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Devarim 39 (ano 14, agosto 2019)

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devarim Revista da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI

Ano 14, n° 39, agosto de 2019

Yehuda Amichai Moacir Amâncio

Sou esquerdopata Paulo Geiger

Minian: do décimo ao primeiro Rabino Sérgio Margulies

A Mágica de Oz Paulo Geiger

Direitos humanos: aprendizado de eventos passados Ricardo L. Sichel

O drama dos palestinos Khaled Abu Thoame Bassam Tawil

As bençãos da vida e o potencial desperdiçado Rabino Dario Bialer

O Que é Deus? Rabino Rifat Sonsino

Desmistificando o “Terrorista Pobre” Claude Berrebi e Owen Engel

Os Atributos Divinos Martin Hirsch

Sobreviventes. Ou, sobre viventes. Marcia Rozenthal


editorial “

P

As lições de 1930

recisamos alistar todos os segmentos da sociedade na luta que o nosso mundo enfrenta hoje. Em particular, para enfrentar a ascensão do discurso de ódio, xenofobia e intolerância ... Nunca nos esqueçamos das lições dos anos 1930. O discurso de ódio e os crimes de ódio são ameaças diretas aos direitos humanos, ao desenvolvimento sustentável e à paz e segurança.” Assim falou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em janeiro deste ano, quando ele igualou discurso e crime. Suas palavras ecoam o que fala grande parte da imprensa, da academia e dos meios políticos. O que não quer dizer que este conceito esteja correto, pois sua conexão do discurso de ódio com as “lições dos anos 1930”, ou seja, as lições do Nazismo, deixa de fora um dos fatores essenciais da equação. Por mais terrível e odioso que tenha sido o discurso, ele só conseguiu ser concretizado pela política de apaziguamento perseguida pelos países democráticos. Uma política embalada pela insensata visão de que seria possível conter o expansionismo alemão e cercear o racismo nazista cedendo frente a algumas de suas demandas. O emblema desta atitude é o acordo de setembro de 1938 entre os mandatários da Grã-Bretanha e da França, Chamberlain e Daladier, e os ditadores nazista e fascista. Um acordo que foi o último passo no insensato caminho de ceder à chantagem acreditando que a mais recente demanda do chantagista será a última. E que é possível confiar na palavra de ditadores. Sim, palavras de ódio existiram e elas tiveram um papel na tragédia. Mas foram balas, gás venenoso, bombas e inanição que mataram milhões, pois palavras só matam se forem seguidas de ações. Aos amantes da paz cumpre, então, não dar espaço à ação do criminoso. A política de apaziguamento, de tolerância aos ditadores, faz exatamente o contrário disso. Penso que o Secretário Guterres teria dado um recado mais útil se tivesse dito: “Precisamos alistar todos os segmentos da sociedade na luta que o nosso mundo enfrenta hoje. Em particular, não tolerando os intolerantes e os supremacistas... Nunca nos esqueçamos das lições dos anos 1930. A ditadura é uma ameaça direta aos direitos humanos, ao desenvolvimento sustentável e à paz e segurança”. E que não caiamos na armadilha de imaginar que a lição do desastre provocado pela tolerância de ditadores já foi assimilada. O acordo entre os Estados Unidos, sob o presidente

Obama, e o Irã dos Aiatolás, justificado por “ter evitado uma guerra e por colocar o Irã no caminho da moderação”, demonstra que muitos ainda pensam e agem na mesma linha de Chamberlain e Daladier. Há uma outra faceta da “cultura do apaziguamento”: a censura às vozes que alertam quanto à necessidade de ser intolerante com os intolerantes. Tal qual o menino que, no conto de Andersen, fala “o rei está nu”, estas vozes abrem os olhos para o erro dos governantes. Portanto, eles tentam silenciá-las. Dizem que é “discurso de ódio” e “racismo” afirmar que a esmagadora maioria dos muçulmanos é pacífica, mas que, também, a esmagadora maioria dos terroristas é muçulmano. Logo, convém verificar o motivo disso. Dizem que é “discurso de ódio” e “xenofobia” constatar que existe uma imigração boa (na qual o imigrante se integra e contribui com o país que o acolheu) e uma imigração problemática (na qual o imigrante não se integra, vive de benefícios para os quais não contribui e não aplica a igualdade em suas relações). Então, convém filtrar a imigração. Dizem que análises e comentários – inclusive os irreverentes – sobre as diversas culturas e comportamentos abrem a porta para a tragédia, quando na verdade o trágico é a tentativa de silenciar a denúncia, pois nem todo discurso que contraria uma política (sensata ou insensata) é de ódio. O ódio faz parte dos sentimentos do ser humano, assim como o amor. E nenhum deles jamais será extinto pela conscientização ou pela educação. Os exemplos acima mostram que aquilo que alguns qualificam como “ódio”, outros pensam ser mero senso comum. Assim que criminalizar “o discurso de ódio” nada mais é do que uma tentativa de punir quem pensa diferente de você. Já temos três categorias de crimes de discurso: calúnia, injúria e difamação. Precisamos de mais uma, sendo esta completamente subjetiva? Posso estar completamente enganado, mas, baseado no que vejo hoje, acredito que a guerra ao “discurso de ódio” é uma estratégia de censura às pessoas que, na era do politicamente correto, se expõem ao chamar as coisas por seus devidos nomes. A chamar ditadura de ditadura e não de “cultura diferente”. Enganam-se os que acreditam que culturas totalitárias e supremacistas podem ser neutralizadas através da acomodação e da supressão às críticas. Os que fazem isto são parte do problema e não da solução. Raul Cesar Gottlieb – Diretor de Devarim

Revista da Associação Religiosa Israelita-ari

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Revista Devarim Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI Ano 14, nº 39, agosto de 2019 Presidente da ARI

Gilberto Lam

devarim [hebraico] Plural de davar, sm. 1 Coisas, todas as coisas, ou algumas coisas, ou as que interessam. 2 Palavras, não só as palavras em si (seria então milim), mas os signos de coisas, ideias, conceitos, pensamentos. 3 O quinto e último livro da Torá, sua recapitulação pós-mosaica, soma das palavras e das coisas. 4 Revista da ari, onde as palavras recapitulam o judaísmo milenar em sua inserção planetária e contemporânea.

Rabinos da ARI

Sérgio R. Margulies, Dario E. Bialer Diretor da Revista

Raul Cesar Gottlieb Conselho Editorial

Breno Casiuch, Rabino Dario E. Bialer, Germano Fraifeld, Jeanette Erlich, Marina Ventura Gottlieb, Mônica Herz, Paulo Geiger, Raphael Assayag, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Sérgio Margulies. Edição

Editora Narrativa Um

sum á rio Minian: do Décimo ao Primeiro Rabino Sérgio Margulies......................................................................... 3 As bençãos da vida e o potencial desperdiçado. Uma história de Rabi Nachman Rabino Dario Bialer................................................................................ 9

Edição de Arte

Negrito Produção Editorial revisão de textos

Mariangela Paganini (Libra Edição de Textos) fotografia de capa

Vaeenma / iStockphoto.com Colaboraram neste número: Bassam Tawil, Claude Berrebi, Rabino Dario E. Bialer, Khaled Abu Thoame, Marcia Rozenthal, Martin Hirsch, Moacir Amâncio, Owen Engel, Paulo Geiger, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Rifat Sonsino, Ricardo L. Sichel e Rabino Sérgio R. Margulies. Os artigos assinados são de responsabilidade intelectual de seus autores e não representam necessariamente a opinião da revista Devarim ou da ARI. Os critérios para grafar palavras em hebraico e transliterá-las para o português seguem as seguintes regras: (a) chet e chaf tornam-se ch; (b) tsadik é ts; (c) hei final acentua a vogal e desaparece; (d) kaf e kuf são k; (e) não usamos hífen ou apóstrofe em casos como ledor, em vez de le-dor, e beiachad, em vez de b’iachad e (f) palavras em hebraico de uso corrente na ARI não estão em itálico. A revista Devarim é editada pela Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro www.arirj.com.br devarim@arirj.com.br Administração e correspondência: Rua General Severiano, 170 – Botafogo 22290-040 – Rio de Janeiro – RJ Site da Devarim www.devarim.com.br A distribuição de Devarim é gratuita, sendo proibida a sua comercialização.

O Que é Deus? Minha posição Rabino Rifat Sonsino............................................................................ 17 Yehuda Amichai Moacir Amâncio................................................................................... 23 A Mágica de Oz – O Pensamento de Amos Oz. Neste número: Judaísmo Trechos selecionados e editados por Paulo Geiger.................................. 31 Desmistificando o “Terrorista Pobre” Claude Berrebi e Owen Engel............................................................... 37 O pesadelo dos árabes: a absorção dos palestinos Khaled Abu Thoame............................................................................. 45

O Drama dos Palestinos

A guerra palestina aos empresários Bassam Tawil......................................................................................... 49

O Drama dos Palestinos

Direitos humanos: aprendizado de eventos passados Ricardo L. Sichel................................................................................... 53 Os Atributos Divinos Martin Hirsch....................................................................................... 60 Sobreviventes. Ou, sobre viventes. Marcia Rozenthal.................................................................................. 68 Resenha de Livros..................................................................................... 72 Em Poucas Palavras.................................................................................. 74 Cócegas no Raciocínio: Sou esquerdopata Paulo Geiger.......................................................................................... 79


Minian: do Décimo ao Primeiro Rabino Sérgio Margulies

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o Museu da Diáspora em Tel Aviv, que retrata a vitalidade da vida judaica ao longo dos séculos, há um espaço denominado minian – grupo de oração constituído de ao menos dez membros da comunidade. No entanto, há somente nove estátuas. Não falta uma, pois o observador representa o décimo membro. A mensagem lembra que cada um de nós é responsável pela existência do minian.

Da onde... Da onde surge a concepção do número dez? Será que a efetividade da oração está relacionada a um número específico? Se considerarmos como efetividade moldar o desígnio divino, pouco importa o número porque isto seria subverter o propósito das orações, que não é de submeter Deus ao anseio humano. No entanto, se compreendermos a oração como uma linguagem espiritual de apoio mútuo, algum número torna-se relevante. Mas qual número? O filósofo Saadia haGaon (882-942) ensina que o número dez representa a perfeição. No entanto, a aceitação da perfeição de um número exige a utilização de algarismos, o que o judaísmo não possui, tanto que os valores numéricos são representados por letras. Em acréscimo, a composição do minian surge de uma história da Torá (Parashá Shelach Lechá) que associa dez à imperfeição humana. O episódio remonta a saída dos hebreus do Egito antigo e sua jornada pelo deserto cujo destino era a Terra de Israel. Doze emissários, um de cada tribo que compunha o povo de Israel, foram enviados para verificar as condições da terra para a qual seguiam. Os relatos divergem. Enquanto dois – Ioshua [Josué] e Caleb – afirmaram tratar-se uma terra que emana leite e mel, os dez demais

Cada um de nós – todos nós! – somos convocados a ser o décimo membro que viabiliza a existência de um minian. E ainda que haja dez, nos consideremos sendo o décimo.

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adicionaram a palavra ‘mas’ à observação. a nulificação do potencial humano. ExerMinian é o grupo que Reconhecem ser de fato uma terra que cer a oportunidade de estar junto é transnão autoriza sermos emana leite e mel, mas que vai devorácender o egoísmo que anula a sacralidade esmagados como se -los e serão esmagados como gafanhotos. dos vínculos. Independentemente do núfossemos ‘zero’, na A mensagem destes emissários era numero exigido, minian é o grupo que não trida pela visão do passado; enxergavam autoriza sermos esmagados como se fosseanalogia do relato o futuro pelas lentes do medo como se mos ‘zero’, na analogia do relato dos emisdos emissários, ainda fossem escravos. Com isto, instisários, gafanhotos propensos a serem pigafanhotos propensos gam contra a liderança de Moshé [Moisoteados pelo desespero. a serem pisoteados sés] e contra a promessa divina difundinTampouco somos, em função da sinpelo desespero. do rancor. Estes dez emissários foram degular condição humana, reduzíveis a núnominados pela Torá como eda ha-rá (a meros. Neste sentido, o texto bíblico alercongregação perversa). Deles surgiu o número dez do mita para que recenseamentos não sejam feitos, pois nas panian. Pasmem: o minian congregacional origina-se de um lavras do profeta bíblico Hosheá [Oséias] somos “numerogrupo perverso! sos como as areias” – impossíveis de serem contadas. AlerA intrincada lógica talmúdica [Tratado Meguilá] exta mais contundente vem da iniciativa do Rei David [Taplica: A expressão edá ha-rá é superposta com outra pasnach: 2Shmuel] cuja ordem do censo provocou uma prasagem da Torá [Bamidbar/Números 16:21] que cita o terga que dizimou mais de milhares. Isto difere da ordem dimo edá (congregação) associado à palavra betoch (dentro). vina estabelecida na Torá que convoca a realização do cenAplicando uma nova superposição, a palavra betoch apareso na travessia do deserto. Entre, de um lado, a proibição, ce também no verso da Torá [Vaikra/Levítico 22:32] que e de outro, a necessidade do censo em determinadas insmenciona a santificação divina. Assim, conclui-se que a tâncias, a decisão é de não contar o número de integrantes santificação divina requer dez. Talvez pudéssemos seguir de um minian. Isto ajuda a preservar o sentido de humapor um caminho mais simbólico: cada minian constituínidade e a considerar cada indivíduo. Porém, uma vez que do contrapõe o desespero dos dez emissários, reverte as ânem dadas situações urge a necessidade de verificar a quancoras do imobilismo e impulsiona a fé na liberdade. Em tidade de componentes, nossa tradição se vale de um articonsequência, cada um de nós – todos nós! – somos confício. A checagem é realizada através de um verso dos Salvocados a ser o décimo membro que viabiliza a existência mos (28:9) que contém dez palavras no texto em hebraide um minian. E ainda que haja dez, nos consideremos co: hoshia et amecha uvarech et nachalatecha urem ve-nasem sendo o décimo. ad há-olam. “Salva Teu povo e abençoe Tua herança, sê Tu o seu pastor e enaltece-o para sempre.”

Para que...

Com quem... No momento de oração que celebra a alegria, se olhos não enxergarem ninguém à volta a felicidade murcha; nas ocasiões de busca de conforto, se o entorno está vazio o desalento torna-se mais intenso. Ou no anseio de estabelecer uma conexão espiritual, por exemplo, no Shabat ou num Chag percebemos que esta conexão é sustentada através dos vínculos que estabelecemos uns com os outros. O livro bíblico Mishlei [Provérbios] ensina: “Na multidão do povo reside a glória do rei, mas em sua ausência reside a ruína do príncipe”. A expressão ‘mas’ dos Provérbios é a mesma do episódio dos emissários, em hebraico: efes. Efes também significa zero. Ter a chance de compartilhar é romper

A não contagem via números evita quantificar o ser humano. E em relação à qualificação, há alguma restrição? Por exemplo, a falta de caráter e a desonestidade desautorizam alguém de ser considerado componente do minian? A oração se desenrola no ambiente do tsibur. Tsibur em hebraico é o conjunto comunitário. As três letras que compõem esta palavra geram uma interpretação: tsadik, se refere aos tsadikim justos, beit aos beinonim, medianos, e reish, aos rashaim, malvados. Desta interpretação aprendemos que um ambiente comunitário é composto por pessoas de distintas atitudes e posturas. Corrobora a citação

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do Talmud [Tratado Keritot] de que algumas oferendas realizadas no Templo de Jerusalém eram de incensos que produziam aroma desagradável. O paralelo entre as oferendas e a constituição do minian conclui que tanto quanto não contabilizamos os corpos presentes, não escrutinizamos suas almas.

E se sem... Sem dez algumas orações não podem acontecer, como, por exemplo, Barechú, Kedushá, leitura do rolo da Torá e recitação do Kadish. O que fazer com os que compareceram? Devem ficar privados da realização destes preceitos religiosos? Algumas alternativas foram sugeridas como incluir um menino antes de atingir seu Bar Mitsvá, que já tenha estudo judaico ou até mesmo um neném desde que segurando um Chumash (Torá sob a forma de livro) ou reduzir o número dez para sete (Talmud: Tratado Soferim). Outra solução é considerar o rolo da Torá como se fosse o décimo do minian (Talmud: Tratado Berachot). Estas sugestões são consideradas pelos códigos de lei judaicos e desencorajadas para evitar a acomodação. No entanto, só o fato de serem sugeridas demonstra a necessidade de fazer face às situações emergenciais.

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Ou quem mais... E as mulheres? Podem ser reconhecidas como integrantes do minian? As mulheres são isentas da realização de certos preceitos religiosos (Mishná Kidushin). Isenção – pontua o rabino Isaac Halevi, que foi mestre do proeminente comentarista da Torá Rashi (séc. 11/12) – não é proibição. Logo, podem exercer a opção de participar. Esta isenção decorria de uma estrutura social na qual muitas mulheres eram desprovidas de educação. Assim, limitar a participação visava evitar constrangimentos. Esta situação mudou. Deste modo, não faz sentido preservar uma instância anacrônica. Isto é seguido pelo judaísmo liberal. Em complemento, cada vez mais se intensifica a tendência de grupos da ortodoxia moderna de ampliar a participação ritualística feminina.

Daqui em diante... O filósofo e codificador da lei judaica Maimônides (séc. 12) estipulou que toda comunidade de pelo menos dez judeus é obrigada a ter uma estrutura para a qual as pessoas possam dirigir-se no tempo apropriado [de oração]. Este lugar chama-se sinagoga, concluiu Maimôni-


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des. E se não houver sinagoga ou se hou- Rabinos debatem se robôs siderados membros de um minian. Nos ver impossibilidade de ir para lá, consicom inteligência artificial tempos atuais, esta questão traz outra: que deraríamos a validade de um minian virtipo de judeus almejamos ser? Cumpridopodem ser considerados tual on-line? res dos requisitos estabelecidos como se Na busca de uma orientação as fon- como membros do minian. isto bastasse a despeito do sentir genuíno tes de referência são estudadas. O Talmud O que pode parecer uma e do pensar criativo ou apreciadores da es[Tratado Sanhedrin] afirma que a presen- hilária questão alimentada sência singular do convívio humano que ça divina está em bei asara – expressão heentrelaça sentimentos inesperados, sorripela imaginação braica interpretada como ‘casa dos dez’, sos súbitos e lágrimas imprevistas? encontra paralelo do que se conclui ser necessário que dez Os caminhos de escolha são sinuosos, em nossa história. estejam na mesma casa. A discussão se esora abraçamos uma ou outra opção, ora tende: casa se refere ao ambiente físico ou um pouco das duas com diferentes pesos, de convívio? Esclarecido que ao lugar físico, a definição é ora nada. Por estes caminhos frequentemente nos perdealargada e permite a participação daqueles que não estemos. Daí a importância do encontro humano para resgajam no mesmo lugar desde que os rostos sejam vistos. O tar nossa essência através dos que estão conosco. Genuidebate pode ser ampliado: vistos presencialmente ou por namente conosco e não artificialmente, pois nem só os rointermédio de algum reflexo que seria o paralelo ao virtual bôs são artificiais, tal como nem só a inteligência é artificontemporâneo? É indubitável a relevância do comparticial, também os sentimentos podem ser. lhar presencial pela troca afetiva e genuína que propicia. A missão... Por outro lado, tal como nossas fontes de estudo mencionam alternativas para o número dez em situações emerEstar em minian é estabelecer vínculos de responsabiligenciais, será que o mesmo critério referenda a possibilidade mútua compreendendo que somos todos igualmente dade de um minian virtual desde que enfatizada a ressalva diferentes uns dos outros. E aí, cada um de nós se imbuide não ser isto um convite para a acomodação? O debate rá tanto da missão de ser o décimo quanto de ser e consiprossegue. E se expande. derar todos os demais igualmente o primeiro dos compoRabinos debatem se robôs com inteligência artificial nentes do minian. Mesmo que haja quatrocentos como no podem ser considerados como membros do minian. O que Cabalat Shabat da ARI. pode parecer uma hilária questão alimentada pela imaginação encontra paralelo em nossa história. Na Idade Média, Sérgio R. Margulies é rabino e serve na ARI – Associação Religiocriaturas artificiais eram criadas para proteger as comunisa Israelita do Rio de Janeiro. dades judaicas em perigo e foi perguntado se seriam con-

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As bençãos da vida e o potencial desperdiçado Uma história de Rabi Nachman

Rabino Dario Bialer A história de Rabi Nachman nos fala de dois mundos paralelos. A vida pode ser, às vezes, extremamente cruel. E muitas vezes não estamos emocionalmente prontos para enfrentar a realidade, então fugimos. Nos escondemos para não nos mostrarmos vulneráveis.

U

ma vez, o filho do rei ficou louco. Ele fantasiava que era um pato. Portanto, ele passou a se sentar debaixo da mesa, nu, e a ciscar as migalhas, como um pato. O rei chamou muitos médicos, mas ninguém conseguiu curar o príncipe. Ou ao menos ajudar ele um pouquinho. E isto foi deixando o rei sem esperança e muito triste... Até que um homem sábio disse. “Eu posso curar o príncipe!” O que ele fez? Ele tirou todas as suas roupas e sentou-se nu debaixo da mesa ao lado do filho do rei, cutucando também migalhas. O príncipe perguntou: “Quem é você, e o que você está fazendo aqui?” O sábio respondeu com a mesma pergunta: “E quem é você e o que você está fazendo aqui?” “Eu sou um pato”, disse o príncipe. “Bem, eu também sou um pato”, disse o sábio. E os dois ficaram ali, sentados um ao lado do outro durante algum tempo, até que se acostumaram a ficar ao lado um do outro. Em seguida, o homem sábio fez um sinal e lhe jogaram duas camisas. O homem sábio disfarçado de pato disse ao filho do rei: “Você acha que um pato pode vestir uma camisa e continuar a ser pato? Com certeza se pode usar camisa e continuar a ser pato!” Ambos, então, vestiram as camisas.

