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Revista E - novembro/23

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Revista E | novembro de 2023 nº 5 | ano 30 Casa Verde

Pagu

Arte em festa

Mia Couto

Bairro da Zona Norte de São Paulo abriga nova unidade do Sesc

Artista lutou contra as desigualdades sociais e de gênero

Exposição reúne obras que traçam a identidade cultural do país

Escritor moçambicano fala sobre resiliência em livro de contos


CAPA: Detalhe da obra Carnaval, do artista Adalton Lopes, que integra a exposição Festas, Sambas e outros Carnavais, em cartaz na nova unidade Sesc Casa Verde. Com curadoria geral de Angela Mascelani e Lucas Beuque, do Museu do Pontal (RJ), e do curador convidado, Tadeu Kaçula, sambista e sociólogo residente do bairro, a exposição celebra as festividades brasileiras e enaltece o samba como elemento fundante da identidade do país. Confira mais imagens na página 40. Crédito: Acervo Museu do Pontal

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Em estabelecimentos de uso coletivo é assegurado o acompanhamento de cão-guia. As unidades do Sesc estão preparadas para receber todos os públicos.

Novos espaços para conviver O segundo semestre de 2023 é marcado pelo início das atividades de duas novas unidades do Sesc em São Paulo: 14 Bis, localizado no bairro Bela Vista, região central da capital, e Casa Verde, na Zona Norte da cidade. Os novos espaços, já em funcionamento, somam-se a outros 40 centros culturais e esportivos presentes no estado, consolidando o compromisso do Sesc – Serviço Social do Comércio com a promoção do bem-estar dos trabalhadores do setor de comércio de bens, serviços e turismo, de seus familiares e da comunidade, em geral, que se beneficia dessa ação educativa e emancipadora. Os dois novos endereços do Sesc são resultado de um sólido plano de expansão que visa ampliar o acesso de seu público a uma vasta diversidade de programações nos campos da cultura, lazer, esportes, turismo, saúde e alimentação, proporcionando o contato com diferentes linguagens artísticas, com múltiplos saberes e com novas experiências que geram inúmeros aprendizados. Em comum, essas novas unidades carregam a vocação de valorizar as pessoas, oferecendo um ambiente humanizado e acolhedor. São projetados, portanto, para estimular a convivência criativa e democrática, sendo uma extensão dos espaços públicos da cidade e um convite ao convívio social. Abram Szajman Presidente do Conselho Regional do Sesc no Estado de São Paulo


Morada de todas e todos A palavra “casa” nos remete imediatamente ao lugar do acolhimento, do afeto e do porto seguro. “Sinta-se em casa” e “a casa é sua” são expressões tipicamente brasileiras que nos convidam a ficar à vontade e a entender aquele espaço na perspectiva incontornável do pertencimento. Casa também traz o sentido de abrigo, de morada, onde a pausa é possível para que possamos repousar, nos restaurar e nos restabelecer. Casa é onde nossa identidade mais autêntica se constitui, onde podemos ser quem somos, livres, sem amarras. Casa é lar. Mas casa é também lugar de encontros. Nos quintais das casas brasileiras, a cultura das rodas de samba se renova e se alimenta, mantendo viva uma tradição que tem ritmo, sonoridade, ginga e poesia. Casa é memória. É com esse espírito celebrativo que o Sesc recebe o público em seu mais novo espaço, localizado na Zona Norte paulistana: a unidade Sesc Casa Verde. Ser um espaço de encontro e de acolhimento é sua vocação. Afinal, aquela que carrega no nome o termo "casa" não desaponta. Em reportagem desta edição, a Revista E propõe um passeio pelo bairro Casa Verde, morada do samba e de múltiplas tradições, que o Sesc convida a conhecer. Faça deste novo espaço, também, a sua casa. Boa leitura! Danilo Santos de Miranda Diretor do Sesc São Paulo

SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO – SESC Administração Regional no Estado de São Paulo Av. Álvaro Ramos, 991 – Belenzinho CONSELHO REGIONAL DO SESC EM SÃO PAULO Presidente: Abram Abe Szajman Diretor Regional: Danilo Santos de Miranda Efetivos: Arnaldo Odlevati Junior, Benedito Toso de Arruda, Dan Guinsburg, Jair Francisco Mafra, José de Sousa Lima, José Maria de Faria, José Roberto Pena, Manuel Henrique Farias Ramos, Marcus Alves de Mello, Milton Zamora, Paulo Cesar Garcia Lopes, Paulo João de Oliveira Alonso, Paulo Roberto Gullo, Rafik Hussein Saab, Reinaldo Pedro Correa, Rosana Aparecida da Silva, Valterli Martinez, Vanderlei Barbosa dos Santos Suplentes: Aguinaldo Rodrigues da Silva, Aldo Minchillo, Antonio Cozzi Junior, Antonio Di Girolamo, Antonio Geraldo Giannini, Célio Simões Cerri, Cláudio Barnabé Cajado, Costabile Matarazzo Junior, Edison Severo Maltoni, Marco Antonio Melchior, Omar Abdul Assaf, Sérgio Vanderlei da Silva, Vilter Croqui Marcondes, Vitor Fernandes, William Pedro Luz REPRESENTANTES JUNTO AO CONSELHO NACIONAL Efetivos: Abram Abe Szajman, Ivo Dall’Acqua Júnior, Rubens Torres Medrano Suplentes: Álvaro Luiz Bruzadin Furtado, Marcelo Braga, Vicente Amato Sobrinho CONSELHO EDITORIAL | Revista E Adauto Perin, Adriana Martins Dias, Adriano Ladeira Vannucchi, Alessandro Souza Santos, Aline Ribenboim, Ana Carolina Padua Machado, Ana Cristina Jimenez, Andrea Carla Namura Rennar Salmazzi, Andrea de Oliveira Rodrigues, Beatriz de Oliveira Falasco Zerbini, Bruna Zarnoviec Daniel, Camila Freitas Curaca, Carime Fernandes Elmor, Carolina Balza, Carolina Vidal Ferreira, Caue Colodro Botelho, Cinthya de Rezende Martins, Cristiane Pereira Isidio Di Berardini, Cristiane Toshie Komesu, Danny Abensur, Denise Ramos da Fonseca, Doracy Feliciano Teixeira, Dulci da Conceição Lima, Elaine Barros Martins, Emerson Luis Costa, Fabia Lopez Uccelli dos Santos, Fabiola Larissa Tavares Milan, Fernanda Gehrke, Fernanda Porta Nova Ferreira da Silva, Flavia Teixeira S Coelho, Geraldo Cruz E Silva Neto, Geraldo Soares Ramos Junior, Gislene Lopes Oliveira, Giulia Maria de Campos Manocchi, Ieda Maria de Resende, Ivy Granata Delalibera, Jan Balanco, José Maurício Rodrigues Lima, Julia Parpulov Augusto dos Santos, Juliana Goncalves Ramos, Laura Lopes de Freitas, Lilian Vieira Ambar, Lizandra Magalhães, Maria Rizoneide Pereira dos Santos, Mariana da Rosa Silva, Mariana Lins Prado, Mariane Cristina dos Santos, Pablo Perez Sanches, Priscila dos Santos Dias, Priscila Rahal Gutierrez, Regiane Gomes da Conceição, Rejane Pereira da Silva, Renan Cantuario Pereira, Renata Barros da Silva, Romeu Marinho C. Ubeda, Silvia Cristina Garcia, Sofia Calabria Y Carnero, Stephany Tiveron Guerra, Tayna Guimarães Vieira de Oliveira, Thais Ferreira Rodrigues, Thamires Magalhães Motta, Thiago da Silva Costa, Vitor Penteado Franciscon, Viviane Machado Lemos, Wilton Queiroz Marcos. Coordenação-Geral: Aurea Leszczynski Vieira Gonçalves Coordenação-Executiva: Lígia Moreira Moreli e Silvio Basilio Editora-Executiva: Adriana Reis Paulics • Projeto Gráfico e Diagramação: Bruno Thofer e Larissa Ohori • Edição de Textos: Adriana Reis Paulics, Guilherme Barreto e Maria Júlia Lledó • Revisão de Texto: Pedro Paulo da Silva • Edição de Fotografia: Adriana Vichi • Repórteres: Luna D’Alama, Manuela Ferreira e Maria Júlia Lledó • Coordenação Editorial Revista E: Adriana Reis Paulics, Guilherme Barreto e Marina Pereira • Propaganda: José Gonçalves Júnior • Arte de Anúncios: Alexandre do Amaral, Ariane Ramos de Azevedo, Fernando Saraiva e Pedro Menezes • Supervisão Gráfica: Rogerio Ianelli • Finalização: Bruno Thofer e Larissa Ohori • Criação Digital Revista E: Lourdes Teixeira • Circulação e Distribuição: Nelson Soares da Fonseca Jornalista Responsável: Adriana Reis Paulics (MTB 37.488) A Revista E é uma publicação do Sesc São Paulo, sob coordenação da Superintendência de Comunicação Social Distribuição gratuita. Nenhuma pessoa está autorizada a vender anúncios Esta publicação está disponível para retirada gratuita nas unidades do Sesc São Paulo e também em versão digital, em sescsp.org.br/revistae e no aplicativo Sesc SP para tablets e celulares (Android e IOS). Fale conosco: revistae@sescsp.org.br


SUMÁRIO Sesc Casa Verde abre as portas no bairro da Zona Norte de São Paulo que é reduto do samba e palco de tradições ancestrais de matriz africana

Passeio visual por manifestações culturais e obras da arte popular brasileira presentes na exposição Festa, Samba e Outros Carnavais

Escritor moçambicano Mia Couto fala sobre novo livro de contos, que reúne histórias sobre a capacidade humana de atravessar injustiças sociais, a morte e a solidão

Qual o espaço ocupado por autores negros na cena literária brasileira?

dossiê

entrevista

expansão

bio

gráfica

literatura

As múltiplas facetas de Pagu, uma artista que desafiou o status quo e lutou pelo fim das desigualdades sociais e de gênero no século 20

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G.R.C.S.E.S. Morro da Casa Verde / Foto: Gabriel de Almeida (Expansão); Obra de André Nazareth para a exposição Festa brasileira feita à mão, 2017 / Acervo CRAB (Gráfica)

Confira os destaques da programação do mês, como a ação em rede Juventudes: Arte e Território, que busca valorizar e difundir produções culturais de jovens


Os desafios e as vitórias da atleta Verônica Hipólito, campeã mundial, sete vezes medalhista parapanamericana e vice-campeã paralímpica

Artigos de Beltrina Côrte e Egídio Dórea refletem sobre as origens do idadismo, apontando formas de combater esse preconceito contra pessoas idosas

Que tal um passeio por lugares de São Paulo que já foram cenários, ou personagens, de obras literárias?

Pedro Borges

em pauta

encontros

inéditos

depoimento

almanaque

P.S.

Luiza Romão e Fereshteh Najafi

Fereshteh Najafi (Inéditos); Nauru Equipe de Atletismo / Foto: Alexandre Urch (Depoimento); Adriana Vichi (Almanaque)

Mário Fernandes

p.60

p.66

p.70

p.74

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de portas abertas esperando por você

Muito mais cultura, lazer e esporte na Zona Norte da cidade Área de convivência Espaço Expositivo Arena Praça Externa Espaço de Brincar Cafeteria Espaço de Leitura Loja Sesc Central de Atendimento Avenida Casa Verde, 327 Terças as sextas, 10h às 19h Sábados, domingos e feriados, 10h às 18h /sesccasaverde sescsp.org.br/casaverde


Matheus José Maria

em cena

O cantor Martinho da Vila apresentou o concerto Negra Ópera, no palco do Teatro Raul Cortez, que marcou o início das atividades do Sesc 14 Bis, em outubro. O projeto, inspirado na ópera Pelléas et Mélisande, de Claude Debussy (1862-1918), uniu a música popular à erudita, incorporando referências da cultura afro-brasileira num repertório com tratamento orquestral. Dividido em três atos, a apresentação reuniu canções sobre a temática social e a negritude. Contou também com as participações do cantor Preto Ferreira (foto), filho de Martinho, na música Exu das Sete, e da bailarina Allenkr Soares.

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DOSSIÊ

Perspectivas jovens

“O Juventudes: Arte e Território reúne diversas produções e expressões artísticas, de forma individual e coletiva, considerando as diferentes linguagens, de maneira que compartilhem com os variados públicos, para que possam se sensibilizar e reconhecer a potência das juventudes existentes no nosso país.”

Juventudes: Arte e Território traz diversidade e protagonismo em dezenas de atividades nas unidades do Sesc São Paulo

Ana Cristina de Souza, atua na Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo.

Os cantores e compositores Gali Galó e Gabeu participarão do debate Juventudes e Queernejo, no Centro de Pesquisa e Formação, dia 22/11.

Mah Matias

C

ursos, oficinas, apresentações culturais, ensaios abertos e debates são algumas das atividades que integram a quarta edição do Juventudes: Arte e Território, neste mês, nas unidades do Sesc São Paulo. A ação tem como principal objetivo a difusão das produções artísticas e culturais juvenis, sob uma perspectiva da valorização do talento de grupos que também apresentam pela primeira vez as suas produções. Com foco em temas como o respeito às diferenças e o olhar sensível para todas as manifestações culturais, as programações celebram a potência e a presença criativa das juventudes em seus territórios, com o intuito de que expandam as suas fronteiras geográficas e culturais.

As atividades buscam, ainda, alcançar diversos públicos para que possam fruir dessas criações, de maneira a derrubar estereótipos e preconceitos sobre a diversidade das realidades juvenis no Brasil. Segundo Ana Cristina de Souza, que atua na Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo, “nos territórios são construídos sentidos de vida, de trabalho e da arte”. Para isso, complementa, “o Juventudes: Arte e Território reúne diversas produções e expressões artísticas, de forma individual e coletiva, considerando as diferentes linguagens, de maneira que compartilhem com os variados públicos, para que possam se sensibilizar e reconhecer a potência das juventudes existentes no nosso país”.

Dentre os destaques da programação, o espetáculo teatral Aghamenon, da Cia. Arthur Arnaldo, traz, nos dias 8 e 9/11, a temática da contemporaneidade e do cotidiano juvenil com a Cia. Arthur-Arnaldo, dias 8 e 9/11, seguido de uma conversa com o público, no Sesc Belenzinho. No Centro de Pesquisa e Formação, os cantores e compositores Gali Galó e Gabeu participam de um debate sobre Juventudes e Queernejo, dia 22/11. O Sesc Ipiranga sedia as oficinas Do set à cena, com Faiskan, dia 23/11, e Nunca volte para sua quebrada de mão e mente vazias, com Vic Almeida, dia 30/11. Confira a programação completa e se inscreva em sescsp.org.br/juventudes 11 | e


DOSSIÊ

Informação é saúde De 22/11 a 3/12, a sexta edição do Contato propõe uma série de atividades com foco na saúde sexual, reprodutiva e na prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Com rodas de conversa, oficinas, cursos, performances, shows, bate-papos e exibição de filmes, o projeto traz discussões sobre questões de gênero,

estigmas sobre sexualidade, desigualdades culturais e sociais, além de acesso a informações como forma de promoção de saúde. Dentre as programações, o CineSesc estreia, em 1º/12, a segunda temporada da websérie HIV 40 anos, aids e suas histórias: transmissão vertical, assunto proibido, que revive os desafios

da transmissão do HIV no Brasil. Já no dia 2/12, o Sesc Pompeia recebe a Masterclass Vogue Ball, vivência com a Casa de Candaces na qual a corporeidade, a dança, a moda e a estética dão visibilidade a experiências e imaginários positivos da comunidade LGBTQIAPN+. Mais informações em sescsp.org.br/contato.

MÁQUINA CRIATIVA?

Seminário Inteligência artificial em processos criativos será realizado neste mês, no CPF_Sesc.

A relação entre a inteligência artificial (IA) e a produção de arte, criatividade e acesso a bens culturais tem sido um tema constante e controverso. O seminário Inteligência artificial em processos criativos, que acontece de 7 a 9/11, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc (CPF), propõe a reflexão de alguns aspectos dessa relação, como o impacto da IA e de tecnologias imersivas no acesso à cultura por pessoas com deficiência; as maneiras pelas quais a inteligência artificial colabora no reforço a preconceitos e estereótipos; e de que modo a IA impacta na difusão da produção cultural de negros, mulheres e outros. Participam do seminário a artista multimídia Andréia Machado Oliveira, o consultor em acessibilidade Gabriel Aquino e o escritor e pesquisador em tecnologias Tarcízio Silva. Faça sua inscrição em centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br

O ator Marco Nanini está de volta aos palcos do Sesc, na unidade Vila Mariana, a partir de 16/11, quando estreia como protagonista do espetáculo TRAIDOR, nova produção escrita e dirigida por Gerald Thomas, especialmente para Nanini. A peça é um delírio psicológico de um ator acreditando e vivendo a soma

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de todos os personagens da história do teatro. A montagem marca também os 75 anos do artista, completados em 2023, e celebra seu reencontro com Gerald Thomas no teatro, ocorrido pela última vez em 2005. A temporada de TRAIDOR se estende até 17/12. Saiba mais em sescsp.org.br/vilamariana

Walter Cruz

Nanini, 75


DOSSIÊ

Curtas da bola O Cinefoot, único Festival de Cinema de Futebol do Brasil, reuniu ao longo de suas 12 edições um acervo raro de filmes sobre essa modalidade esportiva, que atinge a marca de mais de 450 títulos. As obras retratam o esporte em recortes transversais, com temas diversos, como refugiados, população LGBTQIAPN+, operário, feminino, boia-fria, entre outros. A partir do dia 9/11, dez dessas produções serão exibidas pelo

SescTV. São curtas-metragens nas linguagens de documentário e ficção, como Três no Tri (2013), sobre a Copa do Mundo do México, em 1970; Soccer Boys (2018), que trata da relação do esporte com a diversidade de gênero; e A culpa é do Neymar (2015), ficção sobre a vida de um garoto do subúrbio que, ao mudar de time, cria um conflito com o pai. A programação também ficará disponível sob demanda em sesctv.org.br

Dia sem Pressa convida o público a refletir sobre prioridades e passagem do tempo em atividades no Sesc Pinheiros e no Largo da Batata.

