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Para quem pensa, decide e vive o agribusiness

A RIQUEZA QUE BROTA DA TERRA Uma nova geração de negócios aumenta o valor de cada hectare

PLANTAR PARA RENOVAR

A agricultura regenerativa recupera o solo e fortalece as lavouras

PICAPES DIGITAIS CONECTIVIDADE E SISTEMAS INTELIGENTES MUDAM O TRABALHO NAS FAZENDAS

A SEGUNDA REVOLUÇÃO DO ETANOL MILHO, RESÍDUOS E TECNOLOGIAS AVANÇADAS ABREM MERCADOS PARA O COMBUSTÍVEL BRASILEIRO CIDADES VERDES MINIFLORESTAS URBANAS REDUZEM O CALOR E TORNAM AS METRÓPOLES MAIS HABITÁVEIS

ANOS DE TRAVESSIA

venda proibida distribuição dirigida www.plantproject.com.br

Grande Sertão: Veredas preserva sua força na literatura e nas paisagens do Cerrado


PLANT PROJECT Nº39

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PLANT PROJECT Nº39

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E di tori a l

AS NOVAS FRONTEIRAS DO CAMPO

Por muito tempo, a força do agronegócio brasileiro foi medida principalmente pelo volume produzido. Toneladas de soja, milho e algodão, sacas de café, arrobas de carne e litros de etanol ajudaram a transformar o País em uma potência agrícola. Essa pujança continua essencial, sobretudo diante de um mundo que precisará alimentar uma população crescente. Mas as reportagens desta edição de PLANT PROJECT mostram que uma mudança importante está em curso. O campo brasileiro já não avança apenas pelo aumento da produção. Ele

Para quem pensa, decide e vive o agribusiness

A RIQUEZA QUE BROTA DA TERRA Uma nova geração de negócios aumenta o valor de cada hectare

PLANTAR PARA RENOVAR

A agricultura regenerativa recupera o solo e fortalece as lavouras

PICAPES DIGITAIS CONECTIVIDADE E SISTEMAS INTELIGENTES MUDAM O TRABALHO NAS FAZENDAS

A SEGUNDA REVOLUÇÃO DO ETANOL MILHO, RESÍDUOS E TECNOLOGIAS AVANÇADAS ABREM MERCADOS PARA O COMBUSTÍVEL BRASILEIRO CIDADES VERDES MINIFLORESTAS URBANAS REDUZEM O CALOR E TORNAM AS METRÓPOLES MAIS HABITÁVEIS

ANOS DE TRAVESSIA

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Grande Sertão: Veredas preserva sua força na literatura e nas paisagens do Cerrado

começa a extrair mais valor de cada hectare, de cada processo e até mesmo daquilo que antes era tratado como sobra. A transformação aparece de diferentes maneiras. Na transição energética, o agronegócio amplia seu papel para muito além do etanol tradicional. Milho, biomassa, resíduos agrícolas e subprodutos industriais alimentam uma nova geração de combustíveis, que inclui biometano, combustível sustentável de aviação e diesel verde. O que antes terminava na usina ou permanecia sem destinação econômica passa a integrar uma cadeia capaz de produzir energia, reduzir emissões e abrir mercados. Movimento semelhante ocorre dentro das propriedades. Práticas regenerativas, ferramentas digitais, sistemas de rastreabilidade e formas mais precisas de gestão permitem melhorar a qualidade do solo, reduzir o uso de insumos e tornar a produção mais resistente às variações climáticas. Na pecuária, ciência, inovação e gestão avançam lado a lado, com a sustentabilidade econômica, ambiental e social deixando de ser um conceito abstrato para se incorporar às decisões cotidianas. O agro que emerge destas páginas é, portanto, mais amplo e sofisticado. Alimentos e matérias-primas continuam no centro dos negócios, mas passam a conviver com energia limpa, dados, serviços ambientais, turismo e produtos de maior valor agregado. Ao ampliar suas fronteiras, o campo brasileiro demonstra que seu próximo salto não será medido somente por quanto consegue produzir, mas pela inteligência com que transforma tudo o que produz. Boa leitura!

Amauri Segalla Diretor Editorial

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Í ndi ce

plantproject.com.br

G pág. 7 Ag pág. 17 Ar pág. 75 W pág. 81 S pág. 87 Fr pág. 91 G LO BAL

D i r etor E ditoria l Amauri Segalla amauri.segalla@datagro.com D i r etor Luiz Felipe Nastari Com e rc ia l Carlos Nunes carlos.nunes@plantproject.com.br Sérgio Siqueira sergio.siqueira@plantproject.com.br João Carlos Fernandes joao.fernandes@plantproject.com.br Tida Cunha tida.cunha@plantproject.com.br

AGRIBUSINESS

ARTE

WO R LD FAI R

A rt e Thaís Rodrigues (Direção de Arte) Col ab ora dor es Texto: André Sollitto, Lucas Bresser, Marco Damiani, Romualdo Venâncio e Ronaldo Luiz Projetos Claudia Marques Molina R ev i são Rosi Melo

STARTAG R O

FRONTEIRA

Ev e n tos Luiz Felipe Nastari A d m i nist ração e Fina n ç as Cláudia Nastari Sérgio Nunes publicidade@plantproject.com assinaturas@plantproject.com I m p r essão e aca b a mento : Piffer Print Crédito foto de Capa: ShutterStock

EDITORA UNIVERSO AGRO LTDA. Calçada das Magnólias, 56 - Centro Comercial Alphaville – Barueri – SP CEP 06453-032 - Telefone: +55 11 4133 3944


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Porteiras fechadas Resistência de agricultores foi decisiva para a Islândia rejeitar a retomada das negociações de adesão à União Europeia

G GLOBAL

O lado cosmopolita do agro


G

GLOBAL

O lado cosmopolita do agro

ISLÂNDIA

A ILHA DIVIDIDA PELA EUROPA Rejeição à retomada das negociações com a União Europeia expõe um país dividido entre a proteção de setores tradicionais e a busca por maior segurança econômica e geopolítica No início de setembro, a Islândia rejeitou, por margem estreita, a retomada das negociações para ingressar na União Europeia (UE), interrompidas havia 13 anos. O referendo expôs a divisão do país: 52,8% dos 225.031 eleitores votaram contra a proposta do governo, enquanto 47,2% se manifestaram a favor – uma diferença inferior a 13 mil votos. A primeira-ministra Kristrún Frostadóttir, à frente de uma coalizão de centro-esquerda, havia prometido realizar a consulta até 2027, mas as pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e as ameaças à soberania da Groenlândia acabaram acelerando o processo. 8

Para os defensores da adesão, a entrada no bloco daria à Islândia mais força para enfrentar as investidas americanas e traria maior estabilidade econômica. O país convive atualmente com taxas de juros até três vezes superiores às definidas pelo Banco Central Europeu, enquanto a


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coroa islandesa está sujeita a desvalorizações bruscas, que alimentam a inflação. Os opositores, por sua vez, lembram que a Islândia já integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o Espaço Econômico Europeu (EEE), o mercado único europeu e o Espaço Schengen. Para eles, portanto, a adesão formal à UE traria poucos benefícios adicionais. A maior resistência, porém, vem da pesca e da agricultura. Nas áreas rurais, a rejeição ao ingresso no bloco chega a 80%. Pecuaristas e produtores

temem a concorrência de alimentos mais baratos importados dos demais países da UE, diante dos quais a produção local teria dificuldade para competir. Na avaliação deles, nem mesmo subsídios governamentais seriam suficientes para compensar uma eventual perda de mercado. Na indústria pesqueira, a oposição é ainda maior. O setor argumenta que as empresas islandesas, em sua maioria pequenas e familiares, ficariam em desvantagem diante das grandes companhias euro-

peias. A pesca responde por 8% do PIB do país e emprega 4% de sua força de trabalho. Apesar da resistência dos setores ligados ao agronegócio, analistas internacionais sustentam que a adesão poderia tornar o pequeno país mais resistente às atuais pressões geopolíticas, das campanhas russas de desinformação às investidas americanas em meio ao aumento das tensões internacionais. Mais do que uma escolha econômica, o debate passou a envolver a própria ideia de soberania islandesa. PLANT PROJECT Nº56

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G E U R O PA

O PREÇO DO CALOR EXTREMO O verão escaldante na Europa não castiga apenas as lavouras, mas também pesa sobre os cofres públicos. A seca acima do normal reduziu a produção, provocou quebras de safra e obrigou governos a socorrer produtores rurais. A conta costuma aparecer meses depois, na forma de auxílios emergenciais, indenizações, reparos de infraestrutura, perda de arrecadação e inflação dos alimentos. Poucos países, porém, dispõem de recursos reservados especificamente para enfrentar desastres climáticos. Áustria, França, Hungria e Itália mantêm fundos próprios, enquanto os demais dependem de remanejamentos orçamentários pontuais, geralmente lentos. Pesquisadores e analistas financeiros tentam calcular o custo real das ondas de calor, mas as estimativas costumam ficar aquém do prejuízo. Além da destruição de lavouras pelos incêndios, a queda da produtividade afeta toda a cadeia alimentar: reduz a oferta, eleva os preços nas gôndolas e comprime as margens de supermercados e restaurantes. Um único ano de seca intensa pode deixar consequências por meses – e até por anos.

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822bilhões O calor em números

DE EUROS EM PREJUÍZOS ENTRE 1980 E 2024

9% 505

DA EUROPA E DO REINO UNIDO SOB EFEITO DE “SECA EXTREMA”

HECTARES QUEIMADOS POR INCÊNDIOS FLORESTAIS EM 2026

15bilhões

DE EUROS EM PREJUÍZOS PROVOCADOS PELA ONDA DE CALOR NA FRANÇA SOMENTE NESTE ANO

3,3bilhões

DE EUROS EM PERDAS CAUSADAS POR INCÊNDIOS NA ESPANHA

5bilhões

DE EUROS EM FUNDOS DE AUXÍLIO PROJETADOS PARA O PERÍODO DE 2028 A 2034

Fonte: Agência Europeia do Ambiente (AEA) e Bruegel.


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FRANÇA

A SECA DESAFIA A TRADIÇÃO A seca que castiga as pastagens levou os órgãos reguladores franceses a flexibilizar temporariamente algumas das rígidas regras de produção de alimentos com denominação de origem. Fabricantes dos queijos Abondance, Beaufort e Comté foram autorizados a alimentar os animais com feno e capim provenientes de áreas fora das zonas geográficas delimitadas. A mesma permissão deverá ser concedida aos produtores de Cantal, Bleu d’Auvergne, Fourme d’Ambert,

Bleu du Vercors-Sassenage, Reblochon e Rocamadour. A flexibilização também deve alcançar outros produtos tradicionais, como a sidra da Normandia, o destilado de maçã Calvados, o espumante Crémant d’Alsace e até as ameixas Reine-Claude. Não é a primeira vez que o Instituto Nacional de Origem e Qualidade (Inao, na sigla em francês) altera provisoriamente suas normas. Em 2022, outra seca severa já havia levado o órgão a adotar medida semelhante. PLANT PROJECT Nº56

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G

REINO UNIDO

HORTA NAS PROFUNDEZAS A mil metros abaixo do solo, em Yorkshire, na Inglaterra, pesquisadores investigam se antigas minas podem ganhar uma nova função: produzir alimentos. Os testes são realizados em uma mina ainda ativa, dedicada à extração de polihalita, mineral utilizado como fertilizante natural. Durante 12 meses, cientistas da Universidade de Sheffield, em parceria com a empresa Farm Urban, avaliam o cultivo de diferentes hortaliças 12

em ambiente controlado. As alfaces já apresentaram crescimento rápido e resultados promissores, enquanto outras espécies ainda exigem ajustes. A próxima etapa prevê testes com tomates e salicórnia. Além de reaproveitar estruturas abandonadas, a iniciativa busca criar empregos e ampliar a oferta de alimentos em comunidades desfavorecidas. Os primeiros resultados animaram os pesquisadores.


AUSTRÁLIA

O VÍRUS QUE ATRAVESSA FRONTEIRAS capacidade de mutação do H5N1 preocupa os cientistas. O risco para a população permanece baixo e não há registros de transmissão sustentada entre seres humanos, mas o vírus já atinge mamíferos e provoca a morte de centenas de animais, sobretudo leões-marinhos e focas que dividem o habitat com aves infectadas. Para os avicultores australianos, a chegada da doença deixou de ser uma ameaça distante.

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Identificado pela primeira vez em 1996, o H5N1 tornou-se uma das variantes mais perigosas da gripe aviária, capaz de provocar a morte de animais em larga escala. Em 2002, quase 1 milhão de aves foram sacrificadas em Hong Kong na tentativa de conter o vírus. Ainda assim, ele continuou avançando. Em 2005, chegou a animais selvagens e, em 2021, espalhou-se pela Europa. Agora, aproxima-se da Austrália. A elevada

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G HUNGRIA

UM CONTO DE FADAS NO MILHARAL

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Perto da fronteira da Hungria com a Romênia, uma brincadeira iniciada em 2008 virou tradição. Todos os anos, uma plantação de milho de quase 5 hectares, em Kukutyin, transforma-se em um enorme labirinto para crianças e adultos. Um grupo de voluntários desenha um circuito diferente a cada edição. O milho é cortado quando atinge cerca de 50 centímetros de altura, e o traçado é aperfeiçoado com o auxílio de imagens feitas por drones. Neste ano, personagens de contos de fadas, um castelo e um unicórnio foram esculpidos no milharal. A iniciativa nasceu do esforço de entusiastas da história local para atrair visitantes a uma região que vinha perdendo moradores. Deu certo: atualmente, cerca de 3 mil pessoas percorrem o labirinto a cada ano.

J A PÃO

LÁMEN EM 90 SEGUNDOS O SoftBank Robotics Group, braço de robótica do conglomerado japonês SoftBank, investiu na startup americana Yo-Kai Express para ampliar a presença internacional do Steama, robô capaz de preparar pratos de macarrão em apenas 90 segundos. Desenvolvido pela SoftBank Robotics com base em soluções criadas pela startup, o equipamento deverá chegar a novos mercados, sobretudo na América do Norte. Com apenas um toque, o Steama aquece porções congeladas de macarrão e os demais ingredientes de maneira uniforme. Segundo a fabricante, o sistema preserva a textura da massa, o aroma do caldo e a 14

qualidade do prato. A proposta é permitir que restaurantes sirvam refeições quentes com rapidez e regularidade, além de reduzir a necessidade de mão de obra na cozinha. O robô foi apresentado ao mercado americano durante a National Restaurant Association Show, em Chicago. A partir do acordo, a SoftBank pretende buscar parceiros comerciais, avaliar novos pontos de instalação e criar canais de venda no exterior. A expansão faz parte da aposta da companhia na automatização de restaurantes, setor que enfrenta escassez de trabalhadores e custos operacionais cada vez mais elevados.


IÊMEN

TÂMARAS CONTRA A FOME sobretudo entre agosto e setembro, os frutos são colhidos e deixados para secar naturalmente. A área se transforma então em um mercado, onde os produtores vendem a safra para custear suas despesas no comércio local. Conhecidas em todo o país, as tâmaras de Hadramaute são valorizadas pelo baixo teor de açúcar e pelos benefícios à saúde que lhes são atribuídos. Em um país marcado pela guerra e pela instabilidade política, os frutos da tamareira oferecem a muitas famílias uma rara possibilidade de sustento.

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Na cidade de Hajr, na região de Hadramaute, sul do Iêmen, a falta de infraestrutura torna ainda mais dura a vida da população. As estradas são precárias, não há eletricidade e o sinal de celular é escasso. Embora distante das frentes de batalha da guerra que há anos assola o país, a região sofre com a ausência de um governo estável, o que dificulta qualquer iniciativa de combate à pobreza. Nesse cenário, a colheita de tâmaras, realizada com técnicas tradicionais, representa fonte essencial de renda e alimento. Durante o verão,

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A lavoura do amanhã A força do campo passa a ser medida não apenas pelo tamanho da colheita, mas pela eficiência com que recursos, informações e oportunidades são aproveitados

Ag AGRIBUSINESS

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Empresas e líderes que fazem diferença


Ag Empresas e líderes que fazem diferença

O AGRO QUE MOVE O FUTURO Por Amauri Segalla e Rômulo Carneiro

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FAZENDAS E EMPRESAS AMPLIAM AS FRONTEIRAS DO CAMPO, QUE AGORA TAMBÉM PRODUZ DADOS, ENERGIA, INSUMOS, SERVIÇOS AMBIENTAIS E NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO


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Ag Reportagem de Capa Imagens aéreas, sensores e sistemas de previsão permitem identificar as necessidades de cada área da fazenda e corrigir problemas antes que comprometam a colheita

A imagem mais persistente do agronegócio brasileiro ainda é a da colheitadeira avançando sobre uma extensão quase sem fim de soja ou milho. Ela continua verdadeira, mas mostra apenas uma parte do que o campo se tornou. Debaixo da cabine há sensores que registram fatores como níveis de umidade, consumo de combustível e rendimento por metro quadrado. No escritório, softwares avançados cruzam informações sobre clima, câmbio, frete e preços futuros. Ao lado da usina, vinhaça, torta de filtro e bagaço deixam de ser sobra e passam a fornecer gás, eletricidade ou fertilizante. A fazenda não abandonou sua função original, evidentemente. O Brasil deverá colher 360,8 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26, segundo a estimativa divulgada pela Conab em agosto, um novo recorde e um aumento de 2,4% sobre o ciclo anterior. O que mudou é a quantidade de negócios que cabe hoje entre o solo e o produto final. O campo produz comida e fibra, mas também informação, moléculas renováveis, certificados de origem e respostas para problemas que até pouco tempo pareciam pertencer a outros setores da economia. Já não basta expandir a área plantada nem adicionar potência às máquinas. A terra disponível é limitada, o clima tornou a produção mais incerta e compradores estrangeiros querem saber não apenas quanto foi produzido, mas também onde, de que maneira e com qual volume de emissões. O avanço do campo depende, cada vez mais, da capacidade de extrair maior valor de cada hectare e usar com precisão os recursos empregados na lavoura. Poucas empresas ilustram tão bem essa mudança quanto a SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos e algodão do País. Na safra 2025/26, sua área plantada chegou a 837 mil hectares, um crescimento de 14% em relação à temporada anterior. Administrar uma extensão desse tamanho, distribuída por diferentes regiões e sujeita a condições de solo e clima muito variadas, exige enxergar a fazenda em detalhes. Imagens de satélite, telemetria, mapas de produtividade, aplicação localizada de insumos e modelos de 20

previsão ajudam a identificar as necessidades de cada área, orientar o trabalho das máquinas e corrigir desvios antes que eles comprometam a colheita. Na SLC, portanto, operar em grande escala depende menos de tratar a fazenda como uma extensão uniforme e mais de compreender o que acontece em cada área específica. É nesse esforço para reduzir a incerteza – uma das características mais persistentes da atividade rural – que atuam a Cyan Agro e a AgroBoard. Cada uma está presente em uma etapa diferente do negócio. A Cyan traduz informações meteorológicas e imagens de sensoriamento remoto em alertas de escala local, algo especialmente valioso num País em que duas fazendas vizinhas podem receber volumes distintos de chuva. A AgroBoard, empresa nascida no ambiente da Unicamp e comandada por Danilo Lombardi, volta-se para o que acontece depois da porteira: reúne preço, mercado futuro, câmbio, frete, base regional e volume negociado para revelar a rentabilidade da produção, e não apenas sua produtividade. “Em um mercado marcado pela volatilidade dos preços, pela influência do clima e pelas incertezas geopolíticas, tomar decisões assertivas pode significar a diferença entre lucro e prejuízo”, diz Lombardi. Embora observem riscos distintos, as duas plataformas partem da mesma premissa: produzir bem já não basta quando o clima pode comprometer a lavoura e uma oscilação de preços pode consumir a margem obtida na colheita. Há, porém, incertezas que nenhuma ferramenta de monitoramento da lavoura consegue eliminar. Depois de quebras regionais de safra, juros elevados e custos pressionados, o risco passou a ocupar um lugar ainda maior nas decisões financeiras do agronegócio. No Banco do Brasil, a carteira destinada ao setor somava R$ 421,6 bilhões em junho de 2026, enquanto a inadimplência alcançava 6%. Os números, que se referem apenas às operações da instituição, mostram como até uma produção eficiente pode ser comprometida por uma dívida incompatível com o ciclo da atividade, uma venda


