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EDIÇÃO 55

Page 75


Para quem pensa, decide e vive o agribusiness

venda proibida distribuição dirigida www.plantproject.com.br

CONSERVAR COMPENSA

O agro descobre que a floresta pode ser um excelente negócio

A USINA REINVENTADA

Açúcar e etanol dividem espaço com novas fontes de receita

ONDE NASCE A RIQUEZA POR QUE SORRISO VIROU A PRINCIPAL VITRINE DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA NACIONAL

O LABORATÓRIO DA FAZENDA AS DORES DO CAMPO INSPIRAM AS TECNOLOGIAS DO FUTURO

É HORA DE ACELERAR BILHÕES EM INVESTIMENTOS

PROMETEM MODERNIZAR AS ESTRADAS DO PAÍS

OFENSIVA CHINESA

A guerra das máquinas chega às fazendas brasileiras

20 DE AGOSTO

GOIÂNIA, GOIÁS WTC

O encontro que abre oficialmente a temporada das principais culturas agrícolas do país, reunindo especialistas, produtores e lideranças para discutir mercado, perspectivas da nova safra e oportunidades para o setor.

16 DE SETEMBRO

CLUBE ATLÉTiCO MONTE LÍBANO

SÃO PAULO, SP

Um dos principais encontros da cadeia pecuária brasileira, reunindo lideranças, especialistas e empresas para debater tendências, mercado, inovação e oportunidades de negócios.

O AGRO ALÉM DA PORTEIRA

O agro do século 21 tornou-se muito mais complexo. Hoje, uma fazenda bem administrada precisa acompanhar, ao mesmo tempo, a evolução da inteligência artificial, as exigências ambientais da União Europeia, a geopolítica dos fertilizantes, as mudanças climáticas, a saúde mental de seus colaboradores, a transformação digital e as novas formas de financiamento. Produzir alimentos continua sendo sua principal missão. Mas, para continuar produzindo, passou a ser necessário dominar uma quantidade impressionante de conhecimentos que, até poucos anos atrás, pareciam pertencer a universos diferentes. Essa é a principal mensagem desta edição de PLANT PROJECT. O agronegócio brasileiro se transformou em um grande ecossistema, no qual tecnologia, infraestrutura, ciência, sustentabilidade, gestão e inovação deixaram de caminhar separadamente para atuar de forma integrada.

A nova realidade aparece com clareza nas reportagens das próximas páginas. Preservar a floresta deixou de ser apenas uma obrigação ambiental para virar também uma estratégia econômica. As novas estradas reduzem custos, aproximam mercados e aumentam a competitividade do produtor. A chegada das máquinas chinesas amplia a concorrência e obriga o mercado a se reinventar. E as usinas já não vivem apenas de açúcar e etanol, mas passam a extrair valor de praticamente tudo o que produzem.

A mesma lógica se repete em outras reportagens. A inovação é agora uma resposta eficaz aos problemas do campo. O acordo entre Mercosul e União Europeia mostra que competir no mercado internacional dependerá cada vez menos apenas de produtividade e cada vez mais de confiança. Até mesmo a saúde mental, durante tanto tempo tratada como um tema distante do universo rural, passa a ocupar espaço nas estratégias das empresas, lembrando que nenhuma transformação tecnológica faz sentido se as pessoas ficarem para trás.

É claro que muitos desafios permanecem. A infraestrutura ainda precisa avançar. O crédito continua caro. O clima está mais imprevisível. As exigências dos mercados internacionais aumentam ano após ano. Como se não bastasse, a geopolítica insiste em lembrar que o mundo está longe de viver um período de estabilidade. É justamente em momentos como este que o agronegócio brasileiro revele sua maior virtude: a capacidade de adaptação. Poucos setores aprenderam tanto a conviver com a incerteza quanto o campo. E poucos demonstraram tanta habilidade para transformar problemas em oportunidades.

plantproject.com.br

Diretor Editorial

Amauri Segalla amauri.segalla@datagro.com

Diretor

Luiz Felipe Nastari

Comercial

Carlos Nunes carlos.nunes@plantproject.com.br

Sérgio Siqueira sergio.siqueira@plantproject.com.br João Carlos Fernandes joao.fernandes@plantproject.com.br

Tida Cunha tida.cunha@plantproject.com.br

Arte

Thaís Rodrigues (Direção de Arte)

Colaboradores

Texto: André Sollitto, Lucas Bresser, Marco Damiani, Romualdo Venâncio e Ronaldo Luiz

Projetos

Claudia Marques Molina

Revisão

Rosi Melo

Eventos

Luiz Felipe Nastari

Administração e Finanças

Cláudia Nastari

Sérgio Nunes publicidade@plantproject.com assinaturas@plantproject.com

Impressão e acabamento: Piffer Print

Crédito foto de Capa: ShutterStock

O preço da guerra

A tensão no Oriente Médio ameaça o fluxo global de fertilizantes e leva a Europa a redesenhar a sua estratégia de segurança alimentar

G

GLOBAL

O lado cosmopolita do agro

GLOBAL

O lado cosmopolita do agro

EUROPA

A GUERRA QUE AMEAÇA OS FERTILIZANTES

Restrições no Estreito de Ormuz pressionam os preços dos insumos agrícolas e levam o Velho Continente a discutir medidas emergenciais desafios enfrentados pelos produtores rurais, que já convivem com custos elevados. Para tentar reduzir os efeitos da crise, a Comissão Europeia iniciou discussões em Bruxelas, na Bélgica, com o objetivo de colocar em prática um novo Plano de Ação para Fertilizantes. O projeto prevê a criação de reservas estratégicas, apoio emergencial aos agricultores e medidas para ampliar as importações de

Desde que Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, o transporte de mercadorias pelo Estreito de Ormuz – corredor marítimo que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã –vem enfrentando sérias restrições. O Exército iraniano passou a controlar rigorosamente o tráfego de embarcações, dificultando a passagem de navios ligados, de alguma forma, a países considerados aliados dos americanos e israelenses. Diante do aumento dos riscos, muitos operadores de transporte marítimo passaram a considerar perigosa demais a utilização da rota, uma das mais importantes do planeta. O impacto é especialmente preocupante para o agronegócio global. Cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, e a instabilidade na região tem ampliado a pressão sobre os preços de combustíveis e fertilizantes, agravando os

países que não sejam Rússia e Belarus, ambos envolvidos na guerra da Ucrânia. Os formuladores da proposta acreditam que as iniciativas podem fortalecer a produção agrícola europeia e reduzir a dependência do bloco em relação às importações de alimentos. Embora a Europa esteja menos exposta ao aumento dos preços e à redução da oferta de fertilizantes do que outras regiões do mundo, a crise provocada pelas restrições no Estreito de Ormuz escancarou divergências dentro do bloco sobre a melhor forma de proteger a cadeia de abastecimento de alimentos e minimizar os prejuízos aos agricultores. O plano combina ações emergenciais e medidas de

longo prazo. Entre as iniciativas imediatas está o apoio aos produtores afetados por interrupções no fornecimento de fertilizantes. Outra proposta prevê a suspensão de tarifas sobre determinados fertilizantes nitrogenados, incluindo ureia e amônia, produzidos fora da Rússia e de Belarus. Segundo a Reuters, a medida poderia gerar uma economia de até 60 milhões de euros para os importadores desses insumos. Em uma etapa posterior, a Comissão Europeia pretende estimular a adoção de alternativas aos fertilizantes sintéticos, favorecendo soluções de base biológica e reduzindo a dependência de produtos químicos tradicionais. A presidente da Comissão

Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o plano busca construir “uma indústria europeia de fertilizantes mais forte”, ao mesmo tempo que apoia os agricultores e acelera “soluções sustentáveis e nacionais”.

O componente ambiental, porém, já desperta controvérsias. Agricultores europeus enfrentam o aumento dos custos de combustíveis e de outros insumos, e uma pressão adicional para a adoção de práticas mais verdes pode provocar resistência no setor. Críticos das medidas argumentam que a transição pode elevar ainda mais os custos de produção e, consequentemente, os preços dos alimentos nas prateleiras dos supermercados.

A NOVA APOSTA BILIONÁRIA DO AGRONEGÓCIO

No universo da inovação, as chamadas deeptechs são empresas que desenvolvem soluções baseadas em ciência e tecnologia de ponta, em áreas como biologia, química, robótica, hardware e computação avançada. Durante anos, esse segmento teve participação limitada no ecossistema de agtechs por exigir ciclos mais longos de desenvolvimento, maior complexidade tecnológica e investimentos mais elevados. O cenário, porém, mudou. A escassez de mão de obra, as tensões geopolíticas, as restrições de recursos naturais e o avanço da inteligência artificial aumentaram a demanda por tecnologias capazes de resolver problemas estruturais da produção agrícola. Como consequência, investidores passaram a direcionar mais recursos para startups com potencial de promover transformações profundas no setor. Os números mostram a força dessa tendência. Em 2025, as deeptechs concentraram a maior parte dos investimentos em agtechs no mundo, com destaque para áreas como biotecnologia agrícola, bioenergia, biomateriais e robótica. Confira os principais dados:

Os investimentos em deeptechs do agro em 2025:

US$ 4,6

BILHÕES INVESTIDOS

OPERAÇÕES

APORTES MÉDIOS

648 59% 78%

SUPERIORES À MÉDIA DO SETOR

DE TODO O INVESTIMENTO GLOBAL EM AGTECH

As categorias que mais atraíram recursos:

BIOTECNOLOGIA AGRÍCOLA:

BILHÃO (249 APORTES)

BIOENERGIA E BIOMATERIAIS:

MILHÕES (76 APORTES)

ROBÓTICA E MECANIZAÇÃO:

MILHÕES (71 APORTES)

ALIMENTOS INOVADORES:

MILHÕES (80 APORTES)

SISTEMAS AGRÍCOLAS INOVADORES: MILHÕES (41 APORTES)

US$ 1,4 US$ 900 US$ 600 US$ 400 US$ 200

REPÚBLICA TCHECA

LÚPULO CONTRA O AQUECIMENTO GLOBAL

Nenhum ingrediente é mais associado às tradicionais cervejas lager da República Tcheca do que o lúpulo Saaz. Responsável pelos aromas florais, notas de especiarias e pelo delicado toque terroso da bebida, ele é considerado um dos símbolos da indústria cervejeira do país. Nos últimos anos, porém, a combinação de secas prolongadas e ondas de calor cada vez mais frequentes passou a ameaçar sua produção. Para enfrentar esse desafio, pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Lúpulo de Žatec estão desenvolvendo variedades mais resistentes às mudanças climáticas. Entre elas estão os cultivares Saaz Comfort e Saaz Shine, criados para suportar temperaturas mais elevadas e períodos de

estiagem sem comprometer a qualidade do produto. A preocupação é justificável. Mais de 80% da produção de lúpulo Saaz é exportada para cervejarias de outros países, que dependem de suas características únicas e difíceis de reproduzir com outras variedades. Ao mesmo tempo, apenas 25% das áreas cultivadas com lúpulo na República Tcheca contam com sistemas de irrigação, o que torna a cultura especialmente vulnerável às alterações no regime de chuvas. Com os novos cultivares, produtores já começam a realizar testes em campo na tentativa de preservar a competitividade e aumentar a resistência de um dos produtos agrícolas mais emblemáticos do país.

SUDÃO

O CONFLITO QUE DEVASTOU O CELEIRO DO PAÍS

Há três anos, a guerra civil no Sudão produz uma sucessão de relatos de massacres, deslocamentos em massa e crises humanitárias. Agora, imagens de satélite ajudam a dimensionar outro efeito dramático do conflito: a destruição da capacidade produtiva do país. Uma investigação da rede Al Jazeera mostra que extensas áreas agrícolas do Sudão Central foram devastadas pelos combates. Regiões que antes exibiam vastos campos cultivados transformaram-se em áreas áridas e abandonadas. As perdas foram particularmente severas nos estados de Senar, Cartum e Al Jazirah, considerados alguns dos mais importantes polos

agrícolas do país. O maior impacto ocorreu em Al Jazirah, onde foi comprometido um dos mais relevantes sistemas de irrigação da África, responsável por abastecer 924 mil hectares de terras cultiváveis. A destruição da infraestrutura provocou uma queda de 58% na produção nacional de trigo, agravando a insegurança alimentar em um país já mergulhado em uma profunda crise. Embora agricultores tenham iniciado esforços para retomar as atividades, especialistas alertam que a recuperação completa das áreas produtivas e dos sistemas de irrigação poderá levar anos, mesmo após o fim do conflito.

INGLATERRA

DO CAMPO PARA O PALCO

Desde que trocou os estúdios de televisão pelos campos de sua fazenda em Oxfordshire, o jornalista Jeremy Clarkson se tornou uma das vozes mais influentes do agronegócio britânico. Sua mais recente iniciativa acaba de conquistar o público do país. O The Hawkstone Farmers’ Choir, coral formado por agricultores e criado com o objetivo de promover a saúde mental no meio rural e dar visibilidade às dificuldades enfrentadas pelos produtores, venceu o programa Britain’s Got Talent, um dos mais populares da televisão britânica. O triunfo chamou ainda mais atenção porque o grupo optou por apresentar uma composição original na final, uma escolha

considerada arriscada pelos jurados. A aposta deu certo. A apresentação emocionou o público e garantiu ao coral o primeiro lugar na competição, além de um prêmio de 250 mil libras. Mais do que uma conquista artística, os integrantes veem a vitória como uma oportunidade de ampliar o alcance da mensagem que defendem. Apesar da repercussão nacional e do sucesso repentino, os agricultores garantem que não pretendem abandonar suas atividades no campo. Para eles, o programa serviu como uma vitrine para mostrar uma realidade frequentemente ignorada: os desafios econômicos, sociais e emocionais enfrentados por quem produz alimentos.

ESTADOS UNIDOS

UM BRINDE AO SÉCULO 18

As comemorações pelos 250 anos dos Estados Unidos ganharam um ingrediente especial: cervejas produzidas com receitas inspiradas no século 18. A Boston Beer Company, dona da marca artesanal Samuel Adams, lançou uma coleção comemorativa que resgata ingredientes populares na época da independência americana, como raiz de alcaçuz, melaço e gengibre. Além de amplamente disponíveis naquele período, esses ingredientes eram valorizados por supostos benefícios à saúde e frequentemente incorporados às bebidas consumidas pelos colonos. A iniciativa busca reproduzir sabores que remetem aos primórdios da nação americana. A escolha da Samuel Adams para liderar o projeto não é por acaso. A marca leva o nome de Samuel Adams (1722-1803), um dos principais líderes do movimento de independência e considerado um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos. Os novos rótulos também homenageiam outras figuras centrais da história do país, como George Washington (1732-1799), primeiro presidente americano, e James Madison (1751-1836), quarto ocupante da Casa Branca e um dos arquitetos da Constituição. A coleção reúne quatro cervejas e será vendida exclusivamente no mercado americano. No Brasil, embora alguns rótulos da Samuel Adams já tenham sido importados ao longo dos anos, a edição especial não tem previsão de lançamento.

MENOS CARNE NO PAÍS

DA CARNE

Durante décadas, a Argentina foi sinônimo de churrasco e de um dos maiores consumos de carne bovina do planeta. Essa tradição, porém, vem perdendo força. Em meio ao ajuste econômico conduzido pelo presidente Javier Milei, o consumo de carne vermelha no país caiu ao menor nível dos últimos vinte anos. Dados da Fundação Agropecuária para o Desenvolvimento da Argentina mostram que, em abril de 2026, o consumo anual per capita de carne bovina recuou para 44,5 quilos por habitante, ante 49,5 quilos registrados no mesmo período do ano anterior. A queda é ainda mais expressiva quando comparada aos 63,4 quilos consumidos por pessoa em 2006. Especialistas atribuem o movimento a uma combinação de fatores. A oferta reduzida de gado elevou os preços da carne bovina, enquanto a perda de poder de compra das famílias limitou o consumo. Ao mesmo tempo, a maior integração do mercado argentino ao comércio internacional aproximou os preços domésticos dos praticados no exterior, reduzindo uma das vantagens históricas dos consumidores locais. Diante desse cenário, muitos argentinos passaram a substituir a tradicional carne bovina por proteínas mais acessíveis, como frango e carne suína. O resultado é uma mudança de hábito que poucos imaginariam há alguns anos em um país onde a carne sempre ocupou lugar central na cultura e na alimentação.

ARGENTINA

G TAILÂNDIA

A AMEAÇA QUE CORRE PELO MEKONG

Conhecido como a espinha dorsal agrícola do Sudeste Asiático, o Rio Mekong sustenta milhões de pessoas e ajuda a abastecer mercados ao redor do mundo. Agora, porém, uma nova ameaça preocupa governos, produtores rurais e ambientalistas: a contaminação provocada pela extração de minerais raros ao longo de seus afluentes. A poluição associada à atividade mineradora vem despejando materiais tóxicos no sistema fluvial, colocando em risco uma região frequentemente chamada de “cozinha do mundo” pela importância de sua produção agrícola. O problema se soma a outros desafios que já afetam o Mekong, como a poluição por plástico, as barragens hidrelétricas construídas a montante e a extração excessiva de areia, que acelera a erosão das margens do rio. Especialistas, porém, apontam a mineração como a ameaça mais grave no momento. O governo da Tailândia afirma ter pouca capacidade de agir contra operações ilegais realizadas em países vizinhos, como Laos e Myanmar, de onde parte significativa da contaminação se origina. Enquanto comunidades locais promovem campanhas de conscientização e pressionam por medidas de proteção, cresce o temor de que os impactos atinjam toda a cadeia de alimentos da região. As consequências podem ser sentidas muito além das margens do Mekong, afetando desde o arroz exportado para os Estados Unidos até o edamame consumido no Japão.

DO BAMBU PARA AS EMBALAGENS

Durante décadas, o plástico foi tratado como um símbolo do progresso. Barato, resistente e versátil, invadiu praticamente todos os setores da economia. O problema é que sua praticidade veio acompanhada de um enorme passivo ambiental. Hoje, estima-se que milhões de toneladas de resíduos plásticos sejam descartadas anualmente, contaminando rios, oceanos e solos. Encontrar alternativas, portanto, virou uma das prioridades da economia verde. É nesse contexto que a China aposta em um velho conhecido: o bambu. O país lançou um programa para ampliar o uso da planta na fabricação de copos, pratos, talheres, embala-

gens e outros itens produzidos com plástico descartável. O bambu cresce rapidamente, exige poucos insumos, apresenta elevada resistência e pode ser cultivado em diferentes regiões. Mas a iniciativa vai muito além da substituição de um material por outro. O governo chinês pretende fortalecer toda a cadeia produtiva do bambu, estimulando investimentos em pesquisa, processamento industrial e desenvolvimento de produtos. Hoje, o país já possui uma indústria consolidada, com milhares de empresas dedicadas ao setor e aplicações que vão da construção civil à indústria automotiva.

CHINA

O futuro é verde

A sustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se tornar um fator de competitividade no agronegócio. Agora, a floresta em pé gera valor econômico

AAGRIBUSINESS g

Empresas e líderes que fazem diferença

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Empresas e líderes que fazem diferença

O AGRO QUE MANTÉM A FLORESTA EM PÉ

AO RECUPERAR SOLOS, INVESTIR EM BIODIVERSIDADE E ADOTAR NOVOS SISTEMAS DE MANEJO, O CAMPO BRASILEIRO PROVA QUE PRODUÇÃO E CONSERVAÇÃO PODEM CRESCER JUNTAS

Durante décadas, a agricultura brasileira foi associada a uma imagem difícil de desconstruir. Produzir mais significava avançar sobre novas áreas, expandir a fronteira agrícola e substituir a vegetação nativa por lavouras ou pastagens. Essa lógica ajudou a transformar o Brasil em uma potência agropecuária, mas também consolidou a percepção de que o crescimento da produção e a conservação das florestas eram objetivos inconciliáveis. Enquanto o agronegócio buscava atender à crescente demanda mundial por alimentos, ambientalistas alertavam para os impactos da expansão agrícola sobre o desmatamento, a biodiversidade e o clima. Durante muito tempo, parecia inevitável que uma agenda avançasse às custas da outra. Mas essa percepção começa a mudar. A combinação entre mudanças climáticas, novas exigências dos mercados internacionais, avanços tecnológicos e uma crescente valorização dos ativos ambientais inaugurou uma nova lógica de produção. Em vez de enxergar a floresta como um obstáculo à expansão dos negócios, um número cada vez maior de produtores passou a incorporá-la como parte da estratégia econômica da propriedade.

O produtor rural convive hoje com um cenário muito diferente daquele de 20 anos atrás. Secas prolongadas, chuvas irregulares, ondas de calor e eventos climáticos extremos passaram a afetar a produtividade de todas as cadeias agrícolas. Ao mesmo tempo, grandes tradings, bancos, fundos de investimento e compradores internacionais passaram a exigir garantias de que os produtos não estejam associados ao desmatamento. Nesse

D urante muito tempo, parecia inevitável que produzir mais significava derrubar mais florestas, mas essa lógica ficou para trás

contexto, a sustentabilidade deixou de ocupar apenas os relatórios de ESG para se transformar em uma variável econômica. A questão passou a ser, sobretudo, como produzir mais utilizando melhor as terras disponíveis. O Brasil possui dezenas de milhões de hectares de pastagens degradadas passíveis de recuperação, um patrimônio capaz de sustentar o crescimento da produção sem pressionar novos desmatamentos. Foi dessa necessidade que nasceu uma nova geração de tecnologias e práticas de manejo – Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), plantio direto, rotação de culturas, bioinsumos, manejo biológico e agricultura regenerativa, para citar apenas algumas – que compartilham um mesmo objetivo: aumentar a produtividade fortalecendo os processos naturais, e não substituindo-os.

