SUMÁRIO 02 Corpos Sociais da Associação para o triénio 2008-2010 03 Artigos à venda na Associação 04 Editorial
DA ASSOCIAÇÃO 06 70 Anos de Entrada 1938-2008 09 Ser Antigo Aluno do Colégio Militar FICHA TÉCNICA
10 Para lá do Colégio Militar, uma Associação Centenária 11 Protocolos
PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL N° 174 - Janeiro/Março - 2009 44° Ano
12 Acordos Comerciais
Fundador Carlos Vieira da Rocha (189/1929) *** Director Mário M. e Silva Falcão (314/1936)
16 Jantar de Natal no Porto
Chefe de Redacção Gonçalo Salema Leal de Matos (371/1949)
15 Um Curso da primeira metade do século passado ao serviço do Colégio e da Associação 17 Lançamento do Livro “O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa”
DO COLÉGIO 20 03 de Março 28 Récita Anual do 7.º Ano 2008 / 2009
Relações Públicas Vasco Santos Pinheiro (254/1982)
32 Menino da Luz, a Equitação e os Valores...
Pelouro da Juventude João Carlos Agostinho Alves (110/1996) Ricardo Neto Galvão (347/1997) Nuno José Lopes da Costa Alves Caetano (99/1998) Francisco Rodrigues dos Santos (128/1998)
36 Paixão pela Vela
Capa: A Chama Colegial
62 Projecto de Extensão da Plataforma Continental (PEPC) de Portugal
COLABORAÇÃO
54 O Colégio Militar e a Mocidade Portuguesa 56 Tempo Africano - Aquelas Longas Horas em Sete Andamentos 60 Lema Colegial
RECORDANDO 66 Viagens Braves à Caixa da Memória 70 O Colégio Militar no funeral de Sidónio Pais - 90 Anos depois 77 Recordações do Tempo Colegial (Uma Turma de Alemão...) 80 Rostos que fazem voltar ao outro lado do tempo 83 A Obra de Barata Feyo (105/1911) e o Colégio Militar 86 Recordações do Tempo Colegial (“Calisto”) 87 Os que nos Deixaram Revista da AAACM
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Entidade proprietária e Editor: Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar Morada do proprietário e sede da Redação: Quartel da Formação - Largo da Luz 1600-498 Lisboa Telefone: 21 712 23 06/8 - Fax: 21 712 23 07 e-mail: revista@aaacm.pt Tiragem: 1500 exemplares Depósito Legal n° 79856/94 Periocidade Trimestral N° de Registo no ICS – 100010 ISSN 0872-8224 Design e Execução Gráfica: www.pulpdesign.pt Distribuição gratuita aos Sócios da AAACM Número Avulso: 4,00 € Assinatura: 15,00 € (Os artigos publicados são da Responsabilidade dos seus Autores)
UM POR TODOS, TODOS POR UM
CORPOS SOCIAIS DA ASSOCIAÇÃO PARA O TRIÉNIO 2008-2010 MESA DA ASSEMBLEIA GERAL Presidente: Vice-Presidente: 1.º Secretário: 2.º Secretário:
José Eduardo Martinho Garcia Leandro - 94/1950 Bernardo Manuel Diniz de Ayala - 171/1953 Luís Baptista Esteves Virtuoso - 72/1973 Ricardo Neto Galvão - 347/1997
DIRECÇÃO Presidente: Vice-Presidente: Secretário: Tesoureiro: 1º Vogal: 2º Vogal: 3º Vogal: 4º Vogal: 5º Vogal: 1º Vogal Suplente: 2º Vogal Suplente:
Martiniano Nunes Gonçalves - 9/1958 José Maria Rebocho Pais de Paula Santos - 644/1968 Pedro Miguel Correia Vala Chagas - 357/1977 João Sanches de Miranda Mourão - 552/1960 Mário Margarido e Silva Falcão - 314/1936 Frederico Eduardo Rosa Santos - 78/1957 Duarte Manuel Silva da Costa Freitas - 199/1957 Carlos Francisco da Silva do Rio Carvalho - 307/1971 Samuel Ma - 29/1995 José Manuel da Veiga Ferreira - 116/1957 Fernando Nuno Lamy da Fontoura - 75/1959
CONSELHO FISCAL Presidente: 1º Vogal: 2º Vogal: 1º Vogal Suplente: 2º Vogal Suplente: 2
Revista da AAACM
Pedro João Reis de Matos Silva - 449/1958 João do Passo Vicente Ribeiro - 153/1958 António Cortez Freire Damião - 236/1959 João Luís de Mascarenhas e Silva Shoerder Coimbra - 54/1984 António Luís Henriques de Faria Fernandes - 454/1970
Artigos à Venda na A.A.A.C.M.
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©Foto: Gianni Sallustio
©Foto: Gonçalo Leal de Matos
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Publicações
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Outras Publicações
I Volume da História ao Colégio Militar
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II Volume da História do Colégio Militar
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III Volume da História do Colégio Militar
35 €
O Espírito do Colégio Militar
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Os Jardins do Colégio Militar
35 €
Raiva e Luz
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Qualquer dos produtos pode ser adquirido na Secretaria da AAACM, assim como polos, t-shirt, emblemas, etc... Revista da AAACM
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EDITORIAL
EDITORIAL Para quem há muito não visita o Colégio Militar, são muitas as diferenças estruturais e físicas que pode encontrar, e quase sempre para melhor. O Colégio está cada vez mais bonito e limpo. As instalações dos colegiais, as camaratas, o refeitório, os gerais e as casas de banho situam-se afastadas dos claustros num apropriado edifício, o Corpo de Alunos, junto de uma parada. Os campos de jogos estão electrificados. Há uma piscina de águas aquecidas e um amplo ginásio. O picadeiro situa-se junto das cavalariças e próximo do ginásio. Os antigos ocupantes do Quartel da Formação (onde se situa a sede da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar) ocupam agora um moderno edifício inaugurado recentemente. As aulas de esgrima efectuam-se presentemente no novo ginásio. O antigo Pavilhão de Química foi adaptado a refeitório dos professores e oficiais. O antigo Pavilhão de Trabalhos Manuais foi demolido e substituído por um moderno Pavilhão de Ciências dispondo de apropriado material didáctico, aproveitando-se o espaço entre ele e o corpo central do Colégio para construir a chamada Parada Nova, aproveitada para formações e desfiles. Perto desta parada foi construído um moderno edifício com auditório, onde têm lugar várias manifestações artísticas dos alunos. A 1ª Companhia foi demolida para dar lugar a um pequeno pátio, que dá entrada para a Parada Nova. Aí se ergue um monumento oferecido pelos Antigos Alunos, em cuja base se acende a Chama Colegial em certas cerimónias. O edifício da 2ª Companhia também foi demolido. As salas que circundam os claustros foram adaptadas para gabinetes dos vários serviços responsáveis pelo funcionamento do Colégio. Para quem há muito não vem ao Colégio Militar, já revelámos motivos mais que suficientes para o incitar a visitar, certamente com saudade, mas agradecendo intimamente a quem trouxe tão belas e funcionais instalações para o nosso Colégio. O Director da Revista
Mário Margarido e Silva Falcão 314/1936
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ASSOCIAÇÃO
©Foto: Gonçalo Leal de Matos
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ASSOCIAÇÃO
ASSOCIAÇÃO
70 Anos de Entrada 1938-2008 Ao tomar a iniciativa de organizar a comemoração do 70º aniversário da entrada para o Colégio dos “Ratas” de 1938, o Curso de 1938-1945 quis também associar a esta comemoração todos os que entraram em 1938 independentemente do ano em que saíram bem como aqueles que, não tendo entrado em 1938, se integraram no Curso ao longo da sua permanência no Colégio.
17/1938 Ricardo Durão, 26/1938 José Joaquim Fragoso, 44/1938 Pedro Vieira da Fonseca, 49/1940 Carlos Chaby, 65/1938 Contreiras Lopes, 75/1937 José Manuel Marinho Falcão, 91/1937, Garrido Vaz, 98/1938 Amaral Mendes, 137/1939 Luís Soares de Oliveira, 140/1938 Arruda Pereira, 187/1938 João Oliveira, 212/1939 Carlos Dias Antunes, 236/1938 Emídio Cadima, 330/1938, Brito e Abreu, 333/1938 Garcês Palha, 346/1939 João Teixeira Dinis, 367/1938 Leandro Soveral, 377/1938 Prista Caetano, 398/1939 Névoa Caeiro. 6
Revista da AAACM
Quis o Senhor Director, Major-General Raul Gonçalves Passos receber os participantes na Sala da Biblioteca acompanhado pelo S enhor Subdirector, Coronel João Paulo Alves Caetano e pelo Comandante do Corpo de Alunos, Senhor Tenente Coronel Francisco Duarte com simpáticas palavras de acolhimento tecendo ainda interessantes considerações sobre a importância das relações do Colégio com os antigos alunos, designadamente com a Associação cujo Presidente estava presente na sequência de convite que lhe havíamos dirigido.
ASSOCIAÇÃO 70 Anos de Entrada 1038-2008
Em nome dos presentes o 49/1940 Carlos Chaby pronunciou as seguintes palavras:
Exmº Senhor Director Senhores Professores e Oficiais Ao tomar a iniciativa de organizar a comemoração do 70º aniversário da entrada para o Colégio dos “ratas” de 1938, o Curso de 1938/1945 quis também associar a esta comemoração todos aqueles que tivessem entrado para o Colégio ou antes ou depois de 1938, no grupo dos quais me encontro incluído. E entendeu ainda que deveria ser eu a desempenhar uma vez mais a função de porta-voz do Curso. Peço-lhe pois, Senhor Director, que aceite os nossos sinceros agradecimentos pelo acolhimento reservado ao nosso pedido para hoje nos reunirmos no Colégio e pela honra que a sua presença nos concede, agradecimentos extensivos aos Senhores Oficiais e Professores que o acompanham. A vossa presença recorda-nos todos aqueles que, nesta mesma biblioteca, tantas vezes nos avaliaram e classificaram, os quais, independentemente da opinião que deles à época teríamos, recordamos agora com um pensamento de saudade. Pensamento de saudade que temos também, e muito sentidamente, para os nossos 26 camaradas já falecidos bem como para aqueles que, por motivos de saúde, não nos podem acompanhar hoje Agradecemos a presença do Augusto Lage e do Luciano Cunha, que foram nossos Comandantes de Batalhão, recordando o Costa Álvares, o Torres Grincho, o Tiago Cunha e o Ribeiro Casais, já falecidos. Eles representam todos os que nos transmitiram o “Património Cultural” do Colégio do qual as “Tradições” são a expressão visível. Ao solicitarmos ao Presidente da nossa Associação a sua presença nesta comemoração, a qual muito agradecemos, pretendemos significar a união do nosso Curso a todos os outros por ele aqui representados, na diversidade das várias gerações, na defesa do “Património Cultural” do Colégio Militar, assegurando que, sucessivamente enriquecido, ele seja transmitido de geração em geração. Senhor Director Na sequência das oito reuniões devidamente assinaladas na lápide nos Claustros, o Curso de 1938/1945 volta hoje em romagem ao Colégio, 70 anos decorridos sobre a sua entrada, para, com a mesma emoção, renovar a justa homenagem à Instituição que nos educou e nos formou. Os anos que passámos no Colégio, coincidindo praticamente com os da 2ª Guerra Mundial, foram naturalmente marcados por efeitos de vária ordem, dela decorrentes. A necessidade de reforçar guarnições, designadamente nas Ilhas Adjacentes, motivou a saída de alguns oficiais do quadro permanente e a sua substituição por milicianos, cuja inadaptação esteve na origem de casos bastante desagradáveis que atingiram alguns dos presentes. Também se iniciou então o recrutamento de professores civis e enquanto alguns se integraram e mantiveram no Colégio durante largos anos, a permanência de outros foi curta. Se acrescentar que entre 1938 e 1945 conhecemos cinco Directores – dos quais dois apenas com o posto de Major – não admira que tenhamos vivido no Colégio um clima de certo “vazio de poder” que permitiu o excessivo protagonismo de alguns oficiais, de tudo resultando uma acentuada instabilidade e consequente declínio da qualidade da acção educativa e formativa. Revista da AAACM
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ASSOCIAÇÃO
ASSOCIAÇÃO 70 Anos de Entrada 1038-2008
O nosso Curso pôde compensar os difíceis anos anteriores com um excepcional Sétimo Ano marcado com a posse como Director do então Coronel D. Luís Mesquitella com o qual se iniciou uma nova fase da vida do Colégio cuja acção veio aliás a ser reconhecida anos depois justificando a colocação da sua efígie no átrio de entrada do Colégio, pois foi, sem dúvida, um dos melhores Directores que passou por esta Casa. Pelo que nos respeita, devemos-lhe a assunção da responsabilidade que considerou inerente a graduados e alunos do último ano e a motivação para atingirmos o objectivo que nós próprios havíamos fixado, de restituir ao Colégio o prestígio do qual sempre desfrutara. O novo Director não só aprovou como incentivou este objectivo que conseguimos concretizar com vontade forjada nos anos precedentes, fomentando assim a união do Curso que preservámos e cimentámos ao longo destes 70 anos. Olhando o seu retrato nesta sala, é-nos grato render-lhe homenagem e renovar os nossos agradecimentos pelo muito que contribuiu para a nossa formação. Senhor Director Sabemos que hoje como então problemas de vária ordem afectam directa ou indirectamente o Colégio Militar. O Colégio sempre soube adaptar-se à evolução da sociedade da qual é parte integrante, sem nunca perder os valores que fundamentalmente o caracterizam. Quando em 2003 se comemorou o bicentenário da fundação foram abundantes as elogiosas referências de entidades oficiais que publicamente reconheceram os méritos do Colégio e a sua contribuição para a formação de gerações que prestaram ao País relevantes serviços, tanto na Sociedade Civil como nas Forças Armadas, destacando os valores fundamentais que enformam o específico e singular “Património Cultural” do Colégio Militar, “património” que merece ser preservado como evidenciam as recentes declarações do Chefe do Estado no decorrer da sua visita ao Colégio, cuja importância não carece de ser adjectivada. Senhor Director Estamos certos de que, sob a sua superior orientação assim acontecerá. Permita-me, finalmente, que renovando os nossos agradecimentos pela sua presença e pelo acolhimento que nos reservou, formule os nossos melhores votos de prosperidade pessoal e de continuados êxitos na sua carreira profissional.”
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ASSOCIAÇÃO 70 Anos de Entrada 1038-2008/ Ser Antigo Aluno do Colégio Militar
Seguiram-se as habituais cerimónias de deposição de flores no Monumento do Jardim da Luz e junto ao busto do Marechal Teixeira Botelho. Na Capela do Colégio foi celebrada Missa durante a qual foram os camaradas já falecidos e nos Claustros foi acrescentada uma placa, testemunhando esta reunião, junto das sete anteriormente colocadas.
Após o desfile do Batalhão foi servido o almoço com a ementa habitual. O café foi bebido na Sala de Oficiais e Professores e o encontro terminou com uma visita às novas instalações da Associação acompanhados pelo Presidente Engenheiro Martiniano Nunes Gonçalves, o 9/1958, e pelo Mário Falcão, o 314/1936.
Ser Antigo Aluno do Colégio Militar Julgamos sempre oportuno afirmar que os Antigos Alunos do Colégio Militar não são melhores ou piores do que os restantes cidadãos. Somos apenas diferentes e disso nos orgulhamos.
representa é voluntário e deliberadamente a título gracioso.
Poucas serão as escolas que conseguem manter durante anos e anos, muitas vezes durante toda a vida, uma ligação afectiva sui generis entre os actuais e antigos educandos. A própria nossa Associação e a sua permanente actividade também deve ser pouco comum.
Não será porque os Antigos Alunos reconhecem o valor da formação, da educação e da instrução recebidas no Colégio da Luz?
Ali se conservam a camaradagem e a amizade que caracterizam os “Meninos da Luz” e se traduzem numa invulgar união entre todos os que pisaram os claustros da vetusta e afamada Escola. É certo que há também alguns (poucos) ex-Alunos que, por razões que compreendemos mas não aceitamos, não apreciaram a frequência no Colégio Militar. Durante a vida, todos procuramos auxiliarmo-nos, através ou não da Comissão de Solidariedade. E ao contrário de muitas outras Instituições, todo o serviço prestado à Associação que nos
Por alguma razão há várias famílias representadas no Colégio Militar por alunos de diversas gerações.
São motivo de orgulho do Colégio Militar as várias mensagens deixadas no seu Livro de Honra de individualidades que o têm visitado desde há muitas décadas. E foram reconfortantes as palavras que o actual Presidente da República dirigiu aos alunos quando presidiu à comemoração dos 205 anos da sua fundação:”É um privilégio para os alunos do Colégio Militar frequentarem esta Casa, porque esta é uma Casa de Excelência - uma Casa de Excelência no que se refere à qualidade do ensino e no que se refere à cultura dos valores éticos e morais que transmite. Muito obrigado, Senhor Presidente, por poder reconhecer aquilo que todos nós já sabíamos e outros ainda desconhecem. Mário Silva Falcão 314/1936
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ASSOCIAÇÃO
ASSOCIAÇÃO
Para lá do Colégio Militar, uma Associação Centenária Ninguém, melhor que o Rui Figueiredo de Barros (62/1936) poderia meter ombros à escrita da obra “Para lá do Colégio Militar, uma Associação Centenária”, lançada recentemente na Sala de Armas do Colégio Militar. Baseado na sua longa e larga experiência associativa e na sua prodigiosa memória, dá a conhecer variados acontecimentos e eventos, muitos dos quais só agora puderam chegar ao conhecimento de bastantes associados da nossa Instituição. Em princípio, textos como os que agora se publicam estiveram para ser incluídos no III Volume da História do Colégio Militar mas tal não foi possível em especial por falta de tempo. A partir de agora, o já rico currículo de Rui Figueiredo de Barros fica bastante valorizado por este interessante trabalho, que contou com o indispensável apoio de seu filho, Gonçalo Figueiredo de Barros (440/1967), também co-autor do livro. Para além da excelência da obra, há que realçar o interesse do prefácio que a acompanha, da autoria de Vasco Rocha Vieira (127/1950). Como amigo de sempre, dentro e fora do Colégio, sinto que me cumpre, e faço-o com o maior gosto, felicitar o Rui de Barros por esta sua valiosa oferta à Associação que desde sempre tem servido. Mário Silva Falcão 314/1936
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ASSOCIAÇÃO
PROTOCOLOS A anterior Direcç‹o assinou um conjunto de protocolos de natureza cultural e/ou apoio social, os quais s‹o de gr ande relev‰ncia par a a Fam’lia Colegial. Assim sendo, Ž de todo o interesse a sua divulgaç‹o , podendo ser obtidos outros esclarecimentos atravŽs da AAACM Ð Miguel de Mello 217122306/08 - marketing@aaacm.pt
ASSOCIA‚ÌO CORA‚ÌO AMARELO Esta Associaç‹o Ž uma instituiç‹o particular de solidariedade social que tem como objectivo, entre outros, a promoç‹o de iniciativas que visem apoiar pessoas em situaç‹o de solid‹o e/ou dependência, preferencialmente as mais idosas; o desenvolvimento, junto de entidades respons‡veis, de iniciativas tendentes ˆ sensibilizaç‹o para a necessidade de melhorar a qualidade de vida dessas mesmas pessoas, bem como a criaç‹o de din‰micaspara a implementaç‹o , nas comunidades, de um serviço de apoio domicili‡rio integrado e de qualidade, em articulaç‹o com os serviços de saœdee de acç‹o social. O acordo de cooperaç‹o com a AAACM prevê, entre outras acç›es para os seus Associados e c™njuges em situaç‹o de solid‹o e/ou dependência, apoio de assistência em regime de voluntariado em condiç›es a serem definidas.
Instituto Nacional para Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores O acordo de cooperaç‹o prevê que os s—cios da AAACM se inscrevam como associados do INATEL, pagando apenas a quota anual e ficando isentos da taxa de inscriç‹o .
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Prevê tambŽm que o INATEL facilitar‡ ˆ AAACM e seus associados, o acesso ˆs suas estruturas e iniciativas (centros de fŽrias, parques de campismo, unidades de turismo em espaço rural nos periodos de mŽdia e baixa ocupaç‹o , entrada no Teatro da Trindade e participaç‹o nas excurs›e s constantes da sua programaç‹o) aos preços praticados para os seus associados.
LIGA DOS COMBATENTES O acordo prevê a promoç‹o mœtuada protecç‹o , do aux’lio e da defesa dos leg’timos interesses morais e materiais dos seus associados, com o provimento rec’proco das suas necessidades sociais, promovendo acç›es e iniciativ as de cariz cultural.
ROTARY CLUBE DA PORTELA O acordo prevê a promoç‹o de acç›es e iniciativ as de cariz cultural e social, designadamente apoiando e realizando exposiç›es, c ol—quios, semin‡rios, conferências, estudos e outros eventos culturais relacionados com os objectivos das Instituiç›es e que sejam de interesse para a comunidade. Contempla tambŽm apoio para contactos e assistência, atravŽs dos clubes Rotary e dentro do seu esp’rito de entreajuda, para facilidades no fornecimento de cadeiras de rodas e equipamentos afins, e alguns patrocinios na concess‹o de bolsas para programas de estudo.
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ASSOCIAÇÃO Um Curso da primeira metade do século passado ao serviço do Colégio e da Associação
Um Curso da primeira metade do século passado ao serviço do Colégio e da Associação O curso de 1935-1942 pode bem servir de exemplo pois, apesar da sua antiguidade, tem colaborado com a AAACM e com o Colégio na medida do possível.
uma Associação Centenária” e detentor do “Prémio Barretina - Dedicação”;
42/1935, Nuno Cordeiro Simões, antigo instrutor militar do Colégio Militar, ainda hoje recordado com saudade por todos os seus instruendos de então;
131/1935, Joaquim Lopes Cavalheiro, Director do Colégio Militar em 1977, antigo Vice-Presidente da Direcção da AAACM, Secretário do Conselho Supremo;
68/1936, José Afonso Antunes Pala, colaborador da organização de concursos hípicos associativos Fazem parte deste curso, além de vários outros e componente da equipa de Hóquei em Patins da Associação; já falecidos, os seguintes Antigos Alunos:
314/1936, Mário Margarido e Silva Falcão, vogal de várias direcções da AAACM, membro do Conselho Supremo, coordenador do III volume da “História do Colégio Militar”, actual Director 62/1936, Rui Manuel Figueiredo de Barros, da Revista da AAACM, detentor do “Prémio BarPresidente por mais de uma vez da Direcção retina – Dedicação”. da AAACM, antigo Director da Revista, antigo Além destes elementos poderíamos ainda juntar Presidente do Conselho Supremo, Presidente o 245/1936, José Gualberto do Nascimento Mada Comissão Organizadora do Bicentenário, co- tias, assíduo e activo participante nos Torneios -autor do livro “Para além do Colégio Militar, de Bridge da Associação. 47/1935, João Salgueiro Pinto Ribeiro, que prestou brilhante serviço como Chefe do Serviço Escolar, co-autor do livro “Culinária Colegial” e colaborador eventual da Revista da AAACM;
Dos falecidos, há que citar o 232/1936, Amadeu José Ferreira, distinto Oficial Superior da Força Aérea, colaborador de vários números da Revista da AAACM e 319/1936, Artur Francisco da Cunha Semedo, actor bem conhecido do século passado, que ostentava sempre o emblema da Associação apesar de ser um ferrenho benfiquista. ©Foto: J M Soares de Oliveira
M. F. 314/1936
Da esquerda para a direita: Marques da Cunha, Mário Falcão, Antunes Palla, Lopes Cavalheiro, Rui de Barros e Pinto Ribeiro. O Nuno Simões não figura por estar gravemente doente. Revista da AAACM
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Jantar de Natal no Porto Cumprindo a boa tradição, os ex-alunos residentes no Grande Porto reuniram-se em jantar natalício que decorreu, como habitualmente, na Messe dos Oficiais, à Batalha, no dia 10 de Dezembro. Optou-se por realizar o jantar em data um pouco anterior ao que vinha sendo costume para que se evitasse a “colisão” com outros jantares e reuniões que acontecem a propósito daquela quadra, um pouco por toda a parte, principalmente na segunda quinzena de Dezembro.
A reunião decorreu em ambiente de calorosa confraternização e amizade e no final trocaram-se votos de Boas-Festas entre todos os presentes e os mesmos foram também dirigidos a todos os ex-alunos onde quer que se encontrassem e ao “Colégio Militar” nesta designação englobando todos os seus actuais alunos e todos quantos nele Servem.
Estiveram presentes: 379/1927 Amândio Augusto Trancoso 290/1935 79/1937
António Cândido Pires Monteiro João Maria da Costa P.M. Faria Araújo
327/1937
281/1963 José António Marques Salgado Lameiras 423/1963
Manuel Maria de Castro e Lemos
296/1964
José Augusto Morais de Oliveira
José Paz Olímpio
260/1969
Herlânder José Resende Marques
261/1940
Manuel José Martins Rodrigues
321/1941
Cristiano de Sousa Moreira
572/1969
José Manuel Sanches Roma Moreira Lobo
147/1948
António Rui Prazeres de Castilho
20/1970
Miguel Duarte Silva
23/1949
José António Campos Resende Santos
281/1970
Bruno Pinto Basto Soares Franco
96/1950
José Alberto da Costa Matos
403/1970
Paulo César Alves Bacelar
488/1971
Guilherme E . Lickfold de Novais e Silva
391/1974
José Eduardo da Costa Silva Pereira
688/1974
Augusto José Ferreira de Matos
319/1950 José Manuel Simões Ramos de Campos 153/1951 Jorge Manuel Morais Silva Duarte 138/1954
Luís Manuel Ferraz Pinto de Oliveira
6/1956 Francisco Xavier de Barros Cardoso de Meneres 486/1958
João de Lancastre de Mello Sampayo
522/1959 António Norton de Matos Carmo Pereira 342/1961 Albino Manuel Pereira de Sousa Botelho 39/1963 Manuel Lopes Alpes
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547/1977 Luciano Jorge de Sousa Pinto Faustino 253/1993 Luís Narciso Lopes Rodrigues Morais 368/1993 384/1994
Amândio Emanuel Lopes Ribeiro Luís Filipe Pinto Leite O Delegado no Porto José Manuel Simões Ramos de Campos 319/1950
ASSOCIAÇÃO Lançamento do Livro “O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa”
No Auditório do Colégio teve lugar a assinatura do PROTOCOLO DE COOPERAÇÃO ENTRE O COLÉGIO MILITAR E A ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DO COLÉGIO MILITAR, representados pelo seu Director Major-General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos e pelo Presidente da Direcção Engenheiro Martiniano Nunes Gonçalves, documento da maior relevância para a defesa e engrandecimento destas Instituições, Protocolo que será publicado integralmente na próxima Revista.
Seguiu-se a cerimónia de lançamento do livro “O COLÉGIO MILITAR NA TOPONÍMIA PORTUGUESA”, um novo trabalho do 96/1950, José Alberto da Costa Matos, editado pela AAACM. Estiveram presentes o antigo Presidente da República General Ramalho Eanes, que prefaciou a obra, e o General Chefe do Estado-Maior do Exército, além de muitos convidados e antigos Alunos. O livro no qual o autor da “História do Colégio Militar” despendeu mais de dois anos de pesquisa documental e investigação histórica, tem mais de trezentas páginas e é profusamente ilustrado. Nele se encontram listas ordenadas de mais de mil topónimos relacionados com o Colégio, os quais se distribuem por cerca de quinhentas localidades do Continente e da Madeira. Quem folhear o livro constata que uma vasta parte dele é ocupada por biografias ilustradas dos 87 antigos Alunos que emprestam o seu nome às nossas praças
e ruas, mostrando para cada um deles retratos do próprio e imagens de uma das suas artérias urbanas e respectiva placa toponímica.
