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"Não estou preocupado em fazer sucesso"

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«Não

estou preocupado em fazer

sucesso» Texto PEDRO FERNANDES pfernandes@grupoatarde.com.b r Fotos REJANE CARNEIRO rcarneiro@grupoatarde.com.br

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“É um convite superbem-vindo para mim. Diga a Tadeu que gosto muito dele. Maravilha“. Luis Miranda, 39, desliga o telefone. É a segunda vez que a entrevista é interrompida por um telefonema de trabalho. “Outro filme“, ele explica. Identidade é sobre o assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes e deve começar a ser gravado neste mês, em Londres. Luis é um ator que faz de tudo, mas não faz qualquer coisa. Com cinco longas no currículo, ainda grava este ano Quincas Berro Dágua, de Sérgio Machado, e O Trampolim do Forte, de João Rodrigo Mattos. Neste meio tempo, ele excursiona pelo Brasil com a peça 7 Conto (que deve virar DVD) e toca a sua produtora, a Cocada Puxa. “Acho que para 2008 está de bom tamanho”. Muitos atores baianos estão indo para São Paulo e Rio de Janeiro. Você acha que isso se deve à maior visibilidade de alguns deles no cenário nacional? Você, que está voltando, ainda acredita nesse movimento? Esses expoentes geram uma expectativa das pessoas que estão aqui e querem fazer parte desse grupo de baianos do cacete. Mas acho que isso é para um outro tipo de galera. Claro que todo mundo quer fazer tevê e fazer sucesso. Quando saí daqui, tinha a idéia do aprendizado, de ver o novo. A idéia de entender que existe um horizonte maior do que esse teatro e as coisas que a gente vive e está acostumado aqui. Acredito que a gente tem um teatro que sobrevive por conta de caminhos abertos por A Bofetada , Guerreiro, Wilson Melo e outras pessoas que fizeram o teatro baiano se fortalecer e geraram para as pessoas que estão


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Como você resolveu montar sua produtora, a Cocada Puxa? Você já fez algo parecido antes? Já. Eu já trabalhei muito com o Teatro da Vertigem e, lá, todo mundo tinha uma função além da de ator. Montar a produtora já era um sonho grande e resolvi montar aqui porque acho que é importante a gente fazer isso no lugar que gosta. A idéia não é produzir somente as minhas coisas, mas de trazer para cá espetáculos pequenos, sem patrocínio, que nunca viriam. Juntar pessoas que tenham vontade de organizar festivais de teatro alternativo e para ver a possibilidade de aumentar os nossos espaços culturais.

aqui um ganha-pão e uma área de trabalho muito pertinente. Há muita gente que trabalha aqui há anos e não tem vontade de sair e há os querem sair e fazer novela. Mas isso é para mim o resultado, não do baiano, mas do ator. Do Lázaro, do Wagner, do João Miguel e de um monte de gente. Eles são atores especiais. Nenhum tem as características banais dos atores comuns que fazem sucesso e são aclamados pela mídia, nenhum é um desses modelos que viraram galãs dentro dessa necessidade de inserção do belo na mídia. Por que você resolveu fazer o caminho de volta para a Bahia? Quando você decidiu que era hora de voltar? Eu nunca fui. Estava emprestado ao Rio e a São Paulo. Ator não tem esse negócio de morar em um lugar. Ator mora onde tem trabalho. Voltei para fazer um espetáculo para as pessoas da minha terra, para fazer dois filmes sobre a minha terra, o Quincas Berro Dágua, do Sérgio Machado, e O Trampolim do Forte, de João Rodrigo Mattos. Eu vim trabalhar. Tenho projetos como o Via- Crúcis que quero produzir no Museu du Ritmo, nos moldes do que era o Caminho do Senhor, escrito e dirigido por Sônia Brito. Trazer a comunidade para participar, dar oficinas para as pessoas, instrumentação para elas perceberem o quanto o teatro é interessante. Acho que é importante oferecer subsídios para aumentar o mercado de trabalho e para trazer para nós oportunidades e diversidade. É uma vontade que eu tenho de fazer isso aqui. Daqui a pouco, posso fazer isso em outros lugares.

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A sua idéia é investir na montagem de todo tipo de espetáculo? Sim. Tenho uma idéia com o Jauperi de fazer um show em homenagem ao sambista Riachão, depois de tudo que aconteceu com ele. Um show com vários artistas da Bahia, falando e cantando Riachão. Para que ele se sinta amado e, de fato, ele é. Isso já está na pauta da produtora. Só depende de ele querer também. A gente já tem um monte de amigos que já deu seu o.k. Tonho Matéria, Carlinhos Brown também. Vai rolar em breve. OS PERSONAGENS Entre a menininha de laços nos cabelos e o flanelinha, um universo que guarda características bem baianas e que são, ao mesmo tempo, universais

Você pretende também levar espetáculos daqui para outros lugares? A gente quer que o teatro daqui também viaje e seja visto. Na medida do possível, queremos que essas coisas sejam exportadas. Do que carece, principalmente, o teatro feito na Bahia?

Primeiro, de patrocínio, dinheiro. Soube notícias do Javali, peça montada no Castro Alves, Sala do Coro, que eles não tinham dinheiro para pagar as pautas. Teatro estadual, e você não consegue apoio para fazer o espetáculo lá. Acho também que ainda temos algumas coisas de má qualidade, equivocadas, calcadas muito no besteirol, como se fossem a única possibilidade. Carecemos de produção, e os espetáculos saem mal-acabados. É a condição dos R$ 5 mil para fazer tudo. Salvador precisa de leis e de patrocinadores que queiram fomentar e introduzir a cultura do teatro.

