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Revista ZacatraZ nº 181

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Editorial Revista “ZACATRAZ”

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Martiniano Gonçalves (9/1958) Presidente da AAACM

Editorial O

s nossos encontros no 3 de Março, as nossas reuniões de curso e outras festas e eventos relacionados com o Colégio não podem limitar-se à satisfação das nossas saudades e à alegria de nos encontrarmos. Sermos Antigos Alunos cria-nos também obrigações. A Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar tem dois objectivos estatutários principais: o exercício da Solidariedade entre os Antigos Alunos, na continuidade da missão com que foi fundada em 1903 a “Associação Philantrópica dos Alumnos do Real Colégio Militar”, instituição de beneficência especialmente destinada a socorrer antigos alunos, suas viúvas e órfãos que se encontrassem privados de meios de subsistência…“, e “a intransigente defesa e promoção da Instituição (o Colégio Militar) e no que ela consiste, nos seus princípios, valores e tradições”. Sem descurar a vertente do apoio à Instituição que nos educou – área em que nos últimos anos a actual Direcção da Associação tem dado particular contribuição para a reforma de múltiplos aspectos da vida do Colégio -, refiro-me, no grave contexto social e económico que Portugal atravessa, à prioridade que a Solidariedade deve ter nas acções e iniciativas da nossa comunidade. Nos últimos meses são inúmeros os casos, que nos têm chegado, de Antigos Alunos em situação precária, rondando a miséria económica, psíquica e moral. Acreditamos que, com o agravamento e continuidade da actual crise que Portugal vive, a tendência será a do aparecimento de muitos mais casos nos próximos tempos, e estamos conscientes de que apenas, de forma fortuita, temos vindo a tomar conhecimento dos actuais. É imperiosa a tomada de decisões de fundo para fazermos, em conjunto, face a esta situação de flagelo. Não podemos deixar que a nossa indiferença ou

omissão convivam com Antigos Alunos em situações de despejo por não pagamento da renda da casa ou do financiamento bancário, que tenham contas bancárias penhoradas por incumprimento, que tomem banho de água fria por não pagarem a conta do gás, que vivam sem televisão e telefone e com apenas 2,5 euros por dia e que tenham que andar a distribuir jornais nas ruas para receberem 15 euros de cada vez que conseguem esse « trabalho » , que frequentem a « sopa dos pobres » ou que sejam obrigados a tirar os seus filhos das escolas e colégios por falta de meios para pagar mensalidades, livros e outro material escolar. Infelizmente, tudo isto já hoje acontece! Mas, tememos que os casos que conhecemos constituam apenas a parte visível do iceberg : ao termos tomado algumas iniciativas, descobrimos novas situações em que a timidez e a vergonha impediam a sua chegada ao nosso conhecimento. Faço um sério e forte apelo a toda a nossa comunidade. Que cada um na medida das suas possibilidades, mas de forma intensa e assumida, considere como sua obrigação contribuir para a minimização das situações de degradação em que se encontram camaradas nossos. Comecemos pelo « nosso curso ». Procuremos saber a situação de todos os nossos camaradas de curso para detectar eventuais situações críticas e organizemos no seio dos nossos cursos o apoio material, moral e psíquico aos necessitados. Peço que, em geral, nos façam chegar o vosso conhecimento de situações necessitadas de apoio material e moral, e que, em particular, colaborem materialmente com Associação através de Donativos para este fim específico : estimamos que, para o próximo ano, necessitaremos de mobilizar

algumas dezenas de milhares de euros para atenuar as situações mais gritantes. Aos que, pela sua situação profissional, tenham a capacidade de gerar ou influenciar a atribuição de empregos para camaradas nossos para as mais diversas profissões e funções, peço-vos que contactem a Associação a fim de as publicitarmos na nossa Newsletter mensal. Àqueles que se encontram em dificuldade pedimos-lhes que entrem em contacto connosco: que não se sintam inibidos e pensem que, uma vez ultrapassadas as situações difíceis, poderão ser vocês próprios a apoiar outros camaradas. Descrevam-nos sumariamente as vossas dificuldades, indiquem-nos as vossa aptidões profissionais ou outras em caso de situações de desemprego em que se encontrem. Os nossos meios são escassos e temos que os distribuir de forma equitativa e limitada, uma vez que também devemos provisionar os meios materiais para situações futuras. Mas a camaradagem – aquela palavra que ao longo de 7 ou 8 anos íamos ouvindo e aprendendo, progressivamente no dia-a-dia, o que significava que sempre foi nosso culto e apanágio enquanto alunos do Colégio, tem na Solidariedade a prática que hoje, como Antigos Alunos, temos a obrigação de manter viva entre nós. Ajuda-nos, pela tua acção, a contagiar todos os nossos camaradas que se encontrem perto de ti no sentido de desenvolvermos e intensificarmos este movimento de Solidariedade de que a nossa comunidade tanto necessita. Passemos das boas intenções aos actos : há Meninos da Luz que necessitam do apoio de outros Meninos da Luz. Nunca como nos dias de hoje foi tão necessário :

Um por todos, todos por um !


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Ficha Técnica

CORPOS SOCIAIS DA ASSOCIAÇÃO PARA O TRIÉNIO 2008-2010 MESA DA ASSEMBLEIA GERAL Presidente: Vice-Presidente: 1.º Secretário: 2.º Secretário:

José Eduardo Martinho Garcia Leandro - 94/1950 Bernardo Manuel Diniz de Ayala - 171/1953 Luís Baptista Esteves Virtuoso - 72/1973 Ricardo Neto Galvão - 347/1997

DIRECÇÃO Presidente: Vice-Presidente: Secretário: Tesoureiro: 1º Vogal: 2º Vogal: 3º Vogal: 4º Vogal: 5º Vogal: 1º Vogal Suplente: 2º Vogal Suplente: 3º Vogal Suplente:

Martiniano Nunes Gonçalves - 9/1958 José Maria Rebocho Pais de Paula Santos - 644/1968 Pedro Miguel Correia Vala Chagas - 357/1977 João Sanches de Miranda Mourão - 552/1960 Mário Margarido e Silva Falcão - 314/1936 Frederico Eduardo Rosa Santos - 78/1957 Duarte Manuel Silva da Costa Freitas - 199/1957 Carlos Francisco da Silva do Rio Carvalho - 307/1971 Samuel Ma - 29/1995 Fernando Nuno Lamy da Fontoura - 75/1959 Manuel Pedro da Costa Pereira Roriz - 519/1959 Vitor Manuel Galvão Rocha Novais Gonçalves - 666/1971

Ficha Técnica PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL N° 181 - Outubro/Dezembro - 2010 45° Ano FUNDADOR Carlos Vieira da Rocha (189/1929) DIRECTOR Mário Margarido e Silva Falcão (314/1936) CHEFE DE REDACÇÃO Gonçalo Salema Leal de Matos (371/1949) REDACÇÃO Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa (71/1957) Vasco Santos Pinheiro (254/1982) João Carlos Agostinho Alves (110/1996) Ricardo Neto Galvão (347/1997) Nuno José Lopes da Costa Alves Caetano (99/1998) Francisco Rodrigues dos Santos (128/1998)

CONSELHO FISCAL Presidente: 1º Vogal: 2º Vogal: 1º Vogal Suplente: 2º Vogal Suplente:

Pedro João Reis de Matos Silva - 449/1958 João do Passo Vicente Ribeiro - 153/1958 António Cortez Freire Damião - 236/1959 João Luís de Mascarenhas e Silva Shoerder Coimbra - 54/1984 António Luís Henriques de Faria Fernandes - 454/1970

CAPA O Colégio e o Ângelo Felgueiras no Topo do Mundo. ENTIDADE PROPRIETÁRIA E EDITOR Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar MORADA DO PROPRIETÁRIO e SEDE DA REDAÇÃO Quartel da Formação - Largo da Luz 1600-498 Lisboa Tel. 217 122 306/8 Fax. 217 122 307

ARTIGOS À VENDA NA AAACM

TIRAGEM - 1500 exemplares DEPÓSITO LEGAL Nº 79856/94

PUBLICAÇÕES

Nº DE REGISTO NO ICS 100010 ISSN 0872-8224 DESIGN e EXECUÇÃO GRÁFICA

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA AOS SÓCIOS DA AAACM NÚMERO AVULSO: 4,00 €

PREÇO: 25 €

PREÇO: 12 €

PREÇO: 6 €

PREÇO: 25 €

PREÇO: 5 €

Os artigos publicados são da responsabilidade dos seus autores.

Outras Publicações I Volume da História ao Colégio Militar

PREÇO: 12 €

PREÇO: 3 €

ASSINATURA: 15,00 €

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II Volume da História do Colégio Militar

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III Volume da História do Colégio Militar

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Os Jardins do Colégio Militar

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Sumário

Dos Antigos Alunos

04 O 107º Aniversário da AAACM 06 Jantar anual da AAACM 13 Antigos alunos em destaque

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06

Dos Antigos Alunos

Jantar anual da AAACM Prémios Barretina

Do Colégio

19 Abertura solene do ano lectivo 27 Graduados 2010/2011 Colaboração

28 A importancia dos Colégios Militares Passado, presente e futuro

31 O Colégio Militar justifica-se no actual panorama nacional da educação?a

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Entrevista

Entrevista a Ângelo Felgueiras

36 Uma faceta desconhecida do Marechal Gomes da Costa

40 Mandela - A construção de um homem 42 O Governador João Xavier de Paiva 44 Louvor - Professor Dario 46 O Rei D. Duarte e o seu livro “A arte de bem cavalgar toda a sela”

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Colaboração

O perturbante terceiro pilar da formação

Recordando

52 A Entrada 64 Recordações da Guiné (1966-1968) 69 A “Boiada” de 1932 72 Os que nos deixaram

36

Colaboração

Uma faceta desconhecida do Marechal Gomes da Costa


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Dos Antigos Alunos O 107º Aniversário da AAACM

Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

O 107º

Aniversário da AAACM

Decorreram no passado dia 29 de Outubro as comemorações de mais um Aniversário da nossa Associação, este ano perturbadas pelas condições climáticas adversas e agrestes que não permitiram algumas das cerimónias previstas.

©Foto Leonel Tomás


Dos Antigos Alunos O 107º Aniversário da AAACM

N

ão se procedeu à deposição da coroa de flores no Monumento do Largo da Luz, não foi possível acender a Chama Colegial, não se realizou a Missa na Capela do Colégio porque o Capelão Braula Reis ficou retido em São Domingos por força da cheia que se verificou naquele local e a tradicional fotografia na escadaria da Enferma foi substituída por uma tirada na escadaria de acesso ao Refeitório do Corpo de Alunos. Todavia, o espírito que envolveu todos os presentes mantém-se imutável. A Velha Guarda foi homenageada e acarinhada pelos Servidores do Colégio e pelos seus actuais Alunos. Na Biblioteca foram apresentados cumprimentos ao Exmº Cor. Tir. Director do Colégio Militar, cabendo a oração da praxe ao José Alberto da Costa Matos (96/1950), Presidente do Conselho Supremo e que este ano teve a honra de ascender ao grupo dos mais antigos. O Director proferiu palavras de acolhimento e traçou algumas considerações de grande relevância relacionadas com a Instituição e os tempos que se vivem actualmente. As palavras proferidas foram de improviso o que não nos permite transcreve-las, como seria desejável, pelo interesse do seu conteúdo. Na homenagem ao Fundador do Colégio Militar, Marechal António Teixeira Rebello, foi deposta uma coroa de flores, junto ao busto do Marechal, pelo decano João António Ferreira Lamas (75/1931), com os seus 90 anos de idade e uma manifestação de invejável vitalidade e grande energia, acto em que foi acompanhado pelo Director do Colégio e por toda a Velha Guarda presente. O tradicional almoço no refeitório do Corpo de Alunos, com a presença do Director, Subdirector e Servidores do Colégio, de membros da Direcção e da Assembleia Geral da Associação, dos componentes da Velha Guarda e de todo o Batalhão Colegial, decorreu com a habitual boa disposição, fazendo honras à ementa mais apreciada nos tempos em que estes Antigos Alunos frequentaram o Colégio: caldo verde, amarelo de carne, arroz doce e vinho do Porto. À tarde, na Sede da Associação, foi inaugurada a “Galeria dos Presidentes”, feliz iniciativa da actual Direcção que perpetua a imagem daqueles que presidiram à AAACM ao longo dos tempos.

©Foto Gonçalo Leal de Matos

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Dos Antigos Alunos Jantar anual da AAACM / Prémios Barretina

Luis Barbosa (71/1957)

Jantar anual da

ASSOCIAÇÃO N

o passado dia 5 de Novembro realizou-se o jantar anual da nossa Associação. À semelhança do ano passado, o jantar decorreu na Sala Belém do Pestana Palace Hotel, em Lisboa, e foi muito concorrido, tendo reunido centenas de Antigos Alunos, numa manifestação de inequívoco apoio ao Colégio e à Associação.

Antes do inicio do jantar o Presidente da Direcção Martiniano Gonçalves (9/1958), usou da palavra para saudar os presentes, referindo que esta reunião anual, para além de proporcionar o reencontro e convívio de Antigos Alunos, tinha como objectivos fazer um ponto de situação das actividades mais recentes da Associação e promover a atribuição dos Prémios Barretina 2010. Começou o nosso Presidente por salientar a presença de 3 convidados, nomeadamente do Senhor General Raúl Passos, que recentemente deixou as funções de Director do Colégio, do reformado fâmulo (servente) Xavier e do Senhor Leonel Tomás, sócio honorário da Associação. Referiu em seguida as forçadas ausências do membro da Direcção da Associação e Di-


Dos Antigos Alunos Jantar anual da AAACM / Prémios Barretina

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rector da Revista Mário Falcão (314/1936) e do Paula Santos (644/1968), Vice Presidente da Direcção da Associação, este último em serviço na Argélia. Passou de seguida a ler uma carta recebida do Fanha (289/1961 e Prémio Barretina em 2009), que se transcreve: “ Caros camaradas, Esta é uma palavra forte e que me é querida. Lembro-me bem que colega está fora de causa, nunca foi para ser usado. Companheiro é simpático mas pouco mais que isso. Camarada é o nome de quem viveu ombro com ombro, de quem cresceu e sofreu e riu com fraterna cumplicidade, de quem aprendeu até ao osso o que quer dizer a palavra solidariedade ou, se quiserem, a palavra camaradagem. À medida que os anos passam vou sentindo mais forte e mais presente esta matriz de menino do Colégio que trago presa à pele. E recordo em primeiro lugar que no dia em que entrei para o Colégio sempre fui tratado por: “Senhor Aluno”. Tinha 10 anos e descobria uma condição que não conhecia: a de “Senhor Aluno”. Levei na cara como todos nós e não me dói. Passei por momentos dramáticos e outros de grande júbilo. E fui sempre o “Senhor Aluno”. E acho que hoje, 42 anos depois de sair do Colégio, através das circunstâncias que a vida me ofereceu, dos desafios que me proporcionou, das escolhas e decisões por vezes duras e radicais que tomei, nunca deixei de ser o “Senhor Aluno”. Por isso, não podendo estar hoje convosco, caríssimos camaradas, quero dizer-vos que sinto um grande orgulho em estar lado a lado, ombro com ombro, com homens que nunca deixaram de ser “Senhores Alunos”, gente cuja dignidade, nobreza e competência os levou a ser reconhecidos na sociedade portuguesa como “Senhores” em todos os sectores onde marcam presença. Para todos, um grande Zacatrás!”

L

ida esta carta, que mereceu um aplauso geral da assistência, lembrou o nosso Presidente que a actual Direcção termina neste ano o seu mandato de três anos, pelo que considerava oportuno apresentar a visão da Direcção sobre a situação do Colégio e referir a actuação da Direcção face ao diagnóstico apresentado no jantar da Associação do ano passado, nomeadamente no que respeita às quatro actividades que considerou da maior importância para a Associação e para o Colégio. A primeira das quatro actividades referidas foi a de COMUNICAÇÃO INTERNA E EXTERNA de capital importância na sociedade actual, tendo salientado as seguintes acções tomadas: • Criação da Newsletter que já leva 22 presenças mensais nas casas de 3.250 Antigos Alunos, em que se procurou noticiar, entre outras, as actividades de Antigos Alunos que se distinguem mensalmente na vida social • Redesenho do Site suportado em tecnologias modernas que permitirão ir acrescentando novas funcionalidades e com um interface de comunicação mais agradável e eficaz: já há cerca de 3.000 visitas mensais que se traduzem em aproximadamente 8.000 visualizações de páginas • Criação de uma página no Facebook onde o número dos seus seguidores é actualmente de 1.234 • Recente transformação da Revista com um

novo design mais contemporâneo, e com conteúdos mais vivos e actuais sobre as actividades e a vida dos Antigos Alunos, de modo a chegar às gerações dos mais novos para quem a Revista estava progressivamente a ter cada vez menos interesse • Melhoria continua do “quem somos e por onde andamos” – afinal o maior activo da comunidade dos Meninos da Luz somos nós próprios! - em que se tem desenvolvido a base de dados da Associação procurando obter (tarefa que não é fácil!) e digitalizando mais de 2.000 fotografias individuais enquanto alunos, encontrando-se, no entanto, este trabalho ainda muito longe do que se pretende atingir com dados sobre, por exemplo, as actividades públicas dos Antigo Alunos e outros atributos curriculares, nomeadamente, os que se referem à sua participação em representação de Portugal como diplomatas, atletas, políticos, militares, os residentes ou que trabalham nos PALOP’s, etc. • Criação de uma rede de acesso aos Antigos Alunos através de delegados de curso • Lançamento e mobilização do encontro anual de Antigos Alunos por meio da realização do jantar anual da Associação. • Promoção de entrevistas públicas a Antigos Alunos que se têm distinguido em diferentes actividades, considerando que é esta a melhor contribuição que podemos dar para a imagem do produto do Colégio Militar: os


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Dos Antigos Alunos Jantar anual da AAACM / Prémios Barretina

seus Antigos Alunos e o seu desempenho na sociedade. A segunda actividade referida foi a da missão da Associação no domínio da SOLIDARIEDADE, que considerou ser uma área da maior importância, que está na essência dos nossos valores, sendo uma área onde a Associação procura um equilibrio adequado mas muito dificil, entre a sua capacidade, os meios limitados de que dispõe e a sua enorme vontade. Indicou que a Associação tem actuado de forma selectiva, concentrando os seus esforços em três tipos de intervenções, tendo sido possível prestar apoios em perto de uma centena de casos. As intervencões desenvolvidas foram as seguintes: • Apoio a Antigos Alunos em dificuldades financeiras extremas; • Apoio a Antigos Alunos em situações de doença em fases da vida (meia idade) em que normalmente este tipo de carências não ocorria (doenças do foro psicológico, resultantes de questões profissionais, familiares, etc.); • Apoio a Antigos Alunos na procura de emprego; A terceira actividade referida foi a da GESTÃO DA CRISE, que a Associação teve de promover, para fazer face às agressões externas ao Colégio. Lembrou o Presidente que o ano de 2009 correspondeu a um período de forte ataque público ao Colégio, para o qual não estávamos preparados em termos de respostas adequadas. Para fazer face à situação ocorrida e como medida de apoio e preventiva de situações futuras, criou a Associação um Conselho Consultivo de Comunicação, com Antigos Alunos profissionalmente envolvidos em comunicação e marketing, a fim de melhor acompanhar e reagir às solicitações externas e ao controle da informação, com alguma frequência veiculada de forma insidiosa, relativa ao Colégio e à Associação. Dentro desta linha, contratou a Associação, durante cerca de 6 meses, uma empresa de assessoria, tendo actuado de forma activa, mobilizando jornalistas dos principais orgãos de comunicação para visitas e reportagens sobre o Colégio e também de forma passiva e informal, escla-

recendo e antecipando o conteúdo de certos factos e evitando notícias sensacionalistas e desenquadradas do seu verdadeiro contexto. A Associação assumiu ainda posições públicas em momentos particularmente adversos, procurando sempre não alimentar polémicas. A quarta e última actividade referida foi a iniciativa “VAMOS APOIAR O COLÉGIO”. Lembrou o nosso Presidente as duras palavras por si referidas no jantar do ano passado. “O Colégio não está bem! O Colégio necessita de um tratamento de fundo e não de medidas avulsas para curarem alguns dos seus desajustamentos relativamente à sociedade em que vivemos!” Lembrou também a referência que então fez à queda do número de candidatos ao longo das últimas décadas, ao mau desempenho pedagógico, à exploração mediática dos casos de violência e à provável futura situação de dificuldades financeiras do Colégio decorrente da diminuição continuada do número de alunos, factos estes cuja manutenção poria em risco a existência do Colégio. Informou em seguida àcerca do trabalho desenvolvido num primeiro tempo na definição de uma “Visão de Desenvolvimento e Crescimento para o Colégio”, procurando assegurar a discussão alargada de perspectivas, a integração de opiniões externas qualificadas e a legitimação das conclusões alcançadas, tanto pelo Conselho Supremo como pela Assembleia Geral. Referiu de seguida que os principais pontos e as grandes linhas da mencionada “Visão de Desenvolvimento e Crescimento para o Colégio” são em resumo os seguintes: • Assumir publicamente e de forma convenientemente comunicada, que a Educação ministrada no Colégio tem três componentes: a Escolar, a Desportiva e a Formação para a Liderança Entende-se que estas 3 componentes da Educação no Colégio devem constituir um factor fortemente diferenciador que deve ser conveniente e continuadamente comunicado de forma profissional à sociedade. • Conseguir maior exigência no plano Académico, sendo necessário para tal profissiona-

lizar a função Director Pedagógico, atribuindo-a a um profissional contratado com larga experiência e de reconhecida competência na matéria. • Promover o alargamento do Colégio ao 1º ciclo – 6 anos num futuro próximo em regime obviamente de externato; factor fundamental para a angariação de candidatos; • Admitir o regime de internato com opção de externato a partir do 7º e até ao 12º anos, passando o Colégio a ser um meio conhecido e familiar desde o início do ensino básico. Admite-se que a grande maioria dos alunos ao chegar ao 7º ano optará pelo regime de internato. • Promover a revisão das condições de admissão para filhos de Oficiais e de Antigos Alunos com mensalidades adequadas de forma realista aos níveis salariais dos Oficiais. Informou de seguida o nosso Presidente que após aprovação em Assembleia Geral da “Visão de Desenvolvimento e Crescimento para o Colégio”, foi a mesma entregue ao Senhor General Chefe do Estado Maior do Exército, tendo-se constatado, com natural agrado, que algumas das medidas propostas correspondiam a objectivos concretos já identificados e validados pelo Exército. Referiu, a propósito da acção tomada, ter a Associação conhecimento dos seguintes factos: • Existem já instruções do Chefe do Estado Maior do Exército para ser implementada a instrução primária a partir do próximo ano • Ao nível das condições para filhos de militares nada se alterou no corrente ano lectivo • Não há conhecimento da existência de qualquer iniciativa no sentido de enquadrar na estrutura do Colégio um Director Pedagógico com os atributos identificados Felicitou de seguida o nosso Presidente o Colégio, na pessoa do Senhor General Raúl Passos, presente no jantar, pelo crescimento do número de candidatos este ano ao Colégio (174 candidatos, 84 admitidos, 76 entrados, excluídos por inaptidão literária 87, e por


Dos Antigos Alunos Jantar anual da AAACM / Prémios Barretina

inaptidão física 3) e pelos melhores resultados obtidos nos rankings nacionais do 9º e 12º anos. Trata-se de resultados que representam grande esforço e trabalho e que merecem o justo reconhecimento e aplauso dos Antigos Alunos. Terminou o nosso Presidente a sua intervenção, comunicando que não se iria candidatar a novo mandato como Presidente da Direcção, nem a qualquer Orgão Social da Associação, agradecendo todo o estímulo, apoio e carinho que sempre teve da grande maioria dos Antigos Alunos e em particular do Conselho Supremo e informando que já se encontra em formação uma nova equipa candidata à Direcção da Associação. Esta equipa terá o apoio e a participação de vários membros da Direcção actual e pretende continuar as linhas gerais de actuação da presente Direcção, pelo que, se a próxima Assembleia Geral assim o entender, a continuidade estará assegurada. Concluída a intervenção descrita, seguiu-se o jantar, que foi do agrado geral dos presentes e que serviu nas várias mesas para se porem as conversas em dia. Na sequência do jantar tomou de novo a palavra o nosso Presidente, para proceder à atribuição dos Prémios Barretina, tarefa em que foi auxiliado pelo Vogal da Direcção Pedro Roriz (519/1959). Os Prémios Barretina foram instituídos pela Associação para, em cada ano, distinguir personalidades ligadas ao Universo do Colégio Militar. Os Prémios dizem respeito a três categorias: Amigos do Colégio Militar; Colégio Militar no Mundo; Associação. O Prémio Amigos do Colégio Militar distingue personalidades que não sejam Antigos Alunos, ou instituições, que tenham contribuído de forma notável para a concretização da missão do Colégio Militar, para a afirmação da instituição e para o sucesso do seu projecto educativo. O Prémio Associação distingue membros ou delegações da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar, cuja acção tenha contribuído de forma notável para a concretização da missão da AAACM.

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O Prémio Colégio Militar no Mundo distingue Antigos Alunos do Colégio Militar, cuja acção na sociedade seja uma expressão da excelência e que traduzam na sua vida os valores do Código de Honra dos Alunos do Colégio Militar. Os agraciados com os Prémios Barretina 2010 foram os seguintes: Major-General Raúl Jorge Laginha Gonçalves Passos

Amigos do Colégio Militar Maj.Gen Raúl Jorge Laginha Gonçalves Passos Francisco Xavier Associação Serviço ao Colégio Paulo Fernando Vieira de Carvalho Cardoso do Amaral 209/1974 e o antigo Fâmulo Francisco Xavier Notoriedade Luis Augusto Esparteiro Lopes da Costa 227/1969 Colégio Militar no Mundo António Manuel Gonçalves Alexandre 527/1974 Pedro Mendonça de Queiroz Pereira 140/1959 Ângelo Eduardo Manso Felgueiras e Sousa 498/1976 António de Morais Sarmento dos Santos Lucas e Costa Brotas 30/1940 A atribuição dos prémios a cada um dos agraciados foi precedida pela leitura dos correspondentes justificativos, que a seguir se apresentam. Todos os agraciados manifestaram, em breves improvisos, o seu reconhecimento à Associação pelas distinções que lhes foram concedidas, sendo de justiça realçar o improviso do antigo fâmulo Francisco Xavier, que a todos tocou pela sua espontaneidade e amor ao Colégio.

Casado, Pai de dois filhos, actualmente com 55 anos, Major General do Exército Português oriundo da Arma de Cavalaria desempenhou as funções de Director do Colégio de Julho de 2006 a Agosto de 2010. O Senhor Major General Raúl Passos prestou serviço na Academia Militar desempenhando entre outras funções as de professor de diversas disciplinas, Instrutor de Equitação, Comandante de uma Companhia de Alunos e Comandante do Corpo de Alunos. Representou por diversas vezes Portugal e a Instituição Militar junto da NATO. Da sua folha de serviços constam 9 louvores dos quais 6 de Oficial General e 6 condecorações entre as quais uma Medalha de Serviços Distintos de grau Prata. Como Director do Colégio, procurou, desde o início, entender a mística colegial em toda a sua extensão, o que se veio a traduzir, por um lado, numa relação estreita e sempre colaborante com a nossa Associação e, por outro, na implementação de um conjunto de reformas, algumas nesta data ainda em fase muito incipiente, indispensáveis para adequação do Colégio à sociedade dos dias de hoje. Nos 4 anos em que foi Director do Colégio, viveu, por diversas vezes debaixo de uma acentuada pressão mediática, uma das fases mais difíceis do Colégio dos últimos anos, tendo conseguido, mercê do seu equilíbrio, sentido do dever, boa gestão e envolvimento com o espírito do Colégio, contribuir de forma muito positiva para a imagem externa e para uma dinâmica reformadora e estruturante da Instituição. Os Antigos Alunos ficam a dever-lhe, entre outras, a persistência e envolvimento pessoal que pôs na conclusão do Protocolo de Cooperação entre o Colégio Militar e a Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar assinado em 2009 por ocasião das comemorações do 3 de Março. É a este nosso Amigo que atribuímos um « Prémio Barretina – Amigos do Colégio Militar » neste ano de 2010. Queremos com este Prémio, para além de lhe testemunharmos o nosso respeito e admiração pelas suas qualidades pessoais e profissionais, manifestar-lhe, principalmente, o nosso reconhecimento pelos relevantes serviços que prestou à causa do Colégio e pela agradável e profícua relação que soube estabelecer com a nossa Associação. Prémio entregue pelo 9/1958 – Martiniano Nunes Gonçalves, Presidente da Direcção da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar


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Dos Antigos Alunos Jantar anual da AAACM / Prémios Barretina

Francisco Xavier Antigo Fâmulo

Paulo Fernando Vieira de Carvalho Cardoso do Amaral Antigo Aluno nº 209/1974

Luís Augusto Esparteiro Lopes da Costa Antigo Aluno nº 227/69

Francisco Xavier nasceu há 78 anos, na freguesia de Zebreira, Idanha a Nova, distrito de Castelo Branco, casou com Maria de Lurdes Antunes e tem uma filha, e uma neta. É o Xavier que em 1958 era Servente na 1ª quando fui Rata. A sua ficha individual de identificação no Colégio refere que tem a 4ª classe, e entrou para o Colégio em 11 de Março de 1955, com o nº 175 e a categoria profissional de Servente Eventual, com o salário de 32 escudos/dia - 16 centimos de euro !!! - tendo iniciado a sua actividade « prestando serviço no refeitório dos Alunos » e sido promovido 6 vezes e atingido em 1986 a categoria de Vigilante Principal. Foi ao longo da sua permanência no Colégio merecedor de diversos louvores pelos sucessivos Directores e Sub-Directores, nomeadamente referentes á sua passagem pela 1ª Companhia. Neles pode ler-se com frequência referências ao seu caracter e comportamento destacando-se passagens como « de trato correcto e muito diligente, soube sempre manter em bom nível o relacionamento necessário não só com os Alunos mas também com os encarregados de educação, pelo que se tornou digno de ser apontado como um exemplo a ser seguido e de ser louvado publicamente », ou ainda « pessoa simples e educada, afável no trato, dotado de excelentes qualidades morais e profissionais, sempre soube grangear a estima e consideração dos demais colegas de trabalho, Alunos, encarregados de educação e superiores hierárquicos. » Passou à situação de Reforma em 29 de Novembro de 1990, mais de 35 anos depois da sua admissão no Colégio, sendo o seu último louvor datado de 8 de Janeiro de 1991. Ao longo destas 36 gerações de Ratas o Xavier conheceu e conviveu com 3563 Alunos o que representa mais de um quarto de todos os Alunos que passaram pelo Colégio. É a este nosso grande e querido Amigo que atribuímos um dos dois « Prémios Barretina – Amigos do Colégio Militar » neste ano de 2010. Queremos com este Prémio, para além de fazer justiça ao Xavier, simbolizar o nosso reconhecimento a todos os que, já mortos ou ainda vivos, na simplicidade da sua dedicação e amor ao Colégio, contribuiram para a nossa felicidade e para as nossas vidas.

Paulo Amaral, 48 anos, Antigo Aluno 209/74, foi Comandante da 4ª em 1981, tendo-se licenciado em Engenharia Electrotécnica e Sistemas de Computadores no IST em 1986. Mestre em Informática (1988) e Doutor em Sistemas (1993) pela Universidade de Paris, é também MBA pela Universidade Católica de Lisboa (1995). Tem uma vasta, relevante e intensa carreira académica e empresarial na área de gestão e sistemas de informação. Com dois filhos no Colégio Militar, desde 2005 que integra a Direcção da Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos do Colégio Militar, sendo Presidente da Direcção desde 2008. Apesar da intensidade da sua actividade profissional e académica, o Paulo Amaral dedicou-se à Associação de Pais. O Presidente da Associação de Pais, especialmente quando é Antigo Aluno, ocupa uma interface difícil de gerir. Por vezes, os Pais não compreendem completamente a lógica do projecto educativo do Colégio e têm perplexidades, dúvidas, estados de alma, reclamações e, acima de tudo, uma grande necessidade de informação.

