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Revista ZacatraZ nº 180

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Editorial Revista “ZACATRAZ”

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Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949 Chefe de Redacção

Editorial T

omou posse no passado dia 9 de Agosto o novo Director do Colégio Militar, Coronel Tirocinado de Artilharia Fernando Joaquim Alves Cóias Ferreira, a quem damos as boas-vindas e desejamos os maiores êxitos no desempenho da complexa missão que lhe foi confiada. Com a publicação deste número da Revista, o segundo apresentado nos novos formato e grafismo e com a designação ZacatraZ, procura-se confirmar a grande aceitação obtida com o número anterior e bem assim reacender o incentivo que nos chegou dos mais diversos lados, com palavras de encorajamento e de estímulo para se levar a cabo a tarefa da sua realização. Este número corresponde ao período mais difícil do ano porquanto apanha em pleno a época de férias e também a altura em que há menos acontecimentos relacionados com o Colégio ou com a Associação. Como é do conhecimento geral, a Revista constitui um pesado encargo para os magros cofres da Associação e a sua publicação só terá legitimidade se ela constituir um elo de ligação, de aglutinação e de interesse de toda a Família Colegial, registando e guardando para memória futura muito do que se viveu no passado e o que se vive no presente, em prol do Colégio e da Associação dos seus Antigos Alunos para que continuem a ser Instituições marcantes como o foram até agora. Todavia, para se alcançar este objectivo primordial e que constitui a sua essên-

cia, torna-se necessário uma colaboração alargada que permita a melhoria e a diversidade de conteúdos abrangendo o interesse dos diferentes níveis etários dos cerca de 5000 Antigos Alunos que constituem o universo estimado dos Meninos da Luz vivos. Essa colaboração alargada terá também a virtude de produzir formas de escrita diversificadas, de diferentes visões dos problemas, de abordagem dos temas segundo outras perspectivas, em suma, dotando a Revista de uma mais-valia e de uma qualidade que de outro modo não será possível. Desde que me encontro no desempenho destas funções e já lá vão dez anos, vários apelos têm sido feitos no sentido de uma participação activa de todos os Camaradas que tiveram o privilégio de terem sido Alunos do Colégio Militar. Tais apelos não têm sido correspondidos e a colaboração que nos chega é invariavelmente e quase exclusivamente sempre das mesmas fontes. Todos nós temos histórias e vivências da nossa passagem pelo Colégio ou da nossa vida com ela relacionada que fazem parte da existência desta Instituição multissecular. A sua divulgação na Revista para além do agrado que irá proporcionar aos seus leitores, constitui uma forma de as perpetuar nos tempos, registando-as e evitando o seu desaparecimento. Vejam-se as Revistas mais antigas onde se podem ler episódios interessantíssimos, registos que de outra forma estavam per-

didos para sempre uma vez que os seus autores, infelizmente pela ordem natural da vida, já não se encontram entre nós. A revista ZacatraZ será sempre aquilo que Todos nós quisermos, mas terá de ser sempre melhorada, mais diversificada e contendo textos apelativos que possam abranger um maior e mais alargado número de leitores. Aqui fica mais este apelo que todos esperamos será bem correspondido na defesa dos interesses da nossa Comunidade, que sempre deu provas da sua coesão e determinação na concretização dos nobres objectivos que a tem norteado desde os primórdios da sua existência. Sempre dissemos PRESENTE nas situações mais difíceis e esta é bem simples. Basta que se vença a inércia do arranque e se conceda um pouco, muito pouco, do tempo de cada um de nós para esta tarefa.

UM POR TODOS TODOS POR UM


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Ficha Técnica

CORPOS SOCIAIS DA ASSOCIAÇÃO PARA O TRIÉNIO 2008-2010 MESA DA ASSEMBLEIA GERAL Presidente: Vice-Presidente: 1.º Secretário: 2.º Secretário:

José Eduardo Martinho Garcia Leandro - 94/1950 Bernardo Manuel Diniz de Ayala - 171/1953 Luís Baptista Esteves Virtuoso - 72/1973 Ricardo Neto Galvão - 347/1997

DIRECÇÃO Presidente: Vice-Presidente: Secretário: Tesoureiro: 1º Vogal: 2º Vogal: 3º Vogal: 4º Vogal: 5º Vogal: 1º Vogal Suplente: 2º Vogal Suplente: 3º Vogal Suplente:

Martiniano Nunes Gonçalves - 9/1958 José Maria Rebocho Pais de Paula Santos - 644/1968 Pedro Miguel Correia Vala Chagas - 357/1977 João Sanches de Miranda Mourão - 552/1960 Mário Margarido e Silva Falcão - 314/1936 Frederico Eduardo Rosa Santos - 78/1957 Duarte Manuel Silva da Costa Freitas - 199/1957 Carlos Francisco da Silva do Rio Carvalho - 307/1971 Samuel Ma - 29/1995 Fernando Nuno Lamy da Fontoura - 75/1959 Manuel Pedro da Costa Pereira Roriz - 519/1959 Vitor Manuel Galvão Rocha Novais Gonçalves - 666/1971

Ficha Técnica PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL N° 180 - Julho/Setembro - 2010 45° Ano FUNDADOR Carlos Vieira da Rocha (189/1929) DIRECTOR Mário Margarido e Silva Falcão (314/1936) CHEFE DE REDACÇÃO Gonçalo Salema Leal de Matos (371/1949) REDACÇÃO Vasco Santos Pinheiro (254/1982) João Carlos Agostinho Alves (110/1996) Ricardo Neto Galvão (347/1997) Nuno José Lopes da Costa Alves Caetano (99/1998) Francisco Rodrigues dos Santos (128/1998)

CONSELHO FISCAL Presidente: 1º Vogal: 2º Vogal: 1º Vogal Suplente: 2º Vogal Suplente:

Pedro João Reis de Matos Silva - 449/1958 João do Passo Vicente Ribeiro - 153/1958 António Cortez Freire Damião - 236/1959 João Luís de Mascarenhas e Silva Shoerder Coimbra - 54/1984 António Luís Henriques de Faria Fernandes - 454/1970

CAPA A Entrada do Jardim da Enferma © Foto Mário Falcão ENTIDADE PROPRIETÁRIA E EDITOR Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar MORADA DO PROPRIETÁRIO e SEDE DA REDAÇÃO Quartel da Formação - Largo da Luz 1600-498 Lisboa Tel. 217 122 306/8 Fax. 217 122 307

ARTIGOS À VENDA NA AAACM

TIRAGEM - 1500 exemplares DEPÓSITO LEGAL Nº 79856/94

PUBLICAÇÕES

Nº DE REGISTO NO ICS 100010 ISSN 0872-8224 DESIGN e EXECUÇÃO GRÁFICA

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA AOS SÓCIOS DA AAACM NÚMERO AVULSO: 4,00 €

PREÇO: 13 €

PREÇO: 12 €

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PREÇO: 5 €

Os artigos publicados são da responsabilidade dos seus autores.

Outras Publicações I Volume da História ao Colégio Militar

PREÇO: 12 €

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ASSINATURA: 15,00 €

50 €

II Volume da História do Colégio Militar

50 €

III Volume da História do Colégio Militar

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Os Jardins do Colégio Militar

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10 €

Qualquer dos produtos pode ser adquirido na Secretaria da AAACM, assim como polos, t-shirt, emblemas, etc...


Sumário

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Dos Antigos Alunos

18 3 de Março e Sardinhada na Feitoria 19 Curso de 1943/1950 no Colégio

Dos Antigos Alunos

Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

60 anos depois da saida

23 Cursos de 1963/1970 e de 1987/1995 24 Penafiel 2010 26 Antigos Alunos em Destaque 29 Classe de Ginástica da Associação Do Colégio

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36 Tomada de posse do novo Director do Colégio

Entrevista

Colaboração

44 Valores, Atitudes e Padões de Comportamento 47 O Pintor Nuno Gonçalves e a charada dos seis

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Entrevista com António José Reffóios (529/1963)

paineis de S. Vicente de Fora

54 Google is Watching You Recordando

55 Diário de Notícias de 21 de Junho de 1928 57 Recordando e Registando o Passado 58 A Entrada - Recordações do Colégio do meu tempo

69 Os que nos Deixaram

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Entrevista

Entrevista com Major General Raul Passos

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Colaboração Os Heróis das nossas Forças Armadas

2º Tenente Oliveira e Carmo


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Dos Antigos Alunos Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

Iniciativa

Vamos Apoiar

o Colégio ...a Associação deve “Contribuir para a dignificação e o prestígio do Colégio Militar, prestando, para o efeito, não só a colaboração que lhe for solicitada, como a que, por sua iniciativa e no seu âmbito julgar conveniente e oportuna.

© Foto Samuel Ma Os Antigos Alunos mais novos apoiando e incentivando os Ratas na sua primeira formatura oficial


Dos Antigos Alunos Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

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retendemos com este artigo partilhar com todos os Antigos Alunos os progressos e conclusões principais dos trabalhos que têm vindo a ser conduzidos pela Direcção da Associação com o objectivo de apoiar o Colégio. Começaremos por dar algum enquadramento ao “porquê” desta iniciativa de apoio e passaremos em seguida aos comentários e referências aos trabalhos, conclusões e expectativas. Porquê o apoio ao Colégio? Como sabemos e está explícito nos nossos estatutos, a Associação deve “Contribuir para a dignificação e o prestígio do Colégio Militar, prestando, para o efeito, não só a colaboração que lhe for solicitada, como a que, por sua iniciativa e no seu âmbito julgar conveniente e oportuna”. Este enquadramento estatutário legitima a nossa actuação, mas convêm realçar e

© Foto Samuel Ma Da Esq para a Dir – Vítor Novais Gonçalves, Martiniano Gonçalves, Drª Rute Vasco, António Reffóios

O Colégio tem tido o poder extraordinário de formar muitas gerações em torno de um conjunto de “valores e princípios” que criam uma raiz comum e uma ligação permanente em todos os Antigos Alunos. reflectir sobre o porquê desta responsabilidade e da importância que a comunidade de Antigos Alunos tem para o presente e futuro do Colégio. O Colégio tem tido o poder extraordinário de formar muitas gerações em torno de um conjunto de “valores e princípios” que criam uma raiz comum e uma ligação permanente em todos os Antigos Alunos. É esta ligação, permanente, para toda a vida, que nos torna parte de uma família e que nos leva a agir e a estimar o Colégio da mesma forma que fazemos em nossas casas com os nossos parentes mais próximos. É fácil entender que queremos sempre o melhor para a nossa família e que por ela fazemos e damos o melhor que podemos e temos. Também é fácil entender que, nos momentos mais difíceis, em que algum dos nossos passa por dificuldades, o sofrimento é partilhado por todos e só é sentido com a mesma intensidade pelos que fazem parte da nossa família. Com estes exemplos é fácil compreendermos a importância do Colégio para esta

nossa comunidade, o porquê da responsabilidade estatutária de apoiarmos o Colégio e também da dificuldade que representa para quem não passou pelo Colégio sentir o que nós sentimos e a forma como sentimos. Não podemos deixar de referir que há militares, Professores e Colaboradores que passaram uma parte muito significativa das suas vidas ligados ao Colégio e que, tal como nós, o sentem nas suas essências e nas suas qualidades. Para nós, são como se fossem Antigos Alunos, fazem parte da nossa família Colegial e a nossa gratidão e respeito por eles é imensa. Enquadrado o porquê do “Vamos Apoiar

o Colégio” vamos então aos trabalhos realizados. Nos últimos 10, 15 anos temos vindo a sentir uma crescente situação de adversidade em relação ao Colégio que se vai observando em múltiplos aspectos nomeadamente na menor adesão de novos Alunos, no desempenho académico e em ataques mediáticos infundados. Por outro lado, sabemos que, no médio prazo, irão ser introduzidas alterações no 1º Ciclo escolar,que passará a abranger o 1º e 2º anos do Colégio. Sabemos também que com um maior número de alunos, haverá mais recursos para a gestão corrente e para suporte ao investimento necessário à melhoria contínua do Colégio. Acresce ainda o facto de o Colégio ter de se tornar mais atractivo para filhos de civis dada a redução de Oficiais e Antigos Alunos com filhos em idade escolar. Ponderados estes aspectos entendemos que deveríamos actuar, tentando estimular e apoiar o início de um processo de mudança. No fundo pretendemos contribuir para que, tal como foi acontecendo ao longo dos mais de duzentos anos da

...há militares, Professores e Colaboradores que passaram uma parte muito significativa das suas vidas ligados ao Colégio e que, tal como nós, o sentem nas suas essências e nas suas qualidades. Para nós, são como se fossem Antigos Alunos, fazem parte da nossa família Colegial e a nossa gratidão e respeito por eles é imensa.


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Dos Antigos Alunos Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

...no médio prazo, irão ser introduzidas alterações no 1º Ciclo escolar,que passará a abranger o 1º e 2º anos do Colégio... nossa existência, o Colégio se fosse adaptando ao novos tempos preservando os seus valores e a sua identidade. Neste momento a Direcção tem uma visão de enquadramento para o futuro do Colégio, aprovada por unanimidade na ultima Assembleia Geral, já a partilhou ao mais alto nível com o Exército, e está empenhada em apoiar proactivamente em tudo o que possa ajudar. A nossa expectativa em relação à adopção de medidas concretas é naturalmente elevada e estamos convictos que o Colégio irá continuar a encontrar os melhores caminhos de futuro com o apoio e actuação de todos.

A nossa expectativa em relação à adopção de medidas concretas é naturalmente elevada... Os quadros que juntamos resumem as principais conclusões e o processo de trabalho adoptado. Gostaríamos de salientar que todo o trabalho foi realizado com o envolvimento e a participação abrangente de Antigos Alunos, com o aconselhamento de especialistas reconhecidos em temas de ensino e com o suporte quantitativo obtido através da realização de um estudo representativo realizado por uma entidade independente. Por fim uma palavra especial a todos os Antigos Alunos, certamente mais de duas centenas, que ao longo deste trabalho tem apoiado com a sua participação, reflexões e sugestões, permitindo que o contributo da nossa Associação traduza de forma o mais fiel possível a orientação agregada do universo dos Antigos Alunos. Vamos continuar a apoiar o nosso Colégio! Pela Direcção da Associação, Vítor Manuel Galvão Rocha Novais Gonçalves 666/1971

© Foto Samuel Ma Alguns dos participantes nas Jornadas de Reflexão

...entendemos que deveríamos actuar, tentando estimular e apoiar o início de um processo de mudança. No fundo pretendemos contribuir para que, tal como foi acontecendo ao longo dos mais de duzentos anos da nossa existência, o Colégio se fosse adaptando ao novos tempos preservando os seus valores e a sua identidade.

Notoriedade dos Colégios em estudo:


Dos Antigos Alunos Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

Importância de alguns Factores na Selecção de um Estabelecimento de Ensino

Estabelecimentos onde gostaria de ter o filho a estudar

Avaliação de Modalidades dos “Potenciais Colégio Militar “

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Dos Antigos Alunos Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

“ O Colégio Militar como Instrumento Estratégico Nacional”

Visão para o Futuro do Colégio Militar

Resumo de documento estruturante de enquadramento elaborado em 2006:

Regime de Ensino

Educação para a Cidadania, assente nos valores, no mérito e na equidade, orientada para a capacidade de decisão e para a Liderança. Serviço à construção económica, social e cultural e à coesão do País com inserção nos sectores mais dinâmicos da Sociedade Portuguesa. Serviço às Forças Armadas, gerando oferta de vocações, e cidadãos que reconhecem a importância da Instituição Militar como pilar estruturante da Nação. Serviço à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

“Principais conclusões dos estudos realizados evidenciam oportunidade importante para o Colégio” O Colégio tem condições para ser uma escola de excelência e atractiva: O estabelecimento de ensino com maior notoriedade. Bem classificado em termos de formação pessoal e de cidadania.

1º e 2º ciclo (1º ao 6º anos) – Alunos Externos: - Fomentando boa preparação e fidelizando ao conceito CM; - Alargar a base de candidatos; - Corresponder aos anseios dos Pais em termos de escolha com continuidade; - Rentabilização de instalações. 3ª ciclo e Secundário (7º ao 12º anos) – Regime duplo com opção de Externos ou Semi-Internos Após a presença como externos durante 6 anos, a opção de Semi-Internato deverá ser mais atractiva garantindo mais candidatos: - Pais mais conhecedores do Colégio e com menor resistência ao conceito; - Alunos já com 12 anos e com 6 anos de “externos”, logo mais integrados; - Actividades desportivas com oferta “única” e com resultados reconhecidos; - Programa de Formação Militar e de Liderança com condições de acesso especiais às Academias Militares; - Estudos acompanhados.

Forma Elites/Selectivo; Fomenta a Disciplina/Rigor/Civismo;

Visão para o Futuro do Colégio Militar Aspectos complementares com forte relevância

É uma Escola de Líderes... Valoriza a prática do desporto Assegura a entrada numa “família” de Antigos-Alunos.

Abordagem proactiva e estruturada ao processo de admissões. Revisão da política de mensalidades para filhos de Oficiais. Comunicação com Civis:

Visão para o Futuro do Colégio Militar Escola de Excelência, para rapazes, com três dimensões de formação: Académica + Militar + Desportiva. Contribuição estratégica para o País formando cidadãos conscientes das responsabilidades de Cidadania e Portugalidade; 1º e 2º ciclo (1º ao 6º anos) – Alunos Externos 3ª ciclo e Secundário (7º ao 12º anos) – Regime duplo com opção de Externos ou Semi-Internos.

- Possibilidade de acesso; - Conteúdos de formação diferenciadores, Desportivo e Militar. Revisão do âmbito de intervenção dos Graduados: - Programa de Formação; - Funções menos concentradas no último ano. Modelo de acompanhamento e de segurança dos alunos. Valorização da infra-estrutura desportiva: - Maior abertura ao exterior; - Ajudar a atrair candidatos; - Fonte de recursos financeiros.


Dos Antigos Alunos Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

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Reflexões sobre a Realidade Educativa

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om o objectivo de aprofundar o conhecimento existente sobre a realidade educativa em Portugal e as respectivas necessidades foram convidados para participar nas Jornadas de Reflexão sobre “O Posicionamento do Colégio Militar” dois oradores especializados nas problemáticas dos estabelecimentos de ensino mistos/ unisexo e externatos/internatos, respectivamente a Dra. Rute Vasco e o Prof. Dr. Américo Baptista. Os dois oradores fizeram excelentes intervenções e atrevemo-nos a tentar resumir algumas das ideias expostas. A Dra. Rute Vasco apresentou um conjunto de estudos realizados na Europa e EUA em que se compara o desempenho académico em escolas mistas e em escolas de rapazes. • Desde que se massificou ou ensino misto no mundo ocidental há uma evidência de pior desempenho dos rapazes medida em termos de acesso às Universidades, abandono do ensino obrigatório e chumbos. • Há estudos de domínio neuro-sensorial, p.e. da Geogetown State University, que mostram diferentes tipos de reacções nos rapazes e nas raparigas a estímulos visuais idênticos o que pode suportar a vantagem em processos de aprendizagem distintos • O modelo de ensino actual tende a ser considerado “feminino” privilegiando os modelos comportamentais femininos tendencialmente mais amigáveis para os professores, dadas as características distintas dos rapazes e das raparigas na sua adolescência. Em conclusão e seguindo as práticas de algumas escolas de referência nomeadamente no Reino Unido é natural admitir que o ensino misto possa vir a ser ajustado no futuro. Já há experiências em que algumas disciplinas são dadas em ambiente misto e outras em ambientes separados.

© Foto Samuel Ma Um dos grupos de trabalho durante a análise das questões levantadas

O Professor Doutor Américo Baptista fez uma reflexão sobre os aspectos principais a serem considerados na temática Educação nomeadamente no que se refere a Ambiente Escolar, Objectivos de Educação, Dimensões Educativas e Desempenho Académico entre outros. No âmbito da sua intervenção foram comparados os sistemas de ensino de Internato com os de Externato tendo sido evidenciados os aspectos mais e menos favoráveis de cada sistema. • Em relação ao Internato parecem ser vantagens evidentes o maior desenvolvimento de capacidades de auto-controlo e identidade pessoal, de negociação de conflitos, de gestão de situações stressantes moderadas e de criação de espírito de equipa e de solidariedade. • Também foi realçado como importante considerar em ambientes de Internato a necessidade de mitigação da maior separação do ambiente social e a menor estimulação e complexidade da envolvente. • Foi ainda referido que os regimes de Internato deveriam ser voluntários e adoptados progressivamente de acordo com a idade. • Referindo-se às comparações entre sistemas mistos com sistemas só com rapazes, o Doutor Américo Baptista apelou ao facto de ter de ser tido em consideração que, para além do desempenho académico, é importante considerar outras dimensões formativas de preparação para a vida adulta, sendo a convivência mista naturalmente importante. Em resumo, interpretando o que foi dito, pode-se admitir que um regime de Internato, que no caso do Colégio Militar que tende a ser de 3 noites por semana, só para rapazes, pode assegurar excelentes condições educativas e formativas desde que sejam tidas em conta os aspectos específicos referidos.

Dra. Rute Vasco - Licenciada em Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, tem uma Pós-graduação em Marketing pela Universidade Católica Português. Iniciou a zreira profissional na área do jornalismo onde foi Editora da Exame, Editora de Economia no Jornal Euronotícias e criou a agência de conteúdos Ideias Revistas. Nos últimos anos tem trabalhado a área educativa tendo-se dedicado particularmente a questões de educação na era digital. Escreveu dois livros sobre “Responsabilidade Social e de Educação em Portugal” e um sobre “A Sorte o Sucesso”. Professor Doutor Américo Baptista - Licenciatura pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Doutoramento em Ciências Biomédicas, especialidade de Psicologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade do Porto. Actualmente é Presidente da Associação Portuguesa de Terapia do Comportamento, membro e representante nacional da Society for Stress and Anxiety Research, STAR, e da Associação Psicológica Americana. É ainda responsável pela Clínica Psicológica e de Desenvolvimento Humano http://www.clinicapsicologica.pt/ .


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Dos Antigos Alunos Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

Principais Etapas da Iniciativa “Vamos Apoiar o Colégio”

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endo em consideração os inúmeros trabalhos realizados nos últimos anos, com uma natureza estruturante e de enquadramento, a Direcção lançou um programa de actuação com o objectivo de apoiar o Colégio colaborando de forma proactiva com o Exército Português, que permitisse a formulação de um conjunto de propostas de actuação concretas. O referido programa foi executado no último ano e envolveu as principais entidades com responsabilidades no Colégio.

SET 2009 / Recolha e tratamento de informação

Análise de um conjunto de indicadores sobre situação actual e evolução do Colégio.

OUT 2009 / Conselho Supremo da AAACM

Análise da informação recolhida sobre a situação actual do Colégio e validação de um modelo de abordagem proposto pela Direcção da Associação.

DEZ 2009 / Auscultação alargada a Antigos Alunos

Apresentação de um conjunto de reflexões no Jantar Anual da AAACM com a presença de mais de 400 Antigos Alunos.

DEZ 2009 / Direcção do Colégio

Apresentação de um conjunto de reflexões contendo sugestões de medidas de implementação urgente, áreas para reflexão estratégica e oferecendo total disponibilidade da Associação para colaborar nos trabalhos necessários.

FEV 2010 / Estudo de Mercado

Adjudicado a entidade credenciada independente e realizado por junto de 300 famílias com resultados com fiabilidade superior a 90%.

FEV 2010 / Jornadas de Reflexão da Associação

Realização de jornadas de reflexão sobre “O posicionamento do Colégio Militar no Contexto Educativo Global” com a presença e contributos de aproximadamente cem Antigos Alunos e de oradores convidados.

MAR 2010 / Conselho Supremo

Análise e validação das conclusões dos estudos efectuados nomeadamente sobre a formulação de uma visão sobre o futuro do Colégio e sobre o tipo de actuação da Associação.

MAR 2010 / Assembleia Geral da AAACM

Apresentação e aprovação por unanimidade da “Moção de Estratégia - VISÃO PARA O FUTURO DO COLÉGIO ”.

ABR 2010 / Estado Maior do Exército

Apresentação dos trabalhos ao CEME General José Luís Pinto Ramalho e respectiva hierarquia com responsabilidades sobre os estabelecimentos de ensino tutelados.


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Entrevista António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963)

Entrevista conduzida por Manuel Pedro da Costa Pereira Roriz (519/1959)

António

Saraiva de

Reffóios António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963), Administrador Delegado e Director Geral da Nestlé Portugal onde ingressou em 1980 sendo, nesta qualidade, Administrador também da Nestlé Espanha.


Entrevista António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963)

D

epois de ter saído do Colégio Militar e de ter terminado o antigo 7.º dos liceus, no Liceu D. João de Castro, frequentou o antigo ISCEF (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras), actual ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão,) cujo curso de Gestão concluiu em Setembro de 1976, «numa altura em que havia uma grande turbulência em Portugal» para começar a trabalhar no início do ano seguinte na Deloitte «uma empresa que, nessa época, tinha oito pessoas e hoje tem 1200 em Portugal».

Porque foste para o Colégio Militar? Fui para o Colégio por um conjunto de razões. Em primeiro lugar, e não deixa de ser importante, porque quis, porque tive vontade. Eu vivia em Angola, tinha tios e primos que tinham frequentado o Colégio e com seis/sete anos ouvia falar do Colégio. Dessas conversas, percebi que no Colégio davam uma grande importância à parte desportiva e essa circunstância foi um dos principais factores de motivação para, com 10 anos, decidir vir para o Colégio! Por outro lado, a Família do meu Pai entendia que eu devia ser educado no Colégio Militar. Nessa época, 1963, ano em que entrei no Colégio, havia uma grande incerteza quanto ao que seria o futuro em África, onde a guerra tinha começado em 1961. Tinha uns tios em Lisboa, que não tinham filhos, para quem eu era o afilhado querido e foram eles que me acolheram em sua casa…de onde saí apenas para me casar! O que foi o melhor e o pior do Colégio Militar? À medida que o tempo vai passando guardamos as memórias do que foi bom e esquecemos o que foi mau. Não guardo do Colégio nada de especialmente negativo. Todas as minhas memórias estão associadas com as muitas coisas positivas que o Colégio tem, e não com as negativas. Como todos que por lá passámos, tive um ou outro problema, tive um ou outro “tipo” de quem não gostava, como sucede com toda a gente, mas tenho de fazer um esforço muito grande para me lembrar de

Após uma curta passagem pela Singer entra na Nestlé, em 1980, e, após seis anos, sai para a Warner Lambert, como Director de Marketing. Cerca de dois anos e meio depois assume a Direcção Geral da Esselte Meto Portugal. Regressa à Nestlé em 1990. Neste regresso à Nestlé assume a responsabilidade da Comcafé, empresa então criada pela Nestlé Portugal para gerir o negócio de Cafés constituído pelas marcas Tofa, Sical e Christina, adquiridas na década de 80. Em 2003 lidera a aquisição da Buondi, marca que pertencia ao universo

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do Grupo RAR, completando assim o ciclo de aquisições de empresas de Cafés em Portugal. Em 1998 vai para a Polónia, durante três anos, para dirigir uma empresa da área de Confeitaria. Regressa a Portugal em 2001 para assumir a Direcção de Alimentação, onde permanece até ser nomeado em Maio de 2006 para os cargos que hoje ocupa.

Desde logo, o Colégio educa-nos no sentido de percebermos e aceitarmos que só temos direitos porque temos deveres… o que parece contrastar com um mundo de hoje onde parece só haver direitos… em particular os nossos...!

António Reffóios (529/2003) e António Reffóios (529/1963)


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Entrevista António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963)

situações que me tenham marcado negativamente. Quiçá pouco objectivo, mas o saldo é formidável. Tive, como todos, os meus problemas, mas guardo do Colégio muito boas recordações, desde logo, por causa do desporto. Nessa área fiz tudo no Colégio. Ginasta desde pequeno, cedo entrei para a classe especial do Prof. Vitória. Joguei futebol (lembro sobretudo os inesquecíveis jogos no “geral ” com uma bola de plástico que custava vinte e cinco tostões, e a nossa fantástica equipa de futebol de 5 treinada pelo Dario), basquetebol, voleibol (recordo a vitória num campeonato escolar disputadíssimo, uma vez mais orientados pelo Dario) e andebol. Representei o Colégio em todas estas modalidades. Fiz parte de uma equipa nacional que com mais uns quantos camaradas do meu curso do Colégio (o 539, Zé Spínola, o 189, Gustavo Andersen e o 523, Luís Azevedo…que me desculpem se esqueço alguém) participámos na competição de atletismo Madrid/ Lisboa, na altura orientada pelo Prof. Mário Lemos. Suprema ambição, entrei para a Escolta a cavalo, o que numa época com tantos bons cavaleiros e muito bons alunos (o que não era o meu caso…) foi para mim uma enorme alegria! Guardo, também, boas recordações de vários professores e oficiais que foram, alguns deles, muito boas referências. Houve três que me marcaram em particular: o Dias Miguel, nosso professor de Francês, o já citado Vitória, e muito em particular o “nosso” Dario, uma figura ímpar da minha geração do Colégio, com quem ainda hoje mantenho um contacto regular sempre pautado por uma grande Amizade. Guardo também boas memórias de muitas outras pessoas com quem me cruzei: o Médico do Colégio, Dr. Salgueiro Rêgo, assíduo aos nossos treinos de futebol de 5, que queria à “viva força” que eu fosse jogar futebol no seu Sporting. O Enfermeiro Valentim, que nos despachava em minutos com as vacinas. Recordo, também, o Xico da portaria, que me fazia chegar a “bolama” à socapa. E naturalmente o Moca e o Abílio, que volta e meia também nos davam umas valentes pauladas...! Já para não falar, como é óbvio, das amizades que fiz e que algumas delas perduraram para toda a vida. Enfim, um património único, que só a vivência no Colégio proporciona, e que

Por outro lado, a ideia de que fazer as coisas bem-feitas, sem batota e com respeito pelos outros, compensa, e de que a liderança se constrói e afirma a partir do exemplo.

