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Exu na Umbanda é uma compilação de textos descontraídos, escritos a várias mãos, que traz uma abordagem multifacetada sobre Exu, produto da história de experiências religiosas onde o que prevalece é o conhecimento empírico de cada um dos autores. Mesmo nas abordagens de conteúdo acadêmico, são as experiências vividas na religião dos Orixás, que norteia cada tema.

Temos a intenção de subsidiar aqueles que buscam por informações sobre a atuação de Exu na Umbanda. Os textos que compõem este trabalho abrangem entendimentos sobre Orixá Exu, sobre as Linhas de Trabalho conhecidas por Linhas de Exu, Pombagira, Compadres e Comadres, Exu Mirim, Povo da Rua, Esquerda, Kimbanda e etc.

O trabalho que trazemos é parte de um debate entre os autores, que não têm a preocupação em obterem um consenso em torno do tema, mas praticar o debate e a reflexão sobre temas da religião que professam, porém, mesmo não havendo entre os autores a pretensão de consensos, eles ocorrem, e o leitor poderá observar que as diferenças não necessariamente distanciam, pois ocasionalmente se complementam.

Este trabalho não foi editado em tópicos divididos pelos diversos temas abrangidos. Nele o leitor poderá ler o texto integral de cada autor, que aqui foi disponibilizado de forma aleatória.

Dentro da diversidade umbandista e em nome da liberdade que esta diversidade nos proporciona, esperamos que este trabalho “Exu na Umbanda”, lhes seja ferramenta prazerosa de estudo, pois prazerosos foram os debates que o resultaram.

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EXU NA UMBANDA EscrevAyê

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Então pegando carona nos versos Exu cutuca e manda continuar. Quem sabe se não encostou e começou a trabalhar? Exu rindo sempre fica, estando certo ou totalmente errado. Exu brinca com os homens que os tem sempre ao seu lado. O que sabemos de Exu não temos como mensurar, até mesmo nossos versinhos, Exu nem nos deixa guardar. Nesse movimento que Exu pratica, uma coisa podemos saber, Exu move montanhas para caminhos novos podermos ver. Até mesmo o nome do grupo tem sua participação; Exu nos toca torto ou reto mas mexe também no coração. Quem sabe se nesses versos, Exu nos permite guardar, para num futuro do grupo todos nós podermos estudar. Exu pinga fogo na escrita, disserta bem melhor do que nós, mas percebo Exu bem calado, deixando apenas nossa voz. Exu nem sempre é imediato. Ele estuda, planeja ou quem sabe vê bem a gente. Afinal quem de nós nunca teve Exu de frente? Saudamos Exu muitas vezes sem saber, nas brincadeiras com amigos que costumamos fazer. Exu é isso, ele está dentro e está fora. Exu pode não ser a pipa, mas está na rabiola. Ele é determinante no equilíbrio que almejamos alcançar, mas nos cobra a cada instante o querer participar. Participando estamos sempre com ele, pois Exu adora falar também. Comunica a tudo como ninguém. Não tenham medo de trazer outras visões, assim como bem disse o mano Junior, Exu adora ouvir opiniões. Vamos escrever, contar histórias ou mesmo inventar situações, e deixemos que Exu nos traga respostas dessas nossas visões. Exu está dentro de nós, e partilha de tudo que fazemos, seja no pensar, no ato, no sono. Exu nunca nos deixa em abandono. Saudemos todos juntos esse magnífico e incompreensível amigo, que ora nos deixa contentes e muitas vezes aborrecido. Mo juba Exu dos caminhos, Mo juba Exu da entrega, Mo juba a todos os Exus que manifestam seu pensar. Saudamos a todos, pois sabemos o nosso lugar. Nossas escritas, são apenas elucubrações de visões, e em cada qual Exu trará sua forma diferente. Afinal ele está dentro de nós, mas quem se habilita a chamá-lo de gente? Laroiê, Mo juba Exu! Traga essa gente toda para falar sobre tu. Desate os nós das gargantas; ajude-me a desenvolver por cima dos temas trazidos, me traga o combustível para revelar tua cara, tua essência, teu tino.

Kambami

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- EscrevAyê é um grupo formado por 13 umbandistas, de diferentes estados do Brasil e até mesmo do Japão, com tempo e funções diferenciados na Umbanda, que praticam a arte do debate, reflexão e estudo sobre a religião e exercitam colocar suas reflexões sobre o papel em forma de artigos/ensaios. O número de integrantes varia a cada trabalho. Nesse temos a participação de 11 dos 13 integrantes.

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Autor: Laércio Adriano, Sacerdote da Casa de Umbanda da Terra e da Vida Sagrada, situada em Londrina, Paraná. EXU, TEMA MUITO CONTROVERSO E COM MUITAS OPINIÕES NA UMBANDA Meu primeiro contato com esta "força" como consulente se deu ainda criança, mas eu não tinha a mínima noção do que poderia ser. Apenas me foi apresentado como o "guia". Era de uma senhora, que recebia a entidade "macho" (Exu) e “fêmea” (Pombagira) no pequeno apartamento dela. Isso foi por volta de 1977. Logo depois comecei a ir à casa de Umbanda do Sr. Albino Lisboa, na cidade de União da Vitória, Paraná e ali vagamente comecei a ver Tronqueira e outros apetrechos rituais (velas, marafo, charuto) e esporadicamente havia conversação com o “Seu Sete Montanhas", que a princípio eu considerava um "caboclo"... O terreiro atendia com Caboclos e Baianos. Isto bem na região centro sul do Paraná e eu acabei “relacionando” Exu a Caboclo. Comecei a receber a manifestação desta "força" por volta de 1990, (eu tinha 22 anos) voltando a se manifestar em 1994, quando estava então em desenvolvimento no Terreiro do Pai Mané (Casa de Umbanda do Coração Grande), já na cidade de Londrina. Quanto à entidade que eu recebia, ela só dizia: "Sou Exu! Basta!". Com o decorrer então se apresentou como “Sr. Exu Gira mundo”. Até então mecanizava de acordo com os ritos adotados pelo terreiro. Fui atrás de literatura e a única coisa que caiu a minha mão na época foi o livro "Umbanda de todos nós". Lindo a primeira vista, mas à medida que fui tirando minhas conclusões, eu pensava em minha cabeça, “mas não pode ser um demônio. É muita contradição!”, devido àquelas “tabelas” sincréticas. Passado mais algum tempo, adentrei em outro Terreiro (Cantinho do Pai João) e novamente, talvez por paradigma, havia lacunas a respeito de como descrever e denominar Exu. Normalmente o relegavam à "esquerda", e assim o bonde ia andando...

W.W. da Mata e Silva Porto, 1968.

Contudo, eis que surge a internet e com ela um monte de material, a interlocução com “Pais de Santo” e outros Terreiros, e conceitos que eu jamais sonhara. A primeira etapa foi fazer um up-date2 em conceitos impregnados na alma, vigentes da base familiar de parte de avós da primeira infância: "Deus castiga, você vai para o inferno... bem, mal, pecado". Não me envergonho de dizer que tinha "medo" quando se falava em Candomblé, afinal era tido como “culto de magia negra” devido à ignorância em relação aos cultos afro-descendentes. Quando me libertei, pude dizer "sou livre", não me prendia então a dogmas ou imposições. Ali então além do vasto material, era eu e Ele, a entidade, para nos entendermos. Quando comecei a ler, passei a entender AQUILO QUE A ENTIDADE JÁ FAZIA!!!!... Ou seja, todos os detalhes, gestos que só eu e Ele víamos, começavam a fazer sentido. E me dei por aliviado, pois meu medo era de forjar a manifestação a partir de literatura. 2

- conceito usado na informática com o significado de “atualização”.

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Não digo que talvez não tenha havido interferência minha, talvez sugestionado pelo meio, mas era o que havia de disponível para que aquela "força pudesse se manifestar através de mim". Como descrever "Ele"? Não sei... O sinto como um "anti-herói", altivo, parece ser velho, muito velho, mas forte, às vezes arrogante (serei eu?), eficaz, direto, com linguajar despojado, meio “rabugento” algo difícil de descrever... Nem “santo nem diabo...” Dentro desta contextualização sobre Exu, fui à busca de argumentos que pudessem não só dar estofo e segurança a mim, mas tanto aos que começaram a me ajudar na fomentação da Casa, assim como para explicar a pessoas de fora da religião. Exu, por ser controverso por si, é o calcanhar de Aquiles da Umbanda até então e eu pelo menos nunca vi “tirar encosto” em igreja e o encosto ser chamado de “Preto-velho” ou “Ibeji”. Sempre sobra para Exu a vez de “demônio”. Dentro de minhas pesquisas, sempre me indagava de onde possa ter advindo pela via mais direta a concepção de Exu, de compadre, de ancestral. Como já citei, pelo material e conversas com pessoas de cultura Angola e Bantu, que me indicaram caminhos a percorrer, encontrei a melhor configuração. Isso justamente pelas linhas da religiosidade Bantu, a qual acredito que tenha sido junto com o panteão Yorubá e mais as configurações indígenas, com seus “sacis, caiporas”, e outros “bichos do mato” a melhor concepção histórica e razoável para a moldagem do arquétipo do “compadre”. Dentro de minhas pesquisas, deparei com material interessante, que cito a seguir:

Tribo Bantu da Àfrica do Sul, Ngoma

“A grande maioria dos grupos bantus, crêem nos “fantasmas” familiares como ancestrais divinizados (pais, avós, tio, etc.) a quem chamam de “makungu”. Esses espíritos perdem sua individualidade com o decorrer das várias gerações e se unem a uma multiplicidade de espíritos chamada “Vinyambela” e “Mwene Mbango”.Os Vinyambela são espíritos de crianças e os MWene Mbango (senhor ou senhora dos bosques) de adultos, sendo que esses têm mais poder que os “kungu” (singular de Makungu).É importante notar que a Umbanda tem a mesma base; crê-se nos “kungu” (palavra que se transformou em “congo”-pretos velhos,- que são chamados de pais e avôs. “ 3

Eis que se assemelha muito com a nossa prática atual na Umbanda, pois cultuamos “entidades” ancestrais. Creio eu que tenha sido desta fonte que tenha havido um caminho mais plausível para a ritualização, invocação e manutenção da religião.

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- Citação na Revista Espiritual de Umbanda em referência ao livro África, mitos e lendas de Alice Werner.

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A história faz a entidade ou a entidade faz a história? Essa pergunta fiz a mim mesmo durante algum tempo. Creio hoje que ambas seriam as resposta, pois de alguma forma as entidades, a essência espiritual encontrou caminhos a entrar em contato conosco. Talvez forjando os caminhos e também navegando de acordo com os caminhos que nós humanos fomos cunhando dentro de nosso parco entendimento. Hoje, até então, dentro da linha a qual esta força interage, que chegou até nós pelas linhas da história, não há como tirar os direitos de fato pela ancestralidade africana presente no Brasil. Creio que esta “força” esteja presente em vários avatares4 de várias religiões e crenças do mundo todo. Porém, como o caminho por Ela escolhido para chegar até nós através do decorrer da história foi pelos caminhos da África, é a EXU que devemos honras de fato, seja à divindade ou culto ao ancestral. Como às vezes digo em debates, “se a colonização e moldagem de nosso país tivesse sido irlandesa ou norueguesa, quem sabe teríamos outra forma de culto a outras divindades míticas ancestrais”. Concepção de Exu – Diabo Um dos outros fatores que me empenhei em decifrar a mim mesmo (talvez a outros não fosse mais segredo) foi a concepção errônea de Exu - diabo, com imagens satânicas, pontos citando Lúcifer e outras divindades que em pouco se assemelham as divindades africanas. Para tanto, tive que abrir a pesquisa em dois campos: primeiro ir buscar a essência com já citei a respeito das divindades africanas, tanto o Orixá quanto os “eguns”, os ancestrais cultuados e na outra ponta quem era o “diabo” segundo a concepção católica, para depois então achar o “elo perdido” do sincretismo e tentar amarrar as pontas. Feito isto, ficou muito fácil revendo a história achar como Exu virou diabo. Costumo fazer uma viagem ao tempo. Começo lá pela época quando do império romano, pelo começo do catolicismo e a “substituição” dos deuses romanos, como Ceres (agricultura), Mercúrio, Afrodite, Diana entre outros, além dos deuses gregos como Posseidon e seu tridente, viraram “demônios” para igreja, sendo substituídos pelos “santos”. Tudo isto a base de uma boa canetada pelo Papa. Uma divindade que chamava a atenção era “Pan”, deus das encostas, dos rebanhos, e este tinha o corpo metade homem e metade “bode”, além de “cornos” (chifres). Eis um “diabo” pronto!

Pan - teatrogan.blogspot.com.br

Viajando mais tempo pela história, chegamos em 711, quando os mouros invadiram Portugal, que durou até por volta de 1492. Por um acaso já compararam a “cara” de um “exu” (imagens) com um árabe (bigode e cavanhaque)? Pronto! Para portugueses e espanhóis, árabes eram vistos como invasores e “demoníacos”, afinal não eram cristãos e sim mulçumanos. Mais um diabo, pronto! 4

- Avatar é um termo Sânscrito, com o significado de manifestação de um ser imortal.