©Foto: Gianni Sallustio
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ASSOCIAÇÃO
ASSOCIAÇÃO Lançamento do Livro “O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa”
A última obra do Costa Matos foi apresentada pelo 94/1950, José Eduardo Martinho Garcia Leandro, actual Presidente da Assembleia Geral da Associação, que relativamente ao autor disse ser o tipo de actividade que só se faz por amor ilimitado a uma causa, numa missão auto-assumida, ao mesmo tempo que são precisas qualidades muito especiais da parte de quem a realiza, o gosto e a paciência pela investigação, o rigor, a capacidade de organização, a estrutura do texto e a qualidade da escrita, aliados a uma apurada sensibilidade estética. Lembrou que nomes de Antigos Alunos, do seu Fundador e do Colégio aparecem na toponímia de 427 localidades portuguesas, sendo 87 os que mereceram essa homenagem e estando a sua memória gravada em 1030 artérias ou praças. Por estas folhas, por estes nomes, passa a nossa História dos séculos XIX e XX. Três nomes emergem pela frequência com que são repetidos, demonstrando a importância nacional atribuída ao significado das suas vidas, Serpa Pinto, António Sérgio e Humberto Delgado. Nesta três personalidades, congregam-se algumas virtudes que, desde sempre, se aprendem nos bancos desta Casa: o serviço às causas nacionais, a liberdade de pensamento e a coragem moral, com todo o incómodo pessoal que tal possa envolver. Por último usou da palavra o autor que começou por agradecer a presença das várias entidades, bem como dos convidados, antigos Alunos e Servidores do Colégio. Fez depois alusão ao 191/1921, José Godinho Gama Barata, a quem prestou a sua homenagem, tendo referido o seguinte: «Durante os anos que dediquei à elaboração da “História do Colégio Militar” tive necessidade de fazer extensa e demorada pesquisa documental, quer no Colégio, quer fora dele. E foi no decorrer dessa infindável tarefa que me confrontei com a existência daquilo que jamais imaginara: vários maços de milhares de folhas de papel, cada uma das quais continha uma breve síntese de cada 18
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um dos milhares de antigos Alunos do Colégio, desde a sua criação em 1802, até à implantação da República em 1910. Escrevera-as, com determinação e paciência, durante dez anos, o Dr. Gama Barata, um antigo Aluno quase desconhecido da maioria de nós, de quem se faz detalhada e justa referência na “Introdução” da presente obra. Mas havia mais! O Gama Barata era também a mesma personagem que assinava uma relação de topónimos lisboetas referentes a antigos Alunos que, no edifício do Internato, estava encaixilhada e pendurada no patamar da escada de acesso às instalações dos oficiais do Corpo de Alunos, onde eu pernoitava quando trabalhava noite dentro no Arquivo Colegial. Fiquei então a pensar que deveria haver, com certeza, outras artérias urbanas, noutras localidades, alusivas a outros “Meninos da Luz”.» Depois de citar vários exemplos curiosos retirados das biografias que elaborou, e que são pouco conhecidos da generalidade dos leitores, o Costa Matos rematou a sua intervenção dizendo: «Os que constam desta obra são apenas alguns dos muitos portugueses que, tendo tido a honra de envergar o uniforme de Aluno do Colégio Militar, foram, no entendimento dos seus concidadãos, merecedores de reconhecimento público ao associarem o seu nome às ruas ou praças das cidades, vilas ou aldeias do país, por onde passam ou onde residem. Mas há muitos mais antigos Alunos que, pelos mais variados motivos, atingiram também uma notoriedade que a História regista e consagra, que ainda gostaria de vir a divulgar num futuro trabalho. Uns e outros são exemplos de mais de dois séculos de cauteloso labor e de esmerado ensino e formação realizados numa instituição nacional cujo prestígio é reconhecido não só em Portugal, mas também além fronteiras: o Colégio Militar.»
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O3 de MARÇO As comemorações do 206º aniversário do Colégio Militar tiveram lugar nos dias 28 de Fevereiro (Sábado) e 1 de Março (Domingo). Pelas 9 horas do Sábado, com o Batalhão Colegial formado na Parada Nova, foi prestada continência Director Major-General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos e içado o Guião da Instituição ao som do Hino Colegial cantado por todos os Alunos, acompanhados pela Banda do Exército. Respeitando a tradição instituída há alguns anos, o Presidente da AAACM, Martiniano Gonçalves (9/1958), na sua primeira comunicação ao Batalhão no exercício destas funções, dirigiu-se-lhes com as seguintes palavras:
“Senhor General Director do Colégio Militar: Uma primeira palavra para Vossa Excelência - Senhor General - na qualidade de anfitrião desta Casa a quem agradeço a oportunidade de a Associação dos Antigos Alunos do Colé-
gio Militar se dirigir, nesta cerimónia, ao Batalhão. Batalhão, Antigos Alunos, Meninos da Luz! Falo-vos como Presidente da Associação do Antigos Alunos do Colégio Militar. Juntos, Colégio e Associação são a essência da instituição e do universo do Colégio Militar. Comemoramos nesta data os 206 anos da fundação do Colégio Militar e não é possível fazê-lo sem evocar a memória do seu Fundador, o Marechal Teixeira Rebello. Quero dizer-vos algumas palavras muito simples sobre o “3 de Março” e de que modo – nós, Meninos da Luz - temos vindo a perpetuar e adaptar à sociedade em que vivemos a visão do grande Homem que está na origem desta construção viva que é o Colégio. O Marechal foi o princípio: o Marechal foi e é o espírito, mas a prática, a construção diária do Colégio somos nós, os 12.000 Meninos da Luz
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que desde 1803 aqui passaram, de que estão actualmente vivos cerca de 5.000. Vou homenageá-lo dedicando estas palavras aos Ratas – principalmente aos Ratas -, aos Graduados e aos novos Antigos Alunos, aqueles que no Colégio são os três elos da corrente que, ano após ano, transmite os princípios e os valores que o Marechal instituiu nesta Casa. O que o Colégio é hoje - o estabelecimento de ensino vivo que a seguir à Universidade de Coimbra é o mais antigo de Portugal – resulta não só do período da nossa vida que aqui passámos, mas também da continuação das nossas vidas na sociedade. Orgulhamo-nos daqueles que se notabilizaram na vida pública, nas artes, ciência, empresas, etc., mas também daqueles que ninguém conhece e que, no seu dia-a-dia, na família, nos empregos, onde quer que se encontrem, praticam o nosso Código de Honra. Como se explica que ao longo de 206 anos da vida de Portugal, - período em que tantas transformações ocorreram numa sociedade que todos os dias muda a um ritmo alucinante - o espírito e as ideias do Marechal – traduzidas no Código de Honra - se mantenham plenas de actualidade sem o risco de o Colégio como instituição e todos nós Meninos da Luz ficarmos agarrados a um conservadorismo retrógrado?
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Sem esquecer a importante contribuição de todos quantos – militares e civis – servem o Colégio no seu dia-a-dia, e merecem a nossa justa homenagem e agradecimento, a resposta está em vós: Ratas, Graduados e novos Antigos Alunos. A vocês Ratas quero dizer-vos que são a matéria-prima da esperança que todos os anos se renova. Não posso deixar de saudar, aqui, os vossos Pais por vos terem confiado ao Colégio e vos terem dado a oportunidade de, até ao final das vossas vidas, serem Meninos da Luz enriquecendo, deste modo, esta nossa grande família. O vosso “3 de Março” já começou há algum tempo com os treinos para o desfile, e continuou ontem na camarata, no meio de almofadas que voavam de uns para os outros enquanto limpavam os botões da farda, viam se as botas e as Barretinas estavam em ordem, preparavam a farda para a festa, e, finalmente, tentavam adormecer com a ansiedade de saber como seria o dia de hoje e o desfile, amanhã, na Avenida. Foram integrados no Batalhão no 1º de Dezembro, e vão agora vencer o vosso primeiro grande desafio de Meninos da Luz: vão descer a Avenida pela primeira vez, de arma ao ombro, a bater os calcanhares, cabeça levantada,
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alinhando pela direita, com o frio e com o calor da emoção, com chuva ou com sol, com ou sem aquela dor no ombro devido ao peso da espingarda, e debaixo dos Zacatrazes que são a forma que nós - Antigos Alunos - temos de vos dizer que estamos convosco e que passaram a fazer parte da nossa grande comunidade dos Meninos da Luz. Quando chegarem à Igreja de S. Domingos sentirão orgulho em vós próprios e a satisfação de ter vencido: vão ter a sensação de que tudo passou muito rapidamente, vão sentir-se felizes porque venceram este desafio e porque passaram a ser iguais a todo o Batalhão: já desfilaram na Avenida; já fizeram o vosso primeiro 3 de Março. Foram capazes, e garanto-vos que com este mesmo aprumo, com esforço, vontade e determinação, irão ser capazes de continuar a vencer os desafios que terão que enfrentar ao longo das vossas vidas. É isto que se aprende no Colégio Militar: vencer mas sempre respeitando os valores do Marechal - os valores do Código de Honra. Falo agora para os graduados finalistas: para vocês que no último ano de estadia no Colégio têm a responsabilidade acrescida – num enorme exercício de generosidade - de, para além do cumprimento das vossas obrigações escolares, terem que ajudar os mais novos a tornarem-se Homens e em particular integrar cada um dos Ratas na vida do dia-a-dia do Colégio. É o vosso último 3 de Março: vão sentir saudades como eu hoje sinto do meu último 3 de Março, já lá vão umas dezenas de anos. Irão ver a Avenida de uma forma diferente daquela como a viram nos desfiles anteriores. Tal como no vosso dia-a-dia do Colégio, em que é enorme a vossa responsabilidade no acompanhamento dos vossos camaradas mais novos para quem o vosso comportamento, carinho e atenção deverão constituir o verdadeiro exemplo do que é ser Menino da Luz, sentirão ainda mais em cima de vós a preocupação de coordenarem a marcha da vossa Secção, do vosso Pelotão, Companhia ou Batalhão. Verão aqueles que foram vossos graduados e muitos Antigos Alunos a correr ao vosso lado
e a acompanhar-vos, como que dizendo-vos que vos acompanharão ao longo da marcha da vida. Vão estar mais expostos aos olhos de todos os que estiverem na Avenida, como se tratas-se de um treino para a exposição que vão ter ao longo da vida quando forem identificados como Meninos da Luz por usarem uma Barretina na lapela. De facto é esta a última vez que exibem a vossa farda desfilando na cidade, caminhando para o fim da fase da vossa vida em que ela - a farda - vos identifica como Meninos da Luz. Já faltam poucos meses para que isso aconteça! Ao deixarem o Colégio a vossa responsabilidade vai aumentar bastante porque deixarão de ser vistos como adolescentes e como tal tolerados, e passarão a ser Homens que a sociedade, ao detectar a Barretina, terá sempre debaixo de observação, sendo-vos exigido um comportamento público e privado de acordo com os princípios e valores com que o Colégio vos formou. Vocês – finalistas – para o ano estarão na posição daqueles a que agora me vou dirigir. Refiro-me aos novos Antigos Alunos que pela primeira vez correrão Avenida abaixo, depois de saírem do Colégio, e que nunca mais deixarão de ser isso mesmo: Antigos Alunos. Deixo-vos uma palavra muito curta. Os vossos Zacatrazes ao Colégio, ao Batalhão, à vossa Companhia, ao vosso Pelotão e à Escolta vão ouvir-se desde o Marquês até São Domingos e vão ser o estímulo, principalmente para os Ratas para vencerem este seu primeiro desafio; as vossas incitações na Avenida já fazem parte da prática que, como Antigos Alunos, temos obrigação de ter uns para com os outros, simbolizando o apoio aos mais necessitados e dando o exemplo de solidariedade e espírito de união, primeira das nossas preocupações como Antigos Alunos e principal finalidade da nossa Associação. Incito-vos a que se mantenham sempre atentos ao Colégio com o espírito de com ele colaborar contribuindo para a sua missão de formar Homens que pratiquem na sociedade os princípios em que fomos educados. Assumam individualmente a responsabilidade do “Um por Todos” como forma de mereceRevista da AAACM
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rem e contribuírem para que em conjunto pratiquemos o “Todos por Um”. Festejar o 3 de Março é evocar a memória do Marechal assegurando o passar do seu testemunho através desta corrente que anualmente se renova e revitaliza e que é por vós constituída: Ratas, Graduados e Antigos Alunos. Alunos do Colégio Militar! Nós somos sempre confiantes face às dificuldades, e essa confiança transporta o Colégio para o futuro. Ponham esforço, inteligência e confiança na vossa missão: sejam bons alunos e bons atletas. Sorriam para o futuro. O Colégio e Portugal precisam dessa confiança e desse sorriso. Termino pedindo ao Comandante do Batalhão que o primeiro Zacatraz deste 3 de Março seja por Portugal, a Pátria que o Código de Honra nos diz para amar e honrar.” Após o acender da Chama Colegial, já nos Claustros e com a presença de muitos antigos Alunos, de Professores e Servidores do Colégio e de Familiares dos actuais Alunos, foi pres-
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tada continência ao Comandante da Instrução e Doutrina do Exército, Tenente-General João Nuno Jorge Vaz Antunes, que preside às cerimónias. Feita a integração do Estandarte Nacional na Formatura e cantado por todos os presentes o Hino Nacional, foram homenageados os Mortos do Colégio Militar no Átrio do Fundador, com uma oração evocativa e os toques regulamentares. O Director, Major-General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos, proferiu a seguinte alocução:
Exmo Senhor Tenente-General Vaz Antunes, e meu Comandante A presença de V. Exa., nas comemorações do 206º aniversário do Colégio Militar, constitui para todos nós uma honra, pela atenção e relevância que este Estabelecimento Militar de Ensino tem merecido, por parte de V.Exa.; e igualmente pela amizade e carinho demonstrados a esta Instituição, não só por palavras, mas sobretudo por actos, ao longo do período em que tem vindo a conduzir os destinos da Instrução e Doutrina do Exército. Senhores Oficiais Generais Senhores Adidos de Defesa Senhores Presidentes e Representantes dos órgãos sociais da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar, da Associação do Pais e Encarregados de Educação e da Liga dos Amigos do Colégio Militar Estimados Camaradas, Docentes e Funcionários do Colégio Militar Distintos convidados Caros Alunos e ex-Alunos do Colégio Militar A todos vós, a família colegial expressa o seu agradecimento e profunda estima, por se terem associado a este evento festivo, conferindo-lhe assim um especial brilho e dignidade, o que para nós constitui uma alegria e elevado privilégio. A todos, as nossas melhores saudações colegiais. Ao comemorarmos mais um aniversário da fundação do Colégio Militar, o ducentésimo sexto, festejamos o nascimento de uma instituição. Como tal, temos a obrigação relembrar quem a fundou, bem como os pilares fundamentais em que assenta e que são o garante da sua perenidade.
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António Teixeira Rebelo nasceu a 17 de Dezembro de 1750, num pequeno povoado de nome Silhão, a sul de Vila Real, em Trás-os-Montes. Aos catorze anos, assentou praça como soldado, no Regimento de Artilharia de Valença, dando início a uma das mais brilhantes carreiras militares do seu tempo. Desde muito cedo, manifestou vocação para os estudos e, já como sargento, veio para a Academia Real de Marinha, para frequentar as aulas de Matemática, Fortificação, Táctica de Artilharia e Desenho. Após se ter distinguido pela sua coragem e capacidade de liderança, na campanha do Roussilhão, a 13 de Maio de 1802, com cinquenta e dois anos, foi nomeado para comandar, no quartel da Feitoria, um regimento de artilharia do Forte de S. Julião da Barra, em Oeiras. Nesse local, estabeleceu, em 1803, o “Colégio de Educação do Regimento de Artilharia da Corte”, destinado aos filhos dos militares do regimento. Para a sua concretização, oficiais e sargentos da unidade, num elevado espírito de missão, tomaram a seu cargo as funções docentes, sem que, para tal, recebessem qualquer remuneração suplementar. A visão pedagógica e educativa do seu fundador e o entusiasmo de todos os que se entregaram a esta tarefa, de forma voluntária, levaram à consagração pública da excelência do trabalho realizado e que se materializou, através da portaria de 24 de Abril de 1813, que conferiu ao Colégio existência legal, com a designação de “Real Colégio Militar”. Após a reconstrução do antigo hospital de Nossa Senhora dos Prazeres, destruído pelo terramoto de 1755, desde 07 de Janeiro de 1814, que o Colégio se encontra nas actuais instalações, com breves passagens por Rilhafoles e pelo Convento de Mafra, entre 1835 e 1859. O reconhecimento institucional dos altos serviços prestados à Nação viria a traduzir-se em 1888, na atribuição do direito ao uso de Estandarte Nacional. Embora o Marechal Teixeira Rebelo seja conhecido pela maioria, essencialmente por ter fundado o Colégio, este insigne português destacou-se não só nas campanhas militares em que participou, mas também pelos trabalhos realizados no âmbito da melhoria das fortificações fronteiriças, no reedificar de fortes
marítimos, na reorganização de serviços, na escrita e publicação de regulamentos militares e na criação e instrução da artilharia montada, factos que o levaram a ser escolhido para patrono dos cursos de entrada na Academia Militar, em 2007. Contudo, de todas as obras realizadas pelo Marechal Teixeira Rebelo, o Colégio Militar é aquela que, ainda hoje, em pleno Século XXI, permanece como um valor educativo e cultural; e, além disso, através da sua longevidade e qualidade, se constitui numa Instituição de referência, no panorama do ensino e da educação nacionais. Somos uma referência, porque temos uma especificidade que reside na missão imposta ao Colégio Militar: a de ministrar aos alunos uma sólida educação moral, intelectual, cultural e física, de cariz militar. Deste modo, todas as mudanças, reformas e regulamentos, a que a evolução do ensino e da sociedade obrigarem, devem continuar a ser orientados, no sentido de criar e desenvolver, nos nossos alunos, as qualidades inerentes e indispensáveis a uma cidadania responsável e exemplar. Esta formação para a cidadania foi saldada com o sacrifício supremo de quarenta e nove ex-alunos que da lei da morte se libertaram. A partir de hoje, poderemos honrar, de forma condigna, estes Heróis que ficam inscritos no memorial agora existente no átrio principal do “seu” Colégio. Recordo o primeiro ex-aluno que tombou no campo da honra, o Alferes Luís das Neves Franco, a 27 de Setembro de 1810, na Batalha do Buçaco. Durante as Guerras Peninsulares, faleceram em combate cinco ex-alunos; nas Guerras Liberais, seis; nas Campanhas de Pacificação de África, outros seis; na Primeira Guerra Mundial, onze; na Guerra Civil de Espanha, dois; e por último, nas Campanhas Ultramarinas, dezanove. Se a História de Portugal é obra de soldados, também aqui o Colégio diz presente e a estes Heróis todos devemos o nosso respeito e a nossa homenagem, neste dia festivo. “Como estabelecimento de educação por excelência, o Colégio Militar carece de ser servido por docentes e funcionários que sejam verdadeiramente educadores. A todos é indispensável o perfeito conhecimento, o pleno sentido Revista da AAACM
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das grandes exigências das suas funções, para, simultaneamente, serem susceptíveis de observar e de exercer na mais ampla acepção da palavra a acção educativa. Mas, além de estabelecimento de educação, o Colégio Militar é também um estabelecimento de ensino. Deverá igualmente constituir preocupação dominante do Colégio formar o carácter dos alunos, cultivar-lhes o sentimento patriótico e iniciá-los na prática das virtudes e deveres militares. O gosto pela disciplina e a criação do espírito de decisão, lealdade e responsabilidade, de obediência e de sacrifício constituirão cuidado especial dos educadores”. Acabei de vos ler excertos do preâmbulo dos Estatutos do Colégio Militar, de 08 de Novembro de 1944, assinados por S. Exa. o Presidente da República, Marechal António Óscar Carmona, ex-aluno 24 de 1882. O seu conteúdo não só continua actual e válido, como aponta, com clareza, a essência e os pilares em que, ainda hoje, assenta o Colégio Militar. Pela sua leitura, reconhecemos os três pilares fundamentais da Instituição: os docentes, os funcionários e os alunos. Em conjunto, constituem-se em comunidade e, como tal, devem assumir-se como educadores, a todos os níveis hierárquicos e nas várias funções. Se aceitarmos que o conceito de comunidade colegial ainda hoje é verdadeiro e válido, então os seus membros estão obrigados a observar e a exercer, no dia-a-dia e na mais ampla acepção da palavra, a acção educativa, em que a obrigação de educar implica necessariamente o dever de corrigir.
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Em dia de aniversário, apraz-me dar os parabéns aos três pilares da cultura colegial, docentes, funcionários e alunos, que, ano após ano, geração após geração, têm sabido adaptar-se às mudanças da sociedade e preservar os alicerces essenciais contidos no Código de Honra do pequeno “Colégio de Educação do Regimento de Artilharia da Corte”, fundado na Feitoria, em 1803. Faço votos de que estes três pilares saibam manter intacto o essencial de uma cultura que se tem pautado pelo rigor, exigência, camaradagem, disciplina e amor a Portugal. O Colégio tem um passado assumido do qual nos orgulhamos, mas o futuro será sempre definido pelos seus mais directos servidores: docentes, funcionários e alunos. A dignidade, o aprumo e a correcção, com que hoje, como há dois séculos, o Batalhão Colegial se perfila no centro dos claustros, são o sinal exterior do currículo oculto que distingue este Colégio de outra qualquer escola pública ou privada, e que só tem paralelo com os colégios irmãos: o Instituto de Odivelas e o Instituto Militar dos Pupilos do Exército, a quem endereço uma saudação especial. De parabéns está igualmente o Exército, por acolher no seu seio estes Estabelecimentos Militares de Ensino que são potenciadores de prestígio da Instituição Militar, por serem pólos de excelência que transmitem para a sociedade a mais-valia da condição militar e as vantagens da aplicação prática das virtudes militares, no que respeita à educação e formação de jovens do ensino básico e secundário.
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Termino, partilhando convosco uma afirmação do Marechal Teixeira Rebelo, relativamente ao Colégio, que deixarei à vossa reflexão: “Nas empresas desta natureza é necessário ter por máxima: fazer as coisas completamente ou não as empreender”. A todos, as maiores felicidades; ao Colégio, um feliz aniversário que se repita por muitos e bons anos. Seguiu-se a imposição de condecorações e a entrega de prémios. Foram condecorados com a Medalha de Serviços Distintos (grau Prata) o Coronel de Cavalaria Ricardo Bettencourt Sardinha Portela Ribeiro (556/1970), com a Medalha D. Afonso Henriques de 3ª classe a Professora Olívia Maria Martins Paiva, de 4ª classe Paulo Alexandre Laranjeiro Narciso, Maria Teresa Araújo e Virgílio Alves Correia, com a Medalha de Comportamento Exemplar (grau cobre) o 2º Sargento António Aires Lopes, o Cabo Adjunto Pedro Manuel Gomes dos Santos Rodrigues e o Soldado Ruben António Duarte, tendo sido entregue a Placa de Passagem à Reserva ao Sargento-Mor de Artilharia Carlos Alberto Valente Almeida Ferreira. Os Prémios instituídos pelo Comando de Instrução e Doutrina do Exército e pelo Colégio Militar foram entregues aos Alunos 211 André Abreu (Prémio “Educação Física”), 122 Marco Romero (Prémio “Esgrima”), 396 Miguel Pereira (Prémio “Equitação”) e 91 João Lobato (Prémio “Instrução Militar”). O Batalhão Colegial desfilou em continência ao Marechal Teixeira Rebello e às Entidades pre-
sentes, marchando pela Estrada da Luz desde os Claustros até à Parada do Corpo de Alunos. No Domingo, mantendo a tradição de muitas décadas, o Batalhão e a Escolta a Cavalo desfilaram pela Avenida da Liberdade, com o garbo e a determinação que os caracteriza, sendo vivamente saudados pela população e pelos antigos Alunos que bradaram continuamente o Zacatraz, dando força e ânimo aos seus Camaradas mais novos. Junto do Monumento aos Mortos da I Grande Guerra, onde se encontravam o General Chefe do Estado-Maior do Exército, General Pinto Ramalho, Comandante da Instrução e Doutrina do Exército, Tenente-General João Nuno Jorge Vaz Antunes, o Director do Colégio Major-General Raul Jorge Laginha Gonçalves Passos, diversos Oficiais e muito antigos Alunos foi prestada continência. Seguiu-se a Missa na Igreja de São Domingos concelebrada pelo Capelão do Colégio e pelo Padre Braula Reis, finda a qual o Batalhão levantou as armas recolhidas no Palácio da Independência e regressou ao Colégio. Ao fim da tarde, no Auditório do Colégio foi assinado um Protocolo entre o Colégio Militar e a AAACM, seguindo-se o lançamento do livro “O Colégio Militar na Toponímia Portuguesa”, da autoria do José Alberto da Costa Matos (96/1950). O tradicional jantar de caldo verde, “amarelo” e arroz doce, no Refeitório dos Alunos, originou o habitual e são convívio que tem permitido o encontro de Camaradas que muitas das vezes não se viam há longos anos. Às zero horas foi apagada a Chama Colegial. Mário Silva Falcão 314/1936 Gonçalo Salema Leal de Matos 371/1949
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Récita Anual do 7º Ano 2008/2009
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Na semana de 12 a 16 de Fevereiro teve lugar mais uma apresentação da Récita, pelos alunos do 7ºano do Colégio. Um momento que deixa sempre profundas marcas e recordações em quem tem a oportunidade de o preparar e sempre aguardado com alguma expectativa pela família colegial.
também com alguns momentos que foram diferentes do que tem sido apresentado, em particular na última peça encenada, na qual conseguiram fugir ao mote dos espíritos do marechal e/ou dos patronos em diálogos com alunos ou em monólogos, o que acabou por ser interessante.
Tive oportunidade de assistir à Récita no dia 15, juntamente com as 3ª e 4ª companhias bem como um grupo bastante significativo de antigos Alunos, saídos todos eles nos últimos cinco anos. Era, portanto, um público difícil e, muito provavelmente, o que mais crítico relativamente ao material apresentado.
A segunda parte foi mais equilibrada que a primeira, alternando em momentos mais cómicos com momentos mais sérios, o que não aconteceu tanto na primeira. No entanto, cada vez mais se torna notório o como algumas tiradas ou piadas nos passam ao lado, quer seja pelo desconhecimento das personagens visadas quer pelas situações particulares.
O arranque foi algo atribulado, com uma série de problemas técnicos a motivar um atraso no início mas que acabou por ser resolvido. A Récita deste ano contou com alguns momentos que vêm sendo habituais, como a desgarrada e a actuação de uma banda mas
Espero, acima de tudo, que da Récita resultem boas memórias para quem a preparou e que também se possam dela tirar elações para corrigir o que possa estar mal ou menos bem no sentido de melhor o nosso Colégio. João Carlos Agostinho Alves 110/1996
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A Récita dos Semi-Finalistas é uma montra importante das ideias e convicções de um Curso, mas não é definidora nem definitiva. Tenho para mim que são um bom curso, com boas ideias e com bons perfis para assumirem funções no próximo ano. A Récita 2009 deixou muito a desejar face às expectativas normais
de uma audiência constituída por ex-alunos. Porém, importa extrair o que de positivo foi feito e foi dito, e acreditar que com menos peripécias o espectáculo apresentado teria tido outro impacto junto da malta. Mesmo as falhas de fundo não podem atingir a confiança e o crédito que o vosso Curso nos merece. Boa Sorte! Ricardo Neto Galvão 347/1997
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Menino da Luz, a Equitação e os Valores… “Escola preparar para montar!”… “Escola a cavalo!” Começavam assim as tão saudosas (para alguns) aulas de equitação no Colégio Militar.
vida de cada um, seja com animais ou material. Encaro-o transversal a todo o jovem que passou por esta Casa.
