas, a visita às instalações do primeiro ciclo, a assistência ao desfile do batalhão colegial. No primeiro ciclo gritavam miúdos entusiasmados: está aí o 369? Eu sou o 495! O meu sucessor? No desfile, continência à Major, sub-diretora pedagógica, e ao nosso comandante de Batalhão: 1ª companhia, 2ª, 3ª, 4ª companhia, mais de setecentos; nós eramos pouco mais de quinhentos. Novidades: nos pelotões e nos comandos a mistura de juventudes, rapazes e raparigas, e de várias cores; marchar diferente, com passo de ganso em vez do bater com os calcanhares; continência, a dois tempos, mas em vez de terminar com a mão aberta na vertical, a terminar quase na horizontal, como na Armada. Igual: a disciplina temperada de brio, o orgulho de marchar bem. Nos percursos, os olhares dos novos intencionalmente cruzados para os antigos, sucedidos por sonoros “Bom dia!” e, às vezes, um convicto bater de pala, com um compasso. Numa parede, um quadro de azulejos, com data de junho 2000, enumerava princípios de honra do aluno do Colégio: 1º - AMAR E HONRAR A PÁTRIA 2º - DIGNIFICAR A FARDA QUE ENVERGA. 3º - CULTIVAR A DISCIPLINA 4º - DEDICAR À SUA FORMAÇÃO TODO O SEU ESFORÇO E INTELIGÊNCIA
5º - SER VERDADEIRO E LEAL, ASSUMINDO SEMPRE A RESPONSABILIDADE DOS SEUS ACTOS 6º - PRATICAR A CAMARADAGEM SEM DENÚNCIA NEM CUMPLICIDADE 7º - SER MODESTO NO ÊXITO, DIGNO NA ADVERSIDADE E CONFIANTE FACE ÀS DIFICULDADES 8º - SER GENEROSO NA PRÁTICA DO BEM 9º - REPUDIAR A VIOLÊNCIA, A DELAPIDAÇÃO E O DESPOTISMO 10º - SER SEMRE RESPEITADOR, AFÁVEL E CORRECTO Li até ao fim e reli; não me pareceu antiquado nem inoportuno. No refeitório, antes de sentar, os setecentos em silêncio. Oiço o comentário sussurrado do Zé António, atrás de mim: “… esta malta continua perfeitamente disciplinada…” Eram as palavras do que eu estava a pensar: jovens, livres, alegres, mas a respeitarem-se uns aos outros. A saudação do costume, a primeira lançada pelo mais antigo dos alunos: “Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz,….“ respondida por todos, novos e velhos: o ritmo dos antigos mais rápido: “Trás, Trás…” (desculpai o atropelamento da ortografia do “z”, mas soa-me melhor); o dos novos mais lento, “… Trás … Trás…!, mas vigoroso. O som de ambos fortíssimo. “Ala! Ala!” Ao que respondem os velhos: “Riba”; e os novos, sincopado e ondulado: “A-rri-ba”. Se calhar, mais bem pronunciado, porque não engolem o “a”... E, nestes, o “Allez!, Allez!” fica no tinteiro,
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talvez porque a língua francesa vá perdendo o pé por aqui. “Sentar!” Irrompe a barulheira e começa a comezaina. No fim, sai cada mesa com estrépito de ordem unida; os antigos por lá ficam a terminar conversas que não querem acabar, só mudar de sítio. Em suma, um dia bem passado. Muito agradável ter visto a misturada de gentes, miúdos, miúdas, novos, novíssimos e anciãos, caras alegres, uma disciplina de respeito em lugar de temor. A boa sensação de um Colégio que, tal como a tecnologia em relação às leis da física, evoluiu com respeito pelos princípios basilares da convivência humana.
José Paulo Ferreira Saraiva Cabral (142/1958)
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Curso de 1982/1990 Romagem dos 35 Anos de Entrada
Curso de 1982/1990 Romagem dos 35 Anos de Entrada 20 de Abril de 2018
Curso 1982/1990 – 35 Anos de Entrada – 20 de Abril de 2018 ©Fotos Leonel Tomaz
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sta foi uma romagem de saudade especial, pois o «Sub» fazia parte do curso que se reuniu. Admitimos que possa ter havido rancho melhorado. Estiveram presentes: Rui Miguel de Sousa Ribeiro Rebordão de Brito (1/1982), Pedro Miguel Brito da Luz de Castro Neves (11/1982), José Ricardo Nazareth de Carvalho Figueira (17/1981), Jorge Miguel Ferreira Ribeiro Dias de Carvalho (29/1982), João Eduardo Castro e Campos de Brito Subtil (45/1983), Pedro Gonçalo Coelho Nunes de Melo (51/1982), Nuno Miguel Leão de Albuquerque Assunção (78/1983), Miguel Fernando Melo Colaço Robles (81/1981), Rui Nuno Anciães da Silva (101/1982), João Rui Baptista Ferreira (155/1981), Paulo Miguel Leão Monteiro Napoleão Fernandes (211/1982), Nuno Miguel Pereira Domingues de Figueiredo Carvalhosa (230/1982), Vasco Maria Tavela de Sousa Santos Pinhei-
ro (254/1982), Rui Pedro Nabais Nunes Ferreira (300/1982), Cláudio Alexandre dos Santos Pereira (317/1981), Ricardo Jorge Fonseca de Carvalho Fernandes (354/1983), Nelson Manuel Machado Lourenço (377/1982), António Mucharreira Azeredo Lopes (378/1981), Miguel de Oliveira Baptista Geraldes Freire (380/1981), Sérgio Joaquim Raposo Filipe (389/1982), Daniel Jorge Boavida de Bastos Moreira (391/1982), Pedro Miguel Vieira Dias (399/1982), Rui Pedro da Fonseca Cunha e Martins de Almeida (400/1982), Daniel Cabrita Alves Pires (406/1982), Rui Manuel Cabral Cabrita Coelho (407/1982), Nuno Miguel dos Santos Ferreira Lopes (410/1982), Luís Miguel Ferreira Morgado ( 421/1982), José Manuel Barroca Gomes (426/1982), Pedro Miguel Porem Ferreira (430/1982),
Curso de 1980/1988 Romagem dos 30 Anos de Saída
Curso de 1980/1988 Romagem dos 30 Anos de Saída 4 de Maio de 2018
Curso 1982/1990 – 30 Anos de Saída – 4 de Maio de 2018 ©Fotos Leonel Tomaz
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ecorridos 30 anos de saída do Colégio, estiveram presentes nesta romagem de saudade os seguintes Antigos Alunos: Rodrigo Martínez-Sellés d’Oliveira Soares (7/1980), Gonçalo Nuno Queiroz de Sousa dos Santos Leite (21/1980), Paulo Delfim Colaço Tavares de Almeida (24/1980), Carlos Manuel Carqueijeiro Neto Jorge Caramelo (26/1980), Luís Gonçalo Lecoq Vences e Costa Cancela (39/1980), Joaquim António Pessanha de Oliveira Caimoto Duarte (40/1980), Paulo Jorge Roque Matos (60/1980), Jorge Manuel Pereira da Silva (70/1980), António Maria Gonçalves Bivar de Sousa (93/1980), Jorge Miguel de Bastos Soares (122/1980), António José Sousa Costa Godinho de Carvalho (153/1980), Vasco Potier Rodeia (170/1980), Bernardo Manuel d’Almeida e Vasconcelos Diniz de Ayala (171/1980), Pedro Duarte Quartilho Ataíde (196/1980), Filipe Roldão Salvador Tribolet
(199/1980), Nuno Miguel Rosa Pereira Silvestre (203/1980), António Manuel Gardete Mendes Cabaço (205/1980), Pedro Emanuel de Campos Copeto Gomes (208/1980), Artur Ricardo de Matos Sequeira Coelho do Amaral (216/1980), Rui Miguel da Silva Martins Coelho (242/1980), António José da Silva Coutinho (249/1980), Frederico Carlos Neto Jerónimo dos Reis Morais (253/1980), João Miguel Jardim de Abreu Ferreira Pinto (261/1980), Nuno Miguel Baptista da Silva (266/1980), Pedro Manuel Belo Sant’ana (267/1980). Convidados do Curso: Professor de Educação Física António Jorge Afonso Abreu Matos (244/1959) Professor de Matemática Vasco Paulo Lynce de Faria (21/1960)
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Curso de 1990/1998 Romagem dos 20 Anos de Saída
Curso de 1990/1998 Romagem dos 20 Anos de Saída 11 de Maio de 2018
Curso 1990/1998 – 20 Anos de Saída – 11 de Maio de 2018 ©Fotos Leonel Tomaz