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Ag Reportagem de Capa

realizada no momento errado ou uma sequência de eventos climáticos adversos. É nesse terreno que atuam empresas como a Hedge Agro e a Benri Ratings, embora em frentes distintas. A primeira ajuda produtores e empresas a se protegerem das oscilações nos preços das commodities, no câmbio e nos juros. A segunda procura oferecer uma leitura mais precisa sobre a capacidade de pagamento de quem produz. Nesse caso, examinar apenas balanços e garantias é insuficiente: entram na avaliação a qualidade do solo, o histórico de produtividade, as práticas de manejo, a exposição ao clima e a capacidade de execução. Um rating bem construído não elimina o risco, mas permite distinguir o produtor que enfrenta uma dificuldade passageira daquele cuja operação perdeu a viabilidade – distinção essencial para calcular o custo do crédito e decidir, afinal, a quem emprestar. O financiamento do campo também se tornou mais diversificado. Durante décadas, o crédito rural 22

esteve associado sobretudo ao Plano Safra e aos bancos públicos. Hoje, cooperativas, bancos privados, fundos e empresas especializadas ampliam a oferta de crédito ao setor. Ao mesmo tempo, instrumentos do mercado de capitais passaram a conectar produtores e companhias do agro diretamente aos investidores. Entre eles estão as CPRs, títulos emitidos para antecipar recursos com base na produção rural; os CRAs, papéis lastreados em créditos do agronegócio e vendidos no mercado; e os Fiagros, fundos que reúnem o dinheiro de investidores para aplicá-lo em propriedades, empresas e dívidas ligadas ao campo. O Sicredi é um bom retrato dessa transformação. Formado por cooperativas privadas pertencentes aos próprios associados, o sistema anunciou R$ 72,1 bilhões para o Plano Safra 2026/27, um aumento de 4,4% em relação ao ciclo anterior, com previsão de realizar cerca de 340 mil operações. Os recursos atendem desde o custeio da lavoura até investimentos em armazenagem, irrigação, máquinas, vendas


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Eficiência: enquanto os painéis solares diversificam as fontes de energia, máquinas de alta precisão aplicam insumos de acordo com as características de cada trecho da lavoura

e industrialização. A presença das cooperativas em municípios agrícolas também facilita a concessão de crédito, pois o conhecimento local permite avaliar melhor as condições de produção e a realidade de cada produtor. Ao mesmo tempo, o crescimento de títulos e fundos ligados ao agronegócio aproximou o campo de novos financiadores. Gestoras, securitizadoras e plataformas financeiras passaram a complementar os recursos oferecidos por bancos e cooperativas, enquanto investidores ganharam acesso ao setor por meio de papéis lastreados na produção. Os juros elevados, embora encareçam o dinheiro para quem produz, tornam alguns desses investimentos mais atraentes. “Com Selic alta, o investidor encontrou nas LCAs um produto de risco muito baixo e retorno bastante competitivo”, afirma Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil. A ampliação das fontes de recursos, contudo, não significa crédito fácil. Com mais investidores

participando do financiamento do agro, aumentou também a exigência por informações capazes de mostrar com clareza a situação de cada propriedade. Histórico de produção, nível de endividamento, exposição ao clima, contratos de venda, garantias e capacidade de gerar receita passaram a pesar na avaliação. Para o produtor, isso significa que organizar e comprovar seus dados se tornou quase tão importante quanto apresentar uma boa colheita. Quanto mais a fazenda consegue demonstrar o que produz, como administra os riscos e onde reduz custos e desperdícios, maiores são suas possibilidades de negociar crédito, seguro e contratos comerciais em condições adequadas à sua realidade. A mesma informação que orienta máquinas e decisões dentro da porteira começa, assim, a determinar também quanto custa financiar a produção. Se os dados ajudam a enxergar a lavoura, a biologia começa a mudar aquilo que se coloca nela. Bioinsumos, microrganismos, inoculantes e agentes de controle biológico passaram da periferia das PLANT PROJECT Nº56

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Reportagem de Capa

Ag

Fertilizante em meio à plantação: nutrientes produzidos a partir de resíduos agrícolas ganham espaço como alternativas para reduzir a dependência brasileira de itens importados

pesquisas para o orçamento regular do produtor. O movimento ganhou velocidade porque responde a três incômodos ao mesmo tempo: o custo dos defensivos e fertilizantes convencionais, a pressão por menor impacto ambiental e a dependência externa do Brasil. O País importa 85% dos 41 milhões de toneladas de fertilizantes que consome por ano. Essa vulnerabilidade se torna mais visível toda vez que uma guerra, uma sanção ou um bloqueio logístico encarece a ureia e o potássio. É difícil imaginar um exemplo mais claro da nova fronteira do campo do que o projeto da Agrion, que transforma resíduos da cana em fertilizante e instala suas fábricas junto às usinas, onde a matéria-prima já está disponível. A Agrion opera uma unidade com capacidade anual de aproximadamente 40 mil toneladas e tem outras duas em construção. “O nosso plano de negócios envolve dez plantas, com expectativa de produção de 500 mil toneladas de fertilizantes por ano”, diz Ernani Judice, fundador e presidente da empresa. A estimativa é alcançar receita próxima de R$ 2 bilhões em 2031. O Global Fund for Coral Reefs já destinou US$ 20 milhões ao negócio e pode elevar o aporte a US$ 50 milhões. A conta combina segurança de abastecimento e economia circular: resíduos que exigiam destinação passam a substituir parte do insumo importado, enquanto a proximidade entre fábrica e usina reduz viagens. O modelo, naturalmente, não tornará o Brasil autossuficiente em fertilizantes. Meio milhão de toneladas equivale a pouco mais de 1% do consumo atual. Sua importância está em provar que uma parcela da dependência pode ser enfrentada com matérias-primas que o País produz em abundância e por muito tempo tratou como problema. A mesma lógica percorre o setor sucroenergético. A cana já sai da usina como açúcar, etanol e eletricidade. Agora, vinhaça e torta de filtro

alimentam biodigestores, o biogás é purificado e vira biometano, e o gás renovável pode substituir diesel ou gás natural fóssil na frota e no processo industrial. A produção brasileira de biometano cresceu 75% em 2025, de 606.600 para 1,06 milhão de metros cúbicos por dia, segundo a Associação Brasileira do Biogás. Em agosto de 2026, havia 21 plantas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), com capacidade de 1,3 milhão de metros cúbicos por dia, e outras 48 em processo de autorização. “O mercado está amadurecendo”, afirma a presidente executiva da ABiogás, Josiani Napolitano. A projeção é alcançar 3,37 milhões de metros cúbicos diários em 2028. O número ainda é pequeno perto do mercado de combustíveis, mas a Empresa de Pesquisa Energética calcula que cerca de um terço do consumo de gasolina e diesel do País poderia ser substituído, em condições economicamente viáveis, por biometano de resíduos agropecuários. A São Martinho oferece uma demonstração concreta desse potencial para a indústria. A companhia investiu R$ 250 milhões numa planta de biometano em Américo Brasiliense, no interior paulista, inaugurada em 2025. Produzido a partir de subprodutos da cana, o combustível substitui fontes fósseis e fecha o ciclo dentro da própria cadeia. A Enersugar segue trilha semelhante ao combinar açúcar, etanol, cogeração e melhor aproveitamento de resíduos. Com essa fórmula, o desempenho deixa de ser medido apenas pelo volume de cana moída e passa a considerar quanto valor e quanta energia podem ser extraídos de cada tonelada. Há, porém, um limite econômico. O aproveitamento dos resíduos só é viável quando o volume produzido compensa os custos de coleta e transporte e existe infraestrutura para distribuir o gás ou a eletricidade gerados. Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estimou um potencial

O DESAFIO É CRESCER EM UM MUNDO COM MENOS ESPAÇO PARA DESPERDÍCIOS PLANT PROJECT Nº56

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Ag Reportagem de Capa

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Desafio ambiental: da preservação do solo ao controle de emissões, o agro busca reduzir seus impactos sem afetar a produtividade e a capacidade de crescer

técnico de 167 terawatts-hora por ano de eletricidade a partir de resíduos agrícolas e 75 terawatts-hora de resíduos pecuários. Sob remuneração de R$ 700 por megawatt-hora, porém, a parcela considerada economicamente aproveitável cairia para cerca de 30 terawatts-hora, o equivalente a aproximadamente 5% do consumo elétrico nacional. A distância entre os dois números é uma vacina contra o entusiasmo fácil. O recurso existe, mas depende de equipamentos, contratos de longo prazo, infraestrutura e regras estáveis. Também é revelador observar o que acontece depois da porteira. A Citrosuco afirma aproveitar 100% da laranja: além do suco, extrai óleos, essências e outros ingredientes, enquanto pesquisa novas aplicações para partes da fruta que antes valiam pouco. A companhia revisou seus compromissos para 2030 em seis frentes, entre elas carbono, biodiversidade, água e cadeia de fornecimento. Metas ambientais deixam de viver isoladas em relatórios e interferem na concepção dos produtos, na relação com fornecedores e no acesso a compradores. Na Amaggi, essa integração aparece com nitidez. Além de produzir 1,2 milhão de toneladas de soja, milho e 26

algodão por ano, o grupo vende 18 milhões de toneladas de grãos e fibras e mantém uma ampla estrutura de armazenagem, transporte e geração de energia, com portos, caminhões, embarcações, pequenas centrais hidrelétricas e painéis solares. Por atuar em diferentes etapas, da produção agrícola ao transporte, a Amaggi consegue reduzir emissões ao longo de toda a cadeia. No projeto B100, caminhões da empresa utilizam biodiesel puro, produzido com matéria-prima vegetal, em substituição ao diesel fóssil. A iniciativa mostra que já existem alternativas para diminuir a pegada de carbono da logística pesada. Isso é especialmente importante no Brasil, onde boa parte da safra percorre milhares de quilômetros até chegar aos portos. Uma lavoura pode adotar boas práticas e, ainda assim, perder parte de sua vantagem ambiental se a produção for transportada por rotas longas, congestionadas e dependentes de combustível fóssil. Reduzir emissões ao longo da cadeia, contudo, só produz valor comercial quando a empresa consegue comprovar o resultado. Por isso, a rastreabilidade deixou de servir apenas para identificar a origem de um produto e passou a


registrar como ele foi produzido, transportado e processado. Na pecuária, soluções da MSD Saúde Animal e da Allflex identificam cada animal e reúnem dados sobre histórico sanitário, manejo e movimentação. Para o pecuarista, essas informações ajudam a acompanhar o ganho de peso, a reprodução e a saúde do rebanho. Para frigoríficos e compradores, oferecem evidências sobre procedência e cumprimento das exigências de cada mercado. Na cadeia da cana, a Bonsucro adota um padrão internacional que avalia práticas ambientais, sociais e produtivas e permite que usinas e produtores certificados negociem créditos vinculados a essa produção. Em uma das primeiras operações realizadas no Brasil, 40 produtores venderam créditos equivalentes a 162.300 toneladas de cana certificada. A maneira de produzir, antes difícil de medir e remunerar, começa a ganhar valor próprio. Os avanços são relevantes, mas ainda convivem com desafios antigos. O agro brasileiro continua enfrentando desmatamento ilegal, conflitos fundiários, desperdícios, emissões difíceis de medir e diferenças importantes de acesso entre grandes

grupos e produtores menores. Ferramentas digitais e certificações ajudam a enfrentar parte desses problemas, desde que sejam apoiadas por dados confiáveis, critérios claros e verificação independente. O mesmo cuidado vale para a agricultura regenerativa. Práticas como cobertura permanente do solo, rotação de culturas, plantio direto e integração entre lavoura e pecuária podem aumentar a matéria orgânica, reter água e reduzir a erosão, mas os resultados dependem do solo, do clima, da cultura e do tempo de aplicação. O desafio agora é ampliar essas iniciativas sem tratar experiências bem-sucedidas como fórmulas que produzirão efeitos idênticos em qualquer propriedade. O agro que emerge desse movimento será medido por algo mais difícil do que recordes de safra: a capacidade de crescer em um mundo com menos espaço para desperdícios. Pela escala de sua produção, o Brasil tem a oportunidade de mostrar que produtividade e responsabilidade podem avançar juntas. Nesse novo cenário, o futuro do campo brasileiro dependerá menos da conquista de novas terras e mais da capacidade de ampliar o que cada hectare pode oferecer. PLANT PROJECT Nº56

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Bioenergia

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A NOVA ERA DO ETANOL DA CANA AO MILHO, DO E2G AO BIOMETANO, A INDÚSTRIA BRASILEIRA AMPLIA ROTAS PRODUTIVAS, TRANSFORMA RESÍDUOS EM ENERGIA E SE PREPARA PARA OCUPAR NOVOS ESPAÇOS NA TRANSIÇÃO PARA UMA ECONOMIA DE BAIXO CARBONO Por Lucas Bresser

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Ag Bioenergia

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daquele ano, o País tinha 330 usinas sucroenergéticas em operação, com capacidade para produzir 48,3 bilhões de litros. No segmento de milho e cereais, eram 37 unidades, com capacidade de 12,4 bilhões de litros. Essa transformação é particularmente visível no milho. Em pouco mais de uma década, o combustível produzido a partir do cereal deixou de ocupar uma faixa marginal para responder por aproximadamente um quarto da oferta nacional. O avanço acompanha o crescimento da segunda safra de milho e aproxima a industrialização das regiões produtoras. Na temporada 2025/26, a colheita brasileira das três safras do cereal foi estimada em 141,7 milhões de toneladas, com 109,4 milhões provenientes da segunda safra. A cana, porém, não perde importância. Ela segue

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urante boa parte de sua história, o etanol brasileiro foi associado quase exclusivamente à cana-de-açúcar e ao abastecimento de automóveis. Essa imagem ainda corresponde a uma parcela importante da realidade, mas já não descreve a indústria que emerge no País. Nas usinas mais modernas, cana e milho dividem espaço com palha, bagaço, vinhaça, torta de filtro, sorgo e outros resíduos agrícolas. O combustível continua no centro do negócio, porém passa a integrar uma plataforma mais ampla de energia renovável, nutrição animal e insumos industriais. A mudança ocorre em escala relevante. Dados reunidos pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que o Brasil produziu 36,2 bilhões de litros de etanol em 2025, dos quais 26,7 bilhões vieram da cana e 9,5 bilhões do milho. Ao final

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como base do sistema brasileiro e reúne vantagens construídas ao longo de cinco décadas, como escala, conhecimento agronômico, infraestrutura industrial e ampla utilização de biomassa renovável. O que mudou é que ela deixou de ser a única rota capaz de sustentar o crescimento da oferta. Em nota, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a complementaridade entre matérias-primas é uma das principais diferenças em relação ao setor de dez anos atrás. A cana permanece fundamental, enquanto o milho estende a produção ao longo do ano e fortalece novas regiões. O resultado é um sistema menos dependente de uma única safra, região ou fonte de receita. Em uma planta integrada, a cana pode fornecer etanol, açúcar e energia durante a safra, enquanto o milho mantém parte da estrutura operando na entressafra. O bagaço

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Na unidade da Inpasa em Balsas (à esq.), babaçu e caroços de açaí são aproveitados na geração de energia; abaixo, operação da Atvos

Renato Teixeira, diretor da Inpasa: "Nossas biorrefinarias aproveitam 100% dos insumos"

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Ag Bioenergia A integração entre cana, milho e outras matérias-primas amplia a produção e reduz a dependência de uma única safra

gera vapor e eletricidade; a vinhaça pode ser convertida em biogás e biometano; e o processamento do milho entrega DDG e DDGS para nutrição animal, e óleo vegetal para biodiesel, diesel verde ou combustível sustentável de aviação. É esse o conceito por trás do Complexo de Transição Energética que a Atvos implanta na Unidade Santa Luzia, em Nova Alvorada do Sul (MS). O projeto reúne etanol de cana e milho, bioeletricidade e biometano. A primeira planta de milho da companhia terá capacidade para processar 642 mil toneladas do grão por ano e produzir 273 milhões de litros de etanol, 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo. Integrada à estrutura canavieira existente, utilizará energia renovável gerada com a biomassa da cana. Na mesma unidade, a Atvos está concluindo uma fábrica de biometano que recebeu investimento de R$ 350 milhões e terá capacidade de produzir 28 milhões de metros cúbicos. O gás será obtido da vinhaça e da torta de filtro, materiais originados no processamento da cana. Parte da produção deverá abastecer veículos da companhia, que pretende converter gradualmente uma frota de cerca de 500 unidades nas regiões atendidas pelo projeto. A substituição de até 40% do diesel utilizado nas operações industriais no médio prazo poderá evitar entre 40 mil e 50 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano. “A cana-de-açúcar continua sendo a base da companhia, e o milho e o biometano passam a complementar essa operação, permitindo aproveitar melhor a biomassa, a infraestrutura e os ativos industriais já existentes”, afirma Wilson Lucena, vice-presidente de Operações da Atvos. A integração também amplia a utilização das instalações ao longo do ano. “A entrada no etanol de milho complementa a produção a partir da cana, amplia a flexibilidade operacional e permite maior utilização dos ativos industriais”, diz o executivo. O modelo ainda aproxima as cadeias de suprimento, já que parte dos fornecedores de cana também produz grãos. No milho, a expansão está associada ao crescimento de biorrefinarias concebidas desde o início para obter diversas receitas de uma mesma 34

matéria-prima. A Inpasa, uma das protagonistas desse movimento, investiu cerca de R$ 15 bilhões nos cinco anos encerrados em 2025. Naquele ano, processou 11,6 milhões de toneladas de grãos no Brasil, aumento de 45% sobre 2024, e produziu 5,4 bilhões de litros de etanol. O processo também entregou 3,2 milhões de toneladas de DDGS e 284,9 mil toneladas de óleo vegetal bruto. A expansão inclui novos polos. Em abril de 2026, a Inpasa iniciou as operações da biorrefinaria de Luís Eduardo Magalhães (BA), após investimento de R$ 1,3 bilhão. A capacidade instalada é de 470 milhões de litros anuais. Em Rio Verde (GO), um projeto de R$ 2,5 bilhões foi dimensionado para produzir 1 bilhão de litros. Outro complexo, em Rondonópolis (MT), recebeu investimento de R$ 2,8 bilhões e deverá processar 2 milhões de toneladas de grãos por ano, produzindo 1 bilhão de litros de etanol, 490 mil toneladas de DDGS e 465 GWh de eletricidade renovável. “Nosso objetivo primordial é expandir a capacidade de processamento de grãos e maximizar a eficiência de nossas biorrefinarias”, afirma Renato Teixeira dos Santos, diretor de Marketing, Comunicação Corporativa e Impacto Social da Inpasa. A escala, contudo, é apenas uma parte da equação. “Projetamos nossas biorrefinarias para aproveitar 100% dos insumos e, atualmente, temos flexibilidade para processar o sorgo como matéria-prima complementar ao milho, mitigando riscos decorrentes de variações sazonais de colheita.” A Inpasa também adotou caldeiras multicombustíveis capazes de utilizar resíduos disponíveis em cada região. Em Balsas (MA), caroço de açaí e babaçu ajudam a gerar energia. Em Luís Eduardo Magalhães (BA), o capim-braquiária é uma das fontes de biomassa. Um sistema automatizado de armazenamento e movimentação evita, segundo a companhia, a perda anual de aproximadamente 117 mil toneladas de biomassa por decomposição. Em 2025, suas unidades geraram 2.080 GWh de eletricidade a partir de biomassa, garantindo autossuficiência industrial e exportação de excedentes para o Sistema Interligado Nacional. A digitalização também ocupa papel central.


