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Revista ZacatraZ nº 190

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Editorial Revista “ZACATRAZ”

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Editorial Colégio Militar Sempre!

A

fraternidade é um valor muito procurado, mas cuja preciosa raridade só é perceptível para quem verdadeiramente a vive. Quem procurar a razão da nossa unidade nos interesses não a encontrará. A nossa unidade é livre, igual e fraterna. Ninguém nos obriga, décadas após termos saído do Colégio, a vibrar com tanta energia e a estar disponíveis para o Colégio. Reconhecemo-nos como iguais porque todos vivemos no Colégio as mesmas incomparáveis e por vezes difíceis experiências. Por isso, temos a consciência profunda da igualdade e tratamo-nos por tu. Não importa a idade ou o estatuto: somos irmãos, porque vivemos a camaradagem e a mesma vida de solidariedade e disciplina, na mesma Casa comum. Não interessa nada do que eventualmente nos separa: somos irmãos. Nas comemorações do 210º aniversário do Colégio tudo isto emergiu de forma eloquente. Emergiu na forma vibrante como o enorme batalhão de Antigos Alunos cantou o Hino do Colégio e o Hino Nacional em conjunto com o Batalhão de Alunos, antes do desfile na Avenida da Liberdade. Foi claro no inexcedível garbo dos Alunos, que sentiram o momento. Emergiu na tocante cerimónia em que o Ginásio do Colégio ganhou o nome do nosso querido Dario e onde a Classe Especial mostrou na milimétrica coordenação dos saltos, o significado da palavra confiança. Emergiu e passou para todos os que nos acompanharam, emergiu na emoção doce das Mães, no olhar orgulhoso de Professores e Oficiais. Trata-se de um grupo unido pelo amor, dos pais e filhos,

da amizade dos camaradas, do cuidado dos professores e outros servidores militares e civis, e de todos por Portugal. Tudo isto se viveu intensamente neste 3 de Março de 2013. Toda esta energia positiva foi aproveitada a bem de Portugal durante mais de dois séculos, com enorme eficiência. Agora, exige-se a quem tem a responsabilidade de tutelar esta Instituição, que esteja à altura dessa responsabilidade e promova com competência e sentido de urgência o seu ajustamento ao futuro. Não é isso, lamentavelmente, que está acontecer. O que temos são reflexões condicionadas por preconceitos e a inclusão do Colégio Militar em potenciais conflitos institucionais onde não deveria nunca ser envolvido, porque é uma escola onde há jovens a preparar o seu futuro. No próprio dia 3 de Março tivemos mais uma evidência da forma grosseira como o Colégio está a ser tratado. Esperávamos que o Diário de Notícias pudesse falar de uma escola onde se trabalha, onde se cultiva a camaradagem, a honra, o amor à Pátria , o desporto e a capacidade de liderança. O que tivemos foram notícias falsas e a ridícula tentativa de colocar a AAACM em colisão com o Exército, nosso principal aliado na defesa do presente e do futuro do Colégio. Nós estamos e sempre estaremos com o Colégio, sem hesitações ou condições. Estaremos, assim, com todos aqueles que se preocuparem genuína, empenhada e benignamente com o seu presente e o seu futuro. E contra os outros!

A Direcção da AAACM


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Ficha Técnica

CORPOS SOCIAIS DA ASSOCIAÇÃO PARA O TRIÉNIO 2011-2013

Ficha Técnica PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL Fundada em 1965 N° 190 - Janeiro/Março - 2013

DIRECÇÃO Presidente Vice-Presidente Secretário Tesoureiro 1º Vogal 2º Vogal 3º Vogal 4º Vogal 5º Vogal 1º Vogal Suplente 2º Vogal Suplente 3º Vogal Suplente

FUNDADOR Carlos Vieira da Rocha (189/1929)

António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios - 529/1963 José António Madeira de Ataíde Banazol - 631/1968 Pedro Miguel Correia Vala Chagas - 357/1977 Vítor Manuel Galvão Rocha Novais Gonçalves - 666/1971 Carlos Francisco da Silva do Rio Carvalho - 307/1971 Manuel Pedro da Costa Pereira Roriz - 519/1959 Pedro Manuel do Vale Garrido da Silva - 53/1961 Luís Baptista Esteves Virtuoso - 72/1973 Francisco Maria Sarmento Cavaleiro de Ferreira - 58/1977 José Afonso Correia Lopes - 237/1976 Gustavo Lopes da Costa Pinto Basto - 227/2000 Gustavo André dos Santos Lima – 248/1994

DIRECTOR Mário Margarido e Silva Falcão (314/1936) CHEFE DE REDACÇÃO Gonçalo Salema Leal de Matos (371/1949) REDACÇÃO Nuno António Bravo Mira Vaz (277/1950) Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa (71/1957) Pedro Manuel do Vale Garrido da Silva (53/1961) João Carlos Agostinho Alves (110/1996) CAPA Alunos e Antigos Alunos Reviver o Passado Viver o Presente Construir o Futuro

ASSEMBLEIA GERAL Presidente Vice-Presidente 1º Secretário 2º Secretário

©Foto Leonel Tomaz

Manuel Carlos Teixeira do Rio Carvalho - 124/1945 Duarte Manuel Silva da Costa Freitas - 199/1957 Frederico Eduardo Rosa Santos - 78/1957 João Miguel Jardim de Abreu Ferreira Pinto - 261/1980

ENTIDADE PROPRIETÁRIA E EDITOR Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar MORADA DO PROPRIETÁRIO e SEDE DA REDAÇÃO Quartel da Formação - Largo da Luz 1600-498 Lisboa Tel. 217 122 306/8 Fax. 217 122 307 TIRAGEM - 1350 exemplares

CONSELHO FISCAL Presidente 1º Vogal 2º Vogal 1º Vogal Suplente 2º Vogal Suplente

DEPÓSITO LEGAL Nº 79856/94

José Manuel Spínola Barreto Brito - 539/1963 António Emídio da Silva Salgueiro - 461/1972 Eurico Jorge Henriques Paes - 306/1957 João Luís de Mascarenhas e Silva Schoerder Coimbra - 54/1984 João Sanches de Miranda Mourão - 552/1960

DESIGN E EXECUÇÃO GRÁFICA:

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA AOS SÓCIOS DA AAACM NÚMERO AVULSO: 4,00 € ASSINATURA: 15,00 €

Os artigos publicados são da responsabilidade dos seus autores.

ARTIGOS À VENDA NA AAACM PUBLICAÇÕES

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Outras Publicações

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I Volume da História ao Colégio Militar

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II Volume da História do Colégio Militar

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III Volume da História do Colégio Militar

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Sumário

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Dos Antigos Alunos

13 Antigos Alunos em destaque 14 Prémios Barretina 2012 22 Menino da Luz 23 Cursos 1942/1949 | 1982/1989 25 Mais Alto e Mais Longe 27 Em memória do Batalhas 28 Jantar de Natal Do Colégio

38 O espírito do Colégio Militar e dos seus Alunos

Colaboração

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Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

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Dos Antigos Alunos Entrevista a António Calado

47 De Chaves à Flandres 49 1.º Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas

57 Google Apps vs Microsoft Office 365 58 Novo livro do José Fanha 59 A Baleeira Recordando

60 O Hipismo, o Colégio

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Do Colégio

3 de Março - 210 Anos

e os Jogos Olímpicos

65 Antigos Alunos nas

Tropas Pára-quedistas

67 Uma Casa Portuguesa 68 Despedida, sorrindo (ALELUIA!) 69 Os que nos deixaram

42

Do Colégio

Singularidades Colegiais


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Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

Apresentação do livro

Colégio Militar – Berço de Grandes Portugueses Integrado nas comemorações 3 de Março dos 210 anos, realizou-se no no auditorium do Colégio o lançamento do livro “Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses” da autoria do José Alberto da Costa Matos (96/1950). Com a presença do antigo Presidente da ©Fotos Leonel Tomaz

Republica, Senhor General Ramalho Eanes e Senhora, do Chefe da Casa Militar da Presidência da Republica, Senhor Tenente-General Carvalho dos Reis, do Director do Colégio Militar, Senhor Major-General Cóias Ferreira, e perante uma sala cheia de participantes ligados ao Colégio e que

o vivem intensamente, o Presidente da Direcção da Associação, António Saraiva de Reffóios (529/1963), abriu a sessão, agradecendo a presença de todos e a amabilidade da cedência deste excelente espaço para o evento da apresentação do livro.


Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

Coube ao Martiniano Gonçalves (9/1958), fazer a apresentação do livro, referindo também as qualidades do autor e da sua profícua investigação colegial e militar, de que resultou a publicação de várias obras relacionadas com o Colégio e com a Arma de Artilharia onde serviu honrosamente como militar. «Senhor General Ramalho Eanes Senhor Tenente-General Carvalho dos Reis, Chefe da Casa Militar da Presidência da República Senhor Major-General Cóias Ferreira, Director do Colégio Militar Alunos do Colégio Militar Senhoras e Senhores Antigos Alunos, meus irmãos colegiais É uma grande Honra ter sido escolhido pelo Autor para fazer a apresentação desta sua obra. Começo por te agradecer - meu bom Amigo e Camarada - teres-me associado, a uma obra com esta dimensão e à qual tanto deste de ti, propondo-me para fazer a sua apresentação. Senhor General Ramalho Eanes Permita-me que manifeste a minha grande satisfação, traduzindo, seguramente, o sentimento da grande maioria dos Antigos Alunos deste Colégio, pela sua presença nesta sala, depois de, há 4 anos, aqui ter estado no lançamento de “O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa” livro que nos deu a honra de prefaciar. Na ausência forçada do Senhor General Loureiro dos Santos dirijo-me ao Senhor General como se aqui estivesse presente. É para nós, igualmente, uma honra tê-lo, hoje, aqui presente na nossa comunidade de Meninos da Luz. O seu prestígio na Instituição Militar e na sociedade civil a que pertence a grande maioria dos Antigos Alunos do nosso Colégio fazem-nos senti-lo como um dos nossos, sentimento que é agora reforçado com o teor do prefácio com que enriqueceu esta bela obra. De facto, a dimensão que introduziu no texto acompanha a destes Grandes Portugueses, contribuindo para o registo, no nosso século do valor das suas obras, do seu espírito, da sua dedicação a Portugal. Começa V.Exa. enunciando e defendendo valores estruturantes das sociedades, nos

quais Portugal se reviu em épocas passadas, enquadrando o Colégio Militar como um importante contributo para a fertilidade da sua criação e desenvolvimento. Ao referir que, tradicionalmente, os valores dos portugueses nasciam e solidificavam-se em três contextos formativos - a família, a escola e o cumprimento do serviço militar - não faz V.Exa. um apelo ao saudosismo ou ao conservadorismo, como alguns na nossa sociedade hoje querem difundir num marketing destrutivo de ideias e valores, uns por ignorância, outros por ideologia. No Colégio Militar estes três elementos mantêm a sua presença, não obstante se constatar a atitude das famílias ser, cada vez mais, de demissão, problema que atravessa horizontalmente a sociedade. Refere igualmente, V.Exa, o patriotismo como uma característica que a História vai revelando e solidificando e que define os portugueses como tal e sela a marca que os distingue, e ainda, que é imperioso restaurar os institutos que tenham capacidade de recuperar, à luz da nossa época, os valores que nos caracterizam. Ao ler estas suas palavras veio-me à memória o primeiro preceito do Código de Honra do Colégio Militar: Amar e Honrar a Pátria. Permitam-me que diga com vaidade: felizmente que aqui – no Colégio Militar - não temos que recuperar estes valores, eles estão cá e bem presentes! O Colégio Militar continua, hoje, a exponenciar, esta componente da formação do seus alunos, e, enquanto o deixarem, continuará a defender e incutir estes valores identitários de Portugal. Referindo-me ao Autor. Apresentar o Autor será uma redundância para boa parte dos presentes nesta sala: a sua actividade de pesquisa da história do Colégio Militar e subsequentes sínteses em obras publicadas é bem conhecida. Mas… quem é, afinal, José Alberto da Costa Matos? ...esse Coronel reformado que os alunos deste Colégio se habituaram a ver caminhar do Museu para a Biblioteca, da Biblioteca para o Arquivo Histórico, do Arquivo Histórico de novo para a Biblioteca, viciado em pesquisa sem fim de tudo quanto respeite ao Colégio Militar? Coronel Tirocinado de Artilharia, nascido no

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©Fotos Leonel Tomaz

Porto em 1940, casado e Pai de um Menino da Luz como ele. Foi o 96/1950 do Colégio Militar, tendo no último ano do curso sido graduado em Comandante de Pelotão (duas estrelas) da 1ª Companhia, desempenho que foi objecto de um louvor pelo Director do Colégio, no seu entender um dos 3 melhores louvores da sua vida, que passo a ler: “porque, sendo aluno graduado, serviu sempre a 1ª Companhia com extrema dedicação em todos os sectores, muito contribuindo com as suas magníficas qualidades de disciplinado e disciplinador para manter o arrumo das aulas e das carteiras e os cadernos em dia, e ainda por, com sacrifício dos seus trabalhos escolares, ter dado valiosa ajuda nos estudos suplementares para recuperação de alunos atrasados (Ordem Colegial nº 166 de 29 de Junho de 1957). Não vou aqui ler-vos o Curriculum Vitae de Costa Matos, mas fazer apenas algumas das referências que mais me sensibilizaram nesta pesquisa do seu percurso como militar, na vida civil e na sua militância como Menino da Luz.


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Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

©Fotos Leonel Tomaz

Fez 3 Comissões de Serviço nos 3 principais teatros de operações que Portugal manteve em África na segunda metade do século passado, comandou diversas unidades militares, destacando-se a Chefia do Estado Maior do Comando da Região Militar do Norte; foi objecto de 21 Louvores e 15 Condecorações de que ressaltam uma Cruz de Guerra, uma Medalha de Ouro e 3 Medalhas de Prata de Serviços Distintos. Fora do contexto militar distingue-se, - entre múltiplas actividades das mais variadas naturezas - na pesquisa histórica e na museologia, como fundador da Liga dos Amigos do Museu Militar do Porto, como Vice-Presidente da Delegação do Porto da Cruz Vermelha Portuguesa, e no desempenho de funções de Direcção e Consultoria Empresarial em empresas industriais e noutras instituições. Participou em conferências e escreveu artigos publicados em jornais, revistas militares e civis, e é colaborador assíduo da Revista da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar.

A sua dedicação ao Colégio Militar tem sido sem igual, desde a realização de trabalhos de pesquisa e investigação documental à participação directa em actividades colegiais. Destaco neste último aspecto o seu contributo, ano após ano, para a formação dos alunos Graduados, em áreas tão importantes como as Tradições do Colégio e a Disciplina Colegial ao longo da sua História. É membro do Conselho Supremo da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar desde 2004 e seu Presidente desde 2010. Em todas estas actividades encontramos sempre presentes a força do carácter, a forte personalidade, a paciência, a persistência, o método, o rigor e o sentido da dedicação às causas, que o caracterizam como Homem. O “Colégio Militar Berço de Grandes Portugueses” é a sua 13ª obra de investigação, desde que há quase 20 anos vem investigando e compilando acontecimentos que recaem, principalmente, sobre o seu passado profissional no Exército Português e nesta Casa que o educou: com esta obra são já 7 os livros dedicados ao Colé-

gio Militar, tendo adquirido particular importância pela sua dimensão e pelo marco que representou aquando do Bicentenário do Colégio a publicação dos 2 volumes da História do Colégio Militar. A ele muito devem o Exército e o Colégio o seu inestimável contributo para o registo das partes intangíveis dos seus patrimónios moral e espiritual. A dimensão com que pratica o “SERVIR” - virtude da Instituição Militar a que pertence - e a forma muito própria como, nas suas obras, exprime o seu amor e a exaltação da Pátria, da Instituição Militar e do Colégio Militar, constituem, sem dúvida, uma marca inconfundível em particular para a comunidade dos Antigos Alunos e Alunos do Colégio Militar constituindo, para estes últimos, um valioso contributo para a sua formação na fase tão importante da adolescência. Perguntei-me o que o motiva? Creio que a resposta estará no seu gosto pela pesquisa e pela compreensão dos fenómenos das sociedades e dos grupos sociais,


Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

procurando as suas origens, aliadas a um permanente sentido de síntese do conhecimento adquirido ou por si sistematizado. E das suas sínteses ressalta, claramente, o sentido da preservação do património histórico em todas as suas dimensões, do concreto ao abstracto, e o reconhecimento para com as instituições que lhe proporcionaram a construção de uma vida de que faz um balanço feliz: O Colégio Militar e o Exército Português. Refiro-me, agora, à obra. No livro «O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa» de sua autoria publicado em 2009, foram divulgados elementos biográficos de 87 antigos alunos do Colégio cujos nomes figuram em 1030 ruas, praças ou avenidas de 427 localidades, o que constitui uma distinção pública de reconhecimento. Diz-nos Costa Matos na Introdução desta obra referindo-se à cerimónia de apresentação de «O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa»: “tive o cuidado de chamar a atenção para o facto de aqueles que nela figuravam serem apenas alguns dos muitos que, tendo tido a honra de envergar o uniforme de aluno do Colégio Militar, tinham atingido uma tal notoriedade que fizera com que os seus concidadãos não os tivessem ignorado. Na ocasião lembrei também que existiam muitos outros antigos “Meninos da Luz” que, pelos mais variados e excepcionais motivos, a História havia registado”, e refere ainda que “talvez num rebate pessoal de consciência, finalizei referindo que ainda gostaria de fazer reviver e divulgar o valor, a coragem, a dignidade, o espírito de servir e o patriotismo desses que se foram esfumando na memória dos homens”. Encontramos nestas suas frases a causa próxima para a publicação de “Colégio Militar – Berço de Grandes Portugueses”. Confessa-nos ainda o Autor as dificuldades e limitações que ao longo de quase quatro anos enfrentou nos trabalhos de investigação e pesquisa exigidos pela presente obra, “umas de natureza objectiva e outras de carácter conceptual dada a não existência de qualquer registo biográfico sistemático dos cerca de doze mil antigos colegiais, que pudesse servir de base ao trabalho de pormenorização da sua activi-

dade enquanto cidadãos, esta circunstância restringindo, naturalmente e de modo decisivo, a possibilidade de estabelecer um perfil bem definido que baseasse o critério de escolha daqueles que deveriam constar desta obra.” No livro são biografados 100 antigos alunos que já não fazem parte dos vivos, entrados no Colégio entre 1803 e o fim da 1ª Grande Guerra (1918): 95 durante a Monarquia e 5 com a República, representando 2,5% do total dos 4162 alunos admitidos nesse intervalo de tempo. São personalidades que, na opinião do Autor, não esqueceram os valores com que foram educados, ainda que tenham por vezes assumido, enquanto cidadãos, comportamentos e atitudes divergentes, como que a demonstrar, inequivocamente, que o facto de terem sido alunos do Colégio Militar nunca os impediu de pensar e de agir em liberdade. O Colégio Militar já naquela altura era o espaço de liberdade estruturante da formação dos alunos que é hoje! Trata-se de um período em que o valor médio da população masculina portuguesa foi de cerca de 2.200.000, pelo que, aplicando aquela percentagem, o contributo equivalente da população portuguesa para Portugal teria de ser de 55.000 Grandes Portugueses; desta impossibilidade e desta enorme disparidade se deduz o impacte da formação então ministrada no Colégio Militar e da sua importância para Portugal. Sendo na sua quase totalidade militares, são portugueses que maioritariamente acumularam ou desempenharam, igualmente, funções não militares, destacando-se 44 na política, por vezes servindo ideologias opostas, e 28 em funções civis não políticas: principalmente universitários, cientistas, escritores, artistas e jornalistas, contando-se, entre muitas outras, 42 condecorações com a Ordem da Torre e Espada, 13 Medalhas de Valor Militar e 15 Cruzes de Guerra. Curiosa é a dispersão geográfica dos seus locais de nascimento: 41 nasceram em Lisboa, 6 no Porto, 40 noutras cidades e vilas portuguesas, 11 em Países que já não são Portugal (Macau, Luanda, Goa, Cabo Verde, Brasil) 1 no Uruguai e um a bordo de uma nau! E grande dispersão geográfica encontramos, igualmente, nos locais em que desem-

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penharam parte importante das suas carreiras profissionais, aparecendo o Portugal de África como o foco de missões militares e civis de longa duração da grande maioria. Ocorre aqui mencionar a transcrição que Costa Matos, na sua Introdução, faz de um manuscrito de 1813 do Marechal Teixeira Rebello. Escreveu o Marechal: «Não posso afiançar, decididamente, qual virá a ser a futura conduta dos alunos, a qual começa verdadeiramente a manifestar-se a partir do momento em que saem do Colégio; porque então, vendo-se senhores da sua liberdade no meio dos bons e maus exemplos, as virtudes ou vícios que praticarem é que os caracterizarão de uma maneira não equívoca. Eu porém devo crer que os desvelos e cuidado com que são educados e as defesas com que são fortificados contra o veneno da dissolução os farão praticar dignas e honrosas acções. O exemplo dos que daqui já têm saído vigora cada vez mais a minha esperança.» O livro demonstra a validade da convicção manifestada pelo Fundador 10 anos após a fundação do Colégio. Celebramos, hoje, alguns que representam muitos dos que - silenciosa e, frequentemente, fora dos holofotes da Sociedade - o País não imortalizou mas que, no dizer de Camões, contribuíram com “obras valerosas” para Portugal e que, nesta obra, Costa Matos “veio da lei da morte libertar”. O livro é, assim, um repositório da memória perdida de homens de acção; fica-se pasmado como tantos fizeram tanto em tão pouco tempo numa época em que os meios de comunicação e a vida eram bem mais reduzidos que hoje. Noutra perspectiva, é um filme de imagens menos conhecidas do produto do Colégio Militar, que ficam agora fotografadas e contribuem para relembrar - ou ensinar a quem não sabe - que o que é hoje intangível e do domínio do espírito e dos valores resulta, afinal, de comportamentos reais que, se o Colégio Militar mantiver a sua alma se traduzirão, também, no futuro no concreto: Antigos Alunos que contribuirão fortemente e positivamente para Portugal. A História, mais uma vez, valida as palavras com que o Marechal Teixeira Rebello


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Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

projectava o seu Colégio: “um estabelecimento de ensino vocacionado para preparar futuras elites”. Mas, perdoem-me os presentes não resistir à tentação de contextualizar o lançamento de “Colégio Militar – Berço de Grandes Portugueses” na fase actual da vida da instituição Colégio Militar. É-me impossível não estabelecer uma ligação entre a intemporalidade do conteúdo desta obra, o momento presente e a sua projecção, numa conjuntura em que a sociedade vê, de forma enviesada e por falta de conhecimento, quer a Instituição Militar quer o Colégio Militar. É minha convicção que a desproporcionalidade, que atrás referi, do contributo de Grandes Portugueses para Portugal que, entre 1803 e 1918, se verificou entre o Colégio Militar e a totalidade da população portuguesa, não obstante se encontrar hoje, felizmente, reduzida, continua a existir, continuando o Colégio Militar a formar elites que se destacam na vida pública, empresarial, e em muitos outros domínios da Ciência, das Letras e das Artes e outros, em proporção largamente superior à de todo o País. A título de exemplo, e sem me referir a outros domínios da vida social e da cultura, dei comigo, a este propósito, a listar Antigos Alunos contemporâneos com elevadas responsabilidades na vida económica do País - empresários, presidentes de instituições públicas e de conselhos de administração, administradores e gerentes de empresas com notoriedade pública - e rapidamente ultrapassei os 100… Não é, também, por acaso que recente inquérito à opinião pública, envolvendo mães e pais sem ligação com o Colégio e com filhos rapazes até aos 10 anos, apontava o Colégio Militar, quando comparado com outros estabelecimentos de ensino públicos e privados, com 94% de notoriedade, referindo os inquiridos que as principais razões para a escolha do Colégio como estabelecimento de ensino eram, com grande destaque, a disciplina e o rigor, seguindo-se a reputação em geral, a qualidade na formação pessoal e de cidadania, o programa desportivo e as actividades extracurriculares, e o acesso privilegiado a estabelecimento de ensino superior (que não existe para o Colégio e é

uma das propostas pelas quais a AAACM se tem veementemente batido para um acesso privilegiado às Academias Militares). A leitura de “Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses” mostra-nos que os valores que há 200 anos enformaram a estrutura educativa do Colégio Militar e que estão na base do desempenho daqueles homens, são, afinal, os mesmos que a sociedade de hoje - mostra o inquérito - reclama. Disciplina, rigor, qualidade na formação pessoal e de cidadania, …tudo valores intangíveis resultantes dos princípios da Instituição Militar aplicados à vida em comum dos alunos na fase da vida – a adolescência – em que se desenvolvem a camaradagem, a solidariedade …e muitos outros sãos princípios. Não é tudo isto da máxima importância a ter em conta numa reforma que os poderes político e militar pretendem para o Colégio e que é urgente fazer, não a limitando a meras alterações de carácter administrativo? O bom senso não aponta no sentido de que uma reforma, como qualquer reforma, deva começar por identificar os erros de gestão cometidos ao longo de anos, mantendo e preservando o património moral e material da instituição? Não podemos aceitar o mau aproveitamento de uma infraestrutura escolar única no nosso País, subaproveitada em termos de frequência de alunos e de valorização de activos e assim geradora de prejuízos inaceitáveis e desnecessários que põe em causa a sustentabilidade do modelo de gestão. E, numa fase da vida de Portugal em que a abertura ao Mundo é indispensável para a afirmação da sua identidade na cena internacional - nomeadamente aprofundando a lusofonia - não será de questionar o não aproveitamento do Colégio Militar no estabelecimento de relações de elevado valor estratégico e de Diplomacia Económica com as forças armadas dos PALOPS, apoiando a abertura dos seus Colégios Militares e assegurando a partilha de valores com os futuros líderes dessa comunidade de Países? Esperamos que assim se faça e que a tutela militar, se necessário, seja - em última instância e como tantas vezes tem feito na defesa dos valores patrimoniais da nossa sociedade – a defensora da preservação deste património!

A estrutura educativa que Teixeira Rebello pôs de pé em 1803 deu vida ao Colégio e manteve-o em pleno desempenho (este livro é bem disso a prova) até que em 1944 nova reforma a adaptou às necessidades da época e lhe deu um novo fôlego para mais 55 anos: até ao início do presente século. Foi em 2001 que os seus Antigos Alunos e a sua Associação entenderam que a falta de atractividade e deficiências no seu funcionamento não era conjuntural mas estrutural, e iniciaram contactos com a tutela sugerindo a necessidade de uma reforma que consideravam necessária e urgente, tendo, paralelamente, contribuído com análises, projectos e estudos, referentes às mais diversas áreas da vida colegial, tudo objecto de documentos que foram sendo entregues. Já lá vão 13 anos… Espera-se, agora, que a actual reforma, à semelhança da anterior, dê ao Colégio um novo fôlego e que, por ligeireza na sua concepção e ou implementação, não se conduza à sua destruição em pouco anos. E permitam-me um desabafo: É que, nada poderá nem deverá ser reformado destruindo o ADN do Colégio Militar: reformar não pode ser destruir e construir outra qualquer instituição mesmo que se mantenham o nome a fachada! E que situação ingrata, e que enorme responsabilidade a daqueles que, no plano conceptual ou como executivos, encontrando-se com mais directas responsabilidades envolvidos na actual reforma do Colégio Militar, poderão - por acções ou omissões e dependendo da abrangência ou da superficialidade e bom senso, ou falta dele, com que abordem este processo - ficar para a História, e não apenas para a memória dos seus Antigos Alunos, como aqueles que contribuíram para a renovação do Colégio dando-lhe um novo ímpeto, ou como os coveiros de uma instituição centenária que tanto deu e tanto dá a Portugal! Não esqueçamos que, a seguir à Universidade de Coimbra, está em causa a instituição de ensino viva mais antiga de Portugal e a única que, pelo seu processo educativo forma - desde mais cedo e incluindo a sua prática diária - jovens para a liderança! Para terminar, e em síntese, o livro testemunha a devoção do Autor a duas causas


Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

que se confundem nos últimos dois séculos e no princípio do actual milénio – Portugal e o Colégio Militar –, com assinalável rigor histórico na exaltação de portugueses e das suas obras, numa dimensão verdadeiramente nacional. Uma última palavra para o Senhor General Ramalho e Eanes e para o Senhor General Loureiro dos Santos que hoje nos acompanham: ouso dizer, sendo minha convicção, que caso V.Exas. tivessem sido Meninos da Luz e vivido na época que esta obra percorre, estariam, certamente, nela biografados.» Martiniano Gonçalves Antigo Aluno do Colégio Militar (9/1958)

O autor do livro, José Alberto da Costa Matos, proferiu as seguintes palavras Senhor General RAMALHO EANES É para todos nós uma honra e um privilégio contar com a presença de V.ª Ex.ª nesta cerimónia. Honra para o Colégio Militar, porque bem sabe da parcimónia e do extremo cuidado com que V.ª Ex.ª selecciona os eventos a que comparece ou em que é solicitado a intervir. Privilégio para os antigos alunos desta instituição que, muito respeitosamente, lhe ficam a dever, uma vez mais, esta prestigiante deferência e o grande significado que para nós ela encerra. Neste Colégio formaram-se desde sempre cidadãos em obediência ao culto de valores como o amor à Pátria, a honra, a dignidade, o dever e a honestidade, os mesmos que nos habituamos a reconhecer na personalidade e no modo de agir de V.ª Ex.ª quer como militar e cidadão, quer no difícil exercício da mais alta magistratura do Estado. Pessoalmente, fico-lhe imensamente grato pela generosidade com que me honra pela segunda vez, associando-se à apresentação deste novo trabalho cujo real mérito reside unicamente no facto de contar História e histórias relacionadas com o Colégio Militar e com o produto da sua grande obra. A nossa gratidão, Senhor General. Senhor DIRECTOR DO COLÉGIO MILITAR Este livro é mais um bocadinho da sempre surpreendente História do Colégio, venerável e honrada instituição que V.Ex.ª actual-

mente dirige, pela qual os antigos alunos sentem uma enorme e profunda devoção, a ele ficando ligados para toda a vida. Tendo decidido a tarefa de tornar realidade o trabalho que hoje aqui se apresenta, é minha obrigação agradecer-lhe uma vez mais as deferências com que sempre sou tratado nesta Casa quando a ela me desloco, mas também a confiança e a liberdade que me é concedida para pesquisar os arquivos e a biblioteca colegiais para realizar estes meus breves e modestos escritos. De igual agradeço o ter disponibilizado estas magníficas instalações para nos reunirmos a propósito deste novo livro. Formulo a V.ª Ex.ª os maiores sucessos pessoais e profissionais, para saber enfrentar os desafios e poder conduzir no bom sentido as tarefas nada fáceis que se perfilam no horizonte. Senhor Engenheiro MARTINIANO GONÇALVES Este tratamento cria em mim a sensação de que não foste “Menino da Luz” e que és alguém desconhecido. Por isso vou mudar! Muito agradeço a tua disponibilidade para fazeres a apresentação deste livro, pois sei que com isso te criei preocupações acrescidas. Devo porém confessar que o convite que te fiz resulta em grande parte do meu reconhecimento pelo teu inegável amor e respeito pelo Colégio Militar, a que se alia um raro empenho e dedicação por tudo quanto envolve a Associação, de que foste Presidente, bem como tudo o que se relacione com antigos alunos. O modo como encarnas e vives o Colégio, e a camaradagem e amizade que foi resultando dos nossos assíduos e longos contactos, são mais que suficientes para atestar a exactidão da escolha feita, sendo meu dever expressar perante todos, o quanto me sinto honrado por ver esta obra ser por ti apresentada. Bem hajas pelo apoio, pelo modo como te empenhaste na fase de edição deste trabalho, e também pela muita amizade e confiança, que jamais esquecerei. Senhor Presidente da Direcção da ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS Desculpa ir pôr de lado as formalidades protocolares, mas vou tratar-te simplesmente

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pelo tradicional tu colegial, e assim manifestar o meu reconhecimento por teres aceitado sem reticências publicar este livro, decisão essa que entendo situar-se muito para além do usual dever de camaradagem que une e é apanágio dos antigos alunos. Sem a tua cumplicidade e confiança não estaríamos hoje aqui. Bem hajas e faço votos para que o produto da venda deste livro, que reverte integralmente para o Fundo de Solidariedade, possa de algum modo contribuir para minimizar a situação de alguns dos antigos alunos que infelizmente foram atingidos pela situação de crise que vivemos. Senhoras e senhores CONVIDADOS Senhoras e senhores PROFESSORES, INSTRUTORES e demais SERVIDORES do Colégio e da Associação Amigos e camaradas ANTIGOS ALUNOS Peço desculpa por mais uma vez perturbar a tranquilidade deste vosso fim de tarde de domingo para assistirem à divulgação de mais umas coisas que vou descobrindo e rabiscando relacionadas com o passado do Colégio Militar. Agradeço a todos este gesto de solidariedade, mas permitam-me uma referência especial a todos quantos vieram de bem longe para se juntar a nós. Agradeço também a todos quantos, por qualquer modo, apoiaram ou colaboraram na concretização do livro que hoje vos é apresentado, e que a eles faz referência. Seja-me no entanto permitido fazer um agradecimento muito especial ao Senhor General Loureiro dos Santos, que se viu impossibilitado de hoje nos honrar com a sua presença, para lhe expressar publicamente a minha profunda gratidão pela generosidade e pela pronta anuência com que correspondeu ao meu pedido de que prefaciasse este livro. Fi-lo por o considerar um dos raríssimos portugueses em quem hoje confio e que me habituei a ver como um exemplo de carácter, honra, honestidade e coragem, a que se alia uma inteligência que muitos almejariam, mas que poucos se gabam de possuir. E é no cultivar desses valores que se encontra a afinidade entre o Senhor General Loureiro dos Santos e o Colégio Militar. Mas há mais. Na óptica de quem remexe


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Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

©Fotos Leonel Tomaz

nas coisas da História, talvez exista uma outra curiosa proximidade, mas agora entre Loureiro dos Santos e Teixeira Rebelo, Fundador desta instituição. São ambos transmontanos das proximidades de Vila Real que não nasceram em berço de ouro; os pais de ambos foram aconselhados pelos seus professores de primeiras letras a que os mandassem prosseguir estudos para que o país não perdesse duas grandes inteligências; fruto do seu muito saber e determinação, foram ambos ilustres artilheiros; um e outro desempenharam o cargo de ministro da Defesa; quer um quer outro foram docentes no ensino superior; ambos se empenharam com enorme dedicação, rigor e sentido do dever nas múltiplas e diversificadas tarefas em que foram envolvidos; ambos renunciaram a cargos de poder quando foi posta

em causa a sua consciência e dignidade; e um e outro possuem um semblante grave que esconde no entanto almas sensíveis e também capazes de se emocionar. O prefácio que escreveu para este livro constitui uma importante mais-valia. Se eu disso duvidasse bastava ter assistido ao seguinte: logo que a edição foi entregue pela empresa gráfica, houve um antigo aluno que pegou num exemplar, que via pela primeira vez. Olhou a capa, passou rapidamente pelas páginas de abertura e foi directo ao Prefácio. Leu-o demoradamente da primeira à última palavra. Fechou o livro e pousou-o sem se importar com o resto. Ao Senhor General Loureiro dos Santos, ficarei para sempre em dívida por mais esta manifestação de condescendência e de amizade. Faz agora quatro anos que neste mesmo

espaço se reuniram muitos dos que agora aqui estão para então assistirem à apresentação do livro «O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa», que divulgava elementos biográficos de 87 antigos alunos que dão nome a mais de mil e trezentas ruas, praças ou avenidas do nosso País. Porquê então um outro livro que, de modo algo semelhante, contempla o percurso de vida de uma nova plêiade de antigos “Meninos da Luz” ? Há de facto razões que o justificam. Comecemos então pela que me diz respeito. Em 2009, quando da apresentação já mencionada, tive o cuidado de destacar que aqueles que constavam do livro eram apenas alguns dos muitos que envergaram o uniforme do Colégio Militar e tinham atingido uma tal notoriedade que justificara que os seus concidadãos os tivessem imortalizado nos topónimos de mais de quatro centenas de localidades. Acrescentei porém que existiam muitos outros antigos “Meninos da Luz” que, pelos mais notáveis e variados motivos haviam ficado consagrados na História, ainda que a imparável sucessão de gerações tivesse progressivamente esbatido das memórias o exemplo, o mérito e o valor do quanto eles haviam realizado e transmitido como legado a essas mesmas gerações. Mas cometi então uma imprudência. Ao finalizar a minha intervenção, acabei por cometer o lapso de afirmar que ainda gostaria de fazer reviver e divulgar o valor, o sentido de servir e o patriotismo desses muitos que repousavam agora no esquecimento dos homens. E como nesta casa me ensinaram que, em nome da honra e do dever, o que se promete é para cumprir, aqui está «O Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses». Ao longo das páginas deste livro o leitor vai poder acompanhar vidas extraordinárias, muitas vezes raiando o espantoso, vividas por uma centena de antigos alunos que descobriram em valores éticos como Patriotismo, Serviço, Honra e Dever, aprendidos nesta casa, a bússola do seu proceder e a força e razão da sua existência. A segunda razão reside na finalidade subjacente a este livro: revelar o que os Valores, aliados a uma cuidada formação cultural e física, são capazes de produzir. E porquê


Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

esta finalidade? Porque estamos vivendo um tempo em que, tristemente, os valores foram sendo arredados da mente, da conduta e do relacionamento humano. Um tempo em que o dinheiro se sobrepõe a tudo o mais, destruindo o homem e as instituições que ele criou e comprometendo um futuro que, mesmo que disso façamos gala em escarnecer, sempre foi alicerçado no passado, tantas vezes construído com sofrimento e de forma bem árdua. Um tempo em que uma surda insensibilidade, aliada uma incontida e estranha pressa, esquecem ou substimam consequências irreparáveis ou que, pelo menos, deixam cicatrizes tão profundas que, mesmo que se julgue o contrário, vincarão para sempre a História com a desfaçatez, a irresponsabilidade e a arrogância de quem as causou. A obstinação preconceituosa, a imponderação, a indiferença para com o saber dos outros e a superficialidade que se prefere adoptar em nome de uma premência incompreensível, parecem afinal constituir os elementos essenciais que enformam conceitos e decisões dos tempos actuais. E alguns desses conceitos e decisões respeitam ao Colégio Militar, colocando em risco de colapso não só a invulgar obra que há já mais de dois séculos o Colégio realiza em proveito do país, mas também o seu enorme potencial em prol de uma educação e de uma pedagogia mais adequadas e exigentes, potenciadas por uma indispensável formação para a cidadania e para a liderança, uma e outras capazes de o levar a prosseguir na missão de despertar talentos, de estimular capacidades, de desencadear iniciativas e de servir Portugal, que disso bem precisa. Rememorar e prestar homenagem a estes 100 grandes e esquecidos portugueses, mas também à instituição que os formou, constitui o terceiro porquê deste livro. O Homem a quem no início do século XIX foi cometida a inovadora e exigente tarefa de criar o Colégio Militar – o então coronel de Artilharia António Teixeira Rebelo – com o seu espírito pragmático e rigoroso, estabeleceu desde logo o seguinte: “O fim principal desta instituição é não só criar homens sãos, robustos, vigorosos e capazes de servir

útil e gloriosamente a sua Pátria, mas também formar o coração e o espírito da mocidade para a tornar útil a si e aos outros”. Homem sensato e prudente, foi porém alertando que, «Quando os conhecimentos se não unem às virtudes e bons costumes, são muitas vezes mais perniciosos que úteis, quer àqueles que os possuem, quer à sociedade.» Por outras palavras, há 210 anos o Fundador tornou bem claro que os alunos do seu Colégio seriam formados para Servir. Servir a Pátria e a Sociedade. E que essa formação, alicerçada em Valores - que ele chamava de Virtudes - englobava Conhecimento intelectual, Robustez física e valorização Ética. Os antigos alunos que este livro exalta, parecem querer demonstrar-nos que o Fundador, pela obra que ergueu, definiu e nos legou, foi também ele próprio exemplo de «servir útil e gloriosamente a sua Pátria». Se ao longo da sua leitura atentarmos detalhadamente no percurso de vida destes «grandes portugueses», não será difícil nela encontrarmos presentes as virtudes que Teixeira Rebelo preconizava. São disso exemplos: - O «Amor à Pátria» e a «Coragem» de Henrique Prestrelo da Silva que, durante a 1.ª Grande Guerra, combateu primeiro no Destacamento do Cuamato, no Sul de Angola, e de seguida em França, no chamado “Sector da Morte”, onde a 9 de Abril, sob ameaça de envolvimento por numerosas forças alemãs, resistiu a quatro horas de extrema violência, durante as quais a sua Companhia sofreu meia centena de mortos e mais de uma centena de feridos, acabando por escapar à sua captura pelo inimigo. - O sentido do «Dever» de Nogueira Ferrão que na Guiné, em 1891, sendo emboscado em terreno descoberto por papéis que procuraram alvejar os graduados brancos, vê-se confrontado com a debandada dos soldados indígenas, mas continua a bater-se com denodo, conseguindo recolher o cadáver de um oficial, que transportou às costas, salvar um outro que havia tombado gravemente ferido, e ainda recuperar diversas armas. - O sentimento da «Honra» revelado em 1869 por António Maria Travassos Valdez durante uma operação contra Massangano, em que os destacamentos portugueses, sendo surpreendidos, se apoderaram de pânico pondo-se em fuga desordenada,

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acabando também os oficiais por perder o sangue frio. Aconselharam então Travassos Valdez a fugir face a realidade da derrota, mas este recusa tal desonra preferindo sim morrer de espada em punho e a combater. Tinha apenas 24 anos de idade. - A «Lealdade» de Carlos Benevenuto à causa liberal, que se vê demitido do Exército por um Conselho Militar miguelista. Emigra então para a Galiza e daí para Inglaterra onde se junta aos liberais ali refugiados. Em 1829, parte para reforçar a guarnição da Ilha Terceira e mais tarde integra as forças do Exército Libertador que desembarcaram no Mindelo, combatendo depois ininterruptamente até à Convenção de Évora Monte que pôs fim à guerra civil. - A grande «Dignidade» com que Francisco da Costa Leal exerceu o cargo de governador de Moçâmedes, para que foi nomeado em 1856, aí levando a cabo uma notável obra de desenvolvimento construindo um hospital, habitações salubres, promovendo várias indústrias, impulsionando a agricultura e abrindo a primeira estrada de toda a África portuguesa. - A «Honestidade» de Maldonado de Eça que, sendo comandante de Cavalaria n.º 4, quando em 1851 foi convidado a aderir à Revolta dos Marechais, recusou tal convite e demais ofertas, respondendo ao Marechal Saldanha: “Acima da amizade que me prende a V. Ex.ª, em mais alto valor tenho o cumprimento dos meus deveres de militar.” - O sentido da «Responsabilidade» e o «Respeito» para com os seus subordinados demonstrado por Sebastião Mascarenhas em 1869, quando era alto quadro da Companhia de Caminhos de Ferro. Tendo o ministro da tutela reduzido os ordenados de alguns empregados, o que achou uma enorme injustiça, pediu de imediato a demissão do cargo. Os funcionários logo lhe fizeram chegar às mãos uma exposição pedindo que não se demitisse e que fizesse constar ao ministro que, para continuarem a servir sob suas ordens, não só prescindiam do aumento de vencimento como estavam prontos para outros sacrifício que deles fossem exigidos.


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Dos Antigos Alunos Colégio Militar - Berço de Grandes Portugueses

- A «Abnegação» e a «Solidariedade» de Teixeira Branquinho em 1944, quando era secretário da embaixada de Portugal em Budapeste, que, perante a tragédia dos guetos e das deportações de judeus húngaros para Auschwitz, acolheu muitos dos judeus quer na embaixada, quer em duas casas sob a protecção desta, emitindo também passaportes provisórios para os ajudar a sair da Hungria. Apesar da censura e repreensão de Salazar, conseguiu-se salvar do holocausto cerca de um milhar de judeus húngaros. Num gesto de reconhecimento os nomes dos diplomatas Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho estão inscritos na Sinagoga de Budapeste, no edifício onde se localizava a embaixada e numa das duas “casas protegidas”. O mesmo não aconteceu em Portugal ? Existe por certo mais uma ou duas centenas de antigos alunos que poderiam figurar neste livro, mas a insuficiência de dados biográficos, ou o insucesso da pesquisa efectuada nas várias origens limitou de modo decisivo a sua inclusão, deixando-me com uma incómoda sensação de desalento, de amargura e de injustiça. Não me esqueci também que, no seio da comunidade de antigos alunos sobrevivos, existem e continuarão a existir outros “grandes portugueses” com a mesma estatura ou com estatura superior aos que figuram na obra que hoje se apresenta.

Deixo todavia a tarefa de os divulgar a algum antigo aluno das gerações mais novas que me venha a substituir nesta função. Mas voltemos ao tempo presente. Muitos dos nossos concidadãos, e até mesmo responsáveis nacionais, possuem um sentimento de instintiva rejeição dos estabelecimentos de ensino sob tutela militar. Porque entendem que o que é militar é mau, envolve uma ideia de ameaça à paz, e implica uma despesa absolutamente desnecessária. Há também quem argumente que a educação ministrada nos estabelecimentos militares de ensino impõe aos alunos e alunas um padrão de comportamento que decorre da exaltação e prática de virtudes de cariz militar, havendo até quem entenda que a existência de uniformes, de formaturas, de marchas e de desfiles com armas, corresponde a uma metodologia concebida para condicionar a liberdade. A este propósito, gostaria de recordar o que o Presidente António José de Almeida escreveu pelo seu punho numa visita que fez a esta casa em 1919: «O Colégio Militar tem isto de simpático: nele, o espírito militar não subalterniza o espírito civil, de forma que os rapazes saem daqui, a um tempo, soldados e cidadãos, como cumpre à Democracia que, não só pela força, mas também pelo prestígio, precisa de defender-se e progredir». Vindo de um republicano e democrata,

talvez este testemunho ajude a tranquilizar e a iluminar as mentes politicamente mais inquietas! É que a mais-valia destes estabelecimentos militares reside precisamente na singularidade de ministrarem um ensino e formação que garantem a união dos conhecimentos às virtudes e bons costumes, tal como preconizava o marechal Teixeira Rebelo. Apetece então perguntar: Preparar grandes portugueses será uma tarefa desprezível ou mesmo inconveniente para Portugal? E os Valores que guiaram as vidas destes 100 grandes portugueses constituirão na realidade um perigo para a nossa Sociedade? Como possível resposta, permitam-me que aqui recorde o que, há cerca de uns quatro anos, num programa televisivo, afirmou o falecido professor Hernâni Lopes a propósito dos valores, atitudes e padrões de comportamento que, no seu entender, “marcam uma determinada sociedade”. Afirmava ele que “Ninguém nasce com os valores aprendidos” e que “O que não se ensina não se sabe!”, para acrescentar de seguida: “Se não ensinarmos isto aos nossos filhos, de nada valem as medidas de política monetária”. No Colégio Militar ensinam-se esses Valores aos filhos dos portugueses há mais de dois séculos !

ANTIGO ALUNO USA A BARRETINA


Dos Antigos Alunos Antigos Alunos em destaque

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Antigos alunos

em Destaque

Miguel Tribolet de Abreu (66/1977) Por despacho de 15 de Janeiro de 2013 do Presidente do Instituto Superior Técnico, publicado no Diário da República 2.ª série, N.º 15, 22 de Janeiro de 2013, o Professor Miguel Tribolet de Abreu (66/1977) foi designado Coordenador do Mestrado em Matemática e Aplicações.

Nuno Eduardo Moura dos Santos da Costa Taveira (486/1974)

Um trabalho que poderá vir a contribuir para a produção de uma vacina contra o HIV, intitulado “Resistance to antibody neutralization in HIV-2 infection occurs in late stage disease and is associated with X4 tropism”, ganhou o Prémio Pfizer Investigação Clínica 2012, promovido pela Pfizer e pela Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. A investigação desenvolvida por uma equipa liderada por Nuno Taveira, antigo

aluno 486/1974, Professor Associado do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, e Investigador Principal na Unidade dos Retrovírus e Infecções Associadas do Centro de Patogénese Molecular da Faculdade de Farmácia de Lisboa, foi centrada nos mecanismos de controlo da infecção pelo HIV-2 por intermédio dos anticorpos neutralizantes, anticorpos que se ligam ao vírus e impedem a sua entrada nas células. Ao contrário do HIV1, a maior parte dos doentes infectados por HIV-2 não evoluem para SIDA mesmo sem tratamento com medicamentos antiretrovirais. Os mecanismos de protecção contra a progressão da infecção eram até aqui mal conhecidos. Na investigação que levou ao prémio Pfizer descobriu-se que a maior parte dos doentes infectados por HIV-2 produzem anticorpos neutralizantes muito potentes que são responsáveis pelo controlo da multiplicação viral e pela não progressão da infecção para SIDA. Também se descobriu que os anticorpos neutralizantes são dirigidos contra uma região relativamente conservada do invólucro do vírus. Esta investigação é um contributo importante para o desenvolvimento de uma vacina para o HIV-2, podendo também vir a ser útil no desenvolvimento de uma vacina para o HIV-1. No âmbito da investigação em HIV-1 que tem em curso, Nuno Taveira, refere: “O

que estamos a fazer actualmente é transpor as observações que fizemos com o HIV2 para o HIV-1. Neste contexto, estamos a desenvolver um projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia que tem por objectivo a produção e análise pré-clínica de uma vacina contra o HIV-1. Estamos prestes a imunizar os ratinhos com um conjunto de proteínas que possuem o que pensamos ser a região alvo dos anticorpos neutralizantes no HIV-1. Em meados de 2013 saberemos se os animais produzem anticorpos neutralizantes com a mesma potência que detectámos no HIV-2”. Instituído em 1955, o Prémio de Investigação Pfizer é uma iniciativa desenvolvida em conjunto com a Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa (SCML) e o seu principal objectivo é contribuir para a dinamização da investigação em ciências da saúde em Portugal.


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Dos Antigos Alunos Prémios Barretina 2012

Prémios Barretina 2012 Pelo seu significado e para memória futura, registamos as diversas intervenções dos agraciados com os Prémios Barretina 2012, proferidas no Jantar Anual da Associação que teve lugar no Pestana Palace Hotel no passado dia 30 de Novembro de 2012. Palavras proferidas pela agraciada com o Prémio Barretina 2012 / Amigos do Colégio Militar

Maria Isilda Lourenço de Oliveira Pegado Senhor Presidente da Associação de Antigos Alunos do Colégio Militar, Quero em primeiro lugar cumprimentá-lo e na pessoa de V. Exa. toda a Direcção da Associação, por nas vossas mãos estar depositada a condução de uma Instituição única, ímpar em Portugal – Os Antigos Alunos do Colégio Militar, cujo peso na sociedade é universalmente reconhecido. Mas permita também que vos felicite pela ousadia, audácia e até irreverência que constitui o desafio de aqui trazer uma mulher, uma mãe, para receber este prémio. O nosso apreço e estima por tão arrojado passo. Caros amigos, É para nós uma subida honra estar hoje a receber este prémio por muitas e variadas razões, que seguramente não seremos capazes de verbalizar. Assim, e em primeiro lugar essa honra deriva da adjectiva natureza do prémio – Amiga do Colégio Militar. Mas também porque o prémio não é só meu. Este “Prémio Barretina” é acima de tudo do meu marido, o Eduardo, antigo aluno 205/1969 que sabiamente me introduziu nesta aventura de ser mãe de alunos do Colégio Militar. Tudo o que fiz (seguramente pouco e imperfeito da minha parte), fi-lo porque o Eduardo me ensinou, ajudou e apoiou. A exposição pública resultou apenas e tão só, de uma questão de “logística”. O Eduardo tem cirurgias para fazer … “alguém tem de ganhar dinheiro” (costumo dizer!). Então, eu apareço publicamente… Agradeço a Deus que me fez mãe de 4 rapazes. São o ar que respiramos… As nossas intervenções resultaram sempre e em primeiro lugar do facto de ser mãe, nas circunstâncias concretas da nossa vida, do nosso tempo e do Colégio. Só sei falar e estar no Colégio como mãe. Por isso, este prémio é também para todas e cada uma das mães que naquele dia de Setembro ou Outubro deixa o filho no Colégio Militar com os olhos carregados de lágrimas… É uma aventura, mais, é um sufoco ser mãe de aluno do Colégio. É excelente ser mãe de “antigo aluno” ou tia, ou amiga, de antigos alunos. Muito tem sido o carinho, a amizade, as boas horas passadas com os amigos do Eduardo ou dos meus filhos. Na verdade, é preciso dizê-lo, os alunos do Colégio têm “marca” – são uns Senhores – o aluno do Colégio em qualquer circunstância, sabe ser um Senhor. Obrigado a todos. Uma palavra para o Colégio. O Colégio, tal como a casa dos pais, é o local de partida para a Missão – a vida profissional que se abraça, a família que se vai construir, o círculo de amigos que vai granjear – missão que cons-

trói e se espelha na vida adulta e, onde deve reflectir-se, em larga medida, esta “mística cultura” a que se chama – Colégio Militar. Por isso, temos verificado que ser antigo aluno, carrega necessariamente uma especial responsabilidade e arrojo nos actos, impõe exigência de brio e aprumo, e … toneladas de esperança em todas as circunstâncias da vida. Foi por ter encontrado no Eduardo e nos seus/nossos amigos antigos alunos (que também estão neste prémio) este sentido de vida que não hesitamos (embora muito ponderado e suado) em seguir esta tradição de família e assim pedir ao Colégio Militar que nos ajudasse a educar os nossos filhos. Temos para nós que o Colégio Militar, pese embora tenha nascido (1803) numa época de Revolução (a Francesa e o pronuncio do Liberal em Portugal) nunca o Colégio foi pela revolução – O Colégio soube ser sempre pela progressão, evoluindo nos desafios que se lhe apresentam. Hoje, uma época perturbada e de mudança, estamos certos que o Colégio saberá ter a mesma chancela de progresso e adequação à realidade. O progresso é uma exigência do coração do Homem, porque todos queremos deixar “marca” e participar na criação. O Colégio tem sabido fazer progresso, tem sabido mostrar o valor da sua obra, por isso tem mais de 200 anos. Quando em 2003 (por altura das Comemorações do 2.º Centenário) discursamos na Assembleia da República sobre o Colégio Militar, no final da intervenção todas as bancadas, repito, todas as bancadas, da esquerda à direita, aplaudiram de pé. Não eram as nossas palavras a fonte do aplauso. O aplauso era necessariamente para o Colégio Militar e os seus 200 anos a servir Portugal. A este propósito, deixem-me recordar o discurso nas Comemorações do 1.º Centenário – 1903 – do então director do Colégio – General Morais Sarmento – que perante a Família Real disse (resumidamente e se a memória não me falha) “O Príncipe Real enverga como uniforme de gala a farda colegial, apenas e tão só porque nessa farda estão representados os engenheiros saídos do Colégio, que constroem pontes e estradas no País, os ministros que são antigos alunos, os arrojados, e sábios militares que servem o exército, os professores que saídos do Colégio fazem novas escolas, algumas delas superiores. O País conhece os alunos que saem do Colégio Militar”. Caros amigos, o Colégio hoje como ontem, vale pelos homens que dá à sociedade, tal como o então Director Morais Sarmento disse. Não podemos aceitar outras contas… Servir o Colégio e esta tradição é uma honra. Nas nossas modestas intervenções públicas, o objectivo foi sempre o de servir, não por uma questão ideológica, mas apenas e tão só como consequência da maternidade que nos foi dada e da perten-


Dos Antigos Alunos Prémios Barretina 2012

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ça a uma casa que sentimos nossa e a uma vida que nos pertence. Sim, o Colégio é parte da nossa vida. Há muitas formas de viver o Colégio, e todas podem e devem ser úteis (alunos, antigos alunos, professores, militares, pais…). Ao receber este “Prémio Barretina” termino com um voto de esperança para que em Portugal haja sempre orgulho em envergar na lapela a barretina. Portugal precisa do Colégio. Obrigada.

Na apresentação da Drª Isilda Pegado, foi projectado o filme da sua intervenção como Deputada à Assembleia da Republica, no dia 19 de Fevereiro de 2003, por ocasião do bicentenário do Colégio. Pelo que ele encerra e para registo na ZacatraZ, transcrevemos as palavras então proferidas e que foram aclamadas por todas as bancadas parlamentares.

Exmo. Sr. Presidente Exmos. Srs. Deputados No corrente mês de Fevereiro decorrem as comemorações do bicentenário da fundação do Colégio Militar. Foi em 1803, que o Comandante de uma unidade militar, sentiu necessidade de dar formação e colaborar na educação dos filhos daqueles que consigo trabalhavam e onde resultava uma companhia recíproca. Esse sentimento de entreajuda e amizade levou o Marechal Teixeira Rebelo a ampliar a sua obra inicial, projectando-a naquilo que é hoje, uma realidade de ensino actual, e á disposição de quem o escolher para a educação dos filhos.Falar do Colégio Militar é congregar á nossa volta um misto de apreço, estima, saudade e louvor. Fundado por um educador nato, teve desde a sua génese o objectivo de proporcionar aos rapazes uma formação integral, sólida e orientada por valores como a lealdade, a honra, a camaradagem, o brio, o espírito da missão e o reconhecimento de mérito. Nestes 200 anos muitos foram os que, também por virtude da formação recebida no Colégio Militar se notabilizaram na vida nacional. Porque são os homens que fazem as Instituições, todos os alunos sabem de cór que cinco Presidentes da República foram ex-alunos, bem como o extenso rol de outras individualidades que a sociedade portuguesa homenageia em centenas de ruas, praças e outros lugares públicos, por se terem distinguido no campo das ciências, das artes (quantos poetas e músicos), do desporto e até da política. Numa época em que, Portugal se confronta um forte mal-estar social com os resultados obtidos no ensino, nomeadamente do 5º ao 12º ano de Escolaridade, o Colégio Militar constitui uma excepção e é visto como um modelo de educação que carrega consigo valores de excelência reconhecidos publicamente. Os portugueses habituaram-se a respeitar e a admirar o Colégio Militar, não só pelos alunos – os “meninos da Luz” – que todos os anos vêm desfilar, descendo a Avenida da Liberdade até aos Restauradores, com o garbo de um verdadeiro batalhão, prestando homenagem aos fundadores e continuadores do Colégio e da Pátria, mas também pelos seus antigos alunos, que, uma vez deixado o Colégio, os-

tentam com orgulho, na lapela do casaco, a famosa “barretina” símbolo de uma pertença institucional e de uma camaradagem que trespassa gerações. Perguntar-se-á a que se deve tal sucesso. Incapazes de responder, somos no entanto tentados a apontar o que nos parece mais significativo: É uma escola com identidade e cultura próprias, portadora de um projecto educativo singular, claro para os pais e famílias que optam por esta Instituição que consigo colabore na educação dos filhos. E ainda, a honra com que os ex-alunos ostentam a sua formação. Como escreveu o Prof. Manuel Braga da Cruz, são poucas as instituições de ensino em Portugal com tamanha longevidade. Não porque o tempo da sua Fundação não tenha já a distância necessária que o permita, mas porque a sanha destruidora da tradição, que tantas vezes emerge na nossa história, impossibilita que as instituições, sobretudo aquelas que mais contribuem para a nossa identidade nacional, adquiram a espessura necessária para garantir uma inovação continuada. Contudo dessa longevidade não resulta em estagnação mas sim permanente adaptação aos tempos modernos conferindo-lhe uma actualidade sempre presente de 1803 a 2003. O Colégio Militar é, deste ponto de vista, uma raridade nacional. O Colégio Militar tem um futuro porque tem um passado. O Colégio é por isso comparável aos grandes colégios que noutros países da Europa se afirmaram como escolas de elite – não elite de origem, mas de destino. O Colégio Militar tem símbolos de identificação, desde o estandarte ao emblema ao peito, passando pelo hino. O Colégio Militar é uma instituição com paternidade pessoal. Sabe quem o fundou e venera a sua memória inspiradora. Tudo isto faz dele uma instituição de referência, distinta e singular. O Colégio Militar está aí a demonstrar que um projecto educativo de valor só se consegue com valores. Claramente definidos e que permitam ás famílias, em liberdade, escolher a educação dos filhos. Nos dias que correm, são fortes as vozes que defendem a neutralidade da Escola em matéria de valores, como se fosse possível educar sem ser para os valores e por valores. O pluralismo educativo tem necessariamente que ser um pluralismo institucional, de escolas com projectos inspirados por valores.

Nota da Redacção


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Dos Antigos Alunos Prémios Barretina 2012

Palavras proferidas pelo agraciado com o Prémio Barretina 2012 / Associação – Colégio Militar no Mundo

Entre os valores que inspiram o projecto educativo do Colégio Militar, e explicam o seu sucesso, está seguramente a visão global do homem que se pretende formar, feito de razão e de emoção, de corpo e de espírito, de valia intelectual e moral. É tanto quanto nos cumpre politicamente valorizar. Lembrando que em tempos próximos os ataques á instituição Castrense e ao Colégio Militar ditavam a sua sentença de morte. Tempo de má memória para todos os meninos da luz. A nossa postura é de valorizar o que há de bom. Daí, a importância de reforçar e avivar a memória dum passado glorioso, duma tradição única no País, mas sobretudo como demonstração de uma experiência de sucesso, portadora dos segredos que poderão contribuir para a reformulação do nosso panorama educativo e ajudar a que outras instituições, de diferente perfil, possam igualmente afirmar-se como escolas de excelência. Muito haveria para dizer do Colégio Militar, no entanto, a emblemática condecoração do Estandarte Colegial da Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, diga-se a mais alta condecoração nacional, fala por si. Não podemos por isso, deixar passar esta efeméride dos 200 anos do Colégio Militar, sem fazer aqui, na Casa da Democracia. O nosso Louvor, a todos os que ao longo de 200 anos fazem o Colégio Militar dentro e fora dele. O nosso regozijo pelos frutos que o Colégio Militar tem dado á sociedade. O nosso estímulo pessoal e político para que o Colégio Militar celebre o 3º Centenário que já começou. Resta-nos terminar invocando as Famílias que encontram no Colégio Militar uma opção de escolha para a tarefa, nem sempre fácil, da educação dos seus filhos. Como diz um pensador transalpino a genialidade de uma família está nos colaboradores que escolhe para a educação dos seus filhos. Muitas famílias têm revisto no Colégio Militar a ajuda preciosa nesta, porventura a mais, nobre função que é educar. De uma forma simbólica deposito o nosso bem hajam á Família Colegial em todas as mães que anualmente naquele dia de meados do mês de Setembro deixam os filhos no Colégio Militar com os olhos carregados de lágrimas por uma dor ainda umbilical mista de incertezas de esperanças e de alegrias. Disse

Essência das palavras proferidas pelo agraciado com o Prémio Barretina 2012 / Notoriedade

João Maria Centeno de Gorjão Jorge (Rão Kyao) Antigo Aluno 147/1959

As inúmeras tentativas realizadas no sentido de procurar que o João Gorjão Jorge traduzisse a escrito a sua intervenção, não resultaram. Aqui fica o registo da essência das palavras proferidas de improviso pelo Rão Kyao. Na sua breve comunicação relembrou os seus tempos do Colégio e manifestou o grande apreço e satisfação pela distinção que lhe foi concedida ao ser galardoado com o Prémio Barretina 2012.

António Pedro Feio Ribeiro Mateus Antigo Aluno 57/1970

Nelson Mandela costumava-nos contar, que a sua dedicação aos seus princípios, é de tal forma telúrica, que quando morrer se dirigirá a São Pedro para lhe perguntar onde fica a delegação mais próxima do ANC, e se alistar ali como filiado da sua organização. Era uma anedota-verdade, por ele citada em candura, para nos traduzir o valor que para ele têm os princípios, a verticalidade, o respeito por algo mais elevado do que as nossas fragilidades individuais. O homem por tantos hoje em dia mitificado, como um semi-deus, não se cansava de nos repetir que, quando muito, era um pecador que continuava a tentar ser melhor. No homem disciplinado, sempre pontual, rigoroso, humilde e atento que eu conheci... reconheci o melhor dos valores que a casa - onde todos nós nos tornámos irmãos ¬semeou em mim. Em cada um de nós. O conceito zulu de Ubuntu; “sou porque tu és”, soa-vos familiar a vós? Irmãos do; Um por todos, todos por um”? Só pode ser não é? Porque é aquilo que nos foi gravado, que nos tornou família extensa para o resto das nossas vidas. Com todas as imperfeições, quezílias e amuos que possa ter. Mas também com todo o somar de luz por ela arrastado. Quando falo de família extensa, incluo nela os Mocas deste mundo, mais conhecidos e reconhecidos, entre nós. Mas gostava também de trazer-vos aqui o exemplo do Marinho, esse maqueiro que salvou a vida do meu mano, 169/1971. Já de noite, o Marinho insistiu que o Nuno, outro galardoado com uma barretina de ouro, fosse levado já de noite ao HMP, quando o sargento de serviço lhe prescrevera uma aspirina para as dores de uma septicemia. O Marinho dedicou toda a vida ao Colégio e sonha, um dia, vir a ser antigo aluno honorário. No meu coração já o é ... deixo-vos a proposta. Uma palavra, final, para o meu pai, Coronel João Mateus, antigo aluno, homem de coração bom, de princípios e honra, cujo nome eu tento merecer todos os dias. Palavras proferidas pelo agraciado com o Prémio Barretina 2012 / Desporto

João Paulo de Castro e Silva Beja Antigo Aluno 200/1957

Agradeço à Associação dos Antigos Alunos do nosso Colégio e à sua Direcção esta atribuição do Prémio Barretina do Desporto que muito me honra. Os meus camaradas de curso, principalmente os “200 Bessas” das patrulhas que guardo no coração, saberão bem quanto significa para mim. E também saberão do seu significado alguns amigos oficiais de então - como Nuno Cepeda ou como Pinto de Menezes, o querido Menau, que gostaria de o saber se cá estivesse connosco. Agradeço também este prémio ao meu Pai que desde muito cedo me comunicou o gosto pelo mundo do Desporto que se iria tornar na água-forte que desenha toda a minha vida. Obrigado Pai. E agradeço também a todos os treinadores, colaboradores, com-


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panheiros de equipa, dirigentes e a muitos adversários com quem fiz a minha carreira desportiva. ... Mas ainda fui com a minha avó à costureira. Fiquei - claro! - a olhar para a janela e vi, lá ao fundo, uma curva e um bocado de recta de uma Pista de Atletismo. Fiquei fascinado. E lá terão começado os sonhos. Tempos depois, ao lado do meu Pai e quando ia fazer os exames de aptidão ao Colégio, soube-o depois, no Ginásio colegial, vi a nossa Pista de Atletismo e percebi, logo ali e acima de qualquer dúvida, que queria ficar no Colégio. Pelo ligeiro sorriso que guardo do meu Pai, sei Desenhado a dedo e ponta de borracha em ipad, João Paulo Bessa que percebeu as minhas razões. Com o que sei hoje de Desporto e dos seus sistemas - e sei bastante - não tenho nenhuma dúvida em o afirmar: frequentei uma das melhores escolas de formação desportiva do mundo da altura. O que no Colégio então se fazia era ainda comparável aos melhores sistemas de formação que hoje servem o desenvolvimento desportivo internacional. Á frente do método e do sistema de então lembro Pereira de Carvalho, o “Porco”. Dessa equipa faziam parte Mário Lemos, meu treinador de Atletismo e Voleibol; Reis Pinto na Ginástica e com quem aprendi os inícios gímnicos da Classe Especial; Nuno Vitória e Abranches de Sousa, meus treinadores de Andebol; Luís Sequeira, meu treinador de futebol e de quem fui “capitão de equipa”. E lembro ainda com amizade o Chico das Bolas que nos garantia a qualidade das bolas com que jogávamos e o Carranço que nos entregava equipamentos cuidados como para verdadeiros profissionais. E lembro ainda, nos cavalos, o Manel Cerqueira que, no meio do volteio, me ensinou para a vida que “serviço era serviço, conhaque era conhaque!”; o Manuel Rodrigues, o “Manecas” e o Milho Ferro que eram responsáveis da Escolta a Cavalo a que pertenci. Também não esqueço o Calisto da Esgrima e as tentativas que fazíamos para jogar Ténis no Ginásio com a impossibilidade de bater em bolas que deslizavam agarradas ao chão... Por Último e por mais próximo do coração lembro o enorme Dario Fernandes cuja Competência - transformou a nossa Classe Especial numa Classe de Excelência - Sentido Humano e Amizade me marcam as saudades para sempre. Para com todos eles tenho uma divida de gratidão. Não éramos atletas de Pentatlo Moderno sem sabermos que isso existia... e o método formativo era tão bom que nos permitia ambicionar tudo. Sem que a modalidade nos fosse alguma vez ensinada, conseguimos formar, onde também estou, uma Selecção Nacional de Rugby com antigos alunos que foram internacionais. Como também , no Rugby, me junto nos quatro seleccionadores nacionais antigos alunos. Assim como temos campeões noutras moda-

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lidades desportivas ou treinadores de grande sucesso. Todos antigos alunos do nosso Colégio. Todos fruto de um ensino extraordinário. A formação desportiva do nosso Colégio era, no meu tempo, formidável. E também graças a isso posso estar aqui a receber este Prémio Barretina. E é por muito dever ao nosso Colégio que quero ainda dizer alguma coisa sobre o actual momento colegial. “Todo o mundo é composto de mudança”, avisou o poeta Camões e cantou-o o trovador José Mário Branco. O meu Colégio, o Colégio do nosso tempo, mudou! Já nada é como foi. Aceito, naturalmente, a mudança. Mas gostaria que essa mudança - sendo composta como a vida mandar - me deixe as referências que permitam que a minha memória possa ter um espaço real de representação e encontro. Por isso, para que isso seja possível, é que se dá importância ao património físico e cultural - para que a memória se mantenha viva nessa misteriosa e churchiliana “cadeia dourada” que dá sentido e continuidade às nossas gentes. Já bastou a falta de cultura e inteligência que levou á destruição do Edifício das Ciências de notável escadaria. Já bastou a insensibilidade incapaz de integrar a incomparável luz do Pavilhão de Desenho numa nova função, numa nova forma, num novo espaço. O que espero, o que desejo, o que quero, é que a inteligência, a capacidade da força da nossa resistência se for caso disso, nos garanta, seja qual for a mudança, o espaço de vivência dos zacatrazes da nossa memória.

Viva o nosso Colégio! Viva o Colégio Militar! Nota da Redacção

O João Paulo Bessa enviou-nos o interessante desenho que reproduzimos no texto das suas palavras e que se relaciona com o que disse. Palavras proferidas pelo agraciado com o Prémio Barretina 2012 / Amor ao Colégio Militar

António Francisco Martins Marquilhas Antigo Aluno 67/1944

Sem papel e para não vos prender muito tempo direi: Vou falar-vos como o fazia aos meus soldados … escancaro o peito, liberto a alma e falo com o coração. Quando o nosso amigo Presidente da Direcção da AAACM, 529/1963 António Reffóios, me telefonou a comunicar que me tinha sido atribuído o prémio Barretina fiquei perplexo e perguntei: eu? Mas porquê? Porque tinha sido considerado na área dos que são símbolo do amor ao Colégio. Agradeci emocionado, transmiti-lhe o quanto me honrava a escolha, prometi que aqui estaria hoje para receber essa honraria e depois de nos despedirmos fiquei pensando e passando em revista todos estes anos que se haviam passado desde o dia em que envergara a farda cor de pinhão. Como me sentira feliz. Já lá vão 68 anos e lembro-me muito bem do meu bom amigo e graduado de duas estrelas, o 26, Fragoso me selar a barretina e dizer-me: agora já és um menino da Luz. Tive momentos semelhantes de grande alegria há 43 anos quando o meu filho e há 14 o meu neto viveram como eu tinha vivido


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aquela emoção que todos conhecemos, quando passámos a integrar o Batalhão Colegial. Pensando nestes factos e aliando-os à minha vivência feliz nos anos que passei no Colégio, aos amigos que fiz e que sempre foram verdadeiras amarras a esta vida terrena e corporizaram a camaradagem que nos ensinaram no Colégio, ao frémito que sempre senti quando passava nos Claustros ou nas cerimónias a que ali assisti ao longo dos anos, dei por mim a julgar que o meu amor ao Colégio sendo igual ao que tantos outros de vós sentem, foi notado e daí este inesperado reconhecimento. Não me alongarei porque o serão vai demorado, mas não quero deixar de vos dizer, que neste momento sou um antigo aluno feliz, orgulhoso por me terem atribuído este prémio Barretina que considero como um “Óscar dos Claustros”, mas que do coração quero partilhar com todos vós. A Barretina que todos usamos ao peito é a prova do nosso amor ao Colégio o sinal de com orgulho pertencer a esta grande Família que hoje me brinda desta forma. As vossas palmas significaram para mim, como há 68 anos o fizera o 26 Fragoso, o selo que qualquer Barretina exige nas nossas tradições. Assim a guardarei nas minhas recordações. Bem hajam. Palavras proferidas pelo agraciado com o Prémio Barretina 2012 / Dedicação

Fernando Edgard Collet-Meygret de Mendonça Perry da Câmara Antigo Aluno 143/1940

Agradeço ao Presidente da Direcção a atribuição deste prémio, agradecimento extensivo a todos os membros dos Órgãos da AAACM por ele consultados sobre a sua proposta e que a apoiaram por unanimidade. Permitam-me, contudo, expressar a minha opinião sobre a justiça da decisão tomada, pela dificuldade que apresenta a valorização do mérito em apreço. Estou plenamente convicto que todos os presentes ou que nos acompanham em espírito, têm pelo nosso Colégio o mesmo apreço e a mesma dedicação que me é atribuída. Apenas a oportunidade de os revelarem, numa grandeza ponderável, é que pode não ter ainda surgido. Mas a vossa presença aqui hoje revela bem o potencial do reconhecimento e de dedicação que todos temos pelo Colégio, cientes que a razão de tal é baseada na experiência pessoal de cada um de nós e em mais de dois séculos de História da nossa Pátria pela qualidade e quantidade de testemunhos dados por Antigos Alunos. Não são fáceis os tempos que decorrem para o CM como não o foram por diversas vezes ao longo do seu percurso desde 1803. O CM sobreviveu por mérito próprio a crises que a Nação atravessou. Uma vez mais, argumentos políticos, educativos, militares, sociais, económicos surgem como ameaças à existência do CM e ao seu perfil educativo que se mantêm fiel aos que o fundador, o Marechal António Teixeira Rebelo ditou. A alocução hoje proferida pelo Presidente da Associação a todos nos deixou tristes e preocupados sobre a pretendida reforma do CM e a situação que parece ser encarada pelo Governo dentro

de um conceito geral de globalização dos três Estabelecimentos Militares de Ensino – o Colégio Militar, o Instituto de Odivelas e o Instituto Militar dos Pupilos do Exército Palavras proferidas pelo agraciado com o Prémio Barretina 2012 / Dedicação

João Salgueiro Pinto Ribeiro Antigo Aluno 47/1935

Caro Presidente da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar Caros Camaradas e generosos Amigos Agradeço à Direcção da Associação a atribuição deste Prémio Barretina de Dedicação ao Colégio, a nossa Casa Mãe, que servi com o maior gosto e com todo o meu empenho. Recebo este prémio com o maior prazer, por ver a Associação reconhecer que cumpri o meu dever para com o Colégio. Ao receber este prémio quero recordar três distintos Directores do Colégio com quem tive o privilégio de servir nos anos de 1975 a 1980. O primeiro Director foi o General Jaime Banazol, que assumiu a direcção do Colégio em Julho de 1975, em pleno «Verão Quente» do período então designado por «Processo Revolucionário em Curso». Com o seu rigor, ponderação e autoridade natural, verdadeiramente exemplares, conseguiu que o Colégio não fosse afectado pela onda de grande tensão que o país então atravessou. A ele o Colégio muito deve. Ao seu filho, o José Banazol (631/1968) aqui presente, envio uma saudação muito especial. O segundo Director foi o General Joaquim Cavalheiro, aqui presente, que iniciou as suas funções na sequência da morte do General Banazol. Com este Director eu estava condenado a entender-me bem, pois fomos companheiros de turma durante todo o nosso curso no Colégio. Promoveu as comemorações dos 175 anos do Colégio, que decorreram com grande brilho, sendo no seu mandato inaugurado o Museu Colegial nas suas actuais instalações. Deixou uma marca indelével no Colégio, apesar do curto período em que foi Director. O terceiro Director foi o General Fernando Perry da Câmara, igualmente aqui presente, cujos currículos académicos e militar o habilitavam particularmente bem para o desempenho das suas funções no Colégio. Foi também ele um excelente Director, cuja acção não é demais realçar. Promoveu a reposição da qualidade pedagógica com o aperfeiçoamento do corpo docente, reformulou e aperfeiçoou a formação militar dos alunos e impulsionou decisivamente a melhoria e a ampliação das instalações colegiais, incluindo as da Feitoria. O seu mandato ainda hoje é recordado. Quero ainda agradecer a dois camaradas e amigos que sempre em mim confiaram e que estão na base da colaboração que prestei à nossa Associação. São eles o Rui Figueiredo de Barros (62/1936), que cumpriu dois mandatos com Presidente da Direcção da nossa Associação, e o Mário Margarido e Silva Falcão (314/1936) Vogal de sucessivas Direcções da Associação e Director da nossa Revista. Termino desejando à Direcção da Associação os maiores sucessos e desejando ao nosso Colégio a continuação da sua acção educadora exemplar por muitos mais anos.


