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Eclética avenida Nos 3.800 pontos comerciais e de ambulantes espalhados ao longo da Avenida Sete, encontra-se de tudo, inclusive um pouco da história da cidade Texto PEDRO FERNANDES pfernandes@grupoatarde.com.br Fotos THIAGO TEIXEIRA ttxphoto@gmail.com
Q
uem procura algo e pede sugestão de onde encontrar, é certo que vai ouvir um quase condicionado “Avenida Sete”. E é mesmo difícil não encontrar de tudo num dos 3.800 pontos comerciais e bancas de vendedores ambulantes que se estendem por seu 1,3 quilômetro. A avenida começa oficialmente na Praça Castro Alves e termina no Farol da Barra. Mas o lugar ao qual o soteropolitano se refere, sem se dar ao trabalho de dizer o nome completo, é o trecho entre a praça e a Casa D’Itália. Reza a lenda que, ali procurando, tudo dá. Por dia, cerca de 600 mil pessoas circulam por lá. Em 1996, o número não passava de 90 mil. Segundo Haroldo Nuñez, presidente do Fórum Municipal para o Desenvolvimento Sustentável do Centro da Cidade, ela passa por um bom momento. “Lá, não se encontra um ponto comercial vago”. Os pontos podem ser lojas, restaurantes, hotéis. O preço de um desses espaços, a depender da localização, fica entre R$ 100 mil e R$ 1 milhão. “Conseguimos revitalizar a área, agora queremos fazer dela o maior shopping a céu aberto do Norte-Nordeste”. A requalificação à qual Haroldo se refere está em fase de discussão na Prefeitura de Salvador. O projeto pretende implantar mudanças substanciais na avenida. Além de aumentar os passeios,
Saída do Relógio de S. Pedro a caminho da Castro Alves
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com a eliminação das vagas de estacionamento, pretende revitalizar praças e substituir o calçamento. Outra ação é a realocação dos ambulantes para outras áreas do Centro. Uma possibilidade é ao lado do Convento da Lapa. Hoje, quem vai à Avenida Sete sabe da dificuldade que é caminhar por suas calçadas. Muitas vezes as pessoas preferem andar no meio da rua. Elas passam apressadas e cheias de desconfiança. Mal param para falar com a reportagem, desviam, alegam pressa. Reflexo condicionado para se livrar de vendedores insistentes, distribuidores de panfletos e de crédito fácil.
TEM TUDO Perto da Igreja de São Bento, um ambulante que vende um unguento supostamente capaz de curar todo mal (de vermes a artrite) sintetiza a avenida no que diz respeito à concentração de serviços e benefícios. Ele é a prova de que ali tem mesmo de tudo. Mas, cuidado. Sem aviso, o vendedor puxa a mão do curioso, a besunta com o líquido fedido e discorre sobre o óleo. Logo ali ao lado, está o lugar perfeito para a fuga: a Igreja de São Bento. Lá, o espírito se abate sobre o século independentemente de crença. O silêncio, promovido pelas grossas paredes que isolam o local do barulho de carros e pessoas, é suficiente para colocar o visitante novamente em contato consigo. Depois, vem o som suave do órgão e as vozes serenas dos monges em seu canto gregoriano. Para os que creem, é hora de se livrar dos pecados pelo sacramento da confissão. Para os que não creem, observar os rostos mais serenos após o ato de contrição é uma distração capaz de livrá-los por alguns momentos dos seus próprios pesos espirituais. E pensar que por pouco, em 1912, todo
TRADIÇÃO
«Aqui já foi ótimo. Mas ninguém mais anda com dinheiro; preferem comprar no supermercado» Joacyr Ramos, ambulante
o conjunto arquitetônico do mosteiro de São Bento poderia ter desaparecido para dar lugar ao progresso e à modernização da cidade. Ao menos era o que queria o governador José Joaquim Seabra, o homem que naquele ano começou a construir a Avenida Sete de Setembro. Antônio Risério conta, no livro Uma História da Cidade da Bahia, que, influenciado pela reforma urbana do Rio de Janeiro, J.J. Seabra queria dar uma cara mais moderna a Salvador e começou um projeto de urbanização que Risério chama de predatório. De acordo com o historiador Luís Henrique Dias Tavares, uma igreja demolida foi a de São Pedro, destruída para a construção da Praça Barão do Rio Branco. A construção datava do século 18. A paróquia teve de se mudar para a esquina da Praça da Piedade com a Avenida Sete.