Paulo Pereira

ANDO DEVAGAR... Já ouviu falar em cultura slow? Valorizar uma vida mais afetiva, humana e artesanal, com mais convivência e cuidado com as relações e as pessoas, é uma de suas premissas. Pensando nessa proposta, foi instituído, em 2018, o Dia sem Pressa, primeiro festival da cultura slow do Brasil. O evento está em sua sexta edição e, neste

ano, conta com a parceria do Sesc São Paulo, com o objetivo de promover um dia de pausa para que as pessoas convivam e colham aprendizados para seu cotidiano. O evento será realizado nos dias 10 e 11/11, no Largo da Batata e no Sesc Pinheiros, com atividades artísticas, mesas de conversa e oficinas,

como Customizar, personalizar, reciclar, brincar...o tingimento vegetal como inspiração na transformação do novo, com Ciça Costa, do movimento Revolução Artesanal, além da vivência Mindfulness com uva passa, com Débora Andrade, do Natural Humano. Confira: desacelerasp. com.br/diasempressa 13 | e


Ricardo Ferreira

FAÇA SUA CREDENCIAL PLENA

Pessoas que trabalham ou se aposentaram em empresas do comércio de bens, serviços ou turismo podem fazer gratuitamente a Credencial Plena do Sesc e ter acesso a muitos benefícios. São aceitos registro em carteira profissional (com contrato de trabalho ativo ou suspenso), contrato de trabalho temporário, termo de estágio e de jovem aprendiz, e pessoas desempregadas dessas empresas até 24 meses. e | 14

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Para fazer ou renovar a Credencial Plena de maneira online e de onde estiver, baixe o app Credencial Sesc SP ou acesse centralrelacionamento.sescsp. org.br. Se preferir, nesses mesmos locais é possível agendar horário para ir presencialmente a uma das Unidades (compareça com a documentação necessária).

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É gratuita Tem validade de até dois anos Pode ser utilizada nas Unidades do Sesc em todo o Brasil Prioriza os acessos às atividades do Sesc Oferece descontos nas atividades e serviços pagos

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Foto: Adauto Perin

Daniel Evangelista Trabalha no setor de comércio Ele frequenta os espetáculos do Teatro Anchieta, no Sesc Consolação

Com a Credencial, você e sua família terão acesso prioritário a todas as atividades do Sesc em todo o Brasil.

sescsp.org.br/credencialplena

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Somos os outros Novo livro do escritor, biólogo e jornalista moçambicano Mia Couto reúne contos sobre a capacidade humana de ser resiliente frente às injustiças sociais POR MARIA JÚLIA LLEDÓ FOTOS ADRIANA VICHI

“S

aímos do corpo quando nos contam histórias”, pensou Analízia, que antes de ser criança já era empregada, e antes de ser adolescente já era esposa, na trama do conto O colchão. Fisgado por essa frase, o leitor veste a pele da protagonista e torce, com ela, para que escape do destino opressor ao qual foi lançada. Afetado pela ficção, quem lê desenvolve outro olhar para o outro e seu lugar no mundo. E é exatamente isso que busca o autor moçambicano Mia Couto, que lançou, neste semestre, a obra As pequenas doenças da eternidade (Companhia das Letras, 2023). “Eu acho que a sociedade em que a gente vive, em todo lado, infelizmente, ela se globalizou e tem essa tentação de olhar para o outro como alguma coisa que pode ser humano. Isso eu acho que a gente tem que enfrentar. A literatura faz isso porque retrata esse outro como alguém que está dentro de nós, que existe dentro de nós. Essa diversidade não nos é externa”, disse à Revista E.

No recém-lançado livro, o escritor reúne O colchão a contos anteriormente publicados na revista portuguesa Visão – alguns deles escritos durante a pandemia de Covid-19 – e outros inéditos, numa coletânea que fala, sobretudo, da resiliência humana frente a guerras, racismo, finitude e solidão. O autor de poesias e romances, como Terra sonâmbula (1992), Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002) e O mapeador de ausências (2021), todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, ainda transita entre a literatura e a biologia (área na qual também atua). Diferentes repertórios que no papel se encontram para descrever outras cosmogonias. Formas de explicar o universo pela perspectiva e sabedoria das culturas ancestrais de seu país, ao sul do continente africano. Nesta Entrevista, Mia Couto fala sobre o novo livro, a influência da família e da biologia em sua escrita, e reflete sobre um processo de desumanização a ser subvertido pela alteridade e empatia.


entrevista

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Eu acho que o mais importante – e o grande segredo – é estarmos disponíveis a sermos outros. Esses outros que, no fundo, quando vamos descobrir, já estavam dentro de nós

A edição brasileira de As pequenas doenças da eternidade diferencia-se da edição portuguesa e moçambicana ao trazer contos inéditos e um novo título com o nome de outro conto. Como foi essa curadoria dedicada aos leitores brasileiros? Há uma certa defasagem entre aquilo que está sendo publicado em Moçambique, em Portugal e, depois, o que é publicado no Brasil. Algumas dessas crônicas, que depois são convertidas em contos – eu sempre parti do princípio que a crônica tinha sido feita para um formato de revista – precisavam ser mais trabalhadas para se tornarem contos, mas o que tinha acontecido é que nessa primeira edição que saiu em Moçambique e em Portugal se recuperaram aquilo que eram contos num certo período. O Brasil, quando pensa em publicar estes contos, já tinha publicado muito mais crônicas, porque é uma rubrica bissemanal [na revista Visão]. Então, a curadoria, que é da editora, pensou que talvez algumas dessas histórias estivessem datadas e muito marcadas por um certo contexto. E por outro lado, já tínhamos o volume suficiente para escolher outras novas que foram, também, refeitas. Agora já está a sair o segundo volume em Moçambique e em Portugal.

Na epígrafe do seu novo livro, você traz a cena de uma pedra que finge estar morta. Essa pedra animada simboliza obstáculos que estão por vir ao longo dos contos? Eu acho que a presença simbólica dessa pedra tem mais a ver com o fato de que a fronteira que a gente desenhou para aquilo que é vivo e não vivo, orgânico e não orgânico, é uma fronteira que não está presente em todas as culturas. Eu vivo num país onde essas outras culturas têm uma outra ideia de fronteira. Então, uma pedra pode ser uma entidade viva, como um rio, uma montanha e uma árvore. Se eu disser que esta noite eu fui uma pedra, as pessoas acreditam e perguntam se

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eu acordei cansado, por exemplo. Então, não é que essa seja a verdade. Quer dizer, as culturas não têm verdades, não são donas de verdade, mas elas têm a capacidade de pôr em diálogo e de fazer com que escutemos o outro não como uma coisa engraçada, folclórica e exótica. Acho que essa viagem é importante fazer.

As crônicas escritas no período da pandemia de Covid-19 e que depois se tornaram contos, como O caçador de elefantes invisíveis, no qual um agente de saúde aconselha um caçador a se isolar por conta da pandemia, são resultado de experiências próprias na época? Havia ali um conflito porque, para mim, tinha que ser sentido como escritor, mas eu também fazia parte da comissão científica que apoiava o governo [no período da pandemia em Moçambique]. A ideia era: "como é que vamos falar com as pessoas para que percebam o que é esta doença - e para que percebam que tipo de procedimentos devem adotar - numa sociedade em que é difícil explicar o que é um vírus?" Dizer para uma sociedade tão gregária que as pessoas têm que ficar separadas e ficar em casa. Em famílias que são pobres, vivem 30, 40 pessoas numa pequena casa. Então, tudo isso me obrigou a pensar e adequar para o contexto local aquilo que eram preceitos. E foi muito curioso, porque os moçambicanos tiveram um entendimento muito rápido da situação. Não é tão difícil explicar que há um ser invisível que pode provocar esse tipo de desordem, porque essa cultura acredita profundamente nesse lado invisível do mundo. Nós tivemos uma capacidade de resposta muito boa, basta dizer que durante toda a pandemia, em Moçambique, morreram duas mil pessoas, número de pessoas que morriam por dia, às vezes, em países como o Brasil, infelizmente. E, portanto, sendo um país que tinha condições que são estruturais – por exemplo, a quantidade de jovens que existe em


entrevista

Moçambique é enorme, 60% dos moçambicanos têm menos de 15 anos –, a incidência da pandemia foi outra. E não havia a ideia de um fim do mundo. Quer dizer, não foi vivida com o lado trágico como foi vivido em outros países do mundo. Portanto, a concessão do mundo, da história e do tempo histórico é outro. Não houve princípio, não há fim, portanto, a ideia de que estávamos a chegar a uma coisa que era apocalíptica nunca surgiu. Por aí eu quis viajar. Há histórias que mostram como é que códigos eram diferentemente percebidos e adotados.

Seus contos são marcados por enredos que tratam, também, de injustiças sociais, racismo, misoginia, violência, finitude, abandono, entre outros temas. Como você trabalha o processo de desumanização em suas histórias? Nós estamos dentro de um processo que é antigo. E essa desumanização é feita, muitas vezes, não só nesses momentos trágicos, como numa guerra. A nossa espécie não é, por essência, violenta, mas recorre à violência sempre que pensa que isso é absolutamente necessário para a sobrevivência, e sempre que acredita que aquele que ela vai agredir, ou matar, não é humano. Ela precisa saber isso para que haja uma permissão no nível inconsciente, para que possa ser uma agressora. Então, eu acho que a sociedade em que a gente vive, em todo lado, infelizmente, se globalizou e tem essa tentação de olhar para o outro como alguma coisa que pode ser humano, mas não tanto como nós. Isso eu acho que a gente tem que enfrentar. A literatura faz isso porque retrata esse outro como alguém que está dentro de nós, que existe dentro de nós. Essa diversidade não nos é externa.

A presença do mundo orgânico e não orgânico nos seus textos são reflexo da sua formação e atuação também como biólogo. Podemos

dizer que você leva conhecimentos da biologia para a literatura e da literatura para a biologia? Como faz esses atravessamentos? É uma espécie de contrabando que faço, permanentemente, entre aquilo que tem de irreverente na biologia, é isso que eu gosto. A biologia é uma disciplina que é muito indisciplinada, vamos dizer assim. Agora não tanto, porque ela está capturada por interesses financeiros muito poderosos, pela indústria farmacêutica etc. Mas, a biologia propõe coisas para repensar o mundo que são muito radicais. E uma coisa que ela propõe, por exemplo, é esta ideia de diversidade que a gente sempre coloca fora de nós. A biodiversidade está nas florestas, nos ecossistemas, mas também está dentro de nós. Somos profundamente diversos e só uma pequena parte de nós é puramente humana. A maior parte do que vive dentro de nós, e que nos faz ser quem somos, são bactérias, fungos, vírus etc. Portanto, quando eu estava no Ministério da Saúde, apareceu um grupo de curandeiros que disse o seguinte: “Nós não sabemos o que é um vírus, não conhecemos essa doença. Vocês são cientistas. Quando descobrirem que língua fala este vírus, ensinem-nos a falar essa língua. Nós queremos conversar com o vírus”. Isso parece uma coisa ingênua, mas, na verdade, nós conversamos com os vírus. A ideia que persiste hoje é que nós o vencemos como se fosse uma batalha militar, mas o vírus cumpriu a sua parte. Isto é, ele reajustou-se para um convívio mais sereno conosco. Se ele não tivesse tido as mutações que teve, até chegar a esta Ômicron, nós estaríamos, ainda hoje, em pandemia. Mas, é muito difícil que se admita que isso foi uma coisa feita a dois. Portanto, a tal conversa existiu no nível invisível. E tem uma coisa: mesmo onde a gente se pensa mais puro, dentro dos nossos genes, 8% são genes de vírus, não nossos. E a gente tem medo de perguntar o que é que estão a fazer esses genes dentro de nós.

A literatura bebe numa coisa que é profundamente humana, e que nos humaniza, que é a capacidade de criar histórias e a necessidade de ouvir histórias


entrevista

De que forma sua escrita – desde obras como Terra sonâmbula até este último livro – serve como uma ferramenta para elaboração de memórias da Guerra Civil de Moçambique (1977- 1992), que tirou um milhão de vidas? Ela [a guerra] nunca morreu. Essa presença sempre esteve lá na forma de alguma coisa que precisa ser convertida numa história para que a gente possa aceitar o que não é aceitável. Houve um sofrimento enorme e vocês, no Brasil, não conhecem, e mesmo o mundo não conhece. Se Moçambique fosse na Europa, toda a gente saberia dessa história e estaríamos todos fazendo o luto, mas essa guerra fez um milhão de mortes, a metade do país teve que sair na forma de refugiados e isso marcou muito. É uma ferida muito dolorosa. Só que nas culturas moçambicanas, a ideia é não falar do que se sofreu, é fazer com que isso seja esquecido ao longo do tempo. Só que é um esquecimento falso. E o que a literatura pode fazer como ajuda? Ela pode propor converter isso numa outra coisa, numa história que possa ser visitada por nós. João Guimarães Rosa [escritor brasileiro (1908-1967)] dizia que as histórias não querem ser convertidas em História - na grande História. E esse jogo de como a História se constrói através de pequenos episódios ficcionais é constante em todo lado.

Seus contos também são fruto dos momentos que experimentou na infância. Como foi esse período? É daí que brota a vontade de ser escritor? A cozinha [de casa] era o lugar onde a minha mãe, com as vizinhas, contavam histórias. E aquele lugar era um encantamento, porque elas falavam sempre meio em segredo, em murmúrio. Havia ali uma coisa que parecia me convidar a uma certa subversão também, mas eu queria pertencer àquele universo. E essas vozes estão presentes, dentro de mim, quando eu tenho que escrever uma história e, sobretudo, quando eu tenho que escrever uma história de personagens femininos, por exemplo. Elas me ajudam a perceber que esse meu lado feminino foi construído nessa infância, nessa cozinha e principalmente com a minha mãe.

Em entrevista que realizamos no ano de 2019, você compartilhou a recordação de sair com seu pai, que foi um poeta, pela linha férrea

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da estação de trem onde ele trabalhava, na cidade moçambicana de Beira, e catar pedras brilhantes. Essa figura paterna também é transportada para os personagens de seus livros? Ele tinha isso de abrir a porta para uma outra coisa que me permitia desvalorizar a realidade. Quando ele me levava ao longo da linha férrea a catar pequenas pedras com brilho, como se fosse a coisa mais importante do mundo, eu olhava para ele e, de repente, ele não era meu pai. Ele era meu irmão, era uma criança e estava fazendo uma coisa completamente tonta ou desobedecendo a nossa mãe, que era um grande prazer que tínhamos os dois. Ele mostrava que, afinal, isso que chamavam “mundo real” não pode ser tido em conta como a gente pensa. Porque havia ali uma guerra já. Quando meu pai fazia isso, o país já estava em guerra, portanto, nesse mundo que se dilacerava, o meu pai mostrava que é essa pequena coisa que se pode encontrar no meio da poeira. Algo que depois eu reencontro em Manoel de Barros (1916-2014), quando ele mostra como se pode encontrar poesia no meio da sujidade. Essa é a lição de poesia que ele [meu pai] me deu.

Sua relação com seu pai e o legado da poesia seguem com a Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo. Qual o papel da fundação no fomento à leitura e à literatura? Meu pai apoiava dezenas de jovens, e nós nem sabíamos qual era a dimensão disso. Quando ele morreu é que recebemos várias cartas que mostravam o que ele tinha feito, seu empenho, a vida inteira, foi em ajudar crianças e jovens a escreverem, e depois a publicar, porque ele trabalhava numa editora. Então, nós pensamos: “temos que continuar este trabalho”. E temos uma fundação que é gerida por três irmãos, somos três, e que agora faz isso de maneira mais institucional. Temos uma equipe que trabalha com jovens, fazemos tutoria durante o ano e depois publicamos seus livros. Já publicamos várias dezenas de livros de jovens que, de outra maneira, nunca publicariam. Não fazemos isso por caridade. Fazemos porque também aprendemos com eles.