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ecorridos 20 anos de saída do Colégio, estiveram presentes nesta romagem de saudade os seguintes Antigos Alunos: Paulo Alexandre Alves Goncalves de Campos (1/1990), César Bruno Teixeira (3/1990), Nuno Miguel Alves e Silva (13/1990), Tiago Costa Freitas Pestana de Vasconcelos (17/1990), António Miguel do Espírito Santo Silva Ribeiro (18/1990), João Pedro Marques Ferreira Nogueira da Fonseca (24/1990), António Pedro Gomes Calado (55/1990), Diogo Costa Freitas Pestana de Vasconcelos (60/1989), João André Oliveira Esteves Vaz Antunes (65/1990), Ricardo Nuno Grade Mendes de Carvalho (73/1990), Nuno Miguel Taipa Leandro Domingues (87/1990), Bernardo Miguel Dias Soares Coelho (99/1990), João Henrique Andrade Cardoso (112/1990), Joel Pedro Bernardino Henriques (124/1990), Gonçalo Casquiço Ricardo (137/1990), Pedro Miguel Costa Santos (155/1990), Abel Alexandre Alves Tavares de Barbosa Mendonça (157/1989), António Manuel Figueiredo de Carvalho (160/1990), Luís Manuel Marques Cóias (190/1990), Bruno Alexandre Vaz Cardoso (204/1990), Telmo Diogo
Cordeiro Filipe (228/1990), Nuno Miguel Alves Mansilha (254/1990), Carlos Jorge Viana Beirão (266/1990), Luís Gonçalo Correia Martins Magalhães de Aguiar (287/1990), Gonçalo José Rosa Inácio Rodrigues (291/1990), Tiago Miguel de Oliveira Dias (435/1990), Convidados do Curso: Professor de Português: Mário Garcia Carmo Professor de História: Amândio Ferraz Basto Cardoso Professor de Inglês: Luis Manuel Saganha da Rosa Funcionário Civil: Afonso Cruz Pinto
Antigos Alunos em Destaque
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Antigos Alunos
em Destaque
Bruno Miguel Fernandes Pires (27/1995) Campeão Nacional de Concurso Completo de Equitação no Chile.
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o quadro do bom relacionamento entre a Guarda Nacional Republicana e os Carabineros de Chile surgiu a oportunidade de enviar um oficial da GNR, pela primeira vez, a terras andinas. O Bruno Pires - Capitão de Cavalaria da Guarda Nacional Republicana - foi o escolhido e frequentou, entre 6 de março e 15 de Dezembro de 2017 o Curso de Instrutores de Equitação de Polícias Montadas, nos Carabineiros do Chile. “Fora do aconchego familiar e longe dos amigos, os primeiros dias foram” – segundo ele – “realmente incríveis onde as surpreses surgiam em catadupa”. A primeira das surpresas foi a língua. Habituado ao castelhano de “nuestros hermanos”, desde as primeiras horas em solo chileno se apercebeu que aquela língua pouco tinha a ver com o castelhano que julgava conhecer: “as palavras
parecia não serem completamente terminadas e o calão era a base das conversas entre dois chilenos”. Passada a surpresa inicial integrou-se com facilidade com os oficias chilenos que iriam ser os seus companheiros de curso. Sendo todos bastante mais novos do que ele, “acabei por ter uma nova oportunidade de ser Tenente ao viver todas as práticas que um curso de equitação proporciona, pese embora a responsabilidade dos galões de Capitão que tinha aos ombros e estar a representar a minha instituição e o meu país. Posso dizer que fiz grandes amigos, firmados nas dificuldades que surgem no momento em que se muda completamente de vida, de um dia para o outro”. O curso decorreu normalmente, com as mais variadas quedas, que obrigatoriamente fazem parte da vida de um cavaleiro, e terminou com a classificação mais elevada.
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Antigos Alunos em Destaque
Diogo de Brito Calado, “Picos” (115/1987) O Código de Honra em Mandarim
(Em discurso directo)
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iver o Colégio Militar na China
A relação do “Picos” com a China iniciou-se no ano 2000, quando começou a estudar Medicina Chinesa, o que o levou em 2002 à necessidade de estudar a língua (Mandarim) e a cultura Chinesa. Em 2006, iniciou a sua prática profissional em diversas clínicas médicas, uma delas do Antigo Aluno José Manuel Magrinho Dias, (414/83), “Mané”, que o apoiou durante os primeiros passos. “Já em 2008, após ter adquirido alguma experiência profissional, decidi realizar um estágio clínico na China e, durante o contacto com os professores Chineses, fui questionado sobre o interesse em fazer um mestrado, algo que inicialmente julguei não ser acessível a um Ocidental. No entanto, após vários convites, comecei a alimentar a ideia”. Com a atribuição da primeira bolsa de estudo do Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa para, durante um ano lectivo, permanecer na China e aprender língua e cultura, iniciou um percurso concluído com um mestrado de 3 anos em medicina integrada em 2015 estando, actualmente, a fazer um doutoramento em medicina interna Chinesa. “Estudar medicina Chinesa na China (em Mandarim), além da parte respeitante à medicina convencional, envolve matérias tão distintas como: história do país e da sua medicina, correntes de pensamento, filosofias e políticas, língua e cultura, literatura e gramática arcaicas, textos médicos antigos, investigação e desenvolvimento contemporâneo, além de muitas outras matérias não disponíveis no Ocidente com a mesma profundidade. Tal permitiu, pouco a pouco, adquirir um conhecimento mais aprofundado sobre a actual sociedade Chinesa, como re-
flexo do seu passado, mas num processo de modernização, sem seguir, necessariamente o mesmo percurso do Ocidente. A diferença cultural verifica-se a vários níveis e é até consistente com os estudos mais recentes sobre neurobiologia sócio-cultural onde, através de estudos de fMRI, se verifica que os Chineses chegam a utilizar partes do cérebro diferentes das nossas (p.e., o lobo direito do cérebro é usado na linguagem, o que não ocorre com os Ocidentais) ou terem um maior desenvolvimento da área responsável pelo auto-controlo. Devido também à sua longa história e ao facto de terem tido quase sempre uma grande população, bem como uma predominância de filosofias ateístas, a sua visão do mundo é muito diferente da Ocidental, o que se reflecte na escolha de valores e ética. Por exemplo: para o mundo Ocidental, de uma forma geral, o bem e o mal são noções bem distintas e contraditórias (assim como todas as ideias associadas, como cores, formas, emoções, etc.), mas o mesmo não é tão claro na China, cujos conceitos são vistos como complementares e, normalmente, como parte de um todo. Já no sentido contrário, noções como moralidade e integridade tendem a misturar-se no Ocidente, ao passo que na China são bem distintas, com uma clara preferência pela integridade, em detrimento da moralidade que é, normalmente, mal aceite pela sociedade. Há ainda o facto de, ao contrário do que se passou no Ocidente, a 1ª e 2ª vagas da revolução industrial não tiveram grande impacto na China, o que combinado com as correntes filosóficas do passado, faz com que vejam o mundo de uma forma mais dinâmica, em constante mutação e cujos fenómenos se interligam, por oposição ao Ocidente, que vê o mundo de uma forma mais estática, padronizada e cujos fenómenos se podem separar do seu contexto.
