
c o i s i f i c a ç ã o ivan schulze


Em 2022, Ivan Schulze me convidou para curadoria de sua nova exposição fotográfica. Inicialmente, o conceito – que também iria ao encontro de meu atual processo de pesquisa – já me bastava para que a resposta fosse sim. Mas então, ele me apresentou o nome Coisificação.
Para mim, não haveria dúvidas de que esta proposta deveria seguir seu rumo para ser concretizada pelo artista.
Coisificação é justamente sobre isso, uma manipulação expressionista contemporânea exercida sobre as coisas e o tempo. Entre o analógico e o digital, a linguagem atemporal de um artista, assim como um Midas, que redefine o espaço em sonhos dadaístas, mimetizando pessoas e objetos, multiplicando a luz através de uma estética da precariedade, tal qual um Miroslav Tichý nas décadas de sessenta e oitenta. Existem artimanhas (e um bocado de tentativas) que só o tempo é capaz de dar a um artista. Enquanto há a ânsia no fazer, Ivan é paciente na construção imagética, lida com as frustrações a ponto de transformá-las em imagens de sonhos e desejos.
Quem são as pessoas das cenas desse caderno? Como Ivan irá representar esses rostos imaginados?
Aguardei por um ano por essas respostas.
O conjunto das imagens dos cadernos do artista geraram uma síntese onírica que compõe por si a identidade do próprio artista, já que se deslocam por uma trajetória de si mesmo por um longo período.
Corpos inanimados, parafernálias, contornos de luz e de sombras manipulados estrategicamente, acervo de histórias dos outros, assim como histórias de si; sua obra é um conjunto de signos enquanto ele mesmo, o indivíduo artista, habita o mundo.
Durante a concepção da sua obra, Ivan se colocou à espera dessas oportunidades de retorno do mundo em que habita, na espera de olhares que documentem o resultado de seu processo de materialização.
O que me faz pensar que fótons são capturados diariamente em dispositivos diversos, por centenas de milhares de pessoas que geram fotografias a cada segundo, equivalentes à soma do acúmulo de coisas e de vaidades.
A produção, que não aquela reflexiva dos museus e galerias, está em constante crescimento desorganizacional, em um sistema que consome e se valida através da semiótica dos registros fotográficos cotidianos.
A democratização do ato fotográfico, em que todos são geradores de signos por meio dos pequenos aparelhos digitais (em certo grau), é positiva para a evolução sociocultural, isso é inegável; inclui a todos e todas as possibilidades imagéticas de produzir e experimentar o mundo. Até o ponto que nos deparamos com aquilo que Sontag já previa, iriamos nos afogar em um mundo de imagens obsoletas, de signos que imergem sob um sistema que afoga também o indivíduo que os produz.
Toda essa influência é muito nítida para um artista que cria a partir da significação. Na sociedade do desejo de “ser visto”, a arte tem o poder de permear o íntimo, de fazer olhar para dentro e olhar ao redor, de gerar imersão em meio à aceleração.
O trabalho de Ivan Schulze toma um rumo que, ao olhar para mais de uma década de rascunhos em seu caderno, questões de si e dos outros podem emergir a partir de um olhar para dentro desses signos “coisificados”, pois todos temos, de alguma forma, nossos próprios diários de bordo e sonhos.
Enquanto o fruidor se desloca no espaço expositivo, a obra é intermediada pela tela do smartphone, à medida que o artista tenta meios de realizar seu próprio desejo de um mecanismo (a fotografia) capaz de fazer fechar os olhos e enxergar para dentro dos sonhos, ainda que numa sociedade mecanizada por algoritmos, condicionada a sempre olhar para dentro da tela do celular, e nunca para dentro de si.
andréia peres curadora
Realização


coisificação I, 2024
escultura, fotografia e impressão digital
40 cm x 60 cm


coisificação II, 2023
objetos, fotografia e impressão digital
100 cm x 60 cm
coisificação III, 2024
modelos, arames, fotografia e impressão digital
100 cm x 60 cm


coisificação IV, 2024
tríptico
escultura, arames, fotografia e impressão digital
20 cm x 30 cm



coisificação V, 2024
objetos, fotografia e impressão digital
15 cm x 21 cm
coisificação VI, 2024
instalação, ferro, fogo, fotografia e impressão digital
40 cm x 60 cm


coisificação VII, 2024
escultura, ferro, fotografia
e impressão digital
40 cm x 60 cm
coisificação VIII, 2024
modelo
objetos, fotografia e impressão digital
40 cm x 60 cm



ivanschulzearte@gmail.com

