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Revista ZacatraZ nº 188

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Editorial Revista “ZACATRAZ”

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Presidente da Direcção António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963)

Editorial O futuro do Colégio e a actuação da nossa Associação A Direção da AAACM, no âmbito da Visão sobre o futuro do Colégio Militar aprovada em Assembleia Geral a 24 de Março de 2010, tem vindo a acompanhar e a participar no processo desencadeado pelo atual Ministro da Defesa Nacional (MND) no Outono passado, relativamente ao futuro dos Estabelecimentos Militares de Ensino (EME). Antes do anúncio feito sobre a constituição de uma Comissão do Ministério da Defesa para a análise da situação atual e proposta de um modelo futuro para os EME, a Direcção da AAACM, acompanhada pelo Presidente da Assembleia Geral, teve ocasião, em Abril de 2011, de reiterar ao Chefe de Estado Maior do Exército (CEME), então recentemente nomeado, as informações transmitidas ao seu antecessor em Abril de 2010 - ainda durante o mandato da Direção anterior - relativamente quer à sua Visão quanto ao futuro do Colégio Militar, quer às medidas de curto prazo que se impunham tomar com carácter urgente. Em Setembro de 2011, em audiência concedida pelo Secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional (SEADN), a Direção de AAACM, então acompanhada pelo Presidente do Conselho Supremo, transmitiu esta mesma informação, salientando a relevância das medidas de curto prazo, consideradas essenciais e independentes de qualquer que venha a ser o modelo definido pela Tutela. Nesta ocasião foi confirmada, quer pelo SEADN, quer pelo MDN - que fez questão em cumprimentar a delegação da AAACM - a constituição da Comissão já acima referida. No discurso que proferiu na Abertura Solene do ano letivo de 2011/2012 a que presidiu em Outubro de 2011, o MDN transmitiu a orientação para o futuro do Colégio Militar: um Colégio de serviço público, por natureza militar, formador de elites, sustentado e sustentável. No final da cerimónia ouviu-se um espontâneo Zacatraz que sublinhou de forma sentida a concordância dos Antigos Alunos presentes com os princípios então anunciados. Em Dezembro de 2011, e na sequência daquela audiência, a Direção da AAACM reuniu longamente com alguns dos membros da Comissão encarregue do estudo sobre os EME, com quem debateu e informou detalhadamente sobre os mesmos temas. Em Abril de 2012, foi nomeada por despacho do MDN uma nova Comissão liderada pelo Professor Marçal Grilo, com a missão de elaborar uma “Proposta de Reestruturação para os Estabelecimentos Militares de Ensino não superiores”. Em audiência que então nos foi concedida, tivemos oportunidade de expressar ao

Professor Marçal Grilo não apenas a nossa Visão, mas também a convicção de que, tão importante quanto o modelo que venha a ser definido para o futuro, será o modo como o mesmo venha a ser aplicado. Nos pormenores da execução residirá uma fração importante do sucesso da reforma. A 18 de Julho de 2012 a Direção da AAACM foi recebida pelo MDN, tendo sido informada de que uma decisão política sobre a Reestruturação dos EME não superiores seria tomada muito em breve. No decurso desta audiência foi entregue ao Senhor Ministro um documento de reflexão da Direção da AAACM sobre a “Proposta de Reestruturação para os Estabelecimentos Militares de Ensino não superiores” da autoria da Comissão liderada pelo Professor Marçal Grilo, da qual entretanto tivera conhecimento. A 24 de Julho de 2012 a Direção da AAACM foi de novo recebida pelo CEME, a quem fez a entrega do mesmo documento de reflexão. Durante todo este processo ficou patente o reconhecimento por parte das diversas entidades e personalidades envolvidas do contributo que a AAACM tem prestado e pode prestar para o futuro do Colégio Militar. A Direção da AAACM fez questão sempre de sublinhar a sua disponibilidade e vontade em participar nesse processo, bem como o compromisso de o fazer procurando garantir o apoio da sua Comunidade de Antigos Alunos. É exatamente com este propósito que a Direção fez questão de publicar no seu site e newsletter o Comunicado que se reproduz na íntegra neste número da ZacatraZ, decisão essa partilhada com todas as entidades e personalidades com quem tem lidado em todo este processo.


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Ficha Técnica

CORPOS SOCIAIS DA ASSOCIAÇÃO PARA O TRIÉNIO 2011-2013

Ficha Técnica PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL Fundada em 1965 N° 188 - Julho/Setembro - 2012

DIRECÇÃO Presidente Vice-Presidente Secretário Tesoureiro 1º Vogal 2º Vogal 3º Vogal 4º Vogal 5º Vogal 1º Vogal Suplente 2º Vogal Suplente 3º Vogal Suplente

FUNDADOR Carlos Vieira da Rocha (189/1929)

António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios - 529/1963 José António Madeira de Ataíde Banazol - 631/1968 Pedro Miguel Correia Vala Chagas - 357/1977 Vítor Manuel Galvão Rocha Novais Gonçalves - 666/1971 Carlos Francisco da Silva do Rio Carvalho - 307/1971 Manuel Pedro da Costa Pereira Roriz - 519/1959 Pedro Manuel do Vale Garrido da Silva - 53/1961 Luís Baptista Esteves Virtuoso - 72/1973 Francisco Maria Sarmento Cavaleiro de Ferreira - 58/1977 Mário Maria Duarte Afonso Camões - 401/2000 Gustavo Lopes da Costa Pinto Basto - 227/2000 Tiago Simões Baleizão - 200/1987

DIRECTOR Mário Margarido e Silva Falcão (314/1936) CHEFE DE REDACÇÃO Gonçalo Salema Leal de Matos (371/1949) REDACÇÃO Nuno António Bravo Mira Vaz (277/1950) Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa (71/1957) Pedro Manuel do Vale Garrido da Silva (53/1961) João Carlos Agostinho Alves (110/1996) Mário Maria Duarte Afonso Camões (401/2000) CAPA

Presidentes da República Antigos Alunos ENTIDADE PROPRIETÁRIA E EDITOR Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar

ASSEMBLEIA GERAL Presidente Vice-Presidente 1º Secretário 2º Secretário

Manuel Carlos Teixeira do Rio Carvalho - 124/1945 Duarte Manuel Silva da Costa Freitas - 199/1957 Frederico Eduardo Rosa Santos - 78/1957 João Miguel Jardim de Abreu Ferreira Pinto - 261/1980

MORADA DO PROPRIETÁRIO e SEDE DA REDAÇÃO Quartel da Formação - Largo da Luz 1600-498 Lisboa Tel. 217 122 306/8 Fax. 217 122 307 TIRAGEM - 1350 exemplares DEPÓSITO LEGAL Nº 79856/94

CONSELHO FISCAL Presidente 1º Vogal 2º Vogal 1º Vogal Suplente 2º Vogal Suplente

Nº DE REGISTO NO ICS 100010 ISSN 0872-8224

José Manuel Spínola Barreto Brito - 539/1963 António Emídio da Silva Salgueiro - 461/1972 Eurico Jorge Henriques Paes - 306/1957 João Luís de Mascarenhas e Silva Schoerder Coimbra - 54/1984 João Sanches de Miranda Mourão - 552/1960

DESIGN E EXECUÇÃO GRÁFICA:

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA AOS SÓCIOS DA AAACM NÚMERO AVULSO: 4,00 € ASSINATURA: 15,00 €

Os artigos publicados são da responsabilidade dos seus autores.

ARTIGOS À VENDA NA AAACM PUBLICAÇÕES

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Outras Publicações

NO VO

I Volume da História ao Colégio Militar

PREÇO: 30 €

PREÇO: 3 €

50 €

II Volume da História do Colégio Militar

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III Volume da História do Colégio Militar

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Sumário

Dos Antigos Alunos

04 O futuro do Colégio e a actuação da nossa Associação

16 Cursos 1937/1944 | 1947/1954 |

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Dos Antigos Alunos

Os Antigos Alunos e a política

1955/1962

25 Um Caso de Possessão 26 Torneio de Bridge de 2012 da AAACM 27 É o seu Navio! 28 Jantar do Oeste 2012 Do Colégio

30 Espada de Toledo

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Dos Antigos Alunos Entrevista a Francisco Medeiros de Almeida

Colaboração

34 A Feira da Luz 35 Grupo de Cavalaria 345 36 IOS VS ANDROID 37 Quanto vale a minha saúde? 38 Pode haver guerras justas? 49 Projecto Fim do Império 50 Henrique de Carvalho

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Colaboração

As LFG na Guiné

Recordando

53 A última Cruz de Guerra 55 Antigos Alunos nas Tropas Pára-quedistas

58 Os que nos deixaram

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Colaboração

Capacidade Submarina


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Dos Antigos Alunos O futuro do Colégio e a actuação da nossa Associação

O futuro do Colégio e a actuação da nossa Associação Comunicado da Direcção 1. No passado dia 28 de Outubro de 2011 o Ministro da Defesa Nacional honrou o Colégio com a sua presença na Cerimónia Solene de Abertura do Ano Lectivo. Na nossa memória ficou um compromisso “…Em 2012, deste mesmo púlpito, por onde já passaram tantos ministros, governos e se disseram tantas palavras, espero vir aqui, de novo, celebrar este Colégio”. Ficaram igualmente registados aspectos estruturantes da sua visão para o futuro do nosso Colégio: • “…Os alunos do Colégio Militar absorvem aqui os valores e princípios que o Estado verdadeiramente soberano e digno do seu povo precisa, hoje mais do que nunca”. • “…Não quero um colégio de elites, mas quero um colégio que forme elites. Elites para o país e para as Forças Armadas”. • “….O que a República necessita é do seu Colégio. Sustentado, sustentável mas militar”. • “…. Sem olhar a dogmas, géneros, antiguidades ou preconceitos de outros séculos.” • “….Nestas palavras está a vontade de ter um colégio português, cada vez mais internacional.” • “…O Colégio Militar é militar. Não é civil. E muito menos comercial”. • “…Desmilitarizar o Colégio, no seu formato ou na sua essência, significaria que este deixaria de cumprir a sua vocação. Deixaria de cumprir o papel que há 208 anos lhe foi entregue.” 2. Desde então tem a Direcção desenvolvido intensa actividade e diversas iniciativas das quais destacamos: • Audiências com o Ministro da Defesa Nacional e com o Secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional; • Audiências com o Chefe do Estado - Maior do Exército; • Reunião com a Comissão nomeada em 2011 pelo Ministério da Defesa Nacional para avaliação da situação dos estabelecimentos militares de ensino não superiores. • Reuniões com o Professor Marçal Grilo, escolhido para coordenar a elaboração de uma proposta para a reestruturação dos estabelecimentos militares de ensino não superiores;

• Reuniões com representantes da quase totalidade dos cursos de Antigos Alunos; • Reuniões de coordenação e reflexão estratégica com o Conselho Supremo da Associação. Devemos registar que a actuação da Associação nunca abrangeu o futuro do Instituto de Odivelas e do Instituto Militar dos Pupilos do Exército, por tal se encontrar fora do âmbito do nosso objecto estatutário. Em todo este processo foi apresentada e defendida a Visão da AAACM sobre o futuro do Colégio Militar e o conjunto de propostas que dela decorrem, validadas em Assembleia Geral de 24 de Março de 2010, que resumimos da seguinte forma: • Escola de Excelência, para rapazes, com três dimensões de formação: Académica + Militar/Liderança + Desportiva: - Direcção Pedagógica profissional e especializada mediante contrato com um profissional com larga experiência; Programa de Formação Militar e de Liderança, desenvolvido por militares, do qual resultarão condições de acesso especiais às Academias Militares; Actividades desportivas com oferta “única” e com resultados reconhecidos. 1º e 2º Ciclo (1º ao 6º anos), pressupondo que o 1º Ciclo seria alargado até ao 6º ano, em regime de Externato, fomentando a boa preparação e integração no conceito do CM e 3ª Ciclo e Secundário (7º ao 12º anos) em regime duplo, com opção de Internato ou Externato. • Colégio tutelado pelo Exército em regime que permita autonomia de gestão administrativa e financeira. • Existência de um Conselho Consultivo da Direcção do Colégio com representação da AAACM. • Colaboração estreita com os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) apoiando a criação de Colégios Militares e recebendo alunos provenientes dos diversos países, ampliando eficazmente uma importante dimensão estratégica para a qual o Colégio Militar desde há muito contribui. 3. A “Proposta para a reestruturação dos estabelecimentos militares de ensino não superiores” elaborada sob a coordenação do Professor Marçal Grilo, constituindo uma base de trabalho com zonas de consenso com a visão da Associação, inclui também propostas fora dessas zonas de consenso.


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Dos Antigos Alunos O futuro do Colégio e a actuação da nossa Associação

Matéria particularmente sensível é a eventual transição de um modelo de ensino masculino para um modelo misto, podendo vir a integrar alunos dos restantes EME, preconizada já nas palavras do Ministro da Defesa Nacional quando se referiu ao fim das diferenças de género (transformação do Colégio Militar numa instituição com ensino misto) e à sustentabilidade do Colégio Militar. 4. A posição da Associação 4.1 – Relativamente à transição para o ensino misto a Associação não tem uma posição formalmente definida, a favor ou contra, tendo no entanto claro que o processo de transição, se acontecer, deverá ser antecedido de reflexão e preparação particulares. Deverá ser tida em consideração a redução progressiva do desempenho dos rapazes face as raparigas, desde que se generalizou o ensino misto na Europa e Estados Unidos. Deverão também ser tidos em conta os riscos associados à perda de características diferenciadoras do Colégio Militar, entre as quais se inclui não ser misto, tendo em atenção que não existe qualquer evidência que o ensino misto aumente a atractividade da escola. 4.2 - Quanto ao tema igualmente sensível da preservação dos pilares distintivos de formação “Militar e Liderança” e “Desportivo”, a AAACM considera que o Colégio, para manter a sua identidade e valor formativo único, deverá dispor de um Programa de Formação Militar e de Liderança, de alta qualidade, desenvolvido por militares, do qual resultarão condições de acesso preferenciais às Academias Militares. Este programa deverá ser acessível apenas a alunos internos, dada a sua especificidade e necessidade de disponibilidade de tempo. A título de exemplo, fazem parte deste programa, centrado no actual Corpo de Alunos, as tradições e mística, o treino de funções de comando, com graduações nos últimos anos, a vivência do ambiente e disciplina militar, as semanas de campo nas unidades militares, etc….

5 - Tendo em conta as diferenças entre o documento apresentado pela equipa coordenada pelo Professor Marçal Grilo “Proposta para a reestruturação dos estabelecimentos militares de ensino não superiores” e a nossa Visão, resulta claro que o apoio formal da AAACM a qualquer modelo distinto do apresentado em 2010 necessitará sempre de aprovação prévia pelos seus órgãos estatutários, nomeadamente em sede de Assembleia Geral. 6 - Continuamos com a certeza de que o Colégio tem todas as condições para que seja implementada uma oferta educativa única, diferenciada e atractiva, sem que esse processo, que também consideramos urgente, leve à necessidade de decisões com riscos conhecidos e não enquadrados previamente com a maior ponderação. A Direcção da AAACM tem esperança que uma decisão política sobre o modelo de futuro do Colégio Militar seja tomada com brevidade. Temos, igualmente, a expectativa que a decisão harmonizará as necessidades de modernização e sustentabilidade com a manutenção da essência subjacente ao sucesso do Colégio Militar ao longo de mais de dois séculos. Confiamos, também, que o modo de concretização da mudança será orientado pelos mais elevados padrões de qualidade, assegurando a ponderação contínua dos detalhes e especificidades, a eficácia na execução e a participação dos parceiros relevantes nomeadamente da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar. 7 - A nossa missão, que decorre dos estatutos da Associação e da nossa condição de Antigos Alunos, é apoiar o Colégio Militar. Neste momento, isso significa participar num processo de mudança que o projecte no futuro, em que precisaremos de ser como sempre, “Um por todos, todos por um”.

Pelo futuro do nosso Colégio, um forte Zacatraz.

Pela Direcção da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar

António Saraiva de Reffóios (529/1963) Presidente da Direcção

4.3 – Quanto aos alunos externos estes estarão também integrados num colégio militar, terão acesso à oferta desportiva mais completa e atractiva do ensino em Portugal, usarão farda, terão conhecimentos e comportamentos de natureza militar, mas com profundidade e práticas naturalmente distintas e sem acesso preferencial às Academias. A todos os alunos serão incutidos os valores de solidariedade, éticos, morais, patrióticos e de cidadania, característicos da matriz moral da instituição militar e patentes no Código de Honra dos Alunos do Colégio Militar. 4.4 - Por fim parece-nos da maior importância salientar que foi sempre sublinhado na nossa actuação a necessidade de adopção dum conjunto de medidas imediatas, com natural impacto no presente do Colégio e absolutamente necessárias para assegurar a qualidade e consistência do período de mudanças que se antecipam, sendo que essas medidas imediatas, já identificadas e propostas pela AAACM, são aplicáveis independentemente do modelo final que vier a ser definido pela tutela.


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Dos Antigos Alunos Os Antigos Alunos e a política

Pedro Manuel do Vale Garrido da Silva (53/1961)

Os Antigos Alunos e a Política

Colégio Militar: Escola de Valores Cívicos Muito se tem escrito sobre o Colégio Militar e os seus notáveis filhos. Militares eméritos, cientistas brilhantes, geniais homens de Letras e Artes. Contudo, muito pouco, ou quase nada, se tem escrito sobre antigos alunos que tiveram notabilidade na Política Nacional. Em geral, referem-se os Presidentes da República, em que a contribuição do Colégio Militar foi de cinco, não contando com outro, que deveria ter sido e não o foi! E no que respeita à participação de antigos alunos na política nacional, regra geral, fica-se por aqui, o que, embora relevante, é muito pouco, para não dizer, quase nada. Ora se há característica maravilhosa no nosso Colégio, é sem dúvida nenhuma, o grande número de antigos alunos que deixou um rasto notável e indelével em quase todas, se não mesmo em todas as áreas do saber e da vida nacional. E a vida política, não foi excepção. A acrescentar a tudo isto, não quero deixar de enfatizar o facto, nos dias de hoje, de as fronteiras nacionais já começarem a ser ultrapassadas e o Colégio Militar começar também a deixar a sua marca na vida internacional, em particular e como não podia deixar de ser, nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Felizmente, que o José Alberto da Costa Matos (96/1950) já realizou um trabalho importante de recolha biográfica de mui-

tos antigos alunos, aquando da execução da sua notável e grandiosa “História do Colégio Militar” e de “O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa”, e também, como ele próprio já antecipou na revista ZacatraZ, de um novo trabalho que tem em preparação, onde actualiza e completa as biografias dos antigos alunos notabilizados não só nas áreas anteriormente abordadas nesses trabalhos, como também em outras áreas, algumas originais e curiosas. Sem prejuízo desse importante trabalho, julgo que seria importante haver mais pesquisa e um maior aprofundamento do rasto deixado por antigos alunos, nas diversas áreas específicas da vida nacional. Concretizando, veja-se o óptimo exemplo do Contra-Almirante António de Almeida Brandão (346/1923), que na “Revista da Armada” do n.º 359 ao n.º 362, publicou uma completa e exaustiva série de artigos sobre o “O Colégio Militar e a Marinha”. É pois nesta perspectiva, que reforço o apelo para outros camaradas contribuírem com artigos ou pequenas monografias sobre outras áreas específicas, em que a acção de antigos alunos se fez notar. A História não é feita de bondosas declarações de intenção, mas tão só das marcas reais e vividas que os homens deixaram durante o seu percurso, em cada momento histórico. Por isso, estas mo-

nografias seriam importantes para podermos mostrar e provar, com toda a clareza e evidência, as marcas que aqueles que nos antecederam no Colégio deixaram na nossa História Moderna, desde o início do século XIX. E mais ainda, evidenciar o importante contributo que o Colégio Militar deu, no moldar dessa mesma História, nos seus dois séculos de existência. Seria uma forma, não de contar “estórias” de colegiais, mas tão simplesmente, de contar a História Pátria através das grandes e pequenas personalidades que se formaram no Colégio Militar. Algumas mais simpáticas que outras, ou com as quais nos identificamos mais ou menos, ou até mesmo, quantas delas, com as quais nem de perto nem de longe, simpatizamos de todo. Serve este intróito para, de alguma forma, justificar a razão de ser desta pequena contribuição, provavelmente ainda com muitas lacunas, sobre os “Antigos Alunos e a Politica”, desde a fundação do Colégio Militar até aos dias de hoje. Quisemos com este artigo alargar o conhecimento que hoje temos, sobre o âmbito da intervenção dos antigos alunos na vida política nacional, para além dos 5 Presidentes da República. Na realidade, a intervenção politica que os antigos alunos tiveram, foi de facto muito mais vasta, rica, diversa e plural.


Dos Antigos Alunos Os Antigos Alunos e a política

Mas acima de tudo, foi uma intervenção que espelhou, quase sempre, os altos valores que se adquirem nesta instituição tão especial que é o Colégio Militar. Não quero deixar de enfatizar a preocupação que tivemos ao longo deste texto, de não emitir juízos de valor, políticos ou ideológicos, assim como tomar qualquer tipo de partido. Não que não os tenhamos, mas porque o nosso objectivo era, tanto quanto possível, mostrar como, partindo da nossa matriz fundadora e dos valores ali adquiridos, toda essa gente que se formou no Colégio, se foi posicionando na vida do nosso país. Uns mais próximos, outros mais afastados, outros ainda, totalmente contra esses valores humanísticos fundadores. Grande parte dos antigos alunos, em particular no passado, seguiram a carreira militar. Dado que muitas vezes as armas e a política andaram de mãos dadas, tornou-se muito difícil distinguir a acção puramente militar, da acção claramente política. Outra questão importante, prende-se com alguns cargos de nomeação política, nomeadamente a de Governador ultramarino, governador civil, etc.. Ora neste artigo, das muitas dezenas de governadores ultramarinos que foram antigos alunos, só alguns são referidos, pelo simples facto de o critério que segui, ser o de relevância política, como pensador, militante ou dirigente partidário, deputado, ministro... ou até mesmo conspirador. Essa foi uma das razões porque infelizmente, não conseguimos elencar toda a gente que merecia ser referida. Outros casos houve em que a nossa apreciação e escolha poderá não ter sido a mais correcta. Mas esses foram riscos que aceitámos correr, deixando que o nosso bom senso fizesse o resto. E outros ainda que não foram mencionados, pura e simplesmente, por ignorância ou desconhecimento. Devo dizer também, que outra preocupação que tive foi, mais que as pessoas, evidenciar os valores e os princípios que estão na sua génese e no código de conduta tangível e intangível, desta escola absolutamente singular. Por isso, espero e apelo, para que este artigo seja encarado como um trabalho em construção e que por isso, possa envolver outros camaradas, seja na polémica, seja

na crítica, seja no trazer de novos dados que completem e enriqueçam ainda mais a nossa história colegial.

A FUNDAÇÃO DO COLÉGIO MILITAR

O Colégio Militar foi criado em 1802, segundo as mais fundadas interpretações actuais, embora a tradição tenha mantido a data de 1803, a qual é comemorada todos anos pelo 3 de Março. Estávamos então a cerca de meia dúzia de anos de a Corte (uma parte muito significativa da elite do país) fugir para o Brasil e do avanço imparável dos exércitos de Napoleão. Sem qualquer sombra de dúvidas, estes seus primeiros anos de existência terão sido tempos complicadíssimos e dramáticos para a fundação e implantação tranquila do Colégio. A seguir à expulsão dos franceses, os primeiros anos do século XIX, viram as ideias liberais começar a ganhar terreno em Portugal. Aliás, o próprio marechal Teixeira Rebelo foi ministro da Guerra no governo saído da revolução liberal de 1820. Terá sido muito provavelmente essa a razão, porque os valores éticos e humanísticos que terão estado na origem dos princípios fundadores do Colégio Militar, foram muito influenciados pelos valores da então ainda muito recente Revolução Francesa: LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE. E é também por isso, que estes elevados

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valores da humanidade, também estão plasmados no nosso Código de Honra, os quais, através da Tradição e da nossa vivência diária durante estes 209 anos, incorporaram em cada um de nós aquilo a que orgulhosamente chamamos o Espírito Colegial. Um outro importante factor estruturante, que também está reflectido no nosso Código de Honra, é, como não podia deixar de ser numa escola com estas características, o espírito militar. No Colégio Militar o espírito militar nasceu das especiais circunstâncias da época. Entre outras, e dada a proximidade das invasões francesas, havia a necessidade premente de militares preparados e habilitados. Por outro lado, havia um detalhe, que não era de desprezar, isto é, em Oeiras havia um local onde estavam disponíveis instalações, onde estavam em serviço alguns dos seus pais e onde haviam professores disponíveis e habilitados. Deste feliz acaso histórico, nasceu um muito bem-sucedido casamento, que já leva mais de 200 anos. Mas a verdade, é que foi graças a este casamento acidental, entre os grandes valores da Humanidade e o Espírito Militar, que se criou um dos pilares essenciais em que assenta o nosso Colégio e que o tornaram numa instituição única em Portugal. É por essa razão, que a cultura militar faz parte inalienável do nosso património Colegial. Sem ela não teríamos aquele cimento que une e dá consistência aos valores fundadores. Ou seja, um enquadramento hierárquico onde cada um e todos, lutam pelo mesmo objectivo. A Disciplina, a Camaradagem, a Lealdade, a Honra, o Espírito de Corpo, o Uniforme e o Assumir dos seus Actos, que estão tão bem consubstanciados no Batalhão Colegial, com a sua hierarquia, com os seus graduados, na farda de cotim e na de cor de pinhão, no ritual militar que nos acompanha durante todo o dia, desde que nos levantamos até que nos deitamos. O Hino, o Estandarte Nacional e o Guião. Os desfiles com o passo certo e o alinhamento impecável, a continência. Aquele barulho dos calcanhares a baterem ritmadamente, parece que a compasso com o bater do coração. Todas aquelas tradições colegiais, do 1º de


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Dos Antigos Alunos Os Antigos Alunos e a política

Dezembro ao “Spell e King”, das mocadas à visita do fundador, do içar da barretina e do capote na cúpula, ao nosso Zacatraz. Por isso, faz todo o sentido dizer, que a matriz dos valores militares, também reforçou e ajudou a estruturar e a disciplinar, dentro do nosso grupo coeso, os valores da Liberdade. Pois que a disciplina não implica moldar a personalidade, mas tão só, manter a coesão do grupo. A garantia que a personalidade de cada um não é violada, é-nos assegurada pela interiorização dos valores inscritos no nosso Código de Honra e na Tradição Colegial. O Colégio Militar, contrariamente a muitas ideias preconcebidas, nunca foi uma simples correia de transmissão das ideologias dominantes. E não o foi, porque o Colégio, durante os mais de 200 anos da sua existência e tendo passado pelos mais diversos e conturbados períodos da história do nosso pais, sempre permitiu que as condições de cada época, não impedissem a liberdade de ideias e de expressão ou que nos fossem impostos quaisquer modelos políticos, ideológicos, religiosos, económicos ou sociais. No Colégio, a Liberdade sempre foi um valor omnipresente, pois a Liberdade é nós podermos escolher aquilo a que nos queremos prender no futuro. É por essa razão, que embora tendo os mesmos valores, cada um de nós sempre se diferenciou no pensamento e na acção.

MONARQUIA CONSTITUCIONAL Poucos anos após a sua fundação e apesar da sua ainda grande juventude, o Colégio Militar passou por uma das suas mais graves crises e sofreu violentíssimos embates, que puseram à prova pela primeira vez, a força e a justeza dos seus princípios fundadores. A Guerra Civil de 1828-1834 foi uma das mais violentas e mortíferas crises políticas que o nosso país sofreu e, como veremos, o Colégio também não ficou de fora deste conflito. “A oficialização do Colégio da Feitoria havia-se colado no tempo ao advento dos ideais liberais, do mesmo modo que o governo de regência, constituído no ano seguinte à revolução liberal de 1820, ao confiar o cargo de ministro e secretário de

estado dos negócios da Guerra ao Marechal Teixeira Rebelo, voltava a provocar o encontro do Colégio com os defensores de tais ideais. Em fins de 1822 nova convergência: era nomeado subdirector do Colégio, Cândido José Xavier, reputado liberal que sucedera ao marechal no ministério da Guerra e que após a sua morte, o substituiria em Outubro de 1825 como director. Em Maio desse ano, ainda em vida de Teixeira Rebelo, o cargo de 1º comandante do colégio da Luz havia sido confiado a João José da Cunha Fidié, que no Brasil conquistara a admiração de D. Pedro”.1 No dia 10 de Março de 1826, «morrera inesperadamente D. João VI e, cerca de dois meses depois, D. Pedro, herdeiro

e imperador do Brasil abdicara da coroa portuguesa em favor de sua filha D. Maria da Glória, de sete anos de idade, então também no Brasil. No começo de Julho foi presente ao Conselho de Regência, enviada do Brasil por D. Pedro, a Carta Constitucional, a qual contemplava a existência de duas câmaras (a dos Deputados, eleita, e a dos Pares, nomeada pelo rei) mantendo uma feição liberal, embora mais moderada que a da Constituição de 1822. Este facto não agradava definitivamente aos absolutistas, mas após várias hesitações o Conselho de Regência jurou a Carta em 24 de Julho. Surgem no entanto sublevações e motins no Sul do país, fomentados por realistas com a conivência de congéneres

espanhóis, os quais obrigam à intervenção do general Saldanha entretanto nomeado ministro da Guerra. Vários chefes militares realistas e respectivas unidades refugiam-se em território espanhol, onde o governo vizinho lhes proporciona o necessário apoio. A 30 de Novembro, as tropas refugiadas em Espanha, acompanhadas por realistas espanhóis, totalizando cerca de 8.000 homens, invadem Portugal por Trás-os-Montes e pelo Alentejo, mas estes últimos, no dia 10 de Dezembro, são vencidos pelas forças liberais em Arronches, retirando novamente para Espanha. Todavia, no Norte os invasores realistas haviam entrado a 22 de Dezembro em Viseu, após terem encontrado a resistência dos liberais ao longo do rio Tâmega o que os obrigou a inflectir para Sul através da Régua e Lamego. Na véspera de Natal chega ao Tejo um contingente inglês de 5.000 homens, pedido por Portugal com o propósito de dissuadir o governo absolutista espanhol de intervir em Portugal em apoio dos realistas. É então que algo se passa envolvendo 16 alunos do Colégio Militar, como o revela a seguinte portaria2 : Ministério da Guerra – 1.ª Direcção – 3.ª Repartição. Manda a Senhora Infanta Regente em Nome d’ElRei communicar ao Director do Real Collegio Militar, para conhecimento dos dezasseis Alumnos, que annimados de hum nobre enthusiasmo pela deffesa da Patria, se offerecerão para irem, immediatamente, servir no Exercito, que recebeo com agrado semilhante testemunho dos seus briosos sentimentos; mas que, não exigindo as presentes circumstancias, que se aproveitem já os seus serviços, Quer antes a Mesma Senhora que elles continuem, e com o mesmo ardôr, na applicação dos seus estudos, afim de que, em tempo competente, mais bem habilitados, possão ser empregados, como convier, no serviço do Rei e da Patria. Paço em 27 de Desembro de 1826 – Marquez de Valença – Publique-se a Ordem do dia.»3

Este foi o primeiro acto político colectivo de alunos do Colégio Militar, neste caso, na defesa dos valores da liberdade contra os valores absolutistas. Com o triunfo de D. Miguel, uma era negra iniciava-se em todo o pais e também no

1 - Matos, José Alberto da Costa, (2003). História do Colégio Militar, (Lisboa: Estado-Maior do Exército), 2º Volume, pág. 477. 2 - Ordem do Colégio n.º 14 de 1 de Janeiro de 1827. 3 - Matos, José Alberto da Costa, (2003). História do Colégio Militar, (Lisboa: Estado-Maior do ExércitoLisboa), 2º Volume, pág. 474 e 475.


Dos Antigos Alunos Os Antigos Alunos e a política

Colégio. À barbárie política das prisões, das execuções por fuzilamento ou enforcamento, da delação política e da intriga de tudo o que parecesse liberal, não podia escapar o Colégio, o qual é visto então, como uma das instituições que havia que sanear e purificar dos seus princípios de liberdade. O director e outros oficiais são demitidos, presos ou exilados. Um exacerbado miguelista é nomeado subdirector, o Tenente-Coronel Pedro José Santa Bárbara. Como tão bem ilustra o Costa Matos na sua “História do Colégio Militar”, a ordem de serviço colegial, passou a ser usada duma forma que nunca terá tido igual na história militar portuguesa: veículo de condicionamento psicológico dos alunos e restante pessoal, em favor de D. Miguel, que era idolatrado até aos limites do mais exagerado fanatismo. Vejam-se a título de exemplo, algumas elegantes tiradas, nomeadamente para justificar as demissões e os despedimentos: “o Adorável monarca Sr. D. Miguel não quer que existam propagadores de doutrinas e costumes venenosos, num Colégio por

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Sua Régia Beneficência conservado como viveiro de intrépidos defensores do Altar e do Trono.”4 Ou esta outra pérola, “O dia de amanhã é memorável e de grande regozijo para todos os Portugueses: a comemoração em que o Senhor D. Miguel 1º se digna tomar o título de Rei e Pai, tendo já o de Libertador da dura e vergonhosa escravidão em que a nobre nação Portuguesa existia, ficará sempre gravada nos nossos corações e em eterna lembrança. Graças mil devemos dar ao Todo Poderoso, que teve compaixão dos males que sofríamos e dos que estávamos ameaçados. Em orações de graças e demonstrações de júbilo deve ser ocupado o dia (...).” 5 Depois do fim da guerra civil, em que os miguelistas foram derrotados, em 29 de Julho de 1833, o Duque da Terceira entra triunfalmente em Lisboa à frente das tropas liberais. É nesse exacto dia que o director interino, Pedro José de Santa Bárbara, é exonerado, para em Novembro, o Tenente-Coronel Fidié ser novamente reconduzido como 1º comandante do Colégio Militar.