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Isso torna possível a valorização da capacidade de adaptação às circunstâncias, ao mesmo tempo que se mantém a integridade. Já no Ocidente, a palavra é muito mais solene, o que é motivo de frequentes choques culturais. Curiosamente, alguns dos valores tradicionais Chineses apresentam semelhanças ao nosso Código de Honra, razão pela qual o traduzi para Inglês e Chinês, tendo-o apresentado durante uma conferência sobre a importância da nanotecnologia na actual investigação da medicina Chinesa, no Centro Internacional de Nanopartículas e Nanossistemas de Tianjin (TICNN), uma vez que a profissão de médico está intrinsecamente ligada à ética e valores.” Ao longo deste seu percurso na China ensinou Português e Ciências a alunos do ensino secundário, tem colaborado com empresas a
trabalharem com o mercado chinês, com o Turismo de Portugal na promoção de Portugal como destino turístico. “De uma coisa estou hoje convicto: se não fosse a educação do CM e o sentido que este nos transmite de nos colocarmos ao serviço
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de algo maior, dificilmente teria tido a oportunidade de fazer um doutoramento sob sua orientação. Um Zacatraz, a partir de Tianjin, China!”
Marco António Martinho da Silva (456/1983) Uma figura cada vez mais presente nos mercados, rádio e televisão
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ma cara cuja imagem pública é cada vez mais presente nos mercados, na imprensa, na rádio e na televisão.
Com frequência nos órgãos de comunicação e nas redes sociais, distingue-se, como analista, operacional e comentador, nas áreas dos mercados financeiros (Chicago Mercantile Exchange, Tokyo Stock Exchange, London Stock Exchange, Toronto Stock Exchange, NYSE Market, Wallstreet) e na crítica política de temas de base económica e social. Carreira fulgurante e persistente em área muito difícil e competitiva, alia, em paralelo com a sua vida profissional, uma constante e atenta observação da vida dos Antigos Alunos, publicitando as suas atividades e os seus sucessos, prestando-lhes o seu apoio nas áreas da sua especialidade e da solidariedade.
Em discurso directo: “O meu amor ao Colégio — a casa da minha formação — tem-me levado a fomentar dentro dos Antigos Alunos a partilha pelas experiências de vida dos “nossos”, porque só uma aproximação entre todos nós resultará numa maior aproximação ao Colégio e a um melhor aproveitamento das capacidades profissionais de cada um.” É o mais novo de três Meninos da Luz. “Tive a sorte de apanhar os meus irmãos no CM e um deles foi meu graduado em dois anos seguidos. Chumbei no 4º ano, o melhor que me podia ter acontecido à data, ganhei muita maturidade e fui “adoptado” por mais um curso, os meus “irmãos” de saída, que tinham bastantes camaradas que chumbaram um ano antes.” Entrou no Técnico (I.S.T.) para Engenharia Civil, caminhada que foi interrompida pelo bichinho do empreendedorismo. Nos primórdios da implementação dos telemóveis e na
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Antigos Alunos em Destaque
massificação dos computadores pessoais, viu uma oportunidade que aproveitou desde logo: chegou a vender telemóveis quase porta a porta, mas depressa se estabeleceu com uma empresa de Informática e Telecomunicações, em parceira com um irmão. Seguiu-se o “bicho dos mercados financeiros”, área onde se mantém, tendo começado por comprar e vender acções ao telefone, e acabado a fazer um pouco de tudo em todas as principais praças internacionais nos mais de 20 anos que já leva no mercado. Nos últimos 5 anos tem-se dedicado a transmitir um pouco desse seu conhecimento, com participações irregulares nos principais órgãos de comunicação social; contudo, o que mais prazer lhe
deu foi leccionar o modulo de “ Human Rights, the foundation for a sustainable Capitalism”, inserido na XX Pós Graduação em Direitos Humanos do Centro de Direitos Humanos, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Considera que foi uma oportunidade de ouro para “transmitir o seu conhecimento e experiência sobre como o Capitalismo, quando bem aplicado, é a fundação mais sólida para Direitos Humanos mais reforçados e abrangentes, desde logo porque a independência financeira é uma das bases para evitar os abusos aos Direitos Humanos e igualmente porque as estruturas que sustentam o Capitalismo (judicial, regulação), são as mesmas que garantem o respeito pelos Direitos Humanos”.
Nuno Manuel Soares de Oliveira da Rosa Garoupa (268/1980) Scalia Law Facilty da George Mason University em Arlingtom (Virgínia - USA)
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Nuno Garoupa foi nomeado professor de Direito na Universidade George Mason, Antonin Scalia School of Law onde vai também exercer o cargo de Associate Dean for Research (vice-diretor para a área cientifica). Foi professor na Universidade do Texas A&M (20152018), na Universidade de Illinois (2007-2015), na Universidade Nova de Lisboa (2001-2007) e na Universidade Pompeu Fabra de Barcelona (19982001) e ainda titular da Chair in Research Innovation, Católica Global Law School (desde 2015). Em Portugal, também foi Presidente do Conselho de Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos entre 2014 e 2016, sendo atualmente membro do seu Conselho de Curadores. Doutorado em Economia pela University of York e LLM/Mestre em Direito pela University of London, ambas no Reino Unido, autor de mais de 150 artigos em revistas internacionais na área do Direito & Economia e Direito Comparado, Nuno Garoupa recebeu o pré-
mio espanhol Julián Marías (2010) pelas suas contribuições científicas e uma bolsa de mérito da National Science Foundation (2017) para promover o estudo empírico e comparado dos tribunais constitucionais. Da sua obra académica destaca Judicial Reputation: A Comparative Study (com Tom Ginsburg), Chicago University Press (2015), Legal Origins and the Efficiency Dilemma (com Carlos Gómez Ligüerre e Lela Mélon) Routledge (2017), e em português, O Governo da Justiça, Fundação Francisco Manuel dos Santos (2011).
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Rodrigo Marrecas de Abreu (432/1986) Nutricionista de Atletas de Alta Competição
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utricionista desde 2000, atualmente doutorando em Nutrição, o Rodrigo Abreu tem trabalhado com atletas de alta competição desde 2002, em particular no futebol. Após passagem por 2 clubes da 1ª Liga, integra desde 2015 a Unidade de Saúde e Performance da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), sendo o responsável pela nutrição e alimentação das 22 Seleções que representam Portugal em Futebol, Futsal e Futebol de Praia. Nos passados dias 1 e 2 de março, foi um dos oradores destacados no I Nutrition in Athlete Development Summit, uma conferência que reuniu em Madrid os principais especialistas europeus em Nutrição no Desporto.
“Numa época em que damos tanta atenção à escolha das roupas, brinquedos ou ocupações de tempos livres das crianças, temos de voltar a dedicar alguma atenção à sua alimentação. A conviver à mesa, a ir às compras, a cozinhar. A vida mudou e dificilmente vamos voltar ao “antigamente”, mas precisamos reaprender a comer. Para o bem de todos nós, que como ele, nos sentimos encurralados entre as dificuldades da vida moderna e a vontade de vivermos saudáveis.”
