Skip to main content

Catálogo do projeto diagnóstico [Prêmio Herbert Holetz]

Page 1


ó s t i c o

d i a g n

Diagnóstico é um projeto para o corpo político da mulher no processo de identificação do espectro autista, por Ana Carolina e Andréia Peres.

As videoartes estão associadas a correntes de vanguarda, onde os videoartistas trabalham com ficção, documentação e falsificação em vídeos que flertam com as várias estéticas do Cinema e da história da Arte. As cinco principais linguagens que foram influenciadas pela videoarte são: a música, o teatro, a dança, os filmes e também a ilustração. Toda uma geração de artistas que emergiu nos anos 1960 - esgotada das técnicas acadêmicas, da pintura de cavalete e dos formatos expositivos fechados dos museus, motivada pelas possibilidades estéticas das câmeras de 16mm e super8 e depois, pelos equipamentos caseiros - possibilitou a consolidação das videoartes no mercado das artes, a partir dos anos 1970 até os tempos contemporâneos.

Performances e happenings são registrados, instalações incorporam grandes monitores e o próprio vídeo se torna uma linguagem elementar na produção artística moderna e contemporânea. É também nas videoartes que os artistas põem em prática muitas de suas experiências colaborativas. Nos anos de 1970, as videoartes passam a ser associadas a uma arte de caráter subversivo, sociopolítico. A videoperformance é um tipo de videoarte, linguagem híbrida da arte que se propõe a utilizar o corpo no vídeo; existe enquanto forma de registro de um evento pontual localizado no tempo e surge como arquivo, documento ou como obra em si mesma, onde o intérprete e espectador não se encontram fisicamente presentes, juntos, no mesmo instante em que a performance acontece.

Para a fruição da videoperformance, artistas e curadores utilizam as técnicas de videoinstalações, propostas contemporâneas que ocupam espaços públicos ou privados, combinando tecnologia de vídeo com instalação, como no caso do single-channel, que se aproxima mais da ideia de televisão que nós temos, de um único vídeo ou imagem sendo exibidos através de monitores ou telões, geralmente em superfícies planas, reproduzidos de maneira analógica ou digital para colocar o espectador em contato com novas experiências, a partir das exibições desses registros.

A atriz e escritora Ana Carolina, irmã da artistapesquisadora Andréia Peres, foi diagnosticada dentro do espectro autista aos trinta e um anos de idade.

Diagnóstico é uma obra de videoarte single-channel, registrada por Andréia Peres, a respeito do corpo político da mulher no processo de identificação do espectro autista. Materializada na performance orgânica de Ana Carolina, explorando o corpo como suporte de mensagem. Trinta e um anos investigados enquanto a narrativa estético-poética de si mesma é construída: corpo feminino, autista subnotificada, trajetória e imagem desse corpo autista exploradas no limite da experimentação plástica para estabelecer o paralelo do tempo entre o diário de bordo clínico e a problemática do corpo autista regulado pelo outro, mudo; agora presentificado na crítica intrínseca da obra, um corpo político capaz de se autorregular, se autorrepresentar e se tornar autônomo a partir das suas singularidades, atravessando o tempo de espera.

A performance pictórica, como numa tela pintada, se materializa na superfície e na repetição do movimento, que mimetiza a estereotipia motora autística às camadas de camuflagem da ausência do diagnóstico. As psicoitinerâncias, geografias do corpo, em que a experiência com o cuidado de si se torna a própria pesquisa que embasa a obra. O processo de diagnóstico é o próprio status quo do corpo, que possibilita a estética da sua existência. O seu corpo orgânico e seus materiais plásticos são recursos híbridos que possibilitam a formatação de um diário de bordo clínico pessoal tardio, arquivado nas artes, por meio da plasticidade rudimentar do objeto e da densidade das linguagens contemporâneas.

O diagnóstico do autismo é um processo singular de cada paciente; a apropriação de objetos e instrumentos cotidianos na performance, a caneta esferográfica azul, as pinças, as fitas adesivas, os riscos e camadas deixados são como carimbos e marcas de outros tempos do indivíduo e suas manifestações como sujeito autista; processos de aprovação, anulações, cicatrizações, laudos, receitas médicas, testes psicotécnicos, prontuários, ataduras.