Dos Antigos Alunos Entrevista a António Calado

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Entrevista conduzida por João Carlos Agostinho Alves (110/1996)

Entrevista a

António Pedro Gomes Calado (496/1996) António Pedro Gomes Calado entrou para o Colégio em 1990, com o número 55. Saiu em 1998, tendo sido três estrelas da 1ª Companhia no último ano. Após concluir a Licenciatura em Engenharia do Ambiente e o Mestrado em Sistemas de Informação Geográfica, integrou a equipa da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental, projecto no qual ainda se mantém actualmente.

ZacatraZ - Entraste para o Colégio em 1990, já lá vão mais de 20 anos. Qual a motivação na altura? Tens historial de antigos alunos na família ou foste um pioneiro? António Gomes Calado - Já lá vai o tempo. Em termos familiares o único historial que tenho é um tio que andou no Colégio mas o meu pai, sendo militar, tinha vários camaradas antigos alunos e foi mais por aí que ele na altura achou que o Colégio seria a melhor formação que poderia dar aos filhos. Da minha parte, a opção foi um pouco menos racional, mas para um miúdo de 10 anos também não se espera grandes reflexões sobre o assunto. O que me cativou bastante numa visita ao Colégio foram os campos de jogos e os cavalos, que eram uma paixão na altura. ZacatraZ - E como descreverias os teus tempos de Colégio? Quais são as memórias que guardas? António Gomes Calado - Os tempos do Colégio são tempos que guardo com bastante saudade. Foram tempos desafiantes e intensos, que permitiram a criação de uma matriz para a minha vida. Uma ma-


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Dos Antigos Alunos Entrevista a António Calado

António Gomes Calado - Já na fase final do curso comecei a tirar uns estágios durante as férias de Verão, tendo feito dois na Portucel, em Setúbal, e um na Tabaqueira, em Albarraque, este já após concluir o curso. Depois de finalizar os estágios estive envolvido em dois processos de recrutamento, até à fase final e acabei por ter de optar por um deles. E foi por aí que entrei na EMEPC, na fase embrionária do projecto quando essa estrutura era constituída apenas pelo responsável, uma secretária e quatro bolseiros em que eu era um deles.

triz de valores mas não só, também uma matriz de pessoas que ainda hoje tenho o prazer de conviver muito frequentemente pois são parte significativa do meu grupo de amigos mais próximos. Acho que ainda consigo guardar muitas memórias das múltiplas coisas que foram acontecendo ao longo dos 8 anos. Começando naturalmente pelas coisas boas, passadas em conjunto com o resto do meu curso, e naturalmente também do último ano, em que exercendo as funções de graduado, damos o nosso melhor para transmitir o máximo que sabemos para os mais novos aprendendo imenso nesse processo.

ZacatraZ - A tua participação no projecto de extensão da plataforma continental foi talvez o projecto de maior destaque em que estiveste envolvido. Mas e até lá, que estiveste a fazer?

ZacatraZ - E agora sim, a missão de extensão da plataforma continental! Já estas envolvido nela há alguns anos e chegaste inclusivamente a escrever um artigo sobre ela para a nossa Revista. Como têm corrido as coisas desde então? António Gomes Calado - Na altura em que escrevi o último artigo para a revista

ZacatraZ - Ao terminares o Colégio que caminho seguiste? Sentiste o chamar de alguma vocação ou foi mais uma aposta em algo que achaste que irias gostar? António Gomes Calado - Depois de terminar o Colégio, acabei por tirar a licenciatura em Engenharia do Ambiente e mais tarde tirei um Mestrado em Sistemas de Informação Geográfica. A licenciatura acabou por surgir um pouco no seguimento da minha forte ligação com o meio ambiente, da afinidade com os animais e da preocupação com o seu bem-estar. O mestrado já surgiu como uma ferramenta associada ao trabalho que estava a fazer no local onde trabalhava, a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC).

Área da Extensão da Plataforma Continental reclamada junto da ONU


Dos Antigos Alunos Entrevista a António Calado

estávamos em fase final na elaboração do relatório, para entregar às Nações Unidas, como tal ainda não haviam resultados finais que podessem ser mostrados. Actualmente esse projecto já foi submetido, em Maio de 2009. Falando de forma geral sobre o que foi apresentado junto das Nações Unidas, Portugal reclama actualmente uma área de extensão da plataforma continental de cerca de 2.000.000 km2 para além da Zona Económica Exclusiva, o que significa que ficaríamos com uma área de jurisdição de cerca de 4.000.000 de km2 (ver figura). Esta área equivale a cerca de 41 vezes a área emersa de Portugal. De relembrar que a área de extensão da plataforma continental confere soberania exclusivamente ao recursos existentes no solo e subsolo, excluindo a coluna de água. O projecto de extensão continua actualmente a ser melhorado pela EMEPC, uma vez que este ainda não foi apreciado pelas Nações Unidas. Até esta avaliação se iniciar, os Estados podem apresentar novos dados que alterem ou sustentem melhor o que foi apresentado no projecto inicial. A avaliação por parte das Nações Unidas prevesse que aconteça entre 2014 e 2015. Até lá continuamos a trabalhar na recolha

e processamento de dados, que suportem o melhor possível os pilares da proposta portuguesa. Por outro lado estamos também a recolher novos dados, de forma a percebermos se em algumas zonas podemos ou não reclamar novas áreas de solo e subsolo marinhos.

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que estamos a fazer algo de muito relevante para o futuro do país, tornando-o maior, não só literalmente maior em termos de dimensão, mas talvez ainda mais importante maior no que diz respeito às potencialidades que o projecto certamente trará para Portugal.

ZacatraZ - Qual é o balanço então de toda esta experiência e que projectos fazes para o futuro? António Gomes Calado - O balanço de toda esta experiência é altamente positivo. Em termos de evolução pessoal foram anos de desafios constantes, sempre num processo de aprendizagem numa área altamente motivante e desafiadora. Especificamente em relação ao ROV LUSO e à gestão da equipa de pilotos, que é a área que me diz directamente respeito dentro das EMEPC, é muito motivador a criação de uma equipa altamente especializada nesta área pioneira em Portugal, que está na linha da frente em termos internacionais e é naturalmente um grande motivo de orgulho exercer esta função. Por outro lado o próprio projecto é um projecto muito gratificante pois sentimos

ASSEMBLEIA GERAL DE 12 de Outubro de 2012 Síntese Rogério Fernando Sequeira Taborda e Silva (92/1940) enviou à Redacção uma carta onde solicitava uma rectificação à síntese/ notícia que foi publicada na ZacatraZ 189, relacionada com a Assembleia Geral da AAACM realizada em 12 de Outubro de 2012, solicitação que a seguir se regista e se reproduz tal como foi recebida: Onde se lê: “ ... pediu o João Sequeira (70/1942) a admissão igualmente a votos de uma moção tendo por objetivo pedir a anulação do Des-

pacho do Ministro da Defesa Nacional n° 11863/2012 de 29AGOST02012 ... “: Deverá ler-se: Foi apresentada à Mesa da Assembleia uma moção subscrita pelos ex-alunos: 92/40 Rogério Taborda e Silva, 70/40João Sequeira e 15/45 Roberto Durão com a proposta de mandatar a Direção da AACM “ visando o estabelecimento de uma estratégica de ação tendo prioritariamente como objetivo a revogação do Despacho do Ministro da Defesa Nacional

(Despacho n° 11863/2012 de 29AGOSTO). A admissão a votação foi recusada por maioria. Nota da Redacção A síntese/notícia que foi publicada, tal como o seu nome indica, não é a Acta da Assembleia Geral. Trata-se apenas e tão só de informação sucinta, tal como aconteceu em Assembleias de anos transactos, inserida nos números da Revista que se publicam imediatamente a seguir à realização dessas mesmas Assembleias.


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Dos Antigos Alunos Menino da Luz

Menino da Luz

A frontalidade na defesa dos seus ideais O que mais me aliciou e tocou no recente número da nossa revista ZacatraZ (189 de Outubro/Dezembro) que muito apreciei foi, no artigo bastante completo do Pedro Garrido da Silva (53/1961) «Os antigos alunos e a política», o que escreveu sobre o António Lucas da Costa Brotas (30/1940), em especial o que este disse em sua defesa, em 1956, por discordar do Estado Novo. De forma exemplar o fez, como Menino da Luz que foi e é. Tudo quanto disse devia ficar gravado a letras de ouro na nossa Revista ou no Museu Colegial para demonstrar aos alunos vindouros o que o Colégio Militar foi, é e continuará a ser. Não resisti à tentação de, com autorização do autor, transcrever esse texto. «Meritíssimo Juiz João Augusto Fonseca de Moura do 2º Juízo Criminal da Comarca de Lisboa Venho fazer uso do disposto no § único do Artº 31 do Decreto-Lei n.º 34.553. (...) Em 1940 entrei para o Colégio Militar. Estive lá 7 anos. Se V. Ex.ª Senhor Juiz, perguntar a algum dos meus camaradas de então como é que eu era, certamente responderão: -Era um tipo “porreiro”. Nós éramos todos uns tipos “porreiros”. A minha família foi para os Açores. As comunicações eram um bocado irregulares. De uma vez recebi 7 cartas de minha Mãe e uma de meu Pai. Não se pode dizer que a guerra me afectasse muito. Eu estava num colégio que me encantava e tinha mais família em Lisboa. Fiquei numa ocasião muito zangado por me não ter sido permitido ir passar as férias aos Açores. Acabei por ir para uma praia. Afora isto, e a “campanha da batata-doce” em que as batatas do Colégio Militar foram substituídas por batatas-doces, a guerra em nada me incomodou. A vida do Colégio enchia-nos. Nada de verdadeiro está escrito sobre o Colégio Militar. Talvez algumas piadas, mas sobre a vida da “malta” ainda ninguém escreveu nada que se aproveitasse. E no entanto o Colégio Militar merecia um livro. Duvido que algum dia venha a ser escrito e, na falta dele, guardo a fotografia de uma turma que não sei qual é tirada junto às escadas da Enfermaria. Gosto de ver aqueles miúdos com a cara a rebolar-se de gozo e os olhos a rirem-se para a máquina. Tínhamos uma terrível queda para as manifestações colectivas e um código de honra muito apurado que permitia com rigor saber o que era “canalhice” e o que não era. Havia também a vida oficial do Colégio. Ouvíamos lá muitos discursos, mas tínhamos uma sensibilidade muito apurada e quando um oficial se excedia em elogios a um Senhor Ministro, todo o Batalhão Colegial sabia perfeitamente que ele estava a lamber as botas ao Senhor Ministro. Fazíamos muito desporto e havia lá um sentimento de irreverência e fora da lei, que muito me agradava, e que os “meninos da Luz” perdem rapidamente quando saíam do Colégio. Aos domingos, quando o Batalhão era enfiado para dentro da Igreja, se o oficial de dia não tinha cuidado, ao atravessarmos os claustros, muitos de nós fugíamos para as camaratas ou para o alto da quinta para jogar futebol. E eu estou firmemente convencido, de que se há um Deus no Céu, ele gosta mais dos miúdos que fogem da missa para ir jogar futebol. O meu mundo era perfeitamente sólido, mas além disso havia o mundo em guerra. Resisti com a Inglaterra quando ela lutava sozinha. Zanguei-me com os alemães quando meteram barcos nossos no fundo e num dia em que

ouvi um ardina dizer que a Rússia entrara na guerra, saí para a rua para ver de que lado é que era. Contei aviões abatidos e submarinos metidos no fundo. Avancei com os exércitos por cima dos mapas. Entrei na marcha para a Vitória, escrevia-se então com letra grande e, no final, a ideia de que a Inglaterra tinha ganho a guerra enchia-me o coração. Depois caiu a primeira bomba atómica e desconheci o problema humano e interessei-me pelo assunto “cientificamente”. Nessa altura começou a falar-se em Liberdade. Numas férias em que fui à cidade da Guarda, junto à estação, ouvi dois camponeses que falavam sobre a falta de batata e a fome que tinha havido nos anos da guerra. Achei muito estranho ouvir falar em fome. Toda a gente tinha falado em volfrâmio, mas de fome, e propriamente daquela maneira nunca tinha notado. É claro que eu sabia que as pessoas pobres passavam fome, creio mesmo que achava que os pobres tinham fome por culpa própria, mas sempre tinha identificado a palavra fome com pessoas e nunca com região. Começou então a falar-se em Liberdade e “reviralho”. Parece que ia haver eleições.» Num sábado em que saí do Colégio, ao tomar a camioneta para a Amadora, o condutor lia alto a “República” para todos. Lembro-me que o artigo dizia que o povo “votava” rasgando os cartazes do governo. Num domingo à noite, um carro de reparações da Carris ficou encravado no Rossio. Os operários ficaram parados sem nada que fazer e houve um que disse: -”É uma greve de braços caídos”. E é este dito de um operário, no centro da cidade, que marca o momento em que senti pesar menos medo no meu País. Sempre que me lembro de 1945, pergunto quem foram aqueles dirigentes da oposição que permitiram a continuação do actual regime. Estas coisas emocionavam-nos no Colégio Militar. Havia uma canção destas canções escolares muito cantadas que começava: “Olé que somos da Esquerda, Olé vivam os esquerdistas…” O meu sétimo ano organizou-se em democracia parlamentar. A oposição estava em maioria. Eu era da oposição. Votámos a cor dos bilhetes para a “récita”. Os oficiais mandaram-nos imprimir sem nos consultar.

Bem hajas, Brotas, Menino da Luz, ouso dizer (não te importarás decerto) «Guerreiro da Luz», que tão bem soubeste honrar e amar os teus Pais como o teu Colégio... E isso é muito Belo! Roberto Ferreira Durão 15/1942


Dos Antigos Alunos Curso de 1942/1949

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CURSO DE 1942/1949 Romagem dos 70 anos de Entrada 7 de Dezembro de 2012

Curso 1942/1949 - 70 Anos de Entrada - 7 Dezembro 2012 ©Fotos Leonel Tomaz

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a Biblioteca, José Maria Myre Dôres (47/1942), proferiu as seguintes palavras: “Exmo. Senhor Subdirector do Colégio Militar Antes de mais desejamos agradecer a presença de V.Exª. nestes momentos tão importantes para nós que festejamos os 70 anos de entrada no Colégio, em 1942! Quando hoje estivemos nos Claustros mais uma vez sentimos que aquelas paredes, simbolizando o nosso colégio, têm “feitiço”, no sentido mais nobre da palavra, como disse o Senhor General Mesquitela, antigo Director do Colégio no nosso tempo e ilustre pedagogo. Durante todos os momentos solenes e simbólicos que vamos viver, iremos recordar a formação de carácter e de civismo que nos foi transmitida, o saber escolar, os nossos professores e o desporto praticado, sempre considerado como uma escola de virtudes. Não esqueceremos também os oficiais e os restantes colaboradores do Colégio que nos ajudaram a desenvolver uma saudável educação. A dedicação, a competência e a permanência deste grupo de pessoas foi essencial ao nosso desenvolvimento. Ao mesmo tempo recordaremos o sentimento de camaradagem que perdurou durante 70 anos e que mais se reforçou com o Outono da nossa vida! Vamos com certeza lembrar os momentos felizes aqui vividos e recordar, com saudade, os bons amigos que já partiram, mas que continuam espiritualmente em nós! O Colégio tem 209 anos e foi sempre a mesma Escola e ao mesmo tempo foi diferente, conforme as circunstâncias da época. Mas constatamos que se manteve aquela base imaterial que conseguiu formar militares e civis que deram o seu melhor para o desenvolvimento do nosso País! Temos a certeza que a Direcção do Colégio, e a Direcção da AAACM, saberão imaginar e actuar no sentido de contribuírem para se encontrarem as melhores decisões sobre o actual e futuro do Colégio.

Agradecemos aos amigos do nosso tempo que desejaram estar presentes nesta comemoração, pois eles são considerados por nós como fazendo parte dos que entraram em 1942, tanta é a camaradagem que nos une. Obrigado Colégio por tudo o que nos deste!” Roberto Ferreira Durão (15/1942), no acto do descerramento da placa evocativa da comemoração, disse: (Curso de entrada de 1942) 2012 - 70 anos depois! De novo aqui estamos «RATAS de 42»! Talvez um pouco diferentes Mas unidos num só, todos, presentes e ausentes. Por isso rimos e gritamos, Com Esperança e Paz Um eterno ZACATRAZ!

Estiveram presentes 1 Heitor Prudêncio dos Santos Patrício • 9 João António Duarte Pina da Silva Ramos • 12 Carlos Fernando Valente de Ascensão Campos • 15 Roberto Ferreira Durão • 38 José Jaime Pinto Monroy Garcia • 39 Amadeu Nunes Duarte • 47 José Maria Myre Dores • 70 João Manuel Bilstein de Menezes Luís de Sequeira • 74 Jacinto Henrique Machado Lopes Coelho da Mota • 85 José Ferreira Beirão Belo • 90 José Maria Barroso Branco Ló • 94 José Vila de Freitas • 103 Afonso José de Albuquerque de Campos Ferreira • 285 Luís Gonzaga de Castro Mendes de Almeida • 310 Nuno Vilares Cepeda • 317 Primo António José de Oliveira.


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Dos Antigos Alunos Curso de 1982/1989

CURSO DE 1982/1989 Romagem dos 30 anos de Entrada 23 de Novembro de 2012

Curso 1982/1989 - 30 Anos de Entrada - 23 Novembro 2012 ©Fotos Leonel Tomaz

Estiveram presentes 11 Pedro Miguel Brito da Luz de Castro Neves • 29 Jorge Miguel Ferreira Ribeiro Dias de Carvalho • 51 Pedro Gonçalo Coelho Nunes de Mello • 204 Alexandre Manuel Pegado Ferreira Fernandes • 211 Paulo Miguel Leão Monteiro Napoleão Fernandes • 230 Nuno Miguel Pereira Domingues de Figueiredo Carvalhosa • 254 Vasco Maria Tavela de Sousa Santos Pinheiro • 271 Luís Miguel Cabral de Sousa Aragão • 290 Vasco José Ribeiro Pinto Elvas • 300 Rui Pedro Nabais Nunes Ferreira • 377 Nelson Manuel Machado Lourenço • 379 Rui Pedro Azevedo da Silva • 380 Miguel de Oliveira Baptista Geraldes Freire • 381 Nuno Miguel da Silveira Pires Fernandes • 389 Sérgio Joaquim Raposo Filipe • 391 Daniel Jorge Boavida de Bastos Moreira • 395 Miguel Henriques Martinho • 397 Nuno Miguel Quaresma Pereira • 398 Francisco José Rodrigues Aidos • 399 Pedro Miguel Vieira Dias • 407 Rui Manuel Cabral Carreira Coelho • 418 Francisco José Costa Marcos do Nascimento • 421 Luís Miguel Ferreira Morgado • 422 Nuno Alexandre Sousa da Silva Santos Lopes • 423 Nuno Miguel Spencer Salomão de Abreu • 424 Eugénio Miguel de Melo Azemel Zeferino Pereira • 426 José Manuel Barroca Gomes • 433 - Pedro Miguel Alpoim e Marques.


Dos Antigos Alunos Mais Alto e Mais Longe

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Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

Mais Alto e Mais Longe

©Foto Leonel Tomaz

Escalar por uma causa

Mais Alto e Mais Longe Escalar por uma causa, é o título do livro onde, fotograficamente e com textos ao jeito de entrevista conduzida pela jornalista Ana Pinto da Costa, se relata e regista a extraordinária proeza levada a cabo pelo ÂNGELO Eduardo Manso FELGUEIRAS e Sousa (498/1976) com a subida aos Seven Summits. Os Seven Summits correspondem às montanhas mais altas dos sete continentes: as Pirâmides de Carstensz na Oceânia (4884 metros), o Monte Vinson na Antárctida (4897 metros), o Elbrus na Europa (5633 metros), o Kilimanjaro em África (5963 metros), o Denali na América do Norte (6195 metros), o Aconcágua nos Andes da América do Sul (6962 metros) e o Evereste (8850 metros). Durante 10 anos as Pirâmides de Carstensz estiveram interditas pelo que alguns alpinistas concluíram as sete escaladas subindo

o Monte Kosciuszko (2228 metros) situado na Austrália, considerando-se assim detentores dos Seven Summits. Ângelo Felgueiras figura entre os poucos que conseguiram a proeza da escalada dos Seven Summits e pode orgulhar-se ainda de pertencer ao número muito restrito dos que conquistaram os Big Seven com oito cumes, escalando tanto as Pirâmides de Carstensz como o Monte Kosciuszko. Na apresentação e lançamento do livro que teve lugar na Sede da AAACM no passado dia 13 de Dezembro, o José de Ataíde Banazol (631/1968), Vice-Presidente da Associação (o Presidente António Saraiva de Reffóios, 529/1963, encontrava-se no Porto para participar nas comemorações de Natal dos Antigos Alunos da região norte), fez uma breve introdução aos méritos, à tenacidade e à


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Dos Antigos Alunos Mais Alto e Mais Longe

O Colégio no Topo do Mundo - Ângelo Felgueiras e a Barretina que levou até ao Cume do Everest

coragem do Ângelo Felgueiras, dando a palavra ao Diogo Oliveira e Carmo (69/1971) que apresentou o autor e elogiou a sua forte personalidade e determinação, qualidades de longa data manifestadas e reconhecidas desde os tempos em que ambos frequentaram o Colégio Militar e que sempre o têm acompanhado ao longo da sua vivência e da sua actividade, designadamente como Comandante de linha aérea e representante dos Pilotos da TAP. Alexandre Coutinho, da Contra a Corrente, Ldª, fez uma breve apresentação desta editora nascida há cerca de dois anos num contexto menos favorável para estes empreendimentos, desafiando o Ângelo Felgueiras, que citou como um exemplo a seguir, a fazer o registo das suas aventuras como alpinista e assim deixar a grande mensagem que pode transmitir. Quanto à intervenção do Ângelo Felgueiras, reproduzo as palavras nos “Agradecimentos” inseridas no seu livro e que retratam da melhor maneira o que disse e a sua personalidade: Nunca me passou pela cabeça escrever um livro. Em abono da verdade não fui eu que o escrevi. Vários amigos já me tinham desafiado a partilhar as minhas viagens. Sempre argumentei que eram, de facto, as minhas viagens e as minhas notas. Não sentia que fossem suficientemente interessantes para as partilhar e tivessem algo a acrescentar. No dia 3 de Março de 2011, em conversa com o Diogo Oliveira e Carmo e com o Victor Gonçalves, o Diogo fez-me ver a coisa na perspectiva da minha obrigação de partilhar as minhas aventuras. Deixou-me a pensar. Quando este ano cheguei do Vinson, o Alexandre Coutinho, da editora Contra a Corrente, e a Ana Pinto da Costa, jornalista que já tinha feito

algumas reportagens sobre as minhas subidas, conversaram comigo e desafiaram-me a um formato misto. Texto e muitas fotos. Nunca tirei fotografias com o intuito de as publicar, mas muitas viagens dão muitas fotografias. Aceitei o desafio desde que ficasse inequivocamente claro que não é um livro escrito por mim, mas sim uma série de longas entrevistas feitas pela Ana Pinto da Costa. Este livro é o resultado de umas horas de conversa o de uma selecção de fotos, escolhidas umas por razões estéticas e outras por razões emocionais. Não sou alpinista profissional, nem escritor ou fotógrafo. Sou piloto por opção e aventureiro por vocação. Começar a subir montanhas aos 40 anos, ter urna profissão absorvente e uma família apaixonante só é possível com a ajuda de muita gente. Ana Pinto da Costa pela paciência e Alexandre Coutinho pela Edição. Nuno Gomes que me levou ao Kili. Victor Pereira desde a fuga e evasão na Força Aérea. Pedro Cortesão, Miguel Carvalho, João Branco pela partilha de aventuras. Victor Grilo que me iniciou na escalada. Ao Vasco Neves que, com infinita paciência, me ensinou a escalar, rapelar e partilhou varias aventuras. Ao Hélder Santos que me levou pela primeira vez aos Himalaias. João Garcia pela disponibilidade nos conselhos. Ao Ricardo da Ilha do Pico. À Carolina Felgueiras pelo Facebook. Ao Vasco e Cláudia pelo site e não só. Aos meus amigos de Granada, Pepe Saldaña, Fernando, Ricardo Pipi e José. Ao Team de Campo Base do Evereste, Pedro e Margarida Villas Boas, Gonçalo Conceição, Frederico Costa, Paulo Ramos, António Maria e Manuel Araújo, pela forma como integraram a minha família. Ao Filipe Palma, o maior aventureiro que conheço, pelo Ben Nevis em fast forward, pela excelente organização do passeio ao Campo Base do Evereste, pela confiança, exemplo e inspiração. Ao Paulo Conde pelos planos de treino e acompanhamento. À Ana Lima pela divulgação. À Teresa Ferreira da UCS pelo seu esforço em me manter direito. Irene Pryce, Yeti’s personal physícian Anabela Lopes, Ana Pestana da Mundicenter e Fernando Baptista da Citroën por tornarem possível a aquisição da carrinha para a Escolinha de Rugby da Galiza. Ao Afonso 237 Lopes. À tia Milena que me transmitiu valores de respeito e tolerância. Aos Bordalos (obrigado Kiko) e aos Morgados. À Júlia Garcia da Alice House. Aldina Duarte, João Gil, Rodrigo Leão e Rui Veloso porque aparecem quando é preciso. À Ana Bola que “amadrinhou” o projecto e ao Carlos Tê por ter escrito o prefácio. À Fundação EDP, Guilherme e Sérgio. À Megarin. À Prosegur, obrigado Jorge Leitão. À PBBR. A Pedro e Inês. À família Matos. À família Dias. À Carmo e ao Miguel pelas centenas de Km que já corremos juntos e pela vossa presença constante, confiança e incentivo. Ao Moinho da Juventude e ao Johnson Semedo pelo exemplo. Aos guerreiros da ERG pela inspiração que me transmitem na abordagem a uma montanha bem mais difícil que as minhas. À Maria Gaivão pelo seu exemplo, clarividência e por me dar outra perspectiva da vida. À Groupama, parceira que viabilizou todas as viagens desde o Denali. João Quintanilha, Vincent, Paula e Teresa pelo apoio e dedicação. À TAP que me dá tempo. A todos os meus colegas que me facilitam a vida, PN, Escalas, Travel Office, Manutenção (obrigado pelo 02), carga e ao exemplar Moreira com o qual as minhas malas de montanha nunca falham. Ao João Luís e Teresa pela filha e pelo apoio. Ao Pai, à Mãe e à Isabel pelos irmãos que me deram. Ao Manuel Paulo, João Manuel, Inês Patrícia e Carlos porque vos amo. Dedico este livro à Isabel porque é a minha bússola, o meu campo base permanente e a minha vontade de voltar. Sem ti não era possível. Aos meus três filhos únicos, Manel, Pico Francisco e Tartaruga Teresa pelo amor e vontade de voltar, pelo tempo que não lhes dou e pelo tempo que me dão. Por pensarem pela vossa cabeça.


Dos Antigos Alunos Em memória do Batalhas

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Em memória do Batalhas

Esta fotografia foi tirada a 4810 metros do nível do mar, no cume do Monte Branco. Faz parte do conjunto de imagens recolhidas aquando da expedição “Sunlover-Montblanc”, na qual participei, e esta é a minha barretina. “Somos todos campos de batalha, nos quais se digladiam os deuses.” - Paul Valéry Como antigo aluno do Colégio Militar, e como todos os antigos alunos, trago sempre a barretina comigo. Ela é parte integrante de quem sou e onde eu estou ela está também. Tal como, e tão inexplicavelmente quanto, o corpo parece perder 21 gramas quando a alma o abandona, existe também uma massa física dentro de cada um dos nós, que é o Colégio, e que nos deixa apenas quando se nos vai também, e por fim, a alma. Desta feita, transportei a barretina na minha

mochila e até ao cume, simplesmente para que todos, e não só os antigos alunos, a pudessem ver. Esta é a minha homenagem ao meu camarada “Batalhas”, Nuno Diogo Lucas Fernandes Bragança (357/1997). Inspirei-me no Ângelo Felgueiras (498/1976), antigo aluno e grande aventureiro. Era eu ainda aluno e miúdo, folheava uma edição da revista do Colégio no intervalo das aulas, e lá estava uma fotografia do Ângelo, no cume do Aconcágua, com a sua barretina. Esta imagem ficou comigo. Na altura em que o “Batalhas” nos deixou, não estive presente na cerimónia nem me reuni com a família colegial para lhe prestar a devida homenagem. Confesso que não fui capaz. Nessa altura, faltou-me a hombridade e o carácter que se esperam de um antigo aluno para enfrentar a notícia de que ele tinha partido. É extremamente difícil aceitar o que se não compreende e não tem razão aparente. Não soube estar à altura do “Batalhas”, não pude aceitar e rejeitei essa realidade com uma negação muito forte dentro de mim. Peço-vos desculpa, ao meu curso, a ti e à tua familia, por não ter sido nesse dia o ombro que encontrei sempre junto dos nossos. Quando aceitei finalmente a verdade, senti que devia uma palavra ao meu amigo. Foi nas muitas horas de caminhada penosa que envolve a subida a uma montanha, e nas noites frias de bivaque que estivémos juntos e conversámos os dois. Existe muito silêncio na Montanha, convivemos muito conosco mesmos e com o que existe dentro de nós. Eu passei muito tempo com ele, um pé depois do outro, pude olhá-lo nos olhos, no meio do

vento e do frio cortante, disse-lhe muitas coisas e, no silêncio, pude ouvi-lo, escutava a minha respiração e também a dele. Vi, e revivi, muitas imagens na minha cabeça em que estávamos os dois. Aventuras muitas, brilho nos olhos, noites de almofadada, dias de um menino da luz, sentido, formaturas, cerimónias. Ele limpava os botões à farda de pano, eu fazia o mesmo na cama ao lado. Vi selarem-lhe a barretina. De cotim, bota de fuzileiro de fivelas sempre desapertadas e faltava-lhe um botão à camisa. Às vezes roubava-lhe o Duraglit. Miolos ao tecto, uma vez até bateu com a cabeça no tecto da camarata. Cama ao poço, Récita, Speliking… Trocámos um abraço prolongado, havia tempo. Contemplámos juntos todo aquele espaço aberto durante alguns minutos enquanto tomávamos o fôlego. Fotografei-o no cume, comigo, e descemos até ao vale por mais 5 horas. Que a minha homenagem, ainda que tardia seja uma lembrança de que vais estar sempre com cada um de nós, e para sempre conosco. Vá por ti “Batalhas”, Zacatraz! Miguel Maria Dimas Nogueira de Cabedo e Vasconcellos 360/1997


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Dos Antigos Alunos Jantar de Natal

Jantar de Natal no Porto N

o passado dia 13 de Dezembro, reuniram-se em “Jantar de Natal” os antigos alunos residentes no “Grande Porto”. Foi mais uma óptima confraternização, sendo de realçar a presença, mais uma vez , do Martiniano Gonçalves(9/1958) e do Presidente da Associação António Reffóios (529/1963). Na fase final do jantar o Presidente da Associação transmitiu um resumo dos trabalhos e diligências efectuadas pela Direcção da Associação tendo em vista a preservação da essência e características únicas do Colégio Militar em futura reforma dos estabelecimentos Militares de Ensino. Também o Costa Matos (96/1950), Presidente do Conselho Supremo, pormenorizou alguns aspectos já focados e enalteceu a presença, que se tornou sistemática, do Martiniano Gonçalves e do António Reffóios nas nossas reuniões. A pretexto efectuou a oferta, a cada um, e a título pessoal, de um quadro, em tela, representativo das marginais do Rio Douro no Porto e em Vila Nova de Gaia. Estiveram presentes: • 529/1963 - António Reffóios • 9/1958 - Martiniano Gonçalves • 436/1933 - António Malta Leuschner Fernandes • 79/1937 - João Maria da Costa P.M. Faria Araújo • 261/1940 - Manuel José Martins Rodrigues • 236/1945 - Luís Augusto Nunes de Almeida Bandeira • 147/1948 - António Rui Prazeres de Castilho

• 96/1950 - José Alberto da Costa Matos • 319/1950 - José Manuel Simões Ramos de Campos • 87/1953 - Raul Manuel Tamagnini Mendes de Carvalho • 138/1954 - Luís Manuel Ferraz Pinto de Oliveira • 314/1955 - Rui Carlos Aires Ferreira • 6/1956 - Francisco Xavier de Barros Cardoso de Menezes • 286/1957 - António Manuel Adão da Fonseca • 522/1959 - António Norton de Matos Carmo Pereira • 342/1961 - Albino Manuel Pereira de Sousa Botelho • 296/1964 - José Augusto Morais de Oliveira • 329/1965 - António José Mesquita da Cruz • 48/1967 - Álvaro Manuel Cruz Cordeiro • 281/1970 - Bruno Pinto Basto Soares Franco • 403/1970 - Paulo César Alves Bacelar • 340/1971 - Vasco Manuel Felgueiras Ferreira • 605/1973 - João Paulo Pereira Delgado • 199/1974 - Agenor Guerreiro Ranhada Rolo • 391/1974 - José Eduardo da Costa Silva Pereira • 641/1974 - Jorge Manuel Noronha da Silveira Alves Caetano • 688/1974 - Augusto José Ferreira de Matos • 146/1976 - João Canuto • 65/1980 - Pedro Bastos • 368/1993 - Amândio Emanuel Lopes Ribeiro • 384/1994 - Luís Filipe Pinto Leite • 59/2001 - Filipe Manuel Liberato Jesus Fonseca O Delegado no Porto José Manuel Simões Ramos de Campos 319/1950

José Galaor Ribeiro José Galaor Ribeiro, Coronel de Engenharia do Exército Brasileiro, Antigo Aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, antigo Presidente da Associação dos Alunos dos Colégios Militares do Brasil e Sócio Honorário da AAACM, grande impulsionador do intercâmbio das relações dos Colégios Militares do Brasil e de Portugal, enviou-nos no 3 de Março a seguinte mensagem que se transcreve:

Aos queridos Irmãos Meninos da Luz ,
 no transcurso desta maravilhosa data,
 de tão grande significação
 para a comunidade criada pelo emérito 
 Fundador MARECHAL TEIXEIRA REBELO, apresento os votos de Feliz Aniversário,
 na esperança do prosseguimen-

to e reconhecimento
 pela sociedade portuguesa das inúmeras vitórias
 conquistadas ao longo de mais de duzentos anos,
 e na certeza de que o tempo aqui passado 
 pelos vibrantes e patrióticos Antigos Alunos NÃO TERÁ SIDO VIVIDO EM VÃO. ZACATRAZ! Daqui saudamos a agradecemos os votos do nosso Camarada e Grande Amigo José Galaor Ribeiro, desejando-lhe que os males de saúde que o atormentaram estejam vencidos e não sejam mais do que questões do passado.