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Depois de um tempo, ele fez outro side pés consegue enxergar apenas uma peTemos medo de nos nal e lhe jogaram calças. Novamente o hoquena parte do mundo. mostrar vulneráveis, mem sábio disse: “Claro que dá para usar numa sociedade que se Acima e abaixo da mesa calças e continuar a ser pato!” E ambos pucomunica através de redes seram as calças. Imagino a toalha caindo pelos lados E assim, uma por uma, eles foram vessociais que projetam uma da mesa como um véu que cobre o muntindo todas as peças do vestuário. vida perfeita. A vida que Em seguida, o homem sábio deu mais postamos no Facebook e do do pato, impedindo que ingresse a luz que vem da sala de jantar, fazendo desse um sinal, e eles baixaram alimento humano Instagram é composta um ambiente sumamente lúgubre. Desno da mesa. O homem sábio disse ao prínpor fragmentos que ta perspectiva, o príncipe que escolhe ser cipe: “Você acha que se comer boa comida pato é um louco. não será mais um pato? Claro que pode covamos publicando, em Isso pode ser verdade. Mas, em todo mer esta comida e continuar a ser pato.” E fotos sempre sorridentes caso, uma parte da verdade. Existe uma eles comeram. e paisagens deliciosas. outra explicação do motivo para o pato Então ele disse: “Você acha que para ser se esconder debaixo da mesa. um pato tem de se sentar debaixo da mesa? Acima da mesa, representa o mundo: aquilo que se esVeja que dá para ser pato e sentar-se à mesa!” pera de nós. E abaixo da mesa é como nós nos enxergaE foi assim que o homem sábio cuidou do príncipe até que, mos na intimidade. O local criado para fugir daquilo que finalmente, o curou completamente. o pato não quer enfrentar, onde ele tira a roupa e se alimenta de migalhas, como qualquer pato faria. Essa fábula faz parte da riquíssima literatura chassídica, A história de Rabi Nachman nos fala desses dois munescrita por um dos seus maiores referentes, Rabi Nachman dos paralelos. A vida pode ser, às vezes, extremamente de Bratslav (século 17 e 18 e.c.), que escreveu diversos concruel. E muitas vezes não estamos emocionalmente prontos em que os personagens frequentemente se repetem. Sempre há um rei, um servo, e um conflito a ser resolvido. tos para enfrentar a realidade, então fugimos. Nos escondemos para não nos mostrarmos vulneráveis. Há várias formas de ler essas histórias. Uma aproxiTirar as roupas não é só coisa de maluco. É coisa de mação mais literal seria entender o rei como rei e a filha uma pessoa muito corajosa também. Se mostrar sem rouou filho do rei como seus filhos e ler esses relatos como os pa, sem nada para cobrir suas imperfeições, é estar exposde um conflito familiar. Outra forma é interpretar o rei to aos outros e seguro de si mesmo. A pessoa que se sabe como o Rei, ou seja, Deus, e o seu filho/filha, como qualvulnerável é capaz de renunciar a ser o que outros esperam quer um de nós. dele para ser o que ela quer ser. Nesse último sentido, os mestres chassídicos utilizam Essa é a chave para ler esse relato. essa história particular para chamar a atenção daqueles que, tendo potencial para se sentar à mesa do rei e desfruO que fazemos com as nossas vulnerabilidades? tar de suas delícias, passam a vida escondidos e se alimentando das migalhas dos outros. Brené Brown1, a maior pesquisadora desse assunto, exO texto trabalha a disparidade entre uma mesa majesplica que as pessoas se sentem vulneráveis quando pensam: tosamente servida, com delicadas toalhas brancas que des“Eu não sou bom o suficiente, inteligente o suficiente, não lizam até o chão, castiçais, talheres de ouro e prata, comida sou magro, ou alto o suficiente …” e bebida à vontade, convidados distintos e um batalhão de Somos expostos a essa vulnerabilidade diariamente: atendentes, tudo isto emoldurando a grandiosidade do rei Cada vez que sou rechaçado. Se fico doente e preciso peconfortavelmente sentado em seu imponente trono, num palácio radiante e perfeitamente iluminado, contrastando com a escuridão de debaixo da mesa, num espaço solitá1 Professora da Universidade de Houston. Há mais de uma década ela se dedica ao rio e limitado, no qual o pato encolhido entre um monte estudo da vulnerabilidade, coragem, autenticidade e vergonha.

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dir ajuda. Se for demitido do emprego. Quando não for aprovado num exame. Quando convido alguém para sair sem saber se serei aceito. Então Brown diz que para nos proteger, muitas vezes acabamos nos insensibilizando. Não queremos nos sentir vulneráveis, então fingimos que essas situações não são algo tão importante. Mas acontece que, quando você faz isso, insensibilizar a vulnerabilidade, você acaba adormecendo todos os outros sentimentos também. Também insensibiliza a gratidão, a beleza e a alegria, o que aprofunda o isolamento e voltamos para onde começamos, debaixo da mesa, nos contentando com migalhas. Temos medo de nos mostrar vulneráveis, numa sociedade que se comunica através de redes sociais que projetam uma vida perfeita. A vida que postamos no Facebook e no Instagram é composta por fragmentos que vamos publicando, em fotos sempre sorridentes e paisagens deliciosas. Na mesma medida em que fazer isso eleva uma parte de nós – a ficção de estarmos sentados na mesa do rei

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–, fazer isso também confina uma outra parte – a que não mostramos – a se esconder na escuridão debaixo da mesa. Mostrar apenas o melhor perfil faz com que, quando nos sentimos vulneráveis, imaginemos que somos os únicos que se sentem perdidos, os únicos com problemas, os únicos que estão sofrendo, enquanto os outros continuam sorrindo e acumulando curtidas no Face. E estamos errados! Os convidados do rei pensam que, por estarem sentados à mesa, e por terem quem lhes sirva, quem lhes entretenha, quem lhes faça sentir importantes, que, então, eles estão isentos de fracassos e vulnerabilidades. Mas, no final das contas, eles experimentam fracassos igual a qualquer outra pessoa, e inclusive muitas vezes pode ser pior, pois os escondem. Que o pato tem problemas, eu não tenho dúvidas. Mas quem se acha rei, quem se acha intocável e todo poderoso, tem problemas também. As vulnerabilidades que temos, não são só defeitos, é o que nos faz humanos. Fracassamos todos, os patos e os reis...


O que serão a perfeição e o sucesso?

Podemos, em tudo, fazer pior do que poderíamos. Essa é uma prerrogativa humana. A debilidade relativa à espécie humana acaba por acolher uma curiosa habilidade não conferida a mais ninguém.

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No pensamento de Rabi Nachman, o perfeito seria o rei e o problemático o pato, e essa dicotomia se torna especialmente interessante quando percebemos que, na verdade, os animais têm uma perfeição que nós não temos. Isso o explica muito bem Jaime Baryl­ ko, o grande pensador argentino, filósofo e sobretudo moré de tantas gerações. Ele diz que um tigre, pouco tempo depois de nascer, vai ser todo o tigre que ele consegue ser. Um tigre perfeito. As pessoas não. Podemos viver toda uma vida, e nem nos aproximar do que poderíamos ser e não somos. A colocação de Rabi Nachman é própria do egocentrismo da condição humana. Que nos faz pensarmos como os donos da criação, nos relacionando com as outras espécies a partir de um lugar de superioridade, quando o que nos define como seres humanos é que somos a única espécie dentro da qual podemos ser menos do que realmente somos.

Se nos guiamos pelo capítulo 1 do Gênesis e paramos por aí vamos acreditar que sim, que somos fantásticos, a mais perfeita criatura criada por Deus, que nos colocou nesse mundo para dominar, controlar e se servir. O ser humano como dono e senhor da Criação. Mas é interessante que o judaísmo, em sua pluralidade, no capítulo 2 do Gênesis, volta a narrar a Criação, desta vez de uma forma bem diferente. O homem e a mulher são criados para trabalhar a terra, para cuidar do jardim e não apenas para se servir, mas estar a serviço da Criação. Um dos grandes nomes da tradição literária árabe clássica é Al Jahiz, do século 7 e.c. Ele começa sua obra afirmando e desenvolvendo uma teoria na qual compara as debilidades do homem perante os poderes dos animais. Ele explica que, ao contrário do que comumente acreditamos, os animais são mais perfeitos do que os humanos. Os pássaros cantam com perfeição. Com métrica e melodia infalíveis. Os pássaros não podem cantar me-

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nos do que a sua capacidade. O ser hué uma mensagem muito relevante. Se o Se o rei é Deus, ele não mano não. O ser humano pode cantar e rei é Deus, ele não pode resolver o conpode resolver o conflito pode, também, fazer isso mal feito. flito do homem sem aniquilar o que há do homem sem aniquilar Uma pessoa pode não conseguir cande humano nele. A intervenção direta de o que há de humano tar algo mais complexo, e sim estar em Deus afeta o livre arbítrio, ou seja, aquilo condições de cantar algo mais simples. nele. A intervenção direta que nos distingue do restante da Criação. Pode também cantar mal essa canção Deus inspira, mas é o homem quem deve de Deus afeta o livre mais simples. Pode desafinar e, mesmo asexercer e experimentar a solidariedade, a arbítrio, ou seja, aquilo sim, continuar cantando. Além do mais, sabedoria e a vulnerabilidade. que nos distingue do podemos decidir não cantar. O poder de Deus, tendo em vista o lirestante da Criação. O pássaro não pode escolher não canvre arbítrio do homem, é o de inspirar, de tar. Nós podemos. Podemos, em tudo, mostrar o caminho, mas Ele em si não faz fazer pior do que poderíamos. Essa é uma prerrogativa o que nos cabe fazer por nós mesmos. humana. A debilidade relativa à espécie humana acaba Esse é o lugar do homem na história e na sua história por acolher uma curiosa habilidade não conferida a mais ninguém. No entanto, isso não significa que sempre possamos rePodemos fracassar. É uma coisa a ser pensada. Pensar o solver todas as situações sozinhos. humano a partir desse lugar. Pensar o humano a partir da É por isso que quando não conseguimos enxergar uma possibilidade de fracassar. Talvez seja isso o que nos defisaída para a nossa problemática, o homem sábio da históna. A possibilidade de não cantar, de não fazer. E de calar... ria do pato ocupa um lugar essencial. O que nos falta, como característica do que somos O homem sábio é aquele que nos traz de volta. É aquele que nos tira do desânimo, da angústia contida, do deSomos uma espécie defeituosa, mas fomos educados sencantamento do mundo. com a vara da perfeição. Então, quando percebemos um É uma figura muito interessante esse sábio. Ele seguradefeito em nós, nos sentimos marginais, com vergonha de mente deve ter experimentado as mesmas vulnerabilidades nós mesmos. E acabamos nos escondendo debaixo da mesa. que o príncipe. Ele já sentiu na sua vida ser um pato, ele já Nossas incapacidades são uma dimensão inescapável esteve lá, já o experimentou. E conseguiu transformar essa do que somos. Todos sonhamos coisas boas. Mas havedor numa habilidade para ajudar os outros. rá tropeços. A partir de um lugar profundo dentro dele conseguiu Como dizia Walter Benjamim: “Todos os golpes detransformar a sua vulnerabilidade em algo reparador para cisivos são desferidos com a canhota”. O lugar de fraqueos outros, lhes mostrando um lugar alternativo a viver esza é também um lugar de força, é o lugar do improviso, o condido debaixo da mesa, ou angustiado acima dela. lugar da criatividade, o lugar em que coisas surpreendenE talvez essa seja uma das principais mensagens destes acontecem. sa história. O rei e o pato expressam uma realidade muiSer um pato debaixo da mesa ou viver a vida como conto mais complexa do que certo-errado, exitoso-fracassado. vidado à mesa do rei são dois extremos dentro de um granÉ uma dinâmica na qual cada um se permite estar no de leque de possibilidades que o ser humano experimenta lugar em que consegue estar nesse particular momento ao longo da sua vida. de sua vida e, ao mesmo tempo, abrir os olhos para perUma pergunta que se desprende do relato de Rabi Naceber que esse lugar que hoje ocupamos não está garantichman é: Por que o rei não ajuda diretamente o filho? Por do e também não estamos condenados a permanecer nele que o próprio rei não desce? Por que manda especialistas, para sempre. por que não se ocupa ele mesmo? Dario E. Bialer é rabino e serve na ARI – Associação Religiosa IsE talvez essa seja outra das grandes lições dessa história. raelita do Rio de Janeiro. O fato de não ser o rei quem ajuda e sim outro homem

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O Que é Deus? Minha posição Rabino Rifat Sonsino 1. A palavra “Deus”

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palavra “Deus” é carregada de emoções e evoca várias respostas, algumas positivas, outras negativas. A razão para tal é simples, pois “Deus” significa aquilo que é o mais significativo na vida, a realidade máxima. A partir de como a pessoa entende o que é “Deus” ela desenvolve sua filosofia de vida e também um estilo de vida coerente com esse entendimento.

Deus simplesmente é a energia que anima o universo. É nosso dever entender como esse mundo opera para dar sentido à nossa existência.

2. Mais de uma resposta Ao longo dos anos, a necessidade de explicar os mistérios da vida levou muitos pensadores a desenvolver diferentes visões do divino. Por exemplo, para muitos, hoje Deus é um Deus pessoal, que criou o universo, mas também alguém que te conhece e responde aos teus pedidos, positiva ou negativamente, além de ser aquele que governa o universo através da justiça divina. Isso é chamado de “teísmo”. Para outros, os místicos, Deus é o Mestre Infinito e Incognoscível do Universo, que pode ser alcançado através da meditação, oração, contemplação ou jejum. Já para os naturalistas religiosos, Deus é a energia do universo. E, ainda, para muitos humanistas, Deus é um símbolo do poder dos seres humanos.

3. Deus no Judaísmo Ao longo da história, os judeus desenvolveram vários conceitos de Deus. Fontes clássicas judaicas retratam posições desde o politeísmo (a saber, a cren-

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ça na existência de muitos deuses) até a monolatria (ou seja, a crença de que, embora existam muitos seres divinos, nosso Deus tem um relacionamento especial conosco) e, finalmente, monoteísmo (a crença de que não há outros deuses, mas apenas uma divindade universal para todos). Além disso, mantendo um forte ponto de vista monoteísta, os filósofos judeus, desde os tempos antigos até o período moderno, conceberam Deus de várias maneiras, refletindo muitas vezes o pensamento de seus próprios tempos. Assim, por exemplo, Maimônides (século XII ec) era um humanista aristotélico, Luria (século XVI ec) era um místico e Fromm (século XX ec) um humanista.

4. A minha posição Eu cresci como judeu ortodoxo na Turquia, mas em 1966 me tornei um Rabino Reformista nos EUA. Teologicamente falando, me considero hoje um naturalista religioso e fui influenciado por rabinos como Roland B. Gittelsohn e Mordecai M. Kaplan. A seguir um resumo da minha posição em relação a Deus. O que é Deus? Para mim, Deus representa a energia do universo. Baseado em minhas observações da nature-

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za, com seu processo contínuo de mudança, crescimento e decadência de quase tudo, eu assumo que existe um poder que mantém o universo seguindo seu curso. É a essa energia interna que eu dou o nome de Deus. Nosso mundo não foi criado da maneira em que a Bíblia o descreve, a partir do nada. A resposta para esse quebra-cabeça deve vir do mundo da ciência moderna (talvez da teoria do Big Bang). Qual é o meu relacionamento com Deus? Deus não é uma pessoa. Deus não me conhece, cuida de mim ou responde às minhas orações. Deus também está além do gênero, não é nem masculino nem feminino. Deus simplesmente é a energia que anima o universo. É nosso dever entender como esse mundo opera para dar sentido à nossa existência. Tudo o que quero receber são as ferramentas para a sustentação de uma vida significativa, a sabedoria para aceitar minhas limitações e as habilidades para superá-las dentro das possibilidades da natureza. Anseio por integridade e satisfação. Eu acredito em milagres? O universo é um lugar maravilhoso. Cada momento é incrível e digno de nota. Eu não acredito em milagres definidos como uma intervenção de Deus no funcionamento normal da natureza. Quando algo incrível ocorre é porque ainda não apren-


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demos como o mundo realmente funciopadrões estabelecidos. Nem sempre sabeO propósito da oração é na ou como as leis da natureza tornaram mos por que o universo está funcionanexpressar gratidão pela essa mudança possível. do dessa maneira e precisamos estudar a nossa existência e formular Eu “acredito” em Deus? A fé é frenatureza com mais acuidade para enconquentemente entendida como uma cren- louvores pela magnificência trar as razões do que vemos como injustiça firme em algo para o qual não há prode estar vivo. Não espero ça. Ao longo dos anos, fizemos um granva. Para mim, no entanto, “acreditar” em nenhuma resposta divina de progresso em nossa tentativa de entenDeus significa afirmar convincentemenàs minhas orações, mas der Deus, mas ainda temos um longo cate a existência de Deus após um exame minho a percorrer. sinto a necessidade de cuidadoso de todos os dados disponíveis. Quão livres nós somos? Pensadores do formular orações de Qual é o propósito da oração? Exispassado debateram a questão do determitem três tipos de oração: a de petição, a de nismo versus livre arbítrio por um longo louvor e gratidão. Elas louvor e a de agradecimento. Para mim, o me fazem sentir melhor. tempo. Eu mantenho que estamos limitapropósito da oração é expressar gratidão dos por nossas limitações de tempo e lupela nossa existência e formular louvores gar, assim como nossos corpos. Nós, no pela magnificência de estar vivo. As orações peticionárias entanto, temos algum livre arbítrio dentro de nossos limipodem, na melhor das hipóteses, ser expressões de nossos tes, e devemos valorizar essa liberdade. desejos. Não espero nenhuma resposta divina às minhas Como eu leio a Torá? De acordo com a tradição, as orações, mas sinto a necessidade de formular orações de três partes do Tanach (Torá, Profetas e Escritos) são sagralouvor e gratidão. Elas fazem eu me sentir melhor. das. De fato, nos é dito que na Bíblia Hebraica os primeiComo eu explico o mal? Acredito que exista tal coisa ros Cinco Livros “de” Moisés foram ditados a Moisés por como o mal causado pelos seres humanos ou pela natureDeus durante a revelação no Monte Sinai (ou, Horeb). Eu za: às vezes, pessoas santas sofrem enquanto que ímpios vejo a Bíblia como um grande compêndio de ensinamenprosperam (por exemplo, o Holocausto nazista) e vulcões tos e lendas judaicas que refletem o tempo de sua composemeiam destruição. No entanto, isso não acontece porsição. Algumas partes estão obsoletas hoje (como as seções que Deus não está disposto a responder aos nossos pedique lidam com sacrifícios), mas outras ainda me motivam dos, mas sim porque Deus é neutro e opera de acordo com para a ação moral. Como os primeiros rabinos fizeram em

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seu tempo, nós também precisamos rein- Como os primeiros rabinos tuo, permitindo o livre debate de todas terpretar a mensagem da Torá para tornáas questões existenciais do nosso tempo. fizeram em seu tempo, -la relevante para nossos tempos, porque a O naturalismo religioso, que é a minós também precisamos Bíblia e a literatura rabínica representam nha posição, não é para todos. Algumas nossa herança fundacional. É o que nos reinterpretar a mensagem pessoas anseiam por uma estreita ligação fez ser quem somos hoje. com um Deus que se preocupa com elas e da Torá para torná-la Eu acredito em vida após a morte? que cuida delas em tempos de necessidarelevante para nossos A ideia da ressurreição do corpo surgiu de. Para mim, no entanto, não há provas tempos, porque a Bíblia nas últimas partes da Bíblia hebraica (por convincentes da existência de tal divindae a literatura rabínica exemplo, Ezequiel e Daniel) e foi fortede. Estou confortável com minha abordamente endossada pelos rabinos. A Torá representam nossa herança gem racional que leva a vida como ela é, também se refere a um lugar idílico chafundacional. É o que nos considerando o universo um lugar fascimado Gan Eden (paraíso) que existia no fez ser quem somos hoje. nante, ainda que misterioso, cujos segreinício dos tempos e que também ressurdos descobrimos todos os dias. Para mim, girá no futuro. Pessoalmente, não acrediessa é a essência de ser religioso. to no paraíso ou no inferno. Nem acredito na dicotomia O rabino Rifat Sonsino é Rabbi Emeritus do Temple Beth Shalom, entre alma e matéria. Eu mantenho que somos um todo Needham, MA, EUA, e professor doutor no departamento de Psicounificado. Depois que eu morrer, serei enterrado na terlogia e Filosofia na Framingham State University. Além disso, manra ou cremado, e meus ossos eventualmente se desintegratém um blog chamado “Sonsino’s Blog”, que tem mais de 400 mil rão. Espero que meu nome, minha reputação e meus esvisitantes em todo o mundo e é um autor prolífico tendo publicacritos sobrevivam por um tempo, e continuarei a viver do os seguintes livros: And God Spoke: Ten Commandments and através das memórias de meus filhos, netos, amigos, estuContemporary Ethics (2013); Modern Judaism (2013); Vivir Como dantes e leitores. Eu não espero nada além disso. Todos os Judio (2012); Did Moses Really Have Horns? And Other Myths dias, sou grato por estar vivo e sem dor no momento, mas about Jews and Judaism (2009); The Many Faces of God: A Reaaceito o que vier no meu caminho. Espero que seja signider of Modern Theologies (2004, como editor); Finding God: Seficativo e tolerável. lected Responses (2002); Six Jewish Spiritual Paths: A Rationalist A religião ainda importa? Sim, ela importa, pois nos Looks at Spirituality (2000); What Happens After I Die? Jewish Vieabre a perspectiva sobre o que é uma vida significativa. No ws of Life After Death (1994); Finding God: Ten Jewish Responses entanto, ela precisa se basear na racionalidade e no pensa(1993) e Motive Clauses in Hebrew Law (1980). mento moderno. Não deve promover o fundamentalismo Traduzido do inglês por Raul Cesar Gottlieb. e o obscurantismo, mas encorajar a paz e o respeito mú-

