revistaUCS UCS
UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL
Agosto e Setembro/2017 . Ano 4 . Nº 24
A SERVIÇO DA VIDA TRAJETÓRIA DE 15 ANOS DO LABORATÓRIO DE PESQUISA EM HIV/AIDS COLOCA UCS ENTRE AS INSTITUIÇÕES DE REFERÊNCIA NO PAÍS NO ENFRENTAMENTO DA DOENÇA
Metodologia de diagnóstico de infecção por HIV através de amostras de sangue em papel-filtro, validada pelo LPHA/UCS.
Fotos Claudia Velho/UCS
HIV/AIDS: HÁ 15 ANOS LABORATÓRIO DE PESQUISA INSERE A UCS NO CENÁRIO NACIONAL DE COMBATE À DOENÇA. 4
Berenice Stallivieri/ especial UCS
DRAUZIO VARELLA: PREVENÇÃO COMO CAMINHO PARA A PROMOÇÃO EFETIVA DA SAÚDE. 8
FREI BETTO: PRINCÍPIO CRISTÃO DA PARTILHA DOS BENS DA VIDA COMO PARADIGMA DA PÓS-MODERNIDADE. 10 MIGUEL NICOLELIS: INTERFACES CÉREBROMÁQUINA RESGATANDO QUALIDADE DE VIDA POR MEIO DA TECNOLOGIA.
MÉRITO EM EDUCAÇÃO, CIENTÍFICO E COMUNITÁRIO: RECONHECIMENTO A VIDAS DEDICADAS À EDUCAÇÃO. 16
Fundação Universidade de Caxias do Sul Presidente do Conselho Diretor: Ambrósio Luiz Bonalume
Universidade de Caxias do Sul Reitor: Evaldo Antonio Kuiava Vice-Reitor: Odacir Deonisio Graciolli Pró-Reitor Acadêmico: Marcelo Rossato Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação: Nilda Stecanela Pró-Reitor de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico: Odacir Deonisio Graciolli Diretor Administrativo e Financeiro: Cesar Augusto Bernardi Chefe de Gabinete: Gelson Leonardo Rech
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revistaUCS
Produção: Assessoria de Comunicação UCS Setor de Imprensa e Mídias Digitais Edição: Ariel Rossi Griffante Revisão: Ariel Rossi Griffante. Cristina Beatriz Boff, Josmari Pavan e Vagner Espeiorin Foto de capa: Claudia Velho/UCS Design gráfico: Carmem Meira Theodoro/ Ouse Design Comunicação Supervisão: Dimas Augusto Felippi Tiragem: 5.000 exemplares Contato: 54.3218.2116; argriffante@ucs.br; imprensa@ucs.br Versão digital: www.ucs.br/revista-ucs
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Claudia Velho/UCS
Orientadora Miriam Salvador, mestre Caroline Zuanazzi e a bolsista Paulina Maccari, acadêmica de Nutrição: resultados apontam para potencial de redução de doenças cardiovasculares.
‘IN SUCUS SANITAS’
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SE A VERDADE ESTÁ NO VINHO (IN VINO VERITAS, CONFORME O PROVÉRBIO EM LATIM), A SAÚDE ESTÁ NO SUCO DE UVA (BRANCO), MOSTRA ESTUDO PIONEIRO DO IB-UCS CONCEIÇÃO AFONSO – mccafons@ucs.br Pela primeira vez um trabalho científico comprova os efeitos positivos para a saúde decorrentes de suplementação alimentar com suco de uva branco. Entre os resultados, chama a atenção dos pesquisadores o aumento de HDL, popularmente conhecido como o colesterol bom, e a diminuição de peso e medidas – com possível impacto na redução da incidência de doenças cardiovasculares. A descoberta faz parte da dissertação de mestrado Efeitos da Suplementação de Suco de Uva Branco sobre as Medidas Antropométricas em Mulheres, da biomédica Caroline Zuanazzi, por meio do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da UCS. De acordo com o projeto, a literatura científica já listou os benefícios, para a saúde, decorrentes do consumo de vinho e suco de uva, tais como a neutralização dos danos oxidativos causados pelos radicais livres, a prevenção da hipertensão e das disfunções cardiovasculares e a atividade anticarcinogênica. No entanto, segundo a mestranda, esses estudos sempre estiveram mais focados nos
derivados de uvas tintas, não havendo comprovações dos mesmos resultados com relação ao consumo de suco de uva branco. Caroline, então, estudou os efeitos da suplementação do suco de uva branco sobre medidas antropométricas, pressão arterial, glicemia, perfil lipídico e danos oxidativos em mulheres saudáveis. MAIS HDL, MENOS MEDIDAS Para viabilizar a pesquisa, um grupo de 25 mulheres, com idades entre 50 e 67 anos, integrantes do programa UCS Sênior – Educação e Longevidade, foram orientadas, mediante acompanhamento nutricional, a ingerir 7ml/kg peso/dia de suco de uva branco durante 30 dias, mantendo uma dieta ajustada para manutenção do valor calórico total. Os resultados mostraram que, mesmo tendo menor teor de polifenóis do que o suco de uva tinto, o consumo de suco de uva branco foi capaz de aumentar em 16% o colesterol HDL e de diminuir o Índice de Massa Corporal (IMC) e a circunferência abdominal das participantes. Não
foram observadas alterações na glicemia, na insulina (o que aponta para o possível consumo por diabéticos) – e nos níveis de óxido nítrico ou nos marcadores de danos oxidativos. “Além do ineditismo, já que pela primeira vez se analisam os efeitos do suco de uva branco como suplementação alimentar, o aumento do HDL merece ser destacado, porque não é comum de ser conseguido com alimentos e porque pode ter impacto na redução de doenças cardiovasculares”, frisa a professora orientadora da pesquisa e coordenadora do Laboratório de Estresse Oxidativo e Antioxidante do Instituto de Biotecnologia (IB-UCS), Mirian Salvador. A pesquisa conjugou conhecimentos das áreas de Química, Biotecnologia e Nutrição e contou com coorientação das professoras Josiane Siviero, do curso de Nutrição, e Regina Vanderlinde, do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia. Por intermédio do trabalho, as voluntárias do Programa UCS Sênior também passaram por uma formação sobre a importância da alimentação saudável. *A Saúde está no Suco, em latim
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CIÊNCIA PELA VIDA COM 15 ANOS DE ATUAÇÃO, LABORATÓRIO DE PESQUISA EM HIV/AIDS DA UCS TORNOU-SE REFERÊNCIA NACIONAL NO ENFRENTAMENTO DA DOENÇA CONCEIÇÃO AFONSO – mccafons@ucs.br A Universidade de Caxias do Sul reuniu especialistas do Brasil e do exterior na área de HIV/AIDS para debater o cenário atual e o enfrentamento brasileiro à epidemia que, segundo relatório da UNAIDS (programa das Nações Unidas de combate à doença), foi causa da morte de 14 mil pessoas no país em 2016. O Simpósio 15 Anos de Pesquisa em HIV/AIDS no Brasil e no Mundo, realizado em 24 e 25 de agosto, também comemorou os 15 anos de atividades que transformaram o Laboratório de Pesquisa em HIV/ AIDS (LPHA) da UCS em referência no país. A palestra de abertura foi proferida pelo médico oncologista Drauzio Varella, um dos primeiros pesquisadores do tema no país (leia mais nas páginas 8 e 9). O laboratório foi criado em 2002 como resposta a uma iniciativa do National Institutes of Health (NIH), a principal agência norte-americana de fomento à pesquisa na área mé-
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dica, que oferecia apoio e recursos para a instalação e capacitação de centros de pesquisa internacionais em HIV/AIDS. O foco era a geração de conhecimento qualificado sobre a doença nas áreas laboratorial, epidemiológica e comportamental. IMPACTO NACIONAL “A criação do laboratório nasceu do sonho de um médico – o Dr. Ricardo da Silva de Souza (in memorian) – que, com uma pequena equipe e uma sala emprestada, iniciou na Universidade de Caxias do Sul um projeto capaz de gerar conhecimento qualificado, baseado em pesquisa científica, de forma autossuficiente em termos de financiamento, e de excelência em sua estrutura organizacional e operacional”, destacou a atual coordenadora, Dra. Rosa Dea Sperhacke, ao homenagear o idealizador e primeiro chefe do laboratório, na abertura do simpósio.
