MEDIA+Igual - Publicação Final - Junho 2014

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Publicação Final JUNHO 2014 Projecto Nº 086816/2012/73


PUBLICAÇÃO FINAL: MEDIA+Igual Jornalismo e Género… Ler nas entrelinhas Projecto Nº 086816/2012/73

Edição: IEBA—Centro de Iniciativas Empresariais e Sociais, Junho 2014 Contactos: IEBA Parque Industrial Manuel Lourenço Ferreira, Lote 12—Apartado 38, 3450-232 Mortágua Impressão: 100 exemplares

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Índice página 1. APRESENTAÇÃO E OBJECTIVOS 1.1-Metodologia: a unidade local de análise de imprensa 2. ACTIVIDADES E RESULTADOS

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2.1-Monitorização de imprensa Dinamização e funcionamento Boletins informativos

8 8 10

2.2-Principais resultados e conclusões Principais resultados Conclusões gerais Conclusões temáticas

11 11 13 14

2.3-Entrevistas

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2.4-Ateliê de ESCRITA INCLUSIVA

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2.5-Conversas sobre a (IN)VISIBILIDADE DAS MULHERES NOS MEDIA

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3. ANEXOS

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3.1-Contributos dos parceiros MEDIA+Igual/ULAI APAV Coimbra SOS Racismo APPACDM Coimbra UMAR Coimbra GRAAL Coimbra NÃO TE PRIVES

20 20 24 30 32 43 45

3.2-Entrevistas Carla Cerqueira, investigadora Sofia Branco, jornalista Reynald Blion, coordenador do projecto MEDIANE

48 48 59 60

3.3-Guia de orientação para uma linguagem inclusiva Checklist para uma notícia inclusiva Orientações: Escrever sobre violência (sexual) contra mulheres Orientações: Escrever sobre política e governo

62 62 63 65

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1. APRESENTAÇÃO E OBJECTIVOS

O projecto MEDIA+Igual é promovido pelo IEBA – Centro de Iniciativas Empresariais e Sociais, associação de desenvolvimento local com sede em Mortágua, criado em 1994. Nesta história de duas décadas de dinamização do seu território, pessoas e organizações, o concelho de Mortágua tem sido alvo prioritário de dinamização. Não obstante, as actividades desenvolvidas têm uma forte abrangência regional (Região Centro de Portugal), dinamizando-se ainda um conjunto de projectos e parcerias de âmbito nacional e Europeu. Financiado pelo Quadro de Referência Estratégico Comunitário (QREN), através do Programa Operacional Potencial Humano (POPH) e com apoio da CIG – Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, o MEDIA+Igual visa promover a igualdade de género nos media portugueses e analisar criticamente os discursos produzidos pelos órgãos de comunicação social, no que concerne à disseminação (ou, pela positiva, desconstrução) de assimetrias de género. Constatando que a comunicação social é o mediador, por excelência, entre os vários acontecimentos e o público generalizado, constitui-se como veículo crucial de formação de opiniões e com potencial para contribuir positivamente na disseminação de uma cultura de diversidade e combate à discriminação de género. Nesse sentido, o projecto visa aumentar a sensibilização sobre o papel e realidade dos media portugueses, na promoção de uma cidadania equitativa, através da análise à praxis jornalística actual. Para atingir os objectivos propostos, o projecto estabeleceu, através da implementação de uma Unidade Local de Análise de Imprensa (ULAI), uma monitorização mensal de títulos de imprensa de âmbito nacional e local, segundo uma metodologia própria. A análise crítica da monitorização de imprensa resultou em 9 boletins mensais, divulgados numa plataforma on line, que consolidaram o trabalho de análise realizado. Além da monitorização sistemática de títulos de imprensa, o projecto MEDIA + Igual integrou ainda um conjunto de acções paralelas, inseridas no objectivo principal da iniciativa. Nesse sentido, foram promovidas duas Conversas sobre a (IN)VISIBILIDADE DAS MULHERES NOS MEDIA, com intervenções críticas dos parceiros do projecto. As Conversas decorreram a 11 e 18 de Junho e centraram-se em questões de representação das mulheres no discurso mediático, com base na experiência prática dos parceiros, sendo particularmente enfatizadas questões de dupla discriminação. Ainda enquadrado no projecto, foi também dinamizado um Ateliê de ESCRITA INCLUSIVA, em parceria com a Escola Superior de Educação de Coimbra e destinado aos/às alunos/as daquela instituição. Ao longo de seis horas, foram apresentados os aspectos mais relevantes para uma escrita não-discriminatória e inclusiva em textos jornalísticos, com a distribuição de linhas de orientação na cobertura de temas relacionados com assimetrias de género (mas também

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promovendo uma perspectiva inclusiva e igualitária transversal no jornalismo, independentemente da área temática).

Duração: 18 meses, de Janeiro de 2013 a Junho de 2014.

1.1. Metodologia: a unidade local de análise de imprensa A dinamização do projecto MEDIA+Igual é feita através da Unidade Local de Análise de Imprensa (ULAI), que reúne várias entidades parceiras, relevantes pela experiência na promoção da igualdade de género e pela representação de grupos sociais discriminados (mulheres, imigrantes, pessoas com deficiências e comunidade LGBT). Esta metodologia de trabalho (criação da ULAI; trabalho em rede com entidades parceiras para a monitorização de imprensa) teve a sua eficácia comprovada durante o período de desenvolvimento do projecto Europeu In Other Words, no qual o IEBA foi a entidade parceira nacional e cujos objectivos incluíam a sensibilização para o papel e realidade dos meios de comunicação de massas europeus na influência de comportamentos discriminatórios. Face ao aperfeiçoamento do funcionamento da ULAI no âmbito do projecto In Other Words e aos bons resultados alcançados, considerou-se pertinente manter esta metodologia no decorrer do projecto aqui apresentado, MEDIA+Igual. Os benefícios, considera-se, foram obtidos sobretudo pela consolidação da ULAI como rede, alcançando resultados robustos de monitorização e análise crítica dos conteúdos, além da sensibilização pública. Constituem-se, por isso, como entidades integrantes da ULAI: 

GRAAL – Movimento Internacional de Mulheres – Coimbra

APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (GAV – Coimbra)

Movimento SOS Racismo

APPACDM – Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental – Coimbra

Associação “Não te prives” – Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais – Coimbra

UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta

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Em síntese, eis as actividades previstas no âmbito do projecto, cujos resultados serão detalhados no decorrer dos próximos pontos do relatório: 

Dinamização da Unidade Local de Análise de Imprensa e respectivas actividades de monitorização sistemáticas de órgãos de comunicação social

Ateliê de ESCRITA INCLUSIVA

Duas (2) Conversas sobre (IN)VISIBILIDADE DAS MULHERES NOS MEDIA

Sessão de encerramento do projecto

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2. ACTIVIDADES E RESULTADOS

2.1.

Monitorização de imprensa

Dinamização e funcionamento Foi da responsabilidade do IEBA assegurar o funcionamento da ULAI e a mediação dos parceiros envolvidos. A equipa técnica da entidade foi responsável pela monitorização diária dos títulos de imprensa durante o período de vigência do projecto. Desta monitorização diária, resultou uma selecção de artigos noticiosos que se destacaram numa perspectiva de igualdades/assimetrias de género. Ou seja, discursos jornalísticos que foram exemplos, pela negativa, ao repercutirem estereótipos de género e assimetrias entre homens e mulheres; mas também exemplos positivos de linguagem inclusiva e tratamento noticioso de temas que permitam uma maior visibilidade a questões de igualdade de género, desconstrução de assimetrias e, de modo geral, contribuição para uma opinião pública mais informada e sensibilizada para estas temáticas. Estes artigos pré-seleccionados foram debatidos pela ULAI, através de reuniões de periodicidade mensal, com lugar na cidade de Coimbra. Ao todo, foram realizadas nove reuniões de análise de imprensa, que resultaram na produção de pareces consensualizados sobre os artigos monitorizados. Coube à facilitadora da ULAI a apresentação de propostas de análise, moderação do debate entre os parceiros e respectiva produção escrita da análise crítica consensualizada de cada um dos artigos seleccionados. As análises de imprensa deram também origem a nove boletins mensais, com imagens das notícias originais acompanhadas de um breve texto de análise. As publicações estão disponíveis on line em http://issuu.com/ieba. Além da equipa técnica do IEBA e dos/as representantes das entidades integrantes da ULAI, foram convidados/as a estar presentes, nas reuniões mensais, jornalistas dos órgãos de comunicação social sob monitorização do projecto. Todas as reuniões (com excepção da decorrente no mês de Maio) tiveram lugar na Casa de Chá, em Coimbra, local cedido amavelmente pela APPACDM, parceira do projecto, para o efeito. Dada a natureza pública do local escolhido, o debate foi aberto à sociedade e a qualquer interessado/a no tema. A monitorização dos títulos de imprensa foi feita durante o período de vigência do projecto, de Setembro de 2013 a Junho de 2014, para um conjunto de órgãos de comunicação social de várias periodicidades (diário, semanal, mensal), âmbitos (nacional, local), formatos (jornais, revistas) e especializações editoriais

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(informação generalizada, entretenimento/televisão, celebridades/”imprensa cor-de-rosa”, e as chamadas revistas “femininas” e “masculinas”).

N.º

Publicação

Periodicidade

Âmbito

Formato

Especialização

1

Diário de Notícias

Diária

Nacional

Jornal

Informação generalista

2

Correio da Manhã

Diária

Nacional

Jornal

Informação generalista

3

Maria

Semanal

Nacional

Revista

Entretenimento/TV

4

Caras

Semanal

Nacional

Revista

Celebridades

5

Happy Woman

Mensal

Nacional

Revista

“Revista feminina”

6

Men’s Health

Mensal

Nacional

Revista

“Revista masculina”

7

Público

Diário

Nacional

Jornal

Informação generalista

8

As Beiras

Diário

Regional

Jornal

Informação generalista

9

Diário de Coimbra

Diário

Regional

Jornal

Informação generalista

*Lista de publicações monitorizadas no âmbito do projecto MEDIA+Igual*

Em cada título de imprensa monitorizado, foram seleccionados apenas artigos informativos (notícias, reportagens, análises e híbridos destes formatos) e artigos noticiosos interpretativos. As análises recaíram no conjunto discursivo dos conteúdos, abrangendo não só o texto, como também imagens, infografias e a disposição gráfica de todos os elementos. A selecção dos órgãos de comunicação social monitorizados foi feita de forma a obter uma maior transversalidade e diversidade nos discursos mediáticos e na forma como as questões relativas ao género são abordadas. Desta forma, foi possível analisar as orientações editoriais nos discursos mediáticos produzidos e a forma como estes contribuem para reforçar ou, pelo contrário, contrariar estereótipos. O critério de selecção das publicações monitorizadas recaiu, sobretudo, na diversidade de públicos-alvo, numa tentativa de analisar – com a maior abrangência possível – as representações mediáticas a que a sociedade portuguesa tem acesso. É particularmente pertinente, neste contexto, analisar a construção discursiva de estereótipos de géneros (assim como a binarização dos mesmos em dicotomias heteronormativas) nas publicações tipicamente orientadas para um público feminino ou masculino. Isto porque o próprio público-

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alvo – e consequentemente o discurso mediático adoptado – já tem por base distinções de género, que se tornam relevantes nas escolhas discursivas assumidas. O número de conteúdos noticiosos apresentado em cada reunião mensal da ULAI variou, tendo em conta a sua relevância para o debate público do papel dos media na promoção da igualdade de género e de uma linguagem mais inclusiva. Nas reuniões, os parceiros da ULAI, com moderação da facilitadora de grupos, analisaram e debateram os artigos/temas seleccionados em cada mês de monitorização. Do debate resultou uma análise consensualizada a cada um dos artigos. Coube ainda aos parceiros da ULAI a decisão final sobre que artigos noticiosos (e respectiva análise crítica) incluir nos boletins públicos do projecto, definidos em função da relevância global para os objectivos propostos do MEDIA+Igual.

Boletins Informativos De forma a promover a sensibilização às questões de representação mediática de questões de género, fomentando uma opinião pública mais esclarecida, as conclusões de análise de cada período mensal de monitorização de imprensa foram incluídas em boletins on line do projecto. Ao todo, foram produzidas nove publicações, num total de 98 páginas. Estas publicações funcionaram como instrumento de ligação entre a ULAI, o público em geral e os meios de comunicação social, apresentando o trabalho sistemático realizado no decurso do projecto. Por isso, tiveram também um papel de divulgação, além da componente de consolidação da análise crítica. A redacção dos boletins foi da responsabilidade da Facilitadora de Grupos, que sintetizou neles o debate das reuniões da ULAI.

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2.2-Principais resultados e conclusões

Principais Resultados

9 meses de monitorização de revistas e jornais portugueses

10 reuniões da ULAI – Unidade Local de Análise de Imprensa, nas quais os artigos seleccionados foram debatidos pelos parceiros do projecto (a APAV, APPACDM, GRAAL, SOS Racismo, Não Te Prives e UMAR)

9 títulos de imprensa monitorizados: As Beiras, Diário de Coimbra, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Público; revistas - Maria, Caras, Happy Woman e Men’s Health

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649 artigos assinalados com conteúdos estereotipados e discriminatórios (contribuindo para uma maior desigualdade de género na sociedade), ou por se destacarem pela positiva. Desses, 221 foram seleccionados para reuniões de análise crítica com os parceiros do projecto.

9 boletins com análises a artigos monitorizados, numa perspectiva de igualdade de género

5 eventos: as sessões de apresentação e encerramento, um atelier sobre escrita inclusiva e duas conversas sobre a (in)visibilidade das mulheres nos media

1 publicação final com uma resultados do projecto e coletânea de textos produzidos no seu âmbito

Fazendo um primeiro balanço quantitativo do projecto, foi possível trabalhar, ao longo dos meses de duração do MEDIA+Igual, uma relevante quantidade de artigos de imprensa relacionados com questões de género, de forma directa ou indirecta. Da monitorização diária dos vários jornais e revistas, resulta uma préselecção de 649 artigos. Desses, 221 artigos foram considerados os mais relevantes – tanto pela positiva, como pela negativa – e, por isso, foram debatidos individualmente nas 10 reuniões mensais da Unidade Local de Análise de Imprensa. De forma qualitativa, podemos concluir que a violência doméstica foi o tema mais presente dos artigos debatidos nas reuniões mensais. Dos 221 artigos, 85 dizem respeito a este tema. Seguem-se as questões de assimetrias relacionadas com o corpo feminino e masculino (16 artigos). Foram disso exemplo artigos nos quais a representação do corpo feminino surge de forma objectificada ou em que foram legitimadas idealizações estereotipadas relacionadas com o corpo das mulheres (relacionadas com aspectos sexuais, idade, peso, etc). Contudo, a violência não se esgota na esfera doméstica. Por temas, os crimes sexuais surgem em terceiro lugar (16), seguidos de visibilidades LGBT (14). Destaque também para os artigos sobre assimetrias relacionadas com o trabalho (11) e com a detenção de cargos públicos por parte de mulheres. Neste último, a principal questão problemática centrou-se mesmo na menorização das detentoras dos cargos ao seu género, dando menor destaque às competências e percurso profissional das mesmas (10). Nos boletins produzidos são facilmente encontrados exemplos de cada uma destas áreas elencadas. Com resultados francamente assimétricos entre os poucos artigos pela positiva (15% dos artigos analisados nas reuniões) e muitos artigos assinados pela sua componente discriminatória e problemática, note-se que são vários os ângulos e abordagens para cada tema – muito embora contribuam, na sua maioria, para fomentar assimetrias e estereótipos de género na opinião pública. Através das diferenças percentuais, conclui-se que a imprensa nacional e regional monitorizada continua a reproduzir estereótipos sociais problemáticos – que

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resultam em graves assimetrias de poder – ao invés de aproveitar a sua importância crítica na formação da opinião pública como estímulo a artigos de maior qualidade e inclusão. A representação mediática destes temas continua a reforçar assimetrias entre homens e mulheres, repercutindo desigualdades e atitudes discriminatórias.

Conclusões Gerais

A presença das mulheres na representação mediática continua muito dividida em dois polos: ou são apresentadas no papel de vítimas (enquadradas, por exemplo, na maioria de artigos debatidos sobre violência doméstica) ou como casos de excepção, sobretudo quando são apontadas como exemplo na esfera pública. Nesta representação de excepção, o retrato mediático destas mulheres é feito através de características particulares e fora do comum (muitas vezes características associadas, de forma estereotipada, ao masculino). Falta, por isso, uma normalização das mulheres na esfera pública, numa presença mediática que possa ser fiel à complexidade e pluralidade do ser humano (independentemente da sua identidade de género).