ANTIGOS ALUNOS QUE TIVERAM ALGUMA NOTORIEDADE NESTE PERÍODO Brigadeiro Fernando da Fonseca Mesquita e Solla (SN/1806) Liberal, por causa das suas convicções políticas teve que emigrar para Inglaterra. Foi um dos bravos do Mindelo. Distinguiu-se em várias batalhas, em particular no cerco do Porto. Até ao fim da campanha prosseguiu dando provas da maior valentia e coragem, principalmente nas acções de 18 de Agosto no Porto, de 5 de Setembro e 10 de Outubro em Lisboa, em Pernes e na batalha de Almoster, pelo que lhe foi dada a comenda da ordem da Torre e Espada. Deputado nas legislativas de 1840 a 1846. Foi secretário de estado e ministro dos Negócios da Guerra e da Marinha e Par do Reino.

Marechal de Campo José António Luís de Sequeira (SN/1809) Um dos bravos do Mindelo que acompanhou D. Pedro IV. Sem mais notícia.

Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha (52/1814) Parece ter sido o primeiro antigo aluno, oficial de Marinha. Mas senão o foi, pelo menos foi o primeiro antigo aluno a ter notoriedade na Marinha. Na altura a Marinha era maioritariamente legitimista/miguelista. Apenas alguns oficiais de baixa patente, entre os quais o segundo-tenente Pedro Alexandrino da Cunha, que toma parte na revolta do Porto e que depois desembarca no Mindelo em 1831, na esquadra do almirante Sertorius. Aquando do cerco do Porto comanda as baterias guarnecidas pelo pessoal dos navios. Depois da vitória liberal, por volta de 1836 vai para Angola onde se notabilizou no combate ao tráfico da escravatura, chegando a conquistar militarmente S. João Baptista de Ajudá, na altura um dos mais importantes entrepostos do tráfico de escravos. Como governador-geral de Angola, fez um notável trabalho administrativo e civilizador como até então o território nunca tinha visto. Foi ainda governador de Macau, onde parece ter morrido misteriosamente. 4 - Ordem do Colégio s/n de Agosto de 1829. 5 - Ordem do Colégio s/n de 29 de Julho de 1829.

D. Antão José Maria de Almada (94/1815) Obteve o curso de bacharelato em Matemática da Academia Real de Marinha, tendo ascendido ao posto de capitão. Há informação que tinha sido segundo tenente na Brigada Real da Marinha de D. Miguel, além de seu ajudante de ordens (ajudante-de-campo), recebendo dele a “medalha de ouro” a 27 de Maio de 1823. “Acompanhou sempre o senhor D. Miguel, sendo sempre o primeiro a aparecer em sua defesa, tomando parte muito activa na Guerra que se desencadeou”. Exerceu o cargo de mestre-sala da Casa Real e aparecia aos olhos da governação liberal como “rebelde”.

D. Nuno José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, Duque de Loulé (99/1815) Gentil-homem da Câmara de D. João VI e seu estribeiro-mor, 24.º senhor de Azambuja, 12.º de Póvoa de Meadas, e 14.º do morgado da Quarteira; general de divisão, par do reino, presidente da Câmara dos Pares, primeiro-ministro, ministro de Estado, deputado, conselheiro de Estado, etc. Alvo de grande hostilidade das forças absolutistas, que se agravou devido ao facto do então marquês de Loulé ter decidido apoiar D. Pedro IV na guerra civil. Por essa razão, exilou-se após a tomado do poder por D. Miguel e veio depois a participar ao lado dos liberais na Guerra Civil de 1827-34. Após a vitória liberal e a divisão política que se verificou nesse campo, foram criados dois partidos liberais, um mais conservador (cartistas) - o Partido Regenerador e outro mais liberal (vintistas/setembristas) - o Partido Progressista, depois chamado de Histórico. O então marquês de Loulé fundou e aderiu este último. Foi várias vezes ministro, da marinha, dos estrangeiros, etc. Finalmente em 1856 é nomeado por D. Pedro V para chefiar o ministério de um dos governos mais à esquerda desse tempo. Apesar de casado com uma tia da Rainha e ser fidalgo de grande prestígio na corte, o seu coração seguiu sempre a causa popular e progressista.


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Dos Antigos Alunos Os Antigos Alunos e a política

General José Paulino de Sá Carneiro (12/1824)

Major Manuel Joaquim Pinheiro Chagas (18/1853)

Liberal, em 1828 o seu regimento é internado e desarmado na Galiza, tendo conseguido fugir para a Terceira, onde se juntou a D. Pedro, vindo a fazer com este parte dos “bravos do Mindelo”. Herói durante o cerco do Porto, onde recebe uma Torre e Espada. Deputado às Cortes e par do reino. Director do Colégio Militar de 1871 a 1879. Foi ainda ajudante de campo de D. Luís.

Escritor e jornalista. Foi deputado pelo Partido Regenerador, ministro da Marinha e Ultramar (18831886), Par do Reino, conselheiro de Estado e secretário particular de D. Pedro V.

Coronel António Maria Barreiros Arrobas (23/1833)

Membro do Partido Regenerador, deputado às Cortes, Ministro da Guerra, Par do Reino e Director do Real Colégio Militar de 1898 a 1904. Condecorado com a Torre e Espada.

Governador de Cabo Verde e depois deputado pelo mesmo território. Foi deputado às Cortes durante várias legislaturas pelo círculo de Setúbal depois de 1871. Conselheiro e Par do Reino. Durante o tempo que esteve na Câmara dos Deputados, assumiu determinadas posições, nomeadamente: Cabo Verde deveria ser Ilha Adjacente e não colónia; as colónias portuguesas deveriam merecer outro tratamento mais igualitário da metrópole; atacou a prática da escravatura e o fim da deportação dos condenados para o ultramar.

D. Joaquim Tomás Lobo de Ávila (45/1833) No Colégio Militar foi laureado com os primeiros prémios e comandou, durante dois anos, o batalhão colegial. 1º Conde de Valbom, desde 1875. Oficial do Exército e engenheiro. Activista e líder da maçonaria, onde foi grão-mestre da Confederação Maçónica e depois fundador da Confederação Maçónica Progressista de Portugal. Anti-cabralista, alinha primeiro com os históricos e os progressistas (esquerda liberal), onde foi membro da unha negra, a extrema-esquerda do partido, mas acaba por passar-se para os regeneradores (conservadores liberais). Foi por várias vezes deputado e ministro. Chega a par do reino.

Marechal de Campo Salvador de Oliveira Pinto da França (101/1834) Deputado e secretário de Estado dos Negócios da Guerra e ministro de Estado do conselho de D. Luís.

Engenheiro João de Andrade Corvo (EXT/1836) Membro do Partido Regenerador, foi deputado (1865), ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria (1866), da Marinha e Ultramar (1872) e dos Negócios Estrangeiros (1871-1878).

General Francisco (39/1842)

Maria

da

Cunha

Membro do Partido Progressista, deputado e par do reino. Director do Real Colégio Militar de 1882 a 1890. Foi o 104º Governador-Geral da Índia de 1891 a 1892 e comandante da Escola de Guerra de 1895 a 1896. Condecorado com a Torre e Espada. Ajudante de Campo e chefe da Casa Militar de D. Carlos. Foi Vice-presidente da Câmara dos Pares.

General José Estêvão de Morais Sarmento (44/1854)

General Luís Augusto Pimentel Pinto (99/1854) Membro do Partido Regenerador, deputado, várias vezes ministro da Guerra e Ajudante de Campo de D. Carlos. Foi fundador da Associação Filantrópica dos Alunos do Real Colégio Militar (AFARCM), actual Associação dos Antigos Alunos do colégio Militar (AAACM).

General Sebastião de Sousa Dantas Baracho (69/1856) Deputado às Cortes pelo Partido Regenerador de 1881 a 1890, sempre foi conhecido pelo seu temperamento fogoso. É por essa razão, que no seu caso, resolver o assunto à espadeirada, não era uma figura de retórico, pois chegou a desafia para um duelo o Presidente do Conselho e o ministro da Guerra. Comissário Régio na delimitação da África Ocidental. Foi Par do Reino. Em 1893 D. Carlos nomeou-o seu Ajudante de Campo Honorário. Em 1902 insurge-se contra o facto da Câmara dos Pares ouvir o discurso de D. Carlos de pé, enquanto o monarca estava sentado, facto pelo qual foi castigado disciplinarmente. Durante os últimos anos da monarquia, fez nessa mesma Câmara dos Pares, cerradíssimos ataques à vida política do regime, os quais lhe valeram ser considerado inimigo das instituições monárquicas. Assim se compreende, que por volta de 1909, tenha pedido a exoneração de Ajudante de Campo Honorário de D. Manuel, que tinha continuado por morte de D. Carlos. Foi também um brilhante jornalista e polemista. Proclamada a República, adere ao novo regime, que defende e ajuda a consolidar. Foi presidente da comissão encarregue de rever a legislação criminal militar e presidente do Supremo Conselho de Justiça Militar. Mais tarde, desgostoso com as lutas dos partidos, afasta-se de vez da vida politica.

General Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo (94/1857) Herói das campanhas de África. Foi deputado, governador de Macau e embaixador na China, Japão e Reino do Sião. De 1900 a 1905 foi o 111º Vice-Rei da Índia Portuguesa. Depois de regressar a Portugal, foi ajudante de campo de D. Carlos. Ainda foi convidado para ministro da Guerra, cargo que nunca chegou a assumir por ter entretanto falecido.


Dos Antigos Alunos Os Antigos Alunos e a política

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REPÚBLICA A Monarquia estava exangue, sem credibilidade e totalmente incapaz de se renovar. Principalmente após o Ultimatum de 1891 e da bancarrota de 1892, o descrédito tornara-se cada vez mais generalizado. Para o sucesso do 5 de Outubro, que pôs fim à Monarquia Constitucional, contribuiu de forma clara, o comprometimento de todos os ramos das Forças Armadas e em particular da Marinha. Talvez por essa razão - uma quase unanimidade entre os militares - a implantação da República acabou por ter pouco impacte imediato no interior do Colégio. Creio mesmo, que de todas as grandes mudanças radicais ocorridas durante a nossa história colegial, esta foi aquela que, mais pacífica e tranquilamente, afectou a sua vida interna. Como disse o Costa Matos, aparte umas “coroas” e uns “erres” e a mudança de designação nos cabeçalhos dos impressos, a revolução passara sem molestar a vida dos colegiais ou causar danos na estrutura do Colégio.6 Alguns anos depois, «Assassinado Sidónio Pais a 14 de Dezembro de 1918, pouco mais de um mês depois, a 19 de Janeiro, o capitão Paiva Couceiro proclama no Porto a restauração da monarquia, sendo constituída uma Junta Governativa do Reino. São içadas bandeiras azuis e brancas em vários edifícios, toca-se o Hino da Carta e aclama-se o rei D. Manuel II e a monarquia. Foi aquilo que ficará conhecido como a «Monarquia do Norte», pois o movimento obtém também o reconhecimento das cidades do Minho, de Trás-os-Montes, de Lamego e de Viseu. Entretanto, a 22, forças monárquicas lideradas por Aires Ornelas (ex lugar-tenente de D. Manuel II) ocupam Monsanto e comunicam ao Porto o seu propósito de derrubar a República. No dia seguinte, forças militares e corpos de voluntários, respondendo a apelos do governo, insta-

lam-se na Rotunda e, após trocas de bombardeamentos, atacam Monsanto obrigando os monárquicos à rendição. Mas no Norte a revolta mantinha-se. É então que se assiste à segunda intervenção política colectiva de alunos do Colégio Militar. Nos fins de Janeiro, perante a situação, alguns alunos do 5.º. 6.º e 7.º ano do Colégio Militar decidem oferecer-se como voluntários, constituindo uma companhia de seis dezenas de colegiais a integrar nas forças militares em operações de defesa da República, no Norte do país. O facto é comunicado pelo director ao Ministro da Guerra, que, embora entendendo o fervor patriótico dos jovens alunos, procura esfriar o entusiasmo mandando expedir uma nota dirigida ao Colégio Militar com o seguinte texto: «S. Ex.ª o Ministro encarrega-me de dizer a V. Ex.ª que autoriza os alunos desse Colégio que constam da relação que acompanhou a nota confidencial n.º 219 de 28 de Janeiro p.p. a alistarem-se como desejam, desde que apresentem a V. Ex.ª a necessária autorização passada por escrito pelos respectivos pais.»7 Só que o ministro não contou com a determinação, o espírito de camaradagem e poder persuasivo dos alunos... e estes apresentaram mesmo ao director autorizações escritas e autenticadas, pelo que, nos termos da determinação ministerial, este viu-se na circunstância de os mandar apresentar com guia de marcha no Ministério da Guerra (Repartição de Operações) à medida que iam sendo recebidas as autorizações. Dezoito deles ainda seguiram a apresentar-se na Pampilhosa às Forças em Operações, só que o respectivo Comandante em Chefe ordenou a todos o regresso ao Colégio no dia imediato. Entre 15 e 17 de Fevereiro já toda a gente havia regressado à Luz e retomado tranquilamente os seus estudos.»8

Antigos Alunos que tiveram alguma notoriedade neste período Capitão-de-Mar-e-Guerra António Artur Baldaque da Silva (18/1864) Foi um engenheiro hidrógrafo e cientista, que logo na sua passagem pelo Colégio Militar, manifestou sempre um carácter rebelde e insubmisso, o que poderá justificar, de algum modo, que apesar de oriundo de uma família monárquica, embora de tradição liberal, Baldaque da Silva, tivesse desde muito novo convicções republicanas. Contudo, só após a sua passagem à reforma, em 1912, se decide a enveredar pela vida política activa. Apesar disso, logo no dia 6 de Outubro de 1910, de manhã, envergando a espada que o pai usara, aquando das Lutas Liberais, durante o cerco do Porto, apresenta-se ao novo ministro da Marinha, para se disponibilizar para tudo o que a República necessitasse. Membro do Partido Republicano Português, teve intensíssima actividade como conferencista, acabando por ser eleito para o Senado em 1915, ano em que faleceu.

General António Júlio da Costa Pereira D’Eça (73/1864) Combatente das campanhas de África e durante a Grande Guerra, em Angola. Republicano, combateu as incursões monárquicas após a implantação da República Portuguesa, período em que prestou relevantes serviços ao novo regime, por ter impedido o alastramento de actos de rebelião. A 9 de Fevereiro de 1914 foi nomeado ministro da Guerra.

Capitão-de-Mar-e-Guerra João Augusto de Fontes Pereira de Melo (52/1865) Numa altura em que as grandes potências davam os primeiros passos na experimentação de navios submarinos, apresenta em 1890, ao rei D. Carlos, um projecto de submarino para alçamento de torpedos. Após análise, por uma comissão de que faziam parte o Capitão-Tenente Ernesto Rosa (49/1861) e o Primeiro-Tenente Baldaque da Silva (18/1864), é lançado à água um protótipo em 1893, que apesar dos testes bem-sucedidos, não avança, por falta de verbas. Republicano, ligado à maçonaria e à carbonária, esteve na preparação do 5 de Outubro (pertencia à Comissão Militar Revolucionária), embora não tenha participado directamente na revolução.

6 - Matos, José Alberto da Costa, (2003). História do Colégio Militar, (Lisboa: Estado-Maior do ExércitoLisboa), 2º Volume, pág. 483. 7 - Arquivo Histórico do Colégio Militar. Nota n.º 211, de 4 de Fevereiro de 1919, da 4.ª Repartição da 1.º Direcção Geral da Secretaria da Guerra. 8 - Matos, José Alberto da Costa, in “Introdução Histórica”, “Quem é Quem II”.


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Dos Antigos Alunos Os Antigos Alunos e a política

Capitão-de-Fragata João Baptista Ferreira (48/1874) Valoroso combatente de África, condecorado com a Torre e Espada e promovido com distinção. Republicano, foi deputado após 1910. Um dos oficiais responsáveis pelos programas de reorganização da Armada.

General Alfredo Ernesto de Sá Cardoso (180/1874) Um dos grandes vultos da República. Participou no 31 de Janeiro de 1890 e no 28 de Janeiro de 1908. Integrou o comité militar da revolução do 5 de Outubro. Maçom do Grande Oriente Lusitano (GOL) desde 1893. Dirigente e presidente do Partido Republicano Português (PRP), funda conjuntamente com Álvaro de Castro (206/1890) o Partido Reconstituinte e depois a Acção Republicana. Anti-sidonista. Deputado em várias legislaturas, tendo presidido à Câmara dos Deputados em 1922. Presidente de ministério de 1919 a 1920 e ministro do Interior de 1919 a 1924. Com a Ditadura Militar, volta a ser preso e deportado para Cabo Verde e Açores. Regressou a Portugal, onde funda em 1934 a Aliança Republicana.

mente conspirado com a Carbonária, contra a monarquia. Após a revolução do 5 de Outubro, pediu a demissão da Marinha. Comanda então uma das colunas refugiadas na Galiza aquando da chamada segunda incursão monárquica de 1912.

Capitão-de-Mar-e-Guerra Alexandre José Botelho de Vasconcelos e Sá (89/1879) Médico. Foi um dos fundadores em 1917, do Partido Centrista Republicano (de Egas Moniz), o qual se veio a fundir mais tarde com os apoiantes de Sidónio Pais, no Partido Nacional Republicano.

Capitão João de Azevedo Lopo (220/1881) Combatente das campanhas de África e condecorado com a Torre e Espada. Monárquico, em 1910, após a instauração do novo regime, foi-lhe oferecido o lugar de governador de Lourenço Marques, que rejeitou por fidelidade à monarquia. Foi colocado em Cavalaria 7, em Almeida, donde desertou para Espanha. Tomou parte em várias incursões monárquicas no norte do país. Foi reintegrado no Exército em 1932.

Vice-Almirante António Ladislau Parreira (183/1883) Herói das campanhas de África e herói da República, foi condecorado, entre outras, com três graus da Torre e Espada. Republicano, muito ligado aos elementos civis da maçonaria e da carbonária, esteve na preparação do 5 de Outubro, onde desempenhou um papel muito activo na revolução, tendo sido um dos oficiais que colaborou mais de perto com o comandante Machado dos Santos. Foi ele que dirigiu as operações navais, por morte do almirante Cândido dos Reis, nomeadamente o assalto ao Corpo de Marinheiros e deu a ordem para bombardear o palácio das Necessidades, onde se encontrava D. Manuel II. Em abono do conceito de Honra, Cavalheirismo e Respeito pelo adversário, de Ladislau Parreira, refira-se a parte do relatório que faz, aquando do assalto ao Corpo de Marinheiros: “Termino este relatório, prestando uma homenagem de respeito ao almiProclamação da Junta Constitucional na varanda dos Paços do concelho de Lisboa em 1915, após a derrota da ditadura de Pimenta de Castro

Capitão-de-Fragata Jorge Fradesso de Salazar Moscozo (148/1876) Republicano, ligado à maçonaria e à carbonária, governador ultramarino, esteve na preparação do 5 de Outubro, embora também não tenha participado directamente na revolução.

Capitão-de-Mar-e-Guerra Joaquim Pedro Vieira Júdice Bicker (226/1876) Ministro da Marinha de 1920 a 1923. Foi o primeiro antigo aluno a assumir a pasta da Marinha.

Primeiro-Tenente Victor Pereira Leite da Gama Lobo de Sepúlveda (254/1878) Notável combatente das campanhas de África e governador ultramarino, foi condecorado com dois graus da Torre e Espada. Foi primeiro republicano e depois monárquico (palaciano de fresca data), foi mandado prender junto à Rotunda por Machado Santos, de quem era conhecido, por ambos terem anterior-

Levado em ombros pelos Drs. Malva do Vale e António José de Almeida

rante Pereira Viana (comandante do Corpo de Marinheiros), que ficou ferido por não acatar a minha intimação para depor a arma. Como resistisse e tivesse disparado dois tiros de revólver, foram também contra ele disparados alguns tiros. Foi fiel aos seus princípios e aos valores em que acreditava.” Conjuntamente com o pintor Columbano Bordalo Pinheiro, o jornalista


Dos Antigos Alunos Os Antigos Alunos e a política

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João Chagas, o escritor Abel Acácio de Almeida Botelho, o capitão de Artilharia José Afonso Pala, fez parte do grupo formado a 15 de Outubro de 1910, para criar uma nova bandeira para Portugal. Foi deputado constituinte e senador. Pertenceu ao Partido Unionista.

Partido Reconstituinte, ministro das Colónias, presidente do Ministério por duas vezes, Governador-Geral de Moçambique. Aquando do 28 de Maio, foi preso e internado em Elvas, donde conseguiu evadir-se, exilando-se em Paris.

General Ernesto Maria Vieira da Rocha (208/1884)

Coronel Francisco da Cunha Rego Chaves Alegro (166/1891)

Maçom, do Grande Oriente Lusitano (GOL). Ajudante de campo de D. Carlos de 1904 a 1905. Condecorado com a Torre e Espada. Após a implantação da República, combateu a sublevação monárquica de 1919 em Monsanto. Foi um político muito activo no período final da República, tendo sido ministro da Guerra por quatro vezes e das Colónias por duas. Depois do 28 de Maio, foi presidente do Supremo Tribunal Militar.

Membro do directório do Partido Democrático, deputado eleito em duas legislaturas, aderiu depois ao Partido Reconstituinte, pelo qual foi ministro das Finanças de 1919 a 1920. Foi ainda ministro das Colónias de 1921 a 1922 e Governador-geral de Angola. Depois do 28 de Maio de 1926, deixou a vida militar e foi professor no Liceu Camões.

Dr. Xavier da Silva Júnior (169/1889)

Capitão António Adalberto Sollari Alegro (79/1896)

Membro do Partido Republicano Português, foi ministro dos Negócios Estrangeiros e depois, membro do Partido Reconstituinte e deputado.

Monárquico, foi comissário-geral de Polícia no Porto, durante o sidonismo. Aquando da efémera implantação da Monarquia do Norte, foi ministro do Reino da Junta Governativa Provisória, presidida por Paiva Couceiro. Após a derrota desta revolta, exila-se em Espanha.

Major Álvaro Xavier de Castro (206/1890) Licenciado em direito, republicano, grão-mestre da maçonaria, participa nos movimentos conspirativos e revolucionários de Coimbra de 1908 a 1910. Foi deputado da Assembleia Constituinte de 1911, ministro da Justiça, ministro das Finanças, membro da junta que derrubou Pimenta de Castro, anti-sidonista, fundou o

Major Humberto D’Athayde Ramos de Oliveira (154/1899) Republicano, participa nos movimentos para a instauração da República. Combateu em França, no C.E.P., onde foi várias vezes ferido e foi promovido a major a título póstumo.

Dada a sua extensão, concluiremos no próximo número a segunda parte deste artigo, cobrindo as épocas da ditadura Nacional/Estado Novo e do 25 de Abril/Democracia. Peço por isso a vossa paciência e que aguardem pelo próximo número da revista, pois o seu necessário julgamento crítico só fará sentido com o artigo completo.

ANTIGO ALUNO USA A BARRETINA


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Dos Antigos Alunos Entrevista a Francisco Medeiros de Almeida

Entrevista conduzida por João Carlos Agostinho Alves (110/1996)

Entrevista a

Francisco Marques da Cunha Medeiros de Almeida (496/1996) Francisco Lúcio Marques da Cunha Medeiros de Almeida entrou para o Colégio em 1996 com o número 496. Completou o curso no Colégio em 2004, ingressando nessa altura do Instituto Superior Técnico de onde se formou em Engenharia Aeroespacial, concluindo simultaneamente o mestrado em Engenharia Electrotécnica na SUPAERO, França. Durante o seu percurso conquistou vários prémios, sendo actualmente responsável no Magrebe pelos negócios de uma multinacional portuguesa.

ZacatraZ - Entraste para o Colégio em 1996, vindo de uma família de antigos e actuais (à data) alunos. Foi isso que te levou para o Colégio? Francisco Medeiros de Almeida - Pode-se dizer que sim. Na realidade eu, como quase todos alunos que entram no Colégio aos 10 anos, fi-lo por indicação dos pais. Além disso, quando entrei no Colégio o meu irmão já lá estudava, pelo que foi um processo natural e bastante tranquilo. Como dizes, a minha família tem vários antigos alunos (pai, tios, irmão, …) pelo que a minha ida para o colégio foi algo já esperado, nomeadamente por mim. ZacatraZ - Como descreverias os teus anos de Colégio? Que memórias guardas? Francisco Medeiros de Almeida - Os meus tempos no colégio foram felizes. Paradoxalmente, se pensarmos que se trata de um colégio interno (com um internato ligeiro diga-se, mas um internato), o que mais me agradou na minha vida colegial foi a liberdade. Refiro-me à liberdade de ter as comodidades que o colégio dispo-


Dos Antigos Alunos Entrevista a Francisco Medeiros de Almeida

nibiliza (espaços livres, desportos, …) a cinco minutos de distância e poder controlar a minha vida e o meu tempo (principalmente quando se atingem aos últimos anos). Este conforto seria dificilmente replicável noutro sítio e proporcionava-me uma boa qualidade de vida. Para além disto, por personalidade, sou extrovertido e animado e vivo bem numa comunidade como a do colégio.

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largos meses como investigador numa fábrica de motores de foguetões perto de Paris e participei em vários trabalhos na área aeronáutica e de controlo de drones, que é a minha área de especialização.

Francisco Medeiros de Almeida - Neste momento sou o responsável no Magrebe por um dos negócios de uma conhecida multinacional portuguesa, em plena fase de internacionalização neste mercado. Isso

ZacatraZ - Em 2010 foste um dos finalistas do prémio Primus Inter Pares e conquistaste um dos prémios. Este momento marcou uma mudança de sentido de carreira? Dirias que te abriu outras portas?

é um desafio galáctico, que não me deixa tempo para nada. Neste momento a minha preocupação é que atinjamos os resultados a que nos propusemos. Temos várias pessoas que trabalham comigo que dependem disso e temos operações em curso nesse mercado que nos exigem a maior atenção. Felizmente temos já cerca de 15 milhões de euros em encomendas nestes dois anos e temos perspectivas de crescer.

ZacatraZ - Terminaste o último ano em grande destaque, particularmente em Matemática e Física. Lembro-me de te apanharmos com frequência a escrevinhar equações no calisto, num guardanapo ou folhas soltas. Foi o revelar de uma paixão? Francisco Medeiros de Almeida - Paixão é uma palavra forte. De facto sempre tive alguma facilidade com as ciências exactas. Todos nós temos coisas em que somos um pouco melhores e eu era razoável a lidar com as disciplinas mais científicas. Devo no entanto dizer que só há um segredo para ter bons resultados, que é trabalhar. Era o que eu fazia. ZacatraZ - Depois do Colégio, entraste no Instituto Superior Técnico e depois rumaste a França. Como foi esta fase? Francisco Medeiros de Almeida - Como disseste, depois do colégio fui para o técnico, para engenharia aeroespacial. Nessa altura o técnico tinha um acordo com a SUPAERO, uma escola de engenharia francesa, em que alguns alunos do curso podiam frequentar o “diplôme d’ingenieur”. Foi assim que tirei o meu curso em França. O meu percurso universitário foi uma fase particularmente feliz na óptica da realização pessoal. A minha passagem pelo técnico, especialmente nos primeiros anos, foi um período extraordinariamente intenso em termos de trabalho, mas esse esforço revelou-se frutífero pelos resultados que fui obtendo e que foram absolutamente cruciais para tudo o que fiz a partir daí. Na verdade toda esta fase académica foi bastante enriquecedora e intensa. Durante os cinco anos do curso fiz o double degree técnico-SUPAERO, um master degree em Engenharia Electrotécnica, estive

Francisco Medeiros de Almeida - De facto o PPIP é um prémio com enorme visibilidade organizado por empresas privadas e selecciona aqueles que, pela avaliação feita por essas entidades, são os melhores finalistas universitários em engenharia, economia e gestão do país. Não se pode dizer que tenha mudado o meu projecto de carreira. De resto, o meu trabalho é o mesmo que tinha à data. Claro que a visibilidade que o prémio dá é sempre um catalisador para o desenvolvimento profissional de quem quer que o receba. Em relação a abrir portas, pelo menos abriu a porta do MBA que farei, já que esse é na prática o prémio! No final de contas é um enorme reconhecimento do trabalho que fiz e é também resultado de alguma sorte, que nestas coisas é essencial. Na altura em que recebi o PPIP tinha já dois diplomas de mérito do técnico e dois prémios CGD. Digamos que o PPIP foi um final feliz do percurso que tinha feito até há data. ZacatraZ - Actualmente, que desafios profissionais enfrentas?

ZacatraZ - Que projectos fazes para o futuro? Francisco Medeiros de Almeida - Em termos profissionais, os desafios futuros são consolidar a nossa participação nestes países e estabilizar as equipas que trabalham connosco. Para o futuro imediato passam por continuar a expandir as nossas actividades para o Maxerreque e para o golfo, já que com o acalmar das revoltas árabes, os países do oriente árabe estão paulatinamente a estabilizar e poderemos em breve posicionar-nos nesses mercados. Estarei ocupado com estas actividades por mais 2 anos pelo menos, nessa altura irei provavelmente demitir-me para fazer o MBA no IE em Madrid. A partir daí o futuro dirá…


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Dos Antigos Alunos Curso de 1937/1944

Curso de 1937/1944, Romagem dos 75 anos de Entrada 4 de Maio de 2012

O Regresso dos Dinossauros No passado dia 4 de Maio juntou-se no Colégio grande número dos sobreviventes do curso (problemas de saúde – dos próprios ou de familiares - motivaram a não comparência dos restantes). Consideramos como pertencendo ao curso todos os que por ele passaram, quer os de “origem”, que entraram directamente, quer os “paraquedistas” (vindos de cursos anteriores) que nele se vieram integrar. 110 Alunos, 23 encontram-se entre nós (20,9%) e 13 estiveram presentes (11,8%) nesta romagem de saudade. Foi um dia de alegre convívio, pois muitos já não se viam há vários anos. Tivemos mais uma vez o inefável prazer de ter connosco o 69/1938, Vasco Raposo, que veio dos EUA, propositadamente para a comemoração dos 75 anos de entrada no Colégio. Foi com um sentimento de saudade e comoção que visitámos as instalações, descerrámos a lápide, participámos na celebração da Eucaristia pelos nossos mortos (alunos, professores e demais servidores do Colégio) e assistimos ao desfile do Batalhão Colegial.


Dos Antigos Alunos Curso de 1937/1944

É normal “a velhada” dizer que no “nosso tempo” as “coisas” eram melhores; desta vez, tal não sucedeu. Achámos que o Colégio está muito melhor, e impressionou-nos o garbo e rigor militar com que os alunos desfilaram perante nós. Obviamente, relembrámos que, no nosso tempo de alunos, estas cerimónias eram um “frete”. Tínhamos de “gramar” uns velhinhos que, depois de nos perguntarem o número, dissertavam sobre os seus contemporâneos, nossos antecessores. Claro que desta vez sucedeu exactamente o mesmo…… Li algures uma frase, que transcrevo para os mais novos: A VELHICE É O TRIBUTO QUE SE PAGA POR NÃO MORRER NOVO. É verdade que agora é mais fácil morrer novo: a droga, a sida e uma vida desregrada actualmente tão acessível, dão uma boa ajuda.

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PRESENÇAS 13/1939 69/1938 75/1937 79/1937 87/1938 133/1938 137/1939 142/1938 182/1937 218/1936 238/1937 327/1937 376/1938

Francisco josé Martins Ferreira Vasco Gonçalves Raposo José Manuel Marinho Falcão João Maria da Costa Faria de Araújo Alberto Mendes Quadros Álvaro Augusto Fonseca Sabbo Luís Eduardo Soares de Oliveira João Carlos Oudinot Larcher Nunes João António Piano Martins Vasco de Almeida Valdez Bandeira Álvaro Manuel de Vilares Cepeda José da Paz Olímpio Manuel Francisco Dias Pereira do Vale

© Fotos Leonel Tomaz

Para os actuais alunos só desejamos que, tal como nós, beneficiem da vossa estada no Colégio, e venham comemorar mais do que 75 anos de entrada (e obviamente “chagar” os alunos dessa altura com as mesmas lamechices). Agradecemos à Direcção do Colégio a solenidade e amizade com que nos recebeu e aos actuais alunos o fazerem-nos vibrar de emoção (e uma lágrima rebelde a assomar…) com o vosso impecável desfile. Que dizer do Colégio Militar que imprime aos seus alunos uma “marca” indelével que os torna irmãos para toda a vida?