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Yehuda Amichai Moacir Amâncio

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melhor definição – talvez – para a poesia do mais conhecido poeta israelense, Yehuda Amichai, não é da sua lavra e sim de outro grande poeta, o italiano Giuseppe Ungaretti, que intitulou sua obra completa como “A Vida de Um Homem”. Ler a poesia de Amichai é justamente isso, acompanhar suas emoções, seus pensamentos, suas relações diversas, família, memória, dúvidas, desesperos, entusiasmos e a perplexidade que acompanha sua trajetória de judeu nascido na Alemanha em 1924, de onde a família conseguiu sair 11 anos depois, rumo a Israel, onde ele viveu até 2000, naquela casa de pedra de Yemin Moshê, bairro voltado para as muralhas da Cidade Velha. Filho de um pequeno comerciante, família ortodoxa, Ludwig Pfeuffer, nome civil, colocaria a religião de lado, tornando-se um homem laico, mas não baniu a religião de si mesmo. Lutou as guerras de Israel, as suas próprias guerras, como diz num dos poemas, publicou a obra literária toda em hebraico, aliás, no melhor modelo sionista daqueles anos. Mas, como filho da diáspora, não esqueceu o idioma da infância, o alemão, que o acompanhou até mesmo na redação de versões iniciais de poemas, segundo constatações da pesquisadora Nilli Sharf Gold, que esmiúça o assunto em seu livro Yehuda Amichai – The Making of Israel’s National Poet. Embora ele tenha ido para a Terra Santa ainda criança e com todo o foco na experiência judaica em Israel, diversos outros lugares estão presentes em sua obra. Inclusive a cicatriz nunca apagada, herança da Alemanha natal, na poesia e na prosa. O romance Não Deste Tempo, Não Deste Lugar, por exemplo, fala de uma viagem à crucial Alemanha. Cenas estrangeiras, da Europa a Nova York e Buenos Aires aparecem com certa frequência nos poemas, mas isso não signifi-

Israel, o seu presente vivo, é temática recorrente no dia a dia mais banal – e Amichai é um grande mestre das banalidades, como o foram Bandeira e Drummond, com os quais ele compartilha a mestria modernista – e nas visões extraordinárias daquelas paisagens tão bíblicas quanto contemporâneas. Tanto líricas como épicas.

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ca que ele não estivesse em Israel e envolvido pela língua hebraica o tempo todo. O que por certo impressiona quem toma contato com a sua literatura é o fato de ela ser ao mesmo tempo tão judaica e tão universal. Tão imbuída de religiosidade e tão laica. Isso não quer dizer que o leitor encontrará uma biografia factual nos poemas de Amichai. Encontrará, sim, a gama de sentimentos e ideias que o autor experimenta ao longo de sua vida e, transformados em metáforas, permitem aos leitores vivenciarem essa expressão que também lhes diz respeito, também é parte deles, mesmo que jamais tenham passado pelas situações vividas pelo autor. Esta é a ação do poeta: fazer com que os leitores se encontrem nas pequenas máquinas verbais produzidas pelo engenho sutil da alquimia literária. E, nessa operação socializadora, ele nos permite compartilhar poeticamente a sua trajetória. Nem todos trocamos de nome e sobrenome, como ele fez, quando Israel se encontrava no momento da definição como país, pouco depois da Shoá, com o propósito nazista de eliminar os judeus do mapa. Um país que surgia na terra de origem do judaísmo, como um marco de redenção. Diante disso, como não sentir e avaliar o impacto de coisas que passariam batido em outra situação. Amichai significa “meu povo vive”, não é preciso dizer mais nada. O importante é sentir

No Dia do Perdão No Dia do Perdão de 1967 eu vesti minhas escuras roupas de festa e fui à Cidade Velha de Jerusalém. Parei um bom tempo diante do nicho da loja de um árabe, não longe do Portão de Siquém, loja de botões, zíperes e carretéis de todas as cores, botões de pressão e fivelas. Luz preciosa e muitas cores, como na Arca Sagrada aberta. Eu lhe disse em meu coração que meu pai também tinha uma loja como essa de linhas e botões. Expliquei tudo a ele em meu coração sobre as dezenas de anos causas e acontecimentos pelos quais estou aqui agora a loja do meu pai foi queimada lá e ele está enterrado aqui. Quando terminei já era a hora do fechamento dos portões. Ele também baixou a porta de correr, fechou o portão e eu voltei para casa com todos os fiéis. Nota: Fechamento: Neilá, que também é o nome da seção das orações de encerramento do Dia do Perdão, na sinagoga.

T radutor e poeta   Ricardo Gorodovits

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o contrário de um ghost writer, que entrega ao outro as palavras que este precisa mas que não sabe criar, o tradutor precisa executar com precisão e cuidado o gesto contrário, abstrair suas próprias palavras para dar ao outro um espaço exclusivo para expor sua criação. Sem intervir na obra, entretanto, o tradutor está presente: na escolha em que privilegia a rima ou a métrica, a sonoridade ou o significado, o ritmo, a tônica, a sutil ironia de um jogo de palavras ou a lembrança de um outro texto, de um outro contexto, de uma textura. O tradutor de poesia deve ser também poeta, seja de ofício ou de sensibilidade, deve se

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deitar entre as duas cobertas das línguas que aproxima, e gerar uma poesia filha, em que a mãe se reconheça. Por tudo isso, reconhecemos o enorme desafio enfrentado pelo professor, escritor e poeta Moacir Amâncio quando se debruça sobre a obra de Yehuda Amichai, e, em tradução primorosa, traz para o português seus poemas no livro Yehuda Amichai, Terra e Paz, Antologia Poética, lançado pela editora Bazar do Tempo. A escolha dos poemas se dá mais por afinidade do tradutor do que por critérios de cronologia ou para cobrir períodos específicos da criação do poeta. Como


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afirma Amâncio em sua apresentação ao livro, “Amichai pode ser lido a partir de qualquer um de seus textos, pois ali o leitor certamente encontrará todo o poeta possível”. Convivendo com o universo judaico desde seus escritos fundamentais e sua liturgia, Amichai preserva na sua obra uma visão que consegue fazer conviver a vida laica da Israel moderna ao sentimento religioso profundo que permeia sua educação e uma parcela significativa do mundo à sua volta. É dessa convergência que resultam pequenas obras-primas, como o trecho de “fonte de sufleh nas montanhas da judeia” (página 45), uma fonte em uma antiga e já inexistente aldeia árabe nas cercanias de Jerusalém: “Cuidado, área de saudades! É tão fácil ser louco se tiras

de quem lembra a sua memória, de quem olha a paisagem, a paisagem que ele olha, de quem conversa, aquele com quem conversa e de quem reza, o seu Deus.” Ou o quase hai-kai “Uma vez eu disse” (página 127) “Uma vez eu disse com precipitação: a morte é Deus, a mudança é o seu profeta. Agora eu já estou calmo, e digo a mudança é Deus, a morte seu profeta.” É impossível não se apaixonar e se emocionar lendo Amichai e só podemos agradecer a Moacir Amâncio por fazê-lo mais próximo dos leitores da língua portuguesa.

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Jerusalém

Pena. Éramos uma boa invenção

Num telhado da Cidade Velha, a roupa no varal ilumina-se à última luz do dia: lençol branco de uma inimiga, a toalha de um inimigo para enxugar o suor do seu rosto.

Eles amputaram as tuas coxas dos meus quadris. Para mim eles são sempre médicos. Todos. Eles nos separaram, um do outro. Para mim eles são engenheiros. Pena. Éramos uma boa invenção de amar: um avião feito de homem e mulher, asas e tudo: nós nos elevamos um pouco do chão, voamos um pouco.

No céu da Cidade Velha há uma pipa. No fim da linha – um menino, que eu não vejo por causa da muralha. Nós hasteamos muitas bandeiras, Eles hastearam muitas bandeiras. Para pensarmos que eles são felizes. Para pensarem que nós somos felizes.

a força e a riqueza da frase que em hebraico ocupa uma só palavra, contendo a história toda. Claro, cada experiência é intransferível, o que não significa, repito, que não possa ser compartilhada. Por exemplo, nem todos tiveram uma amiga de infância chamada Ruth, Ruthinha, a Pequena Ruth, que certo dia, após certa desavença entre eles, sofreu um acidente de trânsito que levaria à amputação de uma de suas pernas. A mesma Ruthinha, cuja família não teve a sorte de conseguir deixar a Alemanha rumo à Terra de Israel e por isso foram todos assassinados num campo nazista. Ela se tornaria um marco na memória e na inspiração de Amichai. É fácil ver no remorso infundado, mas nem por isso menos intenso ou injustificável, a fantasia de um caso de amor cortado na raiz. Se quisermos, encontraremos pistas para isso nos seus poemas. Além de um poema com o nome da menina no diminutivo, há também um texto intitulado “Pena. Éramos Uma Boa Invenção”, sobre o homem e a mulher que formam um avião capaz de voar um pouco, tendo o voo interceptado pelos “engenheiros” ao separarem os dois corpos com a frieza de hábito. Tudo muito belo e trágico, verossímil, tudo isso, mas o poeta fez questão de desmentir ou desiludir as pessoas em busca do improvável conforto de uma paixão frustrada que as aproximasse do poeta e

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sua vivência, supondo um happy end antecipado, porém mesmo assim a trazer algum conforto. Com ironia atroz ele disse que a Ruthinha era sua Anne Frank particular. A perturbação provocadora acompanha cada releitura e cada lembrança desses poemas e, também, a temática do amor, constante na obra de Amichai. Mesmo poemas longos, desses que ocupam um livro inteiro, como Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, podem ser lidos e relidos de maneira descontínua e aleatória, pois, como se sabe, o poema longo é formado por muitos poemas curtos que formam unidades mínimas de um todo maior. De modo inverso, também será possível ler poemas curtos, de um mesmo autor, na sequência que bem entendermos – ao final teremos a imagem do poeta – isto é, a chamada “mensagem” – em muitas facetas, ângulos, claros, escuros, vermelho, negro, azul etc. Não pode ser diferente com Amichai. Israel, o seu presente vivo, é temática recorrente no dia a dia mais banal – e Amichai é um grande mestre das banalidades, como o foram Bandeira e Drummond, com os quais ele compartilha a mestria modernista – e nas visões extraordinárias daquelas paisagens tão bíblicas quanto contemporâneas. Tanto líricas como épicas. Ver o filho partindo para o serviço militar tem conotações únicas em Israel. A cena de um dos poemas do livro nos coloca entre o passado e a angústia em relação ao futuro, com a profissão quase dogmática do otimismo. Um otimismo retorcido sob o aspecto trágico daquele poema no qual são descritos um “inimigo” e uma “inimiga” com suas roupas lavadas e suas bandeiras


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tentando criar um clima de festa diante dos inimigos, cada um com o seu símbolo precário e seus trapos. A dualidade conflituosa torna-se uma unidade trágica. Amichai não fala de mera ficção, mas de uma situação real e sempre de-

sestabilizadora, tirando qualquer um da zona de conforto. O estilo, como se percebe à primeira leitura de qualquer um dos seus textos, é simples, direto e ao mesmo tempo muito sutil. O poeta nos revela a riqueza de significa-

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O moinho de Yemin Moshê Esse moinho nunca moeu farinha. Ele moeu o ar sagrado e os pássaros da saudade de Bialik, ele moeu palavras e o tempo picado, ele moeu a chuva e até morteiros, mas ele nunca moeu farinha. Agora ele nos descobriu e mói nossa vida dia a dia, para fazer de nós a farinha da paz e fazer de nós o pão da paz para as futuras gerações. Nota: No bairro onde o poeta viveu, chamado Yemin Moshê, em Jerusalém, existe um moinho simbólico doado, como símbolo de um sonho para o futuro país de Israel na Palestina, pelo benfeitor Moisés Montefiore (1784-1885), judeu italiano nascido em Livorno e naturalizado britânico. Hayim Nachman Bialik (Rússia 1873–Aústria 1934). Autor que deu início à modernização da poesia hebraica, é considerado o poeta nacional de Israel.

dos ocultos em palavras “pobres” descobertas em sua riqueza. Essa é a grande tarefa dos poetas: retirar as palavras do limbo aonde são jogadas pelo desgaste do dia a dia e pelo mau uso que fazemos delas, esvaziando-as de conteúdo. De modo inconsciente, a grande maioria de nós. De modo consciente, há exemplos famosos, como o dos nazistas, que moviam campanhas contra a inteligência, a filosofia, a arte, ridicularizando-as, vulgarizando suas expressões até borrar o que elas têm de belo e profundo. As ditaduras comunistas não faziam outra coisa ao atacar a chamada “arte burguesa”, “filosofia burguesa” etc. Nos anos 50, a lição modernista ainda estava em voga e Amichai, assim como seus companheiros de geração, destacando-se outro grande poeta, Natan Zach, líder intelectual do grupo, empenharam-se em renovar a dicção poética do hebraico. Natan Alterman, herói poético de Israel, configurava-se como o alvo na guerra de gerações. Os novos criticavam o estilo verborrágico e, habilidoso ao excesso, versátil, brilhante, diziam, ele pecava exatamente por causa de suas qualidades levadas ao exagero que sufoca autor e intenção. Na história da literatura hebraica, o ano de 1958 permanece um marco indicador de outra etapa, enquanto os

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Poema infinito Dentro do museu novo em folha uma sinagoga antiga. Dentro da sinagoga eu. Dentro de mim meu coração um museu. Dentro do museu uma sinagoga, dentro dela eu, dentro de mim.

israelenses e judeus dos demais países festejavam com forte barulho os primeiros dez anos do Estado. Alterman trazia o clangor das fanfarras passadistas, Amichai estava entre os que punham fé no futuro, na força das palavras antes de serem pronunciadas, naquele espaço inatingível em sua fugacidade entre o ruído e o silêncio. Como disse o poeta brasileiro José Paulo Paes, para “bom entendedor meia palavra bas”. O trompete em surdina está longe de negar a música, ao contrário, revela essa música inesperada que se encontra oculta nas coisas e em nós mesmos. Basta ler, reler ou lembrar o “Poema infinito”, aqui publicado. É sobre o ser Yehuda Amichai. Até hoje – há anos isso me ocorre – não sei exatamente se o poema foi explicado por uma peça do Museu de Israel, ou a tal peça do museu refletia o poema, esclarecendo-me a respeito de ambos e muito mais. Trata-se da sinagoga italiana de Vittorio Veneto, pequena e linda em seus requintes, conservada lá dentro, entre paredes. Conservada com seu poder evocativo, relíquia que se interioriza e situa no mundo, ou melhor, no universo, ou melhor... Moacir Amâncio, poeta e tradutor, é professor de literatura hebraica na Universidade de São Paulo. Autor de Dois Palhaços e Uma Alcachofra, estudo sobre o romance Adam Filho de Cão, de Yoram Kaniuk; Yona e o Andrógino, estudo e tradução de poemas da israelense Yona Wollach; Ata, reunião de livros de poemas publicados e inéditos; Terra e Paz: antologia poética, reunião de traduções de poemas de Yehuda Amichai; Matula, poemas etc.


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A mágica de Oz – O Pensamento de amos Oz Neste número: Judaísmo

Trechos selecionados e editados por Paulo Geiger

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m homenagem ao legado do escritor israelense Amos Oz publicamos no número anterior de Devarim a primeira de três coletâneas de excertos de trechos de livros dele. Aquela primeira coletânea focou no conflito Israel/ palestinos e no fanatismo. Esta foca na visão de Oz sobre o judaísmo, e a do próximo número em seu estilo literário e sua visão a respeito da literatura. Passado pouco mais de meio ano do falecimento, o vazio provocado pela ausência de sua voz é muito significativo. Nas eleições do último mês de abril, Israel manteve a tendência de votar maciçamente em partidos próximos ao centro (em ambos os lados do espectro político), mas ao mesmo tempo os eleitos se mostraram incompetentes em montar um governo centrista, trazendo para a coalizão os elementos mais extremos do cenário. Um extremismo que se manifesta num chauvinismo que não se coaduna com a visão sionista original, a de inserção da nação judaica num mundo de tolerâncias recíprocas, e também num fundamentalismo religioso muito afastado das raízes humanistas da nossa cultura. Amos Oz era a mais brilhante voz na denúncia desta movimentação política. Sem ele a preocupação com a formação de sucessivos governos focados apenas no poder perde a força e a clareza. Renovamos nossos agradecimentos à Companhia das Letras por ter generosamente permitido a publicação destes excertos.

Às vezes estou disposto a resumir o humanismo e o pluralismo em uma fórmula simples: o reconhecimento do direito igual de todos os seres humanos de serem diferentes uns dos outros.

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Trechos do livro “Mais de uma luz” (Companhia das Letras – 2017) O que se inclui na cultura de Israel? Tudo o que se acumulou entre nós no decorrer de gerações. O que se criou dentro e o que se acolheu de fora e se tornou membro da casa. O que hoje é costume, o que já foi costume, o que é aceito por todos, o que é aceito somente por alguns. O que hoje se aceita e o que se aceitava em gerações passadas. Aquilo que eu aceito e aquilo que me irrita e que eu rejeito, tudo isso se inclui na cultura de Israel. O que foi escrito em hebraico e o que foi criado em outras línguas. O que está escrito e o que se depreende fora da escrita. Também algumas linhas de conduta, também formas de reação ligadas à nossa memória coletiva. Talvez até um típico tom de humor e de pilhéria que não sou capaz de definir, mas que identifico facilmente sempre que deparo com ele. Talvez uma tendência marcante para a crítica, a dúvida, a autoironia, a autocomiseração, a autocomplacência. Uma espécie de pragmatismo envolto em fantasias. Êxtase misturado a ceticismo. Euforia misturada a visões sombrias. Uma alegria melancólica. E, ainda, uma desconfiança profunda, profunda e salutar, de toda autoridade. E certa medida de obstinada oposição ao mal. [página 85] *** Há uma história muito antiga que o querido professor Mordechai Michaeli, de abençoada memória, nos contava, quando eu estudava na escola religiosa para meninos Tachkemoni, em Jerusalém. Era sobre um velho pai que instrui seu filho. Se você está querendo se proteger da chuva e do vento, arme uma barraca ou construa uma cabana. Se quiser um lugar para morar durante toda a sua vida, construa uma casa de pedra. Se estiver pensando em seus filhos e em seus netos, construa uma cidade cercada por uma muralha. Mas, se quiser construir para as próximas gerações, escreva um livro. Essa história talvez seja nossa carteira de identidade. [páginas 53-54]

*** Qual é então o cerne mais íntimo do judaísmo? Qual é a partícula mais profunda e mais significante do legado de Israel? Talvez essa partícula tenha sido encontrada quando se descobriu um pequeno fragmento de cerâmica no sítio arqueológico de Chirbat Kiafa, perto de Beit Shemesh. Segundo o professor Gershon Galil, da Universidade de Haifa, que decifrou a inscrição1, nela está escrito: “... cultuem o Senhor. Sejam justos com o escravo e a viúva, o órfão e o estrangeiro. Incluam o bebê, incluam o pobre e a viúva. Vinguem o rei pobre e o escravo [da cidade] de Sucho. Apoiem o estrangeiro”. Quem quer que na infância tenha estudado a Bíblia hebraica, com amor, e não como lavagem cerebral, fica muito emocionado ao ler essa inscrição, que antecede em muitos séculos as palavras de admoestação dos profetas de Israel. A ideia que nela se apresenta aparece repetidas vezes na Torá [o Pentateuco], nas palavras dos profetas, no legado de Israel em todas as gerações. Mas essa inscrição em hebraico é a mais antiga de todas. Mais antiga que a sabedoria grega antiga. Mais antiga que Roma em todo o seu esplendor. Minha filha, Fania Oz-Salzberger, vê nesse pedaço de cerâmica uma mensagem, um sms que foi enviado do século x aec para nós, que vivemos no século xxi. Essa mensagem, escrita em puro hebraico de 3 mil anos atrás, contém um mandamento moral e legal nascido numa cultura que exige justiça para os fracos e os destituídos. [páginas 54-55] *** A cultura de Israel santifica a discórdia relacionada com as questões do céu. Incentiva ifcha mistabera, a oposição, afirmação de que o inverso do afirmado é que é o certo. Contudo, não se pode negar, às vezes é também uma cultura de fortes impulsos que se disfarçam como discórdia, impulsos em busca de força, de autoridade, de honra. E, assim, esse legado, para mim, é um legado que se coaduna admi1

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Há quem discorde dessa interpretação.