Você costuma dizer que “está escritor”, porque esse verbo reflete transitoriedade


entrevista

entre as letras e a biologia. Como essas vontades e desejos lhe convocam? Agora eu estou escritor. Acho que a ideia que eu percebo é que só posso ser feliz se eu puder ser várias identidades ao mesmo tempo, e exercer essas identidades. E faço isso porque sou privilegiado, porque muita gente no mundo não pode fazer. E eu sinto que se a minha primeira identidade, aquela que me determina, é ser escritor, eu fecho janelas que são importantes para mim. Isto é, a biologia é uma delas e, por isso, eu quero me manter disponível. Eu acho que o mais importante – o grande segredo – é estarmos disponíveis a sermos outros. Esses outros que, no fundo, quando vamos descobrir, já estavam dentro de nós.

Vivemos um século que valoriza a inteligência artificial e desconsidera a inteligência das plantas, por exemplo. Como escritor e biólogo, qual sua observação sobre esse cenário? Alguém disse já, e eu estou citando, que o que mais me aflige não é a inteligência artificial, mas a estupidez natural, isso sim. Mas, na verdade, aflige-me essa ideia de que se possa pensar que uma máquina pode fazer aquilo que uma pessoa faz. Porque isso nasceu há

muito tempo. A gente está aflito agora, estamos agora preocupados com isso, mas nasceu desde que se adotou, como lógica dominante, essa lógica mecanicista, que compara, por exemplo, o computador com o cérebro humano. Então, aquilo que é a confusão entre mecanismo e organismo, e que está fundamentada e muito enraizada no nosso pensamento, ela tem que ser questionada. Portanto, não é só neste momento que se deve ter essa preocupação, mas é preciso revisitar, um bocadinho, como é que construímos a nossa visão de mundo. O orgânico se constrói a todo tempo e é composto por vida que constrói vida. Nenhuma técnica pode fazer isso, nenhum mecanismo, nenhum engenho pode fazer isso. É preciso questionar também essa falsa dicotomia entre o vivo e o não vivo, entre o orgânico e o não orgânico. Amanhã, quando eu me olhar no espelho, milhões de células minhas já terão desaparecido, outras nasceram. Havia um amigo que dizia assim: “pede lá uma máquina para organizar a primavera”. Ou seja, é perceber que a gente tem que questionar, porque somos um pequeno grão no meio de várias outras coisas. Não somos o centro. Ninguém legitimou a nossa posição de administradores do planeta. Fomos nós próprios, sozinhos.

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O que mais me aflige não é a inteligência artificial, mas a estupidez natural, isso sim

E quanto a ameaça à literatura com a popularização de plataformas geradoras de textos, como o ChatGPT? Elas podem, de fato, comprometer a literatura? Eu não me lembro de nenhuma história que o meu pai e minha mãe tenham contado quando eu era criança. Eu não me lembro. Mas, eu me lembro da voz deles, lembro-me do olhar, lembro-me do momento, daquela coisa encantada de estar a dormir, dessa presença que eu próprio inventei e isso eu acho que nenhuma máquina vai substituir. Seria trágico que a gente pensasse e investisse numa máquina qualquer para essa outra função que é essa ligação invisível que nós temos e que passa por coisas que não podem ser transcritas em uma outra linguagem.

contar histórias. É não ter a potência para ouvir histórias através dessa forma humana, o que sempre aconteceu na nossa espécie. O livro é só a continuação disso. Precisamos que haja um sentido, a nossa espécie precisa criar sentido. Esta coisa, a vida, o tempo, a nossa existência tem que ter um sentido. E como é que se constrói um sentido no meio desse caos todo de sinais que nos chegam a todo tempo? Através de uma história que faz essa ligação, que tece isso que parece desligado. Então, isso é absolutamente essencial.

Quando lemos, nos transportamos para outros mundos e nos colocamos no lugar de diferentes personagens. Você acha que a literatura pode nos tornar mais empáticos? E, em larga escala, mudar o mundo? A literatura bebe numa coisa que é profundamente humana, e que nos humaniza, que é a capacidade de criar histórias e a necessidade de ouvir histórias. Isso sim. Mais grave que um menino ou uma menina não saber escrever bem, ou não ler muito, é essa criança não saber

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Assista ao vídeo com trechos da entrevista com o escritor Mia Couto.


DE 7 A 9 DE NOVEMBRO DE 2023

APOIO

REALIZAÇÃO


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CASA é SUA Um passeio pela Casa Verde, distrito da Zona Norte de São Paulo, onde o samba, o esporte e a diversidade cultural fazem morada POR MANUELA FERREIRA

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Representantes da cultura sambista da zona norte paulistana, a porta-bandeira Giovanna Camargo Teixeira e o mestre-sala Natanael Gonçalves de Jesus, da escola de samba Morro da Casa Verde, abrem alas para a programação da nova unidade do Sesc.


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“Apesar da crescente verticalização, a Casa Verde ainda se mantém com muitas residências tradicionais, permanecendo com moradores que tiveram seus familiares há gerações no local e que seguem tradições desde o século passado. É um bairro com ‘calor humano’, crianças brincando nas ruas

e uma vivência pacífica entre os diversos grupos étnicos que ocupam a região desde seu surgimento”, explica o geógrafo Márcio Michalczuk Marcelino. Ele assina, junto ao escritor Eduardo Britto, o livro Eis aí a Casa Verde (Carthago Editorial, 2013), uma homenagem ao território onde nasceu, cresceu e que se tornou um de seus temas de pesquisa. Segundo Marcelino, o bairro, que em outros tempos era periferia distante do Centro, hoje possui uma proximidade com a região central de São Paulo, pois a cidade se expandiu ao longo de décadas – e tal movimento foi inevitavelmente acompanhado pelo distrito. “A Casa Verde agora é muito próxima de uma série de serviços públicos e privados. Interessante notar que os moradores novos, que se mudaram para a Casa Verde neste século, adaptaram-se ao bairro, e não o contrário. Este perfil de ‘morador raiz casaverdense’ tem uma relação afetiva com os vizinhos e com o próprio território”, afirma o geógrafo, que é parte desse grupo de paulistanos que nutre um especial carinho pela região. “Já fui diretor de escola de samba, de futebol de várzea e da organização do aniversário do bairro. Você sai da Casa Verde, mas a Casa Verde não sai de você”, conclui.

Vista do bairro da Casa Verde, que abriga tradicionais escolas de samba paulistanas.

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Matheus José Maria

B

erço de bambas, palco de tradições ancestrais de matriz africana e terra que viu nascer grandes talentos do esporte, a Casa Verde, distrito da Zona Norte da capital paulista, reúne criatividade e expressões culturais diversas desde a sua origem, há mais de um século. Caminhar por suas ruas é descobrir praças tranquilas, deixar-se surpreender por vias de perfil residencial e encontrar gerações de moradores apaixonados pelo bairro que, a partir deste mês, abriga a mais nova unidade do Sesc. Permeada pela pluralidade cultural, a área às margens do Rio Tietê segue dedicada a manter características históricas enquanto testemunha a vida pulsar na cadência do samba – ritmo que dita o passo das diversas agremiações carnavalescas situadas ao seu redor.


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TODAS AS CASAS Para a jornalista Camila de Alvarenga, repórter do jornal A Gazeta da Zona Norte, é possível perceber uma relação afetiva dos moradores da Casa Verde com a região. “Justamente por ser um território centenário, sua história é bastante destacada, em especial nas datas de aniversário. Prevalece a população adulta e idosa, uma vez que as famílias mais jovens, em geral, buscam endereços com maior número de condomínios. Outra faceta interessante é o aspecto cultural, por ser berço de várias escolas de samba, como a Unidos do Peruche”, diz Camila. Até os anos 1980, a ampliação imobiliária vertical na região esteve proibida por causa da proximidade com o Aeroporto Campo de Marte, restrição que evitou, por décadas, o adensamento populacional encontrado em outras regiões da cidade. A Casa Verde é, também, terra de expoentes dos esportes, como o pugilista Éder Jofre (1936-2022), tricampeão mundial de boxe; o saltador Adhemar Ferreira da Silva (1907-2001), primeiro bicampeão olímpico do país; a jogadora de futebol Rosana dos Santos Augusto, ex-lateral da seleção brasileira e medalha de prata nos jogos olímpicos de Atenas (2004) e Pequim (2008); o treinador de futebol e ex-atacante Serginho Chulapa, maior artilheiro da história do São Paulo, com 268 gols; Basílio, ex-futebolista e dono de um centro de treinamento para novos atletas; e Montanaro, ex-jogador de vôlei que conquistou medalha de prata nos jogos olímpicos de Los Angeles (1984). O bairro possui, ainda, dois espaços com grande representatividade na trajetória do futebol de várzea da Zona Norte: o Complexo Esportivo de Lazer e Cidadania do Campo de Marte e o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, ambos com mais de cinco décadas de história.

Primeiro bloco de afoxé de São Paulo, o Afoxé Ile Omo Dada em apresentação durante o Carnaval de 2020.

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“Atualmente, quando se fala em Casa Verde, o imaginário remete ao samba, que permanece vivo não só por meio das escolas, mas também de uma cultura do samba: batuques em bares, blocos carnavalescos, casas de shows, desfiles pelas ruas na época do Carnaval, um verdadeiro pertencimento à cultura do samba”, analisa Márcio Michalczuk Marcelino. Provas dessa conexão não faltam. O bairro foi, por exemplo, eternizado em verso e prosa pelo sambista Adoniran Barbosa (1910-1982) em "No Morro da Casa Verde", de 1975: “Silêncio/ é madrugada/ No Morro da Casa Verde, a raça dorme em paz/ E lá embaixo, meus colegas de maloca/ Quando começa a sambar não para mais”, cantou o autor de "Trem das Onze".

SAMBA DA MINHA TERRA

Muata

A Casa Verde está nas proximidades do Sambódromo do Anhembi, é vizinha ao bairro de Santana, e abriga três das escolas de samba mais populares do Carnaval paulistano: Império de Casa Verde, Morro da Casa Verde e Unidos do Peruche. A influência do bairro, no entanto, extrapola os limites do distrito e está na raiz da forte cena cultural da região. “Nos anos 1970 e 1980, a Zona Norte foi um grande celeiro de sambistas. Todo mundo que é do samba daqui, nessa redondeza, e que seguiu para as escolas de samba Camisa Verde e Branco, Mocidade Alegre e Nenê da Vila Matilde, por exemplo, saiu da Unidos do Peruche”, revela o compositor Celsinho da Império, um dos primeiros integrantes da Império de Casa Verde desde a fundação, em 1994. É que a agremiação foi formada a partir de uma dissidência da Unidos do Peruche, criada em 1950. “Em meados dos anos 1990, quando a Peruche já estava sediada no bairro do Limão [também na Zona Norte], a Casa Verde, em si, ficou carente de alguma movimentação. Foi nesse momento que surgiu a Império de Casa Verde, quando o Dailson 'Caçapa' [baluarte da Império] começou a reunir as pessoas para criar a escola”, recorda Celsinho. “A Império é um reduto de artistas que sentem orgulho de dizer que frequentam a nossa quadra”, completa o sambista. Um dos ícones do Carnaval paulistano, o cantor e poeta Zeca da Casa Verde (1927-1994) também faz parte da história do bairro: pertenceu a várias alas de compositores de escolas de samba paulistanas, como Rosas de Ouro, Morro da Casa Verde e Camisa Verde e Branco. 29 | e


Depois de Santana, que abriga uma unidade do Sesc desde 2005, a Casa Verde abre as portas para a segunda unidade da instituição na Zona Norte paulistana.

RAÍZES E NASCENTES A ocupação da localidade que hoje corresponde ao bairro da Casa Verde começou no século 17, a partir de um sítio de 200 alqueires que se destacava por uma casa pintada de verde. O local pertenceu ao bandeirante e administrador colonial da Capitania de São Vicente, Amador Bueno (1584-1649), e depois foi transferido para o militar José Arouche de Toledo Rendon (1756-1834), seu descendente. A fazenda foi construída onde é a atual Rua Zanzibar. Do sítio da casa verde, em 1795, já se exportava café para a Europa. Foi nessa época, também, que a região ganhou fama como “sítio das moças da casa verde”, em referência às sete irmãs de José Arouche: Ana Teresa, Caitana, Pulquéria, Maria Gertrudes, Gertrudes, Joaquina e Rudesinda. Em 1882, o construtor João Maxwell Rudge (18391897) comprou a área correspondente à margem direita do Rio Tietê, com o intuito de cultivar uvas. Depois da morte de Rudge, coube aos herdeiros lotear a área – um dos planos era levantar, no local, a pacata “Vila Tietê”. O nome foi rejeitado, mas o bairro vingou, desenvolvendo-se a passos lentos, mas constantes.

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Em 1915, foi construída uma ponte de madeira interligando as duas margens do Rio Tietê e, alguns anos depois, os moradores viram a chegada do bonde. Em 1937, foram realizadas as primeiras instalações de luz elétrica e, em 1954, a ponte de madeira foi substituída pela atual, de concreto, denominada Ponte da Casa Verde – Jornalista Walter Abrahão, desde 2013.

DIÁSPORAS URBANAS Durante a formação do bairro, havia forte presença de imigrantes portugueses. E antes da primeira metade do século passado, ocupava a região do Parque Peruche, em grande número, a população negra, por iniciativa da Frente Negra Brasileira, que adquiriu lotes de terras para alocar na região as famílias que haviam sido expulsas do Centro. Grupos familiares que viviam nos cortiços do Bixiga, Barra Funda, Sé, Bom Retiro e Baixada do Glicério, por exemplo, encontraram abrigo no território casaverdense. “Até o final dos anos 1960 e 1970, Casa Verde, Parque Peruche e bairro do Limão eram locais certos de


Adriana Vichi

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escolha para moradia da população negra, em razão do quadro socioeconômico e étnico-racial”, escreveram os pesquisadores e professores Reinaldo José de Oliveira e Regina Marques de Souza Oliveira no artigo São Paulo – Cidade negra no século XXI, publicado na Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/ as Negros/as (ABPN), em novembro de 2020. “A população local, sobretudo da Casa Verde, plantou no chão daquele território parte das principais insígnias negras. Mesmo com bruscas mudanças no local, a exemplo da valorização [imobiliária] do espaço - que provocou a venda de casas e terrenos para a população de maior poder aquisitivo. A força do território foi sustentando as referências históricas, sociais e identitárias, como os terreiros de candomblé e umbanda, a Irmandade de São Benedito e as escolas de samba Unidos do Peruche, Morro da Casa Verde e Império de Casa Verde”, relataram os pesquisadores na publicação.

ÁFRICA PAULISTANA “Minha relação com a Casa Verde é visceral. Sou nascido e criado no bairro e, atualmente, desenvolvo algumas ações socioculturais com lideranças, coletivos e organizações não governamentais visando a manutenção da identidade afro-brasileira do território, bem como aprofundar minhas pesquisas sobre as linguagens culturais que são múltiplas na região”,

comenta o sociólogo e pesquisador Tadeu Kaçula, autor do livro Casa Verde: uma pequena África paulistana (Liberars, 2020). A obra é resultado de uma pesquisa sobre sua própria história e origem. “Sempre que eu e meus amigos íamos para festas e sambas em outras regiões da cidade, as pessoas nos diziam que gostavam muito da Casa Verde e da Zona Norte porque havia muita gente preta vivendo por lá. Isso me intrigava e me despertou interesse em entender porque esse número de pessoas pretas era elevado no território”, destaca. Toda herança cultural criada, estruturada e deixada pelos seus ancestrais como um importante legado no território se mantém ativa, segundo Kaçula. “As escolas de samba, e as demais agremiações carnavalescas surgidas depois, seguem desenvolvendo a cultura do Carnaval que se tornou referência para os desfiles que acontecem no Sambódromo do Anhembi. Os terreiros de umbanda e candomblé se mantêm ativos nas tradições de matrizes africanas, bem como o Afoxé Omo Dada – o mais antigo e tradicional de São Paulo – realiza, periodicamente, as suas atividades culturais”, conta o sociólogo. “Toda essa movimentação em torno da manutenção dos saberes e fazeres tradicionais do território tem o olhar e o acompanhamento do coletivo Zona Norte Afrodiaspórica, que realiza um circuito afro-turístico nos postos de memória e referência preta na Casa Verde, o que inclui as escolas de samba, ateliê de artes, Afoxé e outros espaços culturais”, arremata Kaçula.