Sempre que dois antigos alunos (não gosto de ex-alunos; não somos, nem nunca seremos ex-alunos!) se encontram, cumprimentam-se e conversam, sem se olhar a diferenças de idade, posição social, etc. Obrigado Colégio Militar por, certamente pela última vez, teres dado a uns “dinossauros” rondando os 86 anos de idade, a alegria de nos sentimos de novo integrados no Batalhão Colegial. Álvaro Augusto da Fonseca Sabbo 133/1938 Ajudante do Comandante do Batalhão


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Dos Antigos Alunos Curso de 1947/1954

Curso de 1947/1954, Romagem dos 65 anos de Entrada 20 de Abril de 2012 Estiveram presentes: Pedro Manuel de Vasconcelos Caeiro (14), Carlos José Sanches Vaz Pardal (100), Jorge Maria Lemos Pereira Máximo (101), João Manuel Soares de Almeida Viana (107), António Manuel Bispo da Silva Caio (109), Fausto Morais Brito e Abreu (141), Luís Joel Alves de Azevedo Pascoal (145), António Henrique Trigo Perestrelo da Silva (202), Nuno Rui da Fonseca Santos Pinheiro (249), Joaquim Manuel Trigo Mira Mensurado (252), João Augusto de Oliveira Ayala Botto (254), José de Oliveira Tojal (273), José Francisco Teles Pereira da Rosa (280), Humberto Jorge Mota Nogueira (292), Manuel Luís de Sena e Silva (293), Francisco Manuel Alcântara Mota Ferreira (307), Fernando José Pinheiro Alçada (309), João Manuel Ribeiro da Fonseca Calixto (314), Jorge Alberto Gabriel Teixeira (315), José Baptista Pereira (318), José Fernando Oliveira Vilar Saraiva (320), José Manuel Lameira Machado Faria (324), Ruy Eduardo Anselmo Oliveira Soares (332), José Carlos Lobato de Faria Roncon (333), Joaquim Guilherme Pignatelli Galvão Videira (377).

Associaram-se à romagem mas não puderam comparecer: Manuel Mário de Oliveira de Seixas Serra (30), Luís Alberto de Oliveira Marinho Falcão (35), Joaquim Vito Corte Real Negrão (146), Joaquim António Baptista Anão (250) e Rui Gonçalves Soeiro Cidraes (334).

Na sessão de cumprimentos ao Director do Colégio, o Jorge Alberto Gabriel Teixeira (315), em nome do Curso disse: “Senhor Director do Colégio Militar, meu Coronel, Prezados Camaradas de Curso. Por razões que a razão desconhece, como se costuma dizer a propósito de amores e paixões, entendeu o curso, através do 254, Ayala Botto - o incansável organizador destas reuniões - que deveria ser eu, mais uma vez, a dizer algumas palavras alusivas a este tão significativo encontro. Meu Coronel, embora eu o conheça há Já longos anos, e o considere e estime como amigo,

devo dizer-lhe que não foi esse o factor que conduziu à minha nomeação; mas tenho que reconhecer que ele virá a meu favor. Mais fácil será perdoar-me as impertinências ou os resmungos, infelizmente já tão próprios da nossa idade! As minhas primeiras palavras não poderão deixar de ser de agradecimento. Agradecimento ao Colégio, e, em particular à sua Direcção e ao seu Director, por permitirem este nosso convívio, por manterem uma tradição que significa, de uma maneira extraordinariamente viva, o que representa o espírito colegial e o amor de todos aqueles que um dia o frequentaram. O que, fundamentalmente, trás um curso de novo ao Colégio é a saudade. Saudade dos lugares, de todos os que então conhecemos, das diabruras que nos encheram os tempos livres - e, quantas vezes, também os que não eram assim tão livres! - mas, sobretudo, da instituição que foi o esteio da nossa formação de homens! Se nunca será possível agradecer tal dádiva condignamente, ao menos que a nossa continuada presença entre estas paredes possa representar a nossa enorme gratidão. E porque falámos de todos os que então conhecemos, não podemos deixar de recordar aqui e agora, todos aqueles - e, infelizmente, já são tantos! - que já nos deixaram. Embora de alegria, estas reuniões têm, cada vez mais alargado, o seu momento de tristeza. E nesta nossa tristeza abrangemos os nossos camaradas de curso, e também - e com grande reconhecimento - todos os que, no nosso tempo, serviram o Colégio, e, em particular, os professores, pois eles foram, sem sombra de dúvida, quem muito nos ajudou a trilhar o caminho do saber.


Dos Antigos Alunos Curso de 1955/1962

Meu Coronel, se é verdade que o que nos trás ao Colégio é fundamentalmente a saudade, também é verdade que, na nossa condição de antigos alunos, nunca deixamos de olhar o que, sucessivamente, vamos vendo portas adentro. Como eu também referi, em visita anterior, ao seu antecessor, somos como que uma espécie de inspectores informais... ainda que sem qualquer capacidade de influenciar o que quer que seja. Aliás, para isso - e o meu Coronel bem o sabe - existe a nossa Associação. Perdoe-nos este atrevimento, mas o amor que votamos ao nosso Colégio, tal como os outros amores, tem razões que a razão desconhece! Mas creia que bem sabemos o que vai por esse mundo fora, e, em particular, por este jardim à beira-mar plantado. A sociedade está doente, quase tudo em que acreditávamos está posto em causa, há uma inversão de valores ou, no mínimo, uma ausência deles, o futuro parece bem negro! E, por muito que isso nos custe, o Colégio não está livre da infecção, pois é parte do corpo doente! Isto para lhe dizer, meu Coronel, que bem conhecemos o pesadíssimo fardo que tem sobre os seus ombros. Por razões ligadas ao facto de ser membro de um órgão da AAACM e, não menos importante, ter um neto no Colégio, conheço com algum detalhe os problemas com que ele se confronta. E

também o modo como todos os seus elementos, e, em particular a sua Direcção e o seu Director, se batem para os resolver. Meu Coronel, eu sei bem o que pensa sobre o seu papel, conheço bem o modo como, não sendo antigo aluno, soube interpretar o espírito colegial, sentir os seus problemas, bater-se pela sua resolução, como se um de nós se tratasse. Também sei bem que isso, em si, apenas representa o modo como encara o seu dever, o sentido de missão que tem colocado em todas as tarefas e responsabilidades que lhe têm sido atribuídas. Mas acredito que, para além desse comportamento profissional, já tem mais qualquer coisa dentro de si que eu considero já um verdadeiro amor ao Colégio e aos valores que nele se cultivam. Daí que, mesmo angustiados por uma avalanche de situações que não entendemos, de ataques incompreensíveis, de dificuldades acrescidas, tenhamos fé no futuro do nosso Colégio porque o sabemos em boas mãos. Uma última palavra para lhe dizer que nós, como antigos alunos, e em complemento da acção da nossa AAACM, estamos inteiramente ao dispor do Colégio para, através do nosso humilde mas sincero contributo, o ajudar a ultrapassar os obstáculos que teimam em colocar-lhe no caminho e, assim, contribuir para que ele continue a ser o motivo do nosso orgulho e, garantia do seu prestígio.

Curso de 1955/1962, Romagem dos 50 anos de Saída 11 de Maio de 2012

© Fotos Leonel Tomaz

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Dos Antigos Alunos Curso de 1955/1962

No passado dia 11 de Maio, reuniu-se no Colégio o curso de 1955-1962, para aí celebrar os 50 anos de saída do Colégio. Tendo eu entrado para o 3º ano em 1957, passei a integrar este curso, com o qual fiz todo o meu percurso colegial, até à saída em 1962. Como é óbvio, considero que foi um grande curso, que teve porém uma vida algo atribulada no Colégio. Os «ratas» de 1955, mais os que entraram para o curso ingressando no Colégio nos 2º e 3º anos penso que seriam mais de 100, tendo sido dizimados por uma série de chumbos, chegando incólumes ao 7º ano apenas cerca de uma vintena, à qual se juntava outra vintena de elementos do curso anterior ao nosso, que resolveram ao longo dos anos «optar» por se integrarem no nosso curso. Das quatro dezenas de finalistas só cerca de vinte terminaram o curso no Colégio, devido à «greve da fome» de 1962, que nada teve a ver com a chamada «crise académica», também de 1962. As comemorações levadas a cabo no Colégio revestiram o figurino habitual, tendo começado com a concentração do pessoal no átrio principal, sob o olhar austero do nosso «Marechal», habituado a uma vida de sossego e não a algazarras e efusões festivas ruidosas como as que ocorreram. No átrio cada um esportulou a quantia de 30 euros, destinada a pagar todas as despesas das comemorações, sendo em compensação presenteado com um CD de fotografias do nosso tempo, preparado pela Associação, e com um DVD com um «powerpoint» feito a partir dessas fotografias, acompanhados por colecções de fotografias das três turmas do 4º ano, preparadas com fotografias que nos tinham sido há anos cedidas pelo nosso oficial comandante de companhia nesse ano, o então Capitão Cepeda, que se encontra de boa saúde, mas que desta vez não nos acompanhou por estar de viagem no estrangeiro. Do átrio principal seguimos para a Biblioteca, onde apresentámos cumprimentos ao Exmo. Director do Colégio. O discurso da praxe ficou a meu cargo, por ter tido de substituir de emergência o 437 Rui Pires, que era quem tinha essa incumbência. Apresento em seguida o discurso que proferi, em que procurei seguir os tópicos que me foram dados pelo próprio 437: “50 ANOS DE SAIDA DO COLÉGIO Estava previsto que fosse o nosso camarada de curso nº 437 Rui Pires, comandante da 2ª Companhia no nosso ano de finalistas, que estivesse aqui no meu lugar, a usar da palavra, em nome de todo o curso. Ele veio na semana passada de propósito do Canadá para o fazer, mas teve de regressar, já esta semana, inopinadamente ao Canadá, para resolver um assunto pessoal inadiável. Até agora nunca tinha faltado aos nossos encontros aqui no Colégio e ficou extremamente decepcionado e triste, por não nos poder acompanhar nesta ocasião. Coube-me a mim substitui-lo de emergência e procurarei transmitir a todos, aquilo que me disse que pretendia expressar. De qualquer forma, consideramos que ele está presente nesta comemoração, pois temo-lo nos nossos espíritos e sabemos que ele também está aqui em espírito entre nós. Começo por saudar V. Ex.ª Senhor Director, em nome de todo o curso, e por lhe expressar o nosso reconhecimento por nos ter franqueado as portas deste Colégio, ao qual consideramos que continuamos a pertencer, para podermos recordar aquilo que foi a nossa vivência aqui, já lá vai mais de meio século. Confesso pessoalmente que me sinto perplexo, sem perceber bem como foi possível já se terem passado 50 anos após a nossa saída do Colégio, tão frescas são ainda as memórias que guardamos dos tempos que aqui passámos. Mas a realidade é de facto esta e temos de a aceitar alegremente. Estamos vivos, estamos jovens de espírito e isso é o essencial. Os tempos que aqui passámos no Colégio foram ricos em acontecimentos marcantes a nível nacional ou a nível da vida colegial, que ainda hoje recordamos com nitidez. - No nosso 2º ano marchámos pela primeira vez no Terreiro do Paço na grande parada de recepção à então jovem rainha Isabel II de Inglaterra. - No nosso 3º ano vivemos as eleições presidenciais de 1958, com a participação do General Humberto Delgado, antigo aluno do Colégio, que constituíram um rude golpe no regime salazarista. Neste ano formou-se uma classe especial de ginástica do Colégio

PRESENÇAS 5

Eduardo Solano d’ Almeida

14

José Manuel Sacadura

52

Luís Filipe Almeida

71

Luís Barbosa

73

José Luís Bessa

77

Luís Mena

100

António Latino Tavares

101

José Trindade

107

Álvaro Neto

111

Sebastião Garcia

155

Henrique Dias

186

Pedro Moreira

203

João Carlos Pinheiro

211

Carlos Baptista

219

Júlio Faria

227

Ernesto Durão

251

Carlos Canelhas

261

João Brandão

254

José Cunha Lima

262

Manuel Almeida

265

Francisco Paulino

274

Mário Tavares

275

Mário Pereira

278

João Pedro Cabral

288

João Matos Silva

292

Manuel Pereira

320

Nuno Calhau

333

Mário Roncon Santos

335

João Bandeira Ennes

338

José Manuel Carrelhas

351

Armando Martins

353

Manuel Gomes Pereira

368

José Manuel Carvalho

379

José Fernando Coelho

416

José Mª Correia de Barros

420

Joaquim Sá das Neves

421

José Luís Viegas

423

Manuel Menezes

429

Fernando Azevedo

407

Pedro Costa Maya


Dos Antigos Alunos Curso de 1955/1962

que teve logo a sua internacionalização com uma actuação na Feira Mundial de Bruxelas. - No nosso 4º ano inaugurou-se o grande edifício do «Colégio Novo», marchámos de novo no Terreiro do Paço na recepção ao Imperador da Etiópia Hailé Selassié, os alunos finalistas foram em memorável missão à Índia Portuguesa e foi criada, no final do ano, a nossa Escolta a Cavalo. - No nosso 5º ano os alunos finalistas foram ao Brasil e fomos pela primeira vez visitados pelos alunos do Colégio Militar do Rio de Janeiro, que connosco desfilaram no 3 de Março pela Avenida da Liberdade. O nosso curso «internacionalizou-se» neste ano com uma viagem de estudo a Badajoz. - No nosso 6º ano iniciou-se a guerra de África. Começaram a ser mobilizados para a guerra os pais de muitos alunos, vários professores do Colégio e muitos antigos alunos. Começaram as baixas de antigos alunos na guerra, das quais a primeira foi a do Tenente Cabeleira Filipe, antigo aluno nº 98 de 1945, antecessor de um elemento do nosso curso. - Na transição do nosso 6º para o7º ano, dá-se a perda da possessão portuguesa do forte de São João Baptista de Ajudá. - No nosso 7º ano continua a guerra de África, com mais mobilizações e baixas de professores e antigos alunos e dá-se a invasão da Índia portuguesa, onde se encontravam familiares de alunos, muitos antigos alunos e antigos professores do Colégio, que aí ficaram prisioneiros. O ano concluiu-se com a inauguração do novo edifício do picadeiro no Colégio. Com tanta ou maior nitidez do que estes factos, guardamos porém a recordação da nossa vivência diária aqui no Colégio e dos fortes laços de camaradagem que entre nós desenvolvemos. Saídos do Colégio, cada um seguiu o seu destino, tendo o destino de muitos passado por uma ou mais comissões na guerra em África, servindo na Marinha, no Exército ou na Força Aérea. Passado esse período, desenvolvemos as nossas carreiras profissionais e constituímos família, mas sempre marcados pela nossa

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vivência no Colégio que nunca esquecemos. As nossas memórias foram-se encarregando de realçar cada vez mais os bons momentos passados e de esbater as recordações dos momentos menos bons. Assim sendo, voltámos naturalmente ao Colégio para comemorar os 25 anos de saída, os 40 anos de saída, os 50 anos de entrada e agora os 50 anos de saída. Nos últimos anos produziu este nosso curso uma quantidade assinalável de reformados, pelo que já nos foi possível estabelecer uma prática de encontros mensais, de modo informal, de acordos com a disponibilidade de cada um, que é agora muita. Passados todos estes anos e vivida, por assim dizer, toda uma vida, em que tivemos oportunidade de conviver e trabalhar com imensas pessoas, concluímos que os melhores e mais fiáveis amigos com que podemos contar são, em grande parte, os nossos camaradas do Colégio. O tempo fez assim a sua obra, transformando a nossa camaradagem em forte amizade. As provas dessa amizade fomos recebendo uns dos outros ao longo dos anos e cada um as guarda no seu coração. No nosso coração guardamos todos também a recordação e a saudade dos nossos camaradas e amigos, que por terem falecido, já não estão hoje entre nós. São infelizmente já muitos os que nos deixaram e só soubemos do falecimento de alguns deles ao fazermos a convocação para este encontro. De entre todos os que nos deixaram lembramos sempre, com particular emoção, os três que tombaram em campanha em África, em plena juventude. Foram eles o 205 Manuel Salgueiro Lopes, o 283 Raul Couvreur e o 408 Miguel Silvério Marques. Como disse, de todos guardamos a recordação e enquanto assim for, não estarão mortos para nós. Finalizo Senhor Director esta intervenção, desejando a V.Ex.ª as maiores felicidades no desempenho das suas actuais funções e fazendo votos para que o Colégio continue, por muitos anos e bons, a sua acção educadora, que tantos homens de bem e de carácter tem dado a Portugal.” No final do discurso o Exmo. Director dirigiu-nos algumas palavras de boas vindas ao Colégio, ao que se seguiu a assinatura do Livro de Honra pelos elementos do curso. Dado o Largo da Luz estar em obras, sendo impraticável o acesso ao monumento ao Colégio aí existente, apenas foi depositada uma coroa de flores no átrio principal junto ao busto do Fundador. Acompanharam o Exmo. Director nessa deposição o 100 António Latino Tavares e o 101 José Trindade, membros da «auto nomeada» comissão organizadora do evento. Na ocasião o 101 recordou-nos que o busto do Fundador foi inaugurado no longínquo ano de 1903, na presença de El-Rei D. Carlos, por ocasião do primeiro centenário do Colégio. Pediu-nos de seguida um minuto de silêncio em memória dos três elementos do nosso curso que tombaram na guerra do Ultramar, o que foi respeitado. Seguiu-se a missa na capela colegial, onde de novo foram recordados os nossos mortos.


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Dos Antigos Alunos Curso de 1955/1962

Após a missa, fizemos uma visita ao nosso Museu, onde recordámos os nossos tempos no Colégio. Notei que já se encontra no Museu uma fotografia do nosso barbeiro no Colégio, o inesquecível Ramalho, que nas questões de «barba e cabelo» não tinha quem lhe levasse a palma. Não vou falar do seu indefectível benfiquismo. Do Museu voltámos para os Claustros, onde se nos vieram juntar os nossos sucessores, já era quase uma da tarde. Esta hora tardia e algo estranha para nós, pois no nosso tempo ao meio dia e meia já estávamos a avançar para o almoço, presumo que resultará da antipedagógica prática imposta pelo Ministério da Educação de aulas de hora e meia de duração. Longe vão os tempos em que o Ministério do Exército mandava, de acordo com o que era adequado para o Colégio. O encontro com os sucessores foi muito breve. Acompanharam-nos no descerramento da lápide comemorativa de mais esta nossa romagem ao Colégio, acto protagonizado pelo nosso Comandante de Batalhão, o 288 Matos Silva, que foi «acolitado» pelo actual Comandante de Batalhão e pelo actual «Batalhãozinho». Dos Claustros seguimos rapidamente para a «Enferma», para as fotografias da praxe. Quando tirámos a fotografia só dos antigos alunos lá tivemos de cravar os barretes aos nossos sucessores, para podermos disfarçar um pouco as nossas carecas ou as nossas cãs. Da «Enferma» passámos à Parada do Corpo de Alunos, para aí assistir ao desfile do Batalhão. O desfile foi antecedido de uma breve cerimónia de entrega ao Colégio de uma espada de Toledo, que recebi no final do meu curso na Academia Militar e que constituía o prémio «Alcazar de Toledo», instituído pelo governo espanhol. Com a anuência da Exma. Direcção tive o prazer e o privilégio de poder fazer uma breve alocução ao Batalhão, a qual é reproduzida em espaço separado desta revista. O desfile do Batalhão encheu-nos as medidas, tal foi o aprumo e o garbo com que marchou. O que nos deixou preocupados foi a dimensão do Batalhão, que tem vindo a diminuir ao longo dos últimos anos. É urgente inverter esta tendência, o que é fácil de dizer, mas muito difícil de realizar.

No Refeitório fomos saudados por um vibrante Zacatraz gritado por todo o Batalhão, ao qual respondemos de imediato com um não menos gritado Zacatraz pelo Colégio, no que fomos espontaneamente acompanhados pelo Batalhão. O almoço decorreu em alegre convívio e de acordo com a usança militar do nosso tempo podemos afirmar que estava «bom, abundante e bem confeccionado». Terminado o almoço dirigimo-nos ao designado bosque Teixeira Rebelo, para aí plantarmos uma árvore que testemunhará para a posteridade a nossa romagem ao Colégio. Como seria de esperar, nomeámos logo no local os dois responsáveis pela plantação, que foram os engenheiros agrónomos do nosso curso, o 288 Matos Silva e o 416 Correia de Barros. O 288 tomou a dianteira, pendurou o casaco numa árvore, agarrou na enxada e demonstrou-nos como se amanha a terra lá na sua quinta. O 416, mais na defensiva e mais comedido deixou-o trabalhar e no fim, com ar de catedrático, despejou um balde de água no pé de oliveira recém plantado. Seguiu-se uma discussão entre ambos, pois não conseguiam chegar a acordo quanto à quantidade de água a usar. Os restantes presentes nada opinaram, para não meterem a foice em seara alheia. Concluída a actividade agrária fomos de novo para os Claustros, para tomarmos umas bicas bem tiradas na Sala de Oficiais e darmos mais dois dedos de conversa, a qual teve de ser curta, pois ainda nos aguardava mais trabalho a fazer, desta vez no anfiteatro. No anfiteatro tivemos a oportunidade de ouvir do Exmo. Subdirector uma exposição informal relativa aos problemas do Colégio nos dias de hoje, bem diferentes dos do nosso tempo, e às ideias que estão a ser trabalhadas para se conseguir aumentar o número de candidaturas à admissão no Colégio. Para finalizar os trabalhos procedeu-se à apresentação do «powerpoint» preparado com fotografias e textos do nosso tempo no Colégio. As fotos cobriam desde um grupo de ratas em 1955 até à festa de encerramento do ano lectivo em 1962,incluindo os mais variados acontecimentos da nossa vida colegial. Os textos relatavam as nossas façanhas desportivas nos Campeonatos da Mocidade (mais conhecidos como os campeonatos da «bufa») e incluíam poemas da autoria do 278 Jorge Cabral e do 346 Manuel Andrade. O 278 leu-nos os dois poemas e lá tivemos de reconhecer, mais uma vez, o seu virtuosismo nesta matéria. Quem sabe nunca esquece. Terminada a sessão no anfiteatro, já ia a tarde adiantada, foi o «adeus e até à próxima». Os mais resistentes resolveram porém continuar e foram para uma jantarada num restaurante de Alcântara. Sobre esse jantar nada posso dizer, pois já não tive pernas para os acompanhar. Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957


Dos Antigos Alunos Curso de 1955/1962

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Há 10 anos na romagem dos 40 anos de saída do Curso de 1955-1962 Palavras proferidas por ANTÓNIO MÁRIO LEITÃO PINHEIRO DE GUSMÃO NOGUEIRA (315/1954) que, infelizmente, já não esteve presente nos 50 Anos e que se reproduzem e registam pelo brilhantismo da prosa e pelas verdades e princípios que encerram.

«É com grande prazer que nos vemos uns aos outros após quarenta anos de termos deixado de nos vermos diariamente. Agradecemos a V. Ex.ª, Senhor Subdirector e também ao Senhor General Director, aqui presente, mas misturado entre nós, a possibilidade que nos dão de no interior do Colégio lembrarmos velhos tempos, os tempos da nossa juventude e da nossa formação como homens.»

Constituímos uma família que logo se apresenta ao «Rata», vinculando-se pelo «Tu» do tratamento generalizado desde o primeiro instante em que se enverga a farda cor de pinhão. Esse Tu é simbólico, transcende desmedidamente o significado vulgar. Traduz a confiança, é o mensageiro das boas vindas, o arauto da camaradagem. Vem a dizer que seremos amigos como irmãos, e que o viver do conjunto satisfará as normas correctas e subordinando a todos. Esse Tu exprime claramente a igualdade dos «Ratas» e dos «Refractários» perante os direitos e obrigações dos princípios, sãos e viris, que imperam tradicionalmente nos claustros. É sinónimo de mútuo e desinteressado auxilio nas horas graves, mas implicando que cada um assuma as responsabilidades do que fez provocando, por isso, a criação da responsabilidade. O «Rata» vai perdendo receios, vai criando brio pessoal e tomando aprumo de posição e atitudes, adquire a noção e o gosto das responsabilidades. O menino da Luz,

sem os auxílios diversos de que tantos rapazes dispõem noutros meios, tem de possuir qualidades de trabalho e discernimento, habitua-se a enfrentar sozinho as várias dificuldades, aprende a saber perder, como condição para poder ganhar, é leal, justo e generoso, é amigo até ao sacrifício, não mente e é incapaz de acusar - de fazer «canalhice» - como despreza adulação que o enoja. É nobre de princípios, tem a virtualidade da camaradagem. A camaradagem sintetizada na divisa «Um por todos e todos por um», pedagogicamente transmitida de geração em geração, é, com certeza um carácter fundamental da formação colegial. Desde aquela primeira perplexidade, após a despedida dos pais, dolorosa e difícil, que se sente ao entrar no «geral» da primeira, que nos ensinaram as regras básicas da honra do Menino da Luz. A camaradagem é a amizade como elo profundo, espiritual e eterno, superando os conceitos mais superficiais de simpatia e antipatia; é o hábito de viver em comunidade densa, para além das naturais reacções biológicas que a exiguidade de território poderiam provocar, é a solidariedade sem reticências; o respeito pelo próximo; o culto da ordem, da honra, da disciplina; o acusar-se espontaneamente por qualquer falta cometida, assumindo com galhardia e coragem a responsabilidade das

consequências; o não fazer canalhice; o assumir colectivamente as consequências mais graves, sempre que tal se ponha em termos de solidariedade, para evitar o castigo de um; a entreajuda; a lealdade. Ela - a camaradagem - é por demais evidente na «malta», sempre que se encontra, pois confunde-se em abraços violentamente fraternos, retoma uma conversa apenas interrompida, reconhece-se para além de todas as mudanças e mau grado todas as agressões da vida, indiferente à permanência inexorável da farda cor de pinhão, acontece em cada um. É emocionante como, passadas décadas, conversamos uns com os outros como se, na camarata, recordássemos apenas os acontecimentos de umas férias mais ou menos grandes. Cada um pensa nos outros e todos pensam em cada um, a partir daquilo que muito fundamentalmente nos une e nos eterniza ….. a barretina, o barrete, o francalete, os botões dourados , o colarinho branco, o «sentido» graniticamente imóvel, as febres na «enferma», a gula pelo «amarelo», a audácia do capote no alto da cúpula e, sobretudo, acima de tudo, aquela profunda , interior, moral, repugnância pela «pelanca». A alvorada e o graduado a dizer «uma, uma e meia, duas, duas e meia, duas e três quartos e às……» e um tipo a correr, a o gajo ao lado a enrugar o lençol de baixo extremamente esticado, e a forma, e a manteiga com gostinho a ranço, e os filetes com espinhas, e estar isolado na «enferma» com papeira e tomar óleo de rícino pela colher na mão do Valério ou do Valentim, e


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Dos Antigos Alunos Curso de 1955/1962

o manejo de arma, a não poder, não poder, não poder mais com a «Manliker» a descer a Avenida, e o arear dos botões com a tala e a solarina, e medo da equitação, e o não ser capaz de saltar o plinto e ser gozado, são recordações que não esquecem, são recordações da nossa formação.

A verdade é que a aquisição das nossas qualidades são devidas ao que nos foi ensinado pelos mestres, pelos instrutores e não nos esquecemos do pessoal auxiliar, nomeadamente o «20», de que ouvimos falar, o «Moca», e muitos outros, aqui representados pelo Miranda e pelo Celestino, mas tam-

bém o que nós ensinávamos uns aos outros. O Dr. Júlio Dantas, uma das mais gloriosas figuras das Letras Portuguesas, que entrou para o Colégio em 1884 onde teve o número 114 e faleceu no ano em que saímos, escreveu no seu livro «Páginas de Memória», sob o título Escola de Homens:

«Os rapazes do Colégio Militar podiam não aprender a ter juízo, mas todos aprendiam a não ter medo. Para a formação da nossa personalidade concorria, não só o que nos ensinavam os mestres, mas o que nós ensinávamos uns aos outros; a lição do aprumo, da dignidade, da obrigação, da solidariedade moral, da disciplina sem subserviência, da cortesia sem bajulação. Por isso o Colégio da Luz, apesar dos defeitos e das carências que no meu tempo o caracterizavam, foi sempre uma escola de «homens», que entravam na vida de cabeça levantada, servindo o desinteresse, falando com desassombro e quando era preciso lutando com intrepidez».

Àqueles que nos formaram, incluindo os ainda vivos aqui presentes, pois fizeram o favor de dizer sim ao nosso convite, o nosso obrigado do fundo do coração pois estamos eternamente gratos pelo que nos transmitiram. O nosso País merece e deve orgulhar-se de ter uma instituição educacional como o Colégio Militar, não restando dúvidas de que deve ser mantida, com o que necessariamente custa ao orçamento, em nítido contraste e confronto com o ensino que é facultado pela sociedade civil.»

Nota da Redacção O admirável discurso antes apresentado foi feito pelo 315/54 Gusmão Nogueira nas comemorações dos 40 anos de saída do Colégio do curso finalista de 1962. Exprime o que ele sentia na sua condição de Menino da Luz. Exprime de forma exemplar, na sua simplicidade, aquilo que nós sentimos, mas que por vezes não somos capazes de expressar. Quanto ao magnífico texto do esquecido Júlio Dantas, em cujo funeral participei em representação do Batalhão Colegial, acho que o mesmo devia estar exposto no Museu do Colégio, a par do texto das «Farpas» de Ramalho Ortigão, relativo a um desfile do Batalhão, que já aí se encontra. Enquanto o aqui expresso se mantiver actual, não tenho qualquer dúvida que a existência do Colégio não pode ser posta em causa. Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957

Restaurante Jardim da Luz premiado O Restaurante Jardim da Luz, que funciona nas instalações da AAACM e que é ponto de encontro de muitos Antigos Alunos do CM, foi premiado com “1 Garfo”, no Concurso Gastronómico “Lisboa à Prova 2010”. Foi com natural satisfação que os concessionários do restaurante receberam a distinção, tanto mais que Qualidade de Serviço, Atendimento, Refeições e Preço eram os principais aspectos valorizados. Recorde-se que no “Jardim da Luz” há um menu “Colégio Militar”, que quando usado permite à AAACM receber 1 Euro por cada menu servido.


Dos Antigos Alunos Um Caso de Possessão

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Isabel Coutinho Jornalista do PÚBLICO

Um Caso de POSSESSÃO Na Revista 2 do PÚBLICO do dia 11 de Março de 2012, foi publicado um artigo da autoria da Jornalista Isabel Coutinho onde se relata um episódio relacionado com dois Antigos Alunos: António Lúcio de Sousa Dias (56/1933) e Eduardo Lourenço de Faria (92/1934). Este texto chegou-nos às mãos através do José Mário Fidalgo dos Santos (253/1951). A história é interessante e reflecte o espírito de camaradagem que a vivência do Colégio nos transmite e que perdura para a vida. Amavelmente a autora do texto, solicitada para que ele fosse reproduzido na ZacatraZ, de imediato autorizou a sua transcrição o que fazemos com a devida vénia e o mais caloroso agradecimento.

cou depois excertos do livro. “É uma vergonha que assumo: escrevi, por amizade e por um pacto meio louco, uma viagem à volta do mundo”, explicou Lourenço. “Eu, que nunca escrevi três linhas [de ficção] e tenho um complexo absurdo em relação a quem escreve uma António Lúcio de Sousa Dias (56/1933) e Eduardo Lourenço de Faria (92/1934) história, escrevi, pura Rubem Fonseca tinha declarado que os e simplesmente, uma volta ao mundo!” escritores, naquela mesa do Correntes Que nunca mais leu. “Não é uma forma d’Escritas onde se falava do risco da ficção, de heteronímia, como a de Pessoa, é um eram todos loucos, cada um à sua maneicaso de possessão!” O seu amigo fez rera. “Ele é escondidinho, ninguém percebe, almente uma volta ao mundo, em 1954. mas é louco”, disse o escritor brasileiro, A companhia de aviação que o despediu pousando a mão no ombro de Eduardo pagou-lhe uma viagem que imitava a de Lourenço. Este regressou ao passado para Phileas Fogg, personagem de A Volta ao contar um episódio que ilustra essa loucuMundo em Oitenta Dias, de Júlio Verne. ra. É a história da escrita do livro Pequena Quando se encontraram, já tinham pasVolta ao Mundo, publicado em 1961, em sado quatro anos desde essa viagem e o edição de autor, por Lúcio de Sousa Dias, amigo não se lembrava de nada. Durante um antigo colega do ensaísta no Colégio dois anos, Lourenço foi escrevendo por Militar. Sabe-se agora que foi Lourenço ele. “Viagens a Jerusalém, ao Japão, à que o escreveu, a pedido do condiscípulo, América do Norte, onde nunca tinha posusando postais, fotografias e apontamento os pés. Não há uma palavra que seja tos que este lhe dera. João Nuno Alçada, de qualquer experiência minha. É a ficção que trata do acervo de Eduardo Lourenço, pura. A esse título, sou um grandessíssimo encontrou nos caixotes o livro e o respecficcionista!”, diz o autor, que acha que o textivo manuscrito. Em Dezembro, o Jornal to não tem qualidade literária e, sobretudo, de Letras contou a história, e a Ler publinão o sente como seu. “Escrevi para ele,

escrevi o filme que ele não podia escrever. Morreu na convicção de que aquele livro era dele. Vou agora matá-lo segunda vez?” Em 1960, o amigo instalou-se em França, em casa de Lourenço. “A minha mulher já não o podia ver e até começou a pensar que havia ali uma relação um pouco suspeita.” O amigo acabou por ir para uma pensão. “Ia lá ter com ele e sentava-me à mesa a escrever. Ele estava deitado na cama, ria-se e fazia ruídos, e eu já estava tão desesperado que lhe disse: “Pára lá com isso. Eu estou aqui a ser teu escravo e tu a rires-te.” E ele respondeu: ‘É pá’ - ele falava assim como o Vasco Lourenço – ‘há muita gente que tem tipos que escrevem por eles, como o Kennedy.’ Tive um lampejo de lucidez e respondi-lhe: ‘Sim, mas aqui o Kennedy sou eu’.” Os amigos de Lourenço acham graça à história e querem reeditar o livro. Ele não quer. “Não quero ser ficcionista a esse preço.” No entanto, quer que alguém conte a história do que se passou. Almeida Faria já refere o episódio no texto A Viagem do Outro, que publicou na revista Correntes d’Escritas sem identificar os protagonistas. E, se Lourenço autorizar, assume que gostaria de contar “essa história absolutamente incrível, mas verdadeira”.