O resultado é o surgimento de um modelo de produção em que a floresta deixa de ser apenas uma área protegida para se tornar parte da infraestrutura do próprio negócio. Árvores ajudam a regular a temperatura, conservar a umidade, proteger nascentes, reduzir a erosão, favorecer polinizadores, controlar naturalmente pragas e aumentar a capacidade do solo de armazenar carbono. Em outras palavras: elas prestam serviços ambientais que, cada vez mais, se convertem em ganhos econômicos mensuráveis. Não por acaso, estudos recentes indicam que o próprio agronegócio poderá se tornar um dos principais vetores da expansão das florestas brasileiras na próxima década, impulsionado pela recuperação de áreas degradadas, pelo avanço das florestas plantadas e pela bioeconomia.

Essa transformação está longe de alcançar todo o campo brasileiro. Há diferenças regionais, limitações de crédito, desafios tecnológicos e resistências culturais. Mas ela já indica uma mudança de direção – nos laboratórios das empresas de bioinsumos, nas áreas de integração lavoura-pecuária-floresta da Embrapa, nas fazendas que recuperam solos degradados, nas companhias que transformam biodiversidade em inovação e nas propriedades que descobrem que conservar também pode gerar receita. O agro brasileiro continua produzindo alimentos, fibras e energia em escala global. A diferença é que, para uma parcela crescente do setor, deixar a floresta em pé se tornou uma estratégia de negócios.

A nova era é resultado da convergência de fatores econômicos, tecnológicos e regulatórios

que, juntos, alteraram os incentivos do setor. Há 20 anos, a principal variável para medir a competitividade de uma fazenda era a produtividade da lavoura. Hoje, essa equação se tornou mais complexa. A origem da produção, a saúde do solo, a emissão de carbono, o consumo de água, a conservação da biodiversidade e a capacidade de resistir a eventos climáticos extremos passaram a influenciar desde o custo do crédito até o acesso aos mercados internacionais. Grandes tradings, indústrias de alimentos e redes varejistas passaram a exigir cadeias produtivas rastreáveis e livres de desmatamento. Bancos e fundos de investimento incorporaram critérios socioambientais às análises de risco. Ao mesmo tempo, consumidores passaram a valorizar produtos associados à conservação da natureza.

O produtor passou a tratar o solo como um organismo vivo: quanto maior a atividade biológica, maior é a produtividade da fazenda

O próprio conceito de produtividade começou a ser revisto. Durante muito tempo, a agricultura concentrou esforços em aumentar a produção por hectare por meio de mecanização, fertilizantes, melhoramento genético e defensivos agrícolas. Esse movimento foi decisivo para transformar o Brasil em uma potência agrícola, mas revelou seus limites diante da degradação dos solos e da crescente instabilidade climática. Mas agora a nova fronteira passa menos pela abertura de novas áreas e mais pela capacidade de recuperar a fertilidade das terras já ocupadas.

Esse movimento encontra um terreno fértil no Brasil. O País reúne uma das maiores disponibilidades de terras agrícolas do mundo e, ao mesmo tempo, possui milhões de hectares de pastagens com algum grau de degradação. Recuperar essas

áreas passou a ser, do ponto de vista econômico, muito mais vantajoso do que avançar sobre vegetação nativa. A conversão de uma pastagem de baixa produtividade em um sistema agrícola moderno pode multiplicar a renda obtida por hectare, sem a necessidade de novos desmatamentos. É justamente sobre essa lógica que se apoia boa parte da agricultura regenerativa. Embora o termo tenha se tornado popular recentemente, seu princípio é simples: utilizar os processos naturais para aumentar a produtividade da propriedade. O produtor passa a tratar o solo como um organismo vivo, rico em microrganismos, matéria orgânica e nutrientes que precisam ser preservados. Quanto maior a atividade biológica do solo, maior tende a ser sua capacidade de armazenar água, reduzir a erosão e oferecer nutrientes para as culturas.

É nesse contexto que práticas como o plantio direto, a rotação de culturas, o uso de plantas de cobertura e os bioinsumos ganharam protagonismo. O plantio direto, adotado hoje em milhões de hectares no Brasil, reduz o revolvimento do solo e mantém uma camada permanente de palha sobre a superfície, protegendo-o da erosão e diminuindo a perda de umidade. A rotação de culturas quebra ciclos de pragas e doenças, melhora a fertilidade e reduz a dependência de fertilizantes sintéticos. Por sua vez, os bioinsumos – um dos segmentos que mais crescem no agronegócio brasileiro – utilizam microrganismos, fungos, bactérias e extratos naturais para promover o desenvolvimento das plantas e controlar pragas, reduzindo o uso de produtos químicos convencionais.

Outro exemplo é a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Desenvolvido e aperfeiçoado pela Embrapa ao longo das últimas décadas, o sistema combina diferentes atividades produtivas em uma mesma área. Em uma mesma fazenda, árvores, grãos e pecuária deixam de competir por espaço para atuar de forma complementar. As árvores oferecem sombra ao rebanho, reduzem o estresse térmico, melhoram o conforto animal e contribuem para a ciclagem de nutrientes. A pecuária, por sua vez, fornece matéria orgânica ao solo, enquanto a agricultura aproveita uma área já recuperada e com maior fertilidade.

O aspecto mais interessante dessa nova realidade é que ela não depende apenas da boa vontade dos produtores. Ela responde a uma lógica econômica bastante objetiva. Quanto maior a produtividade das áreas já abertas, menor a necessidade de expansão da fronteira agrícola. Quanto mais saudável o solo, menor o gasto com

fertilizantes e corretivos. Quanto maior a biodiversidade presente na propriedade, maior tende a ser o controle biológico de pragas e a estabilidade da produção. A floresta deixa de representar uma área improdutiva para prestar serviços ambientais cujo valor começa, finalmente, a ser incorporado às contas da fazenda.

Empresas que antes concentravam seus investimentos apenas na expansão da produção passaram a direcionar recursos para o monitoramento da biodiversidade. Se existe uma companhia capaz de ilustrar essa mudança, ela está no nordeste do Pará. Em Tailândia, município localizado em uma das regiões de maior biodiversidade da Amazônia, a Agropalma produz óleo de palma em um modelo que desafia a antiga ideia de que agricultura tropical e conservação ambiental são atividades incompatíveis. A companhia cultiva cerca de 39 mil hectares de palma, mas mantém preservados 64 mil hectares de floresta nativa – ou cerca de 60% de toda a área sob sua gestão. Desde 2002, a empresa adota uma regra que resume sua estratégia: para cada hectare plantado, preserva 1,6 hectare de vegetação nativa. Trata-se de uma das maiores áreas privadas de conservação florestal mantidas por uma empresa agrícola na Amazônia. “Nosso maior aprendizado em décadas de atuação na Amazônia é que a floresta não impõe limites, mas oferece oportunidades”, diz Tulio Dias Brito, diretor de Sustentabilidade da Agropalma. “O verdadeiro desenvolvimento acontece quando transformamos a conservação em um motor de inovação e geração de valor para toda a sociedade.”

A preservação faz parte do próprio sistema produtivo. As áreas florestais reduzem o chamado efeito de borda, protegendo as plantações

OS PRODUTORES DESCOBRIRAM QUE PRESERVAR TRAZ LUCROS

A biodiversidade deixou de ser apenas um patrimônio ambiental para se tornar um ativo estratégico do agronegócio brasileiro

Reportagem de Capa

contra ventos fortes, incêndios e variações bruscas de temperatura. Também servem de abrigo para inúmeras espécies que desempenham funções essenciais ao equilíbrio ecológico da região. Essa lógica explica a estratégia de manejo adotada pela companhia. Em vez de depender exclusivamente de defensivos químicos, a Agropalma desenvolveu um sistema de controle biológico baseado no funcionamento dos próprios ecossistemas. Em laboratórios instalados na fazenda, são criados insetos predadores, que, depois de adultos, são liberados nas áreas cultivadas para controlar lagartas e outras pragas da palma. Entre as fileiras de palmeiras, espécies leguminosas enriquecem o solo com nitrogênio, enquanto plantas atraem insetos responsáveis pelo controle biológico. Cada palmeira é monitorada individualmente e as informações alimentam um sistema digital que permite intervenções rápidas sempre que surge alguma anomalia. O resultado é uma redução expressiva da dependência de defensivos sintéticos, acompanhada pela manutenção da produtividade e pela proteção da biodiversidade local.

Empresas tradicionalmente associadas à mineração, à indústria química, ao papel e celulose ou ao agronegócio passaram a disputar espaço em um mercado que utiliza ativos biológicos como matéria-prima para novos negócios. Um dos exemplos mais surpreendentes surgiu da parceria entre Vale, Suzano e Basf. As três companhias uniram esforços para desenvolver soluções baseadas na biodiversidade brasileira, acelerando pesquisas capazes de transformar compostos naturais em novos produtos industriais de alto valor agregado. O mesmo raciocínio ajuda a explicar a expansão acelerada das florestas plantadas no Centro-Oeste. Mato Grosso do Sul, por exemplo, consolidou-se como o principal polo brasileiro da indústria de celulose e deve ampliar em cerca de 40% sua base florestal até 2028, impulsionado pelos investimentos de empresas como Suzano, Arauco e Bracell. Ao contrário da imagem tradicional das monoculturas florestais, esse crescimento vem acompanhado da recupera-

Á rvores regulam a temperatura da propriedade, protegem nascentes, favorecem a ação de polinizadores e controlam pragas

ção de áreas anteriormente degradadas, da formação de corredores ecológicos e de programas de conservação de remanescentes nativos.

A transformação alcança também as grandes tradings agrícolas. A Amaggi, uma das maiores produtoras de grãos do País, tornou-se referência internacional por incorporar critérios socioambientais à gestão da companhia. Além de programas de rastreabilidade e conservação de vegetação nativa, a empresa investe na recuperação de áreas degradadas, na agricultura de baixo carbono e em mecanismos de monitoramento capazes de acompanhar toda a cadeia de fornecimento. Não se trata apenas de atender exigências regulatórias. Para companhias que operam em dezenas de mercados internacionais, demonstrar desempenho ambiental consistente passou a representar vantagem competitiva e condição para acessar determinados compradores e fontes de financiamento. Essa estratégia vem rendendo reconhecimento internacional. Em 2026, a companhia alcançou a sexta posição no ranking global Forest 500. “Seguimos avançando com responsabilidade, planejamento e transparência, mitigando riscos socioambientais e atuando no desenvolvimento sustentável do agronegócio brasileiro”, afirma Juliana de Lavor Lopes, diretora de ESG da Amaggi. A mesma lógica começa a chegar às propriedades rurais de médio porte. Um exemplo é o programa Reverte, desenvolvido pela Syngenta em parceria com o Itaú BBA. A iniciativa oferece assistência técnica, financiamento e tecnologias voltadas à recuperação de pastagens degradadas, permitindo que produtores ampliem sua produtividade sem abrir novas áreas. O sucesso da experiência foi tamanho que o programa começou a ser levado para outros países da América do Sul. “O Reverte é um dos programas mais ambiciosos do mundo para restaurar terras degradadas para a agricultura”, afirma Petra Laux, diretora de Sustentabilidade do Syngenta Group. O agronegócio brasileiro continuará sendo medido pelo tamanho de suas safras. Mas, cada vez mais, também será avaliado pela capacidade de preservar aquilo que torna essas safras possíveis.

SORRISO NO ROSTO

LÍDER NACIONAL EM VALOR DE PRODUÇÃO AGRÍCOLA, MUNICÍPIO MATO-GROSSENSE TRANSFORMA ESCALA DE GRÃOS EM AGROINDÚSTRIA, RIQUEZA URBANA E UM DOS ECOSSISTEMAS MAIS COMPLETOS DO CAMPO BRASILEIRO

Chamar Sorriso, no Médio-Norte de Mato Grosso, de capital brasileira do agro já deixou de ser figura de linguagem. O município consolidou esse posto nos números. Segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, Sorriso registrou em 2024 o maior valor de produção agrícola do País pelo sexto ano consecutivo, com R$ 7,2 bilhões, equivalente a 0,9% de todo o valor da produção agrícola nacional. Os números relativos a 2025, embora ainda não divulgados, tendem a confirmar essa posição. Mais do que um título simbólico, trata-se de um indicador objetivo do peso que a cidade alcançou no mapa do agronegócio brasileiro, num cenário em que Mato Grosso permaneceu como líder nacional em valor de produção agrícola, mesmo em um ano de retração de preços e de efeitos climáticos adversos sobre parte das lavouras.

O que faz de Sorriso um caso emblemático é a capacidade de transformar escala produtiva em ecossistema econômico. A cidade aparece de forma recorrente entre os maiores polos brasileiros de soja, milho, algodão e feijão. Em 2024, foi o primeiro município do Brasil em valor de produção de milho, com R$ 2,4 bilhões, o terceiro em soja, com R$ 3,3

bilhões, o sexto em algodão, com R$ 1,3 bilhão, e o quarto em feijão, com R$ 195,7 milhões. No ano anterior, pela PAM 2023, o município já havia movimentado R$ 8,3 bilhões, com R$ 5 bilhões em soja, R$ 2,1 bilhões em milho, R$ 1 bilhão em algodão e R$ 185,8 milhões em feijão, mostrando que a força local não depende de uma única cultura, mas de um arranjo robusto de produção e diversificação.

A soja e o milho, entretanto, são a espinha dorsal dessa estrutura. Em 2023, Sorriso foi o maior produtor municipal de soja do Brasil, com 2,3 milhões de toneladas, segundo o IBGE. O milho, por sua vez, tornou-se peça decisiva tanto na formação de renda quanto no adensamento industrial da cidade. Em 2024, Sorriso também voltou a liderar o País em volume produzido desse grão, com 3,7 milhões de toneladas, reforçando um padrão que explica por que o município é visto hoje como um território de alta eficiência logística, tecnológica e empresarial.

“Sorriso tem o título de capital do agronegócio pela extensão territorial de área consolidada, em torno de 602 mil hectares, e pela natureza muito pródiga e bastante estável ano a ano, com poucas variações, o que permite toda essa produção”, diz o

S orriso é o primeiro município do B rasil em valor de produção de milho, o terceiro em soja e o quarto em feijão

Cristina D elicato, do C lube A migos da T erra: pesquisa científica faz a diferença ©

secretário de Agricultura e Meio Ambiente do município mato-grossense, Clovis Picolo Filho. “O município já chegou a crescer 18% ao ano e hoje mantém um ritmo de cerca de 8%, impulsionado principalmente pelo agro.” Segundo o secretário, o crescimento é sustentado por uma demanda intensa por tecnologia nas fazendas e pela expansão de indústrias, comércio e serviços especializados. “O produtor local é altamente aberto à inovação e à busca constante por produtividade, o que exige uma rede ampla e qualificada de serviços.”

O município conta ainda com outro importante diferencial competitivo: uma posição logística estratégica, no entroncamento da BR-163 com a MT-242, além da presença do Aeroporto Regional Adolino Bedin, que atualmente recebe voos comerciais regulares da Azul. Ou seja: Sorriso reúne algo raro mesmo para os padrões do Centro-Oeste – terra disponível, escala, conectividade e uma base empresarial organizada para produzir, armazenar, processar e embarcar.

Essa evolução foi acompanhada pelo avanço de práticas agrícolas voltadas à intensificação sustentável, impulsionadas também pelas exigên-

cias crescentes de mercados internacionais e pela necessidade de ganhos contínuos de produtividade. Segundo Cristina Delicato, coordenadora executiva do Clube Amigos da Terra (CAT) Sorriso, organização sem fins lucrativos criada em 2002 com o objetivo de promover o agronegócio sustentável, a própria transformação agronômica da região ajuda a explicar esse desempenho. “Os solos do Cerrado brasileiro, predominantes na região de Sorriso, apresentavam limitações naturais, como elevada acidez e baixa disponibilidade de nutrientes”, explica. “A transformação dessas áreas em regiões altamente produtivas foi resultado do investimento em pesquisa científica, especialmente conduzida pela Embrapa, aliado à capacidade de inovação e adoção de tecnologias pelos produtores rurais.” Delicato diz que práticas como correção da acidez do solo, adubação equilibrada, plantio direto, rotação de culturas e uso de técnicas conservacionistas permitiram melhorar a fertilidade e a estrutura do solo, tornando a agricultura eficiente e sustentável ao longo das décadas.

O caso de Sorriso também chama a atenção porque a riqueza produzida pelo agronegócio

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O crescimento da oferta de farelo, DDG e outros coprodutos estimula cadeias como suinocultura, avicultura e bovinocultura

C lovis P icolo, s ecretário de A gricultura: " C rescemos 8% ao ano, impulsionados pelo agro"

deixou de ficar restrita ao campo. O município passou a estruturar, nos últimos anos, uma cadeia agroindustrial cada vez mais sofisticada, capaz de agregar valor localmente à produção de grãos. O milho é talvez o maior exemplo dessa transformação. Tradicionalmente associado à segunda safra, o cereal passou a abastecer uma nova indústria de etanol de milho que alterou profundamente a dinâmica econômica regional. A FS, referência nacional no segmento, mantém operação em Sorriso com capacidade industrial integrada para produção de etanol, energia elétrica e DDG – coproduto utilizado na nutrição animal. Somadas, as plantas da empresa em Mato Grosso processam mais de 5 milhões de toneladas de milho por ano e posicionaram o estado como principal polo brasileiro de etanol de milho.

“A força da produção agrícola criou as condições para o avanço da agroindústria, que hoje está em plena expansão no município”, diz Clovis Picolo Filho. “Sorriso conta com estrutura de processamento relevante, incluindo esmagadora de soja,

nichos como soja convencional e uma indústria de etanol de milho que já alcança produção próxima de 1 bilhão de litros por ano.”

O crescimento da oferta de farelo, DDG e outros coprodutos também estimula cadeias como suinocultura, avicultura e bovinocultura intensiva. Dados do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea) mostram que Sorriso já ocupa posição de destaque nessas frentes: no levantamento de 2024, o município aparece com 6,1 milhões de cabeças de aves comerciais, atrás apenas de Nova Mutum no estado, e com 258 mil suínos em estabelecimentos tecnificados, terceira maior marca de Mato Grosso. Esse é um sinal claro de complementaridade econômica: a mesma agricultura que gera grão, óleo e etanol passa a abastecer cadeias de proteína animal, criando um círculo de agregação de valor que fortalece renda, emprego e arrecadação. Outro exemplo concreto de adensamento industrial é a presença da Caramuru Alimentos. Em sua unidade de Sorriso, a empresa processa cerca de 1.200 toneladas de soja por dia, produzindo lecitina de soja, proteína concentrada de soja (SPC), glicerina refinada e biodiesel. Em números, isso significa até 103 milhões de litros de biodiesel por ano, promovendo uma cadeia industrial que amplia a captura de valor dentro do próprio município. Isso mostra que Sorriso foi deixando de ser apenas uma plataforma de produção agrícola para se afirmar como plataforma agroindustrial. Esse movimento – do grão para o esmagamento, do milho para o etanol, do farelo para a ração, da commodity para o produto processado – ajuda a explicar boa parte da riqueza que hoje circula na economia urbana local.

