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Olho de Cão

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© André Araújo de Menezes Este trabalho é parte integrante da exposição Olho de Cão, realizada no Espaço Cultural Vallourec em junho de 2016. O Livro de artista Olho de Cão foi realizado com o apoio da Vallourec e do grupo de pesquisa Tecnopoéticas - Cefet-MG. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida sem a expressa autorização do editor. Editor responsável: André Araújo de Menezes Produção gráfica: Clara Gontijo Produção: Simone Paula Rêgo Capa, projeto gráfico e artes: André Araújo Estagiárias: Priscila Carla Silva Alves e Laura Caroline de Freitas Fotos das esculturas: Alexandre Lopes Curadoria da exposição no Espaço cultural Vallourec: Robson Soares

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Andre Araujo é um artista plástico cuja expressão mais forte está na sua busca incessante por Andre Araujo é um artista plástico cuja expressão cores vibrantes e expressões/imagens figurativas mais forte está na sua busca incessante por cores ou não que trazem na sua ardência uma “realidade” vibrantes e expressões/imagens figurativas ou não para trazem além donaque poderiauma chamar de realismo que suaseardência “realidade” para além do que se poderia chamarbusca de realismo picpictórico. Na verdade, o artista transformar, tórico. Na verdade, o artista busca transformar, ou ou melhor, transtornar aquilo que aparentemente melhor, transtornar aquilo que aparentemente nenegamos como negamos, como se se ainda pudéssemos ser pudicos. gamos como se ainda pudéssemos ser pudicos. AsAssim, a sua arte não quer chocar o expectador. Ela sim, a sua arte não quer chocar o expectador. Ela é é o simulacro pensamos negar. A pintura o simulacro queque pensamos em em negar. A pintura momoderna/contemporânea moderna/contemporânea, com com suas suas distorções de derna/contemporânea com suas distorções de imaimagens imagens, éé apenas apenas um contraponto de uma tragens nãonão énão apenas um contraponto de uma tradição figurativa onde oonde retratado era quase fiel aofiel retradição figurativa o retratado era quase ao to, seja um ser humano ou uma paisagem natural. retrato, seja um ser humano ou uma paisagem natuO é aésua forma, ral.disforme O disforme a sua forma,portanto portantoééaasua sua beleza beleza plástica também. plástica também. O Olho de O Olho de cão quetem o leitor tem em mãos cão que o leitor em mãos é o resulé o resultado de uma longa pesquisa plástica e litado de uma longa pesquisa plástica e literária feita por essefeita artista de afazeres. Araujo, terária pormúltiplo esse artista múltiploAndre de afazeres. como muitos tem em seu cotidiano, em Andre Araujo, artistas, como muitos artistas, tem em seu suas viagens, cadernos e cadernos, onde vai desecotidiano, em suas viagens, cadernos e cadernos, nhando (croquis) e escrevendo suas impressões do onde vai desenhando (croquis) e escrevendo suas que olha, pensa e sonha. Este belíssimo catálogo/liimpressões olha, pensa e sonha. belísvro de artistadoé oque resultado de uma dessasEste experiênsimo catálogo/livro artista é od’Escárnio resultado de uma cias, cujo centro é o de livro Contos - Textos dessas experiências, cujo Hilst. centro é o livrotécnicas Contos Grotescos (1990) de Hilda Mesclando diversas, incluindo fragmentos do livro, mas Hilst. tamd’Escárnio - Textos Grotescos (1990) de Hilda