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Dos Antigos Alunos Torneio de Bridge de 2012 da AAACM

Torneio de Bridge de 2012 da

AAACM

Decorreu no passado dia 17 de Junho de 2012 nas instalações do Colégio Militar ao Largo da Luz a 28ª edição do prestigiado Torneio de Bridge que anualmente ali se tem realizado. Com o imprescindível apoio da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar devemos assinalar a presença de 56 Pares (112 praticantes) que em simpático e agradável convívio “lutaram” pelos melhores lugares durante essa soalheira tarde de Sábado.

© Fotos Leonel Tomaz - Os participantes em competição e os Antigos Alunos que nela tomaram parte

Foi com grato prazer que registámos a inscrição de alguns antigos alunos do Colégio: José Gualberto Nascimento Matias (245/36), José Manuel Soares de Oliveira (112/36) a alma deste Torneio durante anos a fio e, que agora nos deixa a difícil tarefa de continuar a exemplar organização com que sempre nos brindou, Carlos Ayala Botto (32/1951), Ricardo Gorjão Jorge (131/1956), José Carlos Lima Bacelar (241/1958), Rui Joaquim Azevedo de Avelar (25/1960), José Augusto Nunes Egreja (305/1965), Alexandre Mário Melita Madureira (175/1982) e Filipe Miguel Gomes Guimarães (136/1989). A entrega de prémios decorreu em ambiente de festa e foi registada fotograficamente pelo incansável Sr. Leonel Tomaz da AAACM. Essa cerimónia foi presidida pelo Subdirector do Colégio Militar, Coronel João Paulo Noronha da Silveira Alves Caetano (609/1973). Aqui ficam para a História deste evento os resultados e respectiva classificação dos principais premiados: Linha NS 1º classificado - Pedro Matos/Alberto Nobre - 63,6 % 2º classificado - Anabela Oliveira / Alexandra Rosado – 63,4 % 3º classificado - Lima Bacelar / Vacas de Carvalho -61,7 % 4º classificado - Teresa Kay / João Morais – 60,8 %

Linha EO 1º classificado - Pedro Durão/José Pinto da Costa – 74,2 % 2º classificado - José Egreja / Paulo Braula Reis – 73,3 % 3º classificado – Paulo Gonçalves Pereira / Francisco Pereira Gonçalves – 65,8 % 4º classificado - Kantilal Jamnadas / Parshotam Ranchordas. Prémios Especiais Senhoras - Céu Branquinho / Luisa Santos Par Casal - Nuno Santos / Sofia Alves Par Júnior - João Amaral / Bruna Pita Par Promoção - Ana Slewinski / Jorge Casal Ainda os nossos agradecimentos ao Director do Torneio Sr. Luis Oliveira, ao Colégio Militar pela cedência das instalações e todas as facilidades necessárias, à AAACM e a todas as Empresas que de um modo ou outro nos deram o seu apoio. Para o ano cá estaremos procurando, se possível, aumentar esta lista. Obrigado a todos os que participaram. Luis Ahrens Teixeira


Dos Antigos Alunos Jantar do Oeste 2012

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É o Seu Navio!

Henrique Alexandre Machado da Silva da Fonseca (47/1956), Vice-Almirante (ref), com a sua dinâmica e vontade, a par da espinhosa tarefa de dirigir, manter e editar a Revista de Marinha, tem assumido e concretizado um inestimável apoio à Marinha nas suas múltiplas vertentes. Nesta acção e através da sua Editora Náutica Nacional têm sido publicadas diversas obras de grande interesse, algumas das quais em reedição de títulos há muito esgotados no mercado livreiro. Assim, no passado dia 14 de Junho no Clube Militar Naval, teve lugar a apresentação e lançamento da versão portuguesa do livro É o Seu Navio! (It’s Your Ship) que relata o modelo de liderança praticado dia-a-dia pelo Comandante Michael Abrashoff 1 no comando do USS Benfold da Marinha de Guerra dos Estados Unidos da América. O destroyer Benfold de 8.500 tons, com uma guarnição mista de 310 elementos, dispõe de quatro turbinas a gás que lhe permitem velocidade superior a 30 nós, sendo o seu principal armamento constituído por mísseis “Standard” e “Tomahawk”. A liderança do Comandante Abrashoff, apelidado pela guarnição de “Megafone Mike” devido à sua permanente comunicação com todos os que serviam a bordo, foi baseada em princípios simples mas eficazes: “liderar pelo exemplo”, “ouvir com atenção”, “comunicar o objectivo e o fim”, “criar um clima de confiança”, “o objectivo é atingir resultados, não cumprimentos ou salamaleques”, “assumir riscos calculados”, “ultrapassar os procedimentos padrão”, “desenvolver profissionalmente a guarnição”,”gerar unidade”, e “melhorar a qualidade de vida do pessoal”, tendo conseguido uma muito eficiente operação dos mísseis “Tomahawk” a par duma altíssima taxa de realistamento até então nunca alcançada. Este livro, de fácil leitura pelo interesse da matéria abordada, mostra-nos um conjunto de práticas que se podem aplicar na gestão das mais diversificadas áreas, por vezes normas tão simples que nos passam despercebidas e de cuja aplicação resultam grandes benefícios para quem tem a árdua tarefa de gerir e para todos aqueles que estão sujeitos a essa gestão. O texto da apresentação da versão portuguesa, a seguir reproduzido, traduz bem a essência desta pequena obra de grande conteúdo.

«A história do Comandante Michael Abrashoff e do seu comando do USS Benfold tornou-se lendária, tanto no seio da Marinha Americana, como fora dela. Neste livro o Comandante Abrashoff oferece a fascinante história de uma dinâmica indutora de mudança, certamente útil para quem quer que navegue nos incertos mares empresariais da actualidade. Quando o Comandante Abrashoff assumiu o comando do USS Benfold, um navio apetrechado com os mais sofisticados sistemas de armas, este apresentava-se como uma organização detentora da tecnologia mais recente mas com uma reduzida eficiência e eficácia. Consciente da sua responsabi-

lidade no incentivo a um melhor desempenho, o Comandante compreendeu que teria de melhorar, em primeiro lugar, as suas próprias competências pessoais de liderança, antes de investir na melhoria do seu navio. Em alguns meses apenas criou uma guarnição motivada e autoconfiante, desejosa de assumir iniciativas e a responsabilidade das suas acções. O slogan a bordo, sintetizou-se na seguinte frase: “Este é o seu navio!” E o Benfold foi em breve reconhecido por todo o lado como um modelo de eficiência. Como conseguiu Abrashoff concretizá-lo? O Benfold foi naquela altura uma peça chave na Esquadra dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. Abrashoff partilha connosco os segredos de uma gestão de sucesso, designadamente: • Perspective o navio na óptica da guarnição. Ao solicitar as sugestões dos marinheiros, Abrashoff reduziu drasticamente as tarefas mais aborrecidas que afectam negativamente o moral. • Comunique, comunique, comunique. Quanto mais Abrashoff comunicava um plano, tanto melhor a sua execução por parte da guarnição. Esta última deu-lhe até a alcunha de “Megafone Mike”, pois escutavam-no com muita frequência ... • Crie disciplina, centrando-se no objectivo. A disciplina melhorou substancialmente, quando a guarnição de Abrashoff acreditou que aquilo que estavam a empreender tinha mesmo importância. • Escute com agressividade. Quando se apercebeu que muitos marinheiros desejavam entrar para a Universidade, Abrashoff promoveu a realização de um teste oficial a bordo com esse objectivo, executado com o navio a navegar a cerca de 40 milhas da costa Iraquiana. Desde uma gestão da manutenção com um alto nível de poupança até atingir o melhor score nos exercícios de artilharia da Esquadra do Pacífico, o extraordinário período de comando do Comandante Abrashoff provocou um enorme impacto na Marinha Americana. Tal modelo pode auxiliá-lo a alterar o rumo do seu próprio navio, onde quer que se encontrem os seus desafios de gestão.» Termino esta pequena referência com a citação de Alexandre da Fonseca no final do prefácio por si subscrito respeitante ao livro “É o Seu Navio!”: «Como Mike Abrashoff nos diz no fecho do seu livro .... esta história real do USS Benfold constitui uma lição de liderança que você também pode aplicar em qualquer organização onde esteja, civil ou militar, mas começando já amanhã. O primeiro princípio de um leader eficaz deverá ser “o optimismo prevalece”, e o seu corolário, “as oportunidades nunca cessam”. E a terminar: Este é o seu navio! Transforme-o no melhor de todos! A liderança é sobretudo a arte de fazer muito bem coisas simples.»

1 - O Comandante Abashoff é licenciado pela Academia Naval de Annapolis, Maryland e foi Ajudante de Campo do então Secretário da Defesa, o Honourable Dr. William J. Perry. Abrashoff abandonou a Marinha em 2001 e tornou-se o fundador e CEO (Chief Executive Officer) da Grassroots Leadership, Inc., de Boston.

Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949


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Dos Antigos Alunos Jantar do Oeste 2012

Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

Quinta do Castelo

Jantar do Oeste 2012 Renovando a hospitalidade com que nos habituaram, mais uma vez o António José de Azeredo Lopes (350/1954) e o seu filho António de Azeredo Lopes (378/1981) abriram as portas da sua casa na Quinta do Castelo para amavelmente nos receberem com a amizade calorosa na confraternização de Antigos Alunos que se designou por Jantar Anual do Oeste.

© Fotos Gonçalo Leal de Matos

Este jantar, inicialmente promovido para encontro dos Antigos Alunos residentes na zona do Oeste, é hoje salutarmente participado por inúmeros Camaradas que não pertencendo a esta Região a ele se associam na emanação do Espírito Colegial que a todos une, independentemente de quaisquer circunstâncias para além da sua qualidade de Antigos Alunos ou de terem servido o Colégio Militar com empenho ganhando assim jus de ficarem a pertencer a esta Família de nobres tradições, que se rege por uma conduta enquadrada nos mais altos princípios da moral e do comportamento exemplar. Pela Lei natural da vida, alguns de nós já não marcaram a sua presença, tendo todos sido relembrados com saudade com especial relevância para o Professor Dario Fernandes (Antigo Aluno Honorário) e para o José António Picciochi (501/1959). Confraternizaram connosco este ano os Servidores do Colégio que acompanharam sucessivas gerações de Meninos da Luz, José

Luís Pontes e Mário da Nazaré Caixado Couzinho (o Márinho), que saudamos pela forma como souberam viver o nosso Colégio no exercício das suas funções. A iniciativa da realização do Jantar do Oeste, em boa hora tida pelo Victor Manuel de Oliveira Santos (365/1949), já lá vão vinte anos, tem estado ultimamente a cargo do Luís Fernando Bernardes dos Reis (429/1962) e do Fernando Faustino Roque do Vale (518/1959), com o necessário apoio dos Azeredo Lopes (350/1954 e 378/1981), que chamaram a si a “espinhosa” missão de congregar as “gentes” e assegurar a logística inerente ao agradável jantar em que participaram este ano cerca de oitenta Antigos Alunos e que constituiu uma excelente jornada de boa e sã camaradagem. O Luís Fernando Bernardes dos Reis em breves palavras agradeceu ao dono da casa a sua disponibilidade para a realização deste encontro, relembrou os que já não estarão mais presentes e bradou um vibrante Zacatraz por todos eles, pelo Colégio, pela sua

perenidade e pelos seus atributos que ao longo dos tempos sempre deram e hão-de continuar a dar força e coesão ao universo da grande Família Colegial. António Saraiva de Reffóios (529/1963), Presidente da Direcção da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar, referiu vários aspectos da actividade da Associação, tendo focado a reunião dos Comandantes do Batalhão (que pela segunda vez se realizou em todo o historial do Colégio), à qual foi agregada a reunião dos Delegados de Curso que tem em vista a dinamização de uma maior aproximação dos Antigos Alunos à nossa Associação e uma ampla participação nas diligências necessárias para o engrandecimento do Colégio na persecução dos objectivos da sua defesa em toda a plenitude. Referiu que a Associação tem acompanhado e participado activamente com sucesso na sua audição quanto aos aspectos do processo em curso sobre a reforma dos Estabelecimentos Militares de Ensino, defendendo a posição de


Dos Antigos Alunos É o seu Navio!

que o Colégio deverá ser uma escola pública tutelada pelo Exército. Informou também que a Comissão relacionada com os Estabelecimentos Militares de Ensino, nomeada pelo Ministro da Defesa Nacional, terá de apresentar uma proposta até ao dia 31 de Maio. A força da Associação em todo este processo estará dependente da congregação de esforços à sua volta, estando confiante de que será encontrado um máximo denominador comum entre todos os Antigos Alunos e os

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restantes parceiros decisórios na questão, havendo boas razões para afirmar que o futuro do Colégio não está em risco. Os vinhos servidos durante o jantar primaram pela sua excelente qualidade como já vai sendo hábito. Nos brancos e rosés foram apreciados os Cerejeiras e Sottal da Companhia Agrícola do Sanguinhal, pertencente ao Carlos João Fernandes Pereira da Fonseca (277/1960), que também apresentou o tinto Quinta de São Francisco 2009. © Fotos Gonçalo Leal de Matos

Do nosso anfitrião foram servidos os seguintes tintos da sua produção restrita para consumo próprio e dos seus amigos: Quinta do Castelo 2008 (Piriquita, Calado e Syrah), Quinta do Castelo Lágrima 2009 (Syrah e Piriquita) e Quinta do Castelo 2010 (Syrah). Todos estes vinhos foram gentilmente oferecidos pelos seus produtores e daqui lhes rendemos as nossas homenagens pela excelência dos produtos das suas explorações vinícolas. João Carlos Geraldes (245/1952), Carlos Silva Monteiro (154/1951), Victor de Oliveira Santos (365/1949), Francisco Solano de Almeida (188/1951), Gonçalo Leal de Matos (371/1949), José Barata Correia (28/1949), o anfitrião António José Azeredo Lopes (350/1954), José Garcia Leandro (94/1950), Gonçalo Figueiredo de Barros (440/1967) e Martiniano Gonçalves (9/1958)

Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

© Fotos José Norton Brandão – Composição Gonçalo Leal de Matos

O João Paulo Noronha da Silveira Alves Caetano (609/1973), actual Subdirector do Colégio e conviva habitual destes encontros, não esteve presente por força do acompanhamento da Classe Especial de Ginástica que participou num Sarau em Torres Vedras, todavia, fez questão de passar pela Quinta do Castelo para saudar os que aí se encontravam. Neste Jantar Anual do Oeste, o de 2012, participaram os seguintes Antigos Alunos referenciados por ordem de antiguidade: 28/1949 365/1949 371/1949 94/1950 154/1951 188/1951 184/1952 197/1952 245/1952 168/1953 246/1953 270/1953 350/1953 5/1954 110/1954 237/1954 77/1955 292/1955 320/1955 333/1955 339/1955 342/1955 409/1955 423/1955 63/1956 274/1956

José Eduardo de Almeida Barata Correia Vítor Manuel de Oliveira Santos Gonçalo Salema Leal de Matos José Eduardo Martinho Garcia Leandro Carlos Manuel da Silva Monteiro Francisco Manuel Vidigal Solano de Almeida José Carlos Santos Correia Monteiro José Francisco Latino Tavares João Carlos de Azevedo de Araújo Geraldes Luís Manuel Caldeira Pinto João Carlos de Oliveira Moreira Freire João Nuno Bellegarde Bello da Conceição António José de Azeredo Lopes Eduardo Henrique Vidigal Solano de Almeida Mário Quintanilha de Sampaio Nunes António Manuel da Costa Vieira Lisboa Luís Fernando Cordeiro Falcão Mena Manuel Augusto Moutinho da Silva Pereira Nuno Álvaro Pistacchini Calhau Mário José Roncon Santos António Fernando Diniz de Ayala Boaventura José Manuel Fortes dos Santos Ferreira José Manuel Vasconcelos e Silva de Magalhães Manuel Agostinho de Castro Freire de Menezes António dos Santos Castro Mário Carlos de Sousa Tavares

275/1956 Mário João Conde de Carvalho Pereira 242/1957 Arnaldo José Lima dos Reis Maya 9/1958 Martiniano Nunes Gonçalves 461/1958 João Alberto de Figueiredo Ferreira dos Santos 493/1958 Luís Filipe da Silva Rocha 215/1959 Fernando Delfim Guimarães Tavares de Almeida 239/1959 Joaquim Manuel Teixeira Nunes Barata 359/1959 João Luís Madeira de Carvalho Igreja 518/1959 Fernando Faustino Roque do Vale 77/1960 Joaquim José Arranhado Bação 221/1960 Gonçalo Rui Santos Pereira 270/1960 António Henrique Marques da Silveira e Lorena 277/1960 Carlos João Fernandes Pereira da Fonseca 552/1960 João Sanches de Miranda Mourão 344/1961 José Joaquim Restani Graça Alves Moreira 400/1961 José Francisco Machado Norton Brandão 554/1961 Carlos Manuel Leal Barroso Hipólito 123/1962 João Carlos Beleza Gonçalves Vaz 206/1962 António Manuel Restani Graça Alves Moreira 429/1962 Luís Fernando Bernardes dos Reis 612/1962 André Grant Aires de Abreu 157/1963 João António Feio Pereira 340/1963 Carlos Manuel Dias Lima Costa 362/1963 João Manuel Porto Silva Frade 529/1963 António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios 539/1963 José Manuel Spínola Barreto Brito

118/1964 Luís Carlos Fonseca Mourão da Costa Campos 153/1964 José Nunes do Rosário e Silva Leitão 517/1964 Luís Alberto Oulman da Costa de Sousa Macedo 94/1965 António Alexandre Castanheira Coelho 393/1965 José Eduardo Jorge Eiras Dias 413/1965 Joaquim Paleta Marreiros 415/1965 João Carlos Romão Matias 440/1967 Gonçalo de Medina Figueiredo de Barros 631/1968 José António Madeira de Ataíde Banazol 205/1969 Eduardo Manuel Abreu de Oliveira Pegado 666/1969 Eduardo José de Carvalho Marques 473/1970 Sérgio Vasco Travassos Valdez Marques de Lemos 618/1970 Alberto Luís Santos 121/1971 Pedro Jorge Vieira Correia de Oliveira 270/1971 João Paulo de Almeida Rainha Perry da Câmara 527/1974 António Manuel Gonçalves Alexandre 345/1975 Nuno Coreia Barrento de Lemos Pires 257/1978 Pedro Nuno Gonçalves Alexandre 223/1981 João Paulo dos Santos Gomes 226/1981 Luís Ricardo da Silva e Costa Roncon Santos 265/1981 Henrique Miguel Cabrita de Araújo Leite 378/1981 António Mucharreira de Azeredo Lopes 380/1981 Miguel de Oliveira Baptista da Costa Freire 10/2003 João Bernardo Pereira Guerra de Sousa


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Do Colégio Espada de Toledo

Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957

Quando frequentei a Academia Militar, na década de 60 do século passado, era todos os anos atribuído pelo governo espanhol, ao melhor aluno finalista da Academia, o Prémio Alcazar de Toledo. Este prémio consistia numa bela espada de oficial do Exército Português, com uma lâmina ricamente trabalhada, obra da célebre fábrica de espadas de Toledo, sendo a espada contida dentro de uma caixa de madeira exótica, forrada a tecido de veludo vermelho. Era um prémio de prestígio, consubstanciado numa arma de inegável valor material e simbólico, que como é natural estava na mira dos melhores alunos da Academia. No ano lectivo de 1969, quando conclui o longo curso de Engenharia Militar, coube-me a honra de receber este prémio, que me encheu de satisfação e orgulho, facto que posso agora confessar. Infelizmente nunca pude dar uso á espada, pelo facto de ter seguido para a Força Aérea, onde se usa um espadim com a farda de gala e não uma espada. Assim sendo, a espada repousou intacta dentro da sua caixa durante dezenas de anos, sem que ninguém a visse. Passados todos estes anos e não tendo eu na família nenhum oficial do Exército a quem pudesse entregar a espada, para lhe dar o devido uso, acabei por decidir entregá-la ao Colégio, para ser usada por um aluno graduado. A minha ideia era entregá-la ao Ajudante de Comandante de Batalhão, dado ter sido essa a minha graduação. Esta ideia ficou à partida comprometida, por essa graduação ter sido «suspensa» há uns anos atrás, num ano em que havia poucos alunos para graduar. A suspensão manteve-se até hoje, desconhecendo presentemente os alunos que essa graduação tenha alguma vez existido, o que é pena. Tomada a decisão da entrega da espada ao Colégio e obtida a concordância da Direcção do Colégio, procedi á entrega da espada no decurso da romagem do meu curso ao Colégio, no passado dia 11 de Maio, nas comemorações do quinquagésimo aniversário da nossa saída do Colégio. Fui autorizado na altura a dirigir a palavra ao Batalhão Colegial, tendo proferido o seguinte discurso:

«ALUNOS DO COLÉGIO MILITAR A espada de Toledo que agora entrego ao Colégio, recebi-a em 1969, do governo espanhol, por ter sido nesse ano o melhor aluno finalista da Academia Militar.

© Fotos Leonel Tomaz

© Fotos Leonel Tomaz

ESPADA DE TOLEDO

Dado o Comandante de Batalhão já ter uma espada de honra, réplica da espada de El-Rei D. Carlos, confio simbolicamente esta espada à 4ª Companhia, para ser usada pelo aluno seu comandante. Espero ver a bela lâmina desta espada a brilhar ao sol de Lisboa nos próximos desfiles do 3 de Março. A espada fica à guarda da 4ª Companhia, por ser daí que todos os anos saem os graduados que devem, pela sua conduta, ser um exemplo para os alunos mais novos. Todos os mais velhos e não só os graduados, têm o dever de guiar, ajudar e proteger os alunos mais novos, como sendo seus irmãos. São esses os princípios da camaradagem colegial. Qualquer tipo de violência ou despotismo não são admissíveis. São coisas que repugnam a um verdadeiro Menino da Luz. Aproveito esta ocasião para vos dar um conselho, um único conselho. Não desperdicem a vossa juventude. Aproveitem ao máximo o vosso tempo neste Colégio sem igual. Estudem com afinco, façam muito desporto e divirtam-se também. Em tudo dêem o vosso melhor. Se assim fizerem, poderão dizer no final de cada dia «Valeu a pena». Deste curso aqui presente faz parte um antigo atleta olímpico, o antigo aluno 307 Jesus da Silva. O seu sonho de ser atleta olímpico começou aqui no Colégio. Treinou arduamente e sem desfalecimento durante anos. Seis anos após a saída do Colégio o seu sonho tornou-se realidade e representou Portugal nos Jogos Olímpicos do México. Sigam o seu exemplo. Sonhem também vocês com grandes feitos e lutem para os alcançar. Não tenham medo de sonhar. Não tenham medo de lutar. Nunca tenham medo. Se assim o fizerem a vida sorrir-vos-á. Termino com um pedido, que é também uma exigência. Honrem sempre a nossa farda. Honrem sempre o nosso Colégio. Vivam no vosso dia-a-dia o nosso lema «um por todos e todos por um». Dentro de anos reconhecerão como nós que foi um privilégio ter frequentado este Colégio». O discurso pretendeu ser breve e forte, para ter alguma probabilidade de ser ouvido e assimilado. Passados alguns dias sobre a nossa visita ao Colégio estive com o meu sucessor, o actual 71. Em linguagem colegial disse-me «a malta da 4ª gostou do discurso, foi curto e grosso». Parece pois que o objectivo foi atingido.


Colaboração As LFG na Guiné

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Isaías Augusto Pinto Gomes Teixeira (235/1946) C/Almirante (Reformado)

As LFG’s no teatro de operações da Guiné nos anos 1964/1966 Tendo elaborado um pequeno apontamento para o capítulo – MARINHA – do livro “OLHARES SOBRE A GUINÉ E CABO VERDE”, nº 9 da Colecção “FIM DO IMPÉRIO”(1) a lançar em 20 de Novembro próximo, pelas 15 horas, em Oeiras, na Livraria Municipal VERNEY, lembrei-me de o transcrever na nossa ZACATRAZ, juntando-lhe algumas notas complementares.

As Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG’S) da Classe “ARGOS”(2) foram concebidas para a patrulha e a fiscalização dos rios e águas costeiras dos diversos territórios ultramarinos. Todavia, a sua utilização mais importante verificou-se, sem dúvida, nas bacias dos diferentes rios da então Guiné portuguesa. A alta manobrabilidade, a boa velocidade (16/17 nós) e o pequeno calado adequavam-se bastante bem às características hidrográficas dos rios Cacheu, Geba, Mansoa, Buba, Cumbijã e Cacine. Por outro lado, a silhueta relativamente discreta e o seu armamento – 2 peças BOFFORS 40/60 em reparos simples MK

9 e 2 metralhadoras MG 42 de 7,62mm – tornavam-nas, face à ameaça conhecida, meios de dissuasão credíveis na tentativa de interdição das vias marítimas ao PAIGC. A primeira LFG, a “ARGOS”, chegou a águas da Guiné no final de Julho de 1963, logo seguida das LFG’s DRAGÃO e ESCORPIÃO o que evidenciava maiores carências naquele teatro de operações, em comparação com as outras Províncias. A breve trecho, verificou-se que a chapa do costado e da antepara da ponte não resistia ao impacto do fogo IN. Por isso, a partir da quinta lancha da Classe, a LFG CASSIOPEIA, passou-se a dispor de chapa blinda-


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Colaboração As LFG na Guiné

da de um quarto de polegada, quer na ponte quer no costado na região da casa das máquinas. Entretanto, foram sendo atribuídas ao Comando da Defesa Marítima da Guiné (CDMG), primeiro a CASSIOPEIA e a HIDRA em 19SET1964, depois sucessivamente a LIRA, a ORION e a SAGITÁRIO todas elas com chapa balística e que substituíram as três primeiras (ARGOS, DRAGÃO e ESCORPIÃO) que passaram a servir em São Tomé, Angola e Moçambique (3). Nessa altura, estavam já atribuídos ao CDMG três Destacamentos de Fuzileiros Especiais (DFE’s), uma Companhia de Fuzileiros, três Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP’s) e um significativo número de Lanchas de Desembarque Grandes (LDG), Médias (LDM) e Pequenas (LDP). Foi com este conjunto de meios que se gizou a estratégia naval para a defesa e a fiscalização das águas e dos rios da Guiné, absolutamente fulcral não só para a economia da província como para o reabastecimento de diversos quartéis do Exército, dado que a logística possível era praticamente de natureza marítima e, em menor escala, aérea. Às LFG’s estava atribuída, em permanência, a fiscalização das baias hidrográficas dos rios CACHEU e CACINE, dispondo normalmente para o desempenho da missão e sob o seu controle operacional, de uma LFP, uma LDM e uma secção de FZ’s com botes Zebro. Os cruzeiros duravam duas a três semanas seguindo-se uma pausa em Bissau. Missões noutras bacias hidrográficas eram

menos frequentes e respondiam a necessidades pontuais. A patrulha das zonas mais propícias a cambanças, o fundear as LFG’s, LFP’s, LDM’s e LDP’s em posições dominantes, a emboscada de botes com FZ’s em locais variáveis, a ocultação de luzes, a pesquisa radar (LFG’s e LFP’s) etc., constituíam as acções de rotina, estando todos os meios ligados por equipamentos de comunicações adequados às distâncias entre eles. E, assim se passavam essas 2/3 semanas até que a logística, como sempre…., impunha a rendição para reabastecimento. Outras missões, normalmente atribuídas a uma das LFG’s atracadas em Bissau, podendo ou não envolver também uma das LFG’s em fiscalização, e outros meios navais e de fuzileiros, tinham a ver com o comboiamento para protecção e defesa de meios navais e/ou marítimos civis, utilizados no reabastecimento de populações e de quartéis ou na drenagem de produtos comerciais e de outra natureza. Contudo, a missão mais importante prendia-se com a participação em operações navais contra objectivos situados próximo das margens. Eram operações preparadas no CDMG com utilização de um ou mais destacamentos de fuzileiros especiais, ou até operações conjuntas com forças do Exército, quase sempre com apoio aéreo. Para as LFG’s tratava-se do transporte de pessoal e do seu equipamento, escolta, apoio no desembarque e embar-


Colaboração As LFG na Guiné

que, apoio logístico geral e de alimentação, apoio de comunicações, base de comando de operações, e, por fim e o mais importante, apoio de fogo com as BOFFORS quando necessário. Convém lembrar a propósito, que em qualquer deste tipo de missões desempenhadas pelas LFG’s, se verificavam amiúde flagelações com armamento ligeiro, metralhadora pesada, duplas e triplas, bazucas, morteiros e canhão sem recuo, envolvendo parte ou a totalidade destas armas. Dentre estes ataques, uns com maior peso que outros, naturalmente, avultaram os sofridos no rio Cumbijã pela intensidade de fogo e natureza do armamento. Em todos eles se portaram as guarnições com galhardia e alto profissionalismo, havendo a registar um número limitado de baixas. Saliente-se ainda que, tantas vezes, era bem maior a tensão sentida ao navegar junto das posições de habitual contacto de fogo, do que propriamente quando se respondia a uma qualquer flagelação. Eram estas as principais missões desempenhadas pelas LFG’s nos anos de 1964/66 no teatro de operações da Guiné. O traço de união de quase todas elas foi a utilização do binómio Navio/ Fuzileiros, com muito bons resultados operacionais. Os laços de amizade e de companheirismo então estabelecidos mostraram-se imperecíveis. Como esquecer por exemplo:

NOTAS: (1) Ideia original do 150/1948 Manuel Júlio Matias Barão da Cunha. (2) CARACTERISTICAS Deslocamento máximo (com/sem chapa balística) Comprimento (fora a fora) Boca Calado máximo Altura do mastro Velocidade máxima Velocidade económica Autonomia

230/210 tons 41,70 m 6,70 m 2,30/2,10 m 3,86 m 17 nós 12 nós 1.600 milhas

(3) De acordo com a pesquisa feita pelo Contra-Almirante Luís Joel Alves de Azevedo Pascoal (145/1948), que se agradece, comandaram Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG’s) os seguintes antigos alunos do Colégio Militar: a. ARGOS - Nil; b. DRAGÃO - 1Ten. José Alberto Lopes Carvalheira (301/1946) – GUINÉ (1963-64) e Moçambique (1964-65); c. ESCORPIÃO - 1 Ten. Henrique de Jesus Palma Ferreira Pinto (217/1946) – CABO VERDE (1963); d. PÉGASO - (1) 1 Ten. José Carlos Lobato de Faria Roncon (333/1947) – S. TOMÉ e PRÍNCIPE e ANGOLA (1966-68);

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- a cedência, que tantas vezes acontecia, dos próprios beliches das guarnições dos navios para os fuzileiros que iam combater os “turras”, dentro em pouco; - a chegada dos “fuzos” a bordo e a sua lavagem com água do encanamento geral de incêndios no convés, antes do merecido descanso, para assim evitar sujar o habitat do pessoal dos navios; - o servir refeições completas durante alguns dias, a um ou dois destacamentos de 70 homens, num navio com um guarnição de 25 homens, com espaços e facilidades exíguas. O apoio mútuo entre todos os meios navais e de fuzileiros, a que não foi estranha a existência de oficiais RN muito competentes, dedicados e participativos, bem como o excelente nível de relação entre as diversas guarnições honram todos quantos serviram a Pátria naquelas circunstâncias e condições. Certamente que as carreiras de todos nós ficaram enriquecidas pela experiência vivida e pela sã camaradagem e espírito de bem servir, que eram regra no CDMG sob o comando do então Comodoro Francisco Ferrer Caeiro (4), ilustre chefe militar de grande prestígio e carisma, condecorado com a medalha de Valor Militar de prata, com palma.