As exportações se somam ao cenário para traduzir essa relevância. Em 2024, Sorriso ultrapassou US$ 2 bilhões em embarques internacionais e manteve a China como principal destino das vendas externas, especialmente de soja e milho. O município ainda ampliou relações comerciais com países do Oriente Médio, Ásia e América Latina, reforçando o caráter globalizado da produção local. A força econômica teve reflexos evidentes sobre o desenvolvimento urbano. O crescimento da renda

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POR

QUE SORRISO (MT) SE TORNOU UM DOS TERRITÓRIOS MAIS FAVORÁVEIS

AO AGRO NO BRASIL

1. Escala produtiva consolidada

• Ampla disponibilidade de áreas agricultáveis

• Modelo baseado em grandes volumes e alta produtividade

2. Base tecnológica e inovação no campo

• Forte adoção de plantio direto, ILP e manejo avançado de solo

• Produtor altamente aberto à tecnologia e à gestão profissional

3. Solo adaptado por ciência e investimento

• Correção da acidez e adubação tornaram o Cerrado altamente produtivo

• Uso contínuo de práticas conservacionistas e rotação de culturas

4. Integração entre produção e indústria

• Presença de esmagamento de soja, etanol de milho e biodiesel

• Transformação local de grãos em produtos de maior valor agregado

5. Logística estratégica

• Entroncamento rodoviário (BR-163 e MT-242)

• Infraestrutura que favorece escoamento e exportação

6. Ecossistema agro completo

• Cadeias integradas: grãos, proteína animal, bioenergia

• Rede robusta de tradings, cooperativas, serviços e assistência técnica

7. Sustentabilidade como ativo competitivo

• Ampla adoção de certificações socioambientais RTRS, entre outras)

• Preservação de áreas legais e práticas de conservação do solo

8. Diversificação produtiva

• Soja, milho, algodão, feijão e crescente presença da agricultura familiar

• Redução de risco e maior resiliência econômica

9. Capacidade de gerar desenvolvimento urbano

• Renda do agro convertida em infraestrutura, serviços e qualidade de vida

• Crescimento populacional e fortalecimento do mercado local

Fontes: IBGE, Prefeitura de Sorriso, Indea-MT

O município conta com cerca de 140 mil habitantes e é um dos que registram crescimento mais acelerado do País

impulsionou a expansão imobiliária, a criação de novos bairros, a abertura de empresas e a ampliação da rede de serviços. Hoje, segundo estimativas da prefeitura, o município conta com cerca de 140 mil habitantes e é um dos que registram crescimento mais acelerado no Centro-Oeste. “Saúde, educação e demais serviços se desenvolveram para atender às pessoas que vieram investir, trabalhar e crescer dentro do ecossistema do agronegócio”, diz Picolo. A transformação é visível nas ruas. Hospitais privados, escolas, condomínios residenciais, centros empresariais e um comércio aquecido redesenharam a paisagem urbana da cidade ao longo da última década. O agro financiou máquinas e silos, mas também infraestrutura urbana, serviços médicos, educação e novos padrões de consumo. Naturalmente, a prosperidade tem reflexos nos indicadores de desenvolvimento humano, refletindo o impacto direto do agronegócio sobre renda e qualidade de vida. O município apresenta IDHM

de 0,744 – considerado alto –, sustentado por avanços em renda, educação e longevidade, além de um PIB per capita superior a R$ 124 mil, um dos mais elevados do Centro-Oeste. No campo educacional, Sorriso apresenta taxa de escolarização de 98,85% entre crianças de 6 a 14 anos e IDEB de 6,3 nos anos iniciais, acima das médias estadual e nacional, além de investimentos públicos acima do mínimo legal, com cerca de 27% da arrecadação destinados à educação.

Também nesse terreno, o agro extrapola os limites da fazenda. Por meio do Programa Sorriso Vivo, o CAT Sorriso desenvolve desde 2005 o projeto Agro na Escola, com palestras, materiais didáticos e concursos culturais em escolas urbanas e rurais. “Ao longo desses mais de 20 anos, milhares de crianças e adolescentes tiveram a oportunidade de compreender de onde vêm os alimentos que chegam às suas mesas, conhecer a realidade do produtor rural e entender que

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agricultura e meio ambiente podem caminhar juntos”, diz Cristina. “O projeto contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e ajuda a reduzir a distância entre o campo e a cidade.”

Na área social e de infraestrutura, os indicadores revelam tanto avanços quanto desafios típicos de cidades que crescem rapidamente. O município investe significativamente em saúde – cerca de 25,8% da receita, bem acima do mínimo constitucional – e apresenta expectativa de vida de 75 anos, embora enfrente pressão sobre o sistema público, evidenciada pelo número de atendimentos acima da população residente. Em saneamento, Sorriso já alcança níveis elevados de cobertura de água (94,6%) e coleta de resíduos (95,1%), mas ainda possui baixa cobertura de coleta de esgoto. Esse contraste ilustra um padrão de desenvolvimento acelerado, no qual a expansão econômica convive com a necessidade de ampliar infraestrutura urbana, reforçando o caráter de cidade em transformação. Esse processo, evidentemente, não ocorreu de forma espontânea. Ele foi construído por gerações

de produtores, muitos deles migrantes, que apostaram no Cerrado mato-grossense, por empresas que se instalaram para esmagar soja, fabricar biodiesel, produzir etanol e estruturar cadeias de proteína, e por uma rede de serviços técnicos, revendas, transportadores, tradings, cooperativas, consultorias, oficinas e laboratórios que passou a orbitar em torno do núcleo produtivo. Entre esses pioneiros está o produtor rural Darcy Getúlio Ferrarin, de 73 anos, nascido em Constantino (RS), que chegou a Mato Grosso em busca de oportunidades e acabou acompanhando de perto a transformação da cidade. “Escolhi Sorriso porque vi aqui a possibilidade de crescer junto à cidade, ajudando a construir uma agricultura forte e sustentável”, afirma. Ele produz soja e milho e relata que, ao longo dos anos, também trabalhou com algodão e sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP). Para Ferrarin, a adoção do plantio direto no Cerrado foi um marco importante, pois trouxe benefícios ambientais significativos, como a conservação do solo, a redução da erosão e a melhoria da infiltração de água. “Hoje, entende-

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S orriso possui parcela importante de sua área agrícola com certificações ambientais

mos que é possível produzir mais utilizando áreas já abertas, conciliando produtividade e preservação dos recursos naturais.”

Sorriso já contabiliza uma parcela relevante de sua área agrícola com certificações ambientais e mantém percentuais significativos de preservação dentro das propriedades rurais, evidenciando um modelo produtivo que busca equilibrar intensificação e responsabilidade ambiental. “Hoje, cerca de 25% da área do município já conta com certificação de produção sustentável”, afirma Clovis Picolo Filho. Ele ressalta ainda que a conservação ambiental é parte estrutural da lógica produtiva local. “Sorriso mantém aproximadamente 27% de sua área como reserva, sob responsabilidade dos produtores rurais. O produtor é, por natureza, conservacionista, e isso se reflete em um modelo de produção ambientalmente equilibrado e reconhecido.”

Na experiência de Darcy Ferrarin, os investimentos em sustentabilidade também se traduzem em ganhos concretos na escala da fazenda. “Nossa propriedade participa de programas de certificação em sustentabilidade, o que proporciona benefícios

econômicos pelo reconhecimento das boas práticas adotadas no campo”, afirma. “Além da remuneração adicional, a certificação contribui para melhorias na gestão da propriedade, organização dos processos e maior preparo para atender às exigências dos mercados consumidores.”

É justamente nessa capacidade de articular campo, cidade, indústria e sustentabilidade que Sorriso parece condensar uma das grandes narrativas do agronegócio brasileiro contemporâneo. O município continua sendo, em essência, uma potência agrícola. Mas sua relevância vai além da lavoura. Sorriso representa um modelo em que produtividade, tecnologia, integração de cadeias e agregação de valor se convertem em desenvolvimento local. Em tempos em que o mundo discute segurança alimentar, rastreabilidade, competitividade e transição energética, a cidade mato-grossense oferece um retrato concreto de como o agro pode se sofisticar sem perder escala. E de como essa sofisticação, quando bem capturada, muda a paisagem econômica e social de um território inteiro.

A NOVA USINA BRASILEIRA

A LÓGICA MULTIPRODUTO ESTÁ REDESENHANDO

O SETOR SUCROENERGÉTICO, TRANSFORMANDO

RESÍDUOS AGRÍCOLAS E INDUSTRIAIS EM NOVAS FONTES DE RECEITA

Por décadas, a usina brasileira de etanol foi entendida e financiada como uma aposta em duas commodities: açúcar e combustível. O setor aprendeu a sobreviver alternando mix, espremendo eficiência agrícola e industrial e atravessando ciclos de preços que pouco têm a ver com a excelência operacional dentro da porteira. Hoje, a natureza do negócio vem se transformando: as usinas deixam de ser fábricas de apenas dois produtos principais e passam a operar como plataformas agroindustriais multifuncionais, com portfólios integrados de energia, coprodutos e serviços. A transformação é visível em números, investimentos e na geografia produtiva do País.

A mudança também ocorre num contexto de alta produção. De acordo com levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), somando as origens cana-de-açúcar e milho, a fabricação do etanol no Brasil na safra 2025/26 deve atingir 37,5 bilhões de litros, aumento de 0,8% em relação à safra passada. A alta é influenciada pela maior produção do etanol de milho, concentrado no Centro-Oeste. O combustível com origem no

cereal, avaliado em 10,1 bilhões de litros, registrou aumento de 30% em relação à safra passada e representa pouco mais de 27% da produção nacional. Já o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar está estimado em 27,3 bilhões de litros, redução de 7% em comparação ao ciclo 2024/25. O que apenas os números do etanol não mostram é como, hoje, o valor nas usinas começa a migrar para “o que vem junto”: bioeletricidade, biogás/biometano, DDG/DDGS, óleo de milho, fertilizantes orgânicos e uma série de arranjos que conectam lavoura, indústria e pecuária. Ou seja, a usina moderna busca extrair o máximo de cada tonelada de biomassa processada.

Para Luis Otavio Fonseca, líder de Supply Chain & Engineering na Accenture para clientes de recursos naturais, manufatura, agronegócio e bens de consumo na América Latina, o movimento rumo ao modelo multiproduto não começou como tendência, mas como reação a um setor historicamente exposto a variáveis fora de controle. “A pressão de margem foi o gatilho”, afirma o consultor. Na leitura do executivo, o setor sucroenergético

O setor sucroenergético brasileiro vem ampliando o aproveitamento de coprodutos com maior valor agregado

opera pressionado por inúmeras forças: cotação global do açúcar, preço do petróleo, clima e câmbio. Esse conjunto produziu um histórico de instabilidade e endividamento. “Durante décadas, a defesa do setor foi a flexibilidade do mix açúcar-etanol, mas esse mecanismo perdeu eficácia”, diz.

A novidade é que, agora, a diversificação não acontece apenas entre dois produtos principais. O que se consolida é uma lógica de biorrefinaria: uma planta concebida para gerar múltiplas receitas. “Uma usina que antes era avaliada como exposição a commodity passa a ser avaliada como portfólio de receitas com diferentes perfis de risco e correlação”, diz Fonseca. Essa mudança tem consequência direta sobre o custo de capital e a evidência aparece em quem está financiando o setor.

Em 2025, o BNDES aprovou R$ 6,4 bilhões em crédito para biocombustíveis. No acumulado desde 2023, R$ 13,3 bilhões foram destinados a projetos com foco em programas diversificados (etanol de milho e trigo, além de biometano). No front internacional, a IFC (Grupo Banco Mundial) anunciou, em janeiro de 2025, financiamento de até

US$ 165 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) para a São Martinho, para apoiar a implementação de sua primeira planta de biometano a partir da biodigestão da vinhaça da cana. O projeto, além de biometano, inclui investimentos agrícolas e suporte consultivo para redução de emissões no campo. No universo canavieiro, o exemplo mais evidente da coprodução energética é a eletricidade a partir de bagaço e palha. Em 2024, a geração de bioeletricidade (biomassa em geral) para a rede somou 28.260 GWh no Brasil. Desse total, 21.218 GWh vieram de bagaço e palha de cana, equivalentes a 75% da geração por biomassa ofertada à rede no ano. A qualidade dessa energia tem peso fundamental, pois ela é produzida majoritariamente no período seco. Segundo a mesma base, 84% da geração sucroenergética para a rede se concentra entre maio e novembro, quando os reservatórios hidrelétricos são mais pressionados. “Além de renovável, é uma fonte firme e não intermitente, o que contribui para a segurança e estabilidade do sistema elétrico brasileiro”, diz Zilmar Souza, gerente de Bioeletricidade da União da Indústria

N ovos investimentos, mudanças regulatórias e a busca por maior rentabilidade levaram à completa reconfiguração das usinas

de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica). “Essa complementaridade reforça a importância do setor sucroenergético no planejamento energético nacional e na transição para uma matriz mais limpa e diversificada.” A presença dessas receitas energéticas ajuda a reprecificar o negócio, já que, na lógica multiproduto, o combustível não mais carrega sozinho o custo fixo.

Se a bioeletricidade é o caso mais consolidado, o biometano representa o símbolo da virada. A vinhaça, antes vista como passivo (ainda que útil na fertirrigação), passa a ser matéria-prima energética. O financiamento da IFC à São Martinho explicita esse reposicionamento: o projeto prevê biometano a partir da biodigestão da vinhaça, com a justificativa de descarbonização e substituição de gás fóssil. Na prática, trata-se de integrar tratamento de efluentes, geração de biogás, purificação para biometano e retorno do digestato como biofertilizante, fortalecendo a economia circular. É uma forma

de capturar valor em cadeias diferentes: gás (ou combustível industrial), fertilidade do solo e créditos ambientais. Para Fonseca, da Accenture, o ganho é duplo: receita incremental e redução de volatilidade. “Quando o açúcar cai, o biometano segue o mercado de gás natural, com sua própria dinâmica”, afirma o consultor.

Esse reposicionamento também é amplificado pela política pública que monetiza o desempenho ambiental. O RenovaBio, por exemplo, criou um benefício econômico indiscutível. Em 2025, isso ficou particularmente visível. A ANP reportou que, no ano, foram aposentados 40,06 milhões de créditos de descarbonização (CBio), o equivalente a 99% da meta do Conselho Nacional de Política Energética. Em paralelo, o balanço acumulado do programa reforça o seu relevante papel: desde o início da obrigatoriedade, em 2020, o RenovaBio já havia registrado 147,6 milhões de CBios, equivalentes a 147,6 milhões de toneladas de CO₂ evitadas, segundo compilação divulgada em 2025. O CBio, portanto, se tornou uma linha adicional de receita e um indicador de competitividade: usinas mais eficientes e integradas tendem a gerar mais créditos por unidade de combustível, fortalecendo a lógica multiproduto.

No universo “milho”, entram o DDG e DDGS, coprodutos da produção de etanol ricos em proteína, fibra e energia, usados como ração animal para bovinos, aves e suínos. Andréa Veríssimo, diretora de Relações Internacionais e Comunicação da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), resume isso sem rodeios: “Não é possível abordar a produção de etanol de milho sem considerar seus coprodutos, em especial o DDG e o DDGS”. Segundo a especialista, esses coprodutos são fundamentais tanto para a pecuária quanto para a viabilidade econômica das biorrefinarias. “Aproximadamente 30% do milho processado retorna à cadeia produtiva na forma de proteína animal”, diz. Essa industrialização muda o mapa do agro, com efeitos já visíveis em estados como Mato Grosso e Goiás: as biorrefinarias se instalam próximas à matéria-prima (muitas vezes o milho de segunda safra) e se conectam à pecuária

Luis Fonseca, da A ccenture: as usinas viraram fontes de receita com diferentes perfis de risco © Divulgação

O B rasil vendeu 879,3 mil toneladas de coprodutos para o exterior em 2025, um avanço de quase 10% versus 2024

NADA SE PERDE

OS PRINCIPAIS COPRODUTOS DAS USINAS DE ETANOL

COPRODUTO ORIGEM NO PROCESSO TIPO PARA QUE SERVE

Bagaço de cana

Resíduo da moagem da cana

Palha de cana

Vinhaça

Torta de filtro

Resíduo agrícola do campo

Resíduo líquido da destilação

Resíduo da clarificação

Energético Energético

Levedura

Biogás/Biometano

DDG / DDGS

WDG / WDGS

Óleo de milho

CO₂ biogênico

Subproduto da fermentação

Digestão anaeróbia da vinhaça e resíduos

Resíduo sólido pósfermentação do milho

DDG/DDGS ainda úmido

Extraído do processamento do cereal

Liberado na fermentação

Fontes: Unica, Unem, Mapa, Lindner

Agro/Energético

Agro

Nutricional

Geração de vapor e bioeletricidade para consumo da usina e venda à rede

Complemento paracogeração de energia e potencial para 2ª geração

Fertirrigação e produção de biogás/biometano

Fertilizante orgânico (rico em fósforo e matéria orgânica)

Suplemento para ração animal e indústria de alimentos

Energético

Nutricional

Nutricional

Industrial/Energético

Industrial

Substitui gás natural em energia térmica, elétrica ou combustível

Ração animal rica em proteína e energia

Uso local como ração, com menor custo logístico

Produção de biodiesel, alimentos e insumos químicos

Uso em bebidas, indústria e captura para baixo carbono

regional, reduzindo custo logístico do DDG/DDGS. Por esse motivo, o Centro-Oeste consolidou-se como o principal polo de etanol de milho do País. Mato Grosso, por exemplo, conta atualmente com 12 biorrefinarias em operação, o que representa praticamente metade do total nacional, além de seis autorizadas e seis projetadas. Goiás possui cinco em operação, duas autorizadas e três projetadas. “Trata-se de uma escolha estratégica, e não de mera coincidência”, diz Andréa.

Outro sinal claro da relevância econômica do DDG/DDGS é que ele virou pauta de exportação. O Brasil vendeu 879,3 mil toneladas dos coprodutos para o exterior em 2025, um aumento de quase 10% em relação ao ano anterior. Os principais destinos foram Turquia, Vietnã e Nova Zelândia, que respondem por mais de 70% do volume. O cenário indica um avanço consistente do Brasil, combinando escala, competitividade e ampliação geográfica das exportações. E os números, embora ainda pequenos diante da cadeia de soja e milho in natura, são um símbolo importante: DDG e DDGS deixam de ser subprodutos locais e passam a ser mercadorias globais, com padrões, especificações, reputação de origem e valor agregado.

A engenharia mostra como a transformação acontece. Segundo Jefferson Arley Martins Rodrigues, gestor de Tecnologia da Lindner Techno Systems, gigante do setor que fornece soluções tecnológicas e de engenharia para

usinas, os projetos evoluíram para capturar mais valor e elevar qualidade dos coprodutos. “Hoje os projetos utilizam sistemas de concentração de vinhaça e extração e recuperação de óleo, o que aumenta a quantidade e qualidade dos coprodutos”, diz. Na mesma linha, a redução de consumo global de biomassa e a melhoria do balanço térmico entram como diferencial de competitividade industrial. O executivo também aponta avanços biotecnológicos na fermentação, com leveduras mais tolerantes, permitindo operação com maior teor alcoólico e sólidos, o que melhora a produtividade. Por outro lado, há desafios importantes de integração. “Alguns gargalos foram as tentativas de utilizar equipamentos desenvolvidos para a cana nos processos industriais das usinas de cereais”, diz Rodrigues. O que se observa, portanto, é uma convergência de três fatores. O primeiro é econômico: margens pressionadas e volatilidade histórica empurraram o setor a buscar receitas descorrelacionadas. O segundo é tecnológico: concentração de vinhaça, recuperação de óleo, otimização térmica e integração digital reduzem o custo de coordenação de operar vários produtos na mesma planta, viabilizando o conceito de biorrefinaria em escala industrial. Por fim, o terceiro aspecto é regulatório: o RenovaBio e o aumento de mistura obrigatória de etanol à gasolina trazem retornos financeiros significativos.

O AGRO PEDE PASSAGEM

A MAIOR ONDA DE INVESTIMENTOS EM ESTRADAS DAS ÚLTIMAS DÉCADAS PROMETE DAR MAIS EFICIÊNCIA

AO TRANSPORTE DE CARGAS E FORTALECER A COMPETITIVIDADE DO AGRONEGÓCIO

Por Marco Damiani

Um gargalo histórico da infraestrutura que atende o agronegócio começa a ser superado graças a uma onda de investimentos bilionários viabilizada por contratos de longo prazo de concessão à iniciativa privada. Vitais para todo o ciclo do setor, do transporte de sementes ao escoamento da produção, as estradas brasileiras vêm ganhando em inovação, tecnologia e segurança. Após somarem compromissos de R$ 176 bilhões em investimentos em 16 leilões rodoviários no ano passado, os aportes devem alcançar R$ 350 bilhões nos próximos 15 anos, com o número de concessões chegando a 45 até o fim de 2026. A modernização das rodovias e suas perspectivas positivas interessam diretamente ao agronegócio.

Nada menos que 96% da produção de grãos do Brasil é escoada por caminhões, o que evidencia a permanente interação do agro com as estradas. Essa dependência vem crescendo.

Segundo a Feagro-MT, o volume de cargas agropecuárias transportadas por rodovias aumentou 5,3% entre o ano passado e o anterior. Os vetores foram os fretes de soja, com alta de 25,7% em razão da safra recorde, e de fertilizantes, com crescimento acima de 5%. Com um volume calculado em 1,4 bilhão de toneladas, as cargas do agro demandaram 80 milhões de viagens rodoviárias em 2025, realizadas em veículos pesados guiados por 1 milhão de caminhoneiros registrados no Ministério dos Transportes. “O agro é o maior e mais estratégico setor econômi-

A modernização das rodovias melhora a logística, reduz custos e fortalece a competitividade do agronegócio brasileiro

co que temos como cliente”, diz Fábio Trujillo, diretor de Planejamento e Controle da EcoRodovias. “Os caminhões que, em grande maioria, transportam produtos agropecuários representam 60% do nosso tráfego.”

Com um portfólio que inclui a Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo, principal corredor para cargas destinadas à exportação pelo maior porto do País, em Santos, a concessionária tem procurado dialogar com frequência com transportadores para implantar atualizações. “Na última etapa da viagem a Santos, o Pátio Regulador de Caminhões tem estrutura para receber os veículos pesados e organizar a ordem de chegada aos terminais portuários”, diz o executivo sobre a área de 443 mil metros

quadrados, em Cubatão. “Essa estrutura surgiu de uma necessidade concreta dos transportadores de carga e da administração do porto. Filas antigas que duravam dias hoje não existem mais.”