Do Colégio 3 de Março

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Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957

210º Aniversário do Colégio

3 de Março de 2013 E mais um ano passou e lá fomos com alegria festejar mais um aniversário do nosso Colégio, desta vez o 210º aniversário, da nossa velha e sempre jovem Casa Mãe, que todos os anos recebe uma «transfusão de sangue novo», que a impulsiona para o futuro. Este ano houve duas particularidades a assinalar, que foram o facto de o desfile do Batalhão pela Avenida se ter realizado no próprio dia 3 de Março e um programa de festejos mais ampliado e melhorado. No sábado, dia 2 de Março, tivemos a novidade de se terem iniciado as celebrações na Feitoria, com o acender de uma chama, que foi depois transportada para o Colégio. No domingo, dia 3 de Março, tivemos mais no-

©Fotos Leonel Tomaz

vidades: houve a participação dos Antigos Alunos no inicio das cerimónias militares da parte da manhã, sendo que da parte da tarde houve a atribuição do nome do Professor Dario Fernandes ao ginásio do Colégio e o lançamento de mais um livro da autoria do Costa Matos (96/1950), intitulado «Colégio Militar -Berço de Grandes Portugueses». Mas vamos por partes e relatemos o que se passou em cada um dos dias. Dia 2 de Março Não fui testemunha presencial do acender da chama na Feitoria. A cerimónia teve lugar às 8H00, o que confesso que considerei ser uma hora demasiado matutina para mim. Segundo me disseram foi uma pequena cerimónia que correu com a solenidade

devida. Não sei de quem foi que partiu a iniciativa desta nova cerimónia, mas gostaria de o felicitar, pois acho que foi uma iniciativa feliz, por nos recordar a todos onde está o berço do nosso Colégio, local onde se começou a concretizar o sonho do nosso Marechal Teixeira Rebelo, sonho esse que se foi desenrolando ao longo de mais de dois séculos e no qual cada um de nós, Antigos Alunos, teve a honra de desempenhar o seu pequeno papel como Aluno, procurando sempre honrar o nosso Colégio. Bem haja pois ao promotor desta iniciativa. Nessa ocasião o Exmo Director do Colégio proferiu as seguintes palavras. «Excelentíssimo Senhor Presidente da Associação de Antigos Alunos do Colégio Militar,


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Do Colégio 3 de Março

Meu Coronel Subdirector, Caros Alunos e Antigos Alunos, Reunimo-nos aqui hoje para lembrar um Homem e a sua Obra que aqui nasceu e muito deu ao seu País. Falamos de um Homem de origem humilde que não sendo aristocrata na segunda metade do século XVIII, soube distinguir-se na carreira das armas pela sua inteligência e pelo seu esforço, subindo a pulso na estrutura social e militar da sua época, afirmando-se no conhecimento e no campo de batalha. Durante a sua insigne carreira, em 1802, num País envolto numa profunda crise, assume neste local o comando do Regimento e Artilharia da Corte com as imensas dificuldades que caracterizavam as forças militares portuguesas na época. O então Coronel de Artilharia António Teixeira Rebello, com a nobreza de espírito e a vontade férrea que sempre possuiu, não se deixou esmorecer perante o mundo à sua volta e, atento a esta realidade que perpassava nas muitas crianças que pululavam neste local sem perspectiva de futuro, órfãs e filhas de militares pobres, não ficou indiferente. Com os parcos recursos humanos de que dispunha propôs-se a dar-lhes algo de muito promissor para o seu futuro – formação nas primeiras letras e números, quando o ensino neste País era muito exíguo e com poucas oportunidades. Esta sua vontade filantrópica num ambiente castrense e no seio de um Exército carente de quadros, rapidamente se transformou na Obra que conhecemos e cuja origem hoje aqui celebramos – o Colégio Militar. Não posso deixar de relevar que foi a vontade de antigos alunos que reiteradamente aqui se reúnem neste espaço, bem como o amor que os liga ao Colégio Militar, que impulsionou em boa hora este local de culto que todo o significado faz no tempo que vivemos. Bem hajam o Colégio Militar, o seu Fundador e todos os que decisivamente contribuíram para a perpetuação desta Obra. Parabéns ao Colégio Militar que hoje cumpre 210 Anos de vida.» Às 10H00 deu-se início às cerimónias no Colégio, com a formatura do Batalhão na Parada Nova, que para o pessoal do meu tempo continua a ser «O pátio das Ciências», por

lá se encontrar na altura o pitoresco edifício onde tínhamos as aulas de Ciências, no primeiro andar, e em cujo R/C se encontrava o museu das Ciências, que era algo de notável. Formado o Batalhão, prestou o mesmo continência ao Director do Colégio, ao som da marcha da continência executada pela Banda do Exército. Seguiu-se o hastear do guião do Colégio, ao som do hino colegial, cantado pelo Batalhão, sob o comando do Aluno 285, Cavaleiro de Ferreira, irmão do Comandante de Batalhão do passado ano lectivo, filho de um Antigo Aluno e com os seus Avós paterno e materno também Antigos Alunos, tendo sido o primeiro Comandante de Companhia e o segundo Comandante de Batalhão. Trata-se de um exemplo acabado de uma família colegial de grande nível. Como dizia há alguns anos o antigo Director do Colégio, Major General Tavares de Almeida (362/1955), «este é o Colégio das famílias». Como já se vem tornando tradição, seguiu-se uma alocução aos Alunos pelo Presidente da nossa Associação, elo de ligação entre os Antigos Alunos e os actuais Alunos. O nosso Presidente, António Reffóios (529/1963), fez um discurso verdadeiramente notável, em que deu voz à revolta que vai na alma dos Antigos Alunos, pelo facto de o Ministério da Defesa marginalizar a nossa Associação em tudo o que respeita ao Colégio e ao seu futuro, que tanto nos preocupa. Transcreve-se de seguida o discurso, onde também há que sublinhar a mensagem aos actuais Alunos, nossos sucessores. «Senhor Director do Colégio Militar Uma primeira palavra para Vossa Excelência - Senhor Major General Cóias Ferreira - na qualidade de anfitrião desta casa, a quem cumprimento, em nome de toda a comunidade de antigos alunos, com toda a consideração e estima pessoais. Nesta ocasião permito-me felicitá-lo pela sua recente promoção a oficial general, condição que dignifica o exercício da nobre e estimulante responsabilidade, que é liderar uma instituição com a grandeza do Colégio Militar. Agradeço também em nome da comunidade de antigos alunos o seu apoio inequívoco às iniciativas levadas a cabo pela AAACM no âmbito das comemorações deste ano do 3 de Março.

Cumprimento também naturalmente, com consideração e afecto, todos os militares e civis que servem esta nobre casa. Caríssimos pais e familiares de alunos do Colégio Militar Saúdo de forma muito particular e amiga os pais e familiares dos actuais alunos do Batalhão Colegial aqui presentes, a quem felicito pela decisão de confiarem ao Colégio Militar a educação dos vossos filhos. Saúdo em especial os pais e familiares dos “ratas”, que pela 1ª vez nos acompanham neste dia de grande júbilo para toda a Família Colegial. Meninos da luz…!...alunos e antigos alunos do Colégio Militar Saúdo naturalmente todos os antigos alunos presentes, e muito em especial todos os actuais alunos do Batalhão Colegial, que são afinal a razão de existência deste Colégio. Iniciamos aqui e hoje, com a alegria e a esperança de sempre, as comemorações do 210º aniversário do nosso Colégio. Temos boas e bastas razões para o fazer. celebra-

©Fotos Leonel Tomaz


Do Colégio 3 de Março

mos a existência de uma instituição única no panorama do ensino em Portugal. Celebramos um património ímpar, como o atestam a sua invulgar longevidade e o contributo prestado por muitos dos seus antigos alunos ao longo dos últimos dois séculos, na defesa da soberania, na defesa da liberdade e no desenvolvimento do nosso país, seja nos teatros de guerra, na política, na ciência, no ensino, na economia, nas artes …e até na chefia do estado. Recordo, como se impõe, com um profundo sentimento de admiração e de gratidão, a figura do seu fundador, o Marechal António Teixeira Rebello, cuja visão, inconformismo e sentido do dever, deram corpo à criação de um modelo de ensino único e inovador, alicerçado na excelência académica e num conjunto de valores e princípios que sempre nortearam e norteiam a Instituição Militar, como a honradez, a disciplina, a camaradagem e o amor à pátria…um modelo que, é nossa convicção profunda, os tempos incertos e ambíguos que hoje vivemos reclamam mais do que nunca. Honramos também a memória de todos aqueles que já nos deixaram, e que constituem o que designamos por “Família Colegial”. são eles, naturalmente, os antigos alunos do Colégio já desaparecidos. mas são também, por direito próprio, todos aqueles, igualmente já desaparecidos, militares e civis, que serviram esta Instituição com sentido do dever, competência e garbo. Dirijo-me à nossa Comunidade Colegial Estamos aqui hoje e uma vez mais a consagrar, justa e orgulhosamente, o passado desta casa, e a celebrar o seu presente. Ao fazê-lo, é porém indispensável que tenhamos a humildade em reconhecer, nestes tempos de mudança vertiginosa, que é inadiável promover as reformas que conduzam ao aumento da sua atractividade e qualidade, e garantam a sua sustentabilidade. Ao fazê-lo, é indispensável que tenhamos o arrojo de propor e defender as soluções que acreditamos melhor sirvam aqueles objectivos. É na melhoria do presente que garantiremos o futuro deste Colégio. Estamos confiantes que a comunidade colegial estará à altura das responsabilidades que um processo desta índole acarretará. Sem menosprezo para o papel que caberá

a todos os intervenientes no processo de mudança que se venha a desenhar – alunos, antigos alunos, pais e encarregados de educação, professores, oficiais e demais servidores militares e civis do Colégio – aos actuais e antigos alunos está obviamente reservado um papel primordial. Quanto aos antigos alunos e ao papel da sua também centenária Associação, devo nesta ocasião enfatizar: Há mais de uma década que a AAACM reclama um conjunto de reformas com carácter urgente, junto das tutelas política e militar. No essencial… A AAACM…acredita que o Colégio Militar tem uma infra-estrutura tangível e intangível única, com todas as condições para ser um estabelecimento de ensino de excelência com capacidade para responder às necessidades educativas e formativas actuais, ser um contributo estratégico para as forças armadas, para o desenvolvimento do país e da sua relação com os Palops, sem representar qualquer custo para o estado. A AAACM…tem uma visão estruturada e fundamentada para o futuro do Colégio. Admite a coexistência de outras opções, desde que salvaguardado o modelo actual durante o tempo necessário, em situação de gestão eficiente, para que se avaliem os méritos das diversas opções que possam vir a ser consideradas. A AAACM…considera também que quaisquer que sejam as opções que venham a ser desenhadas, as mesmas só serão merecedoras do seu apoio num quadro de manutenção da natureza pública e militar do Colégio, e jamais poderão pôr em causa a sua identidade, assente nos pilares de excelência académica, formação militar para a liderança e desportivo. A AAACM…considera indispensável a sua participação formal na definição, condução e acompanhamento de qualquer processo de mudança. No âmbito do processo de análise e restruturação dos EME - onde se enquadra o CM - desencadeado pelo senhor MDN em 2011, a AAACM assumiu sempre uma atitude construtiva , fazendo jus ao compromisso expresso de querer ser parte da solução e nunca parte do problema. Congratulou-se pela iniciativa do senhor MDN. Prestou,

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sempre que instada a fazê-lo, uma colaboração empenhada e leal. Ao longo do processo, apelou para que fosse formalmente reconhecida como interlocutor. Pese embora o relatório da comissão liderada pelo Professor Marçal Grilo em Maio de 2012, assim o recomendasse explicitamente, o senhor MDN tem ignorado esta recomendação. A AAACM está decepcionada com o comportamento do senhor MDN, revelador de uma incompreensível falta de vontade em envolvê-la no processo de mudança em curso. A AAACM, pelo conhecimento que tem da realidade e amor ao Colégio, considera ser um interlocutor indispensável. O senhor MDN, atrevo-me a dizer, provavelmente pelas razões opostas, tem considerado a AAACM um interlocutor descartável. A AAACM está decepcionada e também preocupada com o sucessivo adiamento das medidas que urge tomar, algumas delas desde há muito reclamadas, e independentes do modelo que venha a ser definido pela tutela para o futuro dos EME. A AAACM está decepcionada, mas não resignada. Manter-se-á atenta à evolução do processo, fiel ao compromisso assumido com o Colégio e com os antigos alunos. Denunciará sem hesitações qualquer alteração ou iniciativa que entenda possa por em risco a identidade do Colégio Militar. São os antigos alunos e os alunos os pilares da identidade do Colégio. É a vós, alunos do Colégio Militar, que devo e quero dirigir uma mensagem especial. Serei breve como convém. Peço-vos que me ouçam com atenção Nós, antigos alunos , já vivemos o 3 de Março como vós. Já desfilámos na Avenida. Ano após ano, aqui vimos de novo. Nostálgicos, mas sobretudo orgulhosos e gratos da nossa condição de “Meninos da Luz”, e confiantes no extraordinário modelo de educação criado pelo Marechal Teixeira Rebello. Mas é a vós actuais alunos do Colégio Militar a quem cabe, nos tempos conturbados que vivemos, a responsabilidade maior de demonstrar que este modelo educativo dá bons resultados, e é assim merecedor de confiança e de respeito. Não se iludam, nem desiludam todos os que confiam em vós. Aproveitem bem a


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oportunidade e o privilégio que é serem “Meninos da Luz“. O Código de Honra é o guião e o segredo da vossa educação. O Código de Honra é exigente, sabemo-lo bem, e não é negociável. É tão somente para cumprir. Está inscrito em muitos locais desta Casa, e em muitos papeis, mas tem de estar inscrito na vossa alma: têm de dedicar ao estudo e formação todo o vosso esforço e inteligência. Quanto mais bem preparados estiverem, mais bem sucedidos serão pela vida fora. Deste modo, dignificarão o vosso e nosso Colégio, e o vosso exemplo de sucesso inspirará os mais novos e atrairá novos alunos. Têm de praticar a camaradagem. A camaradagem é o sangue que faz viver o Colégio há 210 anos. Têm de confiar uns nos outros, e ajudar sem hesitações, e sem condições, quem precisa. Aqui ninguém fica para trás! Têm que amar e honrar a Pátria. O amor à Pátria é o sangue que a faz viver há nove séculos. Fieis aos ensinamentos colhidos no Colégio Militar, são muitos os antigos alunos que têm dado provas constantes de lealdade e amor à Pátria. Quando cantamos o hino, não estamos apenas a afirmar a nossa condição de portugueses. Estamos a celebrar, com orgulho e sentido de pertença o que fizemos, o que fazemos e o que faremos por Portugal. Preparem-se bem, pois a vossa geração tem de estar à altura desta herança e deste desafio. Nós antigos alunos , confiamos em vós ! Uma palavra especial para os “ratas”. Amanhã têm o vosso grande dia, com o 1º desfile na Avenida. É um marco na vossa vida no Colégio. Nós antigos alunos lá estaremos para vos apoiar, certos que o farão com o brilho e a alegria de sempre. Uma última palavra para os graduados finalistas. Este é um ano particularmente exigente, pois para além das vossas obrigações escolares têm a enorme responsabilidade de liderar os alunos mais novos. Sejam generosos e solidários. Apelo ao vosso exemplo e sentido de justiça indispensáveis a uma liderança inspiradora. Nós, antigos alunos, confiamos em vós ! Este será o vosso último 3 de Março enquanto alunos do Colégio, e aquele que ficará para sempre gravado na vossa memória, e nos vossos corações. Nós, antigos alunos, estamos certos de que será

uma comemoração à altura dos pergaminhos do nosso Colégio. Termino, fiel à prática dos últimos anos, pedindo ao aluno Comandante do Batalhão, o 285, Luís Cavaleiro de Ferreira, que o 1º Zacatraz destas comemorações seja por Portugal, a Pátria que o nosso Código de Honra nos ensina a amar e respeitar. Muito obrigado.» Seguiu-se o acender da chama no monumento ao Colégio, utilizando-se para tal a chama vinda da Feitoria. Como é habitual o acender da chama foi feito em conjunto pelo Exmo Director do Colégio, pelo Presidente da nossa Associação, pelo Comandante de Batalhão e pelo «Batalhãosinho», que de ano para ano me vai parecendo mais pequenino. Deve ser da idade, minha e não dele entenda-se. A terminar a cerimónia na Parada Nova, prestou de novo o Batalhão a continência ao Exmo Director, tendo de seguida o Comandante de Batalhão dado o nosso grito de Zacatraz, por Portugal e pelo Colégio, no que foi secundado por todo o Batalhão e por todos os Antigos Alunos presentes. Concluída a cerimónia na Parada Nova, seguiu-se a recepção, na Parada do Corpo de Alunos, ao Exmo General Vice Chefe do Estado Maior do Exército , entidade que presidiu às cerimónias militares seguintes, que se fez acompanhar do Exmo General Comandante de Instrução e Doutrina do Exército. As honras militares devidas foram prestadas pela 4ª Companhia, sob o comando do Aluno nº 197 Rio de Carvalho. As cerimónias tiveram depois sequência nos Claustros, a nossa «SALA DE HONRA», onde ao longo de mais de século e meio, gerações e gerações de Alunos, observados lá do alto pelo olhar severo e atento da nossa Cúpula, viveram muitas das solenidades mais marcantes da história colegial. Como dizia um antigo Director, o General Mesquitela, «as pedras das paredes destes claustros têm feitiço». Se falassem, teriam muito que contar. Com o Batalhão Colegial completo e em impecável formatura, procedeu-se à integração no mesmo do nosso Estandarte Nacional, que não nos cansamos de admirar, carregado de condecorações. Com o acompanhamento da Banda do Exército, cantámos todos o Hino Nacional, em conjunto com o Batalhão Colegial. É sempre um mo-

mento alto das cerimónias no Colégio, que não deixa ninguém indiferente. Seguiu-se no Átrio de Entrada do Colégio a sempre emocionante cerimónia de homenagem aos Antigos Alunos mortos em campanha. Não foram poucos os que pereceram nessas condições, desde o primeiro, que tombou na batalha de Arapiles, na Guerra Peninsular, até ao último, tombado em Moçambique, no final da Guerra do Ultramar. Nunca serão esquecidos, permanecerão sempre na nossa memória colectiva. Concluída a cerimónia referida, usou da palavra o Exmo Director do Colégio, que se dirigiu a todos os presentes, sublinhando o valor do Património Imaterial de que são depositários o Colégio Militar, o Instituto de Odivelas e o Instituto dos Pupilos do Exército, cujo valor intrínseco é infelizmente desprezado ou menosprezado, pelas entidades que tinham a obrigação estrita de respeitar e fazer respeitar esse Património. Transcreve-se de seguida o discurso proferido. «Excelentíssimo Senhor Tenente-General António Campos Gil, Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, Meu General Vice-Chefe, Constitui uma enorme honra para o Colégio Militar contar com a presença do meu General neste dia festivo em representação do Exército, ramo onde sempre se integrou organicamente este estabelecimento militar de ensino ao longo dos seus duzentos e dez anos de existência e a quem deve a sua matriz de formação, marca indelével da sua imagem ao longo dos tempos. Excelentíssimo Senhor Tenente-General Francisco António Correia, Comandante da Instrução e Doutrina e meu General Comandante, Apraz-me registar neste dia festivo a particular atenção e apoio que sempre merecemos do meu General, particularmente nestes últimos tempos. Excelentíssimo Senhor General Martins Barrento, Excelentíssimo Senhor Tenente-General Rocha Vieira, Excelentíssimos Senhores Oficiais Generais, Excelentíssimos Senhores antigos Directores e Subdirectores do Colégio Militar que eu saúdo na pessoa do senhor Tenente-General Joaquim Lopes Cavalheiro aqui presente.


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Excelentíssimos Senhores Directores do Instituto dos Pupilos do Exército e do Instituto de Odivelas a quem saúdo de forma particular pelo que nos une na missão que cumprimos. Excelentíssino Senhor Adido do Exército e Aeronáutico junto da embaixada do Brasil, Excelentíssimos Senhores Presidentes das Associações de Antigos Alunos e de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos do Colégio Militar, A presença de Vossas Excelências simboliza a importância do acompanhamento das actividades desta instituição por toda a comunidade colegial que muito prezamos. Nas pessoas de vossas excelências saúdo todos os antigos alunos, pais e encarregados de educação presentes nesta cerimónia. Distintos convidados, Estimados Professores, Oficiais, Sargentos, Praças e Funcionários que servem no Colégio Militar, Minhas Senhoras e meus Senhores, Caros Alunos, Lembrando tempos de antanho, preliminares ao aparecimento do Colégio Militar, no século dezoito Portugal vivia uma situação de enorme carência ao nível do ensino que é agravada com a expulsão da Companhia de Jesus que vinha exercendo essa actividade. Por outro lado, o Colégio dos Nobres criado sob a necessidade de responder a uma educação de elites em pleno Século das Luzes, acabou por não ter sucesso e foi extinto. Neste período conturbado também a instituição militar passava por imensas dificuldades e a necessidade de militares mais qualificados leva a que se estabeleça em cada Regimento de Artilharia uma aula e biblioteca regimentais, onde se ensinam as primeiras letras e a matemática. É com uma situação geral extremamente difícil no país, que o Coronel António Teixeira Rebello assume o comando do Regimento de Artilharia da Corte em 1802, após se ter revelado um insigne oficial de proveniência humilde. É a visão particular deste homem sobre o mundo que o rodeia que irá proporcionar o nascimento no seu regimento de um projecto de apoio ao ensino de crianças órfãs ou filhas de militares pobres, o qual rapidamente evolui para uma escola de forte integração no ambiente castrense, através de uma sólida educação de base em princípios e valores

militares, a par de uma preparação técnica adequada, permitindo que os alunos ingressem mais tarde com sucesso nos quadros do exército como oficiais e sargentos. O sucesso da fundação do Colégio Militar que hoje comemoramos, assim como o caminho percorrido durante os 210 anos da sua existência como instituição em prol da nação, não aconteceram sem obstáculos e dificuldades a que sempre estiveram associadas crises políticas, sociais, económicas e militares, que muitas vezes canalizaram incompreensões para com esta instituição, mesmo durante o tempo de vida do seu Fundador, designadamente aquando da transferência da Corte Portuguesa para o Brasil. Na nossa história, ventos inesperados assolam por vezes as estruturas das instituições, procurando abanar os seus pilares e alargar brechas nas paredes onde apenas existem fissuras do tempo secular. O Colégio Militar, o Instituto de Odivelas e o Instituto dos Pupilos do Exército pertencem ao rol dessas instituições em que muitos crêem acreditar no seu valor intrínseco como escolas de valores, mas não entendem o significado deste património imaterial que remanesce nas diferentes gerações de alunos e que provém de uma forma diferente de estar e fazer, de uma educação diferente que se repercute numa atitude distinta. Naturalmente que as instituições têm de evoluir com as sociedades onde se inserem, mas devem evoluir percorrendo um caminho próprio, que não se coaduna com modas circunstanciais ou com generalizações convenientes com um qualquer fim que pouco tem a ver com a sua identidade e finalidade, mas tão só com rácios e comparações convenientes com o propósito em si e não com o que estas mesmas instituições representam, independentemente das dificuldades em cada momento. Estamos tão só na segunda escola mais antiga do nosso país que desde sempre baseou o seu projecto educativo no ensino diferenciado masculino, com uma formação de matriz militar assente no internato obrigatório – este foi o seu referencial educativo durante 210 anos, repito, 210 anos. Ventos de hoje sopram de uma forma que vai pôr à prova o nosso sentido de orientação, diria até que a nossa capacidade de encontrar o próprio sentido vai ser testa-

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da, quiçá, até um limite nunca atingido na história desta casa. Certo é que, independentemente do novo paradigma de funcionamento desta casa no futuro muito próximo, teremos que encontrar esse sentido com base nos princípios e valores que sempre marcaram a identidade deste colégio até aos dias de hoje. Para isso toda a Comunidade Colegial tem de estar comprometida nesta tarefa, sob pena do Colégio Militar definhar em algo irreconhecível e indiferenciado no futuro. Num tempo em que tudo requer objectivos mensuráveis, eu diria que o sucesso desta complexa missão será medido pelo número de placas nas paredes do Claustro no futuro, na medida em que sempre simbolizarão a ligação e a identificação dos Antigos Alunos com a sua casa, nas repetidas vezes que aqui se deslocam ao longo da vida, conforme tem acontecido até ao momento, e que traduz muito do significado da chama colegial que se encontra acesa neste período festivo. É certo que a mudança no Colégio Militar, por muito intensa que seja, não terá apenas aspectos negativos e permitirá mudar mentalidades e atitudes e repensar formas de estar e procedimentos, mas tudo isto deverá acontecer num quadro que se possa compaginar com a sua identidade e este será um desafio muito exigente que se apresenta a toda a Comunidade Colegial, no momento em que comemoramos os duzentos e dez anos desta instituição. O Colégio Militar conta com todos, mas particularmente com os que aqui continuarem a servir e a estudar no sentido de procurarem sempre fazer melhor na senda de um ensino de excelência, enquadrado pelos valores castrenses, procurando formar cidadãos responsáveis com capacidade de liderança e iniciativa nas diferentes áreas de actividade da nossa sociedade, com a qual temos de ser mais exigentes, não apenas nos direitos mas especialmente nos deveres inerentes aos homens verdadeiramente livres. Hoje acendemos uma Chama na Feitoria, em Oeiras, simbolizando o nascimento deste colégio nesse local onde o Marechal António Teixeira Rebello iniciou esta obra, para a qual muitos dos que nos antecederam, ao longo dos seus duzentos e dez anos de história, deram o seu melhor para a consolidar à imagem do seu Fundador. Deixo aqui


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uma palavra de homenagem a todas essas pessoas, assim como agradeço aos oficiais, professores, sargentos, praças, funcionários civis e alunos que actualmente e genuinamente procuram no dia-a-dia melhorar o seu desempenho e serviço, contribuindo assim para o futuro desta casa. O Colégio Militar, mais do que nunca, continuará a contar convosco no difícil desafio que enunciei. Caros Alunos, O Aniversário do Colégio Militar é também a principal comemoração que envolve o Batalhão Colegial com todo o garbo e orgulho de quem pertence a uma comunidade distinta que ostenta na sua máxima força a identidade desta instituição. Sei que nos últimos tempos vos tem sido pedido muito no sentido de uma compreensão do equilíbrio entre as exigências dos tempos em que vivemos e do legado que vos é transmitido desde que cada um abraçou os ditames de ser mais um Menino da Luz. Para cada um de vós, compreender a condição de Aluno com a responsabilidade de Graduado, no acompanhar de camaradas mais novos no seu processo de integração na vida colegial, é algo de significativo e exigente inerente a esta escola. Mas é também motivo de orgulho e satisfação para todos os que chegam com sucesso ao fim do seu período de formação, após vencerem inúmeras dificuldades e consolidarem dessa forma a vossa camaradagem para o resto da vida. Deixo-vos aqui uma palavra de compreensão perante a vossa ansiedade de juventude num momento de grande exigência para todos, mas sei que saberão responder como sempre aconteceu com os alunos do Colégio Militar. Amanhã, três de Março, desfilarão uma vez mais na Avenida da Liberdade e, neste vosso momento alto, alguém como Ramalho Ortigão em 1882, dirá: «… Quando … se abriu uma clareira na enorme multidão compacta que coalhava toda a superfície do rossio e que no quadrilátero descoberto sobre o macadame o batalhão colegial apareceu, uma sensação nova percorreu os nervos do grande público lisbonense … os alunos militares eram os soldados voluntários e livres. Para eles a honra de vestir o uniforme é a mais brilhante do mundo». Terminado o discurso do Exmo Director do

Colégio, seguiu-se a imposição de medalhas e a entrega de prémios. Foi condecorado com a Medalha de Mérito Militar de 1ª Classe, o Coronel João Paulo Alves Caetano (609/1973), Subdirector do Colégio. Foi condecorado com a Medalha de D. Afonso Henriques de 3ª Classe, o Tenente Tiago Manuel Oliveira Ribeiro. Foi condecorado com a Medalha de Comportamento Exemplar Grau Ouro, o 1º Sargento Mário José Camasão Silva. Foram condecorados com a Medalha de Comportamento Exemplar Grau Cobre os: 2º Cabo Ivo Manuel Mendes Marcelino; 2º Cabo Vitor Mariano Serra Gomes; Soldado Liliana Andreia Lança dos Santos; Soldado Geraldo Costa Tavares; Soldado Chiara Romão Spencer Bento. Foi entregue a Placa do Exército, relativa á passagem à situação de Reserva aos seguintes Militares: Tenente Coronel Miguel Arnaut Pombeiro; Sargento Chefe José António Nunes Salvador; Sargento Ajudante António Piado Marques. A mesma placa foi entregue aos seguintes Funcionários Civis por terem passado à Aposentação: Assistente Operacional José Alves Rodrigues da Eufémia; Assistente Operacional José Carlos Almeida Franco; Assistente Técnica Emília da Cunha Ferreira; Assistente Técnica Maria Albertina Santos. Foram distribuídos, no final, os seguintes Prémios aos Alunos que mais se distinguiram no ano transacto no domínio da Educação Física, da Esgrima, da Equitação e da Instrução Militar. Prémio «Educação Física» Aluno 161 Jorge Sebastião; Prémio «Esgrima» Aluno 298 André Vaz; Prémio «Equitação» Aluno 417 Francisco Núncio; Prémio «Instrução Militar» Aluno 21 Leonardo Vidas. Concluíram-se as cerimónias de sábado, dia 2 de Março, com o desfile do Batalhão Colegial, que saiu do Colégio através do Átrio Principal, com a continência à esquerda ao Busto do Fundador, tal como foi determinado há cento e dez anos em Ordem de Serviço e como tem sido feito desde então, ao longo de todos esses anos. À saída do portão do edifício estavam postadas no jardim as entidades presentes, perante as quais o Batalhão desfilou garbosamente, tendo de seguida voltado à direita, para marchar ao longo

da Estrada da Luz até à Parada do Corpo de Alunos. E assim terminou o primeiro dia das festas, que decorreu com o brilho desejado e que nos aguçou o apetite para o que nos esperava no dia seguinte. No dizer de um ilustre Antigo Aluno que se encontrava perto de mim, saímos dali «com a alma lavada» e obviamente já a antecipar o dia seguinte. O dia 3 de Março amanheceu com céu nublado, mas sem chuva, o que foi um bom augúrio. À 9H00 apresentei-me no Marquês de Pombal e para minha agradável surpresa deparei-me com uma verdadeira multidão de Antigos Alunos. Em cerca de 50 anos a que tenho assistido ao desfile nunca tinha visto nada assim. A nossa comunidade compareceu em peso, para mostrar de forma clara e inequívoca, aos actuais Alunos, que estaremos sempre ao seu lado e que NUNCA MARCHARÃO SÓZINHOS. Formado o Batalhão, assistimos à chegada da Escolta, com as montadas da Guarda Republicana e com os nossos cavaleiros com o seu garbo habitual. Procedeu-se à apresentação das Companhias e da Escolta ao Comandante de Batalhão e ficou tudo para o inicio das cerimónias ,incluindo o «Batalhão de Antigos Alunos», este último comandando pelo Antigo Aluno Comandante de Batalhão mais novo, que concluiu o seu curso no Colégio no ano passado. Com as duas «formações de tropas» em sentido, tendo a nossa à frente os membros da Direcção da Associação. Fez-se um silêncio absoluto e ouviu-se a requinta tocar o sinal do Colégio, para inicio do canto do Hino do Colégio. O hino foi cantado com todo o vigor e ressoou pelo Parque Eduardo VII acima. Foi um bom inicio. Concluído o canto foi a vez do Comandante de Batalhão mandar avançar a Bandeira Nacional (era assim que se designava no meu tempo). Dada a voz de apresentar armas Antigos Alunos, Alunos e suas famílias cantaram, em uníssono, o Hino Nacional. Foi um momento emotivo, em que algumas lágrimas teimosas não puderam ser contidas e rolaram pelas caras abaixo. Integrada a bandeira na formatura, no seu devido lugar, deu-se inicio ao desfile, com a banda do Exército à frente. Bons tempos em que eu e a minha geração também marchámos pela Avenida abaixo, na altura precedidos pela charanga do Colégio, com o


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©Foto Sérgio Garcia

cabo Santana a Tambor Mor, zurzindo com toda a força a pele do seu bombo. O desfile decorreu muito bem, com os ratas bem compenetrados da sua responsabilidade e quase de certeza surpreendidos pela algazarra e os incessantes gritos de Zacatraz, que os acompanharam Avenida abaixo. Os graduados lá vinham garbosos, com o prazer de serem os principais e mais destacados actores do magnifico espectáculo que ali se viveu (nunca desfrutei desse prazer, pois no meu ano de finalista, com a greve da fome, não houve desfile para ninguém). Concluído o desfile, estava eu à conversa com vários camaradas no Rossio, quando vejo, à distância, passar, montado num dos cavalos da Escolta e a galope, um oficial que entrou pela Rua do Ouro e desapareceu. Pensei imediatamente que teria acontecido algo de anormal com a Escolta. Pouco tempo passado, um dos Antigos Alunos que tinham ficado postados até ao fim do desfile junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra, disse-me que um dos cavalos tinha escorregado e dado uma queda, arrastando com ele o seu cavaleiro, que se chegou a

recear que tivesse ficado seriamente magoado. Soube-se mais tarde que ele tinha sido conduzido ao hospital, onde se constatou que não havia motivos para alarme. Ao desfile seguiu-se a missa para uns e uma terapia de choque para aqueles que tinham ficado com as gargantas mais afectadas pelos muitos Zacatraz que tinham dado. Como já devem estar a calcular, o medicamento usado na dita terapia foi um, ou mais, copos de ginjinha, comprada logo ali junto à igreja, num botequim especialista na matéria e aí estrategicamente colocado. Penso que não andarei longe da verdade se disser que o dono do referido botequim anseia mais pela chegada do 3 de Março do que muitos Antigos Alunos. Pela sua dedicação desinteressada ao Colégio é bem possível que algum dia ainda venha a ser proposto para Sócio Honorário da nossa Associação. A Homilia, que a seguir se transcreve, foi proferida pelo Capelão António Borges da Silva. «Caríssimos irmãos em Jesus Cristo. Os textos bíblicos que acabamos de escutar são um convite, um desafio à reflexão, à

conversão, à metanoia (mudança de mentalidade), à transformação para melhor: 1. “Tira as sandálias dos pés porque o lugar que pisas é terra sagrada”. Pode acontecer que consideremos o fogo, a luz que arde, como um espectáculo, um conjunto de formas, de rituais, de tradições, de calendários, de marchas e paradas, diria mesmo uma espécie de folclore… Mas não. A luz é lugar sagrado que impõe tirar as sandálias, isto é renunciar a egoísmos, a comodismos, a interesses individuais ou de grupos de pressão mais ou menos ocultos. A luz é o lugar de formação de seres humanos votados a servir o bem de forma nobre e vertical. A luz é o lugar do Homem e o lugar de Deus, o lugar do bem comum, o lugar da preocupação genuína pelo todo e por cada um, tão bem plasmado na divisa “um por todos, todos por um”. E esta divisa, muito mais do que palavras, constitui um selo, uma marca interior, uma atitude de vida que se traduz no “servir” o bem de Portugal e da humanidade, sejam quais forem as circunstâncias. O “bem comum” e o “servir” conduzem a patamares de horizontes bem


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mais amplos do que os amigos, os camaradas, ou os interesses de grupos: impõem honrar a herança do passado, empenhar-se nos desafios do presente e construir um futuro mais próspero para o todo.

com vínculo, com valores, com alma, com sonho, com abertura ao futuro. Deus concede-nos tempo, mas nós temos de perceber que é preciso dar o “corpo ao manifesto”, trabalhar, cavar, adubar.