- (2) 1 Ten. José Carlos Borges de Brito Subtil (133/1953) – S. TOMÉ e PRÍNCIPE e ANGOLA (1972-74); e. CASSIOPEIA - 1 Ten. Fausto José do Lago Domingues (257/1945) – GUINÉ (1969-71); f. HIDRA - 1 Ten. Isaías Augusto Pinto Gomes Teixeira (235/1946) – GUINÉ (1964-66); g. LIRA - 1 Ten. António Fernando de Melo Martins Soares (126/1956 falecido) – GUINÉ (1973-74) e ANGOLA (1974); h. ORION - 1 Ten. Luís Joel Alves de Azevedo Pascoal (145/1948) – GUINÉ (1966-68); i. CENTAURO - (1) 1 Ten. Pedro Manuel de Vasconcelos Caeiro (14/1947) – S. TOMÉ e PRÍNCIPE e ANGOLA (1965-66); - (2) 1 Ten. João Nuno Ribeiro Ferreira Barbosa (16/1956) – S. TOMÉ e PRÍNCIPE e ANGOLA (1972-74); j. SAGITÁRIO - 1 Ten. António Fernando de Melo Martins Soares (126/1956 - falecido) – GUINÉ (1973-74, em acumulação com o comando da LFG “LIRA”). (4) O Vice-Almirante Francisco Ferrer Caeiro era pai do 14/1947 Pedro Manuel de Vasconcelos Caeiro (Contra-Almirante) e do 41/1949 José Manuel de Vasconcelos Caeiro (Engenheiro Químico).


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Colaboração A Feira da Luz

Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957

A Feira da Luz Não sei a quando remonta o início da FEIRA DA LUZ, nem quais eram as suas características no seu início. Sei porém que é bastante antiga, que tem como local de implantação o Largo da Luz, em frente ao Colégio, e que será uma das poucas feiras sobreviventes na área do concelho de Lisboa.

A Feira da Luz que tem mais de 500 anos de história, sendo uma das mais antigas do país, tem lugar nos arruamentos que circundam o Parque de Teixeira Rebello ou Jardim da Luz.

Quando eu andava no Colégio, já lá vão uns bons cinquenta anos, a Feira da Luz era um acontecimento importante, que quebrava a pasmaceira da vida da Luz e de Carnide, que eram então uns arrabaldes longínquos da cidade, à qual eram ligados pela linha do eléctrico nº 13, que vindo dos Restauradores fazia o percurso entre Sete Rios e Carnide em marcha ronceira, ao longo da Estrada da Luz, que por esse facto nos dava a impressão de que tinha uma extensão imensa. Tanto eu, como a maior parte do pessoal do meu tempo do Colégio, não conheceu directamente a FEIRA DA LUZ, dado a mesma se realizar no mês de Setembro, período em que ainda estávamos de férias. Os que a acabavam por conhecer, eram os que reprovavam uma cadeira em Junho e a quem era dada ,magnanimamente, a oportunidade de fazer essa cadeira em segunda época (como agora se diz), na primeira semana de Outubro, imediatamente antes do início do ano lectivo seguinte. Dizia-se então que o pessoal nessas condições «ia a Outubro». Mesmo este pes-

soal não conhecia a feira em todo o seu esplendor, pois quando chegavam ao Colégio, para os seus exames de recurso, já a feira se encontrava em fase de «desmontar a tenda», podendo haver ainda uma ou outra barraca de «comes e bebes» em actividade. Apesar de a maioria não ser pois conhecedora ou frequentadora da FEIRA DA LUZ, os seus ecos chegavam até nós, entrando no nosso imaginário e fazendo com que a feira fizesse parte integrante do folclore colegial, nomeadamente do seu rico cancioneiro, maioritariamente não reprodutível fora do ambiente colegial caserneiro daquele tempo. Cantávamos na altura, com alguma frequência, o hino da «Malta Fixe»,cuja letra era a seguinte:

Cá vai o ano Da malta fixe Sempre na borga E o estudo que se lixe Ai chumbas sim Ai chumbas não Tudo isso depende Lá do capitão, ão, ão, ão Oh minha Feira da Luz Tu que és tão concorrida É coisa que não seduz Seres por nós conhecida Não me recordo se esta magnifica letra tinha, ou não, continuação, mas o que importa era a alusão à indesejável «ida a Outubro» e ao conhecimento da FEIRA DA LUZ daí resultante. Surpreendentemente a letra desta marchinha não continha nenhum palavrão, o que penso que seria caso único do cancioneiro colegial do meu tempo. Só por este facto o seu autor desconhecido mereceria uma citação especial. As outras canções de que me recordo, como a célebre do «Tio Zé das barbas brancas», eram absolutamente impróprias para reprodução nas páginas desta, ou de qualquer outra publicação. Recentemente, ao consultar no Colégio as Ordens de Serviço do ano de 1958, tropecei com a FEIRA DA LUZ, ao encontrar as instruções dadas à Formação para serem cumpridas no período de realização da feira. Na Ordem de Serviço nº 206, de 4 de Setembro de 1958, pode ler-se o seguinte:


Colaboração Grupo de Cavalaria 345

Feira da Luz Que a partir de amanhã e enquanto durar a feira da luz se observe o seguinte: Depois de recolher é encerrada a porta de acesso ao quartel da Formação devendo a Sentinela vigiar a parada e o Portão que existe na face Norte da Parada, o qual se encontrará fechado. Depois do recolher é expressamente proibida a entrada a pessoal estranho ao Colégio no Quartel da formação seja a que pretexto for. O Sargento de dia á Formação, com um ordenança rondará o local da feira desde a Hora da 3ª”refeição até ao toque de recolher, cumprindo-lhe vigiar o procedimento do pessoal no local da feira e fazer apresentar ao Sr. Oficial de Dia ao Colégio qualquer praça ou empregado que proceda inconvenientemente. Verifica-se por esta leitura que a feira era considerada como um elemento que poderia ser altamente perturbador da vida da Formação, o que não seria na altura de estranhar. Os soldados, habituados à rotina do tratamento dos nossos cavalos e à pacatez do dia-a-dia da vida na Luz e em Carnide, eram de repente confrontados com o bulício da feira, com a qual tinham

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de viver temporariamente a paredes meias e que era uma fonte das mais variadas e perversas tentações. Desconhecemos quantos soldados terão sido apanhados bêbados durante a feira e que outros desmandos terão cometido, sendo este por certo um tema de muito interesse para qualquer estudioso da história colegial, ou até mesmo para uma tese de mestrado em Sociologia ou História, para os alunos do 2º ciclo do tratado de Bolonha. Tudo o que referi é passado. O que dizer do presente? Hoje em dia os alunos do Colégio têm o início do seu ano lectivo em meados de Setembro, em plena época da feira. Presumo que os mais velhos sejam frequentadores da mesma. O que não sei é se terão de dar o salto do Colégio à noite, para lá irem jogar matraquilhos, dar uns tirinhos ao alvo e beber umas ginjinhas, ou se terão permissão de o fazer normalmente. Se tal permissão existe, é pena, pois é privar os alunos do prazer de dar o salto e de cometer uma infracção. Já Pessoa dizia «que prazer não cumprir um dever». É isto que está na massa do sangue dos portugueses. Como agora se diz, faz parte do nosso ADN. Ao escrever estas linhas está o Largo da Luz a ser objecto de obras de «requalificação». Oxalá isso não seja sinónimo de descaracterização.

Grupo de Cavalaria 345

Em Outubro de 2011 comemoraram-se os 50 Anos da constituição do Grupo de Cavalaria 345, formado no Regimento de Cavalaria 3, em Estremoz, pela integração dos Esquadrões de Cavalaria 253, 295 e 296. Na organização desta comemoração estiveram envolvidos muitos dos que integraram o Grupo de Cavalaria 345, com especial destaque para Luiz Filipe de Mello Corrêa e Rui Manuel Machado da Cruz (271/1949). Para memória futura foi cunhada uma medalha que se reproduz e que fará recordar os tempos em que o Grupo de Cavalaria 345

serviu, em muitos casos com sacrifício da própria vida. Durante a sua permanência no teatro de guerra teve 14 Mortos e 35 Feridos em Combate, tendo sido agraciado com as seguintes condecorações: 1 Medalha de Valor Militar, 8 Cruzes de Guerra, 6 Medalhas de Serviços Distintos e 14 Medalhas de Mérito Militar. Do Grupo de Cavalaria 345 que partiu para Angola em Novembro de 1961, que esteve na Zona IN de Bessa Monteiro até Maio de 1962 e na Zona IN de São Salvador até Maio de 1963, tendo em seguida rumado para a Zona Sul – Sá da Bandeira, Moçâmedes, Pereira d’Eça e Caconda – onde permaneceu até Março de 1964, fizeram parte muitos Antigos Alunos. Aqui fica o registo dos seus nomes: Tenente-Coronel António Sebastião Ribeiro de Spínola (33/1920); Capitão Rui Mamede Monteiro Pereira (163/1945); Capitão Miliciano Rui Ferreira (28/1937); Capitão António Francisco Martins Marquilhas (67/1944); Tenente João Goulão de Melo (265/1945); Tenente Miliciano Luís Augusto Nunes de Almeida Bandeira (266/1945); Alferes Miliciano Rui Manuel Machado da Cruz (271/1949); Capitão João de Almeida Bruno (230/1945)1; Alferes João António Branco Martins da Rosa Garoupa (286/1950) 1.

(1) - Pertenceram ao Esquadrão de Cavalaria 148 que, na zona de São Salvador, reforçou o Grupo de Cavalaria 345 a partir de Junho de 1962


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Colaboração IOS VS ANDROID

José João Marques Medeiros de Almeida 497/1995 josemedeirosdealmeida@gmail.com

iOS VS Android A guerra de gigantes, iOS VS Android mostrou a todo o mundo que é possível chegar ao topo, seguindo ediologias completamente diferentes. A Apple, com o seu pensamento monopolista desde os primórdios que teve uma visão de controlo. Sempre defendeu que para tirar o maior partido de um sistema seria necessário controlar o Software e o Hardware. Todos os dispositivos Apple trazem instalado um sistema Apple de raiz e todos os sistemas Apple, como o MacOS não permitiam ser instalados em equipamentos não assemblados pela empresa de Steve Jobs. Outras ideologias, como a defendida pelos adeptos do Software Livre, defendem que o Hardware e o Software devem cumprir normas para torná-los compatíveis com o maior número de sistemas diferentes. Esta visão de Software permitiu que uma grande quantidade de fabricantes de Hardware (Nokia, Motorola, Siemens...) utilizasse Android. Baseado no Sistema Operativo Linux e com o Google a financiar economicamente o projecto Android, conseguiu que se tornasse no sistema com a maior quantidade de programadores e utilizadores. No final de 2010 o Android tornou-se o sistema operativo mais utilizado em dispositivos móveis e no início de 2012 cerca de 59% dos telemóveis produzidos já vinham com Android nativo. O iOS, sistema operativo da Apple para dispositivos móveis, teve a sua primeira aparição em 1997 com o iPhone. À data, não seria possível para nenhum dos dispositivos móveis existentes, suportar um sistema tão pesado como o iOS e só com uma programação à medida, acesso a todos os requisitos do hardware

na altura em que se estava a programar o sistema operativo, é que seria possível construir um dispositivo daquele género. Os dispositivos móveis da Apple têm a seu desfavor o preço. Um iPhone poderá custar em média cerca de 500€ enquanto um dispositivo móvel com Android poderá não chegará aos 80€. Se no nível de desempenho pudessem existir algumas diferenças, actualmente os dispositivos Android já superaram o seu rival da Apple em quase todos os aspectos. Existe um aspecto que ainda não conseguiu ser superado pelo Android e possivelmente nunca será, o estatuto. Quem adquire um iPhone, não está só a comprar um telemóvel, está também a comprar um cartão-de-visita e uma demonstração de riqueza. Um utilizador de iPhone faz questão de ter autocolantes da Apple colados

em todos os locais visíveis... carro, mala, secretária... e sempre que se senta com amigos o telemóvel fica em cima da mesa num localbem visível. Algo introduzido pelos dispositivos móveis em que o iOS foi pioneiro foi a instala-

ção de software que não vinha instalado de origem. Depois de adquirir um iPhone era possível ao utilizador instalar um sem número de aplicações com um enorme número de funções. Esta especificidade técnica que fazia com que o iPhone se pudesse adaptar ao proprietário foi seguinda também pelo Android, sendo uma característica dos dois sistemas. Antes de adquirir um sistema com iOS ou um Android é necessário fazer um estudo cuidado do aparelho para que melhor se adeque ao utilizador. Para além dos smartphones ainda existem muitos dispositivos da velha guarda para utilizadores menos exigentes. Para utilizadores exigentes e que não se adaptem aos sistemas de navegação por touch, existem ainda Smartphones que permitem a simples navegação através de teclado, como o Blackberry. A escolha é complexa e sem dúvida continua a não ser unânime, mas para quem seja efectivamente um adepto de tecnologia, os sistemas Android estão muitos pontos à frente dos seus rivais da Apple.


Colaboração Quanto vale a minha saúde?

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Francisco Teixeira d’ Aguiar Norton Brandão (282/1996) fnortonbrandao@gmail.com

Quanto vale a minha

saúde?

Estávamos na pós-histeria da gripe A, quando, na minha faculdade, apareceram uns alunos de outra universidade a perguntar se podiam contar com a nossa ajuda para um trabalho estatístico, que constituiria a sua tese de final de curso. Como não podia deixar de ser, o tema era a tão badalada gripe. Após várias perguntas que ferozmente testavam o conhecimento sobre a dita doença, havia no questionário uma pergunta que se destacava das outras, que dizia: “Qual o máximo que estaria disposto a pagar por uma vacina da gripe?”. Não me recordo ao certo da minha resposta, mas lembro-me de ter falado com os meus colegas sobre essa exacta pergunta. A resposta comum entre eles foi qualquer coisa do género “Nunca pagaria mais de 5-10€ por uma coisinha daquelas!”. Este é aquele tipo de perguntas onde não há resposta certa, até porque se trata da nossa saúde, mas eu penso que esta é uma resposta errada, acima de tudo porque foi mal ponderada. Existe um benefício óbvio em tomar uma vacina, que é diminuir (muito!) a probabilidade de sermos alvo de determinadas doenças infecciosas, isto é, aumentar a probabilidade de sermos saudáveis durante mais tempo. Por isso, aqui, a verdadeira pergunta é: até quanto estamos dispostos a pagar por essa saúde? Sendo parte inerente da saúde o nosso bem-estar, que é um sentimento subjectivo, não é possível colocar-lhe um preço. Mas, apesar de tudo, é, de certo modo, possível dizer que esse bem-estar vale um mínimo de dinheiro. Ora vejamos: A vacina da gripe é uma vacina menos eficaz que o outro tipo de vacinas que costumamos tomar. Isto porque ela é fabricada para nos proteger das estirpes do vírus da gripe que foram mais prevalentes no ano anterior. Uma vez que estas estirpes estão em constante mutação, vão aparecendo sempre novas estirpes que são resistentes à vacina. Para elas, só servirá a vacina do próximo ano. Em particular, estudos apontam para uma eficácia de 8% a 48% no escalão etário dos 18 aos 49 anos, que é onde a vacina é menos eficaz1 .

Para este artigo, vamos assumir que, no meu caso e dos meus colegas, a vacina tem uma eficácia de 30%, ou seja, reduz em 30% o número de vezes que tenho gripe. Vamos então assumir que, se não tomar a vacina, apanho uma gripe 1 vez em cada 2 anos e que, em cada uma dessas vezes, fico doente durante 5 dias, 3 dos quais úteis. Se tomar a vacina no início de cada época, reduzo a frequência da gripe aproximadamente para 1 vez em cada 3 anos, dada a sua eficácia de 30%. Portanto, em média, passei de 1,5 dias/ano doente para 1 dia/ ano doente, por ter tomado a vacina. Subtraindo, ganhei meio-dia de saúde por ano. Se eu trabalhar por conta própria e conseguir 1000 €/mês (sendo que, se não trabalhar, não recebo), com 22 dias úteis/mês, terei um ordenado de cerca de 45 €/dia, ou seja, 22,5 € para meio-dia. Concluindo, tomar a vacina da gripe todos os anos faz com que eu perca, em média, 22,5 € a menos do que perderia se não a tomasse. Assim sendo, dizer que “Nunca pagaria mais de 5-10 € por uma coisinha daquelas!” é uma decisão monetariamente errada, se se verificarem estas condições! E isto falando meramente de dinheiro. Penso que a maioria de nós não gosta de estar doente e portanto teria ainda mais benefícios em tomar a vacina. A moral aqui é que o valor que damos às coisas não deve ser só o seu custo de produção e margem de lucro que lhe consideramos razoável. Devemos ter em conta quais os benefícios que as coisas nos trazem. Um bom ponto de partida é o valor monetário que conseguimos tirar delas e esse será o valor mínimo que têm para nós. É aqui que alguma matemática simples nos pode ajudar a tornar uma decisão “feita às cegas” numa decisão ponderada e, acima de tudo, quantizada, o que nos permite estabelecer o limiar entre dizer “compro” ou “não compro”. A título informativo, posso dizer que este ano tomei a vacina da gripe e que me custou aproximadamente 6 € (sem receita médica) mais 2,5 € para que um enfermeiro na farmácia ma administrasse.

1 - Osterholm MT, Kelley NS, Sommer A, Belongia EA. Efficacy and effectiveness of influenza vaccines: a systematic review and meta-analysis. Lancet Infect Dis 2011; published online Oct 26. DOI:10.1016/S1473-3099(11)70246-0


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Colaboração Pode haver guerras justas?

Nuno António Bravo Mira Vaz 277/1950

Pode haver guerras justas? Durante séculos inumeráveis, o homem não manifestou dúvidas acerca da justeza das guerras: eram justas as desencadeadas pela sua tribo, pelo seu príncipe ou pela sua religião, e injustas as iniciadas pelos seus inimigos. Só a partir de certa altura, seguramente há milhares de anos, é que a violência física associada às guerras passou a ser questionada por sectores mais esclarecidos da Humanidade, alguns dos quais põem mesmo em causa a possibilidade de haver “guerras justas”.1 As tentativas para enquadrar teoricamente a problemática vêm pelo menos desde Santo Agostinho, autor da primeira fórmula conhecida, no mundo ocidental, para ligar as causas da guerra a um julgamento moral. S. Tomás de Aquino, uns séculos mais tarde, elaborou uma teoria sistematizada da “guerra justa”, em torno de três princípios: para assim ser considerada, a guerra tem de ser declarada por autoridade competente, tem de possuir uma justa causa e tem de apresentar recta intenção. Este entendimento atravessou toda a Idade Média, caucionando a empresa das Cruzadas, com as quais o cristianismo respondeu ao conceito de “guerra santa” desenvolvido pelo pensamento islâmico. A primeira iniciativa moderna para controlar o uso da força militar dos Estados ocorreu em 1815, quando os países representados no Congresso de Viena decidiram que o recurso à força militar, na Europa, implicava o assentimento prévio das Grandes Potências. Um século mais tarde, o Pacto da Sociedade das Nações considerou ilegal o recurso à guerra como instrumento da política, excepto nos casos de legítima defesa. Vinte anos depois, no decurso dos julgamentos de Tóquio e de Nuremberga, foi dado novo passo, quando se estabeleceu o princípio da responsabilidade individual, tanto

para o desencadeamento duma guerra de agressão como para a violação das respectivas leis. A partir daqui, nenhuma pessoa pode explicar que cometeu uma atrocidade em virtude de ter recebido dum superior uma ordem expressa nesse sentido. À luz da nova lei, mandante e executante são solidariamente responsáveis. Este ordenamento jurídico, embora rigoroso, nunca dispôs dum mecanismo sancionatório que assegurasse efectividade às suas disposições. Tal desiderato só veio a ser alcançado quando a Carta das Nações Unidas, para além de proibir o recurso à violência para dirimir divergências,2 atribuiu ao Conselho de Segurança a legitimidade para decretar medidas militares em resposta a uma ameaça à paz ou a um acto de agressão. Deste modo, a guerra passou a ser aceite apenas como o último recurso dos Estados que precisem de reagir, em legítima defesa, contra uma agressão perpetrada do exterior, tendo ipso facto a ONU sido reconhecida pela comunidade internacional como fonte suprema de legitimidade na ordem externa. Nos anos 60 e 70 do século XX, abriram fissuras de consciência por todo o mundo ocidental. As lutas anticolonialistas de forma geral e a guerra do Vietname de forma particular, impuseram nos países democráticos um novo olhar sobre as modalidades de emprego da força militar. Nesta reflexão empenharam-se grandes massas de cidadãos, de tal forma que a discussão sobre os fundamentos teóricos da guerra justa deixou de estar restringida às elites políticas e académicas. Os próprios militares profissionais, sabedores do que aconteceu em My Lai e em Wiriamu, têm procurado fazer ver que a sua profissão não é compatível com formas menos dignas de fazer a guerra. Tendo contactado de perto com

as guerras revolucionárias e subversivas, compreenderam que elas se ganham nos corações e nas mentes das pessoas e não se cansam de chamar a atenção para um ponto essencial: se existem razões de Estado para se combater com justiça, então esta passa à categoria de requisito militar. Nos últimos dois séculos, como se vê, a violência armada sem justificação foi condenada de forma consistente no espaço euroatlântico. Neste período, foi possível aprovar as Convenções de Haia relativas às Leis e Costumes da Guerra Terrestre, as Convenções de Genebra relativas ao tratamento de prisioneiros de guerra ou à proibição do uso de agentes químicos, e a Carta das Nações Unidas, que proíbe, no seu artigo 2.º, n.º 4, o uso da força nas Relações Internacionais, com duas excepções: para os casos de legítima defesa e para as medidas militares decretadas pelo Conselho de Segurança em resposta a uma ameaça à paz ou a acto de agressão. Pode também afirmar-se que, no final do século XX, um assunto que até aí interessava apenas a sectores minoritários, passou a matéria de discussões que alastraram praticamente a todos os sectores das sociedades desenvolvidas. Em muitos locais do mundo, cidadãos concentram-se aos milhares para protestar contra a passividade da comunidade internacional em Srebrenica ou para exigir a intervenção imediata na Líbia ou na Síria. Cinquenta anos atrás, o que se passava no Afeganistão ou na Sérvia era da exclusiva competência das autoridades nacionais e ninguém se lembraria de propor ali intervenções por razões humanitárias. Este reforço do interesse dos cidadãos pela temática da “guerra justa” atingiu um tal grau de intensidade e dimensão, que justifica uma tentativa para

1 - Os pacifistas, por exemplo, consideram ser dever dos cristãos olhar todo o homem como irmão, mesmo o mais mortal dos inimigos. O pacifismo condena toda a guerra como imoral e proíbe os seus aderentes de nela participarem. 2 - O artigo n.º 2., 4º., é explícito: «...os membros deverão abster-se nas suas relações internacionais de recorrer à ameaça ou ao uso da força, quer seja contra a integridade territorial ou a independência política de um Estado...».


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se perceber em que circunstâncias ocorreu. Primeiro que tudo, a maturação do sistema democrático. Não só porque a democracia é tendencialmente avessa à violência e ao arbítrio como formas de resolver divergências, mas também porque é próprio dela trazer os cidadãos para o centro do debate político. Cidadãos que estão hoje informados de forma mais completa e oportuna sobre o seu país e sobre o mundo do que estavam os antepassados, e que se sentem por isso mais aptos a participar, e num registo mais construtivo, na formulação das estratégias nacionais. Em segundo lugar, a globalização, com a sua teia de interesses partilhados e a capacidade de disponibilizar informação instantânea sobre o que se passa no mundo, forçando todos à solidariedade com os que sofrem. Uma coisa é ler-se, com um mês de atraso, uma notícia de jornal sobre os genocídios da Bósnia ou do Ruanda; outra, bem diferente, é visitar os locais dos massacres com uma diferença de poucas horas, para não falar das reportagens que mostram os assassinos no acto de matar as vítimas. Sabendo-se o quanto as sociedades modernas valorizam os direitos fundamentais dos indivíduos e das comunidades, não deve estranhar-se o interesse pela “guerra justa”, já que ela visa justamente a protecção universal dos direitos humanos, mesmo nos casos em que isso signifique prejuízo da soberania das unidades políticas. A necessidade de enfrentar o terrorismo transnacional é outro motivo que explica o recrudescimento do interesse pela teoria da “guerra justa”. Quando se fala de terrorismo fundamentalista, toda a gente percebe que se está perante uma forma imoral de guerra. Mas, para a vencer, é aceitável que se desça ao nível do próprio terrorismo? Após os ataques do 11 de Setembro e durante um curto período de tempo, a sanha contra os perpetradores de tamanho horror levou muita gente a reclamar vingança sem olhar a meios; mas com o passar dos dias as tensões foram-se apaziguando e a polémica foi reconduzida ao dilema original: para vencer o terrorismo, podemos usar as mesmas armas que ele? Entretanto, no virar do milénio, a comunidade estratégica descobriu que o conceito de segurança colectiva, baseado no equilíbrio dos Pactos e no direito de “não-inge-

rência”, que ordenara o mundo no decurso da Guerra-Fria, não era aplicável à nova conflitualidade, feita de terrorismo cego e de desavenças intra-nacionais de raíz étnica ou religiosa. De forma largamente consensual, o direito de “não-ingerência”, que proibia qualquer intervenção estrangeira nos assuntos internos dos países, transformou-se progressivamente no “direito/dever de ingerência”, nos termos do qual a comunidade internacional é incentivada a intervir no próprio interior das unidades políticas para salvar populacões do genocídio e de outros crimes contra a humanidade. Por último, ocorreram avanços significativos nas tecnologias militares, as quais permitem hoje aos civis sonhar com “guerras imaculadas”, acções militares executadas contra alvos exclusivamente militares através de bombardeamentos aéreos de grande altitude e elevada precisão, que permitem poupar vidas inocentes. Esta ideia, a de que a tecnologia tornou possível um campo de batalha de “zero mortes”, deve ser encarada com muitas cautelas, visto que, quando se desencadeia a violência armada, nem sempre é possível mantê-la dentro dos estritos limites da razoabilidade. Apesar de saberem isso, as sociedades democráticas são cada vez mais avessas a ouvir falar de mortos, sejam nossos, sejam dos nossos inimigos. Trata-se, é bom de ver, de uma expectativa aliciante, que poderia, a concretizar-se, constituir um exemplo perfeito de “guerra justa”, mas é uma expectativa utópica, que no próprio acto de concretizar-se incorre em risco de irracionalidade. De facto, de uma forma quase imperceptível, por força desta convicção, chegou-se a uma situação em que as forças enviadas pelas democracias a repor a paz nos Balcãs tinham como missão prioritária, mais do que a vitória militar, a de não sofrerem baixas. A situação foi testemunhada, no final dos anos 90, por Charles Moskos, que foi à Bósnia perguntar aos comandantes militares americanos qual era a sua missão e que recebeu uma única resposta, do escalão mais baixo até ao comandante-chefe: “a minha missão é não ter baixas”. Enquanto isso, os políticos que lhes haviam consignado essa missão, esperavam que os aviões não tripulados, os mísseis de cruzeiro e as plataformas aéreas “stand off” fossem capazes de garantir pre-

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cisões cirúrgicas com danos colaterais insignificantes, e com custos financeiros reduzidos, por forma a sossegar as inquietações economicistas das opiniões públicas. É cedo para se fazer a história das intervenções multilaterais, mas algumas lições já estão disponíveis. Uma delas respeita justamente à necessidade de as opiniões públicas ocidentais compreenderem que a resolução oportuna dos conflitos nem sempre é compatível com a rejeição social das baixas em combate. Como se viu na Bósnia, quando se cria a impressão de que uma força militar não é, na realidade, uma força de combate, o cumprimento da missão fica irremediavelmente prejudicado. Como recorda Lutwakk, “o bluff foi exposto com uma rapidez inusitada; e o resultado foi que os capacetes azuis se viram transformados em espectadores passivos dum conflito interminável e recheado de atrocidades”3. O general Philipe Morillon, antigo comandante da Força de Protecção das Nações Unidas na Bósnia, é ainda mais impressivo: “como podem os soldados estar prontos para matar, se não estiverem prontos para morrer?” Num tal contexto, o que se passa no coração do combatente? Na esmagadora maioria dos casos, sente necessidade de agir no respeito por um quadro jurídico validado internacionalmente, porque dessa forma pode conciliar as suas referências morais com os requisitos da missão. Dito de outra forma, importa-lhe saber que as ordens recebidas são compatíveis com o conceito de “guerra justa”. Esta necessidade não é neutra, pois só quando a guerra é considerada “justa” é que a opinião pública do país manifesta reconhecimento pelo alto valor dos “seus” militares e respectivas missões. Se bem que nem todas as dificuldades de natureza conceptual tenham sido removidas, hoje está-se perto de poder propor um conceito de “guerra justa” aceite por todas as partes e capaz de consagrar o triunfo dos valores morais sobre a violência bruta. Todavia, como faz notar José Manuel Pureza, persistem na ordem internacional algumas dificuldades que urge desmontar. A primeira tem origem no facto de o sistema internacional não ser, como seria desejável, uma estrutura ordenada e pacífica, um império da lei onde cada membro acata sem reservas os ditames das Organi-

3 - LUTTWAK, Edward N., «From Vietnam to Desert Fox: Civil-Military Relations in Modern Democracies», London, Survival, vol. 41, nº 1, Spring 1999, p. 109


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zações internacionais. A segunda resulta de o Direito Internacional, apesar de todos os avanços recentes, continuar a não ser capaz de impor ao mundo directrizes indiscutidas. A última está ligada à falta de consenso, no seio da comunidade internacional, sobre as circunstâncias, os objectivos e os procedimentos para o uso autoritário da força, nos termos da Carta das Nações Unidas4. A prudência recomendada por Pureza tem toda a razão de ser, uma vez que, a despeito de todo o seu peso político, a ONU só em duas ocasiões (na Coreia em 1950, e no Iraque em 1991) foi capaz de dar uma resposta colectiva ao abrigo do disposto na sua própria Carta, porque noutras ocasiões de conflito armado os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança se revelaram incapazes de conciliar posições. E foi para de alguma forma se subtrair a esse ónus, que a ONU, na última década, redefiniu as suas funções de garante da paz e da segurança internacionais, passando a privilegiar as operações de apoio à paz e as operações humanitárias,5 enquanto, por outro lado, admitia que o direito de legítima defesa incluísse a chamada legítima defesa preventiva.

O que é uma “guerra justa”? Recapitulando: a necessidade que qualquer pessoa sente de combater por causas justas não é de hoje, e faz já muitos séculos que o pensamento ocidental se vem ocupando do tema, buscando uma fórmula de “guerra justa” que, apoiada em critérios objectivos, possa ser aceite por todas as partes envolvidas em conflito. Em certas situações mais complexas e fluidas, esta objectividade pode, infelizmente, ser questionada, mas tal não justifica que se abdique da objectividade dos critérios de apreciação, antes pelo contrário. Ter-se-á é de utilizar maior flexibilidade na sua aplicação. Apesar de todas as reservas expressas, existe hoje um conceito de “guerra justa” que já foi referendado por uma parte muito significativa da comunidade internacional, por sectores largamente maioritários de Governos e de partidos políticos, e também por académicos, diplomatas e militares. Um conceito que permite emitir um juízo fundamentado sobre a maioria dos conflitos que ocorrem no mundo.

Este conceito de “guerra justa” pode decompor-se em três tempos: o ius ad bellum, o ius in bello e o ius post belum. O ius ad bellum - avalia-se o acerto da decisão tomada sobre a participação na guerra. São ponderados os motivos que fundamentam a decisão, a sua oportunidade e a sua racionalidade estratégica. - apreciam-se as causas da guerra, procurando determinar se elas têm justificação. A Carta da ONU é explícita: só se justificam as guerras defensivas, isto é, em reacção a uma invasão ou ameaça de invasão por potência(s) estrangeira(s), ou para pôr termo a um genocídio, ou para evitar crimes contra a humanidade, sendo absolutamente proibida toda a iniciativa destinada a desencadear um conflito armado. Convém em todo o caso anotar que alguns autores admitem alargar a noção de causa justa à intervenção em favor de Estados que se revelem incapazes de se proteger a si próprios contra as agressões de terceiros6. As Nações Unidas, por seu turno, procederam a um redimensionamento do direito de legítima defesa, por forma a incluir a chamada legítima defesa preventiva, contra formas não convencionais de ameaça à soberania dos Estados - certifica-se de que a decisão de ir para a guerra foi tomada pela autoridade legítima, no respeito escrupuloso pelo ordenamento democrático, e se houve declaração pública das causas e das intenções. Na actualidade, a regra geral é a de que essa decisão compete ao Conselho de Segurança das Nações Unidas. - averigua-se se existe recta intenção na decisão de participar na guerra, e não meros motivos de ocasião, sem dignidade estratégica. - assegura-se de que está prevista uma adequada proporcionalidade entre bons e maus resultados, através de uma análise de custo/benefício, por forma a perspectivar uma possibilidade razoável de sucesso e a garantir que a guerra não será em vão. - finalmente, confirma-se que a decisão de ir para a guerra é o último recurso, depois de esgotadas todas as outras vias – Resoluções e Recomendações das Organizações Internacionais, conversações entre as partes envolvidas, diplomacia paralela, sanções de natureza variada, ameaças de intervenção militar, etc.