Em seguida, ela apresentou um balanço dos resultados que colocam a UCS nos cenários nacional e mundial de enfrentamento da epidemia de HIV/AIDS, como a realização de 23 projetos de pesquisa, em parceria com universidades, institutos, hospitais e centros de referência, com financiamento de agências de fomento à investigação científica. “Esses projetos impactaram diretamente mais de 87 mil pacientes e têm seus resultados registrados em 21 artigos científicos e em 43 resumos em anais de congressos nacionais e internacionais. A expertise de nossos pesquisadores também colaborou para a elaboração de três portarias e cinco manuais técnicos publicados pelo Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), do HIV/AIDS e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde”, descreveu.
Fotos Claudia Velho/UCS
PRINCIPAIS PROJETOS EXECUTADOS NO LPHA O Laboratório de Pesquisa em HIV/AIDS atua de forma multidisciplinar, com base em pesquisa (com estudos epidemiológicos e preventivos, validação de metodologias laboratoriais e estudos sociocomportamentais); extensão (prestação de serviços, na maioria das vezes intrínsecos aos projetos de pesquisa); e o ensino, com a participação de estudantes de graduação e pós-graduação de diferentes cursos. Entre os projetos desenvolvidos, destacam-se: w Acompanhamento de mulheres portadoras de HIV e seus filhos, com objetivo de avaliar os efeitos da terapia antirretroviral por um período de até cinco anos. w Diagnóstico da infecção pelo HIV utilizando a metodologia de papel-filtro.
w Estudo da epidemia do subtipo C do HIV-1. w Diagnóstico de infecções agudas e recentes do HIV-1 empregando métodos laboratoriais. w Validação de testes rápidos para o diagnóstico da infecção pelo HIV.
w Prevalência da depressão perinatal e fatores associados nos períodos de ante-parto e pós-parto entre mulheres portadoras do HIV. w Avaliação da prevalência da infecção pelo HIV, sífilis e hepatites em mulheres e homens em idade reprodutiva.
REDUÇÃO DE ÍNDICES MOSTRA EFETIVIDADE DE TRATAMENTOS Em junho deste ano, a UNAIDS - Programa Conjunto das Nações Unidas para enfrentamento do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), causados da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) lançou seu relatório anual sobre a situação global da epidemia com as últimas estimativas epidemiológicas e a revisão de dados referentes a 2016 em 168 países. Em nível mundial, a boa notícia é que as mortes relacionadas à AIDS caíram de 1,9 milhão em 2005 para cerca de 1 milhão em 2016, quando 19,5 milhões de pessoas com HIV (53% do total de portadores no mundo) estavam em tratamento, superando os 17,1 milhões registrados em 2015. Entre 2010 e 2016, também diminuiu em 16% o total anual de novas infecções – no entanto, apesar da tendência mundial de queda, em
várias regiões do mundo onde há dificuldades para expandir o tratamento, este índice cresceu. GRATUIDADE ASSEGURADA Ainda segundo o relatório da UNAIDS, o Brasil é o país com mais casos de novas infecções por HIV na América Latina, tendo registrado, em 2016, 48 mil novos casos (49% das ocorrências no continente). No mesmo ano, houve 14 mil mortes relacionadas à AIDS no país. Desde 1996, o Brasil fornece tratamento gratuito pelo SUS para pessoas com AIDS. E, em 2013, o benefício foi estendido a todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente de seu estado imunológico. O Ministério da Saúde também vem simplificando e descentralizando o tratamento antirretroviral e aumentando a cobertura de testagem para HIV.
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RS TEM MAIOR DETECÇÃO DE NOVOS CASOS DO PAÍS De acordo com dados apresentados pela diretora do Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Adele Benzaken, no simpósio promovido pela UCS, os Estados do Rio Grande do Sul, do Amazonas e de Santa Catarina apresentam os índices mais elevados no ranking de detecção do vírus e nas taxas de mortalidade em decorrência da AIDS. “No RS, único Estado brasileiro onde a sociedade tem resistência ao teste rápido de detecção, a taxa de mortalidade é o dobro da do país”, apontou Adele. Para fazer frente a essa realidade, o Ministério da Saúde vem implementando ações específicas para esses Estados, especialmente as cooperações interfederativas, com a unificação da agenda de serviços da União, do Estado e dos municípios. O objetivo é expandir o acesso ao diagnóstico rápido e o aprimoramento da gestão em saúde. A diretora também destacou o Programa Viva Melhor Sabendo, que entre janeiro de 2014 e maio de 2017 possibilitou a
realização de mais de 120 mil testes de detecção da doença, sendo que 52% das pessoas examinadas nunca haviam sido testadas antes; e o TeleLab, um programa de educação continuada com cursos gratuitos voltados para profissionais da área da saúde com foco no diagnóstico e no monitoramento da doença. SAÚDE PÚBLICA GLOBAL Para a consultora do Laboratório do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/AIDS e das He-
INFORMAÇÃO, TRATAMENTO E REDUÇÃO As metas 90-90-90, lançadas em 2014 na 20ª Conferência Internacional de AIDS, em Melbourne, Austrália, refletem uma mudança fundamental na abordagem mundial de enfrentamento do HIV/AIDS. O foco passou a ser o número de pessoas que acessam a terapia antirretroviral e a necessidade de maximizar a supressão viral – que, além de proteger as pessoas que vivem com HIV contra a progressão da doença para a AIDS, também reduz o risco de transmissão do vírus para outras pessoas.
MUNDO 2016
PROGRESSO DAS METAS 90 – 90 – 90 PARA 2020
90%
90%
90%
de todas as pessoas vivendo com HIV devem conhecer o seu estado sorológico positivo para o vírus.
de todas as pessoas diagnosticadas com HIV devem ter acesso ao tratamento antirretroviral.
de todas as pessoas em tratamento devem ter carga viral indetectável.
70%
(51% – 84%)
77%
(57% – 89%)
82%
(60% – 89%)
* Os números entre parênteses, abaixo do percentual atual no mundo, se referem à faixa de oscilação dos índices, do menor para o maior, nos diferentes países pesquisados. Fonte: Global UNAI DS Up date /2017 6
patites Virais do Ministério da Saúde, Miriam Franchini, a epidemia, que já levou mais de 37 milhões de pessoas a óbito em todo o mundo, ainda é um problema de saúde pública global. Ao enfatizar a importância das pesquisas para a evolução dos medicamentos e dos testes de detecção da doença, Miriam destacou a regulamentação do diagnóstico e se mostrou totalmente favorável aos testes rápidos. “É uma ferramenta para se usar sem medo, com toda a segurança”, defendeu. Referenciando-se nas metas da UNAIDS preconizadas para serem atingidas no ano de 2020 (veja tabela abaixo), a coordenadora do Laboratório de Pesquisa em HIV/AIDS da UCS, Rosa Dea Sperhacke, afirma que, no país, os dados de 2016 revelam que a testagem está quase chegando aos 90%, que é a meta para 2020. “O tratamento no Brasil continua a ser um sucesso, uma vez que cerca de 90% dos brasileiros em tratamento antirretroviral chegam à condição de carga viral indetectável”, reforça.