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Neste período os padres e jesuítas já começavam as incursões África adentro e nestas viagens por mais de 400 anos, se depararam por mais de uma vez com um mundo exótico, com divindades e deuses diferentes ao que então haviam visto. Entre estas divindades, uma chamava a atenção pelo seu aspecto sexual, fecundador, com muitas oferendas: A pergunta que fiz a mim mesmo durante algum tempo... Exu, pronto! Mais uma vez ali estava outro diabo a ser combatido! Quando a macumba, naquele fervor do sudeste, Rio, São Paulo, região da mata de Minas, Espírito Santo começa a “descer o morro” e encontrar com um conceito de espiritualidade vindo da Europa, que sociabilizava “por cima” as classes, o kardecismo trouxe junto o conceito de evolução, de resgate kármico (este deturpado do conceito de base hindu) e Exu aqui então vira o rodapé novamente segundo a ótica religiosa que amoldava a Umbanda “moderna”. Creio que não seja preciso hoje em dia, do dia para a noite, um Terreiro com décadas abrir mão de seus conceitos e nem de seus sincretismos, porém seria muito bom o estudo, a leitura, para ver que Exu não é diabo e nem do “mal”, e nem que é “espírito” pretenso a evoluir. Ele, Exu, é o movimento. Exu mirim Como diz o ditado, "há muito mais coisas entre o céu e a terra do que imaginamos". Eu diria que seja "há muito mais coisas no Orun5 do que sabemos e quem vem a terra..." Exu mirim sempre foi uma incógnita na Umbanda, com "n" explicações. Entre elas posso citar algumas que eu cresci dentro da religião escutando: - "Exu mirim é o serviçal de Exu adulto que entra nos buracos dos cemitérios". - "Exu mirim é um espírito de criança que em vida tinha sido bandido e agora volta para se redimir dos pecados". - "É um Exu adulto que ainda não cresceu". - É o filho da Pombagira com Exu (??!!!!) De certo, a manifestação destas formas "infantilizadas" na Umbanda ocorrem, mas tirando o "Erê" (pós e pré fase da manifestação do Orixá), que acabou sendo relacionado com "crianças" , o Exu mirim é tratado com cautela e até medo. Olhando as manifestações neste parco tempo de Umbanda, sempre notei que apesar de virem na forma de crianças, havia o uso de bebidas e cigarros, fumos e até um exagero nos palavrões. Porém apesar deste caráter, a entidade conserva em alguns momentos o jeito "criança" e até usando comer doces e outras guloseimas. Há tempos atrás comecei a ver material afro e indígena com mais afinco na questão das divindades "infantis" e eis que, se olharmos o panteão brasileiro, veremos que há muitas e nem todas muito "santas", mas "demoníacas". Cito o saci, o caipora e do panteão afro o que eu mais conhecia eram as referências aos espíritos de crianças das florestas chamadas de "vyambela", do livro da Alice Werner6. Obviamente, como a formação da Umbanda tem a maior parte de seu contexto advindo das raízes afros, vendo as características de Elegua7, as semelhanças são muito grandes e talvez... Talvez... 5

- Orun é uma palavra Yorubá que significa o “local” onde vivem os Orixás e antepassados.

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- Referência ao livro África, mitos e lendas, já citado.

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- Como é chamado o “dono dos caminhos e do destino” em Cuba. Também se usa Elegua, Elegguá e Eleggua.

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Nesta sopa de conceitos e modelagens de ritos e formas, que tem pouca coisa registrada, em que a oralidade e paradigmas foram criando mecanizações para as entidades, o "Exu mirim" em sua forma "arteira" tenha justamente advindo de uma raiz certamente africana, talvez do “Elegua”, talvez das divindades Bantu, talvez mais alguma montagem do inconsciente de alguém que viu uma roda de Erê em Ylê. Meu amigo Kambami lembra que:

Legba – Imagem obtida de: http://ashrazaid.blogspot.com.br

“O que sabemos ou o que aprendemos ou ainda o que nos contam sobre o tal Exu mirim é bem pelo descrito acima, mas há algumas escritas que remontam, talvez, e olha gente eu disse talvez tenha uma relação bem árabe em relação ao que chamam de Djinn, ou Gênio. Na própria cultura Bantu há relatos sobre "encantos" de Kitembu que se formos perceber são descritos como crianças Exus ou Exus mirins. Na cultura Fon podemos ver algo quando falamos sobre as crianças gêmeas. Da Zodji e sua irmã Nyohwe Ananu que lembram tão bem os Exus que conhecemos. Outra lenda Fon da criação nos diz que Mawu nos dá sete crianças e a mais novinha fica quem? Legba que por ser como um temporãozinho não é deixado como os outros na terra sozinho e fica sempre ao lado de Mawu. Porém a lenda também diz que por esse motivo, todos perdem a capacidade de se comunicar com Mawu e somente Legba é capaz de se comunicar com seus irmãos Voduns e com Mawu, pois é poliglota e domina todos os idiomas.”

Em várias religiões, como nas japonesas antigas, na China, na Europa, na mitologia grega e romana, na africana, na indígena brasileira e certamente em algumas que eu nem conheça, divindades humanizadas aparecem de forma "infantil" e a despeito de nossas preferências, este tipo de “força aparece" em locais os quais de acordo com o meio, se manifestam. Seriam todas a mesma? Não sei... Mas sei daquilo que o caminho humano, talvez conduzido ou compartilhado com os espíritos, criaram mecanismos de cultos e agrados a estes espíritos... E como a raiz aqui é mais afro, acredito que o rótulo "Exu mirim" é bem dado, até levando em conta a contextualização Brasileira. Um “trickster” 8criança Afro Brasileiro! As “Pombagiras” O termo "Pombagira" é uma corruptela de Bongbogira, nome de Exu na língua ritual dos candomblés de Angola. Devemos lembrar alguns dados muito curiosos. Na África, a mitologia é recheada de divindades femininas, temidas, amadas, irascíveis, dominadoras, sexuais, sensuais, sacerdotisas, feiticeiras. Diria que se aproxima muito do chamado “pussy control9”, tanto que a representação do feminino na Umbanda, no caso das “moças”, é a encruza em “Y”, ou “T” numa referência a vagina. 8

- Termo usado para um deus, deusa, espírito, homem, mulher, ou animal antropomórfico que prega peças ou desobedece regras normais e normas de comportamento.

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Uma citação interessante que agrego: “Para Monique Augras, Pombagira representa uma espécie de recuperação brasileira de forças e características de divindades africanas que, no Brasil, no contato com a civilização católica, teriam passado por um processo de "cristianização". Ela está se referindo às Grandes Mães, as poderosas e temidas Iyami Oshorongás dos Iorubas, quase esquecidas no Brasil, e a Iemanjá, que ao se aclimar no Novo Mundo perdeu muito de seus traços originais, modelando-se a um sincretismo com Nossa Senhora que a tornou uma mãe quase assexuada, muito diferente da figura africana sensual, envolvida em casos de paixões avassaladoras,infidelidade, incesto e estupro10 .

Pombagira da Praia (O.Waldo)

Creio que talvez pela dualidade de "Aluvaiá" é que tenha havido alguma interpretação errônea, ali na virada do século, naquele caldeirão das Macumbas do Rio (o bom é ler João do Rio11). Com mais algumas concepções de manifestação já derivadas do kardecismo, acabou sendo criado um arquétipo na manifestação feminina, talvez em relação a usos de trajes e maneiras. Como sempre digo: os caminhos para que espíritos ancestrais venham a terra para trazer beneficies aos descendentes sanguíneos, ou não, são diversos e quem sabe, através deste “conjunto abrasileirado” da concepção de Pombagira, seja feita esta manutenção. Alguns dizem que Pombagira era mulher de 7 maridos, que foi prostituta em vida, que fora “mulamba”, andarilha. Ora, então está tudo dentro dos conformes, pois caso minha memória não esteja ruim, a Umbanda preza justamente pela manifestação de entidades de caráter popular, de classes marginalizadas e excluídas pela sociedade. Como diz o antropólogo Reginaldo Prandi, a Pombagira é um retrato muitas vezes da mulher brasileira, que mesmo sendo moradora de uma palafita, consegue manter a sensualidade, manter uma prole. Como também, daquela mulher urbana, que levanta as cinco, faz o café, arruma a roupa do marido, leva as crianças para a escola, vai trabalhar. Volta tarde e vai direto para o tanque. Faz a janta e ainda encontra tempo e disposição para ir ao batuque e a roda de samba. Um retrato talvez da mulher guerreira brasileira. Em meus anos de Umbanda já vi diversas formas de manifestação de Pombagiras, hora com roupas coloridas, vermelhas, pretas, com luxo, com uso de rosas, bebidas finas, cigarrilhas e também manifestações das chamadas “mulambos”, atrevidas, de palavriado “vulgar”, provocadoras, certeiras em suas falas, que pediam um “caldeirão com ovo e arroz”. Lógico, como curioso que sou, ouvindo alguns relatos destas entidades, fui à busca da veracidade se existiram ou não. Descobri que também havia pessoas que tiveram a mesma curiosidade, e descobriram que Maria Padilha, por exemplo, existiu sim. Uma amante, uma cortesã que depois se refugiou em Angola e veio parar no Brasil, com sua quadrilha:

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- Controle pela vagina, pelo sexo.

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- Citação do livro "De Iyá Mi a Pomba-Gira", 1989.

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- Autor que escreveu entre outras obras, “As religiões do Rio”, em 1904.

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Pombagira Maria Padilha (O.Waldo)

“Maria Padilha, talvez a mais popular Pombagira, é considerada espírito de uma mulher muito bonita, branca, sedutora, e que em vida teria sido prostituta grã-fina ou influente cortesã. A escritora Marlyse Meyer publicou em 1993 seu interessante livro Maria Padilha e toda sua quadrilha, contando a história de uma amante de Pedro I (1334-1369), rei de Castela, a qual se chamava Maria Padilha. Seguindo uma pista da historiadora Laura Mello e Souza (1986), Meyer vasculha o “Romancero General de romances castellanos anteriores ao siglo XVIII”, depois documentos da Inquisição, construindo a trajetória de aventuras e feitiçaria de uma tal de Dona Maria Padilha e toda a sua quadrilha, de Montalvan a Beja, de Beja a Angola, de Angola a Recife e de Recife para os terreiros de São Paulo e de todo o Brasil.”

Referências a Maria Mulambo,como cita o Reginaldo Prandi: “Maria Molambo, chamada Rosa Maria, era a noiva prometida a um influente herdeiro patriarcal. Apaixonada por outro homem, fugiu com ele de Alagoas para Pernambuco. O casal foi perseguido pela família ultrajada. Encontrados três anos e meio depois, sofreram o golpe da vingança. O jovem foi morto e Maria, devolvida ao pai, foi expulsa de casa. Como tinha uma filha, Rosa Maria foi trabalhar como doméstica na casa de parentes. Mas a filha morreu e, lançada à própria sorte nas ruas, prostituía-se para sobreviver. Estava já tuberculosa e abandonada quando, falecidos os pais, descobriu-se herdeira de grande fortuna. Rica, dedicou-se à caridade até a morte. Desencarnada, no Além, conheceu Maria Padilha e entrou para a Falange das Pombas-gira”12

Pombagira Maria Mulambo (O.Waldo)

Dentro de minha concepção, acredito que todos têm uma dualidade “masculina e feminina” que deve ser tratada, um aspecto ancestral feminino, que assim como as “Yabás” características, um homem também tem a sua “Pombagira”. Existe muito preconceito no meio umbandista em relação a homens receberem entidades femininas, principalmente quando é Pombagira. Óbvio que existem situações que beira o ridículo, tamanho o exagero, mas não nos compete julgar. Minhas saudações às “moças”, às comadres “feiticeiras” da encruza! Exu na Casa de Umbanda da Terra e da Vida Sagrada Em nossos cultos usamos a farofa de milho, marafo, carne crua, frutas, mel, e charutos, dendê. Certo, errado? Em busca do mais adequado, sem cometer sandices... Não usamos imagens, somente objetos naturais... Ervas, pedra, barro, terra, flores, águas (chuva, rio, mar, cachoeira)... Temos a tronqueira firmada com os objetos, terra, entre outros elementos citados. São firmadas ao início do trabalho vela preta, branca e vermelha, marafo e charuto. Na tronqueira também as “moças” são “firmadas”, com flores, bebida na taça, cigarro, de filtro branco, e perfume, ao lado do assento de Exu.

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- Prandi, Reginaldo. Pombagira e as Faces Inconfessas do Brasil. In Herdeiras do Axé, cap. IV.

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Pelo que já observei em outras casas, não foge muito deste padrão, talvez com mais uso de objetos como leques, piteiras, lenços e utensílios de beleza, ou seja, materiais bem relacionados à sensualidade feminina. Ao chegar a casa, a primeira coisa feita é saudar a tronqueira, individualmente. Toca-se o chão caso queira, cruza-se a mão em sentido para frente, cruza-se para trás e bate palmas três vezes. Não batemos cabeça. Em nossos ritos, é feita a defumação, saudado o conga batendo cabeça, canta-se os pontos de abertura conforme a ocasião. Depois cantamos a Exu, fazendo menção ao Orixá pedindo que estabeleça o movimento da gira e que encaminhe os pedidos as divindades. “Tava curiando na encruza, Quando a banda me chamou” (bis) Exu no terreiro é rei, Na encruza é “douto” Exu quebra demanda, Exu é curadô” (bis) Mojubá, Sarava ê, é Laroyê Exu! Salve suas forças! Salve os Compadres, moças e mirins da Umbanda!

Autor: Filipe Aguiar, Sacerdote do Templo de Umbanda Olhos de Lince, situado em Magé, Rio de Janeiro DIZEM QUE SE QUISERMOS CONHECER UM TERREIRO, DEVEMOS COMEÇAR PELA GIRA DE EXU E ISSO É VERDADE Acredito que Exu de uma maneira geral é o nosso Guardião, dos trabalhos, da Casa, das giras13 enfim de tudo... E sigo a risca o ensinamento de que: "sem Exu não se faz nada". Os Exus em nossa Casa14 são considerados como verdadeiros Reis e Rainhas, donos de grandes conhecimentos, poder e magia. Acredito que os Exus estão mais próximos de nós, por isso lidam melhor com assuntos mais "terra-a-terra", mas o que não os impede de também participarem em outros trabalhos como de cura por exemplo. Temos, por exemplo, um Exu Caveira que realiza cirurgias espirituais belíssimas. Alguns são alegres, descontraídos e irreverentes, outros são mais sisudos e carrancudos, assim como nós. Trabalham perfeitamente em harmonia com os Pretos-velhos, Caboclos e etc. Estão sempre presentes em todas giras, mesmo que não incorporados, às vezes a presença deles é percebida com muita nitidez. Aprendi que na Linha de Exu existe uma hierarquia de evolução, uns Cirurgia espiritual – Imagem do Filme “Nosso Lar” estão mais acima e outros mais abaixo. Sabemos que os mesmos trabalham nas trevas, levando luz, ordem e disciplina a quem precisa.

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- Gira é um termo usado para designar as sessões de Umbanda.

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- O leitor vai observar que os autores usam também a denominação “Casa” para designar os Terreiros.