Continuamos a assistir a uma absoluta categorização binária entre homens e mulheres, assumindo também papéis sociais estereotipados de género. Outras identidades de género são remetidas, na maioria das vezes, à invisibilidade, só sendo abordadas de forma pontual (muitas vezes devido a acontecimentos particulares sobre as mesmas). A mesma invisibilidade atinge a representação mediática de orientações sexuais que não heterossexuais.

Não é propósito deste projecto criticar, de forma específica, os jornais analisados. Até porque, sublinhe-se, existem artigos de qualidade muito díspar no mesmo órgão de comunicação social e a avaliação de artigos em particular está presente nos boletins. Contudo, de forma geral, discursos mais sensacionalistas privilegiam o entretenimento ao invés da informação, transformando casos de violência doméstica, por exemplo, em histórias novelizadas que retiram a seriedade do tema como problemática sócio-cultural. Por outro lado, revistas auto-identificadas como “femininas” ou “masculinas”, assumem claramente uma binarização de comportamentos, entre um “nós” e um “eles/elas”. Esta acaba por ser uma postura que serve de barreira, a priori, a conteúdos mediáticos (e comportamentos sociais) mais plurais, diversos e integradores das várias realidades.

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Conclusões Temáticas

Violência doméstica: é o tema com maior prevalência nos artigos analisados e no qual foram detectados problemas graves de representação mediática. Verifica-se, sobretudo nos jornais de perfil mais sensacionalista, uma descrição narrativa que glorifica a violência e uma tendência de entretenimento em detrimento da informação, o que desvaloriza a importância do tema. Além disso, assiste-se a uma sistemática falta de contexto que enquadre a problemática social. De forma muito preocupante, há uma tendência de justificação dos crimes (entre os motivos mais apresentados pelo discurso jornalístico encontram-se problemas económicos, os ciúmes e actos de loucura momentânea), o que acaba por desculpabilizar o agressor e pôr o ónus da culpa na vítima. Esta perspectiva contribui, por isso, para uma invisibilidade das assimetrias existentes. Verifica-se ainda que o discurso mediático impõe narrativas às vítimas, sem as ouvir, perpetuando a sua vulnerabilidade após o crime. É um discurso que as objectifica em prol da narrativa, num papel passivo e sobre as quais se tecem considerações e julgamentos morais, sendo que problemas semelhantes foram encontrados em artigos sobre violência sexual. Mesmo assim, encontraram-se exemplos positivos da cobertura deste tema, sobretudo em artigos cujo foco residiu em momentos pós-queixa (uso da medida de teleassistência ou reportagem em casas de abrigo a vítimas de violência doméstica, por exemplo).

Participação das mulheres na esfera pública: a descrição jornalística das mulheres em cargos públicos/políticos é frequentemente associada a características da esfera privada (várias referências à vida familiar, por exemplo), reforçando analogias estereotipadas e papeis sociais assimétricos. Além disso, estas mulheres são frequentemente idealizadas como “super-mulheres”, com características fora da norma e com carácter excepcional. Trata-se, sobretudo, de uma rede de características masculinizadas, reforçando a ideia de esfera pública como um mundo de homens. De reforçar que, da análise efectuada ao longo do projecto, verifica-se que em muitos títulos o foco único é o género da detentora do cargo (numa estrutura discursiva semelhante a “primeira mulher eleita”). Nesta abordagem, o percurso profissional e a competências das visadas são ignorados.

O corpo feminino: outro aspecto preocupante é a forma como o corpo feminino continua a surgir na construção mediática de forma totalmente assimétrica ao corpo masculino. O corpo das mulheres surge de forma objectificada, passiva e sexista. Em algumas publicações de pendor mais

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sensacionalista ou para uma audiência masculina, a notícia é usada como pretexto para explorar o corpo feminino em imagens de grande impacto e dimensão. Há uma imposição de ideais estereotipados extensivos a todas as mulheres, já que são comuns os discursos mediáticos sobre “corpos invejáveis”, mas também sobre a ligação de beleza e sexualidade à juventude e a tentativa de fiscalização de um “corpo dito saudável” (sobretudo em figuras públicas). 

Direitos laborais: pela positiva, a maioria dos artigos monitorizados relativos a direitos laborais demonstra uma perspectiva vincada de igualdade de género, desconstruindo estereótipos e assimetrias. As desigualdades existentes são elencadas e desconstruídas, na maioria dos artigos analisados sob este tema.

Orientação sexual/ perspectivas LGBT: o discurso jornalístico continua encerrado em dicotomias e binarizações de género. A heterossexualidade e o binarismo homem/mulher estão presentes na grande maioria das narrativas encontradas. As únicas excepções surgem quando o tema da notícia diz respeito directamente a uma temática LGBT. A pluralidade de géneros e identidades não surge de forma transversal à cobertura mediática do mundo e da sociedade. Verifica-se ainda algumas noções erróneas e confusão de conceitos quando o tema abordado na imprensa se relaciona directamente com identidades de género e transsexualidade. Seria preciso, talvez, um maior trabalho de sensibilização dos e das jornalistas para este tema. Não obstante, notou-se algum esforço para dar uma visibilidade positiva a este tema, muito embora em certos artigos analisados, predomine um certo perfil de bizarro ou exótico como mote principal.

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2.3-Entrevistas

Em paralelo com a monitorização de imprensa e apresentação dos dados observados, considerou-se relevante complementar o projecto com perspectivas diversas, ligadas à igualdade de género nos media. A mais-valia desta complementaridade assenta, sobretudo, nas ligações multidisciplinares que podem ser alcançadas, assim como num maior conhecimento do tema tanto para os/as promotores/as e parceiros/as do projecto, como para o público em geral. Nesse sentido, optou-se por materializar estas diferentes perspectivas em formato de entrevistas escritas tanto a especialistas académicos, como a profissionais do sector. As entrevistas foram incluídas em alguns dos boletins do projecto e estão disponíveis, para futura consulta, na plataforma on line de publicações do IEBA. Foram, por conseguinte, reunidos os contributos dos/as seguintes especialistas:   

Carla Cerqueira, investigadora em Estudos de Género e Média no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS); Sofia Branco, jornalista da Agência Lusa e professora convidada no Mestrado em Estudos sobre as Mulheres, na Universidade Nova de Lisboa; Reynald Blion, coordenador do projecto MEDIANE, uma iniciativa do Conselho da Europa e da União Europeia para promover a diversidade e a não discriminação nos media europeus.

Nota:

Por motivos de partilha de conhecimento e para memória futura, as entrevistas estão incluídas, na íntegra, nesta publicação final (ver anexos). Embora no boletim surja uma versão mais reduzida da entrevista a Carla Cerqueira (por motivos de espaço), optou-se por reproduzir aqui o texto complexo.

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2.4-Ateliê de ESCRITA INCLUSIVA

No âmbito das actividades previstas pelo projecto MEDIA+Igual realizou-se, a 26 de Maio, um Ateliê de ESCRITA INCLUSIVA, com o objectivo de promover uma linguagem mediática menos discriminatória a estudantes de jornalismo. A iniciativa teve lugar na Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC), em colaboração com o Curso de Comunicação Social do estabelecimento, e foi dinamizado pela facilitadora do MEDIA+Igual, Marisa Vitorino de Figueiredo. Ao longo de sete horas, a acção permitiu disseminar, a alunas do Curso, conteúdos especializados de sensibilização para uma escrita jornalística mais plural e não-discriminatória, tanto a nível dos aspectos formais, como no que diz respeito ao tratamento de temas jornalísticos. Com uma primeira parte de contextualização breve do projecto MEDIA+Igual (objectivos e metodologia) e da importância dos media para a formação de uma opinião pública mais inclusiva, a acção concentrou-se de seguida na definição possível de escrita inclusiva, num debate e troca de ideias com as participantes. A responsabilidade social dos media e a promoção de uma igualdade formal entre géneros (eliminando o uso do masculino como género gramatical universal) foram alguns dos tópicos mais relevantes nesta primeira abordagem à questão. Os conteúdos apresentados remeteram também para sugestões práticas da eliminação do uso do masculino genérico na língua portuguesa, fomentando formas de linguagem não-discriminatórias adequadas a um contexto jornalístico. Tendo por base as linhas de orientação da CIG – Comissão para a Igualdade de Género, foram apresentadas alternativas de linguagem ao nível das formas duplas, emprego de barras para elencar ambos os géneros gramaticais e a neutralização da referência genderizada das palavras (por exemplo, substituir “vive sozinho” por “vive só”). Ainda numa fase conceptual da sessão, foi também pedido às participantes que fornecessem ideias para a definição de diferenças entre género e sexo, sensibilizando a audiência para o papel das expectativas sociais com base no género na perpetuação de uma sociedade desigual. Chegou-se, neste caminho, a uma conclusão partilhada de que a socialização com base em identidades binárias de género leva ao desenvolvimento de estereótipos, que também vão afectar a maneira como os/as jornalistas leem e medeiam a realidade no espaço mediático. As participantes tiveram acesso a algumas das conclusões interinas da actividade de monitorização de imprensa do MEDIA+Igual (já disponíveis por ocasião do ateliê), de forma a perceber quais os principais

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problemas detectados nos jornais e revistas nacionais. Desta maneira, foi possível desconstruir, em conjunto, artigos discriminatórios e problemáticos (já analisados anteriormente pela Unidade Local de Análise de Imprensa). Com base no contexto teórico e na análise de imprensa do projecto, partiu-se então para uma sessão de exercícios práticos, na qual as estudantes de jornalismo tiveram a oportunidade de recriar e explorar os novos conceitos de linguagem inclusiva através da análise (primeiro individual e autónoma, posteriormente em comum com o grupo) e rescrita de artigos. No final do ateliê, foi distribuído um guia de orientação em escrita inclusiva às participantes, como forma de motivar e apoiar trabalhos jornalísticos futuros segundo um discurso mais igualitário. O documento inclui uma checklist para a construção de uma notícia inclusiva, Orientações sobre como escrever sobre violência (sexual) contra mulheres, e Orientações para escrever artigos sobre política e governo.

Nota:

O guia de orientação para uma linguagem inclusiva pode ser consultado em anexo, no final desta publicação.

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2.5-Conversas sobre a (IN)VISIBILIDADE DAS MULHERES NOS MEDIA

O propósito de fomentar um maior debate público sobre foi também alcançado com duas “Conversas sobre a (IN)VISIBILIDADE DAS MULHERES NOS MEDIA”, através das quais as entidades parceiras do projecto puderam apresentar a sua visão sobre a representação de géneros na imprensa. Destinadas a jornalistas, estudantes do Ensino Superior e, claro está, a um público generalista, as Conversas tiveram lugar em dois dias distintos (11 e 18 de Junho), na Cafetaria Museu da Ciência, em Coimbra. Este encontro de experiências permitiu analisar, com base nas experiências distintas das associações da sociedade civil, o papel dos media no fomento da igualdade de género. Esta foi uma reflexão promovida tanto num sentido abrangente, como em situações de dupla discriminação. Ou seja, no caso de mulheres pertencentes a grupos sociais só por si já discriminados, tais como mulheres imigrantes, mulheres pertencentes a minorias étnicas, mulheres com deficiência, mulheres lésbicas, gay, bissexuais e transexuais (LGBT) e mulheres vítimas de crime. Foi, portanto, uma experiência enriquecedora, durante a qual foram criticados discursos mediáticos discriminatórios e estereotipados, que reforçam uma desigualdade de géneros na sociedade, mas também a invisibilidade mediática a que são sujeitos alguns dos grupos sociais atrás mencionados. Para tal, a experiência de monitorização de conteúdos jornalísticos ao abrigo do MEDIA+Igual revelou-se fundamental para as entidades parceiras, assim como a apresentação de casos actuais – por iniciativa própria – de coberturas noticiosas problemáticas. No dia 11 de Junho, a Conversa contou com a participação da APPACDM, SOS Racismo e Não Te Prives. Já a 18 de Junho, ouviram-se as experiências da APAV, UMAR e GRAAL. Os contributos de todas as associações parceira podem ser lidas no final deste relatório.

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3. ANEXOS

3.1-Artigos/contributos dos parceiros MEDIA+Igual/ULAI Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) (IN)VISIBILIDADE DAS MULHERES VÍTIMAS DE CRIME NOS MEDIA Natália Cardoso

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima é uma instituição particular de solidariedade social, pessoa colectiva de utilidade pública, que tem como objectivo estatutário promover e contribuir para a informação, protecção e apoio aos cidadãos vítimas de infracções penais. É uma organização sem fins lucrativos e de voluntariado, que apoia de forma individualizada, qualificada e humanizada vítimas de crimes, através da prestação de serviços gratuitos e confidenciais. Foi fundada em 25 de Junho de 1990, sendo uma instituição de âmbito nacional, com sede em Lisboa. A APAV, representada pelo Gabinete de Apoio à Vítima de Coimbra, é parceira do projecto MEDIA+Igual, que se encontra a ser dinamizado pelo IEBA, através da participação em reuniões da Unidade Local de Análise de Imprensa, nas quais mensalmente são analisadas notícias oriundas de jornais e revistas nacionais. Do acompanhamento que temos vindo a fazer no projecto MEDIA+Igual verificamos que as mulheres vítimas surgem com maior representação na imprensa são as mulheres vítimas de violência doméstica e as mulheres vítimas de violência sexual, sendo raro que as mulheres apareçam retratadas como vítimas ou agressoras de outros tipos de crime. Estes dois tipos de crime, exemplos que podem ser lidos à luz do conceito de violência de género, representam crimes em que as mulheres são as principais vítimas e raramente agressoras, e nos quais é notada a especial vulnerabilidade da mulher face a comportamentos de exercício abusivo de poder explicáveis pela matriz patriarcal da sociedade, isto é, comportamentos cultural e socialmente enraizados, que assistimos com regularidade serem percepcionados como naturais e, por essa razão, normalizados e tolerados. Enquanto instituição cuja missão é apoiar vítimas de crime, temos vindo a verificar um interesse crescente da Comunicação Social relativamente a outros fenómenos associados à violência doméstica, embora ainda

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marginais nas estatísticas, como aqueles crimes de violência doméstica em que os homens são vítimas ou às situações de violência doméstica entre casais homossexuais. Contudo, e apesar do tratamento que tem sido dado a estes casos por parte da Comunicação Social, em particular o cunho exótico atribuído pela chamada imprensa sensacionalista, e que obviamente condenamos, reconhecemos que este interesse poderá ajudar a desocultar e dar visibilidade a outros casos de violência doméstica, facilitando a procura de ajuda por parte destas vítimas. Este tratamento de alguns actos de violência como exóticos ou caricatos reporta-se frequentemente em situações em que é a mulher a agressora. Nestas situações parece ser usual a imagem da mulher agressora como a de alguém que está fora de si, ou que sofre de demência, doença mental, entre outras características similares, dando-se a entender que a violência não faz parte do código genético feminino e que só perante um estado alterado se consegue perceber que uma mulher seja capaz de actos de brutalidade e violência. Este tipo de justificação, assente na imagem da loucura da mulher, parece ser frequente nas situações de infanticídio, ou de homicídio- suicídio em que a mulher e mãe mata os próprios filhos suicidando-se de seguida. Ou seja, socialmente parece que a mulher continua a ser associada ao seu papel de mãe e/ou cuidadora, sendo visto como mais anormal um acto de violência feminino do que masculino. Por outro lado, quando o agressor é o homem, encontramos alguma normalização da violência conjugal principalmente quando esta aparece justificada e descrita como crime passional, ou seja, parece que continua a existir uma desvalorização social dos homicídios ou outros actos de violência conjugal contra as mulheres quando estes estão associados a uma traição por parte da mulher, mesmo nas situações em que o casal já se encontrava divorciado. No entanto, importa salientar alguns aspectos positivos que fomos verificando ao longo deste nosso trabalho de análise de imprensa, a saber: nos jornais de referência conseguimos encontrar um tratamento por norma adequado relativamente à violência doméstica, violação e abusos sexuais de menores. Com alguma regularidade, seja em dias temáticos (25 de Novembro, 8 de Março) seja quando sucede algum acontecimento importante a nível nacional ou internacional, são publicados textos mais densos, com recurso à entrevista com especialistas, percebendo-se um maior cuidado por parte dos jornalistas relativamente à violência contra as mulheres, em particular à violência conjugal. Por outro lado, a imprensa de carácter mais popular ou sensacionalista continua, como que por norma, a retratar os crimes de violência doméstica recorrendo a uma certa emotividade, ao estilo de um folhetim ou telenovela; fazendo uso também de certos juízos de valor relativamente às vítimas e aos agressores. Esta postura é reconhecida pela inadequada adjectivação, pela tendência de tomar partido por uma das partes,

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apelando à polémica, com o recurso a expressões que criam dúvidas sobre os factos e sobre as pessoas envolvidas. Exemplo desta abusiva adjectivação é o caso do conhecido duplo assassinato de S. João da Pesqueira, em que o homicida em fuga foi apelidado de “monstro” em certos jornais, para se referirem ao agressor. Se, por um lado, e dada a brutalidade do acontecimento, conseguimos perceber uma forte condenação do homicida, por outro lado, parece-nos que houve a necessidade de despersonalizar o homem que cometeu o crime, atribuindo-lhe características animalescas (“o monstro”), tentando, desta forma, dar um enquadramento não humano a um crime desta dimensão. Esta despersonalização ou desumanização também poderá ser encontrada numa certa transformação do homicida numa espécie de personagem novelesca: narraram-se as peripécias da fuga do homicida, o facto de não ter sido encontrado pelas forças da autoridade que se deslocaram para a localidade. Alguns elementos de caricatura da personagem: a própria alcunha de Manuel Palito, bem como o facto de esta se encontrar a ser ajudada pela população local, que mais parece ter sido chamada a entrar na história, criando novas personagens. Assim, podemos encontrar dois grandes grupos de notícias sensacionalistas: por um lado aquelas que assentam num lado mais caricato, relatando as peripécias da personagem, quase um anti-herói; por outro, as notícias que poderiam incutir nos leitores medo pelo facto do homicida ainda se encontrar em fuga, dando a entender que terá sido visto em várias localidades, facto nunca comprovado. Dado que os jornais de carácter mais popular são os que têm mais tiragem e, por conseguinte, mais impacto na comunidade, seria importante um maior cuidado e rigor no tratamento destas notícias. No que diz respeito aos crimes sexuais, em particular ao crime de violação, também verificamos que há diferenças entre os jornais de referência e a imprensa mais popular, ou sensacionalista: enquanto que nos primeiros as notícias referentes a crimes de violação são dadas, por norma, com protecção da identidade da vítima, sem referência de dados que possam levar à identificação da pessoa na sua comunidade, e com um maior cuidado também no que diz respeito à culpabilização da vítima; nos segundos, é frequente encontrar um discurso culpabilizante da vítima, por exemplo dando a entender que o crime aconteceu porque a vítima se encontrava sozinha num determinado local, ou que estava num local de diversão, ou que se encontrava alcoolizada, ou vestida de modo provocante, passando uma mensagem que reforça os mitos e crenças associados à violência sexual, em vez de os desconstruir. Não raras vezes, aparecem títulos como “Forçada a sexo após diversão”; ou “Jovem violada após aceitar boleia”.