Com dez rodovias sob concessão, entre elas a Rio-Minas, a Noroeste Paulista e a Cerrado, corredores importantes para o escoamento da produção agropecuária, a EcoRodovias administra 5,6 mil quilômetros de vias no País. Entre os projetos em estudo está a construção de uma terceira pista da Imigrantes, com 32 quilômetros de extensão, por meio de um aditivo aos contratos atuais. Segundo Trujillo, a nova estrutura poderia ser destinada exclusivamente ao transporte de cargas rumo ao Porto de Santos.

Com um pacote de investimentos obrigatórios em seus contratos de concessão de R$ 50 bilhões, a companhia tem de aplicar em suas rodovias, nos próximos cinco anos, metade desse valor. As obras incluem duplicação de pistas, instalação de equipamentos para pesagem em movimento, com vistas a ganho no tempo das viagens, pavimentação com asfalto-borracha, que aproveita material de pneus usados, aumento de segurança operacional e instalação de pontos de descanso para caminhoneiros ao longo das rotas administradas.

No Paraná, a concessionária Motiva, antiga CCR, está destinando R$ 1 bilhão para a construção de um contorno urbano, com 42 quilômetros de extensão, em Ponta Grossa (PR). O município de 1,1 milhão de habitantes está no centro de rotas do agronegócio com destino ao norte e ao sul do País. O projeto tem nove dispositivos de interligação com outras vias e a operadora calcula que 7,5 mil caminhões deixarão de circular dentro da área urbana diariamente. “Vamos gerar economias de tempo que poderão ser contadas em horas nas viagens dos veículos pesados”, diz o gerente executivo de Estratégias de Operações da Motiva, Jorge Pereira. “Os 5 mil quilômetros de rodovias que administramos recebem atualmente metade do tráfego de caminhões do País, e um terço dos veículos de passeio.”

A Motiva opera 13 rodovias, que ligam 263 municípios, em sete estados brasileiros. A estrutura impressiona. São 3,3 mil câmeras de monitoramento, 2,1 mil telefones de emergência ao longo das vias, 187 guinchos e 147 veículos de resgate. “A pavimentação é projetada para aguentar cargas pesadas”, afirma o executivo. “Temos pessoal capacitado para socorrer caminhões em casos de quebras no percurso. Tudo para a segurança da utilização comercial e de passeio da estrada.”

E strada em construção e E co R odovias do C errado ( abaix0 ): 96% da produção de grãos do B rasil é escoada por caminhões

O porta-voz da concessionária sustenta que as tarifas cobradas nas praças de pedágio hoje são mais bem compreendidas pelos empresários do campo e os operadores de transporte dos produtos agropecuários. “A modernização das estradas está sendo reconhecida pelos empresários rurais em seus negócios”, diz Pereira. “Em comparação ao custo de um pneu novo de caminhão, de cerca de R$ 3 mil, o valor de um trecho pedagiado, que pode ser de R$ 3, é marginal.”

Entre as principais rodovias do País, a BR-101 desempenha papel estratégico no abastecimento dos grandes centros urbanos e no acesso aos principais portos brasileiros. Com 4,8 mil quilômetros de extensão, ela percorre praticamente todo o litoral, ligando o Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. Já a BR-163 se consolidou como o principal corredor do agronegócio, concentrando o transporte de soja, milho, algodão e carnes entre as regiões Centro-Oeste e Norte. Outra rota de destaque é a Rota da Celulose, formada por trechos das BRs 262 e 267. Com 870 quilômetros de extensão entre Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, ela conecta a produção regional ao Porto de Paranaguá, o segundo maior do País em embarques agrícolas.

Vencedor de uma concorrência bilionária no ano passado, o consórcio Caminhos da Celulose, liderado pelo grupo XP, assumiu obrigações de R$ 6 bilhões em recuperação e melhorias em infraestrutura e R$ 3 bilhões para custos operacionais. Entre as obras em curso estão 146 quilômetros de duplicações e 38 contornos urbanos. Só após a entrega das obrigações iniciais a companhia poderá instalar e cobrar pedágio por meio do sistema

R odovia dos I migrantes ( à esq. ) e ponto de parada da M otiva, antiga CCR : bons exemplos de eficiência e segurança

eletrônico free flow. Até lá, contará com a receita das praças de pedágio tradicionais instaladas ao longo da rodovia.

O boom de investimentos se explica por ajustes na legislação de concessões feitas nos últimos anos, estabelecendo nos contratos obrigações detalhadas e maior equilíbrio comercial. Os modelos de financiamento incluem debêntures incentivadas e permitem que as receitas das operações sirvam como garantia para os empréstimos junto a instituições de financiamento. No ano passado, o BNDES financiou R$ 30 bilhões em operações rodoviárias, destravando R$ 110 bilhões em investimentos diretos no setor.

Nesse cenário, o principal contraponto ao avanço das grandes concessões rodoviárias está nas estradas vicinais, responsáveis por conectar a produção rural às vias principais. Do 1,8 milhão de quilômetros da malha rodoviária brasileira, apenas 215 mil são pavimentados, o que evidencia o enorme desafio ainda existente. No Centro-Oeste, essas rotas secundárias, muitas delas sem cobertura asfáltica, foram classificadas pelos usuários como regulares, ruins ou péssimas em pesquisa recente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT). “As más condições das estradas vicinais representam prejuízo para o produtor rural”, afirma Fernanda Rezende, diretora executiva da CNT. “A fluidez é limitada, o desgaste de pneus fica maior, o tempo de transporte aumenta e, como resultado final, a competitividade das regiões com pior infraestrutura rodoviária fica comprometida.”

A qualidade do pavimento é o principal problema. Apenas 4,4% da malha rodoviária brasileira apresenta piso em condições perfeitas, enquanto mais da metade está desgastada e quase um terço possui trincas e remendos. Não por acaso, somente 31,8% das rodovias federais

pavimentadas receberam classificação boa ou ótima na pesquisa da CNT. Os reflexos dessa realidade são sentidos diariamente pelo setor produtivo. Em Santa Catarina, por exemplo, o diretor executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados, Jorge Luiz de Lima, critica o atraso no plano de concessões rodoviárias do estado. Segundo ele, o péssimo estado de conservação da BR-280, utilizada por gigantes da proteína animal como JBS, BRF e Aurora para acessar o Porto de São Francisco do Sul, está ligado à demora na realização das obras necessárias para que a rodovia possa ser leiloada. “O cenário é triste, os buracos estão por toda parte. O que está salvando o transporte regional do agronegócio são as estradas estaduais”, afirma. Lima lembra que o problema afeta um dos estados mais diversificados do País na produção agropecuária, com posições de liderança em aves, suínos, arroz, algodão, fumo e outras culturas. Apesar dos avanços nas rodovias, especialistas alertam que a competitividade futura do agronegócio dependerá de uma expansão mais acelerada da infraestrutura ferroviária e hidroviária. Para o professor Thiago Guilherme Péra, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, o crescimento desses modais precisa superar o ritmo de expansão da produção agrícola e das exportações. “Por mais que as estradas ganhem melhorias, é fundamental para o agronegócio que o País apresente crescimento de infraestrutura ferroviária e hidroviária em ritmo superior ao crescimento da produção agrícola e exportação”, afirma. “Caso contrário, dentro de dez anos o agronegócio poderá estar limitado pela sua capacidade de infraestrutura logística desequilibrada.” Nesse cenário, as concessionárias rodoviárias pedem passagem para liderar a modernização da infraestrutura de transporte do País.

O DRAGÃO ENTRA NA LAVOURA

A OFENSIVA CHINESA QUE JÁ TRANSFORMOU

O MERCADO DE AUTOMÓVEIS AVANÇA SOBRE O AGRONEGÓCIO, LEVANDO TRATORES E COLHEITADEIRAS MAIS BARATOS ÀS

FAZENDAS BRASILEIRAS

Por Mário Sérgio Venditti

Agrícolas no Brasil, nasceu em Taiwan e mora há 37 anos no Brasil. Conhece, portanto, muito bem as particularidades de um mercado tão competitivo.

“Nosso primeiro passo foi criar uma rede de distribuidores que consiga atender os clientes de todas as regiões”, afirma. A Zoomlion é uma gigante chinesa com receita de US$ 10 bilhões por ano em todas as suas operações. Em 2026, o braço agrícola da empresa no Brasil projeta arrecadar R$ 500 milhões, cinco vezes mais que no ano passado.

“Nosso portfólio é diversificado e inclui tratores de 75 cv a 410 cv, colheitadeira de grãos e tratores híbridos (diesel e eletricidade) de 200 cv a 700 cv, que consomem 20% menos em relação ao motor diesel. É um diferencial atraente”, acrescenta Wei Che.

Embora fabrique equipamentos de construção civil em Indaiatuba (SP), a Zoomlion pretende produzir máquinas agrícolas em outra cidade até 2030, seguindo o modelo de negócio aplicado na matriz, na cidade de Changsha. “Vamos separar bem as linhas dos produtos, avaliar quais modelos vendem mais e deixar o sistema de trabalho estruturado”, diz. “A tendência é começar com tratores pequenos, de 25 cv a 50 cv de potência, e progredir aos poucos, de acordo com a demanda dos clientes.”

Wei Che sabe que o tabuleiro do agronegócio brasileiro exige uma peça decisiva: o pós-venda eficiente. Ele pode ser o calcanhar de Aquiles para uma marca que ainda não fabrica no País. Por isso, a Zoomlion exige que os concessionários mantenham um nível muito alto de peças em seus estoques. A ordem é não deixar nenhum trator do produtor parado. “Hoje, a nossa rede é composta por dez dealers, mas queremos encerrar 2026 com 16. Eles serão responsáveis por manter de 40 a 50 pontos de vendas e pós-venda.”

As marcas chinesas se estabelecem no Brasil sem pressa e sem alarde. No entanto, já descobriram que participar dos eventos do setor é essencial para mostrar as qualidades de seus produtos a potenciais clientes. Em abril, a Zoomlion marcou território na Agrishow, uma das principais feiras do agronegócio brasileiro realizada anualmente em Ribeirão Preto (SP). Perto dela, estavam nada menos que 50 expositoras da China, a maioria de pequeno porte e

que ainda mantêm representações modestas no mercado nacional.

O movimento é planejado. Elas desembarcam por aqui, sentem o mercado e, se o cenário econômico estiver propício, avançam. É o caso da Lovol, que pertence ao conglomerado Shandong Heavy Industry Group (SDHI). “Vendemos tratores no Brasil desde 2024, mas adotamos a cautela”, diz André Rorato, diretor de Operações da Lovol no Brasil. Com 14 importadores credenciados – querendo chegar a 20 até o fim do ano –, a Lovol quer dar um passo mais ousado e fabricar no País. Ele garante que isso acontecerá logo, mas não diz quando.

Com a produção local, os clientes poderão se valer de linhas de financiamento oficiais para comprar as máquinas da Lovol e, consequentemente, aumentar o volume de vendas da companhia no Brasil. “O esforço agora é expandir a rede de concessionárias para atender o produtor rural de norte a sul, embora as vendas estejam concen-

O avanço irrefreável dos equipamentos chineses inaugura uma nova fase de concorrência no mercado brasileiro

tradas em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo, estados onde o cultivo do café é mais forte”, diz Rorato.

A Lovol atua em 120 países e o Brasil é um mercado estratégico. “Os tratores vão de 25 cv a 350 cv de potência, com preços de R$ 80 mil a R$ 700 mil. Mas a faixa de até 150 cv representa 80% das nossas vendas no País”, diz o executivo. Com uma ação mais agressiva, a companhia pretende mudar um pouco esse perfil, apostando alto no segmento de tratores de 100 cv. Além disso, mira um público abrangente e não apenas o pequeno produtor. Para o diretor, o diferencial dos equipamentos da empresa é a relação custo/benefício. A Lovol investe valores altos em pesquisa, desenvolvimento e engenharia, que se refletem na qualidade dos produtos, que custam de 15 a 18% menos que os similares feitos localmente. Outra vantagem dos equipamentos apontada por Rorato é o preço da manutenção abaixo da média do mercado. Isso porque a companhia não depende da cadeia de

fornecedores: “Ela simplesmente fabrica tudo, o que facilita a logística de distribuição e permite a cobrança de um valor inferior”.

A exemplo de várias marcas conterrâneas, a XCMG começa a trazer suas máquinas com paciência oriental. “Nossa operação ainda é incipiente”, diz Daniel Sasaki, head da divisão Comercial da rede de distribuidores da XCMG Brasil. “Lançamos o trator de 100 cv de potência e apresentamos um protótipo de 85 cv com motor Cummins.” No momento, a companhia está estruturando a rede para dar andamento ao novo negócio. Já são 14 grupos econômicos que respondem por 100% da cobertura territorial.

A XCMG é novata no setor do agronegócio no País – desde 2014 fabrica equipamentos de construção e mineração na unidade de 800.000 m2 em Pouso Alegre (MG). São quatro galpões principais e dez instalações auxiliares, em um total de US$ 500 milhões investidos no desenvolvimento de infraestrutura da marca no Brasil. Com essas instalações, a XCMG não descarta a intenção de fabricar máquinas agrícolas por aqui. “As atividades no Brasil têm importância estratégica e contribuíram para a empresa alcançar o posto de terceira maior fabricante do mundo, em 2025”, diz Sasaki.

A empresa mantém um departamento de engenharia com atividades dedicadas à linha de produtos. Uma delas é a tropicalização. A gama de powertrain vem de marcas mundialmente reconhecidas, como sistema hidráulico Kawasaki nas escavadeiras e Danfoss nos compactadores. Os motores são da Cummins, Yanmar, Kubota e Perkins. Ao se associar com empresas renomadas, a XCMG espera fisgar o interesse e a confiança dos agricultores. Segundo Sasaki, o pós-venda também é um dos pilares da companhia. “Contamos com um departamento de engenharia de aplicação, de performance e toda uma estrutura de peças e serviços em Pouso Alegre”, afirma. “Além disso, abrimos filiais em estados como Minas Gerais, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Espírito Santo e São Paulo, que contam com estrutura completa também em

pós-vendas.” Assim, a base para a XCMG está preparada. Basta o sinal verde definitivo do quartel-general, localizado na cidade de Xuzhou.

As máquinas chinesas, que por enquanto chegam apenas como importadas, encontram resistência da Abimaq. Segundo Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas, o crescimento das vendas se apoia na chamada “emenda Pix”, expressão dada à modalidade de transferência de verba que permite a deputados e senadores enviar recursos federais a seus currais eleitorais, sem necessidade de convênios ou obrigatoriedade de vincular o dinheiro a projetos específicos. “Com esse dinheiro, as prefeituras podem comprar equipamentos agrícolas chineses mais baratos, fora de linhas de créditos do Plano Safra”, afirma. Bastos ressalta que o movimento de importação de máquinas chinesas começou há três décadas nas áreas de construção civil e mineração. No segmento agrícola, o fenômeno é recente: “Há cinco anos, os equipamentos da China respondiam por 5% das importações. Hoje, estão em 10% no agronegócio e 32,5% no geral”.

O executivo diz que a ameaça para a indústria nacional é o encolhimento do mercado por falta de competitividade dos fabricantes locais diante de um produto mais barato. O dirigente da Abimaq acredita que, cedo ou tarde, as principais marcas chinesas fabricarão no Brasil. “Yto e Lovol já sinalizaram que farão isso, mas é uma decisão demorada e, até lá, as representantes oficiais não terão uma rede de distribuição de peças à altura da necessidade, principalmente em regiões mais distante dos grandes centros”, diz. Para tentar frear a invasão, a Abimaq aguarda a sanção do Projeto de Lei 4.133/23, que estabelece parâmetros mais favoráveis à proteção da indústria nacional, com a possibilidade de cotas maiores ou exclusividade em licitações públicas. O texto foi aprovado na Câmara dos Deputados no dia 17 de junho e agora segue para o Senado. Se passar, ou as importações perderão fôlego ou as companhias chinesas terão de acelerar o processo de fabricação local.

Z oomlion 3004: desenvolvido para suportar longas jornadas de trabalho

Z oomlion 7004: um dos maiores e mais potentes tratores híbridos do mundo

M áquina da L ovol: nos útimos anos, o B rasil se tornou um mercado estratégico

SOMOS PARTE DE UMA BIOECO

NOMIA

"Atualmente, temos diversos produtos de baixo carbono que surgiram de nosso protocolo para a pecuária"

Quando Silvia Massruhá assumiu a presidência da Embrapa, em maio de 2023, a instituição que há meio século lidera a pesquisa agropecuária brasileira passou a ser comandada, pela primeira vez, por uma mulher. Menos de três anos depois, a história voltou a se repetir. Ao completar 50 anos de existência, a Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), escolheu como chefe-geral a zootecnista Mariana de Aragão Pereira – também a primeira mulher a ocupar o cargo. As duas chegaram ao topo após trajetórias construídas ao longo de décadas de dedicação à ciência e à gestão da pesquisa agropecuária. Ainda assim, o simbolismo é inevitável. “Antes da Silvia, eu mesma não me via nessa posição por não ter outra referência”, afirma Mariana, que assumiu o comando da unidade em janeiro, à frente de uma diretoria com forte presença feminina. Nascida em Campinas (SP) e criada no Rio de Janeiro, Mariana é formada em zootecnia, mestre em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Viçosa (MG) e Ph.D. em Agricultural Management pela Universidade de Lincoln, na Nova Zelândia. Há 25 anos na Embrapa, ela chega ao novo cargo com o desafio de ampliar a relevância da unidade Gado de Corte, fortalecer o papel da ciência na construção de uma pecuária mais sustentável e disseminar essa visão por toda a organização. Nesta entrevista exclusiva, Mariana fala sobre os caminhos para alcançar esses objetivos e os desafios da pesquisa agropecuária em um setor cada vez mais pressionado por demandas de produtividade, competitividade e sustentabilidade.

Como uma garota nascida em campinas se interessou pela zootecnia?

Quando criança, passava férias na fazenda de uma tia, em Minas Gerais, e também tinha um avô agrônomo, que se formou na Universidade Federal de Lavras e foi um dos pioneiros da extensão rural. Eu gostava de ouvir suas histórias. Pensei até em fazer veterinária, mas conheci a zootecnia e me encantei.

Estava nos seus planos se tornar chefe-geral de uma unidade da embrapa?

Essa é uma história interessante. Entrei na empresa com 26 anos e não pensava nesse cargo. Só queria fazer meu trabalho, contribuir. Tive bons mentores e construímos muitas coisas juntos, como diversos trabalhos sobre viabilidade

econômica das forragens, das pastagens, do ponto de vista da longevidade do processo produtivo. Quando retornei do meu doutorado na Nova Zelândia (2007-2011), passei a participar de várias palestras, viajar muito, até que fui convidada para coordenar o grupo de pesquisa sobre sistemas de produção de gado de corte.

O que o doutorado mais agregou para sua formação?

Foi um período muito importante, voltado para a área de economia e gestão rural, mas também passei a estudar psicologia para entender os processos de tomadas de decisão dos produtores, uma visão sobre economia comportamental. Isso desconstruiu um pouco o conceito da economia neoclássica, mostran-

do que as decisões financeiras não são puramente racionais. Fiquei encantada.

Como esse processo impactou seu trabalho na embrapa?

Isso tudo não acontece com um virar de chave, é uma construção. Sempre trabalhei o autodesenvolvimento e me preparei até para superar crenças limitantes. Em vez de estar em um lugar e achar que meu potencial não era visto como deveria, passei a me ver como parte do processo e entender que posso contribuir para as mudanças necessárias. Passei a aproveitar e a capitalizar oportunidades, daí comecei a ser chamada para muitas coisas. Como pesquisadora, estava realizada, mas queria contribuir mais. Ser chamada para coordenar um grupo de pesquisa e gerenciar pessoas foi o grande teste que me credenciou para chegar aonde estou.

Qual é a relevância de ser a primeira mulher a chefiar a embrapa gado de corte?

Estamos em um momento no qual as questões de gênero estão mais em alta, temos uma presidente na Embrapa, muitas mulheres diretoras, então nos sentimos valorizadas e validadas. Ser mulher não é garantia para estar no cargo, pois trata-se de um pleito muito pesado, o processo de avaliação da capacidade, da qualidade técnica, é muito intenso e rigoroso. Mas quando uma mulher se vê representada, acredita que pode chegar lá. E ser a primeira mulher na Embrapa Gado de Corte é outro marco, pois a pecuária de corte é um ambiente muito mais masculino, mais conservador.

Qual é sua visão sobre o momento atual da pecuária, considerando questões de mercado, conflitos internacionais e a geopolítica?

Se olharmos historicamente, há momentos de calmaria e outros mais turbulentos. Agora, vivemos um período mais turbulento e isso pesa nas decisões de curto prazo. Porém, nosso trabalho é bastante voltado para o longo prazo, realizamos hoje os grandes indutores para o futuro. Questões como sustentabilidade, rastreabilidade, saúde animal, tudo isso continua na mesma direção em termos de linhas de pesquisa. Em relação a questões de curto prazo, sobretudo de mercado, temos outras instituições e vários especialistas que podem analisar e orientar.

Como o produtor deve lidar com esse cenário?