É UM BAIRRO COM ‘CALOR HUMANO’, CRIANÇAS BRINCANDO NAS RUAS E UMA VIVÊNCIA PACÍFICA ENTRE OS DIVERSOS GRUPOS ÉTNICOS QUE OCUPAM A REGIÃO DESDE SEU SURGIMENTO Márcio Michalczuk Marcelino, geógrafo 31 | e


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DE PORTAS ABERTAS A partir do dia 27/10, Sesc Casa Verde inicia atividades com a exposição Festas, Sambas e outros Carnavais

Nova unidade do Sesc São Paulo na capital paulista, o Sesc Casa Verde inicia suas atividades no dia 27/10. Essa será a segunda unidade da instituição a se instalar na Zona Norte da capital, região que já conta, desde 2005, com o Sesc Santana. Ao ocupar um galpão que integra um terreno de 45 mil metros quadrados onde funcionava a sede administrativa da empresa Riachuelo, o Sesc Casa Verde pretende se transformar, gradativamente, em um centro cultural e esportivo com diversos espaços e serviços já consolidados pelo Sesc, há quase 80 anos, em todo o estado de São Paulo. A ocupação inicial do Sesc Casa Verde dispõe de 12 mil metros quadrados, contemplando um espaço expositivo, salas de múltiplo uso, espaço de brincar, local para leitura, central de atendimento, loja Sesc, cafeteria e ambientes para convivência. “É de extrema importância a presença e as ações realizadas pelo Sesc em todas as regiões do Estado e da cidade de São Paulo, especialmente em espaços fora da região central da capital, onde a prevalência de equipamentos culturais e de lazer ainda é um desafio, como na Zona Norte, onde agora o Sesc Casa Verde inicia suas atividades. Um espaço que busca contemplar a história

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e a vocação deste bairro que é reduto do samba, palco de tradições ancestrais de matriz africana, e que reúne a potência e a pluralidade de manifestações culturais há mais de um século”, explica Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo. Dentre os destaques na programação de abertura da unidade está a exposição Festas, Sambas e outros Carnavais, com curadoria geral de Angela Mascelani e Lucas Beuque, do Museu do Pontal (RJ), e de Tadeu Kaçula, sambista, sociólogo e morador da região. A mostra tem como tema o samba e o Carnaval como elementos fundantes da identidade local [Leia mais na seção Gráfica desta edição].

CASA VERDE

Início das atividades: 27/10, a partir das 10h. Avenida Casa Verde, 327, Casa Verde, São Paulo. Terça a sexta, das 10h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. sescsp.org.br/casaverde O Sesc Casa Verde dá início às atividades abrigando: espaço expositivo, salas de múltiplo uso, espaço de brincar, central de atendimento, espaços de leitura, loja Sesc, cafeteria e ambientes para convivência.


Adauto Perin

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Os passos revolucionários da polivalente escritora Patrícia Galvão, a Pagu POR MANUELA FERREIRA

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a história do Brasil, não foram poucas as mulheres que, mesmo enfrentando cenários desafiadores e excludentes, fizeram de suas biografias exemplos de ousadia e coragem. No entanto, uma delas se destacou por ter assumido, desde cedo, a missão de ir sempre além do lugar-comum, em nome da busca incessante por liberdade. O legado de Patrícia Galvão (1910-1962), mais conhecida como Pagu, é a prova de que sua existência era puro destemor. Foi escritora, poetisa, desenhista, ilustradora, diretora teatral, agitadora cultural, crítica literária, jornalista, tradutora, ativista política e militante operária, abarcando tantas facetas quanto eram seus talentos. Uma trajetória tão marcante que ecoa, ainda hoje, em cada mulher que reluz nas artes e na política. Seu pioneirismo na luta pela emancipação feminina no país continua inspirando gerações.

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Homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2023, que acontece de 22 a 26 de novembro, Patrícia Galvão esteve ligada ao movimento modernista e reivindicou, de forma emblemática e em toda a sua produção, a causa trabalhista e a condição da mulher no cenário literário brasileiro. É o que aponta a pesquisadora e professora da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) Suely de Oliveira Lopes. “Com seu primeiro livro, Parque industrial, de 1933, ela inaugurou o romance proletário nacional – uma vez que, dentro da classificação de literatura engajada, a obra teria sido vanguardista ao abordar especificamente a vida de trabalhadores proletários. A obra figura em meio a uma era de diversos eventos políticos relevantes no Brasil e no mundo, a exemplo da Grande Depressão de 1929, nos Estados Unidos, e da Revolta do Forte de Copacabana, de 1922. Interessante citar que grande parte desses acontecimentos contribuíram para o cenário de lutas e revoltas dos personagens”, revela a docente.

BRILHO PRECOCE Sua estreia literária está atrelada a uma das mais fortes experiências da vida da escritora, conforme explica Suely de Oliveira Lopes. “Em 1932, ela habitava um bairro de trabalhadores no Rio de Janeiro, e atuava como

© Acervo Lúcia Teixeira / Centro Pagu Unisanta

INDOMÁVEL poesia


Quero ir bem alto, bem alto…numa sensação de saborosa superioridade…é que do outro lado do mundo tem uma coisa que eu quero espiar… Trecho do livro Dos escombros de Pagu – Um recorte biográfico de Patrícia Galvão, de Tereza Freire (Senac São Paulo e Edições Sesc São Paulo, 2023)

guarda armada em reuniões do Partido Comunista do Brasil (PCB), que a censurou e depois a expulsou por considerar seu movimento de 'agitação individualista e sensacionalista'. Isso a obrigou a adotar o pseudônimo de Mara Lobo para o lançamento de Parque industrial”, diz a pesquisadora. A filiação partidária, que aconteceu em 1930, teve seu rompimento definitivo dez anos depois. A verve política e iconoclasta, entretanto, já acompanhava a escritora desde quando era somente a caçula das três filhas de um casal de classe média alta de São João da Boa Vista, município do interior de São Paulo. O pai, advogado e jornalista, e a mãe, dona de casa, encaravam com preocupação o comportamento da mais nova. Pagu fumava, tinha cabelos curtos, pintava os lábios de vermelho intenso, vestia calças e abusava de roupas transparentes. Falava o que vinha à mente, sem freios, ria alto, gostava de festas e bebia álcool. Em suma, era a personificação do atrevimento habitando um lar católico e conservador.

Assinando com o pseudônimo de Patsy, ela procurava se afastar do pensamento burguês de então, escrevendo sobre política e tecendo críticas ao governador Carlos de Campos (1866-1927). Aos 18 anos, ainda estudante da Escola Normal da Praça da República, conheceu o Movimento Antropofágico. A partir do intenso contato com o poeta e romancista Oswald de Andrade (1890-1954) e com a pintora Tarsila do Amaral (1886-1973), casal-símbolo à frente do grupo, foi considerada a musa dos modernistas, embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922 – Patrícia Galvão tinha apenas doze anos quando o evento se realizou.

ESSÊNCIA INTELECTUAL

O apelido Pagu foi dado pelo escritor Raul Bopp (1898-1984), que dedicou um poema à autora, em 1929. “Neste período, já partilhando das posições de vanguarda dos modernistas, e junto a Oswald de Andrade, ela passa a escrever uma coluna radical, com severas críticas ao feminismo burguês, intitulada A Mulher do Povo, para a revista/jornal O Homem do Povo”, descreve Suely Oliveira Lopes. O contexto histórico e social daqueles anos, portanto, impulsionou a produção da escritora.

Diante do futuro manso e pacato que a aguardava, rebelou-se. Chegou à capital paulista em 1925, e se instalou no bairro do Brás, de tradição operária, onde conseguiu seu primeiro emprego como redatora e colunista do Brás Jornal.

“Durante essa fase, aconteceu também o desenvolvimento das grandes indústrias no eixo Rio - São Paulo, e o Partido Comunista tinha como proposta ser a voz daquela classe trabalhadora que se espalhava cada vez mais pelas grandes

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cidades. É nesse cenário de instabilidade econômica, com trabalhadores e trabalhadoras começando a se filiar a sindicatos, que ela mergulhou, revelando as nuances entre o cotidiano de mulheres em seu ambiente de trabalho e as tensões e temas rotineiramente levantados pelas questões de classe”, pontua a professora.

CHAMA DO INCONFORMISMO

© Acervo Lúcia Teixeira / Centro Pagu Unisanta

Ao liderar uma greve de estivadores do Porto de Santos, no litoral paulista, foi presa pela primeira vez – foram 23 prisões ao longo de 52 anos de vida. No âmbito pessoal, a escritora experimentara um escândalo ao se casar, em 1930, com Oswald de Andrade, em cerimônia no Cemitério da Consolação, na região central de São Paulo. Da união nasceu o cineasta e escritor Rudá de Andrade (1930-2009). A paixão entre Patrícia e o autor de O Rei da Vela (1937) teve início enquanto ele era casado com Tarsila do Amaral. Após o fim do matrimônio com Oswald, em 1934, Pagu saiu de casa para morar sozinha, compartilhando a criação do pequeno Rudá – atitude vista como afronta numa época em que o divórcio não era socialmente aceito. “Não tinha nenhuma confiança nos meus dotes literários, mas como minha intenção não era nenhuma glória nesse sentido, comecei a trabalhar”, relatou em Paixão Pagu: Autobiografia precoce, publicada em 1940. A obra, lançada quando a autora tinha 30 anos, foi um dos marcos da liberdade reconquistada depois de cinco anos presa por razões políticas. No livro, denuncia as torturas que sofreu por agentes da ditadura do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), revisita amores e impressões sobre viagens ao redor do mundo, quando trabalhava como correspondente internacional dos jornais Correio da Manhã e Diário da Noite.

Escritora, poetisa, desenhista, ilustradora, diretora teatral, agitadora cultural, crítica literária, jornalista, tradutora, ativista política e militante operária, Pagu foi tantas facetas quanto eram seus talentos.

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No campo ideológico, teve sua militância reconhecida pelo militar e político Luís Carlos Prestes (1898-1990), líder do Levante Comunista de 1935. No mesmo ano em que deixou sua mais longa detenção, casou-se com o escritor Geraldo Ferraz (1905-1979), seu companheiro até a morte, e com quem teve seu segundo filho, o jornalista Geraldo Galvão Ferraz (1941-2013).

MÚLTIPLAS PRESENÇAS Mais um gesto de autonomia viria logo depois: Pagu passou a estudar na Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo (EAD-USP). No período, traduzia obras clássicas da dramaturgia e montava peças amadoras. Ao se mudar para Santos, com o marido e os filhos, em 1954, trabalhou no jornal A Tribuna, ao mesmo tempo em que protagonizava o movimento pela construção do Teatro Municipal da cidade. Anos mais tarde, acometida pelo câncer pulmonar que a vitimou, atravessou um período de depressão, em que optou pela reclusão. “O fato é que, salvo na esmaecida imagem de estrela menor do anedotário do nosso modernismo, Patrícia Galvão mal existia nos anos 1950, quando Oswald ainda era 'tabu' no cânone das nossas universidades. E assim perdurava trinta anos depois, à luz dos rígidos critérios acadêmicos”, escreveu o poeta Augusto de Campos em Pagu – Vida e obra (Companhia das Letras, 2014), livro em que reúne

um conjunto de manuscritos e poemas-desenhos da artista, editado pela primeira vez em 1982. A publicação contribuiu para que novos olhares fossem lançados sobre ela, reacendendo o interesse de intelectuais e artistas por sua carreira e vivências, a exemplo da cantora e compositora Rita Lee (1947-2023). Nos versos de Pagu, de 1999, cantou: "Sou rainha do meu tanque/ Sou Pagu indignada no palanque". Outras homenagens ganharam os palcos, em montagens teatrais, como o monólogo Pagu – até onde chega a sonda, escrito e interpretado pela atriz Martha Nowill. Sob direção de Elias Andreato, o espetáculo estreou no Sesc Pompeia, em novembro de 2022. Já o romance Pagu no metrô (Nós, 2019), de Adriana Armony, revive a fase em que a musa antropofágica viveu em Paris, nos anos 1930. “Na redescoberta de Patrícia Galvão fui ajudado por um acaso literário – um daqueles acidentes que costumo identificar com a ideia de sincronicidade de Jung. A história é conhecida e faz parte deste livro. Foi o poema "Natureza morta", que Patrícia publicou em 1948 sob o pseudônimo de Solange Sohl, sem que eu soubesse quem realmente era a sua autora – a ponta do iceberg, que me levou a recompor a sua história e a resgatar, por trás da distante aura carismática que cercava o nome Pagu, a garota fatal e doidivana que fez ‘vacilar o lar’ de Tarsila. A personalidade artística, literária e humana que hoje se reconhece nela. Quem escreveu aquele poema – pensava eu – era alguém especial”, detalhou Augusto de Campos em Pagu – Vida e obra.

Também passei por essa prova. Também tentaram me esganar em muito boas condições. Agora, saio de um túnel. Tenho várias cicatrizes, mas ESTOU VIVA Trecho do livro Pagu – Vida e obra, de Augusto de Campos (Companhia das Letras, 2014)


para ver no sesc / bio

PARAÍSO DAS LETRAS Neste mês, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Casa Edições Sesc São Paulo realiza encontros literários e abriga livraria com títulos do acervo e lançamentos

Matheus José Maria

Na Flip 2022, os jornalistas Jotabê Medeiros, Isabelle Moreira Lima e Patricia Palumbo em mesa da Casa Edições Sesc que refletiu sobre o papel da mediação cultural.

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) chega à sua 21ª edição homenageando o legado insurgente e versátil de Patrícia Galvão, a Pagu. As charmosas ruas do centro histórico do município fluminense serão palco de uma série de atividades que acontecem entre os dias 22 e 26 de novembro. A Casa Edições Sesc São Paulo abre as portas para o público da Flip, mais uma vez, trazendo lançamentos, bate-papos e outras ações inspiradas nas publicações de seu catálogo.

Música, teatro, literatura negra, educação, entre outros assuntos, dão a tônica da programação do espaço. Durante a Festa, as Edições Sesc São Paulo também disponibilizam para venda mais de 200 títulos com descontos de 40%. Entre as obras recém-lançadas, estão a nova edição de A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2020), de Mário Augusto Medeiros da Silva, Parlapatões: no ato, organizado por Cuca

Nakasone, e A incrível história de Leny Eversong ou a cantora que o Brasil esqueceu, de Rodrigo Faour.

Casa Edições Sesc São Paulo na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) De 22 a 26 de novembro. GRÁTIS. Programação completa em sescsp.org.br

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Ratão Diniz


gráfica

Mestre Terto e Mestre Berto do Ticumbi de São Benedito, em Conceição da Barra (ES, 2015). Fotografia de Ratão Diniz.

EXPRESSÕES DE UM TODO Atravessada por festas, sincretismo religioso e heranças afro-diaspóricas, produção artística brasileira reflete a singularidade de uma arte popular genuína e diversa POR MARIA JÚLIA LLEDÓ

COLABOROU MANUELA FERREIRA

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diversidade de traços, cores e formas é um marco da produção artística, de modo particular quando se trata da chamada arte popular. Num território tão vasto como o Brasil, essas expressões culturais ganham contornos de autenticidade a partir do território e das diferentes criações presentes em cada contexto. Assim, pinturas, esculturas, fotografias e outras linguagens artísticas carregam uma singularidade muitas vezes atravessada pelas manifestações originadas no sincretismo religioso, nos rituais, na herança afro-diaspórica e na própria ocupação de diferentes povos no decorrer da história. Conhecer e apreciar essa produção artística é mergulhar, portanto, nessa relação da identidade de um povo pela ótica de seu tempo e espaço.

Santa Catarina, São Paulo, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Maranhão, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Como ponto de partida, a relação da Casa Verde com o samba e o Carnaval. Para isso, os curadores explicam que partiram da compreensão de que as escolas de samba não só favorecem relações sociais, como também são responsáveis pela emergência de práticas artísticas. “E assim o fazendo, [as escolas de samba] aprofundam nas comunidades onde estão inseridas os sentidos de identidade e de pertencimento. Além dos aspectos festivos e lúdicos propriamente ditos – da dança, cantos, instrumentos musicais, rituais que se repetem, roupas que se usam –, o Carnaval envolve trabalho, arte e colaboração intensa”, destacam Mascelani e Beuque.

Caso do bairro Casa Verde, na Zona Norte da cidade de São Paulo, onde a pluralidade de manifestações culturais e festas religiosas abraça a região. Essa diversidade é celebrada na exposição Festas, Sambas e outros Carnavais [leia mais em Arte em festa], que marca o início das atividades do Sesc Casa Verde. “A proposta é valorizar as múltiplas identidades que tornam esse bairro referência de culturas tradicionais que resistiram ao longo do tempo, marcando o poder de agência [capacidade de agir] e de resistência de indivíduos e comunidades, com particular relevo à presença negra, não apenas na Casa Verde, mas, também, nas grandes festas que se fazem presentes em muitas partes do Brasil”, descrevem os curadores Angela Mascelani e Lucas Beuque, que também compartilham a direção do Museu do Pontal, um dos maiores acervos de arte popular brasileira, que cede parte de suas obras para essa mostra.

Curador convidado, o sambista e sociólogo Tadeu Kaçula, residente da Casa Verde, destaca que “a curadoria ainda fez um mergulho na 'pequena África paulistana' para conectar as personalidades vivas e ancestrais do bairro à exposição”. Kaçula acrescenta que, juntos, os curadores fizeram “uma homenagem aos sambistas Carlão do Peruche, Dona Guga, Iya Wanda D´Oxum, além dos ancestrais Dionisio Barbosa, Hélio Bagunça, Dona Lucinda, entre outras figuras representativas do bairro”.

A exposição reúne 200 criações de 70 artistas e grandes mestres de dez estados brasileiros – Goiás,

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Estão expostas na nova unidade do Sesc obras de artistas locais, como o pintor João Cândido, que segue em atividade, e peças do acervo do Museu do Pontal – a exemplo da instalação sonora Carnaval no Sambódromo, de Adalton Fernandes Lopes (1938-2006). “Artistas que encontraram na arte popular uma possibilidade de acolhimento, e de fazer com que suas histórias de vida e obras chegassem a públicos mais amplos e ganhassem visibilidade”, explicam os curadores Mascelani e Beuque.