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Também nestes jornais encontramos a adjectivação abusiva, seja relativamente à vítima seja ao agressor, numa perspectiva de atribuição de características que nem sempre corresponderão à realidade ou que, mesmo sendo verdadeiras, colocam o foco da notícia nessa característica específica e não no acto em si. Finalizando, acreditamos que se torna premente a formação dos jornalistas e de outros profissionais da Comunicação Social, para que possamos ter uma visão mais crítica em relação às notícias que nos são transmitidas pela imprensa. Parece-nos pertinente que os jornalistas tenham acesso a formação específica relativamente ao tratamento noticioso da violência doméstica, sexual e outras formas de violência contra as mulheres, evitando a reprodução de falsas crenças e estereótipos e promovendo uma verdadeira consciencialização da comunidade para estas problemáticas, ajudando, desta forma, a promover a mudança.

Nota: O artigo expressa exclusivamente a opinião da sua autora, não reflectindo necessariamente as opiniões da APAV. A autora não segue o novo Acordo Ortográfico.

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SOS Racismo SER IMIGRANTE É UM RISCO, SER MULHER IMIGRANTE É UM RISCO GRAVE José João Lucas

“As mulheres continuam a sofrer discriminação, violência e perseguição, tal como as minorias étnicas, raciais e religiosas, os migrantes e também os indivíduos devido à sua orientação sexual. Isto mostra-nos o quão longe ainda temos de ir.” – estas palavras foram proferidas, em 10 de dezembro de 2013, pela Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, uma jurista sul-africana de origem indiana. Não estando em causa a experiência profissional e a militância cívica em favor dos direitos humanos, por longos anos e em múltiplos contextos, desta mulher, há que interrogar estas palavras: se as mulheres, por todo o mundo, sofrem ‘discriminação, violência e perseguição’, a circunstância de elas fazerem parte de minorias ‘étnicas, raciais e religiosas’, de serem ‘migrantes’ ou de terem ‘orientação sexual’ fora dos padrões maioritários, não agravará a situação? A resposta a esta pergunta poderá encontrar-se em múltiplos relatórios, estudos académicos e resoluções políticas de âmbitos diversos. Por exemplo, no passado dia 20 de maio foi tornado público um novo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), entidade pertencente ao universo da ONU: “Milhões de pessoas sofrem debaixo do jugo da escravatura moderna - mais de metade são mulheres e meninas principalmente no tráfico sexual ou trabalho doméstico – um negócio que está a gerar 150 mil milhões de dólares por ano em lucros ilegais para as pessoas que as estão a explorar.” Lê-se ainda no texto de divulgação oficial: “O novo relatório surpreendente, Lucros e Pobreza: A Economia do Trabalho Forçado, afirma que dois terços do total estimado de 150 mil milhões de dólares gerados pelo trabalho forçado - ou 99 mil milhões - vêm da exploração sexual comercial, enquanto outros 51 mil milhões de dólares americanos são da exploração económica forçada, incluindo o trabalho doméstico, na agricultura e outras atividades económicas.” O mesmo documento refere que, segundo cálculos da OIT publicados em 2012, o número de pessoas em trabalho forçado, tráfico e escravidão moderna, à escala global, se situa em 21 milhões. O relatório destaca choques de rendimentos e pobreza como os principais fatores económicos que empurram as pessoas para trabalho forçado. Outros fatores que contribuem para o risco e a vulnerabilidade incluem a falta de educação, o analfabetismo, género e a migração. Infere-se destas informações que, entre os fatores referidos, há alguns que se potenciam mutuamente, como é o caso da pobreza, do baixo nível educativo e

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da condição de mulher. Sem olharmos para eles de forma conjugada e não isolada, não conseguiremos perceber a complexidade dos contextos e a gravidade das discriminações de que estas pessoas são vítimas. No âmbito das migrações, a catástrofe de maiores dimensões que se tem vindo a verificar, nos últimos anos, no ocidente, e que promete prolongar-se indefinidamente é a da vaga migratória de África e do Médio Oriente para a Europa do sul. Todos os dias, vemos e ouvimos notícias de mais um salvamento ou de mais um naufrágio nas águas do Mediterrâneo. Desde o início deste ano, 34.800 imigrantes ilegais conseguiram atravessar o Mediterrâneo, da costa africana até à União Europeia, segundo números do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Uns aportam na Grécia, outros em Malta e a maior parte em Itália, sobretudo na ilha de Lampedusa. De acordo com o Governo italiano, desde o início do ano até maio, cerca de 22 mil refugiados e imigrantes ilegais chegaram de barco à costa italiana, dez vezes mais do que no mesmo período de 2013. Nos últimos vinte anos, cerca de 20.000 imigrantes morreram, na região do Mediterrâneo a tentar chegar à Europa, de acordo com organizações humanitárias. (‘JN on line’ de 16/05/2014 e ‘Público on line’ de 12/05/2014). ‘Lampedusa, o horror no fundo do mar. Assim morrem os migrantes’ – titulava o jornal italiano ‘La Repubblica’ para relatar o caso de um casal de imigrantes abraçados, que assim morreram vítimas do naufrágio em 3 de outubro passado, ao largo da Sicília. Também foi noticiado o caso da rapariga somali ‘sem nome’ que deu à luz enquanto morria a poucas milhas de Porto Empedocle, na Sicília. Todos sabemos que estas notícias e as crónicas à volta delas têm um impacto muito forte junto do público, até porque relatam situações que o senso comum considera para além do limite, embora este efeito de ‘arrepio’ seja, normalmente, bastante epidérmico e volátil. Por isso mesmo, apesar da impressão de horror que deixam, ficamos com a ideia de que amanhã as coisas poderão voltar a acontecer, com igual ou maior gravidade. Com o tempo, as consciências vão-se habituando a conviver com o inaceitável, que é como quem diz vão-se ‘relaxando’. Também sabemos que este sentimento de ‘relaxamento’ convive bem com a naturalização do sofrimento alheio, sobretudo se vivido por gente distante, quer dos centros de poder, quer dos modelos de humanidade mais próximos. Africanos, negros, pobres e, em muitos casos, mulheres – são condições que impressionam, mas não fazem bulir os cérebros dos governantes, designadamente, dos mais responsáveis pelas assimetrias do desenvolvimento humano às escalas europeia e global. É como se a miséria e o sofrimento fossem inerentes à ‘natureza’ daquelas pessoas. Porquê? Porque sempre foi assim... O que fará mover estas mulheres africanas que decidem partir da sua terra, normalmente em países longínquos ao sul do Saara, nuns casos, sozinhas, noutros, com os seus maridos e filhos? O que as fará pagar somas avultadas a traficantes para percorrerem milhares de quilómetros por estradas de buracos e pó, em condições inimagináveis, para chegarem à margem do Mediterrâneo, mortas de cansaço e de fome? Os que

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as fará daí partir em barcos sem qualquer segurança, amontoadas sobre centenas de outras pessoas, como elas também seguindo a mesma rota, em direção a um qualquer porto do sul da Europa, cujas autoridades as consideram indesejáveis? O que as fará, enfim, construir um projeto de vida sobre as tremendas incertezas duma passagem que se prevê altamente atribulada, arrostando com a enorme probabilidade de morrerem num naufrágio – ocasional, consentido ou até provocado – em nome da segurança daqueles que, na sua imaginação, representam a sua salvação? Podemos conjeturar, mas, em rigor, nada sabemos. Nada sabemos, sobretudo porque o seu mundo nos é completamente estranho, não fazendo parte das nossas vidas quotidianas ou do nosso universo de interesses imediatos. Entretanto, no dia 13 de janeiro de 2012, o navio de cruzeiro ‘Costa Concordia’ naufragou junto à costa ocidental da península itálica. Levava mais de 4.200 pessoas, entre tripulação e passageiros. Morreram 32 pessoas e de mais duas não foram encontrados os cadáveres. Todos nos recordaremos das circunstâncias do acidente e das histórias pessoais e coletivas daquela população. Foram feitas inúmeras reportagens que correram o mundo, muitos dos passageiros e tripulantes foram entrevistados, as autoridades portuárias, policiais e judiciárias falaram aos órgãos de comunicação, recolheram-se testemunhos das famílias dos viajantes e do comandante do navio, fizeram-se e venderam-se montes de T-shirts com a noticiada frase que um responsável da capitania local lhe terá dirigido ao telefone e até a sua presumível amante moldava teve ocasião de falar à comunicação social. Passaram-se, entretanto, mais de dois anos, mas a memória do sucedido permanece. Basta reavivá-la, para que o cidadão comum reentre no seu contexto. Contudo, dos sucessivos e inúmeros outros naufrágios no Mediterrâneo, em barcos muito mais frágeis e ocupados por gente muito menos mediática, apesar de, no seu todo, terem originado um número muito superior de mortos, pouco sabemos. Das histórias pessoais dos homens e, sobretudo das mulheres que ali ficaram sepultados, nada se sabe e – o que é mais grave – faz-se crer que não interessa saber. Como se constrói, na generalidade das consciências dos cidadãos europeus, este preconceito de que ‘o assunto não interessa’? Afastando a hipótese de que tal ideia não nasce por geração espontânea, o que a terá originado? Parto ainda do pressuposto de que nenhum meio de comunicação social europeu, de grande expansão e influência, terá, alguma vez, difundido, de forma explícita, esta asserção ‘o tema dos naufrágios de imigrantes no Mediterrâneo não interessa ao público’. Então o que se passa? Pondo de lado, por razões de proteção da nossa sanidade mental, que não haverá uma única central (ou várias convergentes) de seleção de noticiário à escala global – hipótese que frequentemente aparece aqui e ali – poderemos verificar, contudo, que há evidências que apontam para uma tendência uniformizante de critérios editoriais dos grandes meios de comunicação, pelo menos, no que diz respeito a questões estruturantes do sistema mundial, tal qual o conhecemos hoje. Aponto alguns que, intuitivamente, me

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parecem mais óbvios. O peso mediático é relativo: a) ao papel das notícias dentro do binómio conservação/contestação do sistema, b) à localização do sucedido, mais perto ou mais longe dos territórios que se consideram afetados pelas marcas dos poderes, c) à intervenção dos protagonistas, mais próximos ou mais distantes dos círculos de decisão, d) ao caráter mais fundamental ou mais lateral do acontecimento, tendo em vista o andamento previsível da vida das sociedades, ‘sem sobressaltos’ e) à importância de determinado acontecimento para ajudar a criar ou a reforçar, na opinião pública, ideias fortes acerca dos ‘inimigos’ a marginalizar ou a abater, f) à visibilidade que se pretende atribuir ou negar a pessoas ou grupos que possam representar causas mobilizadoras da opinião pública, em favor ou contra a ‘ordem estabelecida’. Ao tentar redigir estas ‘regularidades’, tenho de precisar que, em cada um dos critérios apontados, pareceme haver matizes diversos que não se resumem somente a opções tão contraditórias, como chamar à primeira página em dias sucessivos ou ignorar pura e simplesmente. Esta reflexão pessoal, conduzida sem a rede de suficientes contributos teóricos disponíveis nesta área, não pretende ter, por isso, um carácter acabado. Serve-me antes para construir uma hipótese explicativa acerca da invisibilidade atribuída, pela comunicação social hegemónica, às mulheres e às suas ações e afirmações, designadamente em contextos de pobreza, de falta de acesso à educação e de migração intercontinental. Várias entidades de âmbito internacional têm produzido deliberações relativas à condição da mulher migrante – afirmação dos seus direitos específicos e necessidade de garantir a sua proteção jurídica e social, da responsabilidade dos estados membros. Destacam-se a Organização das Nações Unidas, em instâncias diversas designadamente, a Organização Mundial do Trabalho, o Conselho da Europa, a União Europeia, entre outras. Numa resolução sobre “Mulheres migrantes sem documentos na União Europeia”, aprovada no passado dia 4 de fevereiro, no Parlamento Europeu, reconhece-se que “(…) as mulheres migrantes sem documentos e os seus dependentes são especialmente vulneráveis aos riscos que advêm da sua situação legal, uma vez que estão mais expostas do que os homens a eventuais abusos físicos, sexuais e psicológicos, más condições de trabalho, exploração laboral pelos empregadores e dupla discriminação, tanto em função da raça, como do género.” (Considerando F) Mais adiante, é ainda afirmado que “(…) os estereótipos de género estão mais profundamente enraizados nas comunidades de imigrantes e que as mulheres migrantes são mais frequentemente vítimas dos vários tipos de violência contra as mulheres, em particular de casamentos forçados, de mutilação genital feminina, dos chamados crimes de honra, de maus tratos nas relações de proximidade, de assédio sexual no local de trabalho e de tráfico e exploração sexuais.” (Considerando J)

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Ao mesmo tempo, vários estudos académicos têm apontado algumas alterações no paradigma tradicional em que se inseria a mulher migrante, até há algumas décadas atrás, quer a nível nacional, quer internacional. Sobre a alteração dos papéis de género pode ler-se numa comunicação intitulada Trajectórias de Mulheres Imigrantes em Portugal, apresentada por Karin Wall, Cátia Nunes e Ana Raquel Matias, no VI Congresso Português de Sociologia, realizado em Lisboa, em 2008: “Tanto no país de origem como no país de acolhimento, encontramos mulheres que, independentemente de serem solteiras, casadas ou divorciadas, estão a trabalhar e procuram melhores oportunidades de emprego e de qualificação. Nos contextos de partida das entrevistadas, verifica-se uma tendência para a mulher ser ativa ao longo da vida e contribuir como provedora para a economia familiar. (…) Por outro lado, em Portugal, a taxa de atividade feminina passou, em 25 anos, de 44% (1981) para 68% (2006).” Num documento da responsabilidade da OIT, “Trabalhadoras e trabalhadores migrantes: alcançar a igualdade de direitos e de oportunidades”, pode ler-se: “Os mecanismos de recolha de dados ainda são insensíveis à dimensão de género. Ao longo dos anos, a proporção de mulheres que migraram em busca de trabalho cresceu rapidamente e essa tendência mantém-se. Tradicionalmente, as mulheres migravam para se juntarem às suas famílias. Atualmente, há um número crescente de mulheres e raparigas, com diferentes níveis de habilitações, que migram à procura de trabalho, em muitos casos sozinhas e como únicas responsáveis pelo sustento da família. “ Segundo dados da OIT, na República da Coreia, em Israel, no Chile e na Argentina, as mulheres representam, atualmente, quase metade do número total da migração laboral. Estas mudanças, como sabemos, não são nada lineares nem pacíficas. Os papéis das mulheres, em processo de alteração significativa, não seguem o mesmo padrão em todo o lado, nem as sociedades em que elas vivem e trabalham as reconhecem do mesmo modo. A investigadora espanhola Cristina Garaizabal, a concluir uma importante série de estudos sobre mulheres imigrantes em Portugal, compilados no livro “Imigração e Etnicidade, Vivências e trajetórias de mulheres em Portugal”, editado pelo SOS Racismo, em 2005, afirma: “Quando se pertence a minorias que também estão discriminadas, não é fácil combinar a ansiedade de liberdade e de igualdade das mulheres com a preservação e a luta pela representação cultural. E para as mulheres é particularmente difícil. Nestas situações as crises internas e os conflitos grupais são frequentes.” Chegados aqui, convém interrogarmo-nos: se se operaram alterações substanciais da realidade das mulheres migrantes no sentido duma autonomização crescente – à escala global e não só no ocidente europeu – e se essas alterações geraram mais conflitos e maior insegurança para as mulheres migrantes, como explicar que esse facto tenha expressão tão reduzida na comunicação social? Por que razão a visibilidade das mulheres