Por ser um tomador de preços, precisa olhar com muito critério seu sistema de produção para reduzir o que for possível nos custos. É o caso dos fertilizantes. O produtor vai deixar de usar ou vai racionalizar? O plano de longo prazo não pode ser interrompido por causa de algo pontual. Muitas vezes, sem esse plano de longo prazo, o produtor acaba perdendo o rumo quando surge um problema assim. Daí a importância de profissionalizar nossos produtores. Temos um papel social importante, que é promover a tecnologia junto aos pequenos e médios produtores, pois os grandes já estão em outro nível. Precisamos de uma rede e de políticas públicas que ajudem o pequeno produtor. Imagine um pecuarista que tem 20 cabeças e precisa colocar chip nos animais.

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Por falar em chip de identificação, como avançar nesse ponto?

A Embrapa é uma empresa de pesquisa e desenvolvimento. A parte de pesquisa é onde temos o maior foco, é o nosso core, então fazemos com muita eficiência. Já a parte de desenvolvimento, de como chegar ao campo, fica mais difícil, pois há muito tempo faltam extensionistas, é uma ação muito limitada. Trabalhamos como facilitadores dessas ações e apoiamos o desenvolvimento de políticas públicas. Nossa expectativa é de que isso mude bastante. Assim, nossa pesquisa chegará com mais facilidade aos grupos que têm dificuldade, como os pequenos produtores.

Como a embrapa contribui para a elaboração de políticas públicas que auxiliem nesse ponto?

Trabalhamos em parcerias públicas e privadas. Em Mato Grosso do Sul, existe um sistema de pagamento por serviços ambientais e antes disso houve uma série de discussões sobre produção e preservação no Pantanal, conduzidas pela Embrapa Pantanal. Participamos ativamente dessas conversas, levando informações técnicas para contribuir com o embasamento científico. Quando fizemos esse trabalho dos pagamentos por serviços ambientais, que é muito difícil de mensurar, já usamos a base do que foi realizado sobre o Pantanal. Hoje, os pecuaristas estão recebendo recursos para preservar áreas que poderiam, por lei, ser desmatadas. Muitas decisões ficam só no âmbito econômico e temos de envolver também o social.

Pelo que está dizendo, esse é um trabalho feito a várias mãos. Como funciona o trabalho conjunto entre as próprias unidades da embrapa que atuam na pecuária de corte?

Nesse caso entra a Coalisão Pecuária do Futuro,

" Q uando uma mulher se vê representada, acredita que pode chegar lá. ser a primeira mulher na E mbrapa G ado de C orte é um marco"

uma das ações que estamos promovendo. Já fizemos a primeira reunião e estou agendando a segunda. Temos várias unidades trabalhando pesquisas para a pecuária e nem sempre sabemos o que cada uma está fazendo. Precisamos ter conexão disso tudo, saber como podemos, coletivamente, ajudar a cadeia produtiva.

Como mostrar ao público esse posicionamento agregador e seus benefícios?

Andamos um pouco no fio da navalha por causa das narrativas. Muito se fala que a pecuária de corte é apenas para grandes produtores, ou que é uma atividade prejudicial, que polui e desmata. Estamos trabalhando internamente uma mudança de cultura para mostrarmos a pecuária de corte como parte de uma bioeconomia, de uma economia circular. A pecuária faz serviços ecossistêmicos sobre os quais precisamos falar mais, até em nível global.

Pode dar um exemplo desses serviços ecossistêmicos da pecuária de corte?

Está todo mundo falando sobre o DDG (Dried Distillers Grains ou Grãos Secos de Destilaria), subproduto da indústria de etanol de milho que entra na alimentação animal. Porém, não temos um estudo que fale sobre o que seria feito com esse material caso não virasse alimento para o gado. A pecuária está resolvendo um passivo ambiental e gerando lucro para toda uma cadeia produtiva. Falamos muito sobre a carne, mas precisamos tratar também de todos os outros itens do setor, das demais oportunidades, de componentes que podem gerar bionergia. Hoje, temos diversos produtos de baixo carbono que surgiram de nosso protocolo de carbono neutro para a pecuária. E seguimos buscando pesquisas de integração com cadeias produtivas alternativas.

Quando se fala da imagem da pecuária brasileira no mundo, qual é o impacto da relação que se faz entre o setor e as mudanças climáticas?

Primeiro, precisamos ter essa consciência aqui, por isso estou trabalhando muito com a minha equipe, muita gente já está familiarizada com essas questões e outras precisam entender um pouco melhor. Segundo, vem uma internalização da própria Embrapa, por isso a Coalisão Pecuária do Futuro. Muitos chefes já trabalham com essa ideia, mas ela precisa chegar com mais força também aos pesquisadores. Depois, é uma reverberação natural. Precisamos mostrar a realidade do Brasil lá fora e não deixar que o País seja descrito apenas por pessoas que não conhecem a nossa realidade.

Essa comunicação também deve chegar ao consumidor final no brasil?

É fundamental, mas bem mais difícil, pois a distância que nos separa desse público é bem maior do que em relação a quem está no nosso ambiente. Nossa conversa com o consumidor virá a partir da comida e não do boi. O discurso deve ser mais sobre carne do que sobre sistema produtivo. Tenho dialogado sobre isso inclusive com a Embrapa Alimentos e Territórios. Quando minha mãe vai comprar carne, ela não está preocupada se o boi comeu pasto ou ração. Talvez pense no impacto ambiental, se há desmatamento, porque aí entra a questão de que comer é um ato político.

Qual é, então, o fator de decisão do consumidor quando compra carne bovina?

A grande maioria continua escolhendo a carne

pelo preço. Esse é o maior diferencial para a decisão de compra. Muito depois vem a preocupação com resíduos de algum produto e, bem mais à frente, o interesse sobre emissão de gases de efeito estufa. Enquanto a conversa for sobre preço, vamos priorizar a produção eficiente com baixo custo, oferecendo carne de qualidade com segurança sanitária. Para um público mais exigente, que avalia outros pontos, temos de considerar diferentes atributos de qualidade, como origem. Seria interessante trazermos o pessoal da gastronomia para participar mais dessa conversa, como fazem na Austrália, levando chefs para conhecer a cadeia produtiva.

Além de todas essas ações que estão no dia a dia da unidade, qual é seu grande projeto para a embrapa gado de corte?

É a construção de um hub de inovação em pecuária de corte, o que espero ser um grande divisor de águas. A ideia é ter uma fazenda de 300 hectares, dentro da nossa estrutura, para desenvolver sistemas de produção que sejam viáveis para replicação em escala comercial. Usaremos tudo o que há de novidades tecnológicas, como inteligência artificial, para observarmos todas as variáveis de cada projeto. Desenvolveremos tecnologias e processos para os pequenos produtores de forma que possam ser extrapolados para os grandes, até porque o contrário não seria possível, devido ao nível de investimento necessário. Não queremos deixar ninguém de fora. Vamos definir toda a parte de planejamento ainda em 2026 para que seja implementado em 2027. Esse projeto será a menina dos olhos da minha gestão.

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Trabalho

O AGRO QUE CULTIVA SAÚDE EMOCIONAL

EMPRESAS DO AGRONEGÓCIO TRANSFORMAM A SAÚDE MENTAL EM PRIORIDADE, INVESTEM NA FORMAÇÃO DE LÍDERES E AMPLIAM PROGRAMAS DE APOIO EMOCIONAL PARA COLABORADORES E SUAS FAMÍLIAS

No dia 26 de maio, entrou em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, que estabelece diretrizes para a gestão de saúde e segurança nas empresas. A principal mudança foi a inclusão formal dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), tornando obrigatória a avaliação de fatores relacionados à saúde mental, ao ambiente organizacional e às práticas de liderança. A atualização reflete uma realidade que há anos vem se impondo ao mercado de trabalho: o avanço dos transtornos mentais e comportamentais entre os trabalhadores brasileiros. Em certa medida, a norma chega para responder a um problema que já se tornou visível tanto nos indicadores de saúde pública quanto nas disputas trabalhistas. Apenas no ano passado, a Previdên cia Social concedeu 546 mil benefícios por afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15% em relação aos 472 mil registrados no ano anterior. Entre os diagnósticos mais frequentes estão os transtornos de ansiedade e os episódios depressi vos, que vêm figurando entre as principais causas de afastamento do trabalho nos últimos anos.

Embora os transtornos mentais tenham origens diver sas, especialistas concordam que o ambiente de trabalho pode exercer influência decisiva sobre eles, seja como fator de proteção, seja como elemento de agravamento. Nesse contexto, a atuação das lideranças ganha importância estratégica. Algumas empresas do agrone gócio já vêm incorporando essa visão às suas práticas de gestão. É o caso da Zilor, companhia do setor sucroener gético que transformou a preocupação com a saúde mental em uma agenda de desenvolvimento de líderes. A empresa, que emprega mais de 4 mil colaboradores, passou a incluir o tema em seus programas de capacitação. Desde o ano passado, foram realizadas mais de 360 horas de treinamento envolvendo 75 gestores. O objetivo é ampliar a capacidade de identificar sinais de sofrimento emocional e fortalecer o cuidado com as equipes. “Nossas lideranças precisam estar atentas às pessoas. Muitas vezes, o sinal de que alguém está enfrentando dificuldades está ao nosso lado e passa despercebido. Ainda mais hoje, em um mundo cada vez mais virtual, em que as pessoas conversam menos entre si”, afirma o presidente da Zilor, Andre Inserra. A capacitação das lideranças integra um programa

I nserra, CEO da Z ilor: " É possível elevar os resultados se o cuidado com as pessoas vem junto"

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mais amplo de promoção da saúde mental, lançado pela Zilor em 2023. A iniciativa reúne uma série de ações, entre elas atendimento psicológico disponível nas unidades e durante o expediente, a criação da Brigada Vida e Saúde, o desenvolvimento de ferramentas digitais de acompanhamento, o mapeamento de riscos psicossociais e campanhas de conscientização, como o Setembro Amarelo e o Janeiro Branco. Desde que assumiu a presidência da companhia, no fim de 2024, Andre Inserra reforçou essa agenda. Com uma trajetória de 35 anos liderando equipes em dezenas de países e envolvendo milhares de profissionais, ele afirma que desempenho e bem-estar caminham juntos. Para o executivo, o engajamento das equipes depende diretamente da saúde emocional dos colaboradores. “É possível elevar o nível de resultados quando o cuidado com as pessoas vem junto”, afirma.

O acesso facilitado ao atendimento psicológico, aliado à garantia de confidencialidade, tem sido um dos fatores que mais contribuem para a adesão dos colaboradores ao programa. “É fundamental que as pessoas se sintam seguras para buscar ajuda. Por isso, as lideranças precisam compreender a importância desse processo e incentivar esse

movimento”, afirma João Victor Hercos Juliano, médico da área de Saúde do Trabalho da Zilor. O programa oferece inicialmente até dez sessões de terapia, realizadas durante o expediente, com possibilidade de continuidade conforme a avaliação clínica de cada caso. O primeiro colaborador a participar da iniciativa foi o líder de Fertirrigação Luiz Carlos de Carvalho, que trabalha na empresa há 44 anos. Em 2020, ele enfrentou a perda de um filho de 34 anos, uma experiência que abalou profundamente sua vida pessoal e profissional. “Teve dia em que cheguei à empresa, conversei com o médico e fui orientado a voltar para casa”, lembra. Quando o projeto foi lançado, em 2023, Luiz Carlos foi convidado a integrar o programa e encontrou no acompanhamento psicológico um importante apoio para atravessar o período de luto.

Desde então, Carvalho tornou-se um dos principais defensores da iniciativa dentro da empresa e passou a ajudar a derrubar preconceitos que ainda cercam a saúde mental. Ele próprio admite que precisou rever suas convicções. “Antes, eu não entendia como uma pessoa não conseguia controlar o emocional”, recorda. A experiência do luto o fez enxergar uma realidade que até então lhe parecia distante. “Muita gente

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ainda acha que procurar ajuda psicológica é coisa de doido ou sinal de fraqueza. Como pode ser frescura se existem pessoas que chegam a tirar a própria vida por causa disso?”, questiona.

Hoje, ainda em acompanhamento terapêutico, Carvalho costuma recorrer a uma analogia simples para explicar o impacto do tratamento. “É como uma bola muito cheia dentro de uma caixa onde existe um sensor da dor. A bola bate o tempo todo nesse sensor. À medida que a bola vai esvaziando, ela encosta menos e a dor diminui.” É essa imagem que ele procura compartilhar com as equipes que lidera. Para quem passou boa parte da vida acreditando que os problemas de casa deveriam ficar fora do trabalho, a mudança de perspectiva foi profunda. Carvalho aprendeu, na prática, que as pessoas não conseguem separar suas emoções em compartimentos estanques e que cuidar da saúde mental é também uma forma de cuidar do desempenho, dos relacionamentos e da própria vida.

Essa visão também orienta as iniciativas do Grupo Jacto, que decidiu ampliar o alcance das ações voltadas à saúde mental para além dos colaboradores. A empresa parte do princípio de que bem-estar emocional e qualidade de vida não se limitam ao ambiente de trabalho e estão profundamente ligados às relações familiares. Por isso, seu plano de saúde permite que os funcionários incluam não apenas cônjuge e filhos como dependentes, mas também pais, mães, sogros e sogras. O cuidado se estende a outra frente: o Instituto de Desenvolvimento Familiar, criado para fortalecer vínculos e promover relações mais saudáveis dentro e fora de casa. A iniciativa oferece cursos e atividades voltados ao desenvolvimento pessoal e familiar e já acumula cerca de 3 mil matrículas.

Outra iniciativa é o Programa Saúde Integral, criado em 2019 para complementar a assistência oferecida pelo plano de saúde. A proposta reúne médicos, terapeutas, psicólogos e psiquiatras em uma abordagem multidisciplinar. A adesão é voluntária, mas há uma condição: toda a família deve participar. “A família é a origem de tudo na vida de uma pessoa. Quando alguém entra no programa, olhamos para o contexto completo”, afirma Wilson Branco, diretor de Recursos Humanos do Grupo Jacto. A partir de um diagnóstico inicial, é elaborado um plano de acompanhamento voltado às necessidades físicas, emocionais

ngélica K anashiro, da AGCO : " E stamos trazendo uma abordagem mais humana"

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e comportamentais do núcleo familiar. Os resultados aparecem em diferentes indicadores. Em 2025, os participantes do programa perderam, juntos, cerca de 1,5 tonelada. Segundo Roger Pampana Nicolau, diretor de Governança do grupo, muitas vezes questões emocionais estão por trás de problemas aparentemente distantes da saúde mental. “A obesidade é uma das principais razões pelas quais as pessoas procuram ajuda. Em muitos casos, ela está associada à ansiedade e a outros fatores emocionais. Quando estamos ansiosos, tendemos a buscar mais comida ou bebida porque elas proporcionam uma sensação imediata de prazer”, explica. Por isso, o acompanhamento envolve profissionais de diferentes especialidades, integrando saúde física, emocional e qualidade de vida. Com operações em cinco países e presença comercial em 22 mercados, a Jacto procura adaptar suas iniciativas às particularidades de cada região. “Temos uma estratégia global, mas respeitamos as características culturais, religiosas, jurídicas e regulatórias de cada localidade”, afirma Nicolau. As práticas são desenvolvidas no Brasil, país de origem do grupo, e ajustadas às realidades de cada operação.

Desafio semelhante enfrenta a AGCO, multinacional dona de marcas como Massey Ferguson, Valtra, Fendt e PTx. Presente em diferentes continentes e com forte atuação na América Latina, a companhia entende que o bem-estar dos colaboradores depende de um conjunto de fatores que vai muito além do ambiente físico de trabalho. “Procuramos oferecer benefícios que apoiem as pessoas de forma ampla. O plano de saúde, por exemplo, muitas vezes é determinante para garantir qualidade de vida e segurança”, afirma Angélica Kanashiro, vice-presidente de Recursos Humanos da AGCO para a América do Sul e Business Partner Global da Massey Ferguson.

A comunicação ocupa papel central nessa estratégia. O trabalho envolve tanto a capacitação das lideranças para identificar sinais de sofrimento emocional quanto ações voltadas a todos os colaboradores. Um exemplo é a Connec-

tion Week, evento interno que promove discussões sobre temas como saúde emocional, equilíbrio financeiro e qualidade de vida. “Estamos trazendo uma abordagem mais humana para essas conversas”, diz Angélica. A relevância desse suporte tornou-se ainda mais evidente durante as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, em maio de 2024. Além de afetar a fábrica da companhia em Canoas, a tragédia atingiu diretamente colaboradores, familiares e comunidades inteiras. A resposta mobilizou uma ampla rede de apoio envolvendo parceiros, fornecedores e concessionárias da empresa. Ao mesmo tempo, a assistência emocional tornou-se prioridade. “As lideranças reforçaram a importância de buscar ajuda. Criamos grupos presenciais de apoio e promovemos várias rodadas de conversas. As pessoas compartilharam suas experiências, ajudaram umas às outras e encontraram forças para seguir em frente”, afirma Angélica. “Ali ficou muito clara a importância da resiliência e do suporte emocional.”

Hoje, 6% dos colaboradores da AGCO participam de programas voltados ao bem-estar psicológico. Entre eles, 86% relatam melhora em quadros como ansiedade e depressão. A meta é ampliar esse alcance nos próximos anos. “Tenho muito orgulho do que estamos construindo. Estamos passando por uma transformação cultural que acontece em todas as nossas operações”, diz a executiva.

Apesar dos avanços, ela acredita que ainda há barreiras importantes a superar, especialmente em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos. O preconceito diminuiu, mas não desapareceu. E é justamente por isso que iniciativas de conscientização continuam sendo essenciais. Quanto mais natural for falar sobre saúde emocional, maiores serão as chances de prevenir o adoecimento, identificar sinais precoces de sofrimento e oferecer ajuda a quem precisa. A nova NR-1 transformou essa discussão em uma exigência regulatória. Para muitas empresas, porém, trata-se de algo maior: uma mudança de mentalidade que começa no trabalho, mas cujos efeitos se espalham por toda a sociedade.

A NOVA ERA DOS RODEIOS

O QUE ERA APENAS UMA ATRAÇÃO DAS FESTAS DE PEÃO VIROU UM ESPORTE PROFISSIONAL COM TRANSMISSÃO NACIONAL, PREMIAÇÕES MILIONÁRIAS E PROJEÇÃO INTERNACIONAL

As arquibancadas começam a encher à medida que a noite cai. Homens e mulheres de chapéu, botas de couro e fivelas dividem espaço com jovens, famílias inteiras e crianças vestidas à moda country. Dos alto-falantes saem clássicos do sertanejo. Quando o locutor assume o microfone, a festa muda de ritmo. Ele apresenta competidores, provoca a torcida e transforma cada prova em um espetáculo. É o cenário dos rodeios, ou festas de peão, como ainda são conhecidos em boa parte do País. Presentes em cerca de 40% dos municípios brasileiros, segundo a Confederação Nacional de Rodeio (CNAR), esses eventos movimentam multidões e preservam tradições do interior. No ano passado, cerca de 2 mil festas foram realizadas no Brasil, principalmente em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ao longo da noite, o público acompanha provas como os três tambores, o laço e o tradicional cutiano. Mas todos sabem qual é o momento mais aguardado. Quando os refletores se voltam para os bretes e um touro entra na arena, a expectativa cresce. É a hora da montaria em touros, modalidade que se tornou a principal atração dos rodeios brasileiros e que, nas últimas décadas, deixou de ser apenas entretenimento para se transformar em um esporte profissional, com atletas, rankings, transmissões de televisão e premiações milionárias. Hoje é difícil imaginar um rodeio sem montaria em touros. Mas nem sempre foi assim. Até a década de 1970, a principal modalidade era o cutiano, tradicional montaria em cavalos criada no Brasil. A mudança começou no início dos anos 1980, quando as regras da montaria em touros foram trazidas dos Estados Unidos para o interior paulista por Sebastião Procópio, o Tião. “Além de apresentar a nova modalidade, o Tião também montava muito bem, criando assim, junto com ele, a primeira geração de atletas montadores em touros”, disse Flávio Junqueira, ex-competidor dessa geração e hoje um dos criadores de touros de pulo mais conhecidos do País, em entrevista ao podcast Agro360. O desafio da prova é difícil de executar. O competidor precisa permanecer sobre o lombo do animal durante oito segundos utilizando apenas uma das mãos presa à corda americana. Nesse período, juízes avaliam o desempenho do atleta e do touro. A nota final, que pode chegar a 100 pontos, resulta da soma das duas avaliações. A intensidade da disputa e o apelo visual da

modalidade fizeram com que ela assumisse gradualmente o protagonismo dos rodeios brasileiros. Em pouco mais de quatro décadas, a montaria em touros deixou de ser uma novidade importada para se tornar o principal produto esportivo das festas de peão.

Dois momentos foram decisivos para essa transformação. O primeiro ocorreu em 2002, com a promulgação da Lei 10.519, que estabeleceu regras para a realização de rodeios, incluindo normas voltadas à segurança dos participantes e à proteção dos animais. O segundo veio em 2006, com a chegada ao Brasil da Professional Bull Riders (PBR), principal organização de montaria em touros do mundo. A operação brasileira foi criada pela família Moraes, um ano após a entidade norte-americana iniciar sua expansão internacional. Com sede em Fort Worth, no Texas, a PBR está presente em cinco países – Estados Unidos, Brasil, Canadá, México e Austrália – e integra o TKO Group Holdings, conglomerado que também controla marcas como UFC e WWE.