Mais conhecido apenas por Luis Esparteiro, tem 51 anos, nasceu em Coimbra em 1959, entrou no Colégio em 1969 ficando com o número 227. Foi graduado no ano lectivo de 1975/76 em 2 estrelas da 2ª. Após a sua saída do Colégio frequentou diversos cursos universitários tendo sido aluno da Academia Militar, de Medicina, de Medicina Dentária, Economia, Gestão e Educação Física, prenunciando a sua vocação para a interpretação de diversos papéis. Frequentemente presente nas nossas casas no exercício de uma das suas profissões, e possuidor de uma notável polivalência, desenvolveu a sua actividade no cinema enquanto Actor - 9 filmes, um dos quais “Camarate” realizado por outro Antigo Aluno, o 493/58 Luis Filipe Rocha -, no Teatro como Actor (14 peças) e Encenador (2 peças) e em diversas Séries das quais “Super Pai” a terá tornado mais conhecido e “Polícia” aquela que terá mais gostado de fazer em Televisão. No campo das Telenovelas onde é assíduo com 19 presenças, há que destacar a sua primeira telenovela – “Vila Faia” - , que também foi a primeira telenovela portuguesa, e a que se encontra actualmente em curso – “Espírito Indomável” - em que desempenha o papel de um vilão proprietário rural. Pertence a uma família que com o intervalo de uma geração deu 7 alunos ao Colégio: 3 irmãos, 1 filho e 3 sobrinhos. Figura mediática simpática, colaborando frequentemente com o Colégio e com a Associação nomeadamente na encenação das Récitas dos Alunos e na exploração do Teatro D. Luis Filipe, tem, em todas as intervenções públicas e entrevistas em que se proporciona, testemunhado o seu orgulho da sua condição de Antigo Aluno e as virtudes e os aspectos formativos da educação do Colégio, posicionamento que muito contribui para a difusão da imagem do Colégio. Pelo percurso de vida profissional que já leva e pelas restantes razões apontadas a Direcção da Associação decidiu atribuir-lhe, neste ano, o “Prémio Barretina – Associação – Notoriedade”

Prémio entregue pelo 9/1958 – Martiniano Nunes Gonçalves, Presidente da Direcção da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar

O Paulo Amaral conseguiu comunicar eficazmente com os Pais e com a Direcção do Colégio e, além disso, resolver um problema de comunicação crónico entre as duas partes. Nestes últimos cinco anos tivemos vicissitudes graves que geraram situações pontuais difíceis e um contexto de acção de risco permanente. Mais visível, ou agindo com discrição, o Paulo Amaral contribuiu com a sua capacidade, sabedoria e amor ao Colégio, para fazer frente a todas as dificuldades. Nos momentos críticos, que queremos esquecer, mas não devemos, toda a família Colegial apareceu unida e o Paulo Amaral muito contribuiu para isso. A Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar e a Associação de Pais, com total independência, cooperaram com grande eficácia na sua missão de servir o Colégio e em particular os Alunos, que em cada momento são a sua razão de existir. O nosso obrigado ao Paulo Amaral! Prémio entregue pelo 94/1950 – José Eduardo Garcia Leandro – Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação

Prémio entregue pelo 304/1957 – O Farrusco – João Cordeiro que também foi Prémio Barretina – Notoriedade em 2008


Dos Antigos Alunos Jantar anual da AAACM / Prémios Barretina

António Manuel Gonçalves Alexandre Antigo Aluno nº 527/74 António Manuel Gonçalves Alexandre, 45 anos, nasceu em Trancoso, em 1965. Frequentou o Colégio entre 1974 e 1982 ano em que foi 3 estrêlas da 2ª, e em que ingressou na Escola Naval, tendo concluído, em 1987, o curso de Marinha, Ramo de Electrónica. Ao longo da sua carreira prestou serviço em diversos navios, entre os quais a corveta “João Coutinho”, como Chefe de Serviço de Navegação, a lancha hidrográfica “Auriga”, como Imediato, a fragata “Comandante Roberto Ivens”, como Chefe do Serviço de Electrotecnia e Adjunto do Imediato para a Gestão do Material, e a fragata “Corte-Real”, que comandou até Abril de 2010. Desempenhou ainda diversas outras funções na Marinha Portuguesa e na Standing Naval Force Atlantic, em cujo Estado-Maior desempenhou as funções de Staff Weapon Engineer Officer. Foi distinguido com diversos louvores e agraciado com a Medalha de Serviços Distintos – grau Prata, Medalha Militar de Mérito Militar de 2ª Classe, Medalha Militar da Cruz Naval de 2ª classe, Medalha Militar de Comportamento Exemplar de Prata, e ainda as Medalhas NATO com as inscrições “Yugoslavia Medal” e “Article 5 - Operation Active Endeavour” na sequencia do 11 de Setembro e a Medalha da União da Europa Ocidental no âmbito de acções desenvolvidas pela “Comandante Roberto Ivens” no tempo da ex-Yoguslavia. No comando da “Corte Real” foi em 2009, em Londres, na Assembleia Geral da Reunião Anual da Organização Marítima Internacional, distinguido e premiado pelas acções envolvidas no combate à pirataria no Golfo de Aden, pelo que no meio da “malta” do Colégio já foi baptizado “o caça piratas”. É actualmente Capitão de Mar e Guerra e Chefe da Repartição de Oficiais da Direcção do Serviço de Pessoal da Armada. Pelas tarefas que, no âmbito da sua profissão, desempenhou com brilhantismo em representação de Portugal, o 527/74 dignificou a casa onde foi educado, pelo que nos orgulhamos de com ele pertencermos à comunidade dos Meninos da Luz, e o consideramos merecedor do nosso agradecimento e da atribuição deste “Prémio Barretina - Colégio Militar no Mundo”. Prémio entregue pelo 529/63 António Reffóios que foi, igualmente, Prémio Barretina Colégio Militar no Mundo em 2009.

O José Manuel da Luz Bravo Ferreira 204/59, recebeu o prémio em nome do Pedro de Queiroz Pereira 140/59

Pedro Mendonça de Queiroz Pereira Antigo Aluno nº 140/59 Nasceu em Lisboa, a 5 de Março de 1949 e entrou para o Colégio Militar com o número 140 em Outubro de 1959, tendo saído em Junho de 1962, para concluir o curso geral dos liceus no Colégio Manuel Bernardes e frequentar o Instituto Superior de Aministração. No Colégio destacou-se como bom futebolista em particular no futebol de 5, e como bom cabulão. Tinha de propósito más notas para ficar privado de sair e poder ficar a jogar futebol no Colégio durante todo o fim de semana. De 1975 a 1987 residiu no Brasil onde desempenhou o cargo de administrador em diversas sociedades ligadas às áreas da indústria comércio, turismo e agricultura. De regresso a Portugal concorreu com sucesso às privatizações de algumas grandes empresas industriais sendo, actualmente, Presidente do Conselho de Administração de várias sociedades com destaque para a Semapa, holding do seu grupo de cerca de 50 empresas, Portucel uma das maiores do Mundo no sector do papel - o que lhe valeu a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Industrial, e da cimenteira Secil. «O Grupo Portucel é obra de muitos. Mas na base do grupo está a visão estratégica, a capacidade empreendedora, a capacidade de inovação e de realização de um homem, e penso que é de toda a justiça reconhecer publicamente o contributo que este homem tem dado para a criação de riqueza e emprego no nosso país», disse o Presidente da República, Cavaco Silva, quando o condecorou. Sócio do Belenenses foi sondado para Presidente do clube, mas recusou por considerar que «queriam o meu dinheiro e não a minha cabeça», mas isso não o impediu de fazer Ayton Senna sócio do clube. A par do futebol, os automóveis são a sua paixão. Começou a correr em automóveis, com um Opel 1900 GT, marca que a família representava, à qual se manteve fiel durante toda a sua carreira desportiva, e com o famoso pseudónimo - PQP - para que a família não soubesse. No Brasil competiu em circuitos, mas em Portugal fê-lo na velocidade, onde alcançou várias vitórias, e nos ralis, onde se destaca a vitória no Grupo 1 (carros de série), no Rali de Portugal de 1981. No Rali de Portugal de 1984 esteve “totalmente morto”, como disse o GNR que presenciou o despiste na Cabreira, mas “ressuscitou” e pouco depois estava “totalmente vivo”, como o mesmo GNR referiu. O seu sentido empreendedor, sua persistência e determinação a que alia - no seu dizer - a sorte que o tem acompanhado, tornaram-no num dos grandes industriais de referência do universo económico português, facto que nos faz orgulhar-nos da sua condição de Antigo Aluno do Colégio

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Ângelo Eduardo Manso Felgueiras e Sousa Antigo Aluno 498/76 Mais conhecido apenas por Ângelo Felgueiras, frequentou o Colégio até ao 6º ano entre 1976 e 1981 e é Pai de dois actuais Alunos. Após o secundário ingressou na Força Aérea tendo posteriormente entrado na TAP onde é comandante de A-330 e A-340. Foi Presidente do Sindicato de Pilotos de Aviação Civil. Em paralelo com a sua actividade profissional dedicou-se à prática do montanhismo e ao apoio a iniciativas de solidariedade onde conseguiu feitos notáveis em ambas as áreas. Tendo por incentivo escalar os maiores picos de cada continente, reunindo em cada escalada apoios para iniciativas concretas de solidariedade, já conseguiu resultados que o colocam na galeria dos maiores alpinistas da nossa História. Já escalou seis dos míticos “Seven Summits”: o Everest (na Ásia), o Aconcágua (América do Sul), o Denali ou McKinley (América do Norte), o Kilimanjaro (em África), o Elbruz (na Europa) e as Pirâmides de Carstensz (na Oceânia). Nesta última, foi o primeiro e até hoje o único português a alcançar o cume. Foi o segundo português a alcançar o topo do Everest, sendo o primeiro a consegui-lo pela face Sul. Nas suas escaladas mais emblemáticas o Ângelo Felgueiras levou sempre a sua Barretina. Quando recebemos as arrepiantes “fotografias de cume” com a Barretina em destaque sentimo-nos todos no topo do Mundo. Prepara, neste momento, a expedição ao Vinson (na Antárctica). Entre as iniciativas de solidariedade e apoio social merecem destaque os apoios conseguidos para as crianças do Bairro da Cova da Moura, onde angariou fundos para a concretização de uma biblioteca infanto-juvenil, já inaugurada e que tem o seu nome, e para o ATL da Galiza no Antigo Bairro do Fim do Mundo em São João do Estoril, onde reuniu verbas para a compra de uma carrinha de transporte para as crianças do ATL. Faz conferências e palestras de motivação, sendo a respectiva retribuição canalizada para Associações de Solidariedade Social. Pelas já referidas iniciativas e pelo destaque que dá ao Colégio onde quer que se encontre, queremos com este Prémio manifestar-lhe o nosso orgulho por com ele sermos Meninos da Luz e o reconhecimento pela sua contribuição para a imagem e bom nome do Colégio. Prémio entregue pelo seu grande camarada e amigo 407/55 – Pedro Maya


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Dos Antigos Alunos Jantar anual da AAACM / Prémios Barretina

António de Morais Sarmento dos Santos Lucas e Costa Brotas – Antigo Aluno 30/1940 O 30 de 1940, António Brotas nasceu em Lisboa a 22 de Junho de 1930. Entrou para o Colégio em 1940, onde foi “soja” da 4ª e considerado inteligente mas “sem qualidades militares”. Tirou o cuso de Engenharia Mecânica no Técnico com a passagem de um ano pela Faculdade de Ciências de Lisboa. Fez a tropa na EPC e em Cavalaria 4, trabalhou depois na Mague, em Alverca, e foi assistente de Física no Técnico. Em 1956, foi preso pela PIDE por motivo de umas cartas trocadas com um amigo que estava em Goa. Depois de 7 meses preso, não foi acusado de nenhum crime mas foi julgado por “perigosidade” nos termos do Decreto-lei 40.550. Absolvido e posto em liberdade por um Tribunal Criminal, a acusação (a PIDE) dispôs-se a pedir recurso para o Tribunal Plenário, mas não o fez imediatamente e enviou o processo para a Relação com um protesto contra a decisão do juiz do Criminal. Neste compasso de espera terá tido alguma influência o então Presidente da República, General Craveiro Lopes, também Antigo Aluno do Colégio Militar – o 27/1904, a quem enviou uma exposição. Em 1957, conviveu muito de perto com António Sérgio, igualmente antigo aluno do Colégio, o 178/1894, e teve uma actividade política bastante grande. Tendo, em Outubro, sido expulso de uma Assembleia de Voto por ter protestado contra uma fraude flagrante, teve de sair para a emigração onde passou perto de 12 anos. No estrangeiro fez primeiro um Doutoramento de 3º Ciclo em Física em Paris. Foi depois para o Brasil onde foi professor da Escola de Engenharia de Pernambuco. Preso durante dois meses, depois do golpe militar de 1 de Abril de 1964, voltou a dar aulas, mas a situação tornou-se insustentável e teve de sair do Brasil. Foi então para a Argélia, onde reencontrou o General Humberto Delgado – mais um antigo aluno!, o 398/1916 - que tinha visitado no Brasil e contribuiu para formar as primeiras promoções de engenheiros agrónomos argelinos. Depois da morte de Humberto Delgado, decidiu regressar a Portugal, mas foi antes a França fazer um Doutoramento de Estado em Física sob o patrocínio de Louis de Broglie. De regresso a Portugal, ganhou um concurso para professor de Matemática da Escola Naval de que a

PIDE, por uma desatenção burocrática só teve conhecimento pela notícia no jornal. O Ministro da Marinha, Almirante Crespo, antigo aluno do Colégio Militar (187/1921) queria dar-lhe posse mas o Ministro do Interior opunha-se. O problema subiu ao Professor Marcelo Caetano que decidiu que poderia ser professor “numa qualquer escola, mas não numa escola militar”. Foi assim durante 3 anos professor contratado de Física do IST. Depois do 25 de Abril foi, em 74-75, Director do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação e, em 1975-75, Secretário de Estado do Ensino Superior e Investigação Científica. Em 1976, tomou, finalmente, posse do lugar de Professor da Escola Naval. Três anos depois regressou ao Técnico onde terminou a sua carreira de professor e é actualmente Professor Catedrático jubilado. Publicou inúmeros artigos, sobretudo sobre Educação e Transportes e é autor dos livros: “Três informadores da PIDE”(Editora 7 Caminhos), “O essencial sobre a Teoria da Relatividade” (Imprensa Nacional Casa da Moeda) ; “Relatividade e Física Clássica – continuidade e ruptura” (IST-Press) e é coautor do livro “O Erro da Ota” . É bem conhecido o texto que, em 1956 redigiu, com 26 anos, dirigido a um Juiz, onde refere as causas que terão influenciado a formação do seu carácter, e as referências que no mesmo faz ao Colégio Militar no moldar da sua personalidade. Extracto do texto escrito em 1956. » Em 1940 entrei para o Colégio Militar. Estive lá 7 anos. Se V. Ex.ª Senhor Juiz, perguntar a algum dos meus camaradas de então como é que eu era, certamente responderão: -Era um tipo “porreiro”. Nós éramos todos uns tipos “porreiros”. A minha família foi para os Açores. As comunicações eram um bocado irregulares. De uma vez recebi 7 cartas de minha Mãe e uma de meu Pai. Não se pode dizer que a guerra me afectasse muito. Eu estava num colégio que me encantava e tinha mais família em Lisboa. Fiquei numa ocasião muito zangado por me não ter sido permitido ir passar as férias aos Açores. Acabei por ir para uma praia. Afora isto, e a “campanha da batata-doce” em que as batatas do Colégio Militar foram substituídas por batatas-doces, a guerra em nada me incomodou. A vida do Colégio enchia-nos. Nada de verdadeiro está escrito sobre o Colégio Militar. Talvez algumas piadas, mas sobre a vida da “malta” ainda ninguém escreveu nada que se aproveitasse. E no entanto o Colégio Militar merecia um livro. Duvido que algum dia venha a ser escrito e, na falta dele, guardo a fotografia de uma turma que não sei qual é tirada junto às escadas da Enfermaria. Gosto de ver aqueles miúdos com a cara a rebolar-se de gozo e os olhos a rirem-se para a máquina. Tínhamos uma terrível queda para as manifestações colectivas e um código de honra muito apurado que permitia com rigor saber o que era “canalhice” e o que não era. Havia também a vida oficial do Colégio. Ouvíamos lá muitos discursos, mas tínhamos uma sensibilidade muito apurada e quando um oficial se excedia em elo-

gios a um Senhor Ministro, todo o Batalhão Colegial sabia perfeitamente que ele estava a lamber as botas ao Senhor Ministro. Fazíamos muito desporto e havia lá um sentimento de irreverência e fora da lei, que muito me agradava, e que os “meninos da Luz” perdem rapidamente quando saíam do Colégio. Aos domingos, quando o Batalhão era enfiado para dentro da Igreja, se o oficial de dia não tinha cuidado, ao atravessarmos os claustros, muitos de nós fugíamos para as camaratas ou para o alto da quinta para jogar futebol. E eu estou firmemente convencido, de que se há um Deus no Céu, ele gosta mais dos miúdos que fogem da missa para ir jogar futebol. O meu mundo era perfeitamente sólido, mas além disso havia o mundo em guerra. Sempre que me lembro de 1945, pergunto quem foram aqueles dirigentes da oposição que permitiram a continuação do actual regime. Estas coisas emocionavam-nos no Colégio Militar. Havia uma canção destas canções escolares muito cantadas que começava: “Olé que somos da Esquerda, Olé vivam os esquerdistas…” O meu sétimo ano organizou-se em democracia parlamentar. A oposição estava em maioria. Eu era da oposição. Votámos a cor dos bilhetes para a “récita”. Mas os oficiais mandaram-nos imprimir sem nos consultar.» É pois a este Menino da Luz que, orgulhosamente e pela riqueza da sua carreira no plano científico e pela sua coragem no combate pelas suas convicções, atribuímos hoje este Prémio Barretina. Prémio entregue ao Antigo Aluno mais antigo Prémio Barretina “Colégio Militar no Mundo” de 2010, pelo também homem de ciência e investigador 223/81João Paulo Gomes, o mais novo Prémio Colégio Militar no Mundo de 2009.


Dos Antigos Alunos Antigos alunos em destaque

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Antigos alunos

em Destaque João Manuel Mendes Caramês (42/1972)

O

Professor Doutor João Manuel Mendes Caramês foi distinguido com o prémio Personalidade do Ano em Medicina Dentária, tendo sido referido por um dos membros do júri que o “entusiasmo e a ética profissional foram factores mais que justificados para esta atribuição”, destacando-se “o seu trabalho na prática da Implantologia e Reabilitação Oral, o seu empenho como docente, director clínico e o contributo a nível internacional na investigação de novas técnicas na área da Implantologia”. Este prémio que distingue as personalidades mais marcantes na Medicina Dentária Portuguesa, surge no seguimento do reconhecimento a nível nacional e internacional do Prof. Doutor João Caramês e do Instituto de Implantologia, traduzidos na atribuição do Prémio Inovação pela Venture Capital IT e do Prémio Alumni, uma distinção ao mais alto nível atribuída pela Universidade de Nova Iorque. João Caramês foi o primeiro português agraciado com tal prémio por esta prestigiada universidade americana.


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Entrevista Entrevista a Ângelo Felgueiras

Entrevista conduzida por Martiniano Gonçalves (9/1958)

Entrevista a

Ângelo Felgueiras


Entrevista Entrevista a Ângelo Felgueiras

P : Ser presidente de um sindicato e subir montanhas são actividades de grandes desafios : um na área da sociedade, e outro um desafio físico e psíquico muito duro ; ser solidário para com o próximo praticando acções de apoio a crianças desfavorecidas é outra vertente da tua personalidade. Como se compatibiliza tudo isto ? R : Misturam-se aqui três áreas. Vamos por partes. Os desafios não me assustam. A minha passagem pelo Sindicato dos Pilotos foi fruto de um conjunto de circunstâncias. Em 1996 vivia-se um grande descontentamento com a postura da Direcção e uma grande dinâmica de mudança. Formaram-se três listas e eu porque tinha feito umas intervenções em algumas Assembleias Gerais, fui convidado para todas. Em consciência, depois de ter assumido publicamente posições duras, entendi que tinha a obrigação de me disponibilizar para uma delas. Optei pela lista com a qual me identificava mais, que curiosamente integrava mais dois ex-alunos. Fomos a votos, ganhámos e depois foi

uma bola de neve. Pela nossa formação, temos por hábito levar as coisa até ao fim, e foi isso que fiz. Foi duro mas uma grande experiência. Como tudo o que se faz com o sentido de “Servir”, tem um princípio, meio e fim. Subir montanhas, não foi muito diferente. Uns amigos convidaram-me para ir subir o Kilimanjaro, na Tanzânia, que é um treking peak. Significa que não necessita de cordas, ou outros meios auxiliares de subida. Foi uma boa experiência, mas não passou disso mesmo. Em 2002, inspirado numa etapa da volta ao mundo de bicicleta, realizada pelo Filipe Palma, 351/80, decidi dar um passeio de bicicleta na Patagónia, éramos 4, um deles, Paulo Viegas, que também tinha subido comigo o Kilimanjaro é o ex-aluno 595/74. Passámos o 3 de Março de 2002 no povoação de fronteira entre o Chile e a Argentina. Saiu uma foto nossa numa edição da nossa Revista. Durante o vôo, quando nos aproximávamos de Santiago do Chile, vi o Aconcágua pela janela do avião e lancei o isco. Disse-lhes que tínhamos que ir subir aquela montanha. Assim foi, e em Fevereiro de 2004, alcancei o cume do

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Aconcágua, com 6965m. Foi a minha primeira montanha a sério, e a primeira em que levei a minha Barretina, que nunca mais me abandonou nestas expedições. Daí para a frente comecei a subir quase todos os anos e em Maio passado cheguei ao cume do Evereste. Ser solidário é pôr em prática o que nos incutiram no Colégio. Muito do que aprendemos no CM manifesta-se mais tarde na nossa vida quotidiana. Eu limito-me a congregar um conjunto de boas vontades a favor de uma associação de solidariedade. Nem todas as crianças têm a sorte de viver uma adolescência como a que nós aqui vivemos. O mais importante para mim, é passar uma imagem de esperança. Mostrar-lhes que podem mudar a sua vida, que são donos do seu destino. Assim trabalhem para isso. P : Porquê deslocares-te ao alto das montanhas com uma Barretina, e fixares esse momento do sucesso numa fotografia em que a Barretina aparece como o elemento principal ? Em que medida o Colégio te influenciou na formação da tua personalidade ? R : A Barretina no topo do Mundo, ou


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Entrevista Entrevista a Ângelo Felgueiras

nas Pirâmides de Carstenz, onde mais nenhum português ainda subiu, permite-me dar alguma visibilidade ao Colégio, e desta forma devolver o privilégio que tive em estudar nesta casa. O Colégio influenciou muito a minha personalidade e a minha vida. Eu sou oriundo de uma família disfuncional, entrei por minha escolha. Era uma criança rebelde. Já tinha chumbado o 1ºano do ciclo, actual 5º ano, por faltas e mau comportamento. Sabia que tinha que mudar. Fui à secretaria sozinho buscar os papéis e tratar de tudo. A intervenção do meu pai deu-se à posteriori. No sexto ano do Colégio, para contrariar decidi sair. Hoje tenho pena de não ter terminado o Colégio, mas devo confessar que a minha passagem pelo Pedro Nunes também foi muito rica. Na minha turma estava um ex-aluno. Estamos em toda a parte. P : Qual a dimensão do que sentes quando vês o Mundo do alto das suas mais altas montanhas, depois de todo o esforço físico para lá chegar ?

11horas. 2500m de percurso, com 850m de desnível. Sempre em câmara lenta, ou mesmo lentíssima. O início da subida é de grande expectativa. Falta muito e podemos ser obrigados a regressar. Existem muitas incógnitas e variáveis que podem influenciar e determinar o sucesso ou fracasso deste último esforço. Comecei ás nove da noite. Quando, muitas horas depois começam a aparecer os primeiros raios de Sol, tudo muda. O frio começa a dar lugar a algum calor e conforto que só o Sol nos dá. A primeira imagem é a claridade no horizonte logo seguida de do Sol nos cumes das montanhas circundantes e a projecção da sua sombra no céu. Depois passei para uma fase em que estando cansado, não estava exausto. Estava no tempo previsto e o cume era mais do que uma miragem. Começava a perceber que estava a tornar-se real. Era uma questão de tempo. 100m por hora. Durante esse tempo eu sabia que ia conseguir alcançar o cume. Pela minha cabeça passou um turbilhão de pensamentos. É uma daquelas retrospectivas de vida que se passa em flash e é incontrolável.

R : Alcançar um cume é sempre uma alegria. Uma alegria um bocadinho cansada, é verdade, mas é uma enorme satisfação. Chegar e saborear uma paisagem única. Parafraseando um alpinista espanhol “não vi Dioses en la cima del Everest”, mas lembrei-me de todo o percurso para lá chegar. É uma sensação difícil de explicar. Durante uma expedição de dois meses, há tempo para pensar em muita coisa. Quando estou no Campo 4 a 8000m, metido dentro de uma tenda, com uma temperatura dentro da tenda de -28ºC, lá fora o vento a soprar com rajadas de 90Km/h, sem saber se o vento vai parar e deixar subir.

E aí, lá estava o Colégio.

Sensação de ansiedade. De repente o vento pára e todos os alpinista que estão no C4 á espera de uma janela de bom tempo saem das tendas e sente-se o frenesim de saída para o cume. Tudo em câmara lenta. Sempre sem saber se o vento vai regressar, se vamos ou não conseguir. A minha subida demorou

R : Sinceramente, não vejo a parte negativa deste semi internato, talvez por lá ter andado. A ligação com os meu filhos não ficou beliscada pelo internato.

No cume, pensei na minha família e nos meus patrocinadores, que confiaram em mim, muito antes do Evereste, e que nunca me exigiram o cume. Meia dúzia de fotos e voltar a descer, que o vento ia aumentar. P : Tens dois filhos no Colégio. O Colégio é, frequentemente, criticado por ser interno. Como encaras os aspectos negativos que são habitualmente conotados com os internatos ? Qual a tua posição relativamente ao internato tal como hoje existe no Colégio ?

Os aspectos negativos que as pessoas associam aos internatos em geral e especialmente ao Colégio, são fruto da


Entrevista Entrevista a Ângelo Felgueiras

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Os Alunos são pouco motivados pelo Corpo Docente, e pela experiência que tenho tido nestes 5 anos os Alunos são muitas vezes nivelados por baixo. Como o Colégio é um internato, e não temos os nossos filhos todos os dias, nem acesso aos seus cadernos e cadernetas, utilizadas nas outras escolas para comunicar com os pais, é necessário que exista uma comunicação muito grande entre corpo docente e encarregados de educação, para podermos intervir atempadamente, sempre que necessário. P : Se tivesses poder para influenciar a evolução do Colégio que reformas tentarias implementar ? R : De imediato a nomeação de um professor experiente e respeitado para Director Pedagógico, com definição de objectivos e poder para implementar as mudanças que urgem para transformar resultados que só são razoáveis, em muito bons resultados. Pessoalmente considero que para as condições que o Colégio possui, os resultados académicos são fracos. ignorância sobre o Colégio. Aí temos que fazer uma mea culpa, porque todos, Colégio, AAACM e ex-alunos, não conseguimos ainda eliminar ou reduzir esse desconhecimento. O tempo que passam no Colégio é razoável. 3 noites dentro 4 noites fora. No que respeita ao internato ou Corpo de Alunos julgo termos mais espaço para evoluir especialmente na alimentação e comunicação com os Encarregados de Educação. Para os familiares que não são ex-alunos é muito difícil perceber a dificuldade em passar um recado ou fazer chegar um medicamento a um aluno, ou pior ainda receber um telefonema a abordar o mesmo assunto, feito por duas pessoas diferentes com intervalo de uma semana. Nem nós ex-alunos percebemos. Limitamo-nos a aceitar porque conhecemos a casa. Excesso de bolachas e doces nos reforços e uma ementa que em alguns casos, independentemente da racionalidade da

dieta, os alunos maioritariamente não gostam e recorrem a alternativas forçosamente menos saudáveis. P : O que consideras mais importante na forma como, actualmente, o Colégio educa os alunos ? e o que consideras o seu ponto mais fraco ? R : Destaco pela positiva o sentido de responsabilidade e autonomia que forçosamente adquirem, espírito de corpo, respeito pelas hierarquias, solidariedade, patriotismo sem vergonha e um grande ecletismo desportivo. Destaco pela negativa a fraco desempenho pedagógico e a descoordenação entre o Corpo de Alunos e alguns Professores. É inadmissível ter Professores que nas Reuniões de Pais transmitem má imagem do regime de internato. Como se ao invés de um Colégio Militar, com funcionários civis e militares, existissem duas organizações distintas que não se revêem uma na outra.

Tal como os Alunos, os Professores também têm que se esforçar mais e ser chamados à “pedra” quando tal se verifique necessário. É um privilégio tão grande estudar no Colégio, como deveria ser dar aulas no Colégio ! Abria mais o Colégio à sociedade civil, através da organização de campeonatos desportivos para o ensino básico. Organizava campos de férias vocacionados para os alunos da terceira e quarta classe nas férias do Natal e Páscoa com direito a dormir um dia ou dois e desta forma dar a conhecer e desmistificar o internato. Esta pergunta só por si dava uma tarde de conversa. Não esquecer que estamos a partir do pressuposto que tinha poder para influenciar. P : Que principais diferenças encontras no Colégio de hoje quando comparado com o do teu tempo ?


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Entrevista Entrevista a Ângelo Felgueiras

R : A principal diferença prende-se com o Corpo Docente. No meu tempo tínhamos mestres que, salvo raras excepções respeitávamos. A percentagem de bons professores era maior. Hoje há mais escolas com muita qualidade e que sendo particulares, não estão presas a certas formalidades.

R : Pelas razões que já referi o Colégio, embora por opção própria, deu-me a oportunidade de entrar na “linha”. Quando cá cheguei não tinha passado, estava limpo. Tentei aproveitar bem essa oportunidade que se me deparava. Criei laços de amizade fortes e julgo que incorporei muito o nosso espírito.

Pagam o que entendem e têm capacidade para exigir. Com turmas de 8 e 10 alunos, um bom professor tem muito bons resultados. Isso não se verifica. No meu tempo havia vigilantes. O Moca, e tantos outros, com os quais nos identificávamos e que tinham por nós muito carinho. Hoje existe muito outsorcing, o que tem como consequência uma maior rotatividade de funcionários o que não permite a criação de laços tão fortes.

P : Como vês a actuação da nossa Associação e que conselhos lhe dás para melhor cumprir os seus objectivos estatutários de prática da solidariedade entre os Antigos Alunos e de apoio ao Colégio ?

de Alunos, mas sem Alunos não há ex-alunos e como tal não há AAACM. Apesar de a Associação ter uma forte preocupação na área da solidariedade entre ex-alunos, penso que podemos melhorar. Quanto mais informação tivermos uns dos outros, mais podemos ajudar. P : Projectos Futuros ?

P : Guardas algumas imagens ou recordações fortes da tua passagem pelo Colégio… podes referir-nos algumas ?

R : A actuação da nossa actual Direcção é muito positiva. Desde logo pelo dinamismo que implementou e se torna visível na adesão dos ex-alunos nos seus eventos. Fez um excelente diagnóstico sobre o Colégio e o caminho a seguir. Este ponto é mais notório e importante para os Pais

Projectos futuros? Terminar os “Seven Summits”, que são as montanhas mais altas de cada continente. Falta-me o Vinson na Antárctica, que vou subir em Dezembro de 2011 e já estou a prepara uma expedição aos pólos, Norte e Sul. É um empreendimento com alguma complexidade, que gostava de realizar em 2012. Tenho que começar já a planear e arranjar patrocinadores. Se na nossa comunidade existirem potenciais interessados em associar as suas empresas a este projecto, serão bem vindos.


Do Colégio Abertura solene de ano lectivo

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Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

Abertura solene do Ano Lectivo

A

Abertura Solene do Ano Lectivo 2010/2011 realizou-se no dia 22 de Outubro, tendo sido presidida pelo Comandante de Instrução e Doutrina do Exército Tenente General Luís Miguel Negreiros Morais de Medeiros, com a presença de Oficiais dos três ramos das Forças Armadas, Adidos Militares estrangeiros, representações dos Estabelecimentos de Ensino Militar e Estabelecimentos Militares de Ensino, Entidades Civis, Corpo Docente e Servidores do Colégio, Familiares dos Alunos, Convidados e muitos Antigos Alunos.

Após a apresentação do Batalhão Colegial, procedeu-se à Integração do Estandarte Nacional e foi entoado o Hino Nacional acompanhado pela Banda do Exército. Nesta cerimónia foram impostas condecorações aos seguintes Servidores do Colégio: Soldado Dulce Maria Ledo Relvas (Medalha de Cobre de Comportamento exemplar) Tenente Coronel de Cavalaria Rui Miguel Laboreiro Risques da Costa Ferreira – 516/1976 (Medalha Comemorativa de Comissões de Serviços Especiais), tendo sido entregues, como forma de reconhecimento e apreço por uma vida dedicada ao Colégio Militar, as placas de passagem à situação de aposentação à Drª Maria da Graça Carvalho Moura dos Santos Garcia Leandro (leccionou Inglês durante mais de 17 anos), ao Assistente Operacional Manuel de Jesus (serviu no CM mais de 40 anos), ao Assistente Operacional José Ferreira da Cruz (serviu no CM mais de 38 anos) e à Assistente Operacional Margarida Mesquita (serviu no CM mais de 36 anos). Com o seu marchar ainda imberbe mas mostrando já determinação e aprumo, os “ratas” de 2010 fizeram a sua apresentação, após o que foi lida a Ordem de Serviço que determina a sua admissão ao Efectivo do Batalhão Colegial. Nas tradicionais boas-vindas do Aluno Comandante de Batalhão Alykhan Navaz Nadat Ali Sultanali (306/2005) foram proferidas as seguintes palavras:


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Encontramo-nos hoje aqui, como dita a tradição, nestes majestosos e seculares claustros, onde sentimos já, por entre o orgulho e a vaidade próprios de quem enverga a nossa farda, um desejo convicto de “Servir”. A paixão desperta o entusiasmo que aqui nos traz com o intuito de solenemente iniciar mais um ciclo, mais uma página deste belo romance, que garantiremos eterno, de nome Colégio Militar. Novos alunos ou “Ratas”, como a gíria colegial a vós se refere, Esta é a primeira vez que, trajando a farda cor-de-pinhão, pisais este puro lajedo alvo, que tanto estimamos, e vos apresentais aos olhos de todos ao serviço desta instituição. A todos vós, os parabéns de todo o Batalhão Colegial. É uma grande Honra e uma grande Responsabilidade! O percurso será recheado de momentos inesquecíveis, mas deparar-vos-eis com inúmeros obstáculos, contratempos que tereis sempre de ultrapassar juntos sem que alguma vez desistais. O sentimento que agora em vós se desperta e que se intensifica com o tempo, com as vivências, é um que teimará em nunca deixar-vos. É algo único, algo raro. Compete-vos agora ajudar a perpetuá-lo, comportando-vos como Verdadeiros Meninos da Luz, algo alcançável apenas pelas atitudes, independente do tempo. Basta que cumprais aqueles 10 princípios que em cada parede vedes afixados e intitulados de “Código de Honra do Aluno do Colégio Militar”. Para isso podeis contar sempre não só com os vossos graduados, mas também com os restantes alunos, todos os antigos alunos e todos os funcionários da Casa. Todos temos o dever de vos orientar e de vos ensinar. Pais e Encarregados de Educação, que hoje nos olham orgulhosamente das varandas deste claustro, que vos parecem tão estreitas pois ver o filho nunca é demais, e cuja memória vai a cada segundo tentando imortalizar o crescimento dos vossos pequenos, Congratulo-vos pela ousadia da vossa decisão, pela confiança que depositaram neste Colégio, e pelo esforço que em crise vos obriga a mais. Esta é uma escola diferente, como muitos sabem e outros virão a descobrir; e é para esses que agora me dirijo: Aqui os vossos filhos e educandos serão sujeitos a mais do que uma simples instrução, serão alvo de uma Formação,

algo mais completo, mas que nunca vos dispensará da componente afectiva que vos é exigida. Aqui brotam e florescem, aqui são encorajadas e desenvolvidas, capacidades fundamentais tais como: a Temperança, a Imaginação, o Sentido Humano, a Camaradagem, a Solidariedade e a Coragem; qualidades necessárias à prática de uma boa cidadania. Esta é uma escolha que nós, vossos filhos, para sempre vos agradeceremos! Professores e Oficiais, Vós fazeis parte integrante da nossa formação. Sois de crucial importância,

sois aqueles que quotidianamente observamos e idealizamos como modelo exemplar, a que aspiramos. Não vos é permitido qualquer lapso a nível comportamental ou moral, uma vez que atingistes um patamar do qual sois constantemente estudados e mimicados. Recai sobre vós a responsabilidade de auxiliar na nossa formação. Esperamos poder contar convosco e que não desiludam. Em muito vos agradecemos o bom trabalho que têm desenvolvido. Alunos e Ex-alunos, Há mais de duzentos anos, um grande filantropo de nome António Teixeira Rebello presenteou o mundo com a fundação deste Colégio, um legado transmitido de mão-em-mão por várias gerações. Hoje, recai sobre nós a responsabilidade de o conservar e de garantir a continuidade desta maravilhosa tradição. É imperativo que compreendamos a complexidade do panorama social com que nos deparamos, o que exige uma visão global do mundo e dos seus problemas; o que excede as possibilidades cognitivas da maior parte das pessoas, daí estar aqui a falar para vós. Vós sois essa soberba minoria dotada de todas as capacidades necessárias, minoria capaz com que o Colégio conta. Desde sempre nos temos distinguido de entre a multidão pela nossa Diferença, algo sublime e invejável. Ela surge da variedade, não da unicidade, o que não nos desprove porém da União, nossa tão característica. Não podemos agora despir-nos de quem somos; não podemos abandonar o dinamismo em favor do con-


Do Colégio Abertura solene de ano lectivo

formismo; e um mecanismo, que sempre tem tido presença no comportamento daqueles que de nós se consideraram Grandes do nosso país e da nossa cultura, Meninos da Luz “que da lei da morte se foram libertando”, é a crítica fundamentada, resultado inevitável do inconformismo, do desconforto. O desenvolvimento passa impreterivelmente pelo conflito, pela discordância e pela sua contestação. Esta deve ser aceite e desejada a todos os níveis, o que não é sinónimo de desordem e de clivagem, mas sim de Liberdade e de Tolerância; sob o risco de nos tornarmos mais um na densa multidão. Não podemos deixar que alguém no nosso círculo afogue o seu juízo pessoal no juízo colectivo para escapar à censura de pensar de modo diferente. Nesse momento perderemos a união, o Respeito e a Amizade que nos liga mesmo após terminado o período de vivência interna. “O Homem tem necessidade de se reencontrar num meio à sua medida, onde possa ser considerado em função daquilo que é e não devido ao cargo que desempenha”. Esse meio é o nosso Colégio, onde cada um é alguém único e valioso, alguém que ao seu modo contribui e que nunca deve ser menosprezado. Tudo isto é possível fruto do relacionamento interpessoal, cuja existência é insubstituível se quisermos continuar a dar ao nosso Colégio um rosto humano e alegre. Para isso, não podemos erguer barreiras entre nós. Todos somos um só! O Batalhão Colegial, acompanhado da Banda do Exército, desfilou na Parada Nova em continência perante as Entidades presentes, Oficiais, Professores, Convidados, Familiares, Antigos Alunos e os novos Ratas. Na Sessão Solene no Ginásio, o Director Coronel Tirocinado de Artilharia Fernando Joaquim Alves Cóias Ferreira, proferiu as seguintes palavras:

ao Colégio Militar, do qual foi Director. Simboliza ainda o reconhecimento institucional do Exército da nobre missão desta Casa, nas vertentes da educação e do ensino da juventude a seu cargo. Excelentíssimo Senhor Major-General Director de Educação, Nesta sua primeira presença oficial no Colégio Militar, no cargo que agora desempenha, quero dar-lhe as boas-vindas em nome de todos quantos aqui servem e estudam, na certeza que poderá contar sempre connosco numa colaboração franca e leal para o cumprimento da missão da Direcção de Educação. Ao ex-Aluno 441 de 1963, um caloroso abraço neste regresso à sua Casa. Excelentíssimos Senhores Oficiais Generais, Uma particular palavra de reconhecimento para os que me antecederam no cargo de Director do Colégio Militar. Excelentíssimo Senhor Presidente da Associação de Antigos Alunos do Colégio Militar, Na sua pessoa saúdo os milhares de Antigos Alunos que aqui foram formados e que serviram Portugal em diferentes actividades, onde como portugueses ilustres ou meros cidadãos responsáveis, cientes do seu dever, contribuíram e continuam a contribuir para elevar e perpetuar o bom nome desta instituição nacional. Senhores Adidos Militares de Países Amigos, Entidades instituidoras de prémios, a quem renovamos os agradecimentos do Colégio pelo estímulo que o vosso contributo constitui para os Alunos e para a prevalência do mérito nesta escola.

