DEVARIM Revista da Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI
Ano 13, n° 36, agosto de 2018
A Reforma dobra de tamanho em Israel Entrevista com o Rabino Gilad Kariv
O oratório Esther do rabino Saraval André Nudelman
200 anos de liturgia progressista. As origens Sefaraditas do Movimento Reformista Annette M. Boeckler
A equação espiritual Rabino Sérgio R. Margulies
Entrevista com Dan Haluts por Felipe Gorodovits
Prefeito de Ra’anana quer ainda mais brasileiros Marcus M. Gilban
Desafios e Esperanças. 70 anos do Estado de Israel Vittorio Corinaldi
O concerto que mudou a guerra Daniel Avzaradel
Judaísmo e Poder: uma história ambivalente Rogério Cukierman
A literatura de Philip Roth Stefania Chiarelli
Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger
Judaísmo S/A
N
o final de junho, um canal de televisão israelense colocou no ar uma perturbadora reportagem a respeito do tratamento diferenciado que a vinícola Barkan, uma das maiores de Israel, passou a dispensar aos empregados etíopes da linha de produção. Eles estavam sendo transferidos de posições onde tinham contato direto com o vinho para posições na retaguarda da linha de produção, mantendo, contudo, a mesma remuneração. Estas transferências aconteciam por conta de “discriminação religiosa”, denunciou a reportagem, explicando que a vinícola estava se candidatando a receber mais um selo de kasherut, além dos que ela já tem. Ela almejava o certificado da “Edá Haredit”, uma organização ultraortodoxa, cuja visão estreita exclui do povo judeu os “Beta Israel”, ou seja, os judeus que viveram segregados na Etiópia desde os tempos bíblicos e que, portanto, não tiveram contato com o Talmud e a Lei Oral. E como a halachá (lei religiosa judaica) não permite que vinho kasher seja manipulado por não judeus, a Edá Haredit exigiu que os etíopes não tivessem contato com o produto. “Negócios são negócios!” exclamou o diretor-geral da B arkan em reação à reportagem. “Nós não prejudicamos os empregados, apenas os transferimos de setor. Se a Barkan não conseguir o selo da Edá Haredit não vai conseguir expandir seu mercado, o que é ruim para a empresa, seus colaboradores e também para os consumidores que apreciam nossos vinhos.” Mas não foi bem isto que pensaram os consumidores. A repercussão da reportagem foi muito danosa para a vinícola, que foi acusada de racismo por críticos de todos os lados, inclusive pelo rabino-chefe ultraortodoxo Sefaradi. Pressionada pela possibilidade de boicote, a Barkan desistiu do selo da Edá Haredit. Não é de hoje que se sabe que a diferença entre o vinho kasher e o não kasher não consiste em nenhum tipo diferente de procedimento de produção, assim que o episódio suscita algumas reflexões. Por que acusar apenas a Barkan e apenas agora de racismo? Se a Barkan foi racista, então todos os fabricantes de vinho com selo de kasherut são racistas. Por que não clamar por um boicote geral? Com certeza ninguém com alguma estatura moral considera que discriminar etíopes é pior do que discriminar não judeus.
EDITORIAL Um segundo ponto a ser considerado é a questão da proibição da manipulação do vinho por não judeus. Esta lei está baseada na existência de antigos rituais idólatras que usavam vinho e tinha o louvável objetivo de afastar o judaísmo da idolatria. Mas esta situação não mais existe hoje. Então por que não reformar a lei? Que motivo impede a religião que excluiu práticas escritas no texto da Torá e mais tarde consideradas antissociais, tais como escravidão, pena de morte e poligamia, de abolir um regulamento que meramente deriva de uma interpretação casuística do texto? Ainda há um terceiro aspecto, que me parece ser ainda mais deletério: o episódio demonstra que a kasherut é hoje regida pelas leis do capitalismo. Antigamente, quando a produção de alimentos era caseira e artesanal, o universo era completamente diferente. A preparação de alimentos kasher era implementada por milhões de aderentes em suas casas, com a intenção voltada unicamente para o cumprimento das mitsvot, sem nenhuma contaminação por interesses comerciais. Hoje em dia a kasherut é apenas mais uma faceta do negócio de produção em massa de alimentos. Valem as regras do mercado e são elas que regulam a obtenção das licenças. Além do caso da Edá Haredit (que, ao criar um selo próprio, formata um mercado cativo), fomos surpreendidos um tempo atrás (ver Devarim 29) pela informação que uma empresa importadora comprou o direito exclusivo de colocar um selo de kasherut no whisky Johnnie Walker Black Label, bloqueando sua venda para o mercado kasher por outros distribuidores. Neste caso a kasherut não depende nem dos ingredientes, nem do processo nem de quem produz o produto, mas apenas de quem paga mais pelo direito de distribuí-lo. Uma outra faceta comercial é a questão do “registro da marca”. A palavra “kasher” é registrada e apenas as empresas que pagam pelo selo do Rabinato podem ostentá-la, mesmo que seus processos sejam estritamente aderentes à halachá. É triste constatar que, hoje em dia, a Torá é usada como máquina de fazer dinheiro. As práticas do mundo dos negócios devem ser moderadas pelos ditames morais da religião. Jamais o contrário.
Raul Cesar Gottlieb – Diretor de Devarim
Revista da Associação Religiosa Israelita-A R I
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Revista Devarim Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro – ARI Ano 13, nº 36, agosto de 2018 PRESIDENTE DA ARI
Flávio Kosminsky
devARIm [hebraico] Plural de davar, sm. 1 Coisas, todas as coisas, ou algumas coisas, ou as que interessam. 2 Palavras, não só as palavras em si (seria então milim), mas os signos de coisas, ideias, conceitos, pensamentos. 3 O quinto e último livro da Torá, sua recapitulação pós-mosaica, soma das palavras e das coisas. 4 Revista da ARI, onde as palavras recapitulam o judaísmo milenar em sua inserção planetária e contemporânea.
RABINOS DA ARI
Sérgio R. Margulies, Dario E. Bialer DIRETOR DA REVISTA
Raul Cesar Gottlieb
SUMÁRIO
CONSELHO EDITORIAL
Breno Casiuch, Rabino Dario E. Bialer, Germano Fraifeld, Jeanette Erlich, Marina Ventura Gottlieb, Mônica Herz, Paulo Geiger, Raphael Assayag, Raul Cesar Gottlieb, Ricardo Gorodovits, Rabino Sérgio Margulies. EDIÇÃO
Editora Narrativa Um / Roney Cytrynowicz EDIÇÃO DE ARTE
Negrito Produção Editorial REVISÃO DE TEXTOS
Mariangela Paganini (Libra Edição de Textos) FOTOGRAFIA DE CAPA
Chameleonseye/iStockphoto Colaboraram neste número: André Nudelman, Annette M. Boeckler, Daniel Avzaradel, Felipe Gorodovits, Marcus M. Gilban, Paulo Geiger, Raul Cesar Gottlieb, Rogério Cukierman, Rabino Sérgio R. Margulies, Stefania Chiarelli e Vittorio Corinaldi. Os artigos assinados são de responsabilidade intelectual de seus autores e não representam necessariamente a opinião da revista Devarim ou da ARI. Os critérios para grafar palavras em hebraico e transliterá-las para o português seguem as seguintes regras: (a) chet e chaf tornam-se ch; (b) tsadik é ts; (c) hei final acentua a vogal e desaparece; (d) kaf e kuf são k; (e) não usamos hífen ou apóstrofe em casos como ledor, em vez de le-dor, e beiachad, em vez de b’iachad e (f) palavras em hebraico de uso corrente na ARI não estão em itálico. A revista Devarim é editada pela Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro www.arirj.com.br (www.devarim.com.br) Administração e correspondência: Rua General Severiano, 170 – Botafogo 22290-040 – Rio de Janeiro – RJ Telefone: 21 2156-0444 A contracapa de Devarim é uma criação baseada no slogan do Movimento Reformista de Israel – IMPJ. A distribuição de Devarim é gratuita, sendo proibida a sua comercialização.
A equação espiritual Rabino Sérgio R. Margulies..................................................................... 3 O oratório Esther do rabino Saraval André Nudelman.................................................................................... 8 200 anos de liturgia progressista. As origens Sefaraditas do Movimento Reformista Annette M. Boeckler............................................................................. 14 O concerto que mudou a guerra. Bernstein e a Filarmônica de Israel Daniel Avzaradel................................................................................... 20 Desafios e esperanças. 70 anos do Estado de Israel Vittorio Corinaldi................................................................................. 26 Eldorado ou bolha? Prefeito de Ra’anana quer ainda mais brasileiros Marcus M. Gilban................................................................................. 32 A Reforma dobra de tamanho em Israel. Entrevista com Gilad Kariv – presidente do Movimento Reformista de Israel Raul Cesar Gottlieb............................................................................... 38 Entrevista com Dan Haluts, ex-chefe do Estado Maior do Exército de Defesa de Israel Felipe Gorodovits.................................................................................. 46 Judaísmo e poder: uma história ambivalente Rogério Cukierman............................................................................... 52 Das vantagens de ser impuro: a literatura de Philip Roth Stefania Chiarelli................................................................................... 58 Em Poucas Palavras.......................................................................... 62 Resenhas de Livros........................................................................... 66 Cócegas no Raciocínio Paulo Geiger.......................................................................................... 68
A EQUAÇÃO ESPIRITUAL Rabino Sérgio R. Margulies Rost-9D/istockphoto.com
“Na medida em que as proposições da matemática referem-se à realidade, elas não são certas; e na medida em que são certas, não se referem à realidade.” (Albert Einstein, 1879-1955)
Diálogo: − Por que as coisas acontecem? − Não sei! − Quero saber. − Todos querem, mas não sei. E quem sabe? − Vou buscar alguém que saiba. Algum tempo depois: − Encontrou? − Sim. Obtive a resposta. − Qual? − Que na vida toda causa tem consequência. E que se controlamos a causa, também controlamos a consequência. − Perfeito, mas será possível controlar a causa? Desculpa o paroxismo da pergunta, mas qual é a causa da causa? − Deus é a Causa das causas. − Se Deus é a causa de tudo, cadê o livre arbítrio? E mais: se podemos controlar as causas, será que poderemos, deste modo, controlar Deus?
Se Deus é a causa de tudo, cadê o livre arbítrio? E mais: se podemos controlar as causas, será que poderemos, deste modo, controlar Deus?
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− Ora, os rituais e a rezas servem para controlar Deus, são nossos instrumentos de súplica à ação divina. − Não de acordo com o entendimento judaico. − Você roubou a solução que alcancei. − Ou lhe restitui a honestidade. − Ok, mas preciso algo que aplaque o meu tormento pela compreensão sem abdicar da honestidade. − Então, tenho uma proposta. Uma equação.
Equação:
Aprendemos: 1. A pretensão de atingir o absoluto – aqui representado pelo zero – nunca é atingida. Assim, o relevante é a busca. A vivência religiosa enfatiza a reflexão e introspecção das buscas, em que o resultado de hoje – importante que seja – é uma etapa de outro resultado – igualmente importante – a ser atingido. E assim sucessivamente. 2. Às vezes podemos nos deixar enganar, seja pela opção do caminho mais fácil ainda que falso, seja pela ingenuidade que carece de uma investigação cuidadosa. Deste modo, acreditamos termos encontrado uma resposta, que na verdade a nada responde. E não responde simplesmente porque se reveste de falsidade. 3. Qualquer número com exceção de zero é transformável em positivo ou negativo, como os módulos dos algarismos. As situações da vida são transformáveis. Dos reveses surgem aprendizados valiosos para futuras circunstâncias. Das perdas emergem bênçãos de agradecimento envoltas por um saudoso amor. As alegrias nos imbuem com humildade e nos impulsionam a agir generosamente.
Em cada único indivíduo há múltiplas identidades. Há a identidade de gênero, religião, grupo social, profissional, nacionalidade, interesses. O desafio é harmonizar, como uma sinfônica composta por diferentes instrumentos e sons.
“A raiz quadrada de qualquer número – a exceção de zero – elevada a 1/n tende a zero, sem ser zero.” Faça o teste: pegue uma máquina de calcular. Escolha qualquer número (menos zero). Tire a raiz quadrada sucessivamente. Cada vez mais se aproxima do zero. Em dado momento ficará zero porque a máquina é limitada, mas se não fosse teríamos uma quantidade cada vez maior de zeros seguidos da vírgula, até o primeiro algarismo significativo.
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4. O zero representa a imutabilidade. O definitivo. A vida imutável é ‘não vida’. A vida nada tem de definitivo. Ou, sofisticamente, de definível somente a indefinição. Isto potencializa a agonia. Confrontar-se com o indefinível é agonizante. Por isso, tal como os números, que, para não se nulificarem, deixam uma vírgula existir após os vários zeros, nós seres humanos podemos adicionar em nossas vidas o compartilhar com outras vidas. Isto é similar à experiência religiosa por excelência: estar em comunidade, pertencer, fazer parte, envolver-se e deixar-se envolver. 5. Por trás de cada número há vários outros números, como uma sucessão de raízes quadradas. Por trás de cada pessoa, há várias pessoas. Em nossa memória genética, os genes de ancestrais; em nossa memória afetiva, as lembranças dos momentos vivenciados; em nosso conhecimento, os ensinamentos de tantos. 6. As fórmulas científicas são comprovações de experimentos duplicáveis e, portanto, pretendem inevitavelmente propiciar conclusões definitivas. A religiosidade pressupõe – ao lidar com os sabores da vida – aceitar o inconclusivo. Assim, enquanto os números são duplicáveis, cada ser humano é único e singular. Não há, não houve e tam-
pouco haverá alguém como outro alguém. As individualidades são infinitas. Cada um tem seu próprio limite – ou sua própria subtração – e cada um tem seu próprio potencial – ou sua própria capacidade de multiplicar. 7. Cada número pode ser tanto reduzido infinitamente quanto ser exponencializado infinitamente. Podemos como pessoas singulares aceitar nossos limites, mas sem autorizar que perversos atos de ódio, discriminação e desprezo nos reduzam a zero. Podemos como seres únicos explorar nossas virtudes e desenvolver nosso potencial, porém reconhecendo que muito está além de nossa capacidade. 8. Na oração ‘Aleinu’, utilizamos o zero (em hebraico efes) na referência a Deus através da expressão efes zulato que denota a incomparabilidade divina. Buscamos nos aproximar de Deus sem, no entanto, a pretensão de compreender Seus desígnios como se Sua ação pudesse ser comparada à atitude humana que é frequentemente moldada ao sabor dos interesses. O exposto acima talvez explique porque a canção do Seder de Pessach ‘Echad mi-iodea / Um quem sabe?’ não ter o zero para conceituar Deus e sim o um.
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Proposição:
Na jornada da vida repleta de variáveis, o papel da vida religiosa é ajudar a lidar com a incógnita do ‘não sei’ de modo honesto e sincero. E que assim brote a espiritualidade de um ser pleno que não se sinta acuado nem pelo desespero do desconhecido nem pelo descaso dos pretendentes do saber acusatório.
‘Adonai Echad / Deus é um’, a Torá ensina. Em complemento, o livro bíblico dos profetas afirma: ‘Adonai hu há-Elohim/ Adonai é Elohim’. Ambas as frases são com intensidade recitadas na conclusão do Serviço de Iom Kipur, o que nos permite, por propriedade transitiva, deduzir que um é Elohim. No entanto, Elohim – expressão hebraica para Deus – é no plural. Como um pode ser simultaneamente plural? 1. Em cada único indivíduo há múltiplas identidades. Há a identidade de gênero, religião, grupo social, profissional, nacionalidade, interesses (hobbies) entre outras. O desafio é harmonizar, como uma sinfônica composta por diferentes instrumentos e sons, as identidades plurais em cada um. 2. Em cada povo há várias expressões culturais, e para cada grupamento religioso, diversas maneiras, por exemplo, de interpretar seus textos sagrados. No judaísmo há distintas maneiras de compreender a mensagem da Torá, gerando uma amplitude de comentários e ensinamentos. A multiplicidade e a pluralidade emergem e reforçam a unidade. A dificuldade está no ego inflamado pela prepotência que se recusa em entender que cada um convive com outros tantos um. 3. Como as vogais em hebraico são secundárias, a palavra echad (um) pode ser lida ichud (união) sem que as consoantes sejam alteradas. Ser um, desta maneira, é encontrar a sua própria unidade como pessoa. Isto é ser inteiro consigo próprio. Inteiro e sincero. A falta de sinceridade compromete a integridade que brota do ser inteiro. A origem da palavra sinceridade é a junção de sem+cera. Ser sincero é não ser hipócrita como uma cera que lustra o por fora enganando o que se é por dentro. Ser sincero e, portanto, inteiro consigo próprio é não fingir o que não se é. 4. Quando somos inteiros desenvolvemos a capacidade de convivência. Uma vez confiantes – sem arrogância – não alimentamos o medo que cria inimigos artificiais para justificar nossa própria insegurança interna. A canção do Seder de Pessach, ‘Echad mi iodea / Quem sabe o um?’,
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contempla a convivência. Conta até treze. Todos os aspectos convivem. De modo oposto, retrata a canção também do Seder ‘Chad gadia / Um cabritinho’, que descreve um devorando o outro. 5. A contagem vai até treze. Por que este número? Uma interpretação simbólica: Uma vez que as letras do alfabeto hebraico correspondem a valores numéricos, a soma das letras da palavra echad, que significa um, equivale ao número treze. Assim, treze equivale a um. É a aritmética espiritual que convida à convivência do plural com o singular.
Axioma:
Ocorreu que Iob [Jó], protagonista de um livro da Bíblia que leva seu nome, foi acometido com enorme sofrimento e terríveis perdas. Os amigos o acusaram de ter feito algo para merecer isso. A premissa é simples: se algo acontece é porque merece. O axioma se estabelece mesmo que indemonstrável. A própria consequência explica a causa ainda que desprovida de racionalidade, pois isto apazigua a ansiedade pelo controle e pouco importa que a vítima seja acusada. Em acréscimo, isto isenta a ação de ajuda e responsabilidade para com quem sofre. No entanto, o comentarista bíblico Nachmânides (1194-1270) sugere que estes acusadores foram instruídos a dizer ‘não sei!’ Mas quem tem coragem e humildade para dizer ‘não sei’? Quem consegue viver com a incerteza do ‘não sei’? Quem opta pela sobriedade da dúvida sem ceder à embriaguez do controle que pretende a tudo saber? Quem abdica do poder ilusório e reconhece a realidade com suas vulnerabilidades? Na jornada da vida repleta de variáveis, o papel da vida religiosa é ajudar a lidar com a incógnita do ‘não sei’ de modo honesto e sincero. E que assim brote a espiritualidade de um ser pleno que não se sinta acuado nem pelo desespero do desconhecido nem pelo descaso dos pretendentes do saber acusatório.
Sérgio Roberto Margulies é rabino e serve na ARI − Rio de Janeiro.
CONSULTE-NOS: (21) 2257-2556 ou fc@fcrj.org.br
O ORATÓRIO ESTHER DO RABINO SARAVAL Uma jornada do hebraico ao grego, ao inglês e de volta ao hebraico
André Nudelman Foi em Amsterdam, no fim do século XVIII, que surgiu um Purim Shpil muito curioso: um oratório baseado na narrativa bíblica de Ester e Mordechai, inspirado numa peça composta décadas antes pelo conhecido G. F. Handel.