HIV-AIDS EM NÚMEROS w Existem hoje, no mundo, 36,7 milhões de pessoas vivendo com HIV/AIDS. w No Brasil, de 1980 a junho de 2016, foram notificados 842.710 casos de AIDS. w Desses, 548.850 (65,1%) são em homens e 293.685 (34,9%) em mulheres. w As taxas de detecção de AIDS em homens nos últimos dez anos têm apresentado crescimento. w O Brasil tem registrado uma média de 41,1 mil novos casos por ano da doença. w Apesar disso, a taxa de detecção de AIDS no Brasil tem apresentado estabilização nos últimos dez anos, com uma média de 20,7 casos/100 mil habitantes. w Os maiores índices do país são apresentados pelo Rio Grande do Sul, com 34,7 casos/100 mil habitantes, e de Santa Catarina, com 31,9 casos/100 mil habitantes (dados de 2015). w No mesmo ano, Porto Alegre apresentou taxa de 74 casos/100 mil habitantes em 2015, correspondente ao dobro da taxa do RS e a quase quatro vezes a taxa do Brasil. w Desde 2000, a faixa etária entre 20 e 24 anos é a que apresenta o maior número de casos de gestantes infectadas com HIV (28,6%). Fontes: Boletim Epidemiológico 2016 – MS/SVS/Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais, e Relatório UNAIDS.
MIGUEL NICOLELIS
Fotos Claudia Velho/UCS
DRAUZIO VARELLA
AUTORIDADES INTERNACIONAIS EM SUAS ÁREAS DE ATUAÇÃO, MÉDICO DRAUZIO VARELLA, NEUROCIENTISTA MIGUEL NICOLELIS E EDUCADOR SOCIAL FREI BETTO PALESTRARAM EM AGOSTO NA UCS
CONHECIMENTO UNIVERSAL
FREI BETTO
Familiarizada com a condição de lugar da universalidade do conhecimento, premissa que fundamenta o espírito de uma Universidade – responsável, inclusive, pela denominação – a UCS teve, no mês de agosto, uma sequência de atividades em que a pluralidade de ideias, a transmissão de saberes e a proposição de reflexões sobre diferentes temáticas e ciências estiveram em destaque. Com palestrantes de renome nacional e internacional, os eventos, integrados às comemorações dos 50 anos da UCS, foram direcionados às comunidades acadêmica e em geral, lotando as dependências do UCS Teatro e reunindo diversos outros especialistas nas discussões propostas. O Simpósio de 15 Anos do Laboratório de Pesquisa em HIV/AIDS da UCS teve como palestrante de abertura, no dia 24, o médico oncologista Drauzio Varella, um dos pioneiros em pesquisas na área e possivelmente
o mais conhecido ativista de campanhas preventivas de saúde do país pelo seu trabalho na televisão. Já o IV Seminário de Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento Social, organizado pela Área do Conhecimento de Ciências Exatas e Engenharias, trouxe como palestrante principal, no dia 14, o neurocientista Miguel Nicolelis, considerado o mais importante cientista brasileiro e um dos 20 maiores do mundo na atualidade. A Área do Conhecimento de Humanidades, por sua vez, promoveu, junto com o Instituto Religare de Estudos do Fenômeno Religioso, o Programa de Pós-Graduação em História e o curso de História, a palestra A Mística Cristã e a Defesa da Vida, proferida pelo frade dominicano e escritor Frei Betto. Com 55 anos de atuação em Direitos Humanos e educação social, o religioso tornou-se uma referência latinoamericana na área. Confira, nas páginas a seguir, a cobertura de cada uma das atividades. 7
Abertura do SImpósio sobre HIV/AIDS no UCS Teatro: Drauzio viu surgir a epidemia em 1981, nos EUA, e foi um dos primeiros a pesquisar sobre o vírus no Brasil.
DRAUZIO VARELLA
‘PREVENÇÃO É A SAÍDA PARA A SAÚDE’ ABRINDO O SIMPÓSIO DE 15 ANOS DO LABORATÓRIO DE PESQUISA EM HIV/AIDS DA UCS, MÉDICO DESTACOU A COMBINAÇÃO ENTRE INFORMAÇÃO, PESQUISA CIENTÍFICA E POLÍTICAS PÚBLICAS PARA ENFRENTAMENTO DA DOENÇA NO PAÍS CONCEIÇÃO AFONSO – mccafons@ucs.br O simpósio que marcou o aniversário de 15 anos do Laboratório de Pesquisas em HIV/AIDS da Universidade de Caxias do Sul (leia mais nas páginas 4 a 6), teve como palestrante de abertura o médico oncologista Drauzio Varella. Um público predominantemente de jovens lotou o UCS Teatro na noite de 24 de agosto para conferir o conhecimento do profissional que, ao engajar-se em campanhas de prevenção e tratamento de doenças fazendo uso da mídia de massa – por meio de programas de rádio e televisão – consagrou-se nacionalmente pela 8
capacidade de esclarecer o orientar aos mais diferentes públicos. Drauzio viu surgir a epidemia de AIDS – quando sequer se sabia se tratar de uma nova doença – em 1981, durante um período de estudos em um hospital em Nova York, EUA. Vários homens estavam apresentando sintomas comuns, como baixa humanidade, pneumonia e Sarcoma de Kaposi (tipo de câncer até então raro, que surge nos tecidos dos vasos sanguíneos e linfáticos e provoca manchas visíveis na pele). Dois anos depois, quando retornou ao
hospital para um estágio, ficou sabendo que aqueles pacientes vinham da comunidade homossexual e estavam morrendo sem que houvesse qualquer margem de resultado nos tratamentos. Por conta do público que atingia, dos sintomas e da letalidade, a doença ficou conhecida, na época, como ‘peste gay’. “Na volta para o Brasil eu era o único oncologista que tinha visto pacientes, na maioria jovens, morrendo em decorrência do Sarcoma de Kaposi, para o qual ainda não se conhecia tratamento eficaz”, recordou.
‘INFORMAÇÃO CORRETA MODIFICA HÁBITOS’ Dessa experiência, nasceu o desejo de saber mais sobre o vírus que infectava e destruía linfócitos, comprometendo as defesas imunológicas, e compartilhar este conhecimento com a sociedade, que, em pânico, estava ávida por informações, principalmente sobre as formas de prevenção. Ao escrever um artigo sobre a AIDS para o jornal O Estado de S.Paulo e dar uma entrevista para a Rádio Jovem Pan, que foi transmitida em partes (e, por isso, durante muito tempo), Drauzio transformou-se em um prestador de serviços à população. Um comunicador eficiente que se engajou em inúmeras campanhas com a finalidade de informar sobre prevenção à AIDS. AÇÕES NO CARANDIRU Em 1989, como médico voluntário, iniciou uma pesquisa sobre HIV na população carcerária masculina da Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. A ação começou com os detentos que recebiam visitas íntimas, mas acabou se estendendo a toda a cadeia, resultando em um trabalho social e educativo que prosseguiu até 2002, quando o presídio foi desativado. “Durante dez anos desenvolvemos um programa de palestras com os presos. Conseguimos gerar conscientização sobre os perigos até acabar com o uso da cocaína injetável, infelizmente substituída pelo crack, e diminuímos a prevalência da AIDS na cadeia. Isso comprova que informação passada corretamente acaba modificando hábitos”, exemplificou.