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ravelmente com as ideias da democracia pluralista. Se for permitido tomar aqui emprestada a terminologia musical, poder-se-ia dizer que a tradição do debate e da controvérsia na cultura de Israel se encaixa muito bem com a noção do contraponto e também com a de polifonia humana, na qual a comunidade é um coro de muitas e diferentes vozes, uma orquestra com instrumentos variados, todos orquestrados num sistema de regras consensual. [páginas 68-69] *** Nos bons tempos, a civilização do povo de Israel era uma civilização de dúvidas e de opiniões diferentes. Durante milhares de anos, os judeus acumularam camadas sobre camadas de textos relacionados a textos que os antecediam, estes também relacionados com textos anteriores. “Relacionar-se” nem sempre significou apenas acrescentar mais uma camada de interpretações, ou erigir mais um andar naquele verdadeiro edifício; repetidamente o novo texto fazia objeção ao anterior, lançava sobre ele uma luz nova, ou sugeria uma mudança, uma melhora e até sua substituição. A história da cultura de Israel é uma espécie de um jogo antigo de interpretação, reinterpretação, contrainterpretação. Bem, nem sempre. Não nas épocas de cultos santificados, de obediência cega e de repetição mecânica, e sim em tempos de criação, nos quais os judeus não paravam de discordar uns dos outros. Em tempos assim, destaca-se na

cultura de Israel uma espécie de gene anarquista vivo e fervilhante de discussão permanente e tempestuosa. Como se decide um debate? Dizem as escrituras: Acharei rabim lehatot, “seguindo a maioria”. Essas três palavras, com o acréscimo de mais algumas – Chaviv adam shenivra betselem, “Feliz é o homem, que foi criado à imagem [de Deus]” –, constituem uma ponte de ferro entre o judaísmo e a democracia. “Seguir a maioria” não porque a justiça esteja sempre com a maioria – muitas vezes a maioria erra, ou peca –, mas porque não há alternativa para uma decisão da maioria, contanto que essa decisão não implique opressão ou silenciamento da minoria2. [páginas 51-52] *** No início da década de 1950, em Maale Akrabim, no deserto do Neguev, foram assassinados os passageiros de um ônibus israelense. O ministro da Defesa declarou no Parlamento: “O derramamento de sangue judeu não ficará impune!”. É aqui que devemos nos deter por um momento e ressaltar com veemência que essa expressão horrível, “sangue judeu”, não aparece em lugar algum de nossas Es2 Ou seja, o mandamento original de “seguir a maioria” tem uma in-

terpretação restrita, mas, como é comum na cultura de Israel, pode-se e deve-se extrair da interpretação restrita a inspiração para uma interpretação mais ampla.

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crituras. Nem uma só vez. Entre nós não existe “sangue judeu”. No Tanach, a Bíblia hebraica, cita-se “sangue limpo”. Há “O sangue de seu irmão clama a mim da terra”. Há “Quem derramar o sangue de alguém por alguém terá seu sangue derramado”. E há “Meu sangue está limpo”. Depois do período bíblico, aparece entre nós, por exemplo, a expressão “Seu sangue não é mais vermelho” (ou seja, não é mais vermelho do que o sangue de seu próximo, pois todos fomos criados à imagem de Deus). Por outro lado, “sangue judeu” é um conceito central nas Leis de Nuremberg, formuladas por Hitler. Recentemente, esse conceito monstruoso popularizou-se também entre muitos dos judeus mais extremistas de Israel. [páginas 79-80] *** A democracia moderna deriva do humanismo. Não há contradição entre judaísmo e humanismo. Em Avot d’rabi Nathan, suplemento à Ética dos Pais, capítulo 31, o rabi Nehemia formula em sete maravilhosas palavras em hebraico o cerne do conceito de humanismo: Adam echad shakul kenegued kol maassei Bereshit: “Um único homem vale todos os atos da Criação”. (Note bem: “Um único homem”, diz o rabi Nehemia; ele não diz “Um único homem de Israel”. Mas houve e ainda há no judaísmo vozes que afirmam algo completamente diferente, entre elas vozes dominadas pela arrogância e o ódio a estranhos.) O humanismo também está ligado ao pluralismo, isto é, ao reconhecimento de um direito igual para todos os seres humanos de serem diferentes uns dos outros e de cada indivíduo isolado se equiparar a um mundo inteiro, cuja existência merece respeito. Assim como eu, em meu íntimo, resumo todos os mandamentos em um só – “Não causarás dor” –, da mesma forma às vezes estou disposto a resumir o humanismo e o pluralismo em uma fórmula única e simples: o reconhecimento do direito igual de todos os seres humanos de serem diferentes uns dos outros. [páginas 58-59]

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Trechos do livro “Do que é feita a maçã” (Companhia das Letras – 2019) Eu nunca ouvi na Knesset, no Parlamento, mesmo quando ainda havia na Knesset grandes oradores, não ouvi que se tivesse levantado um parlamentar da facção contrária à do orador e dissesse: “Ouvi seu discurso e ele me abriu os olhos, e percebi que você tem razão”. Isso não aconteceu. Há centenas de volumes do Diário do Parlamento, mas esta frase você não vai encontrar lá. Nem nos tribunais. Em todos os anais de tribunais no mundo inteiro não aconteceu uma única vez que um advogado de defesa ou um promotor se levante ao fim do discurso do outro causídico e diga: “Ouvi as palavras de meu ilustre colega e convenci-me de que ele tem razão e eu simplesmente estava totalmente enganado”. [página 150] *** Nem preciso lhe dizer que sentimento de culpa é uma invenção judaica. Nossos ancestrais o inventaram aqui no país. Depois vieram os cristãos e fizeram o marketing com um sucesso colossal por todo o mundo. Mas a patente é nossa. Eu, como judeu, tenho sentimentos de culpa terríveis por termos inventado o sentimento de culpa. Ao mesmo tempo, se eu passar um dia inteiro sem sentimentos de culpa, na noite terei sentimento de culpa por não ter tido sentimentos de culpa o dia inteiro. Somos diferentes dos cristãos, que também têm uma abundância de sentimentos de culpa, por sermos nós, judeus, aparentemente os campeões mundiais de ter sentimentos de culpa sem termos usufruído antes dos prazeres do pecado. Sei que esta linha deveria ter sido escrita por Woody Allen, mas por acaso ela ocorreu exatamente a mim. Às vezes a culpa pode ser um grande motor e motivador. Quem tem sentimentos de culpa é um sofredor, mas quem não tem sentimentos de culpa é um monstro. [páginas 102-103] Paulo Geiger é editor, membro do conselho editorial de Devarim e tradutor das obras de Amos Oz.


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Desmistificando o “Terrorista Pobre”

Claude Berrebi e Owen Engel Os jihadistas que cometeram o massacre de Páscoa no Sri Lanka eram membros da elite educada de seu país, um contexto mais próximo da norma do que da exceção. Este texto, ricamente documentado, retrata a mística da relação entre terror e desespero.

Esse texto foi publicado originalmente em inglês pela revista Tablet (tabletmag.org) de 30 de abril de 2019. Foi traduzido por Devarim e está sendo publicado sob a gentil permissão da Tablet.

O

s atentados no domingo de Páscoa, visando os fiéis cristãos no Sri Lanka, foi um dos ataques terroristas mais mortíferos da história moderna. O massacre, no qual cerca de 250 pessoas foram mortas, foi planejado e coordenado com sofisticação e foi rapidamente atribuído ao Estado Islâmico, um grupo que, qualquer que seja o papel que tenha desempenhado, é conhecido por possuir o conhecimento técnico e rede operacional necessários para realizar este tipo de ataque. A maior surpresa para muitos foi a origem dos nove terroristas islâmicos, incluindo uma mulher, que realizaram os atentados suicidas. Longe da imagem comum de terroristas embrutecidos, levados a cometer atos desesperados por conta do desespero que abate suas vidas, os terroristas do Sri Lanka eram membros da elite de seu país. “A maioria dos terroristas é bem educada [e] provém de famílias economicamente bem estabelecidas. Alguns deles estudaram no exterior”, disse o ministro adjunto de Defesa do Sri Lanka, Ruwan Wijewardene, em entrevista coletiva1. Um dos supostos agressores estudou Direito na Austrália, enquanto outros dois, irmãos, são filhos de um homem de negócios rico e bem estabelecido.

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Ao contrário dos mitos persistentes Pesquisadores demonstram mica do crime, apresentada pelo econoem torno do terrorismo, o pano de funmista ganhador do Prêmio Nobel, Gary há anos que a maior do dos atacantes do Sri Lanka está mais Becker7, e à teoria econômica tradicional parte dos atentados do suicídio, apresentada pelos economispróximo da norma do que da exceção. terroristas é cometido tas Daniel Hamermesh e Neal Soss8. Pesquisadores demonstram há anos que Aparentemente, parece fazer sentido a maior parte dos atentados terroristas por indivíduos que são, que os mesmos indicadores de uma proé cometido por indivíduos que são, em em média, mais ricos e pensão ao crime e ao suicídio, a saber, a média, mais ricos e mais instruídos do mais instruídos do que falta de recursos ou educação, também seque o nível mediano de suas respectivas o nível mediano de suas jam encontrados no tipo de pessoas prosociedades. Mas, a partir de 11 de setemrespectivas sociedades. pensas a realizar um ato terrorista, que é bro de 2001, quando 19 terroristas iscriminoso e muitas vezes suicida. Para os lâmicos radicais da Al Qaeda sequestrapolíticos, o agrupamento dessas três questões – pobreza, ram quatro aviões e atacaram os Estados Unidos, um faleducação precária e terrorismo – facilita a solução do proso consenso, ligando o terrorismo a pobreza, ignorância blema. Se você reduzir a pobreza ou promover a educação, e desesperança, começou a se formar entre políticos e eso terrorismo cairá. Mas a realidade não colabora com a pecialistas americanos. Em 2002, o presidente George W. conveniência política e a maioria dos pesquisadores e ecoBush declarou que os EUA “luta contra a pobreza por2 nomistas refuta a ideia de que o terrorismo depende da poque a esperança é a resposta ao terror” . Seu secretário de Estado, general Colin Powell, concordou: “O terrorisbreza e da ignorância. mo emerge de situações onde há pobreza, onde há ignoPara começar, vejamos a pesquisa feita sobre a relação rância.”3 As percepções do governo Bush sobre as raízes entre condições microeconômicas, ou condições econômido terror foram rapidamente ecoadas por outros políticos cas no nível individual, e terrorismo. Desde 2001, vários americanos e por líderes em todo o mundo4. estudos (de algumas das principais mentes econômicas do Quase duas décadas depois, os americanos ainda permundo, como o ex-presidente do Conselho de Assessores cebem o terrorismo como uma séria ameaça5, e os ataques Econômicos da Casa Branca de Obama, Alan Krueger) interroristas ocorrem quase diariamente: no Sri Lanka, no vestigaram a relação entre as condições econômicas indiviatual conflito israelo-palestino e em outras partes do sul duais e o terrorismo. Esses estudos coletaram dados sobre da Ásia e do chifre da África. Grandes operações terroristas as características dos principais grupos terroristas, como também foram realizadas por grupos jihadistas atuando no militantes do Hezbollah, terroristas muçulmanos que viOcidente, que atacaram França, Alemanha, Espanha, Esveram e operaram nos EUA entre 1993 e 2008, e os mártados Unidos, Reino Unido e Holanda, entre outros. Nos tires da Jihad Islâmica Palestina e da Autoridade Nacional anos entre 11 de setembro de 2001 e o ataque de abril no Palestina de 1987 a 2002. Sri Lanka, a maioria dos políticos moderou suas opiniões Nenhuma das análises estatísticas encontrou um víncusobre as raízes do terrorismo, mas ainda persiste a ideia de lo consistente entre o terrorismo e a pobreza no nível inque o fenômeno é baseado na pobreza e na ignorância. dividual. Na verdade, a conclusão foi exatamente oposta Há pouco mais de um mês, foi revelado um discurso – os principais estudos empíricos abrangentes9 geralmen6 te sugerem que os terroristas têm maior probabilidade de do líder do Partido Trabalhista Britânico, Jeremy Corbyn , em que ele expressa simpatia pelos homens-bomba do Havir de melhores condições financeiras, pertencer a um grumas. No clipe, ele sugeriu que os jovens da Palestina se volpo socioeconômico mais elevado ou simplesmente estar tam para o terror por causa de “desesperança” e de falta de acima da linha da pobreza. Conclusão definitiva: Os efeiopções. À primeira vista, parece lógico interligar terroristos econômicos no nível individual não têm impacto somo e dificuldades. Não seria mais provável que pobres e bre o terrorismo10. Muitos desses mesmos estudos também investigaram desesperados, ou seja, os que têm menos a perder, se envola relação entre educação e terrorismo. A visão convenciovam em atividades destrutivas? Essa linha de pensamento nal previa que os terroristas teriam níveis mais baixos de pode ser atribuída diretamente à tradicional teoria econô-

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educação ou seriam ignorantes e, portanto, teriam menos alternativas de emprego do que seus pares mais instruídos. Aqui, os pesquisadores11 novamente refutaram a conclusão convencional, descobrindo que, na média, o terrorista não apenas não é ignorante, mas, na verdade, tende a ter um nível de educação superior12 à média de suas respectivas regiões. Isto deveria ter afastado a ideia do terrorista pobre e arruinado levado a atos desesperados por seu desespero individual. Mas não foi o que aconteceu; ainda foram feitas considerações sobre o efeito das condições macroeconômicas no nível da sociedade. Talvez, ponderaram os pesquisadores, não foi a falta de educação ou a pobreza individual que motivou atos de terror, mas sim a maior pobreza na escala social que elevou os níveis de terrorismo. A pesquisa acadêmica inicial parecia apoiar a sabedoria convencional de que pobreza e terror estavam fundamentalmente ligados. Descobertas preliminares13 sobre recessões e expansões econômicas, de fato, concluíram que as contrações econômicas aumentam a probabilidade de ati-

vidades terroristas e que os locais de ataque são caracterizados pela baixa abertura econômica. Contudo, falhas graves nesses trabalhos foram logo expostas quando outros pesquisadores apontaram que esses estudos focavam nos locais que foram os alvos dos ataques e não nos lugares ou nações de origem dos perpetradores. Pesquisas mais recentes e refinadas, como o trabalho dos economistas Krueger e Laitin14, surgiram em resposta. Esses novos estudos sobre a relação macroeconômica-terrorista chegaram à conclusão oposta: o PIB per capita no país de origem do terrorista não parece afetar a frequência do terrorismo. De fato, os resultados dessas análises sugeriram que, quanto maior o PIB per capita da nação, maior sua propensão a produzir terroristas. Uma olhada na história parece apoiar esses achados. De acordo com várias medidas de bem-estar econômico, o início do ano 2000 mostrou a economia dos territórios palestinos15 em seu melhor estágio. Esse é o ano, no outono de 2000, após o fracasso da cúpula de Camp David, em que os palestinos iniciaram a campanha terrorista co-

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Flores colocadas em memória das vítimas do atentado terrorista no Teatro Bataclan em Paris, 2015.


nhecida hoje como a segunda intifada16. aqueles com níveis educacionais e finanPara os políticos, o O aumento maciço de ataques terroagrupamento de pobreza, ceiros mais elevados. ristas sangrentos, embora muitas vezes Enquanto a teoria da triagem de Bueeducação precária e apresentado como evidência de quão abno de Mesquita ganhava força em alguns terrorismo facilita a jetas eram as condições de vida dos pacírculos, dois estudos-chave investigaram lestinos, na verdade começou numa éposolução do problema. Se a premissa geral de que a qualidade dos ca de força econômica para os palestiterroristas está relacionada à sua riqueza, você reduzir a pobreza nos. No entanto, com o aumento da vioou promover educação, o idade e educação. Em 2007,19os pesquilência, a força econômica dos territórios sadores Benmelech e Berrebi descobriterrorismo cairá. Mas a 17 ram que terroristas mais velhos, mais expalestinos pareceu diminuir . Em 2005, após a morte de mais de 1.000 israelen- realidade não colabora com perientes e mais altamente qualificados, ses e 3.000 civis e militantes palestinos, ou seja, terroristas de maior qualidade, a conveniência política. quando a violência da intifada começou tendem a matar mais indivíduos, a caua diminuir, a economia palestina estava sar mais danos e também têm maior proem uma das fases mais fracas da história recente. babilidade de escapar das autoridades. Para aprofundar Duas conclusões principais podem ser extraídas das essa pesquisa e, possivelmente, desenhar as relações com evidências disponíveis: as condições econômicas e os nías condições econômicas no nível da sociedade, um estuveis de educação no nível individual não parecem afetar o do adicional enfocou a relação entre as condições econôterrorismo, e o PIB per capita no país de origem de um micas e as características dos terroristas. Benmelech, Berindivíduo não afeta a frequência do terrorismo. Em mearebi e Klor20 descobriram que o agravamento das condições econômicas num trimestre (tal como o aumento do dos dos anos 2000, a maioria dos especialistas e estudiodesemprego) aumenta a probabilidade de que o terrorista sos parecia ter abandonado a visão convencional das raízes suicida do próximo trimestre seja melhor educado, mais do terrorismo. No entanto, logo surgiu uma nova teoria velho e mais experiente. Esses estudos foram os primeisobre a ligação entre pobreza, educação e terrorismo, que ros a indicar que, embora o agravamento das condições tentou incorporar essa nova informação. 18 econômicas não aumente o número de ataques, este agraEm 2005, Ethan Bueno de Mesquita , da Universidade de Chicago, produziu uma teoria focada na relavamento está potencialmente relacionado ao aumento da ção entre a oferta e a demanda de terroristas. De acoreficácia e sofisticação dos ataques terroristas suicidas. Esdo com Bueno de Mesquita, um grande grupo de indises resultados parecem apoiar a teoria de Bueno de Mesvíduos queria ser terrorista e “... se as organizações terquita de que grupos terroristas selecionariam candidatos roristas tiverem à disposição uma grande quantidade de de maior qualidade. voluntários ao terror suicida, eles serão capazes de escoNo entanto, as pesquisas mais recentes levantam allher terroristas suicidas mais qualificados”. Os grupos gumas novas questões sobre a abrangência do modelo de terroristas selecionariam os indivíduos de melhor nível Bueno de Mesquita. Em 2015, uma nova campanha tereconômico e/ou com os níveis mais altos de educação. rorista palestina entrou em erupção. Os ataques foram Esta premissa, de que os grupos terroristas podem escosubstancialmente diferentes do que as ondas anteriores de lher entre grandes quantidades de voluntários, parece vir violência palestina, pois os agressores normalmente traprincipalmente de evidências aleatórias. Bueno de Mesbalhavam sozinhos, em vez de dentro de um grupo terquita cita um membro sênior do Hamas dizendo que rorista maior. Por causa dessa característica individualis“o maior problema do grupo é a horda de jovens que ta, a campanha é muitas vezes referida como a intifada bate em nossas portas, clamando para serem enviados”. do “Lobo Solitário”. Em suma, há uma grande “oferta” de potenciais terroA violência diminuiu em 2017, e um estudo em anristas que querem lutar contra as injustiças percebidas, o damento por Berrebi e Weissbrod21 está trabalhando para analisar as características dos indivíduos envolvidos. Até que permite que grupos terroristas examinem esses canagora, o estudo descobriu que, embora haja, neste novo didatos e selecionem candidatos de maior qualidade, ou