Na temporada 2025/26, a PBR promoverá 30 etapas pelo País, além da final nacional, tradicionalmente realizada em Barretos (SP). Aproximadamente 150 atletas e 300 touros, pertencentes a cerca de 40 tropeiros, participam das competições. Ao final da disputa, apenas um montador e um animal são coroados campeões nacionais. Neste ano, a premiação total ultrapassará R$ 4 milhões. O destaque é o PBR Grand Rodeo, em Sorriso (MT), que distribuirá um prêmio recorde de R$ 500 mil. A profissionalização também levou a modalidade à televisão. Nesta temporada, o canal BandSports transmite ao vivo 25 etapas do circuito e exibe semanalmente um programa dedicado aos bastidores e resultados do esporte.

Na avaliação de Flávia Moraes, diretora executiva da PBR Brasil, a exposição amplia o alcance da modalidade. “Além de todo o aspecto cultural que existe em torno da montaria em touros, estar em um canal esportivo reforça o aspecto de competição que a gente tem”, afirma. Se os montadores são os rostos mais conhecidos da modalidade, os touros são igualmente decisi-

vos para o espetáculo. “O touro de performance é um animal diferente, ele tem uma habilidade única para pular”, diz César Fabiano Vilela, médico-veterinário especialista em animais de performance. Segundo ele, a identificação desse potencial ocorre ainda na juventude do animal. A partir daí, os criadores, conhecidos como tropeiros, iniciam um processo de treinamento e preparação física específico.

Um dos pilares da expansão da modalidade é o investimento em protocolos de bem-estar animal. Segundo Vilela, o acompanhamento veterinário começa meses antes das competições. A equipe técnica participa do planejamento das estruturas, acompanha a logística de transporte e define as condições adequadas para a permanência dos animais. “Nós praticamos um limite diário de oito horas de transporte no máximo”, diz. “Passando disso, é obrigatório parar, descarregar os animais, alimentá-los, dar um tempo para eles descansarem e depois seguir viagem.” Durante os eventos, os touros não permanecem nos recintos dos rodeios. Eles são alojados em fazendas próximas, em condições semelhantes às encontradas em suas propriedades de origem. Ao chegarem às competições, todos os animais passam por inspeções individuais. Qualquer alteração física pode resultar na retirada imediata do touro da disputa. O protocolo prevê ainda avaliações diárias e inspeções após cada apresentação.

A expansão dos rodeios profissionais transformou o Brasil em uma das maiores potências mundiais da modalidade. O País conquistou 15 títulos da PBR norte-americana desde a criação do campeonato, em 1994. Entre os principais nomes da história estão Adriano Moraes, Silvano Alves e José Vitor Leme, todos tricampeões mundiais. Para Adriano Moraes, presidente da PBR Brasil, o esporte vai além da competição e representa uma oportunidade concreta de ascensão social para jovens do meio rural. “O que o futebol faz para a molecada da cidade, o esporte de montar em touros faz para a molecada das fazendas do interior do Brasil”, conclui.

" O campo mudou. E m 60 anos, o B rasil saiu do financiamento estatal quase total para um mercado privado de r$ 1,4 trilhão"

F FORUM o

REVOLUÇÃO FINANCEIRA

O DINHEIRO QUE MOVE O CAMPO MUDOU DE ENDEREÇO. CRÉDITO PRIVADO, MERCADO DE CAPITAIS E TOKENIZAÇÃO TRANSFORMAM A

MANEIRA COMO O AGRO BRASILEIRO SE FINANCIA

POR MARCO RIPOLI*

Há uma narrativa confortável e perigosa que ainda circula nas mesas das cooperativas, nos corredores das feiras agropecuárias e até nas redações especializadas: a de que o agronegócio brasileiro depende, fundamentalmente, do Estado para se financiar. Que sem Plano Safra, sem subsídio, sem BNDES, a engrenagem trava. Essa narrativa é um convite ao imobilismo – e os números de 2025 e 2026 a desmontam com elegância.

Entre as décadas de 1960 e 1990, o financiamento rural brasileiro era quase integralmente estatal. O produtor ia ao banco oficial, recebia o dinheiro subsidiado e plantava. Essa estrutura foi se desmontando nas crises fiscais seguintes – e o campo crescia em escala e complexidade muito mais rápido do que a oferta pública conseguia acompanhar. O resultado desse descompasso é visível hoje: o Plano Safra 2025/26 foi lançado com R$ 516,2 bilhões, o maior valor nominal da história. Ao mesmo tempo, o estoque total dos principais instrumentos privados de financiamento – CPRs, LCAs, CRAs, CDCAs e Fiagros –fechou 2025 em R$ 1,41 trilhão. O mercado privado representa mais que o dobro do que o governo anuncia. O Plano Safra responde por aproximadamente 20% do crédito que movimenta o campo. Os outros 80% vêm de outra fonte.

O problema não é só de volume – é de custo. A Selic a 15% ao ano no lançamen-

to do Plano Safra 2025/26 gerou as maiores taxas de juros já vistas no crédito rural controlado. Para o Pronamp, os juros saltaram de 8% para 10%. Para o Moderfrota, de 8,5% para 13,5%. Para grandes produtores, o custeio chegou a 14% ao ano. A política de equalização, em que o Tesouro subsidia a diferença entre o custo de captação do banco e a taxa cobrada ao produtor, ficou muito mais cara com a Selic elevada, limitando o crédito realmente controlado. Em outras palavras: o Plano Safra cresceu em valor nominal, mas encolheu em impacto real.

Um detalhe técnico que raramente entra no debate: dos R$ 516,2 bilhões anunciados, R$ 185 bilhões referem-se a CPRs que servem como lastro e instrumento, não como recursos diretos do Tesouro. Parte do que é contabilizado como “crédito público” já é, na prática, crédito privado reestruturado. A linha entre o público e o privado é muito mais tênue do que o discurso político admite.

O crédito privado do agro não é um monolito. É uma arquitetura de instrumentos distintos, e conhecê-los deixou de ser opcional para quem opera no setor. A CPR (Cédula de Produto Rural), criada em 1994 e modernizada em 2022, é o ativo âncora desse sistema. Em 2025, seu estoque atingiu R$ 562,9 bilhões – alta de 72% em relação a 2024 –, com 398 mil certificados em circulação e ticket médio de R$ 1,4 milhão. O produtor aprendeu a usar sua pro-

*Marco Ripoli é Ph.D. em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.

#COLUNASPLANT

dução futura como ativo financeiro. Esse é o fundamento de quase toda a estrutura privada que se construiu ao redor.

A LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) é o maior estoque individual do mercado, com R$ 600,15 bilhões ao final de 2025, crescimento de 16% em um ano. Dos recursos captados, R$ 360,09 bilhões foram reaplicados diretamente no financiamento rural, ou 39% a mais que no ano anterior. É o instrumento que conecta o investidor urbano ao campo, isento de IR para pessoa física. A ameaça da MP 1303/2025, que aventou a taxação das LCAs, foi recebida com alarme pelo setor, e com razão: qualquer tributação desse instrumento encarece o crédito rural.

Os CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) fecharam 2025 em R$ 178,39 bilhões, com emissões de R$ 52,1 bilhões no ano – uma recuperação importante após a crise de 2024, gerada pelas recuperações judiciais da Agrogalaxy e de outros players. Os Fiagros encerraram o ano com patrimônio líquido de R$ 47,42 bilhões e 256 fundos em operação. O mercado secundário desses instrumentos amadurece: como destacou o vice-presidente da B3, Luiz Masagão, “quando o investidor sabe que pode vender um título no mercado secundário, ele se sente mais confortável para investir no longo prazo”.

O principal gargalo agora não é qualidade. A enorme variação de padrão entre operações, em termos de risco, transparência e obrigações de cada parte, dificulta ganhar escala e atrair investidores institucionais com exigências mais rígidas de compliance. Crescer com consistência exige padronização, e esse é o trabalho mais urgente do próximo ciclo.

Se a CPR é o título mais versátil do agro, o barter é a operação mais pragmática. Três décadas depois de sua popularização nas lavouras de soja do Centro-Oeste, ressurge como protagonista em um cenário de crédito caro e oferta bancária restrita. O conceito é simples: o produtor

troca produção futura por insumos presentes – sementes, fertilizantes, defensivos – sem dinheiro na mesa e sem taxa de juros explícita no contrato. A formalização se dá via CPR, que garante segurança jurídica às três partes envolvidas: produtor, fornecedor de insumos e trading. Mas o barter evoluiu muito além dessa estrutura triangular. No barter securitizado, a trading emite um CDCA lastreado em CPR e o negocia no mercado de capitais, atraindo investidores institucionais para dentro de uma operação que começou como troca de soja por herbicida. O que parece uma transação rural simples termina como produto de renda fixa negociado em bolsa.

Os números confirmam o protagonismo. A Basf projetou até 50% de seus negócios na safra 2024/25 via operações de troca. A consultoria Céleres prevê recorde nas operações de barter para a safra 2026/27, com o mercado de insumos voltando a R$ 309 bilhões. O Banco do Brasil, pela plataforma Broto, foi além: lançou barter digital com grãos tokenizados em soja, milho e café – são dez empresas já contratadas, 30 em negociação.

Por que o barter ganhou tanta força agora? Porque com o custo total do financiamento convencional podendo superar 20% ao ano em 2026, travar simultaneamente o preço dos insumos e da commodity elimina duas variáveis de risco de um único golpe. É gestão financeira embutida em uma operação comercial. A ressalva é importante: o barter não é gratuito. Seu custo está na diferença entre o preço do insumo à vista e o valor em sacas que o produtor aceita travar, e quem não faz essa conta pode estar pagando mais do que imagina. Tokenização ainda provoca ceticismo em boa parte do setor. Parece assunto de tecnólogo, não de agrônomo. Esse ceticismo é compreensível – e arriscado. Tokenizar é transformar qualquer ativo físico ou financeiro em uma representação digital registrada em blockchain. No agro, significa converter sacas de soja, cabeças de

#COLUNASPLANT

gado, CPRs ou recebíveis de exportação em tokens que podem ser negociados, fracionados, usados como garantia ou transferidos instantaneamente, com segurança criptográfica e auditabilidade em tempo real. O ativo mais tokenizado no Brasil é a CPR. O total de ativos digitais emitidos por tokenização atingiu R$ 4 bilhões em 2025, segundo a plataforma RWA Monitor.

As aplicações práticas vão além das finanças. A startup Simple Token, em parceria com a agtech Cowmed, tokenizou bovinos, transformando vacas em ativos digitais com dados de saúde, rastreabilidade e histórico produtivo usados como garantia de crédito. A meta é viabilizar R$ 200 milhões em créditos a pequenos e médios produtores até 2026. Mais informação verificável sobre o ativo significa menor risco percebido pelo credor e menores juros para o produtor. A tokenização é, em essência, uma máquina de redução de assimetria de informação.

A infraestrutura institucional avança em todas as frentes. O Banco Central testou no Piloto Drex (Fase 2) a tokenização da CPR integrada a dados de sustentabilidade e risco climático, apresentado ao Ministério da Agricultura em agosto de 2025.

A B3 anunciou sua própria tokenizadora para 2026. A CVM colocou a tokenização como prioridade regulatória. O mercado global de blockchain no agronegócio deve crescer de US$ 133 milhões em 2023 para US$ 948 milhões até 2028, um crescimento anual de 47,8%, segundo a MarketsandMarkets. O Brasil, com CPR robusta e agro que representa 27% do PIB, está posicionado de forma única para liderar esse mercado. O nó ainda a desatar é regulatório. O marco legal dos ativos digitais existe desde 2022, mas normas específicas para a tokenização no agro ainda estão em elaboração. A CVM, o Bacen e o Ministério da Agricultura precisam preencher esse vácuo com

agilidade, sem burocracia excessiva e sem a tentação de regular antes de entender. Diante de tudo isso, cabe uma pergunta incômoda: se o crédito privado já supera em mais de 100% o Plano Safra, se o barter bate recordes sem banco público, se a CPR circula tokenizada em blockchain, para que serve o Plano Safra? A resposta honesta é: ainda serve imensamente, mas para quem o crédito privado ainda não chegou. Para o Pronaf B no semiárido nordestino, para o assentado, para a agricultora familiar que não tem como emitir uma CPR ou acessar um CRA, o Estado é insubstituível. No primeiro semestre do Plano Safra 2025/26, foram mais de 1,18 milhão de operações de crédito no Pronaf, com crescimento de 20% em relação à safra anterior. Para esses produtores, qualquer redução do crédito público seria uma tragédia social e produtiva. O problema é quando a narrativa pública trata o Plano Safra como solução total para toda a agricultura, seja ela pequena, média ou grande. Isso cria uma ilusão de suficiência que desincentiva o produtor de médio e grande porte a buscar alternativas mais eficientes, e alimenta debates em Brasília desconectados da realidade financeira do campo. O campo mudou. O dinheiro que planta a lavoura mudou ainda mais. Em 60 anos, o Brasil saiu do financiamento estatal quase total para um mercado privado de R$ 1,4 trilhão. Em 30 anos, a CPR migrou do papel para o blockchain. O barter triangular virou produto de renda fixa. A vaca se tornou ativo digital. A revolução financeira do agronegócio brasileiro não está chegando. Ela já chegou. A pergunta que fica é uma só: o produtor, o técnico, o gestor de cooperativa e o formulador de política pública estão prontos para operar nessa nova realidade? Ou vão continuar esperando pelo Plano Safra como quem espera chuva em ano seco?

O agro não para!

R aízes vivas

Exposições no Masp convidam o público a refletir sobre os povos originários da América Latina e a relação entre cultura e natureza

rAARTE

Um campo para o melhor da cultura

Um campo para o melhor da cultura

A MEMÓRIA DA TERRA

MOSTRAS EM CARTAZ NO MASP EXPLORAM AS RELAÇÕES ENTRE ARTE, ANCESTRALIDADE,

TERRITÓRIO E MEIO

AMBIENTE A PARTIR DE DIFERENTES PERSPECTIVAS

LATINO-AMERICANAS

Para os uitotos, povo indígena que habita a região noroeste da Amazônia, com forte presença na Colômbia, no Peru e no Brasil, a coca e o tabaco são considerados sagrados. As folhas são usadas em rituais espirituais e medicinais para a comunicação com o divino e representam um dos mitos fundamentais de sua cosmogonia, em que a entidade Buinaima, que pode ser entendida como Deus, concede sabedoria ao povo por meio delas. As duas plantas também aparecem de forma contundente na obra do artista peruano Santiago Yahuarcani, que ganhou sua primeira mostra individual no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). Com curadoria de Amanda Carneiro, Santiago Yahuarcani: o Princípio do Conhecimento reúne 35 obras que propõem uma imersão nos saberes, mitos e traumas uitotos. Yahuarcani trabalha diretamente com a natureza, de forma conectada às crenças de seu povo. A parte interna das cascas de árvores amazônicas é manuseada e transformada pelo artista em uma tela natural, chamada llanchama, mostrando que a floresta não é uma fonte de recursos ou uma paisagem, mas uma entidade viva, guardiã de conhecimento e história. Para os uitotos, não há fronteira entre o material e o invisível, entre o presente e a ancestralidade. A floresta, os rios e os seres humanos, assim como as existências espirituais e físicas, coexistem e não se separam da vida cotidiana. A cosmologia uitoto é um tema central de suas obras, mas não é o único. Por causa de sua conexão com a natureza, ele usa a arte como plataforma de denúncia, especialmente contra a violência sofrida pelos indígenas durante o ciclo da borracha. “Yahuarcani usa a pintura como um meio de honrar sua ancestralidade e denunciar injustiças históricas”, afirma a curadora, Amanda Carneiro. A exposição é organizada em cinco núcleos – Pintura de sons,

O bras que estão em destaque no museu: rara oportunidade de mergulhar na riqueza artística e cultural da américa latina

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Tempo do choro de sangue, Mundos espirituais, Plantas sagradas e Guardiões da Amazônia – e fica em cartaz no museu até agosto.

A discussão sobre arte, memória e território também está presente em outra exposição em cartaz no Masp. Trata-se de Claudia Alarcón & Silät: Viver Tecendo, que reúne 25 trabalhos artísticos da argentina Claudia Alarcón & Silät, coletivo formado por mais de cem tecedeiras do povo wichí, que habita o norte da Argentina e parte da Bolívia. As obras são feitas com fios de chaguar, uma bromélia de fibras resilientes nativa do clima semiárido do Gran Chaco, o maior bioma da América Latina depois da Amazônia. Os fios são entrelaçados manualmente, sem teares, e usados na fabricação de bolsas yicas, que tradicionalmente têm formato quadrado, com padrões geométricos que representam a flora e a fauna de seu território, remetendo a temas como orelhas de tatu, olhos de coruja e cascos de tartaruga. Alarcón e o grupo Silät inovaram essa produção ao incorporar novas cores ao processo e desenvolver técnicas que permitem que várias mulheres trabalhem simultaneamente. São peças que retratam a conexão entre o saber manual e artístico e o meio ambiente do Gran Chaco. A matéria-prima da região é transformada pela mão humana em objetos de valor estético e utilitário.

As duas exposições, além de outras que compõem a agenda da instituição, fazem parte do ciclo Histórias Latino-Americanas, que dita os rumos da curadoria do museu ao longo de todo o ano de 2026 e parte de 2027. “A referência à diversidade, à inclusão e à pluralidade é a base de toda a nossa programação, que sempre gira em torno de diferentes conjuntos históricos”, disse Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp, ao autor András Szántó no livro O Futuro do Museu: 28 Diálogos. “Todo ano, dedicamos toda a nossa programação a um eixo temático, articulando todas as exposições, publicações e os programas públicos”, completou. Desde que Pedrosa assumiu a direção artística, já foram apresentadas as Histórias da

Infância (2016), Histórias da Sexualidade (2017), Histórias Afro-Atlânticas (2018) e Histórias das Mulheres (2019). Em 2020, seria apresentado o ciclo Histórias da Dança, mas a pandemia prejudicou os planos. Em seguida, vieram Histórias Brasileiras (2022), Histórias Indígenas (2023), Histórias da Diversidade (2024) e Histórias da Ecologia (2025).

Outra mostra que ocupa parte do espaço expositivo do Masp é Matéria e Energia, do mexicano Damián Ortega, figura central da arte contemporânea mexicana. São 35 obras em que o artista desmonta objetos cotidianos para discutir questões como trabalho, consumo, tempo e linguagem. Pela primeira vez, é apresentado o trabalho Cosmic Thing (Coisa cósmica), de 2002, que consiste em um fusca completamente desmontado, suspenso como se suas peças flutuassem. Carro mais popular do Brasil e do México durante muitos anos, o fusca é usado como símbolo para refletir sobre as camadas de sentido que o automóvel carrega, como promessas de modernização, expectativas de ascensão social, memórias afetivas e até questões de mobilidade nas grandes metrópoles. Instalações, esculturas, fotografias e vídeos compõem o panorama do trabalho de Ortega.

Além dessas exposições já em cartaz, o ciclo Histórias Latino-Americanas continua até o primeiro semestre de 2027. Entre as mostras confirmadas estão Histórias Latino-Americanas, coletiva internacional que ocupará cinco andares do edifício Pietro Maria Bardi, novo espaço anexo ao Masp, e investigará como a ideia de América Latina foi criada e disputada ao longo do tempo; Casa Maria Lionza, um pavilhão projetado pela artista venezuelana Sol Calero para o vão livre do museu; e Crônicas de Comalapa, da guatemalteca Rosa Elena Curruchich (1958-2005), indígena de origem maya kaqchikel que foi pioneira entre uma geração de mulheres pintoras que retratou a vida cotidiana de seu povo. São diferentes maneiras de compreender as conexões entre os povos e a terra e de perceber como os saberes artísticos revelam tanto sobre a cultura.