Mesclando técnicas diversas, incluindo fragmentos do livro, mas também se libertando dele, coube ao bém se libertando dele, coube ao olhar visionário olhar visionário de Andre amalgamar imagens que de Andre amalgamar imagens que vão do escárnio vão do escárnio ao sensualismo mais delirante sensualismo das ao mais delirante das formas vistas, formas seja nocão olho umformas cão oudos nasalimenformas seja no vistas, olho de um oudenas tos. alimentos. Olhar é mais queé mais ver, éque ocular detalhes, as dos Olhar ver, os é ocular os departes no todo e vice-versa. Andre soube examinar talhes, as partes no todo e vice-versa. Andre soube com perícia as perícia imagens escritada deescrita Hilda Hilst, traexaminar com asda imagens de Hilda duzindo-as no mesmo nível de precisão de quando Hilst, traduzindo-as no mesmo nível de precisão de lemos a prosa provocativa dessa escritora que nos quando a prosa dessa escritora deu umalemos poética que vaiprovocativa do lirismo amoroso e senque nos deu uma poética que vai do lirismo amorosual ao escárnio sem nenhum pudor. so e sensual ao escárnio sem nenhum pudor. O diálogo que se impõe é de O diálogo que se entre impõeartes entredistintas artes distinlonga tradição. Ao se apropriar da escrita do outro tas é de longa tradição. Ao se apropriar da escrita para transformá-la em imagens corre-se o risco de do outro para transformá-la em imagens corre-se o ficar apenas no factual, numa transposição simplórisco de ficar apenas no factual, numa transposição ria, resultando num figurativo sem invenção estétisimplória, resultando ca. Mas o que se temnum aqui figurativo está para sem aléminvenção de uma estética. Mas o que se tem aqui está para aalém de simples transferência. Andre, solta a mão, imaginaçãosimples e (re)cria uma outra obra de solta escárnios. Por-a uma transferência. Andre, a mão, tanto, o leitore está livreuma paraoutra conhecer primeira –é imaginação (re)cria obra ade escárnios. aconselhável pela sua qualidade provocativa, e ficar Portanto, o leitor está livre para conhecer a primeira oculando cada detalhe deste livro inventivo do ad– é aconselhável pela sua qualidade provocativa, e mirável artista Andre Araujo. ficar oculando cada detalhe deste livro inventivo do admirável artista Andre Araujo. Mário Alex Rosa Mário Alex Rosa


Olho de cão: um livro de artista intermidiático Maria do Carmo de Freitas Veneroso

Professora Titular - Escola de Belas Artes da UFMG

Nota-se que a permeabilidade das fronteiras entre os meios artísticos tem sido uma constante na arte contemporânea. Nesse campo ampliado da arte, as categorias artísticas têm se misturado, dando origem a obras novas, intermidiáticas. Os diálogos entre as mídias, principalmente entre a palavra e a imagem, têm sido explorados por vários artistas/autores, desde o início do século XX, levando ao surgimento de obras verbo-visuais, nas quais não é mais possível perceber uma relação hierárquica entre a palavra e a imagem. O livro de artista é um local privilegiado onde esse diálogo se dá, por tratar-se de um meio híbrido, que, pelas suas próprias características intermidiáticas1, possibilita a conjunção e interação de várias mídias. Pelo fato de ser um fenômeno recente, que ainda está em fase de desenvolvimento, e por se encontrar, frequentemente, na fronteira das linguagens, seria prematura e contra producente qualquer tentativa de definir o livro de artista de forma limitadora. Apesar do termo poder ser utilizado, no seu sentido lato, para denominar uma categoria abrangente de obras que têm como referência o livro, ainda que não se limitem a ele (livro-objeto, livro ilustrado, livro de arte, livro-poema, poema-livro, livro-arte, arte-livro, livro-obra, etc.), não resta dúvida que podese procurar as origens do tipo de obra reconhecida atualmente como “livro de artista estrito senso” nas experiências conceituais dos anos 1960-70, que deram origem a obras em forma de livro, mas que não se limitam a um trabalho de ilustração. Como se sabe, a arte conceitual “influenciou (…) a noção corrente de publicação de arte no período. Não apenas os livros de artista, meio bastante frequente naquele momento, mas também outras formas de edições podem ser melhor analisadas à luz das proposições Conceituais”. Naquele periodo os papéis do artista e do público passavam por novas definições, sendo que a atitude passiva do último foi questionada e a atividade do artista, muitas vezes passou a fundir-se com a do crítico e do curador2.