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Ag Bioenergia

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A Atvos aplica inteligência artificial, drones e mapas digitais em cerca de 300 mil hectares e testa tratores autônomos, que, segundo resultados preliminares, podem elevar em até 20% a produtividade dos equipamentos e reduzir em até 10% o consumo de diesel. Colhedoras de duas linhas dobram o rendimento diário, reduzem a compactação do solo em até 60% e diminuem o consumo de combustível em até 30%. Já a Inpasa instalou sistemas de inteligência artificial na moagem de todas as suas unidades. Câmeras e visão computacional identificam a passagem de grãos inteiros e apontam falhas nos moinhos antes que provoquem perdas maiores. A companhia afirma ter reduzido em 59%, entre 2021 e 2025, a intensidade das emissões de Escopos 1 e 2 por tonelada de milho processado. Na cana, a expansão da oferta passa pelo etanol de segunda geração, o E2G. A tecnologia utiliza a celulose presente no bagaço e na palha, materiais que já chegam à usina para produzir mais combustível sem a expansão proporcional da área plantada. É uma rota tecnicamente mais complexa que a convencional e ainda enfrenta desafios de custo e estabilidade operacional, mas oferece uma alternativa para elevar a produtividade por hectare. Em 2024, a Raízen inaugurou no Parque de Bioenergia Bonfim, em Guariba SP, sua segunda planta comercial de E2G. O investimento foi de R$ 1,2 bilhão e a capacidade nominal chega a 82 milhões de litros por ano. Somada à unidade Costa Pinto, a estrutura elevou a capacidade da companhia para 112 milhões de litros anuais. Segundo a empresa, o reaproveitamento da biomassa permite aumentar em até 50% a produção de etanol sem adicionar área de cana. Os números mostram o potencial, mas não autorizam tratar o E2G como tecnologia já disseminada. A rota ainda representa uma fração pequena da produção e depende da consolidação do desempenho industrial, da oferta de enzimas e de contratos que remunerem seu diferencial ambiental. No curto prazo, seu papel é complementar. Cana e milho convencionais continuarão respondendo pela maior parte da expansão, enquanto o etanol

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O etanol de segunda geração aproveita o bagaço e a palha da cana para elevar a produção sem ampliar a área cultivada

Wilson Lucena, VP da Atvos: integração entre cana, milho e biometano é mais eficiente

celulósico avança na curva de aprendizado. O mesmo raciocínio vale para a bioeletricidade e o biometano. O bagaço e a palha da cana sustentam uma geração relevante de energia, particularmente valiosa no período seco, quando os reservatórios hidrelétricos ficam mais pressionados. “Além de renovável, é uma fonte firme e não intermitente, o que contribui para a segurança e a estabilidade do sistema elétrico brasileiro”, afirma Zilmar Souza, gerente de Bioeletricidade da Unica. Essa circularidade também altera a economia dos projetos. Uma unidade que vende apenas açúcar ou etanol permanece exposta a fatores como petróleo, câmbio, clima e preços internacionais. Uma biorrefinaria acessa receitas associadas a combustíveis, proteína animal, óleo vegetal, eletricidade, gás renovável e créditos ambientais. “A pressão de margem foi o gatilho. A mudança estrutural é o resultado”, diz Luis Otavio Fonseca, líder de Supply Chain & Engineering para clientes de recursos naturais, manufatura, agronegócio e bens de consumo da consultoria Accenture na América Latina. Para ele, “uma usina que antes era avaliada como exposição a commodity passa a ser avaliada como portfólio de receitas com diferentes perfis de risco e correlação”. A política pública acrescenta previsibilidade e PLANT PROJECT Nº56

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Ag Bioenergia

MUITO ALÉM DA CANA NOVAS MATÉRIAS-PRIMAS, TECNOLOGIAS E MERCADOS AMPLIAM AS FRONTEIRAS DO ETANOL

Cana-de-açúcar

Base da produção nacional. Integra etanol, açúcar, bioeletricidade e, de forma crescente, biogás e biometano.

Milho e outros grãos

Ampliam a oferta durante todo o ano e geram DDG, DDGS e óleo vegetal, conectando biocombustíveis, pecuária e energia.

Etanol de segunda geração

Converte bagaço e palha em combustível, aumentando a produção por hectare sem expansão proporcional da área cultivada.

Resíduos agrícolas

Vinhaça, torta de filtro, palha, caroço de açaí, babaçu e capim tornam-se fontes de gás renovável, eletricidade, calor e biofertilizantes.

Novos mercados

Etanol e óleo vegetal podem abastecer rotas de SAF, diesel verde e combustíveis marítimos, ampliando o alcance da bioenergia brasileira.

Fontes: Atvos, Inpasa, EPE, Conab, ANP, MME e Unica. 38


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Unidade da Inpasa em Sinop: o processamento de grãos resulta em etanol, óleo vegetal e ddgs, ingrediente destinado à nutrição animal

demanda. Desde 1º de agosto de 2025, a gasolina vendida no Brasil passou a conter 30% de etanol anidro (E30). Um ano depois, em caráter temporário, entrou em vigor a gasolina E32, pelo prazo de 180 dias prorrogáveis por igual período. A Lei do Combustível do Futuro permite que o percentual chegue a 35%, condicionado a avaliações técnicas. A mesma lei abre pontes com segmentos de difícil eletrificação, como aviação e transporte marítimo. Uma das rotas possíveis para o combustível sustentável de aviação é a conversão do etanol em SAF, conhecida como alcohol-to-jet. Óleo de milho e outros insumos agrícolas também podem abastecer rotas de SAF e diesel verde. A Inpasa já posiciona seu óleo de milho como insumo para biocombustíveis avançados e informa ter fornecido matéria-prima para a primeira produção de SAF da América Latina. Em 2025, abriu escritórios em Genebra e Roterdã para se aproximar dos mercados europeus. A iniciativa mostra como o setor começa a disputar mercados nos quais intensidade de carbono, origem e comprovação de sustentabilidade influenciam o preço. O Brasil entra nessa corrida com vantagens reais. É o segundo maior produtor mundial de etanol, possui ampla disponibilidade de biomassa, uma indústria agrícola de escala e experiência em motores flex, mistura compulsória, cogeração e certificação. Mas liderança não se sustenta apenas com matéria-prima. O avanço exigirá infraestrutura, segurança jurídica, previsibilidade tributária, rastreabilidade e regras reconhecidas internacionalmente. O cenário, portanto, é promissor. O milho cresce rapidamente, mas precisa preservar sua vantagem de carbono. O E2G aumenta a produção por hectare, porém ainda deve provar seu desempenho econômico em maior número de plantas. O biometano transforma resíduos em combustível, mas requer contratos e infraestrutura. O SAF abre um mercado de maior valor, embora dependa de regras internacionais e redução de custos. O que une essas rotas é a tentativa de extrair mais energia renovável de uma base agrícola já existente. A próxima etapa da indústria brasileira de etanol não será definida por uma única matéria-prima vencedora, e sim pela capacidade de combiná-las. Essa será a medida da nova era do setor: não apenas quantos litros serão produzidos, mas quanta energia, alimento e valor industrial poderão ser obtidos de cada hectare, tonelada de biomassa e ativo instalado. PLANT PROJECT Nº56

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MACAN®: A OCUPAÇÃO BIOLÓGICA QUE MUDA O JOGO NO CAMPO Novo fungicida da Koppert amplia protagonismo dos biológicos na proteção foliar e reforça uma nova lógica de manejo de doenças

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o agronegócio moderno, a proteção foliar não é mais uma escolha entre solução biológica ou química. O biológico passa a assumir papel central no manejo, enquanto os químicos atuam de forma complementar e estratégica. Essa mudança de paradigma chega ao mercado com o Macan®, fungicida desenvolvido pela Koppert após um extenso trabalho de pesquisa. “Macan® representa uma nova geração de biológicos para a agricultura, resultado da combinação entre uma cepa exclusiva, rigorosamente selecionada, e uma formulação de alta tecnologia, desenvolvida para potencializar seu desempenho. Essa construção confere resiliência,

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capacidade de colonização foliar e estabilidade mesmo sob alta pressão de doenças, proporcionando maior consistência no controle e segurança produtiva ao agricultor. É ciência aplicada para elevar a eficiência e a confiabilidade dos programas de manejo”, ressalta Danilo Pedrazzoli, CEO da Koppert Brasil. MACAN®: OCUPAÇÃO BIOLÓGICA QUE AMPLIA A PROTEÇÃO DAS PLANTAS Macan® introduz uma nova abordagem no manejo de doenças: a ocupação biológica da superfície foliar. Após a aplicação, a bactéria Bacillus velezensis


Mais do que substituir uma ferramenta, Macan® amplia as possibilidades de manejo do produtor, combinando ciência, eficiência agronômica e diferentes mecanismos de ação em uma tecnologia biológica de alta performance

CECT8237 coloniza rapidamente as folhas e forma um biofilme, estabelecendo uma camada biologicamente ativa sobre a planta. Essa ocupação favorece a permanência da bactéria na superfície foliar e cria um ambiente menos favorável ao estabelecimento dos patógenos. Ao mesmo tempo, a cepa expressa diferentes mecanismos naturais de ação, que atuam de maneira complementar no controle de doenças e na ativação das defesas da planta. A formulação é parte essencial dessa tecnologia. Desenvolvida para potencializar o desempenho da cepa, ela contribui para a rápida formação do biofilme, a estabilidade da aplicação e a consistência da proteção, inclusive diante de condições ambientais desafiadoras. Outro diferencial está na velocidade de atuação. A ocupação da superfície foliar começa logo após a aplicação, permitindo que o fungicida da Koppert entre de forma estratégica nos programas de manejo e entregue um nível de controle compatível com as exigências da agricultura profissional. Mais do que substituir uma ferramenta, Macan® amplia as possibilidades de manejo do produtor, combinando ciência, eficiência agronômica e diferentes mecanismos de ação em uma tecnologia biológica de alta performance. PROTEÇÃO AMPLA E CONSISTÊNCIA COMPROVADA NO CAMPO Os resultados obtidos em campo reforçam o potencial da tecnologia. Em 102 áreas conduzidas durante a safra 2025/2026 em diferentes regiões do Brasil, Macan® proporcionou incremento de produtividade em 82% das áreas avaliadas. Na prática, aproximadamente oito de cada dez áreas apresentaram ganhos de produtividade com a utilização da tecnologia.

Os resultados foram obtidos em diferentes culturas, condições ambientais e cenários de doenças, inclusive sob alta pressão. Essa frequência de resposta demonstra estabilidade de desempenho e consistência dos dados, ampliando a segurança do produtor na adoção da tecnologia. Esse desempenho está relacionado à atuação complementar de diferentes mecanismos, com destaque para a ocupação biológica da superfície foliar e a indução de resistência da planta. Além de atuar no manejo das doenças, Macan® estimula as defesas naturais da planta, deixando-a mais preparada para responder à presença de patógenos. Outro ponto relevante é sua ampla compatibilidade com defensivos químicos e outros bioinsumos. Macan® pode ser integrado aos programas de manejo já adotados pelos produtores, agregando eficiência, flexibilidade e confiabilidade ao sistema de produção. UMA NOVA ERA DE PROTEÇÃO FOLIAR Com o Macan®, a Koppert reforça sua estratégia de ampliar o protagonismo dos biológicos no Brasil e estabelece um novo patamar para a proteção foliar. A combinação entre cepa exclusiva, formulação de alta tecnologia e múltiplos mecanismos de ação proporciona rápida ocupação biológica, consistência no controle de doenças e estabilidade de desempenho, mesmo em cenários de alta pressão. Uma tecnologia desenvolvida para entregar eficiência agronômica, segurança produtiva e resultados consistentes no campo. “Estamos diante de uma evolução no manejo de doenças. Macan® mostra que o biológico pode ocupar uma posição central nos programas do produtor”, conclui Danilo Pedrazzoli, CEO da Koppert Brasil. PLANT PROJECT Nº56

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Ag Negócios

TRABALHO PESADO, MAS TECNOLÓGICO CONECTADAS, MONITORADAS E APOIADAS POR SISTEMAS ELETRÔNICOS, AS PICAPES AMPLIAM A SEGURANÇA E A EFICIÊNCIA NO CAMPO E COMEÇAM A OCUPAR UM LUGAR NA GESTÃO DAS PROPRIEDADES RURAIS

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Por Rodrigo Lara e Lucas Bresser

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uando entram na rotina de uma fazenda, as picapes precisam demonstrar capacidade de carga, tração, resistência e disposição para enfrentar pisos irregulares. Sem esses atributos, um veículo desse tipo nem sequer chega a ser considerado. Nos últimos anos, entretanto, a decisão de compra passou a incluir uma nova camada: a capacidade tecnológica de gerar informações, prevenir falhas, apoiar manobras, reduzir riscos e manter o veículo integrado, ainda que parcialmente, à operação. Não é exagero de marketing, mas a leitura de quem acompanha o setor de perto. “Um modelo nem entra para brincar no play se não tiver essas atribuições práticas”, diz Cassio Pagliarini, CMO da Bright Consulting. Segundo o especialista, a robustez continua sendo o requisito mínimo, o “ticket de entrada”, para qualquer picape que queira disputar espaço no agronegócio. A diferença é que esse atributo agora divide espaço com eletrônica embarcada, conectividade e sistemas de assistência ao motorista. Câmeras 360 graus, sensores, telemetria, geolocalização, alertas de manutenção, aplicativos e sistemas de assistência ao motorista deixaram de ser associados apenas ao conforto urbano. No campo, ajudam em manobras, na identificação de obstáculos, na programação de revisões e no acompanhamento de localização, consumo e utilização de veículos. A picape não substitui o software de gestão da fazenda, os sistemas de agricultura de precisão ou a telemetria das máquinas agrícolas. Mas começa a funcionar como um ponto móvel de operação e informação, aproximando o veículo do ecossistema digital que já reúne tratores, colheitadeiras, drones, estações meteorológicas e aplicativos de gestão. A mudança aparece com clareza na Ford Ranger, uma das referências do segmento. A geração atual combina a arquitetura tradicional de uma picape de trabalho com telas digitais, conectividade por aplicativo, modos de condução e, nas versões mais equipadas, um conjunto amplo de recursos de assistência. “A Ranger continua sendo uma picape de trabalho, transporte e uso familiar. Além disso, com a evolução da tecnologia, ela também passou a contribuir para a gestão da operação do cliente”, diz Osvaldo Santi, gerente de Marketing da Ford América do Sul. Pelo aplicativo da Ford, o proprietário pode consultar informações como localização, nível de combustível, odômetro, pressão dos pneus e vida útil do óleo, além de receber alertas sobre o funcionamento do veículo. Para quem administra mais de uma unidade, a Ranger também PLANT PROJECT Nº56

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Ag Negócios

oferece uma plataforma voltada ao monitoramento de frotas, com dados de utilização, consumo, distância percorrida e alertas de revisão. A disponibilidade varia conforme versão, ano-modelo, plano e ativação dos serviços. Na cabine, o sistema multimídia SYNC 4 concentra funções do veículo e oferece Android Auto e Apple CarPlay sem fio. Os modos selecionáveis de condução ajustam parâmetros como resposta do acelerador, trocas de marcha, controle de tração, estabilidade e ABS às condições do percurso. Em versões específicas, entram ainda câmera 360 graus, frenagem autônoma de emergência, monitoramento de ponto cego, controle adaptativo de velocidade, assistência de permanência em faixa e recursos para reboque. Parte dessas soluções responde a situações concretas do trabalho rural. A visão ao redor da carroceria reduz pontos cegos em pátios apertados; sensores ajudam na aproximação de implementos e carretas; o controle de descida atua em declives; e os modos para lama, areia ou piso escorregadio coordenam diferentes sistemas eletrônicos para melhorar a tração. Na caçamba, iluminação e pontos de energia ou conexão, quando disponíveis, ampliam a utilidade do veículo em atividades de apoio. Os recursos tecnológicos mais úteis para a atividade no campo podem ser organizados em três grupos. O primeiro reúne conectividade, diagnóstico e gestão. O segundo inclui os ADAS, sigla em inglês para sistemas avançados de assistência ao condutor. O terceiro abrange tecnologias voltadas à condução fora de estrada e ao trabalho, como modos de terreno, controle de descida, bloqueio eletrônico ou mecânico de diferenciais, câmeras com diferentes ângulos e recursos de apoio ao reboque. Na conectividade, a Ranger não está sozinha. A Chevrolet S10 pode combinar o sistema OnStar, o aplicativo myChevrolet e Wi-Fi embarcado, permitindo comandos remotos, localização e diagnóstico. A Toyota passou a oferecer serviços conectados em versões da Hilux, com informações de saúde e status do veículo, histórico de viagens, cerca geográfica, rastreamento e Wi-Fi, conforme o pacote contratado. A Ram oferece na Rampage e em suas picapes maiores uma 44

plataforma conectada com localização, relatórios de viagem, operações remotas, alertas preventivos e informações de saúde do veículo. No grupo dos sistemas de assistência, a Mitsubishi Triton exemplifica outra frente de evolução. Em versões superiores, reúne câmera 360 graus, piloto automático adaptativo, frenagem autônoma, alerta de saída de faixa, monitoramento de ponto cego e diferentes modos de condução. A Rampage também oferece, conforme a configuração, alerta de colisão com frenagem autônoma, detecção de pedestres e ciclistas e assistência ativa de permanência em faixa. A lista de modelos ajuda a mostrar que a transformação não está restrita a uma única marca. Também evidencia que os pacotes não são uniformes. Um mesmo nome comercial pode reunir versões de trabalho mais simples e configurações sofisticadas, com diferenças relevantes em conectividade, segurança e assistência à condução. Segundo Pagliarini, a eletrônica embarcada nas picapes é, em boa parte, um transbordamento do que primeiro apareceu nos automóveis de passeio. “Houve grande crescimento na quantidade de recursos tecnológicos presentes em automóveis. Como consequência, eles chegaram às picapes, desde recursos de conforto a soluções voltadas ao monitoramento do veículo e auxílio de condução”, diz. Nas picapes, porém, esses recursos assumem papel mais ligado à produtividade e à eficiência do que apenas ao conforto. Com telas maiores, espelhamento de smartphones, comandos por voz, tomadas e Wi-Fi embarcado em alguns modelos, a cabine pode servir como base móvel para consultar mapas, registrar atividades, conversar com a equipe e acessar sistemas da propriedade. O hotspot do veículo também pode conectar celulares, tablets e notebooks nas proximidades, desde que haja cobertura da operadora e um plano de dados ativo. Isso não significa, automaticamente, que a picape passe a transmitir os dados de tratores ou equipamentos agronômicos. Essa integração depende da compatibilidade entre plataformas, da conectividade disponível e da configuração adotada pela propriedade. Ainda assim, o veículo pode apoiar


Osvaldo Santi, da Ford: a tecnologia reforça o papel da ranger nas operações rurais

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o fluxo de informações e a mobilidade das equipes. “A picape atua como ferramenta complementar. Enquanto a agricultura de precisão apoia a produção, ela garante mobilidade e logística”, diz Santi. A conectividade também favorece a gestão de frotas. Em uma propriedade com várias picapes, acompanhar localização, status, quilometragem, consumo e alertas de manutenção pode ajudar a distribuir veículos, planejar revisões e reduzir paradas inesperadas. Cercas geográficas e alertas de velocidade, quando oferecidos, acrescentam controle sobre o uso, embora exijam regras claras de acesso aos dados e respeito à privacidade dos condutores. Na teoria, o veículo conectado oferece ganhos relevantes de produtividade e praticidade. Na prática, boa parte dos recursos remotos depende de sinal de rede móvel. A pesquisa “Caminhos da Tecnologia no Agronegócio”, realizada pela SAE Brasil em parceria com a KPMG e divulgada em 2024, apontou que apenas 16% dos entrevistados

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Ford Ranger: a geração atual combina robustez com conectividade e sistemas avançados de assistência ao motorista

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PICAPES INTELIGENTES OS RECURSOS QUE TORNAM OS MODELOS MAIS SEGUROS, VERSÁTEIS E FUNCIONAIS

Câmera 360 graus

Combina imagens de diferentes câmeras para formar uma visão ao redor da carroceria, útil em pátios, galpões, trilhas estreitas e aproximações de reboques.

Monitoramento de ponto cego e tráfego traseiro

Alerta para veículos ou obstáculos fora do campo de visão. Em algumas configurações, a cobertura considera também o reboque.

Frenagem autônoma de emergência

Identifica risco de colisão e pode aplicar os freios caso o motorista não reaja a tempo. A capacidade de detecção varia de acordo com o sistema e as condßições de uso.

Outros sistemas de condução semiautônoma

Combinam recursos como controle adaptativo de velocidade, assistente de permanência em faixa e monitoramento do entorno para aumentar segurança e reduzir o esforço. 46

Aplicativos e comandos remotos

Permitem consultar localização, combustível, odômetro, pneus, óleo e alertas, além de executar comandos em modelos compatíveis.

Telemetria e gestão de frota

Consolida dados de uso, consumo, quilometragem, revisões e saúde do veículo para apoiar decisões de manutenção e alocação.

Modos de condução e controle de descida

Ajustam motor, câmbio, tração, estabilidade e freios a diferentes pisos, além de controlar a velocidade em declives.

Wi-Fi e integração com smartphones

Transformam a cabine em um ponto móvel de acesso para celulares, tablets e notebooks.

Recursos de trabalho

Iluminação da caçamba, tomadas, pontos de amarração, câmeras para reboque e sensores ampliam a utilidade prática do veículo.