Como é do conhecimento de todos a Equitação faz parte da formação geral de todo o Menino da Luz. Actualmente tem lugar, como unidade curricular, nos 2º e 3º ano do Colégio (6º e 7º anos de escolaridade). Numa primeira fase o conhecimento do cavalo, as regras elementares de segurança, a limpeza e tratamento do cavalo e o volteio com manta e com sela (2ºano) e numa segunda fase (já no 3ºano) a condução do cavalo nos três andamentos: passo trote e galope – e por fim a transposição de alguns obstáculos (cavaletes).
Relativamente aos valores… considero que muitas qualidades pessoais são postas à prova e melhoradas ao longo destas aulas.
Mas qual a sua relevância? No meu entender de extrema relevância! Passo, em seguida, a apresentar alguns dos argumentos, que acredito que tornam tal modalidade essencial para todo o Menino da Luz.
Para além do desenvolvimento das capacidades psicológicas e físicas dos alunos destaco ainda o “sentimento de justiça” no castigo e na recompensa quer pelo bem quer pelo mal executado; a “capacidade de decisão” e o “desembaraço” ou “capacidade de resistência” em enfrentar o obstáculo, seja ele com ou sem estribos, com ou sem nó nas rédeas. A “força de vontade” e a “auto-confiança” testadas e melhoradas após cada queda. Esta também ela grande lição, não por si própria mas pela capacidade de se levantar “resistir à fadiga”, subsistir aos medos enfrentando as dificuldades e voltando a montar.
A Equitação visa pois o enaltecimento dos valores incutidos no Colégio bem como a aquisição das virtudes e princípios relevantes para a formação pessoal de cada um de nós.
Os próprios momentos de boa disposição após as aulas, no recordar dos momentos mais caricatos destas sempre foi um motivo de gargalhada mas ao mesmo tempo de conforto e de incentivo àqueles a quem a aula correu menos bem para que no dia seguinte nem sequer hesitarem em calçar o estribo e montar. Também aqui se fortalecia o “ espírito de camaradagem” e a “amizade”, vivos dentro daqueles muros, perpetuados para o resto da vida.
Começando pelo respeito do cavalo enquanto animal tal como o cuidado pelo seu bem-estar. Todo o Menino da Luz aprendeu (e já mais esquecerá) a prioridade do tratamento do cavalo, do material e só mais tarde e por último do cavaleiro. Este princípio aplica-se nas aulas de equitação mas todos reconhecem indubitavelmente a sua análoga aplicabilidade em outros sectores das diferentes actividades na
Assim sendo, e pelos motivos supra referidos considero a Equitação no Colégio Militar como um enorme mais-valia que deve ser preservada e se possível aprofundada na educação e formação dos Meninos da Luz, na consolidação dos princípios e valores e na manutenção de um espírito aberto, vigoroso e humano ao longo da vida, em qualquer lugar, em qualquer situação.
Quem não se lembra de um qualquer camarada do seu curso (no meio de tantos outros…) que tremia logo pela alvorada apenas pelo simples facto de ter equitação ao último tempo escolar da manha? Pois bem…os medos!
Ilídio José Martins Sarmento Barreiros 249/1996
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Está de novo à disposição da Família Colegial o restaurante da Associação, agora com o nome de “Jardim da Luz” e concessionado a profissionais do ramo, os proprietários do conhecido restaurante “Gravatas” que tinha sido adopta-
do ultimamente pelos Antigos Alunos para as suas programadas reuniões de curso. O “Jardim da Luz”encontra-se aberto todos os dias com excepção da Segunda-Feira. Reservas pelo telefone 21 715 60 87. Revista da AAACM
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©Foto: José Pinto Soares
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Paixão pela Vela CAPE TOWN – ILHA DE STA HELENA – SALVADOR DA BAIA – GUIANA FRANCESA – TRINIDAD – TOBAGO
6.313 MILHAS — 32 DIAS E 12 HORAS Resolvi escrever este artigo para a nossa Revista com o título “PAIXÃO PELA VELA” por três razões: 1.º Porque a nossa Revista vive da colaboração virtual de todos e real de alguns; 2.º Porque julgo que o tema viagens à vela poderia interessar a um razoável número de leitores, uns serão velejadores, outros ligados ao mar e os restantes, vamos ver…. 3.º Porque gostaria de deixar duas mensagens: Uma para os mais novos e outra para os mais velhos como eu, que sou o 147/1948 - Para os mais novos, que agarrem as boas oportunidades que a vida lhes proporciona, ela é rápida, amanhã será tarde! - Para os mais velhos, que não calcem as pantufas - ainda é cedo, há muitas coisas simples e agradáveis para fazer e para ver, amanhã será tarde! Quando alguém me diz, “Rui, já estás velho para te meteres nessas aventuras”, eu respondo como o Padre António Vieira disse a alguém - “Nasci num pequeno país, mas tenho o mundo inteiro para morrer”…. CAPE TOWN — SANTA HELENA A descrição desta viagem será feita ao correr da pena, ao jeito de um barco à vela a deslizar com vento por través e mar chão. A sua apresentação foi possível graças aos apontamentos que recolhi, de pareceres que ouvi, de conversas e opiniões que registei de muita gente anónima, na sua maioria simples de rua, na rua, mas todas elas cheias de sabedoria, de experiência e de uma enorme riqueza humana. Foram eles o polícia, a baiana que vendia acarajé, o tocador de berimbau que ritmava 36
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O Sea Rose Star
um grupo de capoeira e muitos mais, passando por alguns velejadores que como nós gostam do mar. Foi toda esta gente que se cruzou na minha rota, por terras e mares do Atlântico Sul, que encheram de vida o conteúdo das linhas que vos apresento. Normalmente há sonhos que se tornam realidade, mas esta viagem foi a realidade que se tornou num sonho!!!. Uma viagem fantástica, tanto no mar como em terra. Tudo correu bem, o que não é fácil, numa viagem de 6.313 milhas, cinquenta e cinco dias de barco, dos quais trinta e dois foram de mar, num iate à vela, com cinco pessoas a bordo, em que três me eram completamente desconhecidas. O espaço real e virtual que cada um ocupa num barco é precioso e tem que ser gerido com muita educação, prudência e bom senso. O proprietário é alemão, o Gustav Stabernack, o Matthew e a Catherine, um casal de australianos, que
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fazem parte da tripulação fixa do barco. O Gustav Stabernack é um homem excepcional, de quem me tornei grande amigo e que apesar do seu alto nível de vida, comprou um barco não somente para ter, mas para velejar e gozar as delícias que o mar lhe pode proporcionar, fazendo-se acompanhar dos seus convidados e amigos, realizando ao mesmo tempo um dos sonhos da sua vida: dar a volta ao mundo. Num ser humano não há pequenos nadas, tudo define uma pessoa. O Gustav teve a fineza de, no mastro das bandeiras de cortesia, para além da alemã e da australiana, içar também a bandeira portuguesa, como se pode ver numa das fotografias do barco. A oportunidade surgiu porque faltava um elemento para completar a tripulação deste maravilhoso veleiro de 90 pés, o Yongert 27 metros, de nome “Sea Rose Star”. O meu amigo Henrique Martins, também homem do mar e senhor de um óptimo veleiro de 45 pés, conhecendo o dono do barco, indicou-me para fazer parte desta tripulação. Com a experiência de três travessias do Atlântico Norte e de outras, por outros mares, fui convidado para esta viagem. Uma viagem bem diferente das anteriores, pela simples razão de que se trata de um barco com o dobro do tamanho dos que habitualmente costumo velejar. Para aqueles que estão familiarizados com estas coisas da vela, a diferença é enorme. Tudo é grande e proporcional aos 90 pés. Com um mastro de 37 m, uma retranca de 15, passando pelos molinetes, escotas e cabos de amarração; uma mesa de navegação a estibordo com tudo do mais moderno e outra mesa, a bombordo, só para transmissões, computadores, fax, emails, previsão de tempo e telefone, nada faltava. O Gustav Stabernack recebia todos os dias o jornal de Frankfurt que era impresso no barco. Normalmente sou o cozinheiro de bordo, mas neste caso preparei somente um bacalhau no forno, à boa maneira portuguesa, numa magnífica cozinha que fazia inveja a muitas donas de casa. Todas as outras refeições eram preparadas pela mulher do skipper, que para além de grande cozinheira é uma óptima marinheira. Fazendo equipa com o marido completam uma tripulação fixa de grande profissionalis-
mo. Só assim se pode realizar uma volta ao mundo com conforto, segurança, cumprindo sem grandes desvios o calendário previsto no projecto inicial da viagem. Claro que isto não é possível para a grande maioria dos velejadores portugueses que conheço! …. é velejar numa outra “galáxia”.
Cidade do Cabo vista da Montanha da Mesa
Esta viagem começou na cidade do Cabo, na África do Sul, cidade que já tinha tido o prazer de visitar em 1965 e 1972. Possivelmente não será o espelho das outras cidades do país, pois trata-se de um terra muito agradável, limpa e com uma grande organização. Foram mais uma vez os portugueses os primeiros a chegar e descobrir a baía de “Table Bay”, porto de abrigo a Bartolomeu Dias, em 1436, e posteriormente às naus de Vasco da Gama, em 1497, assim como a tantos outros capitães que seguiram a rota da Índia. Não só os portugueses mas também os holandeses e ingleses fizeram deste local paragem obrigatória das suas frotas. Hoje, esta mesma baía abriga a cidade do Cabo, uma das mais bonitas cidades de África. A marina onde estava amarrado o “Sea Rose Star” fica situada dentro do antigo porto comercial que foi desactivado e as suas instalações recuperadas e transformadas em grandes centros comerciais, restaurantes, bares e esplanadas. O resultado deste arranjo urbanístico foi muito bem concebido e conseguido, transformando-o num local de grande atracção turística. Como os edifícios são construídos com base em estruturas de ferro, os centros comerciais, fizeram-me lembrar o nosso centro comercial Vasco da Gama. Revista da AAACM
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O ex-líbris da cidade do Cabo é a Montanha da Mesa, sendo imprescindível uma visita a este indescritível local, tendo como meio de transporte o famoso teleférico. É uma viagem que causa calafrios, não só pela altura, mas pelo seu traçado, que se desenvolve quase na vertical. Esta montanha com 1087 metros é um verdadeiro miradouro gigantesco, tendo a seus pés, ora a cidade do Cabo ora o Oceano Atlântico, com a sua enorme “False Bay”, terminando no Cabo das Agulhas, onde geograficamente se dá a junção dos dois oceanos – o Atlântico e o Índico. Como a estadia se prolongou por uma semana, tivemos tempo e o prazer de nos deslocarmos ao famoso e não menos mítico Cabo da Boa Esperança. É motivo de grande atracção, não só pela carga histórica que este local representa para Nós e para o Mundo, mas também pela admiração e respeito que devemos ter por todos esses HOMENS, que navegando “por mares dantes nunca navegados” tiveram a coragem, de entre perigos e dificuldades de toda a ordem, partirem em nome de El-Rei de Portugal, para a grande epopeia dos descobrimentos. A presença dos portugueses está aqui bem marcada por dois grandes padrões, um assinalando a passagem deste cabo, pela primeira vez, pelo navegador Bartolomeu Dias e um segundo padrão, quando da viagem de Vasco da Gama para a Índia.
Cidade do Cabo com a Montanha
Com grande surpresa nossa, o motorista que nos acompanhou neste passeio, enalteceu o feito dos portugueses e disse que nós certamente nos sentíamos orgulhosos e felizes por pertencermos a uma raça de gente a quem o mundo tanto deve. É bonito ouvir de um es38
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trangeiro e a milhas de distância do nosso país que há gente conhecedora da nossa história e que reconhece os nossos feitos. Por estranho que pareça, este sentimento muitas vezes não é partilhado, valorizado nem divulgado pela maioria dos próprios portugueses. Parece que perante todos os feitos de antanho e mesmo dos recentes, temos e mostramos uma atitude de estranha vergonha. Complexos de quê? Francamente não sei classificar este sentimento! A visita à cidade do Cabo chegava ao fim. Ficou na nossa memória a melhor das impressões de uma cidade moderna, cosmopolita, bonita, com a sua gente simpática, educada e multiracial. Não se pode esquecer a gastronomia de qualidade e os seus deliciosos vinhos. Terminados os preparativos, largámos do cais, no dia 11/01/2008, pelas 17 horas, mantendo o rumo, segundo a posição das bóias de navegação. Por fim um olhar de despedida ao velho porto comercial, ao casario e por último a Montanha da Mesa a recortar a linha do horizonte, como que a dar-nos o seu derradeiro adeus. Depois de marcados os primeiros pontos “W.P.” no GPS, com o canal já na nossa popa, rumo da agulha a 333º, velejávamos com vento fresco a 8.5 nós. Apesar de ser Verão, por estas paragens as noites são frescas, pois a corrente fria de Benguela tem grande influência no clima ao longo da costa ocidental da África, pelo menos até à latitude de Angola. Tive que me familiarizar com os sistemas de navegação, controlo e alarmes. O sistema AIS (sistema de identificação automático) foi para mim uma novidade em veleiros, pois sabia ser obrigatório para barcos comerciais. É mais um dispositivo de segurança que localiza com grande antecedência a aproximação dos navios que nos rodeiam, informando o seu nome, rota, velocidade, distância, destino, comprimento e largura, rumos de colisão, tudo isto com uma antecipação de cerca de quarenta milhas. Estas informações e a posição dos navios são visíveis no monitor em “on-line” com a cartografia digital. Depois de três dias de viagem tirámos o primeiro peixe, um pequeno dourado mas cuja carne é deliciosa. A pescaria é sempre um
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momento de festa, porque para além de quebrar as tarefas normais da rotina de bordo é motivo para preparar uma boa refeição, com peixe verdadeiramente fresco, acompanhado por um bom vinho branco seco da garrafeira do “Sea Rose Star” e vindo da região vinícola do Cabo, zona cujos vinhos rivalizam com os melhores de todo o mundo. Estávamos no oitavo dia de viagem e fotografei o GPS com lat. S 20º 08´ e long. 0º 00´, cruzávamos o meridiano de Greenwich.
Taxi em Santa Helena
Como navegávamos para ocidente, sempre que passávamos o meio de um fuso horário, atrasávamos uma hora, mantendo assim a hora solar, dentro dos padrões habituais. No dia 21.01.2008, segunda-feira, chegámos à Ilha de Santa Helena, depois de ter navegado 1834 milhas em 9 dias e 12 horas. É uma ilha de origem vulcânica, no Atlântico Sul, no mesmo paralelo do Sul de Angola e aproximadamente a um terço de distância entre o continente africano e o sul-americano (lat: S 15º 52´1; long: W 5º 43´.1). Esta ilha tem o seu nome ligado novamente aos feitos dos portugueses, tendo sido descoberta pelo Almirante João da Nova, em 1502, no dia de Sta Helena, quando regressava da Índia. Como se pode ver pelas suas coordenadas, está geograficamente situada na zona tropical Sul, local de ventos alísios, que neste hemisfério sopram de SE para NW, factor principal que levou as caravelas de Portugal a encontrar este paraíso perdido no mar. A capital é Jamestown e fica situada à beira mar, num profundo vale. Como não tem porto fomos numa lancha para terra, tendo o bar-
co ficado fundeado ao largo. Desembarcámos num pequeno cais onde encostam apenas os batelões que transportam a carga do ”Santa Helena”, navio que uma vez por semana, chega de Cape Town com passageiros e carga geral, garantindo assim a sobrevivência da população que ronda as 5 500 pessoas. Não fugi à verdade, quando disse que era uma ilha perdida no oceano, pois apesar de vivermos no século XXI, o isolamento desta terra é aflitivo. Não tem aeroporto, porto de mar, telemóveis e o único meio de entrada e saída é o mar. Encontrámos alguns barcos à vela, que como nós, seguiam para o Brasil. Chegámos precisamente no mesmo dia que o “Santa Helena”, sendo o movimento da cidade maior que nos restantes dias da semana. A terra mais próxima é também uma ilha, Assunção, e está a 700 milhas a NW, lat: S12º; long: W 15º. Independentemente de tudo o que lhes falta e que para nós é hoje indispensável, aquela gente é alegre, simpática e delicada, sempre pronta a ajudar quem quer que a visite. A capital e resto da ilha têm um cunho fortemente britânico, com uma população de origem africana e outra branca, sendo um território dependente da Inglaterra desde 1834. Entrámos pelas portas da cidade, com as suas belas armas e a bandeira do Reino Unido içada no mastro principal, desembocando num grande largo, tendo à esquerda o castelo de S. John e à direita a célebre escadaria de Jacob´s.
Santa Helena - Escadaria de Jacob
É uma ilha muito acidentada, com um clima e uma vegetação tropical, estando desde sempre ligada às rotas dos navios que antigamente rumavam ao oriente e do oriente. Aqui encontravam água, frescos e outros produtos Revista da AAACM
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necessários para prosseguirem as suas viagens. Muitas vezes era o porto onde deixavam os navegadores que se encontravam doentes que, depois de restabelecidos, embarcavam novamente para os seus locais de destino. Depois das formalidades oficiais, demos uma volta à ilha no táxi disponível, que é um Ford dos anos 40, descapotável, um verdadeiro susto, pois além de ser antigo é velho. A ilha é bonita, bastante verde, com vales profundos e picos agrestes. Quiseram-na comparar aos Açores! Nem pensar, os Açores são as ilhas mais bonitas que conheço e já não são poucas. A casa onde viveu e morreu Napoleão é um ponto de visita obrigatório. É um local composto por uma casa bem restaurada e uma cerca envolvente, onde flutua a bandeira francesa. Este recanto foi oferecido pelo governo inglês à França. Outro ponto obrigatório é a visita à zona superior da grande escadaria que se desenvolve na encosta sul da cidade, a “Escadaria de Jacob´s”. São 699 degraus com uma inclinação incrível e que fica na mira de qualquer turista. Se por um lado subir se adivinha ser terrivelmente cansativo, descer torna-se medonho. Para não fugir ao ditado, resolvi descer: não foi dramático mas não foi fácil... Terminados os preparativos, partimos a 22 de Janeiro. O mais difícil foi reabastecer de gasóleo. Para meter mil e duzentos litros, foram necessárias três viagens numa lancha que transportava de cada vez dois bidões de duzentos litros, sendo a trasfega feita com uma bomba manual! É outro Mundo. SANTA HELENA — SALVADOR DA BAÍA Iniciámos a viagem com um rumo de 207º, vento fraco de terra e mar de pequena vaga. À vela e a motor fazíamos médias de 8.5 nós, sendo a previsão de chegada a Salvador da Baía na Sexta-feira de Carnaval. Depois de dez dias de paz que um barco à vela deste tipo nos proporciona, seria passar repentinamente para a loucura total. Esperámos para ver, Salvador tem fama do seu Carnaval. Os dias foram passando e hoje domingo, a Katy preparou um pequeno-almoço com ovos 40
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e bacon, regado com cerveja. Lembrei-me dos pequenos-almoços em Angola, quando saía cedo de Luanda e chegava ao Muquitiche cheio de fome. Na loja do Sr. Joaquim pedia um “mata-bicho para trezentos quilómetros”. Provavelmente hoje, nem Muquitiche, nem Joaquim, nem mata-bicho! Já sentíamos a aproximação do equador com temperaturas do ar de 32º e da água 28. Estávamos a navegar só à vela, com vento por través de 15 nós e um rumo 275º. Uma maravilha, não só pelo silêncio, pela paz interior e exterior que se gera, mas também pelo comportamento do barco.
Casa de Napoleão em Santa Helena
Faltavam menos de 50 milhas e já nos cheirava a terra. As aves começaram a aparecer, a navegação comercial e alguma pesca do alto cruzava com frequência a nossa rota. Os quartos eram feitos com atenção redobrada, porque apesar dos nossos 27 metros de barco, somos sempre pequenos, comparados com os petroleiros e porta-contentores. Os instrumentos de navegação são de grande utilidade, mas há que contar com a frota pesqueira de pequenas embarcações e dos barcos à vela que não são detectados pelo radar e que de noite nem sempre navegam com luzes de navegação. Esta situação piora consideravelmente quando chove e a visibilidade diminui. Nestas zonas tropicais e equatoriais é frequente o aparecimento de espessas cortinas de nuvens, acompanhadas de chuvas torrenciais que impressionam o radar com um sinal muito significativo, dificultando a interpretação dos elementos principais, particularmente quando estamos a navegar com costa à vista.
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Foi precisamente esta situação que encontrámos na aproximação ao Brasil, onde em 1500 o nosso navegador Pedro Alvares Cabral chegou pela primeira vez, tendo lhe dado o nome de Terras de Vera Cruz.
314/1936, do Gonçalo Salema Leal de Matos, 371/1949, do António Vital Faia, 71/1951, do Vitor Manuel Oliveira Santos, 365/1949, do Tito Lívio Xavier, 335/1947, do José Corrêa Monteiro, 184/1952.
Estou a recordar-me, de quando em 2000, uma frota de cerca de quarenta veleiros largaram de Lisboa para o Rio de Janeiro passando por Canárias, Cabo Verde, Salvador, Cabrália, e Porto Seguro, ponto alto das comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil. Para além de um grande cruzeiro foi uma festa constante, não só nos barcos mas também nos locais por onde a frota passava. O nosso navio escola Sagres fazia as honras da casa, sendo um verdadeiro embaixador de Portugal, não esquecendo a caravela Boa Esperança que nos acompanhou e fez as delícias e a admiração dos milhares de pessoas que a visitavam. Os dois Presidentes das Repúblicas do Brasil e de Portugal presidiram à largada no Tejo e à chegada dos barcos ao Rio de Janeiro, num verdadeiro desfile náutico. Nesta viagem fiz parte da tripulação do “Oceanos”. Alguns Antigos Alunos tomaram parte nesta travessia. Estou a lembrar-me do Luís Maria Pedroso Adão, 164/1960, Luís Sacadura, 283/1961, Carlos Cyrne 124/1963, João Baracho, 545/1964 e o Fernando Neto de Almeida d´Eça, 499/1959.
Este pequeno apontamento, à margem desta viagem no Atlântico Sul, teve como intenção reforçar a ideia de que o Colégio Militar está presente em toda a parte.
Nem Pedro Alvares Cabral em 1500, nem D. Pedro em 1822, quando proclamou a independência do Brasil, poderiam pensar que estaria ali a nascer a maior nação da América Latina, com uma população com mais de 140 milhões de habitantes, o quinto maior país em extensão territorial e a maior comunidade católica do mundo.
Apesar do Brasil ser uma terra enorme faz parte do mundo e o “ mundo é pequeno “. Vim encontrar com grande espanto meu, precisamente em Salvador da Baía, um grupo de Antigos Alunos que acompanhados do então director, o Brigadeiro José António Deus Alves faziam uma visita ao Colégio Militar Brasileiro. Lembro-me do Mário Margarido Silva Falcão,
Salvador da Baía
Finalmente o vento chegou, vinte e cinco nós a entrar fresco pela amura de estibordo, passando para um través à entrada da Baía de Todos os Santos. Foi assim que o navegador Américo Vespúcio, por ter chegado a esta baía no dia um de Novembro, lhe chamou, depois de se ter perdido da restante armada. A aproximação a Salvador foi feita com o máximo cuidado, porque uma chuva forte se abateu sobre nós e a visibilidade era fraca. Apesar de navegarmos com costa à vista, a atenção recaía também nos instrumentos da navegação, GPS, Radar e AIS. O sol descobriu um pouco e o Farol da Barra apareceu majestoso, pela amura de estibordo, parecendo dar-nos as boas vindas. Apesar da língua oficial a bordo ser o inglês o Gustav gostava de aprender português e falar francês, o que tornava divertido todos os diálogos. Iniciámos os contactos com a Marina Baía, em inglês, mas rapidamente passámos a operar em português, língua que os brasileiros conhecem há mais de 500 anos. Com marcação na marina para o cais B, apreciávamos o casario de uma grande cidade construída e debruçada para o mar. Passávamos a marina do Clube Naval, Revista da AAACM
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avistávamos já a fortaleza junto à antiga marina, o Mercado Modelo e o elevador Lacerda. Tínhamos a entrada da marina no enfiamento e a atracação foi impecável num cais de topo. O “Sea Rose Star” é um barco de governo fácil, apesar do seu tamanho, pois tem duas preciosas hélices auxiliares de manobra, à proa e à popa, os “thrusters” respectivamente: o “bow thrusters” e o “stern thrusters” Chegámos precisamente na sexta-feira de Carnaval como estava previsto. Os preparativos estavam terminados e tudo a postos para arrancar para a grande folia. Salvador é toda Carnaval! O problema das formalidades para conseguir o visto de entrada, é coisa do outro mundo ou seja, só deste mundo!!!!!. Como a marina não tem um departamento que reúna todas as entidades envolvidas para o despacho dos visitantes, é necessário que as pessoas se desloquem a cada serviço governamental para obter o desejado carimbo de entrada. Foi preciso um dia e meio para dar a volta completa Policia Marítima, Polícia Federal e Alfândega -. Era Carnaval e para dificultar ainda mais as coisas, entraram no porto sete “Barcos do Amor” carregados com milhares de turistas para despachar. Não chegaram todos os funcionários de Salvador nem os malditos carimbos. Valeu ser português e viver em Portugal. Não encontrámos nenhum agente que não tivesse um familiar em Portugal, nesta terra, naquela ”e você conhece mesmo”? Nota-se, por toda a parte, um grande sentimento que liga os brasileiros às suas origens. Aqui em Salvador tudo se mistura: — Os habitantes constituem um povo amável e alegre, sendo notória uma harmonia entre todas as raças e credos. Ao lado das trezentas e sessenta e cinco igrejas que dizem existir nesta cidade, uma para cada dia do ano, estão os atabaques do Candomblé espalhados por ruas e vielas, onde se ouvem as rezas a Jesus Cristo e os cânticos em louvor aos Orixás. A Igreja do Bonfim e outras são frequentadas tanto por católicos como seguidores do Candomblé. Os Orixás são as divindades do culto do Candomblé, sendo esta a religião afro-brasileira mais popular 42
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na Baía e no Brasil. Contam-se mais de vinte diferentes: o Oxalá, Exu, Ogum, etc. todos elas tendo dias próprios de culto, cores, elementos, comidas e sincretismos com o catolicismo. O Oxalá crê em Jesus Cristo, no Senhor do Bonfim, na cor branca e o elemento é o ar. — Nas ruas, no Mercado Modelo misturam-se os cheiros da cana-de-açúcar triturada, a água de coco, os acarajés feitos e servidos por gordas baianas com seus trajes típicos, os frutos tropicais da acerola, maracujá, carambola e abacaxi, com os ritmos do samba, do berimbau e da pandeireta, que dão forma e coreografia à capoeira. — Nas praias há uma agitação constante e novamente os ritos religiosos coabitam com a capoeira, a dança, o futebol e a fresca água de coco. — Urbanisticamente o velho e o novo misturam-se. Um Salvador moderno eleva-se, fazendo nascer um novo Salvador, com as suas estruturas arrojadas, de edifícios bem lançados, enquadrados em avenidas amplamente rasgadas, onde as zonas verdes não foram esquecidas, dando à cidade uma sensação de frescura, tão apreciada nestas paragens, onde o rigor tropical se faz sentir com grande intensidade. Toda esta escola moderna da arquitectura brasileira contrasta com palácios da época colonial e zonas de favelas numa harmonia desconcertante. — A culinária não poderia ficar esquecida nesta passagem por tudo quanto é mistura baiana: — Dos índios ficou a mandioca, o coco e o milho com que fazem o pirão e as bebidas fermentadas, acompanhamento dos pratos de peixe do rio e de carne seca. — Dos negros de África a cozinha colonial trouxe o gindungo, o quiabo e óleo de dendê. — Dos portugueses chegou o bacalhau, o cosido de carne com legumes e as doçarias. Destas três origens bem diferentes, tanto geográficas como étnicas, nasceu a tradicional cozinha baiana com os seus petiscos bem gostosos: O acarajé, caruru, bobo de camarão, muqueca de peixe e o feijão preto, acompanhamento indispensável de todas as refeições.