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migrantes, designadamente em contextos de maior discriminação, de sofrimento e de agressão, se mantém tão escassa e diminuta? Na minha opinião, teremos que procurar a resposta na ponderação dos critérios que enunciei acima acerca do peso mediático que determinados factos, movimentos ou discursos merecem da parte de quem decide o que deve ou não ser notícia. Se eles contribuem para a conservação dos valores dominantes, publiquem-se; se, ao contrário, apontam para outro modelo de sociedade, tendo mais em atenção a igualdade dos direitos e as diferenças nas opções de vida, omitam-se e ocultem-se. Paradoxalmente, por vezes, os paradigmas de dominação em vigor nas sociedades tradicionais periféricas, designadamente, sobre as mulheres, ajustam-se bem aos mecanismos de consolidação do poder estabelecido nos países do centro, isto é, aqueles para onde se dirigem os migrantes. Mas isso é uma outra história…

Fontes:

Almeida, Adriano e outros, Imigração e etnicidade, vivências e trajectórias de mulheres em Portugal, SOS Racismo, Lisboa, 2004 Organização Internacional do Trabalho, Trabalhadoras e trabalhadores migrantes: alcançar a igualdade de direitos e de oportunidades, A igualdade de género no coração do trabalho digno, BIT, Genève. Ver em: http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/pdf/gender_december.pdf Wall, Karin, Nunes, Cátia e Matias, Ana Raquel, Trajectórias de Mulheres Imigrantes em Portugal, comunicação apresentada no VI Congresso Português de Sociologia, realizado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, em 25-28 de junho de 2008 Ver em: http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/476.pdf http://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_uploads/1696-pub-migrants-minorities-employment_EN.pdf http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?type=TA&reference=P7-TA-2014-0068&language=PT&ring=A7-2014-0001 http://www.unric.org/pt/actualidade/opiniao/31335-declaracao-prospetiva-para-os-direitos-humanos-20-20-pela-alta-comissariada-onu-para-os-direitos-humanos-navi-pillay-para-o-dia-dos-direitos-humanos-10-de-dezembro-dehttp://www.unric.org/pt/actualidade/31484-lucrativo-mas-perverso-trabalho-forcado-deve-ser-erradicado-de-uma-vez-por-todasafirma-agencia-da-onu http://www.repubblica.it/cronaca/2014/05/15/news/morte_migranti-86184959/?ref=HREC1-4 http://www.migrationeducation.org/44.0.html# http://www.publico.pt/mundo/noticia/navio-com-imigrantes-naufraga-perto-de-lampedusa-1635592 http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=3873464

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APPACDM Coimbra A (IN)VISIBILIDADE DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA OU INCAPACIDADES

A APPACDM de Coimbra é uma instituição que procura promover a defesa dos direitos de cidadania das pessoas portadoras de deficiência, ou em situação de exclusão social. Nesse sentido, apoia atualmente perto de 1 milhar de pessoas, desde o seu nascimento até à sua morte, em 4 concelhos do distrito de Coimbra, contribuindo ao longo de 45 anos da sua existência para a melhoria da qualidade de vida dos seus clientes e respetivas famílias. É uma instituição de referência, estando certificada com o nível de Excelência pelo Modelo EQUASS, tendo obtido o resultado mais elevado no país e encontrando-se entre as três instituições mais pontuadas na Europa por este modelo. No que diz respeito ao tema que nos foi proposto a (IN)visibilidade da mulher nos media, desde o início do projeto MEDIA+Igual que sempre nos pautamos por denunciar a inexistência de atenção por parte dos meios de comunicação social escrita para questões relacionadas com as pessoas com deficiências e/ou incapacidades. Ao longo do projeto e após analisarmos quase uma centena e meia de artigos jornalísticos, quer pela positiva quer pela negativa, chegámos à conclusão que apenas uma percentagem insignificante de notícias abordava a questão da deficiência e reforçando sempre vários estereótipos linguísticos. Poderemos então retirar duas conclusões: não existem problemas por resolver na sociedade no que diz respeito à população com incapacidades ou, por outro lado, são pessoas que estão colocadas à margem de toda a vida social, política económica... Pela experiência acumulada ao longo dos 45 anos de existência desta instituição, inclinamo-nos mais para a segunda hipótese, ou seja, a sociedade em geral não se preocupa com 6,1% da sua população (dados dos censos de 2001), ou seja, mais de 600 mil portugueses e isso reflete-se na não abordagem por parte dos media para os problemas desta população. A legislação portuguesa está considerada como uma das mais avançadas, tendo Portugal ratificado a Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência, assim como o protocolo opcional comprometendo-se a transpor os princípios para a legislação nacional, mas tudo isto tem que ser consubstanciado por atitudes positivas e envolvendo todos os cidadãos, para que todos sejam tratados com igualdade de oportunidade, sem discriminações e que tenham os mesmo direitos

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Para concluir não fiz referência específica à invisibilidade da mulher portadora de deficiência e/ou incapacidade, pois nesta temática a invisibilidade não tem por base a questão de género, mas sim a questão da deficiência. Será que a população sabe que os atletas portugueses dos jogos olímpicos são dos mais medalhados do país? Será que as pessoas sabem que em Espanha existe uma vereadora portadora de deficiência? Será que as pessoas sabem que no distrito de Coimbra existem muitos empresários que admitem pessoas com deficiência para seus quadros de pessoal? Será que a população sabe que existem grupos musicais/culturais de pessoas com deficiência ou incapacidades? Será...? Muitos outros exemplos se poderiam dar. Será que os jornalistas sabem que desde 2013 existe um guia de boas práticas para jornalistas para que possam desenvolver o seu trabalho de uma forma eficaz e promovendo a igualdade entre género, sem estereótipos e discriminações? Ao longo do tempo muito se tem conquistado para que os portadores de deficiência e ou incapacidades sejam tratados como pessoas de direito, tenham melhores condições de acesso à educação, ao emprego, à cultura, mas muito ainda há por fazer no que diz respeito ao direito à opinião, à sexualidade, no acesso à política, etc. O papel dos jornalistas terá como objetivo prioritário, no que diz respeito a este grupo da população portuguesa, poder contribuir para o eliminar de estereótipos e o fomentar de uma atitude positiva. Este contributo pode ser atingido mediante duas linhas de trabalho: por um lado, expondo situações de violação dos direitos destas pessoas, seja na família, na escola, no trabalho, nas instituições ou na sociedade. Por outro lado, dando visibilidade às situações de sucesso que diariamente são alcançadas por essas pessoas em muitos campos, no trabalho, nas artes, no desporto e fazendo-o sem protecionismo, mas apenas colocando a tónica na capacidade de superação de cada uma dessas pessoas, bem como nos esforços de eliminação de barreiras à sua integração plena.

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UMAR Coimbra A INVISIBILIDADE DAS MULHERES NOS MEDIA: QUANDO A REPRESENTAÇÃO DE GÉNERO DEFINE O SEXO DA NOTÍCIA

Os meios de comunicação social desempenham um papel crucial na transmissão de valores, normas e símbolos, na integração de papéis sociais, na construção de crenças e opiniões, influenciando a forma como olhamos e compreendemos o mundo e as pessoas. Sob o bastião da “neutralidade” e “objetividade” jornalística, contam-nos histórias que constroem “realidades” acerca do mundo e das pessoas, mostram-nos condutas de comportamento que se constituem como referência para as sociedades. Contudo, essas “verdades” e “realidades” chegam-nos, demasiadas vezes, enviesadas. Segundo Bach Arús:

De entre todos os temas, cenários e personagens possíveis, que são muitos, os média escolhem aqueles que por razões económicas (vendas, expansão, audiência), políticas (interesses e estratégias de grupos) ou sociais (crenças, valores, tradições) consideram dignos de ser submetidos a um seguimento informativo regular (Bach Arús et al., 2000, cit. por Cabo, 2007, p. 10)

É, assim que, através das notícias – desde a escolha do tema, a escolha do ou da jornalista que a vai redigir/apresentar, a escolha dos ou das especialistas e fontes que suportam ou fundamentam a notícia, até à redação da notícia, as palavras e expressões utilizadas (e todas as escolhas que se fazem nesse percurso) – são veiculadas interpretações/representações/significações do mundo e das pessoas, opiniões, valores, conceitos, normas sociais e culturais, em toda a subjetividade que tal implica. Além disso, a cultura jornalística prioriza, também, os acontecimentos fáticos em detrimento daqueles que necessitam de uma abordagem mais complexa dos processos sociais, como é o caso daqueles relacionados com as questões de género. É necessário estarmos conscientes destas subjetividades e entender o jornalismo enquanto produção simbólica para, assim, perceber de que forma os media contribuem para a perpetuação das desigualdades entre homens e mulheres. O estudo de Márcia Veiga (2010), sobre as rotinas de produção de um programa telejornalístico, mostra-nos a forma como os estereótipos e representações vão sendo transmitidos nas várias fases e dimensões da produção jornalística:

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Na produção das matérias, desde o surgimento, os valores subjetivos eram acionados e delineavam seus contornos. Passado o processo de definição do perfil da notícia (e do profissional), o restante do percurso também estava permeado de escolhas que levavam em conta esses valores culturais e que do mesmo modo influenciavam cada processo de escolha e de decisão (2010: 126)

Márcia Veiga (2010) verificou, ainda, que as notícias se podiam dividir em duas grandes categorias: as notícias “quentes” ou “furos” jornalísticos, constituídas “de matérias de cunho investigativo, denunciativo, de risco, de competição (como o futebol), relacionadas à (i)legalidade, de alta cultura, poder, entre outras” e as notícias soft “associadas a valores como proteção, fragilidade, brincadeira, piadas, solidariedade”. A forma como as notícias eram percebidas influenciava na escolha da pessoa indicada para tratar determinada matéria. Nas primeiras, os profissionais escolhidos eram homens “e com determinadas características de gênero consolidadas e reconhecidas por seus pares”, enquanto que, nas segundas, entendidas como leves e lúdicas, “indicadas para entreter e não exigir reflexões”, eram, geralmente, entregues a mulheres. A mesma lógica estava presente na escolha das fontes a utilizar nas notícias. Este estudo permite-nos perceber de que forma as normas culturais e sociais estão imbuídas nas notícias (em todas as suas fases de produção/redação), transmitindo ideias, valores e símbolos sem que haja uma reflexão crítica sobre os mesmos. É aqui que reside uma das questões fundamentais para se entender de que forma as mulheres se tornam “invisíveis” nos meios de comunicação social. Percebem-se, assim, algumas das linhas que tecem as desigualdades (re)produzidas pelos meios de comunicação social, no que se refere às mulheres, e como estas se vão construindo nas várias dimensões envolvidas no processo mediático. O que os media transmitem são “propostas de leitura da realidade” (Cabo, 2007) e não verdades “neutras” e “objectivas” como se pretende que estas sejam entendidas. Pensar na invisibilidade das mulheres nos media é, em primeiro lugar, pensar na sua sub-representação no campo mediático. São vários os estudos que apontam para uma assimetria na quantidade e qualidade de representação entre homens e mulheres. Entre apenas 14% a 18% das vezes em que um nome aparece numa notícia este pertence a uma mulher (Cabo, 2007; Díez, 2002). Ou seja, de todas as vezes que se fala de alguma pessoa nas notícias, em apenas 14% a 18% das vezes essa pessoa é uma mulher. Estes dados são encontrados tanto a nível nacional, como internacional, constituindo, assim, uma estimativa bastante aproximada do que é a realidade quantitativa da representação das mulheres nos media, seja na televisão, rádio ou imprensa escrita. Compreende-se que esta drástica desigualdade de

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representação nos media, onde apenas em aproximadamente 18% das notícias as mulheres são referenciadas/noticiadas, seja encarada como profundamente desigual e assente em valores estereotipados e sexistas. Além das diferenças a nível quantitativo, existem desigualdades qualitativas na representação das mulheres, relativamente aos homens, nos meios de comunicação social. Estas referem-se, por um lado, à forma como são representadas nas notícias que, na sua maioria, se regem por padrões hegemónicos e heteronormativos, que se reflectem em certos adjetivos e categorias que “encaixam” as mulheres em papéis estereotipados, tradicionais e sexistas. Isto significa que, mesmo quando as mulheres são referenciadas ou noticiadas, são também invisibilizadas, pois a forma como aparecem representadas fixaas em categorias pré-determinadas, como se existissem apenas três ou quatro formas de se ser mulher, sendo as mais comuns: mãe, esposa ou amante (Cabo, 2007; Díez, 2002), ou como vítimas de acidente, caso em que, inclusivamente, estão sobre representadas (Díez, 2002). Frequentemente associadas a conceitos como afetividade, dependência, fragilidade e preocupação com os outros, as mulheres são maioritariamente representadas como mães, esposas ou amantes, estereótipos quase sempre associados a características como beleza, sedução ou atratividade. Assim, a mulher ainda aparece representada como subordinada à figura masculina, muitas vezes apresentada como objeto de beleza. Os homens, esses, são representados como sendo mais dominantes que as mulheres, são poderosos e têm êxito, ocupam posições de poder, iniciam a ação, são racionais (Fejes, cit. por Díez, 2002), ocupam a esfera pública e de poder. No caso em que as mulheres são apenas referenciadas aparecem, frequentemente, em função do estatuto familiar ou grau de parentesco de uma figura masculina conhecida (como mães, esposas, irmãs, viúvas, companheiras), como figuras de adorno, algo que raramente se vê acontecer com os homens (Cabo, 2007). Dentro desta “cultura jornalística” (Gallego, 2003), acontece também, principalmente nos casos de celebridades ou pessoas influentes, aparecerem em fotografias que ilustram a notícia e não serem mencionadas no corpo da notícia. Outro aspecto a considerar é que, não raras vezes, a informação sobre a atividade profissional das mulheres nem sequer é mencionada. Trancart (1996, cit. por Cabo, 2007) chama a atenção para que, nos meios de comunicação social em França, uma em cada duas mulheres é referenciada/noticiada sem ser mencionada a sua profissão, no que se refere aos homens tal só acontece uma em cada dez vezes. É, também, necessário refletir sobre o facto de que estas representações estereotipadas e sexistas, onde as mulheres representam maioritariamente papéis tradicionais, serem muitas vezes associadas ao espaço

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privado, doméstico, por contraponto aos homens, quase sempre associados às esferas públicas e de poder. Por exemplo, aquela pergunta que muitas vezes vemos ser colocada às mulheres (e raramente aos homens) “Como concilia a vida familiar com a vida profissional?”, mostra como as mulheres continuam a ser insistentemente colocadas no âmbito doméstico, mesmo quando o foco é a vida profissional. Importa sublinhar que a dicotomia público/privado segue atuando como um clichê persistente e cristalizador de representações e significados, sobretudo em alturas de significativas clivagens políticoeconómicas, tal como o panorama de recessão financeira com que Portugal se confronta. Neste contexto, o discurso ambivalente da posição das mulheres na sociedade, construído pelo pensamento neoconservador e austeritário, abre precedentes para que os impactos de uma crise sejam sentidos de forma diferente entre homens e mulheres, pois os mesmos encontram-se diferentemente posicionados nas hierarquias do poder económico, político, social, cultural e simbólico. E se o discurso mediático desempenha um papel crucial na transmissão de valores, normas e símbolos, a representação das mulheres, neste contexto de crise económica, dá-se como uma extensão das relações sociais patriarcais existentes. O que se evidencia na narrativa jornalística, portanto, é um “chamamento” (muito semelhante ao do pós-Segunda Guerra nas sociedades ocidentais) das mulheres para o cumprimento dos seus papéis sociais – outrora indexados aos referenciais essencialistas de género –, neste contexto, contribuindo, entre outros, para a redução dos custos no ambiente doméstico. Um aspeto relevante para se compreenderem as desigualdades entre homens e mulheres no campo mediático é questionar sobre: onde aparecem as mulheres nas notícias? Nos diferentes meios de comunicação social as notícias dividem-se, geralmente, por várias secções, que podem ser designadas como Política, Economia, Desporto, Cultura, Sociedade, entre outras. Como já Márcia Veiga (2010) apontava, existe uma diferença entre as hard e as soft news. Várias/os autoras/es debruçam-se sobre esta dimensão do processo mediático e constata-se que os homens são maioritariamente representados nas hard news, mais associadas com prestígio e poder, e as mulheres nas soft news, caracterizadas como mais leves e lúdicas, para entreter. Nas secções hard, como Política ou Economia, raramente as mulheres aparecem representadas, por oposição às secções soft, como Sociedade, Cultura, Espetáculos ou Informações e, também, nas secções “cor-de-rosa”, onde as mulheres são mais representadas. Na secção desportiva as mulheres também raramente aparecem noticiadas e, para o serem, têm de ter realizado mais esforços e as suas conquistas serem mais chamativas para poder captar a atenção dos media, até porque esta secção assume “o homem como protagonista e a mulher como atriz secundária” (Cabo, 2007: 29).