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0 205 de 1882
Jorge Manuel de Morais Kol de Carvalho 79/1958
O 205 de 1882 O
205 de 1882 era de seu nome completo Ângelo Vaz Pinto Azevedo Coutinho de Lima (1872-1921), e frequentou o Colégio entre 1882 e 1888. Ocasionalmente veio ter comigo, quando em 2015, pelo centenário da revista “Orpheu” me solicitaram uma conversa informal sobre a “Ilustração em Orpheu”, assim denominada por quem ma requereu. Para o efeito debrucei-me sobre os dois únicos números da revista, bem como sobre “ 1915 - O ano de Orpheu” edição da Tinta da China, onde diversos autores nos transcrevem sob diversos olhares a revolta contra a tradição artística do país, que então, todos os de Orpheu assumem. Aí descobri que o Ângelo de Lima, o Poeta de Rilhafoles, como ficaria conhecido, no tratamento jocoso da crítica de então, era ex-aluno. Com a ajuda do 71, do Luís Barbosa, a quem aqui agradeço os seus bons préstimos, descobri que era o 205/1882. Orpheu publicava no seu número 2, de Abril Maio - Junho, de 1915, quatro poemas, “Poemas Inéditos- de Ângelo de Lima”.
Na sua rebeldia, leia-se certamente a irreverência que todos nós ex-alunos, por lá cultivámos, e que de onde em onde, pelo menos para alguns de nós, se nos aflora vida fora, com mais ou menos assiduidade e intensidade. Os tempos eram outros, e essa rebeldia não era tolerada como hoje, sobretudo se mais consistente e mais permanente, como foi o caso, vida fora, do 205/1882. Saído do Colégio, frequentou a Academia de Belas Artes, no Porto, onde foi gazeteiro convicto, e que acaba por abandonar para assentar praça. O serviço militar que o desencantou, também não seria a seu jeito, manifestando-se aí, ainda mais, a sua tal irreverência, talvez já com outro afinco, que a idade alimentava e o corpo pedia, como referiria: ... “entre alguma embriaguez que várias vezes tomei, uma delas, me levou a tais distúrbios no quartel depois do silêncio, que sofri por 30 dias prisão correcional”. E os tempos não eram para comportamentos socialmente desajustados. Mas o 205 ia insistindo...
Passou pelo Colégio, como ele próprio refere: ...”apesar de certa rebeldia, um «leal e dedicado bom camarada»”...
Depois de ter já sido preso duas vezes por estar “de cadela”, como aqui se diz popularmen-
te nos Açores, e nos referimos à bebedeira, armou enorme desacato no Theatro de Dona Amelia, como constaria do auto de captura: ...”por estar nas galerias do referido theatro alterando a ordem e proferindo obscenidades em alta voz com offensa da moral publica, taes como porra”... Ao interrogatório judicial de então, responderia: ...“Que é verdade ter proferido em voz alta, no Theatro de Dona Amelia, a palavra obscena, constante do auto de Captura, mas que tal facto não se lhe podia pedir responsabilidade alguma, pois que a palavra não é obscena e não tem culpa alguma que o povo lhe dê tal interpretação. Que da sua opinião são vários letrados, cujos nomes pode indicar, e por isso não tem culpa alguma da falsa interpretação que o vulgo dá à palavra que proferice e não tem mesmo nada com isso.”... Estroina, irreverente não deixa aqui de assumir a sua responsabilidade e verticalmente dar o passo em frente! Com internamento anterior no Porto onde permaneceu quatro anos de 1894 a 1898, portanto com precedente “clínico”, a que também não terá sido estranho o caso do seu pai que morreu no Hospital do Conde de Ferreira no Porto, com uma doença mental, a acusação iria concluir a necessidade de uma avaliação psiquiátrica.
0 205 de 1882
Sabendo que a avaliação psiquiátrica à época estava intimamente ligada à ordem pública, a ficha clínica do 205, elaborada pelo Doutor Miguel Bombarda, Director do Hospital de Rilhafoles, não lhe fugiria. Inquinada de princípios judiciais, ausente de diagnóstico clínico, remetia-o a internamento naquele hospital, para avaliação, onde permaneceria de 1901 até à sua morte em 1921. Por isso Fernando Pessoa, se eventualmente generalizando, considerava os psiquiatras “charlatães”, condicionadores de comportamentos socialmente desajustados, e das suas inovações artísticas. Não obstante, durante aquele longo período de internamento continuaria a desenhar e a escrever, mas sempre naturalmente condicionado e limitado nos seus gestos, tal como Pessoa referia. Consciente da injustiça a que o seu temperamento excêntrico o levou escreveria:
A sua obra poética completa, só viria a ser reconhecida e publicada, mais tarde, depois da sua morte. E até mesmo Almada Negreiros, no quadro que pintou “A leitura de Orpheu 2”, não o menciona na lista de autores aí presente. Termino este meu elogio ao 205/1882 com o final de um dos seus poemas, de Orpheu: ...”- E assim como os Astros Fascinantes Geram Fatas as Horas dos Instantes, - Meu Amor - o Sem Fim - gera a Loucura!” Notas: - Todas as citações in «Estes Versos Antigos Que Eu Dizia”- A tragédia de Ângelo de Lima no contexto do Orpheu, texto de Sofia Narciso de “1915 O Ano de Orpheu”, edições Tinta da China.
©Foto Sérgio Garcia (326/1985)
...”E agora aqui estou, resultado final, sob concorrente exótica - a determinação tão arbitrária dês-
se acobertado com a autoridade legal - resultado final até aqui, dêste viver aqui neste escrito.”... O desaparecimento do Dr. Miguel Bombarda, republicano assumido, assassinado por um doente no Hospital de Rilhafoles, na véspera da implantação da República, em nada alteraria a sua continuada “avaliação psiquiátrica”, que continuaria...sem alteração.
ANTIGO ALUNO USA A BARRETINA
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- O autor escreve desta maneira, desrespeitando o novo acordo ortográfico, porque foi assim que aprendeu com a Dona Maria Ermita, ajudada à época pela sua assistente a “Menina de Cinco Olhos”, modo que o Dias Miguel não contrariou, e tem receio de que se escrever de outra, um dia, quem sabe, se reencontrem e tenha que voltar ao convívio da tal “Menina”, perante a galhofa da malta.
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Histórias e Memórias
Histórias e Memórias O fâmulo Manuel Rodrigues
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embram-se do fâmulo Manuel Rodrigues? Eu também não.