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tipo de terrorismo, muitos perpetradores alta de sua sociedade, um pano de fundo Há muitas teorias com nível de educação equivalente a eninexploradas que podem que não é excepcional no contexto mais sino médio incompleto, também há muiamplo do terrorismo. ajudar a explicar melhor tos que são altamente educados e de oriÀ medida que o terrorismo evolui, deas raízes do terrorismo, gem afluente. No geral, tanto o número vemos tratar essa questão como um imde terroristas que são profissionais altapacto não apenas da pobreza, educação mas uma coisa é certa: mente qualificados, universitários, e pesou de organizações terroristas, mas tama visão convencional soas de famílias mais abastadas está bem bém de outros fatores. Esta atitude peré simples demais. Os acima da média. O que a pesquisa sugemitirá maior compreensão dos mecanislouvores de Corbyn re é que, embora as organizações terrorismos do terror e, a partir daí, o desenvolpara o nobre sofrimento vimento de soluções reais, que ultrapastas possam eliminar os candidatos de menor qualidade, como afirmam Bueno de sem a mera conveniência política. dos desesperançados Mesquita e outros, outros fatores além do terroristas do Hamas Claude Berrebi é professor de Economia e Poprocesso de seleção devem desempenhar repousam tão somente lítica Pública na Escola de Políticas Públicas da um papel na formação da conexão entre num mito. Hebrew University. Em 2019, é “Israel Institute educação superior, riqueza e terrorismo. Visiting Professor at Princeton’s Woodrow WilO que está claro agora é que quase toson School of Public and International Affairs”. das as pesquisas atuais mostram que os terroristas tendem a ser mais ricos e mais instruídos. Contudo, ainda precisaOwen Engel está cursando o segundo ano da Escola Woodrow mos testar novas teorias para descobrir o porquê. Se o moWilson de Políticas Públicas e Assuntos Internacionais na Univerdelo de triagem de Bueno de Mesquita não explica tudo, sidade de Princeton. uma teoria alternativa sugere que, caso o conteúdo educacional seja radicalizante, quanto mais escolaridade alguém Traduzido para o português por Raul Cesar Gottlieb. recebe numa determinada sociedade, mais provável é que ele possa se envolver em atos terroristas. Outra teoria posNotas sível é que o terrorismo é uma forma moderna e mortal de 1 https://www.reuters.com/article/us-sri-lanka-blasts/picture-emerges-of-well-to-do protestos e revoltas políticas que, ao longo da história, fo-young-bombers-behind-sri-lankan-carnage-idUSKCN1S00G2 2 https://www.un.org/ffd/statements/usaE.htm ram muitas vezes iniciadas pelas comunidades intelectuais. 3 https://2001-2009.state.gov/secretary/former/powell/remarks/2002/8038.htm Uma terceira alternativa, pode ser que indivíduos de ori4 https://www.theguardian.com/world/2001/nov/13/september11.usa1 5 https://www.theguardian.com/world/2001/nov/13/september11.usa1 gens socioeconômicas inferiores não tenham o luxo de par6 https://twitter.com/magnitsky/status/1098897534800543744 ticipar da revolta, pois precisam se preocupar em alimen7 https://www.nber.org/chapters/c3625.pdf tar suas famílias e a luta da vida cotidiana. 8 https://econpapers.repec.org/article/ucpjpolec/v_3a82_3ay_3a1974_3ai_3a1 _3ap_3a83-98.htm Há muitas outras teorias inexploradas que podem aju9 https://dataspace.princeton.edu/jspui/handle/88435/dsp01bk1289895 dar a explicar melhor as raízes do terrorismo, mas uma coi10 http://www.nber.org/ens/feldstein/Krueger/1-s2.0-S0165176508002759-main. pdf sa é certa: a visão convencional é simples demais. Políti11 https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/jep.21.3.223 cos como Jeremy Corbyn precisam parar de tratar a amea12 https://claudeberrebi.huji.ac.il/sites/default/files/claudeberrebi/files/2007-berrebi ça terrorista como se fosse um problema unidimensional -peps-terr-pov-edu.pdf 13 https://scholarship.claremont.edu/cmc_fac_pub/189/ que é solucionável com o aumento da riqueza individual 14 http://harris.princeton.edu/faculty/krueger/terrorism4.pdf e da educação. Os louvores de Corbyn para o nobre sofri15 https://unctad.org/en/PublicationsLibrary/gdsapp2011d1_en.pdf 16 https://journals.lib.unb.ca/index.php/jcs/article/view/220/378 mento dos desesperançados terroristas do Hamas repou17 https://www.brookings.edu/on-the-record/west-bank-and-gaza-economy-before sam tão somente num mito. -and-after-the-crisis/ O massacre contra os cristãos no Sri Lanka não foi co18 https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.1540-5907.2005.00139.x 19 https://www.jstor.org/stable/30033742?seq=1#page_scan_tab_contents metido por voluntários desesperados oriundos dos miserá20 https://claudeberrebi.huji.ac.il/publications/economic-conditions-and-qualityveis ​​da terra. Os terroristas que realizaram esse assassinato suicide-terrorism 21 https://www.inss.org.il/person/weissbrodmichal/ em massa eram bem-educados membros da classe média

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O Drama dos Palestinos O

povo palestino vive um drama. Apesar de ser uma população que se reconhece como povo e é assim reconhecida por praticamente todos, jamais logrou o exercício pleno de sua autodeterminação. Nos últimos séculos os palestinos foram governados por turcos, ingleses, jordanianos e israelenses. Nos acordos de Oslo em 1993 e 1995 eles lograram uma autonomia limitada, mas ela é conturbada por violentas divisões internas; depende da generosidade de donativos de outros países para se sustentar e é exercida em dois territórios praticamente incomunicáveis. Apresentamos neste número de Devarim dois textos de autores palestinos que mostram algumas facetas deste drama. Ambos os textos foram recentemente publicados pelo Gatestone Institute (www.gatestoneinstitute.org) e gentilmente cedidos a Devarim. Os textos não pretendem analisar o contexto e sim abrir janelas para as atribulações dos palestinos na atualidade.

O Pesadelo dos Árabes: A Absorção dos Palestinos Khaled Abu Thoame, em 12 de junho de 2019 Os libaneses estão preocupados que uma nova lei para a gestão dos campos de refugiados palestinos pavimente o caminho para o “reassentamento” de centenas de milhares de palestinos no Líbano. A perspectiva de “reassentar” os palestinos é um pesadelo que assombra os libaneses há décadas. Como a maioria dos países árabes, o Líbano trata, há muito tempo, os palestinos como cidadãos de segunda classe. Eles são privados1 de direitos básicos, incluindo cidadania, emprego, cuidados de saúde, educação, serviços sociais e propriedade. A grande maioria dos 450.0002 palestinos que vivem no Líbano não tem cidadania libanesa.

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Em 2001, o Parlamento Libanês apro- Como a maioria dos países nos no Líbano, adulterando, assim, a devou uma lei3 proibindo os palestinos de árabes, o Líbano trata, há mografia do país. possuir propriedades, e a lei libanesa tamA Liga Maronita do Líbano, uma ormuito tempo, os palestinos bém restringe sua capacidade de trabalhar ganização privada e apolítica de notáveis em mais de 20 profissões. O Líbano con- como cidadãos de segunda cristãos, dedicados principalmente a detinua a ignorar os pedidos de várias orgaclasse. Eles são privados fender a independência e soberania do nizações de direitos humanos às autoridaLíbano, expressaram preocupação de que de direitos básicos, des libanesas para acabar com a discrimias autoridades libanesas estariam prestes incluindo cidadania, nação contra os palestinos. a tomar o lugar da Agência das Nações emprego, cuidados de Um relatório de 2007 da Anistia InUnidas para os Refugiados da Palestisaúde, educação, serviços na (UNRWA) na gestão de assuntos dos ternacional inclui um apelo: “Exortamos os libaneses a tomar medi­palestinos. sociais e propriedade. das imediatas para eliminar todas as formas Incomodados com a possibilidade de de discriminação contra os refugiados palestinos, a fim de lhes que a proposta de lei resultaria no “reassentamento” dos permitir o exercício dos seus direitos econômicos, sociais e culpalestinos no Líbano, a Liga Maronita disse que a proposturais na mesma base que o resto da população do Líbano. As ta “coincide com as tratativas sobre [o ainda-a-ser-anuncontinuadas restrições que negam aos refugiados palestinos o ciado plano do presidente dos EUA, Donald Trump, chaacesso aos seus direitos de trabalho, educação, habitação ademado de] ‘Deal of the Century’5, que procura retirar dos palestinos seu direito de retorno [para suas antigas casas quada e saúde são totalmente injustificadas e devem ser ultradentro de Israel].” passadas sem mais procrastinação ou atraso”. A nova lei pode ser uma tentativa sincera de melhorar Contudo, em vez de melhorar as condições de vida as condições de vida dos palestinos que vivem em campos dos palestinos, os libaneses parecem estar debatendo sobre de refugiados no Líbano. No entanto, cada vez que um como se livrar de seus indesejados irmãos árabes. plano é apresentado para melhorar as condições de vida Alguns libaneses estão preocupados com uma nova lei dos palestinos, seja em qualquer país árabe ou na Cisjorque, acreditam eles, pode abrir o caminho para o “reassendânia e na Faixa de Gaza, os teóricos da conspiração imetamento” dos palestinos no Líbano. A razão para sua preodiatamente fazem o possível para impedir esses esforços. cupação: um relato em um jornal libanês4 sobre uma nova lei para a administração dos campos de refugiados palesPara complicar a questão, a proposta vem em meio a tinos no Líbano. contínuas tensões entre as autoridades libanesas e palesA lei proposta, elaborada pelo Comitê de Diálogo Litinas, particularmente após os confrontos armados entre banês-Palestino, visa aliviar a tensão entre os dois lados e facções rivais palestinas nos 12 campos de refugiados do melhorar as condições de vida dos palestinos nos campos Líbano. As forças de segurança libanesas não operam dende refugiados no Líbano. tro dos campos, que há muito são palco de confrontos O primeiro artigo da lei afirma que seu objetivo é “rearmados entre grupos palestinos, incluindo terroristas do gular a gestão dos campos de refugiados palestinos no LíHamas, da Fatah e do Estado Islâmico (ISIS). bano, preservando a sua identidade nacional palestina e No mês passado, os palestinos chegaram a um acorafirmando a soberania do Estado libanês como país de acodo com as autoridades libanesas para “desmilitarizar” o lhimento nesses campos”. campo de refugiados de Mieh Mieh no sul do Líbano, A lei permitirá que uma “comissão nacional” libanesa que foi palco de confrontos armados entre grupos palesdetermine o alcance geográfico de cada campo, conduza tinos rivais nos últimos dois anos. O acordo permite que uma pesquisa populacional abrangente de seus moradores o exército libanês opere dentro do campo, lar para cerca e gerencie serviços públicos, incluindo água, eletricidade, de 5.000 palestinos. saneamento e infraestrutura. A liderança da Autoridade Palestina (AP) pediu aos paConforme citei acima, há quem tema que a nova lei lestinos e árabes que boicotem a conferência econômica linada mais seja que um disfarce para “reassentar” os palestiderada pelos EUA, que deve acontecer no Bahrein no fi-

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nal deste mês6. A conferência planejada, como parte do Acordo do Século, visa alcançar a prosperidade econômica para os palestinos. Os líderes palestinos, no entanto, afirmam que as tratativas econômicas do Bahrein são parte de uma conspiração entre os EUA e Israel para subornar os palestinos a renunciarem a seus “direitos nacionais”. Os estados árabes, por sua vez, mal parecem se importar com os palestinos. Caso contrário, eles não os teriam mantido na miséria nos campos de refugiados, década após década. O Líbano diz apoiar plenamente os palestinos em sua luta contra Israel – mas gostaria de vê-los deixar o país o mais rápido possível. A mensagem que o Líbano e outros países árabes enviam aos palestinos é: “Nós amamos vo-

cês e apoiamos vocês – e fiquem longe, bem longe de nós”. Esta é a versão moderna da “solidariedade” árabe com seus irmãos palestinos: discriminação e apartheid – sem emprego, sem cidadania, sem assistência médica e sem serviços sociais. Nem os líderes palestinos dão a mínima para o bem-estar de seu povo. Se o fizessem, seria difícil justificar seus impressionantes esforços para frustrar uma conferência econômica cujo principal objetivo é tirar seu povo do inferno econômico que esses mesmos líderes criaram e mantêm com grande vigor. Khaled Abu Toameh, um jornalista premiado com sede em Jerusalém, é bolsista do Shillman Journalism Fellow no Gatestone Institute.

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A guerra Palestina aos Empresários Bassam Tawil, em 5 de julho de 2019 A repressão da Autoridade Palestina aos empresários que participaram da recente conferência econômica “Da Paz à Prosperidade”7, liderada pelos EUA no Bahrein, sinaliza como os líderes palestinos agem diretamente contra os interesses de seu próprio povo. Ainda mais preocupante é a mensagem que esta repressão envia ao público palestino: quem se atreve a trabalhar com o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, será denunciado como traidor e colaborador dos “inimigos” dos palestinos: os EUA e Israel. Os treze empresários palestinos que desafiaram o pedido da Autoridade Palestina de boicotar a conferência do Bahrein estão sendo alvo das forças de segurança de Mahmoud Abbas na Cisjordânia. Alguns foram forçados a se esconder, enquanto outros estão adotando um perfil discreto depois de receber ameaças de muitos grupos palestinos, incluindo a facção Fatah, de Abbas. A campanha de intimidação contra os empresários que participaram da conferência do Bahrein começou semanas antes de se dirigirem à Manama, onde ela se realizou. Ativistas da mídia social lançaram uma campanha para envergonhá-los, que incluiu a publicação de seus nomes e fotos em vários sites. Encabeçados pelo Fatah, os organizadores da campanha alertaram que a participação na conferência equivaleria a traição. Apesar das ameaças, o empresário palestino Ashraf Jabari, que pertence a um grande clã da cidade de Hebron, na Cisjordânia, liderou uma delegação de 13 membros de líderes empresariais que viajaram para o Bahrein. A delegação fazia parte de um grupo chamado Rede Palestina de Negócios, que não tem afiliações políticas. Jabari e seus companheiros dizem que não foram ao Bahrein como representantes da Autoridade Palestina ou de qualquer facção. E acrescentaram que foram à conferência depois de receberem convites pessoais da administração dos EUA. A participação deles na conferência enfureceu Abbas e muitos palestinos, que pediram sua punição e que fossem julgados por traição do povo e da causa palestina. Não demorou muito para Abbas agir. As forças de segurança palestinas tentaram prendê-los menos de 24 ho-

ras depois que voltaram para suas casas na Cisjordânia. Os oficiais de segurança conseguiram, no entanto, prender apenas um homem de negócios, Saleh Abu Mayaleh, de Hebron. No dia seguinte, a Autoridade Palestina, sob pressão do governo dos EUA, foi forçada a libertá-lo, um ato que atraiu duras críticas de muitos palestinos. Um segundo empresário de Hebron, Ashraf Ghanem, disse que conseguiu fugir de sua casa antes da chegada das forças de segurança palestinas. Cinquenta policiais, acrescentou, invadiram sua casa e confiscaram seu passaporte e cartões de crédito. Ghanem, dono de um negócio de móveis, foi forçado a se esconder. Os empresários não foram ao Bahrein para discutir questões políticas. Nenhum deles é conhecido por ser afiliado a qualquer facção política palestina. Eles viajaram para o Bahrein para discutir formas de impulsionar a economia palestina e melhorar as condições de vida de seu povo. Eles presumivelmente foram à conferência para discutir projetos econômicos – como qualquer homem de negócios faria. Ao reprimir esses empresários, a liderança da Autoridade Palestina está deixando claro que melhorar a economia é a última coisa que ela tem em mente. Ao boicotar a conferência no Bahrein os líderes palestinos já haviam enviado uma mensagem de fato ao mundo, dizendo que prefeririam a continuação das dificuldades econômicas do que colaborar para a solução do conflito. A mais alta prioridade da Autoridade Palestina deveria ser combater o Hamas e impedir que ele estenda seu controle da Faixa de Gaza para a Cisjordânia. A mais alta prioridade da Autoridade Palestina deve ser também combater a corrupção financeira e administrativa e buscar formas de impulsionar a economia palestina, resolvendo questões relacionadas ao aumento do desemprego e da pobreza. Em vez de cuspir nos rostos dos empresários, os líderes palestinos devem trabalhar em estreita colaboração com Israel e os EUA e qualquer outro que queira ajudar o povo palestino. Em vez disso, Abbas e seus altos funcionários da Cisjordânia entendem que seu mandato é para intimidar e encarcerar empresários por participarem de uma conferência econômica. Como a comunidade internacional, especificamente os europeus, respondeu à repressão de Abbas aos empresários? Com o silêncio. Onde estão as condenações da União Eu-

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ropeia, tão fáceis de achar quando alguma ridade econômica possa suavizar as atituOs treze empresários coisa relacionada com Israel acontece? Por palestinos que desafiaram des dos palestinos em relação a Israel. Abque a administração dos EUA foi a única bas e seus associados parecem temer que, o pedido da Autoridade parte a falar em defesa dos empresários? caso os palestinos comecem a desfrutar Palestina de boicotar a O silêncio do mundo é eloquente: os dos frutos de uma economia forte, parem empresários não foram alvos de Israel, porde pensar em matar israelenses e abandoconferência do Bahrein tanto suas atribulações são indiferentes. estão sendo alvo das forças nem o sonho palestino de destruir Israel. Sob os olhos intencionalmente fechade segurança de Mahmoud Bassam Tawil é um pesquisador árabe muçuldos da comunidade internacional, os lídeAbbas na Cisjordânia. mano baseado no Oriente Médio. res palestinos continuam sua longa traição. Por um lado, eles denunciam Trump Traduzido do inglês por Raul Cesar Gottlieb. e seus representantes, apelidando-os de “colonos sionistas”. Por outro lado, os líderes palestinos exigem que os mesmos Notas EUA abram seu bolso para os palestinos. Abbas e sua velha guarda estão evidentemente esperan1 https://www.amnesty.org.uk/press-releases/lebanon-new-report-demands-end-disdo que os EUA e a comunidade internacional continuem crimination-against-countrys-palestininan-refugees 2 https://www.unrwa.org/where-we-work/lebanon despejando milhões de dólares neles sem responsabilizá3 https://www.hrw.org/news/2010/06/18/lebanon-seize-opportunity-end-discrimi-los. Eles querem que o conflito continue o maior tempo nation-against-palestinians 4 Em 27 de maio de 2019 o “Al-Nahar” publicou um projeto de lei para administrar possível para que eles possam continuar recebendo fundos o campo de Nahr al-Bared e outros campos de refugiados palestinos no Líbano. de americanos, europeus e outros. Querem que seu povo 5 Literalmente “Acordo do Século”. Este é o título dado pelo nada humilde presidencontinue vivendo na miséria para que Abbas e seus reprete Trump para o plano de paz que pretende negociar com israelenses e palestinos. 6 A conferência aconteceu no final de junho, após a publicação deste texto. sentantes possam culpar Israel e o resto do mundo pelo 7 Peace to Prosperity. “sofrimento” dos palestinos. 8 https://www.amnesty.org.uk/press-releases/lebanon-new-report-demands-end-discrimination-against-countrys-palestininan-refugees Como seus rivais no Hamas, Abbas teme que a prospe-

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Direitos humanos: aprendizado de eventos passados Ricardo L. Sichel O final do século XX foi marcado por violações a direitos humanos, resultantes de regimes totalitários, que desprezavam grupos tidos como “diferentes” e perpetravam toda a sorte de abusos, inclusive sob o manto de “limpeza étnica”.

E

m 1945 se encerrou um dos capítulos mais trágicos da história: a 2ª Guerra Mundial. O número de vítimas civis, inimaginável até aquele momento, desnudou a face sombria da ditadura nazista, baseada na falsa compreensão de uma suposta superioridade, suportando ideias segregacionistas, baseadas em ideias de eugenia, que levaram à destruição de culturas, como também a alteração de toda a ordem mundial até então estabelecida. O quadro é bastante expressivo por si só: Judeus

6.000.000

Roma/Cinti

1.500.000

Pessoas com deficiência

220.000 – 250.000

Doentes mentais

300.000

Homossexuais

5.000 – 15.000

Testemunhas de Jeová

2.500 – 5.000

Gêmeos

1.500

Sacerdotes (Polônia)

3.000

Os números da intolerância, que não levaram em conta outras vítimas, como os perseguidos políticos, tiveram consequências após o término do conflito, seja pelo julgamento dos responsáveis perante o Tribunal de Nuremberg, como também por uma série de operações realizadas, visando responsabilizar

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criminosos pelas atrocidades perpetradas, sendo relevante o julgamento de Adolf Eichmann, em Israel. Acerca deste, relata Hannah Arendt não se tratar de um sádico ou pervertido, mas de uma pessoa comum praticando, de forma burocrática, a ordem de extermínio a que fora determinado. Em sua obra, reportando o processo em Jerusalém, observa: “Os assassinos não eram sádicos ou criminosos por natureza; ao contrário, foi feito um esforço sistemático para afastar todos aqueles que sentiam prazer físico com o que faziam”. (pág. 121) Ora, todos esses acontecimentos são anualmente lembrados, como uma forma de se evitar que outros parecidos venham a ocorrer. Será que este objetivo tem sido obtido? Esta é uma pergunta que se deve fazer observando os eventos ocorridos após 1945. O mapa global sofreu profundas alterações, com os processos de independência do continente africano, até então submetidos à exploração europeia. Não custa lembrar que a África fora dividida na forma de um tabuleiro de xadrez no século XIX, desconsiderando as diversas etnias existentes, pelo contrário, fragmentando-as, de forma a viabilizar a dominação e, com o enfraquecimento das potências coloniais, possibilitou-se o rompimento, em regra de forma sangrenta, deste vínculo, além da eclosão de vários conflitos armados, muitas vezes instigados por conta de interesses estranhos ao con-

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tinente, como campo de influência das potências envolvidas na “guerra fria”, em espaço especial para o experimento de novos armamentos, desconsiderando o drama humanitário resultante. O final do século XX foi marcado por violações a direitos humanos, resultantes de regimes totalitários, que desprezavam grupos tidos como “diferentes” e perpetravam toda a sorte de abusos, inclusive sob o manto de “limpeza étnica”, valendo citar: Local

Vítimas

Camboja

1.7000.000

Bangladesh

3.000.000

China (Mao Tse Tung)