‘NÃO PODEMOS IMAGINAR UM BRASIL CIVILIZADO SEM O SUS’ O surgimento, em 1995, de uma nova geração de medicamentos – os inibidores de protease –, trouxe desafios para quem atendia a pacientes com HIV/AIDS. “Precisávamos convencer a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a importância de liberar essas drogas o mais rapidamente”, lembrou. E foi com a repercussão de uma entrevista concedida pelo médico no programa de Jô Soares na televisão que os agentes públicos foram convencidos. Em 72 horas, os remédios foram liberados. “O Brasil fez uma revolução no tratamento da AIDS com a distribuição gratuita de medicamentos através do Sistema Úni-
co de Saúde (SUS). Mostramos ao mundo que isso era possível. Para isso, quebramos patentes e compramos brigas com grandes laboratórios internacionais”, descreveu. Para ele, a medida foi um divisor de águas. “Com a distribuição dos remédios, a epidemia caminhou mais devagar”, assegurou, atribuindo a melhoria à política pública instituída pela Constituição de 1988 que oferece a todo cidadão brasileiro acesso integral, universal e gratuito a serviços de saúde. “Mesmo com muitos problemas, o sistema tem ilhas de excelência reconhecidas no mundo inteiro. Não podemos imaginar um Brasil civilizado sem a existência do SUS”.
Fotos Claudia Velho/UCS
Aumento de incidência entre pessoas de 20 a 24 anos: ‘Temos que convencer os jovens, que não viveram a realidade do passado, de que a AIDS continua sendo uma ameaça grave’.
‘A SOCIEDADE AINDA PRECISA SE CONSCENTIZAR DOS RISCOS’ Conhecido em todo o país pelos programas na televisão, nos quais, há 18 anos, trata de assuntos relacionados à saúde humana, Drauzio Varella endossou a preocupação dos pesquisadores e das autoridades em HIV/AIDS quanto à necessidade de avançar nas estratégias de prevenção da doença. “Minha geração viu uma doença mortal transformar-se em uma doença controlável, mas hoje temos que convencer os jovens, que não viveram a realidade do passado, de que a AIDS continua sendo uma ameaça grave. A sociedade ainda precisa receber informação ativamente, se conscientizar dos riscos e buscar se prevenir, pois o governo não pode agir sozinho”, sustentou.
Segundo o médico, ainda morrem 14 mil pessoas por ano em decorrência da AIDS no Brasil, o que é considerado muito alto conforme os padrões mundiais. “Por isso a necessidade de se ampliarem as campanhas de prevenção, e todos devem se mobilizar para isso”, reforçou. Somada ao tratamento gratuito pelo SUS e à pesquisa científica, para aperfeiçoamento dos medicamentos, a prevenção tem, de acordo com Drauzio, capacidade de mudar o rumo da infecção pelo HIV no país. “A prevenção é a saída para a saúde dos brasileiros, seja na esfera pública, através do SUS, seja na esfera do atendimento privado, na saúde suplementar”, resumiu. 9
Claudia Velho/UCS
FRADE DOMINICANO E ESCRITOR ANALISOU TRANSIÇÃO MUNDIAL PARA A PÓS-MODERNIDADE, DISCORREU SOBRE FILOSOFIA, RELIGIÃO, POLÍTICA E EDUCAÇÃO E DEFENDEU PROJETO SOCIAL DE ‘PARTILHA DOS BENS DA VIDA’ ARIEL ROSSI GRIFFANTE - argriffante@ucs.br Frei Betto é um homem de convicções. Aos 73 anos, completados três dias após palestrar na UCS sobre A Mística Cristã e a Defesa da Vida, dia 22 de agosto, elas seguem inabaláveis como eram aos 18 – quando, em 1962, foi escolhido dirigente nacional da Juventude Estudantil Católica (JEC). E como foram mantidas ao longo da trajetória religiosa, social e política desde então, seja para enfrentar os quatro anos no cárcere, entre 1969 e 1973, quando foi preso pelo combate ao governo militar; seja para o ativismo em Direitos Humanos, na implantação de Comunidades Eclesiais de Base e no assessoramento a movimentos sociais, o que o alçou à condição de referência latino-americana na área. A irredutibilidade de posicionamento se mantém hoje, tanto na perseverança por um sistema social que defende a solidariedade e a inclusão como na implacável condenação da visão política oponente. Como é comum às convicções, pode-se concordar ou discordar parcial ou integralmente delas. Pode-se defender ou detratar a visão de mundo que delas advém. O mesmo ocorre com relação ao pensamento de Frei Betto. O frade dominicano e escritor de 60 livros, contudo, apresenta de saída, duas condições necessárias ao debate: primeiro, ideias fundamentadas em princípios (se certas ou erradas, cada juízo pessoal poderá relativizar). E, segundo, não restará impassibilidade diante delas. Seja por alinhamento e admiração, seja por contestação ou repúdio. Trata-se do básico – que, em tempos maniqueístas, torna-se diferencial. TRANSIÇÃO PÓS-MODERNA Na palestra na UCS, a turbulência política, econômica, social e ambiental da contemporaneidade foi o ponto de partida para a apresentação das convicções de Frei Betto sobre a defesa da vida pela ótica cristã. Para o religioso, a conjuntura crítica denota um momento de ruptura histórica. “Estamos entrando em uma nova época, a Pós-Modernidade, e a grande 10
pergunta é sobre qual paradigma irá norteá-la”, anunciou. Recordando que a predominância da religião, nos mil anos do período medieval, foi substituída pela da razão, com a perspectiva de que ciência e tecnologia proveriam a sociedade ocidental, o palestrante introduziu a problemática do período. “O que aconteceu de errado, então, que metade dos 7,2 bilhões dos seres humanos vive hoje diariamente em função das necessidades biológicas imediatas?”, questionou, apresentando o que entende ser a resposta: “As conquistas existem, mas poucos têm acesso a elas por conta de um sistema onde o capital e sua acumulação privada têm mais importância do que os direitos humanos e a inclusão social”. NOVO PROJETO CIVILIZATÓRIO Esta realidade, segundo ele, direciona para uma transição histórica: “É falho dizer que vivemos em um mundo globalizado. O que existe é ‘globocolonização’: a imposição de um modelo consumista, hedonista, exclusivista. Assim, tudo indica que o paradigma da pós-modernidade será o mercado – a mercantilização de todos os aspectos da vida e da natureza”, considerou. De acordo com o frade, isso já acontece, na medida em que o valor social do indivíduo é medido pela sua capacidade de consumir e exibir mercadorias. “Que futuro tem uma humanidade onde cada vez há menos cidadania e mais consumismo?”, indagou. Para Frei Betto, a resposta está na implantação do que chama de ‘novo projeto civilizatório’ proposto por Jesus. “Me perguntam porque me meto em política. É porque sou discípulo de um prisioneiro político. Jesus morreu como vários companheiros meus durante da ditadura: foi preso, torturado, julgado por dois poderes políticos, o judaico e o romano, e condenado à pena de morte. E por que o assassinaram de modo tão cruel? Simples: vá você, no reino de César, anunciar o Reino de Deus”, referiu.
FREI BETTO
‘NÓS SOMOS SERES DE SON
NHOS’
O anseio humano por propósito existencial: ‘Estou cada vez mais convencido de que, quanto mais utopia, menos drogas; e quanto menos utopia, mais drogas’.