2. Certo homem disse ao vinhateiro: “Há três anos que venho procurar frutos nesta figueira e não os encontro. Deves cortá-la”. Mas o vinhateiro respondeu-lhe: “Senhor, deixa-a ficar ainda este ano que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos”. Deus age na história através de homens lúcidos, de coração generosos e disponível, empenhados, votados a que as árvores que lhe são confiadas dêem bons frutos. Precisamos de bons vinhateiros, de pessoas que passem tempo com as suas árvores, que cavem, que arranquem o que é daninho, que adubem o bom da árvore. Podem-se discutir múltiplos modelos, mas sem o componente do cuidador criativo nas estratégias, próximo, preocupado, empenhado, não haverá modelo que resulte. Para haver bons e suculentos frutos são imprescindíveis bons contextos, construídos por vinhateiros ou cuidadores

3. “Eu vi a situação miserável do meu povo no Egipto; escutei o seu clamor provocado pelos opressores. Conheço, pois, as suas angústias. Desci para o libertar das mãos dos egípcios e o levar deste país para uma terra boa e espaçosa, onde corre leite e mel”. O nosso Deus desce para libertar, para promover, para sanar, para conduzir à abundância e à prosperidade. E chama “Moisés” e cada um de nós para esta missão. Esta missão não é em proveito próprio, mas em proveito de um povo. Caríssimos alunos, as competências que nos estimulam a desenvolver, as janelas de oportunidade que nos são concedidas, os valores que nos são semeados, as reflexões que nos são induzidas, as leituras que nos ajudam a fazer sobre a história e os desafios do mundo não são apenas para nós, mas sim em benefício de um povo. Muitos dos vossos antecessores entenderam perfeitamente isso e, como tal, gravaram o seu nome na história de Portugal. Este mesmo país precisa de vós, honestos, leais, elevados, firmes, justos, rectos para bem de um povo que precisa de libertação, que carece de abundância e prosperidade, que sofre com a falta de humanismo e de alma.» À tarde, às 17H00,reuniu-se uma grande quantidade de Antigos Alunos para a cerimónia de atribuição do nome do Professor Dario Fernandes ao Ginásio do Colégio. Foi uma cerimónia bonita e emotiva, em que participou a classe especial de ginástica do Colégio, que entrou em cena no exterior do Ginásio de forma algo atabalhoada. Iniciou-se a cerimónia com umas palavras introdutórias proferidas pelo Exmo Director do Colégio, a quem se seguiu o Presidente da nossa Associação, que agradeceu a forma calorosa como a Direcção do Colégio recebeu e pôs em prática a proposta da Associação de atribuir o nome do nosso saudoso Dario à «sua casa», onde trabalhou mais de três dezenas de anos a transmitir aos seus alunos o prazer e o beneficio da prática do deporto. De seguida tomou a palavra o João Paulo Bessa

(200/1957) que fez um belo discurso evocativo do Dario, que a seguir se transcreve. «O velho Ginásio, o nosso velho Ginásio de mais de meio século, cheio das nossas memórias de saltos de plinto, de mini-tramp, de cama elástica, de corridas, de cambalhotas, de mortais e flic-flacs, de subidas à corda ou a espaldares ou equilíbrios de subidas à barra ou passeios na trave ou de jogos colectivos, em aprendizagens precisas de destrezas e domínios corporais, ganha hoje uma nova vida ao ver-lhe acrescentado o nome ilustre de um dos nossos: Professor Dario Fernandes. Ginásio Professor Dario Fernandes. Quando Dario, em 1962, chegou ao Colégio eu já fazia parte, como alguns outros que aqui estão hoje presentes, da Classe Especial de Ginástica pela mão de Mestre Reis Pinto. Era uma excelente classe, trabalhada na técnica das posições, na disciplina da articulação de desenho exacto dos segmentos corporais a que a preocupação do Mestre pela flexibilidade, dava uma dimensão estética inultrapassável. Na passagem de mão, Dario Fernandes, a nada virando as costas da anterior formação e preparação, mas, pelo contrário, tirando dela todo o partido, deu-nos, abrindo-nos novas caixas de ferramentas, uma nova alma ao introduzir-nos no mundo da acrobacia gímnica, na parafernália de saltos e acrobacias que nos transportavam a um outro mundo – e como treinávamos… sempre com o sorriso e a mão de apoio, subtil, a safar qualquer erro. Crescemos assim como classe, como grupo, como grupo de amigos, solidário e empenhado numa partilha de confiança absoluta: podes tentar que consegues, respondia às nossas preocupações de risco. Foi uma Classe Especial excelente que se mostrou em diversos saraus. E assim continuou anos a fio até à Classe de Gafanhotos com que em 1994 encerrou a sua prestação de professor. Há anos atrás - tantos que o Refeitório dos Oficiais ainda era no velho edifício, hoje desaparecido, onde foi a minha 1ª Companhia - recebi um convite do então Director para assistir a uma exibição da Classe Especial da altura, seguida de almoço com ele próprio. Naturalmente, apresentei-me. Vi a Classe e encontrei, com alguma surpresa e já na mesa de refeitório do Director, o Dario. “Então, gostou?”, perguntou


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o Dito.”Nem por isso”, respondi sem os grandes alardes que um convidado não pode ter. Pediu-me para explicar e eu disse: “Não é a nossa cultura gímnica! À habilidade faltou forma, ao destemor faltou disciplina senão técnica, à dimensão faltou estética. Pareceu-me que estaremos no limiar da acrobacia de saltimbanco.” Dario sorria, levemente, mas sorria. “Percebo…”, disse o Director e Dario sorriu mais. Dario Fernandes tinha, sem nunca mo ter dito, arranjado aquele encontro. Desgostoso do caminho colegial que a sua Ginástica estava a levar, queria mostrar uma outra opinião. Leal como sempre, não influenciou. Mas, mais uma vez, Dario Fernandes mostrava-se o herdeiro cultural da forma como encarávamos o exercício da ginástica e a sua apresentação. Graças ao Dario a nossa cultura, a nossa tradição gímnica, o nosso Colégio, tinham ganho mais uma batalha. Destreza, desenrascanço, ousadia, destemor, com certeza, mas enquadrados pela excelência da técnica, do rigor e da disciplina. Pela estética mais do que pelo espanto. Ou seja: dentro do quadro do que somos, do que queremos ser, enquanto Colégio Militar. É por isso que Dario Fernandes é um dos nossos: porque construiu connosco, na partilha de cada dia, o desporto que constitui um dos factores distintivos e identitários do nosso Colégio. É dos nossos porque lutou, porque luta, connosco pelos mesmos valores! E por isso, em cada um dos três milha-

©Fotos Leonel Tomaz

res de alunos que os seus 33 anos de serviço colegial permitiram, deixou a raridade de um amigo e de uma saudade. Fico contente, por ti e por nós, meu velho Ginásio agora que rejuvenesces com o espírito aberto, cativante e alegre, carinhoso, leal, franco e solidário de um verdadeiro humanista que é o sempre presente espírito do Dario Fernandes que agora te amplia o nome. Guarda-o bem e lembra-te: quando as nossas memórias se apagarem e fores tu quem tenha de responder à dúvida do quem foi?, lembra-te que recordarás um Homem de Bem. Um dos nossos! João Paulo Bessa (200/1957)». Foi de seguida descerrada uma placa alusiva ao acto, que ficou cravada na parede do Ginásio, no exterior do mesmo e à direita de quem entra. Descerrada a placa usou da palavra a esposa do Dario, que fez um brilhante improviso, em que muito justamente nos lembrou que o Dario, para além de transmitir os benefícios da Educação Física, sempre teve como objectivo superior da sua acção pedagógica transmitir aos seus alunos os valores de honestidade, rectidão, honra e dever, próprios dos homens de carácter. Foi justamente alvo de uma enorme salva de palmas. Concluído o descerramento da lápide, passou-se para o interior do Ginásio, onde começou por se visionar um filme de uma exibição de uma das classes de ginástica do

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Dario, onde ainda podemos ouvir a sua voz no incitamento aos seus alunos. Após o filme assistimos à exibição da classe especial de ginástica do Colégio em saltos de mesa alemã. Foi uma belíssima exibição, em algumas alturas de cortar a respiração, pelo ritmo excepcional das torrentes, em que se chegavam a ver quatro ginastas no ar sobre a Mesa Alemã. Apertar mais as torrentes não é possível. A classe foi brindada no final com uma enorme ovação que testemunhou a plena satisfação da numerosa assistência. A saída de cena da classe pode ser melhorada, para a classe ter uma exibição de 20 valores. Antes de sair do ginásio cruzei-me com a esposa do Dario, a quem felicitei pelo seu magnífico improviso. A senhora respondeu-me de forma simples, dizendo-me que se tinha limitado a dizer aquilo que teria o acordo do Dario. Seguiu-se no Auditório do Colégio o lançamento do último livro do Costa Matos (96/1950). Este lançamento é objecto de um artigo separado desta revista, para o qual remeto o leitor. Vai ver que não se arrependerá. Concluída a apresentação do livro do Costa Matos, seguimos para o Refeitório, para o jantar de confraternização habitual neste dia. O jantar esteve muito concorrido e para aqueles que não forem capazes de adivinhar o que terá sido a ementa, passo a citá-la: caldo verde (estava bem bom), amarelo (estava enfarinhado, pode ser melhorado) e arroz doce (estava também bem bom). O repasto foi acompanhado com vinho da casa e no final ainda tivemos direito a um cálice de Porto para brindarmos pelo Colégio. Foram dois dias memoráveis. Foi um dos melhores 3 de Março a que tive oportunidade de assistir em toda a minha vida e certamente ainda irei assistir a muitos mais na continuidade da vida deste Centenário Colégio que constitui Património inalienável da nossa Nação.


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Do Colégio O espírito do Colégio Militar e dos seus Alunos

Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

O espírito do Colégio Militar e dos seus Alunos, em quaisquer circunstâncias muito especialmente nas adversas A certa altura chegaram-me às mãos um conjunto de documentos fotocopiados, relacionados com situações vividas em determinada fase da História do nosso País, fase não muito distante mas que todavia se passou já lá vão 37 anos. Esses documentos foram por mim mantidos na perspectiva de os publicar na ZacatraZ com o objectivo de os dar a conhecer e divulgar a um mais alargado conjunto de gentes ligadas ao Colégio e também para que fiquem registados e não acabem por se perder no tempo, situação que irá acontecer a tantos outros vividos em épocas diferentes e que muito bem poderiam ser relatados nestas páginas por quem neles participou ou deles teve conhecimento mais de perto. O nosso camarada e amigo, membro do Corpo Redactorial da ZacatraZ, Pedro Garrido (53/1961), no último número da ZacatraZ, o 189, concluiu o seu interessantíssimo artigo sobre “Os Antigos Alunos e a Política”, tendo a certa altura referido um episódio vivido na sequência do 11 de Março e que será um pouco mais desenvolvido nas linhas que se seguem. Corria o Verão Quente de 1975 e um conjunto alargado de Militares foi detido e conduzido para o Forte de Caxias, de má memória, onde se privavam da liberdade aqueles que não aceitavam ou tinham qualquer ideia diferente das que o regime vigente antes do 25 de Abril entendia, arbitrariamente, que não se enquadrava no que por ele era considerado como correcto. O simples nome “Forte de Caxias” tinha por si só uma carga negativa muito elevada e estava associado a toda uma vivência passada, onde foram cometidos gravíssimos atropelos à dignidade humana e ao respeito devido a todo e qualquer cidadão que dele é merecedor. É, nestas circunstâncias, que um grupo de Alunos do Colégio decide tomar um conjunto de iniciativas bem reveladoras do espírito dos “Meninos da Luz”, da sua camaradagem, da sua nobreza de carácter e da sua intransigência contra o arbítrio, elevando bem alto a divisa que o seu Brasão de Armas ostenta “Um por Todos, Todos por Um”. Os documentos que obtive estão manuscritos ou dactilografados nas máquinas daquele tempo (onde as margens não eram alinhadas e onde, por vezes, com a pancada mais forte na tecla do “o”, esta letra aparecia no texto como um buraco no papel). A carta enviada para os Camaradas detidos no Forte de Caxias, subscrita por 36 Alunos do Colégio mas dos quais não disponho da totalidade das assinaturas, será reproduzida com as que nela estão inscritas. As cartas manuscritas que de Caxias foram enviadas para os Alunos do Colégio serão igualmente reproduzidas, sendo feita a transcrição de todos os restantes documentos disponíveis.


Do Colégio O espírito do Colégio Militar e dos seus Alunos

Caros Camaradas presos: Esta carta é escrita pela «malta» mais nova, um grupo de alunos do COLÉGIO MILITAR que apenas vos deseja enviar umas palavras de amizade e conforto no momento difícil que passais. Não acreditamos que todos vós sejais reaccionários ou fascistas como alguns, cá fora, vos chamam ou chamaram quando os ânimos estavam mais exaltados. Outros, não vos conhecem ou então, por conveniência ou cobardia evitam falar de vós. O respeito, a admiração e a estima que todo o povo português sente por vós e que bem o demonstrou quando do 25 de Abril, não se perderam nem se perderão. Aqui no Colégio, onde ainda não esquecemos esse dia que vivemos com uma grande esperança e entusiasmo, nós vos consideramos, de entre os bons, dos melhores, dos mais generosos, dos mais puros e bem-intencionados, ainda que, neste momento, alguns vos queiram fazer passar por aquilo que não sois nem nunca fostes. Acreditamos que também desejais como nós, a Democracia e a Liberdade para o nosso Povo e que não foi com certeza, vosso propósito fazer voltar tudo ao regime anterior. Mas ninguém por enquanto, tem coragem para vos defender. Apenas porque somos fieis à nossa Divisa “UM POR TODOS, TODOS POR UM” e porque não esquecemos a verdadeira camaradagem que aqui aprendemos e que é, acima de tudo, pela lealdade e contra denúncia, qualidades estas que nunca deverão ser esquecidas pelos nossos militares do MFA é que vos queremos enviar um grande abraço, não só aos ex-alunos, mas a todos os que aí estão, para os quais a fraternidade e a dignidade aprendidas no nosso Colégio ou na vida Militar não foram esquecidas. Fazemos sinceros votos de que bem depressa tudo se esclareça, podendo voltar às vossas famílias e a ser novamente úteis ao País e ao Povo que de todos vós precisa e não esquecerá, por certo, muito injusto isso seria, os sacrifícios que vocês fizeram ao longo de toda a vossa carreira militar. Dos vossos camaradas mais jovens “meninos da Luz”: 8 de Maio de 1975 (Assinatura de 36 alunos do Colégio)

Em simultâneo, foram remetidas as seguintes cartas para o Presidente da Republica e para o Director do Forte de Caxias. Exº Senhor General Francisco da Costa Gomes Dig.º Presidente da República Excelência Tomamos a liberdade de enviar-vos a cópia desta carta que escrevemos aos nossos camaradas militares, ex-alunos ou não, detidos em Caxias. Somos um grupo de alunos do Colégio Militar, que deseja apenas expressar, dentro do mais puro e são espírito de camaradagem que aqui aprendemos, o nosso carinho e compreensão para com aqueles que, neste momento, estão a passar um mau bocado e bem precisam destas palavras da parte daqueles que procuram pôr, acima da política e dos facciosismos do momento, a amizade e a camaradagem que nos une. Fazemos apelo a V. Excelência, como ex-aluno que também é, e principal representante deste País e deste Povo a que nos honramos de

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pertencer, para que procedam, para com eles, com a Justiça, Isenção e Respeito que todos esperamos e que eles bem merecem. Não sabemos se será pedir muito a V. Exa. mas gostaríamos que esta carta que lhe enviamos, bem como as palavras que escrevemos aos nossos camaradas presos, fossem por Vossa Excelência lidos, apenas para conhecimento deste nosso apelo (pois não temos outra forma de o fazer) a todos os que constituem o Conselho de Revolução, (acreditamos nos homens bons e justos) a que V. Exa. superiormente preside e entre os quais se encontram muitos ex-alunos. Mais uma vez pedindo desculpa a V.Exa. por esta nossa liberdade, mas convictos de que nos compreenderá, subscrevemo-nos com o maior respeito e consideração, um grupo de “MENINOS da LUZ”. Exº Sr. Comandante Xavier Dig.º Director da Prisão de Caxias Como não sabemos a quem enviar, directamente, esta carta, que desejamos seja lida por todos os militares que aí se encontram presos, pedimos-lhe o favor de a fazer chegar às suas mãos, certos de que este simples desejo de um grupo de alunos do Colégio Militar será atendido pois não tem outra finalidade senão transmitir-lhes um pouco de moral e compreensão, dentro do espírito de camaradagem que une os alunos desta Casa aos nossos camaradas mais velhos (ex-alunos ou não). Nesta data enviámos uma cópia a Sua Excelência o Presidente da Republica, apenas para conhecimento, visto que se trata duma carta assinada colectivamente, declarando tomar a responsabilidade por tudo o que nela escrevemos, animados por um espírito de Justiça e Lealdade. Com os nossos melhores cumprimentos, um grupo de alunos do Colégio Militar. A carta de apoio e solidariedade dos Meninos da Luz calou fundo no coração dos destinatários como se poderá entender pelas respostas que de Caxias foram enviadas para o Colégio:


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Do Colégio O espírito do Colégio Militar e dos seus Alunos

Da: Cela 3 – Forte de Caxias 9 Maio 75 Para: Comandante do Batalhão de Alunos do Colégio Militar

Sala 4 Caxias, 9/5/75

Caros Camaradas do Colégio: A mensagem que vocês fizeram chegar a CAXIAS constitui para nós o mais apreciado estímulo moral e o maior apoio para continuarmos a suportar o regime prisional que a extinção da DGS não conseguiu abranger. Nós os ex-alunos nunca imaginámos que vocês alguma vez nos pensassem reaccionários, mas admiramos com comoção a vossa mensagem cheia de camaradagem, dignidade, justo espírito militar e até coragem, que o claustro da LUZ nos ensinaram para toda a vida. A mensagem foi distribuída a todas as celas e sentida com emoção por todos os ex-alunos e pelos camaradas que, não o sendo, não deixam de ser militares com o mesmo grau de dignidade e de aprumo moral que genericamente caracterizam a “malta do Colégio”. Alguns não ficariam satisfeitos com uma resposta colectiva à vossa mensagem e vão escrever como por si próprios ela foi profundamente apreciada. Por mim e por todos um grande abraço de agradecimento a todos vós e um ZACATRAZ pelo nosso Colégio, onde os anos não diluem as qualidades morais, mas antes as transmitem às gerações novas de que vocês são activa vanguarda. Caxias, 9 de Maio de 1975

Caros e maravilhosos camaradas A leitura da vossa carta aqui na SALA 4, onde estão detidos os camaradas que vos escrevem, provocou um tumulto de sensações que misturaram o orgulho de termos camaradas como vocês, a emoção causada pela nobreza das vossas palavras, a alegria de vermos em vós o embrião de verdadeiros portugueses, e o bálsamo, bem humano, de sentirmos o calor do vosso conforto e a pureza justa das vossas intenções. Muitos de nós se comoveram. Muito obrigado. Na generosidade da vossa alma decidiram dirigir as vossas palavras não só aos ex-alunos do Colégio como a todos os que aqui se encontram. Fizeram bem, pois estamos sinceramente convictos de que, independentemente de quaisquer culpas que porventura nos possam ser superiormente apontadas, ninguém terá desejado ou deseja o regresso ao regime anterior. Mas todos, como vocês, sentem que o SIM à Lealdade e o NÃO à denúncia e à calúnia têm de continuar incrustados na base de toda a Ética do Militar, que a sua dignidade não pode ser posta em causa, e que o seu Amor à Pátria não pode ser nem minado, nem aproveitado para outros fins que não sejam a sua defesa e a do seu Povo. Todos os que vos escrevem têm serviços, sempre modestos, prestados ao País. Resta-nos a esperança de que a nossa actual situação o possa também servir.

(seguem-se as assinaturas)

(seguem-se as assinaturas)


Do Colégio O espírito do Colégio Militar e dos seus Alunos

Sala 7 Caxias, 9/Maio/75 Ao Aluno Comandante do Batalhão do Colégio Militar Luz Jovem Camarada Recebemos de um grupo de alunos desse velho Colégio uma carta que muito nos sensibilizou pelo seu conteúdo e que, por teu intermédio, nos apressamos a agradecer. Chocados pela situação em que nos encontramos, ela constituiu a única palavra amiga que chegou até nós, e como tal de relevância muito especial. Somos os ocupantes da SALA 7, neste Reduto Norte do Forte de Caxias. Entre nós, há um ex-aluno e dois outros oficiais, pais de camaradas vossos, mas todos agradecemos do coração, extraordinariamente sensibilizados a vossa lembrança, não só pelo seu significado, mas também pela finalidade que com ela quisestes atingir. Bem hajam pois, rapazes do Colégio Militar, que mais uma vez honraram as velhas tradições desse nobre Colégio. Que Deus vos conserve unidos pela vida fora e que a camaradagem entre vós continui a ser a palavra de ordem, que vos permitirá superar os revezes da vida, são os votos dos vossos camaradas muito amigos e muito reconhecidos (seguem-se as assinaturas)

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De um Major Piloto Aviador, não antigo aluno e igualmente detido em Caxias, transcrevemos as suas palavras escritas no jornal Tempo: ”E, no entanto, houve quem nos escrevesse a afirmar a sua confiança em nós e a repudiar os adjectivos que, nessa altura, nos eram lançados para cima. Sabem quem? Um grupo de trinta e cinco alunos do Colégio Militar! Contrariamente, aos quatrocentos e cinquenta «camaradas» não esperaram pelos «princípios enunciados pelo VI Governo quanto ao julgamento e libertação de presos sem culpa formada». Tomaram uma atitude quando, em consciência, acharam que o deviam fazer. Que grande lição deram estes adolescentes, que querem ser militares, àqueles que, julgando que o são, não fizeram mais do que, com a sua atitude passiva e cúmplice, desprestigiar-se a si próprios e à farda que vestem.” Aqui fica este registo de uma atitude nobre e dignificante muito própria do espírito colegial, espírito esse que se tem transmitido de geração em geração e que, estamos certos, continuará no futuro, tal como se tem verificado ao longo dos mais de 200 anos de vida desta Instituição ímpar no ensino e na formação de elites nos mais sãos princípios do carácter e do servir, cuja longevidade apenas é ultrapassada pela Universidade de Coimbra. O Colégio Militar, ao logo da sua vivência, tem dado ao País figuras notáveis que se têm distinguido tanto nos campos militar e civil, como também nas artes, nas ciências e nas letras. Instituições como estas são acarinhadas e preservadas em qualquer lado, pois constituem PATRIMÓNIO inalienável das nações a que pertencem. Portugal pode orgulhar-se do seu Colégio Militar.


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Do Colégio Singularidades Colegiais

José Alberto da Costa Matos (96/1950)

Singularidades

Colegiais

Leonel e Maria da Graça Durante a nossa existência, presenciamos inúmeros acontecimentos, umas vezes como meros espectadores ou vulgares figurantes, outras como protagonistas, principais ou secundários. Se nestas duas últimas situações estamos normalmente inteirados do enredo, dos papéis de cada intérprete e do historial e personalidade dos diferentes protagonistas, tal não acontece quando fazemos parte da assis-

tência. Neste caso, limitamo-nos ao papel passivo de assistir e apreciar, e o acontecimento esgota-se quando ele se extingue por si próprio, ficando ou não a perdurar na nossa memória em função da importância histórica das suas consequências. Se assistimos a uma cerimónia, raramente descortinamos o que estará para além do que se apresenta ante os nossos olhos, mesmo que nos mantenhamos muito

atentos ao desenrolar de todo o cerimonial; a não ser que alguém nos chame a atenção para determinada circunstância ou pormenor. Mas se isso não acontecer, o tempo irá passando e só talvez mais tarde um bisbilhoteiro da História acabará por “ver” aquilo que os nossos olhos não foram então capazes de enxergar. Provavelmente terá acontecido qualquer coisa como isto a muitos dos que assisti-


Do Colégio Singularidades Colegiais

ram às comemorações do aniversário do Colégio Militar que decorreram no claustro na manhã de sábado, 5 de Março de 2011, faz agora dois anos. Uma das cerimónias que habitualmente faz parte do programa dessa manhã é a imposição de condecorações aos militares e civis que tenham sido galardoados durante o último ano. Naquele ano figurava entre eles o funcionário Leonel José da Silva Tomaz, que fora condecorado com a 4.ª classe da medalha de D. Afonso Henriques, que é destinada a galardoar militares e civis, nacionais ou estrangeiros, que no âmbito técnico-profissional revelem elevada competência, extraordinário desempenho e relevantes qualidades pessoais, contribuindo significativamente para a eficiência, prestígio e cumprimento da missão do Exército Português. No momento da imposição da insígnia, foi-

-lhe dispensada uma entusiástica e prolongada salva de palmas protagonizada pelos antigos alunos presentes, sobretudo por aqueles que teriam menos de quarenta anos. E porquê este carinhoso regozijo? O Leonel, como usualmente é chamado, converteu-se por mérito próprio num daqueles servidores cujo exemplo perpassa várias gerações de alunos, ocupando lugar definitivo na memória colegial, tal como aconteceu com outros que o antecederam, como foram os casos do cabo “20” (Joaquim Alves) e do “Moca” (Cândido Gomes Alves). Quem folhear o 2.º volume da «História do Colégio Militar», poderá ler nas páginas 418 e 419 o seguinte: “O Leonel é um daqueles raros servidores do Colégio que conhece os números, nomes e alcunhas de todos os alunos que estão no Colégio ou que por ele passaram desde 1977; esta circunstância é, por si

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só geradora de um forte elo de ligação aos colegiais. Presente em quase todos os acontecimentos da vida colegial - que regista em vídeo – é ele quem apoia as récitas dos alunos desde a sua fase de preparação e ensaio, sempre incondicionalmente e para além das horas de serviço, tendo um grande orgulho nos mais de vinte «óscares» que os alunos lhe concederam em reconhecimento do seu contributo. Mas colabora também em outras manifestações da tradição colegial, mostrando sempre uma disponibilidade sem limites que só é própria daqueles em que a dedicação e o amor ao Colégio se confundem já com as suas próprias vidas. O seu estreito relacionamento com os colegiais permite-lhe assumir simultaneamente o papel de conselheiro e educador, não hesitando em dar uma reprimenda aos que a mereçam. Os alunos nada lhe


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Do Colégio Singularidades Colegiais

veram como palco. E este é mais um deles. Mas a coisa não fica por aqui. Acontece que a mulher do Leonel é filha de um antigo servidor colegial: o “Henrique”, que os antigos alunos mais velhos conheceram como porteiro do Colégio durante muitos anos, funções nas quais fora substituir o “Lopes”. Actualmente, a D. Maria da Graça continua a servir no Colégio como funcionária administrativa, enquanto o Leonel, após a aposentação, atravessou o Largo da Luz e serve agora na sede da Associação dos Antigos Alunos. Mas para que fique registo para futuro e para que, quem não conheça, fique a conhecer, debrucemo-nos então sobre o percurso de vida de ambos ao serviço do Colégio Militar.

escondem e têm por ele um especial respeito e afecto que exprimem a seu modo. O Leonel recorda que jamais poderá esquecer a distinção que lhe foi concedida pelos alunos finalistas quando, em 1997, o escolheram para os acompanhar na viagem de fim de curso a Macau.” Mas na mesma cerimónia, e condecorada com a mesma medalha, posicionava-se à direita do Leonel uma senhora, também funcionária do Colégio Militar, que provavelmente não atraiu as atenções, uma vez que estas se haviam concentrado naquele a quem eram dirigidos os grandes aplausos. Ora é justamente esta senhora quem transforma aquele acto, que decorria ante os olhos de todos, num acto singular que, creio bem, é único na Instituição Militar. É que a tal senhora é, nem mais nem menos, que a D. Maria da Graça, mulher do Leonel! Tratou-se portanto da circunstância inédita de marido e esposa serem condecorados publicamente, lado a lado, numa mesma cerimónia e com a mesma distinção. Costumo dizer que Colégio Militar não cessa de nos surpreender com a singularidade de tantos e raros acontecimentos que o ti-

LEONEL JOSÉ DA SILVA TOMAZ Nasceu em Lisboa a 23 de Dezembro de 1955, filho de Leonel Francisco Tomaz e de Maria de Lurdes Lima da Silva Tomaz. É casado desde 1981 com Maria da Graça da Luz Fonseca Tomaz, tem duas filhas - a Ana Catarina (1982) e a Maria Margarida (1990) – e mora em Carnide, a dois passos do Colégio Militar. Entrou no Colégio em 1977, por tempo indeterminado, a fim de servir na serralharia, mas acabou por ingressar, como “operário de 2.ª classe”, no Quadro de Pessoal Civil do Exército. No ano seguinte foi destacado para prestar serviço no Pavilhão de Trabalhos Oficinais e, pouco depois do início do ano lectivo de 1980/81, passou em acumulação de funções a prestar apoio como monitor às disciplinas de Electrotecnia e de Construção Civil. Desempenhou também, durante longos anos, o cargo de operador e encarregado da manutenção dos equipamentos e meios audiovisuais e, a partir de 1995, responsável pelo novo anfiteatro colegial e instalações escolares adjacentes. No começo do ano lectivo de 1997/98 passou a exercer funções de Encarregado de Instrução, como Adjunto do Coordenador do 6.º ano e, em 2001, foi profissionalmente reclassificado como Técnico Profissional de 2.ª classe (Cinema), ascendendo à 1.ª classe quatro anos depois. A partir de 1990 o Leonel, sendo já alvo da especial estima dos alunos, passou a

acompanhá-los em quase todas as actividades exteriores de representação oficial e nas competições desportivas, como se enumera a seguir. 1990: Acompanhou os alunos que participaram nos Saraus Desportivos realizados em Aveiro e nas Caldas da Rainha (Escola de Sargentos do Exército). 1991: Acompanhou os alunos em actividades desportivas realizadas em Canas de Senhorim e na Semana Equestre em Mafra. 1992: Acompanhou os alunos participantes no Corta-Mato Regional de Abrantes e no Nacional em Albufeira, e ainda a equipa juvenil de atletismo concorrente ao Campeonato Nacional de Desporto Escolar em Torres Novas. Participou na Inauguração da Expo de Sevilha. 1993: Acompanhou os alunos que participaram no Campeonato Nacional de Desporto Escolar em Évora. 1994: Participou nas cerimónias do aniversário do Colégio Militar realizadas no Porto. Acompanhou os alunos participantes no Corta-Mato Escolar Nacional nas Caldas da Rainha, no apuramento regional de Atletismo em Montemor-o-Novo, e na Final Nacional de apuramento para a «Gimnoestrada». Acompanhou ainda participantes no sarau de ginástica realizado em Leiria. 1995: Acompanhou a classe de ginástica de saltos numa apresentação em Viseu e


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os alunos que participaram numa prova de Karting em Évora. 1996: Acompanhou a Viseu os alunos que tomaram parte num sarau recreativo, os que participaram no Campeonato Europeu de Pentatlo Moderno bem como no Campeonato Regional de Atletismo nas Caldas da Rainha. 1997: Acompanhou os alunos que tomaram parte no Campeonato Nacional de Corta-Mato realizado na Figueira da Foz e os que participaram nos Saraus de Ginástica da Academia Militar e de Vila Real. Integrou a viagem dos finalistas a Macau. 1999: Acompanhou os alunos que representaram o Colégio Militar na inauguração do Monumento ao Marechal Teixeira Rebelo, na Cumieira (Vila Real). 2003: Acompanhou a deputação do Colégio Militar que, no âmbito das comemorações do “Bicentenário”, tomou parte na homenagem ao Marechal Teixeira Rebelo que teve lugar na Cumieira. 2004: Acompanhou a delegação colegial participante no Campeonato Europeu de Pentatlo Moderno realizado na Lituânia. 2005: Acompanhou a deputação do Colégio Militar que, em Coimbra, tomou parte nas comemorações do Dia do Exército. Acompanhou a delegação colegial participante no Campeonato Europeu de Pentatlo Moderno realizado na Eslováquia. Integrou a viagem dos finalistas à Croácia. 2006: Acompanhou a deputação do Colégio Militar que tomou parte nas comemorações do Dia de Portugal no Porto e nas do Dia do Exército em Évora. Acompanhou a delegação colegial participante no Campeonato Europeu de Pentatlo Moderno realizado na Suécia. Integrou a viagem dos finalistas à Hungria. 2007: Integrou a viagem dos finalistas a Maiorca. 2009: Acompanhou a deputação do Colégio Militar que, em Braga, tomou parte nas comemorações do Dia do Exército. 2010: Acompanhou os alunos que, em Barcelona, participaram no Torneio Internacional de Pentatlo Moderno. Realizou a montagem da Exposição “Pólos de Excelência” integrada nas comemorações do Dia do Exercito. 2012: Acompanhou quatro alunos do Colégio Militar premiados num concurso realizado pelo Diário de Notícias, numa viagem

que efectuaram à Espanha, França, Alemanha, Suíça, Itália, Holanda e Bélgica. Entretanto, em 2008, durante a montagem de audiovisuais no edifício do ginásio, sofreu um acidente em serviço de que resultou a incapacidade parcial da sua mão esquerda. Foi condecorado em 2011 com a 4.ª classe da Medalha de D. Afonso Henriques, ano em que, em Setembro, passou à situação de aposentação após 34 anos ao serviço do Colégio Militar, passando desde então a colaborar com a Associação dos Antigos Alunos. Ao longo da sua carreira foram-lhe conferidos sete louvores, o último dos quais, concedido em Outubro de 2010 pelo Comandante da Instrução e Doutrina do Exército, é justificado como a seguir se transcreve: «Pela forma muito competente, inteligente e de extraordinária dedicação ao Colégio Militar quer no âmbito da sua actividade funcional na estrutura interna escolar, bem como nas múltiplas e variadas actividades no exterior, em representação da Instituição. Profundo conhecedor da vida colegial, dos seus rituais e tradições, tornou-se um colaborador entusiasta e permanente em todos os eventos em que o Colégio Militar está presente, não só pela forma como o sente mas também pela inexcedível disponibilidade, esprito de abnegação e de sacrifício exemplares. A capacidade de organização de que é possuidor permitiu-lhe imprimir uma extraordinária dinâmica a todos os eventos que contaram com o seu prestimoso contributo, potenciadores do prestígio e do elevado conceito em que é tido neste Estabelecimento Militar de Ensino. Responsável por uma vasta área de apoio às actividades escolares desenvolve, no âmbito técnico-profissional, elevadas competências a que alia natural desembaraço, grande serenidade e eficiência, sólida formação moral e profissional, contribuindo indiscutivelmente para um ambiente de harmonia, boa vontade e salutar entusiasmo na concretização plena de todas as tarefas que Ihe são solicitadas. Possuidor de relevantes qualidades pessoais e profissionais, onde sobressaem a camaradagem, a inexcedível capacidade de trabalho, perseverança, dedicação ao serviço e espirito de missão, procura sempre as soluções adequadas pare as situa-

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ções mais inusitadas. A sua acção tem-se revelado decisiva na multiplicidade de actividades lúdicas e didáctico-pedagógicas desenvolvidas no Colégio Militar, não obstante hipotecar, com frequência, as suas horas de lazer, revelando um extraordinário desempenho, dedicação e elevada competência profissional. O grau de confiança e respeito obtidos junto dos alunos e a facilidade com que com eles se relaciona são igualmente reveladoras dos traços da sua personalidade comummente aceites por todos os que com ele têm o privilégio de privar e um contributo inexcedível à Direcção do Colégio Militar pelo apoio incondicional que proporciona no acompanhamento e desenvolvimento das seculares tradições. Este apoio e acompanhamento exemplar que reflectem a dimensão do Assistente Técnico Leonel, como homem e educador, que tem contribuído para a motivação e a formação humana e pedagógica dos alunos do Colégio Militar ao longo dos oito anos do seu percurso escolar e colegial. A extrema dedicação e lealdade para com os Valores que estiveram na génese da criação do Colégio Militar, do “seu” Colégio, os mesmos são indiscutivelmente a sua motivação e razão de ser, que se traduzem numa entrega total aos “Seus Alunos”. Em certo sentido, é também um guardião das tradi-


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Do Colégio Singularidades Colegiais

ções e dos valores encerrados no Código de Honra do Aluno do Colégio Militar, a quem devotadamente tem dedicado a sua vida. Generoso, dotado de apreciáveis dotes de carácter, revelador de grande aptidão para bem servir nas diversas circunstâncias, o Assistente Técnico Leonel Tomaz é digno de total confiança e da maior credibilidade junto de toda a comunidade colegial. Funcionário sempre atento aos anseios e preocupações desta “família” e fonte geradora de propostas e iniciativas válidas, coerentes e qualificadas, fazem com que o Assistente Técnico Leonel Tomaz, ao longo dos seus trinta e quatro anos ao serviço do Colégio Militar seja entendido como um inexcedível colaborador da Direcção, pela reconhecida coragem moral, prestigio, consideração e estima de toda a família e comunidade colegiais, sem excepção, devendo os muito bons e leais serviços prestados serem destacados, por contribuírem, significativamente para a eficiência, o prestigio e o cumprimento da missão do Colégio Militar e do Exército.»

MARIA DA GRAÇA LUZ FONSECA TOMAZ Nasceu a dois passos do Colégio Militar em 19 de Outubro de 1957, filha de Jesuína da Luz Fonseca e de Henrique da Fonseca, o “Henrique” que muitos antigos alunos conheceram enquanto colegiais, primeiro como fâmulo e depois como porteiro do Colégio Militar. No começo do ano lectivo de 1973/74 iniciou os seus serviços no Colégio como “auxiliar de escrita por folha de férias”. Tinha então apenas 16 anos, a idade dos alunos que ali frequentavam o 6.º ano. No ano seguinte passou a “auxiliar de escrita eventual”. Em 1975 a “escriturária eventual” e, em meados de 1977, ingressou no Quadro de Pessoal Civil do Exército (QPCE) com a categoria de “escriturária dactilógrafa”. Por essa altura entrou para o Colégio um tal Leonel, que foi servir para a serralharia. Passaram-se dois anos e a Maria da Graça foi frequentar o curso de Contabilidade e o de Operadora de Registo de Dados de Informática. Certo dia “tropeçou” no Leonel que, entretanto, viera prestar serviço no Pavilhão de Trabalhos Oficinais. O namoro durou até 1981, ano em que se casaram. E um ano depois nascia a Ana Catarina. Ascendeu sucessivamente a 3.º oficial em 1992, a 2.º oficial em 1996 e a assistente administrativa especialista em 2001, Prestou serviço na Secção Financeira e de Logística até meados de 2007, sendo responsável pela contabilidade referente aos alunos, função esta em que se evidenciou

pelo trato afável e modo respeitoso com que dialogava com os encarregados de educação. Foi também responsável pelo movimento e controlo de existência de todos os consumíveis e pelo processamento de vencimentos. Transitou depois para a Secção de Pessoal, onde ainda hoje serve, conservando a mesma disponibilidade de sempre bem como a facilidade de relacionamento que a caracteriza. Cinco vezes louvada, foi condecorada com a Medalha de D. Afonso Henriques de 4.ª classe em fins de 2010 pelo modo prestigiante e eficiente com que, durante 33 anos, serviu e continua a servir o Colégio Militar e o Exército. Chegados a este ponto, perguntará o leitor, e com razão: “Mas por que é que só agora, dois anos depois, é que isto nos é relatado?” A explicação é simples. Embora o Leonel ande sempre de máquina fotográfica na mão registando em imagens o que vai acontecendo, quando foi da sua condecoração não podia, simultaneamente, fotografar a cerimónia em que ele próprio era o motivo principal. Quem fez então a reportagem foi o fotógrafo profissional Sérgio Garcia (ex-aluno do Colégio) que, apesar de muito solicitado para disponibilizar as fotografias que ilustram este artigo, só em fins de 2012 pôde corresponder ao pedido, por andar a mudar de instalações. Coisas que acontecem mas... mais vale tarde do que nunca!