45.000.000/70.000.000

Ruanda

800.000

Argentina

30.000

Chile

40.280

A frieza dos números não permite se chegar a uma outra conclusão senão há de que os massacres são uma parte da tragédia humana. Ao que aparenta, as mensagens decorrentes dos genocídios deixaram de surtir o efeito no sentido de conscientização e servir de marco para que even-


tos dessa natureza não se repitam. Pior do que a maioria dos 288 enviados à InglaCausa espécie a que esta constatação, é aquela em que se passividade da Comunidade terra sobreviveram. No entanto, o destino vê a inércia dos perseguidos no passado dos que desembarcaram na Europa contiJudaica ante o drama pelo drama humano vivido pelos refugianental foi mais sombrio: 254 morreram, a humano e em especial dos de hoje. maioria em campos de concentração; apeA imprensa tem noticiado a exaustão nas 365 sobreviveram; desses, 87 consequando julga que a sua o drama humanitário, cujas causas vasegurança se reforça por guiram emigrar para os Estados Unidos riam da miséria a regiões de conflito. Os alianças com grupos que antes de a Alemanha invadir os países que fatos não devem ser considerados novos, os acolheram. nutrem o preconceito, principalmente para os países do contiUm pontinho brilhante ilumina esse a exclusão de outros nente americano, formado por imigrannegro quadro do SS St. Louis: o Capitão tes, muitos destes refugiados. No período seres humanos, em uma Gustav Schroeder, que emergiu da tragéde 1845 a 1849, durante a fome na Irlandia como o herói que realmente foi. Em evidente demonstração da, cerca de 1.000.000 de irlandeses dei11 de março de 1993, o Instituto Yad Vade desconhecimento xaram sua terra, a maioria destes se dirishem o reconheceu postumamente como de sua história. gindo para os Estados Unidos da Améri“Justo entre as Nações”. Tivesse o navio ca. No Brasil, entre 1924 e 1941, entravoltado diretamente a um porto alemão, ram 137.572 japoneses, que buscavam uma colocação meseus passageiros judeus todos certamente teriam acabado lhor do que tinham na terra de origem.1 Por outro lado, seus dias em campos de morte nazistas. Foi graças, antes não se pode deixar de mencionar a emigração judaica da de tudo, à coragem e determinação desse homem de não Europa Oriental, em momento anterior a ascensão do naabandonar seus passageiros à sua sorte que muitos deles zismo, bem como a posterior a esta. As dificuldades, enpuderam escapar da armadilha de morte nazista. tretanto, cresceram com o Governo Vargas, em 19372. A Passados esses eventos históricos, vivemos o drama de saga do navio St. Louis estampa bem a rejeição ao refugiarefugiados no continente americano, com a obstinação da do e a frieza com que se trata do drama alheio. Um resuconstrução de um muro na fronteira do México com os 3 mo do ocorrido, merece destaque : Estados Unidos da América; um desejo do atual presidenMaio de 1939. O navio St. Louis partia do porto de te norte-americano, mas que pretende exigir uma compenHamburgo com destino a Cuba. Levava a bordo centenas sação do governo mexicano. No continente europeu temde judeus que deixavam a Alemanha, na esperança de esse o contingente de refugiados oriundos de várias partes capar do nazismo que já lançava sua sombra negra sobre do mundo, por mais variados motivos, que são rejeitados, a Europa. Mas, ao chegar a Havana, o sonho de liberdade inclusive sob o manto genérico de que são criminosos, de daquela gente se transformou em pesadelo. que o Islã é estranho à cultura europeia. Estranha esta úlA atmosfera ficou muito tensa quando deu-se permistima afirmação quando verificado que os tártaros, que prosão de desembarque apenas a 22 passageiros judeus – tofessam a religião muçulmana, residem na Polônia há 600 dos de posse de vistos e do recibo do pagamento dos US$ anos4. Por outro lado, esta afirmação desconsidera a presença muçulmana na Europa, antes de 1492. Esta também 500, e a 4 espanhóis e 2 cubanos. O restante dos passageise faz presente nos Balcãs, na Turquia, como se todos esros, portadores dos certificados Benitez, receberam ordem ses territórios não fizessem parte da Europa. Em 2017, o de esperar. O pânico se espalhou rapidamente. Inutilmengoverno dos EUA proibiu a entrada de muçulmanos, para te o Capitão tentou acalmar os ânimos, assegurando que não se transformar em um campo de refugiados, ao mesnão os levaria de volta à Alemanha. Enquanto a ansiedamo tempo em que se recusa a discutir, na ONU, uma sode e a insegurança aumentavam a bordo, uma intrincada lução em escala global para o problema5. rede se formava em terra tentando encontrar uma solução. Em nenhum momento se pretende limitar o direito de Uma pesquisa do Museu do Holocausto realizada por uma nação em selecionar quem receber, porém, ao generaSarah Ogilvie e Scott Miller, e publicada no livro Refulizar para um determinado grupo étnico, se repete, de forge Denied, sobre o destino daqueles passageiros revelou

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ma indesejável, os contornos do racismo olhar para o futuro se faz necessário e ouNa medida em que 6 nazista. Bauman, por seu turno, observa : sar em uma primeira etapa evidenciaria o governos se confundem Os problemas gerados pela “crise midesejo de alterar o quadro atual e estabecom Estados, perde-se gratória” atual e exacerbados pelo pânilecer que o conflito não precisa ser uma a essência democrática co que o tema provoca pertencem à caterealidade imutável, ao contrário, a geniagoria dos mais complexos e controversos: lidade humana deveria ser empregada na e caminha-se para neles, o imperativo categórico da moral configurações autoritárias, busca da sua solução. entra em confronto direto com o medo Um olhar para o passado reveste essa nas quais máquinas do “grande desconhecido” simbolizado necessidade de implementar mudanças. pelas massas de estranhos à nossa porta. partidárias são elaboradas Estas partem por uma concepção política para deter o monopólio O medo impulsivo gerado pela visão de e da compreensão do conceito de humaimigrantes portando inescrutáveis perigos do Poder em detrimento nismo. Observo, neste ponto, o discurso em luta com o impulso moral estimulado do rabino Jonathan Sacks7: de qualquer outro Twenty-five years ago, in 1989, Soviet pela visão da miséria humana. pensamento distinto. communism collapsed, the Berlin Wall came E um bom número de nós se verá, down, the Cold War came to an end. Many portanto, tentado pela “grande simplifibelieved that we were about to witness throughout the world cação” que o abrigo on-line oferece. Lá, dentro desse abrithe spread of market economics, liberal democracy and the go, a pessoa é salva da inevitabilidade de confrontar diretakind of tolerances we associate with both. Today, we know it mente o adversário. Pode flutuar sobre a armadilha da indid not happen that way. We have seen instead a new tribasinceridade dolorosa e erosiva ao autorrespeito – pelo simlism, leading to massacres in Rwanda, Bosnia and Darfur, ples expediente de fechar os olhos à presença do adversário the division and balkanisation of societies along religious lie tapar os ouvidos a seus argumentos. nes, and the return of the one thing that could take humanity Sem dúvida a internet não é a causa do número cresback to the dark ages, namely the use of religion as the robe of cente de internautas moralmente cegos e surdos, mas ela sanctity to disguise and legitimate the naked pursuit of power. facilita e alimenta demais esse crescimento. São eventos que mostram a incompreensão prevalecenOs olhares da intolerância, do preconceito, se elevam do sobre a razão. O populismo se nutre da democracia visando justificar frustações, calcadas em sentimentos de para destruir pilares básicos de respeito e dignidade humafracasso veem no diferente a justificativa de seu insucesso. nas. A discriminação de pessoas, a negação de princípios Por outro lado, causa espécie a passividade da Comunide solidariedade humana e a politização da questão dos dade Judaica ante o drama humano e em especial quando refugiados revelam a frieza de algumas sociedades, que se julga que a sua segurança se reforça por alianças com grusentem indiferentes ao destino de seres humanos. pos que nutrem o preconceito, a exclusão de outros seres Há 74 anos, quando se descortinava o massacre nazishumanos, em uma evidente demonstração de desconhecita, se identificava os países da Europa Central como imenmento de sua história. sos territórios manchados pelo sangue das vítimas. Vítimas A gravidade se torna mais clara na medida em que busque não se quantifica por números; assassinar uma pessoa cas para uma solução pacífica do conflito no Oriente Méé grave o suficiente. Massacrar grupos humanos não dedio se arrastam, colocando-se mais empecilhos do que sopende de quantitativos para ter a nossa repulsa. Por outro luções, de forma a se evitar a concretização da resolução lado, passado este período construiu-se nesta mesma Eudos problemas através do estabelecimento de dois Estados, ropa uma estrutura democrática e inclusiva, dentro das que, baseados no respeito, possam construir um novo prometas da União Europeia e as gerações foram se sucedencesso de confiança, que, dada a sua natureza, levará algum do. Os responsáveis pelos massacres estão mortos ou em tempo para ser construído. O número de vítimas de ambos fase final de vida. Enquanto vivos, devem ser julgados peos lados, as consequentes desestruturações de famílias e colos crimes cometidos contra a humanidade, porém os seus munidades decorrentes de ações violentas marcam as vítidescendentes não são responsáveis pelas barbáries das gemas sob o estigma da revolta e desconfiança. Porém, um

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rações anteriores. A sua responsabilidade, no máximo, é de natureza moral, em não buscar relativizar o ocorrido, mas sim encarar o fato histórico, por mais doloroso que seja, como um aprendizado para colocar a dignidade da pessoa humana em um patamar máximo de proteção. O então presidente da Alemanha, em 1985, em um discurso no Parlamento declarou8: It is not a case of coming to terms with the past. That is not possible. It cannot be subsequently modified or made undone. However, anyone who closes his eyes to the past is blind to the present. Whoever refuses to remember the inhumanity is prone to new risks of infection. The Jewish nation remembers and will always remember. We seek reconciliation. Precisely for this reason we must understand that there can be no reconciliation without remembrance. … If we for our part sought to forget what had occurred, instead of remembering it, this would not only be inhuman, we would also impinge upon the faith of the Jews who survived and destroy the basis of reconciliation. As gerações se sucederam nos diversos países do continente europeu e um olhar de reprimenda e responsabilização destas se reveste igualmente preconceituoso e into-

lerante, como aquele que gerações passadas sofreram. Cultivar o discurso da responsabilidade da geração atual equipara-se a um reconhecimento de que existiria o absurdo de uma culpa coletiva ou genérica, portanto, um estigma sobre um determinado grupo, primeiro elemento característico do preconceito que busca se comprometer. Analisar sociedades e nações é muito mais complexo do que um contexto binário bom/ruim, cinza/colorido, alegre/triste. Ao se categorizar sociedades se envereda para juízos de estereótipos, onde pessoas deixam de ser avaliadas pela sua capacidade pessoal, mas sim pelo pertencimento a um determinado grupo social ou étnico. O sonho de Martin Luther King de ter seus netos julgados por suas capacidades e não pela cor da pele se torna mais distante. A compreensão do passado é o elemento essencial para a construção de uma relação futura de confiança. Esta regra vale para as sociedades na Europa, como também em relação aos palestinos. Esperar que um processo de paz vá desconstruir gerações de medo e trauma é acreditar em mundos encantados e mágicos. Várias gerações cresceram sob o toque de alarmes e bombas, sob o foco de ataques e revanches, onde o lado oposto é coloca-

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do como o representante do “mal” e em que todo um grupo, mesmo que residindo em variadas partes do mundo, se torna tão algoz como se fosse o elemento ativo que puxou o gatilho. E daí se pergunta, por que desta conclusão? Uma possível explicação se pauta na incapacidade de distinguir crítica de processos de deslegitimização. Esta dificuldade reside no grau de intolerância que se vive, com o avanço de movimentos fundamentalistas, que não aceitam a discussão, na medida em que representam a única verdade possível, calcada no elemento da segurança construída pela violência, que, em verdade, parece mais alimentar o aumento da insegurança por desconsiderar os verdadeiros contornos e as origens do problema. Ao se fechar o debate, restringir a dialética, coloca-se o pensamento crítico como um inimigo em potencial, que deve ser classificado como ameaça à sua segurança, confunde-se criticar governos com pôr em dúvida a legitimidade de Estados. Na medida em que governos se confundem com Estados, perdese a essência democrática e caminha-se para configurações autoritárias, nas quais máquinas partidárias são elaboradas para deter o monopólio do Poder em detrimento de qualquer outro pensamento distinto. O conflito no Oriente Médio já provocou um número muito grande de vítimas. O dado mais grave desta constatação decorre da singularidade da vida humana. Uma pessoa não se resume a dados estatísticos, é uma singularidade. Uma vida perdida, principalmente por um motivo torpe, decorrente da incapacidade de se buscar uma construção política que permita a convivência pacífica, é um projeto inacabado, abortado, um artista que deixa de acontecer, um profissional que não se desenvolve; mas se constitui em um elemento de sofrimento e dor para todo um grupo familiar. O refugiado rejeitado e perseguido é uma pessoa insegura. Ninguém, em regra, sai de sua terra sem planejamento e de forma errática, a não ser que premido por circunstâncias que ameaçam sua existência. Colocar-se à deriva, em embarcações frágeis, nos mares do mundo, para ser tachado de escória humana, criminosos em potencial, onde populistas os encarceram, revelam, por outro lado, que o gênero humano parece não ter aprendido muita coisa das tragédias passadas. E esta carência passa pela falsa compreensão de que a democracia é a imposição do desejo de uma maioria, quando na verdade é o direito da minoria em ver sua peculiaridade ser respeitada pelo simples

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fato de ser um ente humano. O rabino Jonathan Sacks, em discurso perante o Parlamento inglês, adverte para o equívoco de se relativizar posições racistas e preconceituosas com vistas às suas consequências no futuro9. O presidente de Israel, Reuven Rivlin, aponta10: “While fighting antisemitism on the Left”, said Rivlin, “we must show zero tolerance for antisemitism on the Right, even when it comes from those who claim to admire Israel”. “They admire Israel but don’t much like Jews,” he said. “An attack on any one of us is an attack on all.” Piadas, comentários aparentemente inocentes, mas com conteúdo racista, preconceituoso e contra a igualdade de gênero, são a porta de entrada para a repetição de genocídios e demonstrariam que, infelizmente, não se aprendeu nada com os trágicos eventos do passado. Será que a Comunidade Judaica pode ficar omissa a manifestações de preconceito? Aliar-se a quem apregoa esses valores? A nossa consciência e responsabilidade impõem o compromisso de apoiar soluções para o drama dos refugiados e não tratá-los da forma como nossos antepassados o foram, para que não tenhamos que nos responsabilizar, no futuro, pela omissão. Ricardo L. Sichel é advogado (UFRJ), mestre e doutor em Direito da Propriedade Intelectual pela West. Wilhelms Univ., Münster (Alemanha), professor associado da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e do programa de mestrado em Direito (UCAM).

Notas 1 Tanaka. Aline. Imigração e colonização japonesa no Brasil, pg. 39 2 https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/judeus/a-politica-imigratoria-do-estado-novo.html, acesso em 03.06.2019 3 Revista Morasha, http://www.morasha.com.br/historia-judaica-moderna/a-tragedia-do-ss-st-louis.html, acesso em 03.06.2019 4 https://www.dn.pt/edicao-do-dia/31-dez-2018/interior/tartaros-estes-muculmanos-sao-polacos-ha-600-anos-10382608.html, acesso em 03.06.2019 5 https://www.nytimes.com/2018/12/10/world/europe/un-migration-deal-morocco.html, acesso em 26.06.2019 6 Bauman, Zygmunt, Estranhos à nossa porta, p. 104 7 http://rabbisacks.org/rabbi-lord-sacks-speaks-universal-declaration-human -rights/, acesso em 26.06.2019 8 https://www.nytimes.com/1985/06/23/magazine/facing-up-to-germany-s-past. html, acesso em 04.06.2019 9 http://rabbisacks.org/a-society-or-for-that-matter-a-political-party-that-tolerates -antisemitism-that-tolerates-any-hate-has-forfeited-all-moral-credibility-house-of -lords/, acesso 21.06.2019 10 https://eurojewcong.org/news/news-and-views/israeli-president-says-legitimatefor-diaspora-jews-to-be-critical-of-israeli-government/, acesso 21.06.2019


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Os Atributos Divinos

Martin Hirsch A mensagem bíblica que emana destas frases é que Sua existência e Sua essência são reveladas aos seres humanos por meio de Sua ação no mundo. São os atributos divinos que nos aproximam de uma compreensão do incognoscível.

“Adonai, Adonai, Deus cheio de compaixão e misericórdia, lento em irar-se e que sobeja benevolência.” – Shemot (Êxodo) 34: 6

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ste verso da Torá é parte da “teofania de Moisés”, isto é, da manifestação de Deus diante de Moisés, que acontece após o desastroso episódio do bezerro de ouro e durante a segunda subida ao Monte Sinai, no qual são trabalhadas as segundas Tabelas da Lei. Um antecedente disso é encontrado no terceiro capítulo do Livro de Shemot (Êxodo) no episódio da sarça ardente, em que Moisés, bastante curioso, pergunta a Deus: “Qual é o seu nome?” A resposta é totalmente ambígua, através de um “Ehié asher Ehié” , que poderia ser traduzido como “Eu sou quem eu sou”, embora tradicionalmente se prefira traduzi-lo como “Eu sou o que foi, é e será”. No capítulo 33 de Shemot, duas vezes mais Moisés interpela a Deus pedindo: “Eu imploro que me deixes conhecer Seus caminhos” e “Eu imploro que me permitas ver Sua glória”. Desta vez, as perguntas vão além do Nome e apontam para a essência divina. A resposta dada em Shemot 34: 6-7 tem sido a fonte de inspiração para que sábios, rabinos, filósofos e teólogos construam variadas visões judaicas de Deus. No Talmud, especificamente no Tratado de Rosh Hashaná 17b, Rav Yehuda nomeia esses dois versos como “Os 13 atributos divinos” (“13 midot”). Lá, os es-

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tudiosos concentram a sua atenção sobre a repetição misteriosa do Nome de Deus: “Adonai, Adonai”, relacionada com os atributos de punição e perdão para o pecador que faz teshuvá (arrependimento verdadeiro). Na mesma linha, alguns explicaram os dois nomes de Deus exibidos em toda a Torá: o Tetragramaton (as quatro letras impronunciáveis) e Elohim, da seguinte forma: o primeiro representa “midat Harachamim”, “o atributo de misericórdia”, e o segundo representa “midat hadin”, “o atributo do julgamento”. O midrash (relato alegórico) explica assim: “No princípio, Deus concebeu criar o mundo com midat hadin. Vendo que o mundo não era criado [apenas com midat hadin], ele associou-o a midat harachamim. E assim o mundo pôde existir”. (Bereshit Rabba 12). Mas Deus tem mais atributos além do din (severidade) e rachamim (misericórdia), visto que os versículos de Shemot 34: 6-7 continuam assim: “Que é benevolente com milhares, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, mas que não apaga todo o pe-

cado, que leva a iniquidade dos pais aos filhos, até a terceira e a quarta gerações”. É chocante ver que a Torá culpa os filhos e netos pelas transgressões dos pais. E o mesmo pode ser lido no segundo mandamento: “Porque eu sou Adonai teu Deus, um Deus zeloso, que castiga a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e que usa de misericórdia mesmo com a milésima geração daqueles que me amam e guardam meus mandamentos”. Shemot (Êxodo) 20: 5-6 e Devarim (Deuteronômio.) 5: 9-10. A Tosefta (complemento) para a Mishná Sotá 4: 1 explica: Quanto à medida da punição, está escrito: “Eu castigo a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e a quarta geração”, e sobre a medida de bondade está escrito: “Uso da misericórdia mesmo com a milésima geração”. Portanto, conclui-se que a medida de bondade é quinhentas vezes maior do que a medida de punição. Outras seções do Tanach repetem a ideia do Deus benigno e indulgente:

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textos do iifrr “Quem é Deus como tu, que perdoa a Chanun: benevolente, compartilhanO Logos é o pacificador iniquidade e despreza a transgressão do resdo a raiz da palavra “chen”, “graça”. que impede que as tante de sua herança? Ele não retém a sua Erech apaim: tardio em irar-se, conforças antagônicas, ira para sempre, porque se deleita em misetrola o impulso da raiva, dando a todos a das quais o universo é ricórdia”. Micá 7:18 oportunidade de arrependimento. “O Senhor é tardio em irar-se e grande Rav chessed veemet: abundante em constituído, quebrem o em poder, e de maneira alguma deixa o pemisericórdia e portador da verdade, que equilíbrio e se destruam. cador impune”. Naum 1: 3 é precedida e continuada pela bondade. “Tu és um Deus cheio de compaixão e clemência, tardio Notser chesed: estende a misericórdia lembrando o em irar-se e grande em misericórdia, e que Te arrependes da mérito humano. punição”. Yoná (Jonas) 4: 2 Nossê avón vafeshá vechataá: perdoa a iniquidade, “Mas tu, Senhor, és Deus misericordioso e bondoso, lento a transgressão e o pecado. Deus é indulgente com a incliem irar-se e grande em misericórdia e em verdade”. Tehillim nação para o mal, a rebeldia e sua culpa. (Salmos) 86:15, 103: 8 e 145: 8. Venakê lo yenakê: porém, não apaga o pecado. Isso A mensagem bíblica que emana destas frases é que Sua significa que há limites para a Sua misericórdia. existência e Sua essência são reveladas aos seres humanos Esses atributos geraram e continuam gerando intensos por meio de Sua ação no mundo. São os atributos divinos debates entre os estudiosos. Um deles, Philo de Alexandria que nos aproximam de uma compreensão do incognoscí(15 a.e.c - 45 e.c.), reconcilia a filosofia grega com a Torá, vel. Nestes versículos, somos apresentados a Deus com os interpretando-a filosoficamente. Começa explicando que seguintes atributos: Deus é incorpóreo, sem começo nem fim. Entre Deus e Rachum: Deus cheio de compaixão, que tem empatia os seres humanos são os dois poderes supremos de Deus: com os fracos e oprimidos. É necessário notar que rachum bondade e soberania. “Por Sua bondade Ele criou tudo e tem a mesma raiz de “rechem”, “útero materno”, represencom Sua soberania governa o que foi criado. No meio dos tação feminina de proteção e amparo. dois há um terceiro que os une, o Logos, pelo qual Deus