Ao longo da existência de mais de 50 anos da nossa revista, muitas têm sido as vezes em que nas suas páginas são recordados os fâmulos, humildes servidores do Colégio, que tratavam do asseio e limpeza das instalações das nossas companhias e que nos serviam à mesa no refeitório. Eram homens a quem nós tratávamos pelo seu nome próprio, mas sempre com todo o respeito, pois sabiam dar-se ao respeito. A este sentimento, que se estabelecia logo no primeiro dia em que entrávamos no Colégio, ia-se acrescentando ao longo do tempo um sentimento de amizade, que perdurava para toda a vida. Os seus nomes nunca os esquecemos, muitos dos nossos números, os poucos fâmulos ainda vivos, também não os esqueceram. Era uma relação «sui generis», que só os Meninos da Luz que com eles conviveram compreendem. Muito recentemente publicámos artigos que lhes foram dedicados por Martiniano Nunes Gonçalves (9/1958) e por José Maria de Avilez Correia de Sampaio (367/1949). Esses dois artigos fizeram-me vir à memória um episódio passado vai para século e meio, em 1871, quando o Real Colégio Militar se
encontrava pela segunda vez na sua história instalado no Convento de Mafra, que nos é relatado por José Alberto da Costa Matos (96/1950), na sua «História do Colégio Militar», do seguinte modo: «Certo dia, o Comprador do Colégio, perdeu uma nota de dez mil reis que lhe havia sido confiada, o que correspondia a dois meses de salário; é um fâmulo que há dezoito anos serve humildemente o Colégio quem a encontra; bom jeito lhe faria, mas vai de imediato entregá-la aquele que desesperava com a sua perda. Sabedor do acontecido, o director publica em ordem o sucedido e remata: «Senhores alunos: o nobre acto que acabo de vos expor é a síntese eloquente da doutrina exposta no artigo 29º do Regulamento disciplinar do Colégio. Cada homem tem a sua dignidade; ofender-lha, faltar-lhe ao respeito é um acto de má educação e uma negra prova de maus sentimentos. O fâmulo Manuel Rodrigues, no nobre proceder que teve, provou-nos que não é apanágio das classes elevadas a nobreza de carácter. Que este exemplo vos sirva para norma de vida e para saberdes respeitar sempre os mesquinhos da fortuna, que se humilham a todo o trabalho para ganharem com suor honradíssimo o negro pão do seu indispensável sustento.»
A Ordem do Colégio em que foi publicada esta exortação aos Alunos, foi a ordem nº 42, de 22 de Abril de 1871. O Director autor desta exortação foi o Coronel Carlos de Barcellos Machado, que desempenhou estas funções de Outubro de 1870 a Agosto de 1871. Luis Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/57
Histórias e Memórias
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Desfile
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Leitor: se alguma vez, em Lisboa, ouvires vibrando nos espaços, as estridências dos clarins duma tropa que desfile, procura ver de perto esse quadro de rua da cidade. Pode acontecer que seja o batalhão de alunos do Colégio Militar, e então verás que o espectáculo nunca mais se esquece. Há poucos dias, numa destas manhãs de névoas frias que anunciam já a luz suave dos dias primaveris, vi-o descer a Avenida da Liberdade. Os «Meninos da Luz» marchavam com altivez mas sem arrogância, firmes nas atitudes e levando nos olhos aquele lume de
decisão de quem aquece na alma um sonho de ideal. Não havia neles qualquer pretensiosismo de artifício. É que esta palavra – Colégio Militar – tanto os distingue dos homens que fizeram o exercício das responsabilidades e o enfado da existência, como os afasta das aparências de uma infantilidade distraída. À sua volta, gente parada fitava-os com enlevo. E na manhã de Março, enquanto caminhavam Avenida abaixo, os «Meninos da Luz» parecia que levavam, na sombra dos seus passos, as graças e alegrias da Primavera. Esta é uma das expressões da vida do Colégio Militar.»
Este pequeno texto, publicado no número 102, de Maio de 1956, da revista «O Colégio Militar», presumimos que tenha sido extraído da imprensa diária da época. O seu autor foi Luis Teixeira, que desconhecemos se terá sido Antigo Aluno. O texto fala por si, não precisamos de o adjectivar.
tivo que não foi levada a efeito no dia 3 de Março último, deverão ser observadas várias determinações.
Dado ainda haver muitos Antigos Alunos que terão tomado parte neste primeiro desfile, seria bom que algum deles nos pudesse dar o seu testemunho deste acontecimento memorável, que deu origem a uma das tradições colegiais que nos é mais querida.
A Redacção
Foi em 1942
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oi em 1942 que o Batalhão Colegial desfilou, pela primeira vez, pela Avenida da Liberdade até S. Domingos. O desfile que deveria ter ocorrido no dia 3 de Março, acabou por se realizar, por razões que desconhecemos, cerca de dois meses mais tarde. Esta informação consta da Ordem de Serviço nº119, de 29/4/1942, referida no livro «O Colégio Militar através das ordens e livros de correspondência colegiais, 1803-1960», de autoria do Major Balula Cid. Apresenta-se de seguida o texto correspondente. «Informa que, devendo realizar-se no dia 2 de Maio a parte do programa comemora-
Entre elas, o Batalhão Colegial, pelas 10 horas e trinta minutos, deveria seguir para a Praça Marquês de Pombal, transportado em carros eléctricos. Dali desfilaria pela Avenida da Liberdade e Praça D. João da Câmara, daria a volta ao Rossio e entraria na Igreja de S. Domingos, onde assistiria à Missa. Finda esta, o Batalhão desfilaria pelo Rossio e Rua do Ouro até à Praça do Comércio, regressando depois ao Colégio em carros eléctricos.»
A Redacção.
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Histórias e Memórias
Raul de Carvalho Soares (155/1912)
Raul de Carvalho, alistado aos 16 anos
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s 100 anos da Batalha de La Lys (ver nota histórica) trouxeram-nos a recordação da participação de um Antigo Aluno que se notabilizou durante a 1ª Guerra Mundial e mais tarde, nas artes, como actor.
para estudar engenharia. Sempre ligado ao mundo militar participou na revolução de 5 de Dezembro de 1917, que colocou no poder Sidónio Pais, e de seguida ofereceu-se para o CEP onde já tinha um irmão a combater.
De uma entrevista dada, em 1954, na Emissora Nacional a Igrejas Caeiro, a RTP publicou sob a forma de Extracto de Entrevista e sob o título “Perfil dum Artista” alguns dados biográficos de Raul de Carvalho que de seguida se transcrevem.
Na Flandres foi oficial de engenharia e graças à sua juventude foi “apadrinhado” pelo General Gomes da Costa. Após um ataque de artilharia recebeu assistência hospitalar e foi apresentado ao General que, surpreendido com a sua juventude – tinha 16 anos – o colocou no Quartel-General às suas ordens.
“Raul de Carvalho, alistado aos 16 anos Raul de Carvalho (1901-1984) foi aluno do Colégio Militar e, com apenas 16 anos, alistou-se no CEP com o objetivo de seguir para a frente. Após a guerra teve uma carreira de sucesso como ator. Nasceu perto de Idanha-a-Nova e, em 1912, entrou para o Colégio Militar de onde saiu
Após a guerra dedicou-se à carreira de ator com bastante sucesso tanto no teatro como no cinema.” Nota histórica: A madrugada de 9 de Abril de 1918 despertou violenta na Flandres, onde as tropas portuguesas foram esmagadas por uma força
alemã muito superior. A batalha de La Lys ficou marcada pela perda de milhares de homens entre mortos, feridos e prisioneiros. Os alemães chamaram-lhe operação Georgete e o objetivo era romper as linhas aliadas, separar as forças britânicas das francesas e forçar uma mudança estratégica na frente ocidental.
Nota da Redacção: No artigo “La Lys. 9 de Abril de 1918” apresentado nesta revista, a pags 28 a 32, descreve-se o que foi essa batalha.
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Nuno António Bravo Mira Vaz 277/1950
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nas Artes e nas Letras Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa (71/1957) Transportes Aéreos da Índia portuguesa (TAIP). Uma história de sucesso. Instituto Bartolomeu de Gusmão da Sociedade Histórica da Independência de Portugal dos em fazer-nos chegar, por sobre a atmosfera das desgraças, a memória de grandes homens. O trabalho faz parte de um opúsculo intitulado “Asas de Portugal na Índia Portuguesa”, editado pelo Instituto Bartolomeu de Gusmão e apresentado no salão nobre da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no dia 28 de Fevereiro de 2018. Completam o opúsculo os artigos Viagens Aéreas à Índia, de Vasco Callixto e Voo sem regresso, de Vitor Brito.