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Ram Rampage e Toyota Hilux: recursos dos carros de passeio conquistam espaço nas picapes voltadas ao trabalho rural

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Ag Negócios

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Toyota Hilux e Chevrolet S10: (à dir.): conectividade permite acompanhar a localização e as condições do veículo

tinham internet de alta qualidade em toda a propriedade. Outros 24% informaram ter boa conexão apenas na sede, e 27% dispunham de sinal de baixa qualidade. Pagliarini confirma a lacuna de infraestrutura, mas aponta soluções que já circulam entre produtores: “Muitos já buscam acesso via satélite, uma opção válida em vários lugares do Brasil. Além disso, há alternativas como baixar o máximo possível de informações quando há internet para garantir acesso a dados quando se está em áreas fora de cobertura”. A falta de conexão não imobiliza a picape. Funções mecânicas, modos de condução e a maior parte dos sistemas embarcados de segurança continuam operando localmente. “As funções fundamentais do veículo não dependem do aplicativo ou da rede móvel. Os sistemas embarcados de condução e segurança da picape permanecem disponíveis mesmo sem acesso à rede”, afirma Santi. Há outro limite importante. Muitos sistemas de assistência foram desenvolvidos para vias com sinalização e condições relativamente previsíveis. Poeira, barro, vegetação, chuva intensa, ausência de faixas e sensores obstruídos podem reduzir o desempenho. São sistemas de assistência, não de condução autônoma, e não dispensam atenção, velocidade compatível e domínio do veículo, especialmente em estradas rurais. Quanto maior o pacote tecnológico, mais alto 48

tende a ser o preço. Também podem existir custos posteriores com conectividade, assinatura de serviços e dados. “O que vemos é que as versões mais baratas dessas picapes não têm grande participação no mix de vendas. Com as versões mais caras sendo as mais compradas, é possível concluir que, sim, o comprador rural está disposto a pagar por isso, mesmo com esse pacote tecnológico sendo repassado de forma relevante ao preço final”, diz Pagliarini. O comprador continua procurando uma picape que “chegue lá”, mas a disposição para pagar aumenta quando a tecnologia resolve problemas concretos: evita uma pane durante o plantio ou a colheita, reduz danos em manobras, ajuda a controlar uma frota dispersa ou oferece mais segurança em viagens longas. Nesses casos, a tecnologia deixa de ser vitrine para se tornar argumento operacional. “No passado, quem comprava uma picape poderia pensar que esses itens tecnológicos eram supérfluos. Hoje, isso não acontece mais, e os compradores têm a tendência de procurar modelos bem equipados e que tragam o máximo de dispositivos possíveis”, diz Pagliarini. No mercado de seminovos, a equação é diferente. De acordo com o CMO da Bright Consulting, ainda que o “recheio” do veículo contribua para a percepção de valor, durabilidade, robustez, histórico de manutenção e estado geral continuam pesando mais. Além disso, a utilidade de sistemas conectados depende de o serviço continuar disponível, ser


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transferível ao novo dono e permanecer compatível com as redes e aplicativos. Nos próximos anos, a tendência é que recursos atualmente concentrados nas versões superiores se espalhem pelo segmento, repetindo um movimento observado nos automóveis de passeio. Transmissão automática, central multimídia e câmera de ré deixaram de ser raridade. O mesmo caminho pode ser percorrido por diagnóstico remoto, visão 360 graus, frenagem autônoma e plataformas de gestão de frota. “À medida que o agronegócio se torna mais conectado e profissionalizado, essas soluções tendem a deixar de ser vistas apenas como diferenciais e passam a ser consideradas requisitos importantes na escolha de uma picape”, diz Santi. Mais do que tecnologias isoladas, pacotes integrados de conectividade, assistência e gestão devem ganhar relevância entre os produtores rurais. A fronteira seguinte deve combinar recursos desenvolvidos para o uso rural, maior integração entre plataformas e sistemas capazes de trabalhar mesmo com conectividade intermitente. Há espaço, por exemplo, para diagnósticos mais

precisos, rotinas de manutenção vinculadas ao uso severo, geolocalização associada a ordens de serviço e melhor leitura do ambiente fora de estrada. A perspectiva mais relevante talvez não esteja na picape isolada, mas em sua integração ao ecossistema conectado da propriedade. “Eu vejo um grande potencial em picapes desenvolvidas especialmente para o público do agronegócio”, diz Pagliarini. É um caminho ainda em construção, num setor em que drones, plantadeiras, colheitadeiras e sistemas de gestão já trocam dados em ritmo crescente. “Na minha opinião, ainda há um caminho longo para que isso aconteça, mas capacidades do tipo certamente teriam um apelo muito positivo para esse público.” A força, portanto, continua sendo indispensável. Mas, nas picapes mais novas, ela passou a trabalhar ao lado de sensores, software e dados. No campo, o computador sobre rodas não é aquele que apenas exibe mais informações na tela. É o veículo que consegue transformar parte dessas informações em menos risco, menos paradas e mais controle sobre a operação. PLANT PROJECT Nº56

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Ag Manejo

A AGRICULTURA REGENERATIVA AVANÇA NAS LAVOURAS BRASILEIRAS COM PRÁTICAS QUE RECUPERAM A SAÚDE DO SOLO, REDUZEM O USO DE INSUMOS E TORNAM A PRODUÇÃO MAIS EFICIENTE E SUSTENTÁVEL Por Mário Sérgio Venditti 50

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O CAMPO SE REGENERA


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Ag Manejo

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ma nova ordem está ganhando espaço no agronegócio brasileiro: a agricultura regenerativa. Antes restrita a projetos experimentais e a um pequeno grupo de produtores, ela avança pelas lavouras como um modelo de produção capaz de recuperar a saúde do solo, preservar a qualidade da água, ampliar a biodiversidade e reduzir a dependência de insumos. Entre as principais práticas estão o manejo adequado da terra, a rotação e a diversificação de culturas, o uso de plantas de cobertura e o aproveitamento mais eficiente dos recursos naturais. A proposta vai além da produção de alimentos, buscando construir uma agricultura mais equilibrada e preparada para os desafios do futuro. O pioneirismo nos estudos da agricultura regenerativa é atribuído ao americano Robert Rodale, que, no início dos anos 1980, aprimorou princípios da agricultura orgânica empregados desde a década de 1940. Rodale defendia que o manejo agrícola devia considerar fatores existentes acima do solo, como plantas e animais, e os que vivem abaixo da superfície, como microrganismos e matéria orgânica. No Brasil, esse conceito não demorou a chegar, tampouco floresceu em evento isolado. Suas raízes vêm do Sistema de Plantio Direto (SPD) desenvolvido com maior intensidade no final da década de 1970 e início de 1980. Ao publicar o livro Manejo Ecológico do Solo, em 1981, a agrônoma austríaca Ana Maria Primavesi, da Universidade Federal de Santa Maria (RS), mostrou que a terra nos trópicos precisava de vida e cobertura e não de arado pesado. Logo a teoria ganhou adeptos, com os primeiros agricultores aplicando o plantio direto na palha. Em escala industrial, o Projeto Cana Verde, iniciado na Usina São Francisco, em Sertãozinho (SP), dedicou-se ao cultivo regenerativo de cana-de-açúcar, nos anos 1990. “No Brasil, a agricultura regenerativa virou tendência e sua demanda foi ocasionada por pressão popular, principalmente no que diz respeito à necessidade de preservação ambiental”, diz Diego Pelizari, líder de Cultivo Sênior da Yara Brasil, empresa de fertilizantes e nutrição para plantas. Para ele, o País está diante de uma grande oportunidade de expandir a técnica graças ao clima tropical e ao solo propício. “O viés que encontramos

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é, inclusive, de aumento de produtividade.” O aumento da produtividade, porém, depende de uma série de fatores, entre eles a saúde do solo, diretamente associada à presença de matéria orgânica, formada por resíduos vegetais e animais, bactérias e fungos. “Um dos desafios da agricultura regenerativa é otimizar o sistema de produção”, diz Pelizari. “Um exemplo é a rotação de culturas, como milho e soja. Trata-se de uma estratégia importante para melhorar a saúde do solo e aumentar a produtividade, além de promover o sequestro de carbono e reduzir as perdas causadas pelas mudanças do clima.” Solos mais estruturados, com maior presença de biomassa e cobertura vegetal, retêm melhor a água e tornam as lavouras mais resistentes aos eventos climáticos adversos. “A boa qualidade do material genético também pode ajudar a combater doenças nas lavouras e promover o sequestro de carbono”, afirma. Apesar desses benefícios, muitos produtores ainda têm dúvidas sobre a relação entre o investimento necessário e o retorno financeiro, além de não saberem como adaptar as práticas regenerativas às particularidades de cada região e cultura. A transição exige conhecimento, planejamento e mudanças na forma de produzir. Afinal, uma técnica adequada para uma lavoura de soja no Cerrado pode não apresentar os mesmos resultados em uma propriedade dedicada ao cultivo de café em Minas Gerais. Pelizari afirma, contudo, que a agricultura regenerativa é economicamente viável tanto para pequenos quanto para grandes produtores, embora recomende uma transição gradual, com a adoção das técnicas em etapas. “É claro que o investimento depende de variáveis como as práticas mais apropriadas para cada negócio”, diz. “Mas, na agricultura regenerativa, os insumos são usados com mais eficiência e, quanto maior a presença de matéria orgânica no solo, maior tende a ser a lucratividade e menor a exposição aos riscos de mercado.” Segundo o executivo, a linha de fertilizantes da Yara Brasil reduz em 60% a pegada de carbono na produção: “A meta da empresa é diminuir em 30% as emissões de dióxido de carbono (CO₂) até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050”.


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Desenvolvida pela Basf, a plataforma Xarvio reúne soluções digitais que reduzem o uso de insumos e aumentam a eficiência no campo

Se as soluções da Yara Brasil contribuem para o avanço da agricultura regenerativa, a Basf dispõe de um amplo arsenal tecnológico para impulsioná-la. “No Brasil, o debate sobre como tornar a agricultura mais sustentável está ganhando força, e trabalhamos para que a tecnologia contribua positivamente para o avanço da modalidade”, afirma Diogo Monaco Lavorenti, coordenador de Desenvolvimento Agronômico da Basf. “Nesse contexto, a agricultura digital caminha lado a lado com o produtor.” A plataforma Xarvio Field Manager, braço digital da Basf, oferece uma série de soluções para ajudar o produtor na administração de suas plantações. “A digitalização aumenta a produtividade sem gastar mais recursos”, diz Lavorenti. “Ela captura o potencial máximo dos insumos agrícolas, evita desperdício de fertilizantes onde não há necessidade e resulta em mais eficiência no manejo do solo a cada metro quadrado, com menor impacto no meio ambiente.” Entre as soluções disponíveis, a plataforma

Xarvio reúne pulverização inteligente, mapas de colheita, gestão nutricional dos talhões e mapeamento digital de plantas daninhas. Atualmente, a tecnologia gerencia 14 milhões de hectares no mundo e, segundo a Basf, contribuirá para reduzir em 30% as emissões de CO₂ por tonelada produzida até 2030. Os resultados já são expressivos: nas lavouras de soja, milho e algodão, o mapeamento inteligente de plantas daninhas proporciona uma economia média de 61% no uso de insumos. A redução das aplicações também diminui o consumo de diesel e a circulação de máquinas, o que ajuda a evitar a compactação do solo. Além disso, a ferramenta permite poupar até 36 mil litros de água a cada mil hectares e elevar a produtividade da soja em três sacas por hectare, em comparação com a média nacional. No mapa-múndi do agronegócio, o apoio de governos, organizações e associações de defesa dos agricultores tem sido decisivo para alavancar a agricultura regenerativa. Segundo a consultoria PLANT PROJECT Nº56

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Ag Manejo OS 15 MANDAMENTOS DA MODALIDADE A AGRICULTURA REGENERATIVA REÚNE TÉCNICAS QUE EXTRAPOLAM A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS. CONFIRA:

1. Plantio direto: mantém o solo coberto e reduz o revolvimento, o que ajuda a diminuir a erosão e a perda de matéria orgânica. 2. Cobertura permanente do solo: utiliza palhada e plantas de cobertura para proteger o solo do sol, da chuva e do vento. 3. Rotação de culturas: a alternância de diferentes culturas ao longo das safras rompe os ciclos de pragas e doenças e melhora a fertilidade. 4. Consórcio de culturas: o cultivo simultâneo de espécies diferentes, como milho com braquiária ou leguminosas, dá mais saúde ao terreno.

5. Adubação verde: espécies como braquiária, milheto, crotalária e mucuna são empregadas para a produção de biomassa, reciclagem de nutrientes e incorporação de nitrogênio ao sistema. 6. Integração lavoura-pecuária-floresta: consiste na combinação da agricultura com a criação de animais e árvores na mesma área ou em sistemas integrados. 7. Agroflorestas: a integração de árvores, culturas agrícolas e, em alguns casos, espécies frutíferas reproduz características de ecossistemas naturais.

8. Manejo biológico de pragas: inimigos naturais, microrganismos e outros métodos biológicos controlam pragas e levam à redução de defensivos químicos. 9. Uso de bioinsumos: a aplicação de microrganismos, biofertilizantes, inoculantes e produtos biológicos estimula o desenvolvimento das plantas e a atividade do solo.

10. Compostagem e aproveitamento de resíduos: a

transformação de restos vegetais, esterco e outros materiais orgânicos serve de fertilizantes e condicionadores do solo.

11. Manejo racional da água: a conservação de água e a irrigação eficiente resguardam nascentes e áreas de preservação.

12. Redução do revolvimento do solo: evitar arações e

gradagens desnecessárias ajuda a preservar a estrutura do solo e os organismos que vivem nele.

13. Aumento da biodiversidade: a diversificação de culturas e a preservação de áreas naturais favorecem polinizadores.

14. Pastoreio rotacionado: a movimentação planejada dos animais entre diferentes áreas permite a recuperação das pastagens e evita sobrepastejo. 15. Recuperação de solos degradados: garante fertilidade, aumenta a matéria orgânica e gera a reestruturação biológica do solo.

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Manejo

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A agricultura regenerativa contribui para a retenção de água e aumenta o sequestro de carbono no solo

Grand View Research, dos Estados Unidos, o mercado global de agricultura regenerativa foi avaliado em US$ 14,5 bilhões no ano passado e a projeção é chegar a US$ 16,8 bilhões em 2026, saltando para US$ 49,1 bilhões em 2033. A América do Norte figura com a maior participação na receita, de 35,7% em 2025. Não surpreende, portanto, que a agricultura regenerativa desperte interesse crescente no Brasil entre governos, empresas e instituições acadêmicas. Em 2025, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) apresentou um protocolo para avaliar as práticas regenerativas e seus efeitos na redução das emissões de gases de efeito estufa. Já a Bayer, multinacional alemã dos setores químico e farmacêutico com forte atuação no agronegócio, criou o programa ProCarbono, que reúne cerca de 3 mil agricultores e alcança 3 milhões de hectares na América Latina. A iniciativa apoia produtores rurais na utilização de técnicas como plantio direto, rotação de culturas e uso eficiente de insumos. Incentiva também o manejo adequado do solo, a fim de estimular a captura de dióxido de carbono, armazenando-o na terra e melhorando a fertilidade. O ProCarbono se vale de ferramentas digitais e científicas – como análises de solo e calculadoras desenvolvidas em parceria com a Embrapa – para medir com precisão a pegada de carbono e o potencial de sequestro em cada talhão. Por fim, uma divisão do programa, chamada PRO Carbono Commodities, rastreia grãos desde o campo até a venda, garantindo que venham de áreas sem desmatamento. A academia também se dedica a investigar os benefícios da agricultura regenerativa. A Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, criou o Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCarbon), dedicado ao desenvolvimento de soluções capazes de ampliar a adoção dessas práticas no Brasil. Sediado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba, o centro reúne 1,9 mil agricultores e acompanha uma área de 232 mil hectares, com diferentes condições de solo e clima. Ao combinar pesquisa científica e experimentos realizados nas propriedades, a iniciativa avalia os efeitos de técnicas como o plantio direto, a rotação e a diversificação de culturas, o uso de plantas de cobertura e o manejo integrado de nutrientes.

“Quando o solo perde produtividade e passa a apresentar pragas e doenças, é o momento de o agricultor buscar algo diferente”, afirma Victória Santos Souza, doutoranda em Solos e Nutrição de Plantas da Esalq e integrante da equipe de pesquisadores do CCarbon. “Felizmente, hoje o produtor está mais aberto a mudanças e à adoção de novas práticas, como a rotação de culturas, que melhoram as condições do solo.” Ela explica que as técnicas de agricultura regenerativa trazem uma série de benefícios para a saúde do solo, como retenção de água, crescimento da população de predadores naturais, controle de plantas daninhas, ciclagem aprimorada de nutrientes e aumento de sequestro de carbono no solo. “Esses resultados são a base para reforçar a resistência do solo e deixar as plantações mais eficientes e menos dependentes de insumos externos, além de proporcionar retorno econômico vantajoso”, diz. A pesquisadora recomenda que os produtores interessados em adotar a agricultura regenerativa busquem o apoio de especialistas, como universidades e consultores, para identificar as práticas mais adequadas a cada lavoura. “Cada região do País apresenta desafios e particularidades, e o produtor precisa avaliar com cuidado os caminhos a seguir”, afirma. “Pode ser, por exemplo, o plantio de cobertura, que consiste no cultivo temporário de espécies vegetais entre as safras para recuperar a saúde do solo, ou a rotação de culturas na segunda safra.” Para o engenheiro agrônomo Antonio Luis Santi, integrante da Brazilian Soil Health Partnership, entidade dedicada à pesquisa, à inovação e à disseminação da agenda de saúde do solo no País, o avanço da agricultura regenerativa exige uma visão de longo prazo. “Muita gente procura estratégias de manejo que respondam rapidamente às suas expectativas, principalmente econômicas”, diz. “Em se tratando de práticas regenerativas, é preciso capricho, paciência e persistência, além de pensar a médio e longo prazo.” Mais do que uma barreira, esse horizonte representa uma mudança na forma de produzir: os resultados são construídos gradualmente, à medida que o solo recupera sua vitalidade e as lavouras se tornam mais produtivas. PLANT PROJECT Nº56

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O CAMPO TOMA A PALAVRA MOVIMENTO VOZES DA PECUÁRIA REÚNE PRODUTORES DE OITO ESTADOS PARA AMPLIAR A REPRESENTAÇÃO DO SETOR E INFLUENCIAR A FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS

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Por Romualdo Venâncio

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Ag Articulação

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ontrariados com as acusações sobre o impacto ambiental de suas atividades, pecuaristas resolveram “sair das trincheiras”, como muitos deles definem, e se lançar ao bom combate. Munidos de informação e preparados para o diálogo, decidiram ir para a linha de frente e defender a própria atividade. Assim surgiu o movimento Vozes da Pecuária, iniciativa do Instituto Pecuária Tropical pelo Clima que busca ampliar a representação do setor nos principais fóruns do País, evidenciar a diversidade da pecuária brasileira, apresentar as demandas e particularidades de cada território e contribuir para a formulação de políticas públicas mais alinhadas à realidade do campo. A falta de uma sólida presença institucional é um problema crônico da pecuária. Uma das principais consequências disso é o setor assistir à sua história ser narrada por quem não o representa nem o conhece de verdade. É exatamente por essa razão que uma das etapas fundamentais do projeto foi a definição dos territórios e a identificação de

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suas particularidades climáticas e agronômicas, das características zootécnicas de cada sistema de produção, da estruturação comercial e de toda a bagagem cultural que envolve a produção de gado de corte nessas regiões. Essa articulação começou em setembro do ano passado, com um encontro nacional que fincou bandeira em Brasília (DF). O evento colocou os pecuaristas frente a frente com deputados federais, ministros, diretores de confederações nacionais e formadores de opinião. O grupo aproveitou a oportunidade para reivindicar seu legado e apresentar suas demandas por meio de uma carta aberta que consolidou, de forma ampla, as diretrizes do setor. A mesma voz que ecoou para fora reverberou do lado de dentro. “A partir do momento em que você começa a falar, passa também a se enxergar melhor, a ver com clareza qual é o seu papel nesse mosaico que é a pecuária”, diz a produtora rural pantaneira Ida Beatriz de Arruda Machado, uma das primeiras a


integrar o Vozes da Pecuária. Proprietária da Fazenda Nossa Senhora do Machadinho, em Cáceres (MT), a pecuarista vê o projeto como um canal de duas vias. De um lado, conduz os pecuaristas na difusão de sua mensagem; de outro, ajuda-os a desenvolver uma visão mais abrangente do próprio negócio. É como se essa ação coletiva furasse as bolhas e criasse conexões entre elas, permitindo aos pecuaristas sair de seu próprio círculo e acessar o de outros grupos – e vice-versa. Esse fluxo é benéfico até mesmo para compreender as distinções entre aquilo que os produtores priorizam no desenvolvimento de seus rebanhos e o que o consumidor, na outra ponta, deseja. “O acabamento de carcaça, tão valorizado na hora do abate, pode não fazer a menor diferença para a dona de casa que está comprando a carne”, diz Ida. “O que ela quer saber é como preparar essa carne, como aquele corte facilita sua vida e que preço ela vai pagar.” O projeto já está presente em oito estados: Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia, São Paulo e Tocantins. Segundo dados da

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Rebanho no pasto: diversidade de climas, territórios e sistemas de produção compõem o mosaico da pecuária brasileira

O dramaturgo Cacau Guarnieri: projeto busca desenvolver uma narrativa mais forte para o setor PLANT PROJECT Nº56

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Ag Articulação

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Comitiva de especialistas em visita de campo (à dir.): iniciativa busca levar as demandas dos produtores ao debate público