“Excelentíssimo Senhor Tenente-General Comandante da Instrução e Doutrina do Exército, Meu General Comandante,

Digníssimos Convidados, Senhores Professores, Minhas Senhoras e meus Senhores, Caros Alunos e Antigos Alunos,

A presença de Vossa Excelência, ao dignar-se presidir a esta Cerimónia de Abertura Solene do Ano Lectivo, honra-nos pelo significado e interesse que confere

A todos os que nos quiseram honrar com a sua presença, os nossos sinceros agradecimentos e os votos de boas-vindas a esta Casa de que tanto nos orgulhamos.

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O Colégio Militar é uma obra de dois séculos e o testemunho vivo da dedicação daqueles que aqui serviram e estudaram ao longo dos tempos, muitas vezes no anonimato e no silêncio, onde através de Princípios, Valores e Tradições conferiram uma identidade única no panorama do ensino básico e secundário em Portugal, a qual merece o nosso respeito e admiração e lembra-nos a responsabilidade de continuar esta obra. Segundo o filósofo Immanuel Kant, o conceito supremo de liberdade resultava da aprendizagem através da Virtude ensinada com o bom exemplo do professor e o exemplo preventivo de outras pessoas, determinando a faculdade moral do homem, traduzida na sua capacidade de resolução nos conflitos com as tentações contrárias ao dever, e constituindo-se assim na fortaleza moral da sua vontade, ou seja no seu quadro de valores. Kant faleceu em Fevereiro de 1804. Um ano antes, o então Coronel António Teixeira Rebelo via reconhecida a existência formal do seu Colégio de Educação Militar do Regimento de Artilharia da Corte. Por tudo isto, importa compreender bem o passado para preparar, no presente, a resposta aos desafios do futuro. As instituições dependem das suas trajectórias prévias, da sua história, pelo que o seu desenvolvimento apresenta fortes relações com as suas configurações e vivências passadas que foram consolidando os Valores que as identificam, diferenciam e protegem a cada momento da sua vida. Quando bem consolidados, os Valores promovem a ética organizacional, regulam conflitos e garantem previsibilidade, exercendo um papel fundamental durante o lento, contínuo e delicado processo da sua transformação. As instituições de ensino, como é o caso do Colégio Militar, encontram-se particularmente sujeitas ao enquadramento exposto, na medida em que o ensino, sendo uma actividade extremamente complexa nos seus efeitos, tem vindo a ser submetido a desafios que se situam entre a necessidade de mudar e a carência de estabilidade que permita reflectir e avaliar a sua eficácia.


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- Campeão Nacional de Sabre e Vice-campeão de Espada por Equipas, no escalão de Cadetes; - Vencedor do Prémio – Prestação de Florete e Espada do Desporto Escolar; - 1.ª Equipa nos Jogos do Exército em Sabre e Espada; - Vice-Campeão Distrital de Futebol no escalão de Infantis; - Vice-Campeão Distrital de Voleibol no escalão Juvenis;

E isto é tanto verdade quando se procura chegar ao entendimento sublime do ensino, no sentido dado pelo filósofo Israel Scheffler, quando refere que este “pode ser caracterizado como uma actividade que visa promover a aprendizagem e que é praticada de modo a respeitar a integridade intelectual do aluno e a sua capacidade para julgar de modo independente”. O centrar o ensino na aprendizagem parece ser de facto o principal desafio perseguido pelo Colégio Militar, nos seus dois séculos de existência onde, de acordo com os pilares da educação identificados pela UNESCO, o aprender a conhecer e a fazer encontram resposta no corpo docente, nas instalações e nos equipamentos de apoio ao ensino, e o aprender a conviver e a ser assentam na vivência e na identificação com a vida interna colegial, cujos elos sentimentais perduram para toda a vida. Assistimos assim a uma dinâmica escolar eclética no Colégio Militar, em que os resultados obtidos pelos Meninos da Luz deverão constituir para toda a comunidade colegial motivo de orgulho, conforme é notório nos resultados do ano lectivo de 2009-2010. No universo dos 273 Alunos que frequentaram todos os anos escolares do Ensino Básico, a taxa de aprovação foi de 95%. Nos Exames Nacionais do 9.º Ano, a média em Língua Portuguesa revelou um desempenho académico 19,4% superior relativamente ao ano anterior e 12,1% acima da média nacional. Na Matemáti-

ca, o desempenho académico revelou-se 7,7% superior relativamente ao ano anterior e 31,3% acima da média nacional. Salienta-se ainda que a taxa de aprovação no final do 3.º Ciclo foi de 100%. No universo dos 103 Alunos que frequentaram todos os anos escolares do Ensino Secundário, a taxa de aprovação foi de 92%. Nos Exames Nacionais do 11.º e 12.º Anos, refere-se que a média global do Colégio Militar situou-se 10,9% acima da média do ano anterior e 9,9% acima da média nacional, garantindo uma taxa de sucesso de conclusão por parte dos Alunos de 78,6%, 16 pontos percentuais acima do ano anterior. Estes resultados permitiram ao Colégio Militar retomar uma posição de relevo, em termos do ranking das escolas recentemente divulgado, onde independentemente do maior ou menor realismo da posição ocupada, é significativa a diferença em relação a anos anteriores. Durante o anterior ano lectivo o Colégio Militar fez-se representar no Projecto Desporto Escolar do Ministério da Educação, nas modalidades de Andebol, Atletismo, Basquetebol, Esgrima, Futebol, Natação e Voleibol, tendo participado ainda em diversos encontros e convívios desportivos, designadamente nas modalidades de Râguebi, Remo, Ginástica, Pentatlo Moderno e Equitação. Como resultados destacam-se os seguintes: - Campeão Regional de Corta-Mato nos escalões de Infantis, Iniciados e Juvenis;

- O Aluno 298/Vaz sagrou-se campeão nacional de Espada em Iniciados; - O Aluno 299/Amaral sagrou-se campeão nacional de Sabre em Iniciados; - O Aluno 177/Dias sagrou-se campeão nacional de Sabre em Cadetes; - No Torneio Internacional de Barcelona de Pentatlo Moderno, os Alunos 259/ Costa e 261/Onofre ficaram no 1.º e 3.º lugares, respectivamente, no escalão de Infantis; - O Aluno 239/Taurino obteve excelentes classificações nas diferentes Provas e Concursos Equestres, destacando-se o 2.º lugar nos Concursos Completos da Escola Prática de Artilharia e da Brigada Mecanizada. A formação do Aluno do Colégio Militar compreendeu ainda, no último ano lectivo, um conjunto de outras actividades diversificadas abrangendo cerimónias militares e de representação, palestras, visitas de estudo, projectos curriculares, concursos, eventos culturais, protecção do ambiente e solidariedade. - O Batalhão Colegial fez-se representar condignamente nas cerimónias do Dia de Portugal, em Braga, do Dia do Exército, na cidade de Faro, e do Dia do Comando de Instrução e Doutrina em Évora; - A Classe Especial de Mesa Alemã participou em variados saraus, destacando-se as exibições no Centro Comercial Colombo, Olimpíada Maristas, Sarau dos


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Estabelecimentos Militares de Ensino, Comemorações dos Dias de Portugal e do Exército, bem como no X Festival Internacional de Ginástica em Itália; - O nosso orfeão também se apresentou condignamente nas comemorações do Aniversário do Colégio, bem como em muitas outras actividades externas e internas; - A Escolta a Cavalo destacou-se pelo brio como se apresentou no Aniversário do Colégio, bem nas “Alas de Cortesia”, na visita de Sua Santidade o Papa Bento XVI; - Nas “12 horas de Gestão”, no ISCTE, no “SuperTMatik – Cálculo Mental”, no “Canguru Matemático” e nas “XXVIII Olimpíadas de Matemática” os Alunos do Colégio Militar obtiveram bons resultados, destacando-se o Aluno 198/Gomes, do 7.º Ano, que conquistou o 5.º lugar entre os 120.000 participantes do “SuperTMatik”; - No Concurso de Ditado da Direcção de Educação, os alunos 184/Ferreira e 209/ Weigl obtiveram o 1.º lugar, in exequo, e os Alunos 228/Coelho e 222/Meess o 2.º lugar, in exequo; - No “10.º Festival Nacional de Robótica”, realizado na Batalha, o Colégio Militar participou com os Alunos 198/Gomes e 317/Rodrigues, do 7.º Ano, em que foi obtido o 5.º lugar a nível nacional e menção honrosa para melhor programação e montagem; - Participámos no “Projecto Twist” da EDP com o objectivo de sensibilização para o tema da eficiência energética e alterações climáticas; - No âmbito do projecto “Escola-electrão”, em parceria com outras escolas, procedeu-se à recolha de cerca de três toneladas de material eléctrico e electrónico para reciclagem; - Concretizou-se o projecto de “produção bio-diesel”, a partir de óleo alimentar usado; - Construiu-se um “protótipo de carro solar”, destinado ao estudo da energia solar. Deixo aqui a minha palavra de apreço

pelo trabalho desenvolvido por todos os professores e instrutores militares que permitiram, com o seu ensino, coordenação e apoio, concretizar este significativo trabalho meritório dos Alunos. Torna-se importante ainda referir as obras e trabalhos efectuados na conservação e requalificação de espaços, infra-estruturas e equipamentos, onde se destaca: - A pintura exterior do Edifício de Alimentação no Corpo de Alunos; - A construção do fosso de queda no Ginásio; - A remodelação do Auditório; - A remodelação dos Balneários do Ginásio, com instalação de Painéis Solares; - A colocação de janelas de alumínio na fachada dos Claustros. Decorre ainda neste momento: - A recuperação de muros e painéis de azulejos no jardim do Palácio da Mesquitela; - A remodelação dos Balneários da Piscina; - A II Fase de reconstrução das Moradias na Feitoria; - A instalação de iluminação do Campo de Futebol. Relativamente ao ano lectivo que hoje se inicia formalmente, importa referir que o

Concurso de Admissão contou com 174 candidatos, 76% acima do ano anterior, dos quais foram seleccionados e admitidos 85 para os 5.º, 6.º e 7.º Anos, 46% acima do ano anterior. Actualmente o Batalhão Colegial dispõe de 372 alunos, sendo 281 do Ensino Básico, distribuídos por 17 turmas, e 91 do Ensino Secundário, distribuídos por 8 turmas. Os bons resultados obtidos e a qualidade das actividades desenvolvidas não podem impedir a nossa reflexão sobre o caminho a prosseguir para responder às exigências de um ensino de qualidade, utilizando metodologias adequadas e objectivas no processo de aprendizagem, apoiadas, mas não substituídas, pelas inovações no campo das tecnologias de informação aplicadas à educação, e, o mais importante, que continuem a vocacionar a disciplina, o rigor e a interiorização dos valores da escola, num ambiente que proporcione o entendimento do ensino como esforço, trabalho e mérito. Torna-se assim necessária uma atitude mais proactiva, com um aproveitamento eficaz do regime de autonomia das escolas em geral e do Colégio Militar em particular, não actuando apenas em função do Ministério de Educação, o que poderá ser conseguido, no meu entender, nas seguintes vertentes: - Uma Formulação Estratégica com um âmbito temporal maior que o consignado ao actual Projecto Educativo, situando


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este ao nível operacional de planeamento, de forma a dar resposta a exigências de transformação e modernização num prazo mais adequado, que julgamos dever-se situar nos cinco a seis anos; - A materialização de um Plano Anual de Actividades mais consentâneo com os recursos disponíveis, permitindo identificar os objectivos a atingir e os resultados a obter, assim como a sua avaliação recorrendo a metas e indicadores, permitindo alterar e optimizar processos e actividades com repercussões efectivas no processo de aprendizagem dos Alunos e, consequentemente, nos seus resultados escolares; - A revisão da Estrutura e Quadro Orgânico de Pessoal, onde se identificam três áreas de actuação determinantes para o futuro do Colégio Militar que são as da Comunicação, das Tecnologias de Informação e dos Serviços de Apoio, as quais carecem de alguma capacidade de gestão, equipamentos e pessoal qualificado; - Uma Estrutura de Coordenação Pedagógica mais efectiva que permita reflectir sobre os objectivos organizacionais e os resultados a obter ao nível escolar pelos Alunos, garantindo unidade de acção sem pôr em causa a necessária autonomia e inerente responsabilidade dos professores, através de um maior e mais eficaz trabalho em equipa ao nível dos departamentos curriculares, dos grupos disciplinares e da coordenação de ciclos, de curso e de turmas; - Proceder a uma reavaliação do Projecto Curricular com prioridade para as Áreas Curriculares não Disciplinares, procurando maior rendimento e objectividade nos Estudos Específico e Acompanhado e reavaliando as Actividades de Complemento Curricular, no que respeita a quantidade, tipo e tempo dedicado a essas actividades; - Apresentação de uma Carta-compromisso para a Educação, entre o Colégio Militar e os Pais e Encarregados de Educação; - Elaboração de um Plano de Modernização de Infra-estruturas e Requalificação de Espaços que permita, a longo prazo, facilitar a missão e garantir uma melhor

qualidade de vida interna aos Alunos e a todos quantos aqui servem, recorrendo a uma programação consentânea com os recursos financeiros disponíveis a prazo. Penso ser desta forma que poderemos deliberadamente melhorar, ainda mais, a qualidade do ensino no Colégio Militar, atraindo mais candidatos e proporcionando uma maior e melhor selecção, o que, em conjunto com uma melhoria dos processos internos, se traduzirá num universo de alunos com maior sucesso escolar e com uma menor atrição entre a sua entrada e saída desta escola. E tudo isto sem descaracterizar a especificidade desta Instituição, porque as organizações perduram essencialmente pela capacidade de se diferenciarem na actividade a que se destinam. Assim foi e continuará a ser nesta Casa, onde se pratica um ensino de cariz militar, centrado nos Valores e eclético nas vertentes académica, comportamental, desportiva e cultural, vocacionado para a formação de futuros cidadãos responsáveis e com capacidade de iniciativa e liderança em diferentes áreas de actividade na nossa sociedade, como sempre aconteceu ao longo da história do Colégio Militar. Excelentíssimos Pais e Encarregados de Educação, Educar e formar uma criança é um processo complexo que exige a vossa colaboração com este estabelecimento de ensino, a fim de concretizarmos o objectivo último que nos é comum – o sucesso escolar dos Alunos que actualmente frequentam o Colégio Militar. Sem a vossa participação e o vosso contributo directo, ou através da Associação que vos representa, o cumprimento da nossa missão será sempre mais difícil. Aos Pais e Encarregados de Educação dos novos Alunos uma palavra de apreço pelo vosso voto de confiança no Colégio Militar. Aos novos Alunos, hoje admitidos formalmente no Batalhão Colegial, desejo uma rápida e salutar integração na vida interna e sucesso no vosso percurso escolar, sem que percam a alegria da vossa juventude que aquece estas paredes seculares. Aos Alunos que terminaram o curso se-

cundário e passaram à condição de Antigos Alunos endereço as maiores felicidades pessoais, académicas e profissionais para o futuro das vossas vidas, na certeza de que pertencerão sempre a esta Casa e ela contará sempre convosco na dignificação do seu bom nome. Aos Alunos mais velhos relembro a necessidade do vosso esforço no estudo e no trabalho diário de aprendizagem, com o apoio dos vossos professores, pelo que se exige da vossa parte dedicação e motivação para vencerem as dificuldades e obterem um bom aproveitamento escolar que possa responder às vossas opções académicas e profissionais futuras, bem como contribuir para o prestígio do vosso Colégio. Muitas felicidades para este ano lectivo. Por último, dirijo-me aos Alunos Graduados pela consideração que merecem face à responsabilidade que lhes é pedida para além de serem Alunos, no enquadramento e formação dos Alunos mais novos nas regras e modo de vida colegial. Conforme já vos referi, a vossa acção de comando é a alma do Batalhão Colegial e deve ser exercida pelo exemplo da vossa conduta, pela coerência das vossas atitudes e por uma postura firme e uma determinação inequívoca quanto aos aspectos essenciais na formação comportamental dos mais novos, garantindo a sua segurança e cuidando dos seus justos interesses como vossos subordinados. Desejo-vos sucesso nestas funções a par do sucesso escolar, designadamente para os que agora são finalistas. Meus Generais Ilustres Convidados Minhas Senhoras e meus Senhores Alunos Termino com a confiança no trabalho de todos quantos aqui servem e estudam e a motivação de quem sente a responsabilidade de continuar esta obra que é o Colégio Militar, por tudo o que esta Instituição de qualidade significa em prol do Exército e do País. Acredito que com o apoio da restante comunidade colegial, continuaremos o caminho que a história traçou e que nos lega a responsabilidade de mantermos a autonomia e a identidade do Colégio Militar no futuro, como escola de


Do Colégio Abertura solene de ano lectivo

valores, em consideração pelos que aqui derramaram o seu esforço, servindo ou estudando ao longo de dois séculos, bem como no reconhecimento de uma missão que é nobre e merece todo o respeito e admiração. Assim seja! A Lição Inaugural, subordinada ao tema “As intenções empreendedoras como preditores das intenções do abandono académico”, foi proferida pelo Engenheiro Lourenço da Conceição Frazão, Professor do Colégio e detentor de um vasto currículo académico e profissional. “Foi com agrado que recebi o convite da Direcção do Colégio Militar para proferir a lição inaugural do ano lectivo 2010-2011. Trazer ao conhecimento público um assunto que é, simultaneamente, institucional e de educação foi um desafio e um estímulo que muito me honra. O estudo sobre “As intenções empreendedoras como preditores das intenções de abandono académico” procura contribuir para a compreensão das razões que conduzem os estudantes, do Ensino Superior, ao abandono académico e da importância do empreendedorismo na criação de valor e de auto-emprego, bem como oportunidade de carreira e de satisfação pessoal e profissional. Sendo uma das missões do Colégio Militar preparar jovens para ingressarem no ensino superior, o tema da presente comunicação pode ajudar os estudantes, as famílias, os professores e os decisores a entender algumas das dificuldades que afectam os estudantes na transição para esse nível de ensino. Esta transição engloba expectativas, mas acarreta igualmente dificuldades de natureza e dimensões diferentes. A expectativa de liberdade e de autonomia cria algum deslumbramento perante as vivências de um ambiente académico novo. Este ambiente novo que requer uma aprendizagem rápida de novas regras de convivência social e académica e cujos actores são também diferentes, pode conduzir a situações de marginalização e de isolamento. A organização e a gestão dos diferentes tempos criam, muitas vezes, angústia e desmotivação. A escolha do curso ou da instituição pode não corresponder

às expectativas ou não se adequar à personalidade e aos objectivos do estudante podendo traduzir-se em desinteresse, baixa performance académica, dificuldades de integração académica, social e institucional devido a escolhas erradas. Os hábitos e o background cultural produzem, muitas vezes, um choque cultural entre o capital detido pelos estudantes e a cultura institucional. A falta de performance académica, as classificações de ingresso, os métodos de estudo e as habilitações académicas dos pais são, também, aspectos que influenciam o desempenho dos estudantes. Sabe-se, também, que a actividade empreendedora dos pais influencia o desejo de criação de negócios e potencia as intenções empreendedoras dos estudantes. Muitas das questões afloradas ou das suas inter-relações traduzem-se na intenção de abandono dos estudos sem obterem uma qualificação superior, situação muito evidente entre os estudantes portugueses. Nos últimos anos o Colégio Militar tem desenvolvido múltiplos esforços, criando melhores condições de bem-estar, melhorando os equipamentos e instrumentos pedagógicos e didácticos, promovendo uma melhor integração e camaradagem, aumentando as horas de estudo, a par de um maior esforço e dedicação dos professores, mas deve igualmente exigir-se mais empenhamento e ambição aos alunos. Um novo ano lectivo implica sempre novos desafios e respostas proactivas sendo o contributo desta comunicação, embora que modesto, promover a reflexão em tomo de uma questão candente da sociedade portuguesa, como é o abandono académico. Numa lógica proactiva, a perspectiva de não haver retenção académica, como referido pelo ME, vai implicar, possivelmente, a redefinição da missão do Colégio Militar e a necessidade de implementar novos métodos de apoio e ensino individualizado que importa, igualmente, reflectir e preparar com tempo e ponderação adequada. Este é um próximo desafio. As intenções empreendedoras como preditores das intenções de abandono académico A divergência evidente entre as expectativas dos estudantes portugueses acederem ao Ensino Superior e a taxa de conclusão de qualificações superiores não tem merecido o interesse devido por parte da comunidade académica portuguesa.

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O alargamento do ensino superior tem proporcionado expectativas crescentes entre os estudantes e as respectivas famílias. Na verdade, os jovens da sociedade portuguesa têm uma expectativa elevada relativamente à obtenção de uma qualificação superior, 77,3% segundo Alves (1998) verificando-se, por contraste, que a taxa de graduações se situava em 2003-4 em 66% (OECD, 2007). Todavia, os dados conhecidos sobre o abandono no Ensino Superior, que designaremos por abandono académico, apontam para taxas na ordem dos 45,0% (Heitor, 2006). Estas taxas elevadas de abandono académico, conjuntamente com a quebra demográfica, são preocupantes, pois têm repercussões nas finanças públicas, na vida dos estudantes e das famílias, no prestígio das instituições e no desenvolvimento económico e social do país. Sendo um problema de natureza complexa, o abandono académico afigura-se um assunto institucional e politicamente relevante (Yorke & Longden, 2004) pelo que, não se compreende a escassez de estudos por parte da comunidade científica portuguesa que permitam conhecer e relacionar, os diferentes factores que conduzem os estudantes ao abandono académico. Existem abordagens múltiplas e razões diversificadas que conduzem os estudantes ao abandono académico, tais como: a falta de preparação académica, a falta de hábitos e métodos de estudo, as dificuldades de gestão dos tempos de estudo, o ritmo e empenhamento nos estudos, o excesso de burocracia, as dificuldades financeiras, as dificuldades de integração académica, social e institucional, a insatisfação com o ambiente académico e a escolha errada do curso/instituição de entre outras. Para além das razões mais relevantes do abandono académico, existe uma multiplicidade de outras razões ou da sua conjugação que podem conduzir os estudantes a essa decisão. Todavia, dada a importância do impacte do abandono académico importa conhecer que factores podem reduzi-lo e, ao mesmo tempo, ser uma alternativa ao prosseguimento de estudos superiores. O empreendedorismo, enquanto fenómeno social, parece revelar-se um preditor capaz de atenuar as intenções de abandono académico, pois permite criar o próprio emprego, possibilita desafios novos, independência, liberdade e autonomia e parece ser pessoal, social e


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Do Colégio Abertura solene de ano lectivo

profissionalmente gratificante para muitos indivíduos. O empreendedorismo é entendido como um fenómeno que na actualidade pode contribuir, através da inovação, da criatividade e do reconhecimento de oportunidades, para o desenvolvimento da economia e atenuar os conflitos sociais decorrentes do crescimento do desemprego. Apenas 8,8% da população portuguesa entre os 18-64 anos desenvolvem uma actividade empreendedora (GEM, 2007), sendo esta actividade induzida por necessidade (GEM, 2007; Baptista & Thurik, 2007), pelo que o contributo da Universidade pode ser decisivo. Este contributo pode concretizar-se através do ensino do empreendedorismo que desenvolva competências, valorize atributos e promova comportamentos que estimulem o comportamento empreende-

des inovadoras, não se coadunam com o tempo necessário para a aquisição de conhecimento teórico promovido pela Universidade, conduzindo estes estudantes ao abandono académico para prosseguir uma oportunidade empreendedora e concretizar a sua realização pessoal e profissional. Concomitantemente, se estes estudantes, no contexto actual, considerarem que o mercado de trabalho não está a valorizar, suficientemente, os cursos superiores e, cada vez mais, lhes oferece menos oportunidades de emprego, coloca-se a questão, porquê estar à espera? Efectivamente, o desequilíbrio entre as aspirações dos estudantes e a avaliação que estes fazem da oferta e da valorização do mercado (Lee & Venkataraman, 2006), conjugado com factores precipitantes

A presente investigação veio reafirmar que, para além da confirmação dos preditores de abandono académico identificados em estudos anteriores, existem outros factores que podem influenciar as intenções de abandono académico. Na verdade, o estudo veio evidenciar a influência dos hábitos culturais e das intenções empreendedoras como dois novos preditores das intenções de abandono académico. O facto dos hábitos culturais se revelarem como preditores das intenções de abandono académico pode decorrer do choque entre a forte influência cultural do meio familiar de origem e o meio universitário (Longden, 2004; Legendre, 2003). Efectivamente, de acordo com o estudado, verifica-se uma forte relação entre o abandono académico e o nível de habilitações académicas dos pais dos estudantes que

dor. Numa perspectiva de formação ao longo da vida é importante que a Universidade possa, também, apetrechar os indivíduos e as organizações para lidarem com a incerteza e a complexidade (Gibb & Hannon, 2007; Gibb, 2002a) nos seus diferentes aspectos de modo a responder às exigências de uma sociedade, cada vez mais, empreendedora, competitiva e contingente. Para o estudante com intenções empreendedoras, o desejo de realização e a espera pela conclusão do curso afigura-se, na perspectiva destes, um percurso fastidioso e até desnecessário. Esta questão associada às características pessoais e à perspicácia para identificar oportunida-

(Shapero & Sokol, 1982), como é o caso do abandono académico, potenciam ou facilitam a possibilidade dos estudantes se tornarem empreendedores. É, portanto, premente compreender as relações entre as intenções empreendedoras e as intenções de abandono académico. Nesta perspectiva, realizou-se uma investigação que foi desenvolvida em duas Universidades portuguesas de regiões e contextos culturais e sociais contrastantes. O estudo envolveu 254 estudantes do primeiro ano do primeiro ciclo de estudos superiores dos cursos de engenharia civil, engenharia informática/telemática e computadores e turismo.

acedem aos estudos superiores. Relativamente à questão central de investigação, o estudo mostrou a existência de uma relação estatisticamente significativa entre as intenções empreendedoras e as intenções de abandono académico. Esta relação era explicada pelo reconhecimento de oportunidades empreendedoras, pela motivação e satisfação decorrentes da concretização de ideias capazes de criar o próprio emprego e pelo ensino do empreendedorismo, tendo este se constituído como um factor atenuador das intenções de abandono académico. Tal resultado reflecte a importância do empreendedorismo como alternativa de carreira e


Do Colégio Graduados 2010/2011

ferramenta capaz de produzir valor e, ao mesmo tempo, reforça a necessidade da implementação do ensino do empreendedorismo na Universidade como meio capaz de atenuar as intenções de abandono académico. Em termos de recomendações o nosso contributo está dirigido no sentido de sensibilizar os decisores políticos e a comunidade científica portuguesa para a necessidade de estudar, em termos nacionais, o abandono académico enquanto problema institucional. Aponta-se, ainda, a necessidade da Universidade implementar o ensino do empreendedorismo e de práticas que ensinem os estudantes a criar de forma inovadora, pois só criando uma cultura empreendedora se pode ajudar os estudantes a perseguir oportunidades e a concretizar as suas intenções empreendedoras. Esta prioridade associada ao facto dos resultados mostrarem que o ensino do empreendedorismo tinha efeitos atenuadores nas intenções de abandono académico, reflecte a necessidade da Universidade

mudar as suas práticas assumindo o ensino do empreendedorismo como um vector estratégico da sua acção, de modo a potenciar a conclusão de estudos superiores. O todo não se reduz à soma das partes, mas espera-se que cada um possa encontrar pontos convergentes e analogias que lhes permitam compreender as razões que conduzem os estudantes ao abandono académico. Esta compreensão pode ajudar a redefinir atitudes e comportamentos que possam atenuar as dificuldades decorrentes da transição do ensino secundário para o ensino superior, bem como a tomada de consciência da importância do empreendedorismo como opção de carreira. Sabe-se que o aumento dos estudos superiores potencia as possibilidades dos indivíduos virem a ser empreendedores (Shane, 2009), tal como a relação entre a não conclusão de estudos superiores para realizar projectos inovadores (Fayolle et al., 2004) ou a relação com percursos académicos conturbados e o empreendedoris-

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mo (Nieuwenhuizen & Groenwald, 2004). A convicção que se adensa da não existência de emprego para todos, vem reforçar a importância do empreendedorismo seja como fonte de criação do próprio emprego e de alternativa de carreira, seja como estilo de vida e motivo de satisfação pessoal e profissional. Entregues os prémios e as medalhas aos Alunos que no ano transacto se distinguiram pela sua aplicação literária e física e as cartas de Curso aos Finalistas do ano de 2009/2010, a cerimónia foi encerrada com o Hino Nacional entoado por todos os presentes.

Graduados 2010/2011 A

AAACM interveio na semana de formação de Graduados 2010/2011 na tarde do passado dia 3 de Setembro, nela participando o José Eduardo Garcia Leandro (94/1950), Presidente da Assembleia Geral, o Martiniano Gonçalves (9/1958), Presidente da Direcção, o Pedro Miguel Vala Chagas (357/1977), Secretário da Direcção, e o Nuno Alves Caetano (99/1998). Assistiram à sessão o Subdirector Coronel de Infantaria João Paulo Alves Caetano (609/1973) e o Comandante do Corpo de Alunos Tenente Coronel de Infantaria Francisco Ferreira Duarte (394/1976). Nas diferentes intervenções foram focados aspectos de liderança e comportamentais na difícil tarefa que implica um procedimen-

to correcto na solução das situações que os Graduados terão de enfrentar e no exemplo que têm de transmitir para os seus Camaradas mais novos. A 8 de Setembro teve lugar nos Claustros a cerimónia da imposição das graduações com a presença do Director, Coronel de Artilharia Tirocinado Fernando Joaquim Alves Cóias Ferreira, do Subdirector, dos Presidentes da Assembleia Geral e da Direcção da AAACM, do Chefe do Serviço Escolar, Coronel de Cavalaria Paulo Renato Faro Geada (574/1970), do Comandante do Corpo de Alunos, dos Oficiais e Professores em serviço no Colégio, dos Familiares dos Alunos e de Antigos Alunos que se quiseram associar e apoiar os seus Camaradas que foram investidos nas novas responsabilidades que as graduações acarretam.


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Colaboração A importancia dos Colégios Militares - passado, presente e futuro

João José Brandão Ferreira TCor/Pilav (ref)

A importância dos Colégios Militares passado, presente e futuro “Se você acha que a educação é cara, experimente a ignorância” Lema do Ministério da Educação de Singapura

E

xistem em Portugal três estabelecimentos de ensino secundário que são tutelados pelas FAs, isto é, pelo Exército, e se distinguem profundamente, no seu funcionamento, de todos os outros existentes no país e dependentes do Ministério da Educação ou outras entidades civis e religiosas. São eles o Colégio Militar (CM), o mais antigo a ser criado, no ano de 1803, pelo Marechal Teixeira Rebelo e um dos mais antigos do mundo; o Instituto de Odivelas (IO), fundado em 1900 pelo Infante D. Afonso, irmão do Rei, e destinado a alunos do sexo feminino; e o Instituto Militar dos Pupilos do Exército (IMPE), criado pelo novel regime republicano logo em 1911, destinado a filhos de sargentos e praças (e também oficiais), colmatando assim uma lacuna e uma injustiça já que o CM apenas admitia filhos de oficiais. Foi seu fundador o general António Xavier Correia Barreto, ao tempo ministro da guerra. Não vou falar-lhes da história dos três colégios, mas vou tentar salientar a importância da sua existência no passado e no presente, fazendo a ponte para a sua necessidade no futuro. Nas conclusões procurarei aduzir al-

gumas das ameaças que se perfilam à sua continuidade. A razão primeira que justificou a existência de colégios com características militares foi o apoio social aos filhos dos militares (tendo começado pelos oficiais), cujos pais estiveram afastados das suas famílias por motivos de serviço. Este apoio era consubstanciado na existência de um estabelecimento de ensino que lhes ministrasse o ensino primário e, sobretudo, o secundário. Não menos importante, permitia que os órfãos de militares que tivessem falecido em serviço, não ficassem desvalidos. Com o decorrer dos tempos a vivência em ambiente militar permitiria, mais facilmente, despertar vocações para a carreira das armas. É por demais evidente, que esta vivência em ambiente militar, obriga a uma tutela militar e é por isso que desde o início da sua criação os colégios foram integrados no Exército. Outra das grandes virtudes dos colégios militares – permitam que assim englobe e trate, os três – tem a ver com o facto de procurarem uma instrução e educação completa e abrangente, dos seus alunos.