Walter Firmo

gráfica


gráfica

Bumba meu boi (São Luís-Ma, 2077). Fotografia de Walter Firmo.

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Ratão Diniz

gráfica

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Acervo Museu do Pontal

Silvani Cardoso do Ticumbi de São Benedito em Conceição da Barra (ES, 2014). Fotografia de Ratão Diniz.

Anjo tocando pandeiro e anjo tocando triângulo. Esculturas de Zé do Carmo (Goiana-PE, sem data).


Walter Firmo


Maracatu rural (Nazaré da Mata-PE, 2004). Fotografia de Walter Firmo.


Forró embaixo do caju (sem data). Escultura de cerâmica de Maria Luciene da Silva Silqueira, conhecida como Sil da Capela.

Roger Cipó

Acervo CRAB

Dona Magali dos Santos (sem data). Fotografia de Roger Cipó.


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Walter Firmo

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Walter Firmo

À direita, Maracatu rural (Nazaré da Mata-PE, 2004). À esquerda, Carnaval (Rio de Janeiro-RJ, sem data). Fotografias de Walter Firmo.


Ricardo Ferreira

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Congaço (2023), tela do artista João Cândido, ilustre morador do bairro Casa Verde.

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para ver no sesc / gráfica

ARTE EM FESTA Expressões culturais formadoras da identidade do bairro da Casa Verde, na Zona Norte paulistana, compõem mostra em cartaz no Sesc

A exposição Festas, Sambas e outros Carnavais marca o início das atividades da nova unidade do Sesc, no bairro Casa Verde. Com curadoria geral de Angela Mascelani e Lucas Beuque, do Museu do Pontal (RJ), e do curador convidado, Tadeu Kaçula, sambista e sociólogo residente do território. A mostra celebra as mais diversas festividades brasileiras e busca, na história da Casa Verde, enaltecer também o samba e o Carnaval como elementos fundantes da identidade local. “Tivemos especial atenção para aquelas festas nas quais a presença afro-diaspórica é vigorosa”, explicam os curadores Mascelani e Beuque.

Entre as festas representadas por esculturas, pinturas, vídeos e fotografias, estarão presentes “Bumba Meu Boi, Cavalhada, Folia de Reis, Reisado, Maracatu, Cavalo Marinho, Carnaval, além de algumas festas religiosas, como São Jorge, São Benedito, Divino, São Gonçalo, Iemanjá, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora Aparecida, muitas delas originárias de manifestações de populações negras e indígenas do país”, elenca Juliana Okuda, gerente adjunta da Gerência de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc São Paulo. A mostra conta também “com um abre-alas formado por retratos, obras e textos sobre pessoas importantes para as festas e a cena artístico-cultural da Casa Verde”, complementa Okuda.

CASA VERDE

Festas, Sambas e outros Carnavais Exposição coletiva com curadoria de Angela Mascelani e Lucas Beuque, do Museu do Pontal (RJ), e Tadeu Kaçula. Até 18 de fevereiro de 2024. Terça a sexta, das 10h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h. GRÁTIS.

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literatura

autoria

NEGRA

Representatividade na produção literária brasileira coloca histórico de apagamento e invisibilização em xeque POR MARIA JÚLIA LLEDÓ

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urante a infância, Eliana Alves Cruz aguardava ansiosa a hora de ir para a escola, toda terça-feira: dia de biblioteca. Era nos livros que ela se refugiava. Hoje, aos 57 anos, essa recordação visita a memória da premiada autora de romances, contos e livros para crianças. Não porque, naquele momento e lugar, ela já desejasse ser uma escritora. Afinal, aqueles objetos de lombada e capa dura não retratavam seu rosto, sua realidade, nem sua

ancestralidade. “Eu me lembro da sensação de ficar esperando pela aula de biblioteca. Criou-se em mim o livro como objeto de desejo. Mas, autores negros, eu só fui descobrir muitos anos mais tarde”, conta. Empurradas para fora das prateleiras, Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis (1822-1917), primeiro romance publicado no Brasil, e Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960), de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), são algumas dentre tantas outras

Aline Macedo

A escritora e linguista Conceição Evaristo foi eleita Intelectual do Ano no Prêmio Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores, pelo livro Canção para ninar menino grande (Pallas, 2020).


literatura

obras que atravessaram sucessivas tentativas de apagamento. Mesmo assim, a produção literária negra jamais cessou.

Renato Parada

Autora do livro Silêncios prEscritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras – 1859/2006 (Editora Malê, 2019), Fernanda Rodrigues de Miranda pesquisou a quantidade de romances de autoras negras publicadas no recorte temporal que analisou. “É muito sintomático que nesse intervalo de três séculos, considerando que Maria Firmina dos Reis publicou [Úrsula] em 1859, ou seja, no século 19, e aí passando por todo século 20, até chegar ao começo do século 21, com Um defeito de cor [(2006), de Ana Maria Gonçalves], a gente tenha um número muito pequeno de romances. Eu encontrei um total de 13 e analisei oito”, apontou Miranda em vídeo da série Autoria Negra na Literatura Contemporânea, realizada pelo Sesc Pinheiros, em 2020, com curadoria e mediação da escritora Cidinha da Silva. De meados do século 20 para cá, o que possibilitou que mais autores e autoras negras tivessem romances, ficções científicas, quadrinhos e outros gêneros publicados e em circulação nacional e internacional foi resultado de lutas e conquistas de movimentos negros, da ação afirmativa de cotas nas universidades, e de políticas públicas de fomento ao livro e à leitura, principalmente. Nessa travessia, editoras já consolidadas ampliaram seus catálogos e novas editoras surgiram. Entre elas, a Malê, que nasceu com o objetivo de fomentar o acesso a livros de escritores negros contemporâneos ( já publicou cerca de 140 títulos de 200 autores), e a Kitembo, que

é voltada para a publicação de títulos afrofuturistas, de ficção científica e de suspense. Outro exemplo é a editora Pallas, que além de obras voltadas ao público adulto, também se dedica a títulos infantis e juvenis de histórias afro-brasileiras e africanas. Um cenário que contribuiu, segundo o sociólogo Mário Augusto Medeiros da Silva, para que o escritor negro, antes visto como uma “avis rara”, tivesse hoje seu espaço na história da literatura brasileira como algo incontornável.

“As literaturas negra e marginal/ periférica estão em currículos escolares do Ensino Médio; estão presentes em premiações importantes, como o Casa de las Américas (Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves), o Jabuti (Olhos d’água, de Conceição Evaristo), o Prêmio Biblioteca Nacional (Um Exu em Nova York, de Cidinha da Silva) e o Prêmio APCA (Dia bonito para chover, de Lívia Natália); e são adaptadas para seriados televisivos e telas de cinema [Cidade de Deus, baseado no livro homônimo de Paulo Lins,

Autor do best-seller e premiado romance Torto arado (Todavia, 2019), Itamar Vieira Junior descreveu, no dia 17 de julho deste ano, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo, um episódio de racismo.

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literatura

de 2002]”, elenca na edição revista e ampliada da obra A descoberta do insólito – literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2020), recém-lançada pelas Edições Sesc São Paulo. Há avanços também no reconhecimento de autoras negras em espaços nunca antes ocupados. Em setembro, Conceição Evaristo foi eleita Intelectual do Ano no Prêmio Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores, em razão do livro Canção para Ninar Menino Grande, originalmente publicado em 2018. No mesmo mês, Luciene Carvalho se tornou a primeira escritora negra a assumir a presidência de uma Academia de Letras no Brasil. Na ocasião em que tomou posse na Academia Mato-Grossense de Letras (AMLMT), disse, em discurso, que “gostaria de inspirar crianças e jovens de escolas públicas”.

RACISMO VIGENTE Ainda que a produção e difusão de obras de autores e autoras negras tenha se ampliado, principalmente, nas duas últimas décadas, não são raros episódios de racismo. Como o que foi descrito, em julho deste ano, por Itamar Vieira Junior – autor do best-seller Torto arado (Todavia, 2019), Prêmio Jabuti de Melhor Romance Literário em 2020 – em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo. Ao se deparar com palavras ofensivas de uma crítica literária, o escritor escreveu: “Quando a crítica passou a proferir ofensas no Twitter, procurei o editor da revista para relatar o ocorrido. Fui ignorado. Decidi então escrever sobre as ofensas, porque, no Brasil, se chamam pessoas negras de ‘arrogantes’ e pessoas brancas de ‘assertivas’. Pessoas brancas não são ‘sujeitos’, são ‘escritores’. A colunista finge não saber que até a nossa língua e os nossos adjetivos

COM RELAÇÃO À NOSSA HISTÓRIA, AINDA HÁ MUITOS PERSONAGENS QUE A GRANDE POPULAÇÃO NÃO FAZ IDEIA DE QUEM SÃO, OU FAZEM, MAS DE UMA FORMA LIMITADA Eliana Alves Cruz, escritora e | 56

são racializados. Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus e tantos outros sofreram o mesmo”, pontuou. Outra forma de estigmatização acontece quando aos literatos negros são impostas determinadas temáticas e formatos de literatura. “Tem sempre uma tentativa de podar e controlar a população negra no Brasil. Então, a gente vai ficar naquela prateleira ali, da literatura negra, e não pode sair dali. Esses rótulos são uma forma de racismo e uma forma de manter sob controle um determinado discurso, um determinado olhar sobre o mundo e um pensamento. Eu gosto muito do que Jeferson Tenório (O avesso da pele, Companhia das Letras, 2021) sempre fala: ‘Nós somos a literatura brasileira’. Ou seja, a literatura brasileira é preta e indígena, porque essa é a população brasileira”, destaca Eliana Alves Cruz.. Para André Augustus Diasz, autor das biografias infantojuvenis Lima Barreto (2023) e Mário de Andrade (2023), ambas pela editora Mostarda, preconceito e rótulos ainda atravessam o dia a dia de autores negros. “Práticas de exclusão, de cerceamento, de opressão e de racismo não acabaram. Estão aí, dadas. Vemos essas bases presentes até hoje em nome da humanidade, em nome do processo civilizatório. Muitos genocídios, destruições e apagamentos foram cometidos e são cometidos ainda. Está em processo, entre conquistas e lutas, a busca de uma coerência”, observa. No entanto, sob um ponto de vista positivo, “um dos resultados de toda essa movimentação no campo da literatura é de que há uma maior visibilidade dessa produção literária de autoria negra: seja pelo número de autores e autoras, seja


literatura

Marta Azevedo

Autora de romances, contos e livros para crianças, Eliana Alves Cruz publicou, em 2022, Solitária (Companhia das Letras), a história de duas mulheres negras, Mabel e Eunice (mãe e filha), que moram no trabalho, um condomínio de luxo numa metrópole brasileira, até que Eunice torna-se testemunha-chave de um crime na casa dos patrões.

pelas publicações, pelas questões discutidas, pelas homenagens realizadas”, afirma o escritor, que também é gerente adjunto da Gerência de Estudos e Programas Sociais do Sesc São Paulo.

TERRENO FÉRTIL Hoje, uma nova geração de leitores está em contato com reedições de autores e autoras negras, como Carolina Maria de Jesus, cuja obra Quarto de despejo foi tema de vestibulares de universidades públicas, e também com romances, quadrinhos e ficções de autoras e autores contemporâneos que fabulam outras possibilidades de um porvir. Enquanto se prepara para novos projetos, entre eles um livro para crianças e outro romance, a escritora Eliana Alves

Cruz observa uma vastidão de temas e personagens da história brasileira que ainda não ganharam as páginas de livros, bem como outros enredos a serem imaginados. “Com relação à nossa história, ainda há muitos personagens que a grande população não faz ideia de quem são, ou fazem, mas de forma limitada. A gente tem um futuro também que pode fabular. E aí, entra o afrofuturismo. Qual vai ser o futuro das pessoas negras no Brasil? E no mundo? Como esse futuro pode acontecer para além das utopias? Como ele pode acontecer de forma plena para que a gente possa ter a nossa cidadania respeitada? Tudo isso é material para a literatura”, ressalta a escritora. Ao apresentar novas visões de mundo e proporcionar a

experiência da alteridade [leia a Entrevista com o escritor Mia Couto, nesta edição] a literatura também desperta a consciência da diversidade de vozes que nela habitam. “Quando você lê Solitária [(2022), escrito por Eliana Alves Cruz], Um defeito de cor, O avesso da pele, Olhos d'Água e tantos e tantos livros maravilhosos que a gente tem produzido, isso te abre um sentido, te abre uma percepção de mundo. O leitor não consegue mais ‘desver’ o que viu. Também é papel da literatura divertir, fazer rir, relaxar e sonhar. Eu acho que não existe limitação para a arte, ela está aí como expressão de vida, e a vida muda, as ideias mudam, o idioma é fluido, muda com o passar do tempo. Eu acho que a literatura precisa espelhar tudo isso que é de uma riqueza muito grande”, conclui Cruz. 57 | e


literatura / para ver no sesc

DO 13 AO 20 Com o tema Ensinagens Negras, ação concebida pelo Sesc São Paulo leva à capital, interior e litoral do estado atividades que ressaltam saberes ancestrais

Iniciativa que promove a valorização e o fortalecimento da cultura negra por meio de diversas atividades educativas, culturais e artísticas, Do 13 ao 20 – (Re)Existência do Povo Negro foi criada em 2019, pelo Sesc São Paulo, como uma oportunidade de aprendizagens, experiências, produção de conhecimento e de convívio com culturas afrodiaspóricas. Realizada entre os meses de maio e novembro, neste ano a ação tem como tema Ensinagens Negras, norteando uma programação que ressalta a importância da transmissão de conhecimentos ancestrais entre as gerações. “Em sua quinta edição, a ação Do 13 ao 20 apresenta as cosmopercepções e modos de fazer da população negra. Ao dar prosseguimento a essa iniciativa, o Sesc sublinha que cidadania e educação são linhas que precisam se entrelaçar, quando o horizonte é a construção de uma sociedade mais equânime", afirma o diretor do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda. “Abordar a negritude sob esse duplo prisma implica compatibilizar, num mesmo empenho, potencialidades e necessidades, demandas e desejos”, completa. O Sesc São Paulo também tem entre seus pilares uma ação programática permanente voltada ao incentivo à leitura, com parâmetros que incluem a pluralidade de pensamentos e

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expressões artísticas. Presente em 21 unidades, as bibliotecas fixas e os BiblioSescs são compostos por um acervo de obras de literatura brasileira, estrangeira, juvenil, infantil, poesia, artes e quadrinhos, além de esportes, lazer, saúde, meio ambiente, história, filosofia e educação, entre outros. Dentre a diversidade de autoria de títulos, 26 autores e autoras negras compõem um repositório de enredos e narrativas essenciais para a formação de leitores e de cidadãos nestes espaços de leitura e convivência.

ITAQUERA

Lançamento do livro Lágrimas de Yemanjá (Editora Malê, 2023) BATE-PAPO COM A AUTORA

Escrito por Joanice Conceição e ilustrado por Iris Pirajá, narra a história de uma reflexão feita pela rainha do mar, na ausência da festa de 2 de fevereiro. Dia 4/11, sábado, às 14h30. GRÁTIS.

POMPEIA “A atuação do Sesc no âmbito da literatura e do livro está permeada por inquietações compartilhadas pelas pessoas que pensam e fazem as ações programáticas e os acervos da instituição. Afirmar a presença e o protagonismo de autoras e autores negros nessas esferas é pauta permanente, que denota a ampliação de experiências de mundo, de acordo com aquele que compreendemos e desejamos como consciente de seu passado, presente e futuro”, explica Tiago Marchesano, técnico de literatura e bibliotecas na Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo. Saiba mais sobre as bibliotecas fixas do Sesc São Paulo em sescsp.org.br/biblioteca. Confira alguns destaques da programação do projeto Do 13 ao 20 – (Re)Existência do Povo Negro, que encerra neste mês.

Encontros de Áfricas em Brasis CURSO Reflexão sobre as diferentes perspectivas de contemplação da cultura afro-brasileira com atenção às possibilidades de epistemicídio. De 2 a 30/11, quintas, às 19h. GRÁTIS.

MOGI DAS CRUZES

O avesso da pele ESPETÁCULO Montagem teatral do Coletivo Ocutá baseada no premiado livro escrito por Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti de 2021, na categoria Romance Literário. Dias 11 e 12/11, sábado e domingo, às 19h. GRÁTIS.