Renata Miranda, do Vozes da Pecuária: espaço permanente para a troca de ideias

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coordenação do Vozes da Pecuária, a iniciativa abrange 37 municípios de referência e soma dez territórios. Em termos de rebanho, os participantes respondem por mais de 18,2 milhões de cabeças, volume que ainda pode crescer muito. “Esses oito estados reúnem mais de 120 milhões de bovinos”, diz a facilitadora do programa, Renata Miranda, que não é pecuarista, mas traz conhecimentos de áreas decisivas para o desenvolvimento do projeto. Engenheira de alimentos formada pela Universidade Federal de Viçosa, Renata está há quase duas décadas imersa nos debates e nas políticas públicas relacionados à sustentabilidade no agronegócio. São 18 anos de carreira na Embrapa. No atual projeto, Renata divide a missão com o dramaturgo e especialista em estratégias e conteúdos digitais Cacau Guarnieri. Os dois são os únicos integrantes do grupo que não são pecuaristas e, apesar de desempenharem um papel estratégico em todo o processo, evitam se colocar como lideranças da iniciativa. “Quem lidera são os pecuaristas”, afirma Renata. A presença de Renata e Guarnieri é um dos diferenciais da iniciativa, pois ambos trazem outro olhar e uma experiência que confere mais consistência à construção de uma narrativa forte para o que está sendo proposto. “A ideia de dar voz ao pecuarista, com outro posicionamento, está sendo exitosa. Criamos uma clareira, mostrando que isso é possível e que não se trata de apenas uma pecuária”, diz Guarnieri. “Há um olhar para o futuro, revisitando o legado do pecuarista. E trazendo conciliação, algo que é muito importante para seguirmos em frente.” Embora esteja sendo edificado de maneira inovadora, o projeto traz referências de ações anteriores, como a Liga do Araguaia, iniciada em 2016, no Vale do Araguaia, e que contou com a participação de Guarnieri. “É um dos primeiros projetos, se não for o primeiro, de pecuarista para pecuarista, baseado na união para irem à frente da sua representação, sem intermediários”, diz. Outra inspiração é o projeto Terra Adorada, antes chamado de Morada Comum, que o comunicador também integra. A partir do propósito de apoiar audiências que costumavam estar distantes das pautas ambientais, identificou-se uma demanda interna para amplificar a


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voz do pecuarista. “Dali em diante, surgiu a ideia de resgatar a narrativa pela causa pecuarista, fazendo com que aquela ideia do Vale do Araguaia ressoasse em outros biomas”, diz Guarnieri. Em meio às rodas de escuta, vieram à tona desafios muitas vezes não percebidos, compreendidos ou considerados nos debates sobre a cadeia produtiva da carne bovina. A deficiência logística é um exemplo, pois, dependendo da localização da fazenda, a falta de estradas dificulta até mesmo a chegada de insumos. Outro fator é o custo do licenciamento ambiental, como aquele que recai sobre a construção de um confinamento. Na esteira dessa questão, vem a insegurança jurídica provocada pela falta de uniformidade das exigências. “O pecuarista faz um aceiro por orientação do Corpo de Bombeiros, aí recebe uma multa da Secretaria de Meio Ambiente porque, para fazer esse aceiro, precisou desmatar”, diz Renata. A estruturação do projeto também leva em consideração a velocidade cada vez maior com que as transformações acontecem na pecuária, como demonstrou o chamado efeito Boi China. “Abatíamos bois com quatro ou cinco anos e, de um dia para outro, passou a ser com dois anos. E queriam novilhas”, diz Ida. Os importadores chineses decidiram que não comprariam mais qualquer produto, estabeleceram os padrões dos bovinos que desejavam e se dispuseram a pagar

melhor por isso. Quem quis participar da negociação teve de se enquadrar. As mudanças também chegaram por meio das inovações tecnológicas, que impactam de maneira distinta as diferentes gerações de pecuaristas. Foi por isso que as rodas de escuta do Vozes da Pecuária levaram em consideração os grupos específicos presentes nas fazendas. Ida conta que, em seu território, os diálogos foram divididos entre homens, mulheres e jovens. Em meio às diferenças de percepção, chamou atenção, segundo ela, a tranquilidade com que os mais novos encaram o avanço das exigências sobre a atividade. “O sarrafo está subindo e eles estão tranquilos com tudo isso. Na verdade, eles mesmos estão elevando o nível e se antecipando às exigências que estão chegando ao Brasil”, diz a pecuarista. Agora, o Vozes da Pecuária parte para o diálogo com aqueles que poderão estar à frente das principais decisões da nação. A partir das ações territoriais e da identificação de embaixadores do projeto, será elaborado um documento a ser apresentado ao poder público. Além desse avanço, está nos planos a criação de um instituto com o objetivo de fortalecer a voz e a participação dos pecuaristas na construção do futuro da atividade, criando um espaço permanente de escuta e comunicação. PLANT PROJECT Nº56

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Ag Ciência

AVANÇOS EM GENÉTICA, BIOTECNOLOGIA E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL TRANSFORMAM A BASE BIOLÓGICA DAS LAVOURAS E IMPULSIONAM A PRODUTIVIDADE NO CAMPO Evanildo da Silveira 64

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O PODER DAS SEMENTES


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mercado de sementes agrícolas passa por uma transformação impulsionada pelo avanço da biotecnologia, da genética e, mais recentemente, de ferramentas digitais como a inteligência artificial e a edição gênica. Essas inovações têm contribuído para ganhos expressivos de produtividade, sobretudo nas culturas de soja e milho, duas das principais commodities do agronegócio brasileiro. Para o pesquisador Edvaldo Aparecido Amaral da Silva, da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP), a semente deve ser entendida como um pacote tecnológico completo. “Ela é uma miniatura da planta, que carrega todo o histórico de seleção genética e desenvolvimento acumulado ao longo da cadeia produtiva”, afirma. Nesse contexto, a biotecnologia passou a ocupar papel central no setor a partir dos anos 2000, especialmente com a adoção de cultivares geneticamente modificadas. Hoje, mais de 90% da produção de soja, milho e algodão utiliza materiais geneticamente modificados. No caso da soja, a área cultivada com essa tecnologia também supera 90% no País, com variedades que oferecem tolerância a herbicidas e resistência a insetos. Recentemente, uma nova tecnologia de tolerância à seca foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), ampliando as possibilidades de adaptação da cultura a condições climáticas adversas. O mercado brasileiro de sementes é amplo e altamente regulamentado, abrangendo desde espécies florestais e forrageiras até frutíferas, hortaliças e grandes culturas. Apenas no segmento das grandes culturas, o setor movimenta cerca de R$ 21 bilhões por ano. “A soja responde por aproximadamente R$ 8,5 bilhões PLANT PROJECT Nº54

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Ag Ciência

anuais, enquanto o milho movimenta R$ 7,5 bilhões”, diz Silva. “Esses números refletem o peso dessas duas culturas na agricultura nacional.” Atualmente, o País cultiva cerca de 48 milhões de hectares de soja. A taxa de utilização de sementes certificadas – aquelas produzidas e comercializadas dentro das normas legais – é de aproximadamente 65%, o que representa cerca de 1,4 milhão de toneladas utilizadas por ano. No milho, o uso de sementes comerciais é ainda maior: cerca de 90% da área cultivada, estimada em 21 milhões de hectares, utiliza sementes híbridas, principalmente híbridos simples. Segundo Silva, o Brasil possui um dos mercados de sementes mais estruturados do mundo. “Somos praticamente autossuficientes em quase todas as espécies”, afirma. “A principal exceção ainda são algumas sementes de hortaliças, cuja produção completa muitas vezes ocorre fora do País por exigências biológicas.” O crescimento do setor nas últimas duas décadas foi impulsionado por marcos regulatórios importantes, como a Lei de Proteção de Cultivares (1997), a Lei de Sementes (2003) e a Lei de Biossegurança (2005). Essas normas estimularam investimentos em pesquisa, inovação e biotecnologia. Ao mesmo tempo, desafios como mudanças climáticas, pressão de pragas e necessidade de maior eficiência produtiva têm ampliado a demanda por cultivares 66

mais resistentes e adaptadas. O pesquisador Lauro José Moreira Guimarães, da Embrapa Milho e Sorgo, destaca que o avanço das sementes geneticamente modificadas também foi decisivo para a expansão do mercado. “Essas tecnologias oferecem benefícios agronômicos claros”, afirma. “Os agricultores perceberam que as vantagens costumam superar os custos adicionais, gerando retorno econômico e facilitando o manejo das lavouras.” Além disso, o progresso da pesquisa genética ampliou significativamente o potencial de desenvolvimento de novas variedades. Ao longo dos últimos 25 anos, avanços na identificação de genes e nas técnicas de transformação e melhoramento permitiram criar cultivares cada vez mais adaptadas às condições de cultivo. De acordo com Guimarães, novas características têm sido incorporadas por meio da chamada piramidação de genes – estratégia que reúne múltiplos genes de interesse em uma mesma planta. Esse processo permite aumentar a resistência a diferentes insetos e pragas, melhorar o controle de populações que desenvolveram resistência às primeiras tecnologias e ampliar a tolerância a herbicidas. Os investimentos em tecnologia de sementes têm impacto direto na produtividade das lavouras. “Melhorias nas características genéticas, fisiológi-


cas, sanitárias e físicas das sementes podem elevar a produtividade agrícola em até 20%”, afirma Silva. “Isso representa ganhos importantes para os agricultores.” Segundo ele, a necessidade de inovação tende a crescer. “Os ambientes de produção estão se tornando cada vez mais restritivos. O investimento em novas tecnologias será fundamental para manter o Brasil entre os líderes agrícolas nas próximas décadas e garantir a segurança alimentar.” O avanço do melhoramento genético também tem permitido melhorias em características agronômicas clássicas, como maior vigor inicial das plantas, maior eficiência no uso de água e nutrientes, resistência a doenças e pragas, maior número de grãos por área cultivada, resistência ao acamamento e melhor qualidade dos produtos colhidos. Nos programas de melhoramento, ferramentas como a seleção assistida por marcadores moleculares permitem identificar rapidamente plantas com genes favoráveis, acelerando o desenvolvimento de novas cultivares. Já a seleção genômica utiliza informações de todo o genoma da planta combinadas com modelos estatísticos para prever o potencial produtivo de indivíduos ainda jovens. Outra fronteira tecnológica é a edição gênica, especialmente por meio da técnica CRISPR-Cas9, que permite alterar sequências específicas do DNA

com grande precisão. Essa abordagem pode acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes a doenças ou a estresses ambientais, como seca e calor. Silva destaca que pesquisas nessa área já estão em andamento. “Um dos projetos em desenvolvimento busca editar geneticamente a soja para aumentar a produção de biomassa, com potencial aplicação na produção de biocombustíveis”, diz. No cenário internacional, o Brasil ocupa posição de destaque. Somos o quarto maior mercado de sementes do mundo e um dos principais produtores globais de grãos. Grandes empresas multinacionais mantêm centros de pesquisa e desenvolvimento no País, atraídas pelas condições climáticas favoráveis, pela disponibilidade de terras agrícolas e pela capacidade técnica dos produtores. Além da atuação dessas empresas, instituições públicas como a Embrapa e universidades brasileiras desempenham papel fundamental na formação de especialistas e no desenvolvimento de novas tecnologias agrícolas. Ainda assim, especialistas alertam para a necessidade de ampliar investimentos em ciência e inovação. “Precisamos continuar avançando em pesquisa básica e biotecnologia para manter a liderança e não nos tornarmos apenas um grande polo de produção”, conclui Silva. PLANT PROJECT Nº56

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O VALOR DA DIFERENÇA COM MARCAS PRÓPRIAS, EMBALAGENS CRIATIVAS, CERTIFICAÇÕES E NOVAS FONTES DE FINANCIAMENTO, A AGRICULTURA FAMILIAR BUSCA ESCAPAR DA DISPUTA POR PREÇO E CONQUISTAR ESPAÇO NO VAREJO Por Ronaldo Luiz

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Ag Varejo

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agricultura familiar ocupa posição central na produção de frutas, flores, legumes, verduras e ovos (FFLVO). Como os pequenos produtores trabalham, por natureza, com escalas reduzidas, competir apenas por preço costuma ser um caminho pouco sustentável. Para viabilizar a operação e ganhar espaço no mercado, a saída passa, cada vez mais, pela diferenciação. Agregar valor ao produto – seja por meio do beneficiamento, da obtenção de certificações ou de outras estratégias capazes de afastá-lo da condição de commodity –, desenvolver uma marca, estabelecer parcerias e explorar a criatividade no ponto de venda são algumas das alternativas para atrair a atenção do consumidor no varejo, segundo especialistas ouvidos pela PLANT PROJECT. Com base em experiências práticas no varejo e na cadeia de abastecimento, eles mostram que iniciativas relativamente simples podem produzir resultados relevantes. Melhorar a exposição dos produtos, aproveitar a sazonalidade, facilitar a identificação dos alimentos e tornar a comunicação mais atraente ajudam a despertar o interesse do consumidor, aumentar sua confiança no momento da compra e reduzir perdas provocadas pela baixa atratividade ou pela falta de informações. Guilherme Armanhe, proprietário da marca Label Rouge, afirma que o “pulo do gato” de seu negócio foi justamente a aposta na diferenciação. “Para fugir da briga por preço, investimos em um produto de qualidade, o ovo caipira, que tem gema bem vermelha, clara mais consistente e menos cheiro que o tradicional ovo branco”, diz. Essa jornada, acrescenta o executivo, envolveu também mudanças no manejo das galinhas, criadas soltas, e não em gaiolas, em uma prática associada ao bem-estar animal. A diferenciação chegou ainda aos formatos e às embalagens: em vez da tradicional dúzia, a empresa oferece dez unidades em pacotes coloridos, que rompem com o padrão dos recipientes de papelão encontrados no mercado. “Saímos do ovo commodity para trabalhar em um nicho de alto valor”, afirma. José Eduardo Carmagnani, da Zespri Brasil, importadora de kiwis, menciona uma iniciativa que também pode servir de inspiração para a

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agricultura familiar brasileira. O representante da marca neozelandesa lembra uma campanha de marketing baseada em uma embalagem que remetia às cartelas de vitaminas vendidas em farmácias. “Com esse formato, quisemos mostrar que a vitamina C de que o consumidor precisa está ali, naturalmente na fruta, que foi embalada como se fosse uma vitamina em cápsula”, diz. “Depois dessa ação, mais de 60% dos consumidores passaram a reconhecer a marca pela embalagem, reforçando o papel do branding no segmento.” Na floricultura, Simone van Oene, da Joost Kalanchoe, destaca a necessidade de transformar as flores em uma categoria comercialmente atraente durante todo o ano. Para isso, defende a organização do ponto de venda e uma comunicação capaz de criar vínculos emocionais com o consumidor. Uma das possibilidades é regionalizar o calendário promocional, aproveitando datas secundárias além dos carros-chefes, como o Dia da Mulher e o Dia das Mães. “Foi o que fizemos, por exemplo, com o feriado da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, onde conectamos a data às flores”, afirma. O diretor da GS1 Brasil, Nilson Gasconi, ressalta, por sua vez, a importância de ferramentas voltadas à identificação da origem e à rastreabilidade dos produtos, com destaque para a tecnologia do código de barras. Rafaela Fava, da Bananas Fava, acrescenta que o mercado exige cada vez mais que os compradores do varejo conheçam de perto a realidade e as particularidades da produção agrícola. Além das estratégias comerciais e de comunicação, o acesso ao mercado de capitais começa a despontar como uma alternativa para ampliar o financiamento da cadeia de frutas, flores, legumes, verduras e ovos. Para Luiz Roberto Barcelos, sócio-fundador e membro do conselho da Agrícola Famosa, a preparação das empresas é requisito fundamental para alcançar novas fontes de recursos, como os Fiagros e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs). “O produtor precisa organizar sua empresa, ter demonstrações financeiras auditadas e fortalecer sua governança. Com isso, aumenta o valor do negócio e passa a ter mais opções de financiamento.”


A nova ordem econômica mundial valoriza os recursos que o brasil possui em abundância, mas entraves internos ainda ameaçam esse potencial

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Ideias e debates com credibilidade

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O PAÍS DO FUTURO DEVE SER O PAÍS DO PRESENTE POR QUE A INVERSÃO HISTÓRICA EM CURSO NA ECONOMIA MUNDIAL PODE SER A MAIOR OPORTUNIDADE BRASILEIRA DESDE A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL – E POR QUE AINDA CORREMOS O RISCO DE DESPERDIÇÁ-LA

Durante quase um século, o Brasil se acostumou a habitar uma frase infeliz. “O país do futuro”, cunhada por Stefan Zweig em 1941, converteu-se num diagnóstico permanente: a promessa adiada, o gigante adormecido, a economia grande demais para ser ignorada e incapaz de realizar plenamente o próprio potencial. Cada geração herdou a sensação de estar sempre a uma década do seu destino. Mas essa autoimagem esconde um erro analítico. Durante décadas, perseguimos um modelo de desenvolvimento pensado para uma economia mundial que já estava desaparecendo. Discutimos indústria, competitividade e inserção internacional como se a hiperglobalização ainda estivesse em plena expansão. Não está. A tese é simples e desconfortável: as condições que penalizaram o Brasil por 40 anos estão mudando. E as condições que agora se impõem à economia mundial premiam justamente atributos que o Brasil possui em abundância: alimentos, energia limpa, água, minerais críticos, biodiversidade, território e relativa distância dos grandes conflitos geopolíticos. Pela primeira vez, em muito tempo, a geografia econômica global começa a se reorganizar a favor do que temos. O debate público brasileiro, porém, parece novamente atrasado. Continuamos discutindo os problemas do País do passado enquanto se abre, silenciosamente, a janela de oportunidade do País do presente. Globalização não é um estado permanente do mundo. É um regime histórico, com começo, meio e fim. A primeira gran-

POR MARCO RIPOLI*

de globalização floresceu entre 1870 e 1914, impulsionada pelo padrão-ouro, pelo vapor, pelas ferrovias e pelo telégrafo. O Brasil participava como fornecedor de commodities e destino de capitais, ainda longe de qualquer protagonismo industrial. Essa ordem desabou em 1914. Duas guerras mundiais, a Grande Depressão e o protecionismo produziram décadas de fragmentação. Foi nesse contexto que o Brasil construiu seu parque industrial pela substituição de importações. Em uma economia mundial fechada, industrializar-se por dentro era uma estratégia coerente. A hiperglobalização surgiu a partir dos anos 1980 e ganhou velocidade com a abertura da China, a queda da União Soviética e a integração de novos mercados. Cadeias produtivas foram fragmentadas entre dezenas de países. Produzia-se onde fosse mais barato, estoques eram reduzidos e a eficiência tornou-se quase uma religião econômica. Os vencedores foram evidentes: China, Alemanha, produtores de energia e o sistema financeiro global. O Brasil ficou numa posição desconfortável. Não tinha os salários asiáticos, a produtividade alemã, a logística chinesa nem um ambiente de negócios capaz de compensar essas desvantagens. Não foi apenas má sorte. Havia uma incompatibilidade estrutural entre o País que somos e o regime econômico que vigorava. Toda ordem econômica parece eterna até deixar de ser. A hiperglobalização começou a rachar em 2008 e, desde então, vem sendo desmontada por sucessivas crises. A

*Marco Ripoli é Ph.D. em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.