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textos do iifrr é soberano e bom” (Philo, De Kerubim 27-28). O Logos corresponde à mediação entre a afirmação da unidade e transcendência de Deus e a afirmação da Sua presença no mundo. O Logos é a externalização da palavra divina, aquilo que nos permite pensar e que está entre Deus e os seres humanos. Os poderes de Deus: bondade e sabedoria, o equivalente a “hadin midat” e “midat Harachamim”, harmonizar a ideia grega do Logos com a Bíblia para designar esses poderes sob o nome de anjos como intermediários entre o homem e Deus. O Logos é o pacificador que impede que as forças antagônicas, das quais o universo é constituído, quebrem o equilíbrio e se destruam. Filo segue Platão em termos de conceber o Logos como uma forma exemplar ou “ideia”, perfeita e sempre idêntica a si mesma, e a partir dessa concepção ele a apresenta como o modelo ideal deste mundo, isto é, o pensamento de Deus colocado em ação ao criar o mundo. Abraham Ibn Daud (1110-1180), filósofo judeu-espanhol, em seu livro Emuná Ramá, desenvolve sua doutrina dos atributos divinos: Deus é um e indivisível. Isso implica que não pode ter atributos essenciais ou derivados, pois isso implicaria pluralidade, o que é contrário à unidade da essência divina. Portanto, atributos que são frequentemente atribuídos a Deus devem ser interpretados negativamente ou como relacionamentos. Segundo Ibn Daud, “as verdadeiras características atribuídas a Deus são as negações ... que, embora removam muitas dúvidas, não expressam nada”. Para remediar isso, Ibn Daud interpreta as negações como expressões de incomparabilidade. Por exemplo, para explicar a unicidade de Deus, ele argumenta que não há nada que seja como Deus: “Conhecemos Sua unidade de tal maneira que sabemos que Sua unidade é diferente de tudo o que chamamos de Um”. Então, ele entende os atributos como relacionamentos: “Como alguém que pode ser descrito como o filho de alguém, ou o pai de outra pessoa, ou o amigo de um terceiro ou o inimigo de outro. De fato, relacionamentos múltiplos não implicam multiplicidade da essência de quem é descrito. Da mesma forma, podemos descrever o Criador através de muitos atributos, já que eles são relações entre Ele e tudo o que existe”. Em geral, presume-se que os escritos de Ibn Daud serviram de inspiração para Maimônides (1135-1204), que

sentiu ser necessário enriquecê-los em sua magnífica obra Moré Nevuchim, Guia dos Perplexos. Lá, Maimônides desenvolve seu pensamento sobre os atributos divinos começando com a unidade de Deus como atributo afirmativa ou essencial: “Não pode haver crença na unidade de Deus a não ser por admitir que Ele é uma substância uniforme, sem composição e sem pluralidade de elementos: Ele é Um qualquer que seja o ponto de vista considerado e é totalmente indivisível”. Maimônides procura estudar a provável coexistência entre filosofia e judaísmo, demonstrando e esclarecendo as contradições do texto bíblico com alegorias. Ele rejeita totalmente as interpretações literais da Torá, uma vez que elas só respondem à imaginação sem sustento racional. Portanto, não é racional pensar que Deus é composto de elementos diferentes ou que possui atributos adicionais. As pessoas definiram atributos e personalidades, mas isso não pode ser aplicado a Deus. Cada vez que o Tanach associa atributos humanos a Deus, o propósito é de nos transmitir alguma ideia da perfeição divina, de acordo com a noção que temos do perfeito. Por exemplo, quando Moisés pede a Deus para ver a sua essência: “Mostre-me a sua glória” (Shemot 33:18), Deus responde: “Eu farei a minha bondade passar diante de você”. Mas quando solicitada a conhecer seus atributos, a resposta é: “Você não poderá ver meu rosto e viver”. Para Maimônides, “toda a minha bondade” significa que Deus mostra a Sua criação, porque em Bereshit 1:31 diz que tudo foi criado “tov meod”, “muito bom”. Portanto, os atributos não são qualidades divinas, mas ações que emanam de Deus. A aspiração máxima do ser humano é assemelhar-se a Deus, isto é, agir de maneira semelhante a como Deus age: Se Ele é misericordioso, somos misericordiosos, se Ele perdoa, devemos perdoar. Todos os atributos aplicados a Deus referem-se à Sua atuação no mundo e não implicam que Deus possua qualidades de qualquer tipo. Maimônides enfatiza que para alcançar maior conhecimento de Deus, o método dos atributos negativos deve ser usado, pois Deus não pode ser o objeto da compreensão humana. Portanto, os atributos expressos na Torá são usados para ​​ transmitir uma certa noção de Deus e para expressar qualidades de ação que emanam Dele. Hermann Cohen (1842-1918) resume os 13 atributos divinos em apenas dois: amor e justiça. Seu pensamen-

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to é baseado nos “atributos de ação” de justiça, chamando Deus como “o Deus Hermann Cohen (1842Maimônides. Portanto, em vez do “ser” do amor”, “a fonte de todo ser”, que é ab1918) resume os 13 de Deus, ele leva em conta Suas ações no solutamente um e só. atributos divinos em mundo, e, em vez da causalidade, o proEm apoio, ele usa o simbolismo dos apenas dois: amor e pósito. Segundo Cohen, os conceitos de números: Tanto “Ahava”, “amor”, como amor e justiça correspondem ao denomijustiça. Seu pensamento a palavra “echad”, “um”, tem o mesmo nador comum dos 13 atributos divinos, é baseado nos “atributos valor numérico de 13. “O amor é a esgerando a correlação entre a causalidade de ação” de Maimônides. sência de Deus, Sua unidade. Portanto, e o propósito do mundo. o importante é que os 13 atributos foAssim, continua Cohen, os atributos ram compilados no conceito de amor, da ação não são tanto as propriedades de Deus, mas moum com menos de 13 nomes diferentes. A sabedoria de delos exemplares que devem governar a ação humana. A Deus deu lugar ao amor.” união dos conceitos de amor e justiça no conceito de ação Disse o rabino Yochanan em nome do rabino Yossi: eleva os atributos divinos ao leque de normas. Por sua vez, Como você sabe que o Santo, abençoado seja, reza? Poras normas estão contidas na essência de Deus, mas não se que diz o escrito: “Eu te levarei ao meu santo monte e me repode dizer que elas completam essa essência, uma vez que gozijarei na minha casa de oração” (Isaías 56: 7). Ao dizer: elas são válidas apenas para o ser humano. “Minha casa de oração”, segue-se que o Santo, abençoaMoisés quer ver a Deus, mas Deus quer revelar a Moido seja, reza. Qual reza? Disse o rabino Zutra bar Tobia sés apenas os efeitos da Sua essência, e não a Sua própria em nome de Rav: “Seja Minha vontade que Minha miseessência. Assim, essas propriedades de Deus são suscetíveis ricórdia suprima Minha raiva e Minha misericórdia ultrade serem conhecidas como normas de ação determinadas passe todos os meus atributos para julgar Meus filhos com pelo amor e pela justiça. o atributo de misericórdia e de não ser muito severo com Hermann Cohen foi responsável por defender o judaíseles” (Talmud, Brachot 7a). mo do antissemitismo alemão e, por isso, contrasta o amor Martin Hirsch é aluno do Instituto Ibero-Americano de Formação com o ódio irracional. Deus como uma ideia é o AbsoluRabínica Reformista. Vive em Concepción, Chile. to e necessariamente baseado na ética. A correlação entre Traduzido do espanhol por Raul Cesar Gottlieb. o homem e Deus é dada pela ética, que flui do amor e da

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Formando rabinos/as na América Latina para a América Latina Estude sem sair de sua comunidade

O IIFRR faz uso do potencial da moderna tecnologia de ensino à distância, combinando seminários semestrais de inserção com estudo diário remoto. Junte-se aos mais de 20 estudantes que iniciariam sua formação em 2018 e que serão nossos futuros rabinos/as e líderes comunitários. As inscrições estão abertas para os que iniciarão sua formação em 2019. info@institutorabinico.org +54 11 4781 4070

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curiosidades do hebraico

Sobreviventes. Ou, sobre viventes. Marcia Rozenthal O documentário

Há algo muito profundo na formação deste povo que o direciona para a vida e a sobrevida, para a esperança e a possibilidade de reconstruir tudo, muitas vezes a partir do nada.

C

omeça mais um documentário sobre o Holocausto, que passa na tela da minha televisão. É inexorável o caminho dos meus dedos em direção ao botão “play”, quando um destes filmes se insinua no menu de opções de “entretenimentos” virtuais. Percebo que nunca assisto aos filmes sobre o nazismo com os olhos de vítima, embora eu tecnicamente o seja, nem com sentimentos de vingança. Assisto com perplexidade. Se Darwin tinha alguma razão, e o mundo aposta que sim, vejo nesses filmes a quintessência da lei da sobrevivência. Não só de pessoas, mas de um povo inteiro. Desta vez, estou assistindo ao julgamento de Oskar Gröning em Lueneburg. Para quem não sabe, ou não lembra, trata-se de um criminoso nazista, julgado no ano de 2015, aos 92 anos de idade. Logo no início do documentário são introduzidos alguns filmetes de arquivo, mostrando as atrocidades cometidas por mais um nazista “que apenas cumpria ordens”. Estes, se me permitem uma digressão, mais parecem filmes expressionistas alemães criados e executados por diretores intoxicados por ácido lisérgico; é impossível não se estranhar o grau de distanciamento afetivo entre a informação visual e os dramas dos personagens, e entre a história exposta e o que se entende por natureza humana. Gröning, personagem em pauta, trabalhava em Auschwitz e, direta ou indiretamente, cometera cerca de 300.000 crimes contra judeus.

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Postas estas informações iniciais, entra Sobre adaptar, capacitar e o pão Como judeus, sabemos em cena uma das sobreviventes que iria da vergonha. que o nosso passado depor, inicialmente a contragosto, nesse transcende os fatos O povo judeu é composto, basicamentribunal. Era uma senhora judia, de feique vivemos em nosso te, por expatriados e sobreviventes; mesções fortes, bem trajada, que caminhamo tendo que passar por alguns campos va com desenvoltura por um apartamentempo de vida. Ele de refugiados, que serviram de entreposto cômodo, e que se expressava com efié “hipertemporal” e tos para dali partirem para cumprir seus ciência em inglês. Disse ela, emocionaestá gravado na nossa destinos, os judeus jamais se viram ou foda, olhando diretamente para a câmara: “hipermemória”. ram designados como refugiados. “Tente imaginar que amanhã alguém virá Há algo muito profundo na formação e te falará que você precisa sair de casa. deste povo, que o direciona para a vida e a sobrevida, para Seus pais são levados e você não sabe se os verá de novo. E, a esperança e a possibilidade de reconstruir tudo, muitas numa hora isso acaba. E você sobrevive. E aí, você descovezes a partir do nada. bre que está sozinho. Você não tem pais... Não tem famíEm hebraico, há dois conceitos etimologicamente colia... Será que realmente vai acabar?” Corta a cena. nectados (compartilham a mesma raiz, samech-guimel-laDepois, um outro senhor, também claramente já adapmed), que são lehistaguel (se adaptar, se ajustar) e messugal tado a uma vida confortável, é arrolado como testemunha, (habilitado, capacitado). A conexão entre os dois termos é onde terá que retomar nefastas memórias de sua vida, já curiosa: a qualidade que deriva do verbo reflexivo “se adapciente de que a evocação das mesmas certamente despertar” deveria ser “adaptado”. Mas o hebraico puxa o tapete tará emoções inauditas.

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curiosidades do hebraico e afirma que quem se adapta fica habilitaNosso idioma, o hebraico, ter deveres, assim como tem o dever de ter do. Uma forma simples de expressar esta que conta nossa saga, é direitos. Este deveria ser o mote principal conexão seria dizer que você deve se adapde qualquer comissão relacionada aos “diuma simbologia sagrada. tar ao lugar e às leis do local em que vive. reitos humanos”. Ele nos ensina, também E, para sobreviver, não cabe apenas esperar que lhe deem peixes, porque você através de suas palavras, Sobre o passado tem fome e tem “direitos”, mas, também, quando analisadas à luz É importante ter em mente que o você precisa aprender a fazer e a usar o anda etimologia. Como visto passado representa uma sequência de exzol para pescar o peixe; assim, você terá como providenciar a sua alimentação e a neste texto, fica claro que periências, que forjam a personalidade o Homem para sobreviver e o repertório de aprendizados a serem dos seus, no exercício do seu dever. usados no futuro. Longe de vítimas do Seguindo por essa mesma linha, no juprecisa se adaptar e se daísmo existe uma figura de linguagem capacitar. Para o hebraico, passado, somos resultantes dele. Como judeus, sabemos que o nosso interessante: o “pão da vergonha”. Este estes dois conceitos passado transcende os fatos que vivemos termo designa uma sensação ruim, de estão umbilicalmente em nosso tempo de vida. Ele é “hiperprofundo desconforto interno, que toma, conectados. temporal” e está gravado na nossa “hidesde criança, o ser humano quando repermemória”. cebe algo que sabe não ter feito por mereNosso idioma, o hebraico, que conta nossa saga, é cer. Este sentimento é universal, profundo, inerente à conuma simbologia sagrada. Ele nos ensina, também através dição humana na sua essência. À diferença do restante da de suas palavras, quando analisadas à luz da etimologia. natureza, o Homem tem consciência daquilo que eleva sua Como visto neste texto, fica claro que o Homem para soalma, como ser generoso, justo, digno. breviver precisa se adaptar e se capacitar. Para o hebraiSobre Direitos e Deveres co, estes dois conceitos estão umbilicalmente conectados. Não há melhor exemplo para um judeu do que o próA equação que trata da relação Direito–Dever é extreprio judaísmo. Nossa cultura sobrevive há milênios, conmamente delicada. Um deve vir junto ao outro na confortinuamente, apesar de tantas intempéries. Para isso, o jumação genética do Homem social. daísmo se comporta como um ser vivo, sempre mantendo A massificação do discurso político pelos Direitos e a as capacidades adaptativas e evolutivas. Está sempre apto negligência que é devotada aos Deveres é um golpe perpara absorver novos conhecimentos que alimentarão suas verso e nefasto sobre a humanidade, com o poder de criar raízes, estas, sim, fixas e arraigadas à nossa terra, desde os e deixar proliferar seres deformados, e intoxicados pelo primórdios de nossa história. pão da vergonha. O judaísmo segue os mesmos princípios da vida inAssistimos em todos os instantes, na mídia, a exibição teligente: a capacidade de adaptação – relacionada com de povos inteiros que aparecem numa postura de vítima, a sobrevivência e o respeito ao local que nos acolhe, e a incapazes de se erguer sem ajuda externa. Estes são privanecessidade de estar sempre se capacitando – relacionados da possibilidade de ter consciência de seu potencial da com a criação de bases sólidas e dignas para a interapara contribuir para o bem comum e de enfrentar com ção com a realidade. dignidade as adversidades. Muitas vezes, a eles é tolerada toda e qualquer reação, direcionada a um alvo imagiAm Israel chai – o povo de Israel vive nário, onde personificam algum “culpado” pelas suas doMarcia Rozenthal é Neuropsiquiatra, Doutora em Psiquiatria, Pósres. Talvez dirigissem suas energias para atitudes mais dig-Doutora em Ciências da Computação e Professora Associada da nas se fossem conscientizados de que todo Homem tem o Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Estado do RJ. que dar para o bem comum; todo Homem tem o direito a

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resenhas livros

resenhas livros Spies of No Country

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período entre a votação da partilha do território do Mandato Britânico para a Palestina (em novembro de 1947) e a assinatura dos armistícios entre Israel e seus vizinhos (de fevereiro a julho de 1949) trouxe profundas modificações nas vidas de todos os habitantes da região. Em seu mais recente livro1, o jornalista e escritor Matti Friedman2 abre uma janela para este período através das vidas de quatro judeus árabes, dois nascidos na Síria (Alepo e Damasco), um nascido no Yemen e um nascido em Jerusalém. Todos eles entre os 20 e 25 anos de idade em janeiro de 1948. Friedman entrevistou

Resenha do livro Spies of No Country, de Matti Friedman, publicado em 2019 por Algonquin Books.

1 Spies of No Country – Secret Lives at the Birth of Israel, publicado em 2019 por Algonquin Books of Chapel Hill. 2 Contribuidor da página de opiniões do The New York Times, já tendo reportado sobre Israel, Líbano, Marrocos, Moscou, o Cáucaso e Washington DC. Seus escritos foram publicados, entre outros, no The Wall Street Journal, The Atlantic e no Washington Post. A Devarim 29, de abril de 2016, publicou uma tradução de seu excelente artigo “A época do jornalismo selfie”.

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pessoalmente três deles e dedicou o livro ao quarto, que faleceu em 1951, durante uma operação. Eles foram recrutados dos quadros da Haganá3 pelo ainda muito rudimentar e desorganizado serviço secreto de Israel para atuar como espiões no mundo árabe. Eram chamados de “mistaravim”, ou seja, os “que se parecem com árabes”, e esta era a principal característica que motivou seus alistamentos. A missão era reportar sobre os sentimentos no mundo árabe, tanto na comunidade árabe-palestina como nos países vizinhos. O livro pode ser lido como um livro de espionagem comum, com as peripécias e os perigos que cercam os que exercem essa atividade. Mas este não é o seu principal atrativo, até porque as ações espetaculares são poucas e nem tão espetaculares assim. Um iate que Hitler havia construído 3 Organização paramilitar judaica no Mandato Britânico para a Palestina, que após a fundação do Estado de Israel se tornou o núcleo de seu exército.


resenhas livros na esperança de desembarcar dele, vitorioso, em Londres e que depois da guerra estava sendo preparado para ser um navio de guerra da marinha egípcia é danificado (mas não afundado) numa operação em Beirute. A explosão de uma garagem onde estava sendo preparada uma ambulância cheia de explosivos que seriam detonados num sábado à noite num popular cinema da parte judia de Haifa. O malsucedido atentado contra um imane que incitava abertamente o massacre dos judeus. E mais nenhum ato pirotécnico. Como roteiro de filme de espionagem, o livro de Friedman seria um fracasso. Contudo, este não é o seu objetivo. O valor do livro, que é de leitura fácil e agradável, consiste na análise que os espiões fazem a respeito da sociedade israelense e da sociedade árabe naquele período e também no relato da transformação da sociedade israelense, que na época da fundação do estado era eminentemente europeia, à medida que a imigração dos judeus dos países árabes se materializou no país. Friedman sustenta que os judeus árabes reverteram os sonhos europeus dos fundadores do Estado, que informam ser possível construir a amizade entre os povos com base no racionalismo, e plantaram na sociedade israelense a consciência da mentalidade baseada em religião, honra e tribalismo da sociedade árabe. O historiador Bernard Lewis disse “usar terminologia ocidental com o objetivo de explicar os fenômenos políticos do mundo muçulmano é tão apropriado e esclarecedor como o relato de um jogo de rugby feito por um especialista em tênis”. Ao contrário dos europeus, os

imigrantes judeus dos países árabes entendiam o jogo que estavam vendo. Entendiam que o incitamento à matança dos judeus não era apenas uma figura de retórica, principalmente quando vinha apresentada como uma obrigação religiosa. Assim, lemos na página 147 uma análise publicada por um dos antigos espiões nos anos 1990 a respeito do processo de paz que havia arrebatado e enchido de otimismo vastos setores da sociedade israelense: Temos que pensar muito [neste processo] e às vezes nos colocar no lugar deles. Eu não sou daqueles que quer a paz a qualquer preço, colocando em risco a nossa segurança. … Se 90% da população árabe quer viver conosco em paz, e trabalhar conosco, e criar suas famílias por trabalhar para os judeus ou com os judeus, ou de qualquer outra forma, basta que tenhamos os outros 10% atirando em alguém aqui e ali, matando uma pessoa aqui e duas ali, para que os ventos do mal soprem em ambos os lados. … O controle está na mão de extremistas, com quem não temos linguagem comum. Eles vivem num nível completamente diferente, e eu não digo isto em termos de moralidade. Eles leem a sua religião com letras completamente diferentes. Comenta Friedman logo em seguida: Os judeus que vieram para Israel do mundo Islâmico trouxeram com eles uma profunda desconfiança deste mundo: uma avaliação da importância da religião, que os ocidentais frequentemente não entendem; e o conhecimento que nada de bom acontece aos fracos. Pouco tempo atrás, muitos israelenses consideravam esta visão como retrógrada, mas os eventos dos anos

recentes, dentro e em torno de Israel, mudaram a forma de como o povo pensa. Nas palavras de Gamliel [o espião que faz a observação acima], é possível discernir a posição política majoritária dos israelenses de hoje. Muito mais do que o relato heróico de uma das facetas da guerra de independência que Israel venceu a um custo imenso e contra toda e qualquer previsão realista – ela foi lutada não porque se avaliava que a chance de vitória era grande, mas porque não havia outra alternativa – o livro de Friedman informa sobre a grande perplexidade e a incompreensão dos que querem pautar o conflito israelense e palestino dentro dos parâmetros das sociedades ocidentais. No momento da apresentação do mais novo plano de paz entre israelenses e palestinos, este pelo governo dos Estados Unidos, que se baseia em construir prosperidade para os palestinos e, através dela, encerrar o conflito, a leitura do pequeno livro (248 páginas) de Friedman é muito oportuna.