António Reffóios (529/2003) no dia que entrou no Colégio com o Pai, António Reffóios (529/1963)

é muito especial, sob muitos pontos de vista. É que, mesmo quando as circunstâncias da vida nos afastam, por períodos mais ou menos longos, quando nos reencontramos, é como se tivéssemos estado juntos na véspera. Há uma perenidade, que é extraordinária, e que acho só é possível num Colégio (não vou ao ponto de dizer que seja caso único) com as características do “nosso“ Colégio Militar. Não puseste dois filhos no Colégio, mas puseste o terceiro. Quais as razões dessas opções? Os dois mais velhos, eu quis pô-los no Colégio, mas, nessa altura, a minha Mulher opôs-se (como creio acontece frequentemente com alguns ex-alunos…), por considerar que não existiam razões substantivas que o justificassem, tanto mais que vivíamos em Lisboa. E isto, apesar da minha Mulher ter antepassados que andaram no Colégio (entre eles cito, por curiosidade, o Ten. Luiz da Cunha e Menezes, o 162/1889, vice-se-

cretário eleito na 1ª Assembleia Geral da Associação Philantropica dos Alumnos do Colégio Militar conforme Acta nº 1 do Ano de 1903, que foi a precursora da actual AAACM, e ter uma opinião muito positiva sobre o mesmo. Todavia, privar os miúdos da sua companhia era uma exigência que não queria suportar. E tivemos de tomar essa opção. Devo porém confessar que também não me esforcei muito para a convencer do contrário, por uma razão muito simples: os meus dois filhos mais velhos são muito próximos; na altura estava no começo da minha vida profissional, o que quer dizer que era difícil ter condições económicas para lá ter os dois, e não queria cair na situação de pôr lá um e não pôr o outro. Por isso, a minha pressão não foi tão grande quanto poderia ter sido. No caso do meu filho mais novo, que é uma espécie de neto, porque faz 12 anos de diferença do mais velho, a circunstância de vivermos fora de Lisboa, acabou por facilitar a ida dele para o Colégio. Não foi só essa razão, houve outras, e importan-


Entrevista António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963)

tes, mas o facto de estarmos a viver a 50 km de Lisboa facilitou muito que a minha Mulher aceitasse a ideia de ele ir para o Colégio, tanto mais que as condições eram diferentes daquelas que tínhamos quando vivíamos em Lisboa. Havia outras opções, mas implicavam uma “ginástica” logística que, também, contribuiu para facilitar a decisão. Mas houve, ainda, um outro factor que ajudou: na escola da Azambuja, onde ele fez a escola primária, tinha um colega que também queria ir para o Colégio Militar e a influência que cada um deles exerceu no outro acabou por fazer com que a ida para o Colégio fosse natural. O que é que daquilo que aprendeste no Colégio Militar transportaste para a tua vida do dia-a-dia? A vivência e o tipo de educação do Colégio marcam-nos para o resto da vida, determinando, quantas vezes sem nos apercebermos, o nosso comportamento, não apenas no plano profissional, mas também, em todas as outras dimensões da nossa vida. Na forma como nos relacionamos com terceiros, a importância que, regra geral, damos aos aspectos da cidadania. Concretamente, há aspectos que me ocorrem que considero muito relevantes: Desde logo, o Colégio educa-nos no sentido de percebermos e aceitarmos que só temos direitos porque temos deveres…o que parece contrastar com um mundo de hoje onde parece só haver direitos… em particular os nossos...! O lema “Servir“, que de uma forma explícita e genuína é incutido em todos nós, ilustra de forma eloquente o que quero dizer. Por outro lado, a ideia de que fazer as coisas bem-feitas, sem batota e com respeito pelos outros, compensa, e de que a liderança se constrói e afirma a partir do exemplo. A liderança está hoje na ordem do dia. Fala-se hoje em todo o tipo de organizações cada vez mais, em liderança. No plano profissional, quem tem de liderar grandes organizações, como aqueles onde eu trabalho, convive diariamente com esta questão, hoje muito estudada e objecto de muitas horas de formação. Para mim, a questão da liderança assenta no princípio de que “praticar com o exemplo” é a condição básica fundamental, para uma liderança eficaz, princípio este, também, bem presente na nossa educação no Colégio.

Por último, e para não me “esticar ” em demasia, há outro aspecto que entendo que nos marca muito, que é o da ideia do primado do colectivo sobre o individual. Aprendemos no dia-a-dia a conviver com esta realidade e, com naturalidade, a promovê-la sem hesitações. Lembro-me daquelas situações, para nós, prosaicas, em que quando alguém fazia uma “asneirada” e perguntavam quem era o responsável, éramos, obviamente, todos. Toda essa vivência acabou de alguma maneira por formatar a minha maneira de estar, e acima de tudo, ajuda-me a fazer uma claríssima separação entre o “branco e o preto”. Hoje em dia, num mundo já por alguns designado de MUNDO VICA, de Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo, onde o ”jogo de cintura” e a “ambiguidade” passaram a ser uma qualidade e um modo de estar apreciado, não me convence, nem me agrada. As questões essenciais na nossa vida devem obrigar-nos a escolher. Sem condições ou traficâncias. Porque acreditamos, ou até, simplesmente, porque queremos. Em suma, creio que Colégio nos deixa como legado, para além de um “sentimento de pertença” único, difícil de explicar e que nos conforta, muitas ferramentas para que possamos escolher livremente o nosso caminho…!!

Equipa de Voleibol do Colégio em 1967

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Como vês o futuro do Colégio face aos problemas que têm surgido? Os maiores desafios com que o Colégio se defronta são, em meu entender, um desconhecimento daquilo que é (por exemplo, há muito quem pense que é apenas para filhos de militares) uma certa desconfiança militante, para mim incompreensível, em alguns sectores da sociedade, em relação à Instituição Militar, e um desconforto em relação ao sistema de internato. Há na realidade um grande “deficit” de conhecimento em relação àquilo que é o Colégio Militar. Ainda recentemente, em conversa com um jornalista, dos mais capazes e considerados, perguntava-me se eu tinha ido para o Colégio por ser muito

...há outro aspecto que entendo que nos marca muito, que é o da ideia do primado do colectivo sobre o individual. Aprendemos no dia-a-dia a conviver com esta realidade e, com naturalidade, a promovê-la sem hesitações.


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Entrevista António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963)

rebelde quando era criança. Isto significa que ainda há na cabeça das pessoas, erradamente, a ideia de que vai para o Colégio Militar quem é rebelde, quem se porta mal, como se o Colégio Militar fosse uma espécie de casa de correcção. Por outro lado, na sociedade de hoje, a Instituição Militar não goza do prestígio que já teve, bem visível na desconfiança com que é olhada em alguns sectores e por alguns líderes de opinião. A disciplina, o respeito e a lealdade, que são valores muito associados à Instituição Militar, estão, lamentavelmente, “fora de moda”...! Mas, a questão que parece constituir a maior “barreira“ à escolha do Colégio é, sem dúvida, a questão do internato. A Direcção da AAACM levou a cabo recentemente, e eu acompanhei isso muito de perto, um estudo sobre o Colégio Militar junto de Pais com filhos em idades entre os 8/10 anos. O Colégio tem notoriedade e é reconhecido, mas o internato constitui, para muitos, um sério “travão” no momento de optar. Para mim, isso é uma falsa questão porque o sistema de hoje é muito equilibrado, permitindo que os alunos tenham uma proximidade com a Família que não havia no nosso tempo. No nosso tempo passávamos seis noites no Colégio e uma noite em casa e quantos havia que só iam a casa nas férias, porque os Pais viviam longe de Lisboa, ou estavam no Ultramar. Hoje em dia os alunos vêm a casa à quarta-feira e podem dormir. Podem também dormir à sexta, sábado e domingo. Só para dar um exemplo: durante os primeiros anos em que o meu Filho esteve no Colégio, levantava-me às cinco e meia da manhã, à quinta e à segunda-feira, para o deixar lá às sete. Para mim, não tem muito sentido este receio do internato, tanto mais que as razões não são óbvias. Se pensarmos na vida de hoje, em que a maioria das senhoras trabalha, a ideia de que querem ter os filhos em casa leva-me a perguntar: quantas pessoas acompanham, na realidade, os seus filhos no dia-a-dia, face às solicitações e à vida agitada que temos, nos dias de hoje? Por isso, nem esse argumento me parece válido. Tenho a ideia, que condiciona muito algumas Mães, de que é a sociedade que as “condena”, por considerar que elas como que abandona-

...creio que Colégio nos deixa como legado, para além de um “sentimento de pertença” único, difícil de explicar e que nos conforta, muitas ferramentas para que possamos escolher livremente o nosso caminho…!!

António Reffóios (529/2003) com os Pais no dia da sua graduação

ram os filhos ao colocarem-nos no Colégio. À minha Mulher perguntavam-lhe muitas vezes se não tinha saudades do Filho…de lhe ir dar um beijo de boa noite à cama…!! Estou convicto de que se for possível mitigar, senão mesmo, ultrapassar, estas “barreiras”, e o Colégio recupere a aura que teve em termos pedagógicos, e volte a ser, como era no nosso tempo, uma referência no ensino, ou seja, que regresse às primeiras posições nos “ranking” das escolas, cada vez mais importante face às condições de acesso ao ensino universitário público...o futuro do Colégio estará assegurado pelo menos por mais 200 anos! Em suma, o contexto mudou, e o Colégio Militar tem de se adaptar a uma nova realidade. Algumas das razões porque nos anos 50 e 60 as pessoas escolhiam o Colégio para os seus filhos, deixaram de existir.

Todavia, as mais importantes, subsistem, como creio todos o reconhecemos. Como vês a actividade da AAACM e como entendes que deve ser a sua relação com o Colégio? O papel da AAACM está claro para todos nós Antigos Alunos que continuamos ligados ao Colégio. Decorre do que está nos seus Estatutos e que são o apoio ao Colégio, e as questões de solidariedade. Estes são os dois pilares da acção da AAACM e, nesse aspecto, penso que a AAACM tem tido um papel notável, muito em particular, com esta última Direcção liderada pelo Martiniano Gonçalves, especialmente no que toca ao apoio ao Colégio. É evidente que este apoio tem de ser, sempre, enquadrado dentro de uma definição de competências muito clara, para que o apoio ao Colégio não seja confundido,


Entrevista António José Sousa Valles e Saraiva de Reffóios (529/1963)

por aqueles que têm por missão dirigi-lo, como uma interferência da AAACM na sua gestão. Esta Direcção tem tido, também nessa matéria, uma actuação que considero exemplar. A este propósito gostaria de destacar, entre muitas outras, a iniciativa de promover e liderar uma reflexão que foi feita recentemente, sobre o presente e, acima de tudo, sobre o futuro do Colégio Militar que, para além de oportuna, creio ter produzido muito bons resultados. Ninguém tem dúvidas de que é a comunidade dos Antigos Alunos que melhor posicionada está para poder apoiar o Colégio. As outras entidades ligadas ao Colégio, com todo o respeito que merecem, são passageiras, sejam elas o Corpo Directivo, o Corpo Docente, os Funcionários Civis e Militares e até a Associação de Pais e Encarregados de Educação. Também por isso, a nossa comunidade tem mais obrigações que as demais entidades. Em jeito de balanço, creio que esta Direcção da AAACM tem cumprido o seu mandato interpretando fielmente o espírito que lhe está subjacente. Desde modo, e socorrendo-me da excelente publicação da autoria do Rui e Gonçalo Figueiredo de Barros sobre a AAACM, creio que tem contribuído para que o nosso Colégio continue a ser “a consagração do passado”, “a exaltação do presente e “a certeza do futuro, que é o que eu desejo do fundo do meu coração.

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Dos Antigos Alunos 3 de Março e Sardinhada na Feitoria

3 de Março em Miami

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eve lugar no passado dia 29 de Maio de 2010 o almoço de comemoração (tardia) do 3 de Março na cidade de Miami. Estiveram presentes nessa confraternização e exaltação do espírito desta data, os seguintes ex-ratas: Gustavo Sá Marçal David (411/2002) Eduardo Manuel Arruda do Nascimento (31/1997) António Manuel da Silva Inácio Quelhas (677 /1972) Manuel de Lucena (405 /1953). Os dois Antigos Alunos mencionados em primeiro lugar foram os promotores desta iniciativa e, como pilotos graduados, numa notável manifestação de espírito colegial, voaram nos seus Pipers desde a área de Vero Beach (a cerca de duas horas de voo) para estarem nesta confraternização que teve lugar no restaurante Old Lisbon, em plena Sunset Drive de Miami. Os dois mais antigos são directores de banco, residentes no Estado da Florida. O almoço decorreu num ambiente de sã e fraterna camaradagem colegial, durante o qual por todos foram recordados com saudade os episódios e os bons tempos passados nesta tão ilustre e prestigiada Instituição que é o nosso Colégio. Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz!

Sardinhada na Feitoria

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o passado dia 10 de Julho teve lugar na Feitoria a tradicional sardinhada anual, este ano reunindo cerca de 120 convivas, numa excelente confraternização de várias gerações de Antigos Alunos. As mesas estavam dispostas debaixo das frondosas árvores, proporcionando um excelente ambiente com uma bela luminosidade e temperatura muito amena. De salientar a grande participação de camadas mais jovens que se fizeram acompanhar dos seus filhos, tornando este convívio ainda mais agradável pela presença de crianças que dão uma nota de alegria com as suas brincadeiras, encantando os mais antigos já septuagenários. A Feitoria continua a ser um local de excelente qualidade e que tem vindo a ser gradualmente melhorado pela dinâmica das sucessivas Direcções do Colégio, com a execução de

© Fotos Gonçalo Leal de Matos

obras de conservação e de restauro que muito a têm beneficiado.Antes do almoço e para todos os interessados que se inscreveram, um conjunto de veleiros pertencentes a Antigos Alunos largaram da Doca de Oeiras realizando um passeio pela Foz do Tejo, proporcionando uma agradável manhã para quem neles participou e um excelente aperitivo para o almoço.


Dos Antigos Alunos Curso de 1943/1950 no Colégio 60 anos depois da saída

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Curso de 1943/1950 no Colégio,

60 anos depois da saída.

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o passado dia 21 de Maio pelas 10.30 começaram a transpor a porta principal do Colégio uns quantos septuagenários exibindo um ar feliz com um sorriso nos lábios como que colaborando com a Primavera. Ela também risonha os acolhia. Mais ou menos cabelo, perfis mais ou menos rotundos, mais ou menos cãs branqueando as fracas cabeleiras, mas todos com algo semelhante….Uma Barretina na lapela do cheviote de ver a Deus que era dia importante para todos. Se era…. Sessenta anos se passaram desde que depois de treinados para a vida haviam saído do Colégio prontos para a realização dos seus sonhos num Mundo cheio de caminhos, largos uns estreitos outros, encruzilhadas e armadilhas, uma sociedade pronta a avaliar o seu mérito ou demérito, a sua capacidade de sacrifício, os valores e princípios que levavam na sua “bagagem”…. e lá foram…. Da sua “bagagem” que não era uniforme como é óbvio, constava porém um verdadeiro “Dote”. Definia-se por simples palavras. CAMARADAGEM.SOLIDARIEDADE.ESPÍRITO DE SERVIR. AMOR À PÁTRIA.ORGULHO DE TER SIDO ALUNO DO COLÉGIO MILITAR. Essas palavras e o que elas definiam não era retórica. O seu conteúdo foi chamado mil vezes e mil vezes foi posto à prova, pelas sete partidas do Mundo, a cada um e a todos. E quanto louvamos o Colégio que nos tinha equipado com tamanho e sofisticado “armamento”. O grupo foi aumentando. Depois de terem passado pelo busto do Marechal Teixeira Rebelo no átrio onde muitos não esqueceram a velha tradição de afagar as suas medalhas…para não chumbar… os abraços e ruidosas expressões de alegria entre os que não se viam há mais tempo já ecoavam nos Claustros.

© Foto Leonel Tomás / Miguel Mercês de Mello

© Foto Leonel Tomás / Miguel Mercês de Mello

Vamos à contagem. 1-2-3 … total: 26 presenças. Os nossos convidados que são três também já estão. O coronel Romeiras nosso instrutor de equitação, o MajGen Madeira Peste amigo Pilão também de 1943, e o 47/42 Myre Dores que para nós representa a família Colegial. Do curso há 3 ausências de última hora. Hoje, as nossas caras metades que estão sujeitas também ao longo percurso das nossas vidas e por isso sofrem das mesmas maleitas que nos afectam, o que afinal é natural, constituem por vezes, e foi o caso, o motivo de falta de comparência de alguns de nós às nossas reuniões. O programa manda avançar. Biblioteca para cumprimentos. Surpresa. Não temos a presença do General Director por empenhamento em serviço fora do Colégio, mas sim o Subdirector coronel João Caetano, Antigo Aluno também mas da geração dos nossos filhos. Todos nos conhecemos e partilhamos a alegria e a solenidade que o local nos transmite. Depois de acalmados os ânimos e a excitação do reencontro (com dificuldade) fala-nos o Sub. As boas vindas da praxe e não só. Um esclarecimento, para não chamar briefing, sobre a actualidade do Colégio na multifacetada problemática de uma casa de formação onde se procura a excelência nos dias de hoje, onde espreitam as dificuldades financeiras, as animosidades da inveja que nos é peculiar neste País que é o nosso. O que nos referiu fez nascer em nós uma esperança de melhores dias nas várias vertentes analisadas, e foram muitas. Foi reconfortante ouvi-lo e fizemo-lo com toda a atenção. Depois cabia-nos a nós agradecer a abertura, para a hipoteca do


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Dos Antigos Alunos Curso de 1943/1950 no Colégio 60 anos depois da saída

seu precioso tempo, para a concretização do programa da nossa visita. Nomearam-me porta-voz e lá procurei transmitir o que nos ia na alma no momento, e quanto felizes todos estávamos ali. Noutro local transcrevo o que debitei com as entoações merecidas que o nosso saudoso professor de português Capitão Mota nos ensinou. Sessão de cumprimentos terminada e lá fomos até ao Jardim da Luz depor uma coroa de flores no Monumento ao Colégio. O ao tempo Comandante da 3ª Compª 116 Júlio Fraústo Basso agora o nosso mais GRADUADO, por falecimento do Comandante de Batalhão o 68 Júlio César Pedreira de Campos e do Comandante da 4ª Compª o 80 António Craveiro Lopes Sousa e Faro desempenhou com o Subdirector o acto de homenagem em nome do Curso 1943/1950. Dado este passo, outro se seguiu. Homenagem ao Marechal Fundador Teixeira Rebelo no átrio de entrada. Coube ao alferes da 2ª, 86, António Eduardo Mateus da Silva coadjuvar o Subdirector na deposição também de uma coroa de flores. Além dessa colaboração brindou-nos com uma breve intervenção em que dissertou com palavras sábias sobre O TEMPO esse por vezes esquecido item que corre nas nossas vidas e que muitas vezes esquecemos ou a que damos tão pouca importância. Soaram bem as suas palavras para estes já donos de algum TEMPO.

Evangelho o valor da nossa mútua confiança uns nos outros fruto da amizade que para nós é a camaradagem. 12.50 - já atrasados em relação ao programa, fomos descerrar a placa comemorativa da nossa presença neste dia. Tinha de ser o nosso menos novo. O Sorja da 4ª, 286, José Vicente de Barros que com a ajuda do actual Comandante do Batalhão, ele também o 116 como o nosso actual Comandante Fraústo Basso, e o Batalhãozinho puxaram a guita, o guião pendeu, e lá ficou gravada para todo sempre o nosso regresso aos Claustros sessenta anos depois de sair. Para o vetusto Colégio! Foi ontem… Para a enferma … já. Desta vez não era para beber, o bem doce Xarope colegial, que a malta provava com gulodice no nosso tempo às escondidas dos enfermeiros, Sargentos Valentim, Gomes e Valério. Desta vez era para a foto com os sucessores. Alguns não tiveram a sorte de ter o seu número ocupado. Há sempre um pequeno Ser que está crescendo para nos dar a alegria de vermos o nosso lugar nas fileiras colegiais com o nosso número gravado em tudo o que é sítio. Até no coração. Feita a foto com o calor a apertar e sabendo-se que o Batalhão está formado à nossa espera tivemos de acelerar. Alinhamentos e apresentações da praxe e ao som da marcha o desfile inicia-se. No ponto de continência está o Subdirector e o nosso 116

© Foto Leonel Tomás / Miguel Mercês de Mello

Seguiu-se na capela a missa de sufrágio, oficiada pelo Major Capelão Agostinho Freitas da GNR, em homenagem aos Antigos Alunos, oficiais e outros funcionários civis e militares já falecidos. Coube ao três estrelas da 1ª Compª. João Bilstein Luís de Sequeira nomear os nossos mortos. A nós todos coube memorizar cada um desses NOSSOS AMIGOS de coração que hoje já não podemos abraçar. O nosso bem-haja ao Sr Capelão Agostinho pela forma como soube através das suas palavras interpretar à luz do

Comandante da 3ª Fraústo Basso expoente do saber da matemática que sempre todos admirámos. E vimos o 116 de hoje com o seu Batalhão em continência ao nosso 116. Coincidências que tão frequentemente o Colégio nos oferece e que nos tocam a sensibilidade. Subimos as escadas para o refeitório dos Alunos onde fomos à chegada saudados por um bem alto Zacatraz do Comandante de Batalhão pelo nosso curso. Quem estas linhas escreve atreveu-se


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a corresponder com igual saudação pelos meninos da Luz de hoje e confesso que temi não alcançar os decibéis necessários. Ainda hoje me parece ouvir as cordas vocais a dizerem-me: se o Castanha Pilada, te ouve pá… sais do Canto Coral… O almoço trouxe à memória de cada um as milhares de vezes que estivemos à mesa no antigo refeitório (agora museu) a ingerir vitaminas para crescer e gastar nos estudos e nas actividades físicas. Hoje come-se “amarelo de carne” que foi o sucessor do prato preferido do nosso tempo e que era simplesmente “carne de porco com batatas fritas”. O nosso apetite era espantoso. O que acontece sempre quando se é jovem e o físico precisa de carburar… Mais um Zacatraz final que, com o Pezarat, demos pelo Colégio e o destroçar iniciou-se… até quando? Até sempre. Porque sempre andamos com o Colégio nas nossas mentes, nos nossos corações, na nossa forma de pensar e de agir e bem materializada e bem à vista na BARRETINA que usamos na lapela.

Senhor Subdirector do Colégio Militar Senhor Coronel João Paulo Caetano Tem V. Ex.ª na sua presença uma dilatada representação dos Antigos Alunos que frequentando o Colégio, passaram pelo Curso iniciado em 1943 e que saiu em 1950. Cada um teve o seu percurso, não só nos anos que aqui passou como depois de sair, ao longo de uma vida. Podemos afirmar que constituímos um Curso verdadeiramente unido, que absorveu em plenitude um forte sentimento de camaradagem aqui aprendido e exercitado e que, sessenta anos depois, se materializa nesta reunião. Estamos aqui também para homenagear o Colégio que nos formou onde aprendemos a disciplina, a noção da responsabilidade, a solidariedade, o respeito pelos mais velhos, a importância da força de vontade e do espírito de sacrifício necessários para atingir os objectivos, enfim, valores e virtudes orientadoras, para o percurso escolhido por cada um depois de sair do Colégio. Estamos aqui também para lembrar com saudade aqueles que já nos deixaram. Os nossos camaradas e todos os que, servindo no Colégio desde as Direcções, aos oficiais e civis professores e outro pessoal auxiliar, civil e militar que nos acompanharam nos anos aqui passados, ensinaram e mostraram os caminhos que nos esperavam no Mundo exterior ao Colégio. A todos guardamos gratos, na nossa memória. Sabe bem V. Ex.ª que a vivência no Colégio, ao longo de vários anos da juventude é um manancial de experiencias, episódios, prática de tradições seculares, de acumular de conhecimentos, aquisição

© Foto Leonel Tomás / Miguel Mercês de Mello

de hábitos de vida, como que um Mundo muito próprio e compreendido em especial por aqueles que tiveram a sorte e a honra de envergar a farda cor de pinhão. Por isso, é sempre com uma renovada alegria do encontro, que este Curso de “avôs” se reúne quinzenalmente numa refeição, onde não só nos sentimos regressar ao passado de meninos da Luz recordando as nossas mil histórias, mas também onde se faz o ponto da situação de muitas das nossas preocupações. E nos dias de hoje são tantas… Confessamos que uma delas é o próprio Colégio, que vemos atacado nos media ciclicamente, o que nos revolta, por adivinharmos interesses escondidos, desconhecimento dos assuntos e dos factos e antes, isso sim, uma tentação atávica e muito portuguesa de minimizar o que temos de bom, de história, de tradição

e de valores. Muito apreciamos por isso, o empenhamento do Exmo. General Director e de V. Ex.ª no combate a todas as atoardas que se levantam, e também a resposta atenta por parte da actual Direcção da Associação dos Antigos Alunos, em complemento da defesa do bom nome do Colégio. Senhor Coronel Subdirector Não me querendo alongar, porque esta “velhada” cansa-se de estar de pé e tem de ser poupada, quero expressar a V. Ex.ª a enorme satisfação que sentimos por estar aqui hoje. Com sete décadas de vida a caminho da oitava, e podermos respirar este ambiente do Colégio, dos claustros ao museu, às salas de aula, à confraternização com os actuais Alunos em especial os nossos sucessores, e ver o Batalhão a desfilar. Não poderia deixar de, nestas


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palavras, fazer uma referência aos nossos convidados. O Sr. Coronel de Cavalaria António Romeiras nosso instrutor de equitação que tão bem nos ensinou a ser serenos em cima de um cavalo… e a quem tanto admiramos na sua qualidade de Antigo Aluno honorário. Ele representa para nós a plêiade de formadores que no Colégio intervieram na nossa educação. O Sr. Major General António Madeira Peste, Antigo Aluno 321/1943 do IMPE, camarada “Pilão” que tão bem conhecemos nas nossas disputas desportivas ao tempo e cuja amizade se consolidou nas fileiras do Exército ao longo dos anos. Ele representa para nós a família irmã dos “Pilões” da estrada de Benfica, constituída por todos os que frequentaram o IMPE e a tão saudável compita que sempre existiu, aliada a boa amizade entre os Alunos dos dois Estabelecimentos Militares de Ensino. O Sr. Engenheiro José Maria Myre

Estiveram presentes nesta comemoração dos 60 Anos de Saída:

Dores, Antigo Aluno do Colégio Militar 47/1942, Comandante de Batalhão do ano anterior ao nosso e que com o nosso Curso tem convivido com uma regularidade que nos encanta, e a quem dedicamos uma amizade e camaradagem tão forte que o consideramos como do nosso Curso também. Ele representa aqui a grande Família que somos todos os que tiveram o privilégio de envergar a farda cor de pinhão e que se rege pelo lema UM POR TODOS TODOS POR UM. Aos três bem hajam por estarem connosco e pela felicidade que nos dão com a sua presença. Senhor Coronel e caro amigo, como nós também, Antigo Aluno. Aos nossos agradecimentos, que pedimos transmita ao Exmo. General Director por nos ter proporcionado este dia de convívio nesta casa que tanto veneramos,

juntamos os mais sinceros votos, para que a árdua tarefa que lhes cabe na sua Direcção, bem como de todos os vossos restantes colaboradores, seja coroada de êxito para bem do nosso Colégio. Sabemos, e muito apreciamos o inquebrantável ânimo que dedicam às vossas tarefas e também por isso, a nossa gratidão como elementos desta grande Família, constituída por todos os que, nunca deixam de ser, Meninos da Luz. E agora se me permite, rodeado destes velhos Meninos da Luz, lançarei um ZACATRAZ sentido, englobando nesse grito, homenagens, saudade pelos nossos camaradas que não estão entre nós e, principalmente pelo futuro do nosso Colégio. No dia 21 de Maio de 2010, Sessenta anos depois António Francisco Martins Marquilhas 67/1944

Radiografia do Curso (1943-1950)

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oi no dealbar de meados do século passado, mais propriamente no ano de 1943, ainda a 2ª Guerra Mundial não tinha acabado, que o nosso Curso tomou forma no Colégio Militar da Luz. Num breve resumo da sua história, qual radiografia, vejamos o seu “esqueleto”:

1943 - Entraram para o 1º ano (ratas) 34; Repetentes do curso anterior 4; Chumbaram 3; Saíram do Colégio 5; Transitaram para o 2º

1 - Heitor Patrício; 9 - Silva Ramos; 10 - Pezarat Correia; 12 - Carlos Campos; 38 - Monroy Garcia; 43 - Pereira Gonçalves; 59 - Vieira Lopes; 63 - Geraldes Freire; 67 - António Marquilhas; 70 - João Sequeira; 73 - José Valarinho; 86 - Mateus da Silva; 90 - Branco Ló; 94 - Villa de Freitas; 110 - Spínola da Costa; 116 - Fraústo Basso; 121 - Nuno Bívar; 152 - Pedro Costa; 160 - Lobo da Costa; 164 - Arada Pinheiro; 166 - Alves Moreira; 169 - Ribeiro Mateus; 174 - Martins e Silva; 203 - Lencastre Novais; 225 - Carvalho Martins; 286 - Vicente de Barros.

ano 30. 1944 - Transitaram do ano anterior para o 2º ano 30; Entraram para o 2º ano (ratas) 6; Repetentes do curso anterior 7; Chumbaram 5; Saíram do Colégio 2; Transitaram para o 3º ano 36. 1945 - Transitaram do ano anterior para o 3º ano 36; Entraram para o 3º ano (ratas) 4; Repetentes do curso anterior 1; Chumbaram 6; Saíram do Colégio 1; Transitaram para o 4º ano 34. 1946 - Transitaram do ano anterior para o 4º ano 34; Repetentes do curso anterior 10; Chumbaram 5; Saíram do Colégio 5; Transitaram para o 5º ano 34. 1947 - Transitaram do ano anterior para o 5º ano 34; Repetentes do curso anterior 5; Chumbaram 4; Transitaram para o 6º ano 35. 1948 - Transitaram do ano anterior 35; Repetentes do ano anterior 1; Saíram do Colégio 2; Transitaram para o 7º ano 34. 1949 - Transitaram do ano anterior 34; Repetentes do curso anterior 1; Chumbaram 4; Acabaram o curso 31.