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Fo crise financeira revelou as fragilidades da integração extrema. A eleição de Donald Trump, o Brexit e o avanço de movimentos nacionalistas expressaram a reação política de sociedades que perderam empregos, renda e status durante décadas de deslocamento industrial. Como se não bastasse, a pandemia de Covid-19 tornou evidente a vulnerabilidade das cadeias globais. Descobrimos que medicamentos, semicondutores e insumos essenciais dependiam de poucos fornecedores localizados do outro lado do planeta. A palavra da vez passou a ser resiliência: pagar mais caro, estocar mais e produzir mais perto para reduzir riscos. A guerra da Ucrânia acrescentou a dimensão energética e alimentar. E a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China encerrou a ilusão de que economia e geopolítica poderiam operar separadamente. Chips, minerais, dados e inteligência artificial passaram a ser tratados como ativos estratégicos. Cadeias de suprimento passaram a ser desenhadas não apenas em torno do custo, mas da segurança e da confiança. O nome dessa nova fase varia: regionalização, friend-shoring, derisking ou slowbalization. O essencial é a inversão de lógica. Durante décadas, a pergunta foi: onde produzir mais barato? Agora, cada vez mais, pergunta-se: onde produzir com segurança? Da eficiência pura, migramos para uma equação que combina eficiência, resiliência, segurança e estabilidade política. É uma economia mundial mais cara, mais fragmentada e, para determinados países, muito mais generosa. Quando a régua muda, muda também o ranking. Em uma economia em que a automação reduz a importância relativa da mão de obra barata, outros fatores se tornam mais escassos. Alimentos: a população mundial cresce, a renda aumenta em países densamente povoados e a demanda por proteína se expande. Terra produtiva, água, tecnologia agrícola e capacidade de produzir várias safras tornam-se ativos estratégicos. Energia: a transição energética exige

eletricidade limpa, abundante e competitiva. Países dependentes de combustíveis importados enfrentam vulnerabilidades estruturais. Quem possui hidrelétricas, solar, eólica, biomassa e biocombustíveis parte de uma posição privilegiada. Minerais críticos: cobre, lítio, níquel, terras raras e outros recursos são indispensáveis à eletrificação, à inteligência artificial e à indústria de defesa. Sua distribuição geológica não acompanha as necessidades das grandes potências consumidoras. Água: o século 21 começa a reconhecer que água doce não é um recurso infinito. Segurança hídrica será, progressivamente, um componente de segurança econômica. E há a estabilidade geopolítica. Em um mundo marcado por tensões na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, estar distante dos principais vetores de conflito passou a ser também uma vantagem econômica. Poucos países reúnem todos esses atributos. O Brasil é um dos poucos capazes de combinar escala territorial, produção de alimentos, abundância de recursos naturais, matriz elétrica relativamente limpa e distância dos principais conflitos militares do planeta. O agronegócio brasileiro é uma das maiores demonstrações de transformação tecnológica dos últimos 50 anos. A Embrapa ajudou a converter o Cerrado em uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo. Hoje, produtividade, agricultura de precisão, biotecnologia, integração de sistemas e recuperação de áreas degradadas mostram que ainda há espaço para crescer com maior eficiência. O mesmo vale para a bioenergia. Etanol, biodiesel, biogás, biomassa e combustível sustentável de aviação podem colocar o Brasil no centro de uma nova economia energética baseada em carbono de menor intensidade. As florestas plantadas, os sistemas produtivos de baixa emissão e o potencial de captura de carbono acrescentam outra dimensão. Em um mundo que tende a precificar cada vez mais as emissões, produzir PLANT PROJECT Nº56

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com menor pegada de carbono pode deixar de ser apenas uma exigência ambiental para se tornar uma vantagem competitiva. Somem-se a isso a segurança alimentar e hídrica, os minerais estratégicos e a possibilidade de desenvolver cadeias industriais que combinem recursos naturais, energia limpa e tecnologia. Nenhum desses setores pertence a um futuro imaginário. Eles existem, exportam, empregam, faturam e incorporam conhecimento em escala crescente. O erro é tratá-los como sinônimo de atraso. A dicotomia entre commodities e tecnologia é falsa. O agronegócio moderno, a bioeconomia, a mineração avançada e a energia renovável são atividades intensivas em ciência, capital, dados e inovação. É justamente nesses setores que a nova geografia econômica pode se materializar para o Brasil. Se tudo isso é verdade, por que crescemos tão pouco? Por que a renda avança lentamente e a sensação cotidiana é de um País travado? Aqui está o paradoxo: o Brasil é favorecido pela nova geografia econômica externa e sabotado pela própria arquitetura econômica interna. O primeiro nó é a produtividade. Um sistema tributário complexo, burocracia excessiva, insegurança contratual e custos logísticos elevados consomem energia empresarial que deveria ser destinada à inovação e à expansão. O segundo é o capital humano. Ampliamos o acesso à educação, mas ainda enfrentamos graves problemas de qualidade. Nenhuma janela histórica se transforma em desenvolvimento sustentado sem pessoas capazes de gerar, absorver e multiplicar conhecimento. O terceiro é a infraestrutura. Portos, ferrovias, rodovias, saneamento e sistemas logísticos continuam impondo custos que reduzem a competitividade justamente nos setores em que possuímos vantagens naturais. O quarto é a insegurança jurídica. Investimentos em energia, infraestrutura, mineração e indústria exigem décadas de previsibilidade. Nenhum capital de longo prazo

prospera onde regras e interpretações mudam permanentemente. O quinto é o desequilíbrio fiscal. Juros estruturalmente elevados, expansão da dívida e baixa capacidade de investimento comprometem a estabilidade macroeconômica e encarecem o capital necessário para transformar potencial em crescimento. Talvez a maior oportunidade econômica brasileira em muitas décadas esteja acontecendo agora. Não por uma súbita mudança do Brasil, mas porque o mundo mudou. O regime econômico que nos penalizava perdeu força. Outro começa a valorizar exatamente os ativos que acumulamos: alimentos, energia, recursos naturais, território, biodiversidade e capacidade produtiva. A grande questão é se conseguiremos transformar essa vantagem em renda, produtividade e desenvolvimento. A nova ordem global se consolidará com ou sem o Brasil. Os Estados Unidos reindustrializam com apoio estatal. A Europa busca novas fontes de energia e matérias-primas. E a China amplia sua presença em recursos estratégicos. Capital, tecnologia e talento estão sendo realocados agora. Quem chegar depois encontrará ativos mais caros e oportunidades mais disputadas. Nos próximos dez anos, o Brasil precisa realizar algumas tarefas simultaneamente. Precisa construir credibilidade fiscal, para reduzir de forma estrutural o custo do capital. Precisa elevar radicalmente a qualidade da educação e da formação profissional. E precisa modernizar infraestrutura, ambiente regulatório e segurança jurídica, aproveitando o apetite global por investimentos de longo prazo. Se fizermos isso, poderemos consolidar uma posição singular como potência agroalimentar, energética e ambiental, com maior renda, produtividade e peso geopolítico. Se não fizermos, repetiremos um velho padrão: um território extraordinariamente rico incapaz de transformar seus recursos em prosperidade compartilhada. Pela primeira vez em muito tempo, o vento externo sopra a nosso favor. O agro não para.


Travessia sem fim Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, completa 70 anos inspirando iniciativas que mantêm viva a cultura sertaneja

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Um campo para o melhor da cultura

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Ar A RTE

Um campo para o melhor da cultura

O SERTÃO AINDA VIVE AOS 70 ANOS, GRANDE SERTÃO: VEREDAS MANTÉM INTACTA SUA FORÇA LITERÁRIA E INSPIRA INICIATIVAS QUE PRESERVAM A NATUREZA, A CULTURA E OS CAMINHOS ETERNIZADOS POR GUIMARÃES ROSA

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Por André Sollitto

sertão é do tamanho do mundo”, escreve João Guimarães Rosa (1908-1967) em Grande Sertão: Veredas, sua obra mais célebre e reconhecida. “O sertão não tem janelas, nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa”. Publicado em 1956, há exatos 70 anos, o livro narra as aventuras do jagunço Riobaldo, narrador e protagonista do romance, e sua relação com Diadorim. A obra revolucionou a literatura brasileira e transformou o sertão localizado entre Minas Gerais e Bahia em um cenário fantástico e épico. Sete décadas depois, continua celebrada pela inventividade de sua linguagem e pela maneira como retratou um universo de extraordinária riqueza cultural: o sertão do Alto São Francisco. A trama acompanha Riobaldo pelas veredas, formações vegetais típicas do Cerrado marcadas pela presença do buriti. O jagunço conta sua jornada a um interlocutor indefinido em uma narrativa que avança e recua no tempo, misturando acontecimentos recentes a episódios da infância e da juventude. Ao longo do caminho, enfrenta as forças do mal – o Diabo é uma presença constante no romance – e desenvolve uma intensa relação afetiva com Diadorim, cercada pelos dilemas morais de seu tempo. No texto, Rosa aborda temas que mais tarde seriam associados pelos críticos a movimentos literários como o realismo fantástico e o regionalismo. Com seus neologismos e sua narrativa inventiva, tornou-se um dos autores mais importantes da língua portuguesa. Quando foi publicado, em 1956, o romance de Guimarães Rosa rompeu com

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Riobaldo e Diadorim ganharam vida no cinema, enquanto a onça-pintada representa a riqueza da região retratada por Rosa

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Ar Literatura

as diretrizes literárias da época. Era um período em que João Cabral de Melo Neto (1920-1999), o “poeta engenheiro”, defendia o rigor formal da escrita, enquanto autores concretistas como Augusto de Campos, hoje com 95 anos, Décio Pignatari (1927-2012) e Haroldo de Campos (1929-2003) incorporavam a disposição gráfica das palavras ao significado dos poemas. Longe de alcançar de imediato a unanimidade que conquistaria mais tarde, a obra dividiu críticos e leitores. Alguns rejeitaram a linguagem inventiva e consideraram a leitura excessivamente difícil. O poeta Ferreira Gullar (1930-2016) foi um deles. “Li 70 páginas de Grande Sertão: Veredas. Não pude ir adiante. A essa altura, o livro começou a parecer-me uma história de cangaço contada para os linguistas”, escreveu em artigo publicado na

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revista Leitura. Outros, porém, se encantaram com a ousadia de Rosa. “Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos!”, escreveu Clarice Lispector (1920-1977) em uma carta ao amigo Fernando Sabino (1923-2004). O sertão retratado na obra ainda sobrevive? Sim, embora de maneira fragmentada. O cenário descrito por Guimarães Rosa nasceu de sua própria vivência na região. Natural de Cordisburgo, em Minas Gerais, o escritor acompanhou durante dez dias um grupo de vaqueiros, anotando em cadernetas tudo o que via e ouvia. Esses registros seriam usados mais tarde como fonte para o romance. Já naquela época, Rosa testemunhava o avanço das lavouras de eucalipto, que desde então ocuparam áreas ainda maiores. Ao longo da história, 48% da extensão original do


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Entre veredas verdejantes e árvores imponentes, o sertão de Guimarães Rosa permanece vivo nas paisagens do Cerrado

bioma Cerrado foi desmatada, segundo dados do MapBiomas. Trata-se de uma perda expressiva, que ameaça a fauna e a flora da região. Existem, contudo, importantes iniciativas de conservação. A principal delas é o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, criado em 1989 e localizado na divisa entre Minas Gerais e Bahia, com sede no município mineiro de Chapada Gaúcha. Com mais de 230 mil hectares, a área administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) preserva parte do planalto conhecido como Chapadão Central e constitui a maior unidade de conservação do Cerrado. Ali são encontradas espécies como o buriti, palmeira que se tornou símbolo da região, além do pacari, da aroeira e do ipê-amarelo. O parque também abriga animais como o lobo-gua-

rá, a onça-pintada, a jaguatirica, o cervo-do-pantanal e o tatu-bola. Mais recentemente, um projeto ambicioso se dedicou a reconstruir a geografia da obra literária. Durante quase quatro décadas, o engenheiro químico Paulo Guimarães Salles viajou pela região, pesquisou documentos e comparou mapas, paisagens e referências do romance para reconstituir a jornada de Riobaldo. Em muitas dessas viagens, esteve acompanhado do pai, veterinário do Ministério da Agricultura. Mais tarde, passou a realizar expedições organizadas, usando mapas aéreos para se localizar. Salles analisou as menções geográficas presentes na obra de Guimarães Rosa e percorreu as vastidões de Minas Gerais e Bahia para identificar o que havia de real e de simbólico no romance. O resultado é Anatomia do Grande

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Caio Blat e Luisa Arraes viveram Riobaldo e Diadorim na polêmica releitura cinematográfica dirigida por Guel Arraes

Sertão, livro financiado por meio de uma campanha coletiva na internet. Segundo seus cálculos, Riobaldo percorreu mais de 15 mil quilômetros dentro de uma área superior a 500 mil quilômetros quadrados que compõe o sertão descrito na obra. Há ainda outra iniciativa de preservação, voltada não apenas ao meio ambiente, mas também ao patrimônio social e cultural da região. Criado pelo Instituto Rosáceas em 2015, o Caminho do Sertão é um percurso de 192 quilômetros que propõe uma imersão na cultura sertaneja dos vales dos rios Urucuia e Carinhanha, no norte e no noroeste de Minas Gerais. Fundado em 2007, o instituto trabalha pela sustentabilidade e pelo fortalecimento de comunidades tradicionais e quilombolas, como Vão dos Buracos, Buraquinhos, Barro Vermelho, Morro do Fogo e Serra das Araras, que integram a Rota dos Quilombos. Entre as atividades promovidas estão oficinas de saberes tradicionais, música e gastronomia, além de passeios temáticos, festivais e encontros regulares. A equipe do instituto também lançou minidocumentários sobre a cultura local. É uma

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maneira de preservar tradições e conhecimentos ameaçados de desaparecer. Antes de Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa já havia publicado um pequeno volume de poemas e a coletânea de contos Sagarana, lançada em 1946. No mesmo ano de 1956, publicou também Corpo de Baile, obra igualmente inventiva, embora menos conhecida que Grande Sertão. Mais tarde, vieram outros volumes de contos, como Primeiras Estórias, em 1962, e Tutameia: Terceiras Estórias, em 1967. Novas coletâneas seriam lançadas após sua morte. Grande Sertão: Veredas também chegou ao cinema em 1965, em uma adaptação dirigida por Geraldo Santos Pereira e Renato Santos Pereira, com Maurício do Valle (1928-1994) no papel de Riobaldo e Sônia Clara como Diadorim. Em 2024, Guel Arraes lançou Grande Sertão, uma releitura moderna da história original. Seja na literatura, seja pelas veredas do Cerrado, os ecos da obra do escritor mineiro permanecem ao alcance de quem estiver disposto a se aventurar. “Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra.”


Natureza à mesa Ingredientes encontrados na floresta ganham espaço na alta gastronomia e abrem possibilidade de renda para comunidades tradicionais

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A grande feira mundial do estilo e do consumo

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Prato preparado (abaixo) com ingredientes silvestres (acima): restaurantes como o estrelado D.O.M. aderiram à tendência

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As regiões produtoras do mundo

SABORES ESCONDIDOS Ao pesquisar variedades nativas da Mata Atlântica e seu potencial gastronômico, Jorge Ferreira, conhecido como Jorge Forager, revela um universo de alimentos silvestres ainda pouco explorado no Brasil

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Por André Sollitto

e acordo com a definição do Dicionário Cambridge, uma das principais referências da língua inglesa, “forager” é aquele que procura alimentos ou itens úteis na natureza. Em português, o termo mais próximo seria “caçador-coletor”: aquele que vive em uma sociedade cuja sobrevivência depende da caça de animais selvagens, da pesca e da coleta de plantas, frutos e raízes silvestres. Foi essa a palavra escolhida por Jorge Ferreira para descrever seu próprio trabalho. Conhecido como Jorge Forager, ele é um etnobotânico com uma missão: estudar, pesquisar e ajudar a difundir o conhecimento sobre a biodiversidade alimentícia e medicinal da flora. Graças ao trabalho com variedades nativas da Mata Atlântica, tem sido requisitado por chefs de cozinha e profissionais do agronegócio para prestar consultoria. “Minha relação com as plantas começou antes mesmo da consciência, de forma muito intuitiva”, diz Ferreira. Ele cresceu no bairro do Sertão do Taquari, na zona rural de Paraty, no litoral do Rio de Janeiro, e, desde pequeno, queria saber o nome de todas as plantas: “Meus pais contam que, se eu via uma planta mordida por algum animal, deduzia que era comestível. Fui crescendo e sugando as informações das pessoas mais velhas do bairro”. Aprendeu a ler com a mãe e não pensava em cursar o ensino superior em uma universidade. “Eu achei que ia viver do sítio, do plantio e da colheita”, diz. A mudança veio em meados dos anos 2000, quando o sítio de sua família passou a trabalhar com os conceitos de agrofloresta e agroecologia. “Passamos a receber estudantes de universidades e percebi que muitas dessas pessoas sabiam menos de 10% do que eu já conhecia da mata na prática”, diz. Ao trocar experiências com amigos, passou a receber materiais de referência sobre botânica, agronomia e biologia e, de maneira autodidata, começou a estudar conceitos fundamentais dessas áreas. “Isso abriu um universo gigante para mim.” Jorge Ferreira começou a ser convidado para eventos e, aos poucos, aproxi-

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W Biodiversidade Jorge Ferreira em ação na floresta: ele passou uma temporada de estudos na Inglaterra antes de consolidar seu trabalho no Brasil

mou-se também de cozinheiros e chefs interessados em explorar novos sabores da Mata Atlântica. Foi assim que conheceu Alex Atala, do D.O.M., em São Paulo. Os dois participaram de um encontro sobre cogumelos selvagens. “Depois que a mesa de debate acabou, o Atala me perguntou qual era meu maior sonho. Disse que era passar uma temporada na Inglaterra com um cara chamado Miles Irving.” Irving é especialista em alimentos silvestres e autor de The Forager Handbook, considerada por especialistas a bíblia da coleta de alimentos silvestres. O trabalho de Ferreira já havia sido comparado ao do britânico, e aquela ideia permanecera em sua cabeça. Atala conhecia Irving e facilitou o encontro. Ferreira, então, passou uma temporada na Inglaterra, onde conheceu o especialista. Durante o intercâmbio, pôde entender como Irving trabalhava. Foi lá que sugeriram que ele criasse um perfil no Instagram chamado “Jorge Forager”, uma marca que traduzisse seu trabalho. “Quando voltei ao Brasil, o Alex Atala fez um post sobre meu trabalho com alimentos silvestres, e eu já voltei incorporando o nome e o conceito de caçador-coletor associado à educação, à percepção e à ecologia, e não apenas à extração”, afirma o etnobotânico. O movimento de “foraging” começou a ganhar força globalmente em meados da década de 2000, graças ao trabalho de Irving e de outros profissionais, que passaram a defender um estilo de vida alternativo, capaz de resistir aos sistemas alimentares industriais por meio de uma conexão mais 84

próxima com a natureza. Como nos casos de Irving e Jorge Ferreira, esse é um caminho que muitas vezes começa pela cozinha. Chefs em busca de novos ingredientes acabam se conectando com pesquisadores, etnobotânicos e outros entusiastas dos alimentos silvestres. O processo de compreender que todo esse conhecimento poderia se transformar em profissão demorou a acontecer. O grande momento de virada em sua trajetória profissional veio quando a Fazenda Bananal, espaço dedicado a eventos fechados em Paraty, convidou Ferreira para pesquisar cogumelos e Plantas Alimentícias não Convencionais (Panc). A fazenda faz parte do grupo Zhouse, holding brasileira focada em negócios de hospitalidade de luxo, turismo sustentável, gastronomia e gestão de propriedades rurais. “Trabalhei criando cardápios, orientando chefs, levando-os à floresta e capacitando o salão a contar a história dos pratos”, diz Ferreira. Depois, passou a atuar também na cadeia produtiva do fruto da palmeira-juçara, percorrendo a Mata Atlântica de ponta a ponta, estruturando a colheita com agricultores e criando produtos a partir do fruto. Hoje, ele trabalha principalmente em três frentes: biodiversidade, mapeando e fazendo o levantamento dos ingredientes de determinada região e identificando seus potenciais e benefícios; agrofloresta, criando e implementando sistemas agroflorestais produtivos; e gastronomia, desenvolvendo cardápios e produtos a partir de ingredientes nativos da Mata Atlântica. Nesta última frente,


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W Biodiversidade

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Fazenda Bananal, em Paraty: espaço dedicado à pesquisa gastronômica com cogumelos e plantas alimentícias não convencionais

vem promovendo especiarias com grande potencial de aceitação nas cozinhas de restaurantes estrelados, principalmente o pacová, conhecido como “cardamomo brasileiro”. Essa é uma das espécies listadas em seu Guia de Plantas Medicinais, que reúne 50 variedades da Mata Atlântica. Em vez de um livro convencional, trata-se de um conjunto de fichas, com ilustrações de um lado e informações técnicas do outro. A venda dessas especiarias e plantas, no entanto, ainda esbarra em gargalos burocráticos. Não há grandes dificuldades quando a produção é pequena e artesanal. Para que um produto como o pacová seja colocado em grande escala nas prateleiras dos supermercados, porém, exige-se uma cadeia rastreada, além de análises físico-químicas complexas e rigorosas. Até mesmo a precificação é um desafio. O apoio de instituições como o Sebrae é fundamental para ajudar a determinar o valor de produtos que nunca haviam sido comercializados. O etnobotânico também promove encontros com jovens, realiza visitas guiadas à floresta e 86

desenvolve atividades principalmente na região de Paraty, onde mora: “O objetivo é mostrar aos jovens de comunidades tradicionais, caiçaras e indígenas que o conhecimento que eles têm sobre a terra e a natureza não é apenas um modo de vida simples, mas um saber valioso que pode se transformar em uma carreira”. Nos últimos meses, Ferreira passou a considerar a possibilidade de transformar a propriedade da família no Sertão do Taquari, em Paraty, localizada dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, em um museu e centro de pesquisa biológica. Seus pais migraram e seus irmãos não atuam na área, mas o sítio possui relevância histórica, cultural e biológica. “A ideia é criar um centro de monitoramento do aquecimento global e da perda de biodiversidade em parceria com organizações como WWF e SOS Mata Atlântica”, diz. Mais do que preservar espécies, o projeto pretende manter vivo um conhecimento cultivado por gerações – e mostrar que a floresta também pode oferecer caminhos para o futuro.