E
ntre todas as festas do calendário judaico, Purim é bem peculiar. É um momento em que dois mundos costumeiramente separados se juntam para festejar. O secular e até mesmo o profano se mascaram e, com muita alegria, tomam parte no ritual. Fantasias e máscaras, muito “schnaps” em meio aos textos da liturgia e um descontraído clima de brincadeira são formas tradicionais de se comemorar a data. Há também o costume de se encenar um Purim Shpil, uma representação teatral do rolo (Meguilá) de Ester, o texto bíblico que narra os acontecimentos que deram origem à festa. E foi em Amsterdam, no fim do século XVIII, que surgiu um Purim Shpil muito curioso: um oratório (gênero musical onde cantores e orquestra contam uma história, muitas vezes com temática religiosa) baseado na narrativa bíblica de Ester e Mordechai. A ideia teria surgido a partir de outra peça, composta algumas décadas antes pelo conhecido G. F. Handel, cuja obra traz, entre outras composições, diversos oratórios de grande sucesso já à época. Entre eles, o seu oratório Ester. O novo Purim Shpil foi baseado diretamente no libreto – o texto – usado por Handel, e coube ao rabino Jacob Saraval fazer a sua tradução e adaptá-lo ao hebraico. A música, inédita, seria composta por Cristiano Lidarti (Viena, 1730 – Pisa, 1795). Jacob Saraval (1708-1782), nascido em Veneza, vinha de
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Páginas do oratório Esther, completado em 1774 e que ficou perdido por mais de duzentos anos, sendo redescoberto em 1998.
uma família proeminente que, originária da Alemanha, se fixara na Itália no Séc. XVI. Poeta, pregador, escritor e filósofo, foi convidado para assumir o posto de rabino em Mântua em 1752. Costumava viajar e, desta forma, fazia o intercâmbio entre diversas comunidades, trocando ideias, trazendo novidades e construindo pontes. Completado em 1774, o novo oratório ficou perdido por mais de duzentos anos, vindo a ser descoberto quase por acaso em 1998. Só foi publicado novamente no ano 2000 pela Universidade Hebraica de Jerusalém. E, de fato, poucos textos bíblicos se prestam tão bem a uma representação teatral. Existem personagens interessantíssimos, um cenário monumental, uma história rica em detalhes e uma trama muito bem enredada. A história se passa na Pérsia, durante o reinado de Achashverosh. Ester, a rainha, e Mordechai, seu primo, movimentam-se em meio às intrigas da corte para impedir o decreto urdido por Haman, o ministro do rei, que pretendia aniquilar todos os judeus de suas cento e vin-
te e sete províncias. São bem sucedidos: os judeus são salvos, o vilão cai em desgraça e Ester e Mordechai são alçados a posições de destaque e respeito. E escrevem essa história, que deveria ser contada a cada geração, a cada ano. O livro bíblico de Ester tem ainda uma particularidade, algo raro em meio a todos os demais escritos bíblicos: o texto não traz, nem mesmo uma única vez, o nome ou a presença de Deus. Essa característica, por um lado, permitiu que Purim fosse comemorado sempre com mais liberdade criativa. É possível até que, dado o caráter mais liberal e carnavalesco da festa, essa omissão escrita do Deus tenha sido proposital, a fim de evitar exposições desnecessárias ou, até mesmo, para preservar essa singular liberdade. Ao mesmo tempo, sempre chamou a atenção essa tão curiosa ausência: como poderia um livro inteiro do Tanach – a expressão, em forma de literatura, da palavra divina – prescindir da presença e do nome desse Deus? Uma das propostas mais geniais da cultura judaica foi justamente a ideia de que os nossos textos, embora divi-
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Capa e páginas do oratório Esther; o oratório é um gênero musical no qual cantores e orquestra contam uma história, muitas vezes com temática religiosa.
nos, não se sustentam por si só. Nenhum nagens principais: Achashverosh. Por vePoucos textos texto bíblico, nem mesmo os angulares zes, ele é tratado como “o rei Achashvebíblicos se prestam Shema Israel e os Dez Mandamentos esrosh”. Por outras, simplesmente como “o tão bem a uma tão completos se considerados somente rei”. E então, nesses casos, nossos sábios representação teatral. em sua forma e significados literais. O entenderam que, aí, afinal, poderia estar, escrito é só o ponto de partida, e o texto oculto e fantasiado, o Deus. E, para coExistem personagens somente se torna completo e significaninteressantíssimos, um lorir essa ideia, sugeriram que alguns deste quando recebe, em tempo real, o aporses momentos em que “o rei” poderia ser cenário monumental, te e as ideias de seus leitores: é a isso que “O Rei” fossem cantados e lidos de uma uma história rica em chamamos de interpretação. forma especial. detalhes e uma trama E a tradição, de forma inteligentísO texto usado por Saraval, por outro sima, propõe exatamente que qualquer lado, traz sim a menção expressa a Deus, muito bem enredada. interpretação do texto, a qualquer tema quem se reza e se pede pela salvação do po e em qualquer idioma, também foi entregue ao povo povo. Isso porque o original em que o libreto Handel se de Israel no monte Sinai, quando do recebimento das tábaseia vem de uma versão diferente do texto de Ester, esbuas da lei. crito entre os séculos III e II antes da Era Comum, quanAssim, todo esse mundo de ideias – as existentes e as do o Tanach foi traduzido para o grego (e modificado) por que estão por vir – compõem, lado a lado com o texto de um grupo de setenta tradutores designados para esse fim. pedra (ou de pergaminho), as bases dessa cultura que se Seria a primeira tradução grega do texto bíblico a ser inconstrói e se define a cada tempo. Ou seja: o texto, para corporada ao acervo da biblioteca de Alexandria. ser, de fato, divino, precisa ser complementado pelo bomÉ claro que essa versão para o grego, conhecida como senso e pelo aporte do homem. Nesse sentido, é curioso Septuaginta, não viria a fazer parte do cânone judaico, mas como algumas correntes judaicas, que são também frunão deixa de trazer elementos interessantes e é também to direto dessa tradição criativa (caso contrário estariam, mais uma ferramenta alegórica que pode enriquecer e cotambém, a viver como nos tempos do deserto), tenham lorir a sua interpretação. se tornado baluartes de uma proposta de vida judaica toSaraval, ao traduzir para o hebraico o texto usado na talmente engessada e impermeável ao mundo e ao pensaobra de Handel, fez ainda algumas adaptações que, muimento que evolui. to além de somente uma tradução, expressavam todo um Mas como, então, através da interpretação, o nome de conjunto de ideias e aspirações judaicas de então. Deus foi estar presente, ao mesmo tempo em que ausenTrês pontos são centrais, comparando os dois textos: te, na história de Purim? Tem a ver com um dos persoEm primeiro lugar, existe uma expressiva diminui-
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ção da importância e do status dos reis terrenos. A nossa tradição nunca viu com bons olhos a figura de um monarca absolutamente poderoso e a quem todos deveriam prestar obediência cega. Afinal, só deveria haver Um soberano – o Deus. Mesmo os reis de Israel, no curto período da nossa história em que fomos uma monarquia, não aparecem muito bem na foto. Foi, definitivamente, uma experiência sem sucesso em meio aos tantos caminhos judaicos pelo tempo. No próprio texto da Meguilat Ester, o rei Achashverosh é quase uma caricatura e, apesar de reinar sobre mais de uma centena de pátrias, aparece quase como um bufão. Outra questão interessante tem a ver com as ideias de diáspora e exílio. Os acontecimentos narrados em Purim teriam acontecido em um período posterior à destruição de Jerusalém, em meio ao tempo no exílio que se seguiu. E o texto usado por Handel, bem como a própria Meguilá, marcam esse fato com bastante destaque. Saraval, por outro lado, coloca menos ênfase na ideia do exílio e busca pensar a dispersão judaica mais como uma diáspora, refletindo a situação e seu entendimento das comunidades judaicas à época. E, por fim, um recurso literário bem característico da poesia judaica religiosa desde a Idade Média: a inclusão de referências bíblicas textuais ao longo do texto. Trechos dos Salmos, do Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos) e outras fontes são poeticamente encaixados no texto. Constroem rimas, fazem alusão a ideias específicas e adicionam a essas passagens uma nova camada de significados. O resultado final do trabalho de Saraval é um texto que partiu do original hebraico e fez uma primeira parada no grego da Septuaginta. De lá foi apropriado por Handel numa composição em inglês e, num verdadeiro “telefone sem fio”, retornou ao hebraico, considerado pelo rabino como sendo o idioma adequado para uma obra religiosa judaica. Seguem, então, alguns trechos do oratório de Saraval traduzidos para o português, em mais um pequeno passo idiomático, necessário para a apreciação dos leitores de Devarim. Como está dito na prece “Aleinu” em sua esperança de paz universal: Possam todos os habitantes do universo saber e entender / Que para Ti todo joelho deve se curvar / E todo idioma proferir fidelidade.
Teshuat Israel al Iedei Ester A SALVAÇÃO D E I S RAE L PE LAS MÃOS D E E STE R de Cristiano Lidarti e Jacob Saraval Trechos selecionados: Donna Israelita (Abertura) Silenciem, ondas Delicadamente, todos os ventos Abram espaço, criaturas vivas Para que o coração de Ester possa descansar! Anjos, não a desertem E, a cada dia, guardem seus passos! Ester: Rei dos Reis, El Shadai Que olha para a terra e a faz tremer A ti, em oferenda, levanto minhas mãos Teu louvor para sempre em meus lábios. O que é isto que meu coração anseia Vestir mais fino linho e uma coroa de ouro? Os reis da terra e toda a sua glória Nada são diante do Deus Alto. Donna Israelita: Acordem, harpa e instrumentos de música Ao Eterno se abram em cânticos Nossos caminhos, retos e claros Ele tornará Refúgio e segurança em tempos de aflição. Coro: Cantem a Elohim, tudo o que é vivo Que até o céu levante sua voz Cantem a Elohim, meus irmãos Pois eterna é Sua bondade. Agradeçam a Ele e louvem o Seu nome Ele que exaltou a tribo de Seu povo. Mordechai (lamentando-se após saber do decreto sobre a destruição dos judeus): Yarden (Jordão), yarden, devagar com tuas águas Irrigas ainda um campo ou um jardim? Nutres cada folha e cada verde? Ainda se alegram tuas montanhas E todos os teus montes cantam
André Nudelman é músico e chazan.
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Cantam louvores ao Eterno, pois “o Eterno é bom”? (trecho do Livro dos Salmos – Hodu Ladonai Ki tov, ki leolam chasdo) Ester e Mordechai (quando Mordechai conta a Ester o que se passara e pede que ela interceda junto ao rei): Ester: – Mas por que devo eu morrer, já que não fui chamada pelo rei? Mordechai: Procure o teu rei, talvez ele se comova E confie em Deus, que Ele trará o bem Se não para interceder por teu povo, Por que, então, ao trono subiste? Vista-te de força, não falharás! A bondade do rei despertarás E o Eterno, a ti protegerá. Como esqueceste de teu povo? Se, pelos teus, deves perecer, Então a morte é mais nobre que o trono. Achashverosh e Ester (quando Ester vai ao rei para interceder por seu povo): A: Quem é que ousa vir a mim sem ser chamado? Só há um destino para ele: Ele morrerá, pois me insulta! Ah... mas é Ester!! A lei condena... mas o coração permite! E: Oh, meu espírito... estou ficando sem ar... (e segue seduzindo o rei) Se é bom e agradável ao rei Se o pão de sua serva aceitar Que ele então venha comigo Que venha o rei, que venha com Haman Venha hoje à minha festa de vinho. E: Todo o meu amor, lá te darei... A: Lá, sem fim me alegrarei E: Que venha o rei a suas delícias A: E juntos, hoje, beberemos de nosso amor. Donna Israelita: Sua face brilha em júbilo, não há rancor Para os aposentos da rainha ele voa! Ela logo o seduziu E sua ira se aquietou.
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Coro: Do próprio céu ela foi mandada Para desarmar a ira, e conseguiu! Ela abraça seu amado E o conquista com seu amor! Haman (ao pedir ajuda a Ester): Imploro por tua misericórdia, rainha Curvado ao chão, humilde e quebrado Se falares ao rei com palavras gentis Tuas palavras doces ele não poderá ignorar. Ester: Vilão arrogante, longe de mim!! Meus ouvidos são surdos a teus galanteios! Que homem: inflado em seu momento de poder Mas, quando em aflição, seu coração é fraco! Achashverosh (sobre Mordechai): Grandeza e tesouros ele terá Pois, à sua frente, está somente o rei Sua coroa em sua cabeça brilhará Pois desejo que ele seja honrado Sua reputação, aclamada entre as nações E seu nome, com incenso lembrado! Coro: Ele salvou o trono do rei Sua justiça, para sempre permanecerá! Haman: Trema, orgulho, eis o poder despedaçado De muito alto logo caí Não há saída para esta aflição Meus anseios e meu legado, esmagados. Aquele que se fecha ao grito dos oprimidos Ele, também ele, haverá de clamar em vão. (o malvado “aprende uma lição”, bem no estilo das fábulas que buscam transmitir um ensinamento ao final) Coro (final): De uma mão forte nos redimiu o Deus Cantem em júbilo, todo Israel Toquemos nos toques do shofar Pois Ele é um escudo para os que nEle confiam. Agradeçam, terra e céus, agradeçam juntos! Quem é como o Eterno? Quem é seu igual? Haleluia!
Shaná
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200 ANOS DE LITURGIA PROGRESSISTA As origens sefaraditas do Movimento Reformista Annette M. Boeckler
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omingo, 18 de outubro de 1818, o quarto dia de Sukot, foi um dia especial na cidade de Hamburgo, Alemanha. Apenas cinco anos tinham se passado da vitória alemã sobre os franceses na grande batalha de Leipzig1, na qual a Prússia, em coalizão com Suécia, Rússia e Áustria, derrotou o exército de Napoleão. Esta vitória foi percebida pelos judeus alemães como o marco inicial de sua liberdade social, nacional e religiosa. Fora dos guetos, finalmente tendo quase os mesmos direitos de todos os cidadãos e agora esperando pelo novo tempo onde os muitos condados alemães se tornariam uma nação com administração e legislação unificada. Então, não foi por acaso que o Templo de Hamburgo – como passou a se chamar a nova sinagoga – tenha sido inaugurado no aniversário daquela batalha. A prédica do sexto aniversário do Templo (veja box) mostra bem o clima da época: a vitória na batalha de Leipzig é comparada nada mais nada menos do que com a revelação da Torá a Moisés no Monte Sinai! O grupo de pessoas que fundou a comunidade ansiava por uma nova forma de judaísmo, livre da escravidão na qual os judeus na Europa haviam vivido desde sempre (dentre outras coisas, não lhes era permitido construir sinagogas visíveis, tinham que pagar impostos especiais, não podiam morar onde quisessem). O primeiro endereço da comunidade foi a esquina das ruas Erste Brunnenstrasse e Alter Steinweg, bem no centro da cidade, mostrando que o tempo das sinagogas escondidas (lembrem-se da Alt-Neue-Schule de Praga, que fica abaixo do nível da rua) havia acabado. O santuário abriu espaço para 142 homens e 107 mulheres, sentados separadamente, como de costume na Alemanha, inclusive nas igrejas, daquele tempo.
A vitória da Prússia na batalha de Leipzig foi percebida pelos judeus alemães como o marco inicial de sua liberdade social, nacional e religiosa. Fora dos guetos, finalmente tendo quase os mesmos direitos de todos os cidadãos e agora esperando pelo novo tempo onde os muitos condados alemães se tornariam uma nação com administração e legislação unificada.
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A R EVE LAÇÃO D E D E US NOS CAM POS D E LE I PZ IG Trecho de abertura do sermão proferido no Templo de Hamburgo em 18 de outubro de 1824 pelo rabino G. Salomon, em comemoração ao sexto aniversário da comunidade e décimo primeiro aniversário da vitória da Prússia na batalha de Leipzig. O texto demonstra com perfeição o clima entre os judeus na época. A batalha de Leipzig é tida como sendo tão relevante quanto, nada mais nada menos, a revelação de Deus a Moisés no Sinai. Tenham todo o cuidado, cuidem-se escrupulosamente de não esquecer as coisas que viram com seus próprios olhos, para que não se afastem de seu espírito enquanto estiverem vivos. E as façam conhecidas de seus filhos e dos filhos de seus filhos. [Devarim / Deuteronômio 4:9] Assim, o homem de Deus, Moisés, falou no passado ao povo de Deus, o antigo Israel, exortando-os a nunca esquecer a revelação do Sinai, a manter a memória do milagroso evento no coração, e a mantê-la viva nas gerações posteriores. Podemos imaginar que tal recomendação e admoestação não seriam necessárias – como Israel poderia esquecer uma bênção tão grandiosa, sem precedentes na história do mundo! Mas aquele que, segundo as palavras da Escritura, conhecia a grande casa de Deus, também conhecia o pequeno coração do homem; ele [Moisés] sabia muito bem que o homem geralmente tem uma memória muito fraca, especialmente quando desfruta de uma série de anos sem perturbações … O antigo Israel jamais deixou de considerar a admoestação de seu grande mestre; esse evento maravilhoso nunca foi esquecido. Que todos nós aprendamos com isso, amados ouvintes! Deus também se revelou a nós: se revelou lá nos campos de Leipzig, se revelou em relâmpagos e trovões; e todo o povo sentiu as vozes, os raios, a terra fumegante, estremeceu e clamou. Deus veio para julgar as nações; Ele desceu de sua santa morada, nós o vimos, terrível e ao mesmo tempo tão amável, poderoso, gracioso, glorioso, grande! O texto completo em alemão pode ser encontrado em http://sammlungen.ub.uni-frankfurt.de/freimann/content/ pageview/2008889 ou buscado na internet por seu título original: Die Offenbarung Gottes auf Leipzigs Gefilden.
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Primeiro prédio do Templo de Hamburgo, 1818-1844.
Interior do primeiro prédio do Templo de Hamburgo, 1818-1844.
A disposição do interior era exatamente igual à das sinagogas hispano-portuguesas, como as de Amsterdã e Londres. Entre os anos 1590-1939 Hamburgo foi a única cidade alemã com uma comunidade judaica hispano-portuguesa. O judaísmo sefaradita se instalou em Hamburgo através de uma emigração portuguesa do final do século 16. Chegaram como cristãos novos, pessoas cujos pais tinham sido judeus, mas que foram forçados pela tortura, ou ameaça dela, a se tornarem cristãos, e que não haviam conseguido sair de Portugal até o século 16. Eles praticavam o judaísmo secretamente, se mostrando em público como bons cristãos.