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Relacionado com esta desigualdade de representação mediática nas diferentes temáticas jornalistas, está a presença de trabalhadoras e trabalhadores dos media em cada uma dessas secções. Assim, tal como na representação noticiosa, também ao nível do processo mediático os homens trabalham mais nas temáticas hard e as mulheres são maioritariamente remetidas para as notícias soft. Outra das representações frequentemente veiculadas é a da mulher como vítima. Relativamente à representação da violência, existe uma sobre-representação da mulher como vítima nos meios de comunicação social. Para exemplificar, no estudo de Pillar Díez (2002) constatou-se que 6,8% das mulheres foram representadas como vítimas, enquanto que os homens o foram em apenas 1,2% dos casos. De forma convergente, o Global Media Monitoring Project: Women's Participation in the News, estudo realizado em 71 países, aponta que 18% do total das mulheres representadas nas notícias o foram enquanto vítimas, já os homens o foram em apenas 8% dos casos (GMMP, 1995). Considerando que as mulheres aparecem em apenas 18% das notícias, a hipótese de existir uma sobre-representação das mulheres enquanto vítimas torna-se plausível. Relativamente ao meio televisivo, parece ser mais atrativo representar o estereótipo de vítima (tal como acontece com o estereótipo sexual) por uma mulher do que por um homem, como refere Díez (2000), “às mulheres personifica-se mais, filma-se mais, mais em primeiros planos e é mais provável que sejam alvo de tratamento sensacionalista”. Na imprensa escrita esta temática é também tratada de forma sensacionalista, mas com mais foco no acto perpetuado pelos homens (agressão ou femicídio), no tipo de arma utilizada (caso tenha sido utilizada), quase sempre preenchida com afirmações pouco sustentadas e, além do mais, perigosas, já que se traduzem em expressões e adjetivos que, de uma forma geral, culpabilizam a vítima e “suavizam” os crimes ou mesmo desculpabilizam o homem, ou porque estaria “bêbado” ou “desempregado” ou “com ciúme”, por vezes descritas como se fossem “atos do momento”, descontextualizando e retirando o significado real do que é a violência contra as mulheres nas relações de intimidade. O uso do genérico masculino é outra questão fundamental. Há que deixar de encarar esta questão como secundária. É importante incluir todas e todos na nossa linguagem para que não fique ninguém excluída/o, e uma das formas de atingir essa igualdade através da linguagem é utilizando-a de forma não sexista. Pode-se optar por utilizar palavras neutras que abarcam ambos os sexos, por exemplo. O facto é que quase sempre se utiliza o genérico masculino para representar ambos os sexos e isto é consequência de valores patriarcais herdados no uso da linguagem (Cabo, 2007). Existem, ainda, notícias em que as mulheres são valorizadas por desempenharem um papel de destaque em diferentes áreas da sociedade. Aparentemente não reflectem, na forma como descrevem e

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representam as mulheres visadas, estereótipos e desigualdades de género, pelo contrário, permitem dar visibilidade a mulheres protagonistas de determinadas ações, que as colocaram em lugar de destaque e, em alguns casos, em posições de poder. Contudo, ao destacarem apenas algumas mulheres, supervalorizando-as, também é veiculada a ideia de que ascenderem a posições que são do domínio masculino é algo de excepcional e quase impossível de ser alcançado ou concretizado por mulheres. Desta forma, esta contraposição à fragilidade que se espera das mulheres promove, também, a ocultação das desigualdades de género que afetam a maioria das mulheres. Este processo de representação subrepticiamente reproduz os estereótipos que caracterizam as mulheres como mais frágeis e submissas, refletindo um sistema social, económico e político onde prevalecem as relações de poder e as desigualdades de género. As restantes mulheres que não se enquadram nas categorias acima descritas, as restantes realidades de se ser mulher não “existem” no campo mediático, são “excluídas”. A representação das mulheres não é, assim, plural e real. É de sublinhar, para além destas notórias características transversais aos estudos em torno da representação mediática das mulheres, o silenciamento enquanto um recurso discursivo eficaz no reforço do enviesamento do género na notícia. O obscurecimento da presença das mulheres no espaço público, enquanto intervenientes nas decisões sociais, sobretudo nas que lhe são inerentes à sua posição-de-sujeito na sociedade, bem como das resistências, do não-dito dos feminismos, é recorrente nos textos jornalísticos. O silenciamento de temas fraturantes ao quotidiano de uma parcela significativa das mulheres, que se traduz pela não inclusão da defesa dos seus interesses, como direitos laborais e salariais, assédio sexual e violência doméstica, ou ainda o impacto da crise económica no seu dia-a-dia ou a abordagem que prima pelo “enviesamento social do género” (Munro, 1999), pode ter como resultado a não-identificação, pelas mulheres, dos seus interesses quotidianos, ou seja, que não se sintam refletidas nos conteúdos mediáticos, levando quer a um caminho de autoexclusão das mulheres, quer a um possível caminho de naturalização das assimetrias de género junto à sociedade, profundamente marcadas pelas relações hierárquicas de poder. Após esta breve reflexão sobre a representação das mulheres nos meios de comunicação social, verificase que ainda persistem desigualdades de género nos discursos mediáticos que invisibilizam as mulheres. As desigualdades veiculadas são construídas ao longo do processo mediático e reproduzem consequências negativas no nosso quotidiano. Concluímos que, além de disseminar estereótipos e papéis sexistas, deturpando a imagem das mulheres, tornando-as irreais, um discurso mediático estereotipado e sexista acentua desigualdades e atitudes discriminatórias, bem como atinge consequências mais drásticas quando nos focamos nas realidades da violência contra as mulheres em vários contextos e relações

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interpessoais, por exemplo, ao “provocar o aparecimento de manifestações de violência” (Díez, 2002: 26) no seio destas relações. Todas as questões aqui refletidas foram possíveis de analisar ao longo das várias reuniões da Unidade Local de Análise de Imprensa do projecto MEDIA+Igual, assim, a realidade portuguesa assemelha-se a de outros países, como Espanha, França ou EUA. Neste projeto observámos que as mulheres são muitas vezes representadas como vítimas, como mães, como esposas ou amantes, como adornos (em imagens, por exemplo); observámos (demasiadas vezes) a objetificação do corpo da mulher ou a imposição de vontades como a de a mulher idealizar o seu casamento ou de querer ter um corpo “perfeito”; constatámos que as relações lésbicas são representadas como raridades e a transexualidade como um freak show; analisámos, também, a forma como são representadas as mulheres que estão em cargos de destaque ou poder, em que são noticiadas como se fossem pessoas extraordinárias, como se o sucesso de uma mulher fosse algo impossível de concretizar. O facto de que as representações das mulheres no campo mediático se deverem a questões estruturais dificulta e torna moroso todo o processo de mudança (Cerqueira; Cabecinhas, 2012). É necessária uma mudança a vários níveis: desde o entendimento que cada pessoa constrói do que é ser mulher e ser homem (incluindo todas/os as/os profissionais dos media); a nível organizacional das próprias instituições mediáticas, a necessidade urgente de uma reflexão e discussão das questões do tratamento desigual entre mulheres e homens nos media, e as suas consequências, pelas redações de jornais (p.e., o facto de que mesmo as/os profissionais que demonstram interesse em discutir este tema não o fazem por temerem perder o reconhecimento dos seus colegas e superiores justamente por estarem imersos numa cultura jornalística profundamente marcada pelo género (Gallego, 2003); o aproveitar as diversas orientações nacionais e internacionais que já existem e torná-las mais práticas, desdobrá-las em ações de sensibilização, workshops, formações, incluir estas reflexões na formação básica destas/es profissionais, dando orientações concretas e fomentando o pensamento crítico; fomentar a igualdade entre homens e mulheres no acesso à profissão, ter atenção à distribuição das matérias jornalísticas, ter mais mulheres nos locais de decisão (são raras as mulheres que trabalham na edição ou direção dos media), entre outras. É trabalhando em todas as dimensões do processo mediático que se poderão concretizar mudanças para que sejam veiculadas imagens e representações das mulheres efetivamente reais, isto é, plurais e igualitárias. É necessário passar uma imagem positiva da presença das mulheres nas sociedades.

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Os diversos meios de comunicação social agem, por vezes, como estando distanciados da sociedade, assumem bandeiras como a “objetividade” e a “neutralidade” para justificar a ausência de uma perspetiva de género na produção de conteúdos mediáticos, quando, na realidade, transmitem os discursos de poder, os discursos que hierarquizam e excluem e que se encontram impregnados de ideologias como o nacionalismo, o conservadorismo, o progressismo, a confessionalidade religiosa, entre outras. Constata-se que existe, de facto, uma deslegitimação ideológica das questões de género (Gallego, 2003). Relativamente às discriminações de género e de orientação sexual, que predominam no discurso dos media, é importante salientar que estas são agravadas quando intersectam com outras formas de discriminação – racial, étnica, etária, socioeconómica, política e ideológica – multiplicando e sobrepondo opressões. Cabe, por isso, às instituições mediáticas mudar de discurso, acompanhando e integrando as exigências das várias organizações sociais, feministas e organizações/instituições internacionais. É necessário e urgente deixar de pensar nas questões de género como sendo uma “coisa à parte” e integrá-las nas ações quotidianas, principalmente nos media, dada a sua premência na sociedade e capacidade de modificar crenças e opiniões. Como defende Maria João Silveirinha:

Os media e os seus/suas profissionais não são a única parte do problema do desequilíbrio de género. Mas, para serem parte da solução, é necessário que deem a liberdade de voz às mulheres, uma voz onde elas se possam rever como mulheres e cidadãs, não como objetos de um discurso que perpetua a sua desigualdade (2010: 69)

As propostas feministas são fulcrais para conferir uma visibilidade efetiva das mulheres nos media, ajudando a repolitizar aquilo o que os media despolitizam. De facto, e de acordo com Nancy Fraser, falar publicamente de necessidades até então despolitizadas, utilizando os meios de comunicação, ajuda a criar novos discursos públicos e a canalizar, modificar e deslocar elementos hegemónicos dos meios de interpretação e comunicação (Fraser, 1989, cit. por Silveirinha, 2001). As propostas feministas acerca das políticas de identidade, ao procurarem construir uma política da diferença que subverta a estabilidade das culturas biológicas e a construção de opostos, estão a criar novos discursos e novos espaços onde múltiplas identidades se inscrevem. Algumas feministas propõem “esferas públicas múltiplas” onde as diferenças são reconhecidas e apreciadas na procura de uma base normativa para o particularismo como fundamento democrático. Nesse sentido, os meios de comunicação social são extremamente úteis para que se possa

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debater como cidadãs e cidadãos e não como consumidoras/es, sendo necessária a existência de meios de informação crítica que operem fora do Estado e da economia oficial (Silveirinha, 2001) e que estes se sirvam de estratégias similares aos mass media para que alcancem também o grande público, numa tentativa de infiltrar o espaço que hegemonicamente têm ocupado os principais agentes da informação. É importante referir o movimento feminista como um notável exemplo de atividade de contra-públicos, que procura subverter as construções dicotómicas em torno dos diferentes sexos, criando novos discursos e reclamando novos espaços onde múltiplas identidades se inscrevem. Tentando infiltrar o espaço que hegemonicamente têm ocupado os principais agentes da informação, as feministas vêm politizando o que foi despolitizado, dando crescente e real visibilidade às mulheres. No entanto, conscientes de que não é fácil, por vezes, penetrar as estruturas de poder que detêm os meios oficiais de informação com temas que se encontram tão “à margem”, algumas feministas têm vindo a desenvolver meios de informação crítica 1 que operam fora do Estado e da economia oficial, servindo-se de estratégias similares aos mass media para o alcance do grande público, contribuindo, assim, para a formação de uma massa crítica capacitada para intervir na sociedade. Esta é, sem dúvida, uma condição essencial para a construção de políticas verdadeiramente participativas nas quais as cidadãs e os cidadãos estejam efetivamente representadas/os. Após décadas de luta emancipatória contra a subjugação endémica das mulheres e de contestação a um sistema que sempre encontrou nos binarismos excludentes a mola propulsora da legitimação das relações de poder, os feminismos vêem-se colocados hoje em dia perante muitos desafios. O mais importante deles, talvez, seja a necessidade absoluta de reavaliar as suas estratégias de atuação e de recuperar a sua promessa emancipatória numa altura de graves fissuras político-económicas, muitas delas fortalecidas pelo momento de crise económica, de rupturas políticas e de desregulamentação do mercado financeiro (Abreu et al, 2013). A importância de se contemplar tais mecanismos de controlo político-económico no debate das novas correntes feministas comprova-se pela própria natureza e dinâmicas da cultura política das sociedades capitalistas contemporâneas que, marcadamente patriarcais e androcêntricas, (re)produzem uma estrutura genderizada nas suas raízes e nas suas consequências, uma vez que, como apontam Lina Gálvez Muñoz e Paula Rodríguez Madroño em “La desigualdade de género en las crisis económicas”, de 2012, as mulheres encontram-se diferentemente posicionadas – muitas vezes de forma desigual e desequilibrada – no acesso aos recursos económicos (2011: 01). Esta

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Refira-se, a título de exemplo, algumas agências de notícias, associações, coletivos ou cooperativas do Estado Espanhol, que produzem e difundem notícias e desenvolvem projetos de intervenção na área da comunicação social através de uma perspetiva de género: AmecoPress (http://www.amecopress.net/), Pandora Mirabilla (http://www.pandoramirabilia.net/) e Red Internacional de Mulheres Periodistas (http://redmujeresperiodistas.wordpress.com/sobre-la-red-madrid/).

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diferenciação de género nas hierarquias do poder económico, político, social, cultural e simbólico2 traduzse numa significativa acentuação da vulnerabilidade a que as mulheres estão historicamente submetidas e, assim, na limitação das práticas democráticas, nas quais as vozes de insurgência dos feminismos são constantemente silenciadas e reprimidas. A responsabilidade e o papel que os meios de comunicação social devem assumir no combate à hegemonia dos discursos dominantes, na utilização de uma linguagem não discriminatória, plural e inclusiva, na abordagem de temas que se encontram na periferia de conteúdos escolhidos e no incentivo à produção jornalística que extravase os padrões heteronormativos convencionais, são determinantes para a consolidação de uma representação não sexista. Consideramos que é necessária uma mudança de discurso nos media e que estes assumam a sua importância e o seu papel no combate às variadas formas de discriminação, potenciadas pelos seus próprios discursos. É necessário e urgente que estas questões sejam debatidas pelos media, é necessário que projetos idênticos a este tenham repercussões práticas e “visíveis” na produção mediática.

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Graal Coimbra (IN)VISIBILIDADE DAS MULHERES NOS MEDIA

Para o Graal a experiência de participar no projeto MEDIA+Igual foi uma aprendizagem constante, que derivou não só da metodologia como das diferentes sensibilidades e conhecimentos da rede de parcerias construída. Sensibilizar para o tema da representação das mulheres nos media é cada vez mais importante. A análise noticiosa demonstra uma maior subtileza na veiculação dos estereótipos, contribuindo para a sua naturalização subliminar. As palavras - ou a sua ausência - não descrevem só a realidade, elas constroem-na ao reforçar discriminações e estereótipos, muitas vezes, com a ajuda das imagens: um artigo cuidado ao nível do conteúdo escrito pode ser deturpado por uma ilustração discriminatória. Nesta dicotomia visibilidade/ invisibilidade, as agendas mediáticas têm uma grande importância. Qual o critério para, em junho de 2014, se produzirem jornais e revistas focados na temática do mundial de futebol, e seus jogadores, e nem um artigo sobre a jovem ginasta Filipa Martins que ganhou 3 medalhas (ouro, prata e bronze) na Taça do Mundo de ginástica artística? Contudo a visibilidade das mulheres nos media nem sempre é positiva se, como constatámos, elas forem a maior parte das vezes retratadas enquanto “vítimas” ou “adereços” sem voz. A questão não é só o serem representadas mas de que forma é que esta representação é feita. Pela experiência do Graal de trabalho com mulheres imigrantes, a visibilidade tem ainda um maior impacto na perceção e no reforço de discriminações múltiplas. Se por um lado é importante dar a conhecer os problemas que mulheres imigrantes enfrentam, por outro lado há o risco de uma maior estigmatização de um grupo, enquanto bloco homogéneo. O caso da cobertura noticiosa das “mães de Bragança” é um exemplo muito marcado de como a “má” visibilidade nos media pode gerar um aumento de discriminação na sociedade. As mulheres imigrantes brasileiras, participantes nos projetos do Graal, sentiram na altura um agudizar da hostilidade por parte de outras mulheres e do assédio por parte dos homens. Relataram insultos de “vai para a tua terra, sua ladra de maridos” e ofensas sexualizadas constantes, ao ponto de se começarem a “policiar”, usando roupa tapada e gola alta mesmo com calor.