Não vou falar-lhes da história dos três colégios, mas vou tentar salientar a importância da sua existência no passado e no presente, fazendo a ponte para a sua necessidade no futuro. Isto é, não se limitam a ministrar conhecimentos técnicos e culturais, estão também preocupados com o desenvolvimento físico (mente sã em corpo são), na sua formação moral, sem esquecer o religioso, e na sua educação cívica. Outro aspecto importante: ensina-se e pratica-se a liderança. E pasmem leitores, ainda hoje continuam a instilar nos alunos o amor pela sua Pátria!... De realçar, ainda, que o seu ambiente intra – muros permite uma convivência mais íntima o que junto com as praxes académicas e uma prática alargada de experiências comuns, permite soldar laços de amizade e camaradagem para toda a vida. Esta vivência em comum, também conhecida como


Colaboração A importancia dos Colégios Militares - passado, presente e futuro

Outra das grandes virtudes dos colégios militares – permitam que assim englobe e trate, os três – tem a ver com o facto de procurarem uma instrução e educação completa e abrangente, dos seus alunos. Isto é, não se limitam a ministrar conhecimentos técnicos e culturais, estão também preocupados com o desenvolvimento físico (mente sã em corpo são), na sua formação moral, sem esquecer o religioso, e na sua educação cívica. Outro aspecto importante: ensinase e pratica-se a liderança. E pasmem leitores, ainda hoje continuam a instilar nos alunos o amor pela sua Pátria!... “internato” permite, por outro lado, a oferta de um leque alargado de actividades – impossíveis de realizar em estabelecimentos de ensino “normais”. Finalmente, toda esta vivência, ainda por cima em ambiente militar, obriga ao estabelecimento de regras e disciplina próprias, que harmonizam a liberdade e individualidade de cada um com o bem-estar de todos. Tudo isto gera uma “ordem”. Esta ordem liberta mais do que oprime. Onde estão, então, as vulnerabilidades ou os defeitos de toda esta realidade? Nisto: no afastamento das famílias e no eventual deficiente enquadramento dos alunos. O afastamento familiar tem que ser tentado colmatar através do melhor acompanhamento possível por parte da família, durante os tempos livres e férias. Hoje em dia este problema tem-se agravado pelo facto de muitos dos alunos serem filhos de pais divorciados e, em muitos casos, os colégios funcionarem como uma espécie de “depósito” das crianças. O eventual deficiente enquadramento, tem a ver com a escolha e supervisão do corpo docente, militares destacados e auxiliares civis contratados. E, claro, com os meios financeiros disponíveis. Se a chefia e o enquadramento forem deficientes, obviamente que a qualidade da formação baixa e dá-se azo à ocorrência de actos impróprios. Em conclusão, as razões e a importância dos colégios militares não desapareceram e mantêm-se nos dias de hoje; constituem-se alforges de futuras elites de que o país é muito carente; mantêm uma qualidade de ensino e formação, muito acima da média do país, garantindo quase a 100% o acesso

ao ensino superior e ao emprego, aos seus finalistas. Arrisco-me mesmo a dizer mais: a importância é hoje em dia acrescida, já que a consciência cívica, anda pelas ruas da amargura; a dissolução da família tradicional é patente e a qualidade do ensino é marcada pela primazia das estatísticas, a ignorância encartada e o facilitismo militante. Caros compatriotas, hoje em dia tudo vai funcionando mas, no fundo, nada funciona… Ora não parecendo terem cessado as razões que levaram à criação e manutenção dos colégios militares, poderíamos concluir que eles estão de pedra e cal e o seu futuro não corre perigo. Nada mais enganador. São várias as razões para isto, que vou tentar sintetizar. Em primeiro lugar razões internas da própria Instituição Militar. Como é público as FAs têm sofrido, nos últimos 25 anos uma enorme erosão nos seus orçamentos, nos seus meios, dispositivo e sistema de forças, que as estão a reduzir à ínfima espécie. Deste modo o Exército luta com as maiores dificuldades para conseguir sustentar os colégios militares tendo havido, até, uma tentativa de fechar o IMPE e concentrar meios no IO e CM. Deste modo, queixam-se que os outros ramos sendo beneficiados com o produto final dos colégios em nada concorrem para isso. Acontece que o Exército, tendo razão neste aspecto, não quer abrir mão dos colégios, nomeadamente em comandamento e lugares – o que representa vagas. Ora isto cria uma incompatibilidade prática. Colocar os colégios sob a alçada do EMGFA também

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não parece ser a melhor solução já que aquele órgão está vocacionado para o comando e controle das operações militares e não para gerir colégios; colocar estes sob a alçada do MDN é uma experiência que pedimos a São Nuno Álvares Pereira, nos dispense de suportar, por razões que nos eximimos a referir; fazer dos colégios órgãos semelhantes à Escola dos Serviços de Saúde Militar, vai levantar problemas semelhantes ao cenário número um, além do que iria alienar o cabedal da experiência centenário que o Exército já leva de dirigir estes estabelecimentos. Ou seja, a solução melhorzinha ainda é deixar tudo como está, partindo do princípio que a hierarquia do Exército fará os possíveis e impossíveis para conseguir os meios para o seu correcto funcionamento. Por outras palavras, tem que convencer a tutela da mais-valia dos colégios e conseguir os meios financeiros e em pessoal necessários. Neste âmbito é mister ultrapassar as dificuldades de nomeação de oficiais e sargentos para os respectivos corpos de alunos, já que nem todos servem ou têm apetência para os desafios pedagógicos e humanos que tais funções requerem. Além disso compreende-se que haja militares cuja formação está focalizada na missão primária do Exército – que é combater ameaças externas – e não se sinta motivado para exercer funções colegiais. Noutro sentido já não se pode admitir que possa haver algum prejuízo em termos de carreira para quem

Em conclusão, as razões e a importância dos colégios militares não desapareceram e mantêm-se nos dias de hoje; constituem-se alforges de futuras elites de que o país é muito carente; mantêm uma qualidade de ensino e formação, muito acima da média do país, garantindo quase a 100% o acesso ao ensino superior e ao emprego, aos seus finalistas.


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Colaboração A importancia dos Colégios Militares - passado, presente e futuro

exerça aquelas funções que são tão dignas como quaisquer outras. Finalmente, é urgente aumentar o número de candidatos a alunos dos colégios sob pena destes se finarem por falta de alimentação. Em segundo lugar os colégios militares estão em perigo pois são um “mau exemplo” para o país. Eles destoam da generalidade do ensino. Vou dar alguns exemplos para entenderem melhor o que quero significar: - os CMs não se limitam a transmitir os conhecimentos técnicos inerentes aos programas aprovados pelo Ministério da Educação: ministram formação militar adequada à idade dos alunos (e ao contrário do que pensam algumas luminárias da nossa praça, isso não lhes faz mal algum...), e pretendem formar o indivíduo no seu todo, físico, moral e intelectual. Já me esquecia, é também uma escola de chefes e de patriotismo…; - os CMs apresentam uma taxa de sucesso de candidaturas à Universidade, que ronda os 100%; - nos CMs não se aceitam fraquezas de carácter, mentirosos, ladrões, drogados, homossexuais e outras minorias de aleijados morais. Deus seja louvado! E para que as fraquezas não se transformem em vício, corta-se logo o mal pela raiz. Que nunca lhes doam as mãos!; - os CMs acarinham as tradições, têm lemas, códigos de conduta, brasões e mantém estreitos os elos com os ex-alunos. Ex-alunos não costumam constar nas listas de desertores; - os CMs foram agraciados com múltiplas condecorações; - nos CMs os alunos marcham com “cagança” e de queixo levantado, sinal de quem anda de coluna direita e olha o mundo de cima; e do mais pequeno ao mais velho passam imperturbáveis pela multidão que os ladeia;

- os CMs atravessaram todas as conturbações políticas e sociais dos últimos 200 anos (e foram muitas), mas preservando a sua personalidade, passaram incólumes por todas elas; - nos CMs não há greves, trabalha-se; os alunos não “batem” nos professores nem pintam grafitis, há disciplina; professores e alunos vão às aulas, existe ordem; aos alunos é-lhes oferecido ampla escolha de actividades, existe liberdade; o acompanhamento é constante, há pois controle e ninguém é inimputável, por irresponsável; avaliam-se os resultados, afere-se o conhecimento e não se dá guarida a madraços; enfim, são Escolas a sério, em qualquer parte do mundo; - nos CMs todos – militares, professores, funcionários civis, alunos e ex-alunos – fazem parte da família colegial e mantêm-se irmanados pelo mesmo ideal; - nos CMs sabe-se quem manda, melhor dizendo, quem comanda, ao contrário da maioria das outras escolas onde a autoridade se esvai em múltiplos “conselhos”. Numa palavra os alunos não se limitam a Estar, ao contrário, São, e se é verdade que o objectivo numero um do ensino visa a mudança de comportamentos, os CMs representam o expoente máximo deste conceito. Em terceiro lugar existem problemas de ordem doutrinária e ideológica. A nível social e político cruza a sociedade um conjunto de forças que pensam que a existência de CMs, no século XXI é um anacronismo sem qualquer razão de ser. O espectro político-partidário conotado normalmente com a “esquerda” odeia, em termos ideológicos, a ideia da existência de colégios militares – causa-lhes até, erupções de pele, e outros fenómenos do foro psicossomático. Num destes partidos, no manifesto eleitoral da sua fundação estava inscrito a extinção dos colégios militares… Convém não ter a memória curta. Um ou-

“Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber; a ignorância consiste em crer que se sabe”.

Numa palavra os alunos não se limitam a Estar, ao contrário, São, e se é verdade que o objectivo numero um do ensino visa a mudança de comportamentos, os CMs representam o expoente máximo deste conceito. tro, porém, nunca hostilizou publicamente os CMs – certamente porque é o único que sabe o que anda a fazer – e nem sequer vê qualquer inconveniente na sua existência, desde que, é claro, lá se ensinasse o materialismo dialéctico, o socialismo científico e o internacionalismo proletário! No espectro político conotado com o centro e a direita, por norma, a ideologia está ausente e não se faz combate doutrinário: sente-se com a carteira e pensa-se com as tripas. Estamos conversados, portanto. Finalmente, existe um último perigo, os negócios! Nomeadamente os negócios de especulação imobiliária. Os colégios ocupam espaços de terreno privilegiados, onde sobressai o Colégio Militar. São muitos hectares em zonas de grande valor. Ora isto representa milhões e milhões de euros, oportunidades de negócio para amigos, eventual atenuação de dívidas camarárias, chorudos financiamentos, etc. Perante isto, o que valem três colégios, cuja mais valia é lançarem no mercado de trabalho ou nos cursos superiores, umas dezenas de cidadãos com uma formação acima da média, e que tanta falta fazem ao nosso desfigurado país? Acertaram, são perfeitamente dispensáveis! Já imaginaram os leitores uma conjugação das razões apontadas? De facto, os colégios militares não devem acabar mas podem tentar que isso aconteça. Julgo ter sido suficientemente explícito. Deixo-vos com Hipócrates (460-374 A.C.): “Há verdadeiramente duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber; a ignorância consiste em crer que se sabe”. Aos sete dias do mês de Outubro do ano dois mil e dez


Colaboração O Colégio Militar justifica-se no actual panorama nacional da educação?

O Colégio Militar justifica-se no actual panorama nacional da Educação?

H

oje em dia existem excelentes escolas secundárias públicas, vários colégios secundários privados de grande qualidade de ensino, não só no domínio da formação literária, mas também em actividades de formação de carácter e educação física. É um enriquecimento para o País, existirem várias opções e pluralidade de oferta de modelos de educação. Mas o que é que distingue o ensino militar? Em primeiro lugar interessa afirmar que a função militar é, basicamente, a formação e educação permanentes. Por isso o Exército está particularmente vocacionado para a educação. Não é por acaso que algumas das melhores e mais inovativas empresas americanas estão a seleccionar para as áreas mais difíceis, oficiais com excelente formação técnico-científica, mas sobre tudo com experiente liderança em teatro de operações. A formação do carácter dos jovens e a educação para a liderança é a grande mais-valia do Colégio Militar, tal se aplica, também, ao Instituto Militar dos Pupilos do Exército. Julgo poder afirmar, sem sombra de dúvida, que mais do que ser um apoio familiar aos militares em comissões fora do território nacional, o Colégio Militar hoje presta um serviço de alto valor para o País - dar um precioso contributo para a formação de dirigentes, isto em concorrência saudável, com outros projectos de educação que também são excelentes nesta perspectiva. Da minha própria experiência recordo além dos grandes mestres na área científica e literária, moral e cívica, recordo os mestres de equitação, esgrima, ginástica, instrução militar, comandantes de companhia, etc. que além de ensinos específicos nos gravaram, em nós, indeléveis percepções que nos desenvolveram como

homens. Recordo ainda que após a minha formatura no I.S.T., quando frequentava o C.O.M. nos anos de 1960-61 a minha primeira experiência de métodos inovadores de formação, formação activa e participativa, foi exactamente no Exército. Um dos parâmetros do conceito militar de educação é levar o formando a testar os seus limites, quer físicos quer mentais, pode parecer controverso, mas o resultado final é o desenvolvimento do espírito de equipa, a capacidade de iniciativa, a auto – confiança, a disciplina compreendida e aceite, o amor aos símbolos que representam a Pátria, a audácia, a camaradagem e a entreajuda, a liderança. O Colégio Militar constitui, hoje, um serviço de alto valor que o Exército Português presta ao País, em harmonia e na pluralidade das várias Escolas e Colégios Secundários que também procuram a excelência em Educação. Pedro do Canto Lagido 330/1947

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Colaboração O perturbante terceiro pilar da formação

José Alberto da Costa Matos 96/1950

O perturbante

terceiro pilar da formação O propositado e aparentemente estranho título da minha intervenção contém um conceito (“terceiro pilar da formação”) e envolve uma implícita interrogação: porquê “perturbante”? Antes de prosseguir faço notar que, sempre que faça alusão ao Colégio Militar, essa alusão deve ser entendida como envolvendo os restantes Estabelecimentos Militares de Ensino: o Instituto de Odivelas e o Instituto dos Pupilos do Exército.

C

omecemos pelo primeiro, o conceito. A criação do Colégio resulta de um insucesso militar: a chamada “Guerra das Laranjas” (1801). A débil capacidade de comando então demonstrada pelos portugueses bem como a sua falta de adequada formação tornaram evidente ao poder político a necessidade de ter de existir um estabelecimento de ensino onde se formassem oficiais dotados das adequadas competências para o exercício do comando das diversas unidades e órgãos do Exército. O homem a quem foi cometida tão inovadora quão exigente tarefa – o então coronel de Artilharia António Teixeira Rebelo – começou por definir desde logo, nos termos que se seguem, um conceito claro e objectivo para esse estabelecimento de ensino: “O fim principal desta instituição

é não só criar homens sãos, robustos, vigorosos e capazes de servir útil e gloriosamente a sua Pátria, mas também formar o coração e o espírito da mocidade para a tornar útil a si e aos outros”. Militar estudioso, dotado de rara inteligência e um pedagogo notável, Teixeira Rebelo, sendo de origem humilde, partiu sozinho, aos doze anos, em busca do estudo e do conhecimento, afirmando-se depois pelo seu saber e pela sua determinação. E é também ele que nos deixa este prudente alerta: «Quando os conhecimentos se não unem às virtudes e bons costumes, são muitas vezes mais perniciosos que úteis, quer àqueles que os possuem, quer à sociedade.» Ou seja, há mais de dois séculos o Fundador definia como objectivo da formação dos seus alunos Servir e ser útil - à Pátria e

“O fim principal desta instituição é não só criar homens sãos, robustos, vigorosos e capazes de servir útil e gloriosamente a sua Pátria, mas também formar o coração e o espírito da mocidade para a tornar útil a si e aos outros”. à Sociedade – e alicerçava esse objectivo em três pontos de apoio fundamentais: o Conhecimento intelectual, a Robustez física e a Formação do espírito.


Colaboração O perturbante terceiro pilar da formação

«Quando os conhecimentos se não unem às virtudes e bons costumes, são muitas vezes mais perniciosos que úteis, quer àqueles que os possuem, quer à sociedade.» Dito de outro modo, ele arquitectou, pôs de pé e deixar-nos-ia como herança um estabelecimento de formação integrada que privilegiava um exigente ensino literário e científico, uma saudável preparação física e uma sólida formação moral e cívica. Estes mesmos três pilares da formação seriam também adoptados em 1837, quando da fundação da Escola do Exército, pelo Marquês de Sá da Bandeira, e mesmo em 1839 quando, em resultado do movimento Liberal, foi aberto em Portugal o seu primeiro liceu, pese embora um e outro destes estabelecimentos terem finalidades distintas. Com a criação da Escola do Exército, o Colégio Militar cessou então a sua missão de formar oficiais destinados ao Exército, passando a ser um estabelecimento de ensino próximo de um liceu, mas com um programa educativo próprio, porventura mais completo e exigente, mantendo porém certas disciplinas e práticas de natureza militar, uma vez que os seus alunos tinham acesso preferencial a uma futura carreira das armas. Utilizando linguagem actual, dir-se-ia que o Colégio Militar manteve o seu projecto pedagógico, já que o mesmo produzira até então inúmeros portugueses que se haviam notabilizado ao serviço da Pátria e da Sociedade, como aspirava aliás Teixeira Rebelo. Ao longo dos seus mais de dois séculos de existência, o Colégio foi introduzindo inevitáveis actualizações no seu ensino literário e científico, acomodando-o quer à evolução do conhecimento, quer às disposições governamentais, o mesmo sucedendo em relação ao desenvolvimento das técnicas da educação física e da prática das modalidades desportivas. Mas no que toca à formação moral e cívica não houve cedências. O culto dos valores tornou-se uma constante fundamental da formação dos alunos, um farol que guia a sua posterior actuação enquanto homens e cidadãos e, finalmente, um cimento

consistente que liga sucessivas gerações. Pereira Coelho, um antigo aluno de 1889, oficial do Exército, escritor e jornalista, sintetizou muito bem esta noção quando escreveu: «Parece que dentro da nossa alma ficam, através da Vida, duas personalidadesuma a que se criou como resultante da evolução e amadurecimento do espírito, dos vaivéns da sorte, da profissão que se exerce, da cultura que se adquiriu, da natural inclinação das nossas ideias, das nossas ambições, dos nossos nervos, da nossa psicologia, e outra, a do antigo aluno do Colégio Militar que se manteve íntegra, firme, invulnerável, orgulhosa, até ao último minuto da sua vida!» Ora, é a esta consistente e perene formação moral e cívica que refiro em título como o “terceiro pilar da formação”. Passemos agora à “perturbante” dimensão ética deste terceiro pilar ou, dito de outro modo, como é que a prática dos valores morais e cívicos se tornou incómoda nos tempos que correm. Entre certos cidadãos, nos quais se contam mesmo alguns responsáveis nacionais, existe o preconceito de rejeição liminar dos estabelecimentos de ensino sob tutela militar. Desde logo porque entendem que o que é militar é conceptual-

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mente mau para a sociedade por constituir em si mesmo uma ameaça para a paz. Uns fazem-no por convicção e outros por conveniência. Os primeiros esquecem-se que as guerras não se desencadeiam por iniciativa militar mas sim por decisão política a que aqueles têm que obedecer. A este propósito, recorde-se que na encíclica “Gaudium et Spes”, durante o Concílio Vaticano II, se encontra escrito que os militares devem ser «considerados servidores da segurança e liberdade dos povos. Na medida em que se desempenham, como convém, desta tarefa, contribuem verdadeiramente para o estabelecimento da paz.» Quanto aos que, por razões de natureza pessoal, política ou económica, advogam a conveniência em eliminar despesas com uma coisa que não serve para nada, é curioso que seja a essa massa inútil que recorrem alarmados quando rebenta a borrasca ou quando se torna necessário tirar dividendos políticos em missões de paz e cooperação nos mais diversos países ou regiões. Mas há também os que imaginam que a educação ministrada no Colégio, em Odivelas ou nos Pupilos condiciona a liberdade e o padrão de comportamento dos alunos e alunas, porque neles se exalta a prática de certas virtudes de cariz militar. Haverá mesmo quem julgue que a existência de uniformes, de formaturas, marchas e desfiles com armas (que não passam de meros espécimes museológicos), corresponde a uma metodologia condicionadora dos jovens no sentido de, uma vez concluído o curso secundário, optarem pela carreira militar.

«Parece que dentro da nossa alma ficam, através da Vida, duas personalidades- uma a que se criou como resultante da evolução e amadurecimento do espírito, dos vaivéns da sorte, da profissão que se exerce, da cultura que se adquiriu, da natural inclinação das nossas ideias, das nossas ambições, dos nossos nervos, da nossa psicologia, e outra, a do antigo aluno do Colégio Militar que se manteve íntegra, firme, invulnerável, orgulhosa, até ao último minuto da sua vida!»


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Colaboração O perturbante terceiro pilar da formação

Haverá mesmo quem julgue que a existência de uniformes, de formaturas, marchas e desfiles com armas (que não passam de meros espécimes museológicos), corresponde a uma metodologia condicionadora dos jovens no sentido de, uma vez concluído o curso secundário, optarem pela carreira militar. A este respeito e até porque se comemorou há dias o Centenário da implantação da República, virá a propósito aqui mencionar aquilo de que de imediato se apercebeu o Presidente António José de Almeida numa visita realizada em 1919 ao Colégio Militar, que ele, pelo seu punho, registou deste modo no “Livro de Honra”: «O Colégio tem isto de simpático: nele, o espírito militar não subalterniza o espírito civil, de forma que os rapazes saem daqui, a um tempo, soldados e cidadãos, como cumpre à Democracia que, não só pela força, mas também pelo prestígio, precisa de defender-se e progredir». Vindo de um republicano, talvez este testemunho possa sossegar os mais inquietos! Aos receosos de que as práticas militares possam forçar a escolha da carreira das armas, talvez baste referir que nas décadas mais recentes, em média, apenas 10 a 12% optaram pelas Academias Militares, havendo mesmo alguns anos em que ninguém nelas ingressou. O que é pena, pois constituiriam uma mais-valia para os quadros de oficiais dos três ramos das Forças Armadas, lamentando-se mesmo que, nas respectivas Academias, não seja cativada uma percentagem das vagas anuais para aos alunos e alunas provenientes dos estabelecimentos militares de ensino. Mas regressemos à alegadamente “nefasta” exaltação e prática de certas virtudes ditas de feição militar. Qualquer dos três estabelecimentos militares de ensino possui um Código de Honra do aluno, o que não acontece em qualquer dos outros estabelecimentos de ensino do país, ditos civis. Sendo os códigos de honra um conjunto de regras balizadoras da correcta actuação do ponto de vista ético, que conferem aos que as seguem o respeito do todo social em que se inserem, é neles que encontramos os valores morais, cívicos e sociais que impulsionam a vontade individual no sentido de uma prática dignificante.

Ora quem fizer uma análise comparativa dos Códigos de Honra do Colégio, do Instituto de Odivelas e dos Pupilos, concluirá que, não obstante utilizarem linguagens próprias e diferenciadas, todos eles contêm, explicita ou implicitamente, os seguintes conceitos: PÁTRIA - DEVER - HONRA - DISCIPLINA - LEALDADE - RESPONSABILIDADE - HONESTIDADE - RESPEITO - VERDADE - DIGNIDADE – SOLIDARIEDADE. São estes os valores ditos militares que geram receios em certas mentes. Porém, quer na rua, quer nos meios de comunicação, quer nas intervenções dos políticos, quer no círculo de relações de cada um de nós, ouvimos com frequência coisas como estas:

«O Colégio tem isto de simpático: nele, o espírito militar não subalterniza o espírito civil, de forma que os rapazes saem daqui, a um tempo, soldados e cidadãos, como cumpre à Democracia que, não só pela força, mas também pelo prestígio, precisa de defender-se e progredir». - Se todos cumprissem o seu DEVER, não estaríamos nesta situação. - O governo tinha a obrigação de HONRAR os compromissos assumidos no seu programa eleitoral. - Nas nossas escolas impera a INDISCIPLINA e a falta de RESPEITO para com os professores. - As coisas acontecem, mas nunca é atribuída RESPONSABILIDADE a ninguém, e o povo que pague.

- Entre nós, a falta de HONESTIDADE abriu caminho à corrupção generalizada. - É preciso que o governo diga a VERDADE aos portugueses. - Se esse indivíduo tivesse um mínimo de DIGNIDADE já se tinha demitido. - É preciso que haja SOLIDARIEDADE com os que vivem na miséria. Ou seja, os tais valores que alguns consideram retrógrados e marcados por uma lamentável feição militarista, sendo por isso impróprios de uma sociedade moderna, pacífica e civil, são afinal aqueles que essa mesma sociedade invoca nos momentos mais difíceis. Lá bem no fundo, todos reconhecem a necessidade de existirem balizas do comportamento individual e colectivo, só que, pautar as atitudes do dia-a-dia em conformidade com tal paradigma ético, é extremamente incómodo e perturbador do individualismo para que, consciente e inconscientemente, resvalou o comportamento social de hoje. Contudo as consequências da concepção de uma sociedade marginalizadora dos critérios morais da educação, substituindo-a por uma mera instrução cívica, converte-a numa sociedade amorfa, facilmente adaptável ao poder arbitrário e às tendências dominantes, qualquer que seja a sua proveniência ou os propósitos que lhe estão subjacentes, ou até quando se manifestam de forma que surpreende a racionalidade. O passo seguinte é o colapso da própria sobrevivência política. Há uns três meses atrás, o professor Hernâni Lopes, num programa televisivo em que um dos protagonistas é um conhecido e prestigiado ex-aluno dos Pupilos, explicou, a propósito da crise financeira actual, que os preços e o mercado, os fluxos de informação e o jogo do poder assentavam nos valores, atitudes ou padrões de comportamento, e acrescentava que


Colaboração O perturbante terceiro pilar da formação

estes eram verdadeiramente decisivos. No prosseguimento da sua dissertação, referiu ainda que os Valores são os elementos “que marcam uma determinada sociedade” e que “ninguém nasce com os valores aprendidos”. “São ensinados pelos Pais e pela Escola, e eram-no no Serviço Militar Obrigatório”, a que juntou o aparte “Mas logo acabaram com ele!...” . E atirou à consciência dos que o ouviam esta intrigante pergunta: “E o que é que ensinamos aos nossos filhos?”. De facto, a Família volatilizou-se; ao fim do dia pais e filhos comungam um mesmo espaço físico, mas com a atenção posta no televisor ou no computador, e pouco mais. A Escola transformou-se num local onde não é preciso aprender nem saber para se concluir com sucesso o secundário; se há coisa que nela se ignore são os valores. Ainda restava como última instância o serviço militar obrigatório que, curiosamente, fora extensível a oficiais e sargentos – os chamados milicianos - após a implantação da República, defensora de que a defesa da Pátria era um direito e um dever de todos os cidadãos. Mas, como dizia Hernâni Lopes, logo se cuidou de acabar com tão perturbante quão incómoda prática. Foi com tais parâmetros que, ao longo de décadas, foram crescendo milhares de jovens sem norte nem limites, egoístas, reclamantes de todos os direitos, mas não de obrigações, sem respeito pelos outros, aduladores do dinheiro e dos bens materiais, e exímios praticantes da noite e do prazer. As consequências enumerou-as também o professor como sendo o facilitismo, vulgaridade, moleza, golpada, videirismo, ignorância, mandriíce e aldrabice. E indicou para cada caso os padrões de comportamento que serviriam de antídoto, finalizando com as seguintes afirmações: “O que não se ensina (os Valores) não se sabe!” e, “Se não ensinarmos isto aos nossos filhos, não vale a pena medidas de pormenor de política monetária”. O lento processo de abandono dos valores morais e de cidadania, bem como a transformação operada nos padrões de comportamento social no sentido da massificação, talvez não tenha surgido ao acaso, nem a ela terão sido indiferentes

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...os tais valores que alguns consideram retrógrados e marcados por uma lamentável feição militarista, sendo por isso impróprios de uma sociedade moderna, pacífica e civil, são afinal aqueles que essa mesma sociedade invoca nos momentos mais difíceis. os protagonistas do poder político que, se não a fomentam também não a contrariam. Massifica-se a educação, o vestuário, as preferências musicais, os paladares, os destinos de férias, as leituras, e tudo o mais, de tal sorte que, aqueles que se recusam a ir na onda logo são vítimas do dedo indicador da exclusão. Deixando que outros decidam o que devem fazer, usar ou gostar, os cidadãos transformam-se progressivamente numa maioria neutra, politicamente indiferente e silenciosamente tolerante e amorfa. O exercício dos deveres elementares de cidadania como, por exemplo, votar ou participar civicamente nos destinos do país ou da autarquia, passa a ser considerado como uma perda de tempo que não conduz a coisa alguma. Fica assim psicologicamente aberto o caminho para a tentação de poderes autoritários, alicerçados obviamente em regras democráticas institucionais. Compreende-se portanto, ainda que não se concorde, que a existência de instituições ou cidadãos que persistem na defesa dos valores morais e na sua adopção como padrão de comportamento quotidiano na vida pública ou privada seja de facto motivo de preocupação para certos personagens ou para o poder. Estão neste caso, entre outras, as de natureza militar e religiosa. Era bom que se entendesse que os estabelecimentos militares de ensino são escolas que não impedem a liberdade das ideias nem da expressão; que não oprimem a voluntariedade; que não condicionam comportamentos futuros; e que não sugerem modelos preferenciais de natureza política, social, económica ou outros. Neles se ministra uma educação moral e cívica que procura desenvolver o sentido do dever e da honra e demais atributos de

carácter, designadamente a integridade moral, o espírito de disciplina e a noção de responsabilidade, a par de uma sólida formação cultural e científica capaz de dotar os seus alunos das competências indispensáveis ao exercício de uma cidadania consciente ao serviço do país e dos seus concidadãos. No dia 5 deste mês, durante a cerimónia comemorativa da Implantação da República realizada na Câmara Municipal de Lisboa, o seu presidente afirmou o seguinte: “É nos momentos de crise que os valores devem ser reafirmados e praticados. A história ensina-nos que, perante as dificuldades e os obstáculos, não é negando ou esquecendo os valores que os problemas se resolvem. Pelo contrário: sem valores, os problemas agravam-se, multiplicam-se e agigantam-se”. A ser assim, talvez fosse a altura dos responsáveis pelos destinos de Portugal acarinharem, estimularem, apoiarem e investirem nos três estabelecimentos militares de ensino: o Colégio Militar, o Instituto de Odivelas e o Instituto dos Pupilos do Exército.


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Colaboração Uma faceta desconhecida do Marechal Gomes da Costa

Uma faceta desconhecida do

Marechal

Gomes da Costa A

o ler o índice do número de Fevereiro/Março de 2010 da Revista Militar, a minha atenção foi atraída pelo título de um artigo da autoria do senhor Tenente Coronel Sousa Cruz com o título Duas cartas geográficas de 1909 da autoria do então Major de Cavalaria Manuel de Oliveira Gomes da Costa. Ao ver o nome do autor das cartas, percebi logo que só se podia tratar do “nosso” Marechal Gomes da Costa, o 66/1873, pelo que de imediato resolvi ler o artigo em causa.

O artigo começa por nos relatar a forma como apareceram as cartas e como foram salvas da destruição. Conta-nos o senhor Tenente Coronel Sousa Cruz, que quando estava colocado na segunda repartição do Quartel-General da Região Militar de Moçambique (QG/RMM), sito à data em Lourenço Marques, foi contactado pelo oficial encarregado das cartas do material topo-cartográfico do mesmo QG/RMM, que lhe perguntou se estaria interessado em alguns papéis e mapas que ele ia incinerar, por terem sido abatidos à carga, por obsoletos. O senhor Tenente Coronel Sousa Cruz apercebeu-se de imediato da “barbaridade” que estava iminente, pois o oficial que o contactava não tinha qualquer noção do valor do “material” que se propunha destruir, valor esse resultante da sua antiguidade e raridade.


Colaboração Uma faceta desconhecida do Marechal Gomes da Costa

Felizmente que, por descargo de consciência, que se revelou providencial, foi esse oficial pedir a opinião do autor do artigo. O senhor Tenente Coronel Sousa Cruz conseguiu pois salvar duas cartas (folhas nº1 e 2) da África Oriental Portugueza (assim eram as mesmas identificadas), datadas de 1909 e assinadas e executadas pelo então Major Gomes da Costa. Depois da introdução do artigo, o senhor Tenente Coronel Sousa Cruz apresenta alguns apontamentos biográficos de Gomes da Costa como Menino da Luz e como jovem oficial de Cavalaria em missão no Ultramar, primeiro na Índia e mais tarde na sua primeira comissão em Moçambique, para onde seguiu em 1896, a pedido de Mouzinho de Albuquerque, e ainda a tempo de tomar parte na Campanha dos Namarrais. De passagem, o autor do artigo fala-nos das qualidades artísticas demonstradas na Índia pelo então Capitão Gomes da Costa, que servindo-se de retratos antigos, que existiam na galeria dos Vice-Reis, compôs novos retratos dos mesmos a tinta e a guache. Este trabalho de Gomes da Costa é citado na biografia do Marechal, que consta no livro O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa, da autoria do Costa Matos (96/1950). Os retratos feitos por Gomes da Costa podem ser apreciados no Livro dos Vice-Reis da Índia de El-Rei D. Carlos I, aguarelas de Manuel Gomes da Costa, edição Chaves Ferreira,

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Lisboa 1991, que estão também acessíveis na Internet. O senhor Tenente Coronel Sousa Cruz apresenta seguidamente no seu artigo uma descrição detalhada das cartas geográficas de 1909 de Gomes da Costa, com uma avaliação das mesmas só possível por um especialista na matéria, como é o seu caso. As duas cartas de 1909 cobrem a parte norte de Moçambique, desde o lago Niassa até à costa do Índico. A linha de costa está definida com grande pormenor, desde o Chindo até Nacala, mostrando a ilha de Moçambique com toda a precisão. Na carta nº2, no seu canto superior direito, encontra-se o seguinte texto manuscrito: “O traçado da rede geográfica em projecção cónica-secante foi executado na Repartição de Agrimensura.” Ainda na carta nº2, no canto inferior direito, encontra-se manuscrita a seguinte frase: “Coordenação e desenho do Major Gomes da Costa.” As duas cartas foram executadas á escala 1/500000. A existência destas duas cartas revela-nos uma faceta das aptidões e da vida de Gomes da Costa que me era completamente desconhecida. Penso que será também desconhecida da maioria dos portugueses em geral e da maioria dos ex-alunos, razão pela qual resolvi escrever o presente texto. Quem tiver tido a paciência de ler este escrito até este ponto perguntará naturalmente: “Onde estarão agora estas cartas geográficas?”. Segundo nos informa o senhor Tenente Coronel Sousa Cruz, estas cartas, que já têm mais de 100 anos de existência, não obstante se encontrarem em mau estado, não perderam o seu valor, tendo o senhor Tenente Coronel a intenção, quando escreveu o seu artigo, de as entregar de seguida à Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Considero ainda oportuno assinalar que o artigo da Revista Militar em causa apresenta três interessantes retratos de Gomes da Costa. O primeiro retrato é o do “rata” 66 de 1873, o segundo é o do Capitão Gomes da Costa na Índia, com a sua tropa montada de sipaios (maratas) e o terceiro é ainda do Capitão Gomes da Costa em Moçambique, com Mouzinho de Albuquerque, na campanha dos Namarrais. Estas três fotografias foram extraídas do livro Memórias de Gomes da Costa e penso que seria interessante publicá-las na nossa Revista. Ir-se-ia assim enriquecer o conhecimento que temos deste “nosso” Marechal, conhecido por muitos como o líder do pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926, conhecido por alguns como General do Corpo Expedicionário Português na Flandres na Primeira Guerra Mundial, e conhecido por poucos como Presidente da Republica por um mês, exilado de seguida para os Açores a 11 de Julho de 1926, de onde regressa a Lisboa em Novembro de 1927 para morrer dois anos mais tarde desiludido, pobre e só. Curvo-me perante a memória deste “nosso” heróico Marechal, que afinal também foi cartógrafo.

Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957


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Poemas Se revela e nos seduz O Menino que nasceu: É um Menino de Luz Que p’ra nós nunca morreu

O Pai do meu Natal A sociedade de consumo dá-lhe a mão E mascara-o de velho, Com barbas de algodão E um fato vermelho Chama-lhe Pai Natal…Não sei quem seja. O Pai do meu Natal é o Menino-Deus Que eu beijava na igreja A sabê-lo nos céus. Foi ele quem me trouxe à chaminé Os brinquedos da infância agradecida, É ele quem me guia no caminho da Fé, Da Verdade e da Vida. O “tal das barbas”, não!... Só nasce na usura e nada mais; O meu Menino-Deus nasce no coração E é o coração que nasce em todos os Natais! António Manuel Couto Viana (grande poeta que nos deixou há pouco tempo)

Cada criança é um profeta A vida nasce, passa e morre, qual cometa Cada criança é um profeta… Ou uma ameaça: Traz nele a esperança Que à dor se enlaça. Jesus por nosso Pai foi enviado, foi adorado, E depois, por nós, crucificado. Para nós nasceu, Está connosco, nunca mais morreu! Mas neste mundo, alguns o continuam a crucificar. E ele sempre a Nascer…E a crescer, a CRESCER Para nos SALVAR! Roberto Ferreira Durão 15/1942

Lema Colegial “ZACATRAZ” Visão do passado imberbe, enlace de múltiplas gerações ... Luz do passado, luz do presente Velhos e novos abraçam seus corações ... «UM POR TODOS, TODOS POR UM» percorrem a estrada da vida dando as mãos ... 3 DE MARÇO! Dia fraternal de saudade de união... Aprumados garbosos perfilados na farda «cor de pinhão» Avenida abaixo Lá vão eles «Zacatraz! Zacatraz! Zacatraz!» ­ Eles lá vão ... Os «MENINOS DA LUZ!» Todos, são «Meninos da Luz!» Novos e velhos «Allez! Allez! À votre santé!» Nos velhos, nos novos corações A velha saudade uma nova aragem. Em todos brilha uma luz É a chama da «Camaradagem». O 3 DE MARÇO! O COLÉGIO MILITAR! «Berço de gerações ... que as gerações contemplam! ... » É o sonho, o símbolo, a realidade ... a Barretina a Feitoria os Claustros a Cúpula agora a Chama a Eternidade ... Sonhar! Viver! Sentir o voltar à LUZ afinal: é reviver em alegria comovente o orgulho fraternal de ter servido o «SERVIR» do lema colegial .. e dizer: «POR PORTUGAL ETERNO EM FRENTE» António Perestrello 202/1946


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foto: SĂŠrgio Garcia

Recordando Recordando e registando o passado


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Colaboração Mandela - A construção de um homem

Pedro de Pezarat Correia (10/1943)

Mandela A Construção de um Homem

Novo livro de António Mateus (57 de 1970)

N

ão pretendo trazer ao “Zacatraz” uma recensão do livro “Mandela – a construção de um homem” que o António Mateus (57 de 1970) apresentou publicamente no auditório do Colégio em 11 de Novembro passado. Aliás nem pude assistir à cerimónia porque outro compromisso me obrigou a ausentar-me depois de ter ido dar-lhe o abraço com votos de um êxito editorial. Mas gostaria de deixar umas notas sobre o António, sobre o livro e sobre o significado do seu lançamento no Colégio. Conheço o António Mateus desde miúdo, segundo filho da Maria e do meu camarada de curso e integrante do “núcleo duro dos meus amigos” João Mateus (169 de 1944). O António e os seus irmãos são todos ex-alunos, o João (383 de 1969), o Nuno (169 de 1971) e o José (170 de

1973) e da geração do meu filho Pedro Luís (420 de 1968), O Pedro é amigo chegado deles todos e tem com o António uma grande proximidade porque também foram colegas na Faculdade (FMH). Além disso encontram-se com frequência em Melides onde a família Mateus e o Pedro têm casas de férias e fins-de-semana. Isto é, os nossos filhos prolongam a sólida amizade que os seus pais firmaram nos claustros do Colégio. Tenho seguido com simpatia a carreira profissional do António, hoje um dos mais experientes especialistas portugueses sobre a África Austral e conheço os seus livros anteriores. Sem deixar de ter, aqui e ali, uma opinião crítica, faço sobre a obra literária e jornalística do António Mateus um juízo favorável, reconhecendo-lhe rigor, honestidade intelectual, coragem,


Colaboração Mandela - A construção de um homem

lucidez. Agrada-me particularmente este livro sobre Nelson Mandela porque, enaltecendo a figura daquele que eu considero o mais insigne exemplo de cidadão vivo desta aldeia global, pela sua dimensão humana, cívica e política o faz, obviamente, rendido ao fascínio de uma personalidade ímpar, mas sem cedências fáceis à vulgaridade. Também eu não escondo que sou um indefectível admirador de Mandela e invoco o privilégio de, como cidadão comum, ser dos poucos portugueses que o conheceram pessoalmente, partilhando a sua mesa num breve almoço no Castelo de São Jorge, em 5 de Outubro de 1993, em homenagem prestada pelo Movimento Português contra o Apartheid, em nome do qual lhe dirigi o discurso de saudação. O livro não é uma biografia de Mandela. O António escolheu caracterizá-lo pela forma como reagiu a uma série de episódios, dos mais difíceis que enfrentou na já por si dificílima construção de uma nova África do Sul, liberta do racismo mas liberta também de ódios ancestrais, de ajustes de contas que muitos consideravam inevitáveis quando ruísse o sistema de apartheid. Afinal não foi preciso lançar as minorias brancas ao mar quando a maioria negra chegou ao poder. É um exemplo que ainda hoje deve servir de lição para alguns conflitos endémicos actuais e Nelson Mandela foi o seu grande artífice. O

critério de António Mateus na selecção dos episódios pode ser discutível, mas a verdade é que nos deixa de Mandela um retrato muito rico e fascinante. Uma lição de vida. Há uma breve passagem no livro que em especial me sensibiliza. Na página 135, quando se refere aos críticos à moderação de Mandela, à imagem construída no ocidente do “nativo bom”, «excepção à regra do afropessimismo, segundo o qual os negros pura e simplesmente não estariam à altura de governar um país». É uma imagem condicionada, obviamente construída por alguns sectores saudosistas da dominação colonial, mas para a qual alguns dirigentes africanos se encarregaram de contribuir. Mandela não só esvaziou esse mito, como demonstrou que um negro pode ser, mais do que um excelente governante do seu país em África, um líder reconhecido e respeitado à dimensão mundial. Já o escrevi e repito, sem Nelson Mandela e a nobreza com que exerceu o mandato presidencial na África do Sul, talvez 2008 ainda tivesse sido demasiado cedo para que nos EUA fosse eleito um presidente de origem afro-americana. António Mateus termina o seu livro com uma selecção de citações de Nelson Mandela. Correndo os riscos que sempre envolvem citações fora dos contextos, é uma boa selecção que ajuda a caracterizar o

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protagonista e não resisto a reproduzir algumas com as quais totalmente me identifico: «A coragem não é ausência do medo, mas o triunfo sobre ele»; «Parece sempre impossível antes de ser feito»; «A vossa liberdade e a minha não podem ser dissociadas»; «Não existe essa coisa de liberdade parcial». Em torno destas frases, que magnífico discurso pode ser construído! Por último, foi bom que o António Mateus escolhesse o Colégio para o lançamento deste livro. O micro universo colegial ainda é, em Portugal, dos que têm maior ligação a África e nos PALOP já se vão formando pequenas comunidades de ex-alunos nacionais desses países que têm orgulho em exibir nas suas lapelas a tradicional barretina. Infelizmente ainda há entre nós, certamente em número cada vez mais reduzido, quem pense África de forma preconceituosa, continuando, por exemplo, a classificar os movimentos de libertação como terroristas. E se Mandela é hoje um dos expoentes máximos desses movimentos de libertação, cabe perguntar: terrorista Nelson Mandela? António Mateus responde com cristalina objectividade a esta questão.

Por tudo isto, parabéns António.


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Colaboração O Governador João Xavier de Paiva

O Governador

João Xavier de Paiva A

Ordem do Exército Nº 40, de 7 de Março de 1821, dava a conhecer que, pela portaria de 1 do mesmo mês, havia sido nomeado um novo governador para o Forte de São João. Com o posto de sargento-mor efectivo do Exército, e soldo correspondente, João Xavier de Paiva, sargento-mor agregado à Real Brigada de Marinha, e comandante do Real Colégio Militar, passava, assim, a governar esta fortificação. De acordo com várias folhas de «Informação Semestre» referentes a este oficial, existentes no seu processo individual, guardado no Arquivo Histórico Militar, onde tem o n.º 2549, das quais a primeira é de 1 de Julho de 1821 e a última de 1 de Janeiro de 1831, o novo governador nascera na Cidade de Lagos, pelo ano de 1772, era casado e tinha, então, 5 filhas e 5 filhos. Assentara praça de soldado, a 22 de Outubro de 1789, no Regimento de Artilharia N.º 2 e fora promovido a cabo no Regimento de Marinha, a 28 de Outubro de 1790, onde sucessivamente ascendeu aos postos de furriel, a 1 de Outubro de 1794, a sargento, a 1 de Novembro de 1796, a porta-bandeira, a 24 de Abril de 1798, a 2.° tenente, a 30 de Julho de 1800, e a 1.º tenente por decreto de 30 de Setembro de 1801. Este oficial ganhou os galões de capitão em 13 de Maio de 1808, foi major agregado em 14 de Janeiro de 1812 por de-

cisão da Regência do Reino, e, finalmente, alcançou a efectividade neste posto, com o governo do Forte de São João, por decreto de 1 de Março de 1821. Como cabo, o jovem João Xavier de Paiva, serviu a bordo da nau Maria I e tomou parte numa viagem a Inglaterra no ano de 1793. Na nau Conde D. Henrique, em 1794, em 1800 na fragata D. João Príncipe, andou no serviço de guarda costa e na mesma actividade continuou em 1804 na nau Vasco da Gama, em 1810 na fragata Amazona. Esteve «empregado no Depósito de São Bento, em 1811», em serviço de secretaria, e daí passou a «Comandante do Colégio Militar em 1813, até, a 1 de Março de 1821», ser nomeado governador do Forte de São João da Barra do Rio Arade, ou de Portimão. Também no Arquivo Histórico Militar, na 3.ª Divisão e 9.ª Secção, se encontra uma Relação dos Governadores Majores e Ajudantes das Praças do Reino do Algarve, datada a 1 de Janeiro de 1822, e assinada pelo brigadeiro Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira, encarregado do governo das Armas do Reino do Algarve, na qual se indica vencer o major João Xavier de Paiva, como governador da fortificação, o soldo mensal de 45$000 réis. Após a contra revolução absolutista de 1823, que ficou conhecida pela Vilafrancada, e marcou o fim do breve período liberal

Nota da Redacção Este texto, enviado pelo Joaquim Corte Real Negrão (146/1948), relata aspectos biográficos de um militar que foi dos primeiros a exercer o cargo de Comandante (Director) do Real Colégio Militar, entre 1813 e 1821. Esta referência ao Governador João Xavier Pereira consta da obra “Castelos e Fortificações Marítimas do Concelho de Lagoa”, da autoria de Carlos Pereira Calixto. Aqui fica este interessante registo com o nosso agradecimento ao Joaquim Negrão não só pela amabilidade do seu envio como também pela sua participação na melhoria da ZacatraZ.

iniciado no ano de 1820, um a um os municípios, das cidades e das vilas, foram aderindo, com maior ou menor entusiasmo, à nova situação política existente.

Um Governador anti-liberal O Major João Xavier de Paiva, embora nomeado governador da fortificação da margem esquerda do Rio Arade em pleno período liberal, segundo testemunho da Câmara Municipal de Vila Nova de Portimão, aclamou D. João VI assim que ali


Colaboração O Governador João Xavier de Paiva

«constou ter o Mesmo Augusto Senhor Reassumido os seus Direitos». Esta corajosa atitude, que lhe valeu, a 26 de Janeiro de 1825, a atribuição da Medalha da Fidelidade, «por ser a 1.ª pessoa que requereu, na Câmara desta Vila que se reconhecessem os inauferíveis Direitos da Realeza», veio, após a vitória dos liberais a ser, como se verá adiante, muito prejudicial não só à sua carreira militar como na vida particular. Como militar da confiança de D. Miguel, que a 30 de Junho de 1828 irregularmente assumira o governo de Portugal, não é de admirar que o governador do Forte de São João, a 15 de Setembro de 1829, fosse considerado pelo brigadeiro Joaquim José da Cruz, encarregado do governo das Armas do Reino do Algarve, como tendo «muito boa conduta civil e militar e préstimo e actividade para o serviço e é afecto à Realeza». E enquanto a situação política em Portugal se degradava, com a constante rivalidade entre liberais e partidários do antigo regime, a ponto de nos conduzir à guerra civil, o major João Xavier de Paiva continuou, tranquilamente, a governar o Forte de São João, como provam, por exemplo, as requisições de materiais necessários ao serviço da fortificação feitas a 5 de Março e 20 de Julho de 1830, como também, a 3 de Julho e 30 de Novembro do ano seguinte, hoje arquivadas no referido processo individual. Após o desembarque da expedição liberal, comandada pelo duque da Terceira, a 24 de Junho de 1833, perto de Tavira, e do seu avanço para Ocidente, o governador das Armas, visconde de Molelos, ordenou a retirada geral das suas forças em direcção ao

Alentejo. Entre os vários contingentes miguelistas, a caminho do norte, encontrava-se a pequena guarnição do Forte de São João e o seu governador. Com a vitória dos liberais, e apesar das promessas feitas, aos vencidos, a 26 de Maio de 1834, na Convenção de Évora-Monte, que pôs fim à Guerra Civil, o major João Xavier de Paiva, de acordo com o decreto de 28 de Maio desse ano, entregou-se às novas autoridades, apresentando-se, a 5 de Junho, ao major Pedro Celestino de Barros, governador militar de Loulé, sendo-lhe fixada residência na terra onde nascera mas só veio a prestar juramento a D. Maria II, no dia 6 de Setembro, em Portimão. Porém este tardio reconhecimento da nova situação política nacional foi mal interpretado e valeu ao major João Xavier de Paiva o indeferimento de um pedido de recebimento dos soldos em atraso, por parte do governador militar do Algarve, Bernardo António Zagalo, que a 4 de Julho de 1835 justificou a sua recusa por este oficial se ter conservado «em todo o tempo da uzurpação na qualidade de Governador do Forte de São João do Registo da Barra de Vila Nova de Portimão que, em 1833, na entrada da Divisão Libertadora no Algarve se retirar unido às tropas do Comando de Molelos e que para gosar da Convenção de Évora-Monte se apresentou ao Governador Militar da Vila de Loulé em 5 de Junho de 1834 e que ultimamente foi excluído da relação dos oficiais amnistiados por não ter prestado a tempo o juramento». Nada fez demover as autoridades militares que se mostraram muito cruéis para com este oficial, pois mais outro requerimen-

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to veio a ser indeferido pelo ministro da Guerra, a 24 de Julho de 1838, por não ter «lugar o ser relacionado Major amnistiado pela Convenção de Évora-Monte como o pede no requerimento enviado por ordem de Vossa Excelência a 27 de Abril do ano passado». E, no processo individual do antigo governador do Forte de São João, onde não consta a data, e o local, da sua morte, apenas dois documentos indicam já ter falecido no ano de 1843, um ofício do Ministério da Guerra, datado de 25 de Janeiro desse ano, remetendo para a «Repartição Provisional de Liquidações» o pedido de «D. Mariana Xavier de Paiva como tutora de suas irmãs menores, filhas do falecido Major do Exército e ex-Governador da Fortaleza de São João da Barra em Vila Nova de Portimão, amnistiado pela Convenção de Évora-Monte» e uma resolução assinada pelo duque da Terceira, chefe do governo e ministro da guerra, em nome de D. Maria II, mandando integrar no Monte-Pio D. Mariana, D. Maria Luísa, D. Leonor e D. Maria Xavier de Paiva, as suas quatro filhas. E por último, ainda, segundo um documento já referido uma informação prestada pelo «visconde de Molelos, brigadeiro governador das Armas do Algarve», em Tavira a 1 de Janeiro de 1831, o major João Xavier de Paiva «tem boa conduta Civil Militar e Política, satisfaz as obrigações do seu Posto. Tem bastante inteligência». Joaquim Corte Real Negrão 146/1948

Coberta Fúnebre Temos constatado que muitos Antigos Alunos, quando morrem, se fazem acompanhar nas suas urnas pela sua Barretina, as suas medalhas do Colégio e outros objectos simbolizando a ligação da sua Vida ao Colégio. A Associação, pretendendo corresponder a estes sentimentos e estar presente não só na Vida mas também na Morte de todos os que pertencem à nossa comunidade, possui, a partir de agora, uma Coberta Fúnebre que, a pedido do próprio ou das famílias, será disponibilizada para acompanhar os caixões até à última morada de cada um de nós. Martiniano Gonçalves 9/1958


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Colaboração Louvor - Professor Dario

Luis Barbosa (71/1957)

Louvor

Professor Dario Faça-se justiça

A

vida é cheia de surpresas. Escreveu-nos o António Rodrigues (319/1966) a contar que esteve recentemente a almoçar com o Professor Dario e que tomou então conhecimento que ao mesmo foi atribuído um expressivo louvor, em 14/2/1996, pelo então Chefe de Estado Maior do Exército, General Octávio de Cerqueira Rocha. Este louvor, por razões que se desconhecem, nunca foi publicado, o que constituíu uma tremenda injustiça, que urge corrigir. Para que todos os ex-alunos possam ter conhecimento desse louvor é o mesmo publicado nesta nossa revista. Fazemos esta publicação com o maior orgulho, pois o Dario é sem qualquer dúvida um dos “nossos”, a quem muito admiramos e estimamos. Não resistimos a transcrever de seguida a parte da carta do António Rodrigues em

que nos sugere a publicação do louvor. As suas palavras são mais outro louvor ao Dario, em que todos nos revemos. “Sendo o Professor Dario Fernandes um referência viva do espirito do Colégio Militar (Sócio Honorário 2) e porque não dize-lo uma referência no ensino em Portugal, porque durante mais de 30 anos leccionou pela excelência com dedicação, dinamismo e capacidade técnica. Através do seu exemplo e espirito de entreajuda, conseguiu incutir em gerações e gerações de alunos muito mais do que a educação física: a educação do que deve ser um ser humano em sociedade que contribui para a valorização própria, dos seus pares e do seu país. Ensinou-nos que sem trabalho nada se consegue e que, quando as coisas correm menos bem, temos que continuar e continuar a tentar até se atingir o objectivo. Porque é um homem cujo trabalho e exemplo queremos que continue a

ser exaltado, e porque o louvor em causa nunca foi publicado, como deveria ter sido, venho propor que sejam os ex-alunos a faze-lo, publicando o referido louvor na Revista Zacatraz da AAACM e ainda no site da Associação, na Internet, com o relevo que merece. O Portugal de hoje, mais do nunca precisa de se rever em homens deste calibre e nós, temos uma divida de gratidão, para todo o sempre, para quem foi para muitos o seu segundo Pai”. Agora que cada um escolha e diga qual dos dois louvores é o melhor. Por mim, acho que se complementam.

Daqui lanço um vibrante “Zacatraz” pelo nosso camarada Dario.


Colaboração Louvor - Professor Dario

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Colaboração O Rei D. Duarte e o seu livro “ A arte de bem cavalgar toda a sela”

António Rafael Passarinho Franco Preto (67/1950)

O REI D. DUARTE e o seu livro

“A Arte de Bem Cavalgar Toda Sela”

1

Qual o Rei de Portugal representado neste quadro? A princesa Dª Isabel de Portugal (a única filha legítima do Rei D. João I que atingiu a idade adulta) casou com Filipe , O Bom, Duque da Borgonha e Conde da Flandres 2 no dia 7 de Janeiro de 1430 na cidade de Bruges, que era ao tempo considerada a verdadeira capital comercial da Europa. Por ocasião desse seu casamento, o Duque da Borgonha fundou a Ordem do Tosão de Ouro (‘Toison d’Or’) 3 que atribuiu a 31 Nobres de várias origens, que estavam no seu casamento como convidados, estabelecendo assim mais um conjunto de alianças que funcionaram com pleno êxito como dissuassoras de qualquer tentativa em que o Rei de França pudesse pensar para anexar a Borgonha pela força. A gravura, que representa um Rei de Portugal, foi feita por um pintor da Borgonha 4 do século XV e faz parte do ‘Grand Equestrian Armorial du Toison d’Or’ , sendo considerada como tendo sido feita entre 1430 e 1435. Tendo em consideração a gravura em causa, ela só pode dizer respeito a um de três Reis de Portugal - D. João I, D. Duarte ou D. Afonso V. Isto porque eles foram os três únicos Reis de Portugal que usaram os cinco escudetes azuis (cada um com cinco besantes brancos) dispostos em cruz, com os dois dos flancos, deitados e apontados ao do centro.

(Quadro feito por um pintor da Borgonha, entre 1430 e 1440)

1 - Que é o 1º tratado Europeu de Equitação (embora sendo muito mais que isso). Mencionando unicamente o seu conteúdo directamente relacionado com a ‘Arte de Bem Cavalgar Toda Sela’, cito um comentário proferido por uma professora Americana de equitação que me auxiliou em alguns aspectos técnicos desta obra: “É extraordinário encontrar ao longo desta obra – escrita há quase 600 anos (!) – inúmeros conselhos de como deve um bom cavaleiro actuar em variadíssimas situações e que eu transmito aos meus alunos diariamente! “


Colaboração O Rei D. Duarte e o seu livro “ A arte de bem cavalgar toda a sela”

Acontece que entre 1430 e 1435 D. João I já tinha uma idade avançada (em 1430 tinha 73 anos) e estava demasiado doente e frágil para poder ser representado numa posição tão desenvolta e bélica. O futuro Rei D. Afonso V tinha em 1435, 3 anos de idade, pelo que também não podia estar representado na gravura. A gravura em causa é do Rei D. Duarte de Portugal. --A diferença entre a raça humana e as outras revela-se pela

supremacia da inteligência sobre os sentidos Ninguém sintetizou tão magistralmente o que, desde a Antiguidade, constituiu um foco de discussão filosófica e produziu várias correntes de pensamento. A frase inicial de John Locke (n. 1632 - m. 1704) foi completada magistralmente por Gottfried Wilhem Leibniz (n. 1646 – m. 1716). Versão Original (em Latim): Nihil est in intellectu quod prius non fuerit in sensu; nisi intellectu ipse. Versão em Inglês: Nothing is in the reason and understanding that was not earlier in the senses; except the reason and understanding themselves. Versão em Português: Nada existe na inteligência que não tenha sido primeiro detectado pelos sentidos; excepto a própria inteligência. Estou certo de que o rei D. Duarte – face à sua personalidade e conhecimentos – teria o maior interesse em discutir este tema! Alguns dos capítulos do seu livro ‘A Arte de Bem Cavalgar Toda Sela’ abordam temas de certa maneira semelhantes a este!

O

rei D. Duarte de Portugal morreu inesperadamente em Agosto de 1438 deixando este seu livro – dedicado a sua esposa Dª Leonor – inacabado. Na realidade, abordou apenas 7 dos 16 temas referidos no início do livro como objectivo total. Dª Leonor era uma princesa do reino de Aragão e tornou-se regente do reino, pois o seu filho D. Afonso (que mais tarde seria o rei D. Afonso V) tinha apenas 6 anos de idade; assinava todos os documentos oficiais como ‘Leonor, a Rainha triste’. No entanto, não sendo portuguesa por nascimento e devido à pressão crescente da população e em especial de D. Pedro – irmão de D. Duarte – transmitiu-lhe a regência do reino e abandonou o país, levando consigo todos os seus haveres, nomeadamente os dois manuscritos dos livros que D. Duarte lhe havia dedicado (‘A Arte de Bem Cavalgar Toda Sela’ e o ‘Leal Conselheiro’). Dª Leonor estabeleceu-se primeiro na cidade de Albuquerque (cidade do reino de Castela); posteriormente foi para a Catalunha e finalmente para Nápoles (Itália). Quando o rei Carlos VIII de França (n. 1470 – m. 1498) conquistou Nápoles em Fevereiro de 1495, os manuscritos de D. Duarte foram imediatamente integrados na biblioteca francesa de Blois e posteriormente na biblioteca nacional de França – em Paris – onde ainda hoje se encontram. Como português, orgulhoso dos nossos antepassados, considero a situação muito infeliz (para não usar termos mais contundentes para com a posição francesa). Duas edições foram produzidas com base no manuscrito existente (e ambas foram usadas como originais para o trabalho de tradução): • A Typographia Rollandiana publicou em 1843 uma cópia exacta (impressa) do manuscrito. Esta publicação está na Biblioteca Nacional em Lisboa e foi muitas vezes

2 - Título herdado por ocasião do seu 1º casamento (a sua 1ª esposa faleceu). 3 - O Rei de Espanha é o actual Grão-Mestre dessa importante ordem nobiliárquica. 4 - Se Bruges era considerada a capital comercial da Europa, a Borgonha era a sua capital cultural e artística.

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consultada ao longo do trabalho de tradução para clarificar dúvidas surgidas. • Uma edição crítica (cujo autor foi o Sr. Joseph M. Piel) foi publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda em 1944. Inclui um índice dos capítulos e umas 15 páginas com um glossário que relaciona entre si expressões e termos vários. O Sr. Piel alterou a grafia de muitas palavras – relativamente ao manuscrito original – aproximando-as da grafia da língua portuguesa de então e inseriu pontuação adicional, o que facilita bastante a compreensão da estrutura do texto (nomeadamente nos capítulos mais longos). Note-se que a tradução que fiz para ‘American-English’ teve que ultrapassar dificuldades acrescidas pelo facto do rei D. Duarte não ter tido certamente possibilidades de rever o texto produzido (aliás é patente a deterioração da qualidade da sua estrutura à medida que o livro se aproxima do final). --Nas longas pesquizas que efectuei na Biblioteca Nacional e na Torre do Tombo, fiquei extremamente surpreendido com o enorme conhecimento evidenciado pelo Rei D. Duarte relativamente ao comportamento humano e às suas fraquezas, para não mencionar os seus conhecimentos técnicos de equitação, justas (combates a cavalo utilizando lanças), manejo da espada e da lança (em combate ou em caçadas) e outras áreas. ‘Uma coisa leva à outra’ e despendi ainda mais tempo procurando descrições fidedignas sobre a vida e personalidade do Rei D. Duarte, ficando ainda mais impressionado. A minha primeira referência ao rei D. Duarte é para mencionar que ele foi forçado a intervir directamente para solucionar uma disputa local em Elvas, entre Cristãos e Árabes, em 1436, relativa à localização dos dois cemitérios (os Árabes residentes na área de Elvas tinham privilégios espe-


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Colaboração O Rei D. Duarte e o seu livro “ A arte de bem cavalgar toda a sela”

ciais como reconhecimento pela sua intervenção directa ao nosso lado, na nossa guerra contra Castela). No que se relaciona com a influência Árabe, estimam-se em 700 as palavras da nossa língua que são de origem Árabe, começando muitas delas com o ditongo ‘al’. No entanto, a mais comum, e que continua a ser usada diariamente, é a palavra oxalá (maneira popular de dizer ‘se Deus quiser’); na realidade, deriva da equivalente expressão Árabe ‘Insh’Allah’! Permitam-me dar um exemplo da estatura humana de D. Duarte: Numa altura em que Cristãos e Árabes estavam em guerra em todos os aspectos (materiais e religiosos) D. Duarte – não obstante ser um católico devoto – financiou muitas traduções para Português, de obras de poetas Árabes! Quão avançado ele estava relativamente ao que era ‘politicamente correcto’ ! (para usar uma expressão muito actual). Estamos certos que outro que não fosse Príncipe e herdeiro do trono teria tido graves problemas com esta decisão! No entanto a pergunta: ‘Que tipo de influência exerceu sobre D. Duarte a literatura Árabe’? permanece sem resposta concreta. Muito mais importante que a resposta a esta questão é a verificação do enorme conhecimento que D. Duarte tinha do comportamento humano, das suas fraquezas e objectivos escondidos, as suas comparações de grande qualidade e por vezes quase teológicas, as ligações que estabelecia entre a equitação e situações da vida real, o seu conhecimento dos filósofos Gregos e do imperador Júlio César,... Consegue o leitor imaginar a dificuldade que – em 1400 – uma tal pessoa (que lia e se exprimia em Português, Inglês, Latim, Grego e algum Árabe) teria em encontrar entre os seus iguais, aqueles com quem poderia discutir e exercitar a sua mente, abordando em profundidade os assuntos que realmente o interessavam? Na realidade, existem no seu livro situações em que o leitor se pode aperceber da frustração de D. Duarte. A sua visão

humana era absolutamente extraordinária (talvez ainda hoje o fosse ...) e muito para além da época em que vivia!

Os Reis D. João I e D. Duarte Rei D. João I (n. 1357 – m. 1433) Começamos por referir como facto interessante, a inclusão – por sua decisão - na bandeira de Portugal da cruz verde da Ordem Militar de Avis (devido ao facto do rei D. João I ser o Mestre da Ordem Militar de Avis, muito antes de ser aclamado como rei de Portugal). A Ordem Militar de Avis teve o seu início numa confraria de cavaleiros que em 1166 consideraram sua missão a defesa da cidade de Évora contra os ataques dos Árabes. Sempre que necessário reuniam-se e faziam sua base de operações na pequena localidade de Avis. Consideramos que o facto mais importante do seu reinado foi a já referida aliança que estabeleceu com o rei Ricardo II de Inglaterra e o seu casamento com Dª Filipa de Lencastre; não só protegeu Portugal de futuros ataques de Castela mas também deu a Portugal uma rainha extraordinária (facto que aliás é explicitamente referido no livro de D. Duarte). Uma das suas decisões mais importantes – no que respeita à educação do seu filho D. Duarte – foi enviá-lo para uma longa visita e estadia na corte inglesa quando ele atingiu a maioridade (o que na época se verificava aos 14 anos de idade). Em 1411, o rei D. João I chamou o seu filho D. Duarte – então com 20 anos – para o seu lado e iniciou um verdadeiro programa de treino permanente, dividindo e progressivamente transferindo para ele, vários poderes da coroa. Com essa decisão, considero nunca ter havido qualquer outro mais bem preparado para assumir os poderes reais quando a situação a tal o obrigasse (o que aconteceu em 1433, com a morte de D. João I). D. João I – considerado como um dos mais bem educados reis medievais – escreveu (embora ajudado) o ‘Livro da Montaria’ ,sobre o tema das caçadas; este livro é

considerado uma valiosa composição literária do século XV. D. João I preparou em grande detalhe o plano de expansão de Portugal no Norte de África e iniciou-o conquistando a cidade de Ceuta em 1415 (tendo todos os seus filhos legítimos com ele – D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique, D. João e D. Fernando). Por esse motivo, o rei D. Duarte ficou referido na História como rei de Portugal, do Algarve e Senhor de Ceuta. Rei D. Duarte (n. 1391 – m. 1438) Ruy de Pina (n. 1440 - m. 1522) foi o ‘Cronista Mor’ de Portugal e ‘Guardião da Torre do Tombo’ e escreveu crónicas sobre a vida de vários reis de Portugal, nomeadamente D. Duarte. Das 85 páginas que encontrei escritas por Ruy de Pina sobre D. Duarte vou transcrever – na sua versão original – um pequeno capítulo descrevendo as suas principais características pessoais (coloquei em evidência as que entendi serem mais importantes).