Colaboração De Chaves à Flandres

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Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957

De Chaves à Flandres António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho (130/1900)

No número 187, de Abril/Junho de 2012, desta nossa revista foi publicado um artigo meu, intitulado «Aluno 23/1905, Silva Pereira, Defensor de Chaves». Nesse artigo dei a conhecer o facto excepcional de Silva Pereira ter recebido, como aluno do Colégio, em 30/10/1912, por determinação do Ministro da Guerra, um louvor em Ordem de Serviço colegial devido à «dedicação, coragem e valentia de que deu provas no combate de 8 de Julho em Chaves». Como tive oportunidade de indicar nesse artigo, o combate de 8 de Julho de 1912 em

Chaves resultou do ataque nesse dia feito a esta vila por uma importante coluna de forças monárquicas, comandada pelo Capitão Henrique Paiva Couceiro. Como escrevi também na altura, este assunto interessou-me bastante, não só pela acção valorosa do 23/1905, que se juntou à tropa da guarnição local, mais concretamente às forças do 19 de Infantaria, para defender a vila, mas também pelo facto de um meu bisavô materno ter sido também ele um dos «Defensores de Chaves». No passado dia 8 de Julho perfizeram-se 100 anos sobre a ocorrência deste episódio. Esperei que a Câmara de Chaves promovesse alguma cerimónia para celebrar esta efeméride, o que não veio a acontecer, devido ao falecimento do Dr. Montalvão Machado, que seria um dos organizadores da comemoração. Apesar disso, a efeméride ficou devidamente assinalada, devido à acção do Grupo Cultural Aquae Flaviae, que dedicou o número 45, de Maio de 2012, da sua revista Aquae Flaviae à incursão monárquica á vila em Julho de 1912. O número 45 da Revista Aquae Flaviae é composto exclusivamente por dois documentos. O primeiro documento é a reprodução do livro intitulado «A Defeza de Chaves no dia 8 de Julho de 1912. Subsídios para a História do Regimento de Infantaria 19», da autoria do Tenente Coronel Augusto C. Ribeiro de Carvalho, que era o comandante do regimento à data do combate. O segundo documento é a reprodução do livro intitulado «O Ataque a Chaves», da autoria de Joaquim Leitão, o qual nos indica no prefácio do livro que «apesar de condenado a pena maior, pelo Tribunal Militar

de Chaves, sob a acusação de haver tomado parte nesta acção, não tive a honra de ser dos que deram o ataque a Chaves na ardente jornada de Julho de 1912». Achei a leitura do referido número da revista Aquae Flaviae interessantíssima, por nos permitir ter a visão dos acontecimentos ocorridos naquele dia sob dois pontos de vista diferentes e que até poderiam ser antagónicos, não fosse a honestidade intelectual dos seus autores, que permite que os dois livros acabem por se complementar. O primeiro livro é do tipo relatório militar, factual e simples, apesar de nos indicar no seu início que se trata de uma «narração circunstanciada da parte que tomou este regimento nas operações contra os rebeldes nos dias 7 e 8 de Julho de 1912». O segundo livro é um pouco «romanceado», escrito por um homem que indica que foi «julgado e condenado à penitenciária e degredo», mas que termina o seu livro, para garante da sua fidelidade histórica, com um relatório militar da acção da autoria de vários oficiais das forças monárquicas. Chegados a este ponto é natural que o leitor se interrogue acerca da razão que me levou a voltar a Chaves e a 1912. A razão é simples, ao ler o primeiro livro da revista anteriormente mencionada deparei-me com as relações de todos os militares que tomaram parte nas acções de defesa de Chaves, sendo que na «Relação dos oficiais e praças que fizeram parte da coluna mixta que marchou para Sapiãos, ao encontro do inimigo, na noite de 7 Julho último e regressou a Chaves na tarde de dia 8» é indicado o Alferes ANTÓNIO GERMANO


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Colaboração De Chaves à Flandres

GUEDES RIBEIRO DE CARVALHO, flaviense ilustre, que foi Antigo Aluno do Colégio, onde ingressou no ano de 1900 com o número 130, e que se viria a notabilizar como combatente na Flandres, na 1ª Guerra Mundial. Foi duas vezes promovido por distinção, facto raríssimo e que talvez tenha despertado algumas invejas, e foi agraciado com dois graus da ordem da Torre Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, facto este também de rara ocorrência. Para dar a conhecer aos mais novos quem foi este notável Antigo Aluno, permito socorrer-me do livro do 96/1950, José Alberto da Costa Matos, intitulado «O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa», do qual faço o extracto que se segue relativo à participação de Ribeiro de Carvalho na 1ª Guerra Mundial: «Ainda tenente partiu para França, integrado no Corpo Expedicionário Português que ali combateu durante a 1ª Guerra Mundial. Devido à valentia demonstrada em sucessivos combates nas primeiras linhas, foi em Novembro de 1917 promovido por distinção ao posto de capitão, sendo então o mais novo oficial do Exército Português com essa patente. A 8 de Março de 1918 comandou com grande bravura e serenidade um bem-sucedido «raid» sobre as linhas alemãs, tendo conseguido trazer como prisioneiros vários alemães. Este feito trouxe-lhe a promoção por distinção ao posto de major, contando a antiguidade desde aquela data, sendo também condecorado com a Cruz de Guerra de 1ª classe. Veio então de licença a Portugal, onde se

encontrava quando a 9 de Abril acontece na Flandres a dramática batalha de La Lys. Regressado a França, o armistício de 11de Novembro viria a pôr fim à 1ª Grande Guerra e, tendo em consideração o valor dos serviços que prestou em combate, Ribeiro de Carvalho foi nomeado por escolha para comandar a Companhia de Infantaria que, em Paris, a 14 de Julho de 1919, representou as tropas portuguesas no «Desfile da Vitória» sob o Arco do Triunfo, desfile esse que assinalou o fim do conflito Mundial» Após a 1ªGuerra Mundial, Ribeiro de Carvalho volta a entrar em combate, agora em Portugal, em 1919, no tempo da Monarquia do Norte, de novo contra forças monárquicas. Comandando um pequeno efectivo de tropas de Trás-os-Montes fiéis à República é bombardeado pela artilharia inimiga próximo da Régua, no Alto da Forca, onde é ferido. Recusa a rendição que lhe é proposta, acabando porém as forças monárquicas por retirar. Posteriormente serve em Moçambique de onde regressa em 1923. Segundo nos indica Costa Matos na sua obra já referida. «Ainda nesse ano e sendo tenente-coronel, foi Ministro da Guerra do governo de Álvaro de Castro (antigo aluno do Colégio que o convidara a desempenhar aquela pasta ministerial), de 18 de Dezembro de 1923 a 26 de Fevereiro de 1924. Após o 28 de Maio de 1926 (movimento a que foi estranho), ainda foi convidado pelo general Gomes da Costa (antigo aluno do Colégio

Militar) para fazer parte do novo governo, mas Ribeiro de Carvalho recusou. A situação que se seguiu àquele movimento fê-lo afastar-se da actividade política, mas não das actividades contra o regime, as quais se prolongariam até 1937. Entre 1928 e 1930 envolve-se em todos os movimento e golpes de estado, acabando por ser preso em 1930. Evade-se a 15 de Abril do ano seguinte e, decorridos 15 dias, é considerado desertor, sendo abatido ao efectivo pela Ordem do Exército de 8 de Maio de 1931. Exila-se então em Espanha. Regressa a Portugal em 1933, sendo novamente preso. Parte de novo para o exílio, estacionando agora em Rabat, juntamente com Sarmento de Beires (antigo aluno do Colégio Militar), sendo demitido na Ordem do Exército de 31 de Março de 1933. Volta para Portugal em 1939, sendo condenado com pena suspensa. Mais tarde, em 1950, recusa a amnistia concedida pelo governo nos termos de uma lei votada na Assembleia Nacional». Passou sérias dificuldades económicas e acabou por ser reintegrado no Exército em 1960, vindo a falecer louco em 1967. Durante a sua vida conturbada escreveu alguns livros de índole militar e histórica. Foi agraciado com os graus de cavaleiro e de oficial com palma da Ordem da Torre Espada. Foi comendador das Ordens de Avis e de Cristo. Foi condecorado com a medalha de Valor Militar, com a Cruz de Guerra de 1ªclasse, com a medalha de prata de Bons Serviços, com a medalha de prata de Comportamento Exemplar, com a medalha da Vitória, com a medalha Comemorativa das Campanhas (França 1916-1918), com a Military Cross (Inglaterra), com a medalha La Solidaridad (Panamá) e foi agraciado com o grau de cavaleiro com palma da Legião de Honra (França). Em suma, trata-se de um daqueles Antigos Alunos, que «por obras valorosas se vão da lei da morte libertando». Nota Final Na força portuguesa, comandada por Ribeiro de Carvalho, que tomou parte no «Desfile da Vitória» em Paris, o porta-estandarte era um outro Antigo Aluno do Colégio, o Tenente Henrique Perestrelo da Silva (2/1902), também ele agraciado com a Ordem da Torre Espada.


Colaboração 1.º Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas

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Nuno António Bravo Mira Vaz 277/1950

As três mortes do 1.º Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas Tradução adaptada do livro Je ne regrette rien, de Pierre Sergent

(uma versão do artigo foi publicada anteriormente na revista Boina Verde)

As duas primeiras mortes ocorreram na Indochina. A primeira durante a desastrosa evacuação de Cao Bang: 500 boinas verdes empenhados – 470 mortos e desaparecidos; a segunda em Dien Bien Phu: um milhar de homens lançados na fogueira – 600 mortos e 400 feridos. A terceira morte aconteceu na Argélia: depois de vitórias militares no djebel e na capital, o 1.º REP foi o ferro-de-lança do putsch de 22 de Abril de 1962 – oito dias mais tarde, a Unidade era definitivamente dissolvida.

N

o verão de 1948, o 1.° BEP (Batalhão Estrangeiro de Pára-quedistas) termina a sua instrução na Argélia. Embarcados no Pasteur, os homens descobrem em 12 de Novembro desse ano o espectáculo prodigioso da baía de Along na Indochina: um mar Iímpido, transparente; uma placa de prata polida, sobre a qual repousam os cones de calcário que a todo o momento se espera ver deslizar, quais juncos impelidos pelos primeiros raios de sol. Mas o deslumbramento é sol de pouca dura. De facto, apenas desembarcado em Haiphong, o 1.° BEP mergulha até ao pescoco no sangue e no sofrimento. Na glória também, é certo. Durante dois anos, o Batalhão toma parte em operações no Tonquim e na Conchinchina, sempre na primeira linha das situações mais desesperadas. Tão depressa patinha no lodo dos canais, como se vê obrigado a trepar o caos calcário da Região Alta. Por onde passam, os páras da Legião deixam a marca indelével do combatente que tudo sacrifica ao cumprimento do dever. No decurso de 1950, a situação degrada-se rapidamente na fronteira com a China: ao longo da Route Coloniale n.° 4, (R. C. 4) a pressão do viet torna-se insustentável, forçando o Alto-Comando francês a evacuar Cao Bang. E para recolher esses fugitivos do inferno, manda um Agrupamento sob as ordens do coronel Lepage: os 1.° e 2.° Tabors (Batalhões marroquinos), o 8.° RTM (Regimento de Marcha Argelino) e o 1.° BEP. Em 1 de Outubro de 1950, o Agrupamento sai de That Khe, com o BEP em cerra-fila. No dia seguinte, a coluna detém-se à vista de Dong Khe, já ocupada pelos viets. Sabe-se, então, que o coronel Charton abandona nesse momento Cao Bang com a sua coluna. Lepage monta um dispositivo de segurança e entretanto a noite cai. Os homens preparam-se para dormir. E então, bruscamente, um violento tiro de artilharia abate-se sobre as posições dum

Goum (Companhia) do 2.° Tabor que ocupa o morro Na Keo, que domina directamente a R. C. 4. Os homens do Goum resistem toda a noite. Ao nascer do dia, os viets reforçam o ataque. O comandante do 2.° Tabor, que receia o aniquilamento do Goum, Iança um S.O.S.. O pelotão do tenente Hochart, da Companhia Bouyssou (2.ª/BEP), corre em socorro. Quando atinge uma pequena crista, o tenente avista os viets que correm ao assalto do Goum. Os páras avançam fazendo fogo com todas as suas armas. Foi um massacre. No alto da colina, os marroquinos sobreviventes que já desesperavam dum milagre, parecem bestificados. Alguns apertam ainda nas mãos frementes as granadas que tinham reservado para evitar cairem prisioneiros do inimigo. Enquanto a 2.ª Companhia do BEP ocupa o cume principal na Na Keo, um Batalhão viet lança-se ao ataque da colina 615, ocupada

Legionários do BEP na Indochina

pelo Pelotão de cabos-alunos do tenente Faulques. Se os viets atingissem o objectivo, o BEP ficaria cortado em dois. É preciso resistir, custe o que custar, até ao último homem. Então, contra essas cente


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Colaboração 1.º Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas

nas de viets que correm ao assalto, o Pelotão Faulques vai ultrapassar-se. Nem um inimigo alcanca a posição, e a encosta fica juncada de cadáveres. O Pelotão sofre três mortos e uma dezena de feridos. O coronel Lepage dá ordem para cerrar o dispositivo. Antes de cair a noite, os franceses podem observar as colunas inimigas instalando a contra-relógio posições de morteiros e de canhão sem recuo. Ninguém duvida já de que o inimigo Iança na batalha efectivos equivalentes a duas Divisões. Vinte horas. O BEP apresta-se para o combate. O comandante, major Segretain, e o seu adjunto, capitão Jeanpierre, sabem que nem a melhor unidade do mundo pode resistir a uma tal desproporção de armamento e efectivos. Não obstante, tratando-se de veIhos soldados, aguardam corajosamente o que está para vir. Os clarins viets dão o sinal para o assalto. Vindas simultaneamente do norte e do sul, as vagas de assaltantes são forçadas a refluir perante a resistência tenaz dos boinas verdes. Mas uma nova vaga, vinda de Ieste, abate-se sobre a 3.ª Companhia, que ocupa a posição central. O Pelotão do Tenente Cornuault é literalmente submerso por um Batalhão viet. Mas quando os guerrilheiros se preparam para ocupar as posições conquistadas, surge o contra-ataque do Pelotão Faulques, um punhado de Ieões indomáveis, que reconquistam a posição num furioso corpo a corpo. O inimigo foge. Os páras perdem outra dezena de homens, mas o BEP escapa de boa. Em 4 de Outubro, às três horas da manhã, a testa do Agrupamento Lepage encontra-se junto ao antigo porto de Na Pa. O 2.° Tabor, já duramente atingido no combate de Na Keo, procura refugiar-se no desfiladeiro de Loung Phai para evacuar os feridos. Mas mal havia feito um quilómetro sobre a R. C. 4, cai numa emboscada viet. Os dois Pelotões de testa conseguem passar apesar de tudo, mas o remanescente da coluna reflui em desordem sobre as posições do BEP. As coisas estão agora mais claras: para escapar ao cerco dos Regimentos inimigos, não resta senão um itinerário de retirada: a pista que Iiga à colina 765, onde já se encontram o PC do Agrupamento e alguns elementos do 8.° RTM. Enquanto Jeanpierre avança com a 1.ª Companhia, Segretain procede à destruição dos canhões, manda abater os muares de transporte e recupera os feridos do 2.° Tabor que juncam a R.C.4. E o calvário recomeça. Os gemidos dos feridos elevam-se sobre a coluna de homens es-

faimados, cheios de sede e tontos de cansaço. A progressão é Ientíssima: cerca de 200 metros por hora sobre uma pista tortuosa, cortada de ravinas e por vezes tão abrupta que os feridos têm de ser transportados a dorso. Instalados atrás de cada rochedo, abrigados em cada dobra de terreno, ou a coberto da vegetação Iuxuriante, os viets não dão um minuto de descanso aos franceses. De tal modo que, ao cair da noite, as diversas unidades do Agrupamento ainda não conseguiram reagrupar-se. Pela quinta vez nessa noite esgotante, o BEP retoma a marcha. É preciso encontrar um buraco para descer a barreira rochosa que domina de centenas de metros o vale de Coc Xa. Os homens estão mortos de fadiga. Quando a coluna se detém, eles deixam-se tombar no chão e adormecem de golpe. Depois, à ordem, põem-se de pé e marcham de novo mecanicamente. Foi Segretain quem finalmente descobriu o caminho aos primeiros alvores do dia. Mas ainda aqui é preciso combater, forçar a passagem defendida por uma unidade viet. Chegado ao vale, o major manda o tenente Tchabrichvili ocupar um ponto dominante para proteger o movimento do Batalhão. Mas o coronel Lepage dá ordem para o BEP permanecer nas actuais posições. Segretain passa o dia inteiro a fazer-Ihe ver que a posição é insustentável. Só ao cair do dia Lepage cede e autoriza o BEP a ocupar a colina 477, a sul. O movimento recomeça às dezanove horas. Na luz que desmaia, o silêncio é total. E então um clamor súbito de gritos que repercutem nos afloramentos calcários faz tremer os nervos dos páras: centenas de viets atacam o Pelotão Tchabrichvili. Faulques não hesita. Atrás dele, os cabos-alunos partem ao contra-ataque. Os viets são varridos. Mas do Pelotão atacado não resta um sobrevivente. O pesadelo ainda não chegou ao fim. Na 3.ª Companhia, que fecha a marcha, faltam dois Pelotões. Apenas no dia seguinte, quando os homens operam a reunião com o BEP, se sabe o que aconteceu: os viets eliminaram à faca, no escuro, a guarnição de uma metralhadora. Desfeita a ligação, os páras que vêm a seguir perderam a pista e só à luz do dia conseguem reunir-se aos restantes camaradas. Em 6 de Outubro Jeanpierre apresenta a Lepage o balanço daqueles três dias de combates: a única Companhia intacta é a 2.ª; a 1.ª perdeu um Pelotão; a 3ª, um Pelotão e uma Secção; a Companhia de Comando e Serviços (CCS), um morteiro de 81 e uma metralhadora com as guarnições completas. Além disso, o BEP só dispõe de 17 granadas de morteiro 81, e não tem nenhuma de 60 nem de lança-granadas de 50. Sem contar que o inimigo aperta o cerco, inexoravelmente. Era indispensável um comando de Agrupamento resoluto, dinâmico, capaz de arrancar com decisão as unidades ao estrangulamento. Em vez disso, dão-se ordens e contra-ordens. A única saída possível junto à qual se encontra uma fonte, já está ocupada pelos viets. A noite chega sem que alguma decisão seja tomada. À meia-noite Segretain é acordado por uma mensagem rádio que manda o BEP atacar o caminho da fonte às 3 da manhã. Não se vê um palmo à frente do nariz. Um buraco negro e opaco. Os homens deslocam-se às cegas, o braço estendido, o passo incerto. Para manter a ligação é preciso dar-se as mãos ou agarrar os cinturões dos camaradas. Às quatro e meia, a 2.ª Companhia lança-se ao assalto. A noite vibra com o ruído da fuzilaria. Emboscados atrás de cada árvore e de cada rochedo, os viets atiram como possessos. Os


Colaboração 1.º Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas

páras tombam por Secções inteiras. O Pelotão Chauvet é aniquilado. - Hochart! - grita o comandante de Companhia. O tenente chega junto do superior: - Meu capitão? - Substitua Chauvet. O tenente arrasta o Pelotão noutra carga suicida. À sua esquerda, os homens do 3.° Pelotão atacam furiosamente à granada e com os punhais, mas dentro em breve são ambos submersos pelo número e dizimados. Segretain manda suster o ataque e faz a Lepage o ponto da situação. - Segretain, por amor de Deus! - suplica o coronel no microauscultador do rádio. - A sorte do Agrupamento está nas mãos do BEP! É preciso abrir caminho a qualquer preço. Uma ordem que não se discute, conquanto seja desesperada. Para uma tal missão, há um homem à altura dos golpes mais duros: o tenente Faulques. - Em frente! - grita o tenente. E o Pelotão de cabos-alunos, já tão severamente provado, arranca para o holocausto, guiado pelos clarões dos disparos inimigos. Faulques sente uma chicotada na espádua. Vacila. O seu braço direito pende inerte. - Em frente! - grita ainda com mais força. Dá meia dúzia de passos. É atingido de novo por uma bala que Ihe destrói o cotovelo esquerdo. Grita para o seu sargento: - Sovela: é preciso passar! Empurra a tua gente! Do meio da noite, dura e precisa, vem-lhe a resposta do subordinado: - Meu tenente, eu estou sozinho . .. os meus homens morreram. Faulques avança ainda, sabe-se lá com que forças. É sacudido por novo choque, dobra o joelho, vai cair, mas finalmente endireita-se com a coxa atravessada por uma bala. Depois, quando ainda tem uma mão crispada sobre a ferida, recebe nova bala na coxa direita. Desta vez abate-se pesadamente sobre o solo, sem forças para prosseguir. Do Pelotão de cabos alunos, a elite do BEP, não restam senão os cadáveres. O último Pelotão que falta empenhar da 2.ª Companhia parte ao assalto, mas não chega a percorrer quarenta metros, antes de ser aniquilado por sua vez. O dia nasce, timidamente, sobre o local da carnificina. A Iuz vai permitir ao tenente Leveque, com a 4.ª Companhia do 8.° RTM, tomar de assalto os morros que dominam a fonte, à custa de dezenas de mortos e feridos. O BEP não assiste passivamente a este heroísmo magnlfico. O que resta da 1.ª e da 3.ª Companhias corre pelo estreito corredor. A despeito do elan do assalto, apenas um punhado de homens válidos consegue aproximar-se da fonte, mas sem verdadeiramente a ocupar. O BEP está no tapete. De súbito o ar vibra com as notas lúgubres dum canto de guerra dos marroquinos que Lepage envia para render o BEP. - Não tem que enganar. — Diz o capitão Jeanpierre ao oficial comandante do Goum. - Siga o rasto dos cadáveres. Atrás dos marroquinos, corre o que resta do BEP. Desta vez, os viets já não são suficientemente numerosos para impedirem a transposição do desfiladeiro. Além disso, os páras estão desesperados: atrás do tenente Stien, eles rompem o cerco, escalam a vertente da colina 477 e reúnem-se com a coluna Charton, que saíra de Cao Bang e que era suposto eles virem apoiar.

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- Finalmente! - mal conseguem murmurar os sobreviventes do BEP. - Contamos convosco. . . - Nós também. . . - interrompe-os o coronel. – e aponta-lhes, sem mais palavras, os soldados esfarrapados que juncam o trilho e rolam na penumbra os olhos febris e espavoridos. Durante todo o dia, por pequenos grupos, cento e trinta páras reúnem-se à coluna Charton. Entre eles, Segretain e Jeanpierre. A situação piora a cada momento. Os viets ocupam todas as colinas circundantes e flagelam sem cessar as colunas francesas. Segretain, extenuado, não consegue esconder por mais tempo o sofrimento atroz que Ihe provoca a ciática que o atormenta desde o primeiro dia da operação, e passa o comando ao seu adjunto. Os páras reconstituem dois Pelotões de combate com os 9 oficiais, 12 sargentos e 109 praças que se espalham, à beira do esgotamento, sobre a pista cortada no calcário branco que despede revérboros sob a Iuz crua do sol. A meio da tarde, Lepage reune-se com os comandantes dos Batalhões. O ambiente é tenso. Chamado a dar a sua opinião, Jeanpierre não mastiga as palavras: - Não há senão uma solução para salvarmos algumas migalhas daquilo que resta: conceder livre iniciativa a cada Batalhão para furar as Iinhas e atingir That Khe. O coronel consulta os outros oficiais superiores com o olhar. – Jeanpierre tem razão. É a resposta unânime. - Concedido. - diz Lepage. - Boa sorte para todos. Eram dezoito e trinta do dia 7 de Outubro de 1950. Jeanpierre regressa ao seu PC, sobre a encosta do morro 477, para dizer aos oficiais do BEP: - AIguém tem de aguentar um pouco mais, para permitir aos outros que se escapem. Pois bem: nós fá-Io-emos. Até ao cair da noite. Depois, arrancamos na direcção de That Khe. - olha-os e tem um segundo de hesitação antes de terminar: - infelizmente, dadas as circunstâncias, temos de deixar os feridos no local. Mal acaba de pronunciar estas palavras, o capitão Ieva as mãos ao ventre, vacila e empalidece. Mas não é nada; apenas uma bala que ricocheteou na fivela do cinturão sem outras consequências. Sorri e prossegue: - Vamos formar cinco grupos de aproximadamente vinte e cinco homens cada. O primeiro ponto a atingir é a cota 703. Daqui, todas as Iinhas de água convergem sobre That Khe. Os grupos saem com 5 minutos de intervalo. Às dezanove horas em ponto o cabo Constant, chefe do destacamento de antigos viets que tinham aceitado trabalhar para os franceses, começa a abrir caminho na mata hostil, enquanto o sol se esconde por trás dos picos agudos, para oeste. Entretanto, a dois quilómetros dali, o tenente Hochart, que conseguiu reunir quarenta sobreviventes e aguarda desde há horas o pôr-do-sol, Ievanta-se: - Direcção, o desfiladeiro de Loung Phai. Os que conseguirem passar reúnem-se do outro lado da montanha. Em grupos de 2 ou 3, os homens Iançam-se para a frente, com a força do desespero. Dos quarenta, quinze vão reunir-se, noite cerrada, na contra-vertente. O primeiro grupo da coluna principal progride ao longo de um riacho, guiado por Constant e pelo seu adjunto Hoi. A marcha é extenuante. Por vezes é preciso empurrar aqueles que se deixam cair, sem um murmúrio, contra as raízes das árvores milenárias,


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demasiado embrutecidos pela fadiga. Segretain é Ievado às costas pelo sargento Leveque. De súbito, do meio da noite, uma voz nasalada enche-os de angústia: - Tabors, goumiers, franceses, rendei-vos . . . As balas crepitam de todos os Iados. Granadas explodem nas trevas, arrancando gritos de dor aos atingidos. Segretain é atingido por uma rajada no ventre. Cai. Uma nova bala apanha-o na coxa. Aos subordinados que se acercam, intima: - Deixem-me. Eu já tenho a minha conta. - em seguida fecha os olhos sob a dor atroz que o devora. Nas cercanias do riacho, os páras tentam reagrupar-se: o capitão Lacrox-Vaubois comanda um grupo de sete boinas verdes, Jeanpierre com dois oficiais e um punhado de homens marcham um pouco a sul, e Constant junta-se a um pequeno grupo de partisans thai. Na noite de 8 para 9, cerca de 60 homens do BEP marcham ainda, em grupo dispersos, na direcção sudoeste. Sem víveres, sem água, eles obstinam-se apesar de tudo pela simples vontade de sobreviver e de atingir as posições francesas. No dia 9 todos os grupos têm de defrontar unidades viets. Os pequenos destacamentos, cada vez mais reduzidos, não desistem. Continuam a avançar no seio do formigueiro inimigo, prontos a vender cara a vida. Quando se esgotam as munições, os homens tiram os punhais das baínhas e correm ao assalto dos redutos inimigos que se opõem à progressão para That Khe. Finalmente, no dia 10, a 8.ª Companhia do 2.°/3.°Regimento Estrangeiro recolhe os sobreviventes. O tenente Ysquierdo só a muito custo consegue identificar o capitão Jeanpierre no homem com o semblante devorado por uma barba imunda, os traços marcados pela fadiga e os olhos febris, que cambaleia na sua direcção. Com ele, dois oficiais: os tenentes Marce e Hoy; três sargentos: Bacher, Matztkopf e Antonoff; e vinte e três pracas. No dia anterior, algures sobre uma pista da montanha, o corpo de Segretain, transportado por quatro viets numa maca improvisada, tem um último estremecimento. A agonia do Comandante do 1.° BEP chegou ao fim. O 1° BEP morreu!

A segunda morte

Em Novembro de 1953, a tragédia sangrenta da R.C.4 já é, apenas, mais uma recordação de guerra. Empenhados noutros combates, os homens do 1.º BEP não têm tempo para verter Iágrimas sobre sofrimentos passados. O perigo, a dor e o medo, são ingredientes suficientemente excitantes para preencher o quotidiano e afastar outros fantasmas. Sobretudo é preciso esquecer, retendo o essencial. Porque, como no ano precedente, uma ofensiva viet ameaça de novo o Laos. Porque mais uma vez o avanço das Divisões inimigas é esmagador. Porque os pequenos postos militares espalhados entre os calcários da Região Alta estão votados à destruição. De novo, é urgente cortar a rota do Laos aos viets, evacuar as posições ameaçadas e recuperar as respectivas guarnições. Na Indochina francesa, a história está prestes a recomeçar. No dia 20 de Novembro, a primeira vaga de pára-quedistas salta sobre Dien Bien Phu. No dia seguinte, é a vez do 1.º BEP. Os viets desaparecem após algumas horas de duros combates. A «con-

cha» de Dien Bien Phu começa a organizar-se como «abcesso de fixação» e «base de apoio» para a execução de acções ofensivas. Para além dos efectivos de infantaria e artilharia, aviação de apoio e engenharia, o coronel Castries, comandante do conjunto, dispõe ainda dum Agrupamento Aerotransportado (GAP) soberbo, sob o comando do tenente-coroneI Langlais: o 8.º BPC (Batalhão de Pára-quedistas Coloniais), o 5.° BPVN (Batalhão de Pára-quedistas Vietnamitas) e o 1.° BEP.

Dien Bien Phu - Entrincheiramento

Ao princípio não foi difícil sair do campo entricheirado e executar reconhecimentos ofensivos até uma boa dezena e meia de quilómetros de distância. Mas com o passar dos dias, o cerco das Divisões viet apertou-se. E por fim, o inacreditável aconteceu: a artilharia do general Giap, içada a pulso sobre as vertentes a pique até às suas plataformas escavadas na rocha bruta, começou a despejar granadas sobre as posições francesas. Cúmulo dos cúmulos, os observadores avançados franceses, que a custo conseguiam localizar uma parcela ínfima das bocas de fogo inimigas, tinham que assistir aos esforços vãos da aviação de caça para as destruir. A Iiberdade de circulação dos meios aéreos franceses começa nessa altura a ser posta em causa por uma DCA viet aguerrida e eficiente. Não tarda que os primeiros aviões sejam atingidos e que as operações de aterragem e descolagem se façam sob bombardeamento cerrado. A euforia dos comandos franceses cede Iugar à inquietação. A partir de 6 de Fevereiro de 1954, a principal missão do GAP é justamente localizar e destruir as Batarias de artilharia inimigas. Mas estas tentativas, frequentemente infrutíferas, depressa assumem o carácter de sangrentas acções de combate. Não poucos oficiais começam a perguntar-se a razão de ser do campo entrincheirado. Em 3 de Março, um ataque do GAP contra a colina 555 salda-se por um enorme fracasso. O Agrupamento é repelido e regressa às Iinhas francesas carregando os mortos e os feridos. À noite, um canhão viet de 75 m/m destrói com um impacto directo um avião C-119 parcado junto à pista de aviação. Em 12 de Março, o comandante do Tonquim, general Cogny, envia ao coronel Castries, comandante do campo entrincheirado, a mensagem tão largamente aguardada por uns e temida por outros: «é para amanhã, as 17 horas». Não foi às 17, mas às 17.15.