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Uma análise crítica, baseada no conceito de interseccionalidade, permite também analisar a complexidade de como as diferenças (re)produzem múltiplas desigualdades. As mulheres imigrantes, para além de serem modelos de “exotismo”, têm também associados estereótipos diferentes de acordo com a sua origem, cor de pele ou estatuto social e económico. Nos media, quer sejam retratadas como submissas ou prostitutas, vítimas ou meliantes, o que é comum é a ausência da voz das próprias e um excesso de imagens, a maior parte das vezes sexualizadas. Com a diminuição dos fluxos migratórios e a saída de muitos e muitas imigrantes em Portugal, os media tiraram grande parte do foco nas questões da imigração feminina, com exceção dos casos de crime - tráfico de seres humanos, lenocínio, violência doméstica, etc – reduzindo ainda mais a sua representação, e problemáticas e desafios associados. Urge continuar a trabalhar, nos media e na sociedade, a forma como se representam mulheres e homens, na sua diversidade, de uma forma positiva e igualitária.

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Não Te Prives

A Não Te Prives é uma associação com sede em Coimbra que tem como objetivo promover e fomentar o respeito pelos direitos sexuais, vistos como parte integrante dos direitos humanos, trabalhando no combate à discriminação com base no género, na orientação sexual e na identidade de género. Foi a partir destas premissas que colaborámos no projeto MEDIA+Igual, do IEBA, Centro de Iniciativas Empresariais e Sociais.

Ao longo das várias sessões de trabalho e das notícias analisadas, não pudemos deixar de notar que, em geral, nos meios de comunicação analisados, a mulher é apresentada a partir de uma perspetiva binária da sociedade, enraizada nos opostos homem/mulher e masculino/feminino, na qual ela é representada como figura desprovida de poder, de autodeterminação, aparecendo como vítima, como ser frágil e de difícil compreensão para o outro, o género oposto, que se vai mantendo, com raras exceções, o género forte, detentor do poder. Não sendo este o caso, a figura da mulher destacada pelos média é a da super mulher, aquela que se destaca no trabalho, que cria os filhos, que não tira licença de maternidade, etc… e apenas por isso, por ultrapassar os limites do que é expectável a uma mulher, ela tem lugar a referência.

Assim, ainda que se verifiquem alguns casos onde se pode verificar uma linha clara de igualdade entre os géneros, onde se verifica o respeito pela autodeterminação e pela identidade da mulher, a verdade ainda é que, na grande maioria das vezes, os média não só mantêm como levam a um aumento de estereótipos associados à figura da mulher não só enquanto ser individual, mas também enquanto ser inserido numa sociedade. A este propósito, recordamos aqui as palavras de Maria João Silveirinha, docente da Faculdade de letras da Universidade de Coimbra com doutoramento em Ciências da Comunicação: “O entrincheiramento das desigualdades culturais, económicas, baseadas no género que todos os dias se produz e reproduz na comunicação mediática, bem como a incapacidade de neles as mulheres poderem articular novos sentidos sobre si – que não sejam o de “mulheres poderosas” – na pior aceção pós-feminista mediática -, mostram como são insuficientes e como têm fracassado as poucas políticas a que as instâncias nacionais e internacionais se têm proposto no campo da comunicação.” (revista Ex aequo, nº25, 2012).

Ao longo do trabalho realizado, tentámos direcionar a nossa análise para notícias associadas à área da sexualidade, orientação sexual ou identidade de género. Segue-se então a análise exemplificativa de algumas das notícias avaliadas e que podem ser entendidas como uma média dos resultados obtidos ao

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longo do estudo. Gostaríamos de destacar aqui um artigo da revista Happy Woman (2014) (definida como revista mensal portuguesa, destinada ao público feminino) sobre homoparentalidade, cujo título foi The rainbow families: os filhos de gays e lésbicas serão diferentes?. Partindo de uma expressão centrada nos preconceitos existentes, este título arrisca a ser mal interpretado, já que aquilo que é utilizado para chamar a atenção do leitor, ainda que através de interrogativa, acaba por perpetuar a tónica colocada na diferença entre crianças criadas por homossexuais de um lado, e heterossexuais do outro. Além disso ao longo do texto a parentalidade é sempre referida a dois, dois pais ou duas mães, reproduzindo a família tradicional, como se não houvesse a possibilidade de individualmente se ser pai ou mãe, o que, de resto, se aplicaria também à parentalidade heterossexual, pois o modelo de família tradicional, sendo aquele que cada vez menos se verifica, é aquele que continua a dominar o espaço dos media. Por fim há ainda a realçar o facto de vários dos estudos apresentados se focarem em casais de lésbicas, destacando o papel de mãe na mulher e valorizando a mulher como cuidadora, esquecendo que a luta pelo direito à parentalidade por parte de pessoas homossexuais não tem género ou sexo, e que um homem, ou dois, ou mais, podem ser, e são-no já, as figuras centrais no processo de cuidar e educar uma criança. O mesmo acontece com pessoas heterossexuais, uma vez que a capacidade parental não pode, obviamente, ser medida pela orientação sexual das pessoas. Ainda assim, há a destacar este artigo por tentar mostrar, essencialmente através de estudos académicos e de entrevistas a um sexólogo e a um especialista em desenvolvimento infantil, que de facto as famílias arco-íris existem e são funcionais como o são outras.

Um outro exemplo é o da notícia intitulada Capitão Lésbica acaba casamento, do Correio da Manhã (2014). O título é, no mínimo, bizarro, ambíguo, se prende a atenção, não o faz seguramente de acordo com as premissas do jornalismo, em que título e subtítulo devem dar a informação essencial do que virá a ser desenvolvido a seguir. A leitura do texto leva o/a leitor/a a perceber que se trata do divórcio de duas mulheres da GNR. Trata-se portanto de uma trivialidade, levando a concluir que o assunto só é notícia porque a homossexualidade das duas mulheres é vista como algo de estranho, assim como o foi o seu casamento e agora o seu divórcio. Perguntamos o que leva a que um divórcio de duas desconhecidas seja página de jornal? E lamentamos ter de responder que é a orientação sexual das pessoas em causa que o trazem aos media. Como se não bastasse, há ainda uma caixa que refere o número de divórcios entre pessoas do mesmo sexo já levados a cabo desde 2011, um ano após a aprovação da lei do casamento. Lamentamos o preconceito implícito ao longo da notícia e entendemos que referencias a números de casamentos e de divórcios devam ser analisados enquanto um todo, de modo a combater a discriminação, uma vez que o aumento de divórcios é uma realidade das sociedades atuais, independentemente da orientação sexual das pessoas em causa.

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Por fim, e voltando-nos agora para questões de identidade de género, gostaríamos de destacar o caso de Conchita Wurst e de como foi referida nos media, neste caso específico no jornal Público (2014). A cantora é referida em várias manchetes como “mulher de barba”, remetendo assim para o facto de tratar-se de uma pessoa trans. No entanto, essa sua característica é realçada constantemente, porque vista, ou apresentada, como uma suposta disfuncionalidade. Na verdade a referência constante, a cada notícia, em dias diferentes, à “mulher com barba”, faz lembrar os antigos shows de circos, onde tudo o que fugisse à norma era tratado como aberração, e de entre as várias figuras que surgiam nos referidos espetáculos, uma delas era a “mulher barbuda”. De destacar ainda que nos referidos artigos o feminino e o masculino são usados indiscriminadamente, sem qualquer respeito pela identidade da pessoa em questão que se assume como uma mulher cantora.

De um modo geral, e em jeito de conclusão, na grande maioria das notícias em que surgem questões associadas à orientação sexual ou identidade de género, foi possível verificar um grande peso da heteronormatividade, das construções sociais que baseiam a sociedade na instituição família, heterossexual, onde homens e mulheres têm cada um deles o seu papel definido, sem espaço à diferença. A presença de estereótipos heteronormativos e patriarcais nas famílias, nas relações afetivas e no que às mulheres diz respeito, em geral, está como que instituída na imprensa. Notícias associadas à afetividade, a relacionamentos ou a sexo, assumem regularmente uma perspetiva heteronormativa (não tendo em conta pessoas LGBTI) e masculina, exigindo à mulher ideais de beleza impostos e colocando a tónica no homem e no que lhe agrada, mantendo-se a noção da mulher hétero, objeto de desejo. Infelizmente, a mulher não é ainda apresentada como agente do desejo, agente sexual, e quando o é, é-o de forma extravagante.

Entendemos que este trabalho levado a cabo pelo IEBA Centro de Iniciativas Empresariais e Sociais, em conjunto com as associações colaboradoras, é de enorme valor para uma análise do jornalismo que se pratica em Portugal. Há de facto notícias que primam pela desconstrução de preconceitos e pré-juizos, mas são ainda poucos. É ainda necessário atentar a que a mulher não é um ser outro, é um ser e pronto. Que pessoas homossexuais e pessoas heterossexuais são muito mais do que uma orientação sexual e que esta característica não pode ser vista como uma linha de separação. Que pessoas existem para além das categorias de homem/mulher e que o realce de excentricidades e diferenças no meio jornalístico, atendendo ao alcance social do mesmo, não pode ser tolerável.

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3.2-Entrevistas

Carla Cerqueira, investigadora em Estudos de Género e Média no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) Entrevista realizada em Novembro 2013

Faz parte do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho, que tem contribuído notoriamente para a investigação nacional sobre representações de género nos media. Qual a relevância de uma abordagem académica nesta área? Considero que é fundamental incluirmos uma abordagem deste tipo na investigação académica na área da comunicação, mas não só, pois esta deve ser transversal às diversas áreas científicas. A inclusão de ‘lentes de género’ na investigação afigura-se central para melhorar a qualidade o trabalho realizado e esta deve estar presente em termos de uma participação mais equilibrada de investigadores/as, mas também da incorporação da dimensão de género nos objetivos da pesquisa. Esta é uma preocupação já demonstrada por diversos organismos internacionais e que também deve marcar a agenda portuguesa. No que concerne especificamente ao campo da comunicação, na minha leitura este olhar é crucial porque sustenta uma investigação orientada para a crítica e a transformação social, a qual reconhece que os media e os vários públicos podem desempenhar um papel relevante nessa transformação. Trata-se, portanto, de uma abordagem que equaciona as assimetrias de poder e que visa uma sociedade mais inclusiva e promotora da diversidade. Claro que ao acentuarmos aqui a abordagem de género, esta deve, no meu entender, ser cruzada com outros eixos de opressão que persistem (por exemplo, classe, etnia, idade, orientação sexual, deficiência, localização geográfica, etc.).

Segundo a sua experiência, acaba por ser mais pertinente estudar este tema a partir da vertente de Estudos Jornalísticos ou de Estudos de Género? São linhas de investigação distintas? Na minha opinião não são linhas distintas e a abordagem de género (sendo eu mais adepta da designação ‘abordagem feminista dos media’, pelo facto de incorporar uma dimensão de ação política que visa a transformação social e que em alguns casos parece não estar presente em alguns estudos que dizem incorporar uma dimensão de género) deve apresentar-se como uma perspetiva transversal às várias áreas do campo mediático. Esta assume-se crucial no campo jornalístico, pois a maior parte das vezes as pessoas acedem a determinados acontecimentos e temáticas através da informação que é veiculada pelos media

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noticiosos, contribuindo estes para a formação da opinião pública. Neste sentido, é fundamental incorporar uma dimensão de género, diria mesmo uma perspetiva de diversidade e inclusão, nas práticas jornalísticas e esta deve fazer parte dos planos curriculares dos vários cursos da área da comunicação. Estamos a falar de um campo de investigação que é, atualmente, de extrema complexidade, uma vez que a esfera jornalística tem passado por diversas mudanças. Assim, penso que a investigação deverá passar por abordagens mais holísticas e que convoquem saberes vindos de diversos campos, daí a necessidade de um olhar interdisciplinar para pensar estas questões.

O que podemos esperar do projecto “Género em Foco”, desenvolvido actualmente no CECS? Há, claramente, uma ênfase nos receptores dos conteúdos mediáticos. O que se pretende analisar nesta vertente da recepção mediática? O projeto “O género em foco: representações sociais nas revistas portuguesas de informação generalista” começou em 2011 e tem um cariz interdisciplinar, pois junta investigadoras da área da Comunicação e da Psicologia Social. Financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), este tem como objetivo central preencher uma lacuna na investigação científica relativamente à análise crítica das representações de género que estão presentes nos conteúdos mediáticos veiculados no contexto português. Comparativamente com outros países, em Portugal a investigação neste campo começou tardiamente e daí que exista muito trabalho ainda a fazer. Neste sentido, este projeto apresenta dois eixos de análise. Por um lado centra-se nos conteúdos e produtores/as das revistas portuguesas de informação generalista (Sábado e Visão), pois são as duas mais lidas em Portugal e cuja especificidade reside na informação diversificada e aprofundada, de cariz nacional e internacional, sendo frequentemente apresentadas como detentoras de uma abordagem séria sobre as temáticas da atualidade. Neste eixo estamos a analisar de que forma é que homens e mulheres são representados, atendendo também ao sexo dos seus produtores, de forma a detectar eventuais diferenças ao nível das práticas discursivas. Por outro, foca-se nos/as recetores/as dos media e neste campo tem procurado compreender o modo como os produtos mediáticos são apropriados pelo público jovem, mediante a realização de grupos focais. Já realizámos estes grupos de discussão com mais de 100 jovens e estamos neste momento a analisar os dados. Em suma, consideramos que é fundamental agir na produção, através da análise dos conteúdos e de quem os produz, percebendo como são as rotinas de produção noticiosa nestes meios, mas igualmente na receção, de forma a compreender como os jovens negoceiam os conteúdos jornalísticos e que importância é que as

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questões da igualdade de género têm para eles.