DOS CÉUS À TERRA Assim, o novo projeto civilizatório é a aplicação, para o religioso, do Reino de Deus na Terra, conforme orientado na oração do Pai Nosso. “A Igreja colocou o Reino de Deus ‘lá em cima’, mas ele está aqui, à frente. Na oração que Jesus ensina está dito ‘Venha a nós o vosso reino’. Que venha aqui, nesse mundo, pela nossa militância, seguindo o modelo de Jesus”, defendeu. E esta conquista ocorre, conforme a leitura do Evangelho propugnada por Frei Betto, com base em dois pilares: o amor e a compaixão, nas relações pessoais, e a partilha dos bens, nas relações sociais. “Uma sociedade que não transforma as diferenças em divergências. Que aceita a diversidade de gêneros, de opiniões. Que não é exclusivista pelo preconceito, pela discriminação. Pelo contrário, o amor tudo incluiu, a compaixão tudo compreende. Este é o projeto de Jesus para nossas relações pessoais, em que a humanidade poderá viver como uma grande família, onde há diferentes níveis de aptidões, mas há harmonia, amor, cumplicidade”, pregou. MILAGRE DA PARTILHA Nas relações sociais, a explicação está na narrativa bíblica da distribuição, por Jesus, de pães e peixes à multidão de seguidores na Galileia. Na ocasião, de acordo com Frei Betto, não houve multiplicação dos alimentos (segundo ele, o termo foi acrescentado em intertítulos nas edições do livro). “O sete, na Bíblia, presente em várias referências, significa infinito. Nesse caso, eram cinco pães e dois peixes, indicando que ali havia alimento para todos os 10 mil presentes. Me perguntam se eu nego o milagre. Não, eu nego a mágica”, justificou o frade. “Não há descrição de nenhum milagre de Jesus que seja de acréscimo material. Todos são de revitalização”, reforçou. Assim, argumentou Frei Betto, “o milagre da partilha é a proposta de Jesus para a humanidade”, cumprindo-se a ‘bem-aventurança da fome e da sede de justiça’ do Evangelho. “A oração que ele nos ensinou tem dois refrões: ‘Pai nosso’ e ‘pão nosso’. Só devo me sentir no direito de chamar Deus de ‘Pai nosso’ se me empenho para o que os bens da vida, simbolizados no pão, o alimento mais universal que existe, sejam nossos, de todos, não só meus”, justificou.
CITAÇÕES A palestra com Frei Betto foi uma promoção do Instituto Religare, em formação na UCS, que reúne professores da Área do Conhecimento de Humanidades em torno de estudos do fenômeno religioso. A seguir, uma síntese do pensamento do frade dominicano sobre as temáticas em que atua: SOCIEDADE “Estou cada vez mais convencido de que, quanto mais utopia, menos drogas; e quanto menos utopia, mais drogas. O que não dá é para viver sem sonho. Se o sonho não é utópico, ele será químico, porque nós somos seres de sonhos” “Na prisão, aprendi que o ódio destrói primeiro quem odeia, não quem é odiado. Então, não guardo mágoa ou ira por virtude, mas por comodismo” POLÍTICA “Sempre pensei que o poder muda as pessoas. Não muda; faz com que elas se revelem. Quem é prepotente disfarça enquanto não tem poder. Na hora que se sente por cima, os outros que saiam de baixo. Como diz um ditado espanhol, ‘Se queres conhecer a Juanito, dê-lhe um carguito’” “Quem tem nojo de política é governado por quem não tem” “Como dizia Paulo Freire: ‘Quando você muda de lugar social, você muda de lugar epistêmico’. A cabeça pensa onde os pés pisam” EDUCAÇÃO “A vocação da universidade é ser uma usina de consciência crítica, de formação de cidadania, de protagonistas cívicos, de produção científica e tecnológica em função das necessidades da população. E de motivação para que os profissionais que ela forma estejam comprometidos com o bem comum”. “Desde a ditadura começou um desmonte do ativismo político nas universidades, fazendo com que esse conjunto de diferentes disciplinas com um projeto comum virasse uma ‘pluriversidade’, onde cada setor fica fechado no seu nicho. Essa fragmentação interessa a quem não quer que se pense as profissões como um projeto de cidadania, mas como um projeto de mercado” RELIGIOSIDADE “Direito humano é realizar a proposta de Jesus de que nas relações pessoais haja amor e compaixão, e, nas relações sociais, a partilha dos bens da terra e dos frutos do trabalho humano” “A vida é nossa possibilidade de comungar o amor de Deus, o amor entre as pessoas, o amor pela natureza e o amor consigo mesmo” 11
MIGUEL NICOLELIS
O GOL DA CIÊNCIA BRASILEIRA ENTRE OS 20 MAIORES CIENTISTAS DA ATUALIDADE, PESQUISADOR BRASILEIRO FALOU SOBRE A REVOLUCIONÁRIA RECUPERAÇÃO DE PACIENTES COM LESÕES MEDULARES A PARTIR DE INTERFACES CÉREBRO-MÁQUINA VAGNER ESPEIORIN – vaespeio@ucs.br No país do futebol, nem a ciência fica longe do esporte mais popular. Foi por meio da Copa do Mundo de 2014 que o neurocientista Miguel Nicolelis se tornou conhecido do grande público. O professor titular do Departamento de Neurobiologia e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University, instituição dos Estados Unidos, desenvolveu um exoesqueleto mecânico, acionado pela atividade neural, e que permite a pessoas com deficiência motora recuperar movimentos a partir do funcionamento do dispositivo tecnológico. O pontapé inicial da Copa do Mundo no Brasil foi, assim, dado por um homem paraplégico, graças às descobertas do pesquisador. Longe dos estádios, a proeza mostrou que o país pode sim se orgulhar da ciência nacional, e que, para além do esAvanços do projeto Walk Again: ‘Voltar a andar não é mais utopia; está acontecendo’.
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porte, o Brasil é capaz de criar craques em outros campos. Se no primeiro tempo do projeto Walk Again Nicolelis pesquisou sobre o potencial do cérebro em encaminhar informações por meio de comunicação entre corpo e equipamento, na segunda etapa ele foi surpreendido com resultados clínicos: a interface cérebro-máquina permitiu que os pacientes tivessem uma recuperação neurológica. “O resultado foi percebido mesmo em pacientes que tinham lesões medulares crônicas há mais de uma década. Talvez, essa seja a descoberta mais importante dos últimos três anos”, considera o cientista. IMPOSSÍVEL E INESPERADO Durante a palestra de abertura do IV Seminário Tecnologia, Inovação e De-
senvolvimento Social, promovido pela Área de Ciências Exatas e Engenharia, no dia 14 de agosto, Nicolelis falou sobre sua história no campo da neurociência, mostrou o avanço da compreensão dos mecanismos de funcionamento do cérebro e ainda relatou sua relação com a ciência. “Não há nada mais sensacional na ciência do que o casamento entre o impossível e o inesperado”, enfatizou. Essa sensação Nicolelis experimentou no projeto com os deficientes físicos. A melhora clínica dos pacientes não era esperada. “Para nós foi mais impactante do que para os pacientes, apesar deles se referirem à conquista como uma espécie de milagre. Para mim foi particularmente emocionante, porque eu fiz Medicina, mas nunca pratiquei. Logo depois que me graduei fiz meu doutorado. E o
‘MUITA GENTE E POUCO DINHEIRO ESTIMULA O MEDO DE OUSAR’
Descoberta próxima: como a interação entre indivíduos gera sintonia das atividades cerebrais.