No caso de Ana, pensar o diagnóstico de TEA [Transtorno do Espectro Autista] numa condição de estrutura estética, é buscar as características ontológicas de uma mulher autista que rompe com vínculos não genuínos com o próprio corpo, permitindose guiar pela condição ética do ser como indivíduo, da mulher que se estruturou no autismo, na busca de se legitimar sem métodos de mascaramento de si mesma.

Não por menos, a cor azul aqui não simboliza o espectro autista como vulgarmente é conhecido; sua apropriação se faz necessária para criticar um autismo estereotipado, moldado apenas para o corpo infantil, masculino, engenhoso; moldado por uma sociedade patriarcal, precária de políticas socioculturais, que acaba por adiar a identificação do transtorno em meninas, subnotificando o diagnóstico em mulheres, acumulando escaras psicossociais.

É na obra que se dá a viabilidade dos diálogos acerca do autismo, e a viabilidade constante dessa representação no campo das artes: a palavra vídeo significa ‘eu vejo’ e remete-se à ação de um corpo presente tanto no ato de olhar através da câmera quanto no registro do corpo visto, que se desdobra em linguagem estética.

N ã o p o r m e n o s , a c o r

a z u l a q u i n ã o

s i m b o l i z a o e s p e c t r o

a u t i s t a c o m o

v u l g a r m e n t e é

c o n h e c i d o , s u a

a p r o p r i a ç ã o s e f a z

n e c e s s á r i a p a r a

c r i t i c a r u m a u t i s m o

e s t e r e o t i p a d o ,

m o l d a d o a p e n a s p a r a o

c o r p o i n f a n t i l ,

m a s c u l i n o , e n g e n h o s o ;

m o l d a d o p o r u m a

s o c i e d a d e p a t r i a r c a l ,

p r e c á r i a d e p o l í t i c a s

s o c i o c u l t u r a i s .

videoarte single-channel “diagóstico” instalação no bloco A campus I, FURB novembro e dezembro, 2024

Ana Carolina é atriz e escritora autista, diagnosticada aos 31. Andréia é sua irmã, editora, artista-pesquisadora, gestora de projetos culturais e gráficos. Juntas, desde 2020, iniciaram uma série de trabalhos que investigam as questões psicossociais e sociedade neurodiversa, desdobramentos a partir de pesquisas relativas às ontologias do indivíduo e da estética da existência, com uma trajetória de trabalhos coautorais premiados.

Andréia Peres nasceu em 1988, na cidade de Blumenau [SC], e reside em Rio do Sul há sete anos. Artista investigadora da ontologia das coisas e pessoas, interessada em processos que experimentam o desenho, a fotografia, o texto, vídeo e áudio nos múltiplos suportes e mídias. Pesquisadora independente em Arte Bruta, idealizadora e editora do selo Um grupo de estudos que não existe; publicou a tradução inédita do ensaio iconoclasta Asfixiante cultura, escrito nos anos sessenta pelo primeiro teórico da Arte Bruta, Jean Dubuffet [1901- 1985]. Realizou a Mostra de Arte Bruta na Cinemateca de Curitiba, projeto independente apoiado pelo Museu de Arte Bruta de Lausanne [Suíça], Detours Films [Suíça] e Fundação Cultural de Curitiba. Idealizou e produziu a Semana de Introdução à Arte Bruta, apoiada pela Divisão de Cultura da Universidade Regional de Blumenau. Andréia tem projetos contemplados nos prêmios Elisabete Anderle, Nodgi Pellizzeti, além de propostas viabilizadas pelas leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc de Rio do Sul e Santa Catarina.

Ana Carolina nasceu em 1990, reside em Blumenau [SC]. Atriz, escritora e produtora cultural com 17 anos de carreira, artista experimental nas vertentes contemporâneas dentro das Artes Visuais, como audioinstalação e videoperformance. Suas obras experimentam a estética e poética da escrita acerca de si e das camadas que constituem o indivíduo a partir das suas experiências e relações no espaço no qual está inserido. Cursou Bacharelado em Teatro pela FURB.

Recebeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Jogos de Teatro JOTETITAC. Tem textos e poemas premiados em sua trajetória, contos selecionados na Revista Samizdat, na Revista Desenredos, no projeto Pão e Poesia da FCBLU, na Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos da Câmara Brasileira de Jovens Escritores, e na antologia Madre Alzira do SESC AM. Ana tem projetos contemplados nos prêmios Herbert Holetz, Elisabete Anderle, além de propostas viabilizadas pelas leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc de Blumenau e SC.

Neurodiversidade se refere às variações naturais no cérebro humano de cada indivíduo em relação à sociabilidade, aprendizagem, atenção, humor e outras funções cognitivas. O termo cunhado em 1998 por Judy Singer – socióloga que se descreveu como inserida "provavelmente em algum lugar do espectro autista" –, surgiu como uma teoria marginal que se contrapõe à visão predominante de que os transtornos do neurodesenvolvimento são inerentemente patológicos. Em vez disso, a ideia de neurodiversidade adota o modelo social da deficiência, no qual as barreiras sociais são o principal fator que restringem as pessoas com deficiência. Numa sociedade neurodiversa, 20% das pessoas compartilham um desenvolvimento neurológico diferente da maioria em alguns aspectos, e são descritas, do ponto de vista estatístico, atípicas . Essas pessoas são definidas como neurodivergentes ou neuroatípicas, que são aquelas pessoas dentro do Transtorno do Espectro Autista, com TDAH, dislexia, discalculia ou disgrafia, com síndrome de Tourette, síndrome de Down, Transtorno Bipolar, entre outras neurodivergências diagnosticadas.

O termo neurodivergente foi criado no ano 2000 pela ativista com divergências múltiplas Kassiane Asasumasu, uma norte-americana de origem asiática que é instrutora de ginástica, arqueira amadora e fundadora da ONG Foundations for Divergent Minds, que atua no desenvolvimento de pessoas neurodivergentes.

Em um blog, no ano de 2018, ela assinava como Neurodivergent K.

Ambos os termos foram criados por pessoas neurodivergentes e não por pessoas típicas. Não foram palavras impostas a este grupo. Quando uma comunidade pode se definir, ela mesma, cria-se uma identificação, e não um estigma, ampliando sua inclusão social. Frequentemente, no entanto, o conceito de neurodiversidade é empregado com referência apenas aos indivíduos neurodivergentes, enfraquecendo a ideia de normalização e inclusão proposta por esse conceito.

A sociedade detém a decisão do registro e guarda da história. Parafraseadas de Pierre Nora, essas palavras dizem muito sobre o silenciamento de determinados grupos acerca da coexistência de pessoas dentro de uma sociedade neurodiversa. As produções nas Artes são micromanifestos, legados ao meio no qual o artista coexiste. Mas por que as manifestações de mulheres neuroatípicas ainda coabitam, assim como suas autoras, mais às margens do que aos centros dos espaços coabitados em sociedade? E quais artes estão sendo feitas pelas suas protagonistas reais?

A neurodiversidade tem sido explorada distante de uma problematização psicossocial nas Artes, empregada genericamente no vocabulário de conceitos, desconsiderando a construção da sociedade e como lidamos com a diferença, não restrita ao indivíduo, mas como ele está inserido no mundo. A neurodiversidade é a caracterização do coletivo, onde diferença não constitui anormalidade. Mas por que a sociedade neurodiversa contemporânea continua marginalizando pessoas neurodivergentes?

O capacitismo é um dos principais motivos para as artistas neuroatípicas não permanecerem no mercado das Artes.

As estatísticas invisibilizam, sobretudo, a existência das mulheres neuroatípicas; até então, não há dados complexos coletados que relatem o Transtorno do Espectro Autista em mulheres e sua presença no mercado de trabalho.

Faz-se necessário reforçar que, do ponto de vista legal, o autismo é uma deficiência: o inciso 2o do art. 1o da Lei número 12.764 considera como pessoa com deficiência os indivíduos com Transtorno do Espectro Autista - TEA. Então, para todos os efeitos legais, um indivíduo autista é uma pessoa com deficiência. Teoricamente a deficiência é considerada como uma condição humana, congênita ou adquirida, cujas características impõem incapacidades ou limitações física, sensorial, mental ou intelectual, de caráter permanente e não tratáveis ou curáveis. São essas as particularidades que determinam o conceito genérico de uma deficiência.