Tal como na Holanda e na InglaterO judaísmo reformista be a Torá de seus pais, mas cada geração ra também em Hamburgo alguns dos também adiciona à Torá interpretações, acabou se tornando cristãos novos retornaram à sua religião comentários e novas obras para mantêasquenazita. As original em seus novos locais de mora-la relevante para a próxima geração. Isto primeiras influências dia. Assim, de repente, no século 16 em vale tanto para a Torá como para a liturHamburgo, onde os judeus não estavam sefaraditas portuguesas gia, que é composta basicamente por nosautorizados a residir, comerciantes porforam esquecidas com sas palavras para e sobre Deus. Então aqui tugueses influentes e outras pessoas que abre-se o espaço para adicionar as palavras o decorrer do tempo. já viviam lá, se revelaram judias e fundos nossos tempos. Portanto, os editores daram uma sinagoga espanhola-portu do novo Sidur, judeus livres para pratiguesa. Não foram banidos, talvez por interesses econôcar sua religião como quisessem, refletiram sobre os texmicos deste grande centro comercial, e prosperaram. Titos das orações. Quais das palavras antigas ainda eram renham tido a experiência de viver na cultura judaica e tilevantes? O que era passível de ser mal interpretado? Haveram que redefinir sua identidade judaica trazendo para via algo faltando? Com que um serviço judaico moderno ela alguns conceitos que conheceram no cristianismo catem que parecer? tólico. Então, por exemplo, eles pensaram no judaísmo Foi com base nisso que os judeus da nova comunidacomo uma religião, separando o pensar religioso e o vide construíram sua liturgia. E foi um sucesso! O serviço ver no mundo comum. A identificação espiritual com o religioso naquele estilo logo se tornou famoso em todo judaísmo era mais importante do que o conceito da obeo mundo não só pela sua adequação à época, mas tamdiência meticulosa aos mandamentos. O decoro nos serbém porque os judeus portugueses mantinham intensas viços foi considerado muito importante, da mesma forrelações comerciais entre si. Eles se encontravam duas vema como o era nas igrejas. zes por ano na feira de Leipzig: judeus de Hamburgo, de Muitos séculos depois, no início do século 19, os asLondres e de Charleston, South Carolina. Há um relaquenazitas ainda não tinham sido autorizados a se estabeto num diário escrito em 18363: “Hoje à noite eu desfrutei de algo que em casa infelizmente nunca pode ser ofelecer em Hamburgo e viviam em Wandbeck e Altona, na recido”. E então o autor descreve um serviço religioso feiépoca cidades próximas, que hoje já são partes da cidato no estilo do Templo de Hamburgo, conduzido durande. Assim que a forma sefaradita hispano-portuguesa era a te a feira de Leipzig. única forma judaica da cidade e, portanto, percebida como a maneira correta de vivenciar o judaísmo. Não é surpresa alguma, então, que a nova comunidade constituída para A primeira edição do livro responder à chegada da emancipação aos judeus tenha surde reza de Hamburgo, gido no seio dos judeus sefaraditas2. impresso em 1819. A disposição da sala, os costumes, a maneira de pronunciar o hebraico, a música e a redação das orações no livro de reza (Sidur) criado especialmente para a inauguração da comunidade, seguiam a tradição hispano-portuguesa. E esse livro de reza, que faz 200 anos em nossos dias, é o primeiro livro de reza reformista. Pois ele não apenas copiou a liturgia hispano-portuguesa tradicional, mas introduziu também uma nova maneira de pensar sobre a liturgia em geral. A liturgia, sim, precisa utilizar as palavras hebraicas do passado. É a base sobre a qual construímos nossa presença judaica e é uma conexão para as gerações passadas. Mas não podemos apenas ficar no passado. Cada geração rece-
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Da esquerda para a direita: O segundo prédio do Templo de Hamburgo, Poolstrasse 12-13; o interior do segundo prédio do Templo de Hamburgo e o espaço do segundo prédio do Templo de Hamburgo hoje em dia, que se tornou o pátio de uma garagem. A comunidade vendeu o lugar em 1931 quando se mudou para um novo prédio.
Durante os primeiros 40 anos houve paz em Hamburgo (e em Leipzig), sendo que a nova comunidade reformista já tinha deixado de ser um grupo pequeno, tendo atraído muitos seguidores. Em 1841 uma segunda edição do livro de reza foi lançada. E foi ela que iniciou um conflito de ramificações decisivas. O rabino Isaac Bernays – o respeitado rabino-mor da área de Hamburgo e também o responsável pela introdução do sermão em alemão no serviço religioso ortodoxo (o que em si foi uma atitude renovadora) – lançou em 16 de outubro de 1841 um anátema contra a segunda edição do livro, dizendo que quem utilizasse aquele Sidur para rezar não estaria cumprindo sua obrigação diária da mitsvá de rezar. Foi um choque. Quatro dias depois a associação do Templo respondeu contestando o anátema e afirmando que o livro tinha tudo o que era necessário e que apenas combinava tradição e modernidade. A luta continuou e vários rabinos em toda a Alemanha foram convidados a dar suas opiniões. Esse foi o início do judaísmo reformista como movimento, porque nesse momento os vários rabinos foram convidados a se posicionar sobre as seguintes questões: O que é o judaísmo moderno? É possível adaptar o livro de rezas ao tempo moderno? É possível que existam mais livros de rezas do que o livro de reza asquenazita que eles conheciam? Os nomes dos rabinos que disseram que o caminho de Hamburgo era bom e certo são hoje famosos na história do
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judaísmo reformista: Abraham Geiger, Samuel Holdheim, Ludwig Philippson, Leopold Stein, Isaac Noah Mannheimer, dentre outros. Todos eles afirmaram principalmente que sim, é possível combinar tradição e modernidade. O Judaísmo sempre se adaptou, sempre foi progressista. E a partir disso muitos rabinos começaram a editar os seus livros de reza com viés moderno. Claro que eram livros asquenazitas, pois apenas em Hamburgo a comunidade era sefaradita. E assim aconteceu que o judaísmo reformista acabou se tornando asquenazita. As primeiras influências sefaraditas portuguesas foram esquecidas com o decorrer do tempo. Já no ano da luta sobre a segunda edição do Sidur, a comunidade havia crescido e o prédio não mais a comportava. Ela, então, constrói um novo local, dessa vez no estilo típico das sinagogas do século 19. Um marco para a cidade, idealizado para imitar o templo de Salomão. Um grande edifício que mostrava o orgulho e a autoconfiança dos judeus de Hamburgo. Foi inaugurado em 5 de setembro de 1844 e usado até 1931. Já o último endereço da comunidade teve vida curta, não perdurou por mais que oito anos. Depois de três anos de planejamento e uma competição arquitetônica, em 30 de agosto de 1931 um novo prédio foi inaugurado. A nova sinagoga era um espaço muito moderno. Um exemplo da arquitetura da época. A evolução arquitetônica reflete bem os fundamentos daquela comunidade, sempre
O terceiro prédio do Templo de Hamburgo, 1931-1938.
alinhada com seu próprio tempo e com a cultura do país. O terceiro prédio é um edifício típico da Alemanha dos 1930. No interior podia se ver o órgão em frente. A bimá está perto do Aron da Torá. Tinha balcões, por que mulheres e homens ainda não se sentavam juntos, tal como continuava a ser o costume nas igrejas daquele tempo. Na Kristallnacht, a noite entre os dias 9 e 10 de novembro de 1938, o interior do edifício foi vandalizado e em seguida os nazistas fecharam o templo. O último rabino da comunidade, Bruno Italiener, se mudou para Londres, onde realmente não recuperou a alegria de viver e veio a falecer – alguns acham que ele cometeu suicídio – em 1956. Então temos neste ano dois aniversários redondos: os 200 anos da primeira sinagoga reformista, caracterizada assim pela publicação do primeiro livro de reza progressista. E, num evento trágico, a destruição pelos nazistas dessa comunidade há 80 anos. Mas a forma de judaísmo que o Templo de Hamburgo iniciou não só sobreviveu como é hoje em dia o maior movimento religioso do judaísmo. A partir da feira de Leipzig nos anos 1820, começa a jornada do judaísmo reformista nos Estados Unidos, onde em 1825 judeus portugueses inauguraram a primeira sinagoga reformista nas Américas, em Charleston, South Carolina. E também para o restante da Europa, quando, em 1841, chega a Londres, tendo continuado a se expandir continuamente para mais e mais países em todos os continentes. Hoje em dia existem 1,8 milhão de judeus reformistas
em 1.200 congregações distribuídas por mais de 50 países. O país com a mais longa tradição reformista é, claro, o seu lugar natal, a Alemanha, onde o judaísmo foi destruído pelos nazistas e o Movimento Reformista só retornou em 1995 com a ajuda de judeus norte-americanos e ingleses. O país mais jovem a entrar para o movimento reformista é Portugal, há apenas dois anos. Ele também chegou ao Brasil em 1936 trazido por rabinos alemães e o primeiro livro de rezas reformista brasileiro foi uma tradução do último livro de reza reformista lançado na Alemanha antes da Shoá, traduzido para o português em 1949 pelos rabinos Henrique Lemle da ARI e Fritz Pinkuss da CIP. E tudo isso começou há 200 anos, pela publicação de um livro em Hamburgo. Porque ideias novas trazidas para textos antigos é como o “Povo do Livro” sempre se desenvolveu.
Notas 1. Na Wikipedia: “Völkerschlacht zu Leipzig” ou “Battle of Leipzig”. 2. Para mais detalhes e para os argumentos acadêmicos vide Annette Boeckler, “A influência portuguesa sobre o Judaísmo Progressista: Um aspecto negligenciado”, Cadernos de Estudos Sefaraditas 17 (2017), 27-53. 3. Wissenschaftliche Zeitschrift für Jüdische Theologie, vol. 2, nº 3, 1836, p. 493-498.
A doutora Annette Boeckler é autora de vários artigos sobre liturgia judaica, por exemplo, nos livros da série “Prayers of Awe” de Lawrence A. Hoffman. Atualmente é estudante rabínica no Leo Baeck College de Londres e diretora do departamento judaico do ZIID: Instituto para o Diálogo Inter-religioso em Zurique, Suíça.
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Praça Leonard Bernstein em Tel Aviv; ao fundo o Eichal Hatarbut, a sede da Israel Philarmonic Orchestra.
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O CONCERTO QUE MUDOU A GUERRA Bernstein e a Filarmônica de Israel
Daniel Avzaradel Durante a ascensão de Hitler ao poder, Bronislau Huberman teve a perspicácia de perceber que ele poderia salvar muitos artistas judeus ao mesmo tempo em que realizava seu sonho de fundar uma orquestra no yishuv judaico da Palestina.
L
eonard Bernstein foi um compositor, pianista, maestro, autor e educador estadunidense do início do século XX. Nascido em 1918 com o nome de Louis Bernstein na cidade de Lawrence, no estado de Massachusetts, filho de imigrantes judeus ucranianos, ganhou fama mundial como diretor musical da Orquestra Filarmônica de Nova Iorque. Conduziu as principais orquestras do mundo e suas composições ficaram mundialmente conhecidas. Entre elas estão “West Side Story”, que estreou em 1957, o musical da Broadway “Peter Pan”, de 1950, e a opereta “Candide”, de 1956. Também fez apresentações em programas de televisão que educavam o público sobre música clássica, desde 1954 até seu falecimento em 1990. Em 27 de abril de 1947, há mais de 70 anos, Leonard Bernstein regeu pela primeira vez a Palestine Philharmonic Orchestra (Orquestra Filarmônica da Palestina) em Tel Aviv, orquestra criada por músicos da comunidade judaica da Palestina Britânica. A série de concertos em 1947 teve apresentações em Jerusalém, Tel Aviv, Haifa e em Ein Harod, o primeiro kibutz do Vale de Jezreel, onde Bernstein e sua orquestra se apresentaram a céu aberto, sob as estrelas, para um público de 3.500 pessoas.
A Orquestra Filarmônica de Israel A IPO (Israel Philharmonic Orchestra) foi fundada, originalmente, com o nome de Palestine Philharmonic Orchestra, dado pelo violinista Bronisław Hu-
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Bernstein com o cartaz da temporada de 1946/47 da Orquestra Filarmônica da Palestina.
berman em 1936, durante o Mandato Britânico da Palestina, instituído pela Liga das Nações e que perdurou de 1922 até 1948. A orquestra mudou de nome tão logo Israel se tornou um país independente. Nascido em Częstochowa, na Polônia, Huberman estudou no Conservatório de Varsóvia e aos 14 anos de idade já era considerado um violinista prodigioso. Fazendo turnês pela Europa conheceu um jovem pianista de seis anos de idade, o mais tarde lendário Arthur Rubinstein. Os dois iniciam uma amizade que duraria a vida toda. A primeira visita de Huberman à Palestina foi em 1929, quando, entusiasmado com o projeto sionista, adquiriu o objetivo de estabelecer um centro de música clássica de excelência na Palestina. Durante a ascensão de Hitler ao poder, Huberman teve a perspicácia de perceber que ele poderia salvar muitos artistas judeus, ao mesmo tempo em que realizava seu sonho de fundar uma orquestra no yishuv judaico da Palestina. Huberman fez audições com músicos por toda a Europa. Os selecionados recebiam a promessa de um contrato e, o mais importante, vistos de saída de sua terra natal para a Palestina, o que seria impossível de obter sem um contrato de trabalho. Numa angustiante “escolha de Sofia”, quem
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tinha mais talento ganhou a oportunidade de se salvar da tragédia que estava no horizonte. Huberman também se empenhou em arrecadar dinheiro para os músicos e suas famílias. Fez parceria com Albert Einstein para realizar uma exaustiva viagem para a angariação de fundos dos EUA em 1936. No final da turnê, o dinheiro para a orquestra estava garantido e sessenta artistas de alto nível da Alemanha e da Europa Central foram contratados. O concerto inaugural da orquestra aconteceu em 26 de dezembro de 1936 sob a regência de ninguém menos que o maestro italiano Arturo Toscanini, um ferrenho opositor do regime fascista de Mussolini. O consagrado maestro aceitou reger uma orquestra recém-formada num país ainda não formado para demonstrar seu apoio aos judeus, num momento em que Mussolini se aproximava mais e mais das políticas racistas da Alemanha nazista. O primeiro regente principal da orquestra foi William Steinberg, maestro germano-americano que foi diretor musical da Ópera de Frankfurt, posição que ocupou até 1933, quando foi dispensado pelo Terceiro Reich alemão por ser judeu. Uma curiosidade é que a IPO nunca teve um dire-
tor musical fixo até 1977, quando o ilustre maestro indiano Zubin Mehta é apontado como seu primeiro diretor musical. Em 1981 esse título é elevado e Mehta vira Diretor Musical Vitalício. Não obstante o “vitalício” do título, Mehta, hoje com 82 anos de idade, conduziu sua substituição, prevista para 2020, pelo muito jovem (30 anos hoje) maestro israelense Lahav Shani. Zubin Mehta é reverenciado em Israel. Em todos os momentos de perigo ele largou tudo o que estava fazendo e foi para Israel prestar solidariedade. Assim que Lahav Shani tem uma responsabilidade enorme pela frente.
Voltando a Bernstein
Leonard Bernstein conduziu a Filarmônica de Israel em 25 temporadas ao longo de quarenta anos e foi nomeado Maestro Laureado pela mesma. Antes mesmo da criação de Israel, Bernstein já tinha gran-
de admiração pela comunidade sionista da Palestina, que lutava desde o final do século 19 por um Estado nacional. Ele havia escrito para seu mentor, o maestro Serge Koussevitzky: “Há uma força e devoção nessas pessoas que é formidável. Eles nunca deixarão a terra ser tirada deles; todos eles morrerão antes que isso aconteça. E o país é lindo além de qualquer descrição”. Em outubro de 1948, um ano depois de sua estreia com a Orquestra Filarmônica da Palestina, ele retorna a Israel e escreve novamente para Serge: “Eu sinto que vou passar mais e mais tempo aqui a cada ano. Isso faz com que me apresentar nas diversas cidades da América pareça tão pouco importante – como se não precisassem muito de mim lá, enquanto eu realmente sou necessário aqui!” E ele estava certo. Ele era muito mais necessário em Israel do que em qualquer outro lugar do planeta.
Em 19 de novembro de 1948, a ONU ordena que Israel retire suas tropas da cidade de Be’er Sheva, uma região estratégica para a sobrevivência do recém-criado Estado Judeu. No dia seguinte, trinta e cinco membros da IPO chegam ao deserto do Neguev, na cidade de Be’er Sheva, em um ônibus blindado, liderados pelo maestro Bernstein para cumprir sua agenda.
Bernstein à frente da Filarmônica de Israel, em Be’er Sheva, 20 de novembro de 1948.
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O Concerto que mudou o curso da guerra
para o sul, temendo um ataque surpresa iminente. Ataque este que nunca aconteceria, visto que as “tropas” eram apenas amantes da música aliviando um pouco da tensão existencial da guerra com um pouco de arte. Esse movimento desarticulou completamente a ofensiva egípcia sobre Jerusalém e permitiu que Israel mantivesse o controle sobre a parte ocidental da cidade. Alguns argumentam que a equivocada decisão egípcia decidiu o curso da guerra. Na verdade, ninguém sabe ao certo se a transferência das tropas egípcias de Jerusalém para o Neguev foi determinante para a vitória israelense, mas para fins poéticos eu gosto de pensar que sim. O cientista químico e primeiro presidente de Israel, Chaim Weizmann, justificou a decisão egípcia de mover suas tropas: “Quem teria tempo, em plena guerra, para ouvir um concerto de Mozart?!” Em 24 de fevereiro de 1949 Israel e Egito assinam um armistício; em 23 de março é a vez do Líbano; em 3 de abril, a Jordânia, e em 20 de julho, a Síria. A guerra chegou ao final com Israel vitorioso em um confronto com improvável chance de sucesso depois de enfrentar seis exércitos regulares simultaneamente. O maestro retornou a Israel por diversas vezes, e em 1967 conduziu um concerto no Monte Scopus para comemorar a reunificação de Jerusalém, após a Guerra dos Seis Dias. Leonard Bernstein, um dos músicos mais talentosos e bem-sucedido de seu tempo, morreu na noite de 14 de outubro de 1990 em seu apartamento no Upper West Side de Manhattan. Ele tinha 72 anos de idade e morreu de ataque cardíaco causado por insuficiência pulmonar progressiva.
Estima-se que cinco mil pessoas compareceram. Às 15h30 o concerto teve seu início. Bernstein tocou três peças para piano consecutivamente, um marco até mesmo para ele.
Israel declara sua independência em maio de 1948 e no mesmo dia é atacado pelos exércitos de todos os seus vizinhos mais o Iraque. A guerra (chamada pelos israelenses de guerra da independência) é desigual, tem um custo pesado em vidas e é longa – só termina em meados de 1949. Mas a população reage com a habitual resiliência judaica e recusa a se deixar abater. A Orquestra Filarmônica honra o “Israel” de seu novo nome e não interrompe sua temporada de concertos. Em 19 de novembro de 1948, a ONU ordena que Israel retire suas tropas da cidade de Be’er Sheva, uma região estratégica para a sobrevivência do recém-criado Estado Judeu. Ignorando a decisão da ONU, as tropas israelenses se mantiveram a postos. No dia seguinte, em 20 de novembro de 1948, trinta e cinco membros da IPO chegam ao deserto do Neguev, na cidade de Be’er Sheva, em um ônibus blindado, liderados pelo maestro Bernstein, para cumprir sua agenda. Como veremos no decorrer do texto, talvez seja possível estabelecer um paralelo entre Moisés guiando o povo hebreu pelo deserto e o ônibus dos músicos, liderados por seu maestro, trafegando pelo deserto no meio da guerra. O concerto foi destinado à população e também aos soldados, alguns ainda feridos e outros em estado de recuperação, prontos para retornar à frente de batalha. Alguns soldados feridos chegaram de ambulância vindos de hospitais próximos para assistir ao concerto. Estima-se que cinco mil pessoas compareceram. Às 15h30 o concerto teve seu início. Bernstein tocou três peças para piano consecutivamente, um marco até mesmo para ele. O Concerto de Mozart Nº 15, K. 450 em Si Bemol Maior, o Concerto Nº 1 de Beethoven em Dó Maior e a Rhapsody in Blue, de Gershwin. Vendo aquela concentração enorme de pessoas em Be’er Sheva, aviões egípcios de reconhecimento que sobrevoavam o Deserto do Neguev reportaram ter visto “grandes pelotões de tropas israelenses concentradas em Be’er Sheva”. O exército egípcio, então, rapidamente reposiciona suas tropas, que estavam em Jerusalém, e as desvia
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Daniel Avzaradel é pianista, compositor, professor, produtor musical e sionista. Fez aliá em outubro de 2013, se formou em Piano e Teoria Musical na Escola de Música Villa-Lobos; foi aluno do pianista João Carlos Assis Brasil, estudou composição para audiovisual no Conservatório Brasileiro de Música e iniciou seu bacharelado em Música – Composição pela Escola de Música da UFRJ com aulas complementares de piano antes de transferir seus estudos para a Universidade de Haifa, onde estuda atualmente.