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Em todas as giras nós saudamos Exu no início e entregamos na casa de Exu15 um padê, pois entendemos que aquela energia ali depositada é utilizada por eles para proteção e execução dos trabalhos. A nossa casa de Exu fica na entrada do Terreiro e nela ficam depositados os pontos de força e assentamentos (junção de elementos magísticos e físicos que fazem a força de determinado local), assim como as ferramentas ritualísticas, as quartinhas que contêm os elementos de trabalho dos Exus trabalhadores da casa. A casa de Exu é um espaço sagrado no Terreiro que é utilizado para determinados trabalhos. Essa casa é sempre saudada por todos que passam na porta pedindo licença para adentrar no Terreiro. Durante seus trabalhos utilizam fumo e bebidas, tudo dentro da normalidade, sem excessos nem exageros, sendo tudo isso muito controlado pela equipe de Cambonos. Enfim, Exu é tudo isso e muito mais. Sou apaixonado por essa Falange maravilhosa que tanto tem a nos ensinar... Laroyê Exu! Salve Dona 7 Encruzilhadas!

Ponto de 7 Encruzilhadas

Autora: Sandra Maria, Dirigente da Tenda Espírita Luz e Paz, situada no Rio de Janeiro ORIXÁ EXU É A FORÇA A LUZ, A ENTIDADE EXU É O FIO, O CONDUTOR. O que vou abordar é minha visão de médium umbandista vivenciada por vinte e sete anos interruptos de dedicação e expiação da Umbanda. A Natureza é uma fonte inesgotável de energias e magias, que alguns seres humanos conseguem sintonizar-se. Na Natureza as leis físicas se repetem de forma igual e contrária, que identifico como pólo positivo e negativo da mesma fonte de energia. Os Orixás na Umbanda, no meu entendimento são essas leis físicas da Natureza, são o pólo positivo. Exu é o Orixá que absorve toda a energia do pólo negativo.

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Exemplificando: A irradiação do sol produz calor, que causa evaporação da água, que condensa e faz chover. Produz energia, que é a principal lei física da natureza, que por sua vez interfere na vida do ser humano. Quando utilizada em produção de alimentos, em formação de minérios e beneficiando o clima do planeta são atribuídas aos Orixás Oxalá, Iemanjá, Oxum, Oxossi, Xangô, Iansã e outros. Quando essa energia causa desequilíbrio ao planeta, o Orixá responsável pela proteção do ser humano é Exu. Exu é o Orixá que absorve e transforma o pólo negativo em positivo e os devolve aos outros Orixás em forma de energia limpa. Exu talvez seja o Orixá mais popular entre os seres humanos, tanto que várias deturpações lhe são atribuídas. A energia de Exu cura sofrimentos espirituais, limpa maus pensamentos, abre o esclarecimento em mentes socialmente doentes, afastam espíritos de obsessões. A energia de Exu traz prosperidade, amor, sexo, saúde e todos os benefícios que os seres humanos buscam. 15

- Chamada também de “tronqueira” e “ trunqueira”.

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A energia de Exu está em toda parte, por isso o êxito para qualquer tentativa de concentrar magia é necessário à permissão de Exu. Na oferenda, Exu vem sempre antes de tocar em qualquer elemento natural, com o objetivo de manipulação mágica. Exu só não responde pela responsabilidade do Ori dos filhos de Umbanda, embora esteja sempre presente. Meu entendimento sobre isso é que a energia do Orixá cause conflitos aos encarnados, pela falta de consciência que temos sobre o bem e o mal. O Orixá Exu é a força a absolvição ou condenação das atitudes dos falangeiros. É o aprimoramento ou enfraquecimento das energias posta aos falangeiros16. Assim como os demais Orixás, Exu possui seus “capangueiros”. Comandam suas falanges, espíritos trabalhadores que protegem o ser humano de si próprio ou de outros seres humanos, das energias negativas causada pelas leis físicas naturais ou pelas reações negativas dos seres humanos. Os Orixás são uma cultura de um povo e suas crenças, que vieram norteando a todos nós descendentes, no que temos de mais profundo, nós mesmos, com todas as características de seres humanos com busca de respostas para explicar o que nós somos e sentimos. Exu é um Orixá, que para mim, simboliza tudo o que sentimos, pensamos, somos e queremos ser. Decodificado por cada médium e seus limites de inteligência, cultura e visão social. EXU DE FRENTE

Anjos e Demônios – Cubismo - Eshler

Em minha vivência como médium, quando uma pessoa está desequilibrada energeticamente, bebendo, andando sem rumo, perdendo o emprego e se aproximando do sexo oposto (ou não), de forma a se meter em dificuldades e só colecionando desastres pessoais, está com “ Exu de frente”. Ou seja, o Exu responde antes de seus Orixás regentes. A explicação para isso é que a pessoa está sendo alvo de uma demanda por parte de algum desafeto ou a pessoa está com seus valores trocados, dando mais importância em” ter do que ser”. Geralmente o quadro vem seguido de uma depressão com auto destruição. Todos nós passamos por influências das características dos Orixás inúmeras vezes, mas quando ficamos presos a uma única característica, isso começa a influenciar negativamente nossas vidas, nos fazendo cometer excessos. Por isso é que devemos assentar os Orixás e cuidar desses assentamentos. Por esse motivo é que deitamos as oferendas aos Orixás, para que vibrem em nosso Ori sempre de forma harmoniosa nos fazendo ficar equilibrados e respondendo a todos os desafios da vida com sabedoria, amor e com as destrezas necessárias. Não que Exu seja um vilão. Não! Precisamos do Exu da mesma forma que todos os outros Orixás, mais de forma que possamos ficar harmoniosos sempre.

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- se usa tanto o termo “ falangeiro” como “ capangueiro”

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Exu, entidade Orixá Exu é a força a luz, a entidade Exu é o fio o condutor. As tronqueiras são as distribuidoras de energia. Os Exus que trabalham na Umbanda com certeza são espíritos que já se libertaram dos preconceitos da vida terrena e são totalmente imparciais em seus tratos com os humanos. São espíritos que são capazes de refletir o que somos capazes de fazer e pensar. No meu modo de pensar, nós é que somos imaturos e preconceituosos, que escondemos nossas ignorâncias através de uma imagem de diabos e demônios. Todo assunto que não sabemos como enfrentar, designamos a Exu. Todo assunto que nos constrange diretamente, por que sabemos de antemão que não é com “justiça” que queremos tratar, entregamos a Exu. Só que esse conceito está mudando, Exu cobrou muito caro por atribuírem a Ele tudo de errado, tudo de feio, tudo de desonesto. Nós precisamos enfrentar a realidade, assumindo que os espíritos que trabalham na linha de Exu, não são espíritos diabólicos, não são metade gente, metade bicho, não bebem sangue e nem se alimentam de carne crua. Não cospem fogo e nem muito menos são interesseiros. Eles não julgam os pedidos feitos, e nem sempre realizam o que é pedido, e sim o que é necessário ser feito. Cada entidade Exu recebe e trabalha com a energia do Orixá Exu, e sobre a orientação física de outras entidades. Os Exus entidades sabem o que nós pensamos e como nós agimos com nossas qualidades e nossos defeitos. São Espíritos cativantes como a vaidade humana, espíritos que compartilham do complexo sentimento humano em todas as suas contrariedades. Exu é bom ou Exu é mal? É os dois, como nós somos, nem totalmente bons e nem totalmente maus. Nós temos conhecimentos adormecidos e vontades bloqueadas por sintomas sociais. Os falangeiros de Exu despertam em nós toda a complexidade do ser humano. Essa é uma das razões porque ele come de tudo, nós comemos de tudo. Aonde o ser humano entra e tem comida exposta, os olhares se voltam para a comida. Alguns de nós se controlamos, outros não. Aonde existe um comentário bom ou mal, alguns de nós se posiciona de imediato, outros não. A vaidade é inerente a todos, mais alguns tentam se aprimorar outros não. Assim são os Falangeiros de Exu. A diferença é que eles sabem qual exatamente é sua missão espiritual e junto aos encarnados. Exu, vibração, espírito de incorporação, varia de características e de interpretações conforme a interiorização de cada médium. Com isso cada vez mais nos distanciamos do significado de origem e da unificação e compreensão da verdadeira manifestação vibracional e espiritual. Todos nós médiuns, seres sensíveis a canalizações energéticas dimensionais; vamos dando aspecto as nossas manifestações de acordo com nossas vivências e cultura, modificando o que há muito vem 13

passando de geração em geração. A falta de registros com o passar do tempo, nos leva a busca na história de respostas que já não exemplifica o que hoje estamos vendo dentro dos Terreiros. O estudo das lendas do povo Yorubá, nos direcionam, mas não nos dão sustento para o que nos é apresentado hoje. O que vejo e sinto a cada novo médium que me é apresentado, é que diante das mesmas explicações as interpretações são diferentes e pessoais; fazendo com que cada manifestação de incorporação, deixe vazar o que cada um é em sua essência, e não o que a Linha de trabalho se propõe dentro de um estudo dirigido. O que percebo é que quanto mais se dá estudo a respeito mais cada um dá vazão a seu interior e credos paralelos. PALAVRAS DE TRANCA RUAS Uma vez perguntei ao Sr. Tranca Ruas, de minha Babá, como um espírito se tornava mensageiro de Umbanda, um Exu. Ele me disse: “.... Todos são como eu. Quando encarnados, tive uma vida de certa forma desregrada, uma vida de excessos, mas uma vida dedicada a magia de manipulações de elementos e estudos ocultos. Quando houve o meu desencarne fui recebido por uma legião de espíritos, de certa forma similar a mim, enquanto encarnado. Eles me fizeram uma proposta. Eu poderia estudar a magia e voltar aos encarnados para guardar os segredos da magia e orientar aqueles filhos que tentavam manipular a magia para aprisionar almas. Ou seguir para desintoxicação de meus excessos até me tornar qualquer outro tipo de orientador espiritual, mas não necessariamente espírito de incorporação. Eu optei por estudar e defender a magia. Me tornei um egum espiritual de incorporação na linha de Exu. A Linha de Exu é agrupada por outros poucos espíritos que guardam os segredos da magia, por uma infinidade de eguns que trabalham para ajudar os encarnados a controlar seus excessos, com orientações e lições, que por muitas vezes precisam ser "impiedosas".Eguns masculinos e femininos que são agrupados por ordem de capacidade magista. Eu, Tranca Rua sou o responsável por um grupo desses eguns, que abrange um grupo enorme de desencarnados, que por sua vez aumenta a cada dia.”

OFERENDAS PARA EXU Oferendas para Orixá Exu são oferecidas em datas específicas, como aniversários de fundação da casa em 7, 14, 21 anos. Oferecemos: Cabra, cabrito, bode ou qualquer alteração que seja orientada pelo Exu entidade responsável pela casa. Também usamos oferendas para fins específicos ao Orixá, como: Galo, frango, padê de dendê, pimenta, cachaça e acaçá. Assim como, oferendas para Orixá Exu masculino e feminino em dias de gira, como: Padê de dendê, com carne crua e cebola e padê de cachaça com mel.

exuepombagiranaumbanda.blogspot.com.br

Oferendas para entidades Exu de trabalho, são inúmeras. Cada entidade tem uma de sua preferência. Na dúvida se oferece frutas diversas. Exu entidade considera presente cebolas e maças de boa qualidade. Quando fazemos comidas votivas a outros Orixás, devemos também oferecer a Exu, não necessariamente a mesma, para não causar incômodos, mas acaçás embrulhados em folhas de bananeira são sempre muito bem recebidos.

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Toda as oferendas ao Orixá Exu ou as entidades Exu sempre devem ser acompanhadas de velas vermelhas e pretas, fitas, charutos e cigarros. Sempre há uma particularidade em cada oferenda, que passa a ser um “eró”17 entre a entidade e seu filho, entre o Orixá e o dirigente da casa. O que eu entendo como o Orixá que come de tudo. Não precisamos ter reservas com Exu. Estamos acostumados a pensar que pedidos de Justiça devemos fazer a Xangô e para vencer demandas a Ogum. A Exu podemos "pedir de tudo", amor, justiça ou vencer demandas. Exu engole de tudo, movimenta e nos devolve. Assentamentos

Enterrado no chão temos o fundamento do Orixá Exu, acima temos o assentamento de seu falangeiro seu Tranca Rua. Sempre que necessário abrir o axé da casa para giras, alimentamos primeiro o Orixá e seus falangeiros. http://come-se.blogspot.com.br

Eu trabalho nos assentamentos do Exu Orixá com padês, com os elementos convencionais (farinha dendê e carne crua), mas não como alimento para as entidades. A beleza da Umbanda, consiste em lidar com energias pesadas ou fluídicas de forma lúdica. Com as danças, com os cantos, com gestos ás vezes indecifráveis para nós, mais com resultados inquestionáveis. Os Exus estão para a Umbanda, assim como a força Delta está para as forças armadas americanas. Eles executam todo o trabalho de forma oculta com rapidez, mas ninguém sabe quem Eles são, e se insistirem muito a resposta é: “desconheço tal força.”.

Autora: Tania Jandira, filha do Terreiro Aldeia de Arari, situado no Rio de Janeiro MINHA EXPERIÊNCIA COM EXU ME FEZ INDAGAR ALGUMAS FALAS QUE SE FAZ DELE. Meu aprendizado de Exu e com Exu vem de muito tempo, já que como criança via as manifestações no Terreiro e com elas convivia. Olhando para essa época, percebo que não apenas minha visão de Exu foi se modificando, mas também as manifestações que conheci e mesmo o entendimento dele. Penso que a energia, a essência de Exu, seu Axé de Movimento também propiciaram que estas coisas acontecessem e aos poucos, Ele está recuperando sua identidade... Perdida, modificada no transcurso do último século, pelos humanos que com Ele se depararam e o puderam conhecer.

Crianças - oferenda a Exu Imagens uol

Quando criança ouvi histórias... De Exu Pagão, Exu que foi batizado por Pretos Velhos. Hoje, quase não se vê ou se ouve isso.

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Eró é um segredo.