No âmbito do seu doutoramento, desenvolveu uma análise em pormenor a 727 conteúdos jornalísticos de cobertura do Dia Internacional da Mulher, num largo período de tempo (de 1975 a 2007). Quais as principais conclusões? Os resultados da análise surpreenderam-na, de alguma forma? O objetivo central foi perceber como é que evoluiu a cobertura jornalística do Dia Internacional das Mulheres na imprensa portuguesa (1975-2007). Escolhemos dois jornais diários generalistas nacionais de grande tiragem – Jornal de Notícias (JN) e Diário de Notícias (DN), pois existiam em 1975, ano em que foi celebrada a efeméride pela primeira vez em regime de liberdade, e mantiveram-se até à atualidade no topo das publicações mais lidas e vendidas a nível nacional. Tentámos perceber os meandros envolvidos na cobertura noticiosa, nomeadamente se a forma como o Dia Internacional da Mulheres é representado nos jornais na atualidade é semelhante ou difere das primeiras comemorações; sobre que temáticas versam as peças da efeméride; como são noticiadas; que géneros jornalísticos são convocados; que direitos são enunciados nos artigos; que enquadramento(s) e estilo(s) são usados pelos jornais; se existem diferenças entre os artigos que mencionam os direitos das mulheres e os artigos que se referem a reivindicações feministas; que tipo de feminismo é mais noticiado; se mulheres têm o poder da palavra nas peças noticiosas; quem comenta os assuntos relacionados com a efeméride; que associações é que recebem maior visibilidade; que tipo de fotografias aparecem associadas às peças de comemoração do Dia Internacional das Mulheres; que imagens das mulheres são tornadas públicas (elas aparecem mais como vítimas ou como heroínas? A quem é atribuído o papel ativo na imagem?); se aumento do número de mulheres jornalistas nas redações revela mudanças na forma como as mulheres, o DIM, os assuntos de género e/ou feministas são tratados na imprensa. Além disso, realizámos entrevistas a vários atores sociais envolvidos, pois procuramos entender como é que os movimentos comunicam os seus discursos e como usam os media mainstream para esse efeito e como é que as/os jornalistas e diretoras/es explicam a escolha de determinadas temáticas em detrimento de outras? Como é que veem as efemérides e em particular o DIM. Em termos de principais conclusões pode referir-se que nos primeiros anos de comemoração do Dia Internacional das Mulheres os jornais em análise representam a efeméride como uma reivindicação, sobretudo pelo caráter de luta e de associação aos ideais transmitidos pela revolução do 25 de Abril, à conquista da democracia e à movimentação política da altura. Isto quer dizer que os movimentos de mulheres e/ou feministas ficam submersos nas lutas por outros direitos que, na maioria das vezes, não são específicos do seu grupo. Nas páginas dos jornais a efeméride é filtrada, passando da reivindicação por determinados direitos e melhores condições de vida em termos mais gerais (não específicos do coletivo de

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mulheres) para um evento com caráter meramente simbólico, sem grande tónica na ação, em que se relembram os factos históricos e se colocam algumas temáticas que urge ainda debater, sobretudo centradas em desigualdades que parecem persistir. Temas específicos como a despenalização do aborto, a prostituição gravitam, mas não se sedimentam ano após ano. Mais recentemente a violência doméstica impõe-se como questão marcante na cobertura. Pode, por isso, concluir-se que o leque de assuntos mergulhou em vários campos, mas são revelou um tratamento e enquadramento diversificados das temáticas. As peças curtas, sobretudo notícias e breves, as quais não chegaram com frequência à primeira página marcaram a cobertura noticiosa. Muitos temas gravitam, mas poucos se sedimentam (cobertura mais episódica e menos substantiva). De referir também que o feminismo apelidado de radical não chega a ganhar voz nestes jornais, a não ser com a colocação das questões de direitos sexuais e reprodutivos, nomeadamente com a luta pela despenalização do aborto. De referir ainda que a luta pela despenalização do aborto teve também uma frente muito visível ligada à corrente liberal, relacionada com a mudança dos normativos legais. Com o passar dos anos passa a imperar a corrente liberal, a qual é considerada mais moderada, e por isso tende a ser socialmente mais aceite, ou seja, possui um ideário que gera mais consenso público. A retórica do pósfeminismo, caracterizado pela valorização de uma mulher empoderada e que consegue triunfar num mundo ‘dominado por homens’ também assume grande destaque nestes jornais. Em linhas gerais, é possível visionar maioritariamente uma concepção do poder feminino enquanto idoneidade para penetrar na esfera pública. Neste sentido, o tópico mais pertinente para as notícias sobre o DIM é a igualdade, definida como a capacidade para inverter os papéis tradicionais de género. As mulheres são construídas com caraterísticas tradicionalmente associadas ao ‘masculino’, isto é, como casos excepcionais. Paralelamente, há ainda uma espécie de fusão entre a ‘masculinidade’ e ‘feminilidade’, a qual é muitas vezes destacada, sobretudo pelos traços atribuídos a mulheres-exemplo que são construídas nos artigos destes jornais nacionais. Através das narrativas que enfatizam a igualdade ou o empoderamento das mulheres, verifica-se a existência de uma forte associação da efeméride às questões profissionais, ignorando dimensões relacionadas com o domínio das intimidades e das emoções. A única exceção a destacar neste prisma é o relato, ainda que recente, mas rotineiro, dos casos de violência doméstica. Neste domínio, fazendo jus aos binarismos apresentados nos discursos destes jornais, podemos referir a existência de uma visão dicotómica das próprias mulheres – ou são alvo da fatalidade a que estão sujeitas e não saem da sua situação de subalternidade, ou são seres ‘especiais’ e que conseguem triunfar num mundo dominado pelos homens. Se no primeiro caso há um enquadramento sobretudo dramático, no segundo caso

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o enquadramento dado pelos jornais destaca uma retórica da meritocracia, colocando a tónica nas justificações dadas pelas mulheres que conseguiram alcançar determinado lugar. As questões estruturais que estão na base das desigualdades experienciadas não são, por isso, destacadas, sobretudo neste segundo caso em que a centralidade das peças está nas mulheres que, independentemente de qualquer outra questão, são exemplos inspiradores. Porém, estas mulheres ideais são apresentadas como estando numa esfera diferente da maioria – são a minoria bem-sucedida dentro do grupo dominado. A excecionalidade é sublinhada pelo esforço e determinação individual, cruzando-se em alguns casos com a assunção de valores igualitários que absorveram as situações de desigualdade perpetuadas. Da análise ressalta-se igualmente que os artigos são marcados por uma visão exasperadamente dicotómica e essencialista do mundo, dividido entre homens e mulheres, família e carreira, esfera pública e esfera privada. Este olhar sedimenta a concepção de que as mulheres têm que ser responsabilizadas pela conciliação, pois, apesar de se dar a entender que os papéis desempenhados por homens e mulheres não estão relacionados com as suas caraterísticas biológicas mas sim com atribuições socioculturais, há uma espécie de naturalização das funções, justificada pelo facto de elas serem boas cuidadoras, não quererem prejudicar a família em prol da carreira profissional e estarem ainda muito dependentes emocionalmente (e nos primeiros anos de análise a nível económico). É como se as funções que desempenham a nível público, que são até certa forma apresentadas como o garante da igualdade, fossem apenas uma extensão. A sua felicidade parece estar dependente do sucesso a nível pessoal e profissional. Elas podem assumir relevância noticiosa pelo que fazem, mas nunca deixam se ser o que são – mulheres, mães, esposas. Uma esfera está sempre dependente da outra, pese o risco de ser incompleta ou de ser pensada como desviante da norma. Ainda no tocante à forma como as mulheres são representadas, a imagem tradicional de mulher/esposa/mãe/dona de casa parece ter sido substituída por imagens de mulheres mais assertivas e ambiciosas, aspeto este que estará certamente relacionado com o aumento exponencial de mulheres profissionais em várias áreas e com a retórica dominante do pós-feminismo. Esta é caraterizada por mulheres ativas, uma espécie de ‘multifunções’. Todavia, há a destacar que este tipo de representações pode ser paradoxal, uma vez que em diversos casos se continua a colocar a tónica nas questões de conciliação família/trabalho e numa espécie de essencialização das mulheres, bem como na retórica individualista de sucesso. Na maioria das vezes não se questiona o lugar das mulheres na esfera doméstica, acentuando o seu discurso associado aos modelos tradicionais. Pelo contrário, no domínio público são vistas como excecionalidade, sem questionar as normais sociais vigentes, acentuando o individualismo em detrimento da força coletiva

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Importa também constatar que desde que a temática da violência, sobretudo doméstica, entrou na esfera pública em Portugal, que os meios de comunicação costumam aproveitar esta efeméride para apresentar dados estatísticos, estudos científicos ou casos pessoais exemplificativos das situações de violência e, por isso, chocantes. Na representação das mulheres enquanto vítimas visíveis nestes jornais salientam-se os estereótipos ‘femininos’ ligados à expressividade, submissão e dependência. As ‘estórias’ apelam ao lado emocional e encetam uma ‘narrativa das coitadinhas’, não fazendo a devida problematização do flagelo social. Esquecem-se os contextos sócio-históricos e/ou as dimensões psicosociais e valorizam-se os números. Não pretendemos, contudo, ignorar o papel que os meios de comunicação social assumiram na visibilização deste tema, colaborando na sua transposição da esfera privada para a esfera pública, ou melhor, na diluição destas barreiras. Denota-se o reconhecimento do tema como capaz de ser incluído nos critérios de noticiabilidade privilegiados, mas o enquadramento que é dado aproxima-o mais das questões de criminalidade per si e não de um enquadramento sociológico. Uma vez mais apraz aludir à necessária conciliação entre visibilidade e representação jornalística. Outro indicador resultante da análise é a existência de um ‘conflito’ ou intersecção entre a agenda governamental e dos movimentos, isto é, por um lado os meios de comunicação apresentam uma polarização entre o que é estabelecido (por exemplo, através do recurso a fontes governamentais) e quem protesta (por exemplo, ativistas). Por outro lado, para as organizações não-governamentais que reivindicam direitos e que aproveitam a efeméride, tem sido mais fácil entrar na agenda jornalística quando se trata de temáticas que estão a marcar a agenda governamental (como exemplos temos a lei da paridade e da despenalização do aborto). Em certas situações a fusão pode ser invertida, mas esta ideia sobressai de forma ténue, uma vez que as associações já tinham os temas na sua agenda, mas estes só adquirem maior valor noticioso quando a agenda governamental os coloca em cena. Esta relação entre as temáticas veiculadas pelos jornais e as preocupações da agenda governamental parece existir, embora as/os jornalistas não esclareçam muito em relação a este ponto, procurando mesmo distanciar-se de uma possível interligação. Todavia, do lado das fontes ouvidas sublinha-se essa preferência pelas vozes e temáticas governamentais em detrimento das preocupações das organizações da sociedade civil. Há uma tensão latente entre a homogeneidade do grupo ‘mulheres’ – o que demonstra falta de visibilidade e diversidade de papéis, projetando uma imagem parcial do feminino No tocante às mensagens imagéticas há a destacar o modelo de mulher que parece indissociável da noção de corpo ‘feminino’, isto é, há uma valorização dos aspetos estéticos, sobretudo através de estereótipos associados à feminilidade. Relativamente às questões ligadas com a(s) sexualidade(s) e os afetos, verificámos que a heteronormatividade marca os discursos e é apresentada como sinónimo de felicidade, sobretudo nos casos

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bem sucedidos de conciliação da esfera privada com a esfera profissional. Estes jornais nunca colocam em discussão sequer outro tipo de relacionamentos (implicitamente enquadrados enquanto desvio) e quando abordam a questão da conciliação ou conflito família/trabalho – pergunta muito frequente para as mulheres consideradas bem-sucedidas na esfera pública – enfocam sempre no casamento, nos filhos e no que elas conseguem fazer de diferente, acentuando a ligação ao biológico. Verifica-se também um desigual acesso das organizações da sociedade civil ao espetro jornalístico. Ao longo da análise diacrónica encetada, apercebemo-nos de uma maior visibilidade e mesmo permanência constante de determinado tipo de grupos e organizações na arena jornalística. Percebe-se, pelo tipo de temáticas que assumem destaque nas páginas dos jornais, que os sindicatos, que assumiam um forte peso inicial, deixarem de ter praticamente visibilidade nas notícias do DIM. Surpreendentemente, a maioria das associações que teve maior cobertura nos primeiros anos acabou quase por desaparecer da cena jornalística, embora algumas continuem a existir em Portugal e refiram que fazem iniciativas e que as procuram divulgar através dos media mainstream. Aqui são de sublinhar as agendas multitemáticas (das organizações da sociedade civil e da agenda governamental) que permanecem e que nem sempre se encaixam umas nas outras. Além disso, os temas e direitos evocados pelas organizações foram variando e uns assumiram maior relevância do que outros, sendo que os direitos de participação política (sobretudo ligados às quotas) e os direitos laborais adquiriram protagonismo. Outra dimensão que tivemos em consideração na análise foi o sexo de quem produziu as notícias ou de quem assinou os artigos de opinião, uma vez que em diversos estudos internacionais se tem procurado fazer uma correlação entre esta variável e os conteúdos produzidos. Embora exista um grande número de mulheres redatoras, não nos parece que se possa falar de discursos emancipatórios e que apoiem a causa social da igualdade de género ou que exista uma diferença relativamente às peças assinadas por homens. A nossa investigação assume-se na linha de muitas outras realizadas anteriormente e que mencionámos ao dar conta do estado da arte sobre a feminização da profissão, uma vez que o sexo das/os produtoras/es não é um fator suficiente para explicar a performance profissional Em algumas situações, sobretudo nos primeiros anos de análise, as mulheres não são identificadas corretamente (apresentadas sem apelido ou mesmo sem nome), o que implica, além da falta de rigor que cabe às/aos jornalistas, desconsideração, irrelevância e familiaridade Em termos globais, tal como seria expectável, as mulheres dominam expressivamente os discursos no âmbito da efeméride, contrariando, de certo modo, a diminuta visibilidade que os estudos têm apontado no dia-a-dia da informação jornalística. Contudo, em diversos casos os jornais recorrem a especialistas homens, sobretudo investigadores académicos, que procuram explicar determinados fenómenos sociais relacionados com as situações de

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(des)igualdade entre mulheres e homens. Levantamos esta questão porque pensamos que esta pode ser uma oportunidade para se dar mas voz a mulheres especialistas que existam em vários campos. Nestes jornais a efeméride passa da reivindicação por melhores condições de vida e por uma sociedade mais justa – com marcas das lutas cruzadas de vários movimentos no pós-25 de Abril – para uma convenção simbólica que se assinala anualmente. Relativamente à (re)apresentação das mulheres no âmbito da efeméride, coexistem representações que continuam a cristalizar as ‘velhas’ dicotomias existentes com representações que invertem os papéis tradicionais de género, suscitando, sobretudo nos anos mais recentes, uma ambivalência entre discursos dominantes e discursos de resistência. Contudo, quando as mulheres aparecem como protagonistas, esta mudança acontece, fundamentalmente, segundo moldes associados ao referente ‘masculino’, continuando-se a excluir a maior parte das mulheres dos espaços de representação social e política. Se a linguagem jornalística assume uma nova ‘roupagem’, metamorfoseando-se através do tom aparentemente mais igualitário e emancipatório, em termos de substância os discursos permanecem praticamente inalterados. Este tipo de mediatização da efeméride parece ter contribuído para a construção no espaço público da ideia de que os temas de género são assuntos já resolvidos. Portanto, é necessário que as/os profissionais da informação apresentem mais vozes de mulheres nas notícias da atualidade, de forma a fomentar a igualdade de género. A imprensa precisa de lhes dar mais espaço nas suas páginas, mas é importante que esse acesso igualitário não seja apenas em termos de número, mas de conteúdos. Isto quer dizer que são necessárias mais vozes de mulheres, mas também é preciso uma representação mais diversificada delas nos meios de comunicação social. Não interessa saber apenas quem são as vozes que aparecem nos media, mas do que falam quando são escolhidas como fontes de informação; mais interessante do que o número de fotografias com mulheres, é se elas continuam a dicotomizar e naturalizar os papéis sociais. Em termos conclusivos podemos mencionar que, embora as questões da igualdade de género façam atualmente parte do discurso público, quando se coloca a tónica nos feminismos parece ainda existir uma espécie de estigma ou um reconhecimento meramente parcial associado à palavra e às/aos ativistas. Nas narrativas jornalísticas mostra-se ainda com frequência que se trata de uma luta de mulheres, e não de uma problemática central de promoção dos direitos humanos e que compromete toda a sociedade. As escassas vezes em que a palavra feminista aparece nas notícias e opiniões veiculadas pelos jornais analisados, (quase) não contribui para desconstruir o seu significado e para dignificar as suas lutas.

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No decorrer do trabalho que temos realizado no projecto MEDIA+Igual, deparamo-nos com um reforço sistemático de estereótipos de género e assimetrias sociais por parte da linguagem jornalística. De acordo com a sua investigação, como é que esta tendência tem evoluído nas últimas décadas? Como referi anteriormente, a linguagem jornalística assume atualmente uma nova ‘roupagem’, através de um tom aparentemente mais igualitário e emancipatório, mas em termos de substância muitos dos discursos permanecem praticamente inalterados. Há uma aproximação do discurso considerado politicamente correto, até porque os mecanismos de regulação do jornalismo são cada vez mais tido em consideração pelos/as profissionais. Claro que esta mudança é extremamente ilusória no sentido em que as exclusões e secundarizações continuam a ser bem patentes. Basta pensarmos por exemplo nas fontes que são ouvidas, quem tem protagonismo nas notícias, quem faz a opinião nos media noticiosos ou que tipo de enquadramento é dado às questões da igualdade de género. Daí que se refira a existência de um sexismo subtil, que continua a ser patente nestes discursos, os quais se centram sobretudo na capacidade de agência dos sujeitos, enfatizando a liberdade individual, não deixando de exercer sobre eles um controlo subtil, que contribui para a manutenção do status quo vigente. As desigualdades estruturais são muito pouco debatidas nas narrativas jornalísticas.

Uma vez que se trata de um reflexo das desigualdades de género existentes na sociedade, de que forma se poderia promover uma linguagem mais inclusiva e menos estereotipada nos media nacionais? Por um lado, tenho insistido muito na necessidade de articulação dos diversos atores envolvidos nestas questões, ou seja, a academia, as organizações da sociedade civil que trabalham diariamente com estas questões e os/as profissionais do campo mediático. Sou uma grande defensora que o trabalho de transformação social só conseguirá ter impacto se juntarmos estes diversos atores e conseguirmos uma maior consciencialização para estas questões. É preciso uma compreensão conjunta das rotinas e objetivos de cada esfera de ação, mas penso que todos estes atores visam, de diferentes formas, a transformação social e a criação de uma sociedade mais justa, daí a grande proximidade entre todos. Por outro lado, é preciso trabalhar na desconstrução das desigualdades de género que são estruturais na sociedade e daí que a educação assuma um papel essencial desde cedo. É preciso atuar junto dos diferentes agentes de socialização, de forma a desconstruir as assimetrias que ainda persistem e por isso quanto mais cedo melhor. A par disso considero que é necessário o desenvolvimento de um sentido crítico aprimorado, isto é, para uma educação do olhar que forneça competências de cidadania e que permita o questionamento dos conteúdos difundidos pelos media. Paralelamente, é preciso consciencializar as/os jornalistas que a

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linguagem não é algo estático, mas que está em constante evolução e que depende de nós torná-la mais inclusiva. Há que reinventar os discursos, tornando-os mais diversificados e empoderando os sujeitos. Para finalizar, sublinho a importância de incluir esta educação mediática junto dos/as estudantes de comunicação, que serão as/as futuros/as profissionais da área.