A
tento como sempre à História de Portugal, Luís Barbosa conta-nos uma história de sucesso a que o destino reservou um triste fim. Por felicidade, vai havendo portugueses como ele, empenha-
A 15 de Agosto de 1947, a União Indiana, joia da coroa do Império britânico, tornou-se independente. Passado pouco tempo, o primeiro ministro Nerhu tornou pública a disposição de anexar os territórios do Estado da Índia Portuguesa: Goa Damão (com os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli) e Diu. E para que não restassem dúvidas acerca da sua determinação, cortou todas as ligações rodoviárias e ferroviárias, bem como as comunicações postais, telegráficas e telefónicas, entre os diversos territórios.
O Governo português reagiu em conformidade, criando “(…) serviços de transporte aéreo, nos moldes de uma empresa civil, integrados organicamente na estrutura do Governo-Geral do Estado da Índia (…)” e melhorando e ampliando as infraestruturas aeronáuticas nos três territórios. Em 1955 estavam criados os Transportes Aéreo da Índia Portuguesa (TAIP), sendo o pessoal navegante e parte do pessoal de apoio em terra fornecido pela Força Aérea Portuguesa. No dia 10 de Agosto de 1955, aterrou em Goa o primeiro de dois quadrimotores Heron, pilotado pelo então major Solano de Almeida, pai do Francisco (188/1951) e do Eduardo (5/1954). Nos anos seguintes a frota foi sucessivamente renovada, passando a operar com aviões Viking em 1956, DC-4 Skymaster em 1957, e finalmente DC-6B Superliner em 1961. Em simultâneo, os TAIP foram estabelecendo ligações internacionais: ainda em Novembro de 1955, passaram a voar diariamente para Karachi; em Janeiro de 1958 inaugurou-se a
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carreira Goa/Aden/Goa, com escala em Karachi e em Fevereiro desse ano iniciou-se a carreira Goa/Lisboa/ Goa; em Junho de 1960 estabeleceu-se a carreira Goa/Lourenço Marques/Goa, com escala na Beira. Registe-se ainda que a TAP inaugurou a carreira Lisboa/ Goa/Lisboa em Julho de 1961. 1961 marcou o fim do Império português na Índia. Face aos indícios de que a União Indiana se preparava para invadir os territórios de Goa, Damão e Diu, a TAP e os TAIP evacuaram para Karachi os familiares dos militares e civis em serviço naqueles territórios. Em 18 de Dezembro, a União Indiana declarou guerra a Portugal e deu início à invasão. Entre outros alvos, bombardeou o aeroporto de Goa, danificando seriamente algumas infraestruturas. Tendo acordado na urgência de dali saírem com os seus aviões, o comandante da TAP Manuel Correia Reis e o tenente-coronel Solano de Almeida dos TAIP inspecionaram a pista e concluíram que, apesar de muito danificada, poderiam descolar desde que fossem removidos alguns destroços. E foi assim, duma pista com setecentos metros disponíveis de extensão e cuja largura não excedia a do trem de aterragem, que descolaram em pela noite com os últimos refugiados civis – um feito notável que atesta a coragem e a capacidade técnica dos dois comandantes. Conforme assinala Luís Barbosa no Epílogo, “(…) Para que obras extraordinárias, como esta aqui descrita, ocorram, são precisos homens e mulheres extraordinários, com grande espírito de missão e grande abnegação, chefiados por um grande líder. Neste caso específico, esse líder teve o nome Austin Goodman Solano de Almeida. O seu nome ficou ligado, de forma indelével, à história de sucesso dos TAIP, em que, muito para além de ser um piloto do mais elevado nível, foi também um planeador de larga visão, um administrador de reconhecido mérito e um chefe, que a todos contagiava com o seu exemplo (…).”
João Manuel Velhinho Pereira Nobre de Carvalho (248/1952) Entre Toiros e Gurus, Todos Somos Um Lisboa, Chiado-editora, 2013
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título remete directamente para o conteúdo do livro, uma peregrinação feita de referências alternadas à «festa brava» e ao universo dos praticantes de Ioga, uma antiga ciência com raízes na Índia, que trata da meditação centrada em Deus. Mais esclarecedor ainda é o subtítulo Todos somos um porque, como o autor sublinha na Introdução, “(…) as diferentes crenças não deveriam separar os seres humanos, catalizando hostilidades, mas sim contribuir para a sua compreensão mútua, pois no Universo, homens, animais, vegetais e demais matéria, todos somos apenas Um (…)”. O enredo gira em torno de dois jovens portugueses que buscam a Verdade a partir de proveniências sociais distintas: António é filho de um campino que serviu como fuzileiro na Guerra de África e aspira a ser, tal como o pai, forcado; os pais de Susana pertencem à classe média, interessam-se pela teosofia e recriminam todas as actividades que provoquem sofrimento desnecessário aos animais. Alunos do mesmo Liceu, Susana e António vão encetar uma reflexão conjunta sobre as grandes religiões, no decurso da qual vão transcender os filtros culturais em que cresceram e apreciar o Mundo sob uma nova luz. Para que possam finalmente descobrir “(…)as verdades que possibilitam a construção de um futuro melhor, quer para os homens, quer para os animais, seus companheiros de jornada (…)”. Ao longo de quase duzentas páginas, o leitor é convidado a visitar as grandes linhas das religiões monoteístas e a identificar o traço de unidade que lhes é comum. Induísmo, budismo, cristianismo, islamismo, mas também a tradução hebraica do Livro de Isaías, todas reconhecem a universalidade do princípio Divino. Susana e António acabam por descobrir a teosofia – um “(…) conjunto de verdades que enformam a sabedoria subjacente a todas as religiões e que não podem ser consideradas como monopólio de nenhuma (…)”. E na busca por encontrarem caminhos novos para as suas vidas, os dois acabaram por se encontrar.
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António Manuel de Andrade Maia Gonçalves (551/1975) Reanimar? Histórias de Bioética em cuidados Intensivos Lisboa, Chiado-editora, 2013
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A negação da morte é “um retrocesso civilizacional” “ Hoje, a boa prática é não reanimar numa situação irreversível, é dar cuidados de conforto” No passado dia 25 de Novembro na Fundação Engenheiro António de Almeida, ocorreu o lançamento do livro da autoria do António Maia Gonçalves “Reanimar? Histórias de bioética em cuidados intensivos”, tratando temas polémicos e na ordem do dia: eutanásia, morte assistida, reanimação...; independentemente de crenças pessoais ou ideológicas, trata-se de um tema que a sociedade discute e para o qual tem a sua atenção virada. Algumas afirmações acerca do tema e da entrevista que deu à jornalista Alexandra Campos do Público: - “Muitas pessoas morrem nos lares, cada vez mais se morre em instituições, e é importante garantir que esses fins de vida ocorrem com dignidade”.