Das feiçooes corporaaes, virtudes e custumes d’ElRey Dom Duarte El Rey Dom Duarte foi homem de boa statura do corpo, e de grandes e fortes membros: tynha o acatamento de sua presença muy gracioso, os cabellos corredios, ho rostro redondo, os olhos molles, e pouca barba; foi homem desenvolto e custumado em todalas boas manhas, que no campo, na Corte, na paz e na guerra a hum perfeito Principe se requeressem: cavalgou ambalas sellas da brida, e de gineta melhor que nenhuu de seu tempo: foy muy humano a todos, e de boa condiçam: prezou-se em sendo mancebo de boõ lutador, e assy o foy, e folgou muito com os que em seu tempo bem o faziam: foi caçador, e monteiro, sem myngoa nem quebra do despacho, e avyamento dos negocios necessarios: foi homem allegre e de gracioso recebimento: foi Principe muy Catholico e amigo de Deos...foi muy piadoso e manteve muy inteiramente sua palavra como scripta verdade: amou


Colaboração O Rei D. Duarte e o seu livro “ A arte de bem cavalgar toda a sela”

muito a justiça: foi homem sesudo e de claro entendimento, amador de sciencia de que teve grande conhecimento, e nom per descurso d’Escollas, mas per continuar d’estudar, e leer per boõs livros...foi, e naceo natural eloquente, porque Deos ho dotou pera ysso com muitas graças: no comer, e dormir foi muy temperado, e assy dotado de todalas perfeiçõoes do corpo e d’alma. O cognome do rei D. Duarte era ‘O Eloquente’ e uma das suas primeiras decisões como rei de Portugal foi reunir as ‘Cortes’ em Santarém e tomar decisões sobre 3 assuntos principais: • Reestruturar a Administração Pública (preocupação já existente nessa época...) • Produzir uma compilação de todas as leis do reino • Tomar medidas para restaurar e proteger a riqueza da coroa Este último objectivo foi alcançado no ano seguinte (1434) com a ‘Lei Mental’; resumidamente, só um primogénito masculino podia herdar – por morte do seu pai – todos os bens que ele tivesse recebido da coroa como reconhecimento pelos seus feitos. Na sua ausência, todos os bens voltavam à posse da coroa. Uma vez que já foi mencionado o nível de preparação de D. Duarte para reinar e quão seriamente ele se dedicou a essa missão, vou somente referir um assunto adicional que foi da maior importância para Portugal, para toda a família real – nomeadamente os seus irmãos – e para o próprio D. Duarte. Durante 2 anos, os seus irmãos (por iniciativa de D. Henrique e D. Fernando mas secundados pelos outros dois – D. Pedro e D. João) pressionaram D. Duarte para que ele autorizasse uma expedição para conquistar a cidade de Tânger, no Norte de África, consolidando a presença portuguesa nessa área. D. Duarte resistiu a essa pretensão durante os 2 anos mencionados mas – a contragosto e com enormes reticências – autorizou a expedição em 1437 (o que foi uma decisão que iria lamentar durante o resto da sua vida). A expedição era demasiado fraca em re-

cursos humanos e militares, foi mal executada e revelou-se um desastre total. O exército Árabe prendeu D. Fernando e pôs como condição para a sua libertação, a devolução da cidade de Ceuta. Duas grandes facções em Portugal (uma a favor, outra contra a aceitação da exigência) opuseram-se obstinadamente; isso igualmente se verificava no seio da família real e seus conselheiros e D. Fernando acabou por morrer na prisão de Tânger no início de 1438, antes que qualquer decisão tivesse sido tomada em Portugal. É genericamente aceite que D. Duarte faleceu de peste em Setembro de 1438, mas muitos dizem que após a morte do seu irmão D. Fernando e o isolamento voluntário do seu irmão D. Henrique em Sagres, o rei D. Duarte nunca mais foi a mesma pessoa e teria mesmo ‘perdido a vontade de viver’. A tragédia destruiu assim uma das mais brilhantes famílias reais que alguma vez existiu em Portugal!

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‘sábios’, que tenha traduzido para a língua portuguesa actual, a versão original desta obra excepcional, colocando-a assim ao alcance da juventude! É quase inacreditável! Não menosprezando de maneira nenhuma a alta qualidade do verdadeiro manual de equitação que está incluído no livro ‘A Arte de Bem Cavalgar Toda Sela’ considero que não existe melhor processo para dar um exemplo final da personalidade humana do Rei D. Duarte, que concluir este artigo com a apresentação - em Português actual - de dois capítulos excepcionais deste seu livro (depois da apresentação da capa da 1ª edição dactilografada - datada de 1842 - dos seus dois livros: Leal Conselheiro e Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sella). Com eles termino este artigo.

Estes acontecimentos dramáticos dão ainda maior valor à tentativa que D. Duarte fez para acabar o seu livro (o que na realidade não conseguiu). Comentário Pessoal – tenha-se em atenção que os escritores deste século pouco utilizavam a pontuação e escreviam parágrafos de enormes dimensões (encontrei um com 18 linhas de extensão!) dificultando imenso a compreensão e a sua conversão para um Português considerado aceitável nos dias de hoje. Note-se também que por vezes a argumentação utilizada é algo ‘ingénua’ e os argumentos utilizados são por vezes repetidos em excesso (eventualmente por falta de uma revisão cuidada, que não aconteceu devido à morte prematura e inesperada do Rei D. Duarte). Face à alta qualidade da obra referida, é a todos os títulos lamentável (e praticamente impossível um facto semelhante a este, acontecer em qualquer outro País que seja culturalmente evoluído) nunca ter existido uma qualquer personalidade pertencente a essa ‘imensa legião de ilustres catedráticos em língua portuguesa’ (!) que proliferam pelas nossas Universidades e provavelmente se consideram

Os 4 desejos que condicionam os Seres Humanos e as suas consequências no respectivo comportamento. A minha mente anda a vaguear (e eu como que a sonhar acordado) analisando tudo o que se relaciona com a força de vontade nos Seres Humanos e a idealizar


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Colaboração O Rei D. Duarte e o seu livro “ A arte de bem cavalgar toda a sela”

o melhor processo de abordar esta área para a explicar e aconselhar aqueles que dela não têm grande conhecimento. Em primeiro lugar que fique claro que existem 4 desejos (apetites) nos Seres Humanos, mais ou menos em conflito permanente uns com os outros, e que o desenlace desses conflitos influenciam decisivamente, a cada momento e em cada situação, o comportamento dos Seres Humanos. 1º - Carnal 2º - Espiritual 3º - Afabilidade (desejo de agradar) 4º - Perfeição e Virtuosidade O 1º desejo tem por objectivo satisfazer o vício, a folgança do corpo, afastando-se de todo o perigo, despesa e trabalho. O 2º desejo quer satisfazer tanto quanto puder todas as virtudes que constituem a vida religiosa (jejuar, fazer vigílias, ler, rezar,...). Os que andam em actividades próprias da cavalaria e estão sob a influência deste desejo, expõem-se a todos os perigos físicos e não se resguardam ou protegem como deveriam quando da execução de certos trabalhos e tarefas perigosas. E isso acontece – como exemplo – na execução de algumas obras que lhes parecem boas e virtuosas e a que se dedicam tanto que não têm o cuidado de comer, dormir e descansar o que é minimamente requerido pelo corpo. E igualmente não olham a despesas para satisfazer essas suas acções piedosas, sem se preocuparem com as consequências que daí advirão para os seus bens. Estes dois 1ºs desejos estão permanentemente em contradição dentro de nós e certamente já vivemos essa experiência (em que um desejo nos aconselha a tomar uma atitude e o outro nos aconselha precisamente o contrário). Entre estes dois desejos existe um terceiro, afável, prazenteiro, com desejo de agradar e de índole fraca, o qual – por querer satisfazer os dois anteriores sem tomar partido por nenhum deles – coloca aqueles que o seguem em situações tais que nunca conseguem actuar de acordo, quer com a satisfação física, quer com a espiritual. A título de comparação, o ob-

jectivo deste 3º desejo é conseguir (por exemplo) aconselhar o Ser Humano a jejuar quando ele não tem fome, a velar quando ele não tem sono, a alcançar honras a cavalo sem correr perigos ou a adquirir fama de generoso sem fazer despesas que lhe causem qualquer dificuldade. Na realidade, o objectivo deste 3º desejo é conseguir satisfazer o que um dos dois primeiros desejos pretende sem contrariar o outro, o que é manifestamente impossível e como tal, não tem qualquer consequência positiva para o Ser Humano. O 4º desejo – perfeição e virtuosidade – não segue normalmente o desejado especificamente por qualquer dos outros 3 e leva uma pessoa a fazer muitas vezes o contrário do que eles pretendem, devido a uma determinação forte e à sobreposição da razão e do entender. Por isso o provérbio: a satisfação plena dum desejo é a vitória da maldade; e a derrota da maldade é uma grande virtude. Se o homem viver segundo qualquer um dos 3 primeiros desejos, não conseguindo actuar pela sobreposição da razão e do entender sobre o que os 3 primeiros desejos pretendem, forçosamente que se perderá de corpo e alma; isto porque, o 1º desejo pede coisas normalmente tão vis e baixas que manifestamente leva o homem a produzir tudo o que é maldade; o 2º desejo, pretende objectivos tão ambiciosos e altos que podem ter como resultado a doença ou mesmo a morte (ou a perca total dos seus bens) por não ter limites razoáveis; o 3º desejo, ao querer comprazer os 2 primeiros e concordar com tudo, nunca conseguirá que executemos algo de verdadeiramente bem feito e de que retiremos o devido proveito. Em conclusão: o domínio de qualquer um dos 3 primeiros desejos sobre nós tem normalmente como consequência grandes erros e malefícios (maldades). O 4º desejo é totalmente o contrário dos 3 primeiros; isto porque tudo o que os 3 primeiros desejos apresentem ao nosso coração para execução, é apreciado pela nossa razão, que decidirá se será de fazer ou não. E por isso, muitas vezes não fazemos o que eles (qualquer dos 3 primeiros

desejos) querem, ou fazemos o que eles não querem, ou ainda, não fazemos nem uma coisa nem outra. Assim como os ourives para decidirem se um objecto apresentado como sendo de ouro ou prata é de comprar ou não, faz os seus testes, assim o 4º desejo também manda fazer ou não uma coisa, segundo a decisão da nossa razão. Quando o desejo carnal do Homem pretende satisfazer os seus objectivos, a razão pode não lho consentir e pode em vez disso fazer-lhe sentir fome, sede, sono, dispondo-o em vez disso a correr grandes perigos e executar trabalhos difíceis, se fôr essa a sua forte determinação para fazer o bem. E situação semelhante acontece com o desejo espiritual que pode ser limitado nos seus objectivos (caso eles sejam demasiado altos e perigosos) pela razão. Esta é a diferença fundamental entre o 3º e o 4º desejo. Enquanto o 3º desejo nunca quer contrariar qualquer dos 2 primeiros, o 4º desejo assim o determinará, se entender que tal deve acontecer. E contrariamente ao que acontece com os 2 primeiros desejos, é muito importante que a razão saiba o que é preferível fazer em cada caso em que os outros desejos se degladiam, para poder impôr a sua vontade. E isto acontece da seguinte maneira (exemplo): Quando o desejo espiritual exige jejum exagerado e o desejo carnal pede o vício e o prazer imediato do corpo (apresentando como argumentos, o trabalho e o perigo que podem resultar do jejum) dá-se uma luta entre os dois desejos, o que possibilita ao 4º desejo o tempo necessário para analisar a situação ponderadamente. E assim, a razão determina a execução do que lhe parece correcto e razoável, ponderado e bom, o que não teria conseguido definir se não tivesse existido a luta entre os dois primeiros desejos que lhe deu o tempo necessário para tomar a decisão correcta. Comentário Pessoal – ingénuo, mas eficaz como explicação, o facto do rei D. Duarte dar uma dimensão temporal à luta entre os desejos, dando assim tempo para o 4º desejo – baseando-se na razão e no bom


Colaboração O Rei D. Duarte e o seu livro “ A arte de bem cavalgar toda a sela”

entender - decidir correctamente e impôr a sua decisão. Na realidade, o rei D. Duarte pretende referir que devemos sempre pensar antes de agir, não actuando devido aos impulsos primários originados pelos 3 primeiros desejos. Esta situação não acontece logicamente com aqueles que vivem bestialmente todas as coisas que o desejo carnal pede, nem aos que vivem com presunção e se vangloriam de nunca necessitar de contrariar os desejos carnais, por lhes recordar coisas que desejam mas que receiam. Na realidade o cumprimento sem limites do desejo espiritual também pode produzir grandes prejuízos (de que poderiam ser dados muitos exemplos). E tendo escrito isto, alguns que tinham menos conhecimentos destes assuntos, passaram a conhecer os desejos que permanentemente nos solicitam coisas e como e porquê não devemos satisfazer os pedidos dos 3 primeiros, mas sim orientar todos os nossos actos pelo 4º desejo – que é baseado na razão e no bom entender. E quando menciono a razão e o entender, podem não ser os nossos, mas sim daqueles que, tendo mais conhecimento, prática e experiência de situações que teremos de decidir, nos dão conselhos que devemos seguir.

necessários para controlar cada um dos 3 primeiros desejos). Para continuarmos a abordar este assunto dentro da óptica de um tratado de equitação devemos utilizar e recorrer a 3 freios para evitar seguir (neutralizar) os 3 primeiros desejos , podendo assim seguir os objectivos do 4º desejo. 1º freio (para controlar o 1º desejo)– O temor das penas do inferno e das leis existentes feitas pelos Senhores ou por aqueles que sobre nós têm esse poder. 2º freio (para controlar o 2º desejo)– O desejo de obter o galardão que se espera alcançar nesta vida (e depois na outra) por fazermos sempre o bem e nos afastarmos de todo o mal.

E a Esperança deve existir abundantemente, porque quem mais ama, mais deseja, e mais desejando, mais espera receber; por este motivo, a Esperança deve ser uma virtude muito cultivada e desenvolvida. E a quem somente serve por temor, poderá acontecer que o desejo e o amor se juntem e tornando-se mais fortes, façam diminuir ou desaparecer a força do temor.

O 1º freio, que pertence ao temor, é a própria Fé, crendo que, se mal fizermos sem dúvida que sofreremos os devidos castigos, recebendo embora compaixão.

E a quem somente espera por algum galardão, o amor pode-se fazer sentir com mais intensidade que o galardão que se espera.

O 2º freio é a Esperança, pela qual esperamos receber, com a graça de Deus, grandes bens e galardões, se vivermos virtuosamente.

E quem amar com todo o coração, vontade e com todas as suas forças, terá tudo o que necessita dentro de si. No entanto, não pode fazer coisas contrárias a quem assim tanto ama, por temer que esse amor não se mantenha se actuar em contradição com as razões pelas quais esse amor existe.

O 3º freio é a Caridade, pela qual se ama a Deus sobre todas as coisase se praticam as virtudes para lhe agradar e se recusa tudo o que fôr contrário, para não desagradar a quem amamos acima de todas as coisas.

E este 4º desejo é o fundamento pelo qual cada um nos seus feitos escolhe o bem em vez do mal, dentre os bens escolhe o maior, e dentre os males escolhe o menor de todos.

E sem esquecer que, cada uma destas virtudes é suficiente por si só para nos encaminhar numa vida sã e direita (que por poucos é seguida), há porém uma grande diferença entre elas; As duas primeiras – Fé e Esperança – pertencem aos que iniciam e prosseguem uma vida para alcançarem um estado ainda mais perfeito, enquanto a 3ª - a Caridade – aos que, deixando de ser escravos que só servem com medo das punições, passam primeiro à condição de servidores que esperam um galardão pelos seus bons serviços e posteriormente à condição de filhos bons e le-

Comentário Pessoal – os freios são peças metálicas que se colocam na boca dos cavalos e a que estão ligadas as rédeas, controlando assim os cavalos (vamos ver que o autor vai identificar quais são os 3 freios

ais que consideram seus todos os desejos do seu Pai. No entanto, não servem, honram e receiam o Pai por temor aos castigos ou esperança de galardão, mas por amor verdadeiro, no qual há o temor de magoar quem muito se ama e de se perder o amor do Pai. E isto mantém-se para todo o sempre, porque tem dentro de si aquele amor que não diminui pela falta da proximidade, pois em qualquer lugar se sente a presença de quem se ama totalmente, e por esse motivo se consegue evitar praticar actos que sejam contrários ao prazer do Pai.

3º freio (para controlar o 3º desejo)– O amor do e ao Nosso Senhor Deus e às virtudes.

E este é o caminho a seguir a que na nossa linguagem chamamos o caminho do verdadeiro siso, muito louvado pelos sabedores e que traz aos que por ele se regem, com a graça de Deus, todo o bem, afastando todo o mal.

As virtudes necessárias para controlar e neutralizar 3 desses desejos

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Em conclusão, a afeição às 3 virtudes – Fé, Esperança e Caridade – e o hábito da sua prática, faz refrear a prática do mal e dos pecados (que estão muitas vezes ligados aos 3 primeiros desejos) e assim, levar uma pessoa a reger-se pelo 4º desejo – que se baseia na razão e no bom entender. E escrevi isto (ainda que muito mais houvesse para dizer) para auxiliar aqueles que não têm grandes conhecimentos. E para isso utilizei os 3 freios que cada um deve trazer no seu coração, para sentir e conhecer as suas virtudes, com maior perfeição do que por mim foram escritas.


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Recordando A Entrada

Rui Manuel de Sá Leal (502/1959) Desenhos de Pedro Massano (487/1958)

A Entrada Recordações do Colégio do meu Tempo Parte 2


Recordando A Entrada

Excerto do livro Ratas - Memórias do Colégio de há 50 anos, publicado nas Comemorações dos 50 Anos de Entrada do Curso de 1959 ...Uma manhã fomos divididos, não por pelotões mas por quatro turmas – A, B, C e D – e levados de seguida (em formatura, claro!) até ao local onde se iria desenrolar, de futuro, grande parte da nossa vida: as salas de estudo e de aulas. Íamos, portanto, entrar em sítios ainda desconhecidos. Saímos pela escadaria lateral do internato, deixámos à esquerda o campo de futebol de 11 mais pequeno e à direita os campos de basquetebol e de voleibol, depois, ainda à direita, um edifício sobre o comprido, com um portão largo, pintado de verde, e uma fiada de janelas pequenas sob o beirado (“é o picadeiro”, disse alguém a sussurrar, que nas formaturas não se podia falar!), enquanto que à esquerda ficava uma sebe muito alta de miosporos. Entrámos então num grande pátio de terra batida (“Pátio das Ciências”, murmurou outro prevaricador, com tendências de cicerone) e virámos à direita. À esquerda deixámos um pavilhão de piso térreo e telhado em dente de serra, ao estilo que então se usava em muitos edifícios fabris, com a parte menos inclinada envidraçada (era, soubemo-lo depois, o Pavilhão de Desenho e Trabalhos Manuais); ao fundo ficava um edifício bonito, não muito grande, de rés-do-chão e 1.º andar, a cujo piso superior se acedia por uma escadaria exterior dupla, que unia em cima – era o Pavilhão das Ciências, com o seu Museu instalado no piso inferior (quem não se lembra-se da enorme gibóia e da passarada multicolor que por lá morava?...). Entre os dois pavilhões corria um muro alto, com um portão grande a meio, que dava para Azinhaga da Fonte. Estava fechado, e não me recordo de alguma vez o ver aberto. (Recordo-me, sim, das corridas de carrinhos Dinky Toys no murete que delimitava a rampa que lhe dava acesso!) Era um murete baixinho, largo, que desenhava uma curva ligeira no seu troço inicial e

que, ao contrário da rampa, descia em direcção ao interior do pátio. Tínhamos aqui a pista ideal para corridas de velocidade sem condutor: bastava largar os bólides no ponto mais

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alto do murete, com um empurrão ligeiro a ajudar, e a força da gravidade havia de fazer o resto. Restava esperar que o nosso carro descrevesse o desenho da pista e avançasse vitorioso a caminho da meta – e, já agora, que os restantes seguissem em frente, rumo ao abismo, na fatídica curva da rampa… Nem sempre dava resultado e nunca se percebeu por que é alguns carros curvavam na altura própria… (Ele há coisas que a própria Ciência ainda hoje não consegue explicar, quanto mais há cinquenta anos!...) Mas voltemos à nossa primeira entrada no “Pátio das Ciências”. À nossa frente encontravam-se agora as traseiras do edifício onde havíamos feito as provas de admissão, em cujas alas laterais superiores se abriam varandas corridas, de balaustradas metálicas. E lá estava, bem visível, destacando-se de todo o conjunto, uma cúpula recortada no céu, encimada por uma cruz e um pára-raios… Já a tínhamos visto por altura das provas de admissão… Mas não foi para este edifício que nos dirigimos (continuando assim por mais algum tempo a ignorar o que aquela construção seria…). Voltámos novamente à direita e, depois de subirmos alguns degraus, entrámos no que viria a ser nosso reino de mel e fel durante o próximo ano. Era um bloco antigo, de piso único, onde existiam cinco salas de aula, quatro delas contíguas, cada uma destinada a uma das turmas e ainda uma quinta, no lado oposto a estas e ao fundo, onde às vezes tínhamos aulas de Geografia. Existia ainda um compartimento pequeno, que era a cantina, onde em breve iríamos levantar livros, cadernos e demais material didáctico, mediante requisição. Deram-nos então um livrinho próprio para o efeito. Este negócio culminava evidentemente com o pagamento paternal no fim do mês(Mais duas canetas outra vez!? Esta agora! Mas tu comes canetas, porventura?! Ora diz lá... E nós sem conseguirmos explicar que havia um buraco negro enorme no Colégio que engolia canetas, lápis, cadernos, peúgas, barretes até, e sabe-se lá que mais, onde se lhes perdia definitivamente o rasto …). Mas adiante, que isto são outras histórias… Um corredor, cujo uso nos estava vedado, fazia a ligação ao edifício principal, onde se situava, entre muitas outras coisas, a sala de estar dos professores. (Ficava-lhes assim garantido um trajecto abrigado entre o lazer e o trabalho, prevenindo rouquidões e gripes indesejáveis, potenciais causadoras de algo que no Colégio era francamente excepcional: a falta de um professor a uma aula! Refira-se, a título de exemplo, que das 2388 aulas do nosso 1.º ano só não foram dadas 59).


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As turmas foram então encaminhadas para as suas salas – a turma A para a primeira, a B para a segunda e assim sucessivamente. Ocupámos por fim as carteiras por ordem numérica, por filas e da direita para a esquerda. As carteiras eram de madeira, individuais, e tinham um espaço sob o tampo onde podíamos arrumar todos os nossos livros e cadernos.

A Religião e Moral tinha também um espaço dedicado, numa sala junto à Capela, no piso superior da ala dos claustros destinada aos alunos do 4.º ano. Era portanto um local onde, prudentemente, se entrava apenas debaixo de formatura… e de igual forma de lá se saía... (Nada de brincadeiras com coisas sérias, que um free-lancer isolado podia ser confundido com um “invasor” de terrenos nada amigáveis!)

Aqui nos iríamos manter até ao fim do ano lectivo. A constituição das turmas ficou então sendo a seguinte: Turma A: 36, 75, 89, 134, 137, 158, 193, 208, 214, 228, 253, 255, 267, 282, 303, 324, 337, 385, 460, 500, 516, 517, 518, 519, 521, 522 e 527. Turma B: 10, 29, 72, 74, 95, 121, 176, 204, 230, 232, 236, 239, 281, 405, 501, 502, 503, 504, 505, 506, 507, 508, 509, 510, 511, 512, 513 e 514. Turma C: 106, 140, 163, 244, 276, 300, 326, 328, 331, 343, 348, 363, 381, 359, 389, 392, 393, 394, 395, 458, 520, 523, 524 e 515. O 22 e o 28 entraram mais tarde e vieram para esta turma. Turma D 17, 215, 299, 302, 309, 377, 397, 403, 404, 430, 431, 447, 448, 453, 457, 466, 494, 495, 496 e 499. 101 alunos ao todo: 94 “ratas” e 7 repetentes, que se passam a enunciar: 389 – Francisco Óscar Marques Barata Amaral Pais 395 – José Eurico Laureano Brasão 403 – José António Sampaio de Sousa Branco 447 – Fernando José Peixoto de Mendóça Frazão 448 – Alexandre António Henriques Bahia dos Santos 458 – Joaquim Augusto Saldanha Cardoso Leitão 460 – José Luís Frias de Almeida Branco Nas salas das turmas iriam ter lugar as aulas de Português, de Matemática, e de Francês e de Geografia e História (Geo-História para abreviar, como se usava dizer). Para além disto, eram o local destinado aos “estudos”, ou seja, ao nosso estudo individual. Algumas disciplinas eram ministradas noutros locais. As Ciências Naturais, o Desenho e os Trabalhos Manuais tinham pavilhões próprios. As aulas de Canto Coral decorriam no espaço onde hoje se situa o Museu da Colégio (e depois da inauguração do picadeiro novo, na festa de encerramento de 1962, passaram para o edifício do picadeiro velho).

Recebemos então o nosso horário semanal. Nessa altura o ensino secundário adoptado no Colégio diferia um pouco do que era então seguido nos liceus nacionais (mesmo para além da inclusão das disciplinas específicas de um estabelecimento militar, tais como a Equitação, a Esgrima e a Instrução Militar). Desde logo havia um escalonamento diferente nos anos dos três “ciclos” em que se dividiam os sete de duração dessa fase do ensino: basicamente, no Colégio, o 1.º ciclo compreendia o 1.º, o 2.º e o 3.º anos, enquanto nos liceus este último já pertencia ao 2.º ciclo, aqui composto apenas pelos 4.º e 5.º anos. O 3.º ciclo, que abrangia o 6.º e o 7.º anos, era igual em ambos os casos – mas apenas no tocante às disciplinas que então se designavam por “Ciências”. (Significava isto que todos quantos desejassem enveredar por “Letras” deveriam abandonar o Colégio após a conclusão do 5.º ano – e em boa verdade não poucos do nosso curso o fizeram). Os exames, que acompanhavam os finais dos ciclos, eram portanto realizados em ocasiões diferentes: nos 3.º, 5.º e 7.º anos no Colégio, nos 2.º, 5.º e 7.º anos nos liceus. E as regras aplicáveis às dispensas de exame e de provas orais eram também diferentes. Subsistia igualmente uma diferença quanto a aprovações e reprovações nos finais dos anos lectivos: no Colégio, a Educação Física, a Equitação, a Esgrima e a Instrução Militar eram disciplinas eliminatórias, bastando ser negativa a média anual de uma delas para se registar uma reprovação. Esta reprovação, contudo, não seria válida se o aluno em causa transitasse para um liceu nacional. Finalmente, as próprias disciplinas ministradas, se bem que no essencial fossem semelhantes, não eram coincidentes: O quadro compara as disciplinas teóricas incluídas nos programas dos primeiros ciclos dos liceus e do Colégio. Como se vê, e ao contrário do que sucedia nos liceus, a disciplina de Latim ainda persistia no 3.º ano do programa colegial (prolongando-se depois pelos 4.º e 5.º anos). Este programa veio a ser alterado posteriormente em 1962… para grande alegria do curso de entrada de 60/61, que não fez


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exame nem no 2.º nem no 3.º ano!… Ao nosso curso coube ser o último, no Colégio, a ter Latim e a fazer exame de 3.º ano. Coisas que acontecem… Mas adiante! No 1.º ano, esperavam-nos pois, para além do Português, Francês, Geografia-História, Ciências Naturais, Matemática e Desenho e Trabalhos Manuais, ainda a Moral e Religião, o Canto Coral e as chamadas “disciplinas práticas”: a Educação Física e Desportos, a Equitação e fi nalmente a “Infia” – pseudónimo colegial por que se designava a disciplina de Instrução Militar. Tivemos depois conhecimento do horário que iríamos cumprir. Não podia ser mais diferente do que havíamos seguido na nossa já tão longínqua instrução primária! Estarrecidos, verificámos que tínhamos os dias totalmente ocupados! Entre as oito horas da manhã e as oito horas da noite (excepto às terças-feiras, às quintas- feiras e aos sábados, em que se começava logo às sete e meia, com as aulas de ginástica!) quase não parávamos: até ao almoço havia quatro tempos de aulas ou de estudos; após a refeição, mais dois tempos; depois (até que enfim!), uma hora de recreio; e finalmente… mais três tempos até ao jantar! Uff!! Não se pode dizer que houvesse grande tempo para pensar em outras coisas… Mas cedo verificámos que esta aparente sobrecarga de horário, quase a raiar a violência, não deixava, paradoxalmente, de ter aspectos positivos: ao deixar muito poucos tempos mortos entre a vertigem das actividades, fazia com que o tempo passasse depressa… em direcção ao abençoado fim-de-semana, às noites de sábado e às manhãs de domingo, em que podíamos preguiçar um pouco mais na cama (e onde o mais ríspido “Levanta-te que já são horas!” era pura melodia ao pé do toque da alvorada!) Outra diferença fundamental em relação ao que estávamos habituados era o regime de estudos que passaríamos a cumprir. Da 1.ª à 4.ª classe fazíamos os “trabalhos para casa” que a nossa professora diariamente nos passava: a tabuada, a cópia, as contas, as palavras difíceis, a composição a fazer (que na altura se chamava simplesmente “redacção”), os pronomes pessoais a decorar, as orações a dividir (o sujeito, o predicado, o complemento directo… e nem digo os palavrões que agora lhes chamam!)… Uma hora de trabalho chegava… e ainda sobrava muito tempo para grandes brincadeiras com o pessoal da vizinhança! Agora, a todas as disciplinas teóricas – Português, Matemática,

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Francês, Geo-História e Ciências Naturais – correspondiam dois tempos consecutivos, um de aula e outro de estudo, este antecedendo ou sucedendo àquele, ao critério do professor, que assistia a ambos, leccionando num caso e tirando dúvidas no outro sobre os trabalhos que havia passado anteriormente. Era impossível encontrar sistema pedagógico melhor para acompanhar a transição difícil que tínhamos que vencer! Dentro de breves dias estaríamos a entrar nessa luta! Nesta altura tomámos contacto com duas novas actividades, para as quais fomos divididos segundo as nossas naturais aptidões: físicas num caso, canoras no outro. Fomos pois levados até ao ginásio – um pavilhão magnífi co, com um piso de madeira de uma elasticidade que nunca mais voltei a encontrar em muitos (mas mesmo muitos!!) que frequentei até hoje. Anexa a ele encontrava-se a piscina, de 25 metros, que então era descoberta e só utilizável, para aulas e recreio, no período do verão. Estas instalações ficavam para lá do campo de futebol de 11, a uma cota mais elevada que o edifício do internato, e a elas se acedia por duas ruas asfaltadas, que contornavam os seus topos. A do lado leste deixava pela esquerda terrenos não ocupados, onde mais tarde, mas ainda no nosso tempo, se veio a construir um campo de obstáculos para treinos e provas hípicas. A do lado oeste tinha à sua direita uma sebe alta de miosporos, que delimitava a quinta colegial, o reino do Tenente Fernando de Almeida, por alcunha o “Galinha”, que era então o único oficial residente no perímetro do Colégio, numa moradia próximo do portão da parada. No ginásio aguardavam-nos os que viriam a ser os nossos futuros mestres de Educação Física (ou, pelo menos, alguns deles): o Tenente Reis Pinto, o Tenente Lemos, o Capitão Vitória, o Capitão Sequeira e o Capitão Carvalho, pai do nosso 193 e conhecido por “Porco” (não por qualquer questão higiénica, é claro, mas pelo seu aspecto fisionómico geral, que lembrava irremediavelmente aquele rechonchudo animal. A Natureza às vezes tem destas coisas…). Perante este júri efectuámos à ordem algumas cabriolas de dificuldade variável, que permitiram a nossa selecção em quatro grupos: no primeiro ficaram os mais desembaraçados, no segundo e no terceiro os assim-assim e no quarto os menos ágeis. Seria esta, no futuro, a divisão do nosso curso a seguir (e não as turmas) para efeitos de Educação Física e Desportos.


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Para efeito semelhante, fomos presentes ao Maestro Jaime da Silva (por alcunha o “Carioca”) na aula de Canto Coral. Pequenino, baixinho, senhor de uma respeitável careca e um não menos respeitável nariz, aguardava-nos sobre um estrado alto, junto ao órgão de pedais que ainda hoje se pode admirar no museu colegial, não muito longe do local onde se encontrava nesse dia. As provas agora eram de outra índole: um a um éramos chamados pelo nosso número ao estrado, o “Carioca” tocava três ou quatro notas que procurávamos repetir, depois uma escala (e nós lá, lá, lá, lá… por ali acima), depois talvez outra mais baixa ou mais alta conforme com as nossas capacidades vocálicas (e nós outra vez lá, lá lá, lá…). Em silêncio, o “Carioca” escrevia a sentença num pequeno bloco de capa preta que nunca o abandonava. E fi nalmente decretava, com um ar circunspecto: 1.ª voz! 2.ª voz! Ou então caía, definitiva e fatal, a sentença de morte (ou de sorte?) para os que tinham o ouvido mais duro que uma porta ou cordas vocálicas como cerdas de vassoura: Canto Coral! Era uma ironia, cuja subtileza ainda hoje me escapa, juntar num grupo denominado Canto Coral aqueles que jamais seriam capazes de trautear duas notas seguidas sem desafinar! Mas era mesmo assim. Coube-me integrar este conjunto de rouxinóis falhados. Fiquei assim impedido de trautear a “Menina da Saia Preta”, o “Papagaio, gaio, gaio” e a “Padeirinha”, o “Ecce Panis”, o “Panis Angelicus” e o “Panem Vivum”, o “Coro dos Barqueiros do Volga” e o “Coro dos Soldados da Ópera Fausto”, para além, claro está, do Hino Nacional – a seis vozes, oiçam bem, a seis vozes! Ninguém canta o hino a seis vozes a não ser o Colégio Militar! – asseverava o “Carioca” com um sorriso de indisfarçável e muito justificado orgulho. E de facto arrepiava ouvir o orfeão colegial cantar quando se juntavam os seus perto de quatrocentos elementos! Era um som cheio, rico de cambiantes, os agudos das primeiras vozes do 1.º ciclo em perfeito diálogo com as tonalidades profundas das vozes dos alunos mais velhos, soando umas vezes suave, terno até, subitamente marcial, dramático se necessário, arrebatador sempre. As arruinadas pedras da Igreja de S. Domingos recordam bem estas vozes! Foi também altura, nestes dias iniciais da nossa estadia no Colégio, de voltarmos à Enferma – mas agora para efeitos de vacinação. Tremendo de coragem, lá nos voltámos a defrontar uma vez mais com o Valentim e o Valério. - 10, 17, 29 e 72! Toca a despir as camisas e a voltar de costas! Aqui, em linha! Após o que se seguia um verdadeiro trabalho de equipa dos dois

enfermeiros: primeiro procedia-se à desinfecção dos locais do crime; depois, um deles espetava agulhas na omoplata das vítimas indefesas (uma farpa por unidade), enquanto o outro, de seringa bem cheia na mão direita, ia esguichando sucessivamente o líquido imunológico por ali adentro. Finalmente procedia-se à retirada dos aguilhões, com uma última esfregadela de algodão embebido em álcool no local ofendido. A coisa corria menos-mal, excepto quando se tornava necessário municiar a seringa numa altura em que as agulhas já estivessem espetadas nas costas dos senhores alunos. E aqui sim, é que a célebre expressão “Não mexe!!” ganhava um significado muito mais verdadeiro – mais sentido, diria mesmo – que quando aplicada à própria posição de sentido! Tudo a bem da nossa rica saudinha. Nos intervalos destas actividades – e a bem da nossa mesma saudinha, claro está – voltava o desporto. – Toca a equipar! Tudo para a rua! E nós lá íamos para o exterior, onde não faltavam campos para desvendarmos truques e habilidades: dois campos de futebol de 5 ou andebol desenhados no alcatrão da parada, vários campos de voleibol e de basquetebol e dois campos de futebol de 11, ambos de terra batida, um deles com as medidas regulamentares, pista de atletismo à volta, caixas de saltos (e bancadas! Um verdadeiro estádio, pena não ser relvado…), e outro mais modesto, de dimensões mais adequadas ao nosso tamanho, mas que ficava um mar de lama quando chovia. As bolas levantavam-se num cubículo situado junto ao picadeiro, onde o “Chico das Bolas” nos entregava o material mediante “vale” que era resgatado quando os esféricos regressavam às prateleiras. À noite voltava o costumeiro “futebol de geral”, com os bancos removidos para detrás das balizas e os vãos das janelas transformados em privilegiados assentos de bancada central. A bola de plástico, já mais dominada, rendia-se às fintas estonteantes do 140, Queirós Pereira, do “Chinês” (359, Carvalho Igreja) e do 137, Jérvis de Atouguia, às desmarcações e remates fulminantes do “Matateu” (405, Lucena) e do 244, Abreu Matos… que eu, meia-dose de gente em forma de guarda-redes, procurava contrariar como podia. (Perdoem-me os restantes “craques” não citados – que os havia em profusão! – mas dos golos que aqueles marotos me marcaram lembro-me eu bem! E dos que, mais tarde, me marcaram também os manos Lynces, 490 e 21! Traumatismos que ficaram para a vida…). E prosseguíamos sempre as nossas actividades, da conferência dos enxovais à prática da ordem unida (esquerdo, direito, op, dois… já desfilávamos (?...) na parada antes do almoço, e no sábado haveria a cerimónia de boas-vindas aos “ratas”, na qual iríamos naturalmente participar!), do desporto à aprendizagem das


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mil e uma praxes e regras de conduta que deveríamos observar na vida colegial. Que tinham, evidentemente, as suas particularidades. Ora atente-se na seguinte frase, que pode servir de exemplo: – Ó senhor graduado, o meu colega Zèzinho tirou-me o barrete! Esta frase, aparentemente tão simples, contém nada menos que três erros graves, uma incorrecção de linguagem e uma flagrante mariquice. Vejamo-las então. Em primeiro lugar, o vocativo “Ó senhor graduado…”. É um erro grave: no Colégio todos os alunos, de cima para baixo e de baixo para cima, do 1.º ao 7.º ano, dos “ratas” aos graduados, tratam-se por tu – sempre e só por tu. Este costume, aliás, e salvaguardados alguns casos de flagrante diferença de idades, também se estende aos ex-alunos – mesmo que não se conheçam e apenas se identifiquem como tal pela barretina colocada na lapela do casaco. É um tratamento que nada tem de desrespeitoso e que, antes pelo contrário, reforça os laços de camaradagem existentes na família colegial. Em segundo lugar, a expressão “o meu colega”. Aqui está outro erro grave, que por certo suscitaria o fulminante esclarecimento: “Colegas são as putas! Aqui só há camaradas!” Frase que me obriga a formular um pedido de desculpas, uma justificação e duas advertências (isto é como as cerejas…). O pedido de desculpas diz respeito à inclusão de um palavrão numa narrativa que até agora vinha correndo escorreita e limpinha de semelhantes inconveniências. No melhor pano cai a nódoa. Mas que fazer? Escrever “colegas são as meretrizes, as prostitutas, as Messalinas, as senhoras que ganham a vida de costas, as meninas de alterne, eu sei lá …”, além de constituir uma citação errada, tornava frouxa uma expressão que pretende justamente vincar a distinção entre as putas e os militares. Não me restava pois outra alternativa senão recorrer ao vernáculo. Aqui fica, portanto, a necessária justificação. E depois que fazer quando se tratasse de transcrever versos?