Dos quatro que reprovaram no 7º ano, dois saíram do Colégio e os outros dois continuaram, passando ao curso seguinte. Dos 31 que acabaram o 7º ano, ingressaram na Escola do Exército 27, em Medicina 3, em Engenharia Civil 1. Dos 27 que seguiram a carreira das armas, distribuíram-se da seguinte forma: Armada 2, Força Aérea 3, Exército 22 (Infantaria 7, Cavalaria 7, Artilharia 2, Engenharia 6) - dos seis de engenharia, apenas quatro foram engenheiros militares, sendo os outros dois engenheiros civis. Feitas as contas, passaram pelo nosso

curso 73 Meninos da Luz. Temos conhecimento do falecimento de 26. Desconhecemos o paradeiro de oito. Foram contactados 40. Destes, 14 não puderam comparecer por motivos diversos, mas estivemos 26 a lembrar com saudade todos os outros e em nome deles também a homenagear o nosso Colégio. Este é um breve apontamento da história deste grupo de “rapazes” que tiveram a sorte e a honra de envergar a farda cor de pinhão. Os setenta já nos alquebram, mas atrevo-me a lançar aqui e agora

um desafio a todos: — Tal como outros cursos já fizeram, por que não fazermos, com a colaboração de todos, um livro do curso, onde cada um desse largas à memória e lembrasse momentos vividos por todos na Luz, e não só, mas também, ao longo da vida, com conotação ao nosso Colégio. Vamos a isso? Podia ser O ZACATRAZ DE 43/50! Ou outro… há tantas hipóteses! Em 2015 fazemos sessenta e cinco anos de saída. Até lá, com um Zacatraz do 67!


Dos Antigos Alunos Cursos de 1963/1970 e de 1987/1995

Curso de 1963/1970 no Colégio

40 anos depois da saída

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Curso de 1987/1995 no Colégio

15 anos depois da saída

© Fotos Leonel Tomás / Miguel Mercês de Mello


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Dos Antigos Alunos Penafiel 2010

Penafiel 2010 Encontro anual dos Cursos de 1934, 1935, 1936 e 1937

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elo oitavo ano consecutivo o António Ferreira Alves, 86/1934, abriu da par em par as portas do seu solar de Penafiel aos camaradas do seu tempo colegial para um “matar saudades” de muita emoção e de enorme confiança no enriquecimento dos laços de camaradagem profundos que caracterizam os “Meninos da Luz”. No passado dia 19 de Junho foi possível reunir uma vintena de Antigos Alunos dos cursos entrados entre 34 e 37, com inclusão ainda de dois nortenhos mais novos, o delegado da AAACM no Norte, José Manuel Ramos de Campos, 319/1950, e o Jaime Silvério Marques, 194/1956.

Os restantes participantes foram os seguintes: 2/1936, Luís Melo de Oliveira - 73/1936, Fernando Lima Voss Wahnon - 86/1934, António Ferreira Alves - 112/1936, José Manuel Soares de Oliveira - 159/1936, Álvaro Santiago Ponce Dentinho - 188/1936, Eugénio de Sequeira Varejão - 196/1936, Luís Manuel Quintino Rogado - 245/1936, José Gualberto Matias - 256/1934, Aníbal Ginja Brandão dos Santos - 263/1935, Francisco Coelho de Moura - 277/1935, Carlos Alberto Raposo de Mendonça - 282/1936, Manuel Primo Brito Limpo Serra - 302/1936, José Luís Almiro Canelhas - 315/1936, Eduardo de Matos Coimbra - 327/1937, José da Paz Olímpio - 347/1935, Raul Reis Pereira - 386/1936, João António Cerveira do Amaral.


Dos Antigos Alunos Penafiel 2010

Associaram-se ainda à reunião os Presidentes da Assembleia Geral e da Direcção da AAACM, José Eduardo Garcia Leandro, 94/1950, e Martiniano Gonçalves, 9/1958. De forma especial tornou-se presente o Presidente do Conselho Supremo, o José Alberto Costa Matos, 96/1950, por meio duma vibrante mensagem que temos o prazer de reproduzir como anexo desta notícia. Penafiel 2010 foi mais uma excelente jornada colegial, graças sobretudo à gentileza do Ferreira Alves e dos seus familiares mais directos. O facto de se tratar de Velha Guarda no verdadeiro sentido da palavra, mas ao mesmo tempo de uma velha guarda plena de juventude, confere a este encontro uma profundidade de enorme significado, de verdadeiro amor pelo Colégio, sem lhe retirar contudo a oportunidade de tomar conhecimento e apreciar a evolução da res colegial de mãos dadas com a evocação de histórias deliciosas. Esta reunião é além disso uma ocasião privilegiada para recordar os camaradas ausentes, seja porque Deus já os chamou para junto de Si, seja por razões diversas, de saúde ou outras, que os impedem de comparecer. Uma falta que todos sentimos de forma especial, pois foi a primeira vez que não pôde participar no encontro, foi a do Mário Falcão, 314/1936, a quem dirigimos os nossos votos de rápidas melhoras. Os Cursos de 1934, 1935, 1936 e 1937

Meu caro Ferreira Alves, Estimados Meninos da Luz É com imensa pena que hoje não estou convosco. Como tive ocasião de, em tempo oportuno, informar o Soares de Oliveira, tenho neste mesmo dia o encontro anual da minha Companhia mobilizada em 1961, ao qual me ligam também fortes laços de amizade e de quem guardo gratas e inesquecíveis recordações. São uma centena de “jovens! De 70 anos que não perdoariam nunca a ausência daquele a quem continuam a chamar de “meu comandante”. Atendendo a estas circunstâncias, a todos vós ficarei para sempre reconhecido se tiverem a bondade de me perdoar a minha ausência. Feito este esclarecimento, as minhas primeiras palavras são, obviamente, para o Ferreira Alves, que continua a dar-nos uma inenarrável lição de camaradagem e de presença do Colégio Militar no coração de todos os antigos Meninos da Luz. O modo como prepara o dia em que reúne anualmente os seus camaradas, a maneira emocionada com que o vive, a generosidade e hospitalidade com que todos recebe e a cuidada refeição que lhes estende sobre a mesa, são momentos e gestos inesquecíveis que só podem ser avaliados por quem os presencie. Bem hajas pelo teu grande exemplo, pela tua força anímica e

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pelo teu amor ao Colégio. Esse Colégio que faz com que os seus Antigos Alunos não precisem de estar fisicamente ligados para que, quando se reencontram, mesmo depois de afastados pelo tempo e pelo espaço, continuem a sentir que a sua amizade e camaradagem é tão forte quanto sempre. Para todos os “Meninos da Luz” presentes deixo a minha admiração pela persistência com que teimam, ano após ano, em vir conviver durante um dia com o Ferreira Alves. Apesar da idade ir pesando, a vossa generosidade e o carinho com que fazem esta longa viagem é uma demonstração de solidariedade que muito vos dignifica, e que vai buscar força aos anos em que compartilharam o nosso Colégio e nele interiorizaram os valores morais e cívicos que, há mais de dois séculos, constituem o cimento de que se fazem os grandes portugueses. Permita-me duas referências nominais: uma para lamentar a ausência, contra a sua vontade, do Mário Falcão que, neste momento, deve sentir em silêncio a amargura de estar longe, ainda que perto no seu pensamento e, creio eu, que no de todos nós. A outra para enaltecer a dedicação e a disciplina com que, anualmente, o Soares de Oliveira continua a exercer o cargo de “comandante” do Pelotão de Lisboa. Finalmente, gostaria de testemunhar o meu apreço e grande admiração pela disponibilidade, generosidade e simpatia com que colaboram e participam nestes encontros anuais a Paulinha, a Celina, o Paulo e a Albertina. Admiro o carinho com que tornam realidade o desejo do “Bóbó” de reunir em sua casa os colegiais seus contemporâneos. Pasmo com o esmero e a entrega com que o fazem, e acho espantoso o modo como absorveram, puseram em prática e fizeram seu o espírito do Colégio Militar. Envolvo-os a todos com o meu enorme abraço e creiam que, em espírito, estou aqui convosco. Um “ZacatraZ” pelo Colégio Militar e pelo Marechal Teixeira Rebelo... e, por todos vós, um “Allez, allez, à votre santé”. Para o ano cá estaremos! José Alberto da Costa Matos 96/1950 19 de Junho de 2010


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Dos Antigos Alunos Antigos Alunos em Destaque...

Antigos Alunos

em destaque... Carlos Manuel Ferreira e Costa (371/1955) Rui Cardoso de Telles Palhinha (418/1958) Luís Filipe Montes Palma de Figueiredo (54/1961)

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Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva (Aluno Honorário 695/2008) agraciou, no Dia de Portugal, três Antigos Alunos com a Grã Cruz da Ordem de Avis em virtude das suas brilhantes carreiras ao serviço das Forças Armadas de Portugal. As condecorações foram impostas ao oficial general do Exército Tenente-General Carlos Manuel Ferreira e Costa (371/1955), ao oficial almirante da Marinha Vice-Almirante Rui Cardoso de Telles Palhinha (418/1958) e ao oficial general da Força Aérea e vice chefe do Estado Maior da Força Aérea Tenente-General piloto aviador Luís Filipe Montes Palma de Figueiredo (54/1961).


Dos Antigos Alunos Antigos Alunos em Destaque...

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Carlos José Sanches Vaz Pardal (100/1947) José Manuel de Vasconcelos Caeiro (41/1949)

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isputou-se de 16 a 18 de Junho de 2010 em Itália, na localidade de Franciacorta a cerca de 80 km de Milão, o XI EUROPEAN MASTERS SENIOR CUP destinado a jovens amadores com mais de 70 anos. A selecção portuguesa constituída pelos elementos apurados em quatro provas de qualificação (Miramar, Ribagolfe II, Aroeira I e Montado), sagrou-se Campeã da Europa de Golfe, seguida da República Checa, Alemanha, Reino Unido, França, Finlândia, Itália, Espanha, Suíça, Islândia, Hungria, Áustria, Noruega, Suécia, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. A Selecção que representou Portugal, constituída por seis elementos, integrava dois Antigos Alunos, o Carlos Vaz Pardal (100/1947), que foi o Capitão da Equipa, e o José Vasconcelos Caeiro (41/1949). O próximo torneio terá lugar na Alemanha em Setembro de 2011, esperando que a brilhante participação portuguesa se repita nesse evento.

Francisco Lúcio Marques da Cunha Medeiros de Almeida (496/96)

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“Prémio Primus Inter Pares” é uma iniciativa conjunta do Jornal Expresso e do Banco Santader Totta com o Apoio da Fundação Manuel Violante que, anualmente, premeia os melhores finalistas do ensino universitário dos cursos de Gestão de Empresas, Economia e Engenharia do nosso país. O vencedor deste ano, a sétima edição do prémio, foi anunciado no dia 22 Junho no Hotel Pestana Palace e entre o grupo de cinco finalistas encontrava-se o Francisco Lúcio Marques da Cunha Medeiros de Almeida (496/96), que acabou por conseguir um prestigiante terceiro lugar. O prémio, para os três primeiros classificados, consiste num curso de pós-graduação ou MBA numa universidade nacional ou internacional à escolha do vencedor de entre um grupo de possíveis universidades, sendo que caso optem por uma universidade estrangeira, têm ainda direito a uma bolsa para despesas de deslocação e alojamento. Para determinar o vencedor foi necessário passar por um conjunto de diferentes provas, sendo que a final foi uma entrevista de cerca de meia hora com Francisco Pinto Balsemão, Nuno Amado, António Borges, António Vitorino e Estela Barbot. Este prémio, que constitui um motivo de grande orgulho para o próprio mas também, e em grande medida, para todos aqueles de entre nós que tivemos o prazer de andar no Colégio com ele (e acredito que para todos os outros), acaba por ser uma agradável mas não absoluta surpresa. Um talento particular para as ciências exactas, associado a uma grande capacidade de trabalho demonstraram-se de modo por

Os Finalistas

demais evidente na fase de ensino secundário no Colégio, e se espelhou posteriormente no seu percurso pelo Instituto Superior Técnico (IST) e acabaram por resultar na conquista desta distinção. No decorrer do curso de Engenharia Aeroespacial no IST, após ter terminado o primeiro ciclo de estudos, teve a possibilidade de prosseguir a sua formação no estrangeiro, no contexto de um duplo diploma, pelo que entrou nessa altura na SUPAERO, escola de engenharia francesa cuja principal vocação é a engenharia aeronáutica e espacial.


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Dos Antigos Alunos Antigos Alunos em Destaque...

Importa realçar que, em França, o ensino se processa de forma diferente de Portugal. Lá existem dois tipos de instituições de ensino superior, as universidades e as escolas, sendo que as primeiras são de acesso praticamente livre e as escolas exigem uma preparação académica de nível superior prévio. A SUPAERO é uma das “grands écoles” de engenharia mais reputadas e é também tida como uma das escolas de engenharia aeroespacial de referência no mundo na qual o sistema de aprendizagem é feito com enorme proximidade dos actores industriais mais importantes nas áreas de estudo respectivas, como a Airbus (construtora de aviões), Astrium (construtora de satélites), Eurocopter (construtora de helicópteros), MBDA (construtora de mísseis), SNECMA (construtora de motores), entre outros. Ali, para além das ciências exactas é também obrigatório ter disciplinas do âmbito das ciências humanas como a gestão e administração de empresas ou línguas. Ao vermos a notícia do Expresso que anunciava a fase final do prémio e seus finalistas podíamos, enventualmente, espantar-nos por encontrar entre estes últimos este nosso camarada. Conhecendo, no entanto, aquele que tem sido o seu percurso que, apesar de ainda curto, é já recheado de difíceis conquistas que deixam antever um percurso longo e com vários sucessos que há-de continuar a dar-nos vários motivos para nos orgulharmos dele e do nosso Colégio. João Carlos Agostinho Alves 110/1996

Coronel Luís Manuel Saraiva Vicente da Silva (40/1934) Capa do livro «Desenhos Humorísticos Militares» da autoria do Coronel Luís Manuel Saraiva Vicente da Silva (40/1934), edição da Liga dos Combatentes.


Dos Antigos Alunos Classe de Ginástica da Associação

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Classe de Ginástica da Associação F

oi com o maior gosto que li no número 179 da nossa Revista, à qual em boa hora foi dada a designação Zacatraz, a interessante entrevista ao professor Dario Fernandes, nosso sócio honorário número 2, conduzida pelo Pedro Roriz (519/1959).

A entrevista é ilustrada com uma série de fotografias, das quais me chamou em particular a atenção a fotografia do Dario com a primeira classe de ginástica dos Antigos Alunos, que participou nos festejos comemorativos do 3 de Março de 1966. Lembro-me perfeitamente dessa exibição, do êxito que constituiu e do impulso que deu para a continuação da classe nos anos seguintes. Pena foi que a dita fotografia não tivesse sido acompanhada da indicação do nome dos fotografados. Para que fiquem para a posteridade, peço que voltem a publicar a fotografia com os nomes dos componentes da classe, de que bem me recordo. Apenas não consegui identificar o senhor respeitável de cabelo branco, que está na primeira fila, do lado esquerdo do Dario e que presumo que seria um dos dirigentes da nossa Associação naquela época.

Tal como me aconteceu na Escolta a Cavalo, ingressei também na classe de ginástica dos Antigos Alunos no segundo ano da sua existência. Acho que foi apenas uma coincidência fortuita, pois eu não era dado a chegar atrasado ao que quer que fosse. No ano lectivo de 1966/67 ingressei na classe e dela fiz parte durante os três anos seguintes, em que a mesma existiu. Daí passei para a classe de ginástica do Ateneu Comercial de Lisboa e acabei a minha “carreira” de ginasta em 1973, aos 28 anos, no Sporting de Luanda, eu que desde o berço fui benfiquista. No ginásio do Estádio dos Coqueiros do Sporting de Luanda acabei por ter por companheiro um outro Menino da Luz, bem mais novo do que eu, o João Viana (463/1965), que bastante mais tarde descobri que tinha sido Comandante de Batalhão. É hoje um médico de créditos firmados, trompetista do conjunto de Jazz “Dixie Gang”, a cujos espectáculos procuro não faltar e que recomendo vivamente a quem quer que seja (passe a publicidade não paga). Durante a sua breve existência a classe de ginástica de Antigos Alunos ainda chegou a fazer algumas exibições fora do Colégio e a participar normalmente nos festejos do 3 de Março. No segundo ano da existência da classe deixámos o equipamento inicial todo branco e adoptámos um equipamento com uma camisola azul, com a barretina e as iniciais AAACM no peito, e com calças pretas. Das exibições que fizemos fora dos muros do Colégio recordo uma apresentação feita no INEF (agora com a designação mais


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Dos Antigos Alunos Classe de Ginástica da Associação

“chique” de Faculdade de Motricidade Humana), uma apresentação no Pavilhão dos Desportos e uma participação no Pavilhão Polidesportivo da Tapadinha em Alcântara. Nesta última ocasião deu-se a particularidade de haver um conjunto de Antigos Alunos, no qual me incluí, que se exibiram duas vezes no mesmo sarau, em representação de duas instituições diferentes. Exibimo-nos primeiro na classe da Associação, dirigida pelo Dario, saímos, fomos a correr mudar de equipamento e exibimo-nos uma segunda vez na classe de saltos de Mesa Alemã e “Gafanhotos” (duas mesas alemãs e uma cama elástica no meio) da Academia Militar, dirigida pelo professor Mário Begonha. Era esta a “sofreguidão” que tínhamos na altura pela ginástica, uma exibição não nos bastava. A entrevista do Roriz ao Dario fez-me recordar uma fotografia da classe de ginástica dos Antigos Alunos em ano posterior ao da sua formação. É a fotografia que

junto a este texto. Esta fotografia foi tirada no ginásio do Colégio, no final do sarau do 3 de Março de 1969. Nela se podem ver os Director e Subdirector do Colégio, o Nascimento de Almeida Jr. (3/1932), que era o elemento da Direcção da Associação que apoiava a nossa classe e, como agora se diz, o “incontornável” Dario. Nesta fotografia aparecem atletas com três equipamentos diferentes. Com calças pretas temos alguns componentes da classe de ginástica dos Antigos Alunos, nos quais me incluo, acompanhado dos meus camaradas de curso António Tribolet (61/1956), Francisco Paulino (265/1956), e ainda do Carlos Afonso (267/1959), este último morto em combate mais tarde em Angola, que imensa saudade nos deixou. Com calças brancas estão alguns componentes da classe especial de ginástica do Colégio. Finalmente, com calções pretos, temos a equipe de voleibol da Associação, podendo-se ver o Pedro Roriz, que é o primeiro da esquerda da segunda fila. A presença

do Pedro Roriz nesta fotografia fez com que me ocorresse incitá-lo a fazer um artigo para a nossa Revista, descrevendo-nos o que foi a vida dessa equipe de voleibol. Se bem me recordo essa equipe chegou a fazer boa figura nos campeonatos da Associação de Voleibol de Lisboa e teve origem nas equipes do Colégio, treinadas pelo João Calixto (314/1947) que fizeram também boa figura nos velhos campeonatos da Mocidade Portuguesa, em que todos tomávamos parte. Espero que o Pedro Roriz aceite o meu repto e nos recorde o que foi aquela equipe da nossa Associação, que já teve boas equipes nas mais diversas modalidades, não esquecendo o hóquei em patins, nos tempos em que este desporto era rei em Portugal. Luís Filipe Ribeiro Ferreira Barbosa 71/1957

Da esquerda para a direita. 1ª Fila: Francisco José Gomes de Sousa Lobo (95/1952), Professor Dario, Não identificado, Manuel do Nascimento de Almeida Júnior (3/1932), Carlos Alberto Guerra da Silva Beja (268/1953), Duarte Nuno de Ataíde Saraiva Marques Pinto Soares (44/1953). 2ª Fila: José Manuel Cortez e Almeida (180/1957), Manuel Dimas e Silva Cordeiro (310/1956), José Manuel da Veiga Ferreira (116/1957), Martiniano Nunes Gonçalves (9/1958), António Filipe Nunes Salvador Tribolet (61/1956). 3ª Fila: Manuel Bernardo Cid de Oliveira Peixeiro (498/1959), António Augusto de Melo Gomes Duque (12/1958), Pedro Manuel Vilaça Ferreira de Castro (1/1956), José António Pina de Bastos e Silva (67/1957), José Carlos Tavares Cabral (156/1957)

Nota da Redacção Esta fotografia foi novamente publicada por ter chegado à Redacção da Revista a identificação dos participantes nesta Classe de Ginástica, identificação que lhe confere mais-valia e melhor registo para memória futura.


Dos Antigos Alunos Antigos Alunos em Desataque

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Do Colégio Entrevista - Major General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos

Major General

Raul Passos Major General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos

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endo o Major General Raul Gonçalves Passos terminado as funções de Director do Colégio Militar, mantendo-se como Director de Educação na estrutura do Comando da Instrução e Doutrina do Exército, cargo que exercia cumulativamente há já algum tempo, aqui ficam algumas notas da sua perspectiva relacionada com os quatro anos em que esteve no desempenho daquelas funções. Ao Senhor Major General Raul Laginha Gonçalves Passos desejamos, no exercício do cargo em que está investido e nos que no futuro a sua carreira militar lhe vier a impor, os maiores êxitos bem como a concretização de todos os seus objectivos pessoais.

As demonstrações de amizade pela Instituição e os laços de camaradagem que perduram ao longo da vida, fazem-me crer que o actual modelo e projecto educativo não têm paralelo e constituem-se como a principal mais-valia que deve ser acarinhada e salvaguardada.


Do Colégio Entrevista - Major General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos

ZacatraZ -

Ao chegar ao Colégio há 4 anos, tinha certamente uma ideia do que seria o Colégio Militar quer pelo contacto com camaradas quer pelo contacto com Antigos Alunos. Em que medida foi esse conhecimento alterado e como evoluiu a sua percepção sobre a realidade do Colégio? Na fase inicial da minha formação, na Academia Militar, os antigos alunos do CM mantinham entre eles uma maneira diferente de estar na instituição. Havia uma amizade, camaradagem, alegria e descontracção que incutiam alguma “inveja” entre os restantes que não se conheciam. Ao longo da carreira a influência foi mínima até porque como fazendo uso de uniforme não se pode usar a “barretina”, era difícil saber quem era ex-aluno. A verdadeira percepção tenho-a agora que conheço relativamente bem o Colégio, os alunos e os ex-alunos. Relativamente ao Colégio reconheço as qualidades, potencialidades e fragilidades do mesmo, dos alunos tenho a melhor das opiniões. Considero que são uns jovens fantásticos que devidamente liderados, são capazes de fazer coisas fantásticas em representação do Colégio e assim dignificarem o Exército e Portugal. Quanto aos ex-alunos a minha opinião está muito centrada nas inúmeras visitas que os vários cursos fazem anualmente ao “seu” Colégio. As demonstrações de amizade pela Instituição e os laços de camaradagem que perduram ao longo da vida, fazem-me crer que o actual modelo e projecto educativo não têm paralelo e constituem-se como a principal mais-valia que deve ser acarinhada e salvaguardada. ZacatraZ -

Para além do sentido de servir e do cumprimento do dever, como é, para um militar de carreira, assumir o comando de uma unidade militar tão particular, como o Colégio Militar, e em que o sucesso é difícil de medir quando vier o momento da partida? Após mais de quatro anos de direcção, posso afirmar que tenho a consciência que sem a colaboração do grupo excepcional de militares, funcionários, docentes, amigos, alunos, pais e encarregados de educação e ex-alunos que sempre apoiaram a nossa acção directiva, dificilmente seria

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A riqueza e especificidade do Colégio Militar residem no espírito de corpo e amizade dos vários cursos saídos anualmente, na boa formação académica e na excelente formação comportamental e de liderança que a “família colegial” proporciona aos seus alunos. Esta educação integral de cariz militar, mantém o culto pelos valores intemporais de cidadania em paralelo com um ensino académico de elevada qualidade. possível alcançar os objectivos a que nos propusemos. Creio que poderíamos ter sido feito mais, não fossem as várias ocorrências inopinadas que nos obrigaram a desviar muita da nossa atenção e energia. O nosso sucesso mede-se através do sorriso sincero e aberto dos nossos alunos, da forma leal e frontal com que os graduados já nos abordam, da actual tranquilidade dos encarregados de educação e da forma com que os novos ex-alunos se integram quando ingressam nos vários cursos.

A formação de cariz militar que é ministrada aos jovens alunos, a partir do 5º ano de escolaridade no Colégio, baseia-se na educação pelos valores intemporais da cidadania portuguesa: Honra, lealdade, patriotismo, frontalidade, justiça, honestidade e sentido de Servir. Todos estes valores quando interiorizados e praticados na idade adulta serão importantes em qualquer sector da sociedade portuguesa. A defesa nacional é transversal a todos os sectores e não é exclusiva dos militares.

ZacatraZ - Em termos comparativos com as restantes instituições de ensino públicas e privadas, como vê a contribuição do Colégio Militar para a sociedade actual? E para as Forças Armadas, num contexto tão diferente daquele que levou o Marechal Teixeira Rebello à fundação do Colégio? A riqueza e especificidade do Colégio Militar residem no espírito de corpo e amizade dos vários cursos saídos anualmente, na boa formação académica e na excelente formação comportamental e de liderança que a “família colegial” proporciona aos seus alunos. Esta educação integral de cariz militar, mantém o culto pelos valores intemporais de cidadania em paralelo com um ensino académico de elevada qualidade. Onde quer que seja que os ex-alunos se integrem na sociedade fá-lo-ão certamente com elevado espírito patriótico, de missão e sempre com a noção que estão a Servir Portugal.

ZacatraZ - No caso específico do Colégio, quais os argumentos que utilizaria junto de um Pai e uma Mãe de uma criança de 10 anos para os fazer vencer a reticência que hoje existe, generalizadamente, aos regimes de internato?

ZacatraZ -

Em que medida a formação militar ministrada a adolescentes, nos termos em que é praticada no Colégio, é importante para a formação dos conceitos de Defesa no Portugal de hoje?

1. Em sete noites da semana os alunos dormem somente três no colégio; 2. O espírito de corpo, amizade e camaradagem ganham-se com as cumplicidades da juventude e no convívio “fora de horas” e não unicamente em sala de aula; 3. Os três dias da semana em que os filhos ficam no Colégio estes têm oportunidade de praticar toda uma panóplia de actividades que não é viável fazer indo a casa: Jogos culturais, teatro, música, treinos de mesa alemã, pentatlo moderno, …. 4. Os pais nas três tardes e noites que não têm os filhos podem dedicar-se em exclusivo às respectivas carreiras e nos quatro finais de tarde e noites em que os filhos estão com eles podem usufruir da sua companhia com maior qualidade, “é como um permanente matar de saudades!”;


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Do Colégio Entrevista - Major General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos

5. Amizades construídas neste regime desde os nove/dez anos de idade são para a vida. 6. No regime do Colégio praticam-se em elevado grau os conceitos “Servir” e “Um por todos e todos por um”. 7. Os alunos ganham desde muito novos autonomia, liberdade e sentido das responsabilidades; ZacatraZ -

Os Estatutos da AAACM têm no seu objecto, para além das acções de solidariedade..., o “apoio ao Colégio Militar”. Em que medida, sob que forma e em que áreas principais podem os Antigos Alunos contribuir positivamente para o Colégio? A AAACM é o “filho dilecto” do CM, existe necessariamente um apoio mútuo que é sempre benéfico para ambas as instituições. No entanto tem de haver o cuidado de respeitar o espaço de cada um e a missão prioritária de cada instituição. Para compreender esta questão é fundamental ter presentes dois conceitos: a. “Família Colegial”: é constituída por todos os que directamente trabalham na nossa “casa”, ou seja, no espaço ocupado pelos alunos, e que directamente contribuem para o cumprimento da missão do Colégio Militar. São eles os alunos, os pais, os militares, os docentes e os funcionários civis que actuam na área de influência da Direcção do Colégio. Esta área compreende o espaço físico do colégio, as ligações e as relações necessárias com a tutela: o Exército, bem como com o Ministério da Educação. b. “Comunidade Colegial” compreende os elementos referidos anteriormente e ainda a associação de antigos alunos, a associação de pais e de encarregados de educação, os ex-alunos e os amigos (as) do colégio, que se revêem e se identificam no nosso projecto. Estes actuam na área de interesse do Colégio que abrange toda a sociedade portuguesa.

na sociedade. Poderei dar vários exemplos de contributos directos ao Colégio Militar de ex-alunos em quatro anos de direcção: A elaboração e a oferta do projecto do novo edifício da Formação; a elaboração e a oferta dos vários projectos do Pavilhão polidesportivo; a coordenação de um discurso único e coerente para os órgãos de comunicação social; o apoio à comercialização das novas fardas de serviço interno; a coordenação das inúmeras visitas de cursos saídos do colégio e o apoio na realização de eventos culturais e desportivos, entre outros. - Da experiência que tem vivido, lembra algum episódio da vida do dia-a-dia que o tenha marcado especialmente e que nos queira relatar?