O TEA é um distúrbio do neurodesenvolvimento, caracterizado por manifestações comportamentais e desenvolvimento atípicos, déficits na comunicação e na interação social, com padrões de condutas repetitivos e estereotipados, peculiaridades essas reconhecidas pelo estado da permanência, independentemente do grau de incidência. Por tais características, também podemos afirmar que o autismo é uma deficiência.

Embora haja o interesse pelas políticas afirmativas, o tema é recente e pouco respeitado.

“Muito libertador”, descreveu a atriz Letícia Sabatella, recentemente diagnosticada aos 52 anos.

A sociedade exclui aquilo que não é hegemônico culturalmente. Quando se é uma autista sem diagnóstico, a mulher tenta se encaixar nos padrões que a sociedade espera, mas o seu comportamento reflete o contrário. Então, até ter o diagnóstico, a autista é excluída e, aparentemente, é a única pessoa com todas as coisas diferentes que faz com que os outros se afastem. No momento em que se descobre o autismo, e que existem mulheres parecidas, que passaram por trajetórias semelhantes, a mulher autista se sente parte de algo que até aquele momento lhe era proibido –finalmente encontra os seus pares e não se sente tão só no mundo.

A sociedade não tem noção do peso que é ser uma autista não diagnosticada, inclusive para a sua família. “Uma mulher, diagnosticada depois dos 40 e com um cargo de extrema importância para o nosso país. Vocês têm ideia do que é isso?

Durante décadas, autistas eram vistas como nada.

Incapazes, esquisitas, esquecidas pela sociedade.

Morriam sem diagnóstico, sem o sentimento de pertencimento, sem entender quem eram.

Hoje temos informações o suficiente para salvar a vida de muitas pessoas, principalmente mulheres autistas”. Palavras de Andrea Werner, deputada estadual (SP) e presidente da Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência, também com diagnóstico tardio já na fase adulta de sua vida.

O diagnóstico é a carta de alforria para um processo de libertação. É poder finalmente deitar na cama sem a sensação de que se tem algum defeito e que precisa ser consertada. A morte deixa de ser uma solução e passase a querer finalmente entender tudo aquilo que aparentemente não tinha resposta. O diagnóstico, mesmo que tardio, salva e muda vidas.

O autismo não é um transtorno único, mas sim um espectro que pode variar em intensidade e em características, a depender de cada indivíduo. Em geral, essas características se manifestam em dificuldades não somente caracterizadas pela sensibilidade sensorial, mas também no convívio social, na comunicação, comportamentos repetitivos e, nos diagnósticos tardios, associadas a comorbidades como ansiedade e depressão. A autista considerada como nível 1 de suporte, como no caso de Ana Carolina, coautora da videoperformance “diagnóstico”, acaba passando despercebida pela sociedade, familiares, educadores e profissionais da saúde, mas igualmente precisa de suporte. Em comparação com indivíduos com desenvolvimento típico, as mulheres com TEA são quatro vezes mais propensas a sofrer de depressão ao longo da vida.

Estudos primários do IBGE apontam que há 278 mil mulheres com deficiência em Santa Catarina. Estima-se também que o estado teria mais de 200 mil cidadãos autistas, sem identificar gênero. Muitos municípios não possuem dados. Mas há o masking (do inglês, 'mascaramento'), uma estratégia para enfrentamento social, definida como um esforço que autistas fazem, de forma consciente ou inconsciente, para mascarar suas características e apresentar uma topografia comportamental “menos autista” para se encaixarem na sociedade.

O mascaramento utilizado como estratégia social é uma das teorias aceitas, atualmente, para explicar a razão de diagnósticos mais tardios, e menos frequentes, em mulheres do que homens (Begeer et al.2013; Giarelli et al. 2010).