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Acredito que essas histórias falavam de espíritos que vieram trabalhar na Umbanda na falange de Exu e que se acreditava que podiam fazer o mal. O “batismo“ seria uma forma de caracterizar que estes espíritos estariam a partir daquele momento, sendo chamados a participar na construção do bem.18 Adolescente e na convivência com os Exus, não entendia o que algumas escritas, pessoas e preces de Exu afirmavam Dele. Um ser, um espírito que podia fazer o mal, dependendo do que a pessoa pedia e Ele... Executava... Havia médiuns que por conta disso, tinham dificuldade de trabalhar com Ele, pensando que se Ele podia atender qualquer pedido, estariam a mercê de fazer o mal com suas incorporações. Estes questionamentos eram respondidos pelos mais velhos dizendo que não era bem assim, que Exu era escravo de Orixá, servidor de Orixá, mensageiro de Orixá... Logo, o Orixá não permitiria isso. Minha convivência com Eles também fazia que eu entendesse que isso que se falava Dele, não estava correto. Nunca Os vi fazendo qualquer mal. O ar zombeteiro de alguns, os palavrões que falavam, o riso e olhar malicioso de alguns atraía e os aproximava das pessoas, mas por que havia essa imagem de Exu como possível de fazer o mal... Eu não entendia. Só quando comecei a trabalhar na Umbanda, com minha eterna curiosidade de perguntadora aos mais velhos e muitas leituras é que pude entender o quanto a identidade de Exu havia sido deturpada, por conta do sincretismo cristão e a sua transformação no Diabo. No lugar de executor das leis, o anjo decaído. Já nessa época, muitos tentavam recuperar a identidade de Exu, nos falando do sincretismo, fazendo campanhas para que imagens que O identificavam assim fossem retiradas dos Terreiros, que não Imagem do filme “A Lenda” se cantasse mais algumas curimbas19, como também, falando sobre o Ésú, mito africano. O que eu observava é que também muitas das incorporações de Exu eram diferentes das que eu vi em minha infância: Menos palavrões, menos rebolado das Pombagiras, menos histórias delas como prostitutas. Mudaram os Exus ou mudaram as idéias que os médiuns faziam Deles? E em consequência também suas performances em manifestações? Por que alguns umbandistas não podem entender Exu como Orixá? Uma questão que ainda me intriga é do por que a recusa de umbandistas não aceitarem Exu como Orixá. Não seria também um resquício de preconceito? Já que de um Orixá todos somos filhos, por que Dele não poderíamos ser? Se para alguns Umbandistas que entendem Oxalá como “o Criador” (e não Olodumare) não há filhos de Oxalá, por sermos todos filhos do Criador; ver Exu como Diabo Cristão, não estaria impedindo de aceitá-lo como Orixá? E portanto sendo possível de ter filhos? 18

- Penso hoje que esse ritual de batismo tenha algo do sincretismo das religiões afro-brasileiras com o cristianismo realizado de forma híbrida. Batismo Cristão visto como “iniciar para uma nova vida”, assim como alguns povos africanos entendem que há um processo de iniciação para se ter uma nova vida.

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- Termo usado para os “pontos cantados”, os cantos para Entidades e Orixás.

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Uma lenda sobre Exu do povo Bantu que o coloca como o “criador” pode ser uma pista, sobre o sincretismo de Exu com o Diabo Católico. Quem sabe, alguns umbandistas podem ter conhecido essa lenda e o vendo como “criador”, a partir de todo o sincretismo católico, fizeram essa comparação, que nos persegue desde então.20 Influências do Cristinianismo, do Kardecismo, do processo de colonização brasileira e da história política do Brasil na compreensão de Exu Uma das coisas que meus estudos vêm me mostrando é que havia no processo de colonização brasileira, concepções religiosas, do por que havia maldade no mundo. A maldade poderia ser obra das próprias condições dos humanos, mas também de seres que os levavam a cometer essas maldades. Um mundo povoado de seres, espíritos. Para alguns Satã, Diabo, para outros uma variedade de seres/espíritos. Os transes espirituais dos indígenas e negros eram vistos também como algo demoníaco. A origem de algumas doenças que havia na época também era vista como tendo origem em pecados, pragas, feitiços.. A relação com a sexualidade de pagãos e outras culturas era também entendida como demoníaca, pela concepção cristã. Alguns historiadores vão dizer que o culto dos negros era também procurado por seus colonizadores, para resolver problemas e doenças que existiam, com um misto de curiosidade e medo. Possivelmente alguns negros se utilizaram disso. Deixaram que os Sobreposição de imagens brancos tivessem medo, como uma forma de resistência a opressão que viviam. Deixaram também que temessem seus cultos e entendessem que Exu era o Satã que tanto temiam. Os estudos e conversas foram também me fazendo entender a deturpação que se fez da Kimbanda e a conhecer o que eu nunca antes tinha ouvido falar... entidades de esquerda. Esquerda para mim, tem um sentido social e original do termo político. Implica em uma mudança social ao governo do momento, com o objetivo de tornar uma sociedade mais igualitária e não oposição simplesmente a um governo. Se pensarmos no momento histórico em que esse termo aparece na Umbanda, vamos ver que havia conflitos, onde a esquerda era vista como subversiva, como detentora do mal. Por que estariam os Exus à esquerda? Por que estariam outras entidades do lado do Bem e Exu do mal? O que esse termo quis trazer para nossa compreensão de Exu? Mesmo que alguns Umbandistas não o considerem como Orixá, e sim espírito; colocá-lo em oposição aos espíritos de direita, para mim é o considerarem como espírito inferior. Creio que isso tem a ver com o sincretismo da Umbanda com o Kardecismo, que entende que há graus de espíritos em evolução. Como entendo a falange de Exu Mesmo entendendo que na Umbanda trabalhemos com espíritos na incorporação na falange de Exu, não os considero menos evoluídos que qualquer Preto-Velho ou Caboclo. Vejo esses espíritos com uma missão determinada - trazer movimento, dar caminho.

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- No texto do mano Cláudio El Jabel Kambami, vamos encontrar uma destas lendas, citando Aluvaiá.

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Para mim, uma falange na Umbanda é um agregado de espíritos/eguns21 que tem um acúmulo em relação a algum tipo de axé, aqui por mim significando uma energia específica que é também emoção, sentimento e conhecimento. Uma falange para mim é também um tipo de "escola", aonde a hierarquia tem a ver com a maior experiência e sabedoria adquirida por alguns. No caso da falange de Exus da Umbanda eu penso na analogia de um exército. Seriam recrutados/ convidados a participarem dela Espíritos/Eguns que poderiam participar da defesa de humanos e suas mazelas. Estariam nela aqueles que aprenderam de alguma forma e vão se aperfeiçoar com seu trabalho a "cumprir as leis espirituais".

Preto Velho Indio José de Amacê

Talvez por isso quando os humanos tentam falar deles na Umbanda, falem de guardiões. Talvez, por isso alguns digam que há alguns chefes. Talvez, por isso alguns dizem que ainda estão em evolução, como de resto estariam para mim todo e qualquer Egun/Espírito. Uma das coisas que na Umbanda se fala em relação a pessoas que falecem, quando se reza para elas é "que algum dia esperamos que eles se tornem também mensageiros da Umbanda". Entendendo desta forma, qualquer Espírito/Egun que se manifesta na Umbanda seria um ancestral nosso. Então, não seria diferente em relação a estes espíritos que se manifestam na Falange de Exu. Uma entrevista com o Babalaô Agenor Miranda, traz uma referência sobre isso: "... existem também os Eguns, espíritos dos antepassados. Orixás são criadores espirituais divinos. Representam uma parte da água e uma parte da terra, entre outros elementos. Eguns são espíritos de ancestrais comuns. São valores restritos a um grupo, a uma família. Os homens que vivem no Ayê, quando morrem transformam-se em conselheiros. Segundo os seus graus de evolução voltam para participar e acompanhar a vida no Ayê."22 Aluwô Agenor Miranda Rocha 1907 + 2004

Cornos, compadres e sincretismo com Santo Antônio Meus estudos também me fizeram conhecer que cornos/chifres para culturas não cristãs eram símbolos de poder. Assim como, o tridente, e que no processo de cristianização esses símbolos eram vistos como pagãos e, portanto demoníacos. Fiquei me perguntando por que Exu havia se permitido ser mostrado desta forma? Seria por sua ambiguidade? Uma brincadeira de Exu?Já que ele não é o Satã cristão? Se nos detivermos na ambiguidade de como designamos na Umbanda Exu, vamos também lembrar que são chamados “Compadres”. Compadres eram como chamávamos os padrinhos. Alguém que era destinado a cuidar de um filho, alguém que se estimava e que trazíamos para nossa família, a partir dos laços do batismo do filho. Um amigo estimado. Seria quem meus Pais/Orixás convidam para minha entrada na vida espiritual, que para os cristãos é o batismo? Seria o grande amigo que temos, alguém que alguns entendem que não é da família, mas é como se fosse? 21

- Aqui compreendido como Espíritos que tiveram vida terrena e não “obsessores”.

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Ésú ou Exu? Da demonização ao resgate da identidade. Salles, Alexandre de, pág 51.

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Meu mano Laércio, me lembra que: “...Este termo em muitas regiões era dado à pessoa que “caçava os escravos, ao feitor”. Ambiguidades de nossa relação com os Exus, ao chamá-los de compadres? O sincretismo de Exu com Santo Antônio no Rio de janeiro, também penso deveria ser uma questão por nós a ser pesquisada. Alguns falam da fogueira, outros por que é um santo casamenteiro. Meu mano José Roberto me lembra que: “Santo Antonio foi sincretizado com Exu, por ser considerado o COMUNICADOR da igreja. A sua lingua permanece preservada em um relicário, por que no momento da exumação de seu corpo, esta estava intacta.” Minhas buscas me levaram ao Reino do Congo e o seu processo de colonização. Lá há um culto chamado Kimbasi que entende ser necessário restaurar a harmonia e erradicação do mal como uma percepção do sofrimento vivido por uma comunidade. Culto que foi perseguido pelos Cristãos. Houve também nesta região um “movimento Antoniano” por volta de 1700. Atualmente há uma religião africana designada Kimpagniana.23 Interessante não é apenas ver que o sincretismo existia nesses locais, que foram mercado para escravos no Brasil, mas que Santo Antônio, foi visto como o “segundo Deus”.

Fernando de Bulhões “Santo Antonio” Nascido a 13 de setembro de 1191, falecido em 13 de junho de 1231.

Vitral de Santo Antonio de Pádua

Pombagiras ou Pombogiras, espíritos que nos ensinam a resgatar o papel da Mulher

Copyright - Jonathon Earl Bowser

Minha compreensão sobre as Pombogiras vêm de meu convívio com Elas nos Terreiros e de meus estudos, através de leituras e inúmeras conversas com estudiosos das religiões e praticantes da Umbanda. Entendo as Pombogiras como Eguns/espíritos que trabalham na Linha de Exu e portanto com a mesma missão destes – “executoras da lei”. A maioria das pessoas que falam Delas vai se referir a uma função destas, relacionada à sexualidade. Eu diria que é ao “desejo” e a “sedução”. A cultura ocidental coloca as mulheres apenas como “objeto do desejo” e não como “sujeito desejante”. Há uma idéia no imaginário social de que o homem deseja, ou... É tentado pela mulher. E que mulheres não desejam. As que desejam não prestam, são sem vergonhas. Um pulinho para verem como prostitutas (as que satisfazem as fantasias dos homens).

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- Sobre isso há dois artigos disponíveis na Internet: “Paralelos entre Sabá e Kimbasi no reino do Congo no século XVII” de Alexandre Almeida Marcussi e “Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento antoniano, séculos XV-XVIII”, de Ronaldo Vainfas e Marina de Mello e Souza

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Se pensarmos na Umbanda e todo sincretismo com o Cristianismo e seus valores, vamos perceber que as mulheres só podem ter dois papéis sociais : virgens/ santas/ mães assexuadas e mulheres “sem vergonha”. Um pulinho para que se conceba a Pombogira como “depravada” ou “prostituta”. Vê-las desta forma, conduz alguns umbandistas a entender esses espíritos como involuídas e passíveis de doutrinação. Há na questão do entendimento da PomboGira dois valores: a imagem que se tem das mulheres e seus desejos e a idéia de que a roupagem define a evolução dos espíritos. Valores que são de influências católicas e espíritas presentes na Umbanda. Associar a sedução e o amor é para mim da Pombogira. Prazer, sedução e amor devem andar juntos e elas para mim nos ensinam sobre isso. Creio que alguns espíritos que trabalham nessa Linha, podem até em uma de suas inúmeras vidas, terem usado a sedução para com isso angariar favores materiais, vida fácil mesmo... E sua missão pode ser nos ensinar que esse não é o caminho. Assim resgatam suas questões e nos ajudam a resgatar as nossas. Mas, entendo as Pombogiras mais como espíritos de “mulheres livres”. Mulheres livres de todas as culturas, independentes, que não se subordinavam a sociedade da época. Livres para fazerem de suas vidas o que queriam e não o que a cultura queria impor a elas. Creio que as Pombogiras trazem isso em sua missão, nos ajudar a compreender mais a “mulher”. Algumas Pombogiras nos trazem outras histórias. Histórias de terem sido vistas também como feiticeiras, ou de terem usado a magia para o mal. Espíritos que estão na Umbanda para nos ensinar também sobre o uso positivo da magia. E disso pouco se fala... Pesquisando sobre a história de nosso país, fui levada a ler sobre a inquisição. No período onde isso aconteceu, profissões e saberes femininos da época, como: parteiras, lavadeiras de mortos, benzedeiras, curandeiras e advinhas; começaram a ser visto como feitiçaria. De outro lado, o Brasil foi pena comum imposta às feiticeiras portuguesas. Isso encheu a colônia de benzedeiras e milagreiras. Transcrevo abaixo (grifos meus) parte de um processo da Inquisição24, de Antonia Maria acusada de feitiçaria em Pernambuco, em 1700. Mulher que havia sido punida com o degredo ao Brasil acusada em processos de bruxaria em Portugal:

Selo da Santa Inquisição

“... No momento da realização do fervedouro chegou o marido de uma delas, Antonio da Silva, que nada sabia. Novamente esse sortilégio não surtiu efeito e ela ensinou ao casal que eles deveriam ir a uma encruzilhada as onze para a meia noite para que o perdão fosse alcançado. O ritual consistia no seguinte: colocar uma mesa forrada c o m u m p a n o v e l h o e n e l a c i n c o b o l i n h o s , c i n c o a z e i t o n a s , c i n c o p e d a c i n h o s d e queijo, cinco figos e cinco pedrinhas tiradas do local. Cada ingrediente desse em um c a n t o d a me sa. E que se re za sse a segu in te o ra ção se m que n ingué m v i s s e o u ouvisse: O p rimeiro bolinh o, que ijo, a ze iton a e fig o se ja m para B a r r a b á s , o segundo bolinho com o mesmo para Califas, o terceiro bolinho com o mesmo para Satanás, o quarto bolinho com o mesmo

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- Um caso de “feitiçaria” em Pernambuco, de Tatiane Trigueiro de Lima, pág 87 da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco, Recife 2001.