«Ainda temos coisas de má qualidade, equivocadas, calcadas muito no besteirol» Na sua opinião, qual é a maior virtude do teatro baiano? Criatividade. A gente faz do crepe, do adesivo e da piaçava, roupas de época. Como o Ricardinho [Castro] fez da dificuldade de produção um produto como 1,99. A gente vai na rua buscar, como eu fiz, as persona-

gens que vão alimentar o discurso e o que a gente quer dizer. Fazemos do Bando de Teatro Olodum referência nacional, sem dinheiro, sem nada, no grito. A gente faz muito. É verdade que você é formado em dança pela Universidade Federal da Bahia? Nunca consegui mudar isso. É mentira. Fiz lá na Ufba um curso de dança, de expressão e fiz parte de grupos ligados à universidade. Isso saiu em alguma nota e nunca consegui mudar. Vamos corrigir. Mas tenho formação de bailarino, fiz muito tempo aulas de clássico e participei de grupos de dança.


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«Através do riso, você pode destituir um presidente, dessacralizar uma lei. Só rindo» De que maneira essa experiência se encaixa em sua vida e em seu trabalho? Meu espetáculo tem muita coisa de dança. Minha postura, o jeito como eu uso meu corpo para caracterizar o personagem. Isso tudo é fruto de pesquisa de eixo e gravidade que a dança nos oferece, como eu alimento meu corpo para o espetáculo é uma herança da dança e dos professores bons que eu tive. O corpo é um prolongamento das minhas idéias. Seus personagens fazem sucesso no You Tube. Você se incomoda ou pensa que toda publicidade é bem-vinda? Acho que é uma possibilidade de divulgação a mais. Só não gosto quando isso é feito de maneira clandestina: quando as pessoas vão lá e roubam parte do espetáculo.Esse é um puta poder que ganhamos contra essa mídia opressora e tendenciosa que só mostra o que é fútil e não tem consistência. Tenho a idéia de criar um site para esses personagens para que as pessoas os tenham sempre de maneira nova e fresquinha. Foi no Terça Insana que você percebeu que poderia fazer um espetáculo como O 7 Conto? O Terça Insana ajudou o Luis Miranda a perceber que aquilo era uma fonte de possibilidades. E quem me apontou isso foi meu público. Era impressionante quando a Dona Edith entrava. Sem falsa modéstia. Era um clamor quando a Sheila entrava. São

personagens muito verdadeiros. As pessoas mandam beijos e recados para Dona Edith na rua. Acho isso maravilhoso. Eu criei esses personagens, mas eu não posso matá-los. Você ganhou projeção nacional com personagens cômicos, mas já atuou em peças como Os Sete Gatinhos e Apocalipse 1,11. O que o drama lhe dá como ator? Eu estou com um projeto de drama com uma diretora do Rio, Cristiane Jataí. Acho que a gente tem que fazer tudo. Mas acho que as coisas têm de ter uma necessidade de ser montada. Socialmente, filosoficamente. Eu não quero fazer Shakespeare – não vai aqui nenhuma crítica a quem está fazendo, como é o caso do Wagner (Moura) – se não for para discutir uma causa, um fenômeno, uma necessidade social. Estou com vontade de voltar a fazer isso. O que você mais gosta na comédia? Sua amoralidade. Seu dedo em cima da ferida. Suas entrelinhas. A comédia é fantástica. Através do riso, você pode destituir um presidente, dessacralizar uma lei. Só rindo. Porque tá brabo. Miséria, fome, desmatamento, gente neurótica matando filho. Se a gente não pegar leve, vai ficar brabo. Acho que a gente tem que desopilar. Comédia é mais rentável? Dizem que sim. Eu não acredito nisso. Mas existe uma grande parte de

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sucessos no Brasil que são comédias. Então, a gente fica na dúvida. Talvez, o ser humano tenha uma necessidade de rir mais. Para você, que peso o programa na TV Globo tem em sua carreira? Um peso imenso. Peso de carisma que atingi com meu público, por causa do simpático Moreno, criado pelas minhas amigas Ingrid Guimarães e Heloísa Perissé que tiveram a idéia de me chamar. Pela oportunidade de viver com o Tourinho enquanto ele esteve aqui na Terra, pela amizade de Otávio Müller, pela descoberta de parceiros e amigos dentro da Rede Globo e porque foi mais um trabalho. O que você não faz, tanto em teatro como em televisão e cinema? Não sei. Preciso me deparar com o problema para me questionar. Faria tudo, menos o que acho que seja inferior ao que eu posso oferecer. Essa inferioridade diz respeito a coisas que eu considere preconceituosas, que eu considere depreciativas e que tenham um discurso idiota. Você disse que recebeu convites para novela e não gostou? Você não gosta de novela ou não gostou da novela que lhe ofereceram? Geralmente me chamam para fazer umas coisas... Não gostei da novela que me ofereceram. Eu tinha outros projetos. Cinema, teatro. No momento, essas coisas eram mais interessantes que uma novela. Não estou preocupado em fazer sucesso. Estou preocupado em construir uma história coerente para mim. «


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"Não estou preocupado em fazer sucesso" by Pedro Fernandes - Issuu