Ana Carolina, atriz e escritora blumenauense, é autista com diagnóstico tardio; seu diagnóstico partiu de um autoprocesso de identificação com o espectro, aos 31 anos de idade; posteriormente, investigado e laudado pela neuropsicóloga Matilde S. de Jesus e pela psiquiatra Ana Aguiar, que atendem em Salvador e no Rio de Janeiro respectivamente. O diagnóstico só foi possibilitado por um processo de investigação e testes neuropsicológicos por videochamadas. “Naquele ano em que iniciei a investigação para compreender quem eu sou e me reconhecer como coexisto na sociedade, não consegui encontrar especialistas em diagnóstico de autismo em mulheres (adultas) por aqui, em Santa Catarina, foi um caminho pelo desconhecido, longo, mas necessário. Ainda hoje, mesmo com o aparecimento de novos especialistas, ainda são poucos aqueles que se dedicam a estudar o autismo em mulheres por aqui, nem pelo sistema privado, quiçá pelo público”.

O processo de diagnóstico, sem políticas públicas, impacta diretamente na vida financeira da mulher autista, que só terá acesso ao BPC após o seu diagnóstico com recursos próprios ou ajuda de outras pessoas – o Benefício de Prestação Continuada, da Lei Orgânica da Assistência Social, é a garantia de um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência que comprove não possuir meios de prover a própria manutenção, nem de tê-la provida por sua família.

O atendimento público é demorado e difícil para uma autista, os custos com suporte terapêutico e medicamentos podem chegar a R$ 3 mil mensais, fatores que não desencorajam a busca pelo diagnóstico, pois é a partir dele que se estabelece o conhecimento de si e a busca por suporte e direitos para a mulher neuroatípica. Foi divulgado, no dia 23 de março de 2023, o mais recente relatório do CDC - Centers for Disease Control and Prevention (Centro de Controle de Doenças e Prevenção) do governo dos Estados Unidos –considerado a principal referência mundial a respeito da prevalência de autismo: atualizada a cada dois anos, a pesquisa revela um novo número sobre a prevalência do autismo. De acordo com o CDC, uma em cada 36 crianças de oito anos de idade é autista nos Estados Unidos, o que significa 2,8% daquela população. A atualização é baseada em dados de 2020. O número desse estudo científico, com mais de 226 mil crianças, é 22% maior que o anterior divulgado em dezembro de 2021: uma em cada 44 crianças, com dados de 2018. Os novos números mostram que cresce cada vez mais o número de diagnósticos. Não, não há “epidemia” de autismo, mas há o interesse e aprofundamento nas pesquisas por parte do corpo científico. O Canal Autismo – considerado a maior plataforma de conteúdo a respeito de autismo da América Latina – publicou recentemente uma matéria produzida pelo jornalista Francisco Paiva Júnior; o material faz uma transposição da prevalência apontada pelo CDC, que é de 2,8% da população, para o Brasil. Ao aplicar a mesma proporção do estudo do CDC para a população brasileira, estima-se que no país há cerca de 5,95 milhões de autistas.

E baseado em projeções e estimativas da população do Brasil, atualizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a prevalência estimada de autistas no Brasil seria de 6 milhões de cidadãos. Se a prevalência de 2,8%, comprovada em pesquisas do CDC, for aplicada em Santa Catarina, com base na população projetada pelo IBGE, estima-se que o estado teria mais de 200 mil cidadãos autistas. Porém, é importante ressaltar que ainda não há números oficiais de prevalência de autismo no Brasil, podendo ser muito maior. Para comprovar esse número e entender qual é a prevalência do autismo no país, o IBGE colocou, pela primeira vez, o autismo no radar das estatísticas, com o objetivo de mapear quantas pessoas vivem com o transtorno e quantas podem ser autistas, mas ainda não receberam o diagnóstico. No Censo 2022, o IBGE fez a inclusão de uma pergunta sobre autismo no seu Questionário de Amostra, que é mais detalhado e utilizado numa parcela menor da população (11%). A pergunta é a seguinte: “Já foi diagnosticado (a) com autismo por algum profissional de saúde? ” , tendo “sim” ou “não” como resposta. A coleta de dados do Censo estava programada para terminar em outubro de 2022, mas ainda está em andamento, o resultado final do Censo está previsto para até 2025. A partir de então, será possível saber qual a população de autistas em cada região do país. Quantas serão as mulheres autistas em Santa Catarina?