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DESAFIOS E ESPERANÇAS 70 anos do Estado de Israel
Vittorio Corinaldi
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srael acaba de comemorar 70 anos de sua Independência. Todo judeu, onde quer que esteja, deve se regozijar por esta celebração. E quem teve a ventura de viver os acontecimentos do nascimento do Estado e as dificuldades e vicissitudes dos inícios de sua formação olha com orgulho e espanto para o país moderno e desenvolvido que cresceu daqueles primeiros passos cheios de incógnitas e austeridade; para a admirável força de defesa que se formou a partir dos escassos e inadequados meios com que Israel enfrentou a hostilidade e a agressão dos vizinhos países árabes; para as inéditas conquistas no campo social e humano – conforme se manifestam na ideia do Kibutz, exemplo único de organização comunitária centrada na pessoa humana, ou na absorção em massa de milhões de “olim” acolhidos em sua maioria nas condições de penúria dos primeiros anos; na pesquisa e no pioneiro desenvolvimento científico; na aplicação de técnicas revolucionárias para a racionalização da agricultura e aproveitamento da água; no abnegado esforço de reflorestamento que objetiva uma consciência ecológica ativa e não pretensiosa; no estabelecimento de um regime democrático e parlamentar funcional a despeito das diferentes tradições de governo e de serviço civil trazidas das múltiplas origens, às vezes contrastantes, das “Aliot” e dos grupos étnicos ou religiosos – e em contraste com o quadro apresentado pelos demais países da região. Embora conscientes da problemática e das contradições próprias da urbanização, não podemos deixar de observar com um fundo de admiração o espantoso surgimento de novas metrópoles: em poucos decênios, Tel Aviv deixou de ser a branca primeira cidade judaica, moldada segundo os critérios de escala controlada e de construção funcional apreendidos das escolas de arqui-
Quem teve a ventura de viver os acontecimentos do nascimento do Estado e as dificuldades e vicissitudes dos inícios de sua formação, olha com orgulho e espanto para o país moderno e desenvolvido que cresceu daqueles primeiros passos cheios de incógnitas e austeridade.
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tetura europeias, para, na escala comparativa das dimensões do país, se transformar na grande conurbação que concentra uma atividade econômica e cultural intensa, e procura responder (já com atraso de infraestruturas em relação ao ritmo de crescimento) às solicitações próprias de tal grande centro. Jerusalém, apesar da problemática política que se liga com sua complexa estrutura demográfica, passou de um pequeno pacato vilarejo onde se misturavam respeitáveis professores universitários, elegantes anacrônicas senhoras “jekes” em provincianos “mundanos” cafés e exóticos tipos dos vários grupos religiosos (judeus ou não judeus) numa surrealista espera por um indefinido messias – para se colocar como a desordenada capital ainda contestada por uma hipócrita maioria internacional (da qual os Estados Unidos se excluíram agora em coerência com o atual comportamento de seu imprevisível presidente), palco de contraste entre a reluzente oficialidade e a desleixada provisoriedade de muitos aspectos de seu espaço público, entre sua qualidade de sede de majestosas instituições do poder, da cultura e da academia, mas também de indisciplinados grupos ortodoxos de variadas modalidades, que pleiteiam o domínio do território municipal em favor de seus costumes e interesses. Haifa, rainha do Norte, cenário de uma sadia convivência entre judeus e árabes, ostenta novos bairros residenciais erguidos num constante desafio à sua acidentada topografia, com particulares problemas de tráfego e transporte; e se confronta com uma perigosa poluição que
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acompanha a presença em sua área de baixada de numerosas indústrias, ali instaladas desde os anos 30 do século anterior, em adjacência ao mais importante porto do país. Beer’sheva, de poeirento acampamento beduíno e cruzamento de caminhos de caravanas de camelos, tornou-se uma considerável e frenética capital distrital, polo de atração de indústrias de alta tecnologia, sede de uma das conceituadas universidades e de um dos maiores hospitais do país – centro administrativo da promissora e ainda pouco explorada região do Neguev. Iguais comentários poderíamos fazer sobre muitas outras manifestações da energia vital de Israel nos seus sete decênios. Forçoso é, porém, reconhecer que, ao lado de tantos sucessos, existe hoje uma realidade política que os ofusca, e que pesa perigosamente sobre o futuro que todos desejamos para a excepcional experiência sionista. Há 50 anos Israel ocupa militarmente o território da Cisjordânia palestina, e mantém sua população sob um regime de opressão encorajado por uma facção político-religiosa de inspiração messiânica que promove o assentamento judaico em pleno coração da população árabe, usurpando direitos e propriedades, e usando um comportamento de agressão e desprezo cuja última finalidade é a anexação de todo o território (segundo um mandado divino e numa ativa negação do conceito “dois estados para dois povos”, única fórmula viável para um equilibrado e justo fim do interminável conflito). Inspiradores de tal situação são rabinos fanáticos e extremistas, formados nas “yeshivot” ortodoxas desse mo-
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vimento, propagadores de uma ideoloNascida de um anseio Religioso) e a seus deputados e ministros. gia segregacionista, que vê na rígida inE, baseando-se na constatação que a coade justiça histórica, terpretação do judaísmo como por eles lisão governamental necessita do apoio a existência de Israel concebido a justificativa para sua polítideles para qualquer ato legislativo, estes só pode se consolidar vêm atuando no sentido de implementar ca invasiva e opressora. Talvez embriagados pela repercussão leis e costumes condizentes com sua visão como uma nação de seus pronunciamentos e pelo contí- assentada em princípios de mundo. E então a Ministra da Justinuo incremento da colonização judaica ça, Ayala Shaked, procura insistentemende humanismo e justiça te sabotar a autonomia do Poder Judiciános territórios ocupados, eles alargam seu de raízes judaicas e campo de ação para as fileiras do exército: rio, nomeando juízes com critério políinspiração universal. aqui eles vão gradativamente forçando a tico, que atuem de acordo com as conintrodução de medidas contrárias ao espícepções de seu partido; e o Ministro da rito e à disciplina do exército, solapando valores que semEducação, Naftali Bennet, trabalha aberta ou veladamente pre lhe foram característicos: o incentivo à desobediência para injetar no programa escolar dos vários graus conceitos quando se trata de medidas contrárias à linha expansioe valores do judaísmo ortodoxo, associados a um “patrionista por eles advogada; a exigência de absurdas e exageratismo” de veneração cega (e não sempre condizente com das normas ditadas por seus interesses, e moldadas em rea verdade histórica) pelos logradouros tidos como sagragras obsoletas para uma nação moderna; a separação entre dos por sua citação nas escrituras: tudo isto com uma suhomens e mulheres nas unidades do exército (nas quais o til gradativa abolição do costume civil laico a que a maioserviço de mulheres em igualdade de condições sempre foi ria da população ainda aspira. um dos exemplares aspectos da organização militar); o sisDentro deste quadro, é muito cômoda a posição dos detemático pregar contra o próprio serviço da mulher – em mais pequenos partidos ortodoxos, igualmente cientes de especial nas unidades combatentes, mas também em gesua capacidade de chantagem política. E com isto presenral – dando à simples presença feminina uma suposta inciamos uma insolente ofensiva dos grupos “charedim” antisfluência nociva sobre a eficiência e a “pureza” do comporsionistas em todos os setores em que se lhes possibilite uma tamento do soldado masculino. intervenção: contra a convocação de seus homens (e muito A influência destes “rabanim” se extende também ao menos de suas mulheres) para o exército; contra sugestões partido “Habait Haiehudi” (herdeiro do Partido Nacional que viessem a diminuir o estado de parasitismo a que anos
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de cínico aproveitamento os habituaram; numa constante tentativa de implementar seus princípios religiosos coercivos no setor da Kasherut (o grotesco episódio que se revelou nestes dias é a exigência de que na semana de Pessach os agentes de segurança postados à entrada dos hospitais examinem bolsas e pacotes, não em busca de armas, mas sim de alimentos “chametz” que estão autorizados a confiscar!); no setor dos transportes e do trabalho no Shabat; na retrógrada exigência da separação dos sexos no ambiente público, manifestada no uso de diferentes calçadas pelas mulheres e na obrigação de ocuparem apenas a parte posterior dos ônibus; no controle rigoroso do direito de casamento e da conversão ao judaísmo segundo normas da ortodoxia local, absurdamente mais rígidas e inflexíveis do que as aplicadas nas comunidades da Dispersão, que o Rabinato a mal-contento está disposto a acatar. Muito presente está ainda a disputa em volta da presença feminina na esplanada do “Kotel” em Jerusalém e da condução de orações segundo as vertentes Conservadora e Reformista: nesta disputa tinha-se chegado a uma decisão de compromisso, que foi violada pela retirada dos ortodoxos, incapazes de qualquer concessão, e apoiados pela cooperação interesseira do governo. Este é o mais extremista dos governos de direita já formados em Israel. Todos os elementos da direita liberal mais responsável e moderada do Likud foram dele afastados, e substituídos por nacionalistas radicais, ocupados em demonstrar que seu grau de patriotismo não é menor que o dos partidários dos assentamentos – o que se traduz numa tendenciosa desproporcional alocação de recursos orçamentários em prol daquele movimento colonizador, e em prejuízo de vitais necessidades sociais, particularmente da população menos favorecida; numa legislação intolerante para opiniões e ações de propensão esquerdista; numa tendência de censura da criação artística e cultural; numa incitação dos complexos de discriminação artificialmente fomentados junto às comunidades sefarditas oriundas da África do Norte e do Oriente Médio, e na sufocação da alegada supremacia ashkenazi na produção intelectual: tendência ruidosamente propagada pela Ministra da Cultura, Miri Reguev. Este endereço orientou o caráter que revestiu os eventos comemorativos dos 70 anos numa demagógica vulgarização de nível a gosto do eleitorado populista que cegamente mantém o Likud no poder: um poder ao qual se agarra desesperadamente com lances de absolutismo um
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Primeiro-Ministro covardemente incapaz de manter posições de liderança quando posto diante de pressões eleitoreiras (veja-se a recente fuga da decisão de dar abrigo a refugiados africanos poucas horas depois de tê-la oficialmente anunciado em aberta conferência de imprensa); envolvido em escândalos de corrupção; mais ocupado em fazer passar leis de caráter pessoal, que driblem qualquer ameaça à sobrevivência de sua cadeira, do que cuidar dos verdadeiros interesses do país. Pois sua atuação neste setor é na verdade voltada para os interesses de grandes grupos financeiros que dominam a exploração de recursos naturais, a produção de energia ou as comunicações, criando uma ilusória prosperidade e estabilidade econômica, mais presente nos gráficos e pesquisas de encomenda do que numa real distribuição igualitária do bem comum. E tirando do foco, pelo incentivo de um cômodo nível de consumo da classe média, as crescentes disparidades sociais. Muitos taxarão de negativista ou tendenciosa esta descrição pouco otimista da presente realidade israelense – num momento auspicioso em que se deveria acentuar o positivo e o prometedor. Mas eu insisto em dizer que é preciso apontar para essa realidade para que Israel possa reganhar a indispensável centralidade no mundo judaico, e retornar aos profundos valores humanos contidos no Movimento Sionista. Nascida de um anseio de justiça histórica, sua existência só pode se consolidar como uma nação assentada em princípios de humanismo e justiça de raízes judaicas e inspiração universal. É isto, não a prática mecânica de regras rituais, que poderá dar aos centros judaicos da Diáspora o sopro vital que garanta sua continuidade, e a Israel a legitimidade dessa liderança. Uma cisão entre o Judaísmo mundial e o Estado de Israel – que pode resultar da política irresponsável do atual governo – de rejeição do pluralismo de correntes e promoção unilateral do setor ortodoxo será fatal, tanto quanto as inúmeras falhas que indicamos neste escrito. Israel e o povo judeu merecem que o 70º Aniversário seja o momento do despertar de uma nova era e do ressuscitar da antiga sanidade na condução dos destinos do país e do povo. Vittorio Corinaldi é arquiteto formado pela FAU-USP. Mora em Israel desde 1956 e atuou como arquiteto no quadro do escritório central de planejamento do movimento kibutsiano, tendo sido seu arquiteto-chefe por dez anos.
ELDORADO OU BOLHA? Prefeito de Ra’anana quer ainda mais brasileiros
Marcus M. Gilban “Ra’anana tem algo muito especial até mesmo entre os israelenses, que é o senso comunitário muito forte dentro da comunidade maior. Os brasileiros têm um senso comunitário muito grande, mas são muito bem abraçados e se sentem em casa.”
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a’anana, Ra’anana, Ra’anana. Quais as razões que levaram essa pacata e cara cidadezinha israelense a ocupar um espaço quase mítico no imaginário do brasileiro que pretende fazer aliá? A verdade é que não faltam credenciais para Ra’anana ser apelidada de capital brasileira em Israel. Em termos proporcionais, há 16 vezes mais brasileiros em Ra’anana do que há judeus no Brasil: são 250 famílias, ou cerca de mil pessoas. E elas não param de chegar. A razão: qualidade de vida. De acordo com a Agência Judaica, um em cada quatro brasileiros com visto de aliá no passaporte optam pela cidade de 80 mil habitantes – metade da população de Teresópolis – localizada a apenas 20 quilômetros de Tel Aviv, mesma distância entre o Leblon e a Barra. Parecem não se importar em pagar até R$ 7.000 mensais para alugar um três-quartos similar ao que tinham no Brasil. O fato de a cidade praticamente adormecer por total no shabat e chaguim também não é problema. Ra’anana é uma das cidades mais ricas, mais seguras e mais internacionais do país. Respira prosperidade com escolas de primeira linha, parques e praças impecáveis, ruas floridas, cafés aconchegantes, prédios baixinhos, um clima de cidade do interior com infraestrutura moderna, típico dos subúrbios americanos ou europeus. Ra’anana não tem praia, mas a de Hertzliya está logo ali a dez minutos de carro. O Parque de Ra’anana é o maior da região e outro parque, o high-tech, abriga as sedes de grandes empresas como Amdocs, SAP, Nice e Microsoft Israel.
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Parque na cidade de Ra´anana.
Cerca de 20% da população é nascida em outro país. Proporcionalmente, Ra’anana tem também a maior concentração de famílias “anglo” de Israel, isto é, aquelas provenientes de países de língua inglesa. Os franceses também têm presença marcante, imprimindo um charme ainda maior à cidade com seus cafés ao estilo parisiense que só se multiplicam. É fato que, durante uma voltinha pela Ahuza (a rua principal), pelo Renanim (o único shopping) ou em qualquer canto da cidade você vai escutar inglês na mesma quantidade que o hebraico, seguido do francês e cada vez mais do nosso bom e velho português. Das sinagogas às salas de aula, a presença dos brasileiros é sentida em todo lugar. Em algumas escolas, há turmas em que 20% dos alunos são brasileiros. No ulpan da cidade, considerado um dos melhores do país, os brasileiros compõem 25% de todos os alunos. No último feriado de Purim, cerca de 100 brasileiros desfilaram de verde-amarelo na parada de Adloyada. A imprensa local volta e meia publica extensas matérias sobre o fenômeno brasileiro em Ra’anana – que parece sem volta. No entanto, muitos brasileiros veteranos moradores de outras cidades criticam o encantamento dos novatos por Ra’anana, que para eles mais parece uma Little Miami ou uma Petite Paris do que uma cidade israelense tradicional. Alegam que os mais recentes pulam as etapas mais sofridas pelas quais eles passaram, trazendo para cá o estilo de
vida de classe média alta que tinham no Brasil, incluindo alguns vícios, como a dificuldade em manter o padrão de vida às vezes incompatível com o salário. Por fim, criticam a aliá em que o sionismo não falou mais alto sobre outras motivações. Eldorado ou bolha? Paraíso ou gueto? Responder essas perguntas não é tarefa fácil e, sendo assim, Devarim foi a primeira publicação da América Latina a conversar com o argentino Eitan Ginzburg, prefeito de Ra’anana, que aos 41 anos tornou-se o mais jovem a ocupar tal função no país, além de ser o primeiro abertamente gay. Nascido em La Plata, Ginzburg veio com a família para Israel quando tinha apenas um ano e meio, o que lhe confere um espanhol carregado de sotaque, pausas e palavras em hebraico aqui e ali. A referência argentina abrange também a paixão pelo time Estudiantes, os alfajores e churrascos. Ginzburg assumiu a prefeitura de Ra’anana no início do ano, escolhido pela Câmara Municipal em substituição a Zeev Bielski, que assumiu como diretor do programa nacional de habitação. Ginzburg é membro da Câmara desde 2003 e ex-presidente da companhia municipal de águas, a Mei Ra’anana. Há alguns meses, teve sua vida pessoal exposta de forma positiva pela imprensa e redes sociais, incluindo fotos com seu marido e os bebês gêmeos adotados pelo casal.
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Ra’anana está na moda entre os brasileiros. Muitos do que chegam avaliaram emigrar para outros países, mas Israel falou mais alto e, em particular, Ra’anana. Há muitas famílias que tinham um padrão de vida alto no Brasil, mas, por causa da violência urbana, viviam enclausuradas em bolhas no Rio, em São Paulo ou outras cidades. Buscaram em Israel uma vida livre, segura e com qualidade. Ironicamente, brasileiros mais antigos em Israel dizem que os ‘chadashim’ de Ra’anana vivem numa bolha à parte do país. Faz sentido? O Estado de Israel foi fundado por olim. O conceito de kibutz galuiyot [expressão bíblica que denota a reunião das diásporas em Israel] é uma das bases de Israel, um dos nossos símbolos mais fortes. Ra’anana é como Israel. Como em todo o país, houve muitas ondas de imigração aqui; em cada década fomos e somos presenteados com um grupo especial, que busca Ra’anana pela qualidade de vida e pelo alto nível de educação, mas cada um tem seus objetivos próprios também. Ra’anana tem algo muito especial até mesmo entre os israelenses, que é o senso comunitário muito forte dentro da comunidade maior. Por exemplo, vocês brasileiros têm um senso comunitário mui-
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to grande, mas são muito bem abraçados e se sentem em casa. Nós em Ra’anana determinamos o padrão que almejamos para nós. Não queremos nos comparar com os outros, mas sim com nós mesmos, e superar as nossas próprias conquistas. Não sei o que é ser uma bolha. Mas não temos que nos justificar ou desculparmos pelo nosso alto padrão. Se ser uma bolha é ser o melhor lugar para se viver, temos muito orgulho de ser uma. Que haja outras bolhas como a nossa. Que Israel inteira seja uma grande bolha de prosperidade para todos. É uma surpresa para você a chegada de tantos brasileiros? Por que você acha que eles escolhem Ra’anana? O que você sabe sobre nós? Ra’anana foi fundada por imigrantes de Nova York e é uma cidade de imigrantes na sua essência. Ao longo dos anos, imigrantes de todas as partes do mundo chegaram a Ra’anana e eu fico muito feliz que os brasileiros também venham escolhendo viver em Ra’anana. Ra’anana é composta por um mosaico impressionante de identidades culturais e a comunidade sul-americana tem um papel importante nesse contexto. Um grande número de brasileiros
vem se integrando de maneira excepcional à comunidade, eu os encontro ocasionalmente, e espero que mais e mais brasileiros venham a fazer parte da nossa cidade.
duas sinagogas não são ortodoxas, mas é importante dizer que, mesmo entre as ortodoxas, existe um amplo espectro de cores, inclusive aquelas onde homens e mulheres rezam juntos. As pessoas gostam de catalogar tudo, separar em caixinhas, mas a realidade não é sempre branca ou preta. Israel é um Estado Judeu e democrático. Eu vivo a minha vida com base naquilo que eu acredito. Não frequento a sinagoga todo shabat, mas eu respeito. Somos todos judeus, mas não precisamos da prática diária para nos sentirmos judeus. Na Diáspora, tenho certeza de que no Brasil é igual, você se cerca de uma vida judaica observante na sinagoga, na escola, no clube, porque é uma forma de reforçar a sua identidade judaica, de pertencer àquela comunidade. Aqui o judaísmo está à sua volta, em todo lugar.