IDADISMO no Brasil


N

Nortearia

as artes ou nas ciências, o ser humano alimenta, continuamente, o desejo de prolongar sua existência, sem precisar envelhecer. Na obra O retrato de Dorian Gray (1890), do irlandês Oscar Wilde (1854-1900), o personagem-título faz um pacto para permanecer com a aparência jovem eternamente. Uma crítica feita pelo escritor ao notar a supervalorização de uma beleza submetida à juventude. Sob a égide do mesmo pensamento desse protagonista, dois séculos após a publicação do livro, investimentos milionários impulsionam pesquisas científicas a investigar formas de retardar o envelhecimento e, até mesmo, adiar a morte. Consequentemente, a saga pela juventude eterna não só provoca o sentimento de desdém pelas pessoas mais velhas – tidas como “desnecessárias”, “improdutivas” e “problemáticas” –, como dificulta o convívio e o intercâmbio entre gerações. O preconceito contra pessoas acima dos 60 anos de idade tem nome: idadismo, etarismo ou ageísmo. Segundo o médico e professor Egídio Dórea, coordenador do programa USP 60+, mesmo que o último censo demográfico tenha contabilizado 34 milhões de pessoas (15,2% da população brasileira) nessa faixa etária, elas ainda são invisibilizadas na sociedade. “A segunda edição da pesquisa Idosos no Brasil, realizada pelo Sesc São Paulo e pela Fundação Perseu Abramo, mostrou que, entre 2006 e 2020, houve uma queda no número de idosos que se sen-

tiram respeitados, mas também caíram as menções a preconceito e discriminação. E, quando questionados sobre como eram vistos pelos mais jovens, relataram: desprezados, desrespeitados, maltratados, incompreendidos e alvos de preconceito”, ressalta. Para Beltrina Côrte, professora da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), para entendermos a origem do idadismo é preciso perceber os discursos antienvelhecimento que se colocam em diferentes espaços sociais. “Não se nasce idadista, até porque a família é um lugar, por excelência, intergeracional. Mas, conforme crescemos, somos bombardeados por narrativas de várias ordens que nos levam – na juventude, idade adulta e até na velhice –, a sermos idadistas com os outros e até com nós mesmos.” Ou seja, “a construção das narrativas idadistas vai nos habitando devagarinho ao longo da vida, formatando um imaginário coletivo carregado de preconceitos, mitos e ideias errôneas em relação ao envelhecimento e à velhice em si”, explica Côrte, que também é diretora executiva do Portal do Envelhecimento e Longeviver. Neste Em Pauta, Dórea e Côrte abordam o idadismo, refletindo sobre como ele avança no Brasil e quais as consequências desse tipo de preconceito. Os especialistas também sugerem mudanças possíveis nesse cenário.

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Idadismo e suas implicações no Brasil POR EGÍDIO DÓREA

Em um país que cultua a beleza física, permanecer jovem é praticamente mandatório. Abraçar a velhice e reconhecê-la com todos os seus atributos positivos e negativos é impensável. E seguimos na busca incansável e infrutífera pela juventude perdida. No olhar do outro, você será percebido como mais velho. E, nesta relação geracional, três aspectos alimentam o idadismo: 1. 2.

O Brasil está envelhecendo. O último censo demográfico estimou que 34 milhões de pessoas têm mais de 60 anos. Deixamos de ser o país do futuro. Entretanto, permanece a percepção individual, social e institucional de que somos jovens. O velho ainda é tratado como o outro minoritário, sem importância e invisível.

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O idadismo, preconceito pela idade, é definido como: “estereótipos negativos ou positivos; preconceito e/ou discriminação contra (ou em vantagem de) pessoas idosas, fundamentados em sua idade cronológica ou com base na percepção delas como sendo velhas ou envelhecidas. Pode ser implícito ou explícito, e ser expresso, em nível micro, meso ou macro”. Essa definição considera não somente os estereótipos negativos, mas também os positivos; evidencia seus componentes cognitivo, afetivo e comportamental; e enfatiza sua importância individual, social e institucional. A teoria mais aceita sobre a gênese do idadismo é a da incorporação de estereótipos. Imagens negativas de pessoas idosas são apresentadas durante a infância e incorporadas sem análise crítica. Permanecem silenciosas e, quando o indivíduo é colocado em uma situação na qual a idade passa a ser um critério de avaliação, tornam-se ativas e passam a influenciar e determinar sentimentos e comportamentos. O velho é percebido como incapaz, improdutivo, doente e sinônimo de morte. Em um sentimento de autopreservação, afastamo-nos. Rechaça-se a percepção pessoal da nossa velhice. Ela é estigmatizada. Somente o outro envelhece. E assim, o idadismo perpetua-se.

3.

Sucessão – os mais velhos devem ceder espaço para os mais jovens; Benefícios sociais – aposentadorias prolongadas e uso excessivo dos recursos de saúde com prejuízo aos mais jovens; Apropriação de costumes considerados da juventude e, com isso, usurpação de uma identidade que não lhes pertence.

As pessoas idosas devem se vestir e se comportar de forma apropriada à sua geração. Estereótipos prescritivos – o que a sociedade aceita como comportamento adequado para uma pessoa mais velha – limitam, desta forma, as possibilidades de escolha e de expressão. Todos devem ser iguais e a heterogeneidade não é mais permitida. O que é visto como criativo e irreverente na juventude passa a ser ridicularizado na velhice. O idadismo é considerado o mais comum dos preconceitos. Estudos realizados desde a década de 1980 mostram que 60% a 90% das pessoas sentiram-se discriminadas ou desrespeitadas por serem mais velhas. No Brasil, pesquisa do Instituto Datafolha mostrou que 9 entre cada 10 brasileiros acreditavam na existência do idadismo. A segunda edição da pesquisa Idosos no Brasil, realizada pelo Sesc São Paulo e pela Fundação Perseu Abramo, mostrou que, entre 2006 e 2020, houve uma queda no número de idosos que se sentiram respeitados. A prática [do idadismo] não é penalizada e, com isso, imagens, piadas e comentários continuam sendo exibidos pelas mais diversas mídias. É tão frequente que passa despercebido até mesmo pelas próprias vítimas. Afinal, quem não se sentiu feliz ao ser tomado por uma pessoa mais jovem? Outra característica do idadismo é a transculturalidade. Nas culturas ocidentais, fundamentadas


Nas culturas ocidentais, fundamentadas na produtividade e no individualismo, ele [o idadismo] é mais presente. Alimenta-se o pensamento de que o idoso não mais produz economicamente e, como tal, deve ser excluído

na produtividade e no individualismo, ela é mais presente. Alimenta-se o pensamento de que o idoso não mais produz economicamente e, como tal, deve ser excluído. E que o indivíduo é o único responsável pela forma como envelhece. Apesar da cultura oriental ser mais coletivista, o envelhecimento significativo das suas populações, com suas repercussões econômicas, tornou o idadismo mais comum. A economia determina o idadismo nas sociedades. Em épocas de recessão econômica, como visto na pandemia da Covid-19, a pessoa idosa é mais discriminada – maior isolamento, desemprego, abuso e pobreza. Culpa-se a velhice pela estagnação econômica, superlotação hospitalar e quebra da seguridade social. E termos negativos bombásticos, como “avalanche prateada” e “tsunami prateado”, são disseminados e passam a fazer parte do nosso imaginário subconsciente do que representa a velhice. É também o mais prejudicial dos preconceitos com impactos negativos na saúde física e mental: maiores taxas de incapacidade, ansiedade generalizada, depressão, ideação suicida, doença cardiovascular, demência e redução da expectativa de vida. As pessoas idosas são tratadas de forma padronizadora e infantilizada. Passam por consultas que duram menos tempo do que o necessário para que possam ser efetivas, exames e tratamentos que não são solicitados e introduzidos porque um número definidor – idade – determina se você deve ou não viver. Nesse contexto, precisamos indagar: existe esperança para essa sociedade distópica que, ao mesmo tempo em que investe bilhões em recursos tecnológicos e pesquisas para extensão da longevidade, ex-

clui a pessoa mais velha e é incapaz de reconhecer toda a sua complexidade, riqueza e potencialidades? O que nós, como indivíduos, comunidade e sociedade, podemos fazer para combater o idadismo? Conhecimento e intergeracionalidade – na família, na escola e no trabalho – reduzem os preconceitos. Em uma sociedade que estabelece normas de como devemos nos vestir, comportar, relacionar e falar –, e que, consequentemente, é responsável pelos atos de preconceito, discriminação e violência que estão cada vez mais frequentes, deveria ser prioritária a elaboração de políticas e de programas que visem a inclusão. Como indivíduos, temos a responsabilidade de avaliar os nossos pensamentos e atitudes, bem como o comportamento dos outros, escrutinar a existência do preconceito e combatê-lo. Este é o momento de agirmos e buscarmos uma sociedade em que o outro não seja somente definido pela sua idade ou cor da pele ou sexo ou identidade de gênero ou religião ou índice de massa corpórea. Uma sociedade verdadeiramente inclusiva. Uma utopia, talvez, mas que vale todos os esforços.

Egídio Dórea é médico graduado pela Escola Bahi­ana de Medicina e Saúde Pública e doutor em Nefrologia pela Universidade de São Paulo (USP). É professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Caetano do Sul (USCS), coordenador do programa USP 60+, membro da Comissão de Direitos Humanos da USP, conselheiro da ILC Brazil (Centro Internacional de Longevidade) e diretor da Ativen.

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Não se nasce idadista, torna-se idadista POR BELTRINA CÔRTE

Há mais de 20 anos estou envolvida com os estudos sobre envelhecimento. Envelheci nesse processo. Desde o final dos anos 1990, observo que a disseminação do preconceito à velhice, ou seja, a discriminação e estereótipos baseados na idade, é frequente e sempre esteve presente em nosso imaginário.

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Por isso, nesta breve reflexão a respeito do idadismo, ouso invocar a expressão de Simone de Beauvoir (1908-1986), filósofa francesa, existencialista e feminista que, em 1949, escreveu o livro O segundo sexo, no qual assinala que: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, discordando de definições populares a respeito do papel da mulher na sociedade. Ao fazer o trocadilho no título deste texto, coloca-se em questão o papel das pessoas idosas na sociedade. Há muitas definições de senso comum que compõem o que se chama de mitos do envelhecimento, e que subjugam os velhos e velhas contemporâneos por considerar essas pessoas como ultrapassadas, inúteis, incapazes, improdutivas, desatualizadas, entre outras definições que reforçam os preconceitos que se tem em relação às pessoas mais velhas – o chamado idadismo. Não se nasce idadista, até porque a família é um lugar, por excelência, intergeracional. Mas, conforme crescemos, somos bombardeados por narrativas de várias ordens que nos levam – na juventude, idade adulta e até na velhice –, a sermos idadistas com os outros e até com nós mesmos. A construção das narrativas idadistas vai nos habitando devagarinho ao longo da vida, formatando um imaginário coletivo carregado de preconceitos, mitos e ideias errôneas em relação ao envelhecimento e à velhi-

ce em si. Por isso é que temos vergonha de nossa velhice e, assim, reproduzimos os preconceitos de idade que começam lá atrás. Do ponto de vista biológico, envelhecer é um fenômeno que afeta todos os seres vivos. Assim, a vida é um fluxo mutável e heterogêneo. No entanto, pela ciência, e na perspectiva psicossociológica, mais especificamente a partir da década de 40 do século passado, chegam as primeiras narrativas teóricas sobre o envelhecimento. Torna-se idadista porque em quase todas as teorias científicas sobre o envelhecimento prevalecem imagens negativas, com o excessivo enfoque nas perdas e declínio, acentuando a vulnerabilidade do ser e a aceitação da velhice como condição contemporânea. Ou seja, fenômeno da condição humana e social a ser tratado como um direito e conquista social da humanidade. São várias as teorias. Entre elas, destaco as que apontam o declínio das atividades físicas e mentais associadas à idade, que propiciam o surgimento de doenças psicológicas, além do afastamento e da perda do papel social das pessoas idosas, que provocam o decréscimo nas interações sociais. Outras teorias associam a velhice à redução da reserva funcional, com a diminuição da resistência às agressões e o aumento do risco de morte, ou seja, diminuição progressiva de eficiência de funções orgânicas. Há ainda aquelas que assinalam que as interações sociais estão sujeitas à relação custo-benefício e que, portanto, as pessoas idosas, por possuírem menos recursos (físicos, materiais, psicológicos, intelectuais, tecnológicos), são afastadas ou têm sua liberdade de escolha prejudicada no sistema de trocas com as gerações mais jovens, pois na era da tecnologia, especialmente, o saber está centrado no jovem, e não mais nas pessoas mais velhas. Teorias que, em outras palavras, dizem que a saída de pessoas idosas da sociedade é para que elas se preparem para a morte, como se esta não fizesse parte da vida, e fosse apenas uma questão de velhos e velhas. Essas narrativas teóricas foram, de certa forma, habitando o imaginário coletivo, levando-nos, como sociedade, a termos práticas excludentes, potencialmente destrutivas e idadistas.


Torna-se idadista pela narrativa numérica estampada em manchetes da grande mídia, apontando o aumento veloz de pessoas mais velhas em detrimento de outros grupos, e que isso é um “problema” para o Estado, para a sociedade e, claro, para a família. Aqui vale a pergunta: será a velhice um “problema” ou ela tem problemas? Ora, se entendemos que a velhice é um problema, e se crescemos ouvindo isso o tempo todo, quem gostaria de envelhecer? Acredito que ninguém quer ser um “problema”, mas é muito comum ouvir de nossos familiares mais velhos, e até de nós mesmos, que não queremos ser um “problema” para nossos entes queridos. Essa narrativa numérica, que associa a velhice com doença, é reforçada pelas produções acadêmicas disseminadas nas mídias, inclusive na área da gerontologia, ciência que, grosso modo, estuda o impacto do envelhecimento no coletivo e no indivíduo. Vimos como a ciência tem grande responsabilidade na construção de narrativas idadistas.

Pensando nas gerações futuras, quais são os legados que estamos deixando para elas: que continuem idadistas ou que teçam uma solidariedade intergeracional?

Torna-se idadista por outra narrativa que é construída, no campo econômico, apontando que o envelhecimento populacional pressiona os gastos públicos, sendo um fardo para o país e, claro, também para a família. Ou seja, a velhice é vista como uma etapa da vida que representa só gastos, um fardo para o Estado, para o município e para a família. Essa narrativa, estampada em manchetes na grande mídia, acaba internalizada ao ponto de, mesmo eu, estudiosa do envelhecimento, me ver repetindo para minhas filhas que não quero ser um fardo para elas. Torna-se idadista por mais uma narrativa midiática que nos bombardeia diariamente, cujo imperativo da juventude nos leva – já que não se pode parar o processo de envelhecimento que começa desde quando nascemos – querer envelhecer sem parecer que se está ficando velho ou velha. É o imperativo da juventude como valor a ser perseguido a todo custo. Torna-se idadista por todas essas narrativas apontadas. E, como vimos, todas elas social e culturalmente produzidas, como já dizia Beauvoir. Portanto, não se nasce com elas, mas se aprende através da socialização. E, nesse caso, o que acontece é que somos “ensinados” a ser idadistas. Podemos produzir – social, cultural e cientificamente – outras narrativas, afinal, não somos apenas reprodutores de culturas, mas construtores. E pensando nas gerações futuras, quais são os legados que estamos deixando para elas: que continuem idadistas ou que teçam uma solidariedade intergeracional? Termino com uma frase da ativista norte-americana Ashton Applewhite, que diz: “O preconceito de idade é que nos coloca contra nosso futuro, e um contra o outro. E esse outro somos nós”. Não se nasce idadista!

Beltrina Côrte é jornalista, doutora e pós-doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). É professora na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e diretora-executiva do Portal do Envelhecimento e Longeviver.

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POR LUNA D’ALAMA

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sonho de infância de Pedro Borges era ser jogador de futebol. Frequentava os campos de várzea da Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, e pensava em se profissionalizar. Seus pais, porém, eram ligados a movimentos sociais e insistiam para que ele terminasse a escola e fizesse faculdade. O rapaz decidiu, então, cursar jornalismo na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru (SP). Quis, inicialmente, cobrir a área esportiva, para se manter no meio que sempre admirou. Mas os anos na Unesp o levaram a perceber que ele e seus colegas negros representavam apenas 3% de todos os estudantes do campus.

Junto a outros dois alunos de jornalismo e um de design, Borges fundou, em 2015, a Alma Preta, agência de notícias especializada na cobertura de pautas a partir de uma perspectiva negra e periférica. “O Brasil é um país superviolento para uma pessoa negra. Então, ser um jornalista negro aqui exige muitos cuidados. Eu ainda cubro uma área muito delicada, que é a segurança pública”, destaca. Hoje, a Alma Preta conta com uma equipe de mais de 30 pessoas de diferentes estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Pará. Além de buscar transformar a realidade

O jornalista Pedro Borges também é coautor do livro AI-5 50 anos – Ainda não terminou de acabar (Instituto Tomie Ohtake, 2018), que venceu o Prêmio Jabuti 2020, na categoria Artes.

Yago Rodrigues

REPRESENTATIVIDADE

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Cofundador da agência de notícias Alma Preta, o paulistano Pedro Borges acredita no jornalismo como instrumento de transformação social


encontros

Presente em redes sociais como o Instagram, a Alma Preta é uma agência de notícias especializada na cobertura de pautas a partir de uma perspectiva negra e periférica.