Ainda hoje, a imagem da mulher autista está ligada aos homens brancos de classe média alta e que, portanto, possuem recursos para diagnóstico e suporte.

Mesmo com a dificuldade de acesso ao diagnóstico, onde alguns grupos têm mais facilidade no acesso, sabe-se que pessoas de todas as idades, cor, classes sociais e gêneros podem estar dentro do espectro autista.

Vem crescendo o número de mulheres diagnosticadas com autismo depois dos 30 anos, como consequência do avanço dos estudos e pesquisas que possibilitam o diagnóstico. No entanto, a pressão social para se encaixar em padrões faz garotas camuflarem comportamentos típicos do transtorno e muitas só descobrem a condição já adultas. De acordo com estudos recentes, a cultura de camuflagem é uma das principais barreiras ao diagnóstico do TEA no sexo feminino. Somam-se a isso estruturas sociais que fazem as meninas entenderem, desde cedo, que precisam se adaptar ao que se espera delas. Falar do corpo autista é também falar do corpo LGBTQIAPN+; o estudo Sexual Orientation in Autism Spectrum Disorder investigou orientação sexual diferente entre autistas e não autistas. Os resultados sugerem que no grupo com TEA, 69,7% das amostras relataram não ser heterossexual, enquanto no grupo neurotípico, 30,3% relataram não ser heterossexual. O grupo com TEA relatou taxas mais altas de homossexualidade, bissexualidade e assexualidade, e taxas mais baixas de heterossexualidade. No caso de mulheres que são mães, o diagnóstico vem seguido do diagnóstico dos filhos autistas; muitas mulheres autistas foram diagnosticadas depois do diagnóstico dos filhos, como no caso da atriz Letícia Sabatella.

“As mulheres são condicionadas ainda pequenas a serem mais sociais, complacentes, a se esforçarem para se adaptar”, explica Abby Sesterka, pesquisadora do AutismMQ, um grupo que investiga o espectro na Macquarie University, em Sydney, na Austrália.

Segundo um estudo publicado no ano passado no Journal of Autism and Developmental Disorders, a proporção entre meninos e meninas autistas pode ser de 1,8 para 1 – bem abaixo do que se pensava, de que havia três vezes mais meninos autistas do que meninas. “Há uma crescente preocupação de que autistas do sexo feminino não estão sendo diagnosticadas ou que isso esteja acontecendo muito tarde e ainda que tenham recebido diagnósticos equivocados anteriores”, alertam as pesquisadoras da Universidade de Londres e do King’s College. É possível que esse subdiagnóstico tenha contribuído à ideia distorcida de que a condição seria prevalente nos homens. Como os estudos sempre focaram em meninos, aquilo que a medicina entende como autismo pode ser, na verdade, a forma como o autismo se manifesta no sexo masculino.

Até 2013, a medicina entendia o autismo sob duas perspectivas bastante limitadas: a do “autismo clássico”, cujas restrições são severas; e a da Síndrome de Asperger, na qual os traços estão presentes de forma “mais sutil”, não impedindo que o indivíduo tenha uma vida afetiva e profissional.

Em 2013, a Síndrome de Asperger foi excluída do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais norte-americano – o mais conceituado na área da saúde mental – e passou a ser incluída sob um conceito mais amplo da saúde mental, o Transtorno do Espectro Autista.

“Em vez de eu dizer que a pessoa tem autismo, eu atribuo diferentes níveis de comprometimento. Por isso o nome espectro”, explica Ana Soledade (psiquiatra membro da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul). Em comum, há algumas características que podem aparecer com maior ou menor intensidade, como dificuldade de socialização e de comunicação, movimentos repetitivos (gritantes, como balançar a cabeça sem parar, ou sutis, como girar um anel no dedo), interesses restritos (se interessar apenas por dinossauros, por exemplo) e o excesso ou falta de sensibilidade à luz, aos sons, ao tato ou ao paladar. Para fechar o diagnóstico, é preciso haver comprometimento em mais de um aspecto relacionado à interação social e em mais de um fator relacionado às repetições, interesses restritos e dificuldades sensoriais, mas todos os autistas precisam de suporte para uma vida mais plena.