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Um dilúvio de fogo abateu-se sobre todos os Pontos de Apoio (PA) do dispositivo francês. A mais poderosa concentração de bocas de fogo que os velhos combatentes haviam presenciado em toda a vida. Simplesmente inacreditável, da parte de um inimigo a respeito do qual as 2.ª e 3.ª Repartições tinham formalmente opinado não poder operar a artilharia com eficácia, devido às dificuldades do terreno. Às 18.30 um obus destrói o Posto de Comando (PC) do PA Beatrice, matando o comandante e o adjunto. Às 19.50, o PC do sector central sofre a mesma sorte: o tenente-coronel Gaucher voa em pedaços. Nas suas trincheiras, o 1.º BEP aguarda instruções, enquanto procura abrigar-se da tempestade que parece encarniçar-se especialmente contra Beatrice. De facto, às 00.15, este PA é positivamente submerso por uma maré humana. Os franceses mal acreditam: em apenas sete horas, os viets aniquilaram uma das mais poderosas unidades do campo, o 3.º Batalhão da 13.ª Semi-Brigada da Legião Estrangeira (DBLE) que havia tão galhardamente enfrentado Rommel em Bir-Hakeim. Jamais, em toda a sua história, a Legião Estrangeira havia perdido um Batalhão em sete horas de combate. No escuro, o BEP prepara-se para reconquistar Beatrice. Às 07.30 do dia 14, a ordem chega. Os páras saltam dos abrigos, mas são quase de imediato detidos por um fogo infernal. O inimigo está decidido a manter o Ponto de Apoio em seu poder. A certa altura, um homem com a farda em farrapos dirige-se cambaleando

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para os páras: é o tenente Turpin, do 3.º/13.ª DBLE, que traz uma proposta de tréguas dos viets. A trégua é aceite, mas ao fim de 3 horas de buscas, os franceses não conseguem recuperar mais que 13 feridos duma guarnição de 750 homens. Pior que tudo, Beatrice está definitivamente nas mãos do inimigo. Ao meio-dia o canhoneio recomeça. Seis aviões Beachcraft e dois helicópteros são destruídos. E o PA Gabrielle parece ser agora o alvo a conquistar. Quando tomba o dia, os viets Iançam a infantaria. Toda a noite os 800 marroquinos do major Menequem se batem como leões. Às 04.00, um tiro destrói o PC da posição e mata o comandante. O capitão Gendre substitui-o e, pelas 05.00, dado que a situação se torna desesperada, este oficial pede a Castries um contra-ataque. Langlais nomeia para o levar o cabo o 5.º BPVN reforçado com as 3.ª e 4.ª Companhias do BEP. Às 05.30 do dia 15 tem início o contra-ataque, com as duas subunidades do BEP em 1.° escaIão. Os dois primeiros quilómetros são facilmente vencidos. Mas depois, bruscamente, uma forte posição viet revela-se no flanco esquerdo da 4.ª Companhia do BEP. Dois Pelotões são destacados para fixar o inimigo, enquanto o contra-ataque prossegue, raivoso e mortífero. Às 07.30, quando as forças de socorro estão perto dos arames farpados de Gabrielle, o 5.º BPVN começa a recuar, deixando o BEP sozinho sobre a encosta do monte. Quase em simultâneo, o capitão Gendre dá ordem aos marroquinos para abandonarem as posiçães. E é esta massa impressionante de destroços humanos em retirada que se cruza com o BEP em pleno esforço. O capitão Martin da 3.ª Companhia do BEP recebe instruções do Comando para aguardar no local, onde assiste com desespero ao tropel viet que ocupa num ápice as posições abandonadas pelos marroquinos. Agora é o próprio BEP em primeira linha que tem de suster o ataque de um Batalhão viet, batendo-se duramente até alcançar a segurança relativa das trincheiras de Anne Marie. O balanço desta jornada é severo: dos 800 homens que defendiam Gabrielle restam 154. E as duas Companhias do BEP perderam um quarto dos seus efectivos. No dia 16, a desmoralisada guarnição recebe com alegria um reforço de peso: o Batalhão Bigeard é Iançado em pára-quedas sobre Dien Bien Phu. Bigeard, todos o sabem, além de excelente profissional, é um protegido da sorte. A 22, o BEP recebe nova missão: destruir o tampão viet instalado entre a posição central do campo entrincheirado e o PA Isabelle. O movimento inicia-se às 07.30, com a 2.ª Companhia do tenente Lecocq em 1.° escalão. O fogo inimigo é tão mortífero que, a 40 metros da pequena povoação de Ban Kho Lai, o 1.° Pelotão está praticamente dizimado. À direita e à esquerda, os outros PeIotões atacam por sua vez, e o combate prossegue enraivecido, durante toda a manhã. Quando, ao meio-dia, se faz o balanço da Iuta, tem-se a noção de quanto ela foi custosa. O BEP pagou caro pelo aniquilamento de duas Companhias viets: 83 sepulturas serão escavadas nessa noite pelos extenuados soldados do BEP numa encosta devastada pelo fogo da artilharia. No dia 28 de Março, Bigeard vai tornar-se na vedeta de Dien Bien Phu. Encarregado por Castries de silenciar as Batarias de DCA viets instaladas nas povoações de Ban Ban e de Banong Pet, 2,5 quilómetros a oeste do PA Claudine, ele monta, com precisão de relojoeiro, um ataque com os 6.° e 8.° BPC (Batalhão de Pára-quedistas Coloniais) e o 1.° BEP. Às 15.00, os viets retiram em desordem,


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deixando no terreno 400 dos seus e abandonando 2 CSR 57 m/m, 5 metraIhadoras pesadas anti-aéreas, 2 metralhadoras 12,7 m/m, 14 espingardas metralhadoras e mais de 1.000 armas individuais. A segunda grande ofensiva viet - «a batalha das cinco colinas» — inicia-se em 30 de Março às 18.00. Nessa tarde, a 1.ª Companhia do BEP, comandada pelo tenente Luciani, é encarregada de reforçar o PA Eliane 2, ocupado por uma Companhia de atiradores. Quando Luciani inicia a abordagem da posição, uma chuva de obuses abate-se sobre os seus homens, na altura em que os atiradores começam a abandonar as posições. - Schmidt – ordena Luciani a um dos seus graduados – instaIa-te em redor do PC com o teu grupo, e não deixes os viets lá chegar, custe o que custar. Às 19.45 a infantaria viet lança-se ao assalto de Dominique 1, 2 e 3, e de Eliane 1 e 2. Em Dominique 1, os argelinos resistem apenas um quarto de hora e depois põem-se em fuga. Em Dominique 2 portam-se um pouco melhor: resistem até às 20.10. Mas em Dominique 3 os atiradores apontam os seus canhões em tiro directo sobre o inimigo e detêm as vagas de assalto da Divisão viet 312. Os atiradores marroquinos que ocupam as Elianes não se portam melhor. Mas os viets não vão encontrar apenas estas unidades desmoralizadas. Em Eliane 1, Botella e os seus páras vietnamitas aguentam o choque, e em Eliane 2 está o BEP. E aqui, à custa de murros e pontapés, Luciani obriga os atiradores a combater ao Iado dos páras. São 22.00. O barulho do combate é ensurdecedor. Luciani decide ir visitar Schmidt no PC. Mal abandona a trincheira, um obus rebenta lá dentro, matando os 3 homens do seu grupo de comando. Em redor do PC a situação é ainda mais trágica: Schmidt morreu e a posição é defendida apenas por um cabo e seis soldados. Além disso, as encostas este, sudoeste e sul do PA estão nas mãos do inimigo. Martin e a 4.ª/BEP são enviados em reforço. Para desalojar os viets das posições ocupadas, é preciso combater no negrume à granada e com arma branca. Os cadáveres dos dois Iados tombam, misturados, nas trincheiras. Às 23.00 nenhum rádio responde em Eliane 2. É o desespero. Mas em Eliane 4, Bigeard tem-se mantido ao corrente da situação e decide empenhar as suas próprias reservas. É a vez da Companhia Trapp partir em socorro de Luciani. 0 combate de sombras dura toda a noite sobre Eliane 2. Quando o dia nasce, combate-se ainda encarniçadamente, viets e franceses por vezes misturados nas mesmas trincheiras. Entretanto, o BEP recebe a missão de ocupar Eliane 2. As Companhias não empenhadas são Iançadas na fogueira. Ao meio-dia não há um viet vivo sobre o PA. O dia passa-se numa azáfama, meIhorando posições, Iimpando campos de tiro, aprofundando os abrigos. Os homens, exaustos, não esperam pela noite para cair num sono sobressaItado. Mas mal se fecham as trevas, um formigueiro viet parte de novo ao assaIto de Eliane 2. Por vezes, a vaga viet desloca-se tão depressa que passa sobre os páras sem os destruir. E então, cada um bate-se em todas as direcções. À meia-noite, os sobreviventes do BEP ainda não cederam. Mas às 05.00, uma unidade inimiga fresca escala a encosta e no seu ímpeto corta o BataIhão em dois. Não obstante as suas perdas - 40 mortos, 182 feridos e 8 desaparecidos -, os páras não arredam pé. O inimigo encarniça-se, Iançando ataques sobre ataques até ao dia

5 de Abril. Entre os páras, também há medo, naturalmente. São homens como os outros. Lentamente, este medo transfigura-os. «Estamos Iixados. Bom. Então, morrer por morrer, façamos as coisas em beIeza». Uma mistura expIosiva de pesadeIo e Ioucura. Finalmente, as quatro Companhias do Batalhão fundem-se duas a duas. No dia 6, bruscamente, uma acalmia inusitada desce sobre o campo. GIAP terá desistido? Nada disso. No dia 10, um ataque demoIidor rechaça os franceses de Eliane 1. Bigeard pede auxílio aos outros Batalhões páras. Os cem homens que restam das 2.ª e 3.ª Companhias do BEP respondem à chamada. E quando lançam o contra-ataque, cantam. O refrão do 1.º BEP vibra no escuro com uma ressonância viril. Às 02.00, Eliane 1 está de novo nas mãos dos franceses. No dia 17 de Abril, o BEP trava o seu último combate enquanto tal. Para proteger a retirada da guarnição do PA Huguette 1, os 250 homens vão bater-se contra um milhar de viets, deixando no campo da Iuta mais de cem dos seus. Uma semana depois, os 1.° e 2.° BEP juntam os efectivos para formar um pequeno Batalhão sob o comando do capitão Guiraud, com a missão de defender Huguette 2, 3, 4 e 5. Em 1 de Maio o viet lança o assalto final. Uma verdadeira massa humana Iança-se sobre os PA Huguette. Os homens resistem até ao limite das suas forças, sob a chuva torrencial que inunda as trincheiras. Às 02.30, o BEP contra-ataca, reforçado com elementos do 2.° Regimento Estrangeiro de Infantaria (REI). Às 10.00, o BEP está senhor da situação, mas perdeu 88 homens. Nessa noite, pelas 20.15, um dilúvio de obuses tomba sobre as posições do BEP. A guarnição, no limite das forças físicas, resiste quanto pode. Mas as Iinhas francesas já não podem senão lançar meia dúzia de granadas e alguns tiros isolados. O BEP avizinha-se da agonia. Em 6 de Maio, o capitão Guiraud recebe ordem para ocupar os úItimos redutos de Huguette com os 160 páras sobreviventes, incIuindo a totalidade dos feridos em estado de lutar. Há metralhadoras municiadas por homens com um único braço e sob as ligaduras que cobrem as feridas pode ver-se o sangue fluir. Nessa noite, após uma matracagem da artilharia a cargo dos «órgãos de Estaline» que fazem a sua estreia no combate, o vietmin lança um assalto generalizado. Um punhado de páras resiste toda a noite. Às 09.00, esgotam-se as munições. O PA é invadido e ocupado pelo inimigo. Às 17.30, quando Castries se rende no reduto central, não há em Dien Bien Phu um legionário pára-quedista em condições de se bater. O 1.º BEP morre segunda vez!

A terceira morte

Em 13 de Setembro de 1955, o 1.° BEP transforma-se no 1.° REP (Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas). O seu primeiro comandante é o tenente-coronel Pierre Jeanpierre, o homem que em 1950 regressou do inferno da R.C.4 com um punhado de páras à beira do esgotamento. Na Argélia não há arrozais, nem pântanos, nem aquela atmosfera de banho-maria que cobria as terras inundadas da lndochina. Aqui, assa-se sob um calor de fornalha, ou tirita-se de frio nas montanhas de pedra cinzenta e nua. Mas a guerra é igualmente cruel e sangrenta. Sobretudo se ela se trava em Argel, a capital infestada de comandos da FLN (Front de Libération Nationale), que fazem explodir


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bombas nos estádios ou nos cafés apinhados de gente. Durante 3 meses, de Abril a Julho de 1957, o 1.° REP bate-se encarniçadamente contra essa ameaça omnipresente que traz aterrorizada a população da cidade. Para homens acostumados à acção nos grandes espaços lisos, esse combate de sombras é desesperante. Por isso a vitória final, arrancada à custa de trabalho insone onde todos os goIpes são permitidos, deixa nos páras uma sensação incómoda de Iuta pouco séria, demasiado mesquinha para o seu gosto. Quando, vitoriosos, deixam Argel, a caminho dos combates a céu aberto, os páras cantam de alegria.

O 1.º REP em operações na Argélia

No dia 1 de Fevereiro de 1958, o 1.° REP deixa Guelma, junto à fronteira tunisina, com a finalidade de executar uma acção de busca numa zona referenciada como refúgio habitual da FLN. São 11 horas da noite quando Jeanpierre é informado da passagem de um numeroso grupo rebelde através da fronteira, a sul de Duvivier. Jeanpierre é dos que não Iêem a carta. Ele sente-a. Debruçado sobre ela, tenta raciocinar como um rebelde: «o essencial é a rapidez; o meIhor itinerário é o mais rápido, mesmo que o risco dupIique.» E na carta, em silêncio, estima distâncias. Por fim, decisão tomada, crepitam as ordens. De madrugada o dispositivo está montado. As Companhias iniciam a batida sob um céu de chumbo e os homens recortam-se, pesadões e fatigados, contra a bruma espessa que cobre o horizonte. Ao meio-dia, quando já desespera dos resultados da operação, Jeanpierre é chamado ao rádio. Um dos seus capitães informa-o: - Parece-me haver movimentos suspeitos no ponto de cota 701. O Coronel corre velozmente para o helicóptero de observação. Em duas passagens apercebe-se de que os guerrilheiros estão realmente Iá, a meia encosta, escondidos entre as giestas que nascem no meio dos rochedos cinzentos. Ordena o helitransporte da Companhia Martin para um pequeno cume a 200 metros do inimigo. O PeIotão do Tenente Godot (Verde 1) é apanhado em terreno liso pelo fogo cruzado dos «feIlouzes»1 e o tenente é imediatamente abatido. O Capitão Martin inquieta-se e chama ao rádio outro comandante de Pelotão, pedindo-lhe que dê uma ajuda a Verde 1. O peIotão do sargento Stuwe corre em direcção ao cume. Os pá1 - Termo utilizado pelos franceses para designar os elementos da F.N.L.

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ras disparam as armas ao fIanco e balançam granadas de mão sobre as moitas de espinheiros onde o inimigo se esconde. Em alguns minutos, a Companhia Martin está instalada no objectivo. Entretanto, as Companhias Ysquierdo e Hautechaud são helitransportadas para o Iocal, envolvendo os guerrilheiros num autêntico anel de aço. É então que o combate, verdadeiramente, começa. Separados apenas por alguns metros, os adversários estão decididos a aplicar a Lei de Talião: oIho por olho, dente por dente. As armas não se calam senão com o cair do dia. Os páras contam os cadáveres dos guerrilheiros: 48. Um beIo balanço, se se atender às circuntâncias particularmente difíceis do combate. Mas Jeanpierre está inconsolável. Sabe que, algures na noite, outros tantos fellouzes rastejam silenciosamente para fora da zona de morte, rumo às montanhas a Ieste. É preciso abatê-Ios. E os soIdados, embrutecidos pela fadiga, Iançam-se sobre os caminhos de fuga, montam novas emboscadas, ocupam os fundos dos vales e vigiam as Iinhas de crista. Ao alvorecer, a batida recomeça. Ao meio-dia, o remanescente do grupo rebelde é IocaIizado no ponto de cota 652. A Companhia Bésinau salta dos helicópteros: o pelotão Rodius sobre a crista, Durand-Ruel a meia encosta, Degueldre no fundo do vale. Este pelotão é o primeiro a estabelecer contacto com o inimigo e sofre de imediato cinco baixas mortais. Entretanto, Rodius ataca a partir do cume. Uma bala despedaça-lhe o maxilar. O Sargento-Chefe Frederici é abatido enquanto dá ordens. Durand-Ruel, por seu turno, perde quatro homens e ele próprio é ferido duas vezes. Uma no braço à ida, outra nas costas, quando procura abrigar-se. Roger Degueldre será o único comandante de pelotão a escapar ileso do combate que se prolonga por toda a tarde. Para descobrir, estupefacto, que o grupo que mantivera em cheque toda a sua Companhia era constituído por cinco homens apenas.


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À noite faz-se o balanço: 8 mortos e 25 feridos pára-quedistas contra 81 mortos e 2 prisioneiros fellouzes. A Katiba foi inteiramente destruída. No dia 26 de Fevereiro de 1958, a campaínha de alarme soa de novo sobre a barragem que se desenvolve ao longo da fronteira argelo-tunisina: duas Katibas forçaram a passagem e reagruparam-se madrugada alta nos montes Benimezzeline. Ao alvorecer, a Companhia Martin salta dos helicópteros no meio de uma cavalgada fantástica: T-6, B-26 e Corsaire volteam no céu antes de caírem como aves de rapina sobre os rebeldes que procuram desesperadamente abrigar-se. Longe, sobre outros cumes, os «bananas» despejam as restantes Companhias do Regimento. Martin escala rapidamente uma encosta. Diante dele abre-se um declive suave e, por trás, ergue-se nova crista semeada de boinas verdes. No meio, o inimigo. Nunca os páras os tinham avistado em tão grande número. Quando as Katibas estão completamente cercadas, Jeanpierre dá ordens para avançar. As armas automáticas despejam torrentes de balas. De pé, cotovelo contra cotovelo, os páras correm gritando para o fundo do vale onde se abrigam os fellouzes. As rajadas partem curtas, secas, precisas. Atrás de cada arbusto está um guerrilheiro disposto a vender cara a vida. Há páras que tombam no meio da fumarada espessa das granadas. De súbito, o ajudante Stuwe estaca: na sua frente, uma MG-42 provoca pesadas baixas nas fileiras do seu pelotão. É preciso neutralizá-la. - Kobes! - grita o ajudante. - Vamos a ela com a tua equipa. A um sinal seu, os seis homens precipitam-se lançando gritos de raiva. Os serventes da metralhadora, tomados de pânico, deixam de disparar por um momento. Os páras chegam em simultâneo à borda do abrigo. Os cinco fellouzes são mortos. O pelotão retoma a sua marcha alucinante, com Stuwe na testa, metralhadora junto da anca. As munições depressa se esgotam. O sargento lança ao chão a arma tornada inútil e volta a utilizar a pistoIa-metraIhadora. Nesse momento, uma granada explode nas proximidades e ele é atingido por um estilhago no joelho. Vacila e cai sobre o joelho são. Mas rapidamente recupera a postura e vira-se para mandar prosseguir o assalto. É abatido pelas costas. Alguém grita: - Mataram o ajudante! O pelotão fica possesso e transforma-se num novelo de fúria que se Iança, espezinhando as silvas, sobre o inimigo. Homem após homem, as duas Katibas são dizimadas. Em 2 de Março desse ano, perante o regimento formado na parada de Guelma, o general Vanuxem, um dos «marechais» de de Lattre, Iê um pergaminho que lhe é apresentado por um oficial às ordens: “Felicito o Tenente-Coronel Jeanpierre, Comandante do 1.°REP, pela sua promoção a título excepcional, ao grau de Comendador da Legião de Honra. Aproveito a ocasião para expressar a minha admiração ao Comandante, aos Oficiais, aos Sargentos e às Praças do 1.° Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas, os quais pelo seu valor militar, espírito de sacrifício, incomparável ardor no combate e inexcedível vontade de vencer, causaram ao adversário, em menos de cinco semanas, perdas confirmadas de 600 mortos e 457 armas capturadas. Estes resultados batem de Ionge todos os recordes dos combates na Argélia, e colocam o regimen2 - Actualmente existe um 2.º Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas

to na primeira fila das tropas de assalto do exército francês.” Parece não haver adversidade capaz de afastar o 1.° REP do seu destino de super-estrela das unidades de intervenção francesas. Contudo, em 28 de Maio de 1958, no decurso de um duro combate, os guerrilheiros atingem o helicóptero de onde Jeanpierre dirige a operação, e o coronel tem morte imediata. A reacção do regimento não se faz esperar: deita para trás das costas o desespero e a dor, e Iança-se como um bIoco, possuído de raiva surda, sobre o inimigo. Ao fim do dia, não havia guerrilheiros sobreviventes. Em Fevereiro de 1959, a Katiba do temido Menouar, que trazia atemorizado todo o maciço dos montes Ouarsenis, é dizimada em dois dias de combate. Em Abril, dois meses após o início da segunda ofensiva do General Challe, o regimento já contava 300 inimigos abatidos. Mais tarde, destacado para a Kabylie durante oito meses, põe fora de combate 850 fellouzes, dos quais 612 mortos, e captura 804 armas. E no entanto, o inimaginável aconteceu. Em 1960 a França muda de política na Argélia e o 1.° REP decide revoltar-se contra a França. A França, na hora do ajuste de contas, não hesita em ferir de morte o seu orguIhoso Regimento. Em 27 de Abril de 1961, pelas 17.30, uma coluna de camiões deixa o campo de Zeralda rumo a oeste. O 1.° REP fora dissoIvido. Foi a sua terceira morte. E a definitiva.2

Coronel Pierre Jeanpierre


Colaboração Google Apps vs Microsoft Office 365

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José João Marques Medeiros de Almeida 497/1995 josemedeirosdealmeida@gmail.com

Google Apps vs Microsoft Office 365 Já estava tudo inventado até entrar um novo player no mercado, o Google! Quando o gigante apareceu, para além do motor de busca, começou a lançar um conjunto de novos serviços e aplicações que revolucionaram o mercado. O lançamento do Google Apps foi um desses serviços, mas… antes de mais, o que é o Google Apps? O Google Apps é uma solução para a administração de domínios através do Google, esta administração dá-nos acesso a ferramentas, como Gmail, Agenda, Contactos, Google Docs, Google Sites, Google Plus, Google Drive entre outros. Segundo o Google a utilização destas aplicações seguindo o conceito de cloud computing permitem um colossal aumento de produtividade. Depois do lançamento começaram a levantar-se um conjunto de questões que iam deste a confidencialidade dos dados até à limitação que as redes lentas iriam imprimir a serviços que obrigatoriamente necessitavam de um acesso rápido à Internet. Para quem estava habituado ao antigo paradigma, que obrigava as aplicações a estarem instaladas no PC, foi necessária uma reformatação mental. Em Portugal temos dos melhores serviços de acesso à Internet da Europa e fibra óptica que cobre a maior parte do território. Num país como o nosso é viável ser cliente de serviços como o Google Apps. O mundo não se cinge a Portugal nem a Silicon Valey, por isso, apesar do Google Apps ser uma óptima opção para algumas

empresas, não é a solução para todas as necessidades empresariais. A Microsoft foi um dos velhos do Restelo em relação ao aparecimento de uma solução como o Google Apps, ou pelo menos em relação a algumas das ferramentas que este oferecia, como as folhas de cálculo e os processadores de texto. Depois de muitos se’s a Microsoft lançou a sua “versão do Google Apps” um bundle constituído pelas ferramentas mais comuns do Microsoft Office, como Word, Excel, PowerPoint e OneNote. A possibilidade de trabalhar em qualquer lugar com as aplicações que todos estão habituados a usar, torna o trabalho muito mais simples e acessível em qualquer lado onde haja uma ligação à Internet e um Browser. Esta nova plataforma em Cloud Computing, filha dos ideais do Google, é mais um passo da Microsoft na direcção das empresas especialistas em Cloud Computing.

A escolha entre Microsoft 365 ou Google Apps é uma decisão complexa para todas as empresas que têm o objectivo de entrar na Cloud. De um lado temos um gigante de serviços web com conhecimento adquirido e cimentado pelo tempo. Do outro lado temos uma empresa com muita tradição em software proprietário, com ferramentas ainda usadas pela maior parte das empresas. Os Google addicts afirmam ainda que o preço e a velocidade que os Google Apps oferecem não poderá ser ultrapassada pelas novas e imaturas ferramentas da Microsoft. Estas barreiras entre plataformas tornam o conceito de cloud arriscado para as empresas que necessitam de um serviço fiável, no entanto de um lado ou de outro da barricada, o conceito de nuvem veio para ficar. Durante os próximos anos todas as empresas estarão convertidas a este tipo de plataformas.


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Colaboração Novo livro do José Fanha

Novo livro do José Fanha COMPANHEIROS DE JUVENTUDE Ao Joaquim Cardeira (133/1961) Correram juntos. Respiraram juntos. Desceram a correr as ruas e calçadas da infância. Ousaram pela primeira vez inesperadas fronteiras. Tocaram as promessas do mistério e nele intensamente arderam juntos. O nosso camarada, irmão e... poeta, José Fanha, o 289 de 1961, tem-nos brindado e honrado com a sua notável intervenção cultural e artística, com tantas obras na área de animação cultural de adultos e de crianças, no cinema e televisão, na literatura infantil, no teatro, no romance, na poesia e em tudo que possa cheirar a Cultura. Agora foi notícia, por ter lançado no passado dia 31 de Janeiro, pelas 18:30, no El Corte Inglés, o livro “JOSÉ FANHA POESIA”. Este livro, de alguma forma, é uma antologia dos seus 40 anos a fazer poesia, o qual recomendamos como indispensável em qualquer biblioteca, principalmente se for a de um amante de poesia. INDISPENSÁVEL! Falar do multifacetado Fanha, não é nada fácil. Por essa razão, pedimos ao Fanha que nos fizesse um pequeno resumo biográfico, o qual antecedemos de um poema dedicado ao Cardeira, mas que acaba por ser dedicado a todos nós, em particular aqueles de nós que com ele partilharam tantos anos de Colégio e de vida vivida cá fora. Pedro Manuel do Vale Garrido da Silva 53/1961

Partiram em todas as direcções levando conchas e pedrinhas um raminho de alfazema e uma réstia de penumbra no olhar. Conheceram cidades atravessaram calmias e temporais dormiram á sombra de pequenos búzios ao relento do amor. Cavalgaram incêndios e utopias. Beberam fel nas esquinas do silêncio. Tiveram filhos. Despediram-se de pai e mãe. Viram chegar as rugas e aprenderam a roubar às uvas a música da terra. Juntam-se de novo no sarro dos anos em torno de um fio de melancolia. O riso tornou-se mais medido. Os gestos indecisos. Os dentes distantes da antiga avidez. Partilham agora os arrepios nos ossos e um eco de viagens e naufrágios no funil do tempo.

Recordam torres batalhas e fogueiras. Declinam nebulosas. Querem ouvir um cântico de espuma na raiz da palavra. Perguntam: por onde foste? Onde estás? Que caminhos rasgaram os teus pés? Diz-me por favor que viraste costas ao mesquinho comércio das circunstâncias e que deixaste uma promessa de rosas no rasto dos teus passos. Medem-se. Abraçam-se. Teimosamente continuam a causar pequenas tempestades em busca da resposta para a única pergunta que ninguém sabe fazer.

40 ANOS DE POESIA Filho, neto, bisneto e trineto (até onde sei) de militares, a minha relação com a poesia começa cedo, através da minha avó, leitora apaixonada de literaturas diversas desde os relatos históricos aos romances policiais. Foi ela que me passou o vício da leitura e me transmitiu a memória feliz do meu avô Jaime Krusse Gomes, jovem capitão do exército, Chefe da Casa Militar do Presidente Canto e Castro, Administrador da Companhia de Moçambique na Cidade da Beira no final dos anos 20 do século passado. Cedo falecido, este avô que não conheci foi cantor lírico, actor amador e poeta. Cresci, portanto, com a crença de que ser actor e poeta eram as coisas mais lindas que havia no mundo. Um pouco mais tarde, menino do Colégio Militar, onde estive de 61 a 68, lançava poemas e desenhos a um caderninho onde guardava o que de melhor era capaz de dizer de mim. Um dia fui mostrá-lo envergonhadamente a um professor de filosofia que o leu e me disse com voz de surpresa: “Mas você é um surrealista!”. Não fazia ideia do que isso fosse mas fiquei


Colaboração A Baleeira

muito feliz. Um jovem de 15 anos quer ser alguma coisa. Surrealista soava bem e, para saber o que era aquilo que eu era, passei horas na velha biblioteca do Colégio a ler poetas surrealistas. Cesariny, António Maria Lisboa, António Pedro e, sobretudo dois poetas que ainda hoje fazem parte do meu parte do meu quotidiano: Alexandre O’Neill e Jacques Prévert. Ainda hoje as velhas paredes do Colégio se devem recordar da minha voz a debitar os versos destes poetas com o espanto jovem de quem descobriu uma nova e luminosa fé: a fé na poesia. Saí do Colégio com a poesia numa mão e na outra os valores que a todos nos formaram de camaradagem, lealdade, solidariedade, amor à verdade e à liberdade. Estávamos em 1968 e eu queria aprender tudo, saber tudo, fazer tudo, tão apertado me sentia debaixo daquele regime cinzento, apertado, triste, bolorento e miserável

em que vivíamos sob a batuta salazarista. Numa noite doce do início de Junho de 69 fui à Escola Superior de Agronomia em Lisboa para assistir no anfiteatro exterior a um Canto Livre. Assim se chamavam as sessões meio clandestinas em que os cantores chamados “baladeiros” nos incendiavam o coração com as suas canções de protesto e os poemas que cantavam. Desta vez anunciava-se o Zeca, o Adriano Correia de Oliveira, o Manel Freire, o então padre Fanhais e outros que já não sei precisar. O meu amigo AP Braga, também ele antigo aluno e cantor, insistiu para que eu fosse dizer uns poemas ao palco. Depois de várias hesitações acabei por vencer a vergonha e fui. E a partir desse dia começou o meu tempo de poeta público e dizedor de poesia. É assim que esta minha poesia nasce numa relação muito íntima com a voz, com o palco, com o acto de dizer e de partilhar.

A baleeira Q

uem frequentasse a Praia da Torre nos anos cinquenta do século passado, repararia que havia sempre um grupo de miúdos de fato de banho preto com uma risca branca, no lado esquerdo da praia, que tinham o estranho costume de, de vez em quando, começarem a fazer pinos e flique-flaques. Eram os alunos do Colégio Militar em férias na Feitoria. Nesse tempo o Colégio tinha duas barracas na praia, onde se concentravam os alunos e as famílias dos professores que ficavam de serviço na Feitoria. Estes alunos conviviam muito com outro grupo constituído por famílias militares em férias no Lar Académico dos Filhos de Oficiais, ali perto em Oeiras, onde se incluíam muitos outros alunos e ex-alunos. Estas férias eram animadas com bailes à noite no Lar e, outras vezes, na Feitoria, onde uma camarata era transformada em salão de festas. Os convites eram extensivos a amigos que viviam na Linha ou, até, vindos de Lisboa. Havia sempre na praia, também, uma baleeira cinzenta amarrada a uma bóia a curta distância, alcançável a nado. Esta baleeira, cedida pela Marinha, e que pertencera a algum navio já abatido, era a alegria da rapaziada que nela remava o dia inteiro e servia para todo o tipo de brincadeiras e habilidades. De palamenta, tinha somente um par de remos e um bartedouro para tirar água. Quem superintendia vagamente no uso da baleeira era o Carranço, um fâmulo especial, encarrega-

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Acabo agora de apresentar um livro que reúne 40 anos do meu trabalho poético, publicado um pouco ao Deus dará, ou ainda inédito. Penso que muitas pessoas ficarão surpreendidas ao lê-lo. Porque me têm reduzido ao estereótipo do “tipo da Cornélia” ou do poeta incendiário dos anos à volta do 25 de Abril. Sou mais, bem mais do que isso. Continuo a fazer da voz e da partilha uma urgência que me leva permanentemente a percorrer escolas e bibliotecas por todo o país. E se a escrita para crianças e jovens é a minha actividade mais visível, a poesia é e sempre foi a minha língua natural. José Fanha Manuel Krusse Fanha Vicente 289/1961

PS: Escrevo sem usar as invenções que me parecem destrambelhadas a que chamam Acordo Ortográfico.

do do material do ginásio, de que muitos se recordam. Só intervinha em situações complicadas ou conflituais; de resto, andava-se à vontade. Se bem me recordo, chegou a haver também um snipe, mas como ninguém andava à vela, desapareceu de circulação. As habilitações náuticas dos alunos e oficiais em férias na Feitoria eram nulas. Aprendia-se com a prática e não consta que tenha havido algum desastre. Houve, sim, algumas aventuras, em geral relacionadas com tentativas de ir ao Bugio ou a Carcavelos. Ninguém percebia nada de correntes e marés, por isso essas tentativas deram sempre para o torto, com aflição para quem ficava em terra, que via as horas a passar e nem sombra de baleeira. Havia também a nortada rija do fim da tarde, que causava sérios problemas para os remadores que se deixassem levar. Era uma inconsciente liberdade em que os jovens se desenvolviam, ganhavam e experimentavam novas capacidades. Não consigo imaginar hoje esta situação, em que há seguranças para tudo e vigilância apertada. Mal se põe o pé numa embarcação aparece logo a Polícia Marítima a pedir a carta, os coletes de salvação, o seguro. Imagino que hoje em dia, se os pais das criancinhas sonhassem que elas andavam no mar sem um monitor qualificado, sem coletes de salvação, rádio, very-lights, etc., punham logo o director do Colégio em tribunal… Outros tempos.

João Nuno Ribeiro Ferreira Barbosa 16/1956


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Recordando O Hipismo, o Colégio e os Jogos Olímpicos

Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957

O Hipismo, o Colégio e os

Jogos Olímpicos

N

o nº 187, de Abril/Junho de 2012, desta nossa revista, incluiu-se um artigo intitulado «Ginástica encontra-se com a música», de autoria do Gonçalo Leal de Matos (371/1949), em que se descreveu o Festival dos Estabelecimentos Militares de Ensino que teve lugar, a 23/3/2012, no Pavilhão Multiusos da Câmara Municipal de Odivelas. Nesse festival foram homenageados os atletas olímpicos Antigos Alunos do Instituto de Odivelas e do Colégio, em número total de 30, cujos nomes são apresentados numa relação no final do artigo antes mencionado. A análise dos nomes apresentados permite verificar que houve apenas uma atleta olímpica Antiga Aluna do Instituto de Odivelas, que representou Portugal nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, na modalidade de tiro. Tratou-se da Antiga Aluna Maria Isabel Joglar, irmã de um camarada meu de curso no Colégio, o 298/1955, José António Joglar, já falecido, que foi oficial de Marinha. No que se refere aos Antigos Alunos do Colégio atletas olímpicos, verifica-se que 21 representaram o país em hipismo, 4 em esgrima, 2 em pentatlo moderno, 1 em esgrima e em pentatlo moderno em dois jogos distintos e 1 em tiro. O facto de a esmagadora maioria dos Antigos Alunos ter participado nos jogos na modalidade de hipismo não constitui qualquer surpresa, pois o Colégio incutiu o «vício» do hipismo em gerações de alunos e muitos deles seguiram a carreira militar na Arma de Cavalaria, onde deram largas às suas aptidões como cavaleiros, dominando durante décadas o panorama do hipismo nacional. Partindo deste facto bem conhecido, resolvi fazer uma análise sumária da participação de Antigos Alunos nos Jogos Olímpicos na modalidade de hipismo e aqui estou para vos dar conta dos resultados da mesma análise. O primeiro facto que ressalta da análise feita, é que a presença dos antigos alunos se estende por um período de tempo de 80 anos, com inicio em 1924, em Paris, com a participação do 225/1912, Hélder de Sousa Martins, e com final em 2004, em Atenas, com a participação do 396/1968, Carlos Sá Grave.

Um outro facto bastante interessante é o de ter havido vários Antigos Alunos com repetidas participações nos Jogos Olímpicos. O recordista das participações é o 8/1934, Joaquim Miguel Duarte Silva, com 4 participações em 4 Jogos Olímpicos seguidos, com inicio em 1952, em Helsínquia, e final em 1964, em Tóquio. Com 3 participações temos 4 Antigos Alunos, o 225/1912, Hélder de Sousa Martins, com um intervalo de 24 anos entre a sua primeira participação (1924 em Paris) e a última participação (1948 em Londres), o 200/1912, Luís Mena e Silva, também com um intervalo de 24 anos entre a primeira participação (1936 em Berlim)

António Pereira de Almeida no Feitiço


Recordando O Hipismo, o Colégio e os Jogos Olímpicos

e a última participação (1960 em Roma), o 147/1929, Fernando Cavaleiro (recentemente falecido), com a primeira participação em 1948, em Londres, e a última participação em 1956, em Estocolmo, e o 317/1936, António Pereira de Almeida, com a primeira participação em 1952, em Helsínquia, e a última participação em 1960, em Roma. Por lapso, indica-se no artigo do Gonçalo Leal de Matos que este Antigo Aluno participou em 2 Jogos Olímpicos, quando na realidade participou em 3. O António Pereira de Almeida protagonizou aliás um feito notável e talvez único, que foi o de ter participado nos Jogos Olímpicos nas 3 disciplinas do hipismo: o concurso completo de equitação (1952 em Helsínquia), o ensino (1956 em Estocolmo) e os obstáculos (1960 em Roma). Com duas participações temos os 4 seguintes Antigos Alunos: o 424/1917,Fernando Silva Paes (1948 em Londres e 1952 em Helsínquia), o 71/1931, João Carlos Craveiro Lopes (1952 em Helsínquia e 1960 em Roma) e o 133/1938, Álvaro Sabbo (1956 em Estocolmo e 1960 em Roma). Finalmente, com uma única participação nos Jogos Olímpicos, temos os 13 cavaleiros seguintes: o 129/1908, Luís Ivens Ferraz (1928 em Amesterdão), o 262/ 1906, Domingos Sousa Coutinho (1936 em Berlim), o 231/1916, José Beltrão (1936 em Berlim), o 17/1917, João Correia Barrento (1948 em Londres),o 306/1933, João Cruz Azevedo (1956 em Estocolmo), o 229/1934, Mário Sardoeira Delgado (1960 em Roma),o 459/1934, Jorge Correia Matias (1960 em Roma), o 12/1942, Carlos Campos (1972 em Munique),o 198/1949, Vasco Ramires (1972 em Munique),o 424/1960, António Chaves Ramos (1992 em Barcelona), o 556/1970, Ricardo Portela Ribeiro (1992 em Barcelona), o 562/1967, Jorge Dias Matias (1992 em Barcelona) e o 396/1968, Carlos Sá Grave (2004 em Atenas). Feita esta análise sumária, decidi ir um pouco mais longe e verificar o que é que se passou em cada um dos Jogos Olímpicos em que os Antigos Alunos do Colégio estiveram presentes. Para tal socorri-me do livro «História do Desporto Equestre Português», da autoria de Maria João da Câmara. Trata-se do livro comemorativo dos 75 anos da Federação Equestre Portuguesa, que cobre o período de 1927 a 2002, período praticamente sobreponível ao período desta análise. Por feliz coincidência este livro tem o seu prefácio escrito por um Antigo Aluno, o 325/1963, o Eduardo Netto de Almeida, que era o Presidente da Federação Equestre Portuguesa à data da publicação do livro. O 325/1963 é um cavaleiro ainda em actividade de competição e filho de um notável cavaleiro olímpico, o Sr. Coronel Netto de Almeida, que temos pena que não seja Antigo Aluno do Colégio, para poder dar ainda mais brilho á nossa galeria de notáveis do hipismo. O que o livro citado me permitiu apurar quanto á participação dos Antigos Alunos nos Jogos Olímpicos foi o seguinte:

1924 - PARIS

O 225/1912, Hélder Martins, participou no concurso de obstáculos, com a montada Avrô, tendo-se classificado no 12º lugar. A equipa portuguesa obteve um brilhante 3º lugar, facto que provocou um incidente inesperado, do qual encontrei duas versões. Segundo o nosso livro guia, não foi hasteada a bandeira portu-

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guesa na cerimónia de distribuição de prémios por a organização dos jogos não a possuir, facto este que muito revoltou a nossa equipa. A outra versão, que encontrei num exemplar do Diário de Noticias de 11 de Agosto de 2004, diz-nos que a cerimónia da distribuição dos prémios teve de ser adiada uma hora, para que a organização improvisasse (com dois pedaços de pano verde e encarnado) a bandeira nacional que não tinha disponível, pois os cavaleiros portugueses recusavam subir ao pódio sem bandeira. Seja qual for a versão correcta, o que é facto é que não passava pela cabeça da organização que os nossos cavaleiros, vindos lá dos confins da Europa, fossem capazes de fazer subir a nossa bandeira num dos mastros de honra. Eles fizeram-no e trouxeram assim para Portugal a nossa primeira medalha olímpica. É ainda digno de menção o facto de a chefia da equipa portuguesa ter sido confiada a um Antigo Aluno, o então Tenente-Coronel Manuel da Costa Latino (207/1888).

Equipa portuguesa concorrente aos jogos Olímpicos de Paris (1924) na modalidade de Obstáculos

1928 – AMESTERDÃO

As classificações obtidas pelos dois Antigos Alunos que participaram foram as seguintes: -129/1908 – Luís Ivens Ferraz, 15º lugar com Marco Visconti. - 225/1912 – Hélder Martins, 16º lugar, com Avrô. A equipa portuguesa, de novo chefiada pelo então Tenente Coronel Manuel da Costa Latino (207/1888), obteve o 4º lugar ex-aequo com as equipas de França e da Itália.

1936 – BERLIM

Estes foram os célebres Jogos Olímpicos em que Hitler que queria afirmar a superioridade da raça ariana, mas não o conseguiu.