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— O Carnaval ficou propositadamente para o fim, onde a mistura é total e completa. Velhos, novos, crianças enchem as ruas e avenidas ao longo de cerca de vinte e cinco quilómetros, pelos mais variados percursos da cidade. Mais de dois milhões de pessoas anónimas e indiferentes a tudo, porque não há diferenças, desfilam pelas ruas, dançando ao ritmo das bandas dos barulhentos trios-eléctricos. Caetano Veloso cantava “ atrás dos trios-electricos só não vai quem já morreu “. Eu estou vivo, também fui! Tornei-me um apaixonado pela Baía. Tenho uma amiga brasileira que me disse um dia: — “Rui, quando me perguntam se sou paulista, eu aceito. — Quando alguém me diz “você é baiana”, eu me derreto”. Estas palavras são poucas e simples de mais para falar e escrever sobre Salvador da Baía e da sua gente, gente que não tem medo nem vergonha de dizer aos quatro ventos que nasceu e vive numa terra que é:
India do Amazonas
Património Mundial da Humanidade Primeira capital do Brasil, durante duzentos anos. Capital da cultura. Capital da harmonia e da modernidade. Centro do Carnaval, do Candomblé, da Capoeira, do culto a Iemanjá. Este é o verdadeiro bairrismo saudável e afirmativo. Aproveitando a estadia em Salvador, fui convidado pelo Gustav Stabernack, para fazer
uma visita à Amazónia brasileira. O Brasil é tremendamente grande, já o sabia, mas a noção exacta dessa grandeza só a senti quando confrontado com a realidade. Mais uma vez a minha memória se voltou para Angola, onde as distâncias só começavam a contar a partir dos cem quilómetros. A viagem para Manaus como é óbvio teve que ser feita de avião, com escala por Brasília, durou mais de quatro horas. Depois de instalados no hotel Tropical, nos arredores da cidade, começámos a organizar a visita à Amazónia, ou melhor, o que seria possível ver desta imensa zona, chamada de Amazónia. Sem sairmos do hotel resolvemos o problema com duas agências de viagens. Numa foi fretado um hidroavião e na outra, uma lancha para chegarmos mais rapidamente à zona do porto de Manaus e a alguns canais onde se instalam as aldeias de índios. Foram consultados mapas da região para nos debruçarmos sobre os locais a visitar. Reparámos que Manaus fica a 1500 km do Atlântico e de Belém do Pará. Belém está situado na foz do Rio Pará cujo estuário mede 150km de comprimento. A foz principal do Amazonas fica a Norte daquele estuário e separado por uma ilha com 300 km de comprimento e de largura. Ter conhecimento da Amazónia por fotografias ou relatos é ficar com uma ideia descrita do indescritível. Quando o hidroavião começou a deslizar na água e a ganhar velocidade e altura, ficámos agarrados à cadeira, como petrificados pelo que se ia desenrolando sob os nossos pés ou melhor aos nossos olhos. O passeio escolhido foi em direcção à foz, para jusante de Manaus. Com uma rota pelo meio do rio, deparámos com um arquipélago de quatrocentas ilhas, na sua maioria de configuração alongada e completamente cobertas de vegetação. Não se sabe onde começa o rio e acabam as margens, tudo é água e floresta impenetrável, num terreno quase plano. A humidade e o calor desenvolvem uma vegetação de tal forma densa que mesmo com avião a uma altura bastante baixa, não conseguíamos, na maioria dos locais, ver terra ou água. O espectáculo é difícil de descrever tanta é a grandiosidade, a força e o respeito que sentimos perante este gigantesco manto verde. Revista da AAACM
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Só 60% da Amazónia está situada no Brasil, os outros 40% estão distribuídos pelo Suriname, Peru, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Bolívia. A Amazónia para além de ser a maior floresta do mundo é também a maior concentração de água doce. O piloto introduziu novas coordenadas no GPS, iniciando a viagem de regresso, passando a sobrevoar a outra suposta margem, tendo na nossa vertical o Hotel Ariaú, com as suas quatro torres implantadas na água, em forte e alta estacaria. Estas torres estão ligadas entre si por pontes de madeira, no estilo de passadeiras palafitas. É um hotel de luxo em plena selva amazónica. O hidroavião começou a descer para o local de amarração. Aqui não é necessário colocar o aparelho no enfiamento da pista, nem há problemas de fim de pista, tudo é água tudo é pista. Apesar da destreza do comandante, tocar na água não é a mesma coisa que aterrar. Com um pouco de emoção pela novidade do momento e com alguma mareta que o rio tinha, o hidroavião parecia que se partia todo. Tudo acabou bem e esperava-nos uma outra aventura, pois estávamos inscritos para uma viagem de lancha no Amazonas. Conduzidos pelo guia, entrámos num barco a motor de aspecto sólido, que nos levou desta vez rio acima. Pouco tempo depois avistámos as primeiras casas dos subúrbios de Manaus, junto à margem do rio e igualmente construídas em estacarias muito altas. Antigos e velhos “ferrys” que presentemente servem de habitação aos mais desfavorecidos encontram-se amarrados à margem. O cais flutuante e o edifício da alfândega são as primeiras construções que se podem ver do rio. Na realidade este curso de água tem o nome de Amazonas, mas verdadeiramente ele tem três nomes distintos: Quando entra no Brasil, vindo do Peru, tem o nome de Salimões, depois de Rio Negro e só a partir desta confluência é que toma o nome de Amazonas. Este local foi um dos pontos alto do passeio, pois a junção destas duas águas, têm cores, temperaturas, densidades, pH, e espécies de peixes diferentes. Correm diferenciadas durante quilómetros no mesmo leito, como se 44
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dois rios diferentes se tratassem. O Rio Negro é negro de cor, o Salimões é castanho. As fotografias comerciais e as que tirámos, ilustram nitidamente as cores destas duas correntes que deslizam a par uma da outra, como algo houvesse a separá-las.
Hotel Ariaú Amazon Towers
Perguntámos pelas míticas e não menos ferozes piranhas que abundam nestes rios. Segundo o guia existem mais de quinze espécies diferentes destes peixes, nos tamanhos, cores e formas, mas todas elas terrivelmente vorazes, atacando a presa em cardume, não dando qualquer hipótese de fuga à vítima. Subimos o rio Negro para entrar num dos seus afluentes e depois em braços mais pequenos para chegar às povoações onde vivem os índios desta região. Deparámos com conjuntos de casas flutuantes onde habitam famílias que se dedicam à pesca, ao comércio geral e ao artesanato. Todas as casas são flutuantes, porque as águas do rio têm grandes diferenças de nível, na ordem dos doze a quinze metros. Já tínhamos verificado este facto pela diferente cor que os troncos das árvores apresentam, pela altura das paliçadas que sustentam as casas junto ao rio, nos arredores de Manaus, bem como dos níveis registados anualmente no muro de suporte do porto desta cidade. Achámos que, só pela influência das chuvas, esta diferença era demasiado grande. O guia chamou a atenção para o pormenor do rio Salimões nascer no Peru e os degelos dos Andes coincidirem com a época das chuvas, e daí, num curto espaço de tempo, se registarem entradas de grandes volumes de água no curso dos rios.
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Naquela aldeia vivem diferentes famílias mas todas elas têm em comum a calma e uma paz celestial que é transmitida em cada gesto e em cada palavra. Ali o tempo e as horas pararam, não têm o mínimo significado. O que conta é a rotina sequencial do dia e da noite. Sentimos um verdadeiro choque de civilizações, pois vínhamos de Salvador da Baía, de uma terra em ebulição permanente, principalmente nesta época do Carnaval e de um momento para o outro, chegámos a um mundo para nós quase irreal. A existência destes dois mundos opostos constitui para mim uma experiência verdadeiramente enriquecedora, pois leva-me a pensar se realmente vale a pena esta corrida diária contra o tempo, onde por vezes não há espaço para comer, dormir, rezar e parar. Continuámos na nossa lancha embrenhados pela selva amazónica encontrando com frequência aldeias de índios e recantos maravilhosos que nem as melhores câmaras fotográficas conseguiriam reproduzir. Parámos para ver a gigantesca árvore da sumaúma que é a verdadeira rainha da floresta, e cujo interior dos seus frutos fizeram, noutros tempos, as delícias de quem teve a sorte de dormir em almofadas e colchões cheios com este fofo material, em vez do velho folhelho que envolve as espigas de milho! Num pântano ficámos maravilhados com os nenúfares e as suas enormes folhas, com dois metros de diâmetro e as suas bonitas e mínimas flores. Depois de algumas horas de viagem em zonas tão alagadas e por vezes pantanosas reparámos que não éramos picados por mosquitos! Quem andou e viveu em climas tropicais sabe bem como estes insectos são incómodos. O guia explicou que navegávamos em braços do Rio Negro e devido à acidez das suas águas os mosquitos não se desenvolvem, o que para nós foi uma delícia e um conforto e para os indígenas uma felicidade, pois não morrem de malária, já que de acidentes vasculares não será também muito provável, dada a calma e a despreocupação em que vivem. Já era tarde e iniciávamos a viagem de regresso. Eu nem de GPS saía daquele emaranhado
de canais e de pequenos rios por onde tínhamos andado e assistido a um verdadeiro e real documentário sobre as maravilhas da Mãe Natureza amazónica. Olhei para o Gustavo e perguntei-lhe se sabia o caminho de volta, ele respondeu, como bom alemão que é: — Sinto-me no fim do mundo, mas espero que o guia saiba o caminho certo para o cais de chegada. Depois de inúmeras viragens para bombordo e estibordo chegámos finalmente ao Amazonas, com o Sol já posto no horizonte e a noite a descer rapidamente, pois o crepúsculo nos trópicos é muito curto. Sem luzes de navegação, à boa maneira brasileira e portuguesa, (eles aprenderam connosco), navegávamos a grande velocidade pelo meio do rio imenso, sem qualquer referência que nos identificasse. Cruzámos com várias embarcações semelhantes à nossa que também não tinham qualquer luz de navegação, deixando por estibordo um monstruoso petroleiro que estava ao ferro, à espera de ser descarregado. A parte final desta viagem foi um autêntico susto, levando em conta a ausência total das normas de segurança que são exigidas em navegação nocturna. O Gustav e eu chegámos ao hotel brancos e gelados.
Águas do Amazonas e do Negro
Se fosse o Asterix, diria: “Estes brasileiros são loucos”. Um pormenor digno de nota é que as estações de serviço estão situadas no leito do rio, montadas em jangadas. A nossa admiração foi grande, mas descabida e sem sentido prático. Sendo o Amazonas a nossa “auto-estrada”, disse Revista da AAACM
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o guia em tom quase jocoso, não fazia sentido que os abastecimentos de milhares de barcos que circulam no rio fossem feitos em terra. Esperava-nos no hotel um delicioso jantar para repor os níveis, depois de uma grande aventura amazónica. O Gustav foi para o quarto, mas eu ainda arranjei algumas forças de reserva para dar uma saltada à farra que estava a ser preparada na piscina. Os brasileiros são divertidos por natureza, a época era de Carnaval e em pouco tempo já se dançava e pulava ao som de uma banda que tocava música de acordo com os festejos carnavalescos. Contactei com uma tripulação da TAM, companhia aérea brasileira, que estava instalada no hotel, e com quem partilhei parte da noite. Todos conheciam e adoravam Portugal e contaram as suas aventuras pelas nossas terras. Foi uma troca interessante de conhecimentos que eu habitualmente não gosto de perder. Nestas viagens, para além do que se vê e se come de diferente, a relação com pessoas de outras culturas é sempre enriquecedora. Por vezes é necessário um certo jeito para quebrar a barreira de gelo do desconhecido, mas vale a pena. O dia seguinte chegou rapidamente e às oito horas já estávamos a embarcar num autocarro, para uma visita guiada a Manaus. Esta cidade é uma terra de contrastes muito acentuados: A bela e o monstro O riquíssimo e paupérrimo A favela e o palácio As casas em estacas junto ao rio e o cimento Tudo na Amazónia é gigante e Manaus é uma cidade gigantesca, não pela sua área, mas pela monumentalidade dos edifícios e pela prosperidade que conseguiu atingir entre o fim do século dezanove e princípio do século vinte (1890 a 1910). Se reflectirmos um pouco e não olhando ao custo destas obras, pois o dinheiro não faltava, foi necessário possuir uma vontade de ferro e uma organização perfeita para levar a cabo a construção de casas e palácios com a grandiosidade que vimos e que os Homens de então 46
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nos legaram. Tudo foi importado da Europa, transportado por mar e depois rio acima, até ao porto de Manaus. Desde os materiais de construção dos exteriores – colunas, azulejos, mármores, escadarias monumentais etc. – até às decorações faustosas dos interiores, – painéis, pinturas, mobiliário, espelhos, lustres, talha – tudo veio de fora. O imóvel mais conhecido é o Teatro Amazonas, também conhecido pela Ópera, construído em 1896, em estilo neo-clássico e implantado na grande Praça de S. Sebastião. O exterior da cúpula é revestido a azulejos vindos da Alsácia com as cores da bandeira brasileira. O salão é uma beleza, comportando setecentos lugares, com o tecto todo pintado e um lustre central em cristal vindo de Veneza. O pano de boca do palco é uma pintura comprada em Paris. A visita a este teatro levou a minha admiração ao rubro. Quem sabe onde está situada Manaus, antes de ver esta obra não acredita que possa existir. Não estamos a falar de Lisboa, Londres, Paris ou Nova Iorque, isto está em Manaus. Para além da Ópera visitámos mais algumas construções espectaculares: Palácio da Justiça um neo-clássico, com a estátua de Themis de olhos vendados no topo do edifício. Relógio Municipal Mercado Municipal junto ao rio, em estilo arte nova, lembrando o velho “Les Halles“ de Paris. Centro Cultural, em estilo renascença. Palácio Rio Negro, residência de um alemão, um dos mais notáveis Barões da borracha. Vila Olímpica com um estádio para 45.000 pessoas. Esta descrição foca apenas uma pequena parte do que é Manaus, tentando imaginá-la como seria nos seus bons tempos. Temos falado dos tempos áureos e de prosperidade de Manaus, mas ainda não dissemos o porquê deste esplendor e a origem de todo este dinheiro. Para além de outras riquezas naturais, a Amazónia tem uma va-
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riedade enorme de espécies florestais, sendo a árvore-da-borracha a que esteve na origem de todo este negócio. A sua seiva conhecida pelo nome de látex é a matéria-prima de base para a manufactura da borracha e seus derivados. Os ingleses conhecedores das técnicas de fabrico deste produto, aproveitando a procura que a borracha estava a ter no mercado internacional, com o desenvolvimento da industria automóvel e outras, sabendo da inesgotável fonte de matéria-prima que existia na Amazónia brasileira, da mão-de-obra barata, da localização e acesso fácil à região, através do Amazonas, montaram engenhosamente e à sua maneira, todas as infra-estruturas capazes de retirar de Manaus, por via fluvial, o chamado ouro branco, tendo como objectivo principal um retorno rápido do capital investido. Começaram por construir um enorme porto com cais flutuante que conseguisse não só receber grandes navios, como ter a mobilidade suficiente, para garantir ininterruptamente o trabalho portuário, mesmo que se verificassem grandes diferenças de nível das águas, nas diferentes épocas do ano. As variações são na ordem dos doze a quinze metros. Rodearam-se de homens influentes, chamados “Barões da Borracha” que, com o recrutamento de mão-de-obra barata, garantiam na floresta a extracção do látex. O negócio era altamente rentável para todos, menos para os desgraçados que trabalhavam no campo. Segundo descrições que ouvimos, gerou-se um grande afluxo de mão-de-obra para esta região, não só de brasileiros, como dos países vizinhos. Este movimento descontro-
Guiana Francesa
lado de produção e toda a problemática adjacente deu origem ao renascer de fortunas locais rápidas e incalculáveis. Só assim se consegue perceber como foi possível, em pouco tempo, levantar uma cidade como a de Manaus. Para supervisionar toda a saída deste precioso líquido os ingleses construíram a Alfândega e o Posto da Polícia. Este enorme edifício foi projectado em Liverpool e os blocos para a sua estrutura fabricados nesta cidade, com material isolante, resistente ao calor e à humidade. Entretanto, os brasileiros distraídos com todo este fausto, preocupados em ganhar cada vez mais dinheiro e a gastá-lo também, não se aperceberam de que a administração inglesa iniciava um programa de plantação de grandes áreas, com árvores-da-borracha, na Indonésia, utilizando plantas e sementes que levaram da Amazónia. Vinte anos eram passados e em 1910, os ingleses arrancavam de Manaus deixando tudo e com eles este negócio de milhões, valendo tostões. As falências sucederam-se e a ruína das famílias mais abastadas e da sociedade em geral caiu vertiginosamente e com ela a cidade de Manaus. Os ingleses tinham o comércio internacional da borracha nas mãos e por isso não foi possível aos brasileiros reporem a situação. Manaus viveu tempos terríveis da sua existência. Ouvimos histórias hilariantes dos tempos áureos e também chocantes depois da queda total. O governo brasileiro decretou esta região zona franca para tentar a recuperação da cidade. Hoje em dia, já se notam grandes indícios de um trabalho de recuperação de uma sociedade que começa a acreditar num futuro melhor, mas longe das loucuras do passado. Restam os monumentos e as obras que são a memória viva de uma época de glória que imortalizou a grande capital da borracha. Verificamos a hora do avião e com o guia da visita a Manaus almoçámos no “Lenhador”. Um restaurante do tipo palhota, com cozinha típica da região e com uma variedade enorme de pratos diferentes de carne e de peixe do rio. O Gustav e eu privilegiámos os pratos de peixe pelo seu exotismo e porque dificilmente em Portugal teríamos oportunidade de nos deliciarmos com tais petiscos. Revista da AAACM
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Tive que recorrer à minha memória de bolso para vos dizer os nomes giríssimos destes peixes e pratos que só os brasileiros têm: O Pirarucu é o peixe mais conhecido pelo seu tamanho, chega a ter três metros de comprimento e pesar duzentos quilos. Muqueca de Tambuqui, prato feito com óleo de dendê Assado de Tucanaré. Guisado de Jaraqui Para terminar uma sopa de Tucacá. Todos estes pratos acompanhados com farofa, farinha de milho, arroz, feijão, variadíssimas saladas e vegetais salteados. No fim deste verdadeiro banquete típico, servido com simplicidade e bom gosto, aconteceu um imprevisto, que à distância dá para rir, mas que no momento nos causou alguns arrepios. Quando chegou a hora de pagar a conta o Gustav apresentou o seu cartão de crédito, julgo eu, “super dourado”, com crédito super ilimitado, mas não funcionava na bendita máquina de pagamento. Nenhum de nós tinha dólares, euros ou mesmo dinheiro brasileiro. O Guia, coitado, não tinha dinheiro e havia que pagar também o táxi que ficou à nossa espera para nos levar ao aeroporto. A situação estava “preta” e para o meu amigo Gustav, alemão de gema, habituado a que tudo funcione bem, já deitava fumo pelas orelhas! Como o guia era amigo do dono do restaurante, sugerimos que fossemos no táxi ao aeroporto levantar dinheiro no banco e que ele se comprometeria a voltar ao restaurante para liquidar a conta. Proposta aceite, lá fomos para aeroporto de Manaus que fica a meia dúzia de quilómetros do local onde nos encontrávamos. Por incrível que pareça o banco estava fechado. Teríamos que nos lembrar que estávamos no Brasil, no aeroporto, no Carnaval e era Domingo. Era um quadro perfeito de condições cujo resultado prático estava à vista. Pelos olhos do Gustav já saíam labaredas. A situação começava a ficar complicada e sem que se vislumbrasse uma solução. Por sorte descobri lá num canto duas caixas Multibanco que em princípio seriam a nossa última tábua de salvação. O Gustav introduziu o seu magnífico e recheado cartão, “mas negativo”, a caixa não aceitou. Foi o fim 48
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da picada como se dizia em Angola, ou seria, se eu não me tivesse lembrado de tentar levantar dinheiro com o meu pobre cartão da C.G.D. Como por milagre a bendita da máquina aceitou o cartão e eu perguntei: Gustav quantos reais queres? Foi difícil descrever no seu semblante o que lhe passava na alma – fúria, alívio e gratidão, tudo ao mesmo tempo. Não acredito! Então este cartão funciona em toda a parte do mundo e foi preciso o teu para pagar a conta?! Levantei o dinheiro necessário, pagámos o táxi e entregámos ao guia o dinheiro para ele pagar o almoço. Esperamos que sim, pois eram horas de embarcar para Salvador da Baía e já não havia tempo para voltar ao restaurante. Foram dias com um “certo recorte” como diria o Henrique, um arquitecto meu amigo. Para trás ficou: Um Mundo grandioso, porque não tem medida aos nossos olhos. Um Mundo de paz, porque ali o tempo parou no espaço. Um Mundo rico, porque se o pobre Homem o não conseguir conservar, não será o Mundo a perder a Amazónia, mas sim, o Mundo estará perdido sem a Amazónia. Mas isto não irá acontecer, a Amazónia não tem fim, o seu registo não se apaga, fica gravado para as gerações vindouras, como ficou para a nossa. Os seus testemunhos estão de pé, o Brasil e a Humanidade tem que os saber manter intactos. Depois de oito horas de viagem chegámos finalmente a Salvador, mais tempo do que é necessário para fazer Lisboa-Salvador! O táxi levou-nos à Marina Baía passando pela folia estonteante do Carnaval. Encontrámos a cidade como a tínhamos deixado. Música e mais música, nada pára com o seu som, nem o balanço dos corpos ao seu ritmo, nem a própria cidade. Um novo tripulante tinha chegado, o Struppi, um alemão muito simpático, amigo do Gustav, que iria fazer a viagem até Trinidad. Há alguns dias atrás, o Henrique Martins tinha mostrado vontade de terminar esta viagem em Salvador, tendo embarcado de avião, na
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terça-feira. Foi pena, porque há bastantes anos que velejamos juntos, desde 1988, num cruzeiro à Madeira, no “Olhos de Água”, organizado pelo CNOCA (Clube Naval dos Oficiais e Cadetes da Armada). Para além disso foi graças ao Henrique que foi possível eu fazer esta viagem magnífica. Este dia foi reservado para acabarmos de visitar a parte histórica de Salvador. O Pelourinho e toda a zona envolvente são um verdadeiro museu do barroco, sendo a igreja de S. Francisco o seu expoente máximo. O Gustav ficou admirado com os monumentos que visitou e a obra que os portugueses ali deixaram e legaram à humanidade. SALVADOR DA BAÍA — GUIANA FRANCESA Hoje é quarta-feira de cinzas, dia 7 de Fevereiro, diz o meu diário, o Carnaval acabou ás onze horas da manhã e terminou também a nossa estadia. Ultimaram-se os preparativos, as compras para a cozinha e ás 16.30 horas, zarpámos para mais uma etapa, tendo como destino a Guiana Francesa. Saímos junto à costa para melhor apreciar a cidade e obter as últimas fotografias. Com o Sol a Poente iluminando o casario, a vista do mar tornava Salvador uma terra ainda mais bonita. As temperaturas nestas latitudes, 12º sul, fazem-nos inveja: a temperatura do ar ás vinte e uma horas é de 30º e da água do mar 24º. A cidade ficou já na nossa popa e como a corrente marítima é de Norte, afastámo-nos da costa navegando a 44 milhas. O vento soprava fraco, 10/12 nós, mas entrava muito de proa. Com o tipo de aparelho deste barco, sem genoa nem estais, praticamente não se bolina, mas torna uma navegação mais cómoda, com auxílio do motor. Cada proprietário manda aparelhar o barco à sua maneira. Este veleiro tem duas velas de proa uma yanqui e uma stay sail. Dia 10, domingo, ás onze horas o carreto da cana de pesca deu sinal e pelo barulho era peixe grande. Reduzimos a velocidade do barco e o Gustav começou a enrolar a linha com muita dificuldade e depois de bastante tempo de luta com a ajuda do Struppi conseguiram
tirar um espadarte com 2.20 m. Dia de festa a bordo sempre que se pesca um peixe, principalmente como este. Foi retirado o bico, troféu do comandante e os lombos levados para a cozinha para a Katy dar o melhor destino pantagruélico. Estávamos muito perto do Equador, o clima torna-se pesado, muitas nuvens, humidade a rondar os 95%, e a chuva a cair diariamente. Toda a tripulação começou a estar atenta ao G.P.S. que estava prestes a registar a passagem do Equador; precisamente ás 11.45, do dia 13.02.2008, estávamos na Latitude: 000º 00´ Longitude; 042º 05 ´ Esta passagem mítica do Equador é sempre um momento festivo, acompanhado de espumante e de algumas partidas para os que pela primeira vez cruzam a linha. Eu à boa maneira do Colégio Militar, berrei um Zacatraz, com grande admiração de todos que não conheciam o nosso grito. No dia seguinte o carreto voltou a cantar novamente. Eu estava perto da cana e iniciei a luta com o meu peixe. Pelos esticões que dava e a força que fazia deveria ser grande pescaria, no mínimo parecida com o outro, que tínhamos apanhado na véspera. A certa altura assistimos a um momento de rara beleza, principalmente para os pescadores que se dedicam a este tipo de pesca, que não era o nosso caso, o peixe deu um salto e saiu todo fora de água. Realmente era um bom exemplar, um veleiro azul, com 1.90 m. Só com a capacidade de armazenamento dos dois enormes congeladores deste barco, conseguimos guardar os quatro enormes lombos. A Katy preparou esta maravilhosa carne das mais diversas e deliciosas maneiras, guarnecendo com muita arte, os pratos das nossas refeições. Só em barcos deste tipo e nestas condições se podem ter luxos destes. Iniciámos a aproximação à Guiana Francesa. A entrada é feita por um canal bem sinalizado com pouco fundo e estreito, depois de rondar duas bóias cardeais. Este canal está sempre Revista da AAACM
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À saída da Guiana
com trabalhos de dragagem realizados por uma companhia holandesa, pois o assoreamento é constante. Encontra-se na foz de um rio com depósitos permanentes, principalmente no tempo das chuvas e, apesar de estar a largas milhas da foz do Amazonas, os seus aluviões ainda se depositam neste local. Contactámos com o Posto de Controlo do Porto para nos autorizar a entrada e nos indicar o local de amarração. Indicaram-nos uma marina que ficava depois do Porto Comercial. Como a marina não respondia ás nossas chamadas pelo VHF, navegámos cuidadosamente para a zona onde se viam bastantes mastros, mas cedo parámos pois ficámos sem fundo. Depois de alguma insistência o Comandante do Porto autorizou que amarrássemos no topo do cais do Porto Comercial. A nossa estadia seria apenas de dois dias, tempo suficiente para conhecer a capital Cayenne, fazer umas compras para o barco e visitar o Centro Espacial. No dia seguinte, saímos cedo do barco para visitar o Centro Espacial e o Museu do Espaço. Este local fica a trinta quilómetros do centro da cidade, longe para a terra, está fechado ao domingo, à boa maneira sul-americana. Nestas paragens temos que pensar que não estamos na União Europeia. Contentámo-nos por ver os edifícios por fora e a réplica do foguetão que foi lançado. Visitámos a capital, que não tem nada de especial, tirando a casa do Governo Francês, que é antiga e bonita. A Administração Francesa do território é constituída por quadros Europeus, mas a população é composta por uma grande percentagem de etnia africana. Desde Cape Town que o exaustor do motor apresentava um problema, mas apesar de ter 50
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sido visto por vários mecânicos ainda nenhum tinha resolvido a avaria. O Gustav com o Struppi e o Matthew desfardaram o painel da sala de jantar, onde passa a conduta de ar que sai do exaustor e o Struppi descobriu que no cotovelo do tubo a passagem estava completamente obstruída. Por incrível que pareça foram retirados cinco quilos de carvão! Nunca tinha sido limpo em quatro anos e ninguém sabia que era necessário limpar, pois não havia qualquer indicação nas normas de manutenção. Os problemas destes barcos com grande número de equipamentos e normalmente sofisticados são um quebra-cabeças em mar alto. O Gustav contratou um engenheiro naval alemão, com grande experiência em barcos à vela e nomeadamente da Yongert, para lhe dar assistência via telefone, durante a volta ao mundo. Os estaleiros da Yongert não são eficientes em dar uma resposta imediata a estes casos. Não se pode admitir uma situação destas, atendendo ao nível superior de qualidade destes barcos e ao preço que eles são debitados (no mínimo nove milhões de euros)! Depois de tudo limpo e montado tivemos festa a bordo que acabou com um bom jantar preparado pela Katy e regado com as “reservas” da garrafeira do “Sea Rose Star”. GUIANA — TRINIDAD - TOBAGO Largámos ás nove horas, do dia 19.02.2008, numa terça-feira, chuvosa mas sem vento, com rumo bem no centro do canal, porque as batimétricas indicavam valores baixos, já verificados quando entrámos. O canal está muito bem sinalizado na carta, na cartografia digital, no radar e, por último, no mar. À medida que íamos saindo o vento começava a soprar progressivamente mais fresco 25, 30, 35, 40 nós e mar muito cavado, com vaga alta, cheia e enrolada, pois navegávamos entre as duas margens do canal. Para mim seria a prova de fogo do barco pois até aqui tínhamos navegado sempre com mar chão. O comportamento do Yongert era impecável, com bom governo, diante de uma situação mesmo rija. O Gustav ia ao leme, não querendo forçar o piloto automático e como a visibilidade era fraca o Struppi e eu ficámos
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a ajudá-lo a reconhecer as bóias e a verificar o rumo no repetidor da cartografia, que se encontra a estibordo, junto à roda de leme. Para melhor ver as bóias do canal, (sistema B), na saída, vermelho com vermelho, o Gustav deslocava-se de uma roda de leme para a outra. O canal ficava para trás mas as condições mantinham-se, com tendência para piorar. Arribámos, ou seja, abrimos um pouco o ângulo ao vento, para estabilizar mais o barco e aguentámos, durante doze horas, esta situação que não era dramática, mas não era fácil. O skipper ficou na mesa de navegação a controlar, pelos instrumentos, a singradura, até que as coisas melhoraram e os quartos voltaram à normalidade. Na minha opinião o Gustav fez muito bem em ter ficado ao leme porque caso contrário poderíamos ter problemas com o piloto automático. Este aparelho é de uma utilidade extrema, como é sabido por aqueles que andam nestas andanças. Em viagens de cruzeiro normalmente trabalha vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, sendo apelidado em cada barco por um nome próprio: Escravo, Quim, Xico e outros.