Reprodução

da população preta e parda por meio de reportagens combativas, a agência incentiva que seus funcionários concluam o ensino médio e ingressem na faculdade. Mestrando em História na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – onde pesquisa o Movimento Negro Unificado (MNU) – e membro da Rede de Jornalistas das Periferias e da Coalizão Negra por Direitos, Pedro Borges inspira os colegas de trabalho. Seu currículo é extenso: compôs, até 2021, a equipe do programa Profissão Repórter, da TV Globo,

e é coautor do livro AI-5 50 anos – Ainda não terminou de acabar (Instituto Tomie Ohtake, 2018), que venceu o Prêmio Jabuti 2020 na categoria Artes. Neste Encontros, Borges fala de sua trajetória profissional, da cobertura jornalística antirracista e do lançamento do Manual de Redação: o jornalismo antirracista a partir da experiência da Alma Preta, que contou com a colaboração de acadêmicos, pesquisadores e jornalistas, e cujas cópias devem ser distribuídas em faculdades públicas antes de serem vendidas em todo o país.

COLETIVO NEGRO O jornalismo feito por pessoas negras inexiste nos cursos superiores do país. Nem estou falando de serem criadas disciplinas específicas sobre a imprensa negra, mas de incluírem nomes importantes ao contar a história da imprensa, ao falar de literatura, por exemplo. Então, sempre fiquei nesse lugar do quase não pertencimento à profissão. Estudei na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, e as universidades públicas paulistas foram as últimas a adotar políticas de cotas para candidatos 67 | e


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ACREDITO QUE HOJE A GENTE TEM CONSEGUIDO FURAR A BOLHA DA INTERNET, PRINCIPALMENTE A PARTIR DOS NÚMEROS QUE A GENTE VEM CONQUISTANDO NAS REDES SOCIAIS

pretos, pardos e indígenas no Brasil. Durante a minha graduação, houve um intenso debate sobre esse tema e, em 2014, eu e alguns colegas articulamos a construção de um coletivo negro. Na época, nós representávamos 3% dos estudantes da Unesp. Nesse coletivo, havia uma presença forte de alunos de jornalismo. Ao nos reunirmos com frequência, eu, o Vinicius Martins e o Solon Neto – cofundadores da Alma Preta – ficamos amigos e pensamos em criar algo nesse sentido. Chamamos também o Vinícius de Araújo, estudante de design, e assim criamos a Alma Preta, nós quatro, em 2015, no fim da faculdade.

NEGÓCIO SUSTENTÁVEL A construção da Alma Preta foi uma virada de chave muito importante na minha vida. Naquele momento, eu ainda não acreditava que esse poderia ser meu ganha-pão. Tivemos a orientação do professor Juarez Xavier, da Unesp, que foi fundamental para a gente

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conseguir uma orientação teórica e conceitual do que queria fazer. Também acessamos os livros da Ana Flávia Magalhães Pinto, que hoje está à frente do Arquivo Nacional e é uma das grandes historiadoras da imprensa negra no Brasil. A gente foi se formando a partir daí, com o desejo de construir um modelo de negócio sustentável. Hoje, a Alma Preta reúne uma equipe com mais de 30 pessoas. Se me falassem na faculdade que isso aconteceria, eu acharia que era mentira. A gente tem uma equipe bem diversificada, com produção de reportagens em texto, um setor audiovisual (que faz documentários e podcasts) e a parte de comunicação que cria a nossa newsletter e os conteúdos para as redes sociais.

RACISMO ESTRUTURAL Tenho na memória muitos processos de discriminação, desde quando eu era pequeno, nem sei precisar qual idade eu tinha. Lembro que meus pais chegaram a fazer uma reclamação no Conselho

Tutelar, porque uma vizinha falou comigo de maneira discriminatória. Atualmente, cubro temas de violência e segurança pública, e vira e mexe estou na rua com crachá de imprensa. É muito comum policiais me abordarem dizendo: “Você não tem cara de jornalista, mostra aí que você é jornalista”. Aí tenho que abrir meu celular, apresentar os trabalhos que já fiz, para comprovar que sou mesmo jornalista. A gente fica nesse lugar da não existência.

TRANSFORMAÇÃO SOCIAL Acho que o jornalismo é uma ferramenta de transformação da realidade. Adoro fazer reportagens, estar na rua, inclusive de madrugada, acompanhando pautas, conversando. É onde sinto que, de alguma maneira, meu trabalho faz a diferença. Quando penso nas reportagens que mais me marcaram, me lembro de um menino que foi preso injustamente e que saiu da cadeia após uma denúncia nossa. A família estava desesperada, e a matéria repercutiu.


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Ele jogava futebol de várzea e me disse o seguinte, quando foi solto: “A sensação de liberdade é melhor do que ganhar um campeonato”. Sempre encontro a mãe dele no samba, e toda vez ela faz questão de me abraçar, falar comigo e agradecer. Essas coisas ficam gravadas. Além disso, temos feito a diferença na vida de jornalistas negros. Parte da nossa equipe, quando começou a trabalhar na Alma Preta, não tinha terminado a escola, pois a evasão escolar é muito grande entre o nosso povo. A gente estabeleceu como condição: eles tinham que concluir os estudos e fazer faculdade depois. Uma turma nossa, que atua na área audiovisual, vai fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste ano. Então, a gente consegue promover uma mudança de vida para o nosso pessoal. É a melhor coisa que a gente pode fazer.

MANUAL DE REDAÇÃO Desde o início, a gente tinha o desejo de fazer reportagens, mas jamais imaginaria o lançamento, anos depois, de um manual de redação. Nosso manual surgiu a partir do apoio de uma fundação e de uma emenda parlamentar da Câmara Municipal de São Paulo, que pagou parte da operação, possibilitou pôr esse manual para rodar. Vamos distribuir todas as cópias que fizemos e, depois, colocar uma segunda edição para vender em todo o Brasil. A Alma Preta quis fazer um manual com tudo o que entende por jornalismo, quais são seus critérios de noticiabilidade, como os jornalistas devem cobrir os assuntos, qual é a nossa linha editorial. Não temos dicas de como não ser racista, é um manual de redação, ponto.

Propomos uma discussão geral de jornalismo. Inclusive, a gente quer que ele também chegue às mãos de estudantes brancos que estão na faculdade. Temos um compromisso com os direitos humanos, com a transformação da realidade. Vamos tentar, ainda, colocar esse manual na grade de algumas faculdades.

DESAFIOS DA PROFISSÃO O Brasil é um país difícil para ser jornalista. Aliás, Brasil, Colômbia e México são muito violentos e estão entre os países que mais matam jornalistas na América Latina. O Brasil é um país superviolento para uma pessoa negra. Então, ser um jornalista negro aqui exige muitos cuidados. Eu ainda cubro uma área muito delicada, que é a segurança pública. Existe, portanto, essa dificuldade na prática, no exercício da profissão, e também no que diz respeito ao negócio, porque todo mundo ainda está patinando e tentando encontrar o melhor modelo de negócio para o jornalismo digital no século 21. A Alma Preta tem conseguido dar respostas para o seu próprio modelo, inclusive temos prestado consultoria. A gente vive num país onde o dinheiro chega com uma frequência muito menor para as pessoas negras. O dinheiro ainda é um tabu, porque a gente aprendeu a fazer as coisas em guerrilha, na pobreza. Nossa palavra-chave no modelo de negócio é diversificação. A gente não tem nenhuma fonte de receita que corresponda a mais de 40% do orçamento. Recebemos apoio de fundações internacionais e nacionais, prestamos consultoria, vendemos serviços, fazemos produção de conteúdo, publicidade etc.

FURAR A BOLHA Acredito que hoje a gente tem conseguido furar a bolha da internet, principalmente a partir dos números que a gente vem conquistando nas redes sociais. É um extenso trabalho de circulação das notícias. A gente está tentando se especializar nisso e desenvolver uma linha maior de difusão em outros canais. Nosso negócio é tentar furar a bolha e fazer coisas, por exemplo, com rádios comunitárias, que são da quebrada. Então, estamos adotando estratégias para furar a bolha. De maneira geral, nosso público é de maioria negra, feminina, com idade entre 18 e 30 anos, e que teve acesso à universidade. É o perfil que aparece nas nossas pesquisas. Varia um pouco em cada plataforma: o Instagram é mais feminino, o YouTube, mais masculino e o site, mais equilibrado. Mas, a gente quer ampliar o público. Para isso, estamos criando estratégias para divulgar conteúdos pelo WhatsApp, Telegram e outras plataformas.

Ouça, em formato de podcast, a conversa com o jornalista Pedro Borges, que esteve presente na reunião virtual do Conselho Editorial da Revista E, no dia 22 de setembro de 2023. A mediação do bate-papo é da jornalista Lilian Ambar, coordenadora de comunicação do Sesc Pompeia. 69 | e


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NÃO HAVIA BANHEIRO FEMININO POR LUIZA ROMÃO ILUSTRAÇÕES FERESHTEH NAJAFI

Entre a cumplicidade e a estranheza, os três homens à minha frente indicam passe, passe. Com a bexiga estourando, agradeço numa mistura de espanhol e árabe. Quem mandou esperar até o intervalo, Luiza? Desacostumada a vestidos longos, enrolo a barra com um nó nas pernas, tiro o lenço, equilibro o casaco no ombro direito. Melhor essa bacia que o mictório de alguns estádios, mentalizo enquanto firmo os coturnos na louça. Cada um acerta o que pode, diria um artilheiro à beira do campo. Péssima de chutes, eu derrubo o casaco no meio da latrina. Merda: azar no banheiro, sorte no jogo, volto levemente otimista pro segundo tempo. Antes de recomeçar a partida, o garçom se esgueira entre as mesas repondo os copos vazios. Cerveja? Não. Chá de hortelã. Isso mesmo: chá de hortelã. A essa altura da viagem, estou quase acostumada a substituir a cevada pela infusão de folhas verdes. Dois cubinhos de açúcar e pimba! Até esqueço do enjoo. De Marrakech até ali foram quatro horas num táxi compartilhado. Da estrada, só lembro as curvas infindáveis flertando com desfiladeiros: paisagem

rosa-alaranjada, algumas ovelhas e no meio de um montanha pedregosa, duas traves de futebol. Nem sinal de povoado e aquelas traves recortando a paisagem desértica. Les gusta el fútbol como a ustedes, comenta o poeta chileno espremido ao meu lado. Devo ter respondido algo sobre os campos de várzea no Brasil, sobre essa paixão que transforma qualquer terreno em motivo de jogo, que te faz perder o sono em dias decisivos, que te hermana com desconhecidos do outro lado do mundo. Ou simplesmente respondi sí sí, os olhos inquietos no relógio. Ouarzazate não chega nunca? Alguns quilômetros depois, saltamos do carro. Mochila nas costas, corre pro primeiro bar, quer dizer, primeira casa de chá, tá lotada, vira a esquina, outro café, hay espacio al fondo, cadeiras lado a lado pique sala de cinema. Só tem homem, deixa eu cobrir a cabeça, reviro a mochila. Cadê aquele lenço? Alguém abre espaço, que vontade de ir no banheiro, os dois televisores presos no alto, pareces un poco mareada cariño, uma nuvem densa de tabaco, seguro até o intervalo. Vamos ao que interessa: quanto tá o jogo? Zero a zero.

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É terça-feira, dia 6 de dezembro de 2022, por volta das 16h18, entrada do deserto do Saara: pela primeira vez, o Marrocos tem chances de passar para as quartas de final da Copa do Mundo. Mais que isso: numa revanche histórica contra a Espanha. Quem diria: estou aqui com um enjoo lascado e acompanhada por um hincha da Universidad Católica. Nem o mais auspicioso dos comentaristas teria imaginado uma campanha dessas. Nem minhas mirabolações insones conseguiriam juntar tantos elementos improváveis numa mesma cena. O futebol é uma parada que, olha! Atordoada, viro mais uma xícara. O juiz dá início ao segundo tempo e… Nada acontece.

Na moral: antes uma goleada com pênaltis e expulsões que esse marasmo sísifo. O inacreditável a um corta-luz de distância e os caras preferem a retranca. É bololô no meio do campo, ninguém arrisca, a bola chora. Que custa finalizar, minha gente? O tempo regular termina numa frustração nervosa. Alguns arrastam a cadeira, outros se assomam no balcão, quase todos pegam o isqueiro. É a vez do chileno ir ao banheiro. Eu não aguento e peço um cigarro pro senhor ao lado. Son de España? A desconfiança se dissipa quando digo: No, soy brasileira. Junto com o tabaco, me lança um sorriso, o mesmo que tantas vezes encontrei nas arquibancadas alviverdes: esse pacto anônimo que se dá a conhecer quando duas camisas amigas se cruzam na rua, essa aposta infundada e categórica de que seremos. Já diria Arrigo Sacchi, o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes. Conforme a tarde cai, a existência humana parece depender dos vinte e dois jogadores que voltam ao campo para prorrogação. É agora ou nada. O jogo esquenta. Aos 12 minutos, o camisa 8 avança pela defesa espanhola, allez allez, se desvencilha de dois marcadores, boa parte dos torcedores se levanta, Cheddira recebe sozinho na marca dos pênaltis, palmas compassadas se espalham pelo salão, Cheddira limpa, é só bater no canto palmas palmas palmas e… Ele finaliza no corpo do goleiro. Geral suspira. Engulo o grito. Sento de volta, meio constrangida, meio possessa. En português, hay una expresión qué diz Quem não faz toma. Comento com o chileno a impiedade da bola e, sem querer, sou tomada pela lembrança de Palmeiras e River Plate: jogo dominado, desperdiçamos o quarto gol, a conta veio com juros no

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duelo de volta. O estômago revira só de lembrar. Vai dar ruim. Não bastasse isso, Cheddira desperdiça uma segunda chance, já era, já era, não pode perder gol assim. A descrença rumina entre os presentes. Menos de um minuto para acabar a partida. Estava tão perto. Quarenta e dois segundos pra ser mais precisa. Dói mais quando é por quase. Um cruzamento longo da esquerda pra direita pega a defesa marroquina desprevenida, sai sai sai, Sarabia recebe desmarcado e de bate-pronto manda em direção ao gol. A bola passa raspando pelo travessão esquerdo. Pronto. Zica reversa. Vai dar bom. Pode vir pênalti, pode vir o que for. Quem não faz toma. A cabeça de quem torce é uma parada que, olha! Dito e feito: o mesmo Saraiba perde o primeiro penal. Nesse momento, é chá, fumaça e tontura. O homem da noite se coloca, vamo Bounou, fecha a porteira e o Marrocos abre 2x0 nas cobranças decisivas. A partir daqui, só flashes: Bounou dançando no meio das traves, um salto preciso, as luvas de Bounou, a bola resvala. Eu poderia morar no sorriso desse goleiro. Última cobrança, se fizer essa. O batedor se prepara, palmas palmas, cavadinha carismática, mete a bola no centro. A casa de chá explode, gente que corre pra fora, é grito é canto, bandeira bordô e oliva, êêêê ôôôô. Se fosse na Caraíbas nesse momento eu já estaria pulando agarrada a uma multidão desconhecida, mas não estou no Brasil e aqui não há banheiro feminino. Um aperto de mãos hesitante. Não sabemos comemorar essa parada.

Luiza Romão é poeta, atriz e slammer. Autora dos livros Sangria (selo doburro, 2017); Também guardamos pedras aqui (Nós, 2021) - vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Poesia e Melhor Livro do Ano de 2022; e Nadine (Quelônio, 2022). É bacharela em Artes Cênicas e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Fereshteh Najafi é ilustradora iraniana, nascida em Teerã e residente no Brasil. Autora de livros publicados em vários países, já apresentou suas ilustrações nos cinco continentes, em exposições como: Noma Concours for Picture Book Illustrations, no Japão, Nami Concours, na Coreia do Sul, Bienal de Ilustrações de Bratislava, na Eslováquia, e na Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália.


Nos Jogos Parapan-Americanos de 2015, em Toronto, no Canadá, a atleta recebeu três medalhas de ouro e uma de prata.