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Como respeitar a rima, a métrica, a poesia, enfim, usando parábolas, metáforas, termos técnicos, designações científicas? Para além de que semelhante recurso originaria uma imperdoável adulteração de originais, com clara ofensa à tradição oral ou ao autor. Impensável, portanto, por todos os motivos. Chegamos assim à primeira advertência: é que a partir daqui vai ser muito pior. Lamento muito, mas não há outra hipótese. O mal foi começar. A segunda advertência é que não tive oportunidade de verifi car in loco a veracidade a frase em questão. Isto por força da ilegalização da prostituição em Portugal, no longínquo ano de 1962, tinha eu, na altura, 13 verdes anos – idade convenhamos que imprópria para frequentar semelhantes locos. Ilegalização da profissão, que não, evidentemente, do seu exercício! Em todo o caso, este facto veio alterar de forma irremediável o vínculo sócio-laborar que unia as respectivas agentes, as quais passaram a ser, por assim dizer, trabalhadoras independentes. A palavra “colega” deixou então de se usar no meio, uma vez que apenas faria sentido entre quem partilhasse os mesmos, digamos, lugares de trabalho – que na circunstância foram igualmente encerrados. Nunca cheguei, portanto, a ouvir a clássica apresentação: “Boa noite senhor Silva, permita que lhe apresente a minha colega menina Lili, recém chegada de trás do sol-posto, um autêntico torrãozinho de açúcar, como terá certamente oportunidade de verificar”. Pelo que me limito a citar apenas por ouvir dizer. (Mas temos que acreditar em alguma coisa, não é verdade? E vinda a frase da boca de um graduado, não há motivo para duvidar). Em resumo: os militares são camaradas, sempre e só camaradas, e sobre isto está tudo dito. Posto o que podemos voltar à proposição que estamos analisando, e que era, recorde-se: “Ó senhor graduado, o meu colega Zèzinho…”. Não é preciso ir mais longe para tropeçarmos no terceiro erro grave: os alunos identificam-se pelos números ou pelas alcunhas, que não pelos respectivos nomes (e muito menos por diminutivos daquele quilate!).


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Dizia-se até que o Colégio era uma instituição onde as pessoas eram conhecidas pelos números e os cavalos pelos nomes… O que, em rigor, só parcialmente era verdade, uma vez que os serventes, os oficiais e os professores eram identificados pelo respectivo nome e não eram, evidentemente, nenhuns cavalos. Salvo algumas excepções, é claro. Adiante, pois. “… roubou-me…”: outro disparate. No Colégio usava-se o termo “palmar”, não para identificar o cenário tropical de uma grande extensão de palmeiras mas sim com o significado menos idílico de apropriar-se indevidamente, locupletar-se, abarbatar, gamar – em suma: roubar. Donde se infere que o queixoso deveria ter usado a expressão “palmou-me” em vez “roubou-me”, esta última decididamente fora do léxico colegial. E chegamos por fim à mariquice. É óbvio que uma queixinha destas não se faz. Um assunto desta natureza deveria ter sido resolvido – para usar uma expressão futebolística – no balneário. Usando como argumento um par de galhetas bem aplicadas, se fosse necessário e a correlação de forças pendesse para o lado do ofendido, ou recorrendo à astúcia, no caso contrário. Mas dentro do balneário, sempre dentro do balneário, de preferência sem intervenção do treinador e muito menos da direcção do clube… Bem mais grave, portanto, seria se a queixinha tivesse sido feita a algum oficial ou professor. Aqui o caso mudava completamente de figura – e para pior! Para bem pior! Primeiro, porque o aluno acusado corria o risco de ser castigado disciplinarmente por uma coisa que havia feito talvez na brincadeira. Depois porque, se fazer queixas a graduados era muito mal visto, salvo em casos de reconhecida gravidade, fazer queixas a oficiais ou professores era simplesmente impensável!! Não se faziam, e pronto. Era uma canalhice – sendo mesmo esse o nome por que tal procedimento era conhecido no Colégio. Nunca se acusava ninguém! As pessoas assumiam a inteira responsabilidade dos seus actos. E deviam acusar-se quando se indagasse quem os havia cometido. Eram estes os princípios gerais a seguir, os dois primeiros de respeito absoluto. Quanto a dar o passo em frente, metendo a corda no pescoço depois de algum disparate feito, isso ficava ao critério de cada um. Mas não era bonito ficar na retranca, deixando avançar em silêncio um castigo colectivo. A menos que todos estivessem de acordo – situação que, para dizer verdade, não era tão pouco fre-

quente como isso. A solidariedade, a camaradagem, o espírito de corpo, a união frente a uma ameaça comum eram valores que tinham uma existência palpável no Colégio! E em qualquer caso, jamais se veria um dedo acusador apontando alguém. De bajulices, também era melhor nem falar: “dar manteiga” era algo de impensável entre nós. Cada um deveria ser julgado pelos seus méritos próprios – fossem eles quais fossem – mas nunca com o auxílio de uma desprezível subserviência. – Verticalidade, meus meninos, é o que se exige, quanto mais se dobra a espinha mais o rabo fica a jeito! A imagem era eloquente e a lição ficou para a vida. Outro princípio que deveríamos acatar era o de ninguém se poder impor pela força a alguém mais fraco. O despotismo estava rigorosamente banido da vida colegial. Em contrapartida, os mais modernos deviam total respeito aos mais antigos. E era mesmo interdito entrar nas suas instalações, um acto temerário que se designava muito justamente por “invadir”. A não tentar de todo, ante a previsível reacção dos “invadidos”, muito pouco amistosa como se calcula, e legitimada pelo flagrante delito do prevaricador. A coisa era linear, um pouco brutal talvez, e podia generalizar-se, na prática, a todos os aspectos da vida colegial: 1.º - havia regras; 2.º - as regras eram simples e do conhecimento de todos (no nosso 2.º ano foi mesmo editado, e por todos distribuído, o livro “A Nossa Luz”, um repositório completo das normas que devíamos seguir); 3.º - quem as transgredisse não se queixasse depois das consequências. E 4.º - quem as cumprisse não era incomodado. Com uma ligeira nuance que aprendemos rapidamente: o grupo prevalecia sobre o indivíduo. Quando isolados, o nosso comportamento individual era avaliado – e nesta circunstância sim, quem cumprisse não era certamente incomodado. Mas quando em grupo (e essa era uma situação muito comum no Colégio, basta atentar nas formaturas…) era o comportamento deste que estava sob escrutínio; a sua classificação, sendo de certa forma uma média das classificações individuais dos respectivos componentes, esbatia cada uma destas – e neste caso tanto pagava o justo como o pecador quando o cômputo geral pendia para as bandas do negativo… …Sendo certo que (e voltamos ao mesmo) se todos cumprissem,


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a classificação do grupo colocá-lo-ia sempre acima de qualquer desagradável eventualidade. Para bom entendedor… Falaram-nos também do lema do Colégio. “Servir”. Sem nenhuma palavra que o antecedesse ou sucedesse, “Servir” apenas, como se qualquer termo adicional lhe viesse limitar o âmbito ou retirar a força. Servir as instituições em que nos integrássemos, servir as Forças Armadas, servir a Sociedade, servir a Pátria. O colectivo preferindo o individual, em dádiva despojada de interesses, da própria vida, se necessário… Nós ouvíamos em silêncio, esmagados pela grandeza do conceito. E à noite sonhávamos com o país em perigo, invadido (por quem? Mas que interessava isso num sonho?!), o batalhão colegial mobilizado como último recurso, avançando em direcção à linha da frente (o velho tanque que estava no canto da parada ressuscitado, galgando obstáculos sem temor), e virando o desfecho da última e definitiva batalha, a Pátria finalmente salva. Patetices de garotos, dir-se-á, em noites de sonos mal dormidos. É claro que sim! Mas nós íamos interiorizando a essência daqueles ensinamentos. E sobre os princípios que já trazíamos de casa, pedra a pedra, o nosso carácter ia-se moldando, numa mescla de dureza e de valores de honra, de firmeza de procedimentos e de romantismo de histórias do Rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda. …Até hoje? É bem provável que sim… Mas regressemos aos aspectos mais práticos da nossa acelerada instrução! Nessa altura aprendemos também a fazer a continência: primeiro estende-se o braço à altura do ombro, depois flecte-se até o dedo indicador tocar na têmpora com a palma virada para a frente, finalmente desfaz-se tudo com um movimento enérgico para baixo. (O braço direito, pateta, a continência faz-se com o braço direito, quero lá saber se és canhoto!) Decorámos também os postos do Exército e da Força Aérea. A saber: soldado, 2.º cabo, 1.º cabo, furriel, 2.º sargento, 1.º sargento, sargento-ajudante, alferes, tenente, capitão, major, tenente-coronel, coronel, brigadeiro, general e marechal – este último um posto honorífico, conferido apenas a quem tivesse prestado altos e relevantes serviços à Pátria. (Nada portanto dessas modernices de majores-generais e tenentes-generais, cujo verdadeiro significado ainda hoje me escapa, humildemente o confesso). A seguir falámos de divisas, galões e estrelas, e de quem vencia ou não a nossa continência: no caso, a bandeira nacional e o hino, os oficiais, que a deveriam retribuir, e – importantíssimo! – também o busto do marechal Teixeira Rebelo, fundador do Colégio Militar, que se encontrava no átrio do edifício antigo e de cuja mudez de bronze, por compreensíveis razões, não se esperaria a regulamentar retribuição. E explicaram-nos depois que em assuntos de postos e cumprimentos militares mais valia pecar por excesso que por defeito,

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antes designar por major um alferes e fazer a continência a um sargento que chamar furriel a um tenente ou passar por um capitão a assobiar a marcha da Madragoa. Entendido? Conceito resumido a reter: nestas coisas de continências e hierarquias, na dúvida, antes a mais que a menos. Os postos e distintivos da Marinha, mais confusos, com capitães-disto-e-aquilo lá no meio e argolinhas nos galões, ficaram para depois, já como matéria a ministrar nas aulas de “Infia” – que é como quem diz, nas aulas de Instrução Militar. Não ficámos portanto a dominar completamente este assunto, mas em todo o caso já tínhamos obrigação de possuir os conhecimentos suficientes para não cumprimentar de continência um inspector da Carris, como desastradamente me aconteceu alguns dias mais tarde. Um episódio a todos os títulos lamentável, que se conta em duas palavras. Vinha então de casa, numa das primeiras vezes em que saímos de fim de semana. Seriam talvez umas nove e meia da noite quando apanhei o 13 nos Restauradores, que arrancou quase vazio. À medida que ia progredindo foram entrando depois, entre raros passageiros civis, alguns alunos do Colégio, por sinal todos “ratas”, que se iam sentando aqui e ali (Então que tal o domingo? Ouviste o relato do Benfica? E aquele golo do Águas, pá... Grande golo!). Eis senão quando, na paragem de Sete Rios entrou pela porta do guarda-freios um personagem imponente, fardado a preceito, com abundância de galões e boné na cabeça. Calmamente abriu a porta de acesso ao compartimento dos passageiros e avançou em direcção à retaguarda. O primeiro aluno por quem passou foi colhido de surpresa (que farda seria aquela? um Almirante? um General? alguém estrangeiro, sabe-se lá…), os neurónios a buscar afanosamente uma resposta, que de todo em todo não chegava. Na dúvida (mais vale a mais que a menos!) levantou-se de um salto e fez a continência. O cumprimentado seguiu, imperturbável. Depois o segundo aluno, ante o exemplo do primeiro, repetiu a saudação. E o terceiro…e o quarto… até que o personagem, chegando ao fim do corredor, voltou para trás e começou a pedir delicadamente os bilhetes que já haviam sido picados pelo revisor, para os picar uma vez mais. Cenas da vida militar… secção infantil. Muitos anos mais tarde, já capitão-tenente da nossa Marinha, recordei este episódio em circunstâncias um tanto pitorescas e que com ele têm um certo paralelismo. Estava então em comissão de serviço em Macau, onde, entre outras coisas, comandava uma lorcha, que ostentava exactamente o nome daquele território. Era um navio pequeno, de vela e motor, réplica de uma antiga embarcação tradicional, com uma guarnição de três portugueses e sete chineses. As suas missões compreendiam o apoio à Escola de Pilotagem local e visitas de cortesia e representação ao exterior. Estávamos nessa altura a realizar uma longa viagem que nos levou ao Vietname, Singapura, Malásia, Sri-Lanka, Tailândia e Índia,


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locais onde, em conjunto com outras entidades de Macau, nos integrávamos num programa de divulgação dos aspectos da história, da cultura e da economia deste território e do país. Acabávamos precisamente de atracar em Cochim. À nossa espera, para além das autoridades oficiais, encontrava-se Ramesh Menon, uma destacada figura local que havia sido o nosso interlocutor aquando da preparação do programa da visita àquela cidade. Era um indivíduo bem-disposto, sensivelmente da minha idade, sempre pronto a intercalar uma boa gargalhada no trabalho sério e com quem foi fácil descobrir afinidades. Assim que desembarquei e concluí os cumprimentos da praxe, o Ramesh pegou em mim por um braço e disse: “Vem, vais receber o cumprimento tradicional da província de Kerala!”. E ante a minha surpresa (nada daquilo estava no programa, mas a Índia não é propriamente o Japão nestas coisas…) conduziu-me por entre uma extensa ala de jovens, empunhando chapéus-de-sol de abas largas e cores garridas. Ao fundo, estava nada menos que um elefante, ajaezado a preceito e com o cornaca em traje de gala! Avancei resoluto, mas parando prudentemente a uns quatro metros do bicho, o Ramesh um passo atrás de mim. De repente, o cornaca empertiga-se no seu posto e ergue os braços, uma das mãos empunhando um stick de marfim, com fitas multicolores de seda e um gancho metálico na ponta. O elefante, não lhe ficando atrás, levanta as patas da frente e a começa a bramir, a tromba fremente, apontando céu… E eu ali à frente, com a sensação de quem entrou por engano na pista do circo, entre o maravilhado e o aturdido… Tinha que fazer alguma coisa, era evidente… mas o quê, santo Deus? Meio segundo de hesitação… e fiz-lhe a continência, pois claro, em movimentos caprichados, que a teatralidade do momento não pedia outra coisa! A assistência rompeu em aplausos. E eu, de braço dado com um Ramesh de sorriso rasgado, regressei a bordo, enquanto ia pensando que acabara de juntar um elefante a um Inspector da Carris no meu rol de continências bizarras! Mas deixemos estas histórias de marinheiro reformado e voltemos ao Colégio… Aprendemos igualmente que o Exército tinha instituído um singular sentimento de posse quando se tratava de interpelar ou referir um camarada: o meu capitão para aqui, o nosso tenente para ali, ó nosso cabo então que vida é a nossa? Ainda pensei que tais expressões se aplicassem apenas a quem nos estivesse directamente ligado: “bom dia meu capitão” seria naturalmente o cumprimento a dirigir ao nosso Comandante de Companhia (e não a outros), o nosso tenente pressupunha, por idêntico motivo, uma referência ao seu adjunto. Mas não, a coisa afinal era de âmbito geral. Não se aplicava, porém, aos alunos. Não se ouviria pois dizer “ó meu Comandante de Companhia”, ou “o nosso 3 estrelas da 1.ª”. “Ó 218”, ou “o 21” chegavam perfeitamente. Também não se aplicava às roupeiras e aos serventes, que se tratavam por “dona” e por “senhor” – se bem que em relação a estes últimos a coisa às vezes se simplificasse (Ó Sebastião, quando é que vem a porra da repetição?). Em contrapartida eles, que se

deveriam referir a nós como o “senhor aluno”, também se esqueciam frequentemente da deferência, coisa que aliás não incomodava ninguém. Os professores eram, na generalidade, oficiais do Exército do quadro permanente, ou civis travestidos de milicianos, alguns deles de vetusta idade, mantendo-se teimosamente como tenentes ou capitães. Davam assim uma imagem algo incongruente, pois associávamos estes postos a gente bem mais jovem e ginasticada. Faziam umas continências um bocado apaisanadas, às vezes vinham mesmo à civil, mas eram oficiais de pleno direito. O tratamento devido compreendia, por consequência, os clássicos “meu” e “nosso”, seguidos do respectivo posto. Civis genuínos a leccionar havia poucos: o “Don-Don”, professor de Francês e pai do nosso malogrado 29, o Cruz Pinto, professor de Francês, o Pina Lopes, mestre de Trabalhos Manuais (secção papéis de lustro & cartolinas e depois nosso professor de Desenho no 3.º ciclo), o Oliveira, também mestre de Trabalhos Manuais (secção barros & madeiras e por isto mesmo conhecido por “Mestre em Pau”), o “Pichas” (“Teacher”, para os mais púdicos) professor de inglês como esta última alcunha sugere, e o inesquecível “Carioca”, maestro e professor de Canto Coral. A estes correspondia o tratamento universal de “Sôtor”, com exclusão óbvia de qualquer pronome possessivo antecedente. E era tudo. Dávamos assim por dominado mais um assunto importante da nossa formação. Urge, contudo, fazer um reparo: o “Don-Don”, o Pina Lopes, o “Pichas” – mas que familiaridade, que falta de deferência, que falta de respeito, direi mesmo, vem a ser esta? Reconheço a falta – que não posso negar, nem tão-pouco justificar... É um facto! Mas em boa verdade era assim que os tratávamos... E sendo isto um repositório de memórias, houve que optar entre o respeito (atento, venerador e obrigado) pelos excelentíssimos – que, quando muito, se alcandoravam ao posto de tenente-coronel do Exército – ou pela Memória propriamente dita, que é bem mais antiga e tem graduação garantida no posto de deusa em várias hierarquias clássicas. E a antiguidade, nestas casas, é um posto a respeitar… Ficamo-nos portanto (não tenho outro remédio!) pelos “Don-Dons”, pelos “Pichas” e pelo que mais adiante se verá! Sem que isto – e agora sem qualquer ironia – pretenda beliscar a enorme consideração devida ao corpo docente do Colégio, cuja craveira tem perdurado bem alto desde a sua fundação! A eles estamos todos nós reconhecidamente agradecidos. Bem hajam!! Mas adiante… Um dia fomos surpreendidos pelo aparecimento de dois personagens fardados, já de certa idade, ar importante, conversando entre si em voz baixa e andando compassadamente, enquanto distribuíam com pompa e circunstância continências à esquerda e à direita. Um ostentava estrelas em cima de passadeiras vermelhas (um general, caramba! nunca tinha visto nenhum em carne e osso…) e o outro uns galões dourados, com uma fita larga e duas estreitas


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(ora deixa lá ver o que isso é… uma larga e uma estreita, major, uma larga e duas estreitas… uma larga e duas estreitas… tenente-coronel, é tenente-coronel de certeza!). Quem seriam? - Olha o “Dito” e o “Sub”… – murmurou um graduado ao pé de mim. Fiquei na mesma. - O Director e o Subdirector – esclareceu alguém. Ah!... – pensei eu. Nem mais: Raul Cordeiro Pereira de Castro – o “Lambadanas” – general de Infantaria e Director do Colégio; e Frederico Alcide de Oliveira, Tenente-Coronel do Estado Maior – o “Olho” – Subdirector. Desconheço a origem da alcunha do Director e nem sei mesmo o que possa significar a palavra “Lambadanas”. Mas lá que ele tinha cara disso, tinha! Quanto ao Subdirector, a questão parecia ser mais concreta. Contava-se que um superior lhe terá dito um dia, ao que consta com uma certa fúria, (e passo a citar): – Olhe meu amigo: você é pequenino, escuro, enrugado e só faz merda. A partir de agora passa a ser conhecido pelo “Olho do Cu”! Pelo que era essa a verdadeira alcunha do Subdirector: “Olho do Cu”. “Olho” era só para abreviar. Há quem diga, no entanto, que foi o “Carioca”, em desabafo para os alunos e numa das suas fúrias espontâneas, que assim definiu imprudentemente Sua Excelência. Como de costume relato tudo isto sob reserva: não assisti ao evento (qualquer que ele fosse) nem, por razões que espero compreendam, indaguei junto dos próprios a veracidade do relato. Se este não corresponder à verdade, no todo ou em parte, aqui ficam as minhas desculpas ao Professor Jaime da Silva, ao nosso tenente-coronel e à peça anatómica. (Mas que a descrição condizia, isso ninguém pode negar!…). “Lambadanas”, “Olho”… “Diabo”, “Chinês”, “Matateu”… Don-Don”, “Carioca”… será que toda a gente no Colégio tinha uma alcunha? Quase! Mas a resposta é, apesar de tudo, negativa – embora fossem abundantes e, como acabámos de ver, se alcandorassem ao mais alto nível! Bastava que um traço se tornasse notado – e a perspicácia colegial era implacável… – para que uma alcunha certeira se colasse na pele de quem o exibia! (Então não se estava mesmo a ver que o 506 tinha que ser o “Buda”? E o 359 o “Chinês? E o 44 o “Paxá”? E o D. Duarte de Bragança o “Reizinho”? Podiam lá ser outra coisa!...). Uma vez colada, a alcunha era para a vida. E com direito a passagem por herança a familiares, perpetuando no Colégio gerações de “Don-Dons”, de “Diabos”, de “Mexicanos”...

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Para além das alcunhas aplicadas às pessoas, havia o hábito de abreviar palavras (o “Dito”, o “Sub”, os “sorjas”, a “enferma”…) e também uma terminologia própria do Colégio, um jargão impenetrável a quem não o conhecesse, com o qual nos íamos familiarizando a pouco e pouco. Os “Cães” eram os professores, a “Infia”, como já vimos, a disciplina de Instrução Militar, a “bolama” os doces trazidos de casa… e por aí em diante. Quando demos por nós já se tinha passado quase uma semana… e era sábado, dia 10 de Outubro! Dia de saída, portanto!! A manhã passou a voar, vendo com crescente ansiedade aproximar-se o momento de voltar a abraçar os Pais, com a cabeça a fervilhar de novidades (e de desabafos, também!), que urgia partilhar. Mas à tarde, como corolário de toda aquela semana extraordinária, iríamos participar na nossa primeira cerimónia oficial: o batalhão dava-nos formalmente as boas-vindas e apresentava-nos o seu guião. Almoço acabado, para quem já tinha farda de saída (Loureiro & Antunes e Cooperativa Militar ainda tinham alguns trabalhos atrasados) foi o grande teste aos conhecimentos de lustros & graxas obtidos nas precedentes aulas maternais. As três da tarde todo o batalhão formou nos claustros, connosco em primeiro plano, desarmados, com barrete e luvas castanhas, contrastando com os restantes alunos, veteranos nestas andanças, que se apresentavam devidamente armados e envergando barretina, cinturão, granadeiras e luva branca. Depois da bandeira e do guião se incorporarem na força, da revista e de umas palavras mais ou menos de circunstância proferidas pelo Brigadeiro Director, o Comandante de Batalhão tomou a palavra e deu-nos as boas-vindas à família colegial. Como já sabíamos, mas nunca era demais relembrar, “Servir” seria para sempre o nosso lema, em generosa abdicação de interesses individuais, preteridos pelos valores mais altos do colectivo. Lá estava pois a palavra sagrada, escrita a letras negras no listel do guião, que a partir de agora seria nosso também. No fim abraçou o 230, Tribolet, o mais pequeno de nós, por isso mesmo alcunhado de “Batalhãozinho”, e que por direito próprio e exigências do regulamento de ordem unida ocupava o primeiro lugar da primeira fila do 1.º pelotão da parada. Concluída a cerimónia, agora sim, era altura de sair de fim-de-semana. E fardados a preceito, como não podia deixar de ser. A partir daqui, civilices só nas férias! Isto, é claro, era um bocado teórico, em especial para quem, como eu, morava na província, onde o olhar vigilante dos oficiais


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do Colégio difi cilmente chegaria. (Mesmo em Lisboa, para dizer a verdade, este olhar era um bocado embotado, quando se verificavam alguns encontros inesperados…). E assim, se nos primeiros anos ainda fazia o trajecto entre a capital do Império e a minha Torres Vedras natal devidamente uniformizado, a partir de certa altura alguns passageiros da automotora das cinco e meia viam entrar um “Menino da Luz” na casa de banho (para que raio levará ele aquela maleta?) e sair de lá um civilíssimo jovem, com uma fatiota talvez um pouco amarrotada mas gloriosamente na moda. Nessa altura, de acesa contestação juvenil (e não só) à ordem estabelecida, as fardas estavam decididamente out. Automotora das cinco e meia, disse eu… Apanhei-a pela primeira vez nesse sábado em que, também pela primeira vez, saímos de fim-de-semana. Junto à porta principal do edifício antigo aguardava-me o meu Pai, já acompanhado do meu irmão mais velho, que também acabara de entrar para o Colégio, para o 2.º ano. Depois dos beijos tradicionais surgiu a inevitável pergunta, disparada em tom despreocupado (seria só o tom?): – Então como é que isso vai? – Vai bem! – disse eu, de forma que o deve ter descansado. Parámos, entretanto, mal tínhamos saído o portão e posto pé no passeio (na rua, enfim!!). Mas coisa estranha, pararmos ali… Tal como era estranho não ver o velho Austin A70 que me havia ido buscar à maternidade dez anos atrás (e ainda haveria de prestar outros tantos anos de bons serviços em nossa casa). – Vamos apanhar o eléctrico – esclareceu o meu Pai – e depois vamos para Torres de comboio, que é o que vocês vão passar a fazer no futuro. Vejam bem o que há a fazer, para não se enganarem depois. Estão aqui vinte e um escudos – e distribuiu uma nota e uma moeda a cada um, perfazendo a quantia certa – chega para as viagens de ida e volta e ainda sobra algum. Poupem-no, para o terem quando for preciso – acrescentou com um ar estranhamente sério. Sobravam dez tostões (olha a fortuna!), que davam para comprar o “Condor Popular” ou, ao fim de duas semanas e meia de poupança, o “Falcão” ou o “Mundo de Aventuras”, janelas abertas em forma de quadradinhos para o universo fantástico do Super-homem, do Buffalo Bill, do Buck Jones, do Zorro espadachim de

inconfundível assinatura em Z e do Zorro cowboy, que disparava balas de prata, tinha um cavalo branco (Aiô “Silver”, avante!!) e um índio amigo chamado Tonto (que nome haviam de escolher para o único índio bom que aparecia naquelas histórias!...). Passaria então a ter dinheiro em minha posse – e meu – embora quase todo de destino certo e efémera duração. Haveria de o saber gerir. E embarcámos no 13. E o meu Pai: “Não se esqueçam deste número, à ida não passa aqui mais nenhum, mas na volta têm que o apanhar, senão sabe-se lá onde irão parar, subam, subam, aquele senhor ali é o revisor, ora peçam lá três bilhetes para os Restauradores”. E lá fomos nós, sentados em bancos de palhinha, vendo Lisboa desfilar, Estrada da Luz, Laranjeiras, Sete Rios, S. Sebastião, Fontes Pereira de Melo, Avenida da Liberdade, Restauradores, “cá estamos no fim da linha, é aqui que vão apanhar outra vez o eléctrico aos domingos, quando voltarem ao Colégio, não se esqueçam, ali é a estação do Rossio, toca a subir as escadas a pé (o elevador é para os velhinhos e para quem vai carregado de malas, não é para rapazotes como vocês, ainda por cima de mãos a abanar, e além do mais custa cinco tostões), cá está a bilheteira, façam favor de pedir dois bilhetes de fim-de-semana, em terceira, para Torres Vedras, cada um custa dezanove escudos (tenham atenção ao troco!), mais um só de ida, ora vamos à procura da Linha do Oeste, esta carruagem com bancos vermelhos não, que é de 1.ª classe, esta sim, com os bancos azuis é que é, toca a saltar antes que arranque!...” …Partida!! E a automotora arrancou, com um apito e um solavanco, engolfando-se na caverna do túnel do Rossio enquanto as luzes do tecto se acendiam, rumo a Torres, rumo à minha casa, rumo à minha Mãe. A primeira saída de todos nós (ou a segunda, ou a terceira…) deve ter sido semelhante a esta, não necessariamente na forma mas pelo menos na sua essência: muito em breve grande parte dos alunos saía do Colégio sozinha, e sozinha se desembaraçava nos transportes públicos, a caminho de casa. Um militar nunca se atrapalha! (Ou, na versão civil do meu Pai, ”um homem enrascado é pior que uma mulher bêbeda”, coisa que seria, no seu entender, o último degrau da escala de desorientação humana).


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O primeiro fim-de-semana foi uma vertigem (e as tias e as avós – Ai meu rico filho, que bem que te fica a farda! Que verde tão bonito no colarinho! Foste tu que engraxaste as botas? Olha o jeito que ele tem… – um suspiro enlevado a rematar a inspecção…). E o tempo a correr, a correr, ainda agora chegámos e já vamos partir (a nossa Mãe: levas aqui uns bolinhos…) e aquele nó a apertar outra vez na garganta… a apertar… Mas a apertar menos, na maior parte de nós, como se a perspectiva do reencontro com os novos-velhos amigos que também regressavam ao Colégio o estivesse a folgar um pouco. Na semana anterior havíamos tido uma recruta intensiva, em que aprendemos uma infinidade de coisas sobre o Colégio, sobre os seus usos e costumes, sobre as suas regras, as suas praxes e a sua ética. Já vislumbrávamos as regras básicas de sobrevivência do cumpre / não cumpre. Já tínhamos percebido que acima de nós existiam duas estruturas com poderes de mando, uma mais formal e distante, protagonizada pelos oficiais, e outra, bem mais próxima e actuante, omnipresente, constituída pelos graduados (à qual tínhamos que estar permanentemente atentos!). Já conseguíamos marchar sem trocar (mais ou menos…) o passo.

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Já sabíamos fazer a continência e conhecíamos (com algumas reservas!...) os postos e os distintivos militares. Já sabíamos fazer camas (assim, assim…) e cozer botões de forma que entrassem na casa certa (mesmo que um bocado de esguelha…). Já nos começávamos a entender com a comida e com os pequenos truques que lhe estavam associados. Já sabíamos que o Oficial de Dia era “o Homem”, que “panta” significava uma mentira e que “infelicidade”, mais que uma tragédia ou um azar, era, no Colégio, uma piada sem graça nenhuma… Já havíamos passado noites inquietas e outras em que o simples cansaço físico nos fazia mergulhar em sonos de chumbo. Já tínhamos a revelação (seguríssima!!) de uma boa dúzia de craques da bola… Já havíamos saído de fim-de-semana e preparávamo-nos (apesar de tudo, um pouco diferentes!) para regressar à nossa nova casa. Estávamos prestes a iniciar uma nova etapa na nossa vida colegial.

No dia seguinte, 12 de Outubro, iam começar as aulas.


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Recordando Recordações da Guiné (1966-1968)

Luís Joel Alves de Azevedo Pascoal 145/1948

Recordações da Guiné (1966-1968)

NRP Orion no Rio Cacheu – Guiné 1967


Recordando Recordações da Guiné (1966-1968)

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V

ários aspectos relacionados com o feliz aparecimento da “ZacatraZ” fizeram brotar reminiscências de há mais de quatro décadas, bem gratas ao meu coração. Logo a capa da nossa revista, em novo e apelativo formato, com a imagem do grande cabo-de-guerra e ilustre antigo aluno, o Marechal António de Spínola (33/1920), na época Brigadeiro Governador e Comandante-Chefe da Guiné. Em circunstâncias que adiante desenvolverei, a lancha de fiscalização grande (LFG) que eu então comandava – NRP Orion – coincidiu ser a primeira unidade naval estacionada nesse TO a ter a honra de receber uma visita sua, no decurso de uma missão operacional no rio Cacheu. Depois, a fotografia de um grupo de ex-alunos, militares e civis, por ocasião das comemorações do 3 de Março de 1967 em Bissau, reproduzida no interior da revista. Foi uma autêntica viagem de regresso ao passado, com a particularidade de alguns dos rostos ali visualizados desencadearem, por si só, o avivar de episódios há muito guardados na minha memória. Ressaltaram a meus olhos gritantes evidências: a do «tempus fugit»; e como nessa fuga o nosso corpo tanto se vai alterando e enfraquece; e ainda a amargura resultante de já tantos de nós terem dobrado a derradeira curva da estrada.