Trinidad
O vento caiu para os 14/15 nós mas o mar continuava despenteado. Com dois dias de viagens, 21.02.08, já tínhamos indicações de terra, as aves, alguma navegação costeira de pesca, pequena vegetação que passava a boiar pelo barco, um cheiro diferente que paira no ar e possivelmente um pouco de imaginação, são pequenos indícios que envolvem uma atmosfera quase mística da chegada a porto seguro.
Estávamos a apanhar os últimos banhos de Sol, deste sol quente que tão cedo não teríamos, pois o Verão na Europa ainda vinha longe. No horizonte já se via desenhada a silhueta de Trinidad sendo a aproximação feita pela costa Norte. Entretanto, parece que se adivinhava, o piloto automático avariou e levámos o barco à mão o resto da viagem. Só damos valor ao “escravo” quando ele avaria! Tínhamos pela amura de bombordo a Entrada Point, cabo que dá acesso ao canal que separa a ilha de Trinidad à ilha de Monos. Depois aparece Point Rouge e a linda e bem abrigada Scotland Bay, onde se pode ficar ao ferro alguns dias e desfrutar de uma paisagem calma, magnífica, com uma água do mar quente e límpida. Continuando com rumo de 180º, navegámos na costa ocidental até a Delgada Point. Neste cabo começa a costa Sul, passando entre Trinidad e a ilha de Gaspar Grande, dando estibordo à pequenina ilha de Gasparillo. Finalmente chegámos à Baía de Chaguaramas, fim da nossa longa viagem de 6.313 milhas, em 32 dias e 12 horas de mar, o que dá uma média de 8 milhas por hora. Estes trinta e dois dias de mar representam, com as paragens nos diferentes portos, 55 dias de permanência no barco. Para quem gosta e no tipo de barco como o “Sea Rose Star”, onde o conforto, a segurança e o tratamento são factores de grande qualidade, continuar, para dar a volta ao Mundo, seria um grande prazer. Foi precisamente neste local que este barco e o seu proprietário Gustav Stabernack, acompanhado de várias tripulações, completaram a volta ao Mundo. Normalmente os donos de barcos como este não fazem parte da tripulação, contratam profissionais que lhes transportam a embarcação para os locais preferidos. Para mim foi óptimo privar de perto com uma pessoa como o Gustav que comprou um veleiro deste tamanho e deste gabarito, não com o fito de possuir, mas de ter algo de bom e dele desfrutar todo o prazer e a aventura que uma volta ao Mundo pode proporcionar. A Baía de Chaguaramas é um sítio excelente para ficar por períodos curtos ou longos, para efectuar todo o tipo de reparações e colocar a embarcação em seco, pois só neste local existem mais de dez marinas oferecendo este género de apoio. Revista da AAACM
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O “Sea Rose Star” iria ficar em Trinidad dois meses, para fazer algumas reparações e a manutenção de rotina, esperando o regresso do Gustav e da restante tripulação para efectuar a viagem de regresso à Europa. Foi com alguma comoção que o Struppi e eu nos despedimos do Gustav, da Katy e do Matthew. Foram muitas semanas de convívio muito estreito, que deixam sempre laços de amizade, vividos e partilhados, num espaço pequeno que é um barco à vela, por maior que ele seja. O espaço real e virtual que cada um ocupa num barco são preciosos e têm que ser geridos com muita educação, prudência e bom senso. O Struppi e eu embarcámos no ferry para Tobago, onde depois de uma visita à Ilha, to-
mámos o avião para Frankfurt e depois para Lisboa. Ficava para trás mais uma história da história da minha vida de mar, que como tantas outras foi recheada de coisas maravilhosas. Para que tudo seja assim é necessário ter gosto pela vida e saber transformar as coisas pequenas e simples em maravilhosas coisas... Na gíria do mar há dois tipos de pessoas:
As do mar E as outras
Para as primeiras bons ventos e bons mares. Para as segundas as melhores coisas deste Mundo António Rui Prazeres de Castilho 147/1948
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O COLÉGIO MILITAR e a Mocidade Portuguesa A Organização Nacional Mocidade Portuguesa foi criada na década de 30 do século passado, nos moldes da instituição fascista do governo de Mussolini. Como aquela, destinava-se a promover o desenvolvimento político, militar, ético e desportivo dos rapazes e raparigas nacionais. Para eles foram instituídas actividades desportivas interessantes como vela, equitação e torneios desportivos. Para elas optou-se por criar úteis aulas de culinária e puericultura, mais apropriadas para as futuras mães. Pretendia-se alargar a acção da Organização a todo o território nacional, mas a verdade é que apenas se conseguiu implantar com sucesso nos principais centros urbanos, ao contrário do verificado na maioria dos meios do interior. A então recente Organização nunca mereceu o apoio ou a simpatia dos colegiais, até porque, mal ou bem, constou entre eles que se pretendia incluir o Colégio Militar na nova instituição e até substituir a já centenária farda cor de pinhão pelas camisas verdes da Mocidade,
o que só não terá acontecido por imposição do Presidente da República, General Óscar de Fragoso Carmona, que assim conquistou ainda maior apreço entre os “Meninos da Luz”. O que é certo é que, embora mantendo as suas fardas oficiais, os Pupilos do Exército passaram a ser o Centro Escolar 44 da MP. Comprovando a antipatia dos colegiais pela Mocidade, não ocasionada por razões políticas, nunca o professor de Canto Coral conseguiu que os alunos cantassem o hino da MP, aliás de agradável toada musical. O mestre “flaitas”pensou então que, reunindo o Batalhão nos claustros na presença da Direcção, os alunos renunciassem à sua decisão, o que não aconteceu. Concluindo: os alunos do Colégio Militar jamais foram filiados da Mocidade Portuguesa. A única remota ligação entre as duas Instituições é que um antigo Director do Colégio Militar, o General Pereira de Castro, foi nomeado dirigente da MP. Mário Silva Falcão 314/1936
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Tempo Africano Aquelas Longas Horas em Sete Andamentos
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COLABORAÇÃO Tempo Africano - Aquelas Longas Horas em Sete Andamentos
O autor deste livro é Antigo Aluno do Colégio Militar, o 115 do curso de 1948; tem o Curso do Estado Maior e combateu em Angola e Guiné. É licenciado em Ciências Sociais e Políticas e coordenou a Livraria – Galeria Municipal Verney de Oeiras durante os seus primeiros 12 anos de funcionamento. O livro tem o prefácio do Dr. João Casimiro de Aguiar e posfácios do Almirante Ribeiro Pacheco (163/1945) e Tenentes-Generais Alípio Tomé Pinto e Vasco Rocha Vieira (127/1950). As palavras deste último traduzem bem a natureza desta obra, pelo que resolvemos transcrevê-las: “Este livro é o registo de uma época, estruturado pela experiência e pela memória de um observador singular, mas que só poderia ser escrito por quem viveu estes acontecimentos – já não poderia ser reconstituído por investigadores que quisessem descrever este passado com o que sabem neste presente. Militar de excepção, nos teatros e guerras e nos anfiteatros de formação especialidade, analista competente sabendo usar os instrumentos de observação produzidos pelas ciências sociais, Manuel Barão da Cunha, de quem me orgulho de ser amigo de sempre, consegue reconstituir neste seu texto a complexidade das guerras de África que Portugal enfrentou entre 1961 e 1975. É uma complexidade que resulta da composição de diferentes níveis da realidade, desde os teatros de combate até aos palácios da diplomacia, desde o choque das culturas até ao medo dos que combateram e à visão dos mortos. É uma complexidade que tanto aparece na descrição da uma refeição improvisada como na percepção de forças desconhecidas que moldam a realidade com finalidades que escapam aos protagonistas. É a complexidade do real, que raramente se encontra nos encadeamentos assépticos dos factos, mas que está presente em cada uma das pequenas histórias que se encontra neste livro. Uma complexidade a que a generalidade dos relatos e das análises sobre as guerras de África não faz a devida referência, porque é necessário simplificar o que nunca foi simples – nem quando foi vivido, nem agora, quando a
distância histórica e o conhecimento das resultantes fazem esquecer o que eram as percepções dessa época. A história é dominada pelos vencedores, mesmo quando a discriminação entre vencedores e vencidos é decidida muito longe dos teatros da guerra. Na perspectiva de quem conhece os resultados, a linearidade das causas e dos efeitos, encobre o que foi o produto de inter-relações, de acções e funções indirectas, de manipulações dos protagonistas e das emoções colectivas, de heroísmos e de mistificações. A realidade dos factos antes de eles serem históricos encobre e enterra a realidade efectiva dos que viveram esses factos antes de eles serem catalogados e resumidos no deve-e-haver dos registos históricos. A complexidade geopolítica é o que enquadra as histórias recordadas por Barão da Cunha. Forças muito superiores às que Portugal podia mobilizar no sistema de equilíbrios mundiais determinaram o contexto paradoxal das guerras de África, onde não se podia perder e onde não se podia ganhar, eram guerras onde o confronto decisivo não se disputava nos teatros de combate ou nas administrações dos territórios. Não são as peças do xadrez que decidem da vitória ou da derrota, são os jogadores que as movimentam que ganham ou perdem. A complexidade da mistura de culturas é o que alimenta estas histórias de convívio e de reconhecimento, mas também de defesa, de identidade e de projecções sobre o futuro. Esta complexidade da mistura original é hoje irrecuperável, porque a realidade da mistura foi substituída pelo que resulta da filtragem, das diferenças, que a ideologia promove e que a retirada dos portugueses residentes em África resultou. A realidade dessa época perdeu o seu sentido e converteu-se no registo das simplificações convenientes. A complexidade da mistura do heróico com o trivial é outro dos traços que aparece nestas páginas, onde a normalidade das vivências dentro de um contexto de anormalidade, ou mesmo de impossibilidade, retrata a singularidade dos períodos de mudança, onde o que é habitual coexiste com o extraordinário, sem que quem vive nesses tempos de instabilidade possa separar o que vai continuar do que vai desapareRevista da AAACM
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cer. É neste ponto da vertigem que as histórias recordadas neste livro ganham o seu sentido porque acontecem no que vai continuar. É também a complexidade do estatuto do militar, aqui ainda mais acentuada pela mistura entre os militares do quadro e os militares milicianos, uns e outros deslocados das suas origens, uns e outros vivendo os seus perigos e as mesmas incertezas, uns e outros obedecendo aos mesmos comandos e instruções, mas uns e outros com projectos de vida e com perspectivas de futuro muito diferentes. O militar sabe que o seu dever é fazer o que tem de ser feito, mas precisa de encontrar nos factos
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a confirmação da sua motivação. É aqui que tem a sua raiz a tragédia das guerras que não podem ser perdidas, porque o adversário não poderia vencer, e não podem ser ganhas, porque as motivações desse conflito não deixarão de continuar a ser alimentadas por quem está longe das zonas de combate. Depois das histórias do Manuel Barão da Cunha, que nos recordam o que realmente foi, quem ganhou e quem perdeu? Ganham os que não esquecem hoje a complexidade da realidade que conheceram, perdem os que se contentam hoje com a simplicidade dos factores que geraram esses resultados.
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Lema Colegial Visão do passado imberbe, enlace de múltiplas gerações… Luz do passado luz do presente Velhos e novos abraçam seus corações… “UM POR TODOS, TODOS POR UM” 3 de Março! Dia fraternal de saudade de união … Aprumados garbosos perfilados na farda “cor de pinhão” Avenida abaixo Lá vão eles “Zacatraz! Zacatraz! Zacatraz!” Eles lá vão… Os “MENINOS DA LUZ!” Novos e velhos “Allez! Allez! À votre santé! » Nos velhos, Nos novos corações A velha saudade uma nova aragem
Em todos brilha uma luz É a chama da “Camaradagem”. O 3 DE MARÇO! O COLÉGIO MILITAR! “Berço de gerações… que as gerações contemplam!...” É o sonho, o símbolo, a realidade… a Barretina a Feitoria os Claustros a Cúpula agora a Chama a Eternidade Sonhar! Viver! Sentir O voltar à LUZ a final: é reviver em alegria comovente o orgulho fraternal de ter servido o «SERVIR» do lema colegial … e dizer: «POR PORTUGAL ETERNO EM FRENTE» António Perestrello 202/1946
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Projecto de Extensão da Plataforma Continental (PEPC) de Portugal.
O PEPC é um projecto a cargo da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC) e tem como objectivo alargar a área de jurisdição portuguesa, sobre o solo e subsolo marinho, para além das 200 milhas náuticas (limite da zona económica exclusiva de um país costeiro). Este projecto tem a sua génese na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) e será submetido à Comissão de Limites da plataforma continental, nas Nações Unidas, em Maio deste ano. Segundo a CNUDM os estados costeiros podem reclamar os direitos de soberania sobre a plataforma continental para efeitos de exploração e aproveitamentos dos seus recursos naturais,
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caso demonstrem morfologicamente, através de dados de batimetria, ou geologicamente, através de dados de geologia e geofísica, que existe um prolongamento natural da sua plataforma continental. Para obter dados da morfologia do fundo marinho, que suportem as pretensões portuguesas, têm sido feitos levantamentos hidrográficos desde 2005, recorrendo a dois navios hidrográficos da marinha portuguesa, equipados com sondadores acústicos multi-feixe. Através dos dados recolhidos por estes equipamentos, e após processamento dos mesmos têm-se como resultado uma imagem de alta resolução da morfologia do fundo marinho. É sobre esses dados que estão a ser efectuadas uma série de análises que servirão para determinar posteriormente os limites da plataforma continental de Portugal. Todo o processamento, análise e gestão da informação e produtos gerados estão a cargo da área de Hidrografia da EMEPC, onde estou actualmente incluído. Para a obtenção de dados de geologia e geofísica, para além dos dados de magnetismo e gravimetria recolhidos durante os levantamentos hidrográficos, a EMEPC tem vindo a efectuar cruzeiros específicos para a aquisição de dados de sísmica e cruzeiros oceanográficos com o objectivo de recolher amostras de geologia. No que diz respeito aos cruzeiros oceanográficos realizados pela EMEPC são de destacar os realizados em 2007 e 2008, na região dos Açores, onde para além dos elementos da EMEPC se fez um esforço adicional para ter a bordo elementos de outras instituições nacionais e internacionais, ligadas às ciências do mar, de forma a cons-
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truir uma equipa multidisciplinar que permita potenciar os benefícios científicos deste tipo de iniciativas. Das várias campanhas realizadas, é de salientar a realizada durante os meses de Outubro e Novembro passados, onde foi estreado o LUSO, um veículo de operação remota - ROV (do inglês Remote Operated Vehicle) adquirido pela EMEPC durante o ano de 2008. O LUSO é capaz de descer até uma profundidade de 6000 metros podendo desta forma deslocar-se a todas as áreas marinhas sobre jurisdição portuguesa e a 97 % das áreas oceânicas a nível mundial. A operação do LUSO permite a recolha de amostras de geologia, fluidos, sedimentos e amostras biológicas para além de imagens de enorme qualidade, permanentemente captadas por uma câmara de alta definição instalada no mesmo. Os dois braços mecânicos associados ao veículo dão-lhe uma enorme versatilidade, podendo ser utilizados, não só para a recolha das referidas amostras como para operações de menor ou maior precisão a realizar em estruturas submarinas ou nos mais diversos âmbitos que se relacionem com o meio aquático. Com a aquisição deste equipamento Portugal junta-se ao restrito grupo de países com uma
ferramenta de excelência para a investigação e exploração do mar profundo. A aquisição do LUSO por parte do estado português está no imediato relacionada com os objectivos da EMEPC mas o equipamento está naturalmente disponível para outras utilizações nas mais diversas áreas. Para operar este veículo a EMEPC aproveitou a realização da campanha oceanográfica para começar já a formar 15 pilotos portugueses que assegurarão operações futuras. Dentro das minhas funções na EMEPC, estou também integrado neste grupo de pilotos como Coordenador dos mesmos (Piloto Chefe). O PEPC é assim um projecto de uma enorme importância para o país, não só pelo seu carácter de aquisição territorial como também pela enorme componente de avanço tecnológico e cientifico na área das ciências do mar que ele acarreta. Em todas estas vertentes, estamos a fazer crescer o país, ou como diz o slogan da EMEPC estamos a “Alargar Portugal”. António Pedro Gomes Calado 55/1990
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©Foto: Arquivo Histórico do Colégio Militar
Fim dos anos quarenta Exibição de Ginástica onde hoje se encontra o Estádio Colegial, Revista da AAACM 65. vendo-se a Carreira de Tiro, o Picadeiro e o Campo de Hóquei
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Viagens Breves à Caixa da Memória A AUTOMOTORA Projecto de Extensão da Plataforma Continental (PEPC) de Portugal.