Falemos agora das tendências europeias. É vice-chair da secção de Género e Comunicação da European Communication Research and Education Association. A representação de género nos media é um tema relevante no cerne do ECREA? Quais as principais linhas de investigação nesta área, a nível europeu? A secção temática de Género e Comunicação já se encontra bem sedimentada no cerne da ECREA. Basta pensarmos na grande afluência de participantes nos congressos organizados, nas publicações organizadas, bem como nas parcerias estabelecidas com outras secções da associação. Esta equipa está responsável pela secção há cerca de um ano e já organizou a primeira conferência internacional, este ano em Munique. Esta teve uma boa adesão e, uma vez mais, mostrou os benefícios de trabalhar conjuntamente com outras secções, até porque se trata de uma área que acaba por ser transversal a muitas outras. Além disso, estamos já a trabalhar no planeamento do próximo congresso da ECREA, que decorrerá de 12 a 15 de novembro de 2014 na Universidade Lusófona, em Lisboa. Parece-me de mencionar também que o facto da equipa incluir mulheres e um homem acaba por ser também muito importante porque infelizmente na atualidade ainda se pensa erradamente que estas temáticas são ‘coisas de mulheres’. Em termos de linhas de investigação prioritárias a secção tem uma visão interseccional, ou seja, de cruzamento da dimensão de género com outros eixos de opressão, com etnia, idade, classe, orientação sexual, entre outros. Esta visão cruzada e também interdisciplinar parece-nos central para responder às questões que se colocam atualmente em termos da investigação neste campo. De referir igualmente que há uma grande abertura para a apresentação e discussão de trabalhos de investigação que se centrem nos vários media, na produção, mas também na receção desses conteúdos.

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O que podemos esperar, neste contexto além-fronteiras, da Conferência Internacional “Gender in focus: (new) trends in media”? E qual poderá ser o papel das organizações não-governamentais nesta partilha de ideias sobre género e media? A conferência internacional “Gender in focus: (new) trends in media”, que terá lugar nos dias 20 e 21 de junho de 2014, na Universidade do Minho, em Braga, pretende funcionar como um espaço de reflexão sobre as questões de género nos media e os desafios que se colocam na atualidade. Contaremos com a presença, já confirmada, de investigadores/as reconhecidos a nível nacional e internacional e que poderão refletir connosco as suas preocupações nesta área de investigação. Trata-se de uma conferência com um enfoque bastante aberto e interdisciplinar, que pretende congregar académicos/as, organizações da sociedade civil que trabalham com estas questões e profissionais dos vários campos mediáticos. Não queremos fechar o debate na academia, pois consideramos que este tipo de eventos e investigações desenvolvidas nesta área só conseguirão almejar o impacto social pretendido se envolverem os vários agentes de mudança no processo. É neste sentido que apelamos à participação das pessoas, de forma a que se possam criar também redes de contactos para futuros trabalhos com os diferentes agentes sociais.

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Sofia Branco, jornalista da Agência de Notícias Lusa e professora convidada no Mestrado em Estudos sobre as Mulheres, na Universidade Nova de Lisboa) Entrevista realizada em Janeiro 2014

Tem-se distinguido publicamente por fazer a ligação entre jornalismo e igualdade de género. Como começou este percurso? As (des)igualdades entre mulheres e homens sempre me preocuparam desde que comecei a trabalhar como jornalista, há 15 anos, no jornal Público, onde tive oportunidade de explorar a questão de várias formas. Simultaneamente, decidi aprofundar o meu conhecimento sobre estes assuntos, primeiro frequentando uma pós-graduação em Estudos sobre a Mulher e, mais tarde, um Mestrado em Direito Humanos, que conclui com uma tese em igualdade de género. Actualmente, na Lusa, continuo a estar atenta ao assunto e vou escrevendo sobre ele, sempre que tenho oportunidade, ao mesmo tempo que dou algumas aulas nas universidades, dentro e fora de Portugal, e participo em seminários, conferências ou sessões para as quais sou convidada.

Qual a importância específica da linguagem jornalística para a desconstrução de assimetrias de género? Há uma consciência generalizada desta dimensão entre os profissionais da área? Tem uma importância crucial e, infelizmente, os jornalistas, em geral, não têm noção ou desvalorizam essa importância. Os media são o espelho de uma sociedade que, em muitos aspectos, ainda é profundamente machista e heterossexista, pouco aberta à diversidade, e, por isso, têm, lamentavelmente, servido mais para manter estereótipos de género do que para os desconstruir – neste campo, podiam fazer muito mais.

Como promover um jornalismo com uma linguagem mais inclusiva e que reforce a igualdade de géneros? É um caminho que terá que partir do próprio sector dos media? Dando formação adequada aos estudantes de jornalismo e comunicação social – recordo que estes temas não integram o currículo académico dos muitos cursos de jornalismo e comunicação que proliferam no país – e também aos profissionais já em exercício, recorrendo a exemplos concretos para que percebam melhor o que está em causa. Ou seja, universidades, num caso, e órgãos de comunicação social, noutro, deviam assegurar essa formação.

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Reynald Blion, coordenador do projecto MEDIANE, uma iniciativa conjunta do Conselho da Europa e da União Europeia para promover a diversidade e a não-discriminação nos media europeus, através da troca de boas-práticas entre profissionais. Entrevista realizada em Fevereiro 2014

Como surgiu a necessidade de criar um projecto centrado exclusivamente nos media? Já desenvolvemos três projectos relacionados com os media no âmbito do trabalho do Conselho da Europa desde os anos 90, altura em que fizemos recomendações aos vários governos para que promovessem a nãodiscriminação. A realidade que observámos nos anos 90, em virtude dos resultados de investigadores, foi que os grupos minoritários não estavam incluídos nos conteúdos mediáticos. As notícias eram feitas e dirigidas a homens brancos, com mais de 45 anos. E essa acaba por ser uma tendência que continua. A partir da observação de que muitos grupos não estavam incluídos na produção de notícias, o Conselho da Europa apresentou recomendações para que os governos desenvolvessem medidas. Depois disso surgiu a necessidade de acções directas com o sector mediático.

Quais os resultados esperados deste projecto MEDIANE? Como Conselho da Europa, somos um mediador para que os media possam ter ideias sobre a melhor forma de implementar mais inclusão e diversidade [nos conteúdos mediáticos]. Queremos que sejam encontradas soluções comuns, baseadas na troca de experiências e boas-práticas. Consideramos que é melhor aproximar os media para que eles encontrem as suas próprias soluções. Não somos uma organização de media, estamos aqui para facilitar e não para dizer ‘façam isto’, ‘façam aquilo’…

Qual tem sido a adesão do sector dos media até agora? Entre 1995 e 2005, quando apresentámos recomendações e resoluções, tivemos um primeiro enquadramento valioso para contactar organizações que representam os órgãos de comunicação social. Além disso, o Conselho da Europa é valorizado pelas organizações de media devido ao trabalho realizado em prol da liberdade de imprensa. No primeiro projecto ligado directamente ao sector, convidámos várias organizações europeias para contribuírem para enriquecer as propostas do Conselho. Foi um primeiro momento para mostrar que queríamos participar como mediadores, numa abordagem inclusiva para encontrar soluções comuns. Hoje estamos ligados directamente a cerca de 560 players do sector mediático.

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Tem sido um processo difícil? Ao início foi realmente difícil trabalhar directamente com os media, porque não estávamos habituados. Hoje em dia, e através das organizações de representação dos media, mais de 6000 profissionais estão envolvidos neste trabalho ou recebem informação para a partilha de ideias. E outros projectos independentes já foram lançados pelos próprios media, graças a estas partilhas de boas práticas.

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3.3-Guia de orientação para uma linguagem inclusiva Checklist para uma notícia inclusiva O ARTIGO: 1. Esclarece algum aspecto de relações de género? 2. Tem dados recentes para apoiar esse aspecto? 3. Cita vozes diversas? 4. Esforça-se para falar com mulheres que são invisíveis para os media? 5. Desafia estereótipos de género? 6. Reconhece diferenças de idade, classe, etnia e raça? 7. Usa linguagem inclusiva e não-sexista? 8. Usa termos e conceitos compreensíveis para um público leigo? 9. Tem contexto, análise e um lead atractivo? 10. Usa entrevistas com fontes humanas, em vez de se basear apenas em publicações e outros materiais escritos? 11. Usa uma “lente” genderizada ao longo do texto? 12. Pergunta “porquê”?

QUESTÃO EXTRA: Pergunta “porque não”?

Fonte: Learning Resource Kit for Gender-Ethical Journalism and Media House Policy, Book 2: Practical Resources, International Federation of Journalists

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Orientações: escrever sobre violência (sexual) contra mulheres 1. Linguagem exacta: enquadre a violência e a violência sexual usando linguagem precisa. Uma violação nunca é “sexo” nem uma “relação” volátil; é um crime violento com consequências judiciais. A violência sexual e a violência contra mulheres foram definidas não só como uma violação dos direitos humanos, mas também como um crime contra a humanidade. Esteja consciente do quadro legal do crime e use a terminologia para desafiar mitos que minimizam a violência.

2. “Sobrevivente” ou “vítima”? O uso da palavra “vítima” presume conhecimento do impacto do trauma e pressupõe também que a mulher é, e foi, incapaz [perante os eventos]. A palavra remove a possibilidade de que uma mulher possa resistir, não aceitando que a violência seja normal, procure ajuda e sobreviva. O uso da palavra “sobrevivente” apoia a vida depois do ataque e não a define por um único evento passado. Além disso, ajuda a reforçar a capacidade da mulher de assumir o controlo e fazer escolhas sobre o seu futuro.

3. Questões de privacidade e respeito: muitas sobreviventes podem sentir vergonha, culpa ou angústia por contar os eventos passados. Identifique-se claramente como jornalista e explique o conteúdo do artigo, já que é importante construir uma relação de confiança. É também importante informar os/as entrevistados/as que têm o direito de recusar a resposta a qualquer questão e que podem estar acompanhados/as, para um maior apoio [emocional]. Se possível, deve entrevistar uma mulher, com algum discernimento sobre os impactos do trauma. Se propôs anonimato, respeite-o e considere também esconder outros elementos identificáveis, como a profissão ou a localidade.

4. Preocupações de segurança: em alguns casos, falar com um/a jornalista pode trazer ainda maior perigo. Reconheça que pode estar a pôr alguém em maior perigo, em resultado da sua aproximação. Em alguns casos, admitir uma violação pode levar à ostracização da comunidade, retaliação ou até morte. Esteja atento sobre estes riscos quando escolher a hora e local de entrevistas. Organizações locais de apoio às mulheres, ONG que trabalhem na área e organizações de imprensa locais podem prestar informações sobre o contexto e perigos de “vir a público”. Mais ainda, esteja consciente de que a violência sexual pode ser efeitos mais amplos na família, comunidade e testemunhas.

5. Faça a sua pesquisa: a informação errada é perpetuada através de uma investigação fraca. Os media ocidentais, por exemplo, centram-se muitas vezes no “perigo de um estranho”, quando, na verdade, a maioria da violência sexual (fora de situações de guerra) é frequentemente perpetuada por pessoas do conhecimento da sobrevivente. Também errado: tratar a violência doméstica como um caso isolado. Desafie estes mitos ao preparar uma investigação que dê ao artigo uma base precisa e factual, com o contexto necessário para educar o público sobre a realidade.

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6. Não contribua para visões sexistas: não sugira, de forma alguma, que a sobrevivente teve a culpa; e não dê conselhos que restrinjam as actividades, roupas ou comportamentos das mulheres. Evite o uso de linguagem dramática, tal como “desamparada”, “seduzida” ou “submetida a um destino pior do que a morte”, já que são termos que reforçam estereótipos sobre mulheres no que diz respeito, por exemplo, a serem ingénuas. Não faça julgamentos baseados na reacção da mulher ou no seu nível de recuperação. É importante mostrar que as mulheres podem recuperar e não há tal coisa como uma reacção “normal” a uma situação incomum. Respeite a diversidade das mulheres.

7. Conte toda a história, mas não de forma gratuita: não glorifique os detalhes sórdidos. É importante contextualizar o acontecimento, tanto na localidade/comunidade, como para a mulher. Apresente as mulheres como seres humanos completos, que tiveram uma vida antes do acontecimento e continuam a tê-la depois disso.

8. Torne o agressor visível: o agressor fica ausente ou relativamente invisível em demasia. As mulheres não se violam a elas próprias. Além disso, os media generalistas referem-se aos violadores e agressores como “monstros” ou “tarados”, dando a entender que eles são visivelmente diferentes de outros homens, quando tal é falso. Outra área na qual o agressor é muitas vezes desculpado (ou o ataque minimizado): casos de violência doméstica.

9. Quando possível, forneça informações sobre associações que possam dar ajuda e apoio a sobreviventes de violência sexual.

Fonte: Learning Resource Kit for Gender-Ethical Journalism and Media House Policy, Book 2: Practical Resources, International Federation of Journalists

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Orientações: escrever artigos sobre política e governo 1. Evitar menções de figuras políticas femininas na sua vida privada e familiar. Falar sobre o papel de alguém na família ou de como desempenha as tarefas domésticas não é necessário para definir uma pessoa cuja capacidade e profissão a levou a um cargo público.

2. Abstenha-se de mencionar que a política é um lugar para homens, como forma de justificar a necessidade de masculinizar mulheres em posições de poder; ou como reprodução do estereótipo de que a política é só para homens.

3. Quando referir pessoas que desempenham cargos públicos (e no geral), o apelido e o cargo devem ser usados tanto para mulheres, como para homens.

4. Procure opiniões tanto de líderes femininos como masculinos, em tópicos que tenham maior impacto sobre as mulheres (tendo em conta que os líderes masculinos também tiveram responsabilidade em decidir e legislar esses assuntos). Esses tópicos afectam a sociedade como um todo e não só as mulheres.

5. Quanto escrever sobre a vida de uma líder política, seja mais abrangente e analise a sua carreira em movimentos sociais, sindicatos, organizações comunitárias e associações profissionais. Muitas mulheres seguiram este tipo de trajectórias em direcção à sua vida política.

6. As imagens das mulheres em cargos públicos devem reflectir as suas actividades públicas e respeitar o seu papel, afastando-se de revelar assuntos não relacionados, como a roupa, estilo, guarda-roupa, maquilhagem e outros detalhes que nada têm nada a ver com as suas responsabilidades ou desempenho profissional.

7. Elimine adjectivos qualificativos ou palavras com conotações estereotipadas, como “bipolar”, “histérica”, “louca”, “bruxa”, “dama de ferro”, “branda”, “forte”, entre outras.

8. Escreva sobre política através do comportamento real e acções relacionadas com o tema. Pode ser contraproducente realçar o tom de voz de uma mulher ou a maneira como ela se exprime.

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9. Familiarize-se com organizações sociais que defendam e estudem o acesso das mulheres aos direitos políticos.

10. Providencie estatísticas sobre o número de mulheres que desempenhem cargos públicos importantes e quais as iniciativas que tenham proposto.

11. Apresente temas sobre os quais a participação política das mulheres seja mais predominante, assim como tópicos ou espaços que continuem a ser inacessíveis às mulheres. Por exemplo: cargos que ainda não foram desempenhados por mulheres.

12. Desenvolva o seu conhecimento do enquadramento legal e legislativo da participação das mulheres na política e acesso a cargos elegíveis.

Fonte: Learning Resource Kit for Gender-Ethical Journalism and Media House Policy, Book 2: Practical Resources, International Federation of Journalists

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*** PUBLICAÇÃO FINAL: MEDIA+Igual Jornalismo e Género… Ler nas entrelinhas Projecto Nº 086816/2012/73

Edição: IEBA—Centro de Iniciativas Empresariais e Sociais, Junho 2014 Contactos: IEBA Parque Industrial Manuel Lourenço Ferreira, Lote 12—Apartado 38, 3450-232 Mortágua Impressão: 100 exemplares

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créditos PUBLICAÇÃO FINAL: MEDIA+Igual Jornalismo e Género… Ler nas entrelinhas Projecto Nº 086816/2012/73

Edição: IEBA—Centro de Iniciativas Empresariais e Sociais, Junho 2014 Contactos: IEBA Parque Industrial Manuel Lourenço Ferreira, Lote 12—Apartado 38, 3450-232 Mortágua Impressão: 100 exemplares

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