- “Na Antiguidade, recorda no livro, prevalecia um sentimento de familiaridade com a morte, enquanto hoje, nesta “sociedade altamente tecnológica”, a morte passou a ser um tema a evitar.” - “ Actualmente, há uma cultura voltada para o sucesso e a morte é vista como um insucesso, tenta-se esconder, negar. Mas, tal como a doença, a morte faz parte da vida. Desse ponto de vista, houve um retrocesso civilizacional. A morte é uma coisa natural. Mesmo uma criança, [quando lhe morre alguém próximo], deve ir ao funeral para poder fazer o luto.” - Recorda o caso do seu pai, que morreu em casa ao lado dos familiares, o que hoje é cada vez mais raro — a maior parte das pessoas morrem nos hospitais. Acha que é possível inverter esta tendência? “Acho que este é um ónus que não devemos pôr nas famílias. É preciso abdicar de muita coisa para se conseguir proporcionar isso [a morte em casa a um familiar]. Temos é de
adaptar os cuidados prestados à realidade demográfica e isso passa por cuidados paliativos, pelo apoio domiciliário, que, em termos de investimento, implica muito menores custos do que o internamento hospitalar. O que não faz sentido é termos dado a possibilidade às pessoas de terem grande longevidade e, depois, as respostas que temos para oferecer sejam apenas a oportunidade de se matarem. Quando as pessoas estão a morrer, querem sobretudo ter conforto, querem sofrer o menos possível.” Recensão de Martiniano Nunes Gonçalves (9/1958)
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Os que nos deixaram António Lucas Dias Costa (81/1947) Oficial da Armada - Capitão-de-Mar-e-Guerra Nasceu a 13 de Novembro de 1936 Faleceu a 23 de Fevereiro de 2018
A
notícia chegou, seca, crua e definitiva: morreu o António Dias Costa, o nosso Ariosta, que entrou para o 1º ano do Colégio Militar em 1947 e onde teve o número 81. Connosco cresceu e se fez homem durante todos os anos curriculares de internato na Luz, concluindo os estudos como finalista em 1954. Depois, foi um, entre outros sete de nós, que optou por servir Portugal no Mar como oficial da Armada, tendo para o efeito frequentado o Curso Geral Preparatório (1954/1955) da Escola do Exército e seguidamente ingressado na Escola Naval como cadete de marinha do Curso “D. Duarte de Almeida” (1955/1958). Como oficial subalterno esteve embarcado em diversas unidades navais do tipo fragata e draga-minas, quer em águas de jurisdição nacional, quer durante exercícios internacionais e NATO. Ficou habilitado com o Curso de Especialização de Oficiais em Armas Submarinas, no Grupo N.º 1 de Escolas da Armada e, mais tarde, com o Curso de Fuzileiros
Especiais, na Escola de Fuzileiros. Realizou em França estágios de material de armamento A/S para as novas fragatas da classe João Belo (1967/1968). Durante a Guerra do Ultramar, prestou serviço no Norte de Angola e foi Comandante da Companhia de Fuzileiros Nº 1 (CF1) em campanha em Moçambique (1969/1971). Como oficial superior, frequentou o Curso Geral Naval de Guerra e o Curso Superior Naval de Guerra. Foi Comandante do Corpo de Alunos da Escola Naval e exerceu o cargo de Comandante do NRP São Gabriel. Culminou a carreira como Chefe do Departamento Marítimo do Centro e Capitão do Porto de Lisboa em 1990, tendo passado à situação de Reforma em 1993 no posto de Capitão-de-Mar-e-Guerra. Da sua folha de serviços constam diversos louvores e condecorações, entre as quais duas Medalhas de Mérito Militar de 1ª classe e de 3ª classe. O António Dias Costa, o nosso Ariosta, cedo nas lides colegiais se revelou um espírito aberto, generoso, desembaraçado e mordaz, com apurado sentido de humor, bom camarada, leal e amigo do seu amigo, e assim se manteve ao longo da vida. Nas nossas reuniões periódicas de confraternização, nas romagens de saudade à velha Casa Mãe colegial e nos almoços comemorativos do Curso “D. Duarte de Almeida” a presença do António era sempre um foco de boa disposição e animado convívio. Por infelicidade, a partir da viragem do milénio, o seu estado de saúde foi-se gradual e acentuadamente debilitando, e por isso já há demasiado tempo não o podíamos ter entre nós como outrora.
António: agora que navegas já no Mar da Eternidade, nem por isso os nossos corações e preces deixarão de continuar contigo até nos voltarmos a encontrar todos juntos no Porto de Abrigo Final! À tua dedicada, extremosa e excelsa companheira de vida, a nossa querida amiga Fernanda, e aos vossos filhos Pedro e João, aqui exprimimos os mais profundos sentimentos de pesar. Luís Joel Alves de Azevedo Pascoal (145/1948) e todos do Curso 1947/1954 e Curso “D. Duarte de Almeida”
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Manuel Primo de Brito Limpo Serra (282/1936) Oficial da Armada - Capitão-de-Mar-e-Guerra Nasceu a 21 de Junho de 1926 Faleceu a 9 de Abril de 2018
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anuel Primo de Brito Limpo Serra, o 282 de 1936, faleceu no passado dia 9 de Abril, com 91 anos de idade. Completou o curso do Colégio em 1943, fez os preparatórios de acesso às Escolas Miliares na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e entrou para a Escola Naval em 1945. Iniciou então uma brilhante carreira como oficial de marinha, especializado em artilharia, com várias comissões embarcado em navios, e uma delas como Comandante da Defesa Marítima de Cabo Verde. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, no ano de 1966, e, a partir de então a sua vida militar estaria quase sempre ligada a esta sua nova valência profissional, dando aulas na Escola Naval e no Instituto Superior Naval de Guerra, até ter deixado o serviço efectivo. Foi como seu aluno que tive o contacto mais estreito com ele, não podendo deixar de salientar a sabedoria, a simplicidade e a simpatia que colocava nas suas aulas, ao ponto de conseguir cativar a atenção de todos os alunos, sem excepção. Até há poucos anos, sempre que um curso visitava a Escola Naval, comemorando os seus 25, 40 ou 50 anos da entrada, convidava quase sempre o Comandante Limpo Serra para lhes relembrar as velhas lições, onde se misturavam os conceitos de Direito, História de Portugal e História da Marinha, antiga ou recente, re-
cheada de episódios contados com uma vivacidade e interesse sem par. E fazia-o repetidamente, com cada curso, expressando um orgulho enorme por poder conviver de novo com os seus alunos, de quem se lembrava ainda dos nomes e dos episódios mais marcantes. Era notório o prazer que sentia nestes convívios, repetindo sucessivas vezes, com efusiva felicidade, “todos foram meus alunos”. E todos continuam a ser seus alunos, na continuidade de uma referência que perdurará muito tempo nas gerações de oficiais de marinha, que com ele aprenderam noções de Direito e Artilharia, mas que receberam com essas lições outros tantos conhecimentos e estímulos que os completaram enquanto homens e militares. Nunca conheci ninguém na Marinha que não falasse dele com enorme respeito, admiração e simpatia. O facto de poder aliar os conhecimentos de uma formação jurídica à experiência da vida do mar, levou-o para a área do Direito Internacional Marítimo, representando Portugal em numerosos fóruns internacionais. Durante cerca de 30 anos, fez parte da Comissão do Direito Marítimo Internacional e participou em diversas sessões da Conferência das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, sendo um dos delegados de Portugal nas reuniões que a prepararam. Nomeadamente, nas Assembleias Gerais das Nações Unidas, que se realizaram para esse fim. Foi vogal de mérito da Comissão para o Estudo do Leito do Mar e membro emérito da Academia de Marinha. Uma vida plena, enquanto oficial de marinha, com uma carreira militar operacional e outra
dedicada ao Direito Internacional Marítimo. Dotado de uma cultura sem par, era um estudioso compulsivo, com uma mente fervilhante e uma capacidade intelectual inigualável, que manteve até ao fim dos seus dias. Deixou a efectividade de serviço com o posto de Capitão de Mar-e-Guerra em 1986 e, recentemente, na Escola Naval – onde também sou professor há mais de 20 anos –, dei-me conta que já só havia dois ou três oficiais que ainda o tinham conhecido. Recordei nessa altura algo que o ouvia dizer muitas vezes, sobre o esquecimento e o pó a que todos estamos condenados pelo tempo. As palavras dele soaram-me nos ouvidos tão nítidas como se tivessem sido proferidas na véspera. Não, a Escola Naval não podia esquecer-se do seu velho Mestre. Propus que lhe fosse feita uma homenagem que impedisse o oblívio e o recordasse para sempre, atribuindo o seu nome a uma sala de aula, que tivesse especial relevo. A ideia foi imediatamente acolhida pelo comandante e apadrinhada pelo Almirante Chefe do Estado-Maior, permitindo que ali voltasse para falar aos seus alunos e experimentar a felicidade do seu convívio. “Todos foram meus alunos” – repetiu uma vez mais. Deixou-nos com a idade de 91 anos, deixando uma enorme saudade a todos os que com ele lidaram. A mim, acresce-me o orgulho de dizer na Marinha que também era ex-aluno. Luís Jorge Rodrigues Semedo de Matos (165/1965)
A pouco mais de dois meses de poder celebrar o seu 92.º aniversário natalício, partiu para uma última, e eterna, viagem este nosso querido camarada de armas, Comandante Manuel Primo de Brito Limpo Serra, que foi também um distinto antigo aluno do Colégio Militar, no qual ingressou em 1936 e onde lhe foi atribuído o número 282.