ZacatraZ

O contributo do ex-aluno deve fazer-se através de palavras e de actos ao longo da vida e quando devidamente integrados

A passagem pelo universo do Colégio marcou-me profundamente pois tentei desde a primeira hora compreender a cultura e especificidade da instituição. Foram mais de quatro anos de trabalho árduo mas extremamente gratificantes pois descobri uma realidade que é património nacional, tutelado pelo Exército, do qual todos nós, como Portugueses, nos devíamos orgulhar de possuir em território nacional. Foi igualmente a experiência de liderança mais valiosa que tive oportunidade de exercer, através de todos os membros desta rica e variada comunidade que por vezes tem interesses divergentes. Dirigir empenhadamente o Colégio com o apoio, ajuda, compreensão e optimismo dos meus directos colaboradores irá cer-


Do Colégio Entrevista - Major General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos

A passagem pelo universo do Colégio marcou-me profundamente pois tentei desde a primeira hora compreender a cultura e especificidade da instituição. Foram mais de quatro anos de trabalho árduo mas extremamente gratificantes pois descobri uma realidade que é património nacional, tutelado pelo Exército, do qual todos nós, como Portugueses, nos devíamos orgulhar de possuir em território nacional.

tamente marcar-me de forma positiva e com saudade, para toda a vida. Poderei, no entanto, relatar um exemplo da forma diferente como os nossos alunos são EDUCADOS. Tinha por hábito e por prazer pessoal, “passear” pelos corredores e “gerais” durante o período das aulas. Por vezes fazia-me convidado para assistir a uma delas e certo dia entrei de forma inopinada numa turma do 6º ano de escolaridade. Talvez por aula ainda estar no seu início os alunos estavam mais agitados que o que seria desejável. Após esses breves momentos de agitação, a aula decorreu até ao final com toda a normalidade. Depois de sair, dirigi-me ao meu gabinete para “digerir” toda a documentação que diariamente dá entrada no Colégio. Ainda não me tinha concentrado nessa tarefa quando a secretária da Direcção me informa que alguns alunos do 6º ano se encontravam nos claustros

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para me falarem. Saí do gabinete e fui de imediato surpreendido com toda a turma formada, com o chefe de turma à frente e sem qualquer docente a acompanhá-los. Depois de apresentar a turma e em sentido, o chefe de turma apresentou-me um pedido de desculpa em nome de todos os camaradas, pela forma incorrecta como se tinham comportado durante a aula. Para além da ternura emocional que senti naquele momento, este episódio é a demonstração que no Colégio Militar todos, sem excepção, são EDUCADORES e que ninguém se pode demitir dessa função. Se alguém o fizer, colocará em causa a coerência de todo um sistema em que se alicerça este fantástico Projecto Educativo que é concretizado diariamente por palavras e por actos, pelos membros da família e da comunidade colegiais.


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Do Colégio Tomada de posse do novo Director do Colégio

Tomada de posse do

Novo Director do Colégio N

o dia 9 de Agosto de 2010, pelas 10H00, teve lugar na Biblioteca do Colégio Militar a Cerimónia de Tomada de Posse do Director, Coronel Tirocinado de Artilharia Fernando Joaquim Alves Cóias Ferreira, tendo depois decorrido uma visita às instalações deste estabelecimento militar e um almoço de convívio que reuniu Oficiais, Professores, Sargentos, Praças e Funcionários Civis.

Coronel Tirocinado de Artilharia Fernando Joaquim Alves Cóias Ferreira

O Coronel Tirocinado Cóias Ferreira ingressou na Academia Militar em 1978, tendo desempenhado funções como Oficial Subalterno e Capitão na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, e no Centro de Instrução de Artilharia Antiaérea, em Cascais. Após a frequência do Curso de Promoção a Oficial Superior, foi colocado no Estado-Maior do Exército, onde integrou o grupo de trabalho para a Reorganização do Exército em 1992. Frequentou o Curso de Estado-Maior no Instituto de Altos Estudos Militares, seguido do Estágio de Estados-Maiores Conjuntos no Instituto de Defesa Nacional, tendo sido colocado posteriormente na Divisão de Operações do Estado-Maior do Exército. Nesta Divisão desempenhou funções em praticamente todas as áreas, tendo finalmente assumido o planeamento de defesa militar terrestre nacional e no âmbito da OTAN, para o qual foi delegado do Exército. Foi ainda delegado do Exército em diversos grupos de trabalho internacionais relativos a doutrina e procedimentos no âmbito da OTAN, UEO e FINABEL. Em 1996 foi convidado para professor do Instituto de Altos Estudos Militares, em Pedrouços, integrando a Secção de Estudos de Táctica como professor de Artilharia de Campanha, Artilharia Antiaérea, Apoio de Fogos e Técnica de Estado-Maior.

Entre Outubro de 1998 e Abril de 1999 cumpriu uma comissão de serviço em Angola, no âmbito da Cooperação Técnico-Militar, como Director Técnico do projecto relativo ao Instituto Superior de Ensino Militar, tendo sido também professor dos Cursos de Comando e Direcção e de Comando e Estado-Maior aí ministrados. Finda esta comissão regressou ao Instituto de Altos Estudos Militares, onde ingressou na Secção de Estudos de Administração, como professor de Organização Militar. No ano lectivo 2000/2001 frequentou o Command and General Staff Officer Course, em Leavenworth, nos Estados Unidos, tendo obtido a graduação em Joint and Multinational Operations. Entre Agosto de 2002 e Julho de 2004 desempenhou as funções de 2.º Comandante do Regimento de Artilharia Antiaérea, em Queluz, findas as quais assumiu o cargo de Chefe do Gabinete de Apoio, na Direcção de Administração e Mobilização do Pessoal. Por despacho do General CEME, de 30 de Março de 2005, foi nomeado por escolha para Comandante da Escola Prática de Artilharia, cargo que assumiu em 27 de Abril de 2005.

De Julho de 2007 a Setembro de 2009 desempenhou funções no Ministério da Defesa Nacional, como Director de Serviços responsável pelo acompanhamento da execução da Lei de Programação Militar e pelo controlo de bens e tecnologias militares. No ano lectivo de 2009/2010 frequentou o Curso de Promoção a Oficial General, findo o qual foi nomeado para o actual cargo de Director do Colégio Militar. Da sua folha de serviço constam treze louvores, dos quais um concedido pelo Ministro da Defesa Nacional, três concedidos pelo General Chefe do Estado-Maior do Exército, um concedido pelo Tenente-General Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, três concedidos por Oficiais Generais e cinco por outras entidades militares. Foi condecorado com três Medalhas de Serviços Distintos, Grau Prata, e as Medalhas de Mérito Militar de 1.ª e 2ª Classes, entre outras. Foi promovido ao actual posto em Janeiro de 2005. Reside em Setúbal, é casado com a Dra Isabel Raminhos e tem dois filhos, a Rita e o Pedro.


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Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

XVII Encontro Nacional de Combatentes 2010

Os Heróis das nossas Forças Armadas

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o Encontro Nacional de Combatentes deste ano foi evocada a memória de Todos os que tombaram ao serviço da Pátria com especial menção para o Comandante da lancha de fiscalização VEGA, a prestar serviço em Diu no dia 18 de Dezembro de 1961, 2º Tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo pai de dois Antigos Alunos – o Diogo Jorge Ventura Oliveira e Carmo (69/1971) e o Jorge Manuel Ventura Oliveira e Carmo (35/1972).

Junto do Monumento aos Combatentes, sua Mulher, Maria do Carmo Oliveira e Carmo , e na Missa dos Jerónimos, sua Neta de 12 anos, Luisa Oliveira e Carmo, proferiram as seguintes palavras:

“Esta foi a narrativa breve de um acto de sacrifício e coragem de um português que morreu, conscientemente, pelos seus valores. Um homem que, além de fiel aos valores transcendentes que justificam desde tempos imemoriais “morrer pela pátria”, era também filho, pai e marido. É nesta perspectiva que quero aqui, com a memória da minha história, dirigir-me às Famílias, sobretudo às Mães e Mulheres, que como eu, vêem a vida bruscamente, brutal e definitivamente mudada. Somos as mulheres e as famílias, dos que servem e serviram o país pelas armas; as que temos que viver uma angústia diária, silenciosa e discreta quando eles partem para missões de risco. Eles contam connosco, pensam em nós, e também servem por nós. Foi o exemplo de fidelidade e coerência aos valores espirituais, vividos até ao limite da vida, a grande Herança que a nossa família, aqui presente, recebeu de um desses homens. Uma herança que só faz sentido porque são os valores espirituais que fazem a diferença e a dignidade dos homens; No caminho ao longo da vida a nossa família tem: acreditado nos valores espirituais, tido uma experiência difícil e duradoura, e partilhado tranquilamente um sacrifício muito nosso e muito rico. E, porque acreditamos no futuro destes valores sabemos que feitos como o do Jorge Oliveira e Carmo orgulham todos os portugueses,

e já fazem parte das páginas que honram a História de Portugal. É esta nossa herança que queremos – a minha Família e eu aqui presentes – oferecer hoje à Nação, neste dia de Portugal, partilhando-a com todos os nossos compatriotas, especialmente com todas as Mulheres Portuguesas. Que Deus nos abençoe a todos.” “Não conheci o meu avô, mas sei, o quão fantástico ele era. Sei que ao ir para a guerra, só estava a pensar no seu país. E, também sei que mesmo não estando vivo nunca será esquecido. Sim, eu não conheci o meu avô, mas conheço a minha avó. E eu admiro-a muito. Pois é difícil ir para a guerra e combater por quem se ama. Mas, ainda mais difícil, é ficar cá, enquanto alguém que nós amamos do fundo do coração partiu para lutar pelo seu país. Pelo seu acto de coragem o meu avô trouxe lágrimas aos olhos de muitos portugueses. E claro, também aos meus. Obviamente ficámos todos tristes com a morte de Jorge Oliveira e Carmo mas sempre que ouvirem a história de como ele morreu ao tentar defender o seu país, não chorem, sorriam. Sorriam de orgulho, sorriam por respeito, sorriam porque tenho a certeza que ele não queria lágrimas nos vossos olhos. O que ele queria? Deixar Portugal orgulhoso. E na minha opinião a sua missão foi cumprida”.


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comportamento deste jovem Oficial da Armada e de toda a guarnição desta unidade de Marinha revelaram uma grande coragem e determinação, culminando num abnegado heroísmo que viria a escrever uma das mais gloriosas páginas da nossa História Naval. O 2º Tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo Serviu a bordo dos patrulhas “Boavista” e “Porto Santo” e na fragata “Pêro Escobar”, onde o seu elevado brio, o seu inquestionável sentido das responsabilidades e do dever e o seu exemplar aprumo militar foram alvo dos maiores elogios. Nomeado comandante da lancha de fiscalização “Vega”, a prestar serviço em Diu, para ali partiu no Verão de 1961. A narrativa que se segue foi extraída do livro “A Queda da Índia Portuguesa – Crónica da invasão e do cativeiro”, da autoria de Carlos A. de Morais, que aqui reproduzimos com a devida vénia.

“A Lancha «Vega» que patrulhava as águas do Distrito de Diu, não fazia parte do Agrupamento «António da Silveira». Não obstante, com ele partilhou da acção violenta das forças aéreas da U. I. e, como tal, o relato da sua actuação integra-se na sequência das operações ocorridas naquele Distrito e atrás referidas. Por ter morrido em combate o Comandante da Lancha «Vega», Segundo-Tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo, coube aos seis marinheiros sobreviventes a elaboração do respectivo «relatório de acção». Pela espontaneidade da descrição, pelo vigor que ressalta da leitura desse relatório, resultado da vivência de inesquecíveis momentos de heroísmo, julgamos que nenhum outro documento poderia ter maior interesse e transmitir com tanta fidelidade o combate travado naquela manhã de 18 de Dezembro de 1961. “

Pela espontaneidade da descrição, pelo vigor que ressalta da leitura desse relatório, resultado da vivência de inesquecíveis momentos de heroísmo, julgamos que nenhum outro documento poderia ter maior interesse e transmitir com tanta fidelidade o combate travado naquela manhã de 18 de Dezembro de 1961.

Como tal, as palavras que se seguem, são a transcrição, na Íntegra, do referido relatório: «Saída de Diu em 17 de Dezembro pelas 21.40. em serviço de fiscalização, rumo a Nagoá onde fundeou pelas 22.00. Na madrugada do dia 18, por volta das 01.40 foram ouvidas rajadas de metralhadora e tiros isolados em terra, pelo marinheiro de serviço (marinheiro fogueiro motorista n.º 5645). Foi dado imediato conhecimento da ocorrência ao Sr. Comandante, o qual imediatamente ordenou postos de combate e levantamento de ferro, dirigindo-se para o mar. O radar já se encontrava em funcionamento e tinha acusado uma embarcação fundeada na praia de Brancavará nas nossas águas. Com a mudança de escala de radar para as 24 milhas, esta acusou imediatamente um eco denunciando um navio de grande porte que vinha navegando com ocultação de luzes. A lancha continuou com a mesma rota que era Diu. Ao passar a linha fortim do mar-Fortaleza, pelas 02.20, ouviram-se fortes detonações que denunciaram intenso fogo de artilharia da Fortaleza para a região da fronteira de Gogolá. O comandante ordenou rápida manobra e de novo voltou ao mar. Novamente foi captado o eco do navio desconhecido e calculada a distância verificou-se que este navegava a 12 milhas da costa. O sr. Comandante ordenou que se navegasse junto a terra e na zona da Fortaleza, a pouca velocidade de modo a dar tempo para que as embarcações «Folque» e «Dio» saíssem para o mar a fim de se juntarem à lancha «Vega». Às 02.40 efectuou-se a saída da «Folque», depois de consultado pelo telefone do posto da alfândega o Comandante do Agrupamento, o qual ordenou apenas a saída desta e não a de «Dio» como estava previsto nas ordens secretas transmitidas ao patrão da «Folque», com rumo a Nagoá. Às 03.00, deu-se o encontro entre as lanchas «Vega» e «Folque», na


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região costeira de Podamo, em virtude do radar da «Vega» a ter localizado. Pelo radar foi também constatada a aproximação do navio que se presumia ser inimigo e que se encontrava nesta altura a uma distância aproximada de 12 milhas. O sr. Comandante ordenou rumo à baía de Nagoá seguindo a «Folque» as águas da «Vega». Às 03.45 foi notado pelo radar a nítida aproximação do navio do qual se continuava a desconhecer a sua nacionalidade, embora se notasse que o mesmo estava a captar todos os movimentos da «Vega» mantendo-se à distância de 1,5 milhas. Às 03.55, por ordem do sr. Comandante, «Vega» rumou em direcção ao navio desconhecido para melhor o identificar, deixando para trás a «Folque». Às 04.00, conseguiu-se identificar apenas como sendo um navio de grande calado e notou-se na parte leste uns sinais luminosos «TNT» aos quais o sr. Comandante ordenou não se desse resposta. Por suspeitar das intenções daquele navio, a «Vega» voltou ao encontro da «Folque» com a qual abordou, tendo embarcado rapidamente naquela todo o pessoal que nesta se encontrava. Como, entretanto, o barco que se presumia ser inimigo tivesse feito fogo com granadas iluminantes sobre as lanchas «Vega» e «Folque», com o possível fim de as localizar e tentar abater, o sr. Comandante optou por que se abandonasse a «Folque» o mais rápido possível, sem tempo sequer para retirar todo o material que nesta se encontrava, tendo-a abandonado com o motor a trabalhar, com o fim de a avariar. Depois de todo o pessoal embarcado na «Vega», o navio, já identificado como sendo tipo cruzador, e, ainda sob o efeito das granadas iluminantes

À saída da barra e pela proa da «Vega», avistou-se então, a uma distância aproximada de 2 milhas, o cruzador com bandeira de fogo içada no mastro e a da União Indiana no mastro da ré, tirando-se todas as dúvidas sobre a sua nacionalidade.

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O Sr. Comandante reuniu toda a guarnição e leu uma mensagem que lhe tinha sido enviada. Essa mensagem era de Maiormar e comunicava que a lancha combateria até ao último cartucho. alvejou com fogo de metralhadora pesada as lanchas «Vega» e «Folque», pelo que o sr. Comandante ordenou rápida manobra e rumo para Dio na máxima velocidade, tendo a «Vega» fundeado entre o Fortim do mar e a Fortaleza às 05.30. Às 05.40, foram mandados desembarcar os seguintes homens: A tripulação da «Folque» (cabo-artilheiro 2.590 e marinheiro-artilheiro 6216), um civil natural de Dio, criado do sr. Comandante e o cabo-artilheiro 2195, mestre da lancha «Vega», o qual era portador de uma mensagem verbal, das ocorrências anteriores, dirigida ao Sr. Comandante do Agrupamento, cuja mensagem lhe foi entregue às 05.45. Às 06.00, foi entregue ao Comandante da lancha «Vega» uma mensagem verbal do Comandante do Agrupamento. O mensageiro recebeu nova ordem para completa destruição do aquartelamento da marinha. Entretanto a «Vega» mantinha-se fundeada e em vigilância. Às 06.15, o Sr. Comandante ordenou o levantamento de ferro a fim de se poder identificar mais completamente o cruzador e se possível recuperar a «Folque» ou destruí-la. À saída da barra e pela proa da «Vega», avistou-se então, a uma distância aproximada de 2 milhas, o cruzador com bandeira de fogo içada no mastro e a da União Indiana no mastro da ré, tirando-se todas as dúvidas sobre a sua nacionalidade. Regresso rápido da «Vega» ao ponto de partida, onde fundeou cerca das 06.35. O Sr. Comandante dirigiu-se à câmara e fardou-se de branco, dizendo que assim morreria com mais honra. Às 07.00. avistaram-se aviões de jacto bombardeando Passo Sêco. Foi dado por esta lancha o alarme sonoro para a Fortaleza. Por ordem do Sr. Comandante ligou-se um rádio portátil o qual anunciava o programa «Alvorada musical», seguindo-se um passe-doble, o qual foi interrompido por silêncio total da Emissora de Goa, Mau sinal. O Sr. Comandante reuniu toda a guarnição e leu uma mensagem que lhe tinha sido enviada. Essa mensagem era de Maiormar e comu-

nicava que a lancha combateria até ao último cartucho. No caso de ficar inutilizada, deveria ser destruída (ou afundada), tendo o Sr. Comandante acrescentado que, nessas circunstâncias, o pessoal deveria dirigir-se para terra, auxiliando os camaradas feridos. Perguntou mais se todos sabiam nadar ao que se respondeu afirmativamente. A seguir as suas breves palavras foram as seguintes: «Rapazes sei que vocês vão cumprir assim como eu e que mais vós quereis! Acabarmos numa batalha aero-naval. Fazemos parte da defesa de Dio e da Pátria e vamos cumprir até ao último homem e última bala se possível». Algumas despedidas se fizeram e até as fotografias dos entes queridos foram beijadas e guardadas nos bolsos dos calções. Às 07.30, começou o ataque aéreo contra a Fortaleza. Vindo dois aviões quase em cima da lancha, o Sr. Comandante deu imediata-

«Rapazes sei que vocês vão cumprir assim como eu e que mais vós quereis! Acabarmos numa batalha aero-naval. Fazemos parte da defesa de Dio e da Pátria e vamos cumprir até ao último homem e última bala se possível» mente voz de fogo com as seguintes palavras dirigidas ao artilheiro Ferreira: «Fogo nesse, Ferreira, dá-lhe» e assim começou a luta. Os aviões passaram no seu primeiro ataque à Fortaleza. A bordo da lancha foi tudo feito na normalidade. Todos nos seus postos. Motores a trabalhar e levantou-se ferro rumo fora da barra, mas logo a seguir os dois aviões retomaram para atacar a lancha. Os carregadores começaram a esvaziar-se e a lancha manobrada pelas mãos firmes do Sr.


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Comandante parecia baixar, esquivando-se ao fogo inimigo na sua máxima velocidade. Os ataques sucediam-se tanto de um bordo como do outro, aos quais se respondia com a maior energia. O marinheiro-artilheiro é substituído na peça pelo grumete artilheiro Ramos e os carregadores sucediam-se. O primeiro golpe sofrido proveio de um ataque vindo do enfiamento do sol e em cruz feito por dois aviões o qual atingiu a lancha entrando a rajada pela amura de estibordo e saindo pela alheta de bombordo, causando a morte imediata do marinheiro-artilheiro Ferreira que foi varado pelas costas quando se encontrava a remuniciar um dos carre-

terem sido cortadas pela citada rajada. A peça foi abandonada pelo grumete-artilheiro Ramos em virtude de se tornar intransitável o reduto da mesma devido aos buracos causados pelas balas inimigas e às labaredas que já invadiam o convés. «Vamos para o bote, arreá-lo imediatamente», foi a voz do marinheiro Costa, tendo saltado para dentro dele 3 homens que se prepararam para receber o Sr. Comandante. Enquanto o marinheiro electricista Freitas transportava o Sr. Comandante que se encontrava junto do leme para a popa da lancha, com o fim de o deitarem dentro do bote para ser levado para terra, deu-se novo ataque dos avi-

Vindo dois aviões quase em cima da lancha, o Sr. Comandante deu imediatamente voz de fogo com as seguintes palavras dirigidas ao artilheiro Ferreira: «Fogo nesse, Ferreira, dá-lhe» e assim começou a luta. gadores de peça, cortando as pernas totalmente pelas coxas ao Sr. Comandante e causando em poucos momentos o incêndio, pois notou-se imediatamente grande fumarada que saía da casa das máquinas. O Sr. Comandante ainda com vida tirou do bolso da blusa um plástico onde se encontravam as fotografias de sua esposa e seu filhinho e deles se despediu com beijos. A ponte imediatamente se tornou um charco de sangue e ouviam-se as palavras de um camarada «bandidos e assassinos». Motivado por este ataque resultou o incêndio que se propagou à casa da máquina e seguidamente à ponte de comando e cobertas, o qual pôs termo, à resistência da pequena lancha «Vega», tendo esta parado em virtude das bichas de aceleração dos reguladores

ões sendo a lancha metralhada totalmente pelo través de bombordo por consecutivas rajadas, ocasionando novas desgraças: O Sr. Comandante foi atingido mortalmente no peito; o grumete-artilheiro Ramos foi ferido na perna esquerda; o marinheiro-telegrafista Costa no ombro esquerdo e nas costas, ficando em estado lastimoso; ao marinheiro-artilheiro Aníbal foi cortada a perna esquerda pela canela; ficou ileso o marinheiro-electricista Freitas que ainda se encontrava na lancha e não foi atingido por muita sorte, pois deitando-se no chão no sentido bombordo-estibordo, ficou entre as duas rajadas cujas balas, esburacando o convés, desapareceram no mar. Este marinheiro, depois do mortífero fogo levantou-se e debruçando-se do lado de bombordo viu os seus camaradas

feridos e o bote inutilizado metendo água, obrigando os homens que nele se encontravam a nadarem em direcção à terra mesmo feridos. O grumete-artilheiro Ramos ainda subiu à lancha, tendo, no entanto, de se lançar imediatamente à água em virtude das munições terem começado a explodir. Entretanto, o marinheiro-electricista Freiras também se lançou à água, em direcção a uma balsa que, havia alguns minutos, tinha sido lançada à água a título de precaução e que se tinha afastado da lancha por causa da corrente e do vento. Porém, o marinheiro Silva já a transportava para junto dos feridos com o fim de se efectuar o seu socorro. Nesta altura o marinheiro Aníbal pediu socorro em virtude de se encontrar com uma perna cortada, tendo sido socorrido pelos marinheiros Silva e Freitas. Entretanto, em virtude do aquecimento do óleo dos comandos do motor principal de BB este desenvolveu avante e a lancha completamente envolta em chamas começou a deslocar-se lentamente e quase passava por

Os carregadores começaram a esvaziar-se e a lancha manobrada pelas mãos firmes do Sr. Comandante parecia baixar, esquivando-se ao fogo inimigo na sua máxima velocidade. Os ataques sucediam-se tanto de um bordo como do outro, aos quais se respondia com a maior energia.

Enquanto o marinheiro electricista Freitas transportava o Sr. Comandante que se encontrava junto do leme para a popa da lancha, com o fim de o deitarem dentro do bote para ser levado para terra, deu-se novo ataque dos aviões sendo a lancha metralhada totalmente pelo través de bombordo por consecutivas rajadas, ocasionando novas desgraças: O Sr. Comandante foi atingido mortalmente no peito; o grumete-artilheiro Ramos foi ferido na perna esquerda; o marinheiro-telegrafista Costa no ombro esquerdo e nas costas, ficando em estado lastimoso; ao marinheiro-artilheiro Aníbal foi cortada a perna esquerda pela canela


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cima do marinheiro-telegrafista Costa; este, ao ver-se em tal situação, começou a gritar: «Silva, salva-me que eu morro», ao que este lhe dirigiu as seguintes palavras: «aguenta-te Costa que vou já buscar-te». Chegado ao pé dele o marinheiro Silva perguntou-lhe se se encontrava muito ferido ao que o Costa lhe respondeu estar varado nas costas e ferido num braço. A lancha depois de alguns metros andados parou na nossa frente, enquanto as munições rebentavam com grande estrondo e grossas colunas de fumo se elevavam no ar, tendo começado a aparecer a flutuar no mar gasóleo (combustível da lancha). Muito lentamente, a lancha foi-se afastando de nós, afundando-se pouco a pouco, arrastando consigo os corpos do Sr. Comandante e do marinheiro-artilheiro Ferreira. Terrível espectáculo. Começou então a tentativa para a salvação dos feridos, os quais tinham começado a lastimar-se. Procurou-se então empurrar a balsa com os feridos agarrados a ela, mas era impossível; foi então que o marinheiro Silva tirando o cinto de salvação, amarrou um dos seus atacadores à balsa e o outro à cintura para melhor poder nadar e rebocar os feridos. O Freitas tinha uma bóia debaixo do corpo e nadava com um braço para assim auxiliar o seu camarada. Procurou-se seguir rumo à Fortaleza, o que muito lentamente se ia fazendo; só passado muito tempo se notou, pelo ponto tirado a terra, que se estavam a afastar da Fortaleza. Em virtude do vento e da mareta, descaindo para fora, para o lado de Brancavará, o desânimo apoderou-se principalmente dos feridos que não deixavam de pedir: «Silva leva-nos para terra», ao que este respondia: «Ânimo rapazes que havemos de chegar». Já havia algumas horas de luta com o mar quando o marinheiro Silva começou a não poder abrir os olhos dizendo para o Freitas que o guiasse em virtude de não ver, por ter os olhos cheios de gasóleo, tendo também a garganta com bastante ardor devido também a algumas goladas de água misturada com gasóleo que fora forçado a ingerir. Novamente se afastaram mais de terra em consequência do vento que os arrastava para fora procurando tentar chegar a terra nadando sempre contra a maré. «Vamos rapazes, todos à uma que estamos quase a chegar», mas era somente para animar os feridos que, sempre com a

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A lancha depois de alguns metros andados parou na nossa frente, enquanto as munições rebentavam com grande estrondo e grossas colunas de fumo se elevavam no ar, tendo começado a aparecer a flutuar no mar gasóleo (combustível da lancha). Muito lentamente, a lancha foi-se afastando de nós, afundando-se pouco a pouco, arrastando consigo os corpos do Sr. Comandante e do marinheiro-artilheiro Ferreira.

Modelo da Lancha «VEGA»

esperança de se salvarem, tentavam corresponder. Ouviu-se o marinheiro Aníbal dizer que não podia mais, tendo-o então, passado para cima da balsa. Gemidos e ais saíam consecutivamente da boca dos feridos, e as caimbras de vez em quando inutilizavam as pernas dos marinheiros Silva e Freitas. Foi nesta altura que, em frente de Podamo, nos fomos aproximando de terra. Ali, quase junto à terra pedimos socorro a alguns naturais que aí se encontravam mas estes, talvez com receio dos aviões, não o fizeram; assim, mesmo junto à terra estivemos mais de 1 hora a nadar quase no mesmo sítio até que finalmente se conseguiu entrar na rebentação do mar tendo sido lançados para as rochas. Foi nesta altura que se notou o silêncio e a cor muito branca do nosso camarada Aníbal que se encontrava morto, tendo então dito o marinheiro Costa que ele tinha morrido talvez há perto de 1 hora mas que se calara para que não houvesse desânimo. Com a ajuda de um natural pôs-se a balsa em seco, tendo ficado em cima da mesma o corpo do infeliz marinheiro Aníbal. Foi também que reparámos nos ferimentos do

marinheiro Costa, deixando-nos como apalermados. O braço totalmente destroçado na zona do músculo e o furo de uma bala de 20 mm que o varava das costas para a frente sobre o rim esquerdo. Colocou-se o Costa em sítio seguro e abrigado enquanto que o marinheiro Silva, com os membros tolhidos, ali ficou estendido recuperando energias, indo o marinheiro Freitas, descalço, cheio de sede e fome, a alguns quilómetros de distância em busca de socorros. Foi então que, mais tarde, acompanhados pelo Freitas apareceram o médico e dois maqueiros no local onde tinham ficado. Chegados ali, alguns naturais acordaram o marinheiro Silva que entretanto dormia, o qual procurando pôr-se em pé não o conseguiu, indo a arrastar-se, só muito lentamente se reanimando. Entretanto foi-se à procura do marinheiro Costa que gemia e pedia água. Pouco depois apareceram alguns naturais trazendo água e dando-a aos marinheiros, tendo então o Silva dado de beber ao Costa. Logo após a chegada do médico e dos maqueiros no jeep imediata-


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Em virtude do vento e da mareta, descaindo para fora, para o lado de Brancavará, o desânimo apoderou-se principalmente dos feridos que não deixavam de pedir: «Silva leva-nos para terra», ao que este respondia: «Ânimo rapazes que havemos de chegar». Já havia algumas horas de luta com o mar quando o marinheiro Silva começou a não poder abrir os olhos dizendo para o Freitas que o guiasse em virtude de não ver, por ter os olhos cheios de gasóleo, tendo também a garganta com bastante ardor devido também a algumas goladas de água misturada com gasóleo que fora forçado a ingerir. mente se procedeu à acomodação do Costa no mesmo, bem como dos seus camaradas Silva e Freitas, dirigindo-se o jeep para o hospital, onde ficaram internados. Estes, 3 homens, marinheiro-fogueiro n.º 5645 Silva, marinheiro-electricista n.º 5353 Freitas e marinheiro-telegrafista Costa chegaram a terra depois de 7 horas de nadar. Na altura do afundamento da lancha o grumete-marinheiro Ramos, apesar dos seus ferimentos, nadou sozinho para terra, próximo da Fortaleza, tendo passado por baixo do fogo que o cruzador lançava para a Fortaleza, tendo conseguido salvar-se apesar de chegar a perder as esperanças, em virtude do intenso fogo com que o cruzador bombardeava a Fortaleza. Chegado a terra, com a ajuda de alguns soldados, foi conduzido ao hospital onde ficou internado. Ainda na altura do afundamento da lancha, o marinheiro­fogueiro-motorista Nobre, tendo sido o primeiro a abandonar a lancha nadou com grande vigor a fim de se afastar da mesma que se encontrava a arder e a darem-se explosões a bordo, depois de olhar para ver se via alguns sobreviventes reparou

somente na balsa de salvação e, não avistando nenhum dos seus camaradas, pensou que todos tivessem morrido quando se encontravam no bote, em virtude do ataque dos dois jactos. Nadou então em direcção ao fortim do mar, porém, nesta altura, foi o fortim alvo de grande bombardeamento, pelo que teve de desistir do seu intento e nadar em direcção a terra indiana, onde chegou exausto, quase sem forças, após 7 horas de grande esforço. Ali foi recolhido por naturais e feito prisioneiro passados 45 minutos, tendo sido amarrado e levado para a cidade de Una onde esteve encarcerado durante 42 horas, tendo sido interrogado sobre: como tinha aparecido ali; há quanto tempo tinha começado o fogo e se os aviões eram indianos. Desconfiaram ainda que ele não fosse marinheiro, o que justificou pelas tatuagens que tem nos braços. Afirmaram-lhe ainda que Dio já se tinha rendido. O intérprete era um goês. Este marinheiro viu a lancha afundar-se completamente em chamas. Após o combate aero-naval havido com a lancha «Vega» e depois do seu afundamento e da salvação de alguns dos seus tripulantes

é que se pôde calcular as baixas sofridas, verificando-se:

Mortos: Senhor Comandante 2.° Tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo; Marinheiro-artilheiro-apontador n.º 10030 António Ferreira: Marinheiro-artilheiro da RM. N.º 10519 Aníbal dos Santos Fernandes Jardim.