VELOZ E CURIOSA Medalhista paralímpica e recordista em provas de velocidade, a atleta Verônica Hipólito compartilha desafios e reflexões enquanto treina para Paris 2024 POR LUNA D’ALAMA


depoimento

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Marcio Rodrigues / MPIX / CPB

os 27 anos, a atleta paralímpica Verônica Hipólito acumula a experiência de quem já viveu muitas vidas. Antes de se identificar com as pistas e a velocidade – que lhe renderam quatro medalhas de ouro nos 100, 200 e 400 metros rasos em mundiais e Jogos Parapan-Americanos desde 2013 –, a jovem já havia experimentado de tudo no esporte: natação, vôlei, basquete, handebol, futebol, tênis de mesa e de campo, modalidades de praia e judô. Encantou-se por esse último, mas um tumor cerebral descoberto aos 12 anos a impediu de continuar nos tatames. Após a cirurgia, seus pais, que também praticavam esportes, a inscreveram num festival de atletismo. “Levei um couro numa corrida de 50 metros. Mas, sou muito competitiva, e saí de lá falando que um dia ainda seria a garota mais rápida de Santo André (SP)”, lembra. As dificuldades com a saúde física, porém, não pararam por aí: em 2011, aos 14 anos, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), que paralisou todo o seu lado direito. O atletismo foi a forma que ela encontrou para voltar a andar, na fase de reabilitação. Hoje, Verônica tem menos força e coordenação motora desse lado, seus músculos estão sempre contraídos, e ela sente dores para caminhar e correr. Por essas razões, compete na classe T37, uma categoria para atletas com transtorno do movimento e falta

de coordenação de grau moderado em um dos lados do corpo. Em 2015, a jovem ainda enfrentou uma cirurgia para retirada de vários tumores do intestino grosso, e o tumor cerebral voltou outras vezes, a última delas em 2021. Além da operação, Verônica fez sessões de radioterapia. E também teve dois mini-AVCs no ano passado. Enquanto passava por tudo isso, a atleta conquistou suas primeiras medalhas mundiais em Lyon, na França, e se profissionalizou em 2014, quando fechou o primeiro contrato. Hoje, Verônica treina de segunda a sábado e, à noite, faz faculdade de economia e políticas públicas na Universidade Federal do ABC (UFABC). Pensa, futuramente, em atuar no setor de economia esportiva ou meio ambiente. Em 2019, fundou o Time Naurú (que em tupi-guarani significa “herói”, “guerreiro”), projeto que leva a prática esportiva para pessoas com e sem deficiência, em Santo André, São Paulo, Botucatu (SP), Maringá (PR) e Brasília (DF). Desde 2021, a atleta também passou a atuar como comentarista do canal SporTV. Bem-humorada, curiosa e inquieta, Verônica já sonha com as Paralimpíadas de Paris, em 2024. Neste Depoimento, ela fala sobre sua trajetória, capacitismo e desafios da carreira.

característica A deficiência é uma parte da pessoa, às vezes um momento. Não é a nossa vida. Eu tenho uma paralisia, a Rosinha Santos [medalhista

paralímpica no arremesso de peso e lançamento de disco], por exemplo, tem uma amputação da perna esquerda. Somos assim da mesma forma que outras pessoas têm cabelos cacheados, são ruivas, altas ou baixas, gordas ou magras, usam óculos. Não ter uma perna ou um braço, ou uma paralisia no corpo, é apenas uma característica. Tenho certeza de que existem muitas pessoas com deficiência no Brasil que poderiam bater nossos melhores competidores. Só que não as encontramos, porque a maioria é marginalizada, esquecida. Por isso, sou uma lutadora da causa. Alguns dizem que quero lacração, mas chamo de garantia de direitos. Alguém tem que começar, pois precisamos de maior visibilidade.

capacitismo É quando você supõe que uma pessoa com deficiência não tenha capacidade para algo, em relação a uma pessoa com corpo padrão, e a discrimine por causa disso. Capacitismo é quando alguém vê uma pessoa com deficiência na rua e a olha como se fosse um alienígena. Pensam em tudo o que aconteceu na vida dela, quem cuida dela. Quem disse que nós precisamos de alguém para fazer as coisas pra (e pela) gente? O capacitismo é também estrutural quando não há intérprete de Libras em uma palestra, por exemplo, ou uma rampa de acessibilidade, ou o elevador para cadeirantes não funciona. Como a gente pode mudar esse cenário? Perguntando o que eu posso fazer, como incluir, 75 | e


depoimento

como falar? É essencial fazer o “teste do pescocinho”: olhar ao redor para ver quantas pessoas com deficiência estão no mesmo lugar que você hoje.

comparações Como existem vários tipos de deficiência, o esporte paralímpico tem vários tipos de 100 metros ou arremessos de peso no atletismo, por exemplo. Enquanto no olímpico, há apenas a divisão entre masculino e feminino. É por isso, também, que há um maior número de medalhas nas Paralimpíadas, porque são mais categorias em disputa. Aliás, esses são dois movimentos esportivos diferentes, então é impossível compará-los. É importante equiparar, porém, a visibilidade que a mídia dá aos atletas e paratletas. A skatista Rayssa Leal [Fadinha] brilhou nas Olimpíadas de Tóquio, em 2021, e o velocista Petrúcio Ferreira [ouro nos 100 metros e bronze nos 400

metros da classe T47] também, mas menos gente o viu. E ele é o atleta paralímpico mais rápido do mundo, um brasileiro. Os dois merecem grandes coberturas e reportagens especiais. Além da questão da visibilidade, há uma grande diferença nos cachês. Enquanto uma paratleta medalhista paralímpica que conheço já recebeu R$ 4 mil por publicidade, uma atleta sem medalha olímpica chegou a ganhar R$ 100 mil pelo mesmo trabalho. Precisamos fazer essas críticas.

inspirações Minha maior inspiração são meus pais, que me ensinaram que não adianta ser a(o) melhor atleta do mundo se você for arrogante. Inspiro-me também em atletas que vieram antes de mim e que são exemplos de superação, como o suíço Marcel Hug, que corre em cadeira de rodas; o saltador alemão Markus Rehm, que é amputado e utiliza prótese abaixo do joelho direito; a

velocista cubana Omara Durand, que tem baixa visão; e o velocista brasileiro Yohansson Nascimento, atual vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), entre outros. Eles mostram para o mundo que deficiência física não significa incapacidade, mas uma característica particular deles. Eu, como atleta, também me vejo inspirando outras pessoas, dentro e fora das pistas. Acho que é minha obrigação. Quando marco presença nas Paralimpíadas Escolares, realizadas no Brasil desde 2009, para crianças com deficiência, conheço vários participantes pelo nome e sempre os incentivo a continuar.

mental Faço acompanhamento com dois psicólogos, um clínico e outro esportivo. Descobri que tenho crises de ansiedade, e já tive depressão também. Por isso, defendo que, antes de você apresentar algum resultado no esporte de alto rendimento,

ALGUNS DIZEM QUE QUERO LACRAÇÃO, MAS CHAMO DE GARANTIA DE DIREITOS. ALGUÉM TEM QUE COMEÇAR, POIS PRECISAMOS DE MAIOR VISIBILIDADE


Daniel Zappe / Exemplus / CPB

A atleta conquistou três medalhas de prata nos Jogos Parapan-Americanos de 2019 em Lima, Peru.

preocupe-se com a sua saúde mental. Para relaxar, gosto de conhecer novos restaurantes, desde que minha dieta permita. Adoro assistir a séries, documentários, tenho prazer em estudar na faculdade. Amo ficar com meus três cachorros. Além de competitiva, comunicativa e bem-humorada, sou curiosa e não gosto de ficar parada. Curto sair com meus pais para qualquer lugar, sou muito família. Faço dancinhas nas redes sociais, interajo, discuto política e produzo conteúdo sobre pessoas com deficiência e o movimento paralímpico.

políticas A política está em tudo o que a gente faz. Fui a primeira atleta paralímpica e a pessoa mais nova a participar da equipe de transição do governo, no ano passado. Precisamos de mais políticas públicas para que as pessoas com deficiência possam sair de casa com autonomia e também consigam praticar esportes. O esporte em si já inclui muitas dificuldades. E como é que uma pessoa amputada vai sonhar em correr? Uma prótese para uma criança menor de 10 anos custa a partir de R$ 25 mil. Para um adulto, acima de R$ 130 mil. Isso sem

falar nos acessórios. Como vou dizer para uma criança cadeirante que uma cadeira de corrida custa a partir de R$ 100 mil e que será preciso encomendá-la nos Estados Unidos e Reino Unido, porque a gente ainda não conseguiu desenvolver essa tecnologia? Como incentivar alguém cego ou com baixa visão a correr, saltar, jogar, se não tem bola de futebol com guizo, se não tem como formar um time? O problema, quando a gente fala em esporte para pessoas com deficiência, começa muito antes da prática esportiva. Além do Estado, as instituições também precisam funcionar. 77 | e


ALMANAQUE

Conheça espaços da cidade por meio de histórias narradas em diferentes gêneros da literatura contemporânea POR LUNA D’ALAMA

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ão Paulo é uma cidade lírica, culturalmente efervescente e que já serviu de inspiração, tema central ou cenário para inúmeras histórias da literatura. Prosas, poesias, quadrinhos e outras linguagens artísticas homenageiam a capital paulista em toda a sua complexidade e caos urbano. Que tal visitar lugares da metrópole presentes em cinco obras literárias contemporâneas? Embarque nesses roteiros (narrativos e geográficos), viaje pelo tempo-espaço e surpreenda-se. Boa leitura!

Wilson da Silva Vitorino

São Paulo literária


INFANTOJUVENIL

REFÚGIO NO CENTRO Lançado em 1993, o romance O último mamífero do Martinelli, de Marcos Rey (1925-1999), conquistou o Prêmio Jabuti na categoria Conto, em 1994. Nessa envolvente narrativa de ação e mistério, ambientada no período da ditatura civil-militar, o protagonista é um perseguido político que encontra abrigo no Edifício Martinelli, no centro de São Paulo. Considerado o primeiro arranha-céu da cidade, o prédio projetado pelo empresário italiano

Giuseppe Martinelli (1870-1946) aparece, na história, fechado para reforma. O personagem invasor, então, torna-se uma espécie de arqueólogo urbano a vasculhar o edifício. Aos poucos, passado e presente, ficção e realidade se misturam.

O último mamífero do Martinelli, de Marcos Rey e Soud (ilustrador) Global Editora – 9ª edição, 2014, 103 páginas.

Inaugurado em 1929, o Edifício Martinelli refletiu o boom econômico da capital e abrigou, em suas primeiras décadas, hotel, cinema, restaurantes, lojas, partidos políticos e redações de jornais. HQ

VIVA ADONIRAN Desenhista de histórias em quadrinhos no mercado estadunidense desde a década de 1990, o brasileiro Roger Cruz já colaborou com a Marvel e a DC Comics até lançar obras do gênero em português. Em Quaisqualigundum, vencedora do prêmio HQMIX em 2015, quatro contos se baseiam em letras do cantor e compositor paulista Adoniran Barbosa (1912 -1982). O título

da obra vem de um verso da canção Saudosa Maloca, um dos clássicos de Adoniran. As histórias Maloca, A saga de Ernesto, Mané e Marinez, e Cipolla e Bracholas misturam drama e comédia ao mostrar o cotidiano de personagens na maior cidade da América do Sul, em constante transformação. As ilustrações são assinadas por Davi Calil, que usou a técnica

tradicional de aquarela e guache, com um desenho estilizado e cores contrastantes. O livro tem prefácio de Sidney Gusman, da Mauricio de Sousa Produções, e as orelhas são de autoria do rapper Emicida.

Quaisqualigundum, de Roger Cruz e Davi Calil (ilustrador) Dead Hamster, 2014, 99 páginas. 79 | e


ALMANAQUE NÃO FICÇÃO

SANTA RITA DE SAMPA Atravessa sua infância, juventude, casamento, maternidade, trabalhos com Os Mutantes e em carreira solo. Também narra traumas, a prisão em 1976, mudanças de casa, canções de sucesso e viagens – além, é claro, de situar lugares e bairros da cidade de São Paulo (Vila Mariana, Paraíso, Higienópolis e

Pompeia), onde Rita nasceu, estudou e morou, ao lado do marido, Roberto de Carvalho, até o fim da vida.

Rita Lee: Uma Autobiografia, de Rita Lee (com o jornalista Guilherme Samora) Editora Globo, 2016 296 páginas.

Homenagem a Rita Lee feita por artistas no bairro Vila Mariana, onde a cantora morou até os 19 anos.

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Adriana Vichi

A primeira autobiografia da cantora e compositora Rita Lee (1947-2023) foi lançada sete anos antes de sua morte. Escrito em parceria com o jornalista Guilherme Samora, fã e grande conhecedor do legado cultural da artista, o livro passa por diferentes momentos da vida pessoal e musical de Rita.


O distrito do Capão Redondo, na Zona Sul da capital paulista, é o cenário de Capão Pecado, livro de Férrez que conta a história do adolescente Rael, às voltas com a busca por emprego, um amor proibido e as desigualdades do lugar onde mora.

POESIA

QUEBRADA EM VERSOS

Adriana Vichi

Dividida em cinco volumes, cada um deles dedicado a uma região da cidade de São Paulo Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro, a coletânea poética Espelhos da Quebrada apresenta artistas locais que compartilham suas vivências, emoções e rimas. Na edição dedicada à Zona Leste, os poetas Paulo Carvalho, Viviane Santiago, Kamila com K, MC Leandro, Maré, Stephany Santos e Nego Blues dão à luz o sonho de muitos escritores independentes e periféricos. Eles integram grupos como o Coletivo Samba do Zé, o Slam da Guilhermina, o Sarau do Movimento Aliança da Praça (MAP), a Okupação Cultural Coragem e o Movimento Cultural Ermelino Matarazzo. Nesse projeto, iniciado em 2021 via lei de incentivo Aldir Blanc, os autores propõem uma viagem pela metrópole por meio de vozes que um dia já foram marginalizadas, celebrando a potência e a ancestralidade de suas escritas.

Espelhos da Quebrada: Zona Leste, de vários autores Juliana Correia/Grandir Produções – 2022, 93 páginas.

FICÇÃO

PECADO CAPITAL Publicado pela primeira vez no ano 2000, o romance Capão Pecado marcou época e se tornou uma das maiores obras da literatura marginal brasileira. Projetou o nome do autor Ferréz na cena nacional, com mais de 100 mil exemplares vendidos. O livro é ambientado no distrito do Capão Redondo, na Zona Sul da capital paulista, e conta a história do adolescente Rael, que se esforça para arrumar um bom emprego e sair do ambiente violento onde cresceu. Seu destino, porém, muda

quando o rapaz se apaixona por Paula, namorada de um amigo. Na trama, tudo está por um fio. A força da obra, e sua capacidade de provocar reflexões ainda hoje, está em narrar uma sociedade extremamente desigual, em que o machismo e a crueldade ditam as regras. O posfácio é assinado pelo escritor pernambucano Marcelino Freire, que reside em São Paulo.

Capão Pecado, de Ferréz Companhia das Letras – 6ª edição, 2020, 144 páginas. 81 | e


P.S.

Olha a Casa Verde aí, GENTE! Gente quer comer, gente quer ser feliz Gente quer respirar ar pelo nariz Não, meu nego, não traia nunca essa força, não Essa força que mora em seu coração (Gente, de Caetano Veloso, álbum Bicho, 1977)

Atuar na gestão de um projeto complexo como o da implantação de uma nova unidade do Sesc tem se mostrado uma experiência definitiva em minha trajetória. Trata-se, seguramente, da fase de maior aprendizado. Sinto-me como o equilibrista de pratos, cena que se podia ver nos circos tradicionais da minha infância. Tínhamos a certeza de que em algum momento um prato cairia e se quebraria, mas, não, o equilibrista sempre dava conta de mantê-los girando. Tenho a sensação de estar girando os pratos, um de cada vez, na intenção de colocar esse projeto no ar, da melhor maneira possível. Estar com pessoas me preenche, trabalhar em prol de um objetivo comum é o que me move. O nosso trabalho só ganha significado quando é partilhado e realizado por pessoas e para as pessoas. O público é a razão primordial de nossas ações. Nossa tradição é a da convivência entre os diferentes, a diversidade como um valor fundador, o diálogo como a melhor estratégia. Penso que podemos prescindir de alguma infraestrutura, mas nada é possível de se realizar sem uma equipe de pessoas vocacionadas para a ação sociocultural.

Esse prédio ganhará nova alma, terá um novo sentido para São Paulo. Isso se dará a partir do trabalho de muita gente que, junta, sonha oferecer à população um novo espaço para o fazer cultural, que também deverá ser reconhecido como um espaço de acolhida e de recepção do público. Um lugar da hospitalidade, possibilitando o encontro, a convivência e a troca de experiências. Dessa forma, a unidade Casa Verde será mais um local de experiências para que o cidadão recupere a noção de pertencimento à cidade, valorizando sua relação com o ambiente. Quando estive por aqui pela primeira vez, e adentrei o galpão de aproximadamente 12 mil metros quadrados, fui tomado por uma visão. Pude ver um galpão animado (com a alma da cultura) cheio de pessoas de diferentes idades, raças, gêneros, orientações, desejos e necessidades. Pude ver um fazer artístico-cultural, as práticas físico­-esportivas, as manifestações artísticas, a convivência, o encontro. Enfim, pude ver a parte criativa da vida acontecendo. Imagino a Casa Verde como um espaço de resistência à inospitalidade reinante entre nós, onde a condição humana é reconhecida no respeito às suas individualidades num ambiente coletivo, onde sobreviva a possibilidade da desconstrução de estereótipos que são marcadamente negativos. Estou seguro de que a partir da visão, competência e compromisso de todos, seremos capazes de conduzir com muito brilho a implantação dessa nova unidade na Zona Norte de São Paulo.

Mário Fernandes é mestre em Planejamento e Gestão de Serviços de Hospitalidade e gerente do Sesc Casa Verde. Nortearia

Chego aqui e encontro uma edificação que já foi sede do Grupo Guararapes, um tradicional conglomerado do setor

de comércio e serviços. Mas, como dar um novo significado a esse prédio? Como transformar sua ocupação? Além do desafio marcado pela adaptação estrutural exigida neste processo, nos deparamos também com a necessidade de estabelecer uma lógica de público e de programação que leve em conta o atendimento às comunidades locais, mas que também dialogue com o restante da cidade.

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Pedro Vannucchi (foto); Nortearia (colagem)

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