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EM POUCAS PALAVRAS Santima.studio/istockphoto.com

A surpresa que não surpreende

O

The New York Times de 5 de junho publicou em sua primeira página o horripilante relato da jornalista Janine di Giovanni sobre o bombardeio e a destruição pelo exército sírio, no dia 15 de maio, do Hospital de Crianças e Maternidade Tarmala, da cidade de Idlib no norte da Síria. Segundo o jornal, este foi o décimo nono ataque a instalações de saúde (hospitais, clínicas) desde a última semana de abril, ou seja, em aproximadamente duas semanas. Por que estaria o exército sírio atacando estas instalações, se pergunta o artigo. E ele oferece três respostas alternativas. A primeira é a oficial: o governo afirma que os hospitais estariam sendo usados como esconderijo para combatentes contrários ao re-

gime. O jornal qualifica esta alegação como infundada e a rejeita. A jornalista oferece, então, dois outros motivos. Por um lado, diz ela, destruir a infraestrutura de saúde aumenta as vítimas entre a população, que não consegue mais obter tratamento, o que se alinha com o objetivo do governo de reduzir ao máximo a população que apoia a derrubada do regime. Por outro lado, ela sustenta que matar médicos e demais operadores de saúde reduz a quantidade de pessoas que podem prestar testemunho sobre as atrocidades da guerra. Pois, inegavelmente, as equipes médicas são observadoras diretas dos métodos usados pelos lados em guerra. Qualquer que seja o motivo (ou os motivos), o ataque deliberado a mé-

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dicos, feridos e doentes é imoral. Assim que esta notícia deve realmente ir para a primeira página de todos os jornais do mundo. Mas não se pode dizer que ela seja surpreendente. Quando o mundo silenciou frente a instalação do bunker da liderança palestina debaixo de um hospital em Gaza e quando carros pintados como ambulâncias foram usados para transporte de armamentos e combatentes (prática usada pelos palestinos já em 1948), as portas se abriram para este tipo de atrocidade. A única surpresa é a extrema dificuldade da imprensa em ligar os pontinhos do desenho que retrata a cultura que se opõe à existência de Israel. Mas, na verdade, nem isto mais é surpresa. ü


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Pimenta no olho dos outros (1)

O

palestino Jibril Rajoub é o idealizador do movimento BDS, que propõe o boicote econômico e cultural a Israel. Mas, conforme noticiou, em maio deste ano, o Palestinian Midia Watch, quando ele precisa de tratamento de saúde vai se tratar no hospital Ichilov em Tel Aviv. Ou seja, o BDS é bom para recomendar que artistas, times de futebol e professores universitários não visitem Israel ou colaborem com instituições israelenses. Mas, parece pensar Rajoub, quando se trata da minha saúde, aí o assunto é sério demais para estas picuinhas. Neste caso, somos todos irmãos! ü

Pimenta no olho dos outros (2)

A

ANP – Autoridade Nacional Palestina – não conseguiu até hoje, e não dá mostras que vá conseguir num futuro previsível, criar um nível econômico razoável para a sua população. A enorme centralização de um poder quase ditatorial, a minguada liberdade econômica, a repugnância em tomar partido da prosperidade de seu vizinho mais rico, Israel, com acordos de cooperação, contribuem fortemente para que a Palestina seja uma entidade que não se sustenta e que depende essencialmente de ajuda exterior para sobreviver. Neste cenário, qualquer sobressalto dos doadores externos afeta tre-

mendamente a vida dos palestinos, cuja grande maioria vive de empregos estatais. Assim que atrasos e cortes de salários são parte do cotidiano da maior parte dos palestinos. Mas não de todos. Foi revelado há algumas semanas que há dois anos o governo atribuiu secretamente um aumento considerável (alguns casos chegaram a 67%) de salário aos políticos e principais dirigentes da máquina estatal. Tudo isto retroativo a 2014, o que garantiu uma bela bolada a cada agraciado. Isto causou grande consternação na “rua palestina”, que justamente no momento desta revelação estava so-

frendo com atrasos e cortes de salários. O comentarista político Ehab Jareri disse: “Os membros do governo se comportam como se o governo fosse sua propriedade privada e eles podem retirar o quanto quiserem sem ter que prestar contas a ninguém”. Já Majdi Abu Zeid, pesquisador de um grupo anticorrupção observou: “Penso que isto seja apenas a ponta do iceberg na corrupção da ANP, visto que não temos acesso a informações mais importantes”. Os palestinos realmente têm uma vida muito difícil. Mas Israel não é o maior problema deles. ü

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O legado de Nikki Hayley egundo Danny Danon, o embaixador israelense na ONU, os dois anos de Nikki Haley, sua colega embaixadora na ONU, mas pelos Estados Unidos, marcaram o nascimento de uma nova época. A atuação de Haley pautou por desafiar proposições que muitos consideravam indiscutíveis e lançá-las por terra. Ela começou seu termo sob a sombra da terrível aprovação pelo Conselho de Segurança da resolução 2.334 que condenou toda e qualquer atividade de Israel nos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias. Isto inclui a cidade velha de Jerusalém, onde, segundo a resolução, os israelenses não poderiam mexer. Esta é uma posição que nenhum governo israelense aceita e mesmo assim a resolução foi aprovada sob o incentivo da previamente anunciada abstenção dos Estados Unidos sob Barack Obama. Esta resolução não foi apenas absurda, ela sinalizou aos líderes palestinos que não precisariam se incomodar em negociar com os israelenses, pois a ONU e até mesmo os Estados Unidos validariam todas suas pretensões. Sabedora que não conseguiria fazer o Conselho de Segurança reverter a resolução 2.334, Haley (e a administração Trump) se dedicou a retificar a mensagem. Os Estados Unidos não aprovaram a indicação do palestino Salam Fayyad como enviado especial da ONU para a Líbia. Deixando claro que sua oposição não se devia à figura do respeitado Fayyad, mas pelo fato que ele estaria representando o inexistente “Estado da Palestina” e os EUA não aceitavam conceder este status, mesmo que simbólico, à Palestina. Depois de uma longa e frustrada negociação, os Estados Unidos se retiraram do Conselho de Direitos Humanos da ONU, por ter sido negada

Pict Rider/istockphoto.com

S

sua exigência de eliminar governos totalitários do organismo. Haley respondeu aos argumentos que os EUA fariam melhor se trabalhasse para reformar o conselho estando dentro dele com a afirmação de que a presença de países democráticos em conselhos povoados por ditaduras dão legitimidade a estas últimas. Uma afirmação difícil de ser contestada dentro do reino da racionalidade. O apoio dos EUA à UNRWA (agência da ONU que se propõe a apoiar os refugiados palestinos, não por sua absorção em outros países, mas pelo perpétuo assistencialismo) foi consideravelmente reduzido. Sendo que, mesmo com a redução, os EUA ainda são o maior doador da UNRWA. O efeito desta redução foi fazer outros países aumentarem a sua contribuição e não o fechamento de escolas e hospitais, como muitos desavisadamente previram. A decisão de Haley foi impelida pela recusa da UNRWA de tomar ação contra o uso de suas escolas e hospitais pela máquina palestina de ataques militares a Israel. Além disso, era realmente ridículo os EUA terem doado 400 milhões de dólares para a UNRWA em 2017, contra ape-

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nas 1 milhão do Qatar e 1,5 milhão da Turquia, países que apoiam os palestinos mais com a garganta do que com ações concretas. A embaixada dos Estados Unidos em Israel foi transferida para Jerusalém, num movimento absolutamente natural, visto que cabe a cada país definir onde fica sua capital. Se o Brasil pôde mudar a capital do Rio de Janeiro para Brasília sem perguntar para a ONU, por que Israel não pode definir em qual cidade vai instalar seu governo? As previsões de que a mudança geraria violência em todo o Oriente Médio (e, segundo os mais catastróficos, no mundo) se mostraram ridiculamente equivocadas. Mais recentemente, os Estados Unidos também reconheceram o Golan como território israelense. E ninguém perdeu um minuto de sono por conta disso, pois, conforme Nikky Haley se esforçou por provar, o que é óbvio tem que ser escancarado. Esperamos que ela retorne ao cenário político mundial. Certamente isto não vai resolver os problemas do mundo (até porque nada vai), mas vamos recuperar um tanto de sanidade e isto é muito oportuno! ü


A antítese de Nikki Haley

A

primeira conferência de cúpula entre a União Europeia e a Liga dos Estados Árabes aconteceu no último mês de fevereiro, na bonita cidade de Sharm El-Sheik, no Egito. Em um tweet, Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, declarou: “Temos diferenças entre nós. Mas enfrentamos os mesmos desafios e temos interesses em comum. Precisamos cooperar entre nós e não deixar isto para potências globais distantes da região”. (There are differences between us. But we face common challenges and have shared interests. We need to cooperate and not leave it to global powers far from our region.) O que Donald Tusk chama de “diferenças entre nós”? Será a promoção de direitos iguais para mulheres, crianças, minorias e pessoas deslocadas? A política da União Europeia expressa isto claramente. Mas nos países árabes o direto das mulheres se limita a obedecer cegamente o que o homem ao qual pertence (marido ou pai – no caso de ser solteira – ou familiar homem próximo no caso de ser órfã e solteira) ordena. Em vários países, elas também têm o duvidoso direito de não se ex-

por em público e de não fazer parte de nenhum processo decisório. Será a oposição à pena de morte, igualmente abraçada pela União Europeia e que é aplicada em todos os países árabes, inclusive em alguns contra o “crime” da homoafetividade? A lista das diferenças é tão grande que ela não pode ser honestamente qualificada como meros pontos de vista. As diferenças refletem uma diferença cultural profunda. De um lado

temos uma sociedade baseada na liberdade e nos direitos individuais do ser humano e do outro, uma sociedade tribal e hierarquizada. Será que dar legitimidade a regimes antidemocráticos e, por isto mesmo, opressivos ajuda a promover os valores da liberdade no mundo? Ou será que o caminho da Nikki Haley é melhor? Como diz Bob Dilan: “The answer is blowing in the wind”. Só não vê quem não quer. ü

Duas listas Alguns países que punem a homoafetividade com pena de morte

Alguns países membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU

Afeganistão

Afeganistão (mandato 2018-20)

Arábia Saudita

Arábia Saudita (mandato 2017-19)

Nigéria

Nigéria (mandato 2019-21)

Paquistão

Paquistão (mandato 2018-20)

Somália

Somália (mandato 2019-21)

Qatar

Qatar (mandato 2018-20)

Pict Rider/istockphoto.com


RnDmS/istockphoto.com

Etiópia para crianças

A

A quem pertence o Golan?

E

m 25 de março os Estados Unidos reconheceram que as colinas do Golan são parte do território de Israel. Este reconhecimento foi uma mera formalidade, visto que não afeta a vida da população de Israel ou da Síria e muito menos dos habitantes da região, que hoje percebem com clareza quão problemática seria sua vida sob soberania Síria. Mas nem todos ficaram felizes com este anúncio, pois esse território foi conquistado por Israel durante a agressão que sofreu em 1967 e mantido na outra agressão acontecida em 1973. Em ambas as ocasiões, e também na invasão de 1948, o objetivo da Síria não estava centrado no Golan e sim no Estado de Israel em si. Os sírios nunca fizeram segredo disso. Não mantêm relações diplomáticas com Israel, país que nem ao menos reconhecem. Dizem os críticos que Israel, e nenhum outro país, não tem o direito de ultrapassar as suas fronteiras nacionais. Mas, no caso dos limites entre Israel e Síria, quais fronteiras são essas?

Diz o começo do artigo V do acordo de armistício Israelo-Sírio de 20 de julho de 1949: “É enfatizado que os arranjos a seguir para a Linha de Demarcação do Armistício entre as forças armadas israelenses e sírias e para a Zona Desmilitarizada não devem ser interpretados como tendo alguma relação com os acordos territoriais finais que afetam as duas Partes deste Acordo”. Disposições similares existem nos acordos de cessar fogo das guerras de 1967 e 1973. Ou seja, nenhuma daquelas 3 linhas jamais foi considerada uma fronteira nacional pela Síria. Então, do que mesmo está se falando? Fronteiras nacionais são demarcadas por três formas: acordo entre dois estados vizinhos; um novo estado as herda de uma potência colonial prévia; novas fronteiras resultam da divisão de um estado. Nenhum dos três casos se aplica ao Golan. Resta, então, aguardar por um acordo entre Israel e Síria para resolver a questão. Enquanto isso, Israel tem sim a soberania de fato sobre aquele território. ü

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imigração dos judeus etíopes para Israel aconteceu em duas grandes levas. A primeira em 1984 e a segunda em 1991. Ao final delas a esmagadora maioria dos “Beta Israel” (como se autodenominam os judeus etíopes) se mudou para Israel, que hoje é lar para mais de 125.000 pessoas, que lentamente se integram em todas as áreas de atividade e em todas as regiões do país. A jornada dos Beta Israel foi heroica. Tanto pelas dificuldades do caminho como pela necessidade de dar o imenso salto cultural da vida rural na Etiópia para um país solidamente integrado ao século XXI, berço de uma considerável parte da tecnologia de ponta que se desenvolve no mundo. Até recentemente esta saga foi contada exclusivamente em livros para adultos e em testemunhos pessoais, igualmente dirigidos ao público adulto. Até que, dez anos atrás, Lesley Simpson, uma autora canadense de livros infantis, ouviu um destes testemunhos e se encantou por ele. A partir disso ela criou o livro infantil ­Yuvi’s Candy Tree com o relato real da jornada da família de Yuvi ­Tashome, uma das imigrantes. O livro foi muito bem recebido, mas estranhamente demorou até 2018 para que fosse traduzido para o hebraico e introduzido em Israel. Contudo, uma vez ultrapassada essa barreira, as crianças israelenses passaram a ter contato com mais esta história de resiliência e redenção de nosso povo. Sem a menor dúvida que outros livros se seguirão, fazendo com que a saga dos Beta Israel seja conhecida e reconhecida como mais um dos modernos milagres provocados pelos judeus em nossos tempos. ü


cócegas no raciocínio

sou esquerdopata Em 13 anos (bar-mitsvá) e 39 números de Devarim (3 vezes bar-mitsvá), é o primeiro Cócegas em 1ª pessoa. Porque acho justo, depois de todo esse tempo e todos esses textos, que se conheça meu viés, ou meus vieses, já que nenhuma opinião, posição, ideologia ou religião são verdades absolutas. Até Deus (o do Tanach) se permitia deixar convencer.

E

tiquetas estão substituindo conversas e debates. Diferença de opinião se resolve com um adjetivo e pronto, está resolvida a questão. Bandido e mocinho. Verdade e mentira. Heróis e vilões. Não me colaram (ainda) esta etiqueta na testa. Mas das etiquetas que já vi coladas em certas pessoas (e suas ideias), cheguei à conclusão de que ela me cabe. Sei que a intenção é pejorativa, mas com isso já estou acostumado. Já nos colaram e continuam colando outras etiquetas de intenção pejorativa, como a de ‘sionista’, e bem antes disso, de ‘judeu’. Bem, mesmo sabendo da intenção pejorativa, nunca tentei me justificar ou defender por ser judeu ou sionista. Sempre, sim, tentei e ainda tento explicar o que acho que sou como judeu e como sionista. Acho que neste espaço de Devarim, anos e textos depois, não preciso explicar o que acho que é o judaísmo e o sionismo. Mas sinto-me desafiado a explicar por que acho que me cabe a etiqueta de esquerdopata (embora não concorde com o termo em sua estrutura etimológica). Ou melhor, vou tentar explicar o que EU acho que significa ser esquerdopata, descartando o lado pejorativo, assim como descartei a intenção pejorativa de quem pronuncia,

Paulo Geiger

com esta intenção, as palavras ‘sionista’ e ‘judeu’. Deixo a intenção pejorativa na cabeça de quem a tem. Como judeu sionista, acho que sou esquerdopata porque meu ideal sionista não se esgota quando o povo judeu tem um estado, uma bandeira e um hino. Mesmo orgulhoso que sou de um estado que em apenas 71 anos fez tudo o que fez de bom e continua fazendo, mesmo que me emocione com a bandeira e o hino. Mas o esquerdopata que há em mim não se basta com a bandeira e o hino, e busca no sionismo algo mais profundo, mais histórico, mais ligado ao povo ao qual Howard Fast se referiu como ‘aquele maravilhoso povo de outrora, para o qual a resistência à tirania é a verdadeira obediência a Deus’. Meu sionismo de esquerdopata é o sionismo da utopia que atravessou 2.000 anos e foi se realizar na síntese de várias ideias, que transcendem o ufanismo patriota: 1) a ideia sionista original, de que o povo judeu se formou tendo como parâmetros de sua identidade o conteúdo conceitual e comportamental de sua religião, e o vetor de um futuro comum numa terra comum, a Terra Prometida, que seria Sion; 2) a ideia do fundador do sionismo contemporâneo, Herzl, que idealizou um estado moderno, estado judeu e estado de todos os seus cidadãos, consentâneo com os ideais democráticos e de coexistência das diferenças; 3) a ideia da revolução interna do povo judeu, o sionismo realizador e obreiro, que arregaçou as mangas e construiu, continua construindo, na simplicidade do trabalho criador, a verdadeira base de toda nação e toda sociedade e todo país e

todo estado; 4) a ideia de que o sionismo é valor do povo judeu como um todo, uma visão unificadora do povo judeu em toda a sua história, por reconhecer, sentir, instituir Sion como seu centro virtual e real. Virtual como ponto de partida no passado e porto de chegada em qualquer futuro, base cultural e fonte permanente de seus valores, como queria Achad Haam. Real como estado judeu atuante, o músculo que realiza e garante ao povo judeu o controle de seu próprio destino; 5) finalmente, síndrome inequívoca de esquerdopatia, a ideia e o conceito de que o sionismo é também o instrumento de inserção do povo judeu e do estado judeu nos ideais e na utopia redentora de um planeta e de uma humanidade que ainda estão ameaçados por ideologias e políticas imediatistas, por desigualdades profundas, por nacionalismos que beiram o chauvinismo, por preconceitos que se renovam e se multiplicam assustadoramente, por radicalismos de todas as cores que desistiram de pensar e conversar em busca de um bem comum e preferem colar etiquetas.

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cócegas no raciocínio As utopias do sionismo, que redimiram um povo, podem contagiar as utopias da humanidade: se Sion era o destino comum do povo judeu, onde ele iria viver segundo a fé, a ética e a moral de sua herança histórica, a Terra é o destino comum da humanidade, e está precisando mobilizar todos os seus “sionismos” para também sobreviver. Sou sionista esquerdopata porque não quero me isolar em meu sionismo judaico, quero que ele seja parceiro nos projetos de redenção do planeta e da humanidade. E [não] por acaso não é este o cerne de todos os mandamentos e mitsvot do judaísmo? Justiça social, respeito à natureza, ética em todos os níveis de comportamento e atitudes. Utopia, talvez. Como a do sionismo moderno. E foi Herzl quem disse: Se quiserem, não será uma lenda.

Como israelense que também sou, mesmo vivendo fora de Israel, sou esquerdopata porque ainda alimento a utopia [uma possibilidade entre impossibilidades, sem ilusões, ingenuidades, wishful thinking] de que para o bem de Israel como estado judeu [do povo judeu e baseado nos valores judaicos] a solução é a de dois estados para dois povos, pois qualquer outra seria ou o fim do estado judaico como tal, ou o fim do estado democrático como tal, ou a indefinição como realidade [indefinição que é, inclusive, arma de todo regime totalitário], e que não pode ser um objetivo de futuro ou de presente. Como israelense sou esquerdopata porque ainda me resta a lembrança [não saudosismo romântico] e a esperança de uma sociedade igualitária, tolerante, partícipe interna e externamen-

Educester/istockphoto.com

te, como prega o próprio judaísmo, de um esforço humanista ainda incompleto, que coroe seu imenso sucesso econômico e tecnológico. Que será a melhor resposta para os detratores patológicos de Israel, antissemitas de esquerda e de direita, mas também para os que se bastam com a bandeira e o hino e esquecem o que eles representam. [Claro que esta possibilidade utópica depende de que nela embarquem também palestinos, árabes, islâmicos, antissemitas, radicais de esquerda e direita, que eles abandonem definitivamente o projeto de acabar com o estado judaico, projeto implícito em manifestações anti-israelenses com o pretexto da ocupação e de ridículas alegações de apartheid, e explícito nas declarações e ações de Hamas, Hezbollah, Irã e outros. Utopia, mas realizável como toda utopia.] Como ser humano e terráqueo sou esquerdopata porque quero preservar a Terra como único lar possível para a humanidade [ficção científica ainda é ficção]; porque quero que todo ser humano tenha a dignidade que merece e acredito que poderia ter ainda hoje, ou amanhã, e sem a qual a minha dignidade também é ficção; porque sou contra o contrário de tudo isso: o acúmulo desenfreado nas mãos de poucos em detrimento de muitos, da Terra como planeta, de um futuro viável e vivível para todos. Se isso é ser esquerdopata como judeu, sionista, israelense, ser humano terráqueo, por que seria pejorativo? P.S. Da mesma forma eu poderia escrever (e talvez escreva) um artigo chamado Sou direitopata, o simétrico deste, pois esta é a etiqueta que me atribuiriam certas esquerdas radicais por eu ser sionista, por defender Israel (não seu governo), por achar o BDS uma burrice sectária, enfim, por ser soft em minha esquerdopatia.

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Devarim 39 (ano 14, agosto 2019) by ARI - Associação Religiosa Israelita - Issuu