Feridos: Marinheiro-telegrafista n.º 11027 - António da Costa Bagoim: Grumete-artilheiro n.º 13032 - Venâncio dos Ramos.

Ilesos: Marinheiro-fogueiro n.º 5645 - Armando Cardoso da Silva; Marinheiro-electricista n.º 5353 - Francisco Mendes de Freitas: Marinheiro-fogueiro n.º 6788 - António da Silva Nobre.

Foi também que reparámos nos ferimentos do marinheiro Costa, deixando-nos como apalermados. O braço totalmente destroçado na zona do músculo e o furo de uma bala de 20 mm que o varava das costas para a frente sobre o rim esquerdo. Colocou-se o Costa em sítio seguro e abrigado enquanto que o marinheiro Silva, com os membros tolhidos, ali ficou estendido recuperando energias, indo o marinheiro Freitas, descalço, cheio de sede e fome, a alguns quilómetros de distância em busca de socorros.


Colaboração Os Heróis das nossas Forças Armadas

Nota «No dia 18 de Dezembro de 1961 verificaram-se ainda os seguintes factos: Às 06.30, destruição de aquartelamento da marinha pelos cabos-artilheiros n.º 2195, António Fernandes da Silva Gonçalves (mestre da lancha «Vega») e n.º 2590 - José de Azevedo (patrão da embarcação «Folque»). Às 07.00, destruição total do material hidrográfico pelos cabo-artilheiro n.º 2590 - Azevedo e marinheiro-artilheiro n.º 6216 - José António Botinas, este da Brigada Hidrográfica do Estado da Índia.» Este, o relato da acção da Lancha «Vega» em águas de Diu, quando da invasão indiana em 1961. Mais tarde, através de um oficial da aviação indiana que esteve em Diu, houve conhecimento que a Lancha «Vega» havia atingido três aviões, desconhecendo-se, porém, a natureza dos danos causados. O comportamento do Comandante da Lancha «Vega» e da sua guarnição foi, de facto, brilhante e poderemos dizer, servindo-nos de palavras do Comandante do Agrupamento, que «a guarnição desta pequena unidade naval escreveu páginas que honram a tradição da Armada Portuguesa». A título póstumo, ao Segundo Tenente Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo foi concedido o grau de comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito e a medalha de ouro de valor militar com palma, tendo sido promovido por distinção ao posto de Capitão-Tenente. O Comandante Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo foi patrono do curso 1962/1967 da Escola Naval.

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Colaboração Valores, Atitudes e Padrões de Comportamento

José Alberto da Costa Matos 96/1950

Valores, Atitudes

e Padrões de Comportamento

N

a edição de 12 de Junho (repetida dois meses depois no dia 14) do conhecido programa televisivo “Plano Inclinado”, da SIC, participou como convidado o Professor Hernani Lopes6. Nesse programa, e com a clareza que lhe é peculiar, o professor referiu-se de modo particularmente duro à situação de crise económica que se vive em Portugal e, a dado passo da sua intervenção, apresentou num interessante esquema gráfico o “Conceito de Actividade Económica”. Era um triângulo azul, simbolizando a estrutura de tal actividade, desde a sua faceta mais visível (vértice superior) até ao real alicerce da mesma (base do triângulo). Para materializar os diferentes níveis dessa actividade, dispunham-se do topo para a base cinco rectângulos de um azul mais claro nos quais estavam inscritos, sucessivamente: Preços e Mercado – Fluxos de Informação – Jogo do Poder – Valores/Atitudes/Padrões de Comportamento – Inteligência/ /Vontade/Energia. Depois de explicar as três primeiras “camadas” (como lhes chamou), Hernani Lopes deteve-se especialmente na quarta, começando por enunciar que “aqui é de longe onde tudo se joga”, acrescentando de seguida que a mesma “é verdadeiramente decisiva”.

6 - Nasceu em 1942, licenciou-se em Economia na Universidade Técnica de Lisboa (1964), onde foi assistente e encarregado do curso de Economia, doutorando-se em 1982 na Universidade Católica. De 1964 a 1967 cumpriu serviço militar como oficial da Reserva Naval e depois, até 1989, exerceu diversos cargos no Banco de Portugal, sendo consultor económico a partir de 1985. Entre 1975 e 1979, foi também embaixador de Portugal em Bona e, de 1979 a 1983, chefe da Missão de Portugal junto das Comunidades Europeias, em Bruxelas. Exerceu o cargo de ministro das Finanças e do Plano do IX Governo Constitucional, entre 1983 e 1985.


Colaboração Valores, Atitudes e Padrões de Comportamento

PREÇOS E MERCADO FLUXOS DE INFORMAÇÃO JOGOS DO PODER VALORES / ATITUDES PADRÕES DE COMPORTAMENTO INTELEGÊNCIA / VONTADE / ENERGIA

Se a simples referência a “Valores, Atitudes e Padrões de Comportamento” bastara para activar instintivamente o meu espírito de “Menino da Luz”, o facto é que aquela enunciação inicial acabou por agarrar em definitivo a minha atenção. Por certo que iria ser abordado um tema que não seria estranho ao Colégio Militar. De facto, no prosseguimento da dissertação, Hernani Lopes foi referindo que os Valores são os elementos “que marcam uma determinada sociedade” e que “ninguém nasce com os valores aprendidos”. “São ensinados pelos Pais e pela Escola, e eram-no no Serviço Militar Obrigatório (mas logo acabaram com ele!...)” . Daqui, fixemos para já três palavras: ensinar, escola e militar ! Continuando, formulou então a seguinte questão: “E o que é que ensinamos aos nossos filhos ?” - esta era uma directa à consciência daqueles que ainda a têm. Para melhor ilustrar as opções que se colocam a Portugal e aos portugueses, apresentou de seguida um pequeno quadro intitulado “A via útil para o Futuro”, que era dominado por duas colunas encimadas por “onde está” e por “pôr”, dentro das quais se continham. Complementando esta apresentação, afirmou, entre outras coisas, o seguinte: “Esta escolha é feita por milhões de portugueses... sem votarem!” e “O que não se ensina (os Valores) não se sabe!” e “Se não ensinarmos isto aos nossos filhos, não vale a pena medidas de pormenor de política monetária”. Retenhamos destas afirmações: «O que não se ensina não se sabe». A intervenção de Hernani Lopes no referido programa televisivo terminou com esta frase: “O futuro de Portugal está nas mãos dos portugueses”.

Dias mais tarde terminava o Campeonato do Mundo de Futebol com a vitória dos nossos vizinhos espanhóis e, logo após a final, quando interrogado pelos repórteres acerca do segredo da vitória, o seleccionador Vicente Del Bosque respondeu que a sua equipa possuía Princípios e Valores que respeitava ! Em matérias tão distintas como a economia e o futebol, num curto espaço de tempo e perante grandes audiências, eram apontados os «Valores», no sentido ético e social, como a essência do sucesso colectivo e individual. Retomemos então as ideias que se salientaram ao longo do texto: - O que não se ensina não se sabe; - Escola, ensino e militar. Residia nestas palavras a ponte que estabelecia a ligação, que eu pressentira, desde o começo do programa, entre o “futuro de Portugal” e o Colégio Militar. Como estabelecimento de ensino que é, ali se ministram conhecimentos idênticos aos das demais escolas, mas... no Colégio, há mais de dois séculos que são também ensinados, exaltados e praticados, segundo metodologia de raiz militar, Valores cívicos e morais que perpassaram numerosas gerações de Alunos e que serviram e servem de padrão de conduta e

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de comportamento à esmagadora maioria dos seus Antigos Alunos. Desses Valores o Colégio Militar nunca abdicou, quer em momentos de conflito cívico e/ou político (e foram vários), quer em situações de desvio comportamental da sociedade, e é curioso notar como, em situações de crise, se procura encontrar a solução no retomar dos valores, no reposicionamento das atitudes e na correcção dos comportamentos. E será por causa da sublimação dos Valores ensinados no Colégio Militar – que são os que Hernani Lopes apontou, acrescidos do Dever, da Coragem, do Patriotismo, da Dignidade, da Justiça, da Isenção, da Liberdade e da Solidariedade – que a História nos mostra que, nas dificuldades, nas situações de crise ou nos momentos de risco, quase sempre existem um ou mais Antigos Alunos no protagonismo das soluções. Mas não exultemos, pois não terá também acontecido que, em nome do Dever, da Honra, da Dignidade e da Liberdade, muitos outros foram desprezados e humilhados por aqueles que não possuem Seriedade e ignoram a Justiça, ou que perderam a vida em nome do Patriotismo e da Coragem, quando o mais fácil e cómodo seria a “moleza” e a “vulgaridade” ? Apesar de transmitir Valores aos seus Alu-

A VIA ÚTIL PARA O FUTURO ONDE ESTÁ

PÔR

FACILITISMO

EXIGÊNCIA

VULGARIDADE

EXCELÊNCIA

MOLEZA

DUREZA

GOLPADA VIDEIRISMO

SERIEDADE HONRA

IGNORÂNCIA

CONHECIMENTO

MANDRIICE

TRABALHO

ALDRABICE

HONESTIDADE


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Colaboração Valores, Atitudes e Padrões de Comportamento

nos, seria porém estultícia pensar-se que todos os Antigos Alunos são homens e cidadãos exemplares pois, como mostrava Hernani Lopes, isso depende também da última “camada”: Inteligência, Vontade e Energia. E isso não se ensina. Nasce com cada um. E rematava dizendo: “Se se tem...tem!”. O Marechal Teixeira Rebelo, “Fundador” do Colégio Militar, homem de rara inteligência, notabilíssimo educador, que dotou o seu colégio dos Valores por que ainda hoje se rege e que são transmitidos aos colegiais, tinha uma noção muito clara acerca dos resultados que poderiam ser alcançados com os seus conceitos pedagógicos e métodos educativos. Em 1813, Teixeira Rebelo, depois de reconhecer que procurava proporcionar aos Alunos os conhecimentos e demais apetrechos para que viessem a ser cidadãos úteis a Portugal, escrevia mais o seguinte:

com a vigilância num Colégio onde se procuram por todos os meios sufocar os vícios na sua nascença, e prever as faltas tanto morais como civis e militares. Eis a razão por que não posso afiançar decididamente qual virá a ser a futura conduta dos Alunos, a qual começa verdadeiramente a manifestar-se desde o momento em que saem do Colégio; porque então, vendo-se senhores da sua liberdade no meio dos bons e maus exemplos, as virtudes ou vícios que praticarem é que os caracterizarão de maneira não equívoca.»

«As mudanças periódicas que a mocidade faz em seu desenvolvimento físico e moral, é a razão de se não poder fazer um juízo exacto pelo qual se afiance a sua conduta futura, e o grau de merecimento que haja de ganhar. As idades que a experiência e a observação mostram trazer notáveis mudanças, são aos seis (em que não falarei por ser excluída do Colégio), nove, doze, e quinze anos. Na idade até aos 12 o temperamento dominante é o sanguíneo, cujo carácter é a inconstância, a leviandade e o amor às brincadeiras. Nesta idade ainda é fraca a reflexão; mas também os delitos em que incorrem são travessuras de pouca monta como o são igualmente as penas que se lhes impõem. Na idade dos 12 aos 15 anos o temperamento recebe novas e mais profundas modificações e começa a tomar um carácter mais constante. As travessuras convertem-se já em faltas reflectidas, e por isso são de maior consequência. Contudo, nesta idade, ainda não é possível formar um juízo infalível do carácter constante que deve marcar todos os períodos da conduta de cada um aluno. Primeiro porque, neste período, a sua constituição, tanto física, como moral, é variável; segundo porque, sendo educados debaixo da forma e rigor da disciplina militar, vêm-se obrigados a não mostrar toda a força do seu génio bem como as inclinações que longe de merecerem louvor, merecem sim a repreensão e o castigo. Por isso o mau carácter não se pode descobrir, por ser incompatível a sua manifestação

«A correcção do carácter, o cultivo da inteligência e o robustecimento das condições físicas são elementos essencialmente constitutivos da educação, dos quais não é fácil obliterar algum ou suprimi-lo sem que esta seja inteiramente falseada e sem que a resolução do problema educativo fique incompleta.(...) Torna-se indispensável distribuir o tempo de forma que haja durante o dia, ocasião para se atender devidamente a todas as variadas exigências de uma educação sã e completa. Ministre-se a instrução com a maior solicitude e proveito, mas de modo que ela não absorva

Mas avancemos no tempo quase um século, para nos debruçarmos sobre um relatório do general José Estevão de Morais Sarmento (director do Colégio e um educador e pedagogo de excepção), enviado ao Ministério da Guerra em 22 de Setembro de 1902. Nele podemos ler o que segue:

todos os cuidados; que ainda fique tempo suficiente para a formação do carácter, para o desenvolvimento físico e para o descanso do espírito. A educação física das crianças deve ser desenvolvida paralela e progressivamente com a sua educação moral e intelectual, de modo a torná-las aptas para sustentarem na luta da vida não somente a competência de carácter e de inteligência, mas ainda a excessiva fadiga dessa mesma luta, cada dia mais difícil. É necessário procurar contrabalançar a influência do excesso de aplicação intelectual por um regime persistente de exercícios físicos, e não esquecer que a actividade e o vigor físico concorrem para robustecer a força e a vivacidade do trabalho intelectual. Sobretudo, deve ter-se sempre em vista que o ensino metódico da ginástica favorece a revelação e cultivo dos dotes morais, que tornam o homem viril, quais são: a coragem, a paciência e a circunspecção. (...)». Não será por isso ousado dizer-se que o Colégio Militar, para além da transmissão dos conhecimentos curriculares, é um dos raros estabelecimentos de ensino que tem especial preocupação e cuidado com o ensino dos Valores morais e cívicos, com a formação do carácter e com o robustecimento físico dos seus Alunos. E se isto foi fundamental no passado, também o é no presente e sê-lo-á no futuro de Portugal e de cada um dos seus cidadãos. Oferece-se então perguntar: Por que é que o Colégio Militar não é acarinhado e adequadamente apoiado e protegido por todos os responsáveis, decisores e opinadores? Será incómodo para alguns? Estará agindo de modo inconveniente para Portugal ou para os portugueses? Por que é que os pais (a quem cabe a responsabilidade de dotar os filhos com os Valores necessários ao seu futuro e ao exercício de uma cidadania séria, honesta e responsável) não procuram denodadamente o Colégio Militar para nele conseguirem o apoio necessário à educação daqueles a quem deram a vida? Será de facto tão difícil de compreender o sentimento que, em 1953, Ramiro Guedes de Campos (Antigo Aluno 42/1915) expressava quando dizia: «A alma do Colégio Militar já tão alto a vejo que a confundo, em Honra, Glória, Grandeza e Perenidade, com a própria alma da Pátria!»


Colaboração O Pintor Nuno Gonçalves e os painéis de S. Vicente de Fora

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António Rafael Passarinho Franco Preto (67/1950)

O Pintor Nuno Gonçalves

e a charada dos seis painéis de S. Vicente de Fora 7

Os 6 painéis tal como podem ser vistos no Museu de Arte Antiga em Lisboa.

NOTA PRÉVIA: Impõe-se uma explicação aos leitores sobre a razão que me levou a abordar este tema (não sendo eu um especialista ou sequer um entusiasta amador de pintura). A razão é em todo semelhante à que me levou a estudar a ‘ARTE DA CAVALLARIA, DE GINETA, E ESTARDIOTA, BOM primor de ferrar, & Alveitaria’, composta por António Galvam d’Andrade, em 1678 (e aproveitando essa necessidade, produzir uns oito artigos sobre esse vasto tema). Tendo recebido (para áreas específicas vitais para a versão americana do livro do rei D. Duarte – A Arte de Bem Cavalgar Toda

Sela – que produzi durante 2004-2005), uma colaboração de grande qualidade e gratuita dum professor Canadiano catedrático de História Medieval, vi-me obrigado a responder positivamente ao seu pedido (não há almoços grátis…) de informações detalhadas sobre algum pintor português do século XV8 . Para isso socorri-me de algumas das valiosas informações que encontrei num ‘website’ e num ‘blog’ que passo a identificar para todos aqueles que desejarem estudar em maior profundidade os assuntos relacionados com este extraordinário conjunto de painéis, pois pela minha parte não vou fazer mais do que cha-


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Colaboração O Pintor Nuno Gonçalves e os painéis de S. Vicente de Fora

mar a atenção dos leitores para aquilo que é considerado pelos autores do ‘website’ e do ‘blog’, como uma charada cuja solução – a ser consensualmente reconhecida por muitos dos que se dedicaram a este assunto – ainda está por encontrar na sua totalidade (se alguma vez o for…).

Este ‘website’ é muito pormenorizado, já inclui 26 capítulos e – segundo o seu autor – brevemente serão incluídos mais. Apresenta também uma bibliografia extensíssima.

Não sou minimamente qualificado para ir mais além. Limitar-me-ei pois a referir, a título de exemplo, um número bastante reduzido das muitas anomalias, incongruências e pormenores sem explicação aparente, que foram detectados por alguns dos especialistas que já se pronunciaram sobre o assunto no seu todo, desenvolvendo e publicando diversas teses interpretativas que consideraram apropriadas, tendentes a solucionar os mistérios que são visíveis nos seis painéis de S. Vicente e conducentes a encerrar a enorme polémica que os rodeia. Mas, face ao que já foi escrito sobre o assunto – electronicamente e em papel – eu diria, para amenizar um pouco o tom deste meu artigo, que ‘o mistério é sério’!

(‘blog’ de Nuno Guerreiro Josué) Eis um resumo do conteúdo deste pequeno ‘blog’ (todo ele sobre a análise duma figura específica dum dos painéis):

É este o único objectivo deste artigo. O caminho a seguir por todos aqueles que desejem aprofundar o assunto e formar opiniões próprias sobre ele é pois visitarem o ‘website’ e ‘blog’ que refiro e adquirir os livros indicados. E aqui fica, desde já, o meu repto – e pedido – a todos aqueles que decidirem aprofundar este assunto (ou qualquer dos outros assuntos que já foram – ou serão eventualmente no futuro – objecto de artigos meus na nossa revista): Colaborem e passem ao papel as vossas conclusões, enriquecendo e revitalizando este espaço que, pelas suas características únicas (‘é nosso’!) merece a nossa colaboração.

http://ruadajudiaria.com/índex.php?p=157

No painel da direita do políptico (o último da direita de quem está de frente para o conjunto), encontra-se um homem robusto, envergando um manto escuro e um barrete e segurando nas mãos um livro com caracteres indecifráveis. Uma análise detalhada do retábulo9 não deixa dúvidas: a misteriosa figura é uma das poucas representações iconográficas que restam de um judeu português quinhentista. Além do livro com caracteres que imitam o hebraico (mas não são caracteres de nenhuma língua conhecida, sendo, como tal, indecifráveis), a figura ostenta no peito uma estranha insígnia de seis pontas, interpretada por alguns como uma representação oculta remanescente da estrela de David. No entanto, a insígnia não é mais do que o sinal que os judeus portugueses eram obrigados a usar nas suas roupas, decretado no texto das Ordenações Afonsinas – livro II, título 86 –, onde a lei Joanina de 1429 prescreve a utilização obrigatória de “sinais vermelhos de seis pernas cada um, no peito, acima da boca do estômago, (…) pois os judeus não traziam quais sinais que deviam trazer e esses que traziam eram tão pequenos que não se pareciam, e outros os traziam de duas e três pernas e mais não.“ Como alternativa possível às teses interpretativas desenvolvidas nas muitas dezenas de páginas do primeiro dos ‘websites’ referidos, indicamos dois livros:

Endereço dos ‘websites’ e livros consultados: http://paineis.org/INDICE.htm Em ‘pé-de-página’ da primeira página deste extenso ‘website’, pode ler-se o seguinte: © 1998-2006 António Salvador Marques para o texto e imagens originais deste ‘website’. Este ‘website’ destina-se a apresentar Os Painéis de S. Vicente de Fora - Modo de Utilização, uma tese interpretativa das enigmáticas pinturas do séc. XV do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa, sem qualquer intuito comercial ou lucrativo, proporcionando o visionamento de imagens necessárias à ilustração da referida tese…

• ‘Painéis de S. Vicente de Fora – Uma questão inútil?’ Autores – Paula Freitas e Maria de Jesus Gonçalves Imprensa Nacional da Casa da Moeda (1987) • ‘Os Painéis de S. Vicente de Fora – As chaves do mistério’ (200 páginas) Autora – Teresa Schedel de Castello Branco (ISBN – 9725641612) Quetzal Editores (1994) Nota: Este último apresenta uma tese interpretativa totalmente diferente (da qual serão apresentados alguns detalhes na parte final deste artigo). A sua autora diz ter sido desafiada a proceder a uma minuciosa e profunda investigação, devido ao livro de Paula Freitas e Maria de Jesus Gonçalves.

7- Charada – Espécie de problema ou adivinha, cuja solução depende da decifração de cada uma das partes em que a adivinha se decompõe. 8 - Aproveito para levar ao vosso conhecimento que as informações que enviei ao Prof. Dr. Steve Muhlberger mereceram deste uma ampla divulgação pelas suas relações académicas, profissionais e pessoais, dizendo que no seu entender, Nuno Gonçalves devia ser melhor conhecido pois estava – sem qualquer dúvida – ao nível dos melhores pintores da Borgonha da mesma época. Notemos que a Borgonha era considerada como o mais importante centro cultural e artístico da Europa dos séculos XV-XVI. 9 - Designação dada a um painel ou quadro que decora um altar.


Colaboração O Pintor Nuno Gonçalves e os painéis de S. Vicente de Fora

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Quem foi Nuno Gonçalves?

S

abe-se muito pouco sobre ele, para além de ter sido pintor da corte do rei D. Afonso V (filho do rei D. Duarte) por volta de 1450.

Nuno Gonçalves é reconhecido como um dos grandes mestres da pintura do século XV. Depois da descoberta em 1882 do seu único trabalho conhecido, a pintura do altar do convento de São Vicente, e depois de 400 anos de anonimato, Nuno Gonçalves foi finalmente reconhecido como o fundador da escola de pintura portuguesa e um artista de importância universal. Francisco de Holanda10 nos seus “Dialogues on Ancient Painting“ (1548), refere-se a Nuno Gonçalves como um dos mestres do século XV - mas o seu nome e os seus restantes trabalhos perderam-se na história. Todas as suas outras obras (pois temos de admitir que seriam inúmeras) desapareceram durante o terramoto que destruiu Lisboa em 1 de Novembro de 1755 (pelas 9h 20m). Actuais especialistas estimam que o terramoto teria alcançado o grau 9 da escala de Richter e provocados inúmeros incêndios; terá – além disso – sido seguido por um tsunami com mais de 20 metros de altura e terá provocado mais de 100.000 mortes em Portugal. A obra-prima de Nuno Gonçalves para a catedral de Lisboa foi destruída no terramoto de 1755, e a sua outra obra com o tema de São Vicente, o santo patrono de Lisboa e da Casa Real de Portugal, esteve desaparecida até 1882, quando foi descoberta no convento de São Vicente. No entanto, não foi senão em 1931, quando sua obra foi exposta em Paris, que Nuno Gonçalves recebeu o reconhecimento internacional que merecia. O Políptico de São Vicente de Fora – pintura em óleo sobre madeira – é um conjunto de seis painéis, dois largos e quatro mais

estreitos, dominados pela figura de São Vicente. Nos dois painéis centrais, o santo é num deles venerado por um grupo de nobres, entre os quais se encontra o rei D. Afonso V; no outro, está rodeado por cavaleiros e clérigos. Nesta portentosa galeria de figuras agrupadas numa composição medieval, há uma meditação na peregrinação das almas, de cristãos numa viagem de descoberta à volta do santo patrono. Este é o trabalho de um mestre que mostra alguns traços de arte Italiana e Flamenga mas que também revela atributos próprios: uma economia de linha, pincelada brilhante, soberba caracterização, e uma mestria de composição, tudo isto unido e subordinado a uma visão religiosa do trabalho. Podemos dizer que o que até aqui foi escrito relativamente aos seis painéis de S. Vicente de Fora faz parte da versão tradicional da interpretação desta obra-prima. A partir deste momento vamos referir algumas das interpretações, questões e dúvidas inseridas no ‘website’ e no ‘blog’ já referidos e que justificam plenamente (mesmo que alguma vez no futuro se prove não terem razão de ser) o facto de o título deste artigo incluir a referência à charada dos seis painéis de S. Vicente de Fora. A polémica que continua aberta (e de que vamos citar alguns pontos significativos) só aumenta o reconhecimento pela magnificência da obra!

A Charada Dados específicos sobre os painéis: Altura: todos eles têm 2,07metros de altura Largura: (da esquerda para a direita) 64 cm, 60 cm, 128 cm, 128 cm, 60 cm e 64 cm. São conhecidos pelas seguintes designações (sempre da esquerda para a direita): • Painel dos Frades • Painel dos Pescadores • Painel do Infante • Painel do Arcebispo • Painel dos Cavaleiros • Painel da Relíquia (nas mãos da personalidade ajoelhada em primeiro plano, vestida de vermelho)

10 - Francisco de Holanda, mais correctamente Francisco d’Olanda, (Lisboa, 1517 - 1585), humanista e pintor português. Considerado um dos mais importantes vultos do renascimento em Portugal, também foi ensaísta, arquitecto e historiador.


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Colaboração O Pintor Nuno Gonçalves e os painéis de S. Vicente de Fora

V

amos então enumerar e descrever alguns factos e considerações básicas e genéricas sobre os seis painéis de S. Vicente de Fora, para além de algumas das ‘anomalias, incongruências e pormenores sem explicação aparente, que foram detectados por alguns dos especialistas que já se pronunciaram sobre o assunto no seu todo’ (o que não significa que concordemos com todos eles, mesmo que lógicos; este nosso compreensível posicionamento não nos impedirá no entanto de mencionar eventuais factos e pormenores adicionais que consideremos relevantes e interessantes para o leitor).

mantém-no fechado e apertado entre o corpo e o braço) mas sim uma vara que pode significar uma atitude de comando temporal; o painel dos Cavaleiros é nitidamente de carácter temporal face à natureza dos intervenientes; o painel da Relíquia pode sugerir qualidades de sacrifício, austeridade e penitência (consideradas fundamentais para assegurar virtuosidade a qualquer comando temporal). • Abordemos agora aquele que considero ser um ponto (que poderá não ser eventualmente o mais importante) mas é sem dúvida o mais surpreendente da charada!