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Franzino de porte e de estatura, revelou-se, todavia e sempre, enérgico, dinâmico e perseverante, fino e requintado de maneiras e de atitudes, com um apurado sentido de humor e mostrando ainda ser um melómano de grande sensibilidade artística. Dotado de uma invulgar capacidade de memória, e de uma vasta cultura histórica geral e naval, destacava-se pelo seu bom domínio do uso da palavra, o que nitidamente impressionava todos os que consigo de perto mais privavam. Após ter concluído o seu curso de marinha, com elevada classificação, começou por ser nomeado para servir a bordo, sucessivamente, de navios de diversos tipos da Esquadra. Na altura própria foi nomeado para a frequência do curso de especialização de oficiais em Artilharia Naval, uma área que à época estava muito prestigiada na Marinha por, entre outros motivos, ser de difícil acesso e implicar elevada exigência de preparação científica, e de conhecimentos técnicos e tácticos, no âmbito decisivo dos grandes combates da Guerra no Mar. Já especializado, foi colocado em 1953 na Escola Naval como oficial de guarnição e instrutor de Armamento Portátil. E, dois anos mais tarde, deu-se o seu primeiro contacto connosco, cadetes de marinha do curso “D. Duarte de Almeida” – dado ser ele o oficial de serviço no dia da nossa apresentação inicial na Escola. De acordo com o planeamento escolar então em vigor, tornou-se o Tenente Limpo Serra num dos nossos primeiros mestres. Cedo se foram estabelecendo laços de bom relacionamento entre nós, quer no decurso das aulas e intervalos, quer durante as refeições do jantar nas datas em que ele estava de serviço de escala e convidava, por rotação, três cadetes para vir sentar-se à sua mesa. Todos e cada um de nós, cadetes, apreciávamos deveras essas ocasiões, em que nos fazia cismar com narrativas interessantes, curiosas, divertidas e, por vezes, hilariantes sobre factos históricos que desconhecíamos e ainda sobre episódios navais caricatos de tempos idos. E, claro está, como o nosso curso tinha sete Antigos Alunos do Colégio Militar, eram frequentes também as abordagens
a diversificados aspectos do espírito colegial e às carências e dificuldades por si sentidas durante os seus anos de internato, começados com o dealbar da Guerra de Espanha e coincidentes, depois, com parte do período da II Guerra Mundial. Logo após uma curta mas inesquecível viagem de instrução a bordo de um vetusto navio (o Aviso de 2ª classe Gonçalo Velho), em que ele também embarcou como oficial representante da Escola Naval, o Tenente Limpo Serra foi por todos nós, cadetes do 2º ano, eleito e convidado a aceitar pertencer, como membro honorário, ao Curso “D. Duarte de Almeida”. (DA) Este acontecimento, ao que se crê até hoje inédito, pelo seu significado individual e colectivo no quadro do exercício de uma liderança esclarecida, veio a constituir uma referência maior das nossas vidas de marinheiros e, tudo o indica, irá perdurar, por muito tempo ainda, como um dos pontos conspícuos nos anais da memória informal da Marinha. Durante a Guerra do Ultramar, e como oficial superior, o Comandante Limpo Serra exerceu o cargo de Comandante da Defesa Marítima de Cabo Verde, onde desenvolveu valiosa acção na preparação e execução das infra-estruturas logísticas planeadas para a instalação do futuro Comando Naval de Cabo Verde, o que assegurou em tempo e conforme previsto. Mais tarde, decidiu matricular-se e frequentar, a expensas suas, e sem prejuízo para o serviço, o curso de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Uma vez obtida a licenciatura, enveredou pela área especializada do Direito Internacional Marítimo. Na sequência disso, prestou provas e foi admitido como professor não só da Escola Naval como do Instituto Superior Naval de Guerra, tendo exercido o seu múnus durante longos anos até passar à situação de reforma. Participou ainda, como perito, em diversas reuniões internacionais e integrou a delegação portuguesa a conferências e convenções das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Foi também um membro efectivo da Academia de Marinha, onde se distinguiu pelas suas comunicações aí apresentadas.
Em reconhecimento dos muitos méritos do Comandante Limpo Serra como oficial, professor, jurista e académico, a Marinha decidiu, há poucos anos, prestar-lhe uma solene homenagem na Escola Naval onde, na presença do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, foi atribuído o seu nome a uma das salas de aula do Edifício Escolar. Como Antigo Aluno do Colégio Militar, foi um verdadeiro modelo de dedicação, entusiasmo e orgulho pela Alma Mater onde cresceu e se fez homem. Soube revelar, estender e fazer partilhar com a sua Família esses sentimentos. Usava sempre a barretina na lapela do casaco, exprimia com vivacidade e clareza o seu amor ao Colégio, e o seu respeito pelos valores, princípios e deveres que diariamente lhe tinham sido inculcados. Apoiava sem reservas a AAACM, de que chegou a ser um muito activo delegado provincial no Mindelo, em Cabo Verde. Enaltecia e cultivava o ideal da Camaradagem, que praticava através da presença assídua nas cerimónias do 3 de Março, nas romagens de saudade do seu curso e demais reuniões de confraternização de antigos alunos. O mesmo se passou na qualidade de membro honorário do “DA”. Até que o seu estado de saúde o impediu, esteve todos os anos reunido connosco no Dia do Curso, em que jantávamos ou almoçávamos juntos em animado convívio; e também nos acompanhou nas idas à Escola Naval, a última das quais em 2015 por ocasião da comemoração dos nossos 60 anos de entrada. Confessava-se, aliás, muito feliz por ser membro de dois cursos como marinheiro: o Velho, o seu de origem, e o Novo, o seu e nosso, por vontade mútua. À Margarida, sua filha amorosa, muito querida e devotada, aos seus netos e, particularmente, ao João Serra Braz (340/1992), que no Colégio navegou nas águas do Avô, apresentamos os nossos mais sentidos e profundos pêsames. Que Deus o tenha na Sua Divina Paz. Luís Joel Alves de Azevedo Pascoal (145/1948)
E todos do Curso “D. Duarte de Almeida” da Escola Naval