Escala mínima Nanofibras biodegradáveis desenvolvidas pela Universidade de São Paulo favorecem a germinação e o crescimento da soja

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As inovações para o futuro da produção


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As inovações para o futuro da produção

REVOLUÇÃO INVISÍVEL NANOFIBRAS BIODEGRADÁVEIS DESENVOLVIDAS NA USP LIBERAM COMPOSTOS BIOATIVOS DE FORMA GRADUAL, FORTALECEM O INÍCIO DAS LAVOURAS DE SOJA E REDUZEM O DESPERDÍCIO DE INSUMOS

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Por Evanildo da Silveira

ma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) poderá inaugurar uma nova geração de tratamentos de sementes, mais precisos, eficientes e sustentáveis. O sistema utiliza nanofibras biodegradáveis como reservatórios microscópicos de compostos bioativos, liberados de maneira gradual e diretamente ao redor das sementes. Nos primeiros testes, a inovação favoreceu a germinação e o desenvolvimento inicial da soja, principal commodity agrícola brasileira, ao mesmo tempo que reduziu o desperdício de insumos. A tecnologia, que já resultou em um pedido de patente, foi desenvolvida pelo engenheiro biotecnológico Paulo Augusto Marques Chagas durante seu pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP. O sistema utiliza nanofibras curtas de acetato de celulose, produzidas por eletrofiação e modificadas com ácido giberélico – hormônio vegetal que estimula a germinação e regula o crescimento das plantas – ou com nanopartículas de óxido de zinco, micronutriente essencial ao desenvolvimento vegetal. O avanço está justamente na forma como essas substâncias chegam às sementes. Em vez de dispersar os compostos no solo, como ocorre em métodos tradicionais, as nanofibras mantêm os princípios ativos próximos ao local onde devem agir e os liberam aos poucos. A estratégia prolonga sua disponibilidade durante as primeiras etapas da germinação, período em que a planta é mais sensível e depende da oferta adequada de nutrientes e reguladores de crescimento. Segundo Chagas, a pesquisa surgiu da necessidade de superar as limitações das técnicas convencionais. “Muitos tratamentos apresentam perdas por lixiviação, degradação ou baixa permanência junto à semente”, afirma.

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Os resultados obtidos em laboratório mostram que a nanotecnologia pode transformar o tratamento de lavouras

“Por isso, desenvolvemos nanofibras curtas capazes de transportar esses compostos e liberá-los de forma localizada, aumentando o tempo de contato com a semente e reduzindo desperdícios.” As fibras são extremamente finas, medindo cerca de 240 nanômetros de diâmetro, enquanto um fio de cabelo humano tem aproximadamente 50 mil nanômetros. Produzidas com acetato de celulose, um polímero biodegradável, elas recebem durante a fabricação o ácido giberélico ou as nanopartículas de óxido de zinco. Depois, são fragmentadas em segmentos microscópicos, dispersas em água e aplicadas às sementes por pulverização. “As nanofibras funcionam como pequenos reservatórios que permanecem próximos à semente e liberam gradualmente os compostos bioativos durante a germinação”, diz o pesquisador. “Dessa forma, aumentamos o tempo de disponibilidade dessas substâncias exatamente na região em que elas são necessárias.”

A capacidade de direcionar e controlar a liberação representa uma diferença importante em relação aos revestimentos convencionais, nos quais parte considerável dos compostos pode ser carregada pela água, degradada ou dispersa antes de ser absorvida. Nos testes de laboratório, as sementes tratadas com as nanofibras mantiveram índices elevados de germinação e deram origem a plântulas com crescimento significativamente superior ao registrado no grupo de controle. Além de estimular o desenvolvimento inicial da soja, a inovação busca aumentar a eficiência dos insumos agrícolas. Como os compostos são liberados lentamente e ao redor da semente, diminuem as perdas causadas por chuva, irrigação, degradação química e dispersão no solo. Na prática, isso abre a possibilidade de alcançar resultados equivalentes ou superiores aos dos tratamentos tradicionais com quantidades menores de reguladores vegetais e micronutrientes. PLANT PROJECT Nº56

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Inovação A InNano Tecnologia, startup apoiada pela Fapesp, quer levar a descoberta acadêmica para a produção em escala industrial

Para os produtores, o benefício esperado é uma lavoura mais uniforme e vigorosa desde os primeiros dias depois do plantio. “A tecnologia poderá proporcionar melhor estabelecimento da lavoura, maior vigor inicial das plantas e uso mais eficiente de reguladores vegetais e micronutrientes”, diz Chagas. O pesquisador ressalta que o impacto potencial vai além das propriedades rurais. “Para o País, representa um avanço na aplicação da nanotecnologia à agricultura, com o uso de materiais biodegradáveis e a agregação de valor à cadeia produtiva da soja.” Embora os resultados sejam promissores, a tecnologia ainda precisa passar por algumas etapas antes de chegar ao mercado. Os experimentos foram realizados em condições controladas e deverão avançar agora para testes em estufas agrícolas e, posteriormente, no campo. Também serão necessários estudos de estabilidade e viabilidade econômica, a ampliação da produção para escala industrial e avaliações regulatórias. Uma das iniciativas para acelerar esse percurso foi a criação da startup InNano Tecnologia, que recebeu apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A empresa 90

trabalha no desenvolvimento de um processo capaz de produzir as nanofibras em escala industrial. Ainda não há, porém, previsão para que o produto esteja disponível aos agricultores. “As próximas etapas incluem validações em diferentes condições de cultivo, estudos de estabilidade, definição da forma de aplicação em escala agrícola, avaliação econômica e cumprimento das exigências regulatórias”, afirma Chagas. A pesquisa integra um movimento crescente de aplicação da nanotecnologia no agronegócio, em busca de soluções capazes de elevar a produtividade sem aumentar na mesma proporção o consumo de fertilizantes e outros insumos. No caso da soja, cultura que ocupa cerca de 48 milhões de hectares no Brasil e responde por 14% das exportações nacionais, qualquer avanço que aumente o vigor das plantas desde a germinação pode favorecer a uniformidade das lavouras e ampliar o aproveitamento de seu potencial produtivo. Se os resultados forem confirmados em condições reais de cultivo e a tecnologia superar as etapas regulatórias, esses reservatórios invisíveis poderão tornar o início da lavoura mais eficiente e reduzir o impacto ambiental da produção agrícola.


A sombra que transforma Miniflorestas comunitárias ampliam a arborização, reduzem o calor e ajudam as cidades brasileiras a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas

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As regiões produtoras do mundo


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As regiões produtoras do mundo

PLANTAR PARA RESPIRAR DA CRIAÇÃO DE MINIFLORESTAS COMUNITÁRIAS À ADOÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS, INICIATIVAS DE ARBORIZAÇÃO GANHAM FORÇA NAS CIDADES BRASILEIRAS PARA CONTER O CALOR, MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA E AMPLIAR A CONSCIÊNCIA AMBIENTAL

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Por Romualdo Venâncio

m meio às informações quase diárias sobre os impactos das mudanças climáticas, surgem também notícias de soluções capazes de amenizar o quadro preocupante de elevação das temperaturas. No campo, tecnologias inovadoras são associadas a práticas tradicionais, como o plantio de árvores, dando origem a sistemas bem-sucedidos, como a integração entre lavoura, pecuária e floresta. Como a preocupação não se restringe ao meio rural, os centros urbanos também buscam saídas para esse desequilíbrio ambiental. Uma das principais é a arborização das metrópoles. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o calor representa um risco significativo, pois o estresse térmico é reconhecido como uma das principais causas de mortes relacionadas ao clima. Além disso, pode agravar doenças preexistentes, como problemas cardiovasculares, diabetes, transtornos de saúde mental e asma, entre outras complicações. A vegetação urbana é um instrumento eficaz para combater essas ameaças, pois reduz a temperatura nas ilhas de calor, filtra a radiação ultravioleta, aumenta a umidade do ar, funciona como barreira contra o vento e a poluição sonora e ajuda a diminuir a poluição atmosférica. Mas os benefícios vão além: as árvores sequestram carbono da atmosfera, protegem o solo contra a erosão, favorecem a infiltração da água da chuva na terra e promovem a biodiversidade. Todos esses fatores são apresentados no estudo “Influência de espécies arbóreas no microclima urbano de cidades brasileiras”, publicado pela revista Geousp, da Universidade de São Paulo. A pesquisa reuniu informações sobre o impacto da arborização no microclima de cidades brasileiras, com base em 32 espécies

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Até 2045, o Plano Nacional de Arborização pretende acrescentar 365 mil hectares de cobertura vegetal às cidades brasileiras

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analisadas em dez estudos científicos publicados entre 1998 e 2018. O trabalho identificou, conforme as condições de medição, aumentos de 1,6 a 22% na umidade relativa do ar e reduções de 2,1 °C a 15,5 °C na temperatura das superfícies sombreadas e de 1 °C a 16,4 °C na temperatura do ar. O reconhecimento dos benefícios da arborização urbana é global, embora naturalmente existam particularidades regionais. Um estudo liderado pela organização ambiental sem fins lucrativos The Nature Conservancy, publicado revista científica Nature Communications e abrangendo 8.919 grandes áreas urbanas, concluiu que a 94

cobertura arbórea pode reduzir entre 41 e 49% a intensidade máxima das ilhas de calor. A pesquisa reuniu informações de sensoriamento remoto dessas localidades, incluindo medições da cobertura arbórea e da temperatura da superfície terrestre, além de estimativas da temperatura do ar. Investir em arborização também produz benefícios econômicos, pois reduz o consumo de energia com refrigeração, atrai visitantes para parques e outras áreas verdes, diminui os gastos públicos provocados por eventos climáticos extremos, diminui os custos associados a enchentes e gera valorização imobiliária.


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CEU Parque Novo Mundo (à esq.) e Parque Prainha Abreu, no Grajaú, ambos em São Paulo: plano prevê recuperar áreas urbanas

Tudo isso se soma aos ganhos sensoriais proporcionados pelas cores, pelos odores e até pelos sabores, além da satisfação visual de estar em uma área repleta de árvores. Em razão desses e de outros fatores, o Brasil ganhou um Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), estabelecido em março deste ano pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Conforme a descrição oficial, trata-se de um “instrumento de planejamento estratégico que visa ampliar a cobertura arbórea nas cidades brasileiras, promover a biodiversidade urbana e gerar benefícios econômicos, sociais,

ambientais e climáticos, por meio da coordenação de ações, da criação de condições favoráveis, da orientação de diferentes setores e do fomento à arborização urbana de forma equitativa, com a justa distribuição dos seus benefícios nos territórios urbanos”. Entre as metas a serem cumpridas até 2045, o PlaNAU pretende elevar para 65% a parcela de moradores que contam com três árvores ou mais no entorno de seu domicílio, ampliar em 365 mil hectares a cobertura vegetal em áreas urbanas e fazer com que 100% dos entes federativos tenham instrumentos de planejamento para a arborização. PLANT PROJECT Nº56

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Para isso, o MMA conta com a parceria de diversos outros órgãos federais, estaduais e municipais e diferentes institutos de pesquisa. Antes mesmo dessa iniciativa, várias outras ações já vinham sendo desenvolvidas para transformar tanto a cobertura arbórea quanto a percepção e a consciência da população sobre o tema. Um exemplo vem da organização sem fins lucrativos Formigas de Embaúba, que promove educação ambiental por meio do plantio participativo de miniflorestas comunitárias em escolas e outros equipamentos públicos da cidade de São Paulo e de municípios do interior do estado. 96

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Mais do que investir no plantio de árvores, a instituição promove o engajamento das comunidades no cultivo. O projeto nasceu em 2019 e, até o ano passado, já havia plantado 52 miniflorestas, com dimensões entre 150 e 1.500 metros quadrados. Para 2026, a previsão é implantar mais 15. Ao todo, foram plantadas 29 mil árvores de 136 espécies, com mais de 13 mil pessoas beneficiadas pelas atividades pedagógicas e cerca de 62 mil alcançadas pelas miniflorestas. Os primeiros projetos foram realizados em Centros Educacionais Unificados (CEUs), em parceria com a Secretaria Municipal de Educa-


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Crianças e adultos plantam mudas em São Paulo e Cuiabá: mobilização coletiva é vital para transformar a vida nos espaços urbanos

ção. As áreas com condições de receber as miniflorestas são identificadas via satélite pelo MapBiomas, parceiro da organização. “É importante que seja um terreno mais plano, acessível”, diz a educadora ambiental e coordenadora pedagógica do Formigas de Embaúba, Evellyn Nascimento. Depois de definir um espaço adequado para receber a minifloresta, a organização procura a direção do CEU para oficializar a proposta. Resolvidas as questões técnicas e administrativas e obtida a aprovação da instituição de ensino, começa a etapa de captação de recursos, a chamada parceria institucional.

O projeto não recebe verba pública, seja do estado, seja do município. Todo o financiamento vem de empresas ou instituições financeiras interessadas em patrociná-lo e que estejam de acordo com os princípios da organização, sobretudo o de jamais separar o plantio de árvores das atividades pedagógicas. Se o combate aos efeitos das mudanças climáticas também exige uma revisão de conceitos e maior conscientização ambiental, iniciar esse processo pela sensibilização das crianças representa um avanço importante. “Os estudantes transformam o próprio território e passam a ver aquele PLANT PROJECT Nº56

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Fr Cidades Evellyn Nascimento, do Formigas de Embaúba: educação ambiental acompanha o plantio e torna as cidades mais verdes e habitáveis

espaço de outra maneira”, afirma Evellyn. Todas as atividades são realizadas ao ar livre. No plantio de cada minifloresta, reserva-se uma clareira para funcionar como sala de aula. Para muitos estudantes, o contato com as sementes, as plantas e as mudas é uma experiência inédita e inspiradora. A vivência desperta a curiosidade pela composição do solo, pelo desenvolvimento das árvores, pelo cuidado com as plantas e até pela importância dos insetos. Há um despertar coletivo para a restauração ecológica. “O plantio é só parte do projeto, o coração está muito no pedagógico”, diz Evellyn. O Formigas de Embaúba utiliza o método japonês de plantio Miyawaki, com duas a três mudas por metro quadrado, o que garante maior densidade de árvores. A organização conta com uma equipe técnica de plantio responsável por escolher as espécies utilizadas em cada projeto. Também são plantadas sementes de adubação verde, como girassol, nabo forrageiro e abóbora, para cobrir, proteger e nutrir o solo. Essas plantas ajudam a fixar umidade e nitrogênio. A grande maioria das espécies selecionadas é nativa da Mata Atlântica. No máximo, são incluídas algumas opções alimentares, sobretudo para estimular uma aproximação maior das pessoas. Além dos espaços de ensino, o projeto passou a ser implantado em Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e parques. A maior ação de plantio foi realizada no Parque Prainha Pabreu, na zona sul de São Paulo, com 2 mil mudas. Com o passar do tempo, as miniflorestas crescem e a transformação se torna evidente, seja pela paisagem, seja pela mudança do clima na própria área e em seus arredores. A contribuição para amenizar os impactos das mudanças climáticas e aumentar o grau de conscientização sobre o tema também vem acompanhada de receios diante das intempéries do clima. “A gente está se aproximando de um El Niño e isso tem mexido bastante com nossos 98

plantios”, diz Evellyn. “Temos preocupação com o risco de uma onda de calor impedir alguma atividade ou de uma ventania muito forte nos impedir de estar com as crianças.” Outra iniciativa que ultrapassou a fronteira do plantio de árvores está na capital de Mato Grosso. A Associação Cuiabá Mais Verde, que começou a se formar em 2020, ampliou sua atuação para abranger políticas públicas, educação ambiental, articulação institucional e mobilização da sociedade em torno da arborização da cidade. “Precisamos ter educação ambiental para que as folhas das árvores não sejam tratadas como lixo, para que não sejam feitas podas drásticas que prejudicam ou matam as árvores”, diz a presidente da entidade, Silvia Mara Martins. De acordo com a dirigente, o principal objetivo é proporcionar conforto climático à cidade, pois Cuiabá tem sofrido cada vez mais tanto com as secas quanto com as enchentes, agravadas pela dificuldade de vazão da água. Outro ponto crucial na pauta da entidade é a compensação ambiental, processo que pode ser realizado por meio do plantio de árvores, mas não sem o devido planejamento técnico. “Não é só plantar, precisa plantar a árvore certa e cuidar dela”, diz Silvia Mara. Entre as metas da Cuiabá Mais Verde estão ampliar as ações de educação ambiental para crianças, conquistando espaço dentro das escolas, levar agroflorestas aos bairros e intensificar a cobrança por políticas públicas que beneficiem a cidade e seus moradores. Há uma preocupação especial com as parcelas mais carentes da população. “O aquecimento que estamos testemunhando vai pesar mais para a periferia, pois há casas sem estrutura suficiente, falta saneamento básico”, diz Silvia Mara. “Daí a importância de entender as diferentes realidades, pois todos fazem parte da cidade.” De uma forma ou de outra, em maior ou menor escala, o futuro do planeta já está sendo cultivado.


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UM FESTIVAL NO CORAÇÃO DO AGRO Pela primeira vez fora de São Paulo, o GAFFFF desembarca em Sorriso (MT) e transforma a capital nacional dos grãos em palco de negócios, conhecimento, cultura e inovação P or T hiago G alante

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á eventos que fazem de um único endereço parte de sua identidade. Outros crescem, atravessam fronteiras e conquistam novos territórios. O Global Agribusiness Festival (GAFFFF) pertence ao segundo grupo. Em 2026, o maior festival de cultura agro do mundo ganhou uma segunda casa: Sorriso, em Mato Grosso, que recebeu a primeira edição realizada fora de São Paulo. Ao desembarcar no norte mato-grossense, o festival não apenas ampliou sua presença geográfica, mas também levou os grandes debates do setor para mais perto de quem produz boa parte dos alimentos que abastecem os centros urbanos. Com apoio oficial da prefeitura, a DATAGRO realizou o GAFFFF no município que ostenta o título de maior produtor individual de grãos do mundo e transformou uma área de 10 hectares em um amplo espaço dedicado ao agronegócio. Em menos de 90 dias, toda a estrutura foi erguida para receber produtores, pesquisadores, empresários, investidores, estudantes, autoridades e famílias. A programação foi organizada em torno dos quatro “Fs” que dão nome ao evento: Forum, com conteúdo e debates estratégicos; Fair, voltado a expositores e negócios; Food, dedicado às experiências gastronômicas; e Fun, com atrações de entretenimento e cultura. “O GAFFFF tem como objetivo valorizar e reconhecer o trabalho realizado pelo agronegócio de forma economicamente viável e de acordo com os mais elevados padrões de sustentabilidade. Sorriso é um exemplo pela produtividade, pela integração das cadeias produtivas e por representar o epicentro do agronegócio e do desenvolvimento sustentável da produção no País”, disse Plinio Nastari, presidente da DATAGRO, durante a cerimônia de abertura. Os números divulgados pela organização dão a dimensão da estreia mato-grossense. Durante os quatro dias de programação, entre 23

e 26 de julho, mais de 15 mil pessoas passaram pelo festival. Foram 87 horas de atividades distribuídas por sete espaços simultâneos, com 90 palestrantes no Palco Fórum, 22 atrações culturais no Palco Sementes, 71 patrocinadores, 135 marcas participantes, 60 expositores credenciados e 34 agricultores familiares vendendo seus produtos diretamente ao público. Para o anfitrião, o prefeito Alei Fernandes, receber o festival significou mais do que sediar um evento inédito no município: representou o reconhecimento do protagonismo conquistado pela cidade. “Sorriso produz alimentos para o Brasil e para o mundo. Agora, também passa a ser um espaço onde se discutem as grandes decisões, as tendências e as inovações que vão definir o futuro do agro”, ressaltou. O sentimento foi compartilhado pelo presidente de honra do GAFFFF Sorriso, Paulo Lucion, que viu no festival uma oportunidade de aproximar o conhecimento e a inovação de quem vive diariamente a realidade do campo. “Se somos referência no agronegócio, queremos também ser referência em tecnologia, inovação e formação de lideranças”, afirmou. Ao longo dos quatro dias, o GAFFFF reuniu lideranças nacionais e internacionais para discutir temas que definem a competitividade do agronegócio brasileiro. A agenda incluiu infraestrutura logística, crédito rural, mercado de carbono, inteligência artificial, conectividade, sustentabilidade, sucessão familiar, formação de lideranças, inovação, geopolítica, agregação de valor e construção de marcas. CRÉDITO AGRÍCOLA EM TRANSFORMAÇÃO Com a taxa básica de juros, a Selic, em nível historicamente elevado, o acesso ao crédito voltou ao centro das discussões do agronegócio. Um dos painéis do GAFFFF Sorriso reuniu representantes PLANT PROJECT Nº56

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do BNDES, do mercado financeiro e do direito do agronegócio e mostrou que, embora o Plano Safra 2026/27 ofereça o volume recorde de R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, o financiamento da atividade atravessa uma fase de transição. Ao lado das linhas tradicionais, instrumentos do mercado de capitais ganham espaço para atender à demanda crescente por recursos destinados ao custeio, à armazenagem, aos investimentos em tecnologia e à expansão das propriedades. Para Renato Buranello, presidente do Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio (IBDA), “o atual modelo de crédito está muito próximo de um cenário de esgotamento”, o que torna neces102

sária a construção de alternativas capazes de sustentar o crescimento do agro brasileiro. A avaliação foi reforçada por Guilherme Cunha, sócio-fundador da Ceres Investimentos. Segundo ele, “o futuro do financiamento do setor terá que ser liderado pelo mercado de capitais e pelo crédito privado, o que exige do governo um trabalho rigoroso de controle de despesas para manter a Selic comportada e evitar distorções nas margens dos produtores nos próximos anos”. SUPERSAFRAS DE MILHO NA AMÉRICA DO SUL A produção de milho na América do Sul esteve


no centro de outro painel, que reuniu Federico Zerboni, presidente da Asociación Maíz y Sorgo Argentino (Maizar), e Paulo Bertolini, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho). A discussão ganha relevância diante das supersafras que estão sendo concluídas no Brasil e na Argentina. Segundo dados da DATAGRO apresentados por Flávio França Júnior, líder de pesquisa da área de grãos da consultoria, o Brasil deverá colher 145 milhões de toneladas do cereal na temporada 2025/26, considerando as safras de verão e de inverno. O volume representa crescimento de 1,5% em relação ao ciclo anterior e estabelece um recorde histórico.