Como observa Lawrence Alloway, “a produção de arte conceitual – especialmente quando consiste de fotos, diagramas, listas, mapas e instruções – é mais passível de aproximação por parte do público quando publicada”3. Assim, para o crítico inglês “a forma de livro é mais adequada do que uma exposição (tradicional) na qual os trabalhos podem passar por obras gráficas mal-acabadas”4. Isso explica, em parte, a ampla produção de livros de artista pelos artistas ligados à vertente conceitual, e que tem tido, no presente, inúmeros desdobramentos. Um dos produtos dessa tendência conceitual foi o surgimento de muitos livros de artista produzidos independentemente por artistas ou por galerias, como uma extensão da exposição, ou até mesmo no lugar da exposição, dando origem também ao gênero híbrido do catálogo como livro de artista. Trata-se de obras que não são meras reproduções de obras de arte, mas que possuem autonomia como obra. Dentro do contexto exposto, pode-se considerar a obra Olho de cão, de André Araújo, baseado no livro Contos d’escárnio, textos grotescos, de Hilda Hilst, como um livro de artista intermidiático, onde o artista faz uma transposição da linguagem verbal para a linguagem visual, dialogando com os textos de Hilst através de colagens, montagens, pinturas e história em quadrinhos. É interessante notar que André Araújo se apropria de um livro que também pode ser considerado intermidiático, pois nele Hilst trabalha com várias linguagens textuais como teatro, prosa, carta, receitas. O artista explica que escolheu o livro de artista como mídia, por considerá-lo naturalmente intermidiático. Além disso, é importante ressaltar que todo o material usado em Olho de cão foi concebido para a página impressa, e exclusivamente para este projeto. Seguindo uma tendência atual, o artista optou por publicar uma obra impressa, em detrimento do tradicional catálogo que acompanha as exposições de arte. Ao dialogar com Hilda Hirst, André Araújo nos apresenta uma obra instigante, que nos remete a um universo sombrio e grotesco. Referências: FREIRE, Cristina. Poéticas do processo. Arte Conceitual no Museu. São Paulo: MAC, Iluminuras, 1999, p. 17. HIGGINS, Dick. Intermedia. Something Else Newsletter, vol.1, n.1, 1966 SILVEIRA, Paulo. A página violada. Da ternura à injúria na construção do livro de artista. Porto Alegre: Editora da Universidade - UFRGS, 2001.

1 - O termo Intermídia foi introduzido por Dick Higgins no ensaio pioneiro “Intermedia” (Something Else Newsletter, vol.1, n.1, 1966, p. 18), publicado posteriormente em HIGGINS, Horizons. Nesse ensaio, Higgins anunciou sua convicção de que “muito do melhor trabalho produzido atualmente parece estar situado entre mídias”.

- FREIRE, Cristina. Poéticas do processo. Arte Conceitual no Museu. São Paulo: MAC, Iluminuras, 1999, p. 17. - ALLOWAY apud FREIRE, Cristina. Poéticas do processo. Arte Conceitual no Museu. São Paulo: MAC, Iluminuras, 1999, p. 28. 4 - Ibidem, p.28. 2 3


Olho de cão: um livro de artista intermidiático Maria do Carmo de Freitas Veneroso

Professora Titular - Escola de Belas Artes da UFMG

Nota-se que a permeabilidade das fronteiras entre os meios artísticos tem sido uma constante na arte contemporânea. Nesse campo ampliado da arte, as categorias artísticas têm se misturado, dando origem a obras novas, intermidiáticas. Os diálogos entre as mídias, principalmente entre a palavra e a imagem, têm sido explorados por vários artistas/autores, desde o início do século XX, levando ao surgimento de obras verbo-visuais, nas quais não é mais possível perceber uma relação hierárquica entre a palavra e a imagem. O livro de artista é um local privilegiado onde esse diálogo se dá, por tratar-se de um meio híbrido, que, pelas suas próprias características intermidiáticas1, possibilita a conjunção e interação de várias mídias. Pelo fato de ser um fenômeno recente, que ainda está em fase de desenvolvimento, e por se encontrar, frequentemente, na fronteira das linguagens, seria prematura e contra producente qualquer tentativa de definir o livro de artista de forma limitadora. Apesar do termo poder ser utilizado, no seu sentido lato, para denominar uma categoria abrangente de obras que têm como referência o livro, ainda que não se limitem a ele (livro-objeto, livro ilustrado, livro de arte, livro-poema, poema-livro, livro-arte, arte-livro, livro-obra, etc.), não resta dúvida que podese procurar as origens do tipo de obra reconhecida atualmente como “livro de artista estrito senso” nas experiências conceituais dos anos 1960-70, que deram origem a obras em forma de livro, mas que não se limitam a um trabalho de ilustração. Como se sabe, a arte conceitual “influenciou (…) a noção corrente de publicação de arte no período. Não apenas os livros de artista, meio bastante frequente naquele momento, mas também outras formas de edições podem ser melhor analisadas à luz das proposições Conceituais”. Naquele periodo os papéis do artista e do público passavam por novas definições, sendo que a atitude passiva do último foi questionada e a atividade do artista, muitas vezes passou a fundir-se com a do crítico e do curador2.