“Ra’anana tem orgulho de ser uma cidade que respeita o shabat. Mas não há nada por escrito, o status quo não está escrito. Gostamos do ‘modo shabat’, você já viu o clima na Ahuza durante o shabat? É muito bonito.”
Ra’anana tem cerca de 100 sinagogas, sendo apenas duas liberais: uma ligada ao movimento reformista e outra ao movimento conservador. Há alguns meses, Devarim entrevistou a rabina Chen Ben-Or Tsfoni, da Beit Samueli, que citou que sua sinagoga recebe muitos judeus seculares e tradicionalistas que não se encaixam no ambiente ortodoxo. O que o brasileiro pode encontrar? De acordo com os dados mais recentes, 27% da população de Ra’anana é de religiosos, o que não é muito diferente de outras cidades [segundo o rabino Gilad Kariv, presidente do Movimento Reformista em Israel, 23% da população se declara ortodoxa e ultraortodoxa – veja a entrevista dele nesta edição de Devarim]. É verdade que apenas
Em Ra’anana quase tudo fecha no shabat e chaguim e não há transporte público. Em Chol Hamoed, por exem-
Nascido na cidade argentina de La Plata, Eitan Ginzburg veio com a família para Israel quando tinha apenas um ano e meio, o que lhe confere um espanhol carregado de sotaque, pausas e palavras em hebraico.
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plo, parece uma cidade fantasma ao lonperação e até numa expansão para rece“Ra’anana oferece go de uma semana. Por que impedir o ciber mais moradores e alunos, incluindo inúmeros serviços de dadão não religioso que não possui caros brasileiros? apoio a olim, incluindo ro de se locomover livremente? Existe alRa’anana é uma cidade única no país um número incrível de em termos de integração de olim. Temos guma previsão de revisão do status quo? Qual a sua opinião a respeito? um grande orgulho dos nossos merkaz voluntários atuantes, Ra’anana tem orgulho de ser uma ciklitá e ulpan em Ra’anana. Ambos são seja no merkaz klitá, dade que respeita o shabat. Mas não há propriedade da Agência Judaica e estão seja nas nossas escolas sob sua administração. Nós vimos tennada por escrito, o status quo não está espor meio do ulpan. crito. Gostamos do “modo shabat”, você tando convencê-los a recauchutá-los, mas Buscamos também já viu o clima na Ahuza durante o shabat? não há nada que o município possa faÉ muito bonito. Mas Ra’anana não é difezer de fato. Temos uma excelente relação sempre reforçar a rente de outras cidades, onde o comércio conexão entre os olim com a direção do merkaz klitá. O muninas ruas principais está todo fechado e há cípio oferece inúmeros serviços de apoio e o setor de high-tech.” a olim, incluindo um número incrível de lojas abertas apenas nas áreas não residenciais. Tel Aviv goza de uma situação única, voluntários atuantes, seja no merkaz klimas é assim em Kfar Saba, é assim em Hertzliya, por exemtá, seja nas nossas escolas por meio do ulpan. Buscamos plo. Ou seja, apenas nas áreas não residenciais e afastadas também sempre reforçar a conexão entre os olim e o sedo centro é que você encontra comércio aberto a fim de tor de high-tech. atender a toda a população. Aqui em Ra’anana, está tudo aberto no entorno do Parque, dentro do Parque, a pisciQual o maior desafio de Ra’anana para os próximos anos? na municipal, a [área de lazer] Sportek e a área industrial. Os brasileiros podem continuar tendo a cidade como sua Como eu disse, Ra’anana não é diferente de outras cidades. “capital” em Israel? Ra’anana será uma cidade modelo em inovação, uma O custo de vida em Ra’anana é um dos maiores do país, smart city líder em todos os aspectos da vida do cidadão. onde o aluguel de um imóvel de sala e três quartos gira Para isso, estamos trazendo novas empresas do setor de em torno de NIS 6000-7000, custo maior que em alguns high-tech, cybersecurity e business em geral. Ra’anana posbairros mais nobres de Rio e São Paulo. O que justificam sui uma localização privilegiada com relação a Tel Aviv. os preços? O que esperar nos próximos dois a cinco anos? Mesmo assim, podemos considerar o tema transportes um A economia rege o mercado com base na lei da oferta desafio. Investimos pesado e a autoestrada 531 é uma reae da procura. Ra’anana é uma cidade única, bastante prolidade. Duas estações de trem estarão operando em brecurada por sua qualidade de vida. O município não tem ve assim como a ligação com Tel Aviv via Ayalon. Terea autoridade de controlar o preço dos imóveis e o mercamos novas linhas de ônibus passando por dentro da cidado em geral. Ra’anana tem ainda uma particularidade: ende. Toda essa infraestrutura será importante também para quanto 92% das terras do país são públicas, esse percentrazer mais negócios e novas empresas. A renovação da tual é inverso em Ra’anana, onde mais de 90% das nossas Ahuza, nossa avenida principal, será feita em breve. Outerras são particulares. O que nós podemos nós vimos fatro desafio é manter o bom relacionamento entre religiozendo para tentar desaquecer os preços dos imóveis, como sos e não religiosos, que poderia ser levada ao extremo, mas autorizar novas construções. Ra’anana possui um padrão a solução razoável é mantê-la amistosa e tranquila. Estamuito alto, localização privilegiada próxima de Tel Aviv e mos sempre tentando melhorar, mas quando você está no da praia. Todos querem morar em Ra’anana. topo, é mais difícil. Ra’anana é famosa pelo merkaz klitá e pelo ulpan, considerados entre os melhores do país. No entanto, a infraestrutura é bem antiga. Há planos de investir na recu-
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Marcus M. Gilban é jornalista, correspondente da Jewish Telegraphic Agency para a América Latina e executivo de Comunicação Corporativa.
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A REFORMA DOBRA DE TAMANHO EM ISRAEL Entrevista com Gilad Kariv, presidente do Movimento Reformista de Israel
Raul Cesar Gottlieb
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o final de 2017, o Movimento Reformista de Israel divulgou uma pesquisa de opinião, conduzida em outubro daquele ano, que mostra que 7% da população de Israel se identifica como sendo Reformista. O número é mais de duas vezes maior do que o obtido na última pesquisa, conduzida cinco anos antes. Ao ser adicionado aos 4% que se identificam com o Movimento Conservador, observa-se que o total de judeus religiosos liberais já ultrapassa o total de judeus ultraortodoxos. Se os liberais cresceram em percentual, quem terá caído? Os números são claros: os movimentos liberais vêm ganhando mais e mais adeptos entre os judeus definidos como seculares e também entre os definidos como tradicionalistas. A pesquisa classifica os judeus israelenses em quatro grupos, conforme seu nível de observância: • Seculares – 56% da população judaica de Israel. Não mantém nível significativo de observância religiosa. • Tradicionalistas – 21% da população judaica de Israel. Fazem kidush em casa todo shabat, celebram todos os chaguim em casa e/ou na sinagoga, não fazem questão do selo de kasherut nos alimentos, mas não ingerem alimentos e misturas proibidas pela Torá e frequentam sinagogas com habitualidade, mas não diariamente.
“Os israelenses estão cada vez mais identificados com a expressão religiosa igualitária, moderna e não coercitiva. 74% dos seculares e 59% dos tradicionalistas têm uma impressão positiva do nosso movimento”.
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• Ortodoxos – 14% da população jufeminino é tida pela maioria como “re“Somos apenas daica de Israel. Observam as mitsvot. São aproximadamente 250 formi”. Igualmente, pouquíssimos entenalinhados com o sionismo nacionalista, dem as sutilezas das diferenças entre nós e rabinos liberais em são inseridos na vida moderna e mantêm os conservadores. todo Israel, metade atividade econômica produtiva. E os israelenses estão cada vez mais • Ultraortodoxos – 9% da população identificados com a expressão religiosa Reformistas, metade judaica de Israel. Observam as mitsvot. igualitária, moderna e não coercitiva. Veja Conservadores, todos Não se consideram sionistas, não são inque 74% dos seculares e 59% dos tradipagos pelo dinheiro de cionalistas têm uma impressão positiva do seridos na vida moderna e não mantêm suas comunidades. Em nosso movimento. A impressão negativa atividade econômica produtiva. contrapartida existem Um total de 11% dos seculares e é percebida por apenas 8% dos seculares 8% dos tradicionalistas se autoidentifi- dezenas de milhares de e 23% dos tradicionalistas. Mais e mais cam com a Reforma. Num enorme afas- rabinos ortodoxos, todos israelenses seculares e tradicionalistas entamento da posição à época da fundatendem que somos uma parte importanpagos pelo Estado. Então, te do povo judeu. ção do Estado, quando a ideologia doera de se esperar que minante era francamente antirreligioEste é o público que devemos consa, apenas 44% do total da população quistar. Nós não estamos competindo nosso impacto fosse judaica não se identifica com nenhum bem pequeno. Mas não pelo público ortodoxo, mas pelo que se grupo religioso. Fica claro que a situação define secular ou tradicionalista. 3,5 mié o que acontece”. está mudando e, para entender o alcanlhões de pessoas nos veem de forma posice desta mudança, entrevistamos o rabitiva, inclusive muitos tradicionalistas, que no Gilad Kariv, o presidente e CEO do movimento reestão tendendo para o nosso lado em maior número do formista de Israel. que para o lado ortodoxo. Nossa aceitação é muitas vezes menor entre os ortodoPor que fazer a pesquisa? xos, mas mesmo assim temos 9% de simpatia entre os orBasicamente para identificar nossos avanços e sucessos, todoxos e 7% entre os ultraortodoxos, que não são númemas, principalmente, nossos desafios. Focamos a pesquiros desprezíveis. sa em quatro áreas: – O nível de exposição e de aceitação do MovimenE como esta aceitação se traduz na realidade do dia a dia? to Reformista. Bem, somos apenas aproximadamente 250 rabinos li– A atitude do público com relação à luta política que berais em todo Israel, metade Reformistas, metade Confazemos para obter a separação entre religião e Estado. servadores, todos pagos pelo dinheiro de suas comunida– O assunto específico do Kotel (o Muro das Lamendes. Em contrapartida, existem dezenas de milhares de ratações em Jerusalém). binos ortodoxos, cujo número exato não é divulgado pelo – O impacto da liberdade religiosa em Israel no que governo, todos pagos pelo Estado. Então, era de se espediz respeito à sua relação com a Dispersão, o judaísmo rar que nosso impacto fosse bem pequeno. Mas não é o fora de Israel. que acontece: 56% dos seculares, 40% dos tradicionalistas A pesquisa provou ter grande valor, porque em todas e até mesmo 15% dos ortodoxos já tiveram contato com as áreas identificamos aspectos onde devemos melhorar nossas cerimônias inclusivas e igualitárias. São milhões de e também o sucesso do nosso trabalho dos últimos anos. judeus expostos a um judaísmo que muitos não conheciam e da qual alguns saem tão bem impressionados a ponto de Qual o nível de aceitação do Movimento Reformista? passarem a se definir reformistas ou conservadores. Primeiramente é preciso dizer que o israelense qualiÉ certo que a maioria não se afilia às nossas comunifica como “reformista” tudo o que não é ortodoxo ou sedades. Porém, nesta época pós-moderna de identidades gregado. Uma mulher ortodoxa lendo Torá num minian multifacetadas não é possível esperar que a pessoa vá dia-
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riamente, ou mesmo semanalmente, à sinagoga. Nós conseguimos alcançar esta grande exposição através do oferecimento de cerimônias significativas do ciclo da vida. Muitas vezes estas cerimônias, e as atividades nos meses de preparação para elas, mudam completamente a visão da família com relação ao judaísmo e com isto todas as nossas sinagogas experimentam crescimento constante ao longo dos anos. Não devemos abandonar a meta de afiliar as famílias, mas temos que valorizar de forma igual o sentimento e o conhecimento, mesmo que eles não se traduzam num compromisso formal. Com muito menos rabinos que as vertentes ortodoxas, estamos conseguindo impactar positivamente a religiosidade de muitas pessoas. Contudo, a pesquisa identificou uma grande falha também: 39% da população geral não sabe dizer se há uma sinagoga reformista em sua cidade, mesmo quando ela existe, e 35% afirmam não haver uma sinagoga reformista em sua cidade, sendo que em aproximadamente metade dos casos ela existe. Ou seja, muitas pessoas, mesmo que tenham vontade, nem saberiam como nos alcançar.
A conclusão é que precisamos melhorar muito a divulgação local e não apenas focar em campanhas nacionais, como temos feito. E quanto ao segundo foco da pesquisa, a percepção do público sobre a luta política para a separação de religião e estado? Aqui também vemos um número crescente de israelenses apoiando nosso esforço para a promoção do pluralismo religioso. Os seculares sempre estiveram conosco nesta luta. A mudança que identificamos é nos tradicionalistas. E, infelizmente, ainda não sentimos esta mudança entre os ortodoxos. Vemos alguns sinais por parte deles, como a privatização da kasherut e o seu afastamento dos ultraortodoxos, mas na questão de religião e estado ainda não vemos uma mudança real. Quase dois terços – 64% – dos tradicionalistas rejeita a afirmação de que “a Rabanut [o Rabinato Central] contribui para a identidade judaica do Estado e traz os judeus mais próximos da tradição”. Mais da metade – 54% – deles rejeita a afirmação de que “o fato dos rabinos Reformistas apoiarem os direitos dos
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Campus da Universidade de Tel Aviv.
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gays prova que a Reforma não é genuinapode excluir o judaísmo praticado fora “A grande maioria mente judaica”. de Israel ou alienar os judeus que modos israelenses não Pouco menos da metade – 45% – ram fora de Israel e que qualquer movi‘comprou’ as duas subscreve a afirmação “há discriminamento nesta direção é insensato, pois o ção contra a Reforma em Israel”. Nesta principais acusações da povo judeu é maior que apenas os judeus última pergunta, encontramos um sigortodoxia. A primeira é israelenses. nificativo – 20% – número de respostas aquela que desqualifica Mas eles não estão alinhados com a “não sei”, fazendo com que os 45% seja a mesma intensidade na forma como nós a Reforma afirmando que estamos conduzindo nossas ações para maioria das respostas. Como era de se esperar, estes núme- ela não é uma expressão conseguir a igualdade no Kotel e para legítima do judaísmo e valorizar o judaísmo praticado fora de ros são muito maiores entre os seculares: 78%, 84% e 67% respectivamente. a segunda, que garante Israel. Tudo isto mostra que a grande maioOu seja, os números do apoio às teses que a Reforma conduz ria dos israelenses não “comprou” as duas são muito maiores do que os números do à assimilação”. principais acusações da ortodoxia. A priapoio às ações práticas. meira é aquela que desqualifica a ReforA visão dos conflitos no Kotel não é ma afirmando que ela não é uma expressão legítima do jusimpática à maioria dos israelenses. Mesmo sabendo que daísmo e a segunda, que garante que a Reforma conduz sem uma luta nada vai mudar, ainda assim eles se sentem à assimilação. incomodados com o Kotel sendo um campo de batalha. A esmagadora maioria dos seculares e a maioria dos traE mesmo valorizando o judaísmo desenvolvido fora de dicionalistas não pensam que a ortodoxia seja mais autênIsrael, a maioria não quer os judeus de fora do Estado intica, ou que as vertentes religiosas liberais conduzam à asterferindo nos assuntos do Estado, mesmo que seja apenas similação. Muito ao contrário: a maior parte dos seculares na questão do pluralismo religioso. No passado os judeus pensam que nós impedimos a assimilação. seculares não se importavam com os judeus de fora de IsApesar de todo o incitamento contra nós, apesar de rael. Hoje este apoio é enorme – 90%! Contudo, eles não todo o ódio, os ultraortodoxos não estão conseguindo ventoleram ameaças ou interferência. der seus argumentos. Então, temos que achar novas formas de caminhar nestas duas áreas. Novas formas de apresentar nossos arguTalvez seja porque com essa estratégia eles mostrem que mentos. têm medo. Quando você tem argumentos sólidos você Não creio que tenhamos outra alternativa a não ser a discute. Quando você não tem, demoniza. forma legítima de pressão conduzida pelas Mulheres do Eu concordo contigo. É isto mesmo. Eles se mostram Muro. Mas, talvez tenhamos que aparecer de uma forma para o público a partir de uma posição de medo. E isto nos mais suave. Em vez de mostrar nosso confronto furando o dá a segurança de que nossos argumentos vão prevalecer. cerco dos ortodoxos, tenhamos, talvez, que focar nas experiências positivas das pessoas celebrando o minian igualiVamos para o terceiro foco da pesquisa: o Kotel. tário, na transformação espiritual que isto representa para Identificamos um desafio semelhante no terceiro e os israelenses e os não israelenses e relegar o conflito físico no quarto tópicos [o das relações com o judaísmo fora a um plano bem inferior. de Israel]. Quando estamos sendo entrevistados a respeito do reO que acontece é que a maior parte do nosso públipúdio dos judeus da Dispersão sobre alguma política isco – secular e tradicionalista – aprova as nossas teses. Eles raelense de desrespeito ao pluralismo religioso e o entreconcordam que o Kotel tem que ser um local de reza para vistador pergunta: “Isto significa que os Reformistas dos todas as vertentes judaicas, que é preciso haver um espaEUA não vão mais fazer donativos a Israel?” temos que ço para um minian igualitário e um minian de mulheres. responder: “Quem está falando de dinheiro?! Esta não é a Eles também concordam que o Estado de Israel não questão! Os judeus da Dispersão se sentem insultados com
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esta política, mas somos parte da mesma família. Você não ama o teu irmão porque ele te dá dinheiro”. Temos que adotar uma linguagem mais positiva. Não podemos focar apenas nos políticos e nos doadores. Temos que mostrar como Israel é importante para uma família em Scarsdale ou no Rio de Janeiro. Mostrar que estas famílias amam Israel e querem apenas que Israel também as ame. Que elas querem se sentir parte, se sentir valorizadas e abrigadas aqui com suas práticas e com seu judaísmo. Concluindo, a pesquisa mostrou que temos um grande potencial de crescimento em Israel e que estamos gradativa e seguramente realizando este potencial. Quando os seculares e os tradicionalistas são expostos ao nosso judaísmo, eles gostam dele.
duas gerações. Já são dez gerações e ela apenas se fortalece, logo este discurso tem que continuar a ser desmentido na prática. Ao mesmo tempo, é importante manter os laços com Israel, trazer shlichim para as comunidades, organizar viagens, seminários e expor a juventude à realidade israelense. Mas tudo isto tem que ser feito sem abandonar a postura crítica. Quando o governo de Israel adota uma medida que contraria a liberdade religiosa dos judeus, cada um de nós tem que protestar, mandar mensagens para os jornais daqui, para os políticos que tomaram a decisão, falar com os diplomatas israelenses em seus países. Muitos acham que isto não adianta nada, mas posso garantir que tem muito valor!