C ozinha caiçara Paraty consolida sua vocação gastronômica ao valorizar ingredientes locais, fortalecer pequenos produtores e ampliar sua oferta de experiências à mesa

WORLD FAIR

A grande feira mundial do estilo e do consumo

O stras, camarão e outras iguarias do litoral brasileiro: G astromar se tornou uma das referências da boa mesa da cidade

FAIR

As regiões produtoras do mundo

MARÉ DE SABORES

À frente do Gastromar, a chef Gisela Schmitt tem ajudado a transformar

Paraty em um dos destinos gastronômicos mais desejados do País, ao mesmo tempo que fortalece uma cadeia produtiva que envolve de agricultores a pescadores da região

Por André Sollitto

Otrabalho da chef Gisela Schmitt em Paraty começou em 2014 com o Sem Pressa. A traineira de 50 pés foi construída por artesãos paratienses com madeira de reflorestamento e concebida como um restaurante em alto-mar. Com capacidade para até 18 pessoas, a embarcação parte da marina da cidade, no litoral do Rio de Janeiro, e navega por alguns minutos até um dos inúmeros cenários de beleza exuberante da região. A âncora é lançada e a equipe começa a cozinhar. Enquanto os convidados aproveitam o mar, as pranchas de stand up paddle ou o deck instalado no teto do barco, são servidas entradas assinadas pela chef. Em seguida, todo o aparato é recolhido e o Sem Pressa segue para outro ponto. Novamente, a âncora é lançada e o almoço é servido. Dependendo do número de convidados, o serviço é realizado ao redor de uma mesa ou em formato volante. O passeio completo dura cerca de cinco horas, e tanto o trajeto quanto o menu são sempre diferentes. A proposta inovadora tornou-se um sucesso. A agenda do Sem Pressa é concorrida, e é preciso fazer reservas com bastante antecedência para conseguir uma vaga. A boa recepção ao projeto fez com que Schmitt ampliasse sua atuação na cidade. Passou a trabalhar também em terra firme com o Festa Mar, carrinhos que serviam vinhos nacionais – como os rótulos assinados em parceria com a vinícola Pizzato, de Bento Gonçalves – além de pequenos quitutes. A ideia era aproveitar o movimento dos grandes eventos culturais da cidade, como a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e o Bourbon Festival Paraty, que leva artistas nacionais e internacionais de jazz e blues ao centro histórico. Deu certo. A chef já tinha experiência com bufê. Manteve durante 15 anos o Panela da Gisela, em São Paulo, e trabalhou com eventos e catering. Essa bagagem serviu de base para seu trabalho em Paraty. E, novamente, o sucesso dos carrinhos fez com que ela sentisse a necessidade de ter um ponto fixo na cidade. Eles continuam sendo utilizados pontualmente em eventos e festivais, mas passaram a integrar uma estrutura maior. Assim nasceu o Gastromar, que se tornou uma referência gastronômica. Instalado na marina da cidade, oferece uma vista privilegiada para os barcos

G astromar: decoração inspirada no universo marítimo e influências internacionais, como a "paella" de N ova Orleans

ancorados, incluindo o Sem Pressa. O ambiente tem decoração inspirada no universo marítimo, marcada pelo bom gosto. O menu é composto por diversos insumos locais, como a tostada de carapau, peixe encontrado em todo o litoral brasileiro que vem sendo redescoberto por cozinheiros como uma das variedades mais versáteis da fauna marinha; as ostras da Ilha Grande, no Rio de Janeiro; os espetos de camarão – respeitando o período de defeso, entre janeiro e abril, quando a pesca é proibida –; e a prejereba curada, outro peixe típico do litoral brasileiro. Há influências internacionais, como o jambalaya, uma espécie de “paella de Nova Orleans”, nos Estados Unidos, mas o foco permanece nos ingredientes nacionais.

Nesse processo de crescimento da operação, a chef acabou ajudando a desenvolver toda uma cadeia de fornecimento que ainda era pouco estruturada na cidade, apesar do enorme potencial turístico de Paraty. “Saímos em busca de fornecedores de legumes e verduras da região. Procuramos em Cunha e em outras cidades próximas. Muitos não estavam acostumados com a demanda”, conta a chef. O mesmo ocorreu com os pescadores locais, contribuindo para fortalecer um ecossistema de pesca responsável, que respeita os períodos de

defeso e não pratica nenhum tipo de atividade predatória. Dentro do Gastromar, Schmitt montou uma horta desenvolvida em parceria com Daniella e Jorge Ferreira, o Jorge Forager, conhecedores e estudiosos da agricultura e das Pancs – as plantas alimentícias não convencionais – da Mata Atlântica. Esse trabalho também se reflete em iniciativas de longo prazo, como o Projeto + Barco. Com a agenda concorrida do Sem Pressa, Schmitt percebeu a necessidade de criar uma rede de parceiros capaz de atender à crescente demanda pela experiência gastronômica em alto-mar. Assim, passou a indicar outros barqueiros da região que oferecem um serviço de qualidade. Para obter o Selo Gastromar, os profissionais de turismo precisam padronizar a estrutura dos passeios e o atendimento. Hoje, são 16 embarcações cadastradas, que também oferecem o Pic Nic Náutico criado pela chef. Ela criou ainda o + Mar, projeto sustentável de apoio educacional e valorização das comunidades pesqueiras locais. “Aos poucos, fomos criando pontes entre as boas iniciativas e os bons profissionais que existem na cidade”, diz ela.

A própria estrutura do restaurante cresceu. Hoje, ela conta com um empório que vende vinhos, bebidas e alimentos para quem está hospedado na

G isela S chmitt: a premiada chef frequenta Paraty há pelo menos 20 anos, mas há 12 trabalha e mora na região

cidade e precisa de conveniência. Ao lado do Gastromar fica a Casa Goia, que comercializa itens de vestuário e decoração garimpados pela própria chef. Ao lado, uma loja pop-up recebe marcas que dialogam com seu trabalho. No total, são 32 funcionários distribuídos entre o restaurante e o Sem Pressa. A iniciativa mais recente é a Casa Tomate, um espaço para aluguel de temporada localizado no condomínio da Marina Porto Real, a poucos minutos do restaurante. Com design assinado pelo Estúdio Figueira, do arquiteto Erick Figueira de Mello, a casa oferece até mesmo delivery exclusivo do restaurante. Também na marina, Schmitt disponibiliza um traslado até o centro histórico a bordo da Brisa, um pequeno barco que faz o trajeto entre os dois pontos em dez minutos. Gisela Schmitt também lançou um livro, Para Ti, Sem Pressa, no qual conta sua história e reúne 30 receitas do Gastromar. O volume traz fotografias da cidade feitas por Romulo Fialdini. Como chef e empresária, Gisela Schmitt tem ajudado a desenvolver o cenário gastronômico

da cidade. Apresentando pessoas, construindo conexões e aproximando boas iniciativas. Ela conta que frequenta Paraty há 20 anos, mas há 12 mora e trabalha na região. E acompanhou de perto o quanto o cenário mudou. Hoje, Paraty tornou-se também um destino gastronômico, e não apenas cultural e histórico.

Quem percorre as ruas de paralelepípedos do centro histórico encontra uma variedade de bons restaurantes. Há, por exemplo, o Bartholomeu Cozinha Primitiva, com sua atmosfera rústica e a proposta de resgatar métodos ancestrais de preparo de carnes e frutos do mar, tendo a brasa como protagonista. Ou o Thai Brasil, que combina influências brasileiras e tailandesas. Ou a gelateria Miracolo, que fez tanto sucesso em Paraty que inaugurou uma unidade em São Paulo e costuma ter filas na porta. Há ainda outros estabelecimentos que se tornaram referência, como o Quintal das Letras, localizado na Pousada Literária, hospedagem oficial da Flip, e o Banana da Terra, com menu voltado à cozinha caiçara.

Fora do movimento do centro histórico, também existem opções interessantes, como o La Finca, primeira vermuteria artesanal do País, com criações assinadas pelo argentino Seba Despis e pela carioca Cissa Paes, que se instalaram em Paraty e promovem workshops sobre a produção de vermute, vinho fortificado e aromatizado em outras cidades brasileiras. Quem se aventura ainda mais longe encontra o restaurante do Quilombo do Campinho, primeiro quilombo reconhecido oficialmente no estado do Rio de Janeiro. Também pode visitar dois alambiques importantes: o Coqueiro, que produz cachaça desde 1803, e a Cachaça Maria Izabel, um dos rótulos artesanais mais importantes do País. Para além das belezas naturais e da extensa programação cultural, Paraty tornou-se um destino obrigatório para os amantes da boa comida.

© Divulgação

D o problema à solução

Toda inovação começa com uma dor – e, no agronegócio, são os desafios do campo que definem as tecnologias do presente e do futuro

SSTARTAGRO

As inovações para o futuro da produção

As inovações para o futuro da produção

A CURA PELA INOVAÇÃO

POR TRÁS DE BOA PARTE DAS NOVIDADES TECNOLÓGICAS QUE CHEGAM AO CAMPO ESTÃO

DESAFIOS ENFRENTADOS DIARIAMENTE PELOS PRODUTORES. COMPREENDER ESSAS DORES É O PONTO DE PARTIDA PARA CRIAR RESPOSTAS EFICIENTES PARA O SETOR

No ano passado, foram identificadas no Brasil 2.075 agtechs ativas. A informação é do Radar Agtech Brasil, levantamento realizado pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens. Esse número supera em 84% as 1.125 agtechs registradas na primeira edição do estudo, realizada em 2019. Já na comparação entre 2025 e 2024, o avanço foi de 5%, índice menos expressivo do que nos anos anteriores. Para os autores da pesquisa, a desaceleração reflete a maior maturidade do ecossistema e a consolidação dos modelos de negócio. Ou seja, o próprio ambiente de inovação no campo se renova.

O ponto de partida dessa efervescência tecnológica é a pressão das “dores” das cadeias agropecuárias, ou seja, as demandas do setor, especialmente dos produtores. A inovação que elimina ou ameniza essas dores pode surgir na forma de produtos, serviços, métodos ou conceitos. Tudo depende da necessidade, da abrangência e da urgência. Embora esse cenário seja anterior ao surgimento das agtechs, é inegável que essas empresas trouxeram mais agilidade ao desenvolvimento de novas soluções, tanto que muitas delas acabaram incorporadas por grandes agroindústrias.

De acordo com a especialista em inovação para o agro Juliana Chini, as dores do setor se enquadram basicamente em quatro segmentos: crédito, que impacta todos os elos das cadeias produtivas; gestão de riscos, que envolve os efeitos do xadrez geopolítico na definição de novas rotas de exportação, no abastecimento de fertilizantes e até na abertura de espaço

para o avanço dos bioinsumos; eficiência operacional, que exige mais assertividade para reduzir custos; e resiliência climática. “Este último enfrenta maior resistência do mercado, porque o retorno demora um pouco mais”, afirma Juliana. A especialista avalia que o medo das novidades, ou neofobia, continua sendo um obstáculo. “Muita gente ainda resiste às inovações com base na teoria de que sempre foi assim, de que sempre fez assim”, diz Juliana, que reforça a importância da educação para romper essa barreira. A modernização também passa pela comunicação, já que o perfil dos produtores é muito diverso, assim como as culturas e as características regionais que as cercam.

Outra frente a ser explorada é a escala. “Você pode lançar um aplicativo financeiro hoje e amanhã ter milhões de clientes. No agro, é diferente, por se tratar de uma indústria a céu aberto”, diz

Juliana. Tudo depende de cada safra, de quem está à frente da operação no campo, da infraestrutura disponível e das ferramentas utilizadas, como conectividade e softwares adequados. São muitas variáveis que dificultam o planejamento. “Ao pensar que agro eu quero em 2040, preciso saber como envolver todos os agentes para elaborar um plano que inclua todas as dores”, acrescenta a especialista. A maior integração entre a iniciativa pública e a privada é um bom começo.

A necessidade de olhar anos à frente é reforçada pelo diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação para a América Latina da Basf, Marcelo Maniero Ismael. Segundo o executivo, a empresa investe cerca de 300 milhões de euros para desenvolver uma nova molécula química, processo que pode levar até dez anos de pesquisa. “Será que a praga que estamos em questão hoje será tão relevante quando a

A s dores do agro estão em quatro áreas: crédito, gestão de riscos, eficiência operacional e resposta aos desafios do clima

solução ficar pronta?”, questiona. Em uma agricultura tropical, a luminosidade e as condições de calor e umidade favorecem tanto as plantas quanto as pragas. “É bonito falar de inovação, é inspirador, mas também há muito suor por trás disso.”

O tempo é determinante no processo de evolução tecnológica, sobretudo pela frequente diferença entre o prazo necessário para desenvolver soluções e a urgência do produtor. Por isso, Ismael destaca a distinção entre inovação e invenção. Segundo o diretor da Basf, a primeira é uma novidade com benefício prático para a cadeia produtiva. “Já a invenção não precisa necessariamente ter esse resultado”, diz. Compreender essa diferença evita apostas precipitadas em supostas soluções que não garantem o resultado esperado. Muita coisa fica pelo caminho entre a ideia e a inovação. Segundo Ismael, cada produto comercial

que chega ao mercado partiu de um universo de aproximadamente 100 mil candidatos. “Acaba tendo mais erro do que acerto. Porém, quanto mais eu testar, maior a chance de chegar ao resultado”, diz o executivo, acrescentando que não é fácil tomar a decisão de interromper uma pesquisa. “O que não saiu como esperado torna-se uma informação importante para mudar o caminho e direcionar novas pesquisas.”

O diretor de Marketing Estratégico e Tecnologia da Cargill Nutrição e Saúde Animal, Marcelo Dalmagro, reforça essa ideia. “O princípio básico da inovação é que você vai errar, pois parte da incerteza. Está criando algo que não existe”, afirma. A inovação é um posicionamento estratégico e uma meta de negócio da empresa, a ponto de terem criado o Innovation EBITDA, resultado financeiro proveniente das novidades tecnológicas que corresponde a pelo menos um terço do

desempenho total da companhia.

O planejamento sempre contempla os quatro anos seguintes, com revisões anuais para verificar se a direção está correta. A segurança nessa trajetória também vem da sólida base de inteligência de mercado, que dá origem às análises de tendências, e da equipe de profissionais especializados. “As áreas de inovação, marketing e estratégia seguem o mesmo objetivo, dessa forma há engajamento de todos tanto em desenvolver quanto em comunicar, vender e realizar o pós-venda”, diz o executivo.

A inovação contribui ainda para a sustentabilidade. No caso da pecuária de corte, um dos principais mercados de atuação da Cargill Nutrição e Saúde Animal, melhorias no manejo das pastagens e do rebanho, de forma geral, reduzem, em alguns casos, até pela metade o ciclo produtivo

dos bovinos. “Isso significa menos tempo no campo, menos emissões e redução no uso da terra. Automaticamente, agrega sustentabilidade ambiental para a atividade”, diz Dalmagro.

O espaço para evolução tecnológica no agro é enorme. A Belgo Arames, por exemplo, desenvolve produtos específicos para diferentes segmentos agropecuários. Há opções de arames mais resistentes à umidade, voltados para regiões com alto risco de alagamento, e apropriados para a contenção de javaporcos e até onças. A inovação também passa pela orientação técnica. A empresa desenvolveu um e-book sobre cercas, um guia prático e gratuito para transmitir informações que costumavam ser passadas de pai para filho. “A função de cerqueiro era ensinada de uma geração para outra, mas essa história mudou e o e-book foi uma iniciativa

S egundo especialistas, em poucos setores o espaço para a evolução tecnológica é tão grande quanto no agronegócio

para continuar a transmissão desse conhecimento”, diz o gerente de Negócios Agro da Belgo Arames, Bruno Nolasco.

Por mais condições e recursos que uma empresa tenha para inovar, em muitos casos vale a pena contar com companhia nessa trajetória. A própria Belgo Arames tornou-se sócia investidora da Instabov para ampliar sua atuação no manejo da pecuária de corte. Essa parceria foi essencial para promover melhorias na tecnologia de controle do gado por meio de um sistema de monitoramento composto por uma antena com GPS e brincos eletrônicos capazes de armazenar diversas informações. Os dispositivos contam até com um acelerômetro que acompanha a movimentação do animal e indica qualquer mudança de padrão em suas atividades.

A antena é um dispositivo plug and play de

fácil instalação, alimentado por energia solar. Seu alcance é de 1.000 hectares. O sistema oferece praticidade, otimiza o tempo de manejo dentro da propriedade e facilita a prova de vida dos animais exigida nos trâmites para obtenção de crédito rural. Outro ponto favorável é a segurança do rebanho e da propriedade, dor que deu origem à inovação. “Eu sofria com perda de animais. Hoje, a identificação na propriedade sobre esse monitoramento afasta quem pretende roubar animais. Já conseguimos até mesmo pegar um roubo em tempo real”, afirma o CEO e fundador da Instabov, Fernando Moraes.

A facilidade de uso é outra característica importante nas inovações tecnológicas. Mesmo quando a função é resolver dores complexas, a solução não deve dificultar a rotina de trabalho. Essa é uma das preocupações da PTx Trimble,

A inovação funciona como um antídoto contra crises, oferecendo novos caminhos e oportunidades para as empresas do setor

empresa especializada em agricultura de precisão. “Apesar de a solução ser extremamente inovadora, tecnológica, tem de ser simples”, diz a responsável por Marketing de Produto da companhia, Rosieli Mika. Também precisa ser acessível. “O produtor brasileiro já trabalha estrangulado quanto ao rendimento financeiro.”

A executiva acrescenta que é essencial considerar as características do setor e o perfil do cliente ao desenvolver soluções para o campo. Nesse caso, Rosieli refere-se à novidade apresentada na Agrishow 2026, em Ribeirão Preto (SP): um kit tecnológico para transformar um trator convencional em autônomo. A solução está disponível para a Fendt, marca “irmã” da PTx Trimble, e para um modelo específico da John Deere. “Às vezes o produtor tem preferência pelo trator de um determinado fabricante, mas opta pela colheitadeira de outro”, afirma Rosieli, reforçando a preocupação com soluções multimarcas. As pesquisas para atender modelos e marcas diferentes começam pela demanda do cliente final. Em seguida, entram as relações com as montadoras.

Na prática, o sistema de autonomia é instalado

na máquina e operado por meio de um aplicativo em um tablet, no qual é definida toda a programação da operação do veículo. Ali são inseridas informações como percurso, manobras e velocidade máxima da máquina. Toda a inteligência do aparato visa à otimização e à segurança de cada ação. A conectividade já faz parte do pacote, o que evita outro importante desafio da expansão tecnológica no agro: a disponibilidade e o alcance do sinal de internet.

Rosieli avalia que a inovação é fundamental para que os agricultores continuem encontrando oportunidades de aumentar a eficiência de suas operações no campo, apesar do cenário desafiador enfrentado atualmente pelo agronegócio. Em sua opinião, é justamente a tecnologia que pode suavizar a travessia de crises econômicas e de abastecimento de insumos. “Costumo perguntar aos agricultores se pretendem deixar de plantar no ano seguinte ou até abandonar a atividade. A resposta é sempre negativa. Então, se é um negócio contínuo, quanto antes investir em tecnologia, mais cedo vai usufruir de seus benefícios”, conclui.

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N ovo passaporte O acordo entre os países do Mercosul e a União Europeia abre ao agronegócio brasileiro um mercado de alto valor agregado, mas impõe exigências rigorosas

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FRONTEIRA

As regiões produtoras do mundo

As regiões produtoras do mundo

A EUROPA ABRE A PORTEIRA

ACORDO ENTRE MERCOSUL E UNIÃO EUROPEIA REDUZ

BARREIRAS COMERCIAIS, MAS TAMBÉM ELEVA O PADRÃO DE EXIGÊNCIA PARA O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO

Por Amauri Segalla e Rômulo Carneiro

Durante mais de duas décadas, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia parecia condenado a permanecer nas mesas de negociação.

Desde que as conversas começaram, em 1999, passaram-se diferentes governos, crises financeiras, mudanças no cenário geopolítico, uma pandemia, uma guerra na Europa e até uma profunda transformação na agenda ambiental global. Ainda assim, o tratado permanecia travado, cercado por resistências políticas e econômicas dos dois lados do Atlântico. A situação mudou neste ano. Com o início da aplicação provisória do acordo, o agronegócio brasileiro passa a disputar espaço em um dos mercados mais sofisticados do mundo sob regras completamente diferentes das que moldaram seu crescimento nos últimos anos. O acesso preferencial à União Europeia representa, sem dúvida, uma oportunidade comercial relevante, mas seu principal efeito talvez seja outro: obrigar o setor a incorporar sustentabilidade, rastreabilidade e transparência como atributos econômicos capazes de agregar valor às exportações.

Em um cenário internacional marcado pelo avanço do protecionismo, pela reorganização das cadeias globais de suprimentos e pela crescente preocupação com segurança alimentar e transição energética, o tratado entre Mercosul e União Europeia surge como um dos maiores acordos comerciais já firmados no mundo. Juntos, os dois blocos representam um mercado de aproximadamente 780 milhões de consumidores e movimentam uma economia superior a US$ 20 trilhões. A própria Comissão Europeia estima que o acordo eliminará gradualmente tarifas sobre mais de 90% do comércio bilateral, reduzindo custos para exportadores e ampliando o fluxo de investimentos entre os dois continentes. Para a Europa, trata-se de diversificar fornecedores em um ambiente internacional cada vez mais instável. Para o Brasil, significa acessar consumidores dispostos a pagar mais por produtos que atendam aos mais

Franceses protestam contra o acordo: agricultores temem a concorrência com os alimentos produzidos na A mérica do S ul

elevados padrões sanitários e ambientais. É justamente aí que reside a principal mudança. Durante décadas, o agronegócio brasileiro construiu sua competitividade sobre três pilares bastante conhecidos: disponibilidade de terra, ganhos extraordinários de produtividade e capacidade de produzir alimentos em larga escala a custos relativamente baixos. Esse modelo transformou o País em um dos maiores exportadores mundiais de soja, carnes, açúcar, café, celulose e milho. A União Europeia, porém, introduz uma variável que ganha importância crescente no comércio internacional: confiança.

O consumidor europeu quer saber não apenas o que está comprando, mas também onde foi produzido, quais práticas ambientais foram adotadas, se houve respeito à legislação trabalhista, quais áreas foram preservadas e de que maneira toda aquela cadeia produtiva pode ser auditada. Em outras palavras: a mercadoria passa a incorporar informação.