Como observa Lawrence Alloway, “a produção de arte conceitual – especialmente quando consiste de fotos, diagramas, listas, mapas e instruções – é mais passível de aproximação por parte do público quando publicada”3. Assim, para o crítico inglês “a forma de livro é mais adequada do que uma exposição (tradicional) na qual os trabalhos podem passar por obras gráficas mal-acabadas”4. Isso explica, em parte, a ampla produção de livros de artista pelos artistas ligados à vertente conceitual, e que tem tido, no presente, inúmeros desdobramentos. Um dos produtos dessa tendência conceitual foi o surgimento de muitos livros de artista produzidos independentemente por artistas ou por galerias, como uma extensão da exposição, ou até mesmo no lugar da exposição, dando origem também ao gênero híbrido do catálogo como livro de artista. Trata-se de obras que não são meras reproduções de obras de arte, mas que possuem autonomia como obra. Dentro do contexto exposto, pode-se considerar a obra Olho de cão, de André Araújo, baseado no livro Contos d’escárnio, textos grotescos, de Hilda Hilst, como um livro de artista intermidiático, onde o artista faz uma transposição da linguagem verbal para a linguagem visual, dialogando com os textos de Hilst através de colagens, montagens, pinturas e história em quadrinho. É interessante notar que André Araújo se apropria de um livro que também pode ser considerado intermidiático, pois nele Hilst trabalha com várias linguagens textuais como, teatro, prosa, carta, receitas. O artista explica que escolheu o livro de artista como mídia, por considerá-lo naturalmente intermidiático. Além disso, é importante ressaltar que todo o material usado em Olho de cão foi concebido para a página impressa, e exclusivamente para este projeto. Seguindo uma tendência atual, o artista optou por publicar uma obra impressa, em detrimento do tradicional catálogo que acompanha as exposições de arte. Ao dialogar com Hilda Hirst, André Araújo nos apresenta uma obra instigante, que nos remete a um universo sombrio e grotesco. Referências: FREIRE, Cristina. Poéticas do processo. Arte Conceitual no Museu. São Paulo: MAC, Iluminuras, 1999, p. 17. HIGGINS, Dick. Intermedia. Something Else Newsletter, vol.1, n.1, 1966 SILVEIRA, Paulo. A página violada. Da ternura à injúria na construção do livro de artista. Porto Alegre: Editora da Universidade - UFRGS, 2001.

1 - O termo Intermídia foi introduzido por Dick Higgins no ensaio pioneiro “Intermedia” (Something Else Newsletter, vol.1, n.1, 1966, p. 18), publicado posteriormente em HIGGINS, Horizons. Nesse ensaio, Higgins anunciou sua convicção de que “muito do melhor trabalho produzido atualmente parece estar situado entre mídias”.

- FREIRE, Cristina. Poéticas do processo. Arte Conceitual no Museu. São Paulo: MAC, Iluminuras, 1999, p. 17. - ALLOWAY apud FREIRE, Cristina. Poéticas do processo. Arte Conceitual no Museu. São Paulo: MAC, Iluminuras, 1999, p. 28. 4 - Ibidem, p.28. 2 3


ISBN: 978-85-921151-0-4

9 788592 115104


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