Se me permite, mais duas questões apenas: Primeiro, diga o que os judeus do Brasil podem fazer por Israel e, depois, fale um pouco sobre como você se envolveu com o movimento Reformista. O principal para os judeus do Brasil é manter o seu judaísmo e as suas comunidades. O mundo judeu precisa de comunidades fortes em todos os cantos do mundo e é fundamental que nós todos sejamos judeus orgulhosos e ativos. Isto é particularmente importante agora, quando o atual governo emite sinais preocupantes ao reagir sobre qualquer episódio de antissemitismo na Dispersão com o discurso “venham para cá e o problema acaba”. Se você não pode ser judeu em Paris, o Sionismo, que advoga a normalidade do povo judeu, perde a razão de ser. O fortalecimento dos judeus em todas as partes do mundo é uma prioridade e cada um de nós precisa nutrir e cuidar de seu judaísmo. Na mesma medida isto é importante para as comunidades Reformistas e pelo mesmo motivo: recentemente a vice-primeira-ministra disse que a Reforma vai acabar em
E sobre você? Eu nasci em Israel numa família completamente secular. Meus pais e meus irmãos ainda são seculares, a minha inclinação religiosa não os fez mudar de postura. Fui atraído pela sinagoga desde cedo, sem saber dizer porque. Durante uns dez anos frequentei sinagogas ortodoxas nacionalistas, mas ao final do ensino médio percebi que aquilo não era para mim, que havia uma distância entre o que se falava na sinagoga e como eu enxergava o mundo. A questão da igualdade me incomodava muito. Nesse momento me afastei. Mas eu ainda não sabia que havia algo chamado “Reforma”. Apenas dois anos depois descobri o Movimento Reformista e resolvi explorá-lo. Depois do exército fiz formação rabínica ao mesmo tempo em que estudei direito – sou rabino e advogado – e trabalho há 20 anos no Movimento.
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Muito obrigado! Raul Cesar Gottlieb é diretor de Devarim.
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ENTREVISTA COM DAN HALUTS Ex-chefe do Estado Maior do Exército de Defesa de Israel
Felipe Gorodovits “O Oriente Médio não é previsível. Não descartamos que haja o potencial para um futuro confronto entre Israel e alguns dos atores na frente norte de Israel, talvez o Hizbolá, ou os iranianos, ou os sírios.”
Página anterior: Posto militar de Israel na fronteira com o Líbano.
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an Haluts nasceu em Tel Aviv, numa família de judeus iraquianos, poucos meses depois da fundação do Estado de Israel, em agosto de 1948. Ele é economista, com bacharelado na universidade de Tel Aviv e mestrado na Harvard Business School. Ele se alistou na Força Aérea de Israel, onde teve carreira brilhante, tendo chegado ao posto máximo de comando em 2000. Em 2004 foi apontado vice-chefe do Estado Maior e no ano seguinte à chefia do Estado Maior do Exército, onde serviu até 2007. Ele esteve no Rio em maio deste ano, quando concedeu a seguinte entrevista exclusiva à Devarim. Como você imagina que a situação na Síria vai se desenvolver? Há previsão para um final desta guerra e quais as consequências do final da guerra para o Oriente Médio e para Israel? É muito arriscado fazer prognósticos sobre quais serão os próximos eventos e como a situação vai evoluir. O Oriente Médio não é previsível. Não descartamos que haja o potencial para um futuro confronto entre Israel e alguns dos atores na frente norte de Israel, talvez o Hizbolá, ou os iranianos, ou os sírios. Se este confronto será de grande ou pequena intensidade é uma questão que só será possível de prever quando a situação estiver mais tensa do que está hoje. Neste momento a situação é relativamente calma. Não há dúvida que a presença iraniana na Síria representa um desafio novo para Israel. O Irã fica bem distante de Israel, a 1.600 quilômetros. Mas quando
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ele se aproxima de nossas fronteiras, com “Em Gaza um pequeno tamanho deles. Isto não os ajuda com a parte de seus recursos, com sua motivação opinião pública no Líbano, porque eles grupo de terroristas e sua ideologia, ele representa um risco. causaram luto e dor em muitas famílias. controla 2 milhões de Um risco que podemos administrar, mas, Não há dúvida de que eles são fortes no pessoas e as conduz à Líbano e que eles se colocam como os demesmo assim, uma situação que pode se deteriorar para um grande confronto. pobreza, ao desemprego fensores do país. Mas eles estão destruindo Temos que lembrar também que os e a um desastre. Claro o país. Não acredito que Israel tenha que russos estão na Síria e a meu ver eles são fazer algo contra o Hizbolá neste momenque eles tentam nos um fator de estabilidade. Você pode fato. Enquanto eles não nos atacam não teculpar, mas que seus lar com eles. Pode pegar o telefone e limos o que fazer lá. Não temos nenhuma gar para eles, discutir com eles, se encon- problemas são causados demanda do Líbano. Nada. Nem de territrar com eles, influenciá-los e ser influentório nem de qualquer outra natureza. por eles mesmos. Em ciado por eles. Eu não gosto quando alguns separam vez de construir túneis Somando tudo, podemos esperar que o Hizbolá do governo libanês. Quando eles poderiam recuperar algo contra o Estado de Israel acontece algo vá acontecer, mas não será uma guera economia, poderiam a partir do Líbano, o responsável é o gora total. Há o potencial de ser um confronto importante, com muitas vítimas verno libanês. Eles têm que assumir a resconstruir hospitais, em ambos os lados. Contudo, eu tenho escolas, infraestrutura.” ponsabilidade de controlar o Hizbolá. certeza que no final de tudo eles se arreAssim que, da próxima vez que algo penderão do dia em que decidiram começar o confronto, acontecer a partir da fronteira com o Líbano, nós vamos se é que eles vão decidir iniciá-lo. responsabilizar o Líbano e não o Hizbolá. Até o meio da década passada, a relevância do Hizbolá no Líbano era muito menor do que é hoje. Eles tinham células espalhadas pelo país e não mais que isto. Mas hoje eles fazem parte do tecido social no Líbano e até mesmo fazem parte do governo. Você acha que a segunda guerra do Líbano, em 2006, e as demais ações de Israel têm influência nesse fenômeno? Desde seu primeiro dia o Hizbolá foi um partido político. E eles são parte do governo libanês há muitos anos. Eles tentam limpar sua imagem e as pessoas tendem a esquecer que eles são um partido político terrorista. O Hizbolá sofreu depois da guerra de 2006. Sofreu um grande desgaste na opinião pública por causa dos danos que eles trouxeram para o Líbano. Eles estavam nos desafiando diariamente, aumentando a intensidade dos ataques constantemente. Quando nós decidimos lançar a operação em 2006, queríamos reverter essa situação e mudar as regras do jogo. E podemos dizer que tivemos sucesso. Temos que nos lembrar também que o Hizbolá está envolvido na guerra da Síria, lutando ombro a ombro com os sírios e que eles sofreram muitíssimas baixas nessa guerra. Perderam dois mil combatentes, com mais alguns milhares feridos, o que é enorme para uma organização do
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Queria focar numa outra guerra, a guerra de atrito no final dos anos 1960 entre Egito e Israel. Nessa guerra o Egito lançou durante anos pequenos ataques na fronteira, para em seguida lançar uma operação de grande escala em 1973. E poucos anos depois dessa guerra começaram as bem-sucedidas conversas de paz entre Egito e Israel. Você acha que há um paralelo entre essa situação e o que acontece em Gaza agora? Houveram três guerras em sequência, 2009, 2010 e 2014, será que isto pode levar para um caminho de paz ou de solução diplomática para o conflito? Você está levantando uma abordagem interessante, com um paralelo entre o Egito nos anos 1970 e o Hamas, que é uma organização terrorista. A grande diferença é que o Egito é um país, com um centro de gravidade, com um governo, onde há alguém com quem se pode negociar, direta ou indiretamente. Quando a gente volta para a guerra de atrito, temos que entender que ela veio depois da grande vitória de 1967 e que, como uma nação, os egípcios tinham que fazer algo para recuperar seu orgulho nacional. Além disso, temos que admitir que depois da guerra de atrito os egípcios nos deram alguns sinais de que queriam negociar, mas que nós
rejeitamos. E aí veio a guerra de Yom Kipur, em 1973. Ela foi o resultado de muitos fatores, e um deles foi nossa ignorância quanto aos inimigos, resultado da arrogância em achar que ninguém se atreveria a nos atacar. E, sim, quatro anos depois, no governo Begin, começamos a negociar com os egípcios. Mas eu não vejo nenhum paralelo com Gaza. Primeiro porque Gaza não é algo isolado. Eles são conectados à Cisjordânia. Não podemos dar benefícios ao povo de Gaza por conta de que eles estão nos atacando. Se fizermos isto vamos sinalizar algo muito danoso à população da Cisjordânia. Eles vão deduzir que podem melhorar de vida se começarem a nos atacar. Então eu não vejo uma situação onde vamos dar ao povo de Gaza mais do que eles merecem. E o que eles merecem depende de seu comportamento. Infelizmente, um pequeno grupo de terroristas controla 2 milhões de pessoas lá e as conduz à pobreza, ao desemprego e a um desastre. Claro que eles tentam nos culpar, mas é certo que seus problemas são causados por eles mesmos. Em vez de cons-
truir túneis eles poderiam recuperar a economia, poderiam construir hospitais, escolas, infraestrutura. Mas desperdiçam seus recursos em tentativas infrutíferas de nos aterrorizar. Então, eu definitivamente não vejo um paralelo entre Egito e Gaza. O Egito queria construir seu país, o Hamas apenas quer nos destruir. Nos últimos 18 meses o Hamas parece ter adotado uma linha diferente. Primeiro fizeram uma nova plataforma com mais nuances que a anterior, depois fizeram um acordo com o Fatah e nos últimos meses estão organizando estes protestos na fronteira. Você acha que há algo mudando no Hamas ou estas mudanças são meramente cosméticas? Eu não vejo diferença alguma na abordagem do Hamas. Há alguns passos que parecem novos, mas não são. Por exemplo, acordo com o Fatah. Eles fizeram o acordo basicamente porque não estavam recebendo dinheiro do Fatah, mas não o implementaram. Os jogos internos dos palestinos não são de nossa alça-
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Posto israelense de vigialância nas Colinas do Golã.
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Vista da cidade de Jenin, na Cisjordânia.
da. Temos que observá-los, é claro, porque eles podem levar a consequências ruins. Mas eles não nos dizem respeito. O que precisamos é fazê-los entender que o terror não vai resultar em qualquer forma melhor de futuro. Temos que convencê-los a abandonar a abordagem terrorista. A se afastar completamente dela. Convencê-los a se debruçar para resolver seus problemas internos. Não há a menor dúvida de que o governo de Israel vai reagir positivamente a qualquer sinal dos palestinos, venha do Fatah ou do Hamas, que indique que eles querem resolver o problema em negociações pacíficas.
-lo quando o tempo chegar. O que, sim, sabemos é que se seu sucessor não for alguém que venha com um discurso diferente, mais moderado do que o Abbas de hoje, os erros do atual governo palestino vão se repetir. Os interesses e as necessidades de segurança de Israel são claros e não dependem das lideranças de outros lugares. No final das contas, nós não interferimos em eleições de outros lugares, e negociamos com o líder e o governo escolhidos. Temos a esperança de que sejam corajosos e hábeis para que possam conseguir bons acordos com o Estado de Israel.
Mahmoud Abbas já tem 82 anos. Sua popularidade dentre os palestinos está longe de ser alta. Pesquisas mostraram que grande parte da população palestina está preocupada com o futuro das liberdades civis nos territórios, e inclusive que há uma maioria que gostaria que ele renunciasse. O que nós podemos esperar da próxima liderança do Fatah? É esperado que venha alguém com um discurso mais moderado? Israel está se preparando para isso de alguma forma? Mahmoud Abbas é o presidente eleito dos palestinos, nós não sabemos por quanto tempo mais ele governará, e certamente não sabemos com precisão quem irá substitui-
O Exército tem um papel muito importante na formação da sociedade israelense. É um símbolo nacional, em termos de força e união, e pode-se dizer que há um papel do Tsahal em “construir a nação”. Como você vê as consequências de uma sociedade onde a maioria da população dedicou anos de sua juventude ao Tsahal? É uma sociedade mais militarizada? Isso constrói uma identidade? Absolutamente não é uma sociedade militarizada! O Exército é uma realidade para os cidadãos, e não um fator extraordinário. É como pagar impostos, é uma contribuição necessária ao Estado por aquilo que o país também faz por si, é uma relação de troca.
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Sobre as consequências, a realidatar obrigatório para essa parte da popula“Sobre as de fala por si. A eficiência do Exército e ção é uma decisão delicada, que envolve consequências, a da sociedade estão relacionadas em termuitos fatores, tanto na política israelenrealidade fala por si. A mos de tecnologia, inovação, determinase quanto dentro do setor árabe-israeleneficiência do Exército ção. As conquistas do Exército de Israel se da população. Ainda não é o momensão inúmeras, tanto em termos militares to de tornar o alistamento obrigatório, e da sociedade estão quanto em termos humanos. É um Exérnão há como dizer se em algum momenrelacionadas em cito que se preocupa com cada soldado. to será. Para os que quiserem servir, as termos de tecnologia, O Tsahal é um fator que unifica a soportas estarão abertas, mas o alistamento inovação, determinação. ciedade, fortalece a identidade com a nadeve ser facultativo. Conforme o goverAs conquistas do ção e com as pessoas. Afinal, quando você no der mais atenção aos árabes-israelenpõe a vida em risco, e outra pessoa a vida ses e fizer um maior esforço para oferecer Exército de Israel são em risco por você, isso cria uma conexão, infraestrutura adequada nas cidades e viinúmeras, tanto em independentemente de serem pessoas de las árabes, dando a eles a clareza de que termos militares quanto são tão israelenses quanto quaisquer oudiferentes origens, ali estão juntas. em termos humanos.” Acho importante que todos os jovens tros, aumentará a identificação dos árasirvam o Exército. A realidade que Israel bes como parte da sociedade israelense, vive torna isso essencial. É algo que torna a sociedade mais e sua entrada no Exército aumentará. forte, mais unida, é importante perceber que se está fazendo algo por um bem comum. Para terminar, uma pergunta mais pessoal. Em toda a sua carreira, qual é o seu maior orgulho? E, por outro lado, Você falou sobre a importância de todos servirem o Exérvocê tem algum arrependimento? cito. Gostaria que você falasse sobre dois grandes grupos Quem não tem nenhum arrependimento não é um sociais que majoritariamente não o fazem: os ultraortoser humano. Todos têm arrependimentos, e comigo não doxos e os árabes israelenses. Esses grupos deveriam seré diferente. Meu maior orgulho é o meu serviço. Servi 41 vir o Exército? anos ao país, e tenho enorme orgulho disso. Foi muito Primeiro, é importante dizer que o Exército não tem especial ter me tornado comandante da Força Aérea, foi como interferir nisso, pois ela é uma decisão política. O um momento importante da minha vida. A Força Aérea Exército vai lidar com isso como for determinado, e não é um setor essencial das Forças Armadas. E, alguns anos se envolver no processo decisório. depois disso, tornar-me Chefe do Estado-Maior foi uma É importante perceber, porém, que, a persistir a auhonra maior ainda, foi uma oportunidade e uma ressência destes dois grupos, num futuro próximo menos de ponsabilidade que me orgulho muito de ter tido. Tenho 50% dos jovens estarão no Exército. Na minha opinião, grande orgulho do Exército de Israel e da minha partios ultraortodoxos deveriam participar do serviço militar. cipação nele. Assim como recebem benefícios econômicos, de seguranMeu maior arrependimento são as vidas perdidas. Nosça, etc., também devem ter certos deveres. Não faz sentiso maior esforço é para que nenhuma vida seja perdida, do que uma parte da população seja tratada de forma dias pessoas são o que há de mais importante. Mas, infelizferente de todo o restante por motivos religiosos. O Exérmente, há soldados que caem e isso também aconteceu sob cito está preparado para receber e adaptar-se a quem quer o meu comando. Nós podemos curar os doentes, reabilique seja, existem divisões de ortodoxos. Não há motivo tar os feridos, mas não há forma de trazer de volta a vida para não receber judeus no Exército de um Estado judaico. àqueles que perdemos. Esse é meu maior arrependimento. Com os árabes a questão é um pouco mais complicaFelipe Kaufman Gorodovits é diretor pedagógico nacional do moda. A população árabe quer fazer parte de Israel. Não quevimento juvenil Habonim Dror no Brasil, estudante de Economia na rem se apartar ou imigrar, mas sim entrar, ter a mesma PUC-RJ e atualmente trabalha com educação. cidadania e direitos. Ainda assim, tornar o serviço mili-
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JUDAÍSMO E PODER: UMA HISTÓRIA AMBIVALENTE Rogério Cukierman
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om a proximidade das eleições e o acirramento das posições políticas, tanto dentro quanto fora da vida judaica, discussões sobre a representatividade das instituições comunitárias e do relacionamento institucional com as esferas de poder político passaram a pautar, com alguma centralidade, a agenda comunitária. Esta divisão política não é, de forma alguma, uma experiência inédita1, mas o potencial de amplificação representado pelas redes sociais virtuais tem dado nova dimensão às disputas. Neste sentido, parece necessária a análise do que a tradição judaica tem a dizer sobre o relacionamento com as esferas de poder, sejam elas internas ou externas às instâncias comunitárias e sobre as formas como estes debates são conduzidos. Uma das passagens mais famosas de Pirkei Avot2, o tratado da Mishná também conhecido como “Ética dos Pais”, procura caracterizar dois tipos de debates. Discussões produtivas são chamadas de “polêmicas em nome dos céus” (machloket l’shem shamayim) e seus resultados tendem a ser eternos; polêmicas destrutivas, por outro lado, têm impacto limitado no tempo. Como é típico da tradição rabínica, não há no texto uma definição específica do que constitua uma “polêmica em nome dos céus” – temos apenas dois exemplos, dos quais precisamos inferir a definição de cada categoria. O exemplo paradigmático que esta passagem dá para discussões produtivas é Hilel e Shamai, dois sábios que viveram no século I aEC e que são considerados precursores do movimento rabínico que estabeleceria, alguns séculos mais tarde, os parâmetros da vida judaica como a vivemos hoje. Hilel e Shamai discordavam em tudo, mas outra passagem da Mishná3 nos conta que, mesmo assim,
De acordo com os comentários tradicionais, uma “polêmica em nome dos céus” busca revelar a verdade com relação a um determinado assunto, ao passo que “uma polêmica que não seja em nome dos céus” se preocupa unicamente com o poder e o status conferido pela disputa.