O ius in belo Está relacionado com as regras morais que devem imperar na conduta da guerra - ocupa-se da discriminação, assegurando-se de que a força militar seja usada exclusivamente contra alvos legítimos, e de que os prisioneiros de guerra, os feridos e os não combatentes sejam tratados com urbanidade. - a violência da reacção tem de ser proporcional ao ataque sofrido. - em cada ocasião deve recorrer-se ao mínimo de força necessária à obtenção dos objectivos, de forma a que a quantidade de violência, em tipo e em quantidade, não exceda a necessária para realizar o fim em vista. O ius post bellum Este elemento da guerra justa é de conceptualização muito recente e por isso ainda não foi suficientemente teorizado, mas há já ideias firmes acerca da melhor maneira de compatibilizar a justiça pós-guerra com a justa causa da guerra e com a condução adequada das operações militares. No essencial, trata-se de garantir que o resultado final das operações militares desencadeadas por causa justa e eticamente executadas, não seja estragado no período de rescaldo. Mesmo uma intervenção mal compreendida de início pode vir a revelar-se um empreendimento justificado, se os resultados forem compensadores. O que nunca fará sentido é invadir-se um território estrangeiro para derrubar um regime corrupto ou impedir um genocído, para depois retirar as forças militares sem ajudar as populações a reconstruir as suas vidas, ou deixando no poder um novo regime despótico. A violência só se considera vencida quando as partes desavindas estão reconciliadas e a vitória só é alcançada quando a região que foi objecto da intervenção militar se encontra em melhores condições – sociais, económicas e políticas – do que antes da intervenção. Em resumo: começa-se por questionar a legitimidade das unidades políticas para utilizar a guerra como instrumento de política externa; em seguida, estabelecem-se as restrições morais ao modo de a conduzir e vigia-se o seu cumprimento; finalmente, decreta-se que na guerra não vale tudo, devendo as partes respeitar um dado conjunto de regras.

4 - PUREZA, José Manuel, «Da Guerra Justa à Guerra Justificada?», Lisboa, CICED - Centro Interdisciplinar de Estudos Económicos, Política Internacional, vol. I, n.º 10, Inverno 1994-1995, pp. 68-69 5 - Está em curso um processo de transposição da “assistência humanitária” para a “ingerência humanitária” e finalmente para a “intervenção humanitária”, com a intenção de impor, perante o alheamento ou a oposição do Estado territorial, a ajuda humanitária às vítimas dum conflito interno. Atente-se no que se passou recentemente na Líbia. 6 - De acordo com Michael Waltzer, as excepções que podem justificar moralmente a guerra na ausência de uma ameaça manifesta, consistindo por isso causa justa, são: a intervenção por antecipação em casos em que a agressão esteja iminente, pondo em risco a integridade territorial e a soberania do Estado; a intervenção para anular os efeitos de uma intervenção anterior; a ingerência em situações provadas de violações dos direitos humanos, assumindo como que um estatuto de “intervenção policial” para por cobro a actuações criminosas de Estados; o auxílio a movimentos secessionistas, desde que provado o seu carácter representativo. (NYE, Joseph, Compreender os conflitos internacionais, Lisboa, Gradiva, 2002, pp. 188 189, cit. VICENTE, João Paulo Nunes, “O direito à Guerra Justa”, Revista Militar 2451, Lisboa, Junho de 2006, p. 363


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António José Fonseca Cavaleiro de Ferreira 332/1950 Vice-Almirante* (Reformado)

Manutenção da Capacidade Submarina Suas Vicissitudes e Consequências Excerto do artigo publicado na Revista Militar Nº 12 – Dezembro de 2011

Generalidades Com as cerimónias de entrega do NRP “Tridente”, ocorrida na Base Naval de Lisboa a dia 8 de Setembro de 2010 e do NRP “Arpão”, que teve lugar em Kiel (RFA) a 22 de Dezembro de 2010, iniciou-se o ciclo de vida da 5ª Esquadrilha de Submarinos, infeliz e inexplicavelmente constituída unicamente por dois navios. Tendo presente a indispensabilidade da componente submarina das forças navais portuguesas e, muito em particular, as condições únicas e verdadeiramente excepcionais em que operam os submarinistas, entendo ser chegado o momento de legar aos vindouros as vicissitudes porque passou o programa de manutenção da capacidade submarina formalmente iniciado em 1995. Não tendo optado pela vida naval nos submarinos não tenho necessariamente experiência vivida por aqueles que no silêncio dos fundos dos oceanos, em compartimentos extraordinariamente exíguos vivem dias e dias sem privacidade alguma, de forma serena e lúcida dando sempre o seu melhor, cumprem e acatam sem qualquer hesitação as ordens do seu Comandante, perfeitamente conscientes que do seu comportamento e grande profissionalismo depende o regresso à “superfície”. Tenho por eles uma extraordinária admiração!

Antecedentes Numa breve e sucinta resenha sobre as origens da capacidade submarina em Portugal é da mais elementar justiça relembrar que foi na sequência da actividade desenvolvida, ainda no século XIX, pelo 1º Tenente João Augusto Fontes Pereira de

Mello – mais precisamente em 1889 com a apresentação do primeiro projecto português para a construção de um submarino – que em 1910 foi assinado em Itália o contrato para aquisição do primeiro submersível o NRP “Espadarte”, que veio a ser entregue à Armada em 1913 e a que se juntaram o NRP “Foca”, NRP “Golfinho” e NRP “Hidra” a partir de 1915, formando a 1ª Esquadrilha de Submersíveis ainda em plena I Grande Guerra. À época os submersíveis eram vistos como uma arma menos nobre e, na maior parte das potências navais, o seu estado de desenvolvimento era muito rudimentar. Com o decorrer da I Grande Guerra a sua utilização como arma ofensiva foi uma surpresa e cedo se lhes reconheceu valor militar e operacional. O caso talvez mais gritante ocorreu em 22 de Setembro de 1914 ao Sul de Dogger Bank quando o HM “Aboukir”, HM ”Hogue” e HM ”Cressy”, três couraçados-cruzadores da Royal Navy de 12.000 toneladas cada, andavam em patrulha e foram afundados pelo submarino alemão “U 9”, de 500 toneladas, em menos de 1 (uma) hora. Decorridos cerca de 21 anos teve início a constituição da 2ª Esquadrilha de Submersíveis com a entrega do NRP “Delfim” a 1 de Dezembro de 1934 e de que fizeram parte o NRP “Espadarte” e o NRP ”Golfinho”, que haviam sido encomendados ao estaleiro Vickers, do Reino Unido. Até finais de 1950 a 2ª Esquadrilha participou em todas as manobras e exercícios nacionais nas áreas do Continente, dos Açores e da Madeira e intensificou o ensaio e o treino de tácticas anti-submarinas, desenvolvendo

uma muito eficiente e significativa actividade operacional. Em 1939 o NRP “Golfinho” realizou a primeira viagem de soberania de um submersível à Guiné e nas vésperas da eclosão da II Grande Guerra visitou Sevilha na companhia do NRP “Delfim”.

Primeiro Tenente João Augusto Fontes Pereira de Mello

No final da II Grande Guerra (1939-1945) o Reino Unido cedeu a Portugal três submersíveis com pouco mais de três anos de serviço, que formaram a 3ª Esquadrilha. Os NRP ”Narval”, NRP “Neptuno” e NRP “Nautilo” continuaram a executar missões de soberania na área marítima nacional e a realizar grande actividade de treino operacional com forças navais nacionais e internacionais. A partir de 1958 mereceu


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especial cuidado a integração de forças navais nacionais, em particular da 3ª Esquadrilha de Submersíveis, em exercícios com forças da NATO. Em plena guerra do Ultramar – em 1964 – a França, no âmbito de uma independente politica externa adoptada pelo General De Gaulle, quebra o embargo da venda de material de guerra a Portugal e aceita uma encomenda de quatro submarinos. Com o lançamento em Nantes do NRP ”Albacora” em Outubro de 1966, a que tive a oportunidade de assistir na qualidade de Ajudante de Ordens do então Chefe do Estado-Maior da Armada, Almirante Armando de Roboredo, tem início a 4ª Esquadrilha de Submarinos de que posteriormente fizeram parte os NRP ”Barracuda”, NRP ”Cachalote” e NRP ”Delfim”. Trazem consigo a mais moderna tecnologia de submarinos convencionais e são, à época, considerados as “jóias da coroa” da Armada Portuguesa que, pela primeira vez, dispunha de submarinos na verdadeira acepção da palavra, caracterizados por um alto grau de discrição, grande capacidade táctica e operacional. Portugal passou a dispor de um importante e eficiente

dissuasor no âmbito do conceito Estratégico de Defesa Nacional com capacidade de infiltração, mesmo em áreas com superioridade aéreo naval do opositor, e de ataque.

NRP Barracuda Durante os quase 40 anos de vida ao serviço da Armada a 4ª Esquadrilha destacou-se em missões de salvaguarda do espaço marítimo nacional e na participação em muitos e variados exercícios nacionais e internacionais, com particular incidência no âmbito da Aliança Atlântica. O NRP ”Barracuda” em 1982 torpedeou com êxito um navio mercante que à deriva representava real e sério perigo para a navegação. Aquele mesmo submarino em 1984 quando regressava de um exercício NATO ao largo de Gibraltar, cruzou-se com uma força naval dos Estados Unidos da América e iludindo a escolta ao porta-aviões, veio à superfície e a cerca de 500 jardas simulou um ataque ao navio Almirante da força. Na altura comandava o NRP “Comandante Roberto Ivens” e tive o ensejo de presenciar e testemunhar o “incidente”, a azáfama e alarido que o atrevimento

do Capitão-tenente Brites Nunes, que ao tempo comandava o NRP “Barracuda”, provocou nas hostes americanas. As consequências foram porém muito graves para o Almirante comandante da força e para o Comandante do porta-aviões. Ambos foram sumariamente exonerados e as suas carreiras inopinadamente terminadas, consequências estas que não estavam nas intenções e muito menos eram desejadas pelo Comandante e guarnição do submarino português que, na sua perspectiva, viram e apenas aproveitaram uma excelente e raríssima oportunidade de treino para tentar a capacidade de penetração numa densa e poderosa cortina de protecção de um porta-aviões. Também em 1993 o NRP ”Delfim” participou activamente num teatro real de operações em que as forças da NATO procederam ao embargo aos países da ex-Jugoslávia e mais tarde, em 11 de Junho de 2001, no exercício de salvamento submarino realizado em Ramsay (Escócia) em que, assente no fundo à profundidade de 146 metros, 17 (dezassete) elementos da sua guarnição passaram para bordo de um veículo de salvamento britânico.


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Capacidade Submarina Não esquecendo que as “Alianças” valem o que valem e que quando invocadas só resultam se no momento houver interesse mútuo das partes envolvidas, importa ter sempre presente que as necessidades de unidades navais no contexto da Aliança Atlântica fazem parte dos efectivos nacionais e que estes serão prioritariamente utilizados em defesa do interesse nacional. A capacidade dissuasora e de infiltração da arma submarina, consequência das suas características operacionais muito peculiares, em que a sua actuação discreta é a mais relevante, constituem só por si o argumento mais importante e decisivo para a manutenção de uma Esquadrilha de Submarinos. A capacidade submarina é imprescindível para assegurar a soberania do mar e, consequentemente abdicar desta traduz-se num convite às outras potências marítimas para nos substituírem. Não faltam candidatos, nomeadamente a Espanha, Estados Unidos da América, França, Reino Unido e outros mais. É do conhecimento geral, mas nunca é demais relembrar, que no conflito das Falklands/Malvinas, que teve lugar de 2 de Abril a 14 de Julho de 1982, o submarino nuclear HMS “Conqueror”, da Royal Navy foi protagonista da grande capacidade dissuasora e de infiltração da arma submarina. Com efeito, a milhares de milhas do Reino Unido e com rotas logísticas extremamente vulneráveis, só por si garantiu rápida e eficazmente a superioridade naval na área, ao afundar com dois torpedos o cruzador argentino “General Belgrano”, em 2 de Maio de 1982. Como consequência, a Armada Argentina recolheu às bases e permaneceu ausente do teatro de operações até ao final do conflito. Todavia um dos seus submarinos convencionais de origem alemã da classe U-209-1200, o ARA “San Luis” (S-32), obrigou a força naval inglesa a manter um enorme e desesperado esforço anti-submarino, que quase ia esgotando os torpedos de que dispunha. Há que ter presente que todos os países da Europa com orla marítima, desde a Turquia à Noruega, possuem capacidade submarina com excepção da Bélgica (que na área naval tem parcerias “sui generis” com os Países Baixos), da Dinamarca, Estónia, Finlândia Letónia, Lituânia, Irlanda e dos países do

mar Adriático que constituíam a ex-Jugoslávia. Há ainda a acrescentar a situação dos países do mar Negro – Bulgária, Roménia, Ucrânia e Rússia – e a Este e Sul do mar Mediterrâneo – Israel, Egipto, Líbia e Argélia – todos eles com capacidade submarina. É indiscutível a necessidade imperiosa de dispor de uma capacidade submarina adequada para proteger a extraordinária área marítima de interesse nacional do Continente e dos arquipélagos dos Açores e Madeira, ou seja da Zona Económica Exclusiva Portuguesa, que em breve aumentará consideravelmente aquando da conclusão dos trabalhos da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental. Tudo indica que Portugal se tornará no país europeu com a maior plataforma continental no Atlântico Norte, com cerca de 3,85 milhões de km², ou seja um valor equivalente ao somatório das áreas dos seguintes países, a saber Portugal, Espanha, França, Irlanda, Reino Unido, Bélgica, Luxemburgo, Países Baixos, Alemanha, Dinamarca, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Roménia, Bulgária, ex-Jugoslávia, Áustria, Suíça e Itália. É impensável ter fragatas oceânicas e não dispor de submarinos para as proteger. Se houver necessidade de estabelecer prioridades não há que hesitar na escolha – deve optar-se pelo submarino e sempre um mínimo de três unidades, para assim garantir a permanente disponibilidade e prontidão de pelo menos 1 (um). Em termos financeiros são menores o custo de aquisição de um submarino comparativamente com o custo de uma fragata oceânica, como também são inferiores as despesas de manutenção, operacionais e de pessoal. A guarnição do submarino versus de uma fragata oceânica é substancialmente inferior – 33 homens cada submarino contra um mínimo de 180/200 cada fragata.

Processo de Aquisição e Suas Vicissitudes Desde 1996 até 2002 que, na qualidade de Superintendente dos Serviços do Pessoal (SSP), em acumulação com o cargo de Superintendente dos Serviços do Material (SSM) da Marinha e, mais tarde, de Director-Geral de Armamento e Equipamentos de Defesa/Director Nacional de Arma-

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mento, do Ministério da Defesa Nacional (MDN), participei activamente no processo de aquisição em apreço. Tive sempre presente uma recomendação do Almirante Armando de Roboredo, a propósito da perda do submarino francês S647 “Minerva” ocorrida já depois de termos recebido o NRP “Albacora”: “Sobre a vossa geração recairá a responsabilidade de substituir a 4ª Esquadrilha de submarinos. Não esqueçam, tenham sempre presente, os acidentes que recentemente ocorreram na Armada Francesa. A experiência aconselha que a escolha do submarino a adquirir venha a recair numa empresa, de um país que tenha esse mesmo tipo de submarino como parte do seu dispositivo naval.” Seguir aquela muita avisada recomendação constituía uma segurança para o comprador e Portugal viveu esta experiência, quando no final dos anos “60” adquiriu à França, por ajuste directo, 4 (quatro) submarinos da classe “Daphné” e cerca de um ano após a recepção do primeiro submarino – N.R.P. “Albacora” em 1 de Outubro de 1967 – a Armada Francesa, perdeu dois submarinos desta mesma classe e as respectivas guarnições num total de cerca de 110 homens. Foi o caso dos submarinos franceses S647 “Minerva” e S644 “Eurydice” perdidos em acidentes no mar respectivamente a 27 de Janeiro de 1968 e a 4 de Março de 1970, em condições ainda hoje mal conhecidas e nunca recuperados. Meses depois ocorreu mais um acidente com um submarino da mesma classe, que havia sido vendido à Armada da África do Sul. Felizmente foi viável recuperar este submarino e a sua guarnição. O Governo Francês assumiu todas as responsabilidades e com celeridade envidou todos os esforços para detectar as eventuais anomalias. Ao longo dos anos deu uma meticulosa e cuidada assistência aos submarinos que vendeu ao Paquistão (4), a Portugal (4), à África do Sul (3) e a Espanha (4). Alguns dos submarinos portugueses da classe “Albacora” estiveram 40 (quarenta) anos ao serviço com missões


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atribuídas. Todavia as consequências para o Governo francês foram de alguma forma desastrosas, porquanto a quebra de encomendas para exportação foi apreciável! Cerca de trinta anos mais tarde, em meados dos anos “90”, o conselho do Almirante Armando de Roboredo não foi tido em conta pelo XII Governo Constitucional. A opção pelo concurso público foi a considerada com a publicação do Despacho conjunto de 12 de Setembro de 1995, assinado pelos então Ministro da Defesa Nacional e Ministro da Indústria e Energia, e publicado no Diário da República II Série nº 223, de 26 de Setembro de 1995. Neste era expressamente determinado que devia ser considerada a análise pela opção relativa à aquisição submarinos em segunda mão da classe “Upholder”, da Royal Navy, sem prejuízo de prosseguir com o programa da manutenção da capacidade submarina, dando início à fase de definição do projecto de novos submarinos. O número de unidades a adquirir era fixado em três. Já em 1993 o Ministry of Defence (MOD), United Kingdom (UK) decidira que na Royal Navy só existissem submarinos nucleares e mandou desactivar e manter em “naftalina” os 4 (quatro) submarinos convencionais da classe “Upholder”, que haviam sido entregues no período 19901993. A partir de 1995, na qualidade de Superintendente dos Serviços de Pessoal/ Superintendente dos Serviços de Material da Marinha, tive ocasião de receber a visita de diversos Almirantes da Royal Navy e de Altos Funcionários do MOD UK e a convite destes desloquei-me ao Reino Unido. Apresentaram-me propostas de aquisição ainda antes de lançamento do concurso público internacional. O diálogo estendeu-se ao longo de vários meses com a argumentação mais variada, tendo sido invocados não só os interesses da Aliança Atlântica mas também os da mais “Velha Aliança da Europa”. Nunca considerei de interesse aquela aquisição. Tratava-se de uma classe de submarinos convencionais de tonelagem maior que o habitual, com uma guarnição semelhante aos da classe “Albacora” e sobretudo com graves problemas de carácter logístico, atendendo à inexistente garantia do vendedor em assegurar a reposição de sobressalentes. As infra-estru-

turas existentes na Base Naval de Lisboa (Alfeite), canal de acesso incluído, assim como o próprio Arsenal do Alfeite teriam de ser readaptadas e redimensionadas para os receber, com consequentes custos adicionais bastante elevados. Em 1996 os “Upholder” não mereceram o interesse da Marinha. Todavia, em 2 de Fevereiro de 1998 o MOD UK foi incluído na relação de estaleiros convidados a apresentarem as respectivas propostas o que não se verificou, porque quatro meses depois concretizou-se a sua venda ao Canadá. Fui acompanhando a saga da Armada Canadiana para modernizar operacionalmente os “Upholder”. Infelizmente o tempo deu-me razão quando em princípios de 2002 soube que continuavam em “fabricos”. Mesmo assim em alguns membros da nossa classe política, altamente responsáveis, o entusiasmo pela opção de submarinos em segunda mão era tal, que a 12 de Abril de 2002 o recém-empossado, Ministro da Defesa Nacional, do XV Governo Constitucional, veio a público questionar e criticar o anterior Governo por ter perdido a oportunidade de adquirir os “Upholder”. Curiosamente dias antes havia sido publicado um artigo, em revista da especialidade, dando conta que os “Upholder” continuavam inoperacionais e a ser motivo de preocupação para a Armada do Canadá. Em princípios de Dezembro de 1999, fui convidado pelo Ministro da Defesa Nacional para o cargo de Director-Geral de Armamento e Equipamentos de Defesa/Director Nacional de Armamento. Não tive dúvidas em aceitar o desafio, uma vez que me apercebi do quanto o Ministro estava empenhado em dotar a Armada de novos submarinos e de que não tinha qualquer relutância em recorrer a aquisições por ajuste directo, caso o interesse nacional assim o aconselhasse. Foi ainda aceite, ouvido o Chefe do Estado-Maior da Armada, a minha pretensão em tomar parte nas reuniões do Conselho do Almirantado, obviamente sem direito a voto por a legislação vigente não o consagrar. No dia 29 daquele mesmo mês tomei posse dos referidos cargos e por inerência assumi a presidência da comissão do Programa Relativo à Aquisição de Submarinos (PRAS). O número de concorrentes encontrava-se

reduzido a dois, os franceses da empresa estatal Direction de Constructions Navales (DCN) e os alemães da empresa privada Howaldswer-Deustche Werft (HDW). Pelo caminho tinham ficado outros estaleiros concorrentes que, na sua maioria, haviam sido adquiridos pela HDW. A DCN, empresa estatal francesa, apresentou-se com o submarino convencional da classe “Scorpéne” especialmente concebido para exportação, uma vez que a França optara por dotar a sua Armada exclusivamente com submarinos nucleares. Estabelecera uma parceria com a empresa espanhola IZAR, talvez na expectativa de garantir futuras encomendas da Espanha, uma vez que tudo indicava estar interessada no programa “Scorpéne” para substituir as classes “Daphné” e “Agosta”. Entretanto submarinos daquela classe já tinham sido vendidos ao Chile em 1999 e eram fortes os indícios de eventuais encomendas para a Índia, Malásia e Paquistão. No decurso de uma reunião bilateral com o Director Nacional de Armamento Espanhol, em 2001, tive o ensejo de visitar a base de submarinos em Cartagena. Na apresentação que então me foi feita fiquei a conhecer, em pormenor, o programa de renovação da capacidade submarina da Armada Espanhola. Consistia na aquisição de 9 submarinos, com opção de mais 3, estando em fase já avançada a definição de requisitos operacionais. Intrigado com o número apresentado pretendi saber do porquê da opção de mais 3 submarinos. Com alguma ironia o Comandante da Base Naval de Cartagena esclareceu que a Espanha, na eventualidade de Portugal não vir a adquirir submarinos, teria de estar preparada para actuar na extensa área marítima Portuguesa, pois esta não poderia ficar à mercê dos interesses Americanos, Franceses, Ingleses e eventualmente outros mais! A HDW, empresa privada alemã com grande experiência na construção de submarinos, concorreu com o U-209 – 1400, projecto que vinha sendo desenvolvido desde os anos “70” e sucessivamente melhorado com grande sucesso, tendo como opção a versão com Air Independent Propulsion (AIP), que permitia um aumento considerável do tempo em imersão e um enorme incremento da sua capacidade de actuação discreta.


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NRP Tridente

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Como é do conhecimento geral, antes do final da II Grande Guerra, a Alemanha estava a desenvolver um submarino com capacidades operacionais e características técnicas muito superiores às até então existentes, ou seja um submarino convencional que pudesse actuar nos oceanos,

Índia, Indonésia, Peru e Venezuela. Mais tarde, a partir de 9 de Novembro de 1989, na sequência da queda “Muro de Berlim” e a subsequente reunificação da Alemanha, foram levantadas as restrições impostas no final da II Grande Guerra. Nunca escondi, e eram do conhecimento público, as minhas grandes reservas quan-

naquele diploma legal foram escrupulosamente observadas e, quando da apreciação das propostas dos dois concorrentes, a Comissão PRAS pronunciou-se pela empresa francesa DCN, tendo o correspondente relatório sido entregue ao Ministro da Defesa Nacional em Junho de 2001. Em 3 de Julho de 2001, na sequência de uma pequena remodelação ministerial, um novo Ministro da Defesa Nacional tomou posse. A minha primeira preocupação foi conhecer das suas intenções quanto ao processo dos submarinos e na primeira audiência que me concedeu, ficou claro que nada havia a recear. Deu seguimento ao relatório da comissão PRAS que o seu antecessor lhe entregara. Porém, decorridos cerca de dois meses apercebi-me da intenção do Governo em reduzir para dois o número de submarinos a adquirir e quando me foi colocada a questão rebati-a veementemente, reiterando a necessidade de dotar a Armada com pelo menos três submarinos. Em boa verdade, o número deveria ser de pelo menos quatro, com opção de mais dois, tendo em conta as necessidades de protecção da nossa Zona Económica Exclusiva e da futura Plataforma Continental cuja área, nunca é demais recordar, deverá

longe da base de origem, permanecendo em imersão durante vários dias, com mais autonomia e motores de maior potência. O fim da guerra veio interromper aquele projecto e à Marinha Alemã só foi permitido manter dois submarinos U-206 que não podiam sair do mar Báltico. Só mais tarde, depois da adesão da Alemanha à NATO em 9 de Maio de 1955, foi considerada e aceite a sua participação na defesa da Europa mantendo, porém, restrições quanto à presença de submarinos alemães na área oceânica, à construção de novos submarinos e, em particular, à sua modernização e aumento da tonelagem. Ficavam excluídas destas restrições as unidades destinadas à exportação que, como atrás referi, estavam a ter grande sucesso a partir dos anos “70” e desde então tem vindo a ser adquiridos pelas mais diversas Marinhas, a saber por ordem alfabética, África do Sul, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Equador, Grécia,

to ao processo de aquisição adoptado pelo XII Governo Constitucional e mantido pelos sucessivos governos, desde a publicação do Despacho conjunto dos Ministros da Defesa Nacional e da Indústria e Energia, de 12 de Setembro de 1995 anteriormente citado. No entanto as especificações fixadas

aproximar-se dos 3,85 milhões de Km². O tempo foi correndo e o XIV Governo Constitucional caiu a 18 de Dezembro de 2001. Em meados de Janeiro de 2002 dei a conhecer, formalmente, a minha intenção de ser exonerado do cargo de Director-Geral quando passasse à situação de reserva ou


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seja no dia 31 daquele mesmo mês. Contudo aceitei manter-me em funções até que o novo governo saído das eleições legislativas de 17 de Março fosse empossado. A 18 de Fevereiro de 2002 fui confrontado com a informação oficial de que fora reduzido, de três para dois, o número de submarinos a adquirir, mantendo-se a opção de compra de um terceiro submarino pelo período de três anos, opção essa antecipável que nunca viria a ser exercida. Esta redução acabara por merecer a concordância do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada.

Problemática Aquisição dos Torpedos Versus a Opção pelo Programa Cooperativo Internacional (NH90), da NATO Paralelamente ao programa de aquisição dos submarinos e quase em simultâneo, corriam os estudos respeitantes ao armamento (torpedos e mísseis) a adquirir. Tratava-se de mais um outro processo de aquisição totalmente independente do processo em curso de aquisição de dois submarinos, mas com consequências na configuração destes. Por outro lado, sendo

um armamento altamente sofisticado e dispendioso, por razões de segurança objecto de um complexo conjunto de procedimentos, mas cuja aquisição era indispensável, havia que recorrer a empresas devidamente credenciadas e a primeira opção a fazer consistia na escolha entre armamento de origem americana ou europeia. Importava, pois, fazê-la com antecedência para

evitar atrasos na construção dos submarinos. Era conhecida a possibilidade, ainda que de difícil negociação, em obter dos EUA. a cedência de torpedos e/ou mísseis. Se fossemos bem-sucedidos haveria uma significativa poupança e uma diminuição de custos no preço final, além de vantagens do ponto de vista logístico decorrentes da obtenção de armamento semelhante ao existente


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nas fragatas da classe “Vasco da Gama”. Ao longo de cerca de três meses mantivemos vários contactos com elementos da Embaixada dos Americana, em Lisboa. A resposta final foi negativa e a opção não pôde ser adiada por mais tempo. A recusa americana atrás mencionada levou a que se encetasse processos de aquisições de armamento em algumas áreas da indústria europeia, nomeadamente no sector dos helicópteros. A profunda revisão da Lei da Programação Militar

portadas, evacuação sanitária, guerra electrónica, luta A/S e anti-superfície, reabastecimento vertical, lançamento de minas, etc. Aqueles quatro países viram no processo cooperativo a melhor forma de tirar vantagens decorrentes da normalização e da interoperabilidade de equipamentos, num cenário de emprego de forças cada vez mais internacionalizado. Era óbvia a diminuição de custos de produção, de operação e de manutenção bem

e na sua estrutura técnica de apoio, mas também no Comité Executivo da NATO Helicopter Management Organization (NAHEMO) e na integração das estruturas da NATO Helicopter Management Agency (NAHEMA), de acordo com a percentagem de participação e a correspondente atribuição de trabalho às indústrias nacionais. Em finais de 1999 tinham sido iniciadas, a pedido do Exército, diligências conducentes à adesão de Portugal a este programa cooperativo e

(LPM) ocorrida nos anos 2000 e 2001 passando do horizonte de 2 (dois) anos para 18 (dezoito) anos, a par do desenvolvimento de diferentes actividades nos domínios operacional, técnico, administrativo-jurídico e industrial, permitiram a adesão de Portugal ao primeiro programa cooperativo internacional NH 90, no âmbito da NATO. Com efeito a DGAED/MDN vinha acompanhando de perto desenvolvimento daquele programa cooperativo desde que fora iniciado nos princípios dos anos 90 com vista à concepção, desenvolvimento, produção e suporte logístico ao longo do ciclo de vida (cerca de 25 anos) do helicóptero médio “NH90”. Considerado adequado para cumprimento de missões das forças armadas de quatro países da NATO – Alemanha, França, Itália e Países Baixos – o programa consistia na produção de um helicóptero de dez toneladas, com uma plataforma comum com duas versões e que, em princípio, devia cumprir missões de transporte táctico, de pessoal e de material, busca e salvamento SAR e Combate SAR, operações especiais e helitrans-

como os benefícios a retirar de um programa comum europeu para o desenvolvimento de capacidades nacionais, no âmbito das indústrias relacionadas com a defesa. Um dos mais importantes princípios do funcionamento da organização consistia na igualdade de todos os participantes ao mais alto nível – o Comité Director – onde cada país independentemente do valor da sua participação dispunha de um voto, acautelando assim os interesses dos países mais pequenos na tomada de decisões estratégicas. Quanto a custos, havia sido estabelecido o princípio da divisão proporcional durante as várias fases do programa e, relativamente ao trabalho industrial, fora acordado que a NATO Helicopter Industries (NHI) asseguraria a divisão proporcional pelas indústrias nacionais de cada país participante, necessariamente de acordo com as respectivas capacidades tecnológicas. Em suma, para o nosso país estes princípios traduziam-se na participação de Portugal numa base de plena igualdade com os outros quatro países, não só no Comité Director

em 4 de Agosto de 2000, por determinação do Ministro da Defesa Nacional, foi formalmente apresentado o pedido de adesão, com carácter urgente para construção de 10 helicópteros NH 90, versão terrestre. A versão naval estava fora de causa por de momento desnecessária e também porque o “NH 90”, devido às suas características físicas, designadamente ao seu peso e dimensões, não poderia operar nas fragatas classe “Vasco da Gama”. A visita a Lisboa, em 12 de Dezembro de 2000, do Presidente da NAHEMA foi extraordinariamente proveitosa para a discussão e rápida clarificação de diversos aspectos do programa, já em avançada fase desenvolvimento. Determinante foi, também, o posterior encontro havido com o Chefe do Estado-Maior da Armada dos Países Baixos, por ocasião da sua visita oficial a Lisboa. Convidado a visitar a Eurocopter, a NAHEMA e a NHI, em 23 e 24 de Abril de 2001, tive com os respectivos Presidentes encontros e reuniões que se revelaram muito úteis e decisivas para o bom e rápido acolhimento das nossas neces-


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sidades e pretensões. A entrada de Portugal neste programa foi efectuada em condições a todos os títulos excepcionais e as negociações decorreram com celeridade. A 21 de Junho de 2001, durante o Salão Aeroespacial Internacional de “Le Bourget” (Paris Air Show), o Secretário de Estado Adjunto do MDN, em representação de Portugal, e os representantes dos quatro países fundadores – Alemanha, França, Itália e Países Baixos – a assinaram um Memorandum de Entendimento para o fornecimento ao Exército Português de 10 helicópteros médios na versão Tactical Transport Helicopter (TTH), preparados para embarcar no navio polivalente logístico (NPL), a entregar a Portugal entre 2008 e 2010, no valor de cerca de 221 milhões de euros. Este preço contemplava a aquisição das aeronaves, o apoio logístico dos primeiros três anos, a documentação e o treino das tripulações e dos técnicos. A adesão plena teve lugar a 14 de Dezembro de 2001, concluídos que foram os trâmites legislativos respeitantes à aprovação da nova LPM. Em

cerca de 24 (vinte e quatro) meses foi possível concretizar a celebração de um contrato por ajuste directo. Em termos práticos através da participação da indústria nacional na produção das encomendas de cerca de 600 (seiscentos) “NH 90”, Portugal ia ter um retorno superior a 85%, do valor da aquisição dos 10 (dez) “NH 90” versão TTH adquiridos. Acresce aquele valor de retorno a participação em futuras encomendas e manutenções do ciclo de vida logístico de toda a produção. A candidatura de Portugal foi a última a ser admitida e aceite! Surpreendidas com a adesão a este projecto ficaram as autoridades americanas, que assim se aperceberam das consequências de não terem apoiado na aquisição dos torpedos e dos mísseis, para os submarinos. Incompreensivelmente, porém, a aquisição de helicópteros ficou seriamente comprometida desde a entrada em funções do XV Governo Constitucional. Com efeito na aquisição dos 10 helicópteros “NH 90” houve como que um “congelamento”, talvez por se tratar de um programa do âmbito

da NATO, que ainda hoje se mantém e não há conhecimento de que a sua construção tenha sido iniciada, apesar da entrega estar prevista para o período de 2008 a 2010. Presumo que a participação de Portugal na produção dos “NH 90” se mantém nos termos contratuais celebrados em 2001, pese embora as OGMA tenham sido privatizadas. Perderam-se sim os 8 helicópteros “CL-635” que já se encontravam em Lisboa em fase final de recepção, quando em meados de 2002 foi denunciado o respectivo contrato de fornecimento. Desde logo a Jordânia prontamente os adquiriu substituindo-se a Portugal. Para esta decisão, de consequências gravíssimas, ainda não foi encontrada alternativa credível. Desperdiçaram-se mais de seis anos de um árduo concurso e de preparação dos respectivos pilotos do Exército. A promessa de que seriam substituídos por outros aparelhos ainda hoje está por cumprir. Em 8 de Abril de 2002 tomou posse o XV Governo Constitucional.