fato de poder ver pessoalmente (a melhora) foi muito emocionante”, frisou. Os avanços de pesquisas, especialmente no campo da Neurociência, explica Nicolelis, demonstram que há boas perspectivas para pacientes que anseiam pela reparação sensorial e motora. No caso dos estudos que envolvem interfaces cérebro-máquina, muitos deles já conseguem caminhar com a ajuda de aparelhos mecanizados – com um menor ou maior grau de cooperação da máquina. Assim, para o neurocientista, voltar a andar “não é mais uma utopia; está acontecendo”. PEQUENOS GRANDES GANHOS Nicolelis, contudo, observa a necessidade de se analisar os avanços a partir do contexto de alguém que teve a movimentação limitada. “A gente, que não tem uma lesão medular, acredita que recuperação só
faz sentido quando a reparação é completa. Mas para quem teve uma lesão medular, para quem perdeu tudo, pequenos ganhos têm efeito profundo na qualidade de vida. Existe uma recalibração que precisa ser feita, mas não é necessária uma recuperação 100% para se ter uma evolução relevante”, esclarece. Como exemplo, o cientista relatou o caso de uma paciente a quem a interface cérebro-máquina estimulou a reparação sensorial e motora. O ganho pode ainda ser percebido na sensibilidade visceral, como a capacidade de sentir o período menstrual. Após a melhora, a paciente colocou em prática o desejo de ser mãe e acabou engravidando. “Pequenos ganhos funcionais representam a diferença de recuperar a autonomia, poder sair de casa, não precisar de alguém para te levar ao banheiro, trazendo repercussões substanciais”, refletiu o cientista.
Fotos Claudia Velho/UCS
Visita à Clínica de Fisioterapia da UCS com o professor e neurocirurgião Asdrubal Falavigna: projetos de pesquisa, Medicina do Esporte e serviços à comunidade.
Nicolelis é pesquisador há décadas nos Estados Unidos. Por lá, desenvolveu seus trabalhos de pós-doutorado e se tornou professor na Duke University. Para o projeto Walk Again, ele voltou para o Brasil com o objetivo de criar os exoesqueletos aqui. Trouxe para o país pesquisadores de diferentes partes do mundo e acabou fazendo história com o pontapé inicial da Copa do Mundo. Importante expoente da ciência – sendo considerado, pela revista especializada Scientific American, um dos 20 maiores cientistas do mundo na atualidade –, Nicolelis destaca que, depois de um tempo de desenvolvimento, a pesquisa no Brasil sofre com a falta de investimentos. “O problema da ciência brasileira é o mesmo de sempre: a qualidade humana é muito alta, então, quando temos períodos de investimentos, a ciência decola. Só que nós não temos isso por longos prazos”, descreve. COLAPSO CIENTÍFICO Segundo ele, o momento é de crise na ciência brasileira, com a retirada de investimentos em pesquisa. Ou melhor: é um momento de colapso. “O país chegou a ser cogitado como um novo player científico no cenário mundial. Todas as revistas internacionais achavam que era o momento do Brasil. Como é próprio da nossa história, a continuidade não foi mantida. E o problema quando você interrompe o processo é que leva mais tempo para retomar”, lamenta. A falta de investimentos para a pesquisa não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, observa o neurocientista, o estímulo à ciência também passa por momento complicado, com queda na disponibilidade de recursos. “Por incrível que pareça, eu começo a ver na academia americana algo que eu via no Brasil: um certo corporativismo, uma certa atitude defensiva. Quando você cria um sistema com muita gente e pouco dinheiro, acaba estimulando o medo de ousar, justamente pelo medo de perder”, diagnostica. Apesar das dificuldades, Nicolelis continua sua meta de estimular a ciência e valorizar as descobertas humanas. Atualmente, trabalha no monitoramento de cérebros de uma dupla de macacos. A interação entre os animais gera uma sintonia das atividades no cérebro – algo que ninguém tinha visto antes. Agora é esperar para acompanhar o resultado da próxima jogada desse craque dos laboratórios. 13
Berenice Stallivieri/especial UCS
ODISSEIAS PELA EDUCAÇÃO UCS HOMENAGEOU 52 PESSOAS E UMA ENTIDADE EM RECONHECIMENTO À CONTRIBUIÇÃO PARA O CRESCIMENTO E A CONSOLIDAÇÃO DA UNIVERSIDADE ARIEL ROSSI GRIFFANTE - argriffante@ucs.br Foi fazendo uso de dois personagens célebres da história e da mitologia gregas que o reitor Evaldo Antonio Kuiava deu ênfase à importância da contribuição de 53 homenageados pela Universidade de Caxias do Sul na implantação, crescimento, desenvolvimento e consolidação da instituição ao longo dos últimos 50 anos. A entrega das medalhas Dom Benedito Zorzi – Mérito Educação, Reitor Virvi Ramos – Mérito Científico e Prefeito Hermes Webber – Mérito Comunitário a 52 pessoas e a uma entidade, em sessão solene do Conselho Universitário (Consuni), órgão superior de deliberação da Universidade, ocorreu em 28 de julho, no UCS Teatro. O evento integrou o calendá14
rio oficial de comemorações do cinquentenário da UCS. A primeira referência amparou-se em trechos do discurso de Péricles em exaltação à democracia e à cidade de Atenas, constante na obra A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, arrematada com a citação ‘Nossa cidade, no seu conjunto, constitui um vivo aprendizado para toda a Grécia, e todo ateniense crescido nessa escola pode desenvolver uma personalidade autônoma sob muitos aspectos, com destreza e refinado decoro’.
“Permitam-me a seguinte analogia: a Atenas retratada por Péricles é a nossa UCS. Berço não da civilização e do pensamento grego, mas propulsora do desenvolvimento de Caxias do Sul e região. Nela, cultivamos a cultura, o conhecimento, a ciência. Nela, os senhores e as senhoras aqui homenageados cultivaram a sua vida”, enfatizou Kuiava. “A UCS nasceu comunitária, com a força de pessoas engajadas em favor do progresso de todos, e reconhece que sua trajetória está marcada pela presença de cada um de vocês. Como Péricles construiu Atenas, vocês construíram a UCS”, completou.
constitui-se numa Odisseia; uma longa jornada cheia de lutas, conquistas e transformações. Os homenageados que hoje recebem essas medalhas são Odisseus: lutaram e lutam pela educação, doando suas vidas à causa do Ensino Superior”. Dirigindo-se aos homenageados, o reitor arrematou o pronunciamento enaltecendo sua colaboração e representatividade na trajetória da UCS. “Quantas vidas foram influenciadas pelos senhores
e pelas senhoras? Quanto o mundo ficou melhor? Hoje é um dia para nos ufanarmos pela obra humana levada a efeito por vocês”, exaltou. “Vocês fizeram a Universidade e continuam propagando o nome dela mundo afora. Na presente Sessão Solene, o Consuni consolida este reconhecimento. E, na memória de cada um, desejo que fique a gratidão desta casa que os acolhe, carinhosamente, para todo o sempre”.
Claudia Velho/UCS
ODE À DETERMINAÇÃO Em seguida, o reitor referenciou a história de Odisseu (Ulisses na mitologia romana), cuja jornada é narrada nos épicos Odisseia e Ilíada, de Homero. “A Odisseia pode ser lida como um ode à inteligência, à coragem e à determinação humana. Na figura mítica de Odisseu, vê-se um herói inabalável, focado, líder e apaixonado”, pontuou Kuiava, emendando a comparação: “A trajetória da UCS, nestes 50 anos,
Pronunciamento do reitor presidindo a sessão do Conselho Universitário: ‘Jornada de lutas, conquistas e trasformações’.