I

niciei a minha comissão de comando na Guiné em Dezembro de 1966. Tinha embarcado em Lisboa, juntamente com a minha guarnição, no NRP São Gabriel, navio reabastecedor de esquadra que curiosamente vim a comandar vinte anos depois. Após uma tirada sempre com bom tempo e mar de feição, o navio fundeou na foz do rio Geba, junto ao ilhéu do Caió, onde o aguardava o NRP Alfange (lancha de desembarque grande, ou LDG) para o transbordo e subsequente transporte do pessoal da Orion até Bissau. Sucede que o comandante dessa LDG era o 1º. Tenente José Fernandes Martins e Silva, também antigo aluno (174/1945), três cursos à minha frente no Colégio. Escusado seria dizer que recebi logo ali, durante várias horas, o melhor e mais completo briefing informal que poderia ambicionar sobre a situação militar no território, as características das principais bacias hidrográficas e riscos de

3 de Março de 1968 O Dakota que transportou os Antigos Alunos, na pista de Bubaque, para o almoço de confraternização realizado nesta localidade. Da esquerda para a direita: 2º José Paula Santos (192/1940), 3º Luís Joel Pascoal (145/1948), 5º José Machado Faria (117/1945), 8ºEugénio de Castro Nascimento (344/1925), na linha da frente à esquerda João Nobre de Carvalho (248/1952) e à direita Rui Soeiro Cidrais (334/1947)

navegação associados, bem como acerca do ambiente profissional e social existente em Bissau. A franqueza, a lealdade e a camaradagem apanágio dos “Meninos da Luz” permitiram sem surpresa abordar questões, dissipar dúvidas e tornar tudo límpido e claro para mim, um míope maçarico nas andanças da Guiné. Antes de sair para o mar com a Orion, uma vez terminado o programa de adestramento estabelecido pelo Comando da Defesa Marítima para as recém-chegadas guarnições, tive naturalmente ocasião de recolher as primeiras impressões da cidade de Bissau e de contactar com alguns que nela viviam. De entre os que não envergavam uniforme, e que consta da fotografia de referência, desejo assinalar o Fernando Voss Whanon (73/1936), mais conhecido à época por Fernando Lima, um autêntico senhor em termos de simpatia e hospitalidade, que estendia a muita gente e, em especial, à malta do Colégio em comissão de serviço na Guiné. Ele era um importante armador, com dezenas de unidades fluviais de transporte de arroz e de carga geral, indispensáveis à economia da província e ao abastecimento das populações. Atento à sua boa forma física, o Fernando Whanon jogava bem ténis e era possuidor de uma

alegre disposição de espírito, evidenciada de forma ainda mais efusiva nos jantares que gostava de organizar com frequência em sua casa. Recordo a propósito um grande amigo seu, desde as lides colegiais, o Luís de Guimarães Metelo (7/1933), outro participante nesse 3 de Março e já desaparecido, e que na altura era administrador da “Casa Gouveia”, uma grande firma de comércio de mancarra, oleaginosas e outros produtos, incluída no universo da CUF. Anos mais tarde, nas convulsões pós-independência, o Luís Metelo foi incansável e eficaz na mobilização de apoios e vontades em defesa do Fernando, que estava preso e corria perigo de vida, alvo de raivosas e infundadas acusações de extrema gravidade. Graças à solidariedade dinamizada pelo Luís, hoje podemos ver o Fernando jovial como de costume nas reuniões de confraternização da Velha Guarda.

NRP Alfange no Rio Cacheu – Guiné 1967


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Recordando Recordações da Guiné (1966-1968)

A primeira missão atribuída à Orion sob meu comando realizou-se em Janeiro de 1967 na bacia hidrográfica do rio Cacine, no sul da Guiné. Tal como era prática corrente para as LFG’s, consistiu no patrulhamento e fiscalização desse rio, a montante da península de Cassumba, tendo em vista dissuadir e interceptar cambanças, isto é travessias de pirogas ou canoas de uma para a outra margem, utilizadas em transporte de pessoal, armas, munições e mantimentos destinados ao IN e provenientes da região fronteiriça da Guiné Conakry. Fiscalizavamos a navegar silenciosamente, de noite, em ocultação de luzes e com o radar em cima, fundeando durante parte do dia nas aproximações ao aquartelamento da CCaç de Cacine. Na mesma área do rio havia estacionada em permanência uma lancha de desembarque média (LDM) para complementar e estender o esforço de fiscalização às zonas onde os fundos baixos não permitiam o acesso às LFG’s. Na manhã seguinte à nossa chegada atracou à Orion uma dessas LDM’s, cujo patrão (ou seja, o cabo de manobra e praça mais antiga), depois de me pôr ao corrente das especificidades locais, acrescentou que iria ter o comandante da companhia de Cacine (não se lembrava do nome do sr. Capitão...) como convidado para um almoço típico no poço da lancha. Eu não podia, evidentemente, substituir-me a ele e organizar um evento idêntico para essa mesma data, pelo que lhe pedi para transmitir ao sr. Capitão que, no fim do almoço, teria imenso gosto em recebê-lo na minha câmara para um café e digestivos. Perto do meio-dia avisaram-me que o oficial do Exército me queria cumprimentar antes do almoço e ao ser isso feito, tive a grata surpresa de deparar com o Cap. Artª José João Veiga da Fonseca, o 218/1945, comandante da “4ª” no meu 6º ano do Colégio, infelizmente já há muito falecido. Foi o início de um excelente relacionamento, com visitas ao quartel e à tabanca, almoços a bordo e improvisados jogos de futebol entre equipas de terra e mar. Impressionou-me a precariedade das instalações do quartel, a total carência de arcas frigoríficas e as dificuldades na obtenção atempada de géneros e víveres (incluindo cerveja fresca), e assim estabelecemos um circuito diário com os botes “Zebro” para tornar mais suportáveis as

condições de vida tão austeras do José João e seus comandados. Faziam parte de um dispositivo de quadrícula, efectuavam reconhecimentos limitados para além do arame farpado e de vez em quando sofriam flagelações com morteiros disparados da margem oposta do rio. Meses mais tarde, em novo período de fiscalização no Cacine, a Orion presenciou um desses ataques e de pronto ripostou com as suas duas peças Boffors de 40 mm, fazendo tiro rápido sobre uma clareira da mata onde o IN se acoitava, até que cessaram as morteiradas.

Tais armas, que a gíria naval da Guiné já tinha designado por «os canhões de Navarone» (à semelhança das bocas de fogo alemãs alvo duma acção de comandos britânicos no Mediterrâneo durante a II Guerra Mundial e que deu origem a um filme célebre), estavam bem dissimuladas na mata ribeirinha e protegidas por um banco de areia que se estendia cerca de 2.5 milhas náuticas a partir da linha de costa. O seu alcance eficaz de tiro cobria o eixo da barra; e como já tinha havido repetidas tentativas de ataque contra a navegação, o Comando de Defesa Maríti-

3 de Março de 1968 Almoço em Bubaque 1º plano Isaías Gomes Teixeira (235/1946), à direita Mário Baptista Coelho (55/1946), fila à esquerda Alberto Rodrigues dos Santos (17/1945), Luís Joel Pascoal (145/1948), Rui Soeiro Cidrais (334/1947), fila à direita José Veiga da Fonseca (218/1945)

Ainda em Janeiro de 1967 deu-se o baptismo de fogo da Orion, durante o citado primeiro cruzeiro. E aqui houve novamente participação directa do 174/1945 Martins e Silva e a sua Alfange. Conforme mensagem recebida de Bissau, saí a barra e efectuei rendez-vous com a LDG, a fim de receber instruções verbais e escritas sobre uma operação planeada para o dia seguinte. Tratava-se de uma operação conjunta (com efectivos do Exército e da Força Aérea) destinada a eliminar os canhões sem recuo de 57 mm do IN referenciados na citada península de Cassumba.

ma da Guiné determinara que as nossas unidades navais, LDM’s e embarcações só demandassem a barra durante a noite e em ocultação de luzes, enquanto não fosse erradicada a ameaça. O conceito da operação conjunta, em termos gerais, era o seguinte: pelas 15H00 do dia D a Orion, em postos de combate, iniciaria a aproximação directa à mata em causa, abrindo fogo sobre a localização estimada do IN, de forma a provocá-lo para ripostar e permitir uma localização mais precisa dos canhões pela observa-


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ção da sua chama à boca. O NRP Pedro Nunes, fundeado ao largo de Cassumba, abriria então fogo com as suas peças de 120 mm e coordenaria a acção. A Alfange, entretanto abicada num baixo da barra e tendo embarcado em Bissau uma secção de obuses de 82 mm do Exército, começaria também a fazer fogo. Para observação desse tiro conjunto contra costa, uma aeronave Dornier da FAP sobrevoaria Cassumba e transmitiria as correcções de trajectória adequadas. A visibilidade era excelente e assim à hora estabelecida iniciei com a Orion o papel de ir “acossar o bicho”, aumentando a velocidade e disparando as duas Boffors, enquanto diminuia a distância a terra; a reação IN, claro está, não demorou e foi de acordo com o previsto – os canhões começaram a disparar, e eu logo reportei o facto para todos os intervenientes através da rede táctica. Mas a partir desta altura começaram a sentir-se os efeitos enunciados pela calista lei de Murphy: « Se houver a possibilidade de alguma coisa dar para o torto, então de certeza isso irá acontecer». E assim foi: os primeiros projécteis lançados da Alfange, além de terem desregulado os obuses (não obstante estes estarem peados com uns sacos de areia e boças de fixação), provocaram o alquebramento parcial do poço da LFG, pelo que o Martins e Silva, após rápida mas cuidada inspecção, viu-se forçado a cancelar o tiro curvo contra o alvo. Entretanto, o Pedro Nunes, um antigo Aviso de 2.ª classe há muitos anos adaptado e empenhado em trabalhos hidrográficos na Guiné – sem ter tido ocasião de disparar as suas potentes peças, a não ser com tubo reduzido – fez um ou dois disparos e logo registou falha de fogo, além de fortes danos estruturais provocados pelos esforços de tensão e vibrações associados com o tiro. Em consequência, foi obrigado a cessar também, prematuramente, a sua participação operacional. Por outro lado, o Dornier de regulação de tiro não conseguia chegar à vertical dos «canhões de Navarone» por estar a ser sujeito a um intenso fogo das baterias antiaéreas aí existentes sem ter meios próprios de ataque ao solo nem dispor do apoio de qualquer aeronave T6 ou Fiat G-91. Não

podia, assim, corrigir eficazmente o fogo dos navios devido aos erros de paralaxe; mas aliás cedo esse fogo deixou de existir, como se disse acima. Em suma: dos meios planeados para a operação restou apenas a Orion, a navegar em constantes ziguezagues e a alta velocidade, mas com bruscas variações desta, para o navio não ser enquadrado pelo tiro do IN, mantendo os disparos das Boffors sem contudo dispor da indicação externa ou da percepção própria de os canhões terem sido danificados. Durante cerca de 20 minutos, até ser recebida ordem do Pedro Nunes para terminar a operação, a minha LFG esteve debaixo de fogo, o qual fazia erguerem-se sinistras gerbes de água escura e lodosa bem perto do costado, felizmente sem que nenhum projéctil nos tivesse atingido. Má pontaria dos “turras”, ou protecção celestial da Virgem Maria, ou talvez ambas! Passaram semanas e meses até a guarnição da Orion poder festejar o seu “Milénio”, ou seja, o primeiro ano de comissão de campanha na Guiné. Nesse intervalo, recordo alguns jantares em Bissau que ofereci a bordo, entre outros, a vários ex-alunos constantes da fotografia em causa, como o já citado 73/1936 Fernando Whanon e o 17/1938 Ricardo Durão, então major a prestar serviço no Comando-Chefe. Não dou novidade alguma se disser que, nesse como em outros combates de garfo e faca mais copos, o Ricardo, com a sua voz sonorosa e o seu manancial inesgotável de episódios pitorescos, dominava por completo o ambiente circundante e não dava tempo de antena a mais ninguém. Fora de Bissau, agora ao Norte, no rio Cacheu, tive também oportunidade de confraternizar com o 343/1947, Cap. Art.ª Diogo Baptista Coelho, do curso um ano mais antigo do que o meu no Colégio, e que na altura comandava uma companhia aquartelada em Binta, localidade a cerca de 70 milhas da foz. Lembro-me de ele me ter contado um acontecimento que não resisto a reproduzir. Um certo dia, fundeou ao largo de Binta uma LFG, com um recém-instalado sistema de armas, único do seu género na Guiné. Em frente ao aquartelamento, na outra margem

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do rio, havia uma clareira no tarrafe de onde o IN, de vez em quando, se atrevia a flagelar o quartel. Na sua proximidade existia uma tabanca e uma bolanha, que a população cultivava. Ora para evidenciar a excelência e eficácia daquela nóvel arma o comandante do navio convidou o Diogo e outras individualidades para assistirem a uma demonstração. Já com os convidados a bordo e expectantes, o comandante anunciou que iria ser feito um lançamento de mísseis contra a perigosa clareira. E esclareceu que, na sua essência, o sistema consistia num reparo de tubos cruzados, uns apontados para bombordo e outros, em igual número, para estibordo. Ora, iniciado o fogo, todos a olhar para a clareira a estibordo, eis que se ouve um alarido enorme... a bombordo, na margem oposta do rio: a salva de mísseis foi atingir, não a clareira mas a bolanha, de onde incautos agricultores fugiam a sete pés, espavoridos! É que tinha acontecido uma inesperada falha no sequenciador eléctrico do lança-mísseis! Felizmente, não houve vítimas; mas o certo é que daí em diante passou a haver sempre muito pouca gente na bolanha quando fundeava em Binta uma LFG, equipada ou não com esses mísseis. Para terminar estas reminiscências, e entrando já no segundo semestre de 1968, devo mencionar uma outra missão atribuída à Orion também no rio Cacheu. Nessa bacia hidrográfica, as LFG’s, além das missões de cruzeiro em que apoiavam e coordenavam o emprego das duas lanchas de desembarque médias (LDM’s) aí estacionadas em permanência, davam escolta às LDG’s vindas de Bissau em missões logísticas. Também as LFG’s como a Orion cumpriam no Cacheu operações com destacamentos de fuzileiros especiais (DFE’s) – ou com outros efectivos navais – em que não só realizavam o transporte nos trânsitos de ida e volta para Bissau como proporcionavam, na zona de acção, o indispensável apoio de navegação radar, de comunicações e, quando necessário, de fogos durante as fases de desembarque e reembarque das suas operações em terra. Ora num dia de Julho de 1968 a Orion estava fundeada ao largo de Ganturé, tendo horas antes desembarcado do navio uma secção de mergulhadores-sapadores para inactivar um campo de minas anti-pessoal


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Recordando Recordações da Guiné (1966-1968)

implantado pelo IN num local já referenciado junto à margem sul, para juzante. Essa secção era comandada pelo meu sucessor directo no Colégio, o 145/1954 2.º Tenente Henrique Lopes de Mendonça, a quem estava ligado por fortes laços de amizade desde os seus tempos de “rata” e filho de um respeitado oficial de marinha, também ex-aluno e que eu conhecia bem, o Capitão-de-mar-e-guerra Manuel Lopes de Mendonça (144/1923). Seriam umas dez e trinta da manhã quando sou chamado ao posto rádio e reconheço a voz inconfundível do 230/1945 João Almeida Bruno, à época capitão e ajudante de campo do Governador e Comandante-Chefe, o então Brigadeiro António de Spínola. E de que se tratava? Apenas isto: Sexa ComChefe desejava embarcar, dentro de 30 a 40 minutos, na LFG para melhor se aperceber in loco das particularidades das missões navais na zona. Foi uma autêntica surpresa, e grande honra, pois seria a primeira visita do insigne cabo-de-guerra a uma unidade naval na Guiné, quer atracada em Bissau, quer em zona de operações. Teve que se pôr em execução, a toda a força avante (ou, melhor dizendo, face ao contexto, a galope sem estribos), um plano de contingência nunca praticado antes: baldeação expedita do convés, ponte e espaços exteriores, com arrumações de material à vista; e passagem imediata de todo o pessoal ao uniforme de cotim lavado, permitindo-se no entanto as relaxações próprias da situação de campanha longe da base. Em simultâneo, instruiu-se o cozinheiro e o impedido para preparar e servir uma refeição de peixe grelhado, saladas (com pouco sal) e frutas, regada a água Perrier – mas, atenção, nada de álcool sobre a mesa. Com o Brigadeiro a bordo, suspendi ferro e comecei a navegar para montante do rio, tendo conduzido Sexa ComChefe à ponte alta para uma panorâmica sem entraves da situação local. O pessoal ocupava os seus postos de combate e ao descortinar pela amura de estibordo uma clareira junto ao rio, dei ordem ao apontador da Boffors de vante para começar a bater a orla da margem, com a cadência de tiro-a-tiro. Spínola interessou-se vivamente com o ritmo de fogo, sobretudo ao ver os locais da margem propícios para emboscadas de RPG 7 e ao ser-lhe focado

o muito treino e perícia artilheira requeridos para se conseguir fazer disparos singulares e não rajadas com munições de 40 mm, poupando-se assim no seu consumo e concentrando o efeito dissuasor, se não letal, do rebentamento cadenciado dos projécteis ao longo da faixa de possível ataque do IN. Mostrei-lhe também a real capacidade de manobra da LFG em inverter o rumo em espaços limitados, bem como em efectuar acelerações súbitas e, em sentido contrário, desacelerações de emergência com extinção total de velocidade. Apontei-lhe, por último, um dos locais típicos na margem onde era possível as LDM’s e os botes Zebro abicarem para desembarque de fuzileiros nas suas missões de combate. Já na câmara do comandante, com o almoço a decorrer sem novidade, notam-se de súbito gritos e correrias no exterior da Orion. Fiquei estarrecido, já que isso em nenhuma situação seria expectável ou autorizado no navio, muito menos ainda com uma alta entidade a bordo. Peço licença e saio da câmara e sou informado que tinha ocorrido uma explosão no local de desembarque dos mergulhadores-sapadores. Vejo dois botes de borracha a aproximarem-se velozmente do navio e, no primeiro deles a chegar, reconheço a figura ensanguentada e inânime do Henrique Mendonça. Soube depois que tinha sido ele, o comandante, a cometer um deslize terrível: depois do campo de minas ter sido devidamente sinalizado e ficado pronto para ser detonado, deu ordem para recolher as bandeirolas, após o que ele próprio, inadvertidamente, fez aquilo que as regras de segurança de todo em todo proibiam – deu um passo à retaguarda! Accionou assim uma mina anti-pessoal de fabrico rudimentar; ficou muito ferido, sobreviveu felizmente mas ficou com um dos pés esfacelado, tendo mais tarde que ser sujeito à sua amputação. Foi este o desfecho inesperado e trágico de uma jornada bem ao arrepio da normalidade. O Brigadeiro Spínola deu logo ordem para o Henrique Mendonça ser evacuado para Bissau na aeronave que estava ao serviço do ComChefe e que o tinha levado a Ganturé. Sei que durante o período de internamento no Hospital Militar, antes da sua ulterior evacuação

para a Metrópole, o Henrique foi visitado todos os dias pelo futuro Marechal do Exército. O mesmo que, com um mínimo de aviso prévio, quis visitar a LFG na altura estacionada no Cacheu. A presença de Spínola a bordo, a ver o navio em acção e a ser visto, foi para nós da Orion um evento inesquecível, um rasgo de liderança e um factor de motivação de homens que calou bem fundo no íntimo dos marinheiros, conforme me afiançou depois, no trânsito de regresso a Bissau, o meu mestre do navio, um sargento de manobra íntegro e desembaraçado, da boa escola de marinharia e solidariedade social que foi a Fragata D. Fernando: «O pessoal gostou da visita do Senhor Brigadeiro, a navegar connosco neste rio; só é pena que o Senhor Comodoro Comandante Naval, há mais tempo na Guiné, ainda não tenha tido oportunidade de nos visitar nem em Bissau».


Recordando A “Boiada” de 1932

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João António Ferreira Lamas 75/1931

A “Boiada” de 1932 S

ua Excelência o Brigadeiro Director determinou e mandou publicar os artigos transcritos seguidamente, na Ordem Colegial nº 146, de 25 de Maio de 1932, lida ao fim da tarde por um graduado perante a formatura de alunos no “geral” de cada uma das 7 companhias do Colégio Militar. “Punição – Que, por estar abrangido pelo nº 94º do Regulamento Interno, pune com repreensão em Ordem Colegial o aluno nº 151, Patacho da Silva, por se dirigir em termos desabridos e inconvenientes ao oficial comandante da sua companhia. A este aluno é aplicável o art. 87º do mesmo regulamento, pelo que deverá cumprir quinze dias de reclusão em dois períodos” “Que, em virtude do artigo anterior e para cumprimento do art. 68º do Regulamento Interno, o Batalhão Colegial forme amanhã pelas 16 horas com a assistência do Subdirector e de todos os oficiais do Estado Maior do Colégio”. O que constou, como tendo dado origem a este caso, foi uma diferença de expressões sobre o mesmo facto, apresentadas ao aluno nº 151, João Eduardo Patacho

da Silva, por alcunha o “Maravalhas”, por 2 oficiais intervenientes no assunto, o último deles o Comandante da 7ª Companhia, por sinal bastante benquisto por todos os alunos, o Capitão Baltazar Moreira de Brito Xavier, ex-aluno nº 174 de 1898. O “Maravalhas”, ao receber deste oficial a opinião contraditória da expressa pelo outro, teria levantado a questão de qual dos 2 estaria a falar verdade. O “Conselho da 7ª”, designação que era dada à reunião dos alunos do 7º ano, da 7ª Companhia e graduados, considerou o castigo como exagerado, atendendo a ter tido origem num desentendimento entre opiniões de 2 oficiais sobre o mesmo facto. Os alunos da 7ª Companhia manifestaram o seu desagrado logo na refeição da noite desse dia (5ª refeição), em que era servido chá e pão com manteiga, e o “Conselho da 7ª” resolveu promover uma manifestação geral de todos os alunos do Batalhão Colegial, designada por “boiada”, na formatura de antes do almoço do dia seguinte. O Batalhão formou nos claustros, como habitualmente e, quando o Comandante

do Batalhão deu a voz de “sentido”, à chegada do oficial-de-dia, todos os alunos, após tomarem aquela posição, passaram a zumbir incessantemente, como se fossem um enxame de abelhas; “ZZZZ … ZZZZ …“. O oficial-de-dia dirigiu-se a todos os Oficiais Comandantes de Companhia presentes para tomarem as disposições necessárias para que os alunos seus subordinados directos se calassem. Todas as tentativas foram frustradas, como era natural. O oficial-de-dia mandou então seguir os alunos para o refeitório, onde é o actual museu, julgando assim pôr termo à situação. O zumbido nem assim desapareceu; “ZZZZ …, ZZZZ …”. O “enxame” seguiu para o refeitório por companhias e, quando o Comandante do Batalhão deu a voz de “sentar”, altura em que normalmente se passava do silêncio da formatura para uma vozearia ensurdecedora, passou-se do zumbido geral para um silêncio de morte. Todos nos servimos da sopa e depois do prato, trazidos para as mesas pelos “fâmulos”, mas ninguém


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Recordando A “Boiada” de 1932

tocou nessa comida, limitando-nos apenas a comer pão e água. Vários oficiais deambularam pelas mesas a incitar a que comêssemos como normalmente, mas ninguém o fez. O silêncio acabou logo após o Comandante do Batalhão ter dado a voz de “levantar”, voltando a ouvir-se o zumbido, “ZZZZ …, ZZZZ …”, até à ordem de “destroçar” dada à chegada a cada companhia. A formatura do Batalhão para as 16 horas não se realizou.

nas de competência exclusivamente superior à da Direcção do Colégio. A Ordem Colegial nº 147, do próprio dia da “boiada”, 26/5/32, publicava o seguinte artigo:

A Direcção criou logo um “Conselho de Disciplina”, de acordo com o Regulamento Interno do Colégio, o qual passou a funcionar na Biblioteca e iniciou imediatamente um processo de averiguações a todos os alunos do 7º ano e aos graduados do 6º ano.

“Dissolução de Companhia. Que, por determinação de Sua Excelência o Ministro da Guerra, é dissolvida desde já a 7ª Companhia de alunos deste Colégio, sendo imediatamente excluídos do mesmo Colégio os alunos que nesta data estão presentes na mesma Companhia, que só voltarão a frequentar o Colégio quando se prove não terem cometido as faltas graves de insubordinação de ontem à 5ª refeição e formatura de hoje, nas averiguações a que se vão proceder.”

Os acontecimentos foram imediatamente comunicados ao Estado Maior do Exército, que os transmitiu ao Ministério da Guerra, por se prever a aplicação de pe-

Os alunos assim excluídos, referidos pelos respectivos números na Ordem Colegial nº 147 A, de 26/5/32, e na Ordem Colegial nº 148, de 27/5/32, foram os seguintes:

3/1925 - Joaquim António Loureiro de Amorim

90/1923 - Manuel Joaquim Machado Teixeira Ruela

292/1925 - António Herculano de Miranda Dias

5/1925 - Eduardo Filipe Amâncio Pereira

95/1927 - Rui Ferreira Molarinho do Carmo

306/1926 - José João Águas de Mendonça Vila Lobos

7/1925 - Alberto Fernandes Moreno

97/1925 - Luís Clemente Pereira Pimenta de Castro

318/1924 - José Catela Teixeira Stochler de Albuquerque

10/1927 - Manual Bagulho Santana Marques

102/1925 - João Martins Vaz de Oliveira

326/1927 - José Galamba Vaz

16/1927 - Fernando Augusto de Resende Sobral Cid

103/1927 - Luís Nuno dos Santos Magalhães Correia

328/1924 - José Rodrigues de Oliveira

17/1924 - José Joaquim Correia

109/1926 - Baltazar Simas Ferreira Júnior

339/1924 - Victoriano Rebelo Coutinho

22/1924 - Gustavo Adolfo de Brito Pitschiller

111/1926 - Henrique Ferreira Simões Tavares

344/1925 - Eugénio Carlos de Castro Nascimento

25/1927 - Fernando Ferreira Valença

127/1927 - Carlos Coutinho de Azambuja Martins

345/1925 - Raul Miranda da Silveira Malheiro

26/1924 - Joaquim Inácio Pereira Vaz Júnior

133/1925 - Jorge de Moura Azevedo

350/1925 - Amândio Ribeiro da Costa

30/1927 - Rui César de Chaby Lara

150/1927 - Eduardo José Belo Correia Pereira

352/1927 - Fernando Leal Robles

37/1927 - Eduardo José Franco Ferreira

154/1926 - Alberto Marques de Abreu

357/1923 - Jaime Valente Moutinho da Silva Pereira

41/1926 - Octávio Rosado Fernandes Costa

158/1926 - João José Coca Paredes

365/1925 - José Eduardo de Macedo Moreira Sales

44/1925 - Afonso de Chaby Rosa

176/1923 - Gilberto de Almeida Mendes

372/1924 - Duarte Henrique Pinto da Rocha e Cunha

48/1926 - Fernando Bentes Prata Dias

179/1927 - José João Henriques de Avelar

397/1925 - Rodrigo Machado da Cruz

49/1927 - José Sequeira Marcelino

206/1925 - António Sérgio Pessoa

400/1925 - Benjamim Leite Cardoso

50/1925 - Aníbal Mário Rebelo Marques

214/1925 - António Bravo

401/1927 - Afonso Henriques da Gama Braga de Sá Teixeira

55/1927 - Artur Mesquita

219/1927 - Teófilo Ferreira de Freitas Moura

410/1924 - Anacleto Sanches Mergulho

56/1924 - Joaquim Augusto Godinho de Mira

233/1926 - José Vasco Lobato de Faria Roncon

416/1924 - Armando Júlio Moreira de Campos

57/1927 - José Manuel Pombeiro Gomes Pereira

251/1924 - António Goulart Branco

422/1923 - Carlos Augusto Strecht de Oliveira

58/1927 - António Fuschini Serra

253/1922 - João Manuel de Abreu e Silva

423/1925 - Rui António Ventura Rodrigues

61/1922 - Esmeraldo de Abreu Calado

256/1925 - João Gonçalves Vieira

438/1926 - Alexandre Mendes Leite de Almeida

69/1926 - José Emílio Santos Pinto Pereira

272/1925 - Rogério Morais Coelho Dias

439/1925 - Emídio José de Andrade Ferreira da Costa

78/1925 - Armando Martins de Araújo

279/1924 - José Henriques Neves do Ó

457/1924 - Álvaro de Melo Ataíde e Corga

83/1924 - Jaime Wheelhouse Bessa Marques

281/1926 - Pelágio de Sousa Barbosa

463/1925 - Rui Afonso Moutinho Teixeira

86/1925 - Joaquim Pereira Gonçalves

284/1926 - Manual Malheiro Fernandes Viana


Recordando A “Boiada” de 1932

A exclusão do nº 44, Afonso de Chaby Rosa, de Comandante do Batalhão levou à nomeação do nº 236/26, Abílio Coxito Granado para o mesmo cargo. Constou na altura ter havido um desentendimento quanto à oportunidade da execução da pena de exclusão dos alunos, equivalente a expulsão. O Estado Maior do Exército entenderia, segundo parece, que deveria ser imediata, com o acordo do Subdirector do Colégio, Coronel Celestino Júlio Garcia Gomes, ex-aluno nº 51/1889, por alcunha o “Perna eléctrica”, o que levaria a que os alunos do 7º ano expulsos não pudessem apresentar-se a exame. O Director, Brigadeiro Júlio Ernesto Morais Sarmento, ex-aluno nº 177/1886, estaria em desacordo, por achar que daí resultaria adicionar à pena de expulsão dos alunos a impossibilidade de conclusão do curso dos liceus nesse ano, por já não poderem ser aceites a prestação de provas em nenhum estabelecimento público de ensino, o que o teria levado a pedir a demissão do cargo de Director do Colégio. Resultante ou não de tal atitude, foi publicado na Ordem Colegial nº 164, de 12/6/32, um artigo intitulado “Punições”, do seguinte teor: “Transcrição da nota da Repartição do Gabinete nº 1552 confidencial urgente de ontem de Sua Excelência o Ministro encarrega-me de comunicar V.Ex.ª que tendo concordado com o parecer do Conselho Tutelar e Pedagógico dos Exércitos de Terra e Mar, acerca das sanções a aplicar aos alunos que mais responsabilidade tiveram nos últimos acontecimentos ocorridos neste Colégio, determina: 1º - Nºs 26, 44, 61, 176 – readmitidos todos no Colégio sem poderem entrar no Colégio a não ser para exame no fim de todos os outros alunos. Se aprovados, podem alistar-se no exército mas não são promovidos a 1ºs sargentos cadetes senão no fim do 1º ano de praças se tiverem exemplar comportamento. 2º - Nº 95 – atendendo ao comportamento exemplar nos 5 anos de internato e excepcional aplicação ao estudo, a expulsão é suspensa até ao fim de 1932/33,

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ou até cometer qualquer falta. Baixa de graduação.

excluídos até 30/6/32 para os do 6º ano e até 25/6/32 para os do 7º ano.

3º - Nº 3 – por se salientar pela atitude incorrecta nas manifestações – pena de repreensão em ordem do Batalhão e impossibilidade de ter qualquer graduação.

A Ordem do Exército nº 10-2ª série, de 30/6/32, e a Ordem Colegial Ordem Colegial nº 189, de 7/7/32, publicaram a exoneração do Brigadeiro Júlio Ernesto Morais Sarmento do cargo de Director do Colégio Militar e do Coronel Celestino Júlio Garcia Gomes do cargo de Subdirector, em ambos os casos a seu pedido, mas no 1º caso com louvor.

4º - Nºs 50, 279, 284, 357, 439, 10 dias de prisão em 2 períodos de 5 dias e perda de graduações se as tiverem. 5º - Nºs 30, 57, 69, 78, 90, 102, 179, 251, 253, 345, 438, 55 – sendo graduados não se impuseram como comandantes de companhia e chefes de mesa para reprimir os seus subordinados, aplicada a proibição de 15 dias de férias e perda de graduação. 6º - todos os alunos acima mencionados, excepto os nºs 26, 44, 61, 176, e os restantes da 6ª e da 7ª Companhias e de outras que foram mandados sair do Colégio até apuramento de responsabilidades, regressam imediatamente ao Colégio (até às 21 horas do dia seguinte). O Chefe do Gabinete – Coronel J. J. Ferreira da Silva” É de salientar o destaque dado ao aluno nº 95, Rui Ferreira Molarinho do Carmo, pois foi o único, até então, a quem tinha sido atribuída a medalha de ouro de procedimento moral do Colégio, desde que foi instituída em 1901, por ter recebido as medalhas de prata de aptidão literária e de aptidão física nos 2º, 3º e 4º anos e as medalhas de ouro de aptidão literária e de aptidão física no 5º ano e por ter tido procedimento moral muito bom em todos aqueles anos. A Ordem Colegial nº 166, de 14/6/32, registou a entrada de regresso dos alunos. Os do 6º ano foram colocados na 6ª Companhia e os do 7º na 7ª Companhia, tendo sido nomeado um novo Comandante da 7ª Companhia, o aluno nº 272, Rogério Morais Coelho Dias (Ajudante do Batalhão), e como seu auxiliar o 1º Comandante de Secção nº 83, Jaime Wheelhouse Bessa Marques. A Ordem Colegial nº 170, de 18/6/32, prolongou o período das aulas dos alunos

Fez-se assim justiça a um grande Director do Colégio Militar que foi o então Brigadeiro Morais Sarmento.


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Recordando Os que nos deixaram

Os que nos deixaram Rui Eduardo Azinhais Ferrão (161/1930) Héldio de Lemos Rodrigues Freire (71/1942) José Olimpio Caiado da Costa Gomes (76/1944) Oficial de Cavalaria - Coronel Nasceu a 7 de Setembro de 1934 Faleceu a 21 de Agosto de 2010

ZÉ Pela tua Amizade, Obrigado Pela tua Coerência e Autenticidade Sem nunca querer parecer, Obrigado Tua Alma partiu... Em nós ficou teu Ser. Teu Caminho, agora, nada o impeça: Na morte é que a VIDA enfim Começa! Teus Amigos

Só dorme, não morreu, Como se despertasse Da sombra em que viveu: Só ao morrer se Nasce. Da Luz viemos, saimos... Entre abismos e nuvens Caminhamos Pela LUZ é que vamos. Não morremos, partimos E para a LUZ voltamos.

“A morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser visto. Se escuto, eu te ouço a passada Existir como eu existo. A terra é feita de céu A mentira não tem ninho Nunca ninguém se Perdeu... Tudo é VERDADE e CAMINHO” Fernando Pessoa

15/1942

Carlos José Brancal Lopes Furtado (49/1945) Alfredo Manuel Coelho e Campos Ghira (37/1949) Tenente-Coronel - Empresário Nasceu a 9 de Dezembro de 1939 Faleceu a 15 de Novembro de 2010

Coronel Luis Manuel Branco Domingues (10/1952) Oficial de Artilharia - Coronel 6 de Outubro de 2010

João Manuel Cardoso da Fonseca Fialho (19/1958)


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