2. Mesmo em tempo de crise financeira, deve ser dada elevada prioridade à afirmação da soberania e jurisdição sobre os espaços marítimos nacionais que gozam desses estatutos, dispondo dos meios adequados e necessários a assegurar a protecção da extensíssima Plataforma Continental, da Zona Económica Exclusiva, da Zona Contígua, do Mar Territorial e das Águas Interiores, através de uma vigilância eficaz nas quatro dimensões – espacial, submarina, aérea e de superfície.

quadrilha de Submarinos. Perdeu-se tempo e encareceu-se, desnecessariamente, o custo da aquisição destes meios com as consequentes repercussões nos bolsos dos contribuintes. A fórmula encontrada para tentar contrariar este facto, mutilando ao longo do processo o número de unidades a construir, não foi nada feliz.

Conclusões Considero particularmente importante que quando terminar o tempo de vida dos dois submarinos que constituem a 5ª Esquadrilha, ou seja daqui a cerca de trinta anos, aqueles que forem chamados a decidir no processo de novas aquisições disponham da adequada informação e de um conjunto de elementos que lhes permitam evitar os erros que agora foram cometidos. Assim termino estas breves considerações porque passou o programa da manutenção da capacidade submarina com o objectivo único, que inicialmente enunciei e agora repito, de deixar aos vindouros a informação das vicissitudes e principais atribulações que então ocorreram e formulo as seguintes conclusões: 1. Há que ter sempre presente que o submarino, pelo secretismo e natureza das suas operações, está normalmente envolvido numa auréola de mistério quase inacessível ao comum dos cidadãos. Sabe-se que existe, não onde se encontra. É quase um desconhecido, um mito e não só. Talvez por isso esta capacidade submarina é tão mal reconhecida, por vezes mesmo incompreendida, pelos nossos responsáveis políticos quanto à alta prioridade que tem de ser dada à sua existência, sustentação e continuidade na Armada.

3. Economizar recursos da mais diversa natureza, evitando a ocorrência de alterações aos programas de aquisições de armamento em curso e estabelecendo precedências para o reapetrechamento da Forças Armadas no âmbito das nossas reais possibilidades. No caso da Armada, a título de exemplo: submarinos, navios-patrulhas, lanchas de fiscalização, navio de apoio logístico (NPL) e fragatas. 4. Não permitir que a pretexto de uma questão de transparência, muito discutível, se opte pela modalidade de concurso público internacional em detrimento do ajuste directo. Levaram-se 16 (dezasseis) anos para constituir a nova Es-

5. Não há que ter receio de adjudicações, mesmo a empresas estrangeiras, com recurso à figura do ajuste directo, uma vez que o que está em causa são meios essenciais à segurança nacional. Termino reafirmando que os submarinistas são merecedores do respeito e admiração de todos nós e por isso os responsáveis, com capacidade de decisão na aquisição de plataformas em que operam, devem proporcionar-lhes os melhores meios, com altas e comprovadas condições de desempenho para o exercício da arriscada actividade operacional em que estão envolvidos, elementos fulcrais para a garantia da soberania de Portugal.

* De 29.Dez.1999 a 07.Abr.2002 exerceu o cargo de Director-Geral de Armamento e Equipamentos de Defesa e de Director Nacional de Armamento, e por inerência Presidente do Programa para a Aquisição de Submarinos.


Colaboração Projecto Fim do Império

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Projecto Fim do Império com a colaboração de Antigos Alunos O projecto Fim do Império é, essencialmente, um projeto de voluntários que tem envolvido antigos alunos e várias referências ao Colégio Militar, incluindo: generais António Barrento (40/1948) e Rocha Vieira (127/1950), almirantes Ribeiro Pacheco (163/1944) e Castanho Paes (228/1952); coronéis tirocinados Costa Matos (96/1950), presidente do Conselho Supremo da AAACM e Raul Folques (380/1952); coronéis Dias Antunes (221/1948), coronel Mira Vaz (277/1950), José Banazol (631/1968), vice-presidente da AAACM, coronel Vaz Serra (sócio honorário) e dr. Manuel Barão da Cunha (150/1948); drs. Sena e Silva (149/1948), Vieira Pinto (382/1949), António Bacelar Carrelhas (159/1947) e Manuel Machado (275/1961); capitão Carlos Dias Antunes (212/1939); engenheiro António Nogueira «Manolo» (262/1948). Tendo começado em Janeiro de 2009, em Oeiras, na Livraria-Galeria Municipal Verney, com a tertúlia «333, 3ª terça-feira, às 3 da tarde», aglutinou uma segunda tertúlia, em Lisboa, no Palácio da Independência «444, 4ª quarta-feira, às 4 da tarde», desde Outubro de 2011, estando prevista iniciar-se uma terceira tertúlia, também complementar, no Porto, em Novembro de 2012 «254, 2ª quinta-feira, às 4 da tarde». Para além das tertúlias mensais, têm-se feito sessões pontuais de divulgação, designadamente, em Évora, Lagoa (animada por Vasco Rocha Vieira), Coimbra, onde participou o coronel Lopes Rego (224/1949), e Porto, com general Medeiros (antigo diretor do CM) e vários antigos alunos, incluindo general Luís Pinto de Oliveira (138/1954), coronel José Banazol (631/1968), Rui Castilho (147/1948), Carlos Campos (259/1948). A próxima será no dia 14 de Setembro, às 16h00, no salão nobre da Câmara Municipal de Estremoz, animada pelo general António Barrento (40/1948). Realizaram-se, entre Janeiro de 2009 e Maio de 2012, sete ciclos, através de 29 sessões, em Oeiras, 10 em Lisboa, três no Porto, uma em Évora, uma em Lagoa e outra em Coimbra, num total de 45 encontros. Os ciclos incidiram sobre autores combatentes, civis, militares e jornalistas, sendo os temáticos sobre Angola e Índia. Prevê-se que o 8.º ciclo, a iniciar em Outubro de 2012, seja subordinado ao tema Olhares sobre a Guiné. Será dia 16 em Oeiras e 24 em Lisboa. Em Oeiras verificou-se a média de mais de 60 presenças por sessão. Na segunda tertúlia, a média foi de cerca de 46 por sessão. A outra vertente do projecto é constituída por uma coleção literária, começada em Maio de 2010, a qual em dois anos editou oito livros e dois cadernos. Seis dos livros da colecção são inéditos e primeiros livros, incluindo tes-

temunhos de dois autores octogenários e três septuagenários. Sendo obras escritas na idade da sabedoria e da serenidade, mostram lados da guerra menos conhecidos e, para além de aspectos dramáticos, também utilizam o humor. O outro livro é uma investigação de um actual professor da Academia Militar. Em 20 de Novembro de 2012, às 15h00, será lançado, em Oeiras, na Livraria Galeria Municipal Verney, na rua Cândido dos Reis, nº 90, o 9.º livro, Olhares sobre Guiné e Cabo Verde, com cerca de 30 autores, incluindo os antigos alunos almirantes Ribeiro Pacheco (163/1944), Isaías Gomes Teixeira (235/1946), José Lopes Carvalheira (301/1946) e Castanho Paes (228/1952); coronéis Raul Folques (380/1952), Mira Vaz (277/1950), Barão da Cunha (150/1948) e Vaz Serra (sócio honorário). O projecto é apoiado pelo Município de Oeiras, Liga dos Combatentes, Comissão Portuguesa de História Militar e Sociedade Histórica de Independência de Portugal. Visa, por um lado e através de tertúlias mensais, debater, o mais serenamente possível, este importante período da nossa História, confrontando olhares diferentes mas complementares, já que a guerra, que coincidiu com essa época, variou sensivelmente ao longo do tempo e do espaço e consoante cada observador ou participante. Por outro lado, e com uma colecção literária, tem a finalidade de tentar dar voz a quem tem dificuldade de a ter, editorialmente, enquanto a pode ter, desde que tenha uma história para contar e a saiba contar. Pretende-se que as edições tenham uma boa relação custo/qualidade, incluindo revisão cuidada, letra facilmente legível e custo acessível. Nem os autores nem o revisor são pagos, razão que possibilita preços tão baixos, embora com boa qualidade editorial. Os livros podem ser adquiridos nas sessões das tertúlias, em Oeiras na sede do Núcleo da Liga dos Combatentes, no CASO/IASFA e na livraria do Alto da Barra; em Lisboa, na Direcção Central da Liga dos Combatentes, na Comissão Portuguesa de História Militar, nas Associações de Antigos Alunos do Colégio Militar e 25 de Abril e, à cobrança, através do Núcleo de Oeiras e Cascais da Liga dos Combatentes lcombatentesoeiras@sapo.pt. A AAACM tem livros em consignação, de cuja venda reverte uma percentagem para as acções de solidariedade da Associação.

Aspecto da mesa e da assistência de uma das sessões do Fim do Império, integrando vários Antigos Alunos

Manuel Júlio Matias Barão da Cunha 150/1948


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Colaboração Henrique de Carvalho

Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

Henrique de Carvalho (143/1853) No passado dia 29 de Junho teve lugar na Sociedade de Geografia de Lisboa uma conferência subordinada ao tema “Memórias de um Explorador” no dia em que foi inaugurada a exposição relacionada com a vida e obra de Henrique de Carvalho. Nesta jornada foram abordados os temas «Casamentos políticos na África centro-ocidental. As averiguações de Henrique de Carvalho (1884-1888)», «No País do Novo Deus: as andanças de Henrique Carvalho na Guiné», «Política colonial, produção científica e a construção da identidade portuguesa (finais do séc. XIX)», «Distâncias e Proximidades: Museologia dos Espaços africanos lusófonos em Finais do Século XIX e princípios de Novecentos», «Henrique de Carvalho (1843-1909): um patriota cosmopolita», «A Colecção Henrique de Carvalho da SGL», «Sizenando Marques e Júlio Henriques: a colecção de plantas angolanas no Herbário da Universidade de Coimbra», «Conservação e Restauro de uma Colecção», «Colecções e coleccionadores na Universidade de Coimbra: Aerofones angolanos». As sessões de abertura e encerramento foram presididas pelo Professor Engenheiro Luís Aires Barros, Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa. A exposição, primorosamente organizada, mostrava variadíssimas peças relacionadas com a vivência de Henrique de Carvalho a par de originais de inúmeros trabalhos científicos por si realizados muito especialmente durante as suas explorações em África. Trata-se de um espólio valiosíssimo muito bem exposto que cativa o visitante nele despertando um for-

te interesse, levando-o a imaginar como teriam sido as expedições levadas a cabo e as dificuldades que tinham de ser vencidas, dando-lhe uma perspectiva da sua grandiosidade e das notáveis descobertas científicas então realizadas. O Colégio figura entre as entidades que contribuíram para a mostra patente ao público, nela estando expostas a espada, o bastão e um punhal que pertenceram a Henrique de Carvalho e hoje fazem parte do espólio do Museu do Colégio Militar. Henrique Augusto Dias de Carvalho nasceu em Lisboa a 9 de Junho de 1843, ingressando no Colégio Militar no ano de 1853 com o número 143, sob a protecção do Marechal Saldanha. Concluído o curso, alistou-se em Infantaria 7 como voluntário, tendo posteriormente frequentado a Escola do Exército e a Escola Politécnica. Promovido a Alferes, surgiu a oportunidade de uma comissão em Macau onde es-

teve em serviço nas Obras Públicas, tendo sido responsável pela construção da Bateria 1º de Dezembro e do Hospital Conde de São Januário.

Em 1869, durante a sua permanência no Território, destacou-se na acção de combate ao grande incêndio no Hotel Oriente e, em 1871, distinguiu-se na operação da captura de vinte e duas praças desertoras, dominando a revolta instaurada, onde revelou grande coragem e habilidade na condução deste feito. Mais tarde nomeado para desempenhar funções na Administração de São Tomé e Príncipe, aí se manteve entre 1873 e 1876, sendo forçado a retirar-se por motivo de doença. Durante este período a sua acção notabilizou-se pelos enquadramentos urbanísticos, pela construção do Hospital Militar e pela reconstrução do Palácio do Governo. Em 1877 serviu em Moçambique e de 1878 a 1882 esteve adstrito ao Serviço de Obras Públicas de Luanda.


Colaboração Henrique de Carvalho

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© Foto Gonçalo Leal de Matos – Espada de Henrique de Carvalho onde se encontra a seguinte inscrição: «Não faço mais porque não posso – Lunda 1886»

Nos finais dos anos oitocentos os territórios Africanos de Portugal estavam apenas minimamente desenvolvidos junto da orla costeira e eram detidos na invocação dos «direitos históricos», não dispondo Portugal de meios económicos e militares que lhe permitissem travar a apetência de outras nações e que se revelaram, de entre outras, com as expedições belgas e alemãs no território da Lunda na segunda metade do século XIX. Neste contexto, a expedição realizada em 1883 em Angola por Roberto Ivens e Brito Capelo, da iniciativa do então Ministro da Marinha e do Ultramar (Pinheiro Chagas – 118/1853), tinha como objectivo estabelecer uma ligação comercial entre Angola e Moçambique e, em simultâneo, estudar a rela-

ção entre as bacias do Zaire e do Zambeze. No seguimento desta expedição, Henrique de Carvalho, então com o posto de Major, larga de Lisboa a 6 de Maio de 1884 com destino à Lunda e à corte de Muatiânvua, com vista ao intercâmbio comercial com os povos do Quimbundo, Cuango e Cassai. Henrique de Carvalho, na sua visita à corte de Muatiânvua, era portador de uma mensagem de amizade e ao mesmo tempo embaixador para celebrar um tratado para garantir a protecção de uma missão portuguesa a estabelecer no território com fins

civilizadores, comerciais e religiosos. A 18 de Janeiro de 1887, a expedição encontra-se na Mussumba, tendo sido celebrado o «tratado pelo qual o Muatiânvua e a sua corte reconheciam a soberania de Portugal e se comprometiam a não aceitar nas suas terras outra bandeira». A par destes propósitos e objectivos, a missão de Henrique de Carvalho revestia-se de carácter científico, estudando a navegabilidade dos rios e as condições climáticas, evitando também a possibilidade da influência de outros exploradores estrangeiros nas regiões do Cuango. Mais tarde, em 1888, regressa a Lisboa depois ter percorrido uma boa parte da Lunda e ter inventariado as suas riquezas. A 15 de Setembro de 1890, o Parlamento designa-o, por unanimidade «Benemérito da Pátria». Torna-se então num grande activista e promotor da criação de um distrito na Lunda, a qual se verificará em 1895. Henrique de Carvalho, já Coronel, é então nomeado como o 1º Governador deste distrito. Entretanto desapareceu um conjunto de

documentos relacionados com o novo distrito, documentos de primordial importância e que permitiam refutar acusações de irregularidades inexistentes. Tal desaparecimento foi concretizado por força da actuação dolosa do seu secretário, que não tinha sido da sua escolha e lhe havia sido imposto, o qual traindo os seus deveres de lealdade e de conduta de serviço, colocou-se a soldo de interesses políticos e comerciais desonestos. Henrique de Carvalho sujeito a graves


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Colaboração Henrique de Carvalho

acusações regressa a Lisboa e aí fica durante um ano até se concluir o seu julgamento em Conselho de Guerra. A decisão a 3 de Fevereiro de 1898 do Conselho de Guerra, absolve-o em toda a plenitude e restitui-lhe o gozo de todos os seus direitos, sendo então promovido a General de Brigada (actualmente a designação é de Major-General). Ultrapassada esta situação desagradável resultante da actuação danosa do seu subordinado, desloca-se à Guiné, na companhia de Vítor Cordon, como funcionário da Companhia de Comércio e Exploração da Guiné, detida maioritariamente pelo Marquês de Liveri. Este pretendeu impor uma administração belga ao que Henrique de Carvalho se opõe terminantemente e regressa a Lisboa. Brilhante Oficial do Exército e notável Explorador Africano, sócio fundador da Real Sociedade de Geografia de Lisboa, sócio correspondente da Sociedade Italiana de Exploração Colonial de África e membro honorário da Sociedade de Geografia de Geneve e da Sociedade de Geografia de Bruxelas, tendo fundado e dirigido o jornal «As Colónias Portuguesas» e a revista «África Ilustrada», já doente e nos últimos anos da sua existência socorre-se da sua cultura

e ciência para dar aulas particulares e assim suprir o seu sustento bem como dos seus familiares. Depois de prolongado e duro sofrimento, Henrique de Carvalho vem a falecer em Lisboa, aos 65 anos de idade, no dia 4 de Janeiro de 1909. Como homenagem póstuma aos serviços prestados em Angola, o alto-comissário Norton de Matos, em 1923 mudou o nome de Saurimo, capital da Lunda, para Vila Henrique de Carvalho. Nesta localidade, em 1939, foi erigido um monumento em sua memória da autoria de Raul Xavier. Grande Oficial da Ordem da Torre e Espada, Grã Cruz da Ordem de Santiago e Espada, Comendador da Ordem de Cristo, Grande Oficial da Ordem de São Bento de Aviz, Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e, a título póstumo, Comendador da Ordem do Império, foi também agraciado com as Medalhas de Ouro de Valor Militar, de Bons Serviços, de Assiduidade no Ultramar e de Comportamento Exemplar e as Ordens estrangeiras da Estrela Africana do Congo e da Coroa de Itália. Como resultado das suas viagens, publicou as seguintes obras: «A Lunda ou os estados do Muatiânvua. Domínios da

soberania de Portugal», «Expedição Portuguesa ao Muatiânvua. Ethnographia e História Tradicional dos Povos da Lunda», «Expedição Portuguesa ao Muatiânvua. Méthodo prático para fallar a língua da Lunda contendo narrações históricas dos diversos povos», «Expedição Portuguesa ao Muatiânvua. Meteorologia, Climatologia e Colonização: estudos sobre a região percorrida pela expedição comparados com os dos benemeritos exploradores Capello e Ivens e de outros observadores nacionaes e estrangeiros: modo practico de fazer colonisar com vantagem as terras de Angola», «Expedição Portuguesa ao Muatiânvua 1884-1888: Descripção da Viagem à Mussumba do Muatiânvua», «As Colónias Portugueasas – vol I De Loanda ao Cuango, 1890; vol. II: do Cuango ao Chicapa, 1892; vol. III: do Chicapa ao Luembe, 1893 e vol. IV: do Luembe ao Calanhi e regresso a Lisboa, 1894». A respeito da viagem à Lunda ainda foi publicada a obra «Os climas e as produções agrícolas das terras de Malange à Lunda» da autoria de Agostinho Sizenando Marques (botânico e Tenente do Exército Português, subchefe da expedição à Lunda comandada pelo Major Henrique de Carvalho).

NOTA A maior parte das fotografias inseridas neste texto foram fornecidas pelo José Alberto da Costa Matos (96/1950).


Recordando A última Cruz de Guerra

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Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957

A última Cruz de Guerra No passado ano de 2011 perfizeram-se 50 anos sobre o início da guerra em Angola, assunto sobre o qual escrevi nesta nossa revista. Em vários jornais e revistas foi a efeméride assinalada e foram publicados mais livros sobre a guerra de África. Soube, há pouco tempo, que já foram editados mais de 500 livros, de cerca de 350 autores, sobre esta guerra. Não falta pois material para quem desejar estudar o assunto.

Como faço parte daqueles que se interessam por este tema, até por ter feito uma comissão em Angola, comprei o ano passado mais uns quantos livros relativos à guerra. Entre eles comprei uma série de 16 livros intitulada «Guerra Colonial. A história na primeira pessoa» da editora QUID NOVI, QN-Edição e Conteúdos SA. Do último volume da série consta uma lista dos militares que foram condecorados ao longo dos anos de 1975, 1976 e 1977 com a Cruz de Guerra ou com a medalha de Valor Militar. Foram os últimos militares condecorados por acções em campanha, a quem se acabou por fazer justiça tardia, devido à época agitada que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.

Na lista que acabo de citar, consta a atribuição da Cruz de Guerra de 1ª Classe ao Alferes Miliciano, Comando, Carlos Eduardo Leal de Carvalho Afonso, que foi o aluno 267/1959. A medalha foi-lhe atribuída a título póstumo, por ter morrido em combate no Leste de Angola, em 1973. Desconhecia a atribuição desta condecoração tardia, que penso que não terá sido também do conhecimento de muitos dos seus camaradas e amigos do Colégio. Por esta razão, aqui estou a divulgá-la, prestando assim homenagem a este valente, de quem fui também muito amigo. O Afonso, como era conhecido, era quatro anos mais novo do que eu, razão pela qual não tivemos muito contacto no Colégio. Mais tarde convivemos bastante, quando ambos fizemos parte da classe de ginástica da nossa Associação, treinada então pelo professor Dario Fernandes, que nos deu um apoio extraordinário. O 267 era um camarada excelente, um tipo de grande carácter e um homem de uma só cara. Era um bom ginasta, voluntarioso, tendo recebido várias medalhas de aptidão física. No seu ano de finalista foi, se bem me recordo, comandante da 2ª Companhia. Durante a minha comissão em Angola, de 1971 a 1974, fui encontrar o Afonso no Leste da Província, no Luso (actual Luena), que era o local de repouso das companhias de Comandos que actuavam naquela zona. A 37ª Companhia de Comandos, a que o Afonso pertencia, era uma delas. Encontrámo-nos e tivemos largo tempo à conversa pouco tempo antes dele morrer. Encontrámo-nos ao almoço na messe do Exército e dali seguimos para a esplanada de um Café, a dar para o tosco, onde tomámos as nossas bicas, enquanto uns miúdos nos engraxavam as botas. Naque-

le tempo e naquele lugar havia duas modalidades possíveis de engraxadelas de botas, a saber, com música e sem música. A primeira modalidade era obviamente a mais simples, era um trabalho feito com o «profissional da graxa» em silêncio, para não chatear o patrão. Era também a modalidade mais económica, custando apenas 15 tostões (se bem me lembro). A segunda modalidade, mais elaborada, implicava uma cantoria totalmente desafinada, acompanhada de umas batidas ritmadas das escovas nas bordas da caixa de madeira que servia de apoio da nossa bota e de assento ao artista. Era uma mistura de canto e percussão, tão comum no folclore africano. Esta segunda modalidade, pelos dotes artísticos que exigia, era substancialmente mais cara, custava 25 tostões, ou seja, implicava um sobrecusto de mais de 50%. Como estávamos abonados e as fontes possíveis de despesa não eram muitas, optámos pela engraxadela com música, ou seja, fizemos uma verdadeira acção de mecenato, ou de protecção às artes. Até parecíamos da família dos Médicis. Pondo as artes de lado e voltando ao Afonso, posso dizer que o encontrei em boa for-


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Recordando A última Cruz de Guerra

ma e orgulhoso da sua condição de Comando. Separámo-nos com um forte abraço, não imaginando eu que nunca mais o veria. Morreu em combate passado pouco tempo. Podia falar-vos aqui da grandeza de carácter do Afonso e das suas qualidades, como homem e como militar, mas bem melhor do que eu «fala» o louvor justificativo da venera com que foi agraciado e que passo a transcrever. «Manda o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, com base em proposta do Comandante-Chefe das Forças Armadas em Angola, louvar, a título póstumo, o Alferes Miliciano, Comando, Carlos Eduardo Leal de Carvalho Afonso, da 37ª Companhia de Comandos/CICmds-CIOE, porque, durante um ano em que serviu naquela Companhia, onde desempenhou de forma exemplar as funções de adjunto, revelou grande coragem, determinação, es-

pírito de sacrifício e de missão, nas diversas operações em que tomou parte. Conduzindo sempre o Grupo de Combate de maneira firme, merece destaque especial a sua actuação numa operação em que capturou elementos adversários e, durante a qual, ao ser por duas vezes emboscado, reagiu com grande decisão e desprezo pelo perigo, sempre na testa do grupo, desalojando o adversário a quem capturou material. As mesmas qualidades foram comprovadas em dois heli-assaltos levados a efeito em determinada região conseguindo, apesar do pequeno efectivo de que dispunha, a desarticulação do adversário e a captura de armamento, e ainda, de forma valorosa e abnegada, noutra operação, conduziu o seu Grupo de Combate em exaustiva perseguição de um grupo fortemente armado e operando em terreno favo-

rável. Nesta última acção, lançou-se uma vez mais, audaciosamente e em primeiro lugar, ao assalto da posição do adversário, sofrendo graves ferimentos de que veio a falecer, e conseguiu, já depois de ferido, com o seu exemplo de serenidade e de grande estoicismo, que o Grupo de Combate que comandava saísse vitorioso da difícil situação em que se encontrava. A conduta do Alferes Carvalho Afonso, que culminou com o sacrifício da própria vida, tornaram-no merecedor do reconhecimento do Exército e da Nação, que tão nobremente soube servir e honrar». Penso que o Afonso terá sido o último Antigo Aluno condecorado com a Cruz de Guerra nas campanhas de África. Aqui lhe presto a minha homenagem, com o grito de guerra dos Comandos: «MAMA SUME»

Antigo Aluno usa a BARRETINA Solidariedade

Se este for o momento em que tudo te parece falhar e o desânimo te invade,

“por favor não desistas” porque nós não desistimos de ti.


Recordando Antigos Alunos nas Tropas Pára-quedistas

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Nuno António Bravo Mira Vaz 277/1950

Antigos Alunos nas

Tropas Pára-quedistas Luís Manuel da Fonseca Lobo de Oliveira (385/1949)

E

m Setembro de 1963 cheguei a Luanda e fui encontrar o alferes Lobo de Oliveira a comandar o 3.º pelotão da 2.ª companhia do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas n.º 21 (BCP 21). Entre os oficiais da Companhia era conhecido por Finta, alcunha que já vinha do Colégio e que resultava da sua dedicação ao futebol. O Lobo tinha-se diplomado em Engenharia Mecânica, com a especialidade de Minas. Gabava-se – e não tenho motivos para duvidar – de que, no fim do estágio que o levou a uma mina algures na Escandinávia, furava com o martelo pneumático os mesmos metros de rocha que os mineiros mais experientes. Quando os soldados do pelotão faziam asneiras, mandava-os alinhar em cima de cordão detonante que ele próprio fazia explodir com um semblante carrancudo; mas todos percebiam que por debaixo da máscara de severidade habitava um temperamento brincalhão. E quando se tratava de os defender dos restantes graduados da Companhia, punha nessa tarefa uma veemência inultrapassável. Tinha com eles um trato inédito: quem lhe levasse para operações qualquer artigo comestível, tinha direito a metade do produto. Os voluntários, diga-se de passagem, adoravam o reforço de alimentação. E toda a gente se divertia com o circo que se montava de cada vez que o Finta tinha vontade de comer. Era raro acertar com o portador das sardinhas, ou do atum, ou do leite em pó, ou fosse do que fosse. Mais complicada era a gestão dos cigarros. Nunca levava consigo quantidade suficiente para toda a duração da operação e não se coibia


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Recordando Antigos Alunos nas Tropas Pára-quedistas

BCP 21 - Oficiais da 2º Companhia (Angola 1964)

Alferes Mário Pinto, Alferes Lobo de Oliveira, Capitão Ramos Gonçalves, Alferes António Ramos, Alferes Mira Vaz.

de pedinchar. Nesse particular, a maior vítima era eu: -“oh puto, dá aí um cacilheiro”. E outro, e outro, até que um dia se acabaram para ele e para mim. A certa altura, esganados de vício, passámos por uns pés de tabaco e, por uma coincidência que hesito em classificar como feliz, topámos na mesma altura com um exemplar amarelento do jornal “O Século”. A folha de tabaco estava a atirar para o verde, a do jornal ressequida. Não nos importámos. Fizemos com o tabaco um rolo tão fino quanto pudémos e enrolámo-lo em seguida num bocado de jornal. Fumámos gulosamente o charuto. Mas as consequências foram pésimas: vómitos, tontura e uma má disposição que só nos abandonou dois ou três dias mais tarde. Quando tomava duche, o Finta demorava horas debaixo do jacto de água, ensaboando-se tão persistentemente que não era raro vê-lo consumir meio sabonete em cada sessão. Digo vê-lo, porque gostava de companhia para a ocasião. Lembro-me de, nos poucos dias em que estive instalado no mesmo quarto que

ele na Messe de Luanda, ser “convocado” para me sentar na sanita enquanto ele esfregava interminavelmente o peito e desfiava histórias mistas de amor e de guerra. Na maior parte do tempo era uma companhia animada, mas tinha períodos de neura, prenúncio da doença que muito em breve haveria de lhe envenenar a vida. Foi no carro dele, um Wolkswagen descapotável a cair de podre, que gozei a lua-de-mel. Não tinha motor de arranque e, portanto, era preciso pará-lo numa descida. Mas como também não dispunha de travão de mão, andávamos sempre prevenidos com um pedregulho que era cuidadosamente colocado pela Madalena à frente duma das rodas para o impedir de deslizar encosta abaixo. Com que saudades recordamos as noites em que, vestidinhos com os melhores trapos, íamos à Boîte do Continental ou do Universo e tínhamos de proceder a todo aquele cerimonial de segurança automóvel. Além disso, o Finta dedicava-se à caça submarina e com frequência passava por nossa casa a deixar um ou duas lagostas acabadinhas de apanhar.

Foi a Paris especializar-se em petróleos e arranjou emprego numa companhia petrolífera, em Luanda, onde casou. Infelizmente, o casamento não durou muito tempo. Regressou à Metrópole, tendo exercido durante alguns anos funções docentes no ensino secundário. Hoje está reformado e doente. Tenho saudades dele. Era um bom camarada, sempre disponível, amigo do seu amigo. Como combatente, deu inúmeras provas de coragem e destemor, nunca deixando os seus créditos por mãos alheias. Onde quer que estejas, Finta, fica a saber que sempre te recordarei como um bom amigo.


Recordando Antigos Alunos nas Tropas Pára-quedistas

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Assalto com máscara A guerra é um assunto para ser levado a sério, mas a verdade é que, em certas ocasiões das nossas guerras de África, a actividade operacional parecia concebida no atelier dum humorista. Certo dia, na pista de aviação de Santa Eulália, o meu pelotão e o do Lobo de Oliveira, ambos organizados em equipas de cinco e fazendo uso de máscaras antigás, embarcámos nos helicópteros. Tratava-se de uma experiência inédita: assaltar um acampamento inimigo após o lançamento prévio de granadas de gás lacrimogéneo. Esperava-se que as pessoas ali presentes, quer fossem elementos da população ou guerrilheiros, ficassem atordoadas por efeito do gás, e não conseguissem furtar-se ao contacto com as nossas tropas. Após alguns minutos de voo, durante o qual verificamos nervosamente o correcto ajustamento das máscaras, somos largados junto à orla duma mata em cujo interior se encontra o objectivo. Lançamo-nos a correr encosta acima, e logo aí temos o primeiro desgosto, ao constatar que a visibilidade permitida pela máscara é reduzidíssima. Por outro lado, dado o declive do terreno e a dificuldade em respirar, depressa estamos ofegantes e incapazes de correr. Embora continuemos a trepar resolutamente a encosta, cada novo passo torna-se mais penoso que o anterior. Quando avistamos as primeiras cubatas, apelamos às forças que nos restavam e percorremos ansiosamente os últimos metros, para afinal constatarmos, desolados, que o acampamento fora totalmente abandonado. Extenuados, amparamo-nos às árvores, enquanto nos procuramos uns aos outros com os olhos, em busca de um sinal. De súbito soam tiros. Queremos localizar a sua origem, mas as máscaras dificultam tanto a audição como a visão. Avançamos por instinto, resistindo a reagir pelo fogo, por medo de atingir um camarada. O fogo do inimigo vai se espaçando gradualmente até cessar por completo, e um silêncio hostil desce sobre o local. De arma aperrada, suando em bica e respirando penosamente, avançamos um pouco mais no interior do acampamento, acabando por deparar com um casal de velhos sentados num banco feito de varas entrançadas, tão decrépitos que não encontraram forças para fugir. E, surpresa das surpresas, não evidenciavam qualquer dificuldade em respirar. Então compreendemos que as máscaras não são precisas para nada, e tiramo-las. Mas a surpresa maior estava para vir: mal as tirámos, começámos a tossir, de olhos lacrimejantes. E foi com elas postas de novo que evacuámos o espólio daquela operação tão auspiciosa: dois velhos impossibilitados de correr, mas imunes ao gás lacrimogéneo.