Na Argentina, entidades agrícolas projetam uma produção superior a 65 milhões de toneladas de milho na temporada 2025/26, resultado que também representaria um recorde e criaria um grande excedente exportável. Na avaliação de Zerboni, porém, o País ainda precisa avançar na industrialização e na agregação de valor à matéria-prima, seguindo caminhos já percorridos pelo Brasil, como o desenvolvimento das usinas de etanol de milho. TECNOLOGIA COMO MOTOR DA PRÓXIMA REVOLUÇÃO A transformação digital da agricultura doPLANT PROJECT Nº56

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minou o painel dedicado à inovação, que reuniu representantes da Sociedade Rural Brasileira (SRB), do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) e do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O debate mostrou que conectividade, inteligência artificial, sensores, drones e análise de dados deixaram de ser apenas tendências e se tornaram ferramentas essenciais para a gestão das propriedades rurais. De acordo com os especialistas, a combinação entre infraestrutura de comunicação, pesquisa aplicada e conhecimento agronômico será decisiva para elevar a produtividade e a rentabilidade no campo. Como resumiu o presidente da SRB, 104

Sérgio Bortolozzo, “a revolução tecnológica foi fundamental para transformar o Brasil em uma referência global no agronegócio”. MERCADO DE CARBONO ENTRA NA ROTA DO AGRO A neutralidade de carbono foi tratada como uma questão de negócios, e não apenas ambiental, durante o painel dedicado aos caminhos do agronegócio rumo às metas de redução de emissões previstas para 2030 e 2050. Os especialistas mostraram como a crescente exigência por sustentabilidade tem levado investidores e instituições financeiras a incorporar critérios am-


bientais tanto na concessão de crédito quanto na avaliação de ativos. O debate também evidenciou o potencial do Brasil para liderar o mercado mundial de créditos de carbono, desde que os projetos necessários para aproveitar essa oportunidade comecem a ser estruturados desde já. “Se quisermos gerar crédito de carbono e garantir receita no futuro, o momento de agir é agora”, afirmou José Renato da Costa Alberto, diretor técnico da DATAGROSAT. LIDERANÇA FEMININA EM FOCO O protagonismo das mulheres no campo esteve no centro de um dos painéis mais inspi-

radores do GAFFFF Sorriso. Com a participação de produtoras rurais, empresárias e representantes de entidades do setor, o debate mostrou como a presença feminina tem avançado na gestão das propriedades, no empreendedorismo, na representação institucional e nos processos de sucessão familiar. As participantes ressaltaram que a diversidade contribui para tornar o agronegócio mais inovador, profissional e preparado para os desafios que se apresentam. “As mulheres sempre estiveram no agro, mas não tinham voz, não estavam na frente. Agora, com as esposas e filhas, estamos passando por uma fase de transição na gestão PLANT PROJECT Nº56

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das propriedades. A nossa missão é mostrar as potencialidades que a gente tem e o quão promissor e gigante é esse mar de possibilidades para as novas gerações”, afirmou Cristiane Santos, sócia-fundadora da CS Group. GESTÃO PÚBLICA ENTRA EM PAUTA No terceiro dia do GAFFFF Sorriso, a administração dos municípios movidos pelo agronegócio ganhou espaço com o encontro “Prefeitos do Agro”. Realizada paralelamente à feira e ao fórum, a iniciativa da DATAGRO reuniu 163 lideranças públicas para discutir infraestrutura, logística, atração de investimentos e os desafios 106

enfrentados pelas cidades cujo crescimento é impulsionado pelo campo. A programação combinou debates técnicos com uma tradicional cavalgada, valorizando a cultura regional e aproximando os gestores públicos das demandas do setor produtivo. Segundo Luiz Felipe Nastari, diretor de eventos da DATAGRO, “o objetivo do projeto é criar uma rede de capacitação, relacionamento e informação para os prefeitos dos municípios do agro”. O ESPORTE DO AGRO Como parte da programação do GAFFFF, a prefeitura de Sorriso se uniu à Professional Bull


Riders (PBR) Brazil para promover o PBR Grand Rodeo. O torneio, que integrou a temporada regular do Campeonato Brasileiro de Montaria em Touros, distribuiu R$ 500 mil em prêmios. “Estamos muito felizes com os resultados desta primeira edição do PBR Grand Rodeo. O público de Sorriso demonstrou que é realmente apaixonado pelo nosso esporte e nos ajudou a realizar um espetáculo histórico”, afirmou Adriano Moraes, presidente da PBR Brazil. Na arena, o destaque foi Alex de Oliveira, de Queiroz (SP), que recebeu um bônus de R$ 250 mil depois de vencer os cinco touros que montou durante a competição. Com as premiações extras das rodadas, o atleta

acumulou pouco mais de R$ 267 mil, a maior quantia já paga em uma única etapa da PBR no Brasil em mais de duas décadas de história. DATA MARCADA PARA O REENCONTRO Após o sucesso da estreia, o GAFFFF confirmou seu retorno a Sorriso em 2027, entre 4 e 7 de agosto. Antes disso, o maior festival de cultura agro do mundo será realizado pelo terceiro ano consecutivo em São Paulo, no Nubank Parque, nos dias 1º e 2 de outubro de 2026. “Mais de 15 mil pessoas passaram por aqui ao longo desses quatro dias. Sem dúvida, o GAFFFF Sorriso veio para ficar”, concluiu Luiz Felipe Nastari. PLANT PROJECT Nº56

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O CAMPO AMPLIA FRONTEIRAS Em sua sétima edição, o DATAGRO Abertura de Safra – Soja, Milho e Algodão destaca o avanço da industrialização do agronegócio, que transforma commodities em alimentos e energia limpa e renovável P or R onaldo L uiz

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o dia 20 de agosto, Goiânia (GO) recebeu, pelo segundo ano consecutivo, o DATAGRO Abertura de Safra – Soja, Milho e Algodão. Consolidado no calendário do setor de grãos, o evento marca oficialmente o início da temporada produtiva das três culturas. Organizada pela DATAGRO, com apresentação oficial da Koppert, a conferência chegou à sétima edição reunindo mais de 420 lideranças e tomadores de decisão do agronegócio nacional em um ambiente de troca de experiências e discussões sobre a safra 2026/27. Como de costume, a DATAGRO apresentou suas estimativas iniciais para o próximo ciclo, que apontam para colheitas recordes de soja e milho, superiores a 185 milhões e 147 milhões de toneladas, respectivamente. Ao longo de seis horas de conteúdo técnico, os participantes também discutiram a competitividade do algodão diante das fibras sintéticas, os desafios de logística e infraestrutura e a crescente integração entre as cadeias de grãos, pecuária e bioenergia. Na cerimônia de abertura, o anfitrião do evento, o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, destacou o avanço da integração entre as diferentes cadeias produtivas do agronegócio brasileiro. Segundo ele, o País atravessa uma jornada virtuosa de industrialização das commodities, com a produção de alimentos e de energia limpa e renovável. “A conexão entre grãos, fibras, carnes, cana e biocombustíveis é um diferencial do agro brasileiro”, disse. “O cultivo de grãos está na base dos biocombustíveis, com a soja no biodiesel e o milho no etanol, e também fornece óleos vegetais, farelo e DDG, que são insumos para a produção de frangos, suínos e bovinos. Esse processo contribui para a intensificação da pecuária e vem resultando no crescimento das exportações brasileiras de carnes, sem nos esquecermos também do algodão destinado à indústria têxtil.” Essa evolução, ressaltou Nastari, foi planejada e envolveu a incorporação de tecnologias e a criação de novos modelos de negócios, que vêm gerando renda, empregos, desenvolvimento socioeconômico nos polos agrícolas e divisas para o País. De acordo com o presidente da DATAGRO, toda essa transformação, acompanhada de oportunidades para agregar valor à produção e ampliar a renda dos produtores, reforça o papel do Brasil na segurança alimentar e energética global. O diretor de Economia e Assuntos Regulatórios

da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Furlan, também destacou as oportunidades abertas pelo uso de biocombustíveis na fabricação de combustíveis sustentáveis para os setores de aviação e transporte marítimo. Durante a solenidade, autoridades e dirigentes chamaram a atenção para os desafios que cercam o agronegócio. O diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes, mencionou o elevado grau de endividamento do setor. Representando o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner, o superintendente do Senar Goiás, Dirceu Borges, citou os impactos dos tarifaços internacionais, das oscilações climáticas e das guerras em curso. Já o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO), Clodoaldo Calegari, e o diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Glauber Silveira, ressaltaram a importância de o agronegócio valorizar seus representantes no Legislativo, especialmente em um ano de eleições gerais. A cerimônia de abertura contou ainda com a participação do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e do Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg), André Rocha; do presidente da Associação Goiana dos Produtores de Algodão (Agopa), Haroldo Rodrigues da Cunha; do secretário de Indústria, Comércio e Serviços de Goiás, Joel de Sant’Anna Braga Filho; e da deputada federal Marussa Boldrin. RECORDE PARA A SOJA A DATAGRO apresentou suas primeiras perspectivas para a próxima temporada de grãos em um cenário marcado pela expectativa de produção recorde de soja no Brasil, pela demanda global aquecida e pela atenção redobrada aos possíveis efeitos do clima sobre as lavouras. As projeções foram discutidas no painel “Panorama DATAGRO de Produção e Mercado de Grãos – Perspectivas para a Próxima Safra e o Longo Prazo”, moderado por Flávio Roberto de França Júnior, líder da área de Grãos da DATAGRO. O encontro contou com a participação dos analistas de mercado de grãos da consultoria Gabriel Bastos e Pedro Bohn Schmaedecke. Entre os principais números apresentados, o levantamento anual de intenção de plantio da DATAPLANT PROJECT Nº56

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GRO Grãos indica que a área cultivada com soja no Brasil deverá crescer pelo 20º ano consecutivo na safra 2026/27, passando de 49,187 milhões de hectares no ciclo atual para 49,320 milhões de hectares. Caso se confirme, será a menor expansão da área desde a retração registrada na temporada 2006/07. Mesmo com o crescimento marginal da área, a expectativa inicial é de uma produtividade média de 3.763 quilos por hectare, o que permitiria alcançar uma produção potencial de 185,568 milhões de toneladas. O volume seria 1% superior às 182,853 milhões de toneladas estimadas para 2025/26 e estabeleceria um novo recorde para a produção brasileira da oleaginosa. No milho, a DATAGRO trabalha atualmente com uma produção de 145,228 milhões de toneladas na soma das safras de verão e inverno de 2025/26. O volume supera tanto as 143,305 milhões de toneladas 110

colhidas no ciclo anterior quanto a estimativa de 142,253 milhões apresentada em junho. Para a próxima temporada, a expectativa inicial é de um novo avanço da área cultivada, de aproximadamente 22,9 milhões para 23,6 milhões de hectares, considerando a primeira e a segunda safras. Apesar da perspectiva de crescimento da produção brasileira, o comportamento do clima desponta como um dos principais fatores de risco para a safra 2026/27. No caso da soja, a DATAGRO avalia que o desempenho produtivo deverá ser favorecido principalmente pelas regiões Centro-Sul, enquanto áreas do Norte e do Nordeste poderão registrar rendimentos um pouco menores. Assim, mesmo diante de uma safra potencialmente recorde, o balanço doméstico permaneceria ajustado, com estoques projetados em cerca de 2,6 milhões de toneladas e bastante sensíveis aos eventuais efeitos do El Niño.


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Além do clima, o painel chamou a atenção para o avanço da demanda mundial por commodities agrícolas e seus reflexos sobre os estoques. No caso da soja, apesar da perspectiva de crescimento da produção global, impulsionada principalmente pelos Estados Unidos, a expansão do consumo vem pressionando a relação entre os estoques e a demanda. No Brasil, a combinação entre o forte processamento doméstico e as exportações, sobretudo para a China, tende a manter o balanço apertado e poderá sustentar os prêmios da soja brasileira, favorecendo sua competitividade diante de outros grandes exportadores. Para o milho, Gabriel Bastos apontou uma perspectiva de maior aperto entre a oferta e a demanda. A produção mundial tende a recuar, com expectativa de redução da oferta nos Estados Unidos e em parte da América do Sul, en-

quanto o consumo continua crescendo. Entre os principais vetores desse movimento estão a expansão da produção pecuária, que aumenta a necessidade de milho para ração, e o crescimento da indústria de etanol de milho. No Brasil, a DATAGRO também projeta aumento do uso do cereal nos próximos ciclos, tanto na alimentação animal quanto nas usinas de etanol. Ao resumir o cenário, França afirmou que a combinação entre demanda aquecida e redução dos estoques tende a criar um ambiente mais favorável para as cotações agrícolas. A avaliação apresentada no painel aponta para preços mais firmes em 2027, depois de um 2026 já melhor que 2025, em um movimento que poderá marcar o início de um novo ciclo de valorização das commodities agrícolas. Essa perspectiva ganha importância diante do aumento dos custos enfrentados pelo produtor PLANT PROJECT Nº56

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brasileiro. Insumos mais caros, elevação dos custos de produção e condições de crédito mais restritivas reduziram as margens do setor nos últimos ciclos. Nesse contexto, uma eventual recuperação das cotações será importante para recompor a rentabilidade no campo. PRODUÇÃO DE ALGODÃO DEVE AVANÇAR A safra brasileira de algodão 2026/27 tem potencial para atingir 9,7 milhões de toneladas, diante de um volume previsto de 9,5 milhões para o ciclo 2025/26, ainda em curso e com cerca de 60% da área já colhida. Os números foram apresentados pelo analista de mercado da DATAGRO Pedro Bohn Schmaedecke. Segundo Schmaedecke, a área plantada deverá registrar um avanço marginal na próxima temporada. A produtividade média, no entanto, poderá cair aproximadamente 1%, para 1.828 quilos 112

por hectare, em razão das adversidades climáticas. O impacto ambiental das fibras sintéticas começa a incomodar a sociedade de maneira mais intensa, abrindo uma nova janela de oportunidades para o algodão no mercado têxtil global. Esse foi o recado positivo para a cotonicultura apresentado pelo pesquisador da Embrapa Algodão João Paulo Saraiva Morais. Segundo Morais, os problemas ambientais e de saúde associados aos produtos sintéticos começam a ganhar maior visibilidade entre os consumidores. “São desafios relacionados à dependência de matérias-primas não renováveis, ou seja, de fontes fósseis. Por serem derivados do petróleo, os sintéticos liberam gases de efeito estufa, não são biodegradáveis, entre outros pontos”, afirmou o pesquisador. Ele ressaltou, porém, que o principal problema atual está nos microplásticos associados aos tecidos


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sintéticos. “Essas pequenas partículas, devido ao seu volume gigantesco, passaram a poluir o solo e a água e, involuntariamente, claro, começaram a ser ingeridas pelas pessoas, provocando danos à saúde.” De acordo com Morais, mais de 5 mil artigos científicos sobre o tema foram publicados desde 2023. TRANSPORTE E ARMAZENAGEM SÃO GARGALOS Apesar de avanços pontuais registrados nos últimos anos, como o aumento da participação dos portos do Arco Norte no escoamento da safra de grãos – que atualmente respondem por cerca de 36% do volume exportado –, a infraestrutura de transporte e armazenagem permanece como um gargalo relevante para o setor produtivo nacional, incluindo o agronegócio. Durante o evento, o secretário de Política Agríco-

la do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Guilherme Campos, apresentou estatísticas que evidenciam as principais deficiências da matriz logística brasileira. Atualmente, 61% do transporte de cargas é realizado por rodovias, mas somente um terço delas apresenta boas condições. Apenas 16,4% da safra de grãos é escoada por ferrovias e, embora 29% dos rios brasileiros sejam navegáveis, somente 2% dos grãos são transportados por hidrovias. O quadro da armazenagem também preocupa. Apenas 15% dos armazéns estão localizados dentro das propriedades rurais, e a capacidade total de estocagem corresponde a somente 60% da safra nacional. “O recomendável é que a armazenagem seja capaz de absorver uma safra e meia”, afirmou o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari. “Sem conseguir estocar, o produtor acaba tendo de vender a colheita no pico da safra, obtendo preços menores.” PLANT PROJECT Nº56

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CARTEIRA DE CRÉDITO RURAL O diretor executivo da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Goiás (Aprosoja-GO), Leonardo Machado, apresentou um balanço da entidade segundo o qual aproximadamente 27% da carteira de crédito rural do estado está estressada, ou seja, com pagamentos atrasados ou operações em renegociação. De acordo com ele, o cenário decorre da elevação dos custos dos insumos agropecuários, dos juros altos, dos efeitos climáticos e da conjuntura geopolítica, entre outras variáveis que pressionam as margens e afetam a rentabilidade dos produtores. Diante desse quadro, o assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Lucas Lopes, mencionou ainda as despesas decorrentes dos reajustes da energia elétrica e dos combustíveis, além do chamado “Custo Brasil”, associado às deficiências da infraestrutura de 114

transporte e armazenagem. “A busca por mão de obra qualificada também é outro gargalo enfrentado pelo setor”, lembrou o analista técnico do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Vilmar Euripedes da Silva Junior. O presidente executivo da Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (Adial), Edwal Freitas Portilho, observou que, apesar de todos esses problemas, o agronegócio goiano vem ampliando os investimentos em boas práticas agrícolas e agricultura regenerativa, além de buscar novas oportunidades de negócios no mercado internacional. EXPANSÃO DOS BIOINSUMOS Embora os bioinsumos não sejam uma novidade, o mercado tem registrado forte expansão do uso dessa tecnologia nos últimos anos. De acordo com o diretor comercial de Grãos e HF da Koppert


Patrocínio

Brasil, Rodrigo Rodrigues, a produção de novas moléculas químicas está estagnada. “Por outro lado, a pesquisa de soluções biológicas está em uma trajetória acelerada de crescimento.” Segundo o executivo, o tempo necessário para desenvolver novas moléculas químicas e os custos elevados desse processo têm levado as empresas a ampliar os investimentos em produtos elaborados com matérias-primas biológicas. Outro fator, lembrou Rodrigues, é a perda das patentes dos insumos químicos, que ocorre, segundo ele, dez anos depois do lançamento. “Além disso, enquanto um produto químico pode levar até 24 anos para ser desenvolvido, o bioinsumo apresenta um tempo médio de desenvolvimento de oito anos.” INDICADORES DATAGRO DE BOI E MILHO O painel de encerramento contou com uma

apresentação do líder de Pecuária da DATAGRO, João Otávio Figueiredo, que destacou a expansão dos indicadores de preços da consultoria, especialmente aqueles dedicados à bovinocultura e ao milho. O Indicador do Boi DATAGRO reúne 1,5 mil municípios cadastrados, 5,1 mil colaboradores parceiros e 5,2 mil propriedades. “O indicador liquida o boi diariamente, e não apenas os contratos futuros negociados em bolsa.” Em relação ao Indicador do Milho DATAGRO, Figueiredo explicou que já foram realizadas 120 reuniões com representantes da cadeia produtiva do grão e firmados 20 acordos de confidencialidade. O aplicativo do projeto conta com 200 usuários e é utilizado em oito estados. “Trata-se do primeiro indicador que faz a ponderação por volume e preço. Em seis meses de projeto, já foram registradas 120 milhões de sacas em negócios, com 50 colaboradores reportando ativamente.” PLANT PROJECT Nº56

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