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para Maria Padilha, o quinto bolinho com o mesmo para Maria da C a l h a e h a v i a d e d ize r ma is e sta s pa la vras: es ta m esa venho planta r par a me u bem , nã o para meu mal.” Pombogiras na Umbanda... Espíritos de mulheres livres e praticantes da magia. Espíritos que nos ensinam a resgatar o papel da Mulher na sociedade... Exu na Aldeia de Arari Lá no Terreiro, entendemos que há Exu Força, que ainda muitos não designam como Orixá, que tem assentamento na tronqueira e os Exus/Eguns que trabalham na Linha de Exu, incluindo as Pombogiras, alguns também com assentamentos. São estes que zelam pelo Terreiro, no sentido de proteção a todo mal, de espíritos encarnados ou não. A todos oferecemos padê (com água, cachaça, mel, dendê), cachaça, anis, champagne e, em alguns momentos bife, pimenta malagueta, talos de cana, velas, etc. A Eles que sempre saudamos primeiro em todos os trabalhos e dias de Gira, seja batendo paó, seja conversando/rezando ou cantando. Estes últimos é que dão as consultas. Estão nesse caso as Pombagiras também. As oferendas e comidas destes e destas, dependem de onde são (estrada, encruza, calunga, etc.) ou da necessidade e do porquê da oferenda. Esperando que consigamos fazer uma fala de oposição a muito do que se diz de Exu na Umbanda ... O que hoje acredito é que Exu é Exu, na Umbanda ou na Nação. Vou conhecendo essa "força" aos poucos, a cada dia e confesso, ainda tenho dificuldades de poder expressar, de descrevê-lo. Emblemático para mim foi conhecê-lo em uma roda de Candomblé, tão diferente das manifestações que eu conheço na Umbanda. Emblemáticas para mim foram as trocas em uma Rede virtual em que participei, com alguns dos manos que agora juntos estão nessa empreitada de falar sobre Ele.

Pontos Tata Caveira

Emblemático para mim foi a Cigana com que trabalho falar de meu Exu - Seu Tatá Caveira, para outra pessoa. Conhecê-lo pelo seu trabalho, sua energia também, os sonhos que em momentos importantes de minha vida tive com Ele... E digo, ainda não estou tentando fechar o enorme quebra-cabeças que Ele é. Tentar falar de Exu foi para mim também perceber que ainda há muito que Exu necessite fazer para que os Umbandistas o entendam. Espero que Exu com seu Axé de comunicação nos permita recuperar o sentido político/social de “esquerda” em que o colocaram, em que Ele se deixou estar, trazendo uma fala de oposição a muito do que se diz dele na Umbanda. Salve compadres! Salve comadres! Laroyê Exu!

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Autor: Igor Sousa, Pai Pequeno do Terreiro Família Pena Azul, situado em São Paulo EXU, COMPLICADO DISSERTAR, DIFÍCIL DE DEFINIR, POLÊMICO DE FALAR... TAL QUAL SUAS CARACTERÍSTICAS Na minha forma de culto assim como Caboclo está para Oxossi, Exu Entidade está para Exu Orixá. Mas isso não significa que sejam a mesma divindade. Na minha visão, o que cria muitas confusões acerca do Exu Entidade (Exu de trabalho) é interpretá-lo como o Orixá Exu. Para diferenciar um pouco mais a Entidade do Orixá, segue abaixo um resumo de sua atuação: Exu de trabalho – defesa, abertura de caminho, quebra de trabalhos/magias e segurança; Exu Orixá – defesa, realização, movimento, acontecimento, vida, calor, mensageiro, dono do axé. Quando falamos de Exu estamos falando de proteção no geral, independente de Entidade ou Orixá, mas vale lembrar que no meu modo de culto temos que dividir Exu Entidade de Exu Orixá. Exu Entidade aceita oferendas em estradas (meio), encruzilhadas ou bifurcações, cemitérios (portão, meio, catacumba, cruzeiro, costas), matas (entrada/boca, trilhas), beira de rio, córrego, brejo, bambuzal. Depende de qual a força e intuito que se busca e qual energia que estamos lidando. Influências, liderança ou relações existentes entre os demais Orixás cultuados nos terreiros e Exu Entidade Exu de trabalho é como se fosse um Caboclo, um Preto velho, um Boiadeiro. Ele até pode ter mais penetração na energia de um determinado Orixá, porém não necessariamente Ele é de um Orixá. Penso da seguinte forma: dependendo da atuação do Exu, Ele manipula mais energia de um determinado Orixá. Ogum, por ser considerado quebrador de demanda, abridor de caminho, lutador a favor de seus filhos, ficou convencionado que Exu trabalha para Ele, pela proximidade de atuação. Porém um Exu de trabalho além dessas atribuições (parecidas com as convencionadas de Ogum) também tem suas particularidades de trabalho. Portanto o que difere da visão de quem cultua Orixá Exu de quem não cultua, é a possibilidade de Exu Entidade ser trabalhadora da Falange do Orixá Exu. Eu entendo que Exu Entidade vibra muito na falange de Orixá Exu, de Ogum e de um outro determinado Orixá que não é padrão. Dependendo muito do tipo de trabalho e energias que o Exu em questão lida. Meu Exu, por exemplo, lida muito com a energia de Obaluayê. Ipadê e Padê O ritual de Ipadê é um ritual que a maioria dos Candomblés praticam para o Orixá Exu. Muitas casas de Umbanda e de outras formas de cultos puros ou misturados também praticam tal

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ritual, mas de forma mais "simples" (não menos eficiente) ou diferente. Colocam uma quartinha com água ou marafo ou gin, uma farofa ou “padê de guerra”25 e uma vela acesa. Cantam e saúdam Exu. Muitos evocam Exu Entidade ao invés do original ritual de Ipadê onde cantam em Yorubá cantigas do Orixá Exu. Depois de cantado, todos os itens são levados para fora de Casa e despachados na rua. Conheço Casas que praticam tal ritual cantando para Exu Entidade e chamam tal ritual de “despachar Exu”. Fazem tal ritual todas as giras antes de abrir.

Padê de Exu (Núcleo de Cultura Afrobrasileira Iemanjá Ogun-té)

Lá em Casa, colocamos farofa, marafo e uma vela acesa no meio do Terreiro e pedimos para que se por ventura existir um “Exu kiumba”26 rodando por ali que aceite aquele agrado... E entregamos para ele fora do Terreiro, não necessariamente na frente da Casa. Fazemos esse ritual esporadicamente (às vezes ficamos tempos sem fazer). Fazemos como um ritual mesmo, com ponto riscado, cantando... Tem uma ordem e alguns detalhes/segredos. Sobre o uso do Tridente para Exu Tridente foi e é utilizado como uma ferramenta de Exu justamente por conta do sincretismo católico com o Demônio. Posteriormente a isso é natural que as pessoas procurem similaridades ou correlacionamentos com outras culturas (mitologia grega e romana, por exemplo) e por consequência identificam. Logo, penso: Será que a atribuição de Exu com o tridente, mesmo sendo um pouco negativa frente ao sincretismo católico, não tem um sentido mais sobrenatural frente aos correlacionamentos e similaridades com outras culturas? Tridente de Paracelso Ainda precisamos expandir nossa área de visão, pois muitos associam pentáculo que exprime o resumo os símbolos apenas à cultura católica e não às demais. Não que as do Ternário na Unidade, que completa, assim, o QUATERNÁRIO demais tenham influências sobre nossa religião, mas de repente no SAGRADO plano espiritual as coisas se amoldaram assim (considerando diversas culturas) justamente para que pensemos e exercitemos nossa visão e intelecto e que também tenhamos opções para escolha, aumentando assim a possibilidade de obtermos fiéis.

Deixando de lado as considerações acerca da origem do tridente e descendo ao significado do tridente: direita, esquerda e meio (equilíbrio); escuridão, claridade e penumbra; quente, frio e morno; alto, baixo e m��dio; bondade, ruindade e normalidade(?) ou cordialidade(?) ou generosidade(?) ou ser humano(?). Será que o tridente resume exatamente nós seres humanos?!? Exu no Terreiro Família Pena Azul Temos assentamento do Orixá Exu e do Exu Entidade. Exu de trabalho na minha Casa come padê, bife, pimenta dedo de moça, fuma charuto e toma marafo. 25

- Padê de guerra - farinha de mandioca flocada acrescida de dendê, mel, água e cachaça. Todos mexidos a mão e individualmente. As quatro misturas são dispostas em um alguidar, uma ao lado da outra. 26 - Termo utilizado para designar espíritos que obsediam pessoas e se vendem para realização de trabalhos espirituais de baixa magia. Também conhecido como zombeteiro no espiritismo.

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Exu Orixá come padê também, fruta, obi, orogbô, acaçá branco, amarelo, feijão preto, fradinho, cozido de frango, acarajé etc, além de gin... Orixá Exu é a boca que come tudo (a boca que tudo come). Qualquer Orixá que vai comer lá em Casa, Orixá Exu ganha um pouco da comida. Não temos toque para Orixá Exu. Ele é cultuado em seu assentamento, com comida, cantigas, fundamentos, amor e fé! Já para Exu de trabalho fazemos toque e eles fazem atendimento aos assistentes. O que fazemos normalmente/periodicamente é cuidar/zelar do Orixá Exu com bebida, comida, cantiga e vela e cuidar da tronqueira onde temos o Exu do meu pai (Zelador) e meu (Pai Pequeno) como donos da tronqueira e porteira (Entidade). Na minha forma de entender, Exu Entidade possui uma atribuição diferente de Exu Orixá. Da mesma forma que cultuo Caboclo como Caboclo Entidade e Oxossi como um Orixá.... Caboclo não é Orixá. Coloquei o exemplo do Caboclo apenas para ilustrar e fazer um paralelo. "Seu Tranca Ruas a porteira é toda sua... é toda sua, Dê passagem aos amigos e quem não for você segura... você segura Aqui estamos só para o bem.... Quem não ajuda, não atrapalha também... Exu nas suas forças confiamos a porteira e a tronqueira te entregamos... te entregamos Exu nas suas forças confiamos..." Salve Exu! Laroyê Seu Tranca Rua das Almas que é meu véio de guerra, minha eminência, meu testa de ferro, peito de aço, véio forte, pássaro à paisana, defensor absoluto... Que me guia e me protege dia e noite... Que independente da situação está comigo. Salve meu véio!!!!!!!!!!!!!!!!!

Autor: José Roberto, bàbálòrìsà do Ilé Asè Olóònòn, “Casa dos Senhores dos Caminhos”, situado em Suzano, São Paulo EXU, O INCRIADO ANCESTRAL ORIXÁ Mojuba27, Èsú Oba Baba awon Ésú! Iba se, o! Saudações, Exu, Senhor e Pai de todos os Exus! Que esta homenagem se cumpra! A vontade e o impulso, tudo aquilo que antecede a ação se personifica em Exu. Representante do elemento humano anterior à criação. Senhor das encruzilhadas, os caminhos conflitantes a serem escolhidos na vida.

Big Bang – A origem de tudo Geografia na Rede - Prof. Marciano Dantas

Guardião de todas as passagens, de todas as portas e portões. Èşù significa esfera em yorubá. É o movimento contínuo, sem início, sem meio e sem fim. 27

- Usamos normalmente Mojuba, mas a palavra Mò Jùbá está no idioma Yorùbá e significa “Meus respeitos”.

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Mensageiro entre os mundos, condutor de todas as mensagens. Tão próximo dos humanos e tão além destes. Senhor do inconsciente, nunca inconsequente. Dono de todas as vontades é o próprio ímpeto. Força que ignora nossos imaturos princípios, que ignora nossa incompreensão do bem e do mal. Dono do comércio, do dinheiro, do poder, do sexo. Encruzilhadas deste nosso mundo, onde muitas vezes nos perdemos. Orixá que empresta seu movimento ao mundo. Morador do Yángi28, que tem os búzios por olhos e boca... Os presentes de Ifá. O primeiro a ser saudado, a quem pedimos a benção a nos permitir simplesmente rezar.

Yángi – Laterita – Pedra Fossilizada

Senhor do preto e vermelho, mas também de todas as outras cores. Portador do ògo29. Ògo de Exu

Imprevisível Exu, que anda reto por caminhos tortos e torto por caminhos retos. Dedicado Exu, que uma eternidade passou a auxiliar Oxalá na criação dos homens. Único Orixá a emprestar Seu nome a uma Linha de Trabalho inteira. O Senhor de todas as línguas é dono deste oríkì30: “Exu faz o erro virar acerto e o acerto virar erro. Quando sentado sua cabeça bate no teto; de pé, não atinge sequer a altura do fogareiro. Exu transporta numa peneira o azeite que comprou no mercado e o azeite não escorre dessa estranha vasilha. Matou um pássaro ontem com a pedra que atirou hoje. Quando zangado pisa na pedra e ela sangra.” A importância de Exu é assim definida: KOSI ESU, KOSI ORISA - "Sem Exu, Sem Orixá" Exu é Orixá... Láàróyè31 Exu Orixá Exu é a ação que antecede o princípio. É o querer, a vontade. É a força que impulsiona todas as outras. Se focarmos nossos estudos na gênese, entenderemos que quando Olodumare pensou em criar o mundo, antes mesmo de seu pensamento tomar forma, Dele se originou Exu, pois é Exu o Fator Divino que principia todas as coisas. É Ele o reflexo Divino da vontade anterior a ação. 28

- Yangi é uma pedra bem porosa (laterita). Geralmente é assentada para esse Orixá.

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- Bastão em forma fálica

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- Oriki é uma forma de reza poética

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- Esta palavra tem entendimento e não uma tradução, pois ela se refere a um epíteto de ÈSÙ que significa "AQUELE QUE ARGUMENTA”.