O regresso da operação Terminada a operação no Norte de Angola, em meados de 1964, recolhemos a um aeródromo de cujo nome não me recordo para embarcar num avião Nord Atlas de regresso a Luanda. Éramos quarenta e cinco, do 1.º e do 3.º pelotões, sentados no chão do aparelho em três filas de quinze, de pernas abertas, com a mochila do camarada da frente encostada ao nosso peito. Embarcou connosco um oficial da Repartição de Operações do Comando-Chefe, com a incumbência de efectuar reconhecimento aéreo de parte da zona sobrevoada, tendo em vista a preparação de futuras operações militares na região. A altura do voo nunca ultrapassou os quinhentos pés - o que significa turbulência acrescida, uma batida seca e rápida, a que se junta a oscilação brusca das asas. Temos todos quinze dias de mato sem mudar de roupa. Que digo eu? Sem dispor duma gota de água para lavar uma humilde remela! Cinco minutos depois de se fecharem as portas do avião, o cheiro a azedo começa a dar sinal de si. À passagem pela Pedra Verde, um dos soldados levanta-se de repente e dirige-se para o fundo do aparelho, onde, a coberto duma cortina de pano, se encontra um balde para as emergências. Ouvimo-lo vomitar. O ambiente torna-se ainda mais insuportável dentro do Nord. Levanta-se outro soldado, já com a mão à frente da boca, com pressa de alcançar a cauda do avião. Não chega lá. Vomita de pé, aos arrancos, sobre os circundantes. Estou sentado junto à cabina de pilotagem, mas não escapo à onda fétida que ressuma lá do fundo. Apercebo-me de outros soldados que procuram pôr-se de pé. Grito-lhes uma ordem breve: - “Ninguém se levanta mais”. Como estamos, ficamos, vomitando sem remorsos para a nuca do camarada da frente. Ninguém escapa. O ar torna-se absolutamente irrespirável. Vamos assim até Luanda. A tripulação, aparentemente, só se apercebe do ocorrido a meio da viagem, quando o mecânico abre a porta de ligação à cabina de pilotagem. A surpresa, o nojo, o horror, cravam-se-lhe de repente na fisionomia. Fecha de imediato a porta. Aterramos por fim na pista da Base Aérea n.º 9, mas não estacionamos na placa. A tripulação, agoniada, deixa-nos ficar na cabeceira duma das pistas e foge do local. Saímos para o alcatrão aos tropeções, como se estivéssemos bêbedos ou drogados. Hoje não consigo recordar-me do número de dias que trouxe comigo aquele cheiro nauseabundo.


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Recordando Os que nos deixaram

Os que nos deixaram Humberto Toledo de Paula Pinheiro (186/1932) Engenheiro Civil Faleceu em Maio de 2012

António Luís Facco Viana Barreto (108/1935) Professor Universitário – Engenheiro Silvicultor e Arquitecto Paisagista Nasceu a 15 de Fevereiro de 1924 - Faleceu a 12 de Maio de 2012

Deixou-nos a 12 de Maio o antigo aluno 108/1939, António Luís Facco Viana Barreto, personalidade de referência na História da Arquitectura Paisagista em Portugal. Nascido a 15 de Fevereiro de 1924, António Viana Barreto frequentou o Colégio Militar, estabelecimento de ensino em que foi contemporâneo de três dos seus irmãos, o João António (2/1929), o Joaquim Maria (6/1931) e o José Manuel (118/1939). Posteriormente ingressou no Instituto Superior de Agronomia (ISA) onde se formou em Engenharia Silvícola e em Arquitectura Paisagista. Regressou ao ISA como docente, actividade que também veio a exercer na Universidade de Évora. Com uma carreira de mais de 50 anos, liderou e colaborou em vários projectos de destaque, nomeadamente os dos jardins da Torre de Belém (1953), do Mosteiro da Batalha (1965), do Paço Ducal e do Castelo de Guimarães (1957), dos terraços do Hotel Ritz (1956), do Estádio Universitário de Lisboa (1956), da Avenida Luí-

sa Todi em Setúbal (1970), do Parque Aquilino Ribeiro em Viseu (1954 e 2003), do Parque de Santa Catarina no Funchal (1954), e da Fundação Calouste Gulbenkian (1961), entre outros. Homem de sensibilidade vincada, inovador e vanguardista, foi decisivo na introdução em Portugal do então novo conceito de “Ordenamento do Território” (foi aliás, o primeiro Director-Geral da Direcção do Ordenamento em 1981) e contribuiu para a consolidação desta linha de pensamento, como referiu Margarida Cancela d’ Abreu, presidente da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas. Sem dúvida uma vida profissional preenchida, onde efectivamente conseguiu aportar valor real à sua envolvente. Recebeu vários prémios, de que se destacam o Prémio Valmor em 1975, juntamente com os seus colegas Rui D’Athouguia, Alberto Pessoa, Pedro Cid e Gonçalo Ribeiro Telles, pelo projecto da Fundação Calouste Gulbenkian, o Prémio Quercus em 2009, por ter lançado as bases do Planeamento integrado do Território em Portugal e por ter sido o ideólogo da Reserva Ecológica Nacional, o da Reserva Agrícola Nacional e o dos Planos do Ordenamento do Território, e mais recentemente (Março de 2012), o prémio “Personalidade da Arquitectura Paisagista”, atribuído pelo Jornal “Arquitecturas”. Cedeu o seu espólio ao Sistema de Informação para o Património Arquitectónico localizado no Forte de Sacavém. O António Viana Barreto era uma pessoa altruísta, discreta e muito dedicada aos seus. Um profissional de excelência na sua área e um verdadeiro Homem de Família. Inquestionavelmente um exemplo a seguir. E um de nós - Menino da Luz. Duarte Nuno Ribeiro Machado Leite de Castro 69/1994

Como complemento a esta evocação da vida do nosso 108/1935, António Luís Facco Viana Barreto, tomamos a liberdade de transcrever um artigo da autoria de Luís Miguel Queirós, artigo esse publicado pelo jornal “O Público” na sua edição de 15 de Maio do ano em curso.

Viana Barreto (1924-2012): um pioneiro da arquitectura paisagista Devem-se a António Barreto Viana muitos dos actuais instrumentos legais de protecção da paisagem Com a morte de António Viana Barreto (1924-2012) desapareceu um dos históricos da arquitectura paisagista portuguesa e um pioneiro do ordenamento do território. Co-autor, com Gonçalo Ribeiro Telles, do Parque da Fundação Gulbenkian, projecto que recebeu o prémio Valmor, Viana Barreto, que morreu na noite de sexta para sábado, assinou centenas de projectos, quer enquanto funcionário público, quer a título privado, e devem-se lhe ainda os primeiros passos para a criação de ferramentas legais de protecção da paisagem, como a Reserva Agrícola Nacional, a Reserva Ecológica Nacional ou os Planos de Ordenamento do Território. Em Março passado, recebera o Prémio Personalidade da Arquitectura Paisagista 2012, atribuído por um júri presidido por Gonçalo Ribeiro Telles e que integrava ainda, entre outros, Marcelo Rebelo de Sousa e a actual presidente da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas, Margarida Cancela de Abreu. Discípulo do grande impulsionador da arquitectura paisagista em Portugal, Francisco Caldeira Cabral, Viana Barreto tinha também formação como engenheiro agrónomo e silvicultor. Entre os seus muitos projectos, podem des-


Recordando Os que nos deixaram

tacar-se o já referido Jardim da Gulbenkian (1963) - Gonçalo Ribeiro Telles lembrava ontem ao PÚBLICO que a sua intervenção “foi muito importante nos jardins instalados sobre o edifício, uma coisa que estava a iniciar-se em Portugal, e que ele tinha estudado” -, o Parque Aquilino Ribeiro, em Viseu (1954), a envolvente do Mosteiro da Batalha (1954), o Jardim da Torre de Belém (1956) ou o Jardim da Biblioteca Nacional (1956), este em colaboração com Álvaro Dentinho, com quem também desenhou, no mesmo ano, os terraços ajardinados do Hotel Ritz, em Lisboa. Das suas obras mais recentes, uma das mais relevantes é a remodelação, em 1981, da Quinta das Conchas e dos Lilases, no Lumiar, cujo jardim é hoje a terceira maior zona verde de Lisboa, depois dos parques de Monsanto e da Bela Vista. Margarida Cancela de Abreu descreve-o como “um homem muito modesto” e cujo

trabalho, talvez por isso, nunca terá sido devidamente divulgado e reconhecido. “Trabalhei com ele e sabia que tinha um atelier privado, mas só há pouco tempo percebi que tinha feito mais de 400 projectos”.

Funcionário público Viana Barreto também deu aulas no Instituto Superior de Agronomia e na Universidade de Évora, mas foi, antes de mais, um funcionário público. Exerceu funções em vários ministérios e, na primeira metade dos anos 80, foi director-geral de Ordenamento no Ministério da Qualidade de Vida, então tutelado pelo seu amigo Gonçalo Ribeiro Telles, tendo ficado a dever-se a ambos a criação de um conjunto fundamental de leis de protecção da paisagem. Enquanto responsável pelo Ordenamento, criou o primeiro departamento público de arquitectura paisagista, o Serviço da Paisagem.

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No currículo de Viana Barreto, Margarida Cancela de Abreu sublinha ainda a relevância do seu Plano de Ordenamento Paisagístico do Algarve, realizado em 1969. “Foi uma coisa pioneira não só em Portugal, mas no mundo”, garante, acrescentando que os conceitos e métodos propostos pelo arquitecto português eram então uma novidade absoluta. Este primeiro plano de ordenamento do Algarve, que foi apresentado em 1972 à Direcção-Geral de Serviços de Urbanização, nunca viria, no entanto, a ser concretizado. A extensão do percurso profissional de António Viana Barreto, que abarca seis décadas, permitiu ainda que fosse convidado a reformular projectos que ele próprio concebera, como aconteceu com o Parque de Viseu, que Viana Barreto desenhou em 1954 e veio depois a remodelar, a convite da autarquia, quase meio século mais tarde.

Hélder Humberto do Nascimento Matias (146/1940) Tenente-Coronel de Cavalaria Nasceu a 5 de Novembro de 1928 - Faleceu a 19 de Julho de 2010

O Hélder Humberto do Nascimento Matias, nascido em Lagos em 11 de Novembro de 1928, entrou para o Colégio em 1940 e concluiu o curso neste mesmo estabelecimento de ensino em 1948. Casou em 1965 com D. Maria Manuela do Vale Valadares, de quem teve um filho, Ale-

xandre Miguel, actual engenheiro civil residente no Porto. Ingressou na carreira militar, tendo feito o curso de Cavalaria na Escola do Exército, curso que terminou com o tirocínio para oficial na Escola Prática de Cavalaria, ainda em Torres Novas. Durante os anos cinquenta voltou ao Colégio, desta vez porém como instrutor de equitação, tendo sido adjunto do então titular dessa função o capitão António Varela Romeiras Júnior, grande amigo dos Meninos da Luz e ex-aluno honorário desta nossa Escola. O Hélder Matias participou em numerosos concursos hípicos, nomeadamente em Lisboa, em Évora, em Elvas e em Aveiro. Em 1960 foi mobilizado para servir no Estado da Índia, situação que coincidiu com a invasão e perda daquele território para a União Indiana. Regressado a Lisboa, voltou a ser mobilizado em 1964 para servir em Angola e em 1966 para servir na Guiné, em ambas como capitão. Em 1969, já como major, foi enviado para servir em Timor. Porém, a sua saúde deteriorou-se seriamente, e em 1974, já depois da promoção a Tenente-Coronel, passou à reserva por decisão duma Junta do Hospital Militar de Lisboa. Recordamos que o Hélder conquistou no Colégio um prémio especial que tinha sido

criado em 1935 pela Revista Defesa Nacional. Tratava-se do chamado “Prémio Escolar Defesa Nacional”, destinado exclusivamente “aos alunos órfãos de oficiais, sargentos ou praças das Forças Armadas indicados pelas Direcções da Escola Naval, da Academia Militar, do Instituto de Odivelas, do Colégio Militar e do Instituto Técnico Militar dos Pupilos do Exército, depois de selecção efectuada entre os finalistas dos diversos cursos ministrados nesses estabelecimentos de ensino com mais elevada classificação no conjunto de provas literárias e físicas”. Foi-lhe atribuído o prémio relativo ao seu ano final no Colégio, 1947/48, com a indicação de que era “filho do Tenente de Infantaria Joaquim Matias (que mereceu, por feitos em campanha na Guerra de 1914-18 a Medalha de Ouro de Valor Militar e a Cruz de Guerra, 3ª classe) e de D. Verónica do Nascimento Matias”.1 Hélder Matias foi um excelente camarada que recordamos com saudade e respeito. Deixamos por sua intenção um abraço a seu irmão José Gualberto do Nascimento Matias, o 245 entrado no Colégio em 1936, e que foi o nosso Comandante da 2ª Companhia em 1941/42.

1 - Ver “Prémios Escolares atribuídos a Alunos do Colégio Militar (Prémio Defesa Nacional) ” no número 11 da “Revista da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar” publicado em Abril de 1968.

Os Cursos de Entrada de 1940/41 e de 1941/42


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Recordando Os que nos deixaram

Ricardo José de Almeida e Sousa Gonçalves (233/1944) Engenheiro Técnico Agrário Faleceu a 10 de Julho de 2012

Ricardo José de Almeida e Sousa Gonçalves, 233 de 1944, foi hoje (13 de Junho de 2012) inumado no cemitério da Quinta do Anjo, perto de Azeitão, localidade onde residia. Acompanharam-no na sua última viagem a família próxima, os seus amigos e nós quatro, do curso dele do Colégio o Marcolino (231 de 44), o Manuel Maria (205 de 44), o Manuel Rio Carvalho (124 de 45) e eu próprio. Tinha participado à viúva que gostaria de levar consigo o emblema do Colégio na camisola branca. Pensamos que ele se referia ao antigo CM entrelaçado que, no nosso tempo, se usava como emblema desportivo - camisola branca com CM a preto ou jersey azul com CM a branco eram os equipamentos oficiais do tempo. Ricardo foi um excelente guarda-redes de hóquei em patins no tempo em que esse desporto tinha uma enorme popularidade em Portugal e no qual o Colégio e a AAA tiveram papel de relevo no sector. A equipa do Colégio, que ganhava invariavelmente os torneios interescolares da modalidade, era treinada por um jogador internacional - Olivério Serpa, primeiro, e, mais tarde, o seu irmão Sidónio, tido como o maior jogador mundial do seu tempo no lugar de médio; a equipa da AAA, por seu turno, alcançou a Primeira Divisão nacional, feito nunca mais atingido, e tinha um lote de jogadores de craveira superior a muitas equipas de outros países. Ricardo era uma pessoa reservada, tímida e introvertida pelo que nunca saberemos exactamente o seu pensamento mas estou em crer que esse seu pedido tinha a ver com a enorme alegria que teve em ocupar esse lugar na selecção do Colégio. Na sua vida juncada de infelicidades e desilusões o Colégio mereceu sempre uma atenção especial da sua parte e isso manifestou-se neste singelo pedido. Terá sido o seu quarto de hora de glória a que todos temos direito e ele nunca mais o esqueceu. No meio do século passado os níveis de exigência na avaliação dos resultados es-

colares eram, insensatamente, elevadíssimos e só assim se explica que o Ricardo, bem como o Galvão Videira (190 de 44) e o Andrade Simões (85 de 45) tivessem sido reprovados no 6º ano do tempo, ano que nem sequer tinha exame, impedindo assim o acesso ao final do curso. O Simões, já falecido, concluiu o curso do Colégio no ano seguinte e fez carreira pela Marinha Mercante, onde atingiu o nível de comandante de graneleiros de longo curso, mas os outros dois, que já tinham perdido um ano, foram eliminados do Batalhão Colegial e isso certamente terá pesado no rumo das respectivas carreiras. Em tempo que não sei precisar, ele e o inseparável amigo Galvão Videira tiveram notícia que um grupo de jovens ia fazer a travessia do Saara. A partida dos jeeps da caravana fez-se no Alto do Parque Eduardo VII; do modo habitual, o curso do Colégio foi todo avisado da data e hora do evento e, naturalmente, compareceu em massa. Em todos os circunstantes e até em ambas as famílias, transparecia um mal disfarçado sentido de preocupação e de ansiedade: a prova era muito puxada e ambos já tinham, há muito, passado a idade da aventura e da resistência sem limites. Soubemos, mais tarde, que, realmente, a prova sofreu uma série de contrariedades e contratempos que quase obrigaram a interrompê-la pelo caminho. O depoimento de todos os participantes foi unânime: só a tenaz resistência, o elevado espírito de sacrifício e o sentido de missão dos dois elementos mais idosos (justamente Ricardo Gonçalves e José Maria Videira) impediram que a equipa se desagregasse e permitiram que a viagem chegasse ao fim sem baixas e sem lesões. Não foi possível encontrar, em tempo útil, o CM entrelaçado que o Ricardo gostaria de ter levado ao peito mas a viúva substitui-o pela barretina da lapela e o voto foi assim cumprido. Pela minha parte, guardo, com enorme estima, um pequeno frasco com areia do Saara que o Ri-

cardo e o José Maria me ofereceram no seu regresso e que me faz recordar, além dos amigos já desaparecidos, a centenária Instituição cujo padrão de ensino e de cultura de valores se manifesta, aqui ou além, agora ou mais tarde, pelo desempenho invulgar, inesperado ou meritório dos seus antigos alunos. Achei que devia ter este modesto desabafo com todos vós – mesmo com aqueles que não conheceram nem terão sequer ouvido falar no Ricardo Gonçalves. Para mim, o conjunto dos antigos alunos é uma enorme rede social, um património imaterial amalgamado em camaradagem e em elevados valores morais que carece de ser alimentado, serena e permanentemente, com episódios e acontecimentos triviais que, só para nós, têm todavia um enorme significado. Convido-vos, no anfiteatro virtual onde vos falo, a proceder do mesmo modo sempre que haja, para isso, uma singela e genuína oportunidade. Será a maneira simples de não deixar esmorecer o encanto e a beleza da nossa singular rede social. Lisboa, 13 de Junho de 2012 Eduardo Maria Rato Martins Zúquete 20/1945


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Carlos Manuel Nunes Costa (183/1946) Médico-cirurgião Nasceu a 29 de Dezembro de 1936 - Faleceu a 27 de Fevereiro de 2012

Com sinistra ferocidade e persistência caprichou a Morte em arrebatar-nos, desde o passado Outono, a intervalos estranhamente regulares, quatro nossos companheiros de lides colegiais: primeiro, o 140/1946 Carlos Manuel de Menezes Pinto Machado, a 29 de Outubro de 2011; depois, o 289/1948 João Pedro Marques Ferreira da Silva, a 26 de Dezembro de 2011; ainda, o 56/1949 Mário Alfredo Brandão Rodrigues dos Santos, a 3 de Fevereiro de 2012; e por fim, o 183/1946 Carlos Manuel Nunes Costa, que nos deixou em 27 de Fevereiro de 2012. Os três primeiros já foram sentidamente recordados nas páginas desta nossa ZacatraZ; cumpre-nos hoje evocar aqui também a memória do último deles. O Carlos Manuel entrou para o 1.º ano do Colégio no ano lectivo de 1946-1947, que veio a perder por doença, tendo assim transitado para o nosso curso, onde lado a lado connosco permaneceu até concluir com aproveitamento o 7.º ano de 19531954. Foi um aluno mediano, de personalidade forte, com atitudes imprevistas e descontraídas que o tornavam por vezes algo incompreendido. Sempre pronto para discussões acaloradas, costumava repetir convictamente os mesmos argumentos até esgotar a capacidade de réplica dos menos dotados ou pacientes. De boa compleição física, gostava de praticar desporto, em especial futebol, onde se valia mais do seu poder atlético do que da subtileza artística da finta. Adorava ler e comentar livros e fil-

mes, interessava-se por temas de literatura, história e de conflitos bélicos e distinguia-se nas áreas de português, latim e línguas vivas, não sendo por isso de estranhar que no 6.º ano tenha sido convidado para fazer parte do corpo redactorial do jornal “O Colégio Militar” pelo oficial orientador, e nosso saudoso mestre, Dr. Júlio de Jesus Martins. Findo o curso, o Carlos Manuel esteve inclinado para entrar para a Marinha mas, após frequência incompleta dos preparatórios militares na Escola do Exército (19541955), concorreu e foi aprovado no exame de admissão à Faculdade de Medicina de Lisboa, onde mais tarde se tornou encarregado da secção cultural da Comissão Pró-Associação dos Estudantes da mesma Faculdade. Os seus estudos médicos foram interrompidos quando em Setembro de 1959 passou a prestar serviço militar obrigatório como aspirante miliciano. Terminado o seu tempo nas fileiras, retomou os estudos mas, devido ao irromper da violenta subversão em Angola, foi de novo chamado às armas no último semestre de 1961 e seguiu mobilizado como alferes miliciano caçador especial para Moçambique, só tendo regressado à Metrópole em 1964. Uma vez obtida a licenciatura em medicina e cirurgia, tornou-se um dos sete médicos do nosso curso de finalistas e frequentou naturalmente os internatos curriculares da sua carreira. Décadas depois, passou aos quadros clínicos do sistema de saúde e segurança social, onde desenvolveu a sua actividade até se reformar. O Carlos Manuel sempre foi um elemento muito ligado à mística colegial e muito assíduo e participativo nos nossos almoços mensais de confraternização, nas celebrações do “3 de Março” e, sobretudo, nas romagens de saudade que o nosso curso tem vindo a promover, sem quebra nem hiatos no desfilar dos anos, em relação à Alma Mater da Luz. Aliás, e neste âmbito de reuniões periódicas, ao Carlos Manuel se devem inúmeras fotografias que ele próprio muito gostava de tirar e de oferecer à malta presente, testemunhos de vivência comum que agora irão ficar ainda mais estreitamente associados às recordações que dele guardamos.

Há cerca de uns quatro anos começámos a notar no Carlos Manuel alguns sinais de alheamento e alterações de personalidade. Em 2011 agravou-se notoriamente a sua saúde, tendo estado internado de urgência no Hospital de Santa Marta (o mesmo onde serviu em tempos mais recuados da sua vida profissional), durante vários meses, com graves problemas respiratórios. Mas foi afinal uma doença do foro oncológico, para surpresa nossa, a causar-lhe a morte. Deixa duas filhas, Sónia e Marina e um filho, Pedro, a quem transmitimos a expressão do nosso mais profundo e genuíno pesar. Carlos Manuel, ninguém do nosso curso soube a tempo do teu falecimento e funeral e assim nenhum de nós logrou despedir-se de ti, o que é mágoa infinda a apertar-nos o coração. Num singelo preito de homenagem quero transcrever parte da dedicatória que tu escreveste, aos 16 anos, no meu Calixto: «...No momento em que te estrago este bocado de papel estou professando a “Teoria da Indiferença” relativamente a uma prova de Desenho, por culpa inteiramente tua. Para que me emprestaste o livro do António Ferro?... Como tenho o firme propósito de ingressar na mui nobre Marinha espero ainda encontrar-te muito mais vezes pela vida fora, talvez até nalguma colónia (Moçambique?)... Quando a nossa grande celebridade (?) e poder (?) forem notáveis (?) lembra-te do teu grande amigo Costa distribuindo com generosidade caneladas nas futeboladas e reza-lhe uma sentida oração». Carlos Manuel, rezada repetidamente a oração, mesmo ao arrepio de qualquer réstia de notoriedade, dói-nos sim bem fundo não podermos mais ver-te e ouvir-te; mas, grande entusiasta de viagens, excursões e cruzeiros que foste em vida, reconforta-nos um pouco o sentimento de que agora tu estás a cruzar, deleitado, o espaço sideral rumo às estrelas e galáxias mais distantes, nessa viagem única sem fim e sem retorno durante toda a Eternidade. Luís Joel Alves de Azevedo Pascoal 145/1948 E todos os membros do Curso 1947-1954


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Jaime Augusto de Oliveira Silvério Marques (194/1956) Oficial de Marinha – Engenheiro em Metalurgia - Mestre em Inovação Nasceu a 26 de Março de 1946 - Faleceu a 8 de Maio de 2012

O Jaime, na sequência de perto de cinco anos de combate a doença oncológica, faleceu no passado dia 8 de Maio. Um dos dez primos Silvério Marques que, de meados dos anos cinquenta a princípios de setenta, passaram pelo Colégio, pertencia, pelo lado materno, a uma das gerações da família Soares de Oliveira que, entre parentes e afins – Soares de Oliveira, Chaby, Oliveira de Chaby, Oliveira Ayalla Botto, Oliveira Silvério Marques, Garoupa, Oliveira Garoupa, Mariz Fernandes – teve, ao longo de quase todo o século passado, um elevado número de membros no Colégio, entre os quais três Comandantes de Batalhão. Tendo saído do Colégio em 59, completou o ensino secundário nos Liceus Infante D. Henrique, em Macau, onde seu Pai era então Governador, D. João de Castro, em Lisboa, Nacional de Oeiras e nos Salesianos do Estoril. Entrou para a Escola Naval em 1965, no Curso Mem de Sá, na classe de Engenheiro Maquinista Naval, tendo sido graduado em Guarda Marinha em 1969, Segundo-Tenente, em 1970 e Primeiro-Tenente em 1972. Como Oficial de Máquinas integrou, em 1974-1975, a última missão da Sacadura Cabral, em Angola, no período de transição para a independência. Passou à Reserva em 1981 e à Reforma em 1991. Licenciado pelo Instituto Superior Técnico em Metalurgia, em 1981, deixou nos colegas de curso a imagem de “em jovem, um

«oficial e cavalheiro», e, na fase final da vida, de «um lutador» ”. Na sua vida profissional fora da Marinha radicou-se, depois de ter vivido alguns anos em Lisboa, no Porto, a sua terra de eleição, pelo bem viver e especial truculência que tão bem se dava com a sua maneira de ser e onde criou e manteve um alargado círculo de amigos que consideraram ter sido um privilégio conhecê-lo. Aí concluiu a parte curricular do Mestrado em Inovação na Universidade de Aveiro não tendo, por razões familiares, apresentado tese, e exerceu o cargo de Director Geral do Instituto de Desenvolvimento e Inovação Tecnológica até o seu estado de saúde o impedir de trabalhar. Depois da paixão pelo mar e pela vela, o golf tornou-se a sua atividade favorita. Sócio do Oporto Golf Club, participou, entre outros, nalguns torneios da Associação de Antigos Alunos do Colégio, e ostentava, com particular orgulho, o colar da Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto. Aliou sempre, mesmo em prejuízo dos seus desejos legítimos, um rigoroso respeito pelos princípios em que foi educado com o cuidado e atenção pelos sentimentos dos que com ele conviveram e com a aceitação dos outros. Era uma pessoa com uma “força anímica extraordinária e um carácter de excepção” que o fez enfrentar a doença “com coragem e estoicismo, sentimentos que, com a reserva que imprimia a estas situações”, procurava transmitir a quem se preocupava com o seu estado de saúde. Para os filhos, Nuno (71/1982) e Filipa, irmãos, primos e sobrinhos foi “uma pessoa muito importante” e “uma verdadeira referência”, em particular para os dois filhos do Luís (107/1962), que acompanhou, após a morte deste e enquanto estudavam no Porto, com aquele misto de rigor, camaradagem e respeito que o caracterizava. Para mim, sempre número dois, foi um elemento de saudável competição e emulação, de reflexão, avaliação e ponderação nas minhas limitações, decisões e ambições. Teve uma “vida breve para os nossos de-

sejos e expectativas, mas uma vida realizada, completamente vivida”. Pedro Manuel de Oliveira Silvério Marques 32/1957


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José Joaquim Franco Marques Lito (30/1961) Engenheiro Civil – Professor Assistente do IST Nasceu a 28 de Novembro de 1950 - Faleceu a 24 de Junho de 2012

Na madrugada de 24 de Junho, de sábado para domingo, morreu o nosso camarada José Joaquim Franco Marques Lito. Esteve em velório na capela da Basílica da Estrela e dali partiu, na 2ª feira 25 para o cemitério dos Olivais, onde foi cremado. Nascido em 28 de Novembro de 1950, filho de pai médico, terá sido por influência do Martiniano Gonçalves (9/1958), de quem era primo, que entrou para o Colégio, em 1961. Foi o “30”, do curso de 61-68. Aluno exemplar, de primeira linha, sempre bem-disposto e sempre disponível para os que a ele recorriam, sempre duma simplicidade que alguns diriam ingénua mas que era tão só a manifestação do seu carácter limpo, directo, sensível e atento, foi Porta-Guião como graduado no 7º ano. Acabado o curso no Colégio, com notas brilhantes, foi para o Instituto Superior Técnico, onde veio a licenciar-se em Engenharia. Ali foi monitor e assistente; depois, foi Bolseiro no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC). Foi Quadro superior e chefia do Instituto de Tecnologia Educativa (ITE), sendo um

dos principais responsáveis pelo lançamento da Tele-Escola em Portugal. A sua intervenção no processo foi de tal modo relevante que integrou a missão portuguesa liderada pelo Ministro da Educação de então que se deslocou à Suécia para dar conta da experiência portuguesa. Foi membro do Grupo de Fomento de Substituição de Importações, tendo trabalhado com a Ministra da altura, Dra. Manuela Silva. Foi consultor na Norma. Terá sido por essa altura que a esclerose múltipla que, cedo, dele se apossou levou a que o considerassem “dispensável”. E terá sido a mão amiga de camarada de curso do Colégio, conhecedora do seu potencial e das suas qualidades humanas e profissionais – camarada que expressamente pede para não ser nomeado - que o “puxou” para a então Portugal Telecom. Aí, convivendo e lutando - estóico e inquebrantável, como era seu apanágio com a doença que o devassava, exerceu cargos em diversos Departamentos de Engenharia da Portugal Telecom, tendo estado ligado, nomeadamente, à análise e lançamento de equipamentos para pessoas com necessidades especiais, até à sua reforma. Nesta função, e dada a doença que o afectava, participou em diversos Congressos por teleconferência sendo as que organizou das primeiras do género que se realizaram no País. É o curriculum resumido do José Joaquim Franco Marques Lito, que não faz justiça ao exemplo de abnegação, resiliência, perseverança e dedicação que foi a sua vida para todos nós. Tivemos, todos os que com ele convivemos, sorte em ter sido seus amigos. Em espírito, acompanhamo-lo todos os

que o conhecemos, mesmo os que pecámos pela falta de assiduidade a visitá-lo, quando já não comparecia nas reuniões e encontros. A última reunião de curso em que esteve de corpo presente terá sido a dos 35 anos de saída, em 2003. Houve quem o fosse buscar a casa. Conviveu e lutou mais de 30 anos com a esclerose múltipla que cedo o atacou; foram 30 anos de presença de espírito inquebrantável, sempre igual a si mesmo, acompanhado devotadamente pelos seus. Partiu em paz. E é em paz, como exemplo de amigo e camarada, que permanece vivo nos nossos corações. Pedro Manuel do Vale Garrido da Silva 53/1961

Foi-se o Lito! O José Joaquim Franco Marques Lito, como eu fazia questão de lhe mostrar que sabia de cor o seu nome completo, para além do “30” do nosso curso. Lembro-me bem de ir visitá-lo aos fins-de-semana e estudar para casa dele, ali na avenida Defensores de Chaves, ao pé do cruzamento com a Miguel Bombarda. Viviam num daqueles apartamentos enormes com divisões enormes, dos anos trinta/quarenta? onde eu era principescamente recebido quando o visitava. Todos, o pai, médico, de cara larga e simpática por detrás dum fácies reservado, a mãe, a irmã (ou uma delas?) recebiam e tratavam bem os amigos e camaradas do filho. Todos grandes, como o Lito. Grande, não me lembro uma vez em que tenha usado o seu tamanho como argumento. Era um rapaz bom e foi depois, sempre, um homem bom. Para olhos menos atentos poderia passar por ingénuo. Não era, era sim compreensivo e atento. Lembro-me, como se fosse agora, de uma noite - depois de acabado o Colégio tínhamos ambos, como outros, ido para o Técnico - em que íamos a pé pela Duque de Ávila. Tínhamos saído de aulas tardias ou


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curso. Nas raras vezes em que nos encontrávamos não surgiu nunca a oportunidade para me redimir da barbaridade da coisa dita repentina, daquela maneira; nem para lhe dizer que aquilo não tinha passado de uma mera consideração de quem procura terra firme, que eu não era, não fui nunca nem isto nem aquilo, que era apenas o amigo e camarada dele. E lido ainda hoje mal comigo: por isso e porque lhe falhei ao não ter ido vê-lo mais cedo. O “diabinho”, o Abreu Novais, 406, contou-me há bocado um desabafo dele: “sabes que, por causa daquela história do Ámen à prelecção de não sei quem, apanhámos 5 dias e tivemos um medíocre a comportamento; e que, por causa disso, não fui Porta-Bandeira e fui Porta-Guião?”. Era ele, assim simples e estóico desta forma: nunca lhe tinha ouvido este comentário. José Joaquim, “allez, allez à votre santé. E Vaya con Dios. Joaquim Arnaldo Maltez Cardeira da Silva 133/1961

vínhamos do Café Império, onde se estudava (não era muito o estilo dele…). Era um período em que eu atravessava ainda a crise de reencontro pós-saída do Colégio e procurava, como é normal naquela idade, uma explicação para tudo, um mundo em que tudo fizesse sentido e fosse justo à luz dos princípios lá aprendidos. E saiu-me uma “boutade” que hoje, à distância, me soa como sendo de um ridícu-

lo que só a adolescência desculpa: “acho que politicamente sou isto…”, disse-lhe eu num repente, como se tivesse encontrado o Caminho, sem me preocupar nem ter tido a sensibilidade para a reacção dele. Ficou tenso, surpreendido e chocado pela simples asserção. Mas não comentou. Nunca comentou. E continuámos amigos, sempre, sem juízos, sem pré-juízos, sem condições. As nossas vidas seguiram o seu


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