• …pater maior me est… No painel do Infante, o livro aberto está escrito em Latim, a primeira página é do Evangelho de S. João (14, 28-31) e pode ler-se …pater maior me est…; eis o seu equivalente em Português: …o Pai é maior que eu. Eu o digo agora, antes que aconteça, para que quando acontecer, vós acrediteis. Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim; mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou… Na segunda página (que não traduziremos para Português) pode ler-se: …Domine, Sancte Pater, omnipotens aeterne Deus: per Christum Dominum nostrum… (trata-se do Prefácio da Missa do Espírito Santo) Não pode pois haver qualquer dúvida sobre o carácter espiritual dos três primeiros painéis (sempre a contar da esquerda para a direita do leitor): o dos Frades, o dos Pescadores humildes em posições que sugerem a procura de piedade e o do Infante onde o conteúdo do livro aberto nas mãos de S. Vicente é um facto fundamental (e notemos que S. Vicente tem cinco figuras à sua volta – em três planos – que parecem, pelo seu posicionamento relativo, pertencentes à mesma família). Por estas razões podemos considerar que o tríptico da esquerda dos seis painéis de S. Vicente de Fora é fundamentalmente de natureza espiritual. • Reparemos que, por outro lado, o tríptico da direita é fundamentalmente de natureza temporal; no painel do Arcebispo, S. Vicente empunha não um livro aberto de carácter religioso (aliás

Acontece no painel do Infante11 e é consequência das cinco figuras que se encontram à volta de S. Vicente parecerem (como já foi dito) – pelo seu posicionamento relativo e no próprio painel – pertencer à mesma família. É afirmado por todos os apoiantes desta tese interpretativa que em primeiro plano se encontram o Rei D. Afonso V frente a sua esposa a Rainha Isabel; sendo assim, o adolescente de pé e à direita e um pouco atrás de D. Afonso V é o príncipe herdeiro D. João (o futuro Rei D. João II); o casal nitidamente mais idoso que fecha o círculo – e utiliza roupagens escuras e/ou sem brilho (o que era uma maneira muito utilizada de os pintores daquela época representarem personalidades já falecidas) – serão os avós do Príncipe D. João e pais do Rei D. Afonso V (Dª. Leonor e D. Duarte). Pelo menos, é lógico!12 É considerado (pelos que apoiam esta tese interpretativa) ser este o painel principal de toda a obra. Mas, assim sendo, a figura que sempre nos habituamos a considerar como o Infante D. Henrique com o seu chapéu típico de abas largas da Borgonha, é de facto D. Duarte! É, sem sombra de dúvida, uma verdadeira ‘heresia histórica’, só possível devido ao facto de não existir qualquer retrato de D. Duarte! Digamos no entanto em abono desta tese que quem esteve directamente envolvido nas demoradas negociações (mais de um ano) para o casamento da Princesa Dª Isabel de Portugal com Filipe, o Bom, Duque da Borgonha, em 1430, foi D. Duarte (e o Infante D. Henrique nunca teve quaisquer relações com a Borgonha). Adicionemos o seguinte facto (relativo ao painel dos Cavaleiros): Os quatro cavaleiros lá representados serão os restantes irmãos vivos de D. Duarte (de trás para a frente: D. Fernando, D. João, D. Pedro e D. Henrique). Para juntar lenha à fogueira (para utilizar outra expressão muito popular) é um facto indesmentível que a única efígie existente

11 - Subentenda-se que se trata, como irá ser descrito, do jovem Infante D. João (futuro Rei D. João II), filho do Rei D. Afonso V (e não do Infante D. Henrique). 12 - Para amenizar o texto (e utilizando um ditado em língua Italiana, que nós também temos): ‘ Si non è vero, è ben trovato’


Colaboração O Pintor Nuno Gonçalves e os painéis de S. Vicente de Fora

do Infante D. Henrique é a escultura existente na sua pedra sepulcral, no Mosteiro da Batalha, e a face aí esculpida tem uma semelhança espantosa com a face da personagem ajoelhada em primeiro plano no painel dos Cavaleiros (que é substancialmente diferente daquela que estamos habituados a considerar como sendo a do Infante D. Henrique!). Um último ponto a favor desta tese interpretativa: Gomes Eanes de Zurara (1410-1474), Guarda-Conservador da Livraria Real em 1451, na sua obra ‘Crónicas dos Feitos da Guiné’ descreve D. Henrique como fisicamente forte, sem bigode e com cabelos embranquecidos (ao mesmo tempo que refere o bigode usado por D. Duarte). …«o cabelo era um tanto espigado e a sua cor – embranquecida mais pela constante atribulação – mudou com o tempo»…

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B

elard da Fonseca (autor de ‘O Mistério dos Painéis’) citou a propósito o artigo do Prof. Reynaldo dos Santos, no Diário de Notícias de 7 de Janeiro de 1959, em que este defende que se continue a atribuir a obra a Nuno Gonçalves, mesmo que estivesse provado que ele não era o seu autor, porque o tempo já estabelecera esse pintor de tal forma, que ele não podia ser afastado. Comentou Belard da Fonseca: Os erros e as mentiras, históricas ou artísticas, tal como as pessoas, merecem toda a veneração e deferência quando atingem determinada idade. Nota: Quantos exemplos ‘artísticos’ desta frase excepcional, não se encontram na vida real? • Para não tornar este artigo infindável (e inútil, por ausência de leitores…) vou limitar-me a colocar três perguntas para as quais não é fácil encontrar uma resposta minimamente aceitável e que dizem respeito a pormenores que podem passar despercebidos a um observador menos atento (e aqueles que visitarem e lerem em detalhe o magnífico ‘website’ de António Salvador Marques terão oportunidade de serem confrontados com inúmeros detalhes adicionais que necessitam de uma explicação aceitável… já para não voltar a mencionar os livros que foram referidos no início deste artigo).

3º Painel a partir da esquerda

5º Painel a partir da esquerda

Túmulo do Infante D. Henrique

- No painel do Infante, porque motivo as mangas de Dª Isabel são completamente diferentes uma da outra? Uma é justa e lisa (a manga direita dela) e a outra é larga e feita de um tecido muito mais elaborado. - No painel do Arcebispo, o que está a fazer uma corda grosseira (mais parece uma corda usada na amarração de barcos, tal a sua grossura e aparente resistência) no chão, em primeiro plano? - No painel dos Frades, porque está vazia a parte superior direita? Tal facto não acontece em mais nenhum dos painéis… Espero ter cumprido o objectivo que estabeleci a mim próprio de criar tanta curiosidade a alguns dos leitores, que não irão resistir a visitar o ‘website’ que referi (preparem-se para consumir umas horas…) e eventualmente a comprar um dos livros sobre o assunto (talvez o que menciona, com um ‘pouco’ de imodéstia, no seu título, que desvenda as chaves do mistério, e que apresenta uma tese interpretativa completamente diferente, de que vou mencionar alguns dos pontos fundamentais e cuja argumentação detalhada poderão encontrar no livro cuja capa se reproduz).

Este magnífico original está na Biblioteca Nacional de França (Códice de Paris Fl. 5 V e Fl. 6) Nota: A França apoderou-se sempre de tudo o que podia (incluindo os originais das obras de D. Duarte ‘ A Arte de Bem Cavalgar Toda Sela’ e o ‘Leal Conselheiro’).


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Colaboração O Pintor Nuno Gonçalves e os painéis de S. Vicente de Fora

‘Os Painéis de S. Vicente de Fora – As chaves do mistério’ (200 páginas) Autora – Teresa Schedel de Castello Branco (ISBN – 9725641612) Quetzal Editores (1994) • O autor dos painéis não terá sido Nuno Gonçalves (contrariando assim José de Figueiredo e muitos outros) mas sim um pintor não identificado. • Infante D. Henrique não está representado em nenhum painel. Comentário: É ponto assente na opinião de muitos especialistas (com a qual concordo, face aos dados e argumentações que neste momento conheço), que a figura dum homem sisudo, vestido de escuro e usando um chapéu borgonhês de abas largas e que é apresentado em todos os livros de História – e inclusivamente no monumento aos descobrimentos em Belém – como o Infante D. Henrique, irmão do Rei D. Duarte, não é de facto o Infante D. Henrique!

Mas vá lá tentar-se alterar esta ‘mentira histórica’! Se até é uma das poucas figuras da nossa História reconhecida pelos estrangeiros!

Noronha, Conde de Odemira. Atrás dele estão os dois filhos restantes do Duque de Bragança: D. Álvaro (que veste de escuro) e D. João (que segura com ambas as mãos a espada do Rei). Por detrás deles (e de cabelo comprido) está D. João de Castro, Conde de Monsanto.

Nota: Como diriam os Ingleses (e nomeadamente os ‘Beatles’): ‘Let it be’!

Termino este artigo com mais um ‘mistério histórico-linguístico’ (que não faz parte especificamente deste estudo sobre os • É colocada em grande dúvida a veracidade da afirmação de que o Santo representado nos painéis é S. Vicente. painéis de S. Vicente, mas está relacionado com o Rei D. Duarte e está patente no seu túmulo que se encontra nas ‘capelas imperfeitas’ do mosteiro da Batalha); a escultura em cima do túmulo representa D. Duarte e sua esposa a Rainha Dª Leonor, • O 3º painel a partir da esquerda é denominado Painel da lado a lado e de mãos dadas. Nele se lê a seguinte inscrição em Princesa Dª Joana, única filha do Rei (ajoelhada, em 1º plano, Latim: à direita do Santo) e não Painel do Infante. Por detrás dela está sua tia Dª Filipa, filha do Regente D. Pedro. EDUARD I PORTUGAL REX & REGINA ELEONORA UXOR … A figura que tem um chapéu castanho de abas largas é D. Fer(Eduardo I, Rei de Portugal e sua Esposa a Rainha Leonor) nando, o 2º Duque de Bragança (e não D. Duarte). Ajoelhado (e usando um barrete na cabeça) está o seu filho D. Fernando, Conde e futuro Duque de Guimarães. Entre os dois (e igualmente com barrete na cabeça), está o pequeno D. João, filho do irmão do Rei (que figura no 4º painel). • O painel principal é o 4º painel a partir da esquerda (e não o 3º) e é denominado Painel de D. Afonso V e não Painel do Arcebispo. O Rei D. Afonso V está com um joelho em terra à direita do Santo, no painel principal. Não tem espada, precisamente por ser o Rei. O Príncipe D. João (futuro rei D. João II) está representado (de mãos postas e com um barrete vermelho na cabeça) imediatamente atrás do seu pai, o Rei D. Afonso V. Por detrás dele encontra-se o Arcebispo de Lisboa, D. Jorge da Costa. Ajoelhado do outro lado do Santo está o irmão do Rei D. Afonso V (D. Fernando, Duque de Beja e Viseu). • No painel dos Cavaleiros está (ajoelhado) D. Sancho de

Ora, o nome próprio do Rei D. Duarte era Eduarte; este nome desapareceu da nossa língua e deu origem a dois outros: Duarte e Eduardo. A nossa História escolheu para o Rei D. Eduarte o nome próprio Duarte. Porque motivo no seu túmulo lhe é atribuído (em Latim) o nome próprio Eduard? Os mistérios (e as dúvidas) continuam. O que fica de absolutamente verídico?

A MAGNIFICÊNCIA DA OBRA!


Colaboração O Pintor Nuno Gonçalves e os painéis de S. Vicente de Fora

7 -Limitei-me (logicamente) a comparar apenas os pontos mais importantes das duas teses que estudei, relativamente às principais personagens representadas, pois existem mais.

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Colaboração Google is Watching You

José João Marques da Cunha Medeiros de Almeida (497/1995)

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e não apanham o Bin Laden é porque não usa cartão de crédito. O Big Brother chegou a nossa casa há alguns anos atrás, antes de nos apercebermos, já todos confiávamos nos emails e nas chamadas telefónicas. Como nunca sabemos quem está do outro lado, quem é a cabeça que está por trás destes prestadores de serviços, confiamos neles pensando-nos pessoas anónimas. Queixamo-nos de ter chips nas matrículas mas deixamos escrito no Twitter quando saímos de casa, deixamos as fotos no blog da viagem que fizemos e ainda fazemos upload para o Youtube dos vídeos com as crianças filmados com o telemóvel. Entretanto pagamos os chocolates na estação de serviço com o cartão multibanco e quando lá chegamos mandamos emails aos amigos a dizer o que vamos fazer no dia seguinte. Já parámos para pensar que alguém criou todos estes serviços digitais e nem sequer pagamos por eles? É certo que a publicidade que gira em torno destes negócios traz dividendos de grande monta, mas se estas empresas poderem exponenciar ainda mais estes ganhos criando um perfil cuidado de todos os utilizadores, será que não o farão? Mesmo quando não se usavam computadores era possível criar ficheiros com as informações relevantes em relação a cada um. Será que hoje em dia, com o acesso às tecnologias mais avançadas de computação e computadores cada vez mais rápidos não é possível criar de forma automática ficheiros a nível mundial extremamente organizados com todos os nossos passos? As teorias da conspiração sempre me fizeram alguma confusão,

mas, quando as evidências são muitas devemos parar para pensar. Um negócio emergente na Internet há alguns anos, era a venda de bases de dados. À data estas bases de dados eram informaticamente limitadas e continham dados muito genéricos que as tornavam até certo ponto inúteis. Utilizar para fins publicitários, sem o consentimento do próprio, dados como a idade nome e contactos pode tornar-se desagradável e deixar-nos à beira de um ataque de nervos com o spam que recebemos. Como será que nos sentíamos se descobríssemos que estávamos catalogados “por aí pela Internet” com os nossos gostos pessoais, a frequência das nossas maiores compras, as pesquisas que mais fazemos na Internet, as compras que fazemos online... Se descobríssemos que nos tinham inserido em perfis tão perfeitos que até os nossos desejos mais profundos, aqueles que já nem nós recordávamos, mas que por alturas da véspera de Natal pesquisámos incessantemente pela Internet, estavam presentes nesse perfil. Aqui e ali pequenas grandes empresas são descobertas com este tipo de negócio (pequenas em dimensão, gigantes em facturação). A possibilidade de categorizar um utilizador pelas escolhas que faz em determinado serviço é limitada às escolhas que esse serviço disponibiliza, ou seja, quando aderimos a um produto online e preenchemos o formulário obrigatório, damos ao sistema apenas as informações que queremos, mas, quando este serviço se trata de uma conta de email com uma dimensão quase infinita a situação já é li-

geiramente diferente, é possível criar uma rede social do utilizador e catalogá-lo com determinado perfil sem que ele se aperceba. Possivelmente esse email passa a ser o repositório central da nossa vida digital, concentramos nele todas as passwords de todas as páginas que subscrevemos dando assim a hipótese a alguma mente mal-intencionada vasculhar a nossa vida de uma ponta à outra, a vida que nós não queríamos pôr a descoberto. Não podemos ser fatalistas, já não é possível viver sem o recurso aos computadores para tudo o que fazemos no nosso dia-a-dia, mesmo aqueles que se dizem avessos à tecnologia usufruem de sistemas bancários informatizados, fazem pagamentos com cartão de crédito, vêm TV digital e usam telemóvel. Que estamos catalogados não há dúvida, podemos idilicamente pensar que os nossos perfis nunca serão usados e que existem apenas para nos facilitar a vida quando fazemos pesquisas na rede. As intenções são difíceis de julgar e muitas vezes só depois do mal consumado é que podemos tirar conclusões, por isso, o melhor que podemos fazer é ser cautelosos com os nossos dados para que não sejamos confrontados com a nossa vida na praça pública. A força destas empresas é tão grande que para muitos a Internet é o Google ou o Yahoo. Só o futuro julgará estas redes de dados que se entrecruzam e se preenchem com as nossas vidas. À boa maneira portuguesa podemos dizer que estas empresas são como os melões, só sabemos se estão bons depois de abertos...


Recordando Diário de Noticias de 21 de Junho de 1928

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Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949

Diário de Noticias de 21 de Junho de 1928

Recordando o final do ano e a Condecoração do Cabo 20 Com grande destaque na primeira página deste jornal, podia ler-se em título de grandes letras

“No Colégio Militar com a assistência do Chefe do Estado e ministros da Guerra e da Instrução, realizaram-se ontem as provas finais de educação militar e física”.

O sr. General Carmona passou revista à guarda de honra, acompanhado do director do Colégio e do aluno comandante da força, dirigindo-se depois para o edifício, dando ingresso na sala do director, onde se encontravam também os oficiais que constituem o corpo docente, trocando-se os cumprimentos habituais. Pouco depois chegava o sr. dr. Duarte Pacheco, ministro da Instrução, acompanhado do seu secretário, recebendo igualmente os cumprimentos do director e oficiais do Colégio.

A notícia começava o relato dos acontecimentos da seguinte forma: “Foi ontem dia de festa no Colégio Militar. Com o brilho de que sempre se revestem as festas neste estabelecimento de ensino, realizaram-se ontem as provas finais de educação militar e física, sendo inaugurada também a exposição de trabalhos escolares. A assistência foi numerosa, vendo-se, além das altas figuras militares, inúmeras senhoras das famílias dos Alunos. Às quatro e meia da tarde, o senhor General Teixeira Botelho, director do Colégio Militar, rodeado pelos professores e oficiais que fazem ali serviço, dirigiu-se para o portão do edifício a aguardar o Chefe do Estado. Entretanto iam chegando os convidados, entre os quais os srs. Coronel Rivera, adido militar espanhol, contra-almirante Azevedo Coutinho, major general da armada, general Domingos de Oliveira, comandante da Região Militar de Lisboa, generais Parreira e Amílcar Mota, Coronel Martins Ferreira, presidente da C. A. da Câmara Municipal de Lisboa, etc. Pouco depois chegava o sr. Ministro da Guerra acompanhado dos seus ajudantes. Depois das quatro horas e meia chegou à Luz o sr. Presidente da República, acompanhado dos seus ajudantes e secretários, sendo a guarda de honra feita por um pelotão de Alunos com a bandeira, o qual fez a continência da ordenança, ao mesmo tempo que a banda de Sapadores de Caminhos de Ferro executava a «Portuguesa». Nota: Na reprodução da notícia do DIÁRIO de NOTÍCIAS as fotos correspondem a: “Aspecto dos exercícios a cavalo”, “A Guarda de Honra” e “Abraço do Presidente da República General Óscar Carmona (24/1882) ao Cabo 20, depois de lhe ter sido imposta a condecoração”.


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Recordando Diário de Noticias de 21 de Junho de 1928

A condecoração do «Vinte» “Um dos momentos da festa de ontem foi a condecoração do 1º cabo Joaquim Alves, o soldado nº 20, um dos mais antigos empregados do Colégio Militar, figura verdadeiramente simpática entre os Alunos de sucessivas gerações. O seu comportamento durante os anos de serviço deu-lhe para a condecoração … a medalha de ouro de comportamento exemplar. Nos claustros do Colégio, perante o destacamento militar que ali faz serviço, realizou-se a cerimónia. O sargento-ajudante sr. Antunes leu a ordem colegial em que vinha exarada a condecoração e, em seguida, o sr. Presidente da República colocou no peito do humilde militar a medalha de ouro, dirigindo ao condecorado palavras muito cordiais. Uma prolongada salva de palmas se seguiu e, o sr. tenente-coronel Cristóvão Aires pronunciou um discurso ponde em destaque a alta missão do Colégio Militar e os serviços prestados pelos seus humildes servidores, destacando-se o do cabo Joaquim Alves, empregado modelar, prestável para toda a gente, excelente coração e grande carácter. As últimas palavras do sr. tenente-coronel Cristóvão Aires foram sublinhadas com uma prolongada salva de palmas.” O Cabo Joaquim Alves, mais conhecido pelo Cabo 20, serviu o Colégio por várias décadas, desempenhando na maior parte deste longo período de tempo as funções de Telefonista. Assim, era um elo de ligação do exterior para o Colégio e em consequência o fiel depositário das mensagens e das encomendas dos familiares dos Alunos. Pelos Alunos tinha uma grande estima e afeição e na maior parte dos últimos anos esta afeição era semelhante á de um avô pelos seus netos. As histórias que se contavam tinham o seu quê de pitoresco mas na sua verdadeira essência sobressaía a ternura da sua personalidade. A certa altura foi entregue ao Cabo 20 uma encomenda destinada a um Aluno. Essa encomenda continha um par de botas. Os familiares desse Aluno telefonaram então para o Colégio sendo atendidos pelo Cabo 20 a quem inquiriram se a encomenda já tinha sido entregue ao seu destinatário. Resposta pronta do Cabo 20 que desconhecia o conteúdo dessa encomenda mas admitiu ser o que normalmente as constituía: “Fique descansado que a encomenda já foi entregue e o Senhor Aluno apreciou muito a bolama que estava dentro.” O Cabo 20 conheceu muitas gerações de Meninos da Luz e todos eles tinham por ele a maior estima e a maior consideração. O 1º Cabo Joaquim Alves, o Cabo 20, foi um GRANDE SERVIDOR do Colégio Militar a quem dedicou os melhores anos da sua vida.


Recordando Recordando e registando o passado

Recordando e registando o passado

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sta fotografia foi referenciada como correspondendo aos “Ratas de 1941”, todavia não foi possível identificar os que nela estão incluídos. Essa identificação será cada vez mais difícil à medida que os anos vão passando, todavia muitos dos que nela se encontram poderão contribuir valiosamente para que estes registos se não percam. Os contemporâneos dos que figuram nesta fotografia também poderão dar uma ajuda muito positiva para se alcançar o objectivo proposto. Ficamos a aguardar os vossos contributos (número/ano/nome, referenciados ao número que se encontra na fotografia), podendo esses elementos ser enviados como forma mais expedita para o endereço de correio electrónico gosalema@gmail.com ou, se o preferirem, para a nossa Associação.

Campeonato de Futebol da Mocidade Portuguesa

Equipa do Colégio campeã em 1955 Em cima: Capitão Nuno Cordeiro Simões (42/1935) Treinador, Luís Manuel Dias Antunes (221/1948), Jorge Carlos Niblett do Passo (227/1947), António Carlos Dias da Cunha Nogueira (262/1948), João Augusto Serrinha Figueira (339/1947), Francisco Manuel Alcântara Mota Ferreira (307/1947), Luís Manuel da Fonseca Lobo de Oliveira (385/1949).

Em baixo: Guilherme Luís Faria Câncio Martins (126/1948), José Manuel de Abreu Correia Branco (232/1948), José Maria de Avilez Correia de Sampaio (367/1949), João Higino do Canto Lagido (299/1948), José Alexandre de Oliveira Franco (177/1950).

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Recordando A Entrada - Recordações do Colégio do meu tempo

Rui Manuel de Sá Leal (502/1959) Desenhos de Pedro Massano (487/1958)

A Entrada Recordações do Colégio do meu Tempo


Recordando A Entrada - Recordações do Colégio do meu tempo

Excerto do livro Ratas - Memórias do Colégio de há 50 anos, publicado nas Comemorações dos 50 Anos de Entrada do Curso de 1959 3.ª Feira, 6 de Outubro de 1959, 2 horas da tarde. Lisboa, urbe pacata e ronceira, “aldeia grande” como era conhecida lá para as bandas da minha terra saloia, movimentava-se pachorrentamente nessa tarde amena de Outono. O trânsito era relativamente escasso, e ainda menos longe do centro da cidade, para onde nos dirigíamos: o Largo da Luz ficava, nessa altura, quase fora de portas. Não era muito diferente do que é na actualidade, com o seu jardim de árvores frondosas, e tinha seis acessos. O principal era a estrada da Luz, que vinha de Sete-Rios e o ultrapassava por sul, em direcção aos bairros periféricos da cidade, assumindo então a designação de Estrada da Fonte. Pelas Estradas da Luz e da Fonte, que então eram empedradas e em muitos pontos ladeadas por quintas, circulavam os autocarros que iam até à Pontinha – os velhos Leyland verdes, de dois andares – e os “eléctricos” da linha 13 da Carris – gloriosamente amarelos – que se ficavam por Carnide e invertiam a marcha no largo junto ao coreto. A azinhaga do Paço do Lumiar corria entre muros altos de quintas, baldios e terrenos de cultivo, e desembocava no canto nordeste do largo, onde hoje se situa o fim da rua que tem o mesmo nome. Ao canto diametralmente oposto (sensivelmente onde hoje nasce a Avenida do Colégio Militar) chegava a Azinhaga da Fonte, que vinha da Estrada de Benfica entre cenário idêntico e, no seu troço final, seguia ao longo do muro exterior do Colégio. Entre a população colegial esta via era conhecida apenas por “azinhaga” e, mais tarde o aprendemos, ponto de passagem quase obrigatório para quem, quebrando regras de internato e vigilâncias militares, decidia “cavar” até ao apetecível exterior. Do canto noroeste do largo seguia em direcção a Carnide a Azinhaga das Carmelitas, que ainda se encontra no mesmo lugar, embora com outro enquadramento urbanístico. Finalmente havia (e ainda há) a Rua do Seminário, uma rua modesta que corre para leste ao longo do flanco sul deste estabelecimento religioso. (A 2.ª Circular, hoje palco de intermináveis engarrafamentos citadinos, pura e simplesmente não existia. Difícil de acreditar, não é? Mas era mesmo assim a Lisboa do fim da década de 50…). A quase totalidade de nós terá chegado ao Colégio, portanto, pela Estrada da Luz. Em todo o caso, naquele dia o nosso pensamento estava muito longe desses detalhes topográficos. E ainda menos (pois se íamos

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entrar!), de saídas furtivas ou de quaisquer outras tropelias desse quilate – Tu faz o que te mandarem! E cumpre os regulamentos! Olha que a disciplina militar não é brincadeira nenhuma… – não se cansavam de nos prevenir os nossos Pais. Íamos dizendo que sim, pois claro. Que outra coisa se esperaria que disséssemos? Excepcionalmente, o portão da parada abriu nesse dia e os carros foram autorizados a entrar nas instalações do Colégio. Flanqueado o portão, abria-se à nossa frente uma enorme superfície alcatroada, dominada por um edifício grande, simétrico, de dois pisos, com um corpo central elevado e que, em forte contraste com a vetustez das salas onde havíamos feito as provas de admissão, ostentava o ar moderno de uma construção recente. Fomos encaminhados para o 1.º andar da sua ala direita, à qual se chegava depois de (ai as malas! ai os sacos cheios! ai os nossos braços…) vencer uma escadaria ampla de dois lanços. Entre caras que não identificávamos, íamos reconhecendo algumas dos que connosco haviam concorrido às provas de selecção. Olá! Estás cá!... Olha! Tu também!... E, claro, lá estava o Fernando Roque do Vale (perdão, o 518), meu velho companheiro dos quatro anos de instrução primária, que também acabava de chegar. Mas ainda não era altura para grandes confraternizações, que havia muita coisa a fazer primeiro. Lá chegaríamos... Subida a escada e percorrido um pequeno corredor, entrámos por fim num compartimento rectangular, muito amplo, com chão de mosaico claro e profusamente iluminado por grandes janelas, rasgadas para a frente e para a traseira do edifício. Caramba, isto dá para um campo de futebol! – foi pensamento que deve ter assaltado bastantes de nós. E dava mesmo! Não propriamente de 11, mas de 5. Muito em breve raras seriam as noites em que não se disputariam aí renhidíssimas partidas, entre o jantar e o recolher. E até para rugby aquilo deu… Estávamos pois no “geral” da 1.ª Companhia. À nossa espera, e para além de umas tantas figuras com ar importante que deduzimos serem oficiais, estavam alguns curiosos personagens também fardados, mas com uma farda algo diferente da dos primeiros. Rapidamente concluímos que deveriam ser Alunos, mas mais avançados, muito mais avançados mesmo que nós, pois pareciam-nos flagrantemente velhos – alguns deles via-se mesmo que até já faziam a barba… Ostentavam no ombro esquerdo umas passadeiras pretas, com estrelas sobre fundo azul. Nem todos tinham o mesmo número de estrelas (deveria haver por ali alguma hierarquia…) e um deles, em vez de estrelas tinha uma fita dourada também sobre o fundo azul. Logo veríamos o que tudo aquilo quereria dizer. Um destes personagens veio ter comigo e com os meus Pais. Ainda mal refeito da catadupa de novidades que estava absorvendo (as fardas, as caras que ia reconhecendo, as continências que aqui e ali via fazer, a enorme extensão das instalações do Colégio…), enfrentei a surpresa de pela primeira vez me perguntarem “que número tens?”, em vez de “como é que te chamas?” Uma breve hesitação, e a resposta, que teria que ser mais lesta no futuro, acabou por sair: 502! – disse eu, sem saber se também me devia pôr em sentido ou coisa parecida. – Então vais para aquela camarata, lá ao fundo. Hás-de ver uma cama


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Recordando A Entrada - Recordações do Colégio do meu tempo

e um armário com o teu número. Fazes a cama e arrumas as tuas coisas. Há também uns armários grandes, que são para guardar as fardas de saída. O equipamento de ginástica fica naqueles armários (e apontava para uns armários grandes, de madeira, com portas de ripinhas, que havia no “campo de futebol” em que nos encontrávamos). Há lá um cacifo com o teu número. O resto vai para a rouparia, que é ali ao canto (esta parte já foi mais para a minha Mãe do que para mim… O meu Pai havia trazido ao Colégio a maior parte do enxoval uns dias antes, mas nem tudo estava pronto nessa altura). E fardas-te com a farda de cotim (esta foi para mim outra vez). As camaratas eram duas, e situavam-se em corpos que nasciam perpendicularmente ao “geral”, no sentido das traseiras do edifício. Junto a elas ficavam as instalações sanitárias (as latrinas, como eram conhecidas) e também três divisões com lavatórios, onde iríamos colocar as toalhas de rosto e demais artigos de higiene pessoal, em local devidamente identificado (era inevitável!) com o nosso número – “santo-e-senha” sem o qual, estava-se mesmo a ver, nada iríamos fazer nos próximos sete anos! As camaratas eram compartimentos amplos, de características semelhantes ao “geral”, mas com as janelas munidas de estores interiores de lâminas de plástico, a bem do nosso abençoado sono. Cada uma dispunha de perto de setenta camas, outros tantos armários de madeira individuais, talvez com um metro e sessenta de altura, e colocados junto àquelas. Completavam o mobiliário uns armários grandes, também de madeira, com portas de vidro no compartimento central, destinado a pendurar as fardas de saída, e portinholas de ripinhas em cima e em baixo, onde se iriam guardar as barretinas e as botas pretas. Cada um deles dava para seis alunos. As camas, metálicas e pintadas de verde, tinham um colchão de palha sobre um outro de arame, um travesseiro e uma almofada, e estavam dispostas em quatro filas, no sentido do comprimento do compartimento. Em anos mais avançados viemos a ter outras disposições de camas. Uma delas, talvez a mais simpática, juntava-as em grupos de quatro, fazendo como que pequenos quartos com duas camas de cada lado, ao longo da camarata. Mas a disposição que encontrámos quando chegámos ao Colégio era a que permitia o melhor aproveitamento do espaço disponível, exigido para albergar, na 1.ª Companhia, os cento e um alunos do nosso curso, a turma A e cinco alunos da turma B do 2.º ano e ainda nove graduados. Afanosamente, procurámos o nosso lugar. Pela última vez, as nossas Mães fizeram-nos as camas e arrumaram-nos os armários. A partir daí teríamos que nos socorrer dos conhecimentos obtidos nos treinos das férias para não fazermos má figura e dormirmos mais ou menos confortáveis. E também, descobrimo-lo rapidamente, para não sermos castigados por imperdoável desleixo (ou não menos imperdoável falta de jeito – argumento que, na circunstância, estava longe de constituir justificação convincente…). Depois arrumou-se o equipamento de ginástica: sapatilhas (mais conhecidas por “xanatas”), calções brancos (que no Colégio se chamavam bragas) com vivos pretos nos lados, camisola de lã azul (os fatos de treino só apareceram uns anos mais tarde) e camisete também branca, de alças. No peito desta, um artístico CM a preto, com as letras entrelaçadas.