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havia convívio social respeitoso entre eles, seus seguidores e suas famílias. Em contraponto, o exemplo para discussões destrutivas é a polêmica entre Korach e seus seguidores, que se levantaram em rebelião contra Moshé quando o povo vagava pelo deserto a caminho da Terra de Israel4. Que características justificam a distinção estabelecida entre as disputas entre Hilel e Shamai, de um lado, e a de Korach e seus seguidores, do outro? De acordo com os comentários tradicionais5, uma “polêmica em nome dos céus” busca revelar a verdade com relação a um determinado assunto, ao passo que “uma polêmica que não seja em nome dos céus” se preocupa unicamente com o poder e o status conferido pela disputa. Uma análise mais profunda, no entanto, nos revela que a questão é, potencialmente, mais complexa. De um lado,
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os nomes dos filhos de Korach são relembrados em onze salmos6, indicando a perenidade também de sua memória; de outro, o Talmud revela episódios em que as disputas entre Hilel e Shamai não foram exatamente “amigáveis”, relembrando situações nas quais elas foram resolvidas apenas através da violência7. Alguns comentaristas apontam para o fato de que a polêmica entre Hilel e Shamai teria se dado entre iguais, ao passo que a disputa entre Korach e Moshé se deu entre alguém que detinha autoridade e alguém que a questionava. Esta leitura aponta a questão da legitimidade das disputas para sua relação com a autoridade estabelecida, em particular quando há uma assimetria de poder entre as partes. A partir dela, temos uma primeira evidência do caráter complexo e multifacetado da relação judaica com o poder esta-
belecido, especialmente durante os sécudica que tudo fazia parte do plano DiviJá em textos los nos quais a vida judaica se desenvolveu no, para que ele pudesse estar próximo ao bíblicos encontramos quase exclusivamente na Diáspora. poder do Egito quando a necessidade se ambivalência com Um lado da questão é revelado por apresentasse10. No entanto, com relação relação à proximidade ao mesmo Egito, temos, no início do lioutra passagem de Pirkei Avot: “Tenha cuidado com o governo, pois (seus mem- ao poder, especialmente vro de Êxodo, a ascensão de um novo fabros) se aproximam apenas por seus pró- para a vida sob domínio raó que, amedrontado pela presença israelita na terra, decide escravizar os hebreus e prios problemas. Eles se apresentam como estrangeiro. Nestes exterminá-los.11 Da mesma forma, a hisamigos nos bons tempos, mas não ficam casos, a proximidade tória de Ester marca o risco e a oportuniao seu lado nos tempos difíceis”8. A perscom o poder significa, dade que a comunidade judaica da Diáspectiva de que o governo (na época em que o texto foi escrito, o Império Romapora corre ao se aproximar do poder. simultaneamente, no), ainda que se apresente como seu aliaMesmo com relação ao Poder absoluoportunidade e risco. do nos tempos de bonança, está defento representado por Deus, a tradição judendo apenas seus próprios interesses, redaica tem sido ambivalente. De um lado, força a impressão de uma relação complexa com as autoDeus é inquestionável e a devoção incondicional é celeridades que detêm o poder. brada em textos e na liturgia. De outro lado, o questioPor outro lado, um ponto de vista mais positivo com namento de Deus é, paradoxalmente, também valorizarelação à possibilidade de relacionamento construtivo com do. Avraham questiona Deus de forma quase agressiva, “o o poder é revelada em uma história sobre o estabelecimenJuiz de toda a Terra não julgará de forma justa?”12, quando Deus lhe conta Seus planos de destruir Sodoma e Gomorto da academia rabínica em Iavne, a cidade onde se deu ra. Também Moshé, após o episódio do Bezerro de Ouro, a redação da Mishná, a obra na qual Pirkei Avot se insequestiona os planos Divinos de destruir todo o povo, insire. Conta a tradição rabínica9 que, quando Jerusalém estava cercada pelas tropas romanas e os zelotas judeus impenuando que isto daria argumento aos egípcios, que diriam diam o estabelecimento de um acordo de paz com os roque os Israelitas tinham sido tirados do Egito para serem manos, Raban Iohanan ben Zakai conseguiu escapar da mortos no deserto e relembra Deus da promessa que hacidade e negociou com o general Vespasiano sua rendivia feito aos patriarcas13. A tradição rabínica, provavelmente seguindo estes ção e a de seus discípulos, tendo como contrapartida a gaexemplos, também tem sua dose de chutzpá14 na relação rantia para o estabelecimento de Iavne como novo centro com a autoridade Divina. Em uma famosa passagem talda vida intelectual judaica após a destruição de Jerusalém. múdica15, Deus tenta interferir em uma discussão na acaNeste caso, a intransigência dos zelotas em negociar com demia rabínica. A resposta dos sábios é clara no sentido o poder romano levou à destruição de Jerusalém, enquande rejeitar a intervenção de Deus: “a Torá não está nos to a disposição de Iohanan ben Zakai garantiu a sobrevicéus”, eles dizem citando um verso bíblico16, “vocês devência judaica. A mensagem aqui, ao contrário do texto vem seguir a vontade da maioria”17, eles complementam anterior, parece ser a da possibilidade de interação positicitando outro verso. va com o governo. Esta última citação bíblica é especialmente interessanA verdade é que já em textos bíblicos encontramos amte, tendo em vista que ela se estabelece como fonte para a bivalência com relação à proximidade ao poder, especialabordagem judaica de decidir questões legais baseadas na mente para a vida sob domínio estrangeiro. Nestes casos, vontade da maioria. Seu significado no contexto original a proximidade com o poder significa, simultaneamente, não parece, no entanto, justificar esta leitura. O verso bíoportunidade e risco. Em Gênesis, temos a história de Iosblico diz: “Você não deve seguir rabim para fazer o mal e sef, cuja ascensão ao cargo de vice-rei do Egito garantiu não dê testemunho em uma disputa para desviá-la de uma suprimento para a família de seu pai quando a seca cheforma que a desvie na direção de rabim.” A palavra rabim gou à região. Quando seus irmãos lhe pedem perdão por ( ) ַר ִּביםpode significar “poderosos” ou “maioria”, mas, de tê-lo vendido como escravo anos antes, sua resposta in-
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qualquer forma, a injunção bíblica parece ser no sentido de não perverter a justiça seguindo a vontade da maioria ou dos poderosos. A interpretação rabínica, no entanto, ao tirar parte da frase do contexto, a estabeleceu como a evidência textual para regra da maioria na tradição judaica. Por praticamente dois milênios, nos quais a comunidade judaica viveu quase exclusivamente na Diáspora e nos quais a administração interna da comunidade foi deixada, na grande maioria dos casos, às suas próprias instituições, o preceito de seguir a maioria guiou, em grande medida, a abordagem judaica para o estabelecimento do seu próprio modelo de poder e governança. A definição do que constituía maioria, no entanto, era questão de debate. O rabino Eliahu Mizrahi, escrevendo na Turquia no final do século XV, expressou uma opinião inclusiva na definição de quem deveria ser contado para a maioria: “Puro e impuro, inocente e culpado…. todos devem ser contados e devem seguir a decisão da maioria, como está escrito na nossa sagrada Torá: ‘você deve decidir de acordo com a maioria’; e aquele que se opuser à maioria será considerado um pecador. Não faz diferença se a maioria é rica ou pobre, de homens sábios ou de pessoas comuns, porque toda a comunidade é considerada um tribunal em assuntos relativos a todos os seus membros.”18 Sua opinião, no entanto, não prevaleceu e as autoridades rabínicas medievais redefiniram muitas vezes o conceito de maioria para fortalecer os grupos dominantes – num claro sinal de que o preceito que defendia distância (ou uma postura crítica) com relação aos poderosos não se aplicava quando a liderança rabínica era, ela mesma, o governo judaico. Em alguns casos, os rabinos consideravam apenas os anciãos da cidade para composição da maioria; Rabeinu Asher chegou a propor, no final do século XIII, que apenas a elite econômica devia opinar em questões tributárias. Samuel de Medina, de Salônica, defendeu que o voto deveria ser qualificado e que o voto de uma pessoa culta poderia valer o mesmo que o de mil ignorantes: “Aceitar a vontade da maioria quando esta maioria é composta por pessoas ignorantes pode levar a uma perversão da justiça”, ele escreveu no século XVI.19 Com a Hascalá, o Iluminismo Judaico através do qual as populações judaicas europeias foram integradas às sociedades em que viviam, as comunidades judaicas perderam a autonomia que desfrutavam até então, e a questão da relação judaica com o poder passou por nova transfor-
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mação, focada nas relações institucionais com o governo laico e com quem tem a legitimidade de representar a comunidade judaica nestas relações institucionais. Para as comunidades judaicas da Diáspora, esta continua sendo a dinâmica de atuação até hoje. Assim como em tempos medievais, permanece não resolvida a questão de quem deve ter voto na formação da maioria comunitária. Aberta também continua a questão do relacionamento com o governo laico e do grau de proximidade desejável nesta relação. Ainda mais relevante, continua indefinida a questão sobre como a tradição e a história judaicas podem ajudar a pautar os processos de definição destes assuntos e como os valores judaicos podem nos ajudar a encaminhar estas discussões sem destruir a comunidade no processo. Rogério Cukierman é Coordenador-Geral de Cultura Judaica da Escola Eliezer Max. Possui graduação em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo, mestrado em Economia pela Universidade de Tel Aviv, mestrado em Estudos Judaicos pelo Hebrew Union College – Jewish Institute of Religion e mestrado em Educação Judaica pelo Hebrew College, de onde recebeu também ordenação rabínica.
Notas 1. A começar pela divisão dos dois Reinos em tempos bíblicos, passando pelos grupos judaicos na época do Segundo Templo (fariseus, saduceus, essênios, etc.), pela divisão entre judeus rabínicos e caraítas no século IX, entre místicos e adeptos do racionalismo de Maimônides no séc. XII, pelas profundas disputas entre Chassídicos e seus opositores (Mitnagdim) no séc. XVIII, entre sionistas e bundistas na Europa Oriental na primeira metade do séc. XX, entre idichistas e hebraistas em comunidades judaicas brasileiras no mesmo período, apenas para ficar em alguns exemplos. 2. Mishná Avot 5:17. 3. Mishná Yevamot 1:4. 4. Números 16:1-17:14. 5. Veja, por exemplo, Bartenura nesta passagem. 6. Salmos 42, 44–49, 84, 85, 87, 88. 7. Talmud Ierushalmi Shabat 1:4. Veja também Levine, Lee I. “Jerusalem: Portrait of the City in the Second Temple Period (538 BCE - 70 CE)”, Jewish Publication Society: Philadelphia, 2002, p. 308 para uma validação histórica desta passagem. 8. Mishná Avot 2:3. 9. Talmud Bavli Guitin 56a-b. 10. Gen. 45:4-9 e 50:19-20. 11. Ex. 1:8-16. 12. Gen. 18:25. 13. Ex. 32:9-14. 14. Termo em hebraico que pode ter conotações positivas e negativas. Traduções aproximadas incluem “insolência”, “cara de pau”, “iniciativa”. 15. Talmud Bavli Bava Metzia 59b. 16. Deut. 30:12. 17. Ex. 23:2. 18. Conforme citado em Biale, David. “Power and Powerlessness in Jewish History”, Schocken Books: New York, 1986, p. 49. 19. Biale, p. 50.
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DAS VANTAGENS DE SER IMPURO: A LITERATURA DE PHILIP ROTH Stefania Chiarelli A ideia de impureza e da miscigenação pode ser uma boa forma para pensar a obra de Roth. Sem pretender abarcar toda sua extensa produção, é possível identificar a noção de resíduo como fio condutor em seu modo de se relacionar com as heranças – familiares, judaicas, literárias.
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s vezes é interessante não ser puro.” A frase é de Primo Levi, em deliciosa conversa com Philip Roth, publicada em Entre nós (2008), volume que reúne entrevistas deste último com outros escritores. Sobrevivente da Shoá, Levi registrou em sua obra – como A trégua e É isto um homem – a experiência traumática do genocídio judaico e a necessidade imperativa do testemunho, mas evitou a todo custo a vitimização e o discurso ressentido. Nessa afirmativa, o escritor judeu-italiano, que também era químico de profissão, afastou o peso negativo do termo impureza do contexto pós-nazista. E vai além, destacando a possibilidade de enxergar na diferença cultural a chance para entender o mundo a partir de um olhar específico, aquele mobilizado pelo pertencimento a duas tradições. Uma noção de que os indivíduos não são menos, e sim mais interessantes quando mais porosos ao outro e à sua cultura. Assim como Levi, Roth era outro gigante da ficção e também de origem judaica. À diferença daquele, Roth, morto aos 85 anos recentemente, viveu atribulada relação com tal herança. Neto de imigrantes do leste europeu, o autor declarava-se não religioso. Em mais de uma ocasião, afirmou ser mais romancista do que judeu, o que pode ser entendido como fervorosa opção pela literatura no modo de experimentar o que está à sua volta. É dele também a assertiva de que escrevia tanto e de forma tão sistemática porque não saberia fazer outra coisa na vida. Independentemente da forma como se via, é certo que o judaísmo sempre foi para Roth mola propulsora e ponto de chegada de muitas de suas criaturas e histórias.
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Apesar de ter escrito contos e peças, notabilizou-se pela produção romanesca. E foram muitos: cerca de trinta romances. Sem o risco de exagero, o autor é considerado um dos maiores do século XX. Para conhecer hoje a ficção em língua inglesa não se pode prescindir da leitura de Pastoral americana (1997), obra que integra a chamada trilogia americana, da qual fazem parte Casei com um comunista (1998) e A marca humana (2000). Pelo primeiro, o autor recebeu o prêmio Pulitzer, entre outras inúmeras formas de reconhecimento público para sua trajetória ficcional. Menos o Nobel, o que levou parte da crítica a se ressentir da omissão da Academia Sueca quanto à incontornável importância de Roth. Motivos seriam muitos, entre eles as polêmicas e a postura indomável do escritor nascido em Nova Jersey. A chancela desse tipo de láurea (não concedida na edição deste ano por acusações de assédio sexual do fotógrafo francês Jean-Claude Arnault, casado com uma das integrantes da Academia) geralmente se traduz em maior circulação da obra de um autor, o que tem inquestionável impacto em um universo cada vez mais escasso de leitores. Em português, temos mais de vinte de seus títulos em excelentes traduções, que muitas vezes giram em tor-
no de temas obsedantes: o desejo, marca de muitos de seus romances, a política e, nas últimas produções, a morte, como em Fantasma sai de cena (2007) e A humilhação (2009). A morte de Roth deixa pelo menos uma pergunta para quem fica por aqui: quem seria hoje nome com igual peso e obra de tamanho fôlego? Difícil resposta e desafio para os que continuam com a missão de pensar criticamente o mundo em que vivemos. O retrato agudo da América sempre esteve presente na obra do autor. Uma voz necessária, em tempos de radicalismos fundamentalistas, gaiolas, muros e um presidente cujo discurso não evita esbravejar visão estreita em relação a toda e qualquer diferença. Mas a pena de Roth despertou a ira da comunidade judaica, de feministas, às vezes de nacionalistas, outras tantas vezes de esquerdistas. Sua obra incomoda, pois escancara os impasses e atritos de uma América à procura da própria imagem refletida no espelho. Mesmo que sem respostas prontas, a literatura pode ser o lugar em que irão conviver as múltiplas vozes hoje em curso, um tempo onde a defesa de ideais conservadores prolifera ao lado do discurso legítimo de minorias a reivindicarem espaço. Todos esses relatos estão justapostos na escrita da vida e no texto literário, também ele per-
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meável às contradições do nosso tempo. ca acerca da noção de pureza, mas talvez Sem o risco de Aqui a impureza é também bem-vinda. exagero, Philip Roth é essa seja uma forma de reinscrever-se nesA ideia de impureza e da miscigenase discurso, ainda que por meio de emconsiderado um dos ção pode ser uma boa forma para penbate violento. E ele se acirra por situar-se maiores do século XX. em um meio conhecido do autor. Roth sar a obra de Roth. Sem pretender abarcar toda sua extensa produção, é possível criou tramas instigantes passadas no amPara conhecer hoje a identificar a noção de resíduo como fio ficção em língua inglesa biente universitário – vale lembrar O procondutor em seu modo de se relacionar fessor do desejo (1977), O animal agoninão se pode prescindir zante (2001) e Indignação (2009), entre com as heranças – familiares, judaicas, da leitura de Pastoral literárias. Um dos primeiros romances, outros –, o chamado campus novel, gêneComplexo de Portnoy (1969) causou po- americana (1997), obra ro que no Brasil possui escassa expressão. lêmica à época de seu aparecimento, daque integra a chamada Da vida universitária e suas projeções, das as provocações e a verve irônica com trilogia americana, da soube como poucos explorar o erotismo, que trata a comunidade. O protagonisa fogueira das vaidades e o ardor pelo qual fazem parte Casei conhecimento em meio a cenários acata Alexander Portnoy, advogado judeu com um comunista em Nova York, se confessa acerca de suas dêmicos. Está ao lado de autores como questões sexuais no divã do analista. FaTom Wolfe, Don DeLillo, J. M. Coetzee (1998) e A marca mília e legado são o alvo da reflexão pere Paul Auster, para ficar em apenas alguns humana (2000). meada pelo riso e pela sátira: “Por favor, exemplos. Também se aventurou em oume ajude e depressa! Me liberte desse papel de filho sufotro gênero de escrita: Os fatos – a autobiografia de um rocado numa piada judaica! Porque está começando a permancista (1988) é um experimento em que o autor se ender a graça aos 33 anos!”. A equação formada por mãe sudereça ao alter ego Nathan Zuckerman, um de seus mais perprotetora e pai às voltas com uma prisão de ventre rerecorrentes personagens, e termina com a crítica deste a nitente, obcecado pelas próprias fezes, resulta em um texseu talento como biógrafo de si. to que ultrapassa o escárnio puro e simples, já que a obra A referência à pureza volta em Patrimônio (1991), outranscende o possível auto-ódio e caminha para um espatra narrativa de cunho autobiográfico. Aqui temos o reço mais interessante, o das ambiguidades e incoerências lato da morte do pai do narrador, sujeito que se pergunquanto à identidade do sujeito. E o faz por meio da irota constantemente a respeito do impulso de abandonar a nia e da disposição constante para a autocrítica. Por isso, herança financeira a ser recebida. O romance traz o ponentre outras coisas, já é um clássico do século XX. to de vista da terceira geração imigrante: Philip fala do Na potência da imagem dos dejetos, vale lembrar ainpai para falar de si, ao mesmo tempo em que evoca a fida trecho de A marca humana, cuja narrativa gira em torgura do avô. Mas é na relação paterna que Roth vai cenno da acusação de racismo sofrida por um professor unitrar suas forças: diagnosticado com um tumor cerebral, o versitário: pai tem a saúde cada vez mais precária, passando a perNós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Imder o controle de suas funções e a depender dos cuidados pureza, crueldade, maus tratos, erros, excrementos, esperma do filho. Na casa familiar, o narrador se vê obrigado cer– não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desoto dia a limpar o banheiro inundado por seus excremenbediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem tos. “É como escrever um livro, pensei, ‘não sei por onde redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Deficomeçar’.” E cumpre o dever: nidora. (…) Por isso toda essa purificação é uma piada. E E, agora que a tarefa fora concluída, não podia estar mais uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é clara para mim a razão pela qual aquilo era certo e era o que um horror. É uma loucura. Porque essa busca da purificação tinha de ser. Aquilo era o patrimônio. Não porque limpá-lo não passa de mais impureza. (p. 308) simbolizasse alguma outra coisa, mas porque não simbolizaO tom é provocativo e não foge ao confronto. O narva nada, porque era nada mais nada menos do que a realirador parece blasfemar contra toda uma tradição judaidade existencial nua e crua.
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Ali estava o meu patrimônio: não o diTranscorreram muitos anos e históUm dos primeiros nheiro, não os tefilins, não a tigela de barromances, Complexo de rias entre o jovem Portnoy a lidar com bear, mas a merda. (p. 141) um pai obcecado pelas idas e vindas inúPortnoy (1969) causou O impacto da cena não parece gratuiteis ao banheiro e o maduro escritor que polêmica à época de to, e a analogia entre principiar a escrita vai grafando a recusa à herança familiar e de um livro e a limpeza das fezes do pai o fim paterno. Mais ou menos provocaseu aparecimento, soa como instigante provocação. Se dedadas as provocações dor, mais ou menos agressivo, mas semdicarmos um pouco de atenção ao quapre capaz de tocar algum ponto muito e a verve irônica com dro, veremos que não há leviandade alguprofundo de nossa sensibilidade, esse que trata a comunidade. ma nele. As marcas estarão ali, e o mesmo também foi o legado de Roth. Podemos corpo que se curva para limpar os dejeimaginar que somos nós, os leitores, a tos será aquele que se dobra no registro de um momento sua herança, estirpe que prolonga e mantém viva a chadoloroso, espécie de ponto de virada para que o narrador ma da criação. compreenda que sim, chegou a um limite. Esse limiar de Stefania Chiarelli é professora de literatura brasileira na Universidor e aceitação se encerra no gesto dos cuidados paternos dade Federal Fluminense, publicou o ensaio Vidas em trânsito: as e se desdobra na espiral de uma escrita que avança sem ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum (Annablume, 2007), e pudor sobre o mais recôndito de nossa intimidade: a prico-organizou três coletâneas sobre literatura brasileira contempovacidade daquele por quem mais zelamos. Entre o revelar rânea, além do volume Falando com estranhos – o estrangeiro e a e o esconder, Roth se expõe também, e desse narrador enliteratura brasileira (7letras, 2016). lutado brotam algumas das mais belas páginas do autor.