Apesar da crescente tendência a um diagnóstico mais inclusivo, muitas mulheres só chegam aos consultórios psiquiátricos quando apresentam casos muito graves de TEA ou se têm outros sintomas associados ao autismo. “Conforme vai ficando sem diagnóstico, a autista começa a apresentar ansiedade, depressão, entre outras doenças”, explica a psicóloga Lúcia Andréia da Silva, autora do projeto Vozes do Autismo de São Paulo, que promove palestras de esclarecimento sobre o TEA. Mais da metade das jovens adultas com autismo permanecem desempregadas e não matriculadas no ensino superior nos dois anos após o ensino médio, seja por falta de suporte ou por falta de diagnóstico ou diagnóstico tardio, e o isolamento geográfico e a pobreza reduzem a chance de acesso não só ao diagnóstico precoce quanto ao suporte e oportunidades necessários para o desenvolvimento saudável dentro do espectro.

Se as pessoas são forçadas a situações em que não podem exercer sua autenticidade, não podem ser elas mesmas, a vida se torna difícil. Autistas têm cerca de 70 vezes mais chances de cometer suicídio. Há muitos problemas de saúde mental que estão relacionados ao fato de se tentar viver uma vida que não é adequada para si.

No campo das Artes, a mulher artista com deficiência ainda ocupa pouco espaço de representação.

Se a representação das figuras femininas predomina nas obras produzidas por artistas homens, essas não ocupam um lugar de centralidade como autoras. Tal fenômeno se evidencia na literatura da história da arte acadêmica e nas suas vertentes contemporâneas –consequência da perspectiva patriarcal que formou os cânones artísticos ocidentais. A participação feminina no campo artístico é temática que já ocupa décadas de estudos, tendo ganhado força principalmente em países onde o feminismo é mais forte e atuante, mas a mulher artista com deficiência ainda é raramente incluída nesses debates. É a minoria dentro da minoria.

Conhece-se a figura de Frida Kahlo que o feminismo reproduz em filmes e documentários, mas quem foi Frida Kahlo para além da iconografia comercial que ela se tornou? É habitual passar despercebido o fato de que ela se tornou uma pessoa com deficiência ainda na infância. Frida, sempre lembrada pelo feminismo, mas constantemente apagada enquanto sua identidade de mulher com deficiência. Nos bastidores do mercado artístico, mulheres enfrentam o peso do impacto financeiro em sua saúde mental. A instabilidade financeira, a desigualdade de gênero e as marginalizações, como o capacitismo, criam um cenário oprimente.

c o m o m u d a r e s s a

r e a

l i d a d e a p a r t i r d a

A r t e ? C o m o g e r a r

c u l t u r a d e i n f o r m a ç ã o ?

São questões que precisam ser debatidas constantemente a partir da escuta de mulheres em seus lugares de fala.

Dando voz à autista artista, não segregando, permitindo que trabalhe e se comunique com outros grupos além dos seus pares, dando visibilidade à sua produção, viabilizando projetos produzidos por autistas, não apenas esperando que sejam performados ou escritos por não autistas ou por pessoas que não estão inseridas nas suas histórias. Estar no cotidiano das pessoas permite que a obra seja uma ferramenta para implementar a cultura de conhecimento. A obra é a linguagem de comunicação da artista autista, seu trabalho possibilita sua inserção no mercado cultural, caminho de se autorrepresentar. É urgente levantar questões acerca do TEA em mulheres. A decisão do registro e guarda da história precisa dar voz àquelas que têm se calado e se colocado no mascaramento na identidade sociocultural, que é ampla e neurodiversa.

oficina

“O traço transferido (apropriação como ferramenta para a comunicação)”

E.E.B. Professor João Widemann

E.E.B. Hercílio Deeke outubro, 2024

Classificação livre

Distribuição digital e gratuita

© Todos os direitos reservados às artistas

Realização

Projeto cultural patrocinado pela Prefeitura Municipal de Blumenau e pela Secretaria Municipal de Cultura e Relações Institucionais de B umenau, por meio do Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Blumenau

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Catálogo do projeto diagnóstico [Prêmio Herbert Holetz] by a-a peres - Issuu