O Pai tinha dito: — No próximo sábado não posso sair de Leiria e ir buscar-vos ao Colégio. Traz o teu irmão, toma a automotora das cinco e meia e eu vou estar na estação à vossa espera. E acrescentara, para eu ficar mais à vontade: — Se precisares, levanta dinheiro na companhia. Estávamos no Inverno de 1950, muito provavelmente nas férias de Carnaval desse ano. As saídas ao domingo eram limitadas – uma por mês em regime normal, com direito a mais uma dita suplementar se a média fosse superior a 12 e ponto final, nada que se comparasse com o desassossego de agora. Porque o Colégio – e todos os internatos, de um modo geral – levavam muito a sério essa característica de clausura, hoje socialmente desvalorizada. E mesmo a saída de fim-de-semana – termo actual, que não corria ao tempo – era restrita na duração, porque, em cumprimento do determinado em Ordem de Serviço, só podia começar depois do estudo da tarde que, ao sábado, terminava no final do 6º tempo, pelas 15:50. Apesar de tudo, este regime até se poderia considerar um tratamento de favor relativamente aos restantes mortais, visto que a função pública trabalhou aos sábados, de manhã e tarde, até 1959 e, à época, todo o comércio estava aberto ao sábado durante todo o dia. Duas razões me levam a crer que a historieta que vou recordar terá acontecido nas férias de Carnaval desse ano de 1950, portanto no chamado Sábado Gordo, ambas ligadas ao factor tempo – e tenho reservas neste ponto, porque a memória já não chega a tanto. Por um lado, num sábado vulgar, não valia a pena marchar para Leiria para voltar no dia 66
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seguinte, porque era cansativo, dispendioso, quase inútil; por outro, saindo do Colégio depois das quatro horas – ainda havia que mudar de farda e de nos apresentarmos ao oficial de dia, ritual invariável da saída – dificilmente teria tido tempo de apanhar, na estação do Rossio, uma automotora que partia às cinco e meia, especialmente com os incidentes que iriam ocorrer pelo caminho. Como o estudo da tarde de sábado era “perdoado” nos dias de saída para férias, o mais provável é que tenha sido isso mesmo que se terá verificado – pormenor, aliás, que pouco altera a história. A automotora, por sua vez, era uma novidade recente. O Pai explicara que havia uma concorrência acesa entre o caminho-de-ferro e a camionagem entre Lisboa e Leiria. Os Capristanos, das Caldas da Rainha, uma celebrada empresa do tempo, tinham a concessão dessa carreira e em Leiria, numa rua estreita sem saída que ficava ao lado do Mercado de Santana, transbordavam passageiros e bagagens para os autocarros dos Oliveiras, de Águeda, que continuavam a viagem até ao Porto. Na mesma rua e no lado oposto ao mercado ficava o moderno Café Santiago, ao tempo o principal ponto de encontro da cidade e, em especial de manhã, com o mercado a funcionar em pleno e os carros num vai-vem incessante de partidas, chegadas, manobras e transbordos, todo este recanto urbano, acanhado mas eficaz, fervilhava de actividade, de gente e de ruído. Os Capristanos tinham entendido que toda a zona de Leiria e seu termo, ignorada pelo traçado da Linha do Norte, que a enjeitara, prometia um crescimento que já se notava e estavam tomando as suas providências. Fora inaugurada recentemente uma nova gare de camionagem no centro das Caldas da Rainha, dando corpo a um conceito novo adaptado do modelo ferroviário e que tinha tido assinalável repercussão; a camionagem preparava-se para servir convenientemente uma região que tinha condições para se desenvolver aceleradamente, se dispusesse dos meios de transporte de que carecia e tinham sido criados (ou
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pretendiam-se criar, não me recordo ao certo) serviços acelerados rodoviários no eixo Lisboa – Leiria, o que era uma boa notícia. A estrada, todavia, não ajudava; a variante da Venda das Raparigas, hoje saturada, ainda estava no plano das intenções e o caminho para Lisboa passava obrigatoriamente por Alcobaça, Caldas da Rainha e Alenquer, num traçado antiquado e caprichoso que o aumento de tráfego tendia a tornar insuportável. Às vezes, o Pai preferia a estrada da Marinha Grande, que entroncava em Alfeizerão e nos poupava a travessia de Alcobaça, as curvas de Aljubarrota e a descida para S. Martinho do Porto mas a melhoria não era de tomo. Nunca se conseguia, de automóvel, fazer menos de duas horas e meia entre Lisboa e Leiria e, mesmo para isso, era preciso escolher judiciosamente as horas de partida e chegada. A viagem eufórica de Artur Agostinho, em “O Leão da Estrela”, ao volante do “espada” americano do patrão, levando António Silva e família para o Porto, ver um desafio de futebol, era mesmo “fita”. Claro, as camionetas de carreira, com mais limitações, nem sequer atingiriam estes tempos e quando a C.P., aproveitando as automotoras suecas Nohab, de recente aquisição, se propôs criar com elas um serviço de ida e volta a Lisboa, no mesmo dia e as mesmas duas horas e meia de viagem, tinha o mercado de longo curso na zona à sua disposição. A automotora partia de Leiria pelas 8:38 da manhã, parava apenas nas principais localidades intermédias e chegava à estação do Rossio às 11:10; à volta, partia às 17:30 e chegava a Leiria pelas 20:00. Quem quisesse aproveitar o serviço ferroviário, saía de Leiria depois do pequeno-almoço e vinha jantar a casa, com pouco mais de 6 horas disponíveis em Lisboa. Era uma excelente iniciativa comercial, também ensaiada, em condições menos favoráveis, para o Algarve, mas que infelizmente não foi devidamente acompanhada e acabou de forma pouco gloriosa. ◊
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Voltando à história, eis-me a tomar o velho eléctrico 13, lento e muito espaçado, na para-
gem mesmo em frente do Colégio, com o meu irmão, rata de fresca data, a reboque. O sábado era um dia como todos os outros e, lentamente, fomos enfrentando, com evangélica paciência, todas as resistências do percurso. A cidade acabava praticamente em Sete Rios, a viagem pela Estrada da Luz, quase desabitada, fazia-se com rapidez aceitável mas quando se chegava à Estrada de Benfica, perto de um local onde se construía então um enorme hospital reservado à oncologia, começava-se a tropeçar em inúmeros incidentes de percurso e a velocidade vinha por aí abaixo. As pessoas queixavam-se do trânsito ser muito, das ruas serem estreitas, do estacionamento ser muito difícil, dos eléctricos empatarem a vida a toda a gente... Anos depois, congregaram-se os esforços para acabar com eles mas ninguém deu pelas melhorias. Chegámos finalmente ao Restauradores, o carro estacionou no desvio em frente do Éden, e avançámos para a estação do Rossio em marcha acelerada, que o tempo não estava muito folgado. Na bilheteira pedi os dois bilhetes para Leiria e verifiquei, com a angústia que se adivinha, que o dinheiro não chegava – faltavam coisa parecida com 7 escudos e meio que, na altura, eram mais conhecidos por sete mil e quinhentos, reminiscência do tempo da moeda da monarquia que persistiu longo tempo na linguagem corrente. Fiquei desolado. Sábado à tarde, sem tempo para voltar para o Colégio para corrigir a situação, sozinho no centro de Lisboa, um pesadelo. Fizera mal as contas, julgara que o Zé tinha ainda direito a meio bilhete e não tinha ou acontecera outra asneira qualquer, asneira que poderia muito bem ter evitado requisitando mais uns escudos na secretaria da companhia. Então, em desespero de causa, sem outra solução visível, lembrei-me de correr ao Café Palladium, junto ao elevador da Calçada da Glória. O Palladium – mais exactamente, o passeio em frente do Palladium – era o ponto de encontro tradicional de alunos e antigos alunos do Colégio, bem como de outras confrarias que nada tinham a ver connosco. Nesse tempo, era uso corrente haver pontos de encontro rotineiros, em geral às esquinas Revista da AAACM
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dos quarteirões, e o mais chique e o mais conhecido de todos eles terá sido, certamente, a esquina da Loja das Meias, no Rossio, onde meia Lisboa se encontrou durante meio século sem nunca fazer tenção de lá comprar fosse o que fosse. Mas para nós, do Colégio, o local de assinatura era o Palladium e era simplesmente impensável, salvo motivo de força maior, imaginar alternativa. No Palladium, passei os olhos em redor mas não vi nenhuma cara conhecida. Rodei uma e outra vez e estava mesmo a preparar-me para desistir e voltar ao eléctrico 13 e ao Colégio, sem outro caminho possível, quando lobriguei o Gil, meio oculto atrás de um poste dos eléctricos, conversando com uma figura desconhecida. Gil Azurara Sampaio de Lemos, 184 de 1940, e universalmente conhecido apenas por Gil, fora meu graduado no segundo ano, estudava agora engenharia no Técnico e quis a Boa Sorte que estivesse nesse preciso momento no passeio do Palladium. Acerquei-me dele, interrompi com cuidado a conversa, resumi a minha desdita, pedi-lhe emprestados os sete mil e quinhentos que me faltavam. Ele riu silenciosamente da minha aventura, era um homem que eu sempre conheci com um sorriso afável e tranquilo, pôs-me duas moedas de cinco escudos na mão, calando os meus protestos que era demais, e mandou-me embora: – Olha que perdes o comboio se continuas com a conversa! Voei pelo passeio dos Restauradores abaixo, com o rata a reboque e a nova angústia de chegar a tempo à automotora. Parei, arfando, na bilheteira, pousei no guichet, sem dizer nada, todo o dinheiro que trazia, incluindo o recente reforço de verba, recebi os bilhetes, que tinham ficado apartados, e galguei as escadas numa correria louca para chegar às linhas a tempo e horas, porque as cinco e meia estavam a chegar e o elevador para o átrio das linhas, além de lento, custava 30 centavos por pessoa e eu não tinha verba para fantasias. Corremos pelo cais fora para a automotora, que já tinha os motores a trabalhar e entrámos na carruagem, quase sufocados, poucos minutos antes do apito da partida. Já 68
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ao abrigo das contingências e quando pisávamos, ruidosamente, as agulhas de saída da estação e entravámos no túnel em direcção a Campolide, contei as moedas que o bilheteiro me devolvera e fiquei-me pelos 24 tostões: se o Gil me tivesse dado a quantia que eu pedira ainda teria faltado dinheiro! Ligeirita, a automotora foi galgando a subida para a Linha do Oeste, fez uma paragem breve no Cacém, outra em Pêro Negro e mais tarde em Torres Vedras, onde cruzámos com um comboio que descia para Lisboa. Por esta altura, a fome começou a apertar: com a ida e a vinda do Palladium não restara tempo (nem verba…) para mastigar um lanche, mesmo frugal que fosse, e o almoço desaparecera havia muito tempo. Pouco depois das sete horas parámos em Caldas da Rainha. A vendedora das cavacas anunciava os bolos na plataforma e baixei o vidro para apreçar. – 15 tostões, o pacote grande, 10 tostões, o pequeno! O balanço já fora feito, só havia uma solução. – Dois pacotes pequenos, se faz favor! Fechei o vidro depois da transacção, a noite já caíra, a automotora retomou a marcha e nós sentámo-nos a roer cada um o seu pacote de cavacas, que desapareceram num ápice, como se imagina. A verba não chegara para a pequena bilha de água e a água do comboio não era potável, havia que mastigar cavacas a seco até aguentar. Sem mais história de realce, às 8 da noite, certinhas, a automotora entrou mansamente na estação de Leiria e estacionou em frente do edifício de passageiros. O Pai estava na plataforma e tomou a direcção das operações, como lhe competia. Chegava a Leiria à hora aprazada, com o par de luvas da ordem, o inseparável bilhete de identidade, um lenço, quatro tostões no porta-moedas e o rata a reboque. E o estômago atulhado de cavacas comidas de empreitada, a pedir desesperadamente um copo de água que as dissolvesse. ◊
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Recordei esta singela história dias atrás quando um troco mais repenicado foi facilitado por uma
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pequena moeda de dez cêntimos que surgiu não sei bem donde – qualquer coisa como 20 escudos de outrora, unidade de contagem que ainda conheci em nota, com a efígie de Santo António de Lisboa. O tostão desapareceu do parque numismático e da linguagem corrente e só é evocado em sentido figurado, coisa que durará até que uma qualquer reforma ortográfica, vinda do outro lado do Atlântico ou de Bruxelas, ponha termo à infracção. Ou, simplesmente, porque a produção acelerada de passado, em que estamos freneticamente empenhados, se encarregue de destruir mais esta referência, inútil aos olhos glaucos dos pragmáticos. Também desapareceram todas as personagens da peça – o Pai, o Gil, o rata, certamente o homem da bilheteira e a mulher das cavacas, que já não eram novos ao tempo. Ficámos eu e a automotora e ambos somos diferentes – ela porque foi substituída por uma modelo mais recente, eu porque fui coleccionando primaveras, sem que a minha vontade aí tenha tido qualquer intervenção. E todo o colorido espectáculo das manhãs no Mercado de Santana também desapareceu. As camionetas, hoje de outra empresa, foram desviadas para uma central de camionagem contígua à antiga Praça das Sardinhas, que, em seu tempo, terá sido novíssima mas hoje é apenas um casarão escuro e pouco acolhedor, o mercado deixou o apropriado edifício onde funcionava a contento de quase todos para ser realojado numa unidade nova, cinzenta, feia e pouco confortável, o café desapareceu por venda ou trespasse e deu lugar a uma loja de roupas, igual a tantas outras que por aí há, sem graça nem memória. O edifício do antigo mercado, uma jóia de arquitectura funcional e urbana, foi convertido em centro cultural, um equipamento cívico que ninguém sabe exactamente o que é e para que serve e que transpira
inutilidade, e a rua foi promovida a via pedonal – dois instrumentos modernos e eruditos de aplicação reiterada na eutanásia dos centros das cidades. As pessoas e, especialmente, as crianças quase desapareceram do local, agora disputado furiosamente por automobilistas que procuram o estacionamento gratuito e zelado pelos agentes da ordem que, aplicadamente, o não outorgam. E o silêncio que pesa no sítio – um silêncio urbano, polido, moderno, quase sepulcral – torna-se confrangedor para quem conheceu outro ambiente, completamente diferente – colorido, vivo, desordenado, cheiroso, barulhento, real, pontuado pelos gritos desencontrados das pessoas e pelas campainhas e buzinas das bicicletas que ecoavam na caldeira gigante onde se aninhou a velha Leiria e que ainda hoje tilintam na minha memória. Senti curiosidade em saber o que aconteceu à automotora – porque o que se passa comigo sei mais ou menos – e consultei o horário actual. Para chegar à mesma hora a Leiria, tem de se partir cerca de uma hora mais cedo, às 16:34, de uma estação pouco acessível e pouco utilizada chamada Entrecampos Poente (diferente da outra Entrecampos, a de toda a gente) e esperar 40 minutos nas Caldas, o que é refinada prova de sofrimento nestes tempos impacientes; a ligação actual mais rápida para Leiria parte depois do almoço, às 14:34, e chega a Leiria 17:07, duas horas e trinta e três minutos depois, num horário todavia imprestável para os propósitos de outrora. Afinal, quando eu pensava tudo estar diferente, tudo ter desaparecido, tudo se ter volatilizado numa glória de modernismo imparável, eis que descubro estar redondamente enganado: o tempo de viagem actual é praticamente o mesmo que era então – e, num inesperado prodígio de regularidade, apenas aumentou 3 minutos em quase 60 anos! Eduardo Maria Rato Martins Zúquete 20/1945
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O Colégio Militar no funeral de Sidónio Pais 90 Anos depois Por volta de Outubro do ano passado, através da AAACM e do coronel José Lopes Canavilhas (o 119/1956, de quem fui graduado), fui solicitado a dar a minha colaboração num filme sobre Sidónio Pais que estava a ser realizado para a RTP. Eram decorridos 90 anos sobre o seu assassinato e, em relação a esse documentário, a realização pretendia que eu lhe fornecesse elementos de pesquisa e fizesse também uma intervenção relatando o “episódio” da participação do Colégio Militar no funeral daquele malogrado Presidente da República. Porque se tratava do Colégio e porque o Canavilhas até tinha um filho trabalhando naquela empresa, disponibilizei-me de imediato. Embora o dito “episódio” fosse, de há muito, do meu conhecimento, cuidei de pesquisar os factos com todo o cuidado e recorrendo ao mais diversificado e maior número possível de fontes. Em Novembro, quando demandado pela realização, lá parti para Lisboa munido de alguns documentos para entregar e com os resultados da pesquisa devidamente ordenados na cabeça para que pudesse fazer a narração. E assim foi! Uma vez sujeito aos tratos do pincel e das tintas da caracterização, avancei resoluto para o estúdio, pronto a enfrentar a câmara de filmar e a entrevistadora. Lá contei em pormenor o tal “episódio”, tendo também respondido a questões relacionadas com a eventual falta 70
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de segurança quando do assassinato do Presidente e com a importância que sempre assumia a Rotunda para as forças envolvidas em todas as revoluções que ocorreram em Lisboa durante a fase final da monarquia e durante a 1.ª República. Cumprida a missão, tomei o comboio e regressei ao Porto, ficando à espera por Dezembro, mês em que fora assassinado Sidónio Pais e em que seria exibido o filme. De facto, no dia 13 à noite, o documentário foi exibido no canal 1. Só que, contrariamente ao
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que eu supunha, o mesmo não versava o “assassinado” mas sim o “assassino”, pelo que, do tal “episódio” protagonizado pelos “meninos da Luz” ... nem vestígios! Embora os ex-alunos mais antigos conheçam, ainda que genericamente, o que se passou naquele distante 21 de Dezembro de 1918, penso que tal não acontecerá com a maioria dos mais jovens e, muito menos, com a generalidade dos portugueses. Nestas circunstâncias, porque guardo os elementos que então recolhi na pesquisa efectuada, e porque julgo conveniente deixar registo de tal acontecimento para a História colegial, atrevo-me a pedir aos leitores que assim o entenderem alguns minutos da sua paciência e atenção. Sidónio Bernardino da Silva Pais nasceu em Caminha no primeiro dia de Maio de 1872. Terminados os estudos secundários, ingressou na Escola do Exército em 1888, ali concluindo o curso de oficial de Artilharia, após o que ascendeu, em 1892, ao posto de alferes. Paralelamente à sua carreira militar – na qual foi promovido a tenente em 1895 e a capitão em 1906 - frequentou também a Universidade de Coimbra tendo-se licenciado em Matemática em 1898, passando depois a professor catedrático de “Cálculo Diferencial e Integral” naquela mesma universidade, mas exercendo também a docência na Escola Industrial Brotero, da qual viria a ser director em 1911. Desde os seus tempos de universitário, Sidónio manifestou-se adepto dos ideais republicanos, conspirando contra o regime monárquico vindo a tornar-se no “irmão Carlyle” da loja maçónica “Estrela de Alva” na cidade de Coimbra. Com a implantação da República, foi deputado à Assembleia Nacional Constituinte; ministro do Fomento do governo de João Chagas, desde 24 de Agosto de 1911; ministro das Finanças do governo de Augusto de Vasconcelos, desde 7 de Novembro do mesmo ano; e embaixador em Berlim, desde 17 de Agosto de 1912 até 9 de Março de 1916, data em que a Alemanha declarou guerra a Portugal. Regressado a Lisboa, protagoniza a contestação ao governo de então e encabeça mesmo o vi-
torioso golpe de estado de 5 de Dezembro de 1917, após três dias de violentos confrontos. Três dias depois torna-se então Presidente da Junta Revolucionária e, volvidos mais três, acumula os cargos de Presidente do Governo e de ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros. Duas semanas depois, a 27 de Dezembro, é nomeado Presidente da República. Modifica a lei eleitoral e, em 28 de Abril de 1918, vem a ser eleito por sufrágio directo para a mesma magistratura suprema. Apesar do país se encontrar envolvido na I Grande Guerra, Sidónio desenvolve uma política de proximidade que gera um coro de simpatia junto da população, instituindo a “sopa dos pobres”, visitando hospitais e orfanatos, etc. Fernando Pessoa chega mesmo a designá-lo por “Presidente-Rei”. Porém, a sua tendência ditatorial e a proximidade que veio a estabelecer com os sectores mais conservadores e monárquicos, cedo lhe valeu grandes inimizades, de tal sorte que o seu “estado de graça” em breve se esfumou, sucedendo-se então as greves, as contestações, e as tentativas de pôr fim ao seu regime. O armistício de 11 de Novembro de 1918, que põe fim ao conflito mundial, não é porém suficiente para moderar a situação e, a 5 de Dezembro, durante uma cerimónia, Sidónio sofre um primeiro atentado de que consegue escapar ileso. Volvidos nove dias, na noite de 14 de Dezembro, Sidónio Pais, acompanhado de um filho e do irmão, dirigiu-se para a estação do Rossio a fim de apanhar um comboio para o Porto, sendo recebido sob ovações de muita gente que ali se concentrara para o aplaudir. Após se ouvir o hino nacional pela banda da GNR, o Presidente é baleado à queima-roupa por dois atiradores. Ferido de morte, consegue porém balbuciar lentamente “Mataram-me! Morro, mas morro bem! Salvem a Pátria...”. Mesmo assim, conduzem-no ao hospital de S. José onde viria a falecer. Tinha 46 anos e era quase meia-noite. Após o crime gerou-se a confusão e os tumultos, de que resultaram quatro pessoas mortas, vários feridos, entre os quais o irmão e o filho do Presidente, e a prisão de um dos assassinos, tendo um outro sido morto. Revista da AAACM
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O país mergulhou em grande consternação e as condolências e manifestações de pesar vieram de todos os recantos. O cadáver foi levado para o palácio de Belém envolto no capote, onde foi deposto sobre a cama do quarto presidencial. Depois, três médicos procederam à sua autópsia e embalsamamento, vestiram-lhe o uniforme e depositaram-no numa urna almofadada de seda. Pela manhã e durante o dia foram desfilando perante o corpo hirto de Sidónio Pais, velado por cadetes da Escola de Guerra, diversas personalidades oficiais. À noite, o corpo do Presidente assassinado foi conduzido, sob escolta e em cortejo, para a Câmara Municipal de Lisboa cujo Largo se apinhava de gente. O funeral, que haveria de levar corpo para ao Mosteiro dos Jerónimos, onde teria última jazida, foi marcado para 21 de Dezembro, um sábado. Até lá, uma multidão silenciosa, estendendo-se durante horas numa longa fila, ia desfilando em direcção à sede do município para, no pesado ambiente da câmara ardente, prestar uma derradeira homenagem ao “Presidente-Rei”. Entretanto, preparava-se o funeral, cujo cortejo passaria pelo Terreiro do Paço, rua Augusta, contornaria o Rossio pelo lado norte , e seguiria depois, através do Chiado, rumo à marginal e, ao longo desta até Belém.. Tais preparativos envolviam a participação das forças armadas e policiais, de instituições e agremiações, e também do Colégio Militar. A este coube-lhe como missão posicionar no Rossio, frente ao Teatro Nacional, uma guarda que prestaria honras fúnebres à passagem do féretro naquele local. Uma vez que, na capital, os ânimos andavam muito exaltados e se ouviam boatos de que, durante o funeral, iria haver arruaças, agitação e distúrbios, com a consequente alteração da ordem, o coronel Eduardo Augusto de Almeida, então director do Colégio, decidiu: que o Colégio se faria representar por uma Companhia a 3 pelotões (constituída pelos 72
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alunos mais velhos e com melhor constituição física), com bandeira e a banda de música do Regimento de Infantaria 5; que a companhia e os pelotões, ao contrário do usual, seriam comandados por capitães do quadro permanente e não pelos alunos graduados; que os alunos e respectivo armamento seriam previamente transportados para a Escola de Guerra, em Gomes Freire, sendo daqui que, em marcha, debaixo de formatura, se deslocariam para o local onde teriam que prestar as honras fúnebres, findas as quais se procederia de modo inverso. No seguimento destas decisões, foram nomeados: Comandante da Companhia, o capitão José Lúcio de Sousa Dias (instrutor de ginástica e de esgrima e ex-aluno n.º 87/1890); Comandante do 1.º Pelotão, o capitão Artur Coelho Nobre de Figueiredo; Comandante do 2.º Pelotão, o capitão João Centeno de Sousa; Comandante do 3.º Pelotão, o capitão Caetano Alberto de Barcelos. A Bandeira foi confiada ao respectivo portabandeira, o aluno n.º 292/1913, Alberto Vasconcelos Paes de Figueiredo, compondo a escolta os seguintes alunos do 7.º ano1 184/1912, Carlos Tavares de Magalhães; 193/1912, António Alexandre de Carvalho; 272/1912, Joaquim Pereira de Macedo; 273/1912, Lúcio Maia Pinto da Fonseca; e 303/1914, Jaime Furtado Leote. «Conforme determinado, às horas precisas, saiu a formatura da Escola de Guerra, de música à frente e Bandeira desfraldada, a tomar a sua posição, em linha de pelotões, com a frente voltada para o Teatro D. Maria, no Rossio».1 Cerca do meio-dia, a Companhia estacionava no local que lhe estava reservado, ficando a aguardar a passagem do cortejo. «A urna partia da Praça do Município, inclinada num armão de Artilharia de enormes rodas, e inteiramente coberta pela Bandeira Nacional, à excepção do rosto de Sidónio Pais».2 «Soa va, na grande Praça do Município, um retinido toque de clarins das cavalarias; pas-
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savam generais medalhados e, ao longe, no Terreiro do Paço, formavam as colectividades, apareciam os lentes e os magistrados, com suas arcaicas vestes, ondeavam bandeiras, pendões e estandartes cobertos de luto e tudo ficava a pé firme uma grande hora, para ir até Belém, essa légua vasta, atrás daquele morto. Estavam quase todos os deputados e senadores; dos monárquicos poucos faltavam e nem sequer se conversava em política nesse círculo das arcadas do Município».3 «Pusera-se o cortejo em marcha e ... já uma parte ia no Aterro, tendo dado a volta pelo Chiado e Alecrim, ainda o armão que conduzia o cadáver estava à porta da Câmara».3 «Pouco passava das 14h00 quando a vanguarda entrou na rua Augusta onde, das janelas e varandas dos edifícios pendiam crepes, encontrando-se os passeios repletos de pessoas. Ouviu-se então uma detonação entre as esquinas das ruas de S. Nicolau e de S. Julião, cuja origem teve várias versões. Pouco depois, ter-se-ão ouvido tiros procedentes da zona do Hotel Internacional e Hotel Duas Nações, ambos na rua Augusta. O pânico transmitiu-se rapidamente pela multidão, o mesmo acontecendo nos agentes da ordem e nos soldados que balizavam a multidão ao longo dos passeios, e até entre aqueles que integravam o cortejo. Fugiram sem saber para onde, atropelando-se, amachucando-se e contundindo-se Aqueles que tinham armas trataram de as disparar contra um inimigo imaginário, tomando tudo e todos por desordeiros que os pretenderiam chacinar. A rua ficou deserta e algumas montras e janelas ficaram com os vidros estilhaçados.»4 O incidente provocou também o pânico nas pessoas que ocupavam o Rossio, por essa ocasião completamente apinhado de assistentes. Quase de imediato, vinda da rua Augusta e da rua do Ouro, começou a desaguar naquela praça, já de si repleta, uma desvairada multidão de apavorados fugitivos sob infernal gritaria. Todos queriam fugir, em qualquer direcção, desordenadamente enquanto se iam atropelando e espezinhando uns aos outros.
No espaço de segundos, a Companhia de alunos do Colégio Militar enfrenta a caótica situação com rara serenidade e determinação. Faz meia volta, ficando agora de frente para a placa central do Rossio, arma baionetas e detém a descontrolada multidão em pânico. «A banda de música desmantelou-se; os seus componentes abandonaram a formação espavoridos, excepto o respectivo chefe e o bombo».1 Enquanto isso, «os componentes da formação da Instrução Militar Prepa ratória, que nessa ocasião desfilava, deitaram-se no chão prote gidos pela firme linha de baionetas dos alunos do Colégio Militar. Alguns dos sargentos que comandavam estes futuros soldados, metiam balas nas câmaras das pistolas. Um guarda de polícia cívica estava a abrir a culatra da espingarda para meter balas, quando os componentes da escolta à bandeira, um pouco deslocados da linha geral de baionetas dos alunos, resolveram abordá-lo e esvaziaram-lhe a respectiva cartucheira, servindo-se dos carregadores para meterem nas suas próprias espingardas. O porta-bandeira isolado da sua escolta, agora fazendo parte da linha geral de baionetas, desembainhou a espada e o melhor que pôde protegeu a retaguarda dos seus companheiros. Tudo isto aconteceu em poucos momentos. A onda de fugitivos, desordenada e em pânico, foi sustida pelas pontas das baionetas firmemente seguras pelos Meninos da Luz. Ninguém passou, ninguém conseguiu romper a linha constituída por tantos jovens firmes nos seus propósitos de evitar uma confusão catastrófica.»1 «A missão era não deixar passar quaisquer pessoas através da formatura, a fim de não sermos levados na enxurrada do pânico e não sermos espezinhados».5 «O Rossio, com o pânico, esvaziou-se em muito pouco tempo, apresentando o solo juncado dos mais variados objectos».5 «Apenas se viam no pavimento chapéus, sapatos e malas de senhora. Tinham debandado também as formações militares. Revista da AAACM
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(...) Desfeito o cortejo, restavam abandonadas e imóveis peças e armões de artilharia. Cavalos espantados espinoteavam e vagueavam ao acaso sem cavaleiro. Nesta confusão, neste destroço, apenas duas formaturas se mantinham no seu lugar, quietas e alinhadas, como alheias a tudo que ocorria à sua volta: uma formação militar inglesa, com a sua bandeira, firme e imóvel, no passeio ocidental do Rossio, e a Companhia do Colégio que (...) conservava suas espingardas em posição de guarda, de baionetas armadas, como num exercício de parada. Na imensa praça vazia de gente e cheia de destroços, aquelas duas formações, a inglesa e a companhia de Meninos da Luz, causaram o pasmo e a admiração de quem teve ainda serenidade para as observar. Os ingleses assim se mantiveram por boa educação cívica, noção do dever militar e espírito de disciplina; o Colégio, por camaradagem, sentindo que em nenhum outro lugar estariam mais seguros que junto uns dos outros».6 «Conseguida a calma e, de novo, o sossego, tudo se refez. A Companhia tornou à sua formatura regular (...). A banda de música reorganizou-se. A bandeira, com o seu porta-bandeira, viu-se de novo rodeada da sua heróica escolta. 74
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(...) A firmeza disciplinada da Companhia do Colégio Militar durante o tumulto depressa foi conhecida e transmitida. Das janelas dos prédios do Rossio viam-se e ouviam-se manifestações afectuosas aos Meninos da Luz. A formatura, se já era impecável, mais perfeita ficou durante a passagem do resto do préstito fúnebre. Depois, no final, quando a Companhia do Colégio Militar desfilou com a banda de música a tocar marchas militares, a caminho da Escola de Guerra onde se ia desarmar e dispersar (...) sempre acompanhada de palmas e ma nifestações de amizade das pessoas que a viam passar nas ruas e nas janelas».1 A imprensa da época fez, acerca deste episódio, elogiosas referências ao Colégio e aos seus pequenos-grandes alunos: À primeira investida da multidão apavorada que vinha dos lados da rua do Ouro e rua Augusta, fizeram meia volta armaram as suas baionetas e mantiveram, sem que um só abandonasse a fileira e sem que alguém ousasse desbaratar aquela força infantil mas heróica. E assim se conservam serenos, até que passou a primeira tempestade.