De lá até os dias atuais, muita coisa mudou na avenida. Prédios modernos se mesclaram aos que restaram dos antigos. Mas, ainda assim, a tradição há de permanecer. É de 1975 uma das mais antigas lanchonetes da avenida. Perto do Relógio de São Pedro, a Savoy está sob a terceira administração. Desde 2005, Sérgio e Rosa Kruschewski comandam o lugar. Mudaram o atendimento de balcão para o bufê por quilo e colocaram mesas do tipo praça de alimentação. Mas o bolo de tapioca com cobertura de doce de leite é há 30 anos o carro-chefe da casa. “Vem gente com embalagens especiais para levar para o exterior”, conta Rosa. A receita não mudou ao longo dos anos. Ela ainda é feita pela mesma cozinheira. E o resultado é sempre o mesmo. Duas camadas de bolo, macio, quase cremoso, com coco fresco ralado e cobertura de doce de leite feito com leite condensado. Testemunha das transformações na avenida, Joacyr Ramos, 63, não arreda o pé de lá. Ele tem uma banca de frutas na altura da Rua do Rosário há 13 anos. De Avenida Sete, são mais de 55. “Aqui já foi ótimo. Construí minha casa e eduquei meus filhos. Mas está cada vez pior”. Não tanto pelo sol na cabeça ou pelo peso que precisa carregar. Mas pelas vendas, que só tendem a cair. O motivo, ele crê, é a falta da máquina de cartão de débito e crédito. “Ninguém mais anda com dinheiro. As pessoas preferem comprar no supermercado”. É tanto trabalho para conseguir uma que ele acabou desistindo. Há menos tempo que seu Joacyr, Martinho Santos, 46, também tem freguesia garantida. Perto das Mercês, vende suas folhas para tudo quanto é enfermidade. Romã para dor de garganta, milome para o fígado ou para pôr dentro da cachaça. Os
As Mercês (no alto), os passeios cheios e malcuidados da avenida (ao lado) e a Igreja de São Pedro (acima)
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males do espírito também podem ser curados com suas ervas. É por isso que no final do ano as vendas sempre aumentam. Mas a cada ano a tendência é a queda, por conta das religiões evangélicas, que associam as ervas às religiões afro-brasileiras. Também trabalhando como ambulante, Bárbara dos Santos, 41, aposta na variedade. Vende o artesanato que faz em sandálias de borracha, calculadora, flor de crochê para o cabelo, trufa de chocolate. Ela diversifica para ter sempre o que vender nesses tempos de crise. Antes da atual, a dos noticiários, viveu uma outra crise que a levou para o comércio de rua. Trabalhava em uma loja de aluguel de roupas até que foi demitida. Na época, estava grávida e só esperou ter o bebê para começar a procurar emprego novamente. Diante da dificuldade, foi à prefeitura, se legalizou e colocou sua guia na rua. Já faz três anos, e ela não se arrepende. “É prazeroso. Toda hora a gente conhece alguém diferente. Do morador de rua ao turista”. Mas não é só de comércio que vive a avenida. Seu Hamilton Guimarães, 83, é um dos tantos senhores que se sentam diariamente nos bancos da Praça da Piedade para ver as tardes passarem em conversas sobre política, família, paqueras. “Cada qual vai desabafando o que tem para dizer e trocando conhecimentos”, explica. Começou a ir à praça para fugir da solidão e se “distrair da falta” que experimentou logo após perder a esposa. Lá se vão 18 anos. “Depois que o sujeito se aposenta, o local ideal para ficar é aqui. Não bebo nem fumo para ficar em porta de boteco”. Foi assim, fugindo da solidão, procurando conversa fiada, que encontrou um novo amor. Há três anos mora com ela. Na Avenida Sete, não importa o que se procura, sempre acaba por se encontrar. «
GAS T R Ô QUEIJO
Banca de ervas no meio da rua. Seu Joacyr vendendo frutas. E o povo andando no asfalto perto do São Bento
Sabor forte Como nem só de mussarela vive o homem, baianos começam a se aventurar num novo mundo de sabores (e peculiares odores) Texto LIANA ROCHA lrocha@grupoatarde.com.br Foto THIAGO TEIXEIRA ttxphoto@gmail.com