Essa transformação explica por que diversos especialistas afirmam que o acordo não deve ser medido apenas pelo aumento das exportações. “O grande ganho está na qualidade do acesso ao mercado europeu, muito mais do que no aumen-

to de volumes”, afirma Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global. Para ele, a União Europeia representa um destino estratégico justamente porque remunera melhor produtos de maior valor agregado e estimula investimentos em certificação, inovação e conformidade ambiental. Os números ajudam a dimensionar essa oportunidade. Em 2025, o intercâmbio comercial entre Mercosul e União Europeia movimentou cerca de 111 bilhões de euros. Apenas o agronegócio brasileiro respondeu por aproximadamente US$ 25 bilhões em exportações para o bloco europeu,

consolidando a região como um dos principais destinos dos produtos nacionais. Boa parte dessas vendas, contudo, ainda enfrentava tarifas capazes de reduzir a competitividade brasileira. Com o acordo, 93% das exportações do Mercosul terão suas tarifas eliminadas ao longo do período de implementação, enquanto outros produtos passarão a operar dentro de cotas preferenciais negociadas entre os dois blocos. Trata-se da maior redução tarifária já obtida pelo Mercosul em um acordo comercial. Os maiores beneficiados pertencem justamen-

O portunidade histórica: juntos, os dois mercados reúnem 780 milhões de consumidores e movimentam US$ 20 trilhões

te aos segmentos em que o Brasil construiu liderança mundial. Na carne bovina, um dos temas mais sensíveis das negociações, o acordo estabelece uma cota anual de 99 mil toneladas, sujeita à tarifa reduzida de 7,5%. Para a carne de aves, foram negociadas 180 mil toneladas livres de imposto de importação. A carne suína passa a contar com uma cota de 25 mil toneladas, também em condições tarifárias favorecidas. No açúcar, o tratado elimina a tarifa incidente sobre a cota de 180 mil toneladas de açúcar bruto destinado ao refino, já existente nas regras da Organização Mundial do Comércio

(OMC). Já o etanol terá acesso preferencial por meio de uma cota total de 650 mil toneladas, sendo 450 mil toneladas destinadas ao uso industrial, com tarifa zero, e 200 mil toneladas para outros usos, inclusive combustível, com tarifa reduzida. Embora esses volumes representem apenas uma parcela da produção brasileira, seu impacto econômico tende a ser expressivo porque ampliam o acesso a um mercado que remunera melhor produtos de maior valor agregado.

Enquanto países asiáticos, especialmente a China, concentram grandes compras de commodi-

ties, a União Europeia tradicionalmente remunera melhor alimentos diferenciados, certificados e destinados a consumidores de alta renda. Um frigorífico capaz de oferecer carne integralmente rastreada, por exemplo, tende a receber um prêmio superior ao obtido em mercados menos exigentes. O mesmo raciocínio vale para açúcar certificado, café sustentável, etanol de baixa intensidade de carbono e diversos outros produtos agroindustriais. O acordo, portanto, não altera apenas a quantidade potencialmente exportada. Ele modifica a composição da receita das exportações brasileiras.

Essa mudança já começa a produzir reflexos dentro das propriedades rurais e das agroindústrias. Ferramentas como georreferenciamento, imagens de satélite, agricultura de precisão, monitoramento remoto, inteligência artificial e plataformas digitais de rastreabilidade deixam de representar apenas ganhos de eficiência operacional e passam a cumprir outra função: demonstrar conformidade ambiental. A informação passa a viajar junto com a carga. Cada embarque destinado à Europa tende a carregar não apenas soja, carne, açúcar ou café, mas também um conjunto crescente de dados capazes de comprovar sua

A U nião E uropeia remunera melhor alimentos certificados, o que tende a impulsionar investimentos em sustentabilidade

origem e sua sustentabilidade. Esse movimento ganhou força com a legislação europeia, que proíbe a entrada de produtos associados ao desmatamento. A chamada EUDR (Regulamento Europeu para Produtos Livres de Desmatamento) estabelece que mercadorias como carne bovina, soja, café, cacau, madeira e borracha só poderão ingressar no mercado europeu se houver comprovação de que não foram produzidas em áreas desmatadas. A exigência não recai apenas sobre produtores rurais. Ela envolve cooperativas, tradings, frigoríficos, processadores e importadores, criando uma cadeia de responsabilidade compartilhada que exige investimentos crescentes em tecnologia, governança e sistemas de monitoramento.

Se o acordo abre novas portas, ele também aumenta a responsabilidade do agronegócio brasileiro. Ao contrário do que ocorreu em outras etapas da inserção internacional do País, quando bastava produzir mais para conquistar mercado, agora o desafio passa a ser produzir melhor e comprovar isso. A rastreabilidade deixa de ser um diferencial para se tornar requisito básico de acesso ao consumidor europeu. A tendência é que essa exigência extrapole as grandes empresas exportadoras e alcance cooperativas, médios produtores e até pequenas propriedades integradas às cadeias globais. O investimento em tecnologia, portanto, passa a ser visto menos como um custo e mais como uma condição para permanecer competitivo. Na avaliação do conselheiro de Comércio da Delegação da União Europeia no Brasil, Damian Vicente Lluna, esse movimento representa uma oportunidade para reposicionar a imagem do agro brasileiro no exterior. “O consumidor europeu valoriza cada vez mais a origem e as condições de

produção”, diz. “A capacidade de demonstrar esses atributos será fundamental para acessar e ampliar espaço nesse mercado.” Segundo ele, investimentos em rastreabilidade, transparência e certificações podem fortalecer a confiança nos produtos brasileiros e ampliar sua competitividade em um ambiente comercial cada vez mais orientado por critérios ambientais.

Essa talvez seja a maior mudança provocada pelo tratado. Durante muito tempo, a competitividade brasileira foi construída quase exclusivamente dentro da porteira, graças aos avanços da pesquisa agropecuária, da mecanização e da expansão da produtividade. A nova etapa desloca parte dessa disputa para fora da fazenda. A capacidade de documentar processos, integrar informações, atender protocolos internacionais e demonstrar conformidade passa a influenciar diretamente o preço recebido pelo produtor. Em um mercado de alta renda como o europeu, reputação tornou-se um ativo econômico.

Há ainda outro aspecto importante. O tratado pode funcionar como um estímulo para acelerar investimentos. Em vez de ampliar exclusivamente as exportações de commodities, cresce o espaço para produtos processados, alimentos premium, biocombustíveis, ingredientes industriais e especialidades agroalimentares. Esse movimento é relevante em cadeias como açúcar e etanol, nas quais o Brasil reúne vantagens competitivas tanto em escala quanto em eficiência ambiental. O avanço dos combustíveis renováveis, impulsionado pelas metas globais de descarbonização, reforça esse cenário e amplia o potencial de inserção internacional da indústria brasileira. Entre tarifas zeradas e cotas ampliadas, o verdadeiro produto exportado agora é confiança.

UMA INDÚSTRIA EM ASCENSÃO

Conferência Internacional UNEM DATAGRO mostra como o avanço do etanol de milho está redesenhando a cadeia produtiva, valorizando o cereal e abrindo novos mercados

P or r onaldo l uiz

aexpansão do etanol de milho vem transformando a formação do preço da saca do cereal no mercado doméstico. Tomando como base, por exemplo, a praça de Sorriso (MT), o valor da saca do milho hoje é praticamente o dobro do registrado há cerca de dez anos. A diversificação dos coprodutos obtidos a partir do milho destinado à produção de etanol é o principal fator por trás dessa mudança. Além do próprio etanol, destacam-se o DDG, destinado à alimentação animal; o óleo de milho; a geração de CBios; entre outros produtos. Esse foi o principal recado da 3ª edição da Conferência Internacional UNEM DATAGRO sobre Etanol de Milho, realizada em abril, em Cuiabá (MT). O evento reuniu mais de mil participantes, contou com sete painéis técnicos e mais de dez horas de conteúdo. A programação consolidou a percepção de que o etanol de milho deixou de ser um segmento complementar para se tornar um pilar relevante da produção nacional de biocombustíveis e um importante integrador das cadeias produtivas do agronegócio brasileiro. Confira os principais destaques do evento:

DEMANDA INDUSTRIAL IMPULSIONA

ATRATIVIDADE DO MILHO

“O etanol vem permitindo uma forte agregação de valor ao milho. Nossos estudos mostram que, com a industrialização, o valor do cereal cresce mais de 80% em relação ao que seria obtido com sua comercialização em grão”, disse o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, na cerimônia de abertura. “De R$ 15, R$ 20 há dez anos, o preço da saca vem subindo para níveis acima de R$ 45 aqui em MT, por exemplo.” Segundo o presidente da DATAGRO, o etanol de milho é um exemplo concreto da integração virtuosa das cadeias produtivas, pois gera grãos, biocombustíveis e ração para rebanhos, que, por sua vez, abastece a produção de carnes, entre outros produtos. “Essa lógica desmonta a falácia da competição por terra entre alimentos e energia. Isso não existe no Brasil. Pelo contrário: a produção de energia no cam-

po impulsiona a produção de alimentos.”

Além disso, o economista sênior da DATAGRO, Bruno Wanderley, lembrou que essa expansão também contribuiu para reduzir a sazonalidade da oferta de etanol no mercado brasileiro, garantindo abastecimento mais constante. Ao concluir, Nastari ressaltou que o agro atravessa uma conjuntura de custos elevados, preços pressionados e margens apertadas, mas que o setor demonstra, como sempre, resiliência para enfrentar momentos dessa natureza.

MATO GROSSO É DESTAQUE NA PRODUÇÃO

Em sua exposição, o presidente do conselho da Unem, Eduardo Menezes Mota, discorreu sobre o potencial de crescimento do etanol de milho, estimando uma produção de 12 bilhões de litros na safra 2026/27, avanço de 10% em relação ao ciclo anterior. O dirigente destacou o início das operações de novas usinas em Mato Grosso, Bahia e Pará, lembrando que o segmento não produz apenas o biocombustível, mas também bioeletricidade, óleo, DDG e outros coprodutos: “O contexto geopolítico atual posiciona a segurança alimentar e energética no centro das decisões, e o etanol se apresenta como um trunfo no cenário global. O setor ganha uma relevância estratégica imensa, funcionando como um escudo para o Brasil”. O dirigente também destacou o surgimento de novos mercados para o etanol, entre eles os combustíveis sustentáveis para aviação e transporte marítimo.

Encerrando a solenidade de abertura, o governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta, projetou que a cadeia produtiva do milho deverá se tornar, em breve, a principal do estado, superando inclusive a da soja. “O milho está virando a safra e a soja, a safrinha.” Participaram ainda da cerimônia o vice-prefeito de Sorriso, Acácio Ambrosini; o presidente da Biosul, Amaury Pekelman; o presidente da Fiemt, Silvio Rangel; e Luiz Gustavo Wiechoreki, coordenador de Cana-de-Açúcar e Agroenergia do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

COMPLIANCE AMBIENTAL PARA

TOMADA DE DECISÃO

Em painel sobre sustentabilidade, o coordenador Técnico Industrial do Benri, Luiz Francisco Lomonaco Ferreira da Silva, explicou como a implantação de indicadores de eficiência auxilia as usinas na identificação de riscos operacionais, sobretudo de natureza ambiental, fortalecendo a governança e contribuindo para uma atividade cada vez mais sustentável. “Só para as usinas de etanol de milho, temos mais de 20 indicadores de eficiência, exatamente porque o segmento envolve diversos processos produtivos”, disse.

Originalmente criado como critério de avaliação do desempenho operacional e gerencial, o

rating das usinas, desenvolvido pelo Benri, tornou-se uma ferramenta baseada em diversos indicadores-chave e vem sendo cada vez mais utilizada para apoiar decisões de negócios no segmento de biocombustíveis. De acordo com a consultora sênior de Riscos de Sustentabilidade da Marsh, Marjorie Correia Leite, investidores, instituições financeiras, seguradoras e demais agentes do mercado utilizam a avaliação de riscos ambientais em seus processos decisórios: “Isso vale para um aporte, a concessão de financiamento ou a efetivação de uma cobertura”.

Também painelista, a secretária do Meio Ambiente de Mato Grosso, Mauren Lazzaretti, ressaltou que o modelo de licenciamento ambiental adotado no estado busca conferir maior

agilidade aos processos, preservando o rigor técnico e reduzindo a burocracia: “Antes da nova Lei Nacional de Licenciamento Ambiental, MT já atuava dessa maneira”. Moderadora da sessão, a chefe-geral da Embrapa Agrossilvipastoril, Laurimar Gonçalves Vendrusculo, acrescentou: “Quanto menos risco, mais resultado”.

INFRAESTRUTURA É DESAFIO

A expansão prevista para o etanol de milho no Centro-Oeste, hoje principal região produtora do biocombustível a partir do grão, tem como desafio primordial a infraestrutura logística necessária para o escoamento da produção aos mercados consumidores mais relevantes do País, concentrados próximos ao litoral, e também aos

portos. O diretor executivo da Ultracargo, Fernando Dihel, destacou que esse desafio exige a ampliação das rotas de transporte e da capacidade de armazenagem, por meio de soluções multimodais que combinem trechos ferroviários e rodoviários, além da implantação de dutos. “Sem infraestrutura, a commodity agrícola não escala”, afirmou, sendo endossado pelo consultor da Perotto & Pagot e ex-diretor do DNIT, Luiz Antônio Pagot, que observou: “A logística está sempre aquém das necessidades do agro”.

Nesse contexto, o ex-senador e atual presidente do Conselho da Nova Rota do Oeste, Cidinho Santos, enfatizou o projeto de um etanolduto ligando Sinop (MT) a Paulínia (SP), ao longo de 2,1 mil quilômetros, principal hub de

distribuição de combustíveis do País. “Este duto terá capacidade de escoamento de 13 milhões de metros cúbicos e demanda estimada de investimento da ordem de R$ 22 bilhões”, afirmou, acrescentando que “há forte interesse do governo federal em viabilizar a obra, bem como de investidores internacionais”. O diretor executivo do Movimento Pró-Logística, Edeon Vaz Ferreira, apresentou números que demonstram o peso da infraestrutura no chamado “Custo Brasil”. Segundo ele, o custo do transporte terrestre-marítimo de uma tonelada do Brasil para a China supera US$ 150, enquanto na Argentina e nos Estados Unidos o valor permanece abaixo de US$ 90.

CONSUMO NACIONAL DE DDG

O consumo doméstico de DDG tem potencial para saltar dos atuais 9 milhões de toneladas para 10,8 milhões em 2030, afirmou o líder da Área de Pecuária da DATAGRO, João Otávio Figueiredo. Proveniente do processamento do milho utilizado na produção de etanol, o DDG (Grãos Secos de Destilaria) possui elevado teor proteico e vem sendo cada vez mais utilizado como insumo pela indústria de alimentação animal na fabricação de rações. No Brasil, o produto é empregado principalmente na dieta de bovinos terminados em confinamento, além da suinocultura e da avicultura.

Segundo dados apresentados por Figueiredo,

o Brasil conta atualmente com 27 usinas de etanol de milho em operação, com capacidade para processar 24,7 milhões de toneladas do grão. Esse volume resulta na produção de aproximadamente 11,1 bilhões de litros de etanol e cerca de 7 milhões de toneladas de DDG. “Até 2029, projetamos 63 usinas, com capacidade de processamento de 57,4 milhões de toneladas de milho, gerando 25,3 bilhões de litros de etanol e aproximadamente 15 milhões de toneladas de DDG”, disse.

Na agenda internacional, o diretor de Relações Internacionais e Comunicação da Unem, André Veríssimo, lembrou que a entidade mantém um convênio com a Apex para pro -

mover o DDG brasileiro no exterior, prevendo para 2026 uma série de ações, especialmente na Europa e na Ásia. Os principais países importadores de DDG são China, Turquia, Vietnã e Nova Zelândia. Neste ano, o Brasil embarcou o primeiro lote de DDG para o gigante asiático. O diretor de Importação e Exportação da Divisão de Ingredientes para Ração Animal da Wilmar Trading, de Xangai, Freek Boelen, destacou que os fabricantes chineses de ração valorizam o DDG por reunir alto teor de proteína e elevada capacidade energética em um único produto: “Aqui na China, os principais mercados para o DDG são as indústrias aquícola e avícola”.

O ETANOL NO CENTRO DO MUNDO

Em sua 19ª edição, CITI ISO DATAGRO reuniu mais de 400 dos principais líderes e especialistas do setor sucroenergético mundial

P or r onal D o l uiz

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iante do cenário geopolítico global, que, ao escancarar o debate sobre oferta, distribuição e preços de petróleo e derivados, coloca, mais uma vez, as fontes fósseis em xeque, a 19ª edição da CITI ISO DATAGRO New York Sugar and Ethanol Conference reafirmou os biocombustíveis – sobretudo o etanol – como trunfo do Brasil na agenda global da transição energética e da mobilidade sustentável. O evento, que é o oficial de conteúdo da Sugar Week, reuniu, em maio, mais de 400 dos principais líderes e especialistas do setor sucroenergético mundial. Para André Cury, presidente do Citi, o Brasil se fortalece como referência global em biocombustíveis: “Estamos ampliando o financiamento para transição energética”. Já o presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, destacou que a agenda da descarbonização, na qual o etanol é protagonista, não se limita ao Brasil e aos Estados Unidos. “Há avanços na mistura cada vez mais expressivos na Ásia, com Japão, Índia, Indonésia, Tailândia, além da Argentina e de países da América Central, entre os quais a Guatemala, e assim por diante.”

Segundo o deputado federal Arnaldo Jardim, também vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a comunidade internacional, especialmente a europeia, passa a reconhecer que a produção de alimentos e de biocombustíveis caminham juntas. “O Brasil tem o etanol, o biodiesel, o biogás, numa sinergia de segurança alimentar e energética. Não há disputa por terra, e sim complementariedade”, disse. O presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica),

Evandro Gussi, classifica o etanol como uma grande estrela brasileira. “O etanol traz segurança energética, custo menor para o consumidor e, claro, o benefício ambiental, afirmou, recordando ainda as oportunidades que despontam nos mercados de combustível sustentável para aviação e transporte marítimo. Já o presidente da Bioenergia Brasil, Mário Campos Filho, lembrou que os últimos quatro ou cinco ciclos foram muito favoráveis ao setor sucroenergético, com preços remuneradores: “Para esta temporada, observamos um quadro de preços mais pressionados e uma projeção de uma safra 2026/27 cheia”.

ALTA DOS FERTILIZANTES E DIESEL

Os preços mais elevados dos fertilizantes e do diesel, insumos fundamentais para a agricultura, elevaram o custo de produção do açúcar nos principais países produtores, incluindo o Brasil, afirmou Nastari durante a programação. Segundo ele, o custo de produção do açúcar no Brasil, maior exportador global da commodity, equivale atualmente a 18,63 centavos de dólar por libra-peso, após uma alta de cerca de 2 centavos de dólar por libra-peso em um ano.

DATAGRO

PROJETA PRODUÇÃO

RECORDE DE ETANOL

Na ocasião, a DATAGRO anunciou sua mais recente estimativa para a safra 2026/27 do Centro-Sul do Brasil: 642,2 milhões de toneladas de cana, 40,98 milhões de toneladas de açúcar e 38,61 bilhões de

litros de etanol de cana e milho. Somada à produção projetada para o Nordeste em 2026/27, a moagem de cana no País deverá alcançar 698 milhões de toneladas, com produção de 44,2 milhões de toneladas de açúcar e 41,4 bilhões de litros de etanol. A DATAGRO também estima que o mercado mundial de açúcar encerrará o ano-safra 2025/26, de outubro a setembro, com um pequeno superávit de 0,57 milhão de toneladas em valor bruto, seguido de um déficit de 3,17 milhões de toneladas em valor bruto em 2026/27, também no período de outubro a setembro. Os principais vetores dessas estimativas são o mix de produção do Centro-Sul do Brasil mais direcionado ao etanol, ao menos nos primeiros meses da safra atual; os potenciais impactos da anomalia El Niño na Índia e na Indonésia; e a redução de área cultivada na Europa e na Tailândia.

ETANOL NA NAVEGAÇÃO

MARÍTIMA GLOBAL

Diante da agenda global de descarbonização da navegação comercial, estabelecida pela Organização

Marítima Internacional (OMI), os biocombustíveis, em particular o etanol, podem desempenhar papel central na transição energética do setor. Foi o que destacou o presidente executivo da Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), Renato Augusto Pontes Cunha: “O Brasil tem vantagens comparativas relevantes, sobretudo na produção de biocombustíveis, com enorme potencial para, já numa primeira etapa, serem adicionados ao combustível das embarcações, conhecido como bunker”. A OMI, agência da ONU responsável pela regulação do transporte marítimo, estabeleceu metas ambiciosas e mandatos rigorosos para a descarbonização do setor, com o objetivo de atingir emissões líquidas zero até 2050. “O etanol tem sido bem testado e aprovado para ser utilizado com um percentual inicial de cerca de 10% para compor a mistura do biobunker”, afirmou Cunha, acrescentando que a guerra no Oriente Médio, em especial o fechamento do Estreito de Ormuz, mostra, mais uma vez, a necessidade de buscar novas fontes de energia, além das fósseis.

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