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(...) o heróico batalhão em miniatura obedece a voz dos seus chefes e, enquanto por todos os lados homens experientes se deitam no chão para não serem atingidos pelas balas, eles os pequeninos que hão-de ser amanhã a esperança de nós todos, davam um alto e esplêndido exemplo da sua coragem, conservando-se de pé, unidos e vibrantes como um só homem. – Jornal “O Dia” de 21 de Dezembro de 1918. Também é justo mencionar a placidez e a calma dos alunos do Colégio Militar, por ocasião do pânico, formados junto ao Teatro Nacional. Com as suas pequenas armas, não arredaram pé do sítio onde se encontravam, dando aos que fugiram um exemplo vivo de coragem e de serenidade. - Jornal “O Século” de 22 de Dezembro de 1918. É bom frisar que o Batalhão de Alunos do Colégio Militar, que estava na praça de D. Pedro, em frente ao posto de Polícia do Teatro Nacional, se portou valentemente, evitando que o pânico fosse maior. De baionetas caladas, puseram-se à frente do povo para que não fugisse, dizendo os pequenos militares que não era nada e que não havia motivo para fugir. – Jornal “Diário de Notícias” de 22 de Dezembro de 1918. É justo referir que o sangue e a coragem dos alunos do Colégio Militar, durante os distúrbios, se notou em todos os incidentes que ocorreram, pois estavam na Baixa logo que se deu o primeiro pânico, sob as ordens dos capitães Barcelos, Sousa Dias, Figueiredo e Centeno. Os corajosos pequenos estavam em formatura desde o meio-dia. - Jornal “O Século” de 23 de Dezembro de 1918. Pouco mais que uma semana decorrida sobre os acontecimentos, o Conselho Escolar, reunido em sessão em 31 de Dezembro, aprovou comovidamente e por unanimidade uma moção que lhe foi apresentada pelo professor de Ciências Naturais, Alfredo Augusto Machado da Costa, coronel de Artilharia, ex-aluno n.º 230/1883, que era do seguinte teor: «Atendendo à notável atitude do Batalhão Colegial perante as graves tentativas de per-
turbação da ordem pública por ocasião dos funerais de Sua Ex.ª o Presidente da República; e considerando que a impressionante serenidade manifestada por espíritos tão juvenis teve uma poderosa influência na dissipação do terror que se começava a apoderar da população de Lisboa, e das classes que tomavam parte no cortejo fúnebre, podendo impedir a sua realização; considerando que a firmeza e a coragem dos alunos do Colégio Militar entusiástica e comovedoramente registadas pelas corporações que as presenciaram e bem assim pela imprensa periódica da Capital são a mais convincente demonstração de que a actual geração escolar mantém íntegras as honrosas tradições legadas pelas que a precederam; considerando que actos públicos de tal natureza vêm provar ao corpo educativo do Colégio Militar que as suas lições e exemplos, frutificando, fizeram conservar, sem quebra de um momento tão gloriosa herança; o conselho escolar na sua primeira sessão ordinária, posterior aos acontecimentos, resolve: 1.° Exarar na acta um voto da sua mais enternecida homenagem ao nobre procedi mento dos seus educandos em tão grave conjuntura; 2.º Significar solenemente ao Batalhão Colegial o modo de sentir dos seus educadores que nos corações paternais ficam alimentando a esperança de que o avigoramento de tão preciosas qualidades, trará à Pátria, com melhores dias, uma geração de valorosos defensores.» Mas, porventura, a mais enternecedora e elogiosa manifestação de apreço seja a de Rocha Martins, escritor e jornalista que viveu os factos atrás descritos, que escreve no seu livro «Sidónio Pais - Ídolo e mártir da República» o seguinte: «Só os alunos do Colégio Militar calaram as baionetas, ficaram a pé firme em volta da sua bandeira, vendo fugir o povoléu, o chão juncado de sapatos, de bengalas, chapéus e guarda-chuvas, o Rossio semeado de destroços, diante dos seus candeeiros envoltos em crepes. Quando lá passámos, os pequenitos, tropa de Lilliput de coração gigante, tinham o aspecRevista da AAACM
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to daqueles soldados napoleónicos que, ao serem baptizados pelo fogo, pareciam sentir crescer os bigodes, quando, antes dos tiros
das guerras, ao partirem, voltavam as cabecitas para trás, como para as esconderem ainda nos seios das suas mães.» Porto, Janeiro de 2009 José Alberto da Costa Matos 96/1950
- Depoimento testemunhal do ex-aluno 292/193, Paes de Figueiredo (o porta-bandeira), na Revista da AAACM n.º 5, de 1966. - Humberto Delgado - Biografia do General sem Medo, de Frederico Delgado Rosa, A Esfera dos Livros, Abril de 2008. - Sidónio Pais - Ídolo e mártir da República, de Rocha Martins, Bonecos Rebeldes, Abril de 2008. 4 - Jornal “O Século”, edição de 22 de Dezembro de 1918. 5 - Depoimento testemunhal do ex-aluno 335/1914, António da Silva Leitão, na Revista da AAACM n.º 7, de 1967. 6 - Depoimento testemunhal do ex-aluno 191/1914, António Santa Clara Ferreira, na Revista da AAACM n.º 9, de 1967. 1 2 3
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Recordações do Tempo Colegial UMA TURMA DE ALEMÃO MUITO ESPECIAL! Por, há pouco tempo, ter falecido após doença prolongada, o Victor Saraiva Marques (22/1940), ocorreu-me uma “odisseia” vivida pelos componentes duma turma de alemão nos anos 1940/1943. Só o reduzido grupo de dez alunos, que a constituía, poderá lembrar o que se passou. O termos pertencido a essa “famigerada” turma, que “gozou” de umas condições de vida muito especiais e teve muita fama dentro do Colégio (não no melhor sentido), gerou entre todos um contacto muito íntimo. Um dos alunos dessa turma, o Victor, o ”Pencael”, desde sempre bem integrado no espírito colegial, denotou, ao longo da vida, um profundo amor ao “seu” Colégio1, nunca faltando a qualquer reunião, quer dos seus cursos, quer geral, mesmo quando, devido ao seu debilitado estado de saúde, já com dificuldade se deslocava. Enveredou pela carreira militar, Arma de Cavalaria. Sobre a sua vida profissional e familiar, alguém com mais conhecimentos do que eu, poderá fazer um apropriado relato. Eu irei apenas relembrar uma fase da nossa vida nos 4º, 5º e 6º ano do Colégio. ESCOLHA DA DISCIPLINA DE ALEMÃO Quando se passava para o 4º ano tinha que se optar por frequentar Inglês ou Alemão. Nos primeiros anos do Colégio eu via, ao passar pelos corredores, que o professor de alemão tinha por hábito dar as aulas de porta aberta e constatei que havia apenas um ou dois alunos, sempre sentados na secretária, junto do professor. Soube que esses alunos tinham óptimos resultados escolares e frequentavam muitas festas dadas na embaixada alemã. Pensei logo, “chico esperto”, que assim teria de estudar menos e sairia da aula com a matéria toda sabida. Praticamente, era menos uma disciplina! Os alunos, de outros anos de alemão, confirmaram que assim era, na realidade. Mas, tal como eu, pensaram mais nove
“espertalhões”, pelo que a nossa turma passou a ter 10 alunos2, o que nunca sucedera em anos anteriores. A disciplina era regida pelo então Capitão Vieira da Fonseca, (mais conhecido pelo VON) que era um óptimo professor. IDAS DO “VON” PARA COMISSÕES NO ESTRANGEIRO A 2ª Guerra Mundial começara por essa altura (estávamos em 1940) e o “VON”, durante o primeiro período do nosso 4º Ano, ensinou o DER, DIE, DAS e pouco mais. Foi então enviado numa Missão para a Alemanha e só voltou no início do 1º período do 5º ano. Como já nada sabíamos, tornou a ensinar o DER, DIE, DAS3 e, no final deste período ... voltou a partir para a Alemanha. Com estas prolongadas ausências a nossa turma de alemão começou a fazer uma vida muito especial dentro do Colégio. É bom lembrar que naquele tempo, uma turma nunca se deslocava dum local para outro senão em formatura, devidamente comandada pelo Chefe de Turma. Ao verificarmos que, andando em formatura bem aprumada, marchando correctamente e fazendo rigorosamente os “olhar à esquerda” e os “olhar à direita”, ninguém nos fazia perguntas, começámos a “desenfiar-nos” das vistas de quem nos pudesse controlar Assim, enquanto os outros estavam na aula de inglês, nós pisgávamo-nos para o Alto da Quinta ou para a Formação4. Claro que nunca chegámos atrasados à aula seguinte e as nossas formaturas eram absolutamente impecáveis e com movimentos de braços e batimentos, que fariam inveja a qualquer tropa de páraquedistas, comandos, etc. Caso impar: marchávamos os dez5, sem Chefe de Turma, mas havia um que, com um pequeno som, indicava o momento do batimento com o pé esquerdo (forte e certinho!). Nesta época, ainda todos os elementos da formatura faziam a continência, levando a mão direita ao barrete. Aquilo nunca falhou durante quatro períodos escolares. Revista da AAACM
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O 6º ANO E O BRAZÃO Quando voltámos das Férias Grandes do 5º Ano, verificámos surpreendidos que, nos nossos Horários, havia um outro Professor de Alemão: o Alferes Brazão
Ainda hoje todos temos remorsos do nosso procedimento para com o “pobre” Alferes Brazão. Ele era jovem, dedicado e delicado, formara-se há pouco tempo e não tinha ainda grande experiência como professor.
A «TURMA DE ALEMÃO» DE 1940/1943 6 – Louzeiro, 20 – Faria, 22 – Marques, 69 – Raposo, 129 – Dores, 133 – Sabbo, 142 – Larcher, 214 – Durval, 325 – Santos, 359 - Bandeira Fizemos tais coisas nas aulas de alemão (actualmente seriam actos inofensivos) que, a certa altura, ele já tinha feito quatro participações da turma em geral e oito do “Pencael”. Este era muito alegre e alinhava em todas as brin78
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cadeiras/disparates que alguém engendrava (muitas vezes ele próprio!). Não era pior nem melhor que os outros, mas o ter sempre resposta pronta ou uma piada a propósito de algo que se passasse, trouxe-lhe, por vezes, alguns
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dissabores que, só o facto de ser possuidor de uma viva inteligência, lhe permitiu ir singrando, sem percalços de maior, na sua vida escolar. Já com as participações em andamento, mas não por culpa “específica” da malta de alemão, houve uma “boiada” ao Oficial de Dia, o “Caroço de Azeitona”, feita das janelas dos claustros, pela “Terceira”. Uma “boiada” é sempre um grave acto de indisciplina que, não pode, nem deve, ser admitida. Dela resultou, como primeira medida, a ordem do Director (o famoso “Cobras”) para serem aparafusadas as janelas dos claustros. Como reacção, no dia seguinte de manhã, logo após o primeiro estudo, todos as janelas da 3ª Companhia, tinham “escritos” colados nas vidraças. Esta acção, executada em poucos instantes por, praticamente, todos os alunos da “3ª”, fora engendrada pela” turma de alemão”! A malta, por trás dos vidros, ia observando as reacções de quem entrava nos claustros. Alguns, poucos, riam-se, mas a maior parte porém, fazia cara de poucos amigos. Mais tarde, o Oficial, Comandante da 3ª, em formatura da companhia, ordenou que os implicados nas “colagens” se acusassem e dessem um passo em frente. Nós, que já esperávamos reacção similar, estávamos preparados. Num acto, disciplinarmente muito grave, toda a Companhia deu um passo em frente. Com o decorrer dos dias, a “coisa” agudizou-se de tal modo que foi nomeado um oficial de grande prestígio no Colégio, o Capitão Bívar, o “Chato” para resolver o assunto, pois a solução estava a apontar para grave punição, inclusive alguma “expulsão”. Dias depois, apareceu numa formatura da “3ª”, o Capitão Bívar que apenas disse que ia para o seu gabinete e esperava que, dentro de meia hora, lá se apresentassem os responsáveis pela “coladela dos escritos”. A malta de alemão reuniu e rapidamente decidiu que nós, e só nós, devíamos arcar com as consequências dos nossos actos. Lembro-me, como se fosse hoje, da nossa ida ao gabinete do Bívar.
Cientes das atitudes tomadas até ali, entrámos caladinhos, muito aprumados, com cara de pau e… bastante “à rasca”. Ele era de muito baixa estatura e entre nós havia quatro que rondavam o 1,80 m. O “Chato”, em muito poucas palavras, começou por lembrar a um, que o pai dele fora seu contemporâneo no CM; a um outro que fora aluno do respectivo pai; ao seguinte que o pai era do Curso dele da Escola do Exército e assim sucessivamente. Mas, sempre que se dirigia a cada um de nós, enfiava-nos uma valente bofetada na cara! Nós, já uns “granjolões” de 16, 17 anos, não “tugimos nem mugimos” e, com cara de “mau”, queixo bem erguido e numa posição de sentido ultra rigorosa, ficámos impávidos. De imediato fomos corridos para fora do gabinete com um berro: “Nunca mais quero ouvir falar desta turma de alemão!”. Cá fora, reunimo-nos e chegámos à conclusão que a única solução possível para não sermos “lixados” era deixar de “chagar” o Brazão6. Por outro lado o Bívar deve ter dado uma explicação/raspanete ao Brazão e ele, a partir daí, em vez de entrar, com ar desconfiado, começava sempre a aula, consultando-nos sobre os resultados do futebol ou do atletismo e a interessar-se pelas nossas actividades desportivas. Daí até ao fim do ano, “entrámos numa boa” e a turma procurou preparar-se, no tempo que restava do ano lectivo, para o exame final que era igual para todos os liceus do país. Claro que, apesar da boa vontade de professor e alunos, tal não foi possível e alguns tiveram de repetir o 6º ano. Depois daqueles meses de esforço conjunto, ficámos muitíssimo amigos do Professor Brazão a quem fomos acompanhando pela vida fora e convidando para as nossas reuniões de Curso. Estes três anos de vida em conjunto criaram entre os elementos desta turma de alemão uma tão grande estima e camaradagem que, cada vez que um “nos abandona7”, o grupo se sente amputado e fica pedindo sentidamente a Deus pelo seu querido camarada. Pela Turma de Alemão de 1940/1943 Álvaro Augusto da Fonseca Sabbo 133/1938
O seu filho também é ex-aluno, bem como um neto (foi Comandante de Batalhão). O outro neto ainda é aluno do Colégio. O resto da turma, a de Inglês, poucos mais alunos tinha O alemão tem declinações, o que complica o seu estudo. DER, DIE, DAS é o artigo definido. 4 A Formação, onde estavam os cavalos, era no exterior do Colégio, onde fica agora a Associação dos Antigos Alunos. 5 Constituíam a turma: 6/Louzeiro, 20/Faria, 22/Marques, 69/Raposo, 120/Dores, 133/Sabbo, 142/Larcher, 214/Durval, 325/ /Fadié e 359/Bandeira 6 Não nos consta que desta acção disciplinar tenham resultado quaisquer traumas nas “criancinhas…” 1
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Rostos que fazem voltar ao outro lado do tempo Há coisa de uns dois anos fiz mais uma das minhas incursões colegiais para procurar velhos documentos perdidos nos esconsos dos arquivos, na perspectiva de descobrir novos dados para a História do Colégio, ou apenas para me aprazer com factos ou situações que os registos documentais têm o condão de transportar para aquém do tempo. Na verdade, se estivermos dispostos a despender algumas horas, ou mesmo dias, quase sempre acabamos por ser confrontados com casos até então desconhecidos; com “certezas” que, afinal, não o eram; com vivências que ignorávamos; ou com episódios onde existe a marca dos valores cívicos e morais que Teixeira Rebelo, desde o início, apontava como guia de conduta aos seus colegiais. Daquela vez, movia-me a pesquisa de dados para o livro “Histórias e Memórias” que o meu curso “determinara” que eu escrevesse e ilustrasse, para assinalar com a sua publicação os cinquenta anos de saída do Colégio. Era um fim de tarde e o claustro cobria-se lentamente do cinzento da luz ambiente e do negro da sombra dos colunas, quando decidi interpelar pessoas com mais tempo de permanência colegial, acerca de qualquer coisa que já não recordo. Fazia eu esta diligência na Secção Financeira quando ali chegou uma senhora da Secretaria trazendo na mão um saco de plástico com fotografias tipo passe, que ela disse andarem por lá sem serventia e que, por serem muito velhas, eram para deitar fora. A expressão “muito velhas” soou em mim como uma sirene de alarme! “Posso ver?” – perguntei de imediato. “Com certeza!” Dentro do saco, destinadas a desaparecer, havia dezenas de pequenas fotografias de professores, de oficiais e de empregados civis. Sabendo eu que a maioria delas não figurava nos registos de imagem do Arquivo Histórico (que eu havia vasculhado, fotografia a fotografia, quando preparara a “História do Colégio 80
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Militar”), cuidei de imediato em salvá-las da condenação suprema e de recolhê-las no local onde podem conservar-se como documentos históricos que de facto são. Nesse dia à noite detive-me a olhá-las, uma a uma. Alguns daqueles rostos fizeram-me voltar ao outro lado do tempo. Eram esquecidas lembranças da minha passagem pelo Colégio, que a memória em parte conservava apesar de terem decorrido tantos anos. Lá estavam o Zé Miranda, o Sebastião, o Abílio, a “menina” Cacilda, o Zé Ramalho... eu sei lá !!! Tantos discretos protagonistas da adolescência de centenas de “meninos da Luz”, cúmplices das suas diabruras, amparo em situações de infortúnio, sempre disponíveis para um conselho oportuno, e sempre dedicados servidores do Colégio e dos seus alunos. Tantos de nós os conservam na sua memória, associados a episódios da nossa vivência na Luz! Deles, já poucos existem a quem possamos expressar com o nosso abraço o carinho e a gratidão que lhes devemos. Mas não é a sua ausência física que impede que os perpetuemos na nossa lembrança e que continuemos a fazer deles os protagonistas de tantas histórias que contamos e recontamos, e de tantas outras que ficam por contar. Depois de reviver cada um, fiquei com dúvidas em relação ao nome de uma meia dúzia. Para resolver a questão, voltei no dia seguinte à Secção Financeira e socorri-me do vasto saber das coisas colegiais da D. Fernanda Mendes e da D. Maria da Graça Tomás (mulher do Leonel, que é já outro dos ícones do Colégio). A sua disponibilidade e os seus muitos anos de serviço permitiram-me desfazer as dúvidas ou confirmar as minhas quase certezas. Mas também elas se deliciaram, com saudade, a reviver outros tempos e outros servidores do Colégio Militar. Para que aqueles que foram alunos nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado, possam
RECORDANDO Rostos que fazem voltar ao outro lado do tempo
também usufruir desse regresso ao passado, aqui se divulgam as fotografias que foram salvas por acaso e se deixa testemunho de reco-
nhecimento a esses inesquecíveis funcionários do Colégio. Vejam... e regressem à vossa adolescência ! Porto, Janeiro de 2009 José Alberto da Costa Matos 96/1950
ABÍLIO
AIRES
ANTÓNIO SALOIO
ARTUR CARPINTEIRO
“Menina” CACILDA
CARRANÇO
FRANCISCO BARBACENA
GERMANO
JAIME GODINHO
JOSÉ LUÍS
“Menina” LISETE
MANUEL RIBEIRO
MANUEL SEIA
MANUEL SOUSA
MARCELINO NUNES
MÁRIO BERNARDO
ZÉ MIRANDA
NUNES
ZÉ RAMALHO
RAMOS
SABINO
SARAGOÇA
SEBASTIÃO
VILELA
“Dona” TERESA
CÂNDIDO “Moca”
XAVIER Revista da AAACM
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RECORDANDO
RECORDANDO Rostos que fazem voltar ao outro lado do tempo
À hora das refeições, os Fâmulos reuniam-se no refeitório, vestiam um casaco branco e, sob as ordens do JOÃO “Meia Lua” (ao centro da foto), serviam à mesa os Alunos
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RECORDANDO A Obra de Barata Feyo (105/1911 e o Colégio Militar
A Obra de BARATA FEYO (105/1911) e o COLÉGIO MILITAR
Auto Retrato
Há dias, quando atravessava o Largo da Luz na companhia dos engenheiros Martiniano Gonçalves (9/1958) e Mário Falcão (314/1936), olhando para o monumento dedicado ao Colégio Militar comentei que os relevos em bronze ali colocados – VALOR, LEALDADE e MÉRITO eram da autoria de Barata Feyo. Se a memória não me falhasse era o primeiro trabalho de arte pública do 105/1911 e acrescentei que desta data, 1932, eram também as suas figuras alegóricas do Jardim Afonso de Albuquerque, em Belém. Pediu-me então Mário Falcão que passasse a escrito as minhas palavras para eventual inclusão na Revista da Associação.
Falar de Salvador Joaquim Barata Feyo não é tarefa fácil. Fui seu aluno na Escola do Porto e posso parecer suspeito. Possuía uma cultura invejável. No modo como se relacionava com os outros era de um trato impecável, procurando não ferir ninguém. Tinha um apurado sentido de humor e sabia usá-lo com subtileza. Já em Lisboa e a exercer funções docentes no Colégio Militar dava, por vezes, um salto ao Porto e, quando o fazia, batia à porta do atelier do Mestre, em S. Lázaro. Eram visitas de médico, é certo, mas davam para o pôr ao corrente dos meus trabalhos e das dúvidas que me assaltavam o espírito, eu da Escola, ele do seu Colégio Militar. Interessava-se muito pelo que iam fazendo os seus alunos. Numa dessas visitas disse-me que pensava em oferecer o estudo para a estátua equestre do Marechal Teixeira Rebelo ao museu colegial que sabia estar nos calabouços, quando era Director do Colégio Militar o Tenente-General Perry da Câmara. Penso mesmo que houve então troca de correspondência entre o Mestre e o Director. E, se bem o pensou, melhor o fez. Guardou o gesso e o bronze e enviou-o para a Luz. Em Lisboa podemos ver trabalhos seus, como a “temperança”, figura sentada que se integra na fachada da Assembleia da República, o ”Cristo na Cruz” da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, o Antero de Quental, no Jardim da Estrela, o Garrett e o Herculano na Avenida da Liberdade, as figuras do pescador e da mulher do pescador em Alcântara, o relevo de S. João de Brito, S. Teotónio, Rainha Santa Isabel, etc, nos CTT, “o Tejo e a lenda da fundação de Lisboa” no Hotel Ritz, uma alegoria à aviação no Aeroporto de Lisboa, que não sei se ainda lá está, o retrato do Dr. José de Figueiredo no Museu das Janelas Verdes, só para citar obras que qualquer pessoa pode encontrar nas suas andanças pela capital. Revista da AAACM
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RECORDANDO
RECORDANDO
Mar Novo
Foi um admirável retratista. Tinha um grande poder de síntese. Dizia-nos que quando tivéssemos dúvidas em relação à mão nada melhor do que um retrato para “ajustar as contas” A cabeça em bronze do Arquitecto Carlos Ramos valeu-lhe o grande prémio Gulbenkian de Arquitectura.
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Com os Mestres Carlos Ramos e Dórdio Gomes catapultou a Escola do Porto para o lugar cimeiro no ensino. Ainda “conservou” e “dirigiu” o Museu Soares dos Reis. Deu à estampa a “Escultura em Alcobaça” e “José Tagarro”, escreveu prefácios para catálogos de exposições, teve artigos publicados em jornais e revistas, alguns com o pseudónimo de João Negro. Como escultor é o nosso estatuário monumental. Basta recordar o trabalho com que obteve o 1º lugar no concurso internacional de projectos para o monumento ao Infante D. Henrique, quando integrou o Grupo “Mar Novo”, juntamente com o Arquitecto João Andresen, Pintor João Resende e Engenheiros Ferry Borges e Simões Coelho. Cristiano Moreira (321/1941), jovem Arquitecto que foi também meu professor, fez também parte desta equipa. Escusado será falar no fabuloso Bartolomeu Dias na cidade do Cabo, nas estátuas de D. João VI no Rio de Janeiro, de que há uma réplica na Foz do Douro, e de Vímara Peres junto da Sé do Porto, nas “Justiças”espalhadas pelo país, no Marechal Gomes da Costa e no Dr Ribeiro Sanches, em Braga, nas figuras na ponte da Arrábida (lado do Porto), no Garrett na Praça Humberto Delgado, Porto, no monumento a António Nobre, em Leça da Palmeira, na Rosália de Castro etc. etc. Esbanjou o seu talento neste país à beira-mar plantado. Do Infante D. Henrique, e do concurso internacional onde apareceram 49 projectos, sendo vinte e tal estrangeiros resta um bronze de um fragmento em escala reduzida que se encontra na Embaixada de Portugal em Brasília. Apesar de haver uma avultada verba destinada para a sua realização (tratava- -se de um concurso) o governo da altura entendeu, contra a decisão do júri, não levar por diante a obra de Barata Feyo, facto que lhe causou grande mágoa. Foi
RECORDANDO A Obra de Barata Feyo (105/1911 e o Colégio Militar
Arquitecto Paulo Cunha 351-1920, escultura de Barata Feyo Infante D. Henrique
como disse Manuel Figueiredo “um concurso onde se viu vitorioso mas vencido!” A amarga vitória de um grande trabalho perdido, dum grande sonho desfeito”. Para terminar este meu arrazoado posso sintetizar o Homem e o Artista que foi Barata Feyo, tal como o fez um outro Mestre que também tive, Lagoa Henriques, e igualmente seu aluno, nos versos de Fernando Pessoa: Para ser grande Sê inteiro
nada teu exagera ou exclui sê todo em cada coisa põe quanto és no mínimo que fazes Barata Feyo na toponímia: Seixal – Rua Barata Feyo Oeiras – Rua Barata Feyo Cascais (Aldeia de Juzo) - Rua Escultor Barata Feyo Porto/Paranhos) – Rua Escultor Barata Feyo Escultor José João BRITO Antigo Professor do Colégio Militar Sócio Honorário da AAACM
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Recordações do Tempo Colegial “CALISTO” No livro “O COLÉGIO MILITAR”, editado em 1953 e comemorativo do 150º aniversário do Colégio, o autor Jaime Duarte de Almeida que foi “Menino da Luz” e teve o número 12 de 1920, inclui no vocabulário colegial o termo calisto que designava o caderno de capa de oleado, de pequenas dimensões, onde o seu proprietário inscreve, juntamente com horários e semanários, vários apontamentos de interesse partícular. Às vezes o calisto era enriquecido com fotografias próprias e dos sócios. Eu tenho vários “calistos” com estas características. Delas vou recordar dois textos. A definição de “calisto”pelo Carlos Alberto de Barros Teixeira, o 309 de 1930 O calisto!...O calisto! Não é para sacrilégios! Ele encerra tudo isto, Recordações do Colégio. Recordar, lendo as histórias, Continhos, que nos seduz, Tudo aquilo que se passa, Entre os “Meninos da Luz”.
Outro texto: As provas escritas do meu 5º ano Todos os dias antes das provas que eram às 9 e às 10 horas, houve um estudo que aproveitei sempre para estudar alguns pontos da matéria das disciplinas de que ia ter provas. À tarde, depois do almoço havia também dois estudos; antes das horas marcadas assistíamos nos claustros à chegada dos professores. Alguns dos meus companheiros mostravam-se alegres; noutros a sua cara mostrava um pequeno receio e talvez medo (?!?). Eu, felizmente para mim, mantive-me sempre sereno e com presença de espírito, dois predicados que muito me valeram durante as provas. Ao acabarem as provas, ouviam-se sempre as mesmas perguntas: “Que ponto tiveste? Quem teve o ponto número…? Respondeste às obrigatórias?” A propósito de bom humor com que a maioria de nós ia, não posso de deixar de narrar o seguinte: Íamos para uma das provas quando, no meio do quase silêncio que havia, o Proença (194) gritou: “Éh malta. Viva a paródia”. O professor de Latim, ao mesmo tempo director de classe, ouviu isto e, nesse dia e no dia seguinte ao mandar entrar para a sala dizia: “Vá, entrem lá para esta paródia”. Joaquim Augusto de Ascensão Filipe 118/1927
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RECORDANDO Os que nos Deixaram
OS QUE NOS DEIXARAM Victor José de Ataíde Saraiva Marques (22/1940) Coronel de Cavalaria Nasceu a 15 de Junho de 1926 Faleceu em Janeiro de 2009 Nasceu em Coimbra, em 15 de Junho de 1926. Casou com D. Tereza Raynal, em 1954, e do casal nasceram Giselle, Ângela, Victor Miguel e Paula Alexandra.
Ingressou no Colégio Militar, com o número 22, em 1940, indo integrar-se no curso que entrou em 1937. Em 1945, passou para o seu curso de saída, o de 38/46. Em ambos estes cursos foi um elemento estimadíssimo, pelo seu carácter extrovertido, alegre e pacífico. Era um fanático da sua “Académica” e, nesta, o seu ídolo era um craque de nome Micael que o Victor, nas suas práticas futebolísticas, procurava imitar, aliás, com enorme sucesso, pois era um exímio malabarista. Dada a sua notável proeminência nasal foi, por analogia com o seu ídolo, alcunhado de “Pencael”, o que aceitou com júbilo. Era tão bom na bola que, enquanto tirava o Curso de Preparatórios Militares, em Coimbra, fez parte da equipa de honra do clube da sua eleição, onde foi um excelente interior esquerdo. Em Outubro de 1950, foi promovido a Alferes de Cavalaria, começando então uma brilhante carreira exercida, sucessivamente, no RC6, no RL2, na Academia Militar, no RAC., no IAEM, no RC3, na GNR e na RML, na Metrópole, e, ainda, no Ultramar, em comissão de serviço, no Comando Militar de Moçambique e, em campanha, nos teatros de operações de Angola, Guiné e Moçambique. Nesta carreira foram-lhe concedidos 2 louvores, ao nível de Ministro da Defesa, 1 ao nível de General e 4 ao nível de Coronel, exaltando as suas qualidades profissionais e de carácter. Possuía, ainda, as seguintes medalhas: de Mérito Militar, de
Comportamento Exemplar (ouro e prata), do Infante D. Henrique (prata) e as das campanhas da Guiné, Angola e Moçambique. Também se distinguiu como cavaleiro, em provas de saltos, na Metrópole e, em representação do Comando Militar de Moçambique, na República da África do Sul e na Rodésia. Dumas “memórias” escritas pelo seu filho, Victor Raynal Saraiva Marques, o 33/1971, colhemos o seguinte excerto: “…Sinto-me um sortudo porque consegui desfrutar da companhia do meu Pai ao longo de 47 anos e com ele compartilhar muitas coisas. Sempre senti essa sorte, sobretudo quando me apercebia que muitos perdiam o pai muito cedo. Na missa de corpo presente do meu Pai, o Padre João Seabra referia-se ao destino, fazendo uma analogia com um comboio com um fim determinado e paragens programadas. A vida do meu Pai foi uma viagem bastante completa e, nesse percurso… ele foi aluno do Colégio Militar…” Como o teu filho, também nós, caríssimo Victor José, os que contigo fomos alunos do Colégio Militar, nos sentimos uns sortudos porque tivemos o privilégio de usufruir do teu precioso convívio e da tua gratificante amizade durante cerca de 70 anos. Um até breve dos Cursos de 1937 e 1938 Revista da AAACM
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RECORDANDO
RECORDANDO
Joaquim José Esteves Virtuoso (72/1940) Coronel de Artilharia Nasceu a 10 de Julho de 1930 - Faleceu a 15 de Novembro de 2008
Convivi quase diariamente com o Joaquim José Virtuoso nestes últimos anos, quebrando um intervalo de mais de cinquenta anos em que a vida profissional nos separou. Encontrávamo-nos nos trabalhos da Comissão de Estudos das Campanhas de África onde ele, apesar de se encontrar na situação de reforma, servia voluntariamente com enorme dedicação e proficiência.