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OS QUE HOJE RECEBEM ESSAS MEDALHAS LUTARAM E LUTAM PELA EDUCAÇÃO, DOANDO SUAS VIDAS À CAUSA DO ENSINO SUPERIOR
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EVALDO KUIAVA REITOR DA UCS
HISTÓRICO DE ESFORÇOS COLETIVOS Três professores, um de cada grupo de agraciados, pronunciaram-se em nome dos homenageados. Lembrando a crítica de Dante Alighieri aos omissos em A Divina Comédia, Aldo Migot destacou a postura oposta dos fundadores da UCS, em especial do bispo Dom Benedito Zorzi, que denomina a medalha do Mérito Educação. “A Universidade nasceu do coração e mente desses pioneiros que ouviram o apelo da sociedade. Ao reconhecer o mérito deles, credencia-se a continuar conduzindo nossos jovens a águas mais profundas, como reza o lema In Altum Ducit (Conduz para o Alto)”. Representando os condecorados com o Mérito Científico, Jayme Paviani, recordando ter ingressado como docente da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em 1965, enfatizou o esforço coletivo que resultaria na criação da UCS dois anos depois e que caracterizaria a jornada da instituição pelas décadas seguintes até a atualidade. “Não existe ensino
sem ciência. E não existe a possibilidade de sermos grandes sem esforço coletivo”, definiu. Jaime Lovatel, representando os recebedores do Mérito Comunitário, também fez referência a um episódio histórico para a Universidade no qual atuou diretamente: a concessão, em 1974, pelo governo do Estado à UCS, da Estação Experimental de Viticultura e Enologia. Além de fornecer o terreno onde hoje está instalado o campus-sede, o repasse do imóvel e da estrutura significou o marco inicial da Pesquisa Científica na instituição – que deu a continuidade aos estudos em vitivinicultura. “Nesses 50 anos, temos mais de 70 mil trabalhos de pesquisa realizados pelas pessoas que aqui se formaram e daqui saíram para expandir o desenvolvimento”, observou, ilustrando a importância daquilo que é trazido na missão institucional da UCS: a produção, sistematização e socialização do conhecimento com qualidade e relevância para o desenvolvimento sustentável. 15
Fotos Berenice Stallivieri/ especial UCS
AS CONDECORAÇÕES Dentre os 53 condecorados – cinco in memorian –, um total de 30 (29 pessoas mais a Escola Superior da Magistratura Federal - Esmafe/ RS) receberam o Mérito Educação – Medalha Dom Benedito Zorzi; 14 foram agraciadas com o Mérito Científico – Medalha Reitor Virvi Ramos; e a nove foi outorgado o Mérito Comunitário – Medalha Prefeito Hermes Webber. Instituídas e concedidas pelo Conselho Universitário – Consuni, as comendas, com os nomes dos fundadores da UCS, designam o reconhecimento a pessoas e entidades que se notabilizaram por ações sociais visando ao desenvolvimento humanitário, econômico e cultural da sociedade, nos segmentos da educação (do ensino básico até o superior), das relações comunitárias e da promoção do desenvolvimento da ciência e da tecnologia na região, Estado e país.
MÉRITO CIENTÍFICO – MEDALHA REITOR VIRVI RAMOS Asdrubal Falavigna Cleodes Maria Piazza Julio Ribeiro Gilberto Golin Grazziotin (in memoriam) Israel Jacob Rabin Baumvol Jayme Paviani João Carlos Brum Torres José Carlos Köche
José Clemente Pozenato Juan Luis Carrau Bonomi Mara Zeni Andrade Mario Carlos Beni Mirian Salvador Ronaldo Adelfo Wasum (in memoriam) Vania Beatriz Merlotti Herédia
MÉRITO EDUCAÇÃO – MEDALHA DOM BENEDITO ZORZI Aldo Francisco Migot
Loraine Slomp Giron
Aldo Luiz Zat
Luiz Victorio Garbin
Ana Mery Sehbe De Carli
Marcia Maria Cappellano dos Santos
Corina Michelon Dotti
Maria Helena Wagner Rossi
Elaine Damiani Conte
Mário Gardelin
Escola Superior da Magistratura Federal no RS – ESMAFE/RS
Neiva Senaide Petry Panozzo
Gelça Regina Lusa Prestes Geraldo Castelli
Nelson Francisco Benvenutti Nelson Goulart Ramos Nilva Lúcia Rech Stedile
Guadalupe Bolzani Igino Santo Damo
Paulo Luiz Zugno (in memoriam)
Ivan Tomasi (in memoriam)
Pedro Ernesto Gasperin
Ivo Adamatti
Petrônio Fagundes de Oliveira Filho
Ivonne Assunta Cortelletti
Roque Maria Bocchese Grazziotin
Jussara Maria Marchioro Stumpf
Sérgio José Rech
Liane Beatriz Moretto Ribeiro (in memoriam)
Valter Romeu Casara
MÉRITO COMUNITÁRIO – MEDALHA PREFEITO HERMES WEBBER Armando Antonio Sachet Carmen Cecília Schmitz Dom Nei Paulo Moretto Homero Francisco Peixoto Camargo
Jaime Luiz Lovatel José Reovaldo Oltramari Manfredo Schmiedt Raul Bampi Vera Beatriz Stedile Zattera
Confira a cobertura fotográfica do evento em: www.flickr.com/photos/_ucs/albums 16
Richard Silva/divulgação
HOMENAGEM DA CÂMARA DOS DEPUTADOS Depois dos âmbitos municipal e regional, por meio das Câmaras de Vereadores de Caxias do Sul, Canela e Vacaria; e estadual, pela Assembleia Legislativa; as homenagens do poder público aos 50 anos da Universidade de Caxias do Sul ocorreram em nível federal. No dia 24 de agosto, a Câmara dos Deputados promoveu sessão solene em celebração ao cinquentenário da UCS, em que o destaque ao caráter comunitário marcou as referências à trajetória da instituição. “Esta homenagem é ao trabalho prestado à comunidade, pela qualificação do ensino superior na nossa região. A UCS é a ponta de lança desse processo”, destacou o deputado proponente e presidente da sessão, Assis Melo (PCdoB). Para ele, a contribuição da Universidade ao longo das últimas cinco décadas foi decisiva para Caxias e região tornarem-se “referência de desenvolvimento para o país”. Em nome da UCS, o reitor Evaldo Kuiava apontou o aspecto comunitário como princípio na
constituição da Universidade e ao longo de sua atuação. “É um conceito que precisa ser bem entendido: somos uma instituição pública, mas não estatal, sem fins lucrativos, que reinveste integralmente seus resultados visando ao desenvolvimento da comunidade”, descreveu. Representando os acadêmicos, o presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Otniel Alves Borges manifestou o objetivo comum de alunos, funcionários e professores de “construir uma Universidade de qualidade, que possa desenvolver a matriz econômica da região”. Já o secretário-executivo da Associação Brasileira das Universidades Comunitárias (Abruc), José Carlos Aguilera, argumentou que o surgimento da UCS promoveu uma inovação na Educação Superior do país. “Celebrar os 50 anos da Universidade de Caxias do Sul é olhar para o acesso dos jovens do interior do Brasil à educação comunitária, um modelo que dá vigor, pujança e qualidade ao ensino, pesquisa e extensão”, defendeu.