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Exus, os trabalhadores das linhas denominadas de Esquerda Exu Entidade é o grande trabalhador das fileiras umbandistas. Esta Linha de Trabalho nos brinda com a representação do masculino nos Exus, do feminino nas Pombagiras e da irreverência prematura nos Exus Mirins. São diretos, incisivos, ardilosos e astutos... Aceitam qualquer pedido, porque podem realizá-los e para que você aprenda a arcar com as responsabilidades de suas escolhas. É uma Linha de Trabalho dinâmica e muito atuante. Seus integrantes costumam interagir com todas as demais Linhas de Trabalho, nas mais variadas circunstâncias. É uma linha tão completa quanto complexa, pois verificamos a atuação de uma alta gama de Entidades com características relativamente idênticas a todas as demais Linhas de Trabalho, porém sob um mesmo arquétipo. Assim, observamos Exus de Trabalho, com características de Caboclos, Pretos Velhos, Crianças, Ciganos, Malandros, Africanos, Sacerdotes e etc. Isso tudo sob as características femininas e masculinas de Exu. Podemos entender que a Linha de Trabalho de Exu, dentro da Umbanda, abriga vários conceitos, como escravos de outras linhas ou até como uma Banda distinta da Umbanda, que geralmente é nomeada erroneamente por Quimbanda.32 Estes conceitos são a meu ver, erros e se devem a falta de compreensão da abrangência desta linha, que se vincula a atuação do próprio Orixá que lhe empresta o nome. Assim como o Orixá Exu atua em todas as áreas, interagindo com todos os demais Orixás, o mesmo se dá com sua Linha de Trabalho na Umbanda, onde uma logística de interação com todas as demais Linhas de Trabalho, acaba por exigir uma grande variação na estrutura de constituição da Linha de Exus. Esta Linha de Trabalho chega a ser tão completa, que apenas esta única linha dá sustentação a religiões inteiras, como percebemos na Santeria Cubana. Pode ser observado nesta Linha de Trabalho, o emprego de espíritos em evolução, porém não são estes espíritos Exus. São agregados, recolhidos dos diversos planos, colocados a trabalhar sob a supervisão de um Exu. Não incorporam em Terreiros, salvo quando de trabalhos fechados, orientados a este fim, onde geralmente dão testemunho de suas experiências aos médiuns presentes. Uma vez Exu me disse que por amor, aquilo que muitos chamam de Céu, está vazio. Explicou-me que:

http://listas.terra.com.br/historia

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“aqueles a quem chamam de Anjos, há muito tempo se precipitaram aos locais mais densos de toda Criação, para o amparo das miríades de Centelhas que se perdem.” Compreendi que por amor, Exu faz seu trabalho em toda Criação e que é em Exu que encontramos nosso “Anjo da Guarda”. 33

- Também se usa chamar “Kimbanda”.

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Anos depois desta minha experiência, li no livro “Legião” do escritor Robson Pinheiro um trecho que traz esta mesma mensagem, sob a óptica do autor.

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Exu e o Diabo Cristão A demonização de Exu remonta do período colonial africano, quando os primeiros missionários ingleses lá chegaram e se depararam com o culto a uma divindade masculina representada pelo membro fálico. Os pudicos missionários interpretaram aquela representação como o mais austero símbolo do desejo carnal e por consequência sua relação para com o mito judaico-cristão da queda do homem por sucumbir aos desejos da carne, (Adão, Eva e a Serpente). Para os missionários que se horrorizavam com as sumárias vestes dos aborígenes africanos, foi um choque cultural, a exposição do membro Representação de Exu na Africa Fatumbi Verge - Do livro Orixás por uma divindade... Logo Exu foi vinculado ao diabo, e este conceito atravessou os mares e aqui aportou com os traficantes negreiros, por notícias vindas da Europa e pelos missionários da Companhia de Cristo. Os negros contrabandeados traziam consigo seus cultos e seus contrabandistas suas interpretações de tais cultos. Por submissão os negros aceitavam tal sincretismo, eram escravos. Foi nesse período que por necessidade dos escravos negros surgiu o culto sincrético a Santo Antônio em algumas senzalas. Não podemos esquecer também, que quando dos primeiros movimentos de insurreição, como a fundação dos quilombos, os próprios descendentes da cultura africana fortaleceram o mito de Exu diabo, como um instrumento de afronta e intimidação a seus algozes. Foi nesse caldeirão de emoções, de perda de identidade cultural e de movimento de resistência que os próprios quilombolas incitaram a perversão ao culto a Exu. Até hoje se percebe traços desta perversão dentro das diversas culturas religiosas afro-brasileiras. Não é incomum ouvirmos pontos cantados onde Exu é tido por Diabo. Pontos onde predomina a ameaça aos incautos e etc.

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A busca pelo resgate cultural é algo novo, e com essa busca as raízes do culto africano a Exu vêm surgindo. Muito se perdeu na África brutalmente vilipendiada e muito também se perdeu nas colônias africanas pelo mundo afora. É nesse resgate que surge o movimento de desvinculação da imagem de Exu com o Diabo. É também nesse momento que um inesperado obstáculo se apresenta... O ego dos que apresentam Exu como o cão de guarda inconsequente, poderoso, brutal... Bestial. Exu virou arma no conceito deturpado de alguns. Este é um obstáculo triste a sua desvinculação ao diabo.

Qualidades do Orixá Ésú Existe uma miríade de nomes identificadores de grupamentos, falanges ou linhas de Exus de Trabalho; assim como, há várias características do Orixá Exu que são denominadas a parte, com o objetivo de se isolar algumas de suas atribuições e qualidades, que por nós são compreendidas.

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Transcrevo aqui algumas destas denominações: Yangi ou Oba Yangi - o Senhor da Laterita Vermelha, o primeiro. Foi dividido em várias partes, segundo seus mitos. Agba - o Senhor Ancestral, epíteto referente à sua antiguidade. Igba Keta ou Igbaketa - o Senhor da Terceira Cabaça, o terceiro elemento. Faz alusão aos domínios do Orixá e ao sistema divinatório. Okoto ou Ikoto - o Senhor do Caracol. Faz referência ao elemento Ikoto que é usado nos assentos. Esse objeto lembra o movimento que Exu faz quando se move como um furacão, também faz alusão ao infinito. Odara - o Senhor da Felicidade. Fase benéfica quando ele não está transitando caoticamente. Osije ou Ojise - o Mensageiro Divino. Com essa invocação ele fará a sua função de mensageiro. Eleru - o Senhor da Obrigação Ritual. Transportador dos carregos rituais onde possui total domínio. El'Ebo ou Elebo - o Senhor das Oferendas. Possui as mesmas atribuições com caracterizações diferentes de Eleru . L'Onan ou Onan - o Senhor dos Caminhos, referência aos bons caminhos. Oba Baba Esu - o Rei e Pai de todos os Esus. Enu Gbarijo - o Senhor da Boca Coletiva. Elegbara - o Senhor do Poder Mágico. Bara - o Senhor do Corpo. Alafia - o Senhor da Satisfação Pessoal. Alaketu - cultuado na cidade de Ketu onde foi o primeiro senhor. Akesan - quando exerce domínio sobre os comércios.

Capa da Apostila – Exu a Pedra fundamental – Teologia Yorubana

Jelu - nessa fase ele regula o crescimento dos seres diferenciados. Culto em Ijelu. Ina - quando é invocado na cerimônia do Ipadê regulamentando o ritual. Ajonan - tinha o seu culto forte na antiga região Ijexá. Lodo - senhor dos rios. Função delicada, dado a conflitos de elementos. Loko – assexuado. Tende ao masculino simbolizando virilidade e procriação. Oguiri Oko - ligado aos caçadores e ao culto de Orunmilá-Ifá. Enugbarijo - nessa forma Exu passa a falar em nome de todos os Orixás. Eledu - estabelece o seu poder sobre as cinzas, carvão e tudo que foi petrificado. 28

Olobe ou Ol'Obe - o Senhor da Faca. Domina a faca e objetos de corte. É comum assentá-lo para pessoas que possuem posto de Asogun. Oduso ou Agbo - o Vigia dos Odus, o guardião do sistema divinatório de Orunmilá, quando faz a função de guardião do jogo de búzios. Woro – cultuado por protetor da cidade com mesmo nome. Marabo - aspecto de Exu, no qual cumpre o papel de protetor. Também chamado de Barabo, Exu da proteção, não confundi-lo com seu Marabô das Linhas de Trabalho. Soroke - apenas um apelido que é também compartilhado por Ogum, pois a palavra significa em português “aquele que fala mais alto”, portanto qualquer Orixá pode ser Soroke. Exu e a Linha de Trabalho de Exu no Ilé Asè Olóònòn Aqui cultuamos Orixá Exu da mesma forma que se cultua os outros Orixás. A diferença fica a cargo de que este Orixá tem a primazia nas saudações e nas oferendas e tem sua própria Casa, seu próprio Gongá, muito embora, devido as características individuais do enredo desta Casa, Orixá Exu é aqui representado ao centro do Gongá, por ser Ele Foto da Representação de Orixá Exu - Mascara sobre Ponto o dono deste Ilé. Ilé Asè Olóònòn Entendemos que não se bate a porta de Oxalá, sem antes se apresentar e pedir licença a Exu. Mesmo sendo esta Casa de Orixá Exu, entendemos que os Templos da religião de Umbanda, são dedicados ao Orixá que temos por Patrono de Nossa Fé, portanto, entendemos que todo Terreiro de Umbanda é a morada de Oxalá, independente de sua regência. Para nós, a existência de uma Casa exclusiva a Exu, antes da entrada do Terreiro, é um sinal de respeito e homenagem ao único Orixá que detém este direito. Jamais por entendimentos que o desqualifiquem a ser reverenciado e cultuado no interior desta Casa, onde de fato ocorre seu culto. Não há aqui na Casa dos Senhores dos Caminhos, “Ilé Asè Olóònòn”, o impedimento em acolher filhos desse maravilhoso Orixá, e nem poderia, portanto há a incorporação do Orixá Exu em Giras com este propósito. Orixá Exu tem seu assentamento no interior de sua Casa “Tronqueira”, onde nos permitiu assentar também Exus de Trabalho, Guardiões dos filhos desta Casa. Porém, sendo o Orixá Exu o dono deste Templo, há uma representação, um assentamento secundário, ou se preferirem, uma “firmeza”, no interior do Templo, sobre o Gongá e ao seu centro.

Foto da porta da Tronqueira Ilé Asè Olóònòn

As Giras de trabalho dos Exus Entidades, se processa da mesma forma que Giras de Pretos Velhos, Caboclos e qualquer outra, não havendo maiores distinções além das peculiaridades inerentes a cada Linha de Trabalho. Em nossas Giras, é permitido o uso de fumos e bebidas. Não costumamos diferenciar as Giras através de adereços e paramentos, porém se solicitados, são levados ao crivo do Dirigente Espiritual responsável pela disciplina nesta Casa, que é justamente o Exu de Trabalho deste zelador, Sr. Tatá Caveira. 29

Também é Ele, o responsável por avaliar o consumo de bebidas alcoólicas por qualquer Entidade e de qualquer Linha que se apresente na Casa, não se restringindo apenas as Giras de Exus de Trabalho. Não há separação das Giras das Entidades de Trabalho na Linha de Exu. Desta forma, Exus de trabalho com características femininas, masculinas e mirins, atuam em uma mesma Gira, assim como Entidades da Linha de Exus que se apresentem como Ciganos ou Malandros. Em nossas Giras, as Entidades não se apresentam sob o arquétipo fantasmagórico. Entidades Femininas ao interagirem com médiuns masculinos, apresentam características discretas não exigindo o uso de vestidos e outros adereços. Da mesma forma que Entidades Masculinas ao interagirem com médiuns femininas, não se apresentam de forma rude. Aqui, em várias oportunidades, observamos as Entidades desta Linha de Trabalho prescreverem rezas e uma busca por maior aproximação para com Olorum, com os Orixás e etc. Não sendo caracterizada uma distinção desta Linha, no tocante a visão do Sagrado. Suas diferenças ficam a cargo dos arquétipos consagrados a Linha de Exu na Umbanda, mas não na definição daquilo que realmente importa nos trabalhos religiosos. Além dos assentamentos encontrados na Casa de Exu, também é assentado junto ao portão do Terreiro um Exu de Trabalho, para garantir a segurança territorial do Templo, tanto no físico, como no plano espiritual. É saudado, ofertado e reverenciado logo após as reverências ao Orixá Exu e ao Exu da Trunqueira34 desta Casa, em todos os trabalhos, a qualquer dia e hora.

Foto Guia de Exu Ilé Asè Olóònòn

Aqui usamos uma guia, (colar de contas), que fica sendo iluminada no Amaci, (preparado líquido com ervas maceradas), por um período de sete dias. Após ser cruzada pela Entidade, o filho que já tenha sido batizado na Umbanda e recebido a guia e Amaci de Oxalá, recebe o Amaci de Exu. Foto parcial da Ferramenta Esta guia que se vincula ao Exu de Trabalho assentado na da Porteira Ilé Asè Olóònòn Trunqueira. Só após este estágio, é que se habilita a outros rituais de iniciação para ocupação de cargos ou preparação a sua recolha.

Cantamos diversos pontos para Orixá Exu e para as Linhas de Exus de Trabalho. Por orientação dos Dirigentes Espirituais deste Terreiro, todos os pontos são previamente selecionados e estudados pelos filhos, para que se conheça o significado de cada palavra, seu sentido, a que se refere e a que se destina cada ponto. Como não nos utilizamos de sincretismo para com o Cristianismo, não há em nossas expressões termos relacionados a outro panteão, portanto palavras como diabo, lúcifer, demônio, capeta, inferno, etc, não compõem nossos cânticos.

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A Casa de Exu, a qual chamamos de Trunqueira (ou tronqueira), não existia antigamente. Havia apenas o assentamento do portão do Terreiro. Este assentamento ficava aos pés de um dos esteios da porteira (que é chamado de tronqueira). O povo do Terreiro saudava e cuidava do Exu da Trunqueira. Com o passar do tempo, passou-se a assentar Exu em altar próprio, seguindo fundamentos da Morada de Exu antes da Casa de Oxalá, porém muitos mantiveram o assentamento de trunqueira; assentando no portão, o Guardião da Casa e na Morada de Exu, os Guardiões dos Trabalhos e dos filhos do Terreiro.