Aliás o serviço voluntário prestado quer a instituições quer a pessoas individuais era um aspecto muito relevante da sua personalidade. Assim, foi durante muitos anos membro da Mesa da Real Irmandade de Nossa Senhora da Saúde e S. Sebastião onde desenvolveu acção relevante no apoio aos necessitados da Mouraria que, muitas vezes, o abordavam em plena rua para lhe fazer pedidos ou simplesmente para o cumprimentar com deferência. A sua acção era essencial na organização da Procissão de Nossa Senhora da Saúde onde se empenhava anualmente com enorme entusiasmo. Era membro do “Lions Club” de Oeiras onde a sua actividade foi igualmente relevante. A sua preocupação com os que, por qualquer razão, careciam de apoio era constante e efectiva, procurando, por todos os meios, a solução dos seus problemas. Pertencia, igualmente, a uma numerosa família de Meninos da Luz. Seu Tio João Virtuoso foi o 164/1909, o seu Pai, Joaquim José Virtuoso, foi o 163/1914, bem como seus filhos, Pedro (616/1967) Francisco (135/1968) e Luís (72/1973) e seus netos Tomás (164/2003) e Afonso (72/2006). Todos foram (e são) os “Pescadas”. Para os seus filhos e netos e para a sua dedicada Mulher, Ana Maria, que ao longo de muitos anos de um casamento feliz sempre o acompanhou nos muitos e, por vezes, difíceis lugares onde a contingência do Serviço Militar o colocou, vai a expressão da nossa solidariedade e da nossa amizade. Manuel Carlos Teixeira do Rio Carvalho 124/1945
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RECORDANDO Os que nos Deixaram
Rafael Ferreira Durão (11/1941) Major General Nasceu a 17 de Maio de 1930 – Faleceu a 29 de Dezembro de 2008
UM VALENTE
Após prolongado sofrimento, o Major-general Rafael Ferreira Durão deixou-nos em 29 de Dezembro de 2008. Se quisermos definir as suas acções em vida, não podemos deixar de o definir como um valente, um exemplo para todos quantos optaram pela função militar. Era duro, mas simultaneamente compreensivo. Não admitia faltas de disciplina, mas era amigo dos seus homens e sempre o primeiro a expor-se ao perigo das operações por si ordenadas. Rafael Durão nasceu em 17 de Maio de 1930 e entrou para o 2º ano do Colégio Militar em 1941, onde lhe foi atribuído o número 11.
Ingressou na Academia Militar em 1948,onde foi admitido no curso de Cavalaria. Após o tirocínio na Escola Prática de Cavalaria, em 1951/52, entrou em 1956 no recém-criado Batalhão de Pára-quedistas, para o que tirou o necessário curso em Alcantarilla-Murcia. Durante a guerra colonial, fez comissões de serviço em Moçambique (1962-1965), Angola (1967-1970) e Guiné (1971-1973). Além de várias outras condecorações, teve a medalha de Valor Militar com palma, 2 Cruzes de Guerra e duas de Serviços Distintos com palma. Com o propósito de melhor se poder avaliar a elevada estatura moral e profissional de Rafael Durão, apresentamos os testemunhos de 2 dos seus inferiores hierárquicos na Guiné, cuja identidade pediram para não revelar. Um furriel ou sargento conta o seguinte:”Por vezes discutia com o então Coronel /Pára Rafael Durão e até sabia aceitar certas sugestões de alguns dos seus soldados mais experientes em algumas zonas de elevado risco. Mas, no final, era ele quem decidia e quem mais se expunha, tomando sobre si toda a responsabilidade da operação. Algumas vezes discordei das suas ideias mas posso jurar que ele foi sempre, para mim o único Homem que eu seguiria (concordando ou não com ele) para onde quer que fosse, nem que fosse para o fim do mundo”. Um soldado: “Andava sempre connosco, em especial nas zonas de maior perigo. Um dia, na Guiné, caí dentro de um buraco onde acabara de explodir um míssil do inimigo. Fiquei gravemente ferido, quase sem me poder mexer e sangrando de uma perna meio despedaçada. Julguei que ali terminava os meus dias. No meio de outros projécteis que explodiam à nossa volta, ninguém por certo me poderia ir buscar. Já estava quase a desfalecer quando alguém entrou nesse buraco e me levou às Revista da AAACM
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RECORDANDO
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costas, por entre fogo e fumo, que parecia um verdadeiro inferno. Foi o meu Comandante (Coronel Rafael Durão) o único que teve a coragem de fazer aquilo, salvando-me assim a vida. Nunca mais, enquanto viver, me esquecerei disso”. Mário Silva Falcão 314/1936
O COMANDANTE
Tinha dez anos, e havia acabado de entrar para o Colégio Militar, quando conheci o 11/41 Rafael Ferreira Durão. A imagem mais longínqua que tenho dele, lembro-me bem, foi de o ver atrás das grades numa improvisada prisão, por cima do pequeno tunel de entrada nos claustros do Colégio. Fora preso por ter estado a fumar, sendo um graduado, na companhia, facto considerado grave e num exagerado castigo. Mas, ao tempo, era assim a disciplina colegial! Os anos passaram e em 1959, era eu Alferes do Exército, concorri para as tropas pára-quedistas, onde venho a encontrar e a cumprimentar o Capitão Pára-quedista Rafael Durão. A primeira coisa que me disse, nesse primeiro estender e apertar de mão, foi que não contasse com a ajuda ou o apoio dele para entrar para o então Batalhão de Caçadores Pára-quedistas, em Tancos. 90
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Durante alguns anos, era o CAP/PARA Durão responsável pela instrução terrestre nas tropas pára-quedistas, principalmente de orientação topográfica e de minas e armadilhas, com estrondosas explosões que ecoavam por espaços distantes, e também pela escola de cabos e cursos de promoção a sargento muito rigorosos, tendo eu trabalhado de perto com ele. Estive pouco tempo com ele em Moçambique, no BCP 31, dado que quando lá cheguei, em 1965, faltavam só alguns meses para terminar a sua comissão, embora o contacto profissional tivesse sido enriquecedor e percebesse de quanto exigente e rigoroso era o comandante de Batalhão TEN.COR/PARA Durão no cumprimento das suas obrigações militares. Mais tarde, em 1968, venho a encontrar no BCP21, em Angola, o TEN.COR/PARA e depois COR/PARA Rafael Durão de novo à frente de um Batalhão, de que ele era o exemplo primeiro em tudo, de um rigor absoluto e de uma disciplina e dever militar inigualável. Entusiasta jogador de voleibol e basquetebol era sempre o primeiro a estar presente no quartel, que era mesmo a sua primeira família. Com efeito, vivia para a vida militar, sem sábados nem domingos, sendo o primeiro a entrar de manhã e o último a sair. De alcunha o Duro não admitia a mais pequena falta de atavio militar e era inflexível no cumprimento do DEVER. Distinguiu-se particularmente na guerra em Angola, quando se colocava à frente do pelotão, cerca de vinte metros, com os dourados galões de Coronel e o brevet de pára-quedista a brilharem ao sol de África. Como comandante da operação tive de lhe fazer ver o perigo desnecessário que corria, expondo-se dessa maneira e para o desaire que constituiria a perda de um comandante de batalhão de pára-quedistas. Em razão dessa valentia e imprudência viria a ficar ferido numa emboscada em que cairia, quando em conjunto com o TEN/PARA António Ribeiro Assoreira (ex. aluno 220/51) com uma secção de apenas sete homens, pretendiam efectuar um golpe de mão. Este último seria gravemente ferido no baço, enquanto o COR/ PARA Durão ficaria apenas ferido.
RECORDANDO Os que nos Deixaram
Mas o Duro, apesar de muito ferido, pedia aos páras, que os acompanhavam, que o deixassem ali escondido atrás de uns arbustos, armado com apenas uma pistola - para que o inimigo não capturasse uma espingarda AR 10 - enquanto tentavam evacuar o TEN/PARA Assoreira para o salvar. No entanto, foram os dois levados aos ombros, mas o jovem TEN/PARA António Assoreira acabaria por falecer. No hospital em Luanda, o COR/PARA Rafael Durão exigia que toda a correspondência lhe fosse levada e ali despachava diariamente, sem o indispensável descanso que lhe era devido. Logo que conseguiu calçar uma bota, apresentou-se, ajudado por uma bengala, no BCP 21 a comandar o seu Batalhão com o mesmo entusiasmo de sempre. Este Homem, com H grande, foi o exemplo maior das tropas pára-quedistas na guerra em África, de uma coragem imensa, de uma verticalidade sem limites, nem sempre bem compreendido pelos seus superiores hierárquicos, a quem não perdoava uma esquiva ou uma tergiversação. Mais tarde, já depois do 25 ABR 74, o COR/ PARA Rafael Durão não se acomodou aos novos valores, e fiel aos seus princípios não transigiu com os contravalores exibidos no PREC, sendo preso no 11 MAR 75. Na prisão esse mesmo Homem - o Duro de sempre - quando constou que iríamos ser fuzilados, reuniu os oficiais pára-quedistas, no presídio militar de Santarém, para lhes dar a última ordem: sou eu o responsável, como comandante do Regimento de Caçadores Pára-quedistas, por tudo o que se passou no 11MAR 75 e todos vós a única resposta que devem dar nos interrogatórios que vos irão fazer deverá ser – foi por ordem do COR/PARA Rafael Durão. Regressou, tristemente, à vida militar, depois de um julgamento que não existiu, e foi abandonado e esquecido pelas chefias militares de então, mesmo depois de reposta uma pequena parte da verdade no 25 NOV75. E assim, se perdeu para as tropas pára-quedistas o seu lídimo chefe COR/PARA Rafael Ferreira Durão – um dos maiores heróis da guerra de África – que passou a arrastar-se pelas ca-
deiras dos gabinetes sem nada para fazer, e para onde não estava talhado, nem merecia, e que não mais se encontrou consigo mesmo, até morrer nos últimos dias do ano de 2008, no triste e tardio posto de Major General. O Homem foi-se e a sua lenda ficou: assim era o 11/1941. Joaquim Manuel Trigo Mira Mensurado 252/1946
Não teve um filho, não escreveu um livro, mas plantou árvores no grande exemplo de vida que nos deu.
Rafael Durão era um militar como há poucos. Merecedor de H grande, para Homem e para Honra. Alguém que colocava o dever militar acima de tudo, mas que exigia mais de si próprio do que dos outros. Era feito de uma só peça e ainda assim contrastado. À superfície era um enérgico homem de acção, com uma presença física poderosa, gestos sacudidos e uma vontade inquebrantável, orientada em permanência para o cumprimento da missão. Nisso, como lhe competia, não admitia falhas. Sancionava-as com dureza, embora fosse o primeiro a esquecer e a perdoar. Mas por dentro era bem diferente: um chefe sempre atento ao bem-estar dos subordinados, interessando-se pelos seus problemas com uma determinação inexcedível. Era também um camarada exemplar e, na intimidade, sabia ser caloroso e jovial, um amigo para todas as horas. É como o recordo: o sentimento dum missionário numa moldura de aço puro. Tinha uma coragem moral e física invulgares e foi um dos poucos oficiais superiores que arriscaram a vida em operações terrestres. Talvez também tivesse medo, como qualquer mortal. Mas se o tinha, isso não o impediu de manifestar pelo perigo uma ignorância próxima do desdém. Tenente-coronel Comandante de Batalhão, foi ferido em combate, na mesma emboscada em que foi morto outro grande combatente, o Tenente miliciano pára-quedista António Manuel Ribeiro Pinto Assoreira (220/1951). E um dia, na Guiné, quando foi preciso ir a correr tomar conta de uma situação que roçava o desasRevista da AAACM
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RECORDANDO
tre militar, foi ao Coronel Durão que o General Spínola encomendou a tarefa. Era um homem de honra. Na sequência do 11 de Março de 1975, foram-no buscar ao Quartel para fugir, mas ele ficou. Queria assumir-se como único responsável pelas acções levadas a cabo pelos seus subordinados, uma vez que estes haviam agido no estrito respeito pelo dever militar de obediência. Tinha a ilusão de que a sua atitude os livraria de incómodos. Infelizmente, esta grandeza de alma ultrapassava em muito a noção de honra militar
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dos que então detinham o poder políticomilitar. Há homens que passam de forma anódina pelas Instituições, enquanto outros deixam marcas impressivas da sua passagem. Rafael Durão é um dos que jamais será esquecido por quem teve o privilégio de servir sob as suas ordens. Por alguma razão a capela mortuária estava pejada de antigos soldados pára-quedistas. Vou pôr de novo a boina verde, perfilar-me e fazer a continência: - Até sempre, meu General. Nuno António Bravo Mira Vaz 277/1950
Manuel Joaquim Álvaro Maia Gonçalves (61/1941) Major General - Engenheiro Faleceu em Janeiro de 2009 Diogo Francisco Passanha Braamcamp Sobral (24/1949) Empresário Agrícola - Instrutor de Equitação Nasceu a 9 de Junho de 1939 – Faleceu a 2 de Março de 2009 António José de Almeida e Sousa Gonçalves (80/1950) Empresário Nasceu a 11 de Setembro de 1940 – Faleceu a 30 de Junho de 2008 Júlio Vilas-Boas Malhou da Costa (402/1952) Engenheiro Agrónomo Faleceu a 6 de Fevereiro de 2009 João Baltazar de Vasconcelos Pessanha (290/1953) Bancário Faleceu a 30 de Janeiro de 2009 António Jorge Cruz dos Santos (127/1956) Engenheiro Técnico Electrotécnico Faleceu a 11 de Janeiro de 2009 José Pedro Canavarro de Rhodes Sérgio (68/1961) Faleceu a 20 de Agosto de 2007 João Carlos Fernandes Rodrigues (611/1962) Médico Dermatologista Faleceu a 9 de Fevereiro de 2009 92
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RECORDANDO Os que nos Deixaram
Nuno Diogo Lucas Fernandes Bragança (357/1997) Nasceu em 18 de Junho de 1987 – Faleceu a 30 de Dezembro de 2008
O meu Irmão é o Nuno para poucos, é o Bragança para todos, é o 357 para alguns, é a alcunha legada por mim... “Batalhas”! Simplesmente sei que me cabe a mim escrever aqui nesta grandiosa revista algo sobre o meu irmão, sei que não serei o único a querer escrever sobre Ele, porque não foi só um irmão que ficou sem outro, foram muitos outros irmãos que ficaram sem menos um irmão! A dor poderá não ser igual, porque ainda vivi com Ele 9 anos antes dos Outros, mas sinceramente tenho a certeza que a dor será semelhante. O meu Irmão seria Lenda sobre os Ex-Alunos deste Colégio! Já estava a Sê-la, mas provavelmente sempre foi uma Lenda. Concluiu os seus
estudos no Colégio com Mérito. Sabendo que eu já estava na área económica, Ele também seguiu os meus passos e decidiu integrar a Universidade Nova de Lisboa, à qual pertencia aos 5% dos melhores Alunos desta faculdade de Economia, tendo ficado pendentes convites do BNP Paribas, do Banco Central Europeu, entre outros... mas o que ele mais queria era ir mais além do possível e imaginário como nos ensinam desde pequenos. Ele queria ser Lenda! Não o assumia, porque a sua humildade o caracterizava, mas o meu orgulho e o dos pais era sempre maior e falávamos sempre das suas conquistas. Vivemos no Colégio Militar quase sempre juntos. Apesar de sermos irmãos de sangue, ele tinha uma mística especial com o Curso que o acompanhou. Nunca me contava as suas histórias, era sempre reservado, gostava que a família de casa não se apercebesse do especial que ele era para todo o seu ambiente em volta. Ele é o meu grande orgulho, a minha força de conseguir conquistar e de abraçar o Mundo com todo o poder possível e imaginário. Agora que ele partiu para um sítio verdadeiramente ainda melhor, sei que ele tinha uma missão na Terra. Uma missão que provavelmente teria sido deixada por muitos, conquistada por poucos. Ele queria ser o Exemplo! E conseguiu Sê-lo! E eu vou conseguir ser o Exemplo porque ele me transmitiu sempre o desejo de que eu fosse um conquistador, um vencedor, um líder. Posso dizer que neste momento da minha vida, atravesso um Futuro que o meu Irmão também desejava, e sinto-me eternamente grato por tudo o que me está a acontecer. Como li numa das fitas da minha bênção de finalistas, “Torna-te numa lenda entre os Ex-Alunos do Colégio”. Assim Será! Era este o desejo de muitos, o desejo de um Homem que tinha uma visão de 200 anos à frente, o desejo do meu Irmão! Revista da AAACM
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Tenho também uma história de alguns dias atrás para vos contar em que o meu Irmão tinha dito que numa cerimónia, tinha gritado o Zacatraz, impedindo o Áder Burity (12/1996) de o ter gritado, e manifestou-me isto com bastante orgulho. Eu retorqui-lhe da seguinte forma: - Na próxima cerimónia, a que formos juntos, vou gritar um Zacatraz bem alto, e ele diz-me: - Não Irmão, Tu não Consegues! E eu disse-lhe: Irmão, vou conseguir! Na verdade nunca pensei que pudesse ter gritado um Zacatraz tão forte, e tão perfeito como o que Gritei no seu Funeral, senti que acordei os Mortos! Mas acima de tudo, senti que o meu irmão estava à minha frente, feliz e contente a gritar o Zacatraz comigo, e dizendo que realmente era Perfeito! A família do “Batalhas” agradece em especial aos Ex-Alunos do Colégio Militar por todas as honras que lhe foram concedidas, por todas as lágrimas que foram vertidas, por todo o amor que nos foi dado, e por todos terem gritado bem alto aquele Hino que em Campos de Glória Fulge, exulta as Lendas do Colégio Militar! “Quando descer á Terra Mudo e Frio, escrevam-me na Campa: Menino Foi da Luz! Descansa em Paz meu Irmão!” Zacatraz! Emanuel António Lucas Fernandes Bragança 354/1995
Ninguém sabe lidar com ela. Todos nos achamos preparados até ela nos bater à porta. Não pede licença para entrar, e muitas vezes não avisa antes de chegar. Depois, cada um tem a sua maneira de a deixar estar no seu espaço. Há quem não se sinta incomodado com a sua presença, há quem a tente expulsar. Mas ela não sai, não volta atrás e não se muda para a porta do lado. Acabamos sempre por ter que a deixar ficar. Diz o povo que “é a única que não tem solução”. Para quem fica existe uma, a aceitação. Ninguém está a salvo, entra na casa de todos. Recordamos os bons momentos e apagamos da memória os menos bons. Há que a tornar em algo menos tenebroso, há que facilitar a sua existência. Apoiamo-nos em quem mais nos está próximo, e de mãos 94
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dadas continuamos o nosso percurso. Conformamo-nos com o facto de nunca desaparecer. E nem o tempo melhora a nossa relação com ela. Apenas nos dá mais experiência. A vossa união é das coisas que mais admiro. Deixou-vos fisicamente, mas nunca vai deixar de ser um de vocês. Vai estar presente nos momentos mais especiais da vida de cada um, em tudo o que envolva o Colégio e até nos jantares do senhor Manuel. Ele estará lá, basta que vocês acreditem. Até sempre Batalhas. Carolina Ramos
Custa pensar que partiste! Verdade seja dita que temos de seguir com a nossa vida e tudo mais, mas é tão difícil ser forte quando penso que não vais estar mais entre nós, pelo menos fisicamente. Já passaram alguns dias desde aquela trágica e indesejada noite, mas recordo-a como se tudo tivesse acontecido ontem. Vêm-me à memória todas aquelas imagens aterrorizadoras ao ver-te deitado no chão sem reacções e todo aquele cenário macabro, bem como todos os momentos de palhaçada e a excelente noite que nós estávamos a ter. O simples facto de ires tocar guitarra às escondidas de todos, por seres o único que ainda não tinha conseguido completar uma música no “guitar hero” e seres apanhado em flagrante, faz-me rir mesmo enquanto te escrevo esta carta. Até aquela viagem de carro para Alcanena, que deveria ser apenas mais uma, tem agora um significado especial. Costuma-se dizer que só quando estas coisas acontecem é que damos o valor devido às pessoas. Mas tu sabes bem o valor que, mesmo em vida, tinhas para nós, para o teu curso. É bom relembrar todos os momentos de palhaçada que vivemos. Foram esses momentos que te definiram como homem e que te fizeram crescer. A forma peculiar como aparecias e te apresentavas às raparigas que ias conhecendo, as peripécias mais invulgares que criavas nos jantares de curso, passando pela fotografia que te acompanhava em todos os exames,
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até aos vídeos da Croácia, são um espelho do que és. Mesmo os teus amigos da faculdade arranjaram-te uma alcunha no mínimo diferente, “Mamilos”, cuja razão não interessa agora saber porquê. A tua alegria contagia-nos a todos de tal forma que mesmo após o sucedido, consegues pôrnos a rir no teu próprio velório, enquanto recordamos toda a tua maneira de ser e agir. Até a tua mãe, pai e irmão, que estavam de rastos na missa do sétimo dia, desmancharam-se a rir quando lhes contámos quem era o Batalhas que nós conhecíamos e que eles pouco imaginavam. Preferia não ter que pensar nisto e muito menos estar a escrever esta carta de saudade, mas se assim aconteceu, ao menos que a tua trágica e inesperada partida seja a nossa inspiração, a nossa luz para o futuro que nos espera. Que a tua determinação em acabar o curso como um dos melhores, a tua devoção nas coisas em que acreditavas e davas valor, o almoço com o director da tua faculdade por seres um dos cinco por cento melhores alunos da mesma, a tua humildade, simpatia e espontaneidade, sejam para nós um guião para esse futuro e que seja também a força que nos falta para atingirmos a tão desejada vida de sucesso. A tua certidão de óbito marca 3:23 de manhã como sendo a hora em que te foi reconhecido, legalmente, a descanso eterno. Pois posso garantir-te que para nós só morrerás quando chegar a nossa hora. Até lá serás sempre uma chama acesa nos nossos corações. Só não te perdoo uma coisa: teres escondido, durante 12 anos, as tuas limitações de coração, mas até isso mostra bem o teu carácter forte, determinado e de não quereres que tenham pena de ti. Nunca te esqueças disto, és e serás sempre como um irmão para nós. A ti, um forte ZACATRAZ Até sempre João Pedro Coelho Pereira Barreira 39/1997
IN MEMORIAM: BATALHAS Confiar às palavras pouco talentosas deste vosso servo a evocação da memória de alguém que se distinguiu por actos valorosos é quase tão fatal como ir à luta e arremessar penas em vez de flechas. Tentarei em mui breve discurso sobreviver às expectativas. O vazio assolou-nos na madrugada do dia 29 para 30 de Dezembro. De irmão para irmão: o Batalhas morreu. Ouvir incrédulo, acordar o próximo, partir para junto dele. Não há como estar preparado para lidar com a morte. Não há como estar preparado para perder um ente querido de forma trágica e inesperada.
E, portanto, começo por deixar uma palavra de conforto para aqueles nossos que lutaram ao lado do Batalhas nos últimos instantes pela Vida. Sei como isso foi importante para vós. Terem presenciado o alegre e derradeiro sorriso dele e saberem que foi feliz. Sei ainda que toda essa experiência infeliz vai pesar-vos. Mas enterrar um irmão assim, para além de nobre e da missão, é quase heróico. Está dito. Fizeram tudo. Lembro-me de ti, meu palhaço, curvado sobre a cama que foi a meu lado durante anos, já muito depois do “recolher”, de lápis na mão e calculadora na outra, com o ténue foco dado pelo candeeiro tosco que iluminava esse poço de dedicação. Sempre o foste! Lembro-me de ti, meu palhaço, das nossas conversas tão moços sobre “o que é que queres ser quando fores grande”. Disseste-me astrofísico, numa dessas vezes. Ri-me a teu lado, não da chacota, mas do quanto admirava a longevidade da tua ambição. Quero que o saibas! Revista da AAACM
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Foram estes, talvez, os traços que guardei escritos na memória como aqueles que mais intimamente partilhámos. Guardaste-me mágoas e sonhos, ouviste-me, ouvi-te. Obrigado. O resto é do conhecimento de todos. Todos aqueles que somos nós. Nós que abraçámos, nós que contigo rimos e chorámos. São as estórias infindáveis em Portugal e além-fronteiras! Quando desceste aquele elevador, de pantufas (… fica à imaginação dos leitores). És uma lenda. Já eras quando nos deixaste. E se lembrar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil porque há coração! Disse Shakespeare algo parecido. Ardor Guerreiro, Até Sempre. [Não esqueceremos o Zacatraz do teu irmão gritado por ti. Significa tudo. Temos ainda de dar mais este abraço na dor à senhora tua mãe (Ilda), ao senhor teu pai (Manuel) e ao Emanuel teu irmão de sangue. Estaremos sempre cá. Tu também.] Ricardo Neto Galvão 347/1997
Por mais voltas que dê à cabeça parece que nada daquilo que poderei vir aqui a escrever estará à altura daquilo que realmente mereces. As palavras escasseiam, os pensamentos atropelam-se, nada faz sentido. Tenta-se arranjar uma explicação para tudo, encontrar uma lógica para as coisas terem acontecido, mas não há respostas para nada. Num dia estamos a apostar quem será o primeiro do curso a casar-se e no outro estamos a dizer-te o derradeiro adeus… Esse adeus para o qual nunca estaremos preparados, pois não há maneira de nos despedirmos
de alguém com quem partilhámos a nossa vida durante tanto tempo, que é mais que um amigo, um irmão! E no entanto, é a única certeza que temos, a de que um dia teremos de nos despedir de quem mais gostamos. Mas na verdade parece que não partiste realmente… Dantes chateávamos-te quando não podias ir a um jantar de curso, agora é como se estivesses lá sempre, quando nos reunimos, onde e quando quer que seja. Dá até ideia que me podias ouvir se falasse contigo. Não deixa de ser impressionante a quantidade de histórias mirabolantes que deixas para contar. Fica a certeza de que aproveitaste cada momento da tua vida como se fosse o último. Fizeste coisas que não passariam sequer pela cabeça de nenhum de nós, que merecem realmente ser contadas, que voltarão a ser contadas vezes e vezes sem conta, e passem os anos que passarem havemos sempre de nos rir quando as recordarmos. Ao longo dos 12 anos que partilhámos aprendi que não interessava o quão bem eu te conhecia, porque ias arranjar sempre maneira de surpreender toda a gente. A imprevisibilidade foi sempre uma constante em ti, e foste-o até ao teu último instante. E com isso ensinaste-nos uma lição que preferíamos não ter aprendido. Descobrimos o que custa ver partir as pessoas de quem mais gostamos, o que é sentir realmente a falta de alguém, pensar que faltas tu, que um dia será a vez de outros partirem e que no final só vai restar um de nós. Depois de tudo isto resta-nos aquilo que o Colégio nos ensinou, a vontade de ir sempre mais longe, fazer mais e melhor. A união, a camaradagem, o ser digno na adversidade e confiante face às dificuldades, na certeza de que continuarás sempre vivo nas nossas memórias. Obrigado por tudo Batalhas. Por ti, um grande ZACATRAZ. Até sempre. Miguel Pinto dos Santos Matias 305/1997
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