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CELEBRAR OS 50 ANOS DA UCS É OLHAR PARA O ACESSO DOS JOVENS DO INTERIOR À EDUCAÇÃO
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JOSÉ CARLOS AGUILERA SECRETÁRIO-EXECUTIVO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS UNIVERSIDADES COMUNITÁRIAS
50 ANOS DE CONTRIBUIÇÃO À SOCIEDADE Após a manifestação dos componentes da mesa, a sessão se encerrou com o pronunciamento de deputados. Saúde - Também representante de Caxias do Sul na Câmara, Mauro Pereira (PMDB) chamou a atenção para a gestão do Hospital Geral pela Fundação Universidade de Caxias do Sul, mantenedora da UCS. “É um exemplo para o Brasil em tratamento de câncer e o único hospital que atende 100% SUS a estar entre os quatro melhores em acreditação no Estado”, ressaltou. O deputado também lembrou o papel da Universidade no desenvolvimento industrial da região e na formação de lideranças políticas e comunitárias. Educação - Pepe Vargas (PT), egresso de Medicina, lembrou o início de sua atuação política como presidente do Diretório Acadêmico do curso: “Devo muito da minha formação, não só profissional e técnica, mas ética e moral, à UCS”. Em seguida, defendeu a necessidade de apoio às universidades comunitárias, mencionando a importância de políticas públicas como o ProUni e o Financiamento Estudantil (FIES). “São soluções econômicas para instituições importantes do ponto de vista social”, definiu. Desenvolvimento - Além dos representantes de Caxias do Sul, se pronunciaram os gaúchos Luis Carlos Heinze e Afonso Hamm, ambos do PP, e o mineiro Edson Moreira, do PR. “A UCS colaborou muito para o desenvolvimento diferenciado da região, prestando excelentes serviços ao Rio Grande do Sul e Brasil afora”, destacou Heinze. “A UCS representa o que precisamos resgatar em ensino para promovermos a virada econômica e social que o país precisa”, sustentou Hamm. 17
Claudia Velho/UCS
Quero ficar respirando bem devagar o tempo/ A palavra é o Sol no pelo/ Varal onde estender as toalhas// Quero o contraste de letras tatuadas no corpo/ Com tinta lavável/ Para que eu nunca sucumba às ideias fixas // O instante do adeus jamais foi escrito/ Não há o que ler no escuro dos quartos// Nas horas de Sol alto/ O dia parece eterno Professora Alessandra Rech, doutora em Letras - Literatura Brasileira, em Mirabilia - 2014 18
UCS 50 ANOS – ORIGENS:
A FACULDADE DE FILOSOFIA DE CAXIAS DO SUL PRIMEIROS CURSOS, DE FILOSOFIA, PEDAGOGIA E HISTÓRIA, SE INICIARAM EM 1960. NOS ANOS SEGUINTES, CONSTITUÍRAM-SE OS CURSOS DE LETRAS NEOLATINAS, MATEMÁTICA E DE CIÊNCIAS FÍSICAS E BIOLÓGICAS Uma das prioridades pastorais do Episcopado Brasileiro nos anos 50 era a formação católica de lideranças leigas. Inspirava-se nas experiências exitosas do Centro Dom Vital, no Rio de Janeiro, celeiro de influentes intelectuais no campo da Filosofia, História, Literatura, Medicina e Política, e da PUC/RJ, prestigiada Universidade brasileira. Dom Benedito Zorzi, à época bispo de Caxias do Sul, alinhava-se inteiramente à proposta do Episcopado Nacional. Sem optar por instituições confessamente católicas, decidiu criar faculdades comprometidas com a formação cristã, incluindo, como disciplinas estratégicas, nos currículos de todos seus cursos, Doutrina Social da Igreja, Teologia Dogmática e Teologia Moral. Assim, em 1957 criou a Faculdade de Ciências Econômicas de Caxias do Sul, que iniciou suas atividades em 1959. Em 8 de julho de 1959, através de Decreto Curial, criou a Faculdade de Filosofia de Caxias do Sul. Designou o padre Dalcy Angelo Fontanive, à época secretário -executivo da Faculdade de Ciências Econômicas, para acompanhar o processo de autorização da nova faculdade junto aos órgãos oficiais. Em 11/12/1959, mediante o parecer nº597/59 do conselheiro Alceu Amoroso Lima, o Conselho Federal de Educação aprovou a proposta de criação da Faculdade. O Decreto nº47.668, de 19/01/1960, do presidente da República, autorizou o funcionamento dos cursos de Filosofia, Letras Neolatinas, Geografia, História e Pedagogia. Em março de 1960, a Faculdade ini-
ciou as atividades com os cursos de Pedagogia (com 39 alunos), História (19 alunos) e Filosofia (13 alunos). Em 1961, iniciou o curso de Letras Neolatinas (22 alunos); em 1964, o curso de Matemática (com 34 alunos); e, em 25/07/1966, foi criado o curso de Ciências Físicas e Biológicas, que só se iniciou em 1967, já como parte da UCS. Nesse período antes da integração das faculdades, seus diretores foram: padre Plinio Bartelle, padre Dalcy Angelo Fontanive, padre Paulo Luiz Zugno e Padre Sérgio Felix Leonardelli. A religiosa Madre Maria da Eucaristia Daniellou esteve à frente da Faculdade por 10 meses, com consentimento do bispo diocesano, porém sem decreto de nomeação. EVENTOS MARCANTES A solenidade de instalação da Faculdade foi em 05/02/1960, no Salão Nobre do Colégio São José, onde a instituição funcionou inicialmente. Em 16/03/1963, transferiu-se para o novo prédio da Catholica Domus, de propriedade da Mitra Diocesana, na Rua Os 18 do Forte. A primeira colação de grau ocorreu em 11/04/1963, com 59 formandos. Nesta ocasião, ao final da solenidade ocorreu o episódio em que o diretor Dalcy Angelo Fontanive, por discordar publicamente do Golpe Militar de 1964, foi coagido a pedir demissão do cargo. O gesto criou grande comoção nos presentes e na cidade. Nos sete anos de funcionamento pré -UCS matricularam-se 1.833 alunos nos diversos cursos da Faculdade, sendo diplomados 224 profissionais. Desde a
Arquivo pessoal/ ivulgação
ARTIGO
DALCY ANGELO FONTANIVE Professor
criação, a Faculdade imprimiu na cidade uma intensa vida acadêmica e cultural. Eminentes intelectuais proferiram conferências, como o filósofo Ernani Maria Fiori, sobre Universidade e Ideologias; o escritor e sociólogo Alceu Amoroso Lima, sobre A Evolução da Democracia no Brasil; o historiador Pedro Calmon, sobre História do Rio Grande do Sul; e o professor Newton Sucupira, sobre Atualidade da Filosofia Tomista. Foram também ministrados inúmeros e variados cursos de extensão, como o de Extensão Cultural em Sociologia, por Fernando Bastos Ávila, vice-reitor da PUC/RJ; o de Psicologia Profunda, pelo Círculo Brasileiro de Psicologia Profunda; o curso sobre Realidade Nacional e Desenvolvimento, pela Equipe de Economia e Humanismo do Rio de Janeiro; e o de Metodologia da Pesquisa, pelo professor Francisco Menna Barreto, da PUC/RS. De 22 a 28 de setembro de 1963 foi realizada a 1ª Semana da Faculdade de Filosofia, evento repleto de atividades artísticas e culturais e de enorme repercussão estadual e nacional, com suas edições repetidas nos anos subsequentes. Em 1967, com a Faculdade já incorporada à Universidade, ocorreu a formatura dos alunos da Faculdade de Filosofia da UCS e a entrega de título de Doutor Honoris Causa ao deputado Tarso Dutra, que teve papel fundamental como articulador na criação da Universidade. Em 4 de maio de 1970 ocorreu a transferência da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras para o atual Campus-Sede, chamado, à época, de Campus 2. 19
Universidade de Caxias do Sul Caixa Postal 1313 95020-972 - Caxias do Sul - RS