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A feminilidade de Exu - Pombagiras, Bombogiras, Pombogiras, Pangiras e Etc. Na religião de Umbanda, nas Linhas de Trabalho consagradas a Orixá Exu, Entidades com características masculinas, femininas e infantis atuam majestosamente. Assim como Exu é taxado de Diabo, sua caracterização feminina é taxada, hora de mulher do Diabo, hora de prostituta e há até quem as tomem por prostitutas do inferno... Exu ri... Pombagira gargalha... Aqui, tanto a caracterização masculina, quanto feminina são tidos por trabalhadores incansáveis de nossa religião, são os nossos eternos Guardiões. Pombagira é na verdade a representação do feminino entre os trabalhadores da Linha de Exu. Portanto Pombagira é uma Entidade Exu feminino. Se relaciona com as demais Entidades femininas e masculinas, não havendo uma caracterização de subordinação do feminino para com o masculino. Estas caracterizações dividem alguns atributos. Assim podemos observar a manifestação feminina ter maior tato ou sensibilidade no trato de assuntos onde a manifestação masculina se mostra mais incisiva e até imediatista. Pangira, Gira Girê! Finalizo, deixando meus respeitos: “Mojúbà àwón odù’nlá Meus respeitos aos odù maiores Mojúbà àwon odù Kékeré Meus respeitos aos odù menores Mojúbà àwon òrìsá Meus respeitos aos orixás Mojúbà látí dúpé Meus respeitos para agradecer Mojúbà Olófín, Olórun Meus respeitos ao Legislador, Deus Supremo Mojúbà Bàbá Tàbí Ìyá àgbà Meus respeitos ao pai ou mãe maiores Mojúbà ìyàwó Meus respeitos ao ìyáwò (noviço, iniciado) Mojúbà égbón àgbà Meus respeitos ao irmão mais velho Mojúbà bàbálórisà àti Ìyàlórisa Meus respeitos ao pai-de-santo e à mãe-de-santo Mojúbà Èsù barà alakíní Meus respeitos ao Exu poderoso, primeiro senhor Òrìsà mí alágbára ni àiyé Meu orixá todo-poderoso do mundo” Láàróyè Exu!

Objetos do Ipadê

Espada de Exu

Imagem remodelada de um dos Exus de Trabalho

Carranca da Casa

Fotos do Ilé Asè

Olóònòn

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Autor: Felipe Nazario, filho do Centro de Umbanda Caboclo Oxossi da Pedra Branca, situado no Rio de Janeiro EXU ESTÁ EM TODOS OS LUGARES ONDE HÁ VIDA... E ISSO INDEPENDE DE RELIGIÃO! Eu entendo que na Umbanda Exu possui entendimentos conforme a Casa. O que fica comum no meu círculo social umbandista é que esta Linha de Entidades é conhecida como guardiões ou povo de rua, comadre e compadre. No caso da Umbanda, o que sei é que existem Casas que não o cultuam sejam eles espíritos de luz ou divindades da natureza. Se for para proteger, Exu na Umbanda é guardião, se é para curar ou fertilizar na Umbanda Ele é doutor, se é para desfazer algum mal, seja feitiço ou outra coisa, na Umbanda Ele é conhecedor das artes do mal, ou melhor, negativo, se é para abrir caminho na Umbanda Ele é um bom guia, se é para fazer o mal Ele é cobrador! Enfim Exu é um grande aliado do ser humano para todos os momentos. Porém este ainda é um entendimento emocional. Como entendo Exu Entendo que Exu ou Pombagira sejam espíritos como a maioria das Umbandas que conheço os reconhecem, ou como potências divinas. São seres que ajudam a regular o cotidiano da vida dos filhos que os cultuam ou não. Em minha Opinião Exu e Pombagira estão onde estiver vida. Creio inclusive que se Exu é força da criação tudo o mais é um desdobramento Dele. Também entendo que Exu possui vários nomes, pois em cada cultura há um ser que cuida de um campo de atuação. Logo, judeus, evangélicos, messiânicos, não importa... Todos estão lidando com Exu, mesmo que não saibam ou não aceitem.

discosdeumbanda.blogspot.com.br

Não considero Exu um mistério, mas complexo, pois sua dualidade (sexual e polar) e diversidade de atuação dificultam nosso aprendizado. Penso inclusive se isso não é proposital, já que nós somos também complexos. Para mim, ao juntar toda a complexidade humana e sabedoria para articulá-la... O resultado será Exu. O que entendo é que os Exus que cultuamos na Umbanda não são os mesmos Exus de nação, mas sim espíritos de seres humanos que ao desencarnar adquiriram esta condição de Exu. Contudo, quando encarnados estes espíritos já eram filhos de Orixás e na passagem não deixaram de ser. Desconheço o processo seletivo para ser Exu de Umbanda, mas até o momento, acredito que são espíritos de luz, que se apresentam como Exu e possuem habilidades e condições para atuarem como tal. Em circunstâncias gerais estes espíritos se articulam com a natureza guardando mistérios referentes à criação, reprodução, caminhos, mensagens etc. Aprendi que Ogum é o chefe dos Exus junto com Iansã. Contudo, cada Exu de Umbanda também possui um Orixá ao qual está ligado.

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Pombogiras Com relação às Pombogiras eu não sei se era apenas pela necessidade de criar um arquétipo feminino de Exu. Entendo Pombogiras como espíritos de mulheres que no desencarne mantiveram-se mulheres, mas vibram no mesmo campo de Exu, podendo ser, ou melhor, se apresentar como Exu. Porém por uma necessidade nossa para sabermos diferenciar quem é quem, ou justificar ou explicar determinado comportamento, alguns espíritos se apresentam e atuam como Exu, outros Pombogira, outros Pretos-velhos e outros Pretas-velhas. Eu aprendi que espírito não tem sexo, nós é que por uma necessidade material precisamos saber quem é homem ou mulher. Por falta de conteúdo melhor adotei que as Pombogiras são o lado feminino de Exu. Exu no Terreiro de Umbanda Oxossi da Pedra Branca Na Casa do Seu Pedra Branca aprendemos que Exu de Umbanda é diferente do Exu de Nação. Na nossa Casa não há assentamento e nem reverência para os Exus de Nação. Conforme a necessidade de cada filho, o mesmo busca este conhecimento fora da Casa e o Zelador faz o acompanhamento o mais perto possível. Lá há Exu e Pombogira. Aprendemos a cultuá-los conforme Eles mesmos nos ensinam. Tudo que é ofertado e trabalhado com e para Eles é o Exu e ou a Pombogira que orientam. A atuação deles na nossa casa é o de zelar pela porteira e pela ordem espiritual, no que diz respeito a barrar o que os kardecistas chamam de espíritos zombeteiros e energias indesejadas. Os mesmos também podem atuar nos trabalhos de descarrego. Aprendemos que tanto a comida, como a bebida precisa ser consagrada a Exu ou à Pombogira. Exemplificando: Uma coisa é colocar uma cachaça na rua, outra é se concentrar, pedir licença e dizer que entrega aquela cachaça para Exu e dizer o nome dele. Ou seja, não acreditamos que o fato de ter bebida em um local, Exu estará bebendo... Ele pode até estar presente, mas não necessariamente porque há bebida a ser consumida. http://wwwoferendas.blogspot.com.br

O consumo de bebidas e fumo, dentro do Terreiro é liberado desde que o Exu do zelador autorize. A liberação é também conforme o estágio do médium na casa, ou seja, por mais que venha um irmão de outra Casa já com experiência, para a Entidade dele consumir, bebida, fumo etc., depende do consentimento do Exu da Casa. Em nossa Casa para abrir a gira é preciso cantar para Exu em primeiro lugar. Nós também temos sessão específica de Exu onde as pessoas podem consultá-los. Também em nossa Casa, não há uma uniformidade sobre os trajes de Exus e Pombogiras. Alguns possuem, outros não. Na Casa de Seu Pedra Branca, não há uma uniformidade para os “pontos riscados”. Cada Entidade possui o seu. Isso desde Exu a Orixá. Tudo é riscado em uma tábua, nunca direto no chão. Quando a Entidade risca no chão é para trabalhos específicos. Quanto aos “pontos cantados” evitamos cantar pontos que façam apologia a Eles serem Diabo. Na Casa de Seu Pedra Branca, o ponto varia conforme o momento. 33

Para saudar, utilizamos: “Mas Ele é capitão da encruzilhada, Ele é ordenança de Ogum, Sua divisa quem lhe deu foi Santo Antônio, sua coroa quem lhe deu foi Omolu... Oi viva o Sol, viva a estrela, viva a lua, Saravá seu Tranca Rua que é dono da gira no meio da rua. Ira ira Mojubá, Ira ira Mojuba, Saravá seu Tranca Rua que é dono da gira neste lugar”. Para chamá-los: “Arreda homem que aí vem mulher Ela é a Pombagira, rainha do candomblé (ou Cabaré) Tranca Rua vem na frente pra dizer como é que é”. Para despedida: “Ogum mandou Chua de porta para Exu ir embora Auê Exu vai embora”.

Autora: Eliane, filha da Casa de Umbanda pelo Amor, União e Caridade situada no Rio de Janeiro EXU, A ONDA ENERGÉTICA QUE PERCORRE OS TRABALHOS EM TERRA Quando criança aprendi que devíamos ter respeito por Exu e que Eles ajudavam a quem merecia. Minha mãe contava muitas histórias da sua própria infância, muito sofrida. Tinha que sair pra vender doce ainda pequena e quando voltava com o tabuleiro cheio, apanhava. Ela contava que vira e mexe, o Sr. Tiriri dava uma ajudinha, fazendo-a achar dinheiro na rua para levar pra casa, ou que milagrosamente aparecia alguém para arrematar o tabuleiro há poucos metros de casa. Dizia também que até a sua adolescência Ele a ajudou muito. Encontrou em minha casa, um médium que trabalha com Sr. Tiriri e muito feliz relembra histórias com Ele. Isso me mostra que Exu é companheiro, atento, guardião. Cheguei a conhecer quando criança, Terreiros com clima sombrio, palavrões, Exus rastejando pelo chão, olhos revirados, sangue, matança, tenso isso para uma criança...

Ponto de Tiriri exutiririlonan.no.comunidades.net

De experiências como essas, surgem muitos dos equívocos que existem até os dias atuais sobre a entidade Exu. Não é justo que toda uma falange seja depreciada pela falta de moralidade, estudo e comprometimento com a Lei Maior de alguns. Passando pelo kardecismo... Quando adulta me tornei kardecista; então a visão de Exu pra mim sempre foi obscura. Não havia explicação coerente para a entidade Exu a não ser: “aquele que dá algo em troca de favor e faz qualquer coisa”. 34

No centro kardecista que eu frequentava, não tive oportunidade de estudar especificamente a respeito de Exus, pois lá não se trabalha com entidade Exu, nem para desobsessão. Meu entendimento hoje É preciso conhecer um Exu de verdade, ouvi-lo, experienciá-lo, senti-lo e só então ter uma mínima noção do que é EXU, para começar a quebrar as barreiras da ignorância e da cultura encruada na sociedade; até mesmo dos que pensam saber quem é Exu, dos que pensam trabalhar com Exu e dos que pensam usar o Exu. Não sou ninguém ainda para definir EXU entidade, muito menos EXU Orixá. Eu vejo o Terreiro (parte física) como um grande ambulatório, enquanto o mesmo Terreiro no astral é uma emergência. Quem tem vidência pode acompanhar o trabalho realizado em ambos planos. Enquanto os médiuns incorporados estão lá fumando e bebendo e aconselhando o consulente, energias negativas estão sendo dispersadas e descarregadas, espíritos obsessores estão sendo trazidos para limpeza, correção, doutrinação e posterior afastamento. O ambiente está a todo momento sendo limpo e descarregado, pois fica sujo de toda troca fluídica realizada no local terreno e astral. Como em um hospital, existem alas diferentes para tratamentos diferentes. Na Umbanda existem entidades diferentes para tratamentos de casos e energias diferentes. Exus e Pombagiras têm como ponto de força além de encruzilhadas, cemitérios, caminhos, estradas... E esferas marginais da crosta terrestre, onde se formam aglomerações de espíritos trevosos, sofredores ou quaisquer outros nomes que queiram dar a almas em expiação ou perdidas. Sua aparência muitas vezes assustadora faz-se necessária para impor a ordem nesses ambientes por onde circulam fazendo cumprir a Lei. São conhecidos como guardiões de Terreiros, templos, lugares de aglomeração de pessoas. Sabemos que agem como policiais, que executam a lei do karma e por isso não há mal nem bem, nem direita nem esquerda, apenas o necessário. Como cada um de nós e deles se encontra em estágios individuais de evolução espiritual, não se pode definir um Exu por outro ou por todos.

Exercito Dourado – Os Guardiões das Passagens profeciasoapiceem2036.blogspot.com.br

São espíritos individuais e respondem cada qual por seus atos, tanto quanto nós. Para cada ação uma reação à altura e merecimento. Em nossa Casa homenageamos os Exus e Pombagiras no dia de Santo Antônio, 13 de junho.

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Alguns pontos que cantamos nos inícios das giras: "Santo Antônio de Pemba segura terreiro, segura congá, eu sou filho de pemba eu não posso cair eu não posso tombar Como caminhou meu Pai Como Caminhou meu Pai Como caminhou...Santo Antônio de Pemba como caminhou” "Santo Antônio amarra o pé amarra bem amarradinho Santo Antônio amarra o pé Oi, lá na beira do caminho" "Pisei na pedra, a pedra balanceou, O meu pé estava torto Santo Antônio endireitou"

Autor: Cláudio El Jabel, sacerdote de dijina Kambami, filho de Vodunon Aganga Otulu do Kwe Ceja Hansi EXU, MAGNÍFICO EM TODAS SUAS ENTRANHAS É DIFÍCIL SABERMOS AO CERTO O QUE ELE DE FATO É Dando uma passeada no entendimento candomblecista, sabemos que lá os tem como o primeiro, mais comum dizermos, “Tudo que a boca come”, porém poderíamos também afirmar que Exu seria, “Tudo que a boca fala”, “Tudo que a cabeça pensa”, “Tudo que o homem faz”, ou ainda, “Tudo ao qual se tenta”. Essa particularidade de Exu é algo muito ancestral. Exu é particularmente especial ao ser detentor da comunicação entre o céu e a terra além de poder sempre que quiser circular entre ambos, algo que o faz ser único entre os Orixás do panteão africano que está intrinsecamente ligado ao oráculo como o comunicador/carteiro. Polêmico em suas lendas, podemos perceber que ao mesmo tempo em que é ajudante nas benesses do homem, também é provocador de confusões. Essa particularidade de Exu nada mais é que “desflorar” de dentro do homem sua índole invisível. Exu como ninguém compreende, aceita e condena, pois está amplamente ligado ao caráter humano.