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Recordando O Hipismo, o Colégio e os Jogos Olímpicos

As classificações obtidas pelos três Antigos Alunos que participaram em hipismo foram as seguintes: -231/1916, José Beltrão, 6º lugar com Biscuit. -262/1906, D. Domingos de Sousa Coutinho, 16º lugar com Merl Blanc. -200/1912, Luis Mena eSilva, 21º lugar, com Fossette. A equipe portuguesa obteve de novo um brilhante 3º lugar (medalha de bronze) e desta vez já havia bandeira para subir no mastro de honra. Sobre a participação desta equipa portuguesa, formada exclusivamente por Antigos Alunos, escreveu o 371/1949 Gonçalo Leal de Matos um excelente artigo no nº 185, de Outubro/Dezembro de 2011 desta nossa Revista, intitulado «As olimpíadas de Berlim 1936».

1948 - LONDRES

Nestes jogos, que foram os primeiros a realizar-se a seguir à 2ª Guerra Mundial, participaram cinco Antigos Alunos nas disciplinas de obstáculos, de ensino e de concurso completo de equitação. As classificações obtidas pelos participantes nas provas de obstáculos foram as seguintes: - 17/1917, Correia Barrento, 22º lugar com Alcoa. - 225/1912, Hélder Martins, eliminado, com Optus. A equipa portuguesa não se classificou. As classificações dos participantes na prova de ensino foram as seguintes: - 424/1917, Fernando Paes, 10º lugar, com Matamás. - 200/1912, Luís Mena e Silva, 13º lugar, com Fascinante. A equipa portuguesa que disputou a prova de ensino obteve mais um brilhante 3º lugar. As classificações obtidas pelos Antigos Alunos no concurso completo de equitação foram as seguintes: -147/1929, Fernando Cavaleiro, 8º lugar com Satari. -424/1917, Fernando Paes, 25º lugar, com Zuari. A equipa portuguesa foi eliminada, devido à eliminação do seu terceiro componente, que não logrou classificar-se. É de notar que Fernando Pais participou em duas provas distintas (ensino e concurso completo de equitação), classificando-se em ambas.

1952 - HELSINQUIA

Nestes jogos participaram nada menos do que oito Antigos Alunos (um autêntico esquadrão), dos quais cinco na modalidade de hipismo, novamente distribuídos pelas três diferentes disciplinas. Na prova de obstáculos participou o Antigo Aluno, que a seguir se indica: - 71/1931, João Carlos Craveiro Lopes, 19º lugar, com Raso. Nesta disciplina a equipa portuguesa classificou-se em 8º lugar. A classificação obtida pelo Antigo Aluno participante na prova de ensino foi a seguinte: - 424/1917, Fernando Paes, 26º lugar, com Matamás. Também nesta disciplina a equipa portuguesa se classificou em 8º lugar. As classificações obtidas pelos participantes na prova de concurso completo de equitação foram as seguintes: - 147/1929, Fernando Cavaleiro, 19º lugar, com Caudel. - 317/1936, António Pereira de Almeida, 23º lugar, com Florentina. -8/1934, Joaquim Miguel Duarte Silva, 24º lugar, com Faial. A equipa portuguesa, que foi chefiada pelo Antigo Aluno também ele cavaleiro olímpico, o então Major Correia Barrento (17/1917), conseguiu um magnífico 4º lugar.

A equipa portuguesa no desfile de cerimónia de abertura dos jogos Equestres dos XV Jogos Olímpicos

1956 - ESTOCOLMO

Luís Mena e Silva no Fascinate

Os Jogos Olímpicos de 1956 realizaram-se em Melbourne, na Austrália, no entanto as provas de equitação realizaram-se na Europa, em Estocolmo. Nestes jogos tomaram parte cinco Antigos Alunos e de novo nas três disciplinas. Na prova de obstáculos participou um Antigo Aluno com o resultado seguinte: - 306/1933, João Cruz Azevedo, eliminado, com Licorne. A equipa portuguesa foi eliminada. A classificação obtida pelo participante na prova de ensino foi a seguinte: - 317/1936, António Pereira de Almeida, 12º lugar, com Feitiço. Não se formou equipa nesta disciplina. As classificações obtidas no concurso completo de equitação foram os seguintes: - 8/1934, Joaquim Miguel Duarte Silva, 29º lugar, com Heleboro. -147/1929, Fernando Cavaleiro, 34º lugar, com Marte. -133/1938, Álvaro Sabbo, eliminado, com Marto.


Recordando O Hipismo, o Colégio e os Jogos Olímpicos

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A equipa portuguesa foi eliminada. A equipa portuguesa foi de novo chefiada por um Antigo Aluno, também ele cavaleiro olímpico, desta vez o então Tenente-Coronel Fernando Paes (424/1917).

1960 - ROMA

Nestes jogos voltou a participação dos antigos Alunos a ser muito numerosa, com sete participantes nas 3 disciplinas. As classificações obtidas nas provas de obstáculos foram as seguintes: - 317/1936, António Pereira de Almeida, não apurado na 2ªmão, com Palpite. - 71/1931, João Carlos Craveiro Lopes, não apurado na 2ªmão, com Rovuma. A equipa de Portugal ficou em 9º lugar. Na prova de ensino participou o Antigo Aluno 200/1912, Luís Mena e Silva, que obteve o 17º lugar, com Adónis. Portugal só voltou a participar nesta disciplina, passados 40 anos, nos Jogos Olímpicos de 2000, em Sidney. Na prova de concurso completo de equitação participaram quatro Antigos Alunos, com as seguintes classificações: - 229/1934, Mário Sardoeira Delgado, ficou em 35º lugar, com The Man from Laramie. - 8/1934, Joaquim Miguel Duarte Silva, eliminado, com Heleboro. - 459/1934, Jorge Correia Matias, retirou, com Núcleo. - 133/1938, Álvaro Sabbo, eliminado, com Quipar. A equipa portuguesa foi eliminada. Segundo testemunhos da época a prova de concurso completo de equitação foi duríssima, com um percurso de campo extremamente selectivo. A montada The Man From Laramie era aquela em que se depositavam menos esperanças e no entanto foi a única que completou o percurso. Isso ficou a dever-se ao estoicismo e à vontade férrea do seu cavaleiro, Mário Sardoeira Delgado, que nunca desistiu, apesar de ter dado nove quedas. Foi uma magnífica demonstração de «espírito desportivo» e de «espírito colegial». Estes foram os últimos jogos em que Portugal participou nas três disciplinas de hipismo. Os jogos de Roma marcam o fim da participação maciça de cavaleiros militares portugueses nos certames olímpicos. Em 1961 inicia-se a guerra em Angola, começam as mobilizações em massa de oficiais para o Ultramar e começa o ocaso de uma “geração de ouro” de cavaleiros militares portugueses, em que os Antigos Alunos do Colégio protagonizaram uma posição de relevo. Tive a sorte de poder seguir durante anos as actuações dessa “geração de ouro”.

1964 - TÓQUIO

Devido à distância, nestes Jogos Olímpicos Portugal participou apenas na disciplina de obstáculos, com dois cavaleiros. Participou o Antigo Aluno 8/1934, Joaquim Miguel Duarte Silva (foi a sua quarta e última participação), que obteve um brilhante 5º lugar, com a montada Jeune France. Foi a melhor classificação individual alcançada em Jogos Olímpicos por cavaleiros portugueses. Apenas outra vez, em 1924, em Paris, houve um cavaleiro português a obter um 5º lugar. Foi ele Borges de Almeida, montando Reginald. Este cavaleiro não foi porém Antigo Aluno do Colégio.

Joaquim Miguel Duarte Silva (8/1934), em Tóquio

1972 - MUNIQUE

Nestes Jogos Olímpicos participaram dois Antigos Alunos na disciplina de obstáculos. Os resultados alcançados foram os seguintes: - 12/1942, Carlos Campos, 13º lugar, com Ulla de Lancôme. - 198/1949, Vasco Ramires, 37º lugar, com Sire de Brossais. A equipa portuguesa classificou-se em 13º lugar. De seguida foi necessário esperar vinte anos para se voltar a ter cavaleiros Antigos Alunos nos Jogos Olímpicos.

1992 - BARCELONA

Nestes jogos participaram três Antigos Alunos, um na disciplina de obstáculos e dois na disciplina de concurso completo de equitação. Na prova de obstáculos participou o 562/1967, Jorge Dias Matias, montando Windus, que foi eliminado. Este cavaleiro, falecido quando muito dele havia ainda a esperar, era filho do 459/1934, Jorge Correia Matias, que como vimos participou nos Jogos Olímpicos de 1960, em Roma, e que desempenhou um papel de grande relevo no nosso meio hípico. Após a guerra do Ultramar «ressuscitou» a famosa «reprise» da «Escola de Mafra», foi Presidente da Federação Equestre Portuguesa e foi um notável comunicador, tornando-se conhecido do grande público como comentador televisivo de concursos hípicos. Os que tiveram oportunidade de o ver e de ouvir os seus comentários, ainda hoje decerto recordam os seus vastos conhecimentos sobre a matéria e a maneira acessível como ele os transmitia. Tinha o cunho dos verdadeiros mestres, tornava fácil aquilo que era complexo. Na disciplina de concurso completo de equitação participaram dois Antigos Alunos. O 424/1960, António Chaves Ramos, classificou-se no 46º lugar com Carioca. O 556/1970, Ricardo Portela Ribeiro, viu-se impedido de fazer a sua prova por incapacidade física da sua montada, Vi Homem. O António Chaves Ramos foi capa da revista alemã «Reiter Revue Internationale» com uma fotografia sua a transpor um obstáculo nestes Jogos Olímpicos. Ele e o seu Carioca ficaram bem na fotografia.


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Recordando O Hipismo, o Colégio e os Jogos Olímpicos

2004 - ATENAS

Nestes Jogos Olímpicos participou o Antigo Aluno 396/1968, Carlos Sá Grave. Participou no concurso completo de equitação, onde obteve o 46º lugar, entre 75 concorrentes, com a montada Laughton Hills. Penso que não seria correcto terminar este bosquejo histórico sem referir os Antigos Alunos que participaram nos Jogos Olímpicos na modalidade de pentatlo moderno, pois que uma prova do mesmo é uma prova hípica de obstáculos. Participaram nesta modalidade os seguintes Antigos Alunos: - 17/1938, Ricardo Ferreira Durão, em Helsínquia (1952). - 339/1938, António Lopes Jonet, em Helsínquia (1952). - 37/1970, Roberto Dória Durão, em Los Angeles (1984). Em relação a este último cavaleiro há duas particularidades a salientar: é sobrinho do 17/1938 Ricardo Ferreira Durão e participou também nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seoul, mas desta vez na modalidade de esgrima. Para além dos Antigos Alunos que tomaram parte nos Jogos Olímpicos na modalidade de hipismo, houve outros que ao longo dos anos também se notabilizaram nesta modalidade a nível nacional e internacional, mas que por um motivo ou por outro, nunca puderam estar presentes nesses jogos. A todos esses presto também a minha homenagem. Não os podendo citar a todos, deixo pelo menos uma referência àqueles que, por uma ou mais vezes, foram campeões nacionais na disciplina de obstáculos. É o caso dos seguintes cavaleiros: - 21/1940, António Pimenta da Gama. - 152/1957, José António Balula Cid. - 314/1962, Luís Xavier de Brito. - 29/1966, Luís Duarte Silva Lupi. Admito que este trabalho possa ter algumas incorrecções ou omissões, para as quais peço a benevolência dos leitores, dado o mesmo ser obra de um simples amador na matéria. Confesso porém que me deu prazer fazer este artigo despretensioso, pois tive oportunidade de seguir com admiração, desde os meus tempos do Colégio e durante mais de 50 anos, as carreiras dos brilhantes cavaleiros colegiais aqui referidos.

Imagem de António Chaves Ramos no Carioca. Jogos Olímpicos de Barcelona 1992. Capa da revista alemã Reiter Revue Internationale.


Recordando Antigos Alunos nas Tropas Pára-quedistas

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Nuno António Bravo Mira Vaz 277/1950

Antigos Alunos nas TROPAS PÁRA-QUEDISTAS Luís Augusto de Noronha Krug (269/1964)

BEPT, recebendo o Guião do Grupo Operacional Aeroterrrestre

O Krug tinha muito orgulho da sua formação no Colégio Militar e da sua pertença às Tropas Pára-quedistas. Manteve ao longo dos anos uma jovialidade que, aliada à sua grande coragem, capacidade física e destreza, lhe permitiu, por vezes com alguma intrepidez excessiva, executar acções extremamente difíceis e perigosas. Especializou-se em tudo o que era possível na área aeroterrestre e de operações especiais, culminando com instrutor comando (formado em França), precursor aeroterrestre e saltador operacional de grande altitude, tendo comandado as várias unidades operacionais dessa área. Tinha uma força de vontade inquebrantável, dava tudo o que tinha até ao limite, comandando sempre pelo exemplo. Sendo certo que não gostava especialmente de trabalho de secretária, quando lhe encomendava estudos e propostas da sua área de especialidade/responsabilidade, o Krug fazia gala de apresentar os trabalhos em tempos espantosamente curtos (não havia descanso possível), talvez para se libertar rapidamente para as suas áreas de preferência, ou seja, a acção operacional. Nos últimos anos da sua carreira, com grande vontade de testar mais uma vez as suas capacidades, participou voluntaria-

mente, com grande empenho e qualidade, na primeira operação militar de forças nacionais no estrangeiro após a guerra do Ultramar, no Teatro de Operações da Bósnia-Herzegovina, em 1995/1996. Infelizmente, um acidente no decurso de um salto em pára-quedas interrompeu tragicamente uma vida e uma carreira que prometia muito mais sucessos. Sem dúvida que tanto os pára-quedistas como o Colégio Militar podem orgulhar-se do aluno, camarada e amigo Krug. Armando de Almeida Martins Major-General Pára-quedista reformado

“O senhor Coronel era o ídolo do meu marido. Falava muitas vezes em si“ – são palavras da viúva deste meu amigo e antigo subordinado. Partilho a mesma admiração por ele, e seria o meu ídolo pára-quedista se não fosse mais moderno do que eu. Fui decerto o Antigo Aluno do Colégio que mais contacto teve com ele, após o seu período escolar. Foi meu aluno no Curso de Precursores Aeroterrestres. Na qualidade de 2º Comandante da Base Escola de Tropas Pára-quedistas, fui por ele solicitado para colaborar na instrução do Curso de Comandos que ele ministrava, e


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Recordando Antigos Alunos nas Tropas Pára-quedistas

Noronha Krug em queda livre - 1985

Noronha Krug após um salto com máscara

foi meu Chefe do Estado-Maior enquanto comandava a Base Operacional de Tropas Pára-quedistas n.º 1. Foi o Krug quem planeou e dirigiu os treinos que a unidade fez como preparação para o “Exercício Shinderhannes”, ao nível das forças da NATO, no qual as patrulhas da nossa Unidade se classificaram em primeiro lugar. Acrescento a estes contactos os inúmeros

saltos em pára-quedas que executámos em conjunto, tanto militares como civis. Era uma pessoa de carácter franco, espontâneo e honesto. Era um militar íntegro e pára-quedista exímio. Em todas as missões se empenhava até à exaustão. Estivemos ambos colocados em 1990 no Instituto de Altos Estudos Militares, e embora frequentássemos cursos diferentes - ele o Curso Geral de Estado-Maior e eu o Curso Superior de Comando e Direcção, encontrávamo-nos todos os dias, às 7H30, no ginásio. Observei a intensidade com que fazia os exercícios físicos, ouvia as

suas queixas e podia ver a maneira como descomprimia a sua reacção contra as exigências deste curso que não era o indicado ao seu feitio, mas que a sua pessoal exigência o obrigou a frequentar e a terminar. Vivia intensamente, sempre acompanhado pela mulher e filhos. Usava o pára-quedas no limite. Um dia, muito cedo na sua vida, excedeu esse limite. Não foi perdoado. Eduardo Maria Passarinho Franco Preto 76/1951 Coronel Pára-quedista reformado

Restaurante Jardim da Luz premiado O Restaurante Jardim da Luz, que funciona nas instalações da AAACM e que é ponto de encontro de muitos Antigos Alunos do CM, foi premiado com “1 Garfo”, no Concurso Gastronómico “Lisboa à Prova 2010”. Foi com natural satisfação que os concessionários do restaurante receberam a distinção, tanto mais que Qualidade de Serviço, Atendimento, Refeições e Preço eram os principais aspectos valorizados. Recorde-se que no “Jardim da Luz” há um menu “Colégio Militar”, que quando usado permite à AAACM receber 1 Euro por cada menu servido.


Recordando Uma Casa Portuguesa

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«UMA CASA PORTUGUESA» Com música de Artur Fonseca e poema de Vasco de Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira foi escrita em Lourenço Marques em Honra dos Alunos do Colégio Militar. Na verdade, quando eu estava na Beira (Moçambique), fui encarregado pelo Governador-Geral de Moçambique e pelo Comando Militar de organizar as cerimónias da recepção à «embaixada» do Colégio Militar durante a sua estadia na Província de Manica e Sofala (Beira). Corria o ano de 1951 e aproximava-se de Moçambique aquela «embaixada», que era dirigida pelo seu Director, Brigadeiro Alexandre Gomes de Lemos Correia Leal, e da qual faziam parte o Subdirector, Tenente-coronel de Artilharia José Augusto Vieira da Fonseca, o Major de Engenharia Luís Maria Bastos de Carvalho, o Capitão de Infantaria António Catalão Filipe Dionísio, o Capitão de Infantaria Ernesto Maria Rui Dionísio, o Servente Nº 73 Aires Azevedo Gomes de Araújo e os alunos do 7º ano: João Pedro Garrido Borges (2/1943) José António de Paiva Guedes da Silva (13/1944) José Júlio de Azevedo Valarinho (73/1943) Jaime Fernando Reis Machado Faria (75/1945) José Olímpio Calado Costa Gomes (76/1944) José Francisco Tomaz Moreno (79/1944) Afonso José de Albuquerque Campos Ferreira (103/1942) Fernando Manuel Gago Elias de Sousa (131/1943)

João Luís Laia Nogueira Mendes Paulo (132/1943) Mário Arada de Almeida Pinheiro (164/1943) João José de Sousa Cruz (168/1944) José Fernandes Martins e Silva (174/1945) António Mário Castelo Branco Correia de Aguiar (178/1944) - Comandante do Batalhão Jorge Manuel Cabeçadas Pereira Leite (179/1944) Manuel Arroja Beatriz (188/1945) Rui Duarte Correia Pacheco (210/1944) Fernando José da Fonseca Araújo (216/1946) António José Águas Rodrigues Varela (219/1944) Gastão Manuel Alves Paula (220/1944) Manuel Carlos Rodrigues Gutierres (229/1944) Lourenço Marques preparava no Teatro Gil Vicente um grande sarau musical em honra dos visitantes. Foi então que alguém pediu ao Artur Fonseca, ao Vasco de Matos Sequeira e ao Reinaldo Ferreira que escrevessem para esse sarau urna canção «que fizesse furor». A homenagem «aos Meninos da Luz» foi um verdadeiro êxito mas o maior ainda foi o sucesso que a canção «Uma Casa Portuguesa» teve desde logo e quando começou, ao longo dos anos, a percorrer o mundo. Inicialmente cantada pela Sara Chaves e, posteriormente, pela Amália Rodrigues. HONRA a quem dedicou ao Colégio Militar uma canção mundialmente conhecida, de que muito pouca gente conhece a razão de origem e onde foi cantada e ouvida pela primeira vez.

Ano Novo, Vida Nova Abrir sem pressa ou engano de alma inteira, renascida, Não só a porta do ano mas outra porta, a da vida! E então, sorrir, caminhar pela alegria e a desgraça; Deixando-as viver, passar porque tudo é dom ou graça. Só depois, perder o medo, Sem qualquer medo temer... E a morte?... mais tarde ou cedo ela é que te faz nascer! Roberto Ferreira Durão 15/1943 1 de Janeiro de 2013

José Augusto Henrique Monteiro Torres Pinto Soares Externo 1930


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Recordando Despedida, sorrindo (ALELUIA!)

Despedida, sorrindo

(ALELUIA!)

Para 3 Cavaleiros, amantes das ARTES Equestres e de outras e, portanto, do Cavalo, da Mulher e da Poesia como não podia deixar de ser. Deixaram-nos recentemente e descansam em Glória e em Paz: Coronel Fernando Cavaleiro (147/1929), Coronel António Romeiras Júnior (Sócio Honorário) e Coronel César Mano. Partiram sem nos avisar Isso não se faz Aos amigos e irmãos de peito! (Descansai em Paz.) Nós não podíamos adivinhar Mas foi «bem feito» Por isso não vos estamos a chorar Só a recordar e, sobretudo, a agradecer e louvar O ter-vos conhecido e os bons tempos convosco passados Estamos pois, nós e vós, perdoados Por esta, vá! Em breve nos veremos todos...LÁ! Sabemos, ou andaremos lá perto, que hoje, todos os três... Mosqueteiros talvez «Um por todos e Todos por um», me direis, decerto: Amigo Roberto Ninguém morre, Renasce!...porque a morte É um novo princípio, nunca um fim. E, assim, eu apenas parti... Deixo-te muito de mim, Levo um pouco de ti. Curiosamente, um outro irmão meu (de sangue), Me disse que de uma coisa se esqueceu. Na conversa com o Fernando Cavaleiro, depois deste partir, só queria acrescentar: «Agora tens novos trabalhos a enfrentar, Ensinar ao S. Pedro bridge e a montar a cavalo Ele, montar, até treme E nem sabe o que é um «grande shelém» Pois bem, mano Ricardo, tens uma boa solução: Envia-lhe um mail ou um fax para lá, Ele te agradecerá Ou somente uma carta, mas ....sem ser «em mão» Um forte abraço para todos do vosso amigo Roberto Durão. Roberto Ferreira Durão 15/1942


Recordando Os que nos deixaram

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Os que nos deixaram António Manuel Bispo da Silva Caio (109/1948) Gestor Comercial Nasceu a 15 de Maio de 1936 - Faleceu a 24 de Dezembro de 2012

Em plena quadra natalícia, em que os corações transbordam de sentimentos de amor e de alegria, uma notícia trágica veio ensombrar-nos a alma: morreu o António Caio, o 109 do nosso curso! Para a grande maioria de nós, foi uma surpresa particularmente dolorosa, já que o António Caio tinha sido sempre um participante regular nas nossas reuniões e convívios periódicos ao longo dos anos, e nada nos fazia prever que os laços de profunda amizade, camaradagem e afecto que há tanto tempo nos uniam viessem a ser tão depressa cortados. O Curso está, pois, de luto... O António Caio entrou para o 2º ano do Colégio em Outubro de 1948 e a par e passo connosco viveu o dia a dia colegial até ao 7º ano de 1953-1954, em que foi graduado como comandante de secção (1 estrela, “sorja”) da 2ª Companhia. Foi o mais novo de três irmãos, todos antigos alunos do Colégio: o 102/1932, Francisco Baptista Bispo da Silva Caio, bancário e o 38/1934, João Carlos Bispo da Silva Caio, geólogo, ambos já falecidos.

O António Caio exerceu praticamente toda a sua actividade profissional como quadro superior da VARIG (companhia de aviação brasileira, já desactivada), da qual se tinha há anos reformado e onde tantas vezes, no âmbito das suas competências, estendeu gentilezas e atenções muito sensibilizantes à malta do Colégio que viajava na sua linha aérea, como aliás eu próprio recebi dele em dois voos entre Lisboa e Roma. O António Caio, calmo e articulado nas suas opiniões e atitudes, mostrava-se curiosamente grande entusiasta por automóveis desportivos e em várias ocasiões ouvia-o discorrer com paixão sobre as características dos coupés e cabrios britânicos, os MG à cabeça. À sua mulher, Maria da Conceição e à Teresa, sua única filha, que tanto amou e tanto o amaram, queremos transmitir os nossos sentimentos de profunda consternação e carinhosa estima. Luís Joel Alves de Azevedo Pascoal 145/1948 e todos os membros do Curso 1947-1954


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Recordando Os que nos deixaram

António Vasco da Costa Massapina de Carvalho (209/1957) Arquitecto Nasceu a 15 de Maio de 1947 - Faleceu a 24 de Dezembro de 2012

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VASCO MASSAPINA, O PESCADA

Pescada. Pescada?! Mas quem se lembraria de pôr esta alcunha a alguém. Porque antes de o ser já o tinha sido? Reincarnações? Não, não me parece e só parece haver uma explicação: era do antecessor. Está visto, a alcunha era do antecessor. Mas o 209 de 1957, o nosso Vasco não se importava com ela, achava-lhe até uma certa graça. E assim ficou, até hoje: Pescada. Entrámos ambos em 57 para a 1ª do Guedes Florista e ficámos na mesma turma. Na sala de aula, uma carteira nos separava; na camarata, duas, três camas nos separavam. Fizemos a vida sempre próximos: Colégio, Arquitectura, vidas cívicas, confronto de ideias e opiniões, risos e gargalhadas. E indignações várias! Há pouco tempo deu-me uma carta, encontrada no fundo da gaveta, que escrevera à madrinha sobre as memoráveis futeboladas que fazíamos no pelado da 1ª ou nos gerais. Falava dos golos – deveria ser do tempo em que éramos obrigados a escrever a alguém à quarta-feira - que eu tinha marcado e que, dizia, de outra

forma não teríamos chegado à vitória. Terminava com um não tenho mais nada para dizer de missão cumprida. Era assim, cumpridor. Era preciso fazer, fazia-se. Falando dos amigos, a gabá-los. Nenhum de nós era algum modelo de bom comportamento. A maior diferença estaria, talvez, que o Vasco gostava de fardar-se bem – o Nano lembra que no bolso do sempre elegante blusão nunca faltavam cigarros - e de usar botas altas e, eu, tinha uma razoável indiferença sobre essa componente de atavio castrense. Mas ambos gostávamos de montar e de cavalos. Logo que pude concorri à Escolta e fiquei porque a preocupação de quem mandava era mais a do “estar a cavalo” do que a de comportamento. O Vasco, mais tarde, também concorreu – um outro qualquer exigia, mais do que o “estar a cavalo”, o bom comportamento. E o senhor aluno, o Pescada, o 209, o Massapina, não tinha o Bom a comportamento necessário: não entrou e essa tristeza ficou-lhe pela vida. E só me perdoou porque era meu amigo – em grandes gargalhadas comentava: este gajo foi da Escolta e eu, por mau comportamento, não fui. Já viram isto? Aventuras colegiais, muitas. Do início até ao posto de Furriéis com que ambos não fomos graduados – no nosso curso éramos um notável grupo de alguns quinze... Saídas nocturnas, cavanços, entrada a salto e assaltos – acho que foi na Física que foi apanhado fora de horas e de autorização. No dia do Baile dos Finalistas apareceu-me alvoraçado: eh pá! andei por todo o lado à tua procura – tinha ido à Luz ver o Eusébio a enfiar dois na baliza do dr. Maló

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da Académica - tens que me safar. Que era então? Tens que “segurar” a Paula – morena, volumosa de corpo roliço, irmã da namorada do Gil e flirt recente do Vasco – porque a Isabel também vem. Fiz o que devia e o “caso” ficou-se por ali. E ficou-se com a Isabel, o amor da sua vida. Desde então até hoje. Acho até que foi por ela que foi cursar Arquitectura – a Isabel foi para Pintura e tudo se passava na mesma escola de Belas-Artes de Lisboa. E acho também, talvez porque ele me tenha dito ou talvez por lhe adivinhar o gosto das fardas, que foi por ela que não foi para a Marinha, vontade a que a própria Mãe não seria alheia. Mas a Isabel levou a melhor. Lembrava-me sempre – e fazia questão de o lembrar a outros - a homenagem do Menau quando atravessei, fardado e pela última vez, os claustros: levantai-vos que vai ali um homem digno! Achou sempre – e dizia-o - a minha expulsão uma indecência. Sempre amigo do seu amigo. E preocupado com injustiças. Camarada, fiável, solidário. Sempre! Na Escola participámos numa greve que o meu curso – eu atrasei um ano graças à expulsão – levou até limite dos exames corridos a zero. Foram meses de RGA, de bota abaixo, de exigências, de “enterro da Escola”. No pós-25 de Abril entrámos na luta contra a existência de “patrões” no Sindicato dos Arquitectos – sindicato é para empregados! Mais tarde ajudou à construção da Associação dos Arquitectos Portugueses onde foi Presidente do Conselho Directivo Regional do Sul e foi ainda Vice-Presidente do Conselho Directivo Nacional da Ordem dos Arquitectos. Por sua causa – precisámos da tua experiência, disse-me a convencer - ainda sou hoje membro dos seus corpos sociais? Como profissional o Vasco sempre se preocupou com as cidades – lembro-me de uma interessante tese – numa visão inovadora da extensão do conceito cidade e dos seus serviços e como proposta de desenvolvimento urbano - que defendia que o centro de Lisboa se situava no meio do

1 - João Paulo Bessa (200/1957) e Vasco Massapina (209/1957) Baile de Finalistas de 2010, agradecimento pelo Projecto do Pavilhão Desportivo 2 - Pescada, Gil, Dois, Carro Eléctrico e Dentinho ,com Shegundo Galarza


Recordando Os que nos deixaram

lhos: o Adão da Fonseca, o Santos Coelho, nós os dois e os nossos filhos, o João e o Raul. Formámos uma parceria excelente a que se acrescenta o Nano, então Presidente da Associação, que nos ajudava nas relações entre partes. O Vasco, como sempre, pôs toda a energia, o tempo e o espaço do seu gabinete ao serviço deste projecto para o nosso Colégio. E o projecto - bom, diga-se – aí está, pronto a começar a construir depois das medições e orçamento feitos, entretanto, pela Engenharia Militar. Com a paixão que punha nas coisas que diziam respeito ao Colégio – passava aqui manhãs de sábado com a desculpa de ver os netos no Pentatlo Moderno - lançou o princípio do projecto de reconversão da Formação para, seguindo o exemplo das Meninas de Odivelas, também criarmos ali o nosso Lar – e conseguiu, passo sempre delicado, a aprovação do IPPAR para

Tejo. E realizou, nessa paixão do construir cidade, dois trabalhos inovadores: o Plano de Beja e o Plano de Ponte de Lima que ainda hoje são lidos como marcos da intervenção urbana portuguesa. E fez também, começando em associação com o Olhos – outro arquitecto “menino da Luz” do nosso curso – a que se juntava a mulher Isabel, muita arquitectura em gabinete próprio a que acrescentou, logo que possível, os filhos também arquitectos – a Bárbara e o João. E sobre isso trocávamos opiniões e chamávamo-nos mutuamente a atenção para coisas relevantes da arte. E o gozo que nos dava acertarmos nas mesmas coisas. Era do Belenenses e fazia parte daquele pequeno grupo de espectadores que, fielmente, seguia , no estádio, a sua equipa de futebol. Tinha pena da realidade da equipa e de não poder ir com os amigos à bola – dadas as circunstâncias, nenhum

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de nós se mostrava muito interessado. E ele lá ia, muitas vezes com os netos, a deixar correr a marca pastel no sangue. Pouco depois de termos ido falar – o meu cunhado Vasco Coucello fez-nos companhia – aos futuros graduados que ficaram agradavelmente admirados com as estórias que nos ouviram, o Raul Passos, então Director do Colégio, desafiou-nos para realizarmos o projecto do novo Pavilhão. Aceitámos e pusemo-nos uma condição: a equipa projectista seria formada com ex-alunos entrados em 57 e com os seus fi3 - Grilo, Pescada e Cão – 3 de Março de 1959 4 - Pescada e Alzira

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as novas volumetrias. A pedido da nossa Associação ainda fez o anteprojecto para um Colégio Militar em Timor – projecto interessante com réplica contemporânea e adequada dos nossos claustros - e que foi aprovado pelo agora Presidente da República timorense ao tempo de Chefe do Estado-Maior General. Ocupou postos de relevo, foi professor e, entre diversos escritos, deixou-nos um livro com o sugestivo título de “O Risco do Arquitecto, Interesse Público e Autonomia da Profissão” – e como ríamos da ideia

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de “o risco” ser a nossa profissão. Nesta discussão actual sobre Arquitectura, Arquitectos, Actos Próprios da Profissão, desemprego por falta de projecto ou saídas profissionais, deixou-me um texto, bem recente, a abrir portas para o futuro da profissão. Generoso como sempre. Sem desistências. Amigo para sempre. O tempo acabou-se para o Pescada e eu tenho saudades. João Paulo de Castro e Silva Bessa 200/1957

NOTA BIOGRÁFICA Arquitecto nº 648 da Ordem dos Arquitectos, nº 45 do Colégio de Especialidade de Urbanismo da Ordem dos Arquitectos e nº 46 da Associação dos Urbanistas Portugueses. Nasceu em Lisboa a 15 de Maio de 1947, casado com a Pintora Isabel Llansol e pai dos Arquitectos Bárbara Massapina Vaz e João Massapina. Antigo aluno do Colégio Militar com o número 209 de 1957, concluiu o Curso Superior de Arquitectura, na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, ESBAL, em 1972. Académico Correspondente da Academia Nacional de Belas Artes, foi Conselheiro do Ministério das Obras Públicas integrando o Conselho Superior de Obras Públicas e Transportes, tendo sido presidente da 3ª Secção - Urbanismo e Edifícios. Foi também membro da Direcção da Federação Internacional de Urbanismo e Ordenamento do Território e eleito para o respectivo Bureau executivo e, em representação do então Governo português, Perito do Comité Consultivo para a Formação no Domínio da Arquitectura na União Europeia. Recebeu a Medalha do Colégio Oficial de Arquitectos de Madrid em 1995 e foi Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa de 1997 a 2002 onde leccionou a cadeira de Urbanismo II. Foi vogal do Conselho Consultivo do Instituto Português do Património Arquitectónico, IPPAR. Sócio do “Atelier Cidade Aberta, Arquitectura, Planeamento e Artes Plásticas, Lda”, hoje “Massapina Arquitectos, Lda” Foi Presidente do Conselho Directivo Regional Sul da Associação dos Arquitectos Portugueses, 1993-1995 e Vice-presidente do Conselho Directivo Nacional da Ordem, 1996-1998. Para além de diversos escritos, deixa o livro “O Risco do Arquitecto, Interesse Público e Autonomia da Profissão”.


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Recordando Os que nos deixaram

José João Caldeira Pinto (168/1960) Empresário Nasceu a 16 de Dezembro de 1936 - Faleceu a 18 de Setembro de 2012

lidava e colaborava regularmente com ele no âmbito da sua actividade, como consultor. Queria editar ainda um outro livro. Mas deixou-nos, inesperadamente, a 18 de Setembro de 2012. Em conversa com o Francisco Padinha (141/1960) – que no-la reproduziu há dias - teria dito que afinal aquilo (o cancro) estava a regredir. Mas não, talvez fosse apenas a vontade dele… E uns dias depois deixava-nos. Sem o livro. E com uma imensa saudade. Era casado; deixou a viúva e 4 filhos, a quem enviamos o nosso abraço solidário e a quem agradecemos toda a colaboração dada para a redacção desta pequena nota biográfica. Um Zacatraz para o José João e “allez, allez a votre santé”. O José João Caldeira Pinto nasceu em 16 de Dezembro de 1949, em Lisboa. Frequentou os Maristas - ainda na “Artilharia 1” - com o José Norton Brandão (400/1961), o Francisco Norton Brandão (425/1961), o Manuel Machado (275/1961) e o Zé Fanha (289/1961). Entrou no Colégio Militar em 1960; foi o 168; saiu em 1966. Matriculou-se depois no Liceu Passos Manuel, para continuar os estudos e ficou com o 7º ano incompleto. Em 1970 ingressou no serviço militar obrigatório, e foi colocado nos Serviços Auxiliares do Exército, devido a uma operação delicada ao ouvido esquerdo que não lhe conseguiu restituir audição total. Foi colocado no E.P.A. como soldado recruta, tendo depois sido colocado no R.A.L. 4 e mais tarde no G.C.T.A., em 28 de Setembro de 1970. Em 28 de Setembro de 1971, passou a 1º Cabo Miliciano, sendo promovido a Furriel Miliciano em 6 de Outubro de 1971. Foi colocado como amanuense no Estado-Maior do Exército e aí passou à disponibilidade em 17 de Julho de 1973. Em 1973 casou; e começou a trabalhar numa empresa da família, saindo mais tarde e começando a exercer a sua actividade profissional como técnico comercial

em diversos ramos de actividade, nomeadamente nos ramos publicitário e imobiliário. Em 1981, foi admitido no Grupo Salvador Caetano, como inspector comercial em diversos pontos do País; saiu em 1984/85, para trabalhar como técnico comercial numa empresa editora do Norte, direccionada para livros ligados às Associações Comerciais de várias indústrias (plásticos, têxtil, confecções,…). Em 1987 radicou-se, por fim, em Braga: tinha sido colocado como Director Comercial numa grande empresa que fabricava têxtil e calçado relacionados com artigos desportivos, donde saiu para trabalhar numa pequena empresa familiar por ele criada, fazendo o que mais gostava: o contacto directo com clientes, vendendo publicidade e editando livros dedicados ao Desporto. Nessa actividade evidenciou-se o seu espírito empreendedor, perfeccionista e colaborante: dando tudo para fazer e aperfeiçoar o seu trabalho, com dignidade e para agrado de todos os que com ele lidavam. Editou diversos livros para a Federação Portuguesa de Golfe, merecendo por este trabalho as críticas mais elogiosas dos seus dirigentes. O Zé Brandão (400/1961)

Joaquim Arnaldo Maltez Cardeira da Silva, 133/1961 Manuel José Pimenta de Castro Machado, 275/1961


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