A seguir foi a vez de levar o resto do enxoval à rouparia. Este compartimento ficava no canto do “geral”, logo à entrada, à direita, num corpo que se destacava no sentido da fachada do edifício. A rouparia era o reino incontestado da Cacilda e da Maria, onde era rigorosamente proibido entrar. Um postigo largo, aberto na porta, era o único espaço de contacto possível entre o nosso mundo exterior e o delas, inviolável. Aí estavam ambas no seu posto, de bata preta vestidas, atarefadíssimas a receber das nossas Mães as malas vazias e demais artigos dos seus rebentos. A Cacilda era uma matrona volumosa, exuberante, de abundantes e fartas rotundidades. A Maria era uma senhora grisalha, nem gorda nem magra, nem alta nem baixa, metida consigo própria e com o ar resignado de quem nasceu para cumprir numa vida inteira o que lhe determinassem. (Quando chegássemos à 2.ª Companhia haveríamos de privar com a mais patusca das roupeiras do Colégio: a Lisete, uma figura magra e baixinha, de óculos arredondados e andar saltitante. O seu traço fisionómico mais saliente era, porém, uma testa invulgarmente alta, que lhe valia a alcunha de “Lisete Testa de Flac-Tette”, e onde, rezavam as crónicas, já havia levado algumas palmadinhas, prodigalizadas por algum aluno mais atrevido. A seu tempo a conheceríamos). As roupeiras – duas por cada Companhia – eram na altura as únicas mulheres existentes no Colégio e, como não podia deixar de ser num internato de rapazes da década de 50, já há muito haviam deixado o viço da juventude. Arrumada a questão do enxoval, voltámos à camarata – e toca a vestir a farda de cotim. É claro que já a havíamos experimentado em casa, mirando-nos e remirando-nos ao espelho, em poses mais ou menos estudadas, com uns arremedos de continência a meio... Só que agora era mesmo a sério. Vamos então a isto: peúgas grossas, botas-de-elástico de atanado, camisa verde e calças cinzentas de cotim, seguras por um cinturão de couro largo, fechado por uma grande fivela metálica com os dizeres “Colégio Militar” inscritos. Por fim, o barrete, colocado nem muito à frente nem muito atrás, um bocadinho a descair para direita, para dar um toque mais malandreco à coisa… Nada mal! A primeira revista de uniformes passaram-nos então os nossos Pais nesse dia. Um toque aqui, um jeito acolá, olha lá não te ponhas a correr que ficas com a fralda de fora! Não te ponhas a correr! Pois sim... Correrias era já o que não faltava naquelas camaratas e no “geral” (com algumas travagens em derrapagem controlada, que a sola das botas e o piso polido de mosaico facilitavam), numa alegre confraternização de fardados e ainda paisanos, irmanados na comum excitação da chegada. Mais sérios, alguns Pais esclareciam dúvidas ou tentavam algumas recomendações finais de duvidoso sucesso (Sabe, ele é um bocadinho difícil a comer…) junto de oficiais e graduados – os tais alunos mais velhos, com estrelinhas em fundo azul no ombro e que, estava-se mesmo a ver, iriam ser daí em diante os seus mais directos sucessores na educação dos seus meninos…


Recordando A Entrada - Recordações do Colégio do meu tempo

E havia em cena mais dois personagens de que ainda não falámos e iam ajudando no que podiam. Já não eram novos (também não eram assim muito velhos) e vestiam uma farda composta por umas calças castanhas de flanela, uma camisa verde e um bivaque também castanho, com um vivo verde fininho. Eram os fâmulos da Companhia, mais prosaicamente designados por serventes: o “Moca”, Cândido Gomes Alves de seu nome completo, um dos mais populares e amigos serventes do Colégio, com o seu inconfundível nariz partido de pugilista, e o Sebastião, este último conhecido por “Ão” devido ao hábito de nos tratar apenas pelo último algarismo do nosso número. Como depois verificámos, havia dois serventes por Companhia, a quem estava cometida a limpeza das instalações e mais uma infinidade de outras tarefas de apoio. Eram também encarregados da distribuição da comida no Refeitório, travestidos então de criados de mesa, com o recurso a uns dólmans de duvidosa brancura. Nestas funções eram dirigidos pelo João, uma figura baixa, dos seus cinquenta anos, que exibia permanentemente o ar doutoral de “chefe maior do pessoal menor”. Senhor de uma cara redonda encimada por vasta e luzidia careca, valia-lhe esta a merecidíssima alcunha de “Meia-lua”, e na qual, soubemos depois, já haviam aterrado esforçadamente alguns pastéis de nata. (Era o que se dizia... Eu não assisti a nenhum destes infaustos eventos, pelo que aqui fica o seu registo, com as devidas reservas). Dentro de poucas horas haveríamos de contactar este novo mundo. Com o correr do tempo, tudo foi ficando mais ou menos arrumado na Companhia. Lentamente, retendo uma lágrima teimosa que uns sorrisos forçados iam disfarçando (não iriam ser eles a dar parte de fraco!), os Pais foram abandonando o Colégio. Tu não te esqueças do que te recomendámos! Escreve para casa amanhã, já sabes onde é que ficaram os postais… E onde é que puseste o barrete? Não me digas que já o perdeste!! Nós estávamos divididos, balançando entre a excitação da novidade e a sensação de perda de algo que ainda não avaliávamos bem mas temíamos viesse a ser muito doloroso: a separação da família, as saudades de casa (que já se faziam sentir!), a falta desamparada de um abrigo seguro e certo para os pequenos-grandes dramas dos nossos dez anos. Um último beijo, um abraço mais apertado… e adeus, adeus, adeus! Sábado venho buscar-te! … Ficámos sós, finalmente sós e entregues a nós próprios. No meio da balbúrdia, da correria dos companheiros, dos últimos Pais

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que se despediam, dos oficiais, dos graduados, dos serventes… No meio de tudo isto, mas sós, irremediavelmente sós, com um nó na garganta que teimava em não desaparecer. Alguns, de semblante mais fechado, sentavam-se nos grandes bancos de madeira que se encontravam sob as janelas ou vagueavam isolados pelo “geral” ou pela sala de leitura, um compartimento menor e mais sossegado, que lhe ficava contíguo. A maioria, porém, já encetava amizades – Como é que te chamas? Não, que número tens? – começava conversas e brincadeiras em comum e, sub-repticiamente, ia ganhando a ideia que estava a entrar numa outra família, muito diferente da original mas decididamente uma família, na qual iria viver os próximos sete anos. E cujos laços – sabemo-lo agora – mesmo que adormecidos por longos períodos, iriam perdurar por toda a vida. A pouco e pouco, os mais tímidos e abatidos foram começando a participar no convívio geral, uns espontaneamente, outros puxados por companheiros mais expansivos. – Tu és donde? E jogas à bola? Qual é o teu clube? Esse?! É pá, também eu! É o melhor do Mundo! … Anda daí! E a conversa continuava, animada, buscando afinidades e tropeçando em diferenças, enquanto se iam explorando os horizontes (anda ver se aquela camarata é igual à nossa!...) e adivinhando utilidades nos edifícios que se viam para lá das janelas. …Afinal já não estávamos sós! Escurecera, entretanto. Subitamente soou um toque de clarim, sobrepondo-se à algazarra ambiente. Alguns ficaram expectantes (o que seria aquilo?) mas a maioria nem lhe ligou. Os graduados, porém, mandaram-nos reunir no “geral”, esvaziando as camaratas e a sala de leitura. O graduado que tinha a passadeira diferente (percebemos então que estava ali o nosso chefe…) foi-nos chamando pelo número e dividiu-nos em três grupos, a cada um dos quais correspondiam dois outros graduados (os tais das estrelas nos ombros). Cada grupo dividiu-se depois em três linhas, umas atrás das outras, com os mais baixos à direita e os mais altos à esquerda. Ora aí estava a nossa primeira formatura! Outro toque de clarim e avançámos para o Refeitório – e começámos também a suspeitar que doravante a nossa vida passaria ser regida pela estridência daquelas cornetas… Adiante, que a fome já apertava! Sem qualquer rigor, está bom de ver, que ainda não tinha havido tempo para aprender os segredos do “direita volver”, do “em frente marche” e do “esquerdo, direito, op, dois”. Descemos um lanço da escadaria principal, vi-


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rámos à direita e entrámos num corredor longo, com janelas largas em ambos os lados. Ao fundo, subimos outro lanço de escadas, em cujo topo se encontrava, frente a nós, um enorme painel de azulejos. Um curto S para a direita e desembocámos finalmente no Refeitório. À semelhança de todas as outras divisões do internato que já conhecíamos, esta também era rectangular, ampla, clara, com um pé direito elevado e bem iluminada. As numerosas portadas envidraçadas que se abriam para o exterior faziam adivinhar que também teria uma boa iluminação diurna. À nossa frente estendia-se um corredor formado por mesas corridas colocadas em filas, a um e outro lado da divisão. Fomos encaminhados para as do lado esquerdo. Cada mesa corrida era, na realidade, um conjunto de duas mesas de madeira rectangulares, unidas pelos topos, onde se podiam sentar frente a frente oito Alunos, em cadeiras também de madeira. As mesas estavam cobertas por toalhas de pano branco, sobrepostas por um plástico transparente e forte, que as protegia de involuntários (ou às vezes nem tanto como isso…) entornanços de secos e molhados. Mais tarde percebemos que este plástico, para além do seu evidente préstimo, podia ainda desempenhar a função menos óbvia de “pipeline”, encurvando criteriosamente a aba pendente e fazendo escorrer por ele água, ou coisa mais colorida, em direcção às calças do primeiro incauto que não participasse na manobra... Mas deixemos estas questões – evidentemente reprováveis, se bem que bastante divertidas para todos, com excepção da vítima, claro está – e voltemos à elevação da narrativa. Sobre a mesa estavam já os pratos (um de sopa e um raso), os talheres (a colher de sopa e os garfos e facas para o prato principal e a sobremesa), os copos, pão e jarros de vidro, com água e vinho. Ao lerem estas linhas, alguns espíritos poderão talvez estranhar a presença desta última bebida, tida como pouco adequada às nossas juvenis idades, mais propícias à água, às gasosas, aos pirolitos e às laranjadas (a Coca Cola, recorde-se, foi coisa que só veio a entrar em Portugal muitos anos mais tarde. Birras dum senhor velhinho de Santa Comba Dão, que às vezes se zangava com os americanos, inventores de tal xarope…). Mas, em boa verdade, não há razão para admiração. Em primeiro lugar há que não esquecer os graduados, gente crescida e barbada, que comia connosco à mesa e tinha pleno direito àquele complemento alimentar. E depois, simplesmente… porque havia então o hábito de o consumir. Essa era, aliás, a época em que se dizia que beber vinho dava de comer a um milhão de Portugueses. Não seria pois o Colégio a alhear-se desse patriótico desígnio, para o qual os mais novos, dentro das suas limitadas possibilidades, também contribuíam. Em todo o caso, ao que parece, o vinho servido aos Alunos vinha generosamente baptizado com água e, ao que igualmente se dizia, também com cânfora, por via das suas alegadas virtudes de calmante sexual…

Era o que se dizia, e eu, mero cronista de factos passados, sem qualquer possibilidade de confirmar ou infirmar a questão (eu até nem bebia vinho!), limito-me a deixar registada a vox populi. Para que conste. (Já agora: vox populi – expressão latina aprendida no 3.º ano do Colégio, que significa “a voz do povo”. Esta é fácil. Bem mais difícil era o intrigante piscis conas funderunt, que vinha no nosso livro de estudo – palavra de honra! – cuja tradução estava muito longe de ser o que parecia: “os peixes furaram as redes”, ninguém imaginaria tal inocência. Ora vejam lá como uma língua, mesmo depois de morta, pode ser traiçoeira!). Para finalizar a questão do vinho: apesar do acesso livre à bebida – ou talvez por isso mesmo – eram raros os excessos que se verificavam. Posto isto, voltemos às mesas e à altura em que delas nos aproximávamos. Alguns de nós, porventura mais habituados a que a dedicação maternal providenciasse o corte das vitualhas a digerir, talvez tivéssemos olhado com alguma apreensão para as facas ali presentes (e logo 2 facas 2!) … Indo possivelmente ao encontro destas angústias, algum tempo mais tarde o Capitão Vilaverde, oficial nosso Comandante de Companhia, fez distribuir um folheto detalhado sobre as boas maneiras a observar à mesa, da postura dos cotovelos ao pousar do guardanapo nos joelhos, do tom de voz moderado à inconveniência de certas manifestações vocais menos apropriadas, sem esquecer as mais apuradas técnicas no manuseio da ferramenta disponível. Ainda hoje recordo a sábia recomendação de aplicar sempre o garfo na parte mais pequena a cortar, sob pena de esta poder levantar um voo inesperado, com destino imprevisto e porventura altamente indesejável. Fomo-nos então chegando às mesas, sem qualquer ordenamento especial. Afinal sempre havia algumas coisas que não estavam marcadas com o nosso número, e onde a escolha era livre… Bom, em boa verdade também não era exactamente assim: escolhido que fosse o lugar no Refeitório, passaria a ser sempre aquele durante esse ano lectivo. E, se bem que não houvesse nenhuma identificação na mesa ou na cadeira, o saco do guardanapo, com o nosso número inscrito e bem visível, lá estava a marcar o permanente lugar que nos competia. Quando estávamos todos junto às mesas fez-se ouvir um grito forte, arrastando a última sílaba – Sentaaar!! – ao qual, aliás, obedecemos da melhor vontade. Havia sido proferido pelo nosso chefe. Que, a partir de agora, vamos designar por Comandante de Companhia e identificar devidamente: 218, Pedro Miguel Roldão de Barros, aluno finalista do 7.º ano. (Receio que alguém mais atento possa estar a interrogar-se: mas então


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o Comandante de Companhia não era o Capitão Vilaverde? Ou terei lido mal algumas linhas atrás? Não leu, não senhor. Leu muito bem, até. Só lhe peço um pouco mais de paciência, que adiante se explicará toda esta aparente confusão). Não me recordo do que foi o jantar nesse primeiro dia. Talvez, para começar bem, tivesse sido algum daqueles pratos típicos do Colégio, de gosto fácil e aceitação generalizada, como croquetes ou “amarelo de carne”. E, como não podia deixar der ser, com direito a repetição. Subitamente, um outro grito sobrepôs-se ao característico ruído ambiente: Levantaaar!! A refeição havia terminado. Sem apelo nem agravo. Duas coisas entendemos então. Primeira: o menu daquele restaurante era de prato único – e o melhor era mesmo gostar de todos os que nos fossem apresentados, sob pena de suportar a seguir umas horas de desagradável fome. Alternativas, aprendemo-lo mais tarde, existiam, se bem que escassas e mais ou menos clandestinas: uns chocolates ou similares vendidos à socapa pelos serventes, ou uns bolinhos trazidos de casa no fim-de-semana, que recebiam a designação genérica de “bolama” e constituíam um património valioso a esconder, defendendo-o da gula insaciável dos camaradas. (Um canto do armário com muita roupa por cima ou o interior das botas pretas eram hipóteses muito plausíveis para o efeito). Outra alternativa possível a uma má refeição, mas que envolvia inegáveis riscos e só estava acessível a gente mais crescida, era “cavar” e “ir ao poço”, que é como quem diz, sair à sorrelfa e buscar o desejável aconchego nas tascas de Carnide. A seu tempo nos atreveríamos a tal… Mas por enquanto, nem pensar nisso! A segunda coisa que aprendemos foi que o tempo para a ingestão da refeição era limitado e convinha não o alongar em demasia. Esta questão, como confirmámos depois, tornava-se particularmente relevante nos dias em que havia doce (oh que saudades do leite creme e do arroz doce colegiais!) artigos que, como bem se pode compreender, não eram fáceis de transportar no bolso, como uma peça de fruta meio comida. Aparentemente tudo se resumia em comer mais ou menos depressa. A coisa, porém, tinha que se lhe dissesse e não era tão simples como podia parecer à primeira vista. Ora atente-se: os serventes limitavam-se a deixar as travessas sobre as mesas, ficando as subsequentes acções a cargo dos interessados – nada mais, nada menos que oito esfomeados interessados – que obviamente não era possível servir em simultâneo. Em algumas mesas adoptava-se o processo cordato e civilizado de iniciar o processo em cada refeição por um aluno, em democrática rotatividade. Mas noutras vigorava um sistema de renhida competição, em que cada

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um, à voz de “sentar” procurava definir a sua ordem de acesso ao tacho: Primeiros! Segundos! Terceiros!... (dito no plural, por qualquer razão que ainda hoje não vislumbro). Donde resultavam uma evidência e uma subtileza. A evidência: ninguém se habilitava, é claro, a sétimos! ou a oitavos! A subtileza: ganhava o lugar quem primeiro o proferisse. E aqui é que estava o busílis da questão: o segundo a dizer Primeiros! ficava irremediavelmente

fora da carroça. De modo que, ou se era muito lesto a desferir o bote ou o melhor era mesmo jogar no Segundos! ou no Terceiros!, na esperança de ser o primeiro a ocupar essa casa. Sucedia por vezes que todos jogavam na prudência e o primeiro lugar ficava surpreendentemente vago. Nessa emergência havia que reagir com celeridade e emendar rapidamente a mão: Primeiros!! Como se vê, todo o processo requeria sangue frio, cálculo de probabilidades e reflexos apurados, aspectos certamente positivos na formação de jovens em idade escolar. Exigia também, por parte do chefe de mesa (o graduado ou o aluno mais antigo) uma grande atenção, ponderação na análise das jogadas, rapidez de julgamento e firmeza nas decisões tomadas, questões também da maior relevância na personalidade de um líder. E a coisa repetia-se para outros momentos importantes da refeição, tais como a repetição do prato principal, a fruta, a manteiga de quem faltasse inopinadamente ao pequeno-almoço, etc, etc…. O prémio para o vencedor era duplo e apetecível: despachava-se mais depressa e escolhia o segundo melhor naco da travessa (o melhor era, evidentemente, para o graduado, que ficava fora destes campeonatos e se servia em primeiro lugar. Nestas organizações, a antiguidade sempre foi um posto). Para além do mais, qualquer dos métodos adoptados no serviço de mesa, se bem que o último fosse um tanto confuso e barulhento, tinha o mérito inegável de evitar a garganeirice de um assalto fulminante e simultâneo à comida. A repartição dos géneros era outra questão a considerar e a ser resolvida com equidade: empadões e similares eram divididos em par-


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tes iguais, competentemente delimitadas a risco de faca, para evitar abusos. Croquetes, salsichas e outros artigos apresentados a granel viam o bolo ser cuidadosamente contabilizado e dividido irmãmente, com eventual prejuízo para os últimos, se o número não fosse divisível por oito (alguém teria que ficar pior servido…). Como o gosto não é, felizmente, nem universal nem uniforme, desenvolveu-se também um sistema de trocas baseado na ocorrência simultânea de artigos rejeitados por uns e desejados por outros. “À mesa nada se perde, tudo se troca” bem poderia ser o slogan deste programa. Trocavam-se pois ovos estrelados por fruta, manteiga por mortadelas e eu próprio cheguei mesmo a trocar a laranjada “Trinaranjus” pela parte de dentro do pastel de nata, excluindo, por mútuo acordo, o folhado do negócio. (O “Trinaranjus” e o pastel de nata eram mimos que antecipavam, aos almoços de sábado, o rancho melhorado de fim-de-semana nas casas paternas). Mas nessa primeira refeição do Colégio ainda não havíamos desenvolvido estes métodos expeditos de sobrevivência, pelo que a mesma deve ter corrido dentro da maior calma e aceitação. Possivelmente, também, com alguns de nós a levantarem-se de barriga meio vazia. Amanhã, esperava-se, viria outro dia melhor… De volta ao “geral”, houve oportunidade de atentar no que ainda não havíamos observado. No corredor que lhe dava acesso, e por onde acabávamos de passar, encontravam-se, à direita, três portas, que dariam certamente para outras tantas divisões. Assim era, de facto: as duas primeiras eram os gabinetes do oficial Comandante de Companhia e do seu adjunto (locais onde, como verificámos em devido tempo, não era de bom augúrio sermos chamados, até porque normalmente essas visitas se sucediam a alguma coisa que não devíamos ter feito…). A terceira divisão, já próximo das portas de vaivém envidraçadas do fim do corredor, era o cubículo dos serventes, à frente do qual estavam a sua latrina privativa e o paiol das limpezas. Ao lado da rouparia, localizada já no “geral”, havia uma outra porta, que estava fechada. Uma pequena placa identificava, porém, a função do compartimento: Secretaria. Junto a ela existia uma caixa de correio – o meio de comunicação com o exterior por excelência, nesses tempos em que os telemóveis eram uma utilidade por inventar e os telefones fixos um luxo caro. Como depois verificámos, existia um destes aparelhos na Secretaria. O seu acesso, no entanto, era muito limitado, tanto para receber como para fazer chamadas, que careciam de solicitação prévia do Comandante de Companhia, precedida de detalhada e convincente justificação.

A sala de leitura localizava-se no outro extremo do geral e, como o próprio nome indica, possuía uma pequena biblioteca, vários jogos de mesa, como damas e xadrez, e jornais com a lombada subjugada por duas réguas de madeira, apertadas por porcas de orelhas. (Assim se evitava o desmembramento dos periódicos e o seu transporte dissimulado para fora do compartimento…). Para música havia um rádio, que na época se chamava telefonia, e que difundia essencialmente em onda média: a Emissora Nacional (a mais oficial), a Rádio Renascença (a mais popular) e o Rádio Clube Português (a mais aberta às novidades do exterior) eram as estações mais ouvidas. Não existiam portanto gravadores de som nem pick ups (palavrão que na altura significava “gira-discos” e não propriamente, como agora, carrinhas automóveis de caixa aberta). E ainda menos Televisão, que havia sido inaugurada há escassos três anos em Portugal. Julgo que nessa altura, no Colégio, havia apenas dois receptores, um em cada uma das salas de oficiais existentes. No lado oposto ao da entrada principal no “geral” abria-se uma outra porta, envidraçada, que dava para uma escada com acesso à parte lateral do edifício. Era, por assim dizer, o acesso de serviço ao “geral” e por onde, no futuro, haveríamos de subir e descer muitas vezes ao dia. Na parede deste topo e na que lhe ficava oposta encontrava-se uma fila corrida de cabides, onde viríamos mais tarde a colocar os capotes e, a dias certos, a encontrar pendurados os sacos de pano aos quadradinhos azuis e brancos, com roupa lavada, de cama ou pessoal, que trocávamos e voltámos a pôr no mesmo lugar. Junto ao topo do lado da sala de leitura encontrava-se finalmente uma mesa de ping-pong – onde já saltitava alegremente, cá e lá, lá e cá, a característica bolinha branca. Vinda não se sabe donde, eis que surge uma outra bola, de tamanho mais substancial e com evidente utilidade futebolística. Era de plástico, o que não deixava de ser estranho, e um bocado leve demais para o meu gosto, mas a profusão de vidros à nossa volta desaconselhava o recurso aos clássicos “esféricos” de borracha, mais pesados e de efeitos certamente letais no cenário. Tínhamos pois ali a “bola oficial” do “geral”: não era fácil de dominar, saltava mal, assumia por vezes trajectórias caprichosas, mas em todo o caso começámos desde logo a entender-nos… Mal demos por isso… e mais uma cornetada! Não me recordo se formámos ou não, mas julgo que os graduados nos mandaram directamente para a cama, dispensados por uma vez da formatura do recolher. Na camarata começou por reinar a excitação. Aos poucos e poucos lá nos fomos despindo (e onde devíamos deixar a roupa, as pés da


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cama ou no armário? No armário não cabia…). Depois, deitando e calando. Um toque de clarim soou uma última vez nesse dia. Em contraste com os anteriores, que eram curtos e incisivos, incitando ao cumprimento rápido de uma ordem, este era arrastado e surpreendentemente melodioso, nostálgico mesmo, de uma harmonia que convidava ao recolhimento. Apetecia parar para melhor o ouvir. Era o toque de silêncio. Pela milésima vez (de futuro não iria ser assim…) os graduados mandaram-nos calar. Obedecemos, é claro, mas daí a pouco lá vinha um cochicho ou um riso mal contido. Um berro mais ríspido fez-nos lembrar que afinal sempre estávamos na tropa. Tudo se calou então. … E ficámos novamente sós, esmagados por um silêncio súbito que nos trouxe uma vez mais a saudade da nossa casa, do nosso quarto, da nossa cama, do beijo terno de boas-noites dos nossos Pais. Uma dor latente que nos iria assaltar muitas vezes... A maioria aconchegou-se melhor nos lençóis, afeiçoando o corpo àquele novo colchão… e também o espírito àquela nova realidade, aguardando a chegada do sono que, ajudado pelo cansaço de um dia cheio, não tardou a aparecer. Para alguns, no entanto, a noite não foi fácil. Terei ouvido um ou outro suspiro mais sentido antes de adormecer? De repente, acordei em sobressalto. Um som aterrador varria a camarata: eram correntes de ferro arrastando pelo chão, de certeza. E uma figura sinistra, de capa branca vestida, encimada por uma caveira e empunhando uma vela, avançava lentamente pela escuridão. Aproximando-se das camas, ia murmurando com uma voz cava, vinda das profundezas do Além: “Eu sou a alma do Teixeira Rebelo… eu sou a alma do Teixeira Rebelo…” E eu sabia lá quem era o Teixeira Rebelo! Almas é que eu tinha a certeza que não existiam… Portanto, passado o susto inicial (que não deve ter sido só meu), encolhi-me bem entre os lençóis e, de olhos semi-cerrados, vi passar a criatura à minha frente. Cumprido o circuito da camarata, o fantasma, em vez de sair pela parede como lhe competia, abandonou prosaicamente o compartimento pela porta, deixando-me mais descansado quanto à sua verdadeira natureza. E finalmente (quando os dentes deixaram de bater…), lá adormeci outra vez, a pensar que um dia haveria de descobrir quem seria o tal Rebelo... Mas eis que soa de novo o clarim. Já!? Ainda agora peguei no sono… Ou estarei a sonhar com algum filme do 7.º de Cavalaria e um corneteiro aflito chamando todos, ante o iminente ataque de uma horda de sioux ululantes? Será? Não será? Ná, este grito não é do General Custer, de certeza… E não era mesmo. Era do graduado chefe da camarata. – Alvorada! Alvorada! Vá lá, toca a levantar que são horas! No caso, seis e quarenta e cinco da manhã, hora a que, em tempos passados, me levantava apenas para acompanhar o meu Pai em gloriosos dias de abertura de caça. (A partir de agora, pelos vistos, haveria abertura todos os dias…). Toca a correr para as casas de banho (perdão, latrinas) e para os lavatórios, cujas portas de vaivém não paravam de bater (onde diabo ficaram as minhas coisas? Sei lá! Aqui não estão, deixa ver ali... Espera, isto está por ordem!... Qual é o primeiro número deste compartimento?... E o

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último?... Deve ser ali… ah, aqui está ele!). Cara lavada (sem a Mãe a fiscalizar-nos a limpeza das orelhas, ora aqui estava uma vantagem do Colégio!) voltámos à camarata para nos fardarmos. – E o que é que aconteceu ontem à noite? Tu viste o fantasma? – O fantasma?! Qual fantasma? Eu não vi nada… – Não me digas que não acordaste!... – Eu não. E tu achas que há fantasmas?!... Toma mas é juízo! E as camas, o que é que se lhes fazia? – As camas ficam abertas – dizia um dos graduados, como que adivinhando a dúvida geral. – Puxem os cobertores para trás. Daqui a bocado já vamos ver como é que tudo isto se deve fazer no futuro. E despachem-se, que está quase a tocar para a formatura do pequeno-almoço! Vá lá, vamos embora!! Nem de propósito: aí estava ele outra vez, o nosso invisível despertador, avisador de formaturas, ordenador de avanços e inolvidável tocador de silêncios: tá-tá-rá-tá-tá-tá… – Toca a andar para a formatura! Todos lá para fora! – berravam os graduados. – Mas eu ainda não me vesti… – Despacha-te! Calça lá as botas! Essa é no outro pé… A correria era geral. Primeiro para lá. Depois, alguns para cá (onde é que eu deixei o barrete?) e para lá, finalmente. No “geral”, os graduados avisavam: – Vocês lembram-se de como é que formaram ontem? Então ocupem os mesmos lugares! Hesitação daqui, engano dacolá (Tu és ali... Não, aqui sou eu!) fomos formando os mesmos pelotões da véspera. Mais uma cornetada e partimos de novo para o refeitório. O pequeno-almoço não trouxe surpresas: café com leite mais ou menos à discrição e pão com manteiga: oito rodelinhas à conta em cada mesa, que a casa não fomentava lambarices. Verificámos depois, com agrado geral, que às vezes o café com leite era substituído por cacau, quente e reconfortante, especialmente nos dias frios de Inverno. Concluída a refeição, regressámos da forma habitual ao “geral”. Íamos começar uma recruta intensiva, na qual, sob a direcção dos graduados, nos integraríamos no batalhão colegial. Iríamos ser divididos por turmas, por grupos de ginástica e por vozes de canto coral. Receberíamos livros, cadernos e demais material didáctico. Iríamos ser fotografados e vacinados. E tentaríamos aprender o mais possível sobre uma infinidade de assuntos de imediato interesse, desde o abrir da cama com o devido preceito até ao marchar de passo certo e cabeça erguida, da necessidade de cumprir horários ao respeito a observar pelos mais velhos, do lema do Colégio às honras militares, sem esquecer o dever de continência ao busto do Marechal fundador, Teixeira Rebelo de seu nome (ai o maroto do fantasma!), pelo qual, oh imperdoável falta! já havíamos passado umas poucas de vezes, durante as provas de admissão, como cão por vinha vindimada! Nesses dias de treino intensivo, o Colégio esteve em boa medida por nossa conta, muito embora os Alunos dos restantes anos tivessem regressado de férias no dia 7. Nossa conta e dos graduados da 1.ª Companhia, que se passam, com respeitinho e saudade, a enumerar:


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Recordando A Entrada - Recordações do Colégio do meu tempo

O Comandante de Companhia era, como já dissemos, o 218, Roldão de Barros. Na analogia com a hierarquia clássica do Exército equivalia a Capitão. O seu número dois era o 21, Pedro Lynce de Faria, irmão mais velho de vários Alunos do Colégio, dois dos quais do nosso curso: o 490, Nuno Lynce da Faria, que se nos juntou no 3.º ano, e o 21, Vasco Lynce de Faria, sucessor do anterior, que se nos juntou no 5.º ano. O 21 mais velho era também o comandante do 1.º pelotão (dos quatro que a Companhia tinha) e usava uma passadeira com três estrelas. Equivalia portanto a Tenente. A designação oficial do Colégio para este graduado era 1.º Comandante de Pelotão. Tinha como adjunto o 20, Pedro Marinho Falcão, que ostentava apenas uma estrela – era pois Comandante de Secção. Equivalia a Sargento (ou “sorja”, na versão económica e colegial da palavra). Os outros pelotões eram comandados por graduados de duas estrelas, ou 2os Comandantes de Pelotão. Equivaliam a Alferes. O 2.º pelotão era comandado pelo 166, Manuel Novais Leite, o “Diabo”, irmão do nosso 318, que por razões evidentes veio a assumir a mesma alcunha, em certas ocasiões reduzida ao diminutivo “Diabinho”, para efeitos de distinção com o mano mais velho. O 3.º pelotão era comandado pelo 355, António José Picoto. O 4.º pelotão, finalmente, era comandado pelo 435, José Luís Barroso. Os “sorjas” destes pelotões eram respectivamente o 93, José Braga Abecassis, irmão do nosso 232, o 85, António Martins Abreu, irmão do nosso 385, e o 240, Manuel Pracana Martins. Para além desta estrutura constituída pelos graduados, e hierarquicamente acima dela, existia em cada uma das quatro Companhias que formavam o batalhão colegial uma outra, formada normalmente por dois oficiais – um Capitão e um subalterno – que desempenhavam respectivamente as funções de Oficial Comandante de Companhia e de Oficial Adjunto da Companhia. E fica assim esclarecida a dúvida que assaltou há pouco o nosso leitor mais atento, quando se falou do Capitão Vilaverde. (Restaria identificar o seu Adjunto, mas na realidade esse lugar não estava preenchido no nosso ano de entrada). Superintendendo a este grupo de oficiais encontrava-se finalmente o Comandante do Corpo de Alunos, que era um oficial superior, na altura o Major Nogueira de Freitas. A talhe de foice, enumeram-se as restantes funções desempenhadas pelos graduados no Colégio: Comandante de Batalhão (que equivalia a Major e era a figura mais elevada na hierarquia dos Alunos, geralmente o aluno mais prestigiado do seu curso), Ajudante do Comandante de Batalhão e Porta-Bandeira, com três estrelas, e Porta-Guião, com duas estrelas. A partir de 60/61, passou a existir ainda o Comandante da Escolta a Cavalo, que era graduado com três estrelas. Os graduados eram Alunos finalistas do 7.º ano, escolhidos pela Direcção do Colégio para desempenhar estas funções de acordo com as características que haviam revelado até ao final do ano antecedente. Quando, em circunstâncias aliás muito pouco comuns que não recordo no nosso tempo, houvesse Alunos do 7.º ano em número insuficiente, recorria-se aos Alunos mais qualificados do 6.º ano. Se, pelo contrário, se verificasse um excesso de Alunos finalistas, aos sobrantes – os “furriéis”, como eram designados – não era atribuída qualquer graduação. Ficavam alojados na 4.ª Companhia, junto aos mais velhos, e tinham, sob determinados pontos de vista, uma rica vida, sem quaisquer responsabilidades especiais.

Quer isto dizer que os restantes tinham uma vida complicada? Não necessariamente. Mas de facto, para além do estudo inerente a um ano de exame e não muito fácil de vencer, estava-lhes cometida a tarefa nada pequena de enquadrar os Alunos mais novos. Fora das aulas e instruções, competia-lhes de forma muito próxima a sua guarda, a ocupação dos seus tempos livres e a sua educação, dentro do regime estabelecido e dos princípios éticos do Colégio. Era-lhes ainda informalmente conferido o poder de castigar, quando disso houvesse necessidade. Era, sem dúvida, uma responsabilidade, para a qual todos se iam preparando ao longo de seis anos, observando, avaliando, criticando, antecipando soluções infalíveis… Quando chegasse a nossa vez iríamos ser exemplares! (…Teríamos sido?) Mas voltemos às camaratas, onde os graduados nos davam uma paciente lição sobre a arte de bem-fazer a cama. Que exigia duas etapas: a primeira tinha lugar após o levantar, entre a alvorada e o pequeno-almoço (que em anos mais avançados podia escorregar para o período entre o pequeno-almoço e a formatura para as aulas, aproveitando bem melhor o espaço de tempo anterior com mais um quarto de hora de sono); e a segunda entre o fim das aulas da manhã e a formatura para o almoço. Consistia a primeira em abrir a cama, de modo a deixá-la umas horas a arejar higienicamente, sem descurar, no entanto, alguns aspectos técnicos e estéticos que importava observar. Nada portanto de arrebanhar tudo para os pés da cama de qualquer maneira e toca a andar que se faz tarde. Muito antes pelo contrário. A coisa fazia-se assim: primeiro puxava-se a roupa para cima, de forma que a coberta, os cobertores (um de papa, um de lã e um de algodão) e o lençol de cima ficassem devidamente centrados e esticados; depois fazia-se a dobra do lençol; a seguir, pegando por esta, puxava-se todo o conjunto para baixo, até a dobra chegar aos pés da cama; finalmente repetia-se a operação, deixando o conjunto dobrado em quatro, com as abas pendentes. (Assim como uma manta dobrada na garupa de um burro, se me é permitida a comparação – aliás pouco feliz, dado que nunca vi nenhum burro com uma manta dobrada em quatro às costas). Havia naturalmente que conferir a altura das abas, de forma a respeitar a necessária simetria do conjunto, e esticar a peça exterior que, como é fácil de deduzir, era o lençol de cima. Deveríamos concentrar então a nossa atenção no lençol de baixo, muito provavelmente amarrotado e revolto, depois de uma noite a suportar as voltas e reviravoltas do nosso corpinho. Ou talvez nem tanto, se tivesse havido o milagroso e prévio cuidado de, ao fazer a cama de lavado, atar firmemente as pontas soltas do lençol uma à outra, quer na cabeceira quer nos pés, depois de o esticar muito bem sobre o colchão, que não perdia nada até se ficasse um pouco arqueado com a manobra, uma vez que o peso do nosso corpo se encarregaria depois de o levar à desejável horizontalidade. Completava-se o conjunto colocando o travesseiro e a almofada no seu local habitual, um pouco subidos na cabeceira, bem centrados e direitinhos. Et voilá! Ah! de espanto na assistência, se não pronunciado pelo menos sentido em espírito, ante a impecabilidade da cama aberta que o graduado acabava de nos apresentar. E do truque dos nozinhos, que nunca nos teria passado pela cabeça… (Era assunto para discutir com as nossas Mães na primeira oportunidade. Mas, evidentemente, já numa base de igual para igual, de troca de experiências entre pa-


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res do mesmo ofício – nada que se comparasse com as lições das férias…). Passámos então à segunda etapa, a tal a realizar antes do almoço. Muito mais fácil que a primeira, aliás. Basicamente consistia em fechar a cama, puxando para cima o que havia ficado de manhã aos seus pés. Entalavam-se depois os cobertores, esticava-se a colcha branca de paninho bem esticada e recolocavam-se travesseiro e almofada nas devidas posições. Já estava! E de fazer camas, estamos conversados. Debrucemo-nos agora sobre a perspectiva inversa, ou seja, sobre desfazer camas. Merece aqui destacada referência um processo radical, sugestivamente denominado “cama ao poço”. Consistia este em virá-la simplesmente de pantanas, dando um toque final arrepelando a roupa e deixando-a ao monte no local ou onde melhor calhasse. Em certos casos especiais, a coisa podia ser complementada arremessando cobertores e lençóis janela fora, acompanhados mesmo do próprio colchão. Por razões que facilmente se depreendem, este método era sempre aplicado às camas dos outros. E aliás não foi objecto de qualquer instrução especial. Tal como também o não foram (mas estas coisas, sabe-se lá como, aprendem-se depressa) a “cama à espanhola” e o que, à falta de designação especial atribuída, se pode apelidar por “cama em equilíbrio precário” – duas situações, digamos, intermédias, que exigiam grande perícia na sua execução. A primeira consistia em desentalar dos pés da cama o lençol de cima e entalá-lo (imagine-se só!) na cabeceira, deixando contudo intacta a dobra sobre os cobertores. Debaixo de uma aparência absolutamente normal, ficava assim dissimulada uma bolsa com uma profundidade que não excedia o meio da cama, e cuja verdadeira dimensão só viria a ser descoberta quando a vítima tentasse muito justamente, mas em vão, estender-se ao comprido após um dia árduo de trabalho. Em circunstâncias normais, o êxito da marosca media-se pelo volume dos impropérios proferidos, enquanto se assistia como quem não quer a coisa a um furioso refazer do que havia sido adulterado. Às vezes, porém, um silêncio de mau augúrio perpassava pela camarata: era sinal que o acidentado, não dando parte de fraco, decidia passar a noite em posição fetal, remoendo vinganças terríveis que não tardariam a atingir sem piedade culpados e inocentes. A segunda situação implicava remover o colchão de arame dos respectivos encaixes e colocá-lo em equilíbrio precário assente pelos machos sobre a periferia das fêmeas, em vez de os deixar, como lhes competia, sólida e consoladamente dentro das mesmas. Era fundamental, no entanto, manter a verticalidade da cabeceira e dos pés – de modo a não levantar suspeitas quanto à armadilha que ali estava montada e que dava direito a trambolhão certo quando alguém se lhe sentasse ou deitasse em cima. Infelizmente, como a cama se desconjuntava, o resultado final era bastante ruidoso e poderia levar à intervenção irada de algum graduado, quase certa se o desenlace se desse depois do toque de “silêncio”, acarretando riscos acrescidos também para os autores da brincadeira. Que nem por isso deixava de ser bastante apreciada e praticada! Mas é altura de deixarmos camas e camaratas e voltar uma vez mais ao “geral”.

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– Toca a despachar! Até às três está tudo lá fora! Uma… Uma e meia… Duas… Duas e meia… Duas e três quartos… e às… … e ààs… …e àààs… … … três!! – Forma! – gritavam os graduados – Forma! Iam começar as instruções de ordem unida, que já era tempo de acabar com formaturas a lembrar bandos de pardais e marchas para o Refeitório com cada um a ir como se lhe dava. (Merecíamos bem a designação de “ratas”, que genericamente se aplicava a todos os Alunos do 1.º ano do Colégio...). Aprendemos então a formar rapidamente sem nos enganarmos no nosso lugar, a marcar a distância entre as fileiras de cada pelotão (um braço estendido… Caramba, não é preciso levantarem todos o braço, são só os primeiros das duas filas de trás que levantam!), a alinhar pela direita (pelo rabo do olho, não vira a cabeça!), a assumir a posição de “descansar à vontade” (que de “descansar” tinha muito pouco e de “à vontade” ainda menos) e a reagir prontamente à vozes de “firme” e de “sentido” (em sentido não mexe, nem que venha um raio que os parta! Não mexe!!). Passámos depois à técnica do direita e do esquerda volver – a executar em dois tempos precisos, com os braços bem unidos ao corpo: primeiro, muda de posição o pé do lado para onde se vai virar, enquanto o outro roda sobre a respectiva biqueira; depois – zás! – toca a unir os calcanhares com uma valente pancada, que tem que se ouvir no meio da rua! E os graduados exemplificavam, girando com um movimento enérgico, que denotava muitos anos de prática: um… dois, estão a ver como é? Ora vamos lá a fazer (e a voz soava cortante, acentuando as sílabas tónicas): Direita… ‘ver! Nós virámos, imitando o melhor possível o que acabáramos de observar – quase todos para a direita… um ou outro para a esquerda (mas onde é que tu tens a tua mão direita?!...) - Esquerda…’ ver! E mais uma pirueta, mais uns enganos que atrapalhadamente se corrigiam – os que estavam errados a virarem-se para o sítio certo, mas também alguns que estavam certos a virarem-se ao contrário, até que ao fim de algum tempo tudo se acalmava, virado para o mesmo lado… (Muitos anos mais tarde, ao assistir no Havre a uma parada, lembrei-me com um sorriso deste tempo, quando uma Companhia de recrutas franceses deu espectáculo semelhante, acrescido do picante de todos estarem armados de pistola metralhadora… Afinal não éramos só nos que nos enganávamos!). Agora, vamos marchar! E escutávamos, atentos: – A marcha começa à voz de “em frente, marche!”. Quando vocês ouvirem esta voz, batem com o pé esquerdo no chão e avançam imediatamente com o pé direito, sem se importarem com o camarada que está à vossa frente. O pelotão tem que arrancar todo ao mesmo tempo! Marcha-se levantando os braços estendidos à altura do ombro e a bater os calcanhares no chão. Mas com genica!! (E o graduado avançava aprumado, arranque fulminante, cabeça erguida, braços a rodar energicamente, com os punhos fechados virados para baixo, calcanhares a bater nos mosaicos, marcando o ritmo da marcha)… Se forem com o passo trocado façam assim (e executava um passinho rápido, que o colocava de novo na marcha certa). Entendido? Vamos a isto!


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Companhia direita… ‘ver! Em frente…marche! Rá, tá, tá, tá, tá, tá… arrancámos nós, em sincronismo de metralhadora pesada. - Esquerdo, direito, op, dois, esquerdo, direito, op, dois… Toca a bater com os calcanhares no chão!… Não oiço nada!...Levanta a cabeça!... Acerta o passo! (e nós a saltitar, a saltitar, continuando com o passo trocado…). Depois foram as técnicas do “marcar passo”, do “em frente” e do “alto”, do “olhar à direita” e do “olhar à esquerda”, sublinhadas com os inevitáveis batimentos de pé, que o treino ia tornando mais sonoros e uniformes. E a marcha, sempre a marcha, em sucessivas voltas ao “geral”, as botas de atanado a parecerem cada vez mais pesadas... – Esquerdo, direito, op, dois, esquerdo, direito, op, dois… levanta a cabeça!... Acerta o passo! E tu, ACERTA O BRAÇO!!... Anda cá! Olha – e o graduado demonstrava – os braços andam ao contrário das pernas, quando avança a perna esquerda vai o braço direito para a frente e vice-versa! Estás a perceber? Ora faz lá! …Ah, assim está bem, vai lá para a formatura! Com infinita paciência, os graduados ensinavam, insistiam, obrigando-nos a repetir vezes sem conta o mesmo movimento, gritavam sobrepondo as suas vozes ao matraquear dos calcanhares… esquerdo, direito, op, dois… esquerdo, direito, op, dois… corriam de um lado para outro, corrigindo alinhamentos e marcando distâncias… alinha!

Alinha! Não te deixes atrasar!!... Olhaaar… direita! Olhaaar… frente! Esquerdo, direito, op, dois… esquerdo, direito, op, dois… Marcaaar… passo!... Companhiaaa… alto! Vamos descansar agora um bocadinho (uff, que alívio!). Destroçar! (abençoada voz!!)… E assim, a pouco e pouco, aquele bando de garotos que havia invadido o Colégio escassos dias atrás ia-se transformando num grupo de pequenos militares de palmo e meio. Às quatro e quarenta da tarde tínhamos uma formatura especial. Tudo alinhava então em duas fileiras abertas face a face, entre as quais passavam o Sebastião e o “Moca” em lenta procissão, levando primeiro grades com garrafinhas de leite Vigor (o nome era sugestivo) e depois um grande cesto de verga, com lados rectangulares, de onde retirávamos, cada um, um papo-seco com mortadela, queijo ou marmelada. Era o “lanche”, que bem nos sabia e bastante útil era para repor as energias que não paravam de ser consumidas! Algum tempo mais tarde passámos também a usufruir de uma refeição idêntica a meio da manhã: o “reforço”, que por vezes incluía um bolo de arroz ou uma bola de Berlim em substituição do pão.

(Fim da primeira parte … continua no próximo número)


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Os que nos deixaram Professor Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca

F

aleceu no dia 15 de Abril de 2010 o Dr. Peixoto da Fonseca, que nos anos 40 e 50 era dos poucos Professores civis que leccionavam no Colégio. Licenciado pela Universidade de Lisboa e habilitado com o Exame de Estado para o magistério liceal, foi nomeado Professor efectivo tendo entrado no exercício de funções docentes em 12 de Novembro de 1945. Durante 37 anos foi Professor de Francês de muitas gerações de Meninos da Luz e ainda há bem pouco tempo esteve presente nas comemorações dos 50 Anos de Saída do Curso

que entrou no Colégio no já longínquo ano de 1950. Pelos seus méritos como divulgador da língua francesa em Portugal foi-lhe concedida pelo governo francês a Ordre des Palmes Académiques. Das obras por si publicadas contam-se os Dicionários Português/Francês e Francês/Português, editados em 1957 pela Larousse e Vocábulos Franceses de Origem Portuguesa em 1956. Em 1963, pela publicação do livro Selecta de Francês foi premiado pela Junta Nacional de Educação e em 1964 foi o autor de O Ensino das Línguas pelos Métodos Audiovisuais. Foi coordenador do Centro de Meios Audiovisuais do Colégio. Na sua vasta bibliografia encontram-se estudos nos domínios da fonética, da linguística e da pedagogia. Dominando várias línguas, entre as quais a romena, publicou em 1944 Método Prático da Língua Romena. Dos seus estudos sobre o português medieval destacam-se Crónicas da Tomada e de Lisboa e Cantigas de Escárnio e de Maldizer dos Trovadores Galego-Portugueses (1971) e Glossário Etimológico das Crónicas dos Portugaliae Monumenta Historica (2001). De sua autoria são também O Português entre as Línguas do Mundo (1985) e Português Fundamental (1966), tendo colaborado nas actualizações da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na Adenda e Corrigenda da 10ª edição do Dicionário de Morais. Traduziu várias obras importantes para o estudo da língua, dirigiu a revista Auditorium e

Carlos Alberto Crujo de Soure (260/1931) Oficial de Cavalaria Faleceu a 23 de Junho de 2010

Fernando Baltazar Tojeiro Falcão (122/1937) Reformado da Direcção-Geral de Contabilidade Pública Faleceu a 25 de Agosto de 2010

colaborou com a revista Labor e com a Revista de Portugal. Foi Fundador e Presidente da Sociedade de Língua Portuguesa, na qual se mantinha como Sócio de Honra. Membro da Academia Brasileira de Filologia, da Sociedade Romena de Linguística Românica e da International Society of Phonetic Sciences. Foi louvado pela Direcção do Colégio (1958), citado em 1966 e neste mesmo ano proferiu a Oração de Sapiência na Abertura do Ano Lectivo versando o tema Bases Cientificas do Ensino Moderno das Línguas. Quando em 1982 foram homenageados os antigos Professores já aposentados, manifestou a «grande alegria que sentia por ter contribuído para a formação de gerações de Alunos do Colégio que ascenderam a elevados postos nas hierarquias militar e civil». Muitas mais referências elogiosas e meritórias existirão na longa vida cheia e intensa do Professor Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca (o Don-Don, como carinhosamente foi alcunhado à boa maneira colegial). Apenas quisemos registar a memória do nosso Professor de Francês que leccionou uma grande parte dos Antigos Alunos ainda presentes neste Mundo. A Todos os seus Familiares apresentamos as mais sentidas condolências.

A Redacção da Revista da AAACM


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Recordando Os que nos deixaram

Manuel Guia Mendes de Sousa Vitoriano (53/1940) Engenheiro de Minas Comandante do Batalhão Colegial no ano 1946/1947 Faleceu em Abril de 2010

Recordo, com muita saudade, a amizade e o convívio que tivemos no Colégio. José Maria Myre Dores 47/1942

Vasco Fernando Leote de Almeida e Costa (162/1943) Oficial de Marinha – Contra-Almirante Nasceu a 26 de Julho de 1932 – Faleceu a 25 de Julho de 2010

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sta edição do “ZacatraZ” publica um excelente trabalho do António Marquilhas (67 de 1944) alusivo à romagem ao Colégio para assinalar os 60 anos de saída do curso 1943-1950. As palavras do Marquilhas não deixam espaço para acrescentar o que quer que seja ao elevado significado que aquela jornada teve para todos nós. Porém e infelizmente, cabe-me acrescentar uma nota que vem ensombrar o registo festivo com que o nosso curso se apresenta nas páginas da revista.

“Entre as fotos do meu Calisto em que está o Vasco, já amarelecidas por mais de seis décadas passadas, esta é a única com hipótese de ser reproduzida. Na Festa Final do Ano Lectivo 1944-45, coube a um pelotão da 1ª Companhia (1º e 2º anos) uma exibição de manejo de arma auto-comandado. O Vasco é o da 2ª fila na coluna da esquerda. Creio ainda conseguir identificar todos os rostos visíveis na foto: de trás para a frente e da esquerda para a direita 33/43 Navas da Fonseca, 110/43 Spínola da Costa, 83/44 La-Cerda, 135/44 Furtado Dias (?), 245/44 Zilhão, 35/42 Fernandes, 18/44 Caldeira, 51/42 Blasco Gonçalves (meio encoberto), 112/43 Humberto Delgado, 149/43 Branco (meio encoberto), 2/43 Garrido Borges, 115/43 Almeida d’Eça, 162/43 Almeida e Costa, 241/43 Campos Costa e, por último, o 10/43 Pezarat Correia. Não recordo, de todo, porque me coube o comando do pelotão. Como curiosidade, ainda usávamos os inestéticos e incómodos casacos de cotim que só no nosso 4º ano foram substituídos pela camisa e blusão.”

O

Vasco Almeida e Costa, o 162 de 1943, o “Ivan”, alcunha que se lhe colou para toda a vida, deixou-nos em 25 de Julho passado, após doença prolongada e progressiva, que já inviabilizara a sua vontade de estar conosco no Colégio. Muitos de nós estivemos presentes na

despedida do companheiro e amigo e manifestámos a nossa sentida solidariedade à sua família. Entrámos para o Colégio em 1943, o Vasco para o 2º ano, mas desde logo considerou que o seu lugar era no nosso curso pelo que lhe aderiu no ano lectivo seguinte,

nunca mais o deixando até à saída em 1950. Neste ano fez parte do grupo que “transitou” para a Escola do Exército (27 dos 35 finalistas) e, findo o Curso Geral Preparatório, o Vasco e o Heitor Patrício (1 de 1942) rumaram à Marinha e passaram à Escola Naval. Lembro-me muito bem, no


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primeiro fim-de-semana em que já cadete da Naval apareceu no Palladium, ponto de encontro obrigatório da nossa geração, impecável na sua farda azul carregada de botões dourados e ancorados, colarinho engomado então obrigatório, à pergunta “então, que tal?” o Vasco, que do mar ainda só conhecia a travessia do Tejo para o Alfeite, atirou sem pestanejar, naquela voz anasalada que lhe era peculiar e com a fina ironia do seu típico humor: “Eh pá, a vida do mar é tramada!...” Em 1955-56 encontrámo-nos em Goa na nossa primeira comissão, ele embarcado na Gonçalves Zarco e eu na zona de Mormugão na Companhia de Voluntários do Batalhão de Caçadores Vasco da Gama. No 3 de Março de 1956, no Hotel Mandovi, entre 33 ex-alunos estavam presentes quatro do nosso curso, o Vasco, o João Mateus (169 de 1944), o Arménio Teodózio (45 de 1942, o inesquecível ”Mocho”) e eu. No período das monções os navios da Armada vinham fundear na Baía de Mormugão pelo que me encontrava com o Vasco com alguma frequência, no meu quartel ou no seu navio, com óbvia vantagem para mim que era muito mais confortavelmente recebido nas instalações com ar-condicionado da Zarco do que ele no tosco aquartelamento de

Dabolim, onde nem electricidade havia. Nesse convívio partilhámos preocupações profissionais, culturais e políticas, frustrações e desilusões, permutámos livros, esboçámos projectos. No regresso a Portugal ainda nos encontrámos algumas vezes porém, a partir de 1961, com as sucessivas mobilizações para a guerra colonial, nunca mais nos cruzámos. Mas íamos sabendo um do outro e foi assim que, em 25 de Abril de 1974, ele em Moçambique e eu em Angola, sem surpresa, constatámos que estávamos no mesmo lado. Depois vivemos em comum os anos vertiginosos do PREC, por vezes com perspectivas diferentes mas sempre aliados no essencial. Durante seis anos sentámo-nos lado a lado na mesa das reuniões semanais do Conselho da Revolução. O Vasco teve um papel decisivo na forma exemplar como decorreram as primeiras eleições verdadeiramente livres que se realizaram em Portugal em meio século, para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975, foi depois Ministro da Administração Interna do VI Governo Provisório a que chegou a presidir interinamente e, como Governador de Macau, entre 1981 e 1985, daria início ao processo de transição da soberania do território para a República Popular da China. E seria o pri-

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meiro do nosso curso do Colégio a atingir o generalato. Sem ser dos mais assíduos comparecia, quando podia, nos almoços em que o curso se reúne duas vezes por mês. Fazia-o com gosto pois, mesmo em estado já avançado da sua doença, foi com evidente esforço físico que algumas vezes se nos juntou. Pouco mais de um mês antes de falecer estive em sua casa, onde lhe fui levar notícias das comemorações dos 60 anos de saída, entregar-lhe o DVD relativo ao evento e levar-lhe o abraço solidário da “malta”. Foi uma visita difícil, porque já se adivinhava o desfecho doloroso. A família, corajosamente, estava consciente disso. O Vasco Almeida e Costa foi um distinto oficial da Armada Portuguesa e, como militar e cidadão exemplar, viveu dignamente de acordo com convicções que o enobrecem. Gostava do seu Colégio e valorizava os anos que nele passou. E o Colégio Militar pode registar, nos seus anais, que o Antigo Aluno 162 de 1943-50, Vasco de Almeida e Costa, foi um português ilustre que honra a Casa em que o seu carácter se formou. Pedro Júlio de Pezarat Correia 10/1943

“Naquele tempo, no 3 de Março, desfilávamos depois da missa pela rua do Ouro. Aqui vai a segunda Companhia. Com o meu amigo “ IVAN “ partilhava a responsabilidade de insuflar nos “putos” o garbo, QB, para deixar perplexos os assistentes. Em sua memória registo este momento a juntar a tantos outros de felicidade e camaradagem que partilhámos. Bem-hajas, Almeida e Costa, pela tua amizade que sempre retribuí. Não te esqueceremos AMIGO. Deixo impresso nestas linhas o meu abraço para além dos limites temporais. Até sempre...” António Francisco Martins Marquilhas 67/1944

Foto Arquivo de António Francisco Martins Marquilhas (67/1944)


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Recordando Os que nos deixaram

asco Fernando Leote de Almeida e Costa (162/1943), casado com Maria Claudiana da Costa Araújo de Faria, distinto Oficial de Marinha que prestou serviço em Goa e na Guiné-Bissau onde foi distinguido com a Cruz de Guerra de 1ª classe, membro do Conselho da Revolução de Novembro de 1975 a Outubro de 1982, ministro da Administração Interna entre Setembro de 1975 e Julho de 1976, tendo assumido em 23 de Junho de 1976 funções como primeiro-ministro depois de Pinheiro de Azevedo ter sofrido um ataque do coração. À sua acção determinada se deve a elaboração e publicação da estrutura legislativa que permitiu o funcionamento do sistema democrático, tendo sido directamente responsável pela organização do processo eleitoral da Assembleia Constituinte, devendo destacar-se também o recenseamento eleitoral então efectuado sob sua responsabilidade. Governador de Macau de Junho de 1981 a Maio de 1986 (o 134º Governador), teve grande acção na modernização do Território,

na preparação do seu futuro e na melhoria das condições culturais, programando e estabelecendo conjunturas que permitiram a realização de um desenvolvimento progressivo. Recrutou na Metrópole técnicos das mais diversas áreas para prestarem serviço em Macau, promovendo projectos estruturais fundamentais para a economia do Território e bem-estar das suas populações. Muitos dos empreendimentos do Território foram realizados com as bases estabelecidas pelo Governador Almeida e Costa que criou condições para que pudessem ser concretizados: Nova Taipa, aeroporto, porto de águas profundas. A ele se ficou a dever o lançamento de alguns das obras mais estruturantes e importantes para o futuro do Território. Também como Governador de Macau realizou uma obra notável. Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949


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