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EM POUCAS PALAVRAS DISTORCENDO A HALACHÁ m junho, duas decisões do Rabinato Ultraortodoxo de Israel trouxeram alento para todas as judias e judeus que vivem sob o domínio do mundo da halachá (a lei religiosa judaica, conforme a interpretação do Rabinato). O alento veio do fato de que a corte rabínica está, finalmente, distorcendo a halachá! Ela anulou dois casamentos nos quais o marido se recusava a conceder o divórcio, o que “acorrentava” (este é o termo usado pela lei judaica) a mulher a um marido ausente e a um casamento já desfeito de fato. A halachá indica que apenas o marido pode conceder o divórcio. Nem a vontade da mulher, nem a pressão da corte, nem a realidade do casamento quebrado são capazes de garantir o divórcio. Então, quando o marido, raivoso e vingativo, resolve não conceder o divórcio, a mulher fica condenada a nunca mais poder casar, o que é uma tragédia (a Devarim número 1, de fevereiro de 2006, analisou esta questão). Existem milhares de casos de mulheres “acorrentadas” no mundo ortodoxo. E até agora a intransigência das cortes em mudar a halachá tirava das esposas desprezadas qualquer chance de alívio. Mas agora temos uma luz no final do túnel: “Após intensas discussões e um grande esforço da corte, foi de-
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cidido no dia de hoje anular o casamento e permitir à Sra. Guez terminar seu status de ‘mulher acorrentada’. Isto significa que o status atual da Sra. Guez é de mulher solteira, que nunca foi casada”, diz a decisão rabínica de um dos dois casos de casamentos anulados. Os fatos objetivos que levaram à anulação do casamento foram mantidos secretos, o que levanta a bem fundada suspeita que sejam inconsistentes. Muito provavelmente a corte
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reconheceu: (i) que manter a mulher acorrentada era odioso; (ii) que a corte não tinha poder de decretar o divórcio; (iii) mas que a corte tinha o poder de anular o casamento. Todos ficam felizes, muitos felizes com isto. Mas, mesmo assim cabe perguntar: reconhecendo, como fez o tribunal, que a halachá é inadequada para estes casos, o que seria melhor, distorcer a halachá ou reformá-la? A opção pela reforma parece ser mais sincera e adequada. ü
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DIÁLOGO
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rimeiro-Ministro: Há um armazém em Teerã que abriga todo o conteúdo do programa atômico iraniano. Eu quero que vocês tragam todo esse material para cá. Chefe do Mossad: Você ficou lou-
co? Isso é impossível! Me dê uma missão minimamente factível. Primeiro-Ministro: Ok. Então você tem que achar uma forma de classificar a seleção de Israel para a Copa do Mundo de 2022 no Catar.
E
m 11 de maio, poucos dias depois dos EUA terem se retirado do JCPOA – o acordo entre a administração Obama, a Europa e o Irã –, Ahmad Khatami, um dos mais importantes líderes da teocracia iraniana, afirmou num sermão na Universidade de Teerã: “Expandiremos nossas capacidades balísticas, apesar da pressão do Ocidente [para contê-la] e é bom que Israel saiba que se agir tolamente, Tel Aviv e Haifa serão
totalmente destruídas”. Pessoas sensatas desconfiam de profecias, principalmente das feitas em momentos de fúria. Mas a feita pelo Aiatolá é inegavelmente muito bem fundamentada. Caso Israel haja tolamente e deixe se levar pela conversa mole do apaziguamento iraniano, baixando sua guarda, será totalmente destruída. Há momentos nos quais verdades são ditas em locais improváveis. ü
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A PROFECIA DO AIATOLÁ
Chefe do Mossad: … Primeiro-Ministro: … Chefe do Mossad: Você quer os documentos do Irã em formato pdf ou em arquivos físicos? ü
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O LIMITE DA INFÂMIA
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dia 10 de abril de 2018 foi um dia cheio para a cobertura da imprensa sobre a guerra na Síria. Primeiramente aconteceu mais um infame ataque com armas químicas perpetrado pelas tropas de Bashar Assad, desta vez na cidade de Douma, que matou por asfixia dezenas de pessoas não combatentes, incluíndo crianças. Em seguida houve a reação do mundo, que aconteceu conforme o batido script de declarações bombásticas de repúdio, seguidas por uma não menos eloquente inação. E em
imagens das crianças de Douma respirando em balões de oxigênio! Assim, quem apenas passa os olhos na notícia conclui que foi o ataque de Israel que vitimou as crianças com armas químicas. Quando a realidade é exatamente oposta: o ataque de Israel preveniu que mais crianças sofram o que aquelas sofreram. E apenas Israel se importou em fazer algo concreto enquanto o resto do mundo esbravejava suas palavras ocas. Há limite para a infâmia da AP? Como diz Bob Dylan: “A resposta está soprando no vento”. ü
se um jovem de 23 anos ao jornalista do Washington Post em 14 de maio. Quando perguntado sobre o que ele faria dentro de Israel, a resposta foi direta: “O que for possível, matar, destruir, jogar pedras”. O mundo todo sabia que os eventos de 14 de maio tinham sido programados para provocar a reação de Israel, dando a oportunidade para que os jornais colocassem lado a lado as imagens da luta na fronteira junto às da inauguração da embaixada ameri-
cana em Jerusalém. E quase ninguém perdeu a oportunidade. A esmagadora maioria dos noticiosos do mundo associou os dois eventos, criando a imagem que enquanto alguns festejam em Jerusalém, outros morrem em Gaza. “Apenas alguns são culpados”, disse o rabino A. J. Heschel, “mas todos são responsáveis”, completou. É inegável a responsabilidade da imprensa na morte dos palestinos incitados pelo Hamas a se sacrificar por uma simples foto. ü
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terceiro lugar, uma força aérea não identificada, mas que todos suspeitam ser israelense, destruiu a base aérea de onde partiu o ataque com armas químicas, destruindo equipamentos, armamentos e também 14 pessoas, dentre eles alguns militares iranianos. Ou seja, assunto não faltava. Mas faltavam imagens do ataque atribuído a Israel. A Associated Press não se apertou e resolveu o problema de forma simples. Ela noticiou assim: Israel é suspeito de ataque com mísseis na Síria: 14 pessoas mortas, etc. etc. E fez este texto ser acompanhado por
MORRENDO POR UMA FOTO
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ão há a menor chance de um exército que guarda as fronteiras de um país permanecer passivo enquanto um grupo de pessoas armadas as invade, com o objetivo explícito de matar civis ou militares e de causar danos. E não há como ignorar que a tentativa de invasão promovida pelo Hamas no dia em que os EUA inauguravam sua embaixada em Israel tinha exatamente o objetivo de causar mortes e danos. “Estamos excitados com a expectativa de romper a fronteira”, dis-
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TIRANDO A PROVA DOS 9
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ois amigos muçulmanos morando em Berlim. Um israelense e um marroquino. Dois bons amigos que falam abertamente sobre as respectivas percepções do mundo e que se dão ao respeito de criticar o que enxergam de inconsistente na visão do amigo. Um dia o marroquino diz que a vida dos judeus na Europa está ficando cada vez mais difícil. Que os judeus são acossados nas ruas pelos imigrantes muçulmanos, que são cada vez mais numerosos. O amigo duvida. “Isto é um exagero”, diz. “Você pode andar seguro em qualquer lugar da Alemanha.”
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iralizou na internet a declaração do general iraniano Gholam Reza Jalali, que atribui um fantástico poder sobrenatural aos judeus. Segundo ele, Israel e outros países da região estariam roubando a água de dentro das nuvens para provocar a forte seca que aflige o país. Culpar terceiros por seus problemas é uma característica constante no discurso dos que não conseguem superá-los. Se perguntar “o que fizeram conosco?” em vez de “o que fizemos de errado?” é a maneira mais segura de não derrotar suas deficiências. Nos tempos do Talmud, quando o conhecimento da meteorologia era tão limitado como o do general, os judeus responsabilizavam os seus próprios atos pelas secas. Quando não chovia, os rabinos ordenavam jejum e arrependimento, sem culpar a Assíria ou o Egito. Por exemplo, a oração “Nosso Pai, nosso Rei (Avinu Malkeinu), pecamos diante de Ti” tem origem num ritual de arrependimento coletivo que visava provocar a chuva. Um outro exemplo: não culpamos os romanos pela des-
quilo que eu duvidava. O mundo tem que saber o quão terrível é para um judeu andar pelas ruas de Berlim nestes dias.” O jovem diz também que havia umas 50 pessoas na rua, mas ninguém pareceu se importar com o incidente, a não ser uma única senhora que começou a gritar “chamem a polícia!”. Vale a pena ver o filme e as entrevistas. Uma busca no Google com a sentença “young man attacked for wearing a kippa” vai ampliar a compreensão do relato da prova destes dois jovens admiráveis, que desafiam as ideias tacanhas e preconcebidas sobre muçulmanos e judeus. ü
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O PODER DOS JUDEUS
O amigo contesta e ambos decidem, então, tirar a prova dos 9. Resolvem sair de kipá para passear. Escolhem um bairro comum. O jornal fala em “affluent neighborhood”, ou seja, um bairro de bom nível, não foram a um centro de imigrantes. E o impensável (para o israelense) acontece. Os jovens são cercados por três homens falando em árabe que gritam impropérios para eles. “Tentamos ignorá-los, mas foi impossível”, conta o israelense. “Um deles ficou muito agressivo e tentou me acertar com seu cinto. Neste momento comecei a filmar. Eu queria ter e evidência da-
truição do Templo e sim a nossa desunião. Em última análise, a tradição judaica induz a perguntar “o que fizemos de errado?”, num processo severo de constante autoanálise e consequente aprimoramento. Então, o general tem razão. Somos realmente poderosos e não teríamos
sobrevivido por 40 séculos se não o fossemos. O que o general não entende é que o poder dos judeus não tem nada de sobrenatural. E também que, se realmente conseguíssemos comandar a natureza, o Irã dos aiatolás não teria nem uma gota de petróleo em seu subsolo. ü
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resenhas de livros
RESENHAS LIVROS A verdadeira ocupação
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relevância das análises e informações contidas no livro escrito pelo jornalista francês Albert Londres em 1930, Le juif errant est arrivé (O judeu errante chegou), é impactante. Há quase 90 anos, em 1929, logo após o ataque terrorista árabe contra judeus não sionistas que viviam em Hebron há muitas dezenas de gerações, Londres entrevista simultâneamente dez líderes árabes que acabaram de optar pela violência como preferência sobre qualquer outra alternativa para estabelecer sua firme oposição ao Sionismo. “Senhores [diz Londres dirigindo-se aos entrevistados], quais os termos que vocês oferecem para parar de massacrar os judeus?” Alvoroço! Eles nunca massacraram judeus, nunca! Ou melhor, se eu entendi corretamente, eles não os massacraram com o intuito de os massacrar, mas apenas para chamar a atenção do mundo quanto à sorte dos árabes. (Ênfase adicionada, página 182 da tradução para o inglês Wandering Jew has arrived, Gefen Publishing, 2017.) Na página seguinte, Londres relata uma entrevista com o prefeito de Jerusalém, Ragheb Bey al-Nashashibi: “Veja [diz ele ao prefeito], você não vai conseguir matar todos os judeus. Eles são 150 mil. Vai levar muito tempo!” “Não”, ele respondeu com voz suave. “Apenas dois dias”. “Setenta e cinco mil por dia?” “Não será um problema.” Londres conclui o capítulo dizendo aos líderes árabes: “Eu penso que vocês estão subestimando a força deles. Estes novos judeus não se deixarão massacrar.
Tenho certeza que eles reagirão à altura. A batalha será dura.” O jornalista faleceu três anos depois, em 1932, num incêndio no navio que o levava de volta da China para a França, e não teve tempo de ver sua percepção se concretizar. Contudo, nós estamos aqui para testemunhar que as lideranças palestinas continuam optando pela alternativa da violência para reforçar suas posições e a massacrar civis “apenas” para chamar a atenção do mundo para a sua causa. Cada vez que passamos pelas irritantes inspeções de embarque nos aeroportos devemos nos lembrar que elas foram instituídas como consequência dos sequestros de aviões, instrumento maximizado pelo terrorismo de origem islâmica com o objetivo de “chamar a atenção do mundo para o problema palestino (e outros do mundo árabe)”. E é exatamente esta a alegação do Hamas para os mísseis disparados contra alvos civis aleatórios: mesmo sem ter valor militar eles são importantes para “chamar a atenção do mundo para a situação de Gaza.” Neste contexto, as palavras escolhidas por Albert Londres em 1930 são muito mais que uma feliz profecia. Elas são a dedução possível de uma lógica que apenas os muito distraídos não enxergam e os descaradamente mentirosos fingem não enxergar. Albert Londres (1884-1932) é um dos inventores do jornalismo investigativo. Com um olhar especial para os oprimidos do mundo, suas reportagens profundas e sensíveis cobriram os principais assuntos de sua época: guerras, revoluções, movimentos
de libertação nacional e todo o tipo de misérias: desde os trabalhos forçados a que a França submetia seus prisioneiros até a extrema pobreza dos judeus da Europa Central nos anos anteriores aos da Segunda Guerra Mundial. Ele é a figura real que inspirou o cartunista belga Hergé a criar o personagem de ficção Tintin. Seu interesse pela sorte dos judeus é despertado pelo encontro fortuito com um judeu da Europa Central que se destacou, por sua aparência inusitada, no meio dos passageiros que chegavam a uma estação de trem na cidade de Londres no final dos anos 1920. A inata curiosidade do jornalista o faz entabular contato com o entorno deste judeu, que parecia ser parte de outro universo. E, a partir daí, Albert Londres parte numa longa e magistralmente descrita jornada para conhecer os judeus miseráveis da Europa Central, seguindo-os até a imigração para a Palestina Britânica, que alguns poucos tentavam naquela época. O livro que resulta deste mergulho é de leitura extremamente agradável e também fundamental para todos que querem entender o Oriente Médio de hoje e a miséria dos judeus de ontem. Escrito 18 anos antes da fundação de Israel e 37 anos antes da ocupação de Gaza e da Cisjordânia, ele conduz à dedução óbvia de que os esforços de defesa judaicos foram o resultado da política árabe de se posicionar através de massacres e de terrorismo. A leitura de Le juif errant est arrivé deixa claro que a única ocupação relevante é a opção pelo terror, que ocupa papel central na estratégia das lideranças palestinas até hoje.
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cócegas no raciocínio
OH, JERUSALÉM A
inda vivemos as repercussões da decisão do governo americano de transferir a embaixada dos EUA para Jerusalém. Oh, indignação! Sacrilégio! Mais uma agressão aos palestinos! Este o tom quase geral de mídias e de porta-vozes de todos os tipos. Claro que num contexto sensível e propício a esse tipo de manifestação, tudo vale para reafirmar a suposta truculência de Israel (e, no caso, dos EUA) na negação dos direitos dos palestinos. Este ato acirra as animosidades e proporciona bom pretexto para as cada vez mais radicais posições que estigmatizam e demonizam Israel, desta vez com base num fato de importância marginal, a não ser como símbolo da aceitação de uma realidade. Afinal, a transferência de uma embaixada, mesmo sendo a dos EUA, a não ser como símbolo, não resolve nada e não muda nada, a não ser aumentar o prestígio de Trump e de Netanyahu entre muitos israelenses e muitos judeus, e acirrar os ânimos de palestinos, islâmicos, anti-israelenses crônicos (principalmente os antissemitas) e desavisados. Todo este barulho é exagerado, hipócrita, simples aproveitamento de um fato em si mesmo irrelevante para alimentar um marketing de opiniões e tendências. Um pretexto para a propaganda, para a mídia comprometida, para os demonizadores de Israel com carteirinha assinada. E por que tudo isso? Por acaso Jerusalém não é a capital de Israel desde que ele existe (inclusive em sua existência durante mil anos 3.000 anos atrás)? Não é lá que estão desde 1948 quase todas as instituições da nação e do estado? A permanência ou não de uma embaixada, de qualquer país, na capital de Israel altera em alguma coisa este fato? Não estão todas essas instituições na parte de Jerusalém que é sua capi-
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tal desde 1948, e que – mesmo se um dia, por hipótese, um acordo permitisse que um estado palestino tenha sua sede na parte leste de Jerusalém – continuará sendo a capital de Israel? Por acaso não sabemos que isto foi um fato durante mais de mil anos no passado, e durante 70 anos no presente, mesmo antes de 1967 e da unificação da cidade? Em que a transferência de uma embaixada de um país (ou de todos) para a capital de Israel altera em qualquer aspecto ou medida o que já é uma realidade, e um processo que possa levar a um acordo com palestinos, ou a possibilidade de se resolver de algum modo a questão de Jerusalém também? Este argumento, repito, só tem sentido para quem vê na presença de Israel como estado judaico, em qualquer parte de Jerusalém [em qualquer parte da Terra de Israel, aliás], uma ilegitimidade. Afirmar que um país não pode reconhecer que Jerusalém é a capital de Israel instalando sua embaixada numa área de Jerusalém que continuará sendo a capital de Israel, sejam quais forem os termos de um possível acordo quanto a Jerusalém, é o mesmo que declarar que nenhuma parte de Jerusalém pode ser reconhecida como capital de Israel, em quaisquer circunstâncias. É tentar deslegitimar a soberania israelense, é tentar deslegitimar a existência de um estado judaico na Terra de Israel com a capital que só a ele cabe determinar qual é. Seria diferente se a capital de Israel fosse Tel Aviv, por exemplo? Com exceção dos que negam o direito de existência de Israel, mesmo em Tel Aviv, a resposta é sim. A experiência histórica e a experiência emocional afirmam que sim. Jerusalém é um símbolo que transcende a geopolítica, transcende as religiões e beira o misticismo. Quem já contemplou a Jerusalém ‘de ouro’, ao pôr do sol, do monte das Oliveiras, sabe disso. Não é só uma evocação religiosa o
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Paulo Geiger que se sente ante a visão do Muro, das cúpulas de El Aqsa e do domo da Rocha, dos campanários das igrejas, e da cidade inteira. É a própria história, nesta encruzilhada do mundo, onde tantas coisas se cruzam. Com uma pequena, mas significativa diferença: as mesquitas datam dos séculos 7 e 8 da Era Comum. As igrejas cristãs começaram a ser construídas no século 4 da era Comum. Os templos dos quais resta o Muro, dez séculos e cinco séculos antes da Era Comum. Isso não diminui a importância histórica, religiosa e espiritual de Jerusalém para cristãos e muçulmanos. Só que ninguém pretende negar essa importância. O que se pretende negar é que Jerusalém é bastante judaica para ser a capital de Israel, ela, que já era capital dos judeus mil anos antes da Era Comum, e nunca foi capital de nenhum outro povo ou nação. Aqui se unem fatos e símbolos. Jerusalém é parte histórica, política, religiosa e espiritual da história judaica e do povo judeu. E, sob o nome de Sion, foi o símbolo do retorno do povo judeu às suas origens e à sua independência. E durante dois mil anos de exílio imposto pela invasão romana, o Muro foi o símbolo do símbolo. Não suas pedras, à guisa de ícone ou ídolo. Não somente a evocação de um templo. O Muro é a memória, a marca simbólica deste fato religioso, histórico, nacional e espiritual: a presença do povo de Israel em Sion. A presença que representa a continuidade. Um símbolo com três mil anos. O centro, a capital, não só de Israel, mas do povo judeu. Qualquer que seja uma possível solução quanto a Jerusalém do conflito com os palestinos. Nenhuma embaixada de nenhum país, em Jerusalém ou alhures, pode mudar isso. 1. Para não ser acusado de plágio, registro que este é o título do livro de Dominique Lapierre e Larry Collins, que, aliás, vale a pena ler.
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