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Em algumas lendas africanas há afirmações que somos criados por Ele e não pelo “Deus” Olorun todo poderoso.

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Segundo uma lenda Bantu onde Exu recebe o nome de Pambu Njila/Aluvaiá.

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“Nzambi/Angomi ao se expandir começou a inserir sua forte luz em um ser chamado Aluvaiá, seria então sua primeira criação assim como em diversas lendas africanas. Ao criar Aluvaiá o mesmo em forma de agradecimento disse a Angomi que correria por todo o infinito como seu porta-voz e traria as boas novas para que Angomi soubesse de tudo. No entanto e para tanto faz seu pedido. Que seja dado a ele o poder de transformar a energia em matéria para que também possa moldar novos seres e criar um ambiente belo. Após perceber a facilidade em moldar seres da massa e dar-lhes vida, algo em Aluvaiá mudou ao ponto do mesmo se envaidecer e crer que pudesse criar a si mesmo, ou seja, criar alguém igual a ele assim como o fez Angomi, já que toda sua criação era temporária e não durava tempo suficiente. Para tanto não mediu as consequências e desenvolve a mentira criando um novo Ser ao qual alimentou com seu próprio sangue. Com essa atitude que mesmo sendo divina o leva a exaustão e fraqueza já que tirava de sua energia a energia para sustentar a nova vida, a vida humana, passa a fazer de sua criação uma fonte “vampiresca” para poder se manter poderoso e continuar criando.”

Acredita-se que dessa lenda podemos entender porque temos que comer alimentos vivos para mantermo-nos vivos, diferentes das plantas que transformam quimicamente o alimento que necessitam. “Desesperado por ver que sua criação mesmo assim detinha pouco tempo de vida recorre ao Duilo (Céu) para pedir a Angomi o segredo da perpetuação já que suas criações eram lindas e ele gostaria de mantê-las a tempo para que Angomi as vissem. Sabedor de tudo Angomi percebe de cara que Aluvaiá mente e que usava de sua criação como sustento. Como responsabilização pela criação de Aluvaiá, Angomi cria os Jinkisis para serem mantedores da criação e observarem a tudo por ele, mas não retira de Aluaviá o a posição de comunicador e de mantenedor da vida através do sangue. Desde então para tanto se fazem sacrifícios e Aluvaiá os recebe e comunica a Angomi os pedidos e critérios dos Inkinsis. “35

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Essa lenda pode nos dar elementos de entendimento de diversas coisas, entre elas a mentira, a manipulação, o sacrifício, a responsabilidade e a obrigação dentre outras, todas inseridas em nosso dia a dia. Essa lenda também pode nos dar um entendimento de por que Aluvaiá foi comparado com Lúcifer do catolicismo e por consequência todos os outros comunicadores como Njila, Èsù/Elegbàrá, Legba e etc... Exu assim como o conhecemos está ligado a tudo e a todos, seja na personalidade seja nas articulações diárias de nossos desejos. Por esse motivo ele é o alvo principal dos desejos humanos, sejam eles do trabalho, dos amores, das cobiças, das desavenças, das intrigas, do castigo e etc. Exu e humanos tem algo muito em comum e isso se presencia até mesmo nos desejos e atitudes. 35

- Lenda Kassange descrita por Tata Nitamba Tarangue.

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Há, porém, que separarmos as traduções de seu nome em significado, mesmo sabendo que no Candomblé não houve fronteira cultural e sim uma “sopa de letrinhas”. Èsù – tradução literal – Esfera (Yorùbá) Mpambu Njila – Tradução literal – Mpambu (Encruzilhada) e Njila (Caminho) no idioma Kikongo. Logo, entende-se tratar de algo que sempre lhe cruza o caminho e está presente em todas as suas decisões. Elegbara – Tradução literal - Aquele que é possuidor do poder (agbará). A cultura torna-se vasta e vamos vendo Exu em quase tantos outros elementos folclóricos de várias culturas; Saci, por exemplo, é visto como um Exu mirim pelas traquinagens que faz sempre. Dando entendimento cultural Falamos em Aluvaiá e Njila. Temos que entender que quando falamos em Nação Angola aqui no Brasil, precisamos levar em conta a grande mistura de toda a cultura BANTU, explico: Em nossa cultura assim como nos idiomas/dialetos falados dentro da Nzu(Ilè), existe uma mistura de todas as vertentes da cultura Bantu, mais as dos índios brasileiros, que por direito e pela ajuda aos grandes líderes africanos, NGANGA ZUMBA e ZUMBI (nomes dados aos líderes quilombolas), passaram a fazer parte também. Vieram para o Brasil não só Angolanos e Congolenses, mas também povos de Madagascar, Moçambique, Zimbábue, Namíbia, Botsuana, Uganda e etc. Os países que fazem parte da cultura Bantu são vários e em todos, eram cultuados vários nomes aos que conhecemos como o grande Èsù dos Yorubas. Aluvaiá também é conhecido pelos Cambindas como Nkuyu Nfinda, Tata Nfinda, Tona e Cubango. Ele é o senhor dos sete caminhos e podemos ver o mesmo citado em uma lenda onde mostra claramente o porquê de não conhecermos Nzambi, pois os homens foram criados por Aluvaiá. “... Zambi deu então a Aluvaiá a missão intermediária de ficar entre os dois espaços. Com o passar dos tempos, os seres sentindo necessidade de Aluvaiá, faziam-lhe sacrifícios para chamá-lo, já que ficaram dependentes do sangue por ele criado. Como castigo, Aluvaiá passou a ter a responsabilidade de manter a vida material através do sangue.” 36 De Zambi recebemos a essência do espírito, dada por Lembaraganga. Ainda sobre os Bantu, vamos encontrar na literatura a relação com Exu: “Os bantu cultuam uma entidade comparável ao Exu dos nagôs que se chama Aluvaiá, e pode apresentar-se como homem ou mulher, porque na realidade não tem sexo e se chama segundo as nações bantas: ALUVAIÁ, NKUVU-UNANA, JINI, CHIRUWI; MANGABAGABANA; KITUNUSI. No Brasil o sincretismo cultural entre as nações, comparou o Exu dos nagôs a Aluvaiá dando-lhe uma dualidade sob o nome feminino de Pomba gira e o nome masculino de Bombo gira, sendo que para os bantu ele pode ter um desses nomes de acordo com a identidade masculina ou feminina que se apresenta.” 37

luznocaminho.net

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- História da formação dos seres na versão dos KASSAGES, a qual se encontra no Livro Candomblé de Angola de José Rodrigues da Costa

37

- livro: África, Mitos y Leyendas de Alice Webner, capítulo Mitologia Bantu que influenciou os cultos afro-brasileiros.

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Sobre Njila se diz38: “Njila tem a ver com a criação.” “Njila é mola propulsora, leva a crescer, a transformar, a comunicar, ajuda as pessoas a se desenvolverem e a adquirirem um bom nome.” “Njila está relacionado com as cavidades do corpo (kaxi), cabeça (mutue), cavidade da boa e do estômago (muzumbu e dikutu), umbigo (tumbu), kivaji (cavidade do útero)”. “Njila quando MAVILE é o masculino, ligado a terra e à criação.” “Njila quando MAVAMBO, é feminino, é ligado a terra e à criação.” “Njila assume a fala em BIOLÊ” “Njila assume a fala em BIONATAN, quando feminino.” “Njila é ALUVAIÁ, é a rua que restitui o que recebe.” “Njila é CARACOXI, ou karacuji, quando se apresenta ajoelhado.” “Njila é IMBIRIQUITI, ou Berequeté, quando sentado.” “Njila é KITUNGUEIRO, ou Kitembeiro quando em pé, veste roupa e se apresenta de várias formas. Podemos ver também que: “As cantigas que falam sobre Aluvaiá estão mais referente aos que praticam de forma normal do culto, respeitando a tradição indígena a qual tiveram acolhimento nesse País”. 39 Poucas ou até mesmo raras são as cantigas conhecidas para esse Nkisi que não estejam em português, pois para nós, Ele acabou sendo sim a parte "maléfica" de Njila, sendo utilizado apenas para as cobranças, a maldade existente nos interesses dos que dela fazem uso. Sabemos que muitas pessoas procuram as casas de Candomblé não só para acharem um caminho de paz espiritual e sim para pedirem o mal para outra pessoa. Existem sacerdotes que se prestam a isso e evocam sim essa energia, mas a grande maioria não, daí termos uma cantiga que diz assim: "Sai-te daqui Aluvaiá, que aqui não é o seu lugar, Sai-te daqui Aluvaiá, que aqui não é o seu lugar, Eu não quero ver te aqui, na aldeia de Ayucá, Ô...40 Quando as Casas (principalmente as tradicionais) evocam essa cantiga, estão informando que ali é local de coisas para o bem e não para se fazer mal a alguém. Para isso quando fazemos o ritual do Matete (Padê) cantamos a Mavilutango para que se coloque na porteira e proíba a aproximação de qualquer perturbação. "Mavile, mavile, mavile mavambo Mavile, mavile, mavile mavambo E kompensu ê, a rá rá E kompensu ê. E mavile, e mavile, mavile mavilutango Mavile, mavile mavilutango E sissa, sissa ê sissa lukaia Sissa, sissa ê sissa lukaia Sissa ê ananguê"

paimutalengunzo.blogspot.com.br

38

Essa definição de Njila foi transmitido oralmente, por Itana, do Terreiro Viva Deus, situado no bairro Cabula, em Salvador, Bahia. Itana é Makota D’Amuraxó, a mais antiga makota do Terreiro, para os amigos Kota Mutarerê. 39

40

Também transmitido oralmente por Kota Mutarerê.

- Ayucá foi um grande líder indígena.

39

"Pambu Njila jamugonge, ia ia, orere Pambu Njila jamugonge ia ia, orere.... Pambu Njila Kujá kujanjo" "Njira apavenã, Njira apavenã Njira apavenã, Njira apavenã aindaue, inja uê, Njira apavenã" "Biole biole Bionatan Ki bibi kua kua ko Biole biole Bionatan Ki bibi kua kua ko"

Ponto de Papa Legba deanjones.tripod.com

Existem variações nas cantigas pela influência não só da língua portuguesa como também da própria mistura de dialetos entre os Bantu, daí a grande dificuldade em termos um parâmetro de dizer: "Não é assim, é assado". Temos o princípio dentro das casas de culto Angola/Kongo do entendimento de que Njila (Èsù) tem em seu princípio a criação, o desenvolvimento, o caminho, a visão e o feitiço, que deve ser utilizado apenas para o bem, pois sua força é muito perigosa quando utilizado (evocar) para o mal. Njila é criador na cultura Bantu, pode ser o pênis masculino, como também o útero feminino, ele contém essas duas energias. Ainda relembrando outro fator importante é que na cultura Bantu, não se utiliza o Jogo de Ngombo para verificar Nkisi. O fato de utilizarem o jogo de búzios aqui no Brasil é uma adaptação de comodidade, pois ficaria difícil nos dias de hoje, levar um iniciado às matas, colocá-lo em transe com o Nkita e deixá-lo lá por dias para depois verificar a qual Nkisi o mesmo pertence. Falemos um pouco também sobre o quase desconhecido Legba da cultura Fon. Fala-se que Legba é provavelmente originário dos Yorubás da Nigéria. Segundo descrevem ele teria sido um feiticeiro, chamado Ijebu, dos arredores de Ilê-Ifé, ou descendente do primeiro rei de Ketu, o Alaketu, ancestral do povo Egba. Frobenius descreve em seus livros que Exu teria vindo do oeste, do sol levante de Ifé e que havia uma tendência em confundi-lo com Elegba, uma divindade fálica do sul da Nigéria. Algumas lendas descrevem que Legba foi imprudente ao ignorar Mawu na descida para o Aiye, mas soube tirar proveito disso pois falava tanto a língua divina como a humana ( cabe aqui uma observação pois se já havia humanos quem os criou então? ) Legba dentro da cultura Fon e Ewe é sempre visto como um símbolo fálico, mas também como o guardião dos templos no Benin, enquanto sua forma feminina é conhecida como Assi-Legba, Legbayonu ou ainda Awovi. Awovi também tem forte indicação visual com a sexualidade já que sua imagem é descrita como um fetiche em forma feminina onde no local dos seios ficam dois grandes olhos e no lugar da vagina uma boca. Como podemos perceber nas descrições culturais dos povos africanos há além de muitos nomes, muitas formas de se identificar o que chamamos de Exu. 40

As concepções culturais entre esses povos africanos têm coisas bem parecidas, mas em outras o sentido é totalmente diferente. Aqui no Brasil sim, são bem idênticas em tudo, mudando apenas o idioma nas rezas e cantigas, mas os procedimentos são os mesmos. Daí podermos afirmar sem sombra de dúvidas que Candomblé e Umbanda são religiões brasileiras, baseada não só em cultos (religiões) africanos, mas sim, em vários cultos (religiões) do mundo. Ìpade e Padê A palavra original é Ìpade ou Ìpade (com um pingo abaixo do e). O ritual de Ípade sempre teve o significado de REUNIÃO, em Yorubá. A segunda palavra Ìpade nos é sugestiva ao próprio Exu, pois tem o significado das roupas deixadas ao portão da entrada (no caso deles na entrada da cidade) exatamente para chamar a atenção de quem passa.

Ritual do Ipade curimbeirosdesenzala.blogspot.com.br

O que entendemos com isso é que se trata de um mercado informal onde Exu transita. A palavra Padê que muitos imaginam ser "farofa" trata-se de uma “condição de cena”, ou seja, onde há pessoas reunidas. Ìpade e Padê nos dão significado de “reunião”, já que no comércio sempre há reuniões de pessoas interessadas nas mercadorias expostas. Interessante perceber que o dito Padê também nas maiorias das vezes é entregue em locais distantes como encruzilhadas que acabam por nos informar que por ali deva haver algum Terreiro. Seria então o padê de encruza um chamativo para o mercado religioso no bom sentido? O "Mercado" aqui por mim enfatizado seria o de entender que onde há pessoas reunidas sempre há também a troca entre elas de ajuda, o que não deixa de ser um mercado, onde: Eu posso ajudar você a construir sua casa e você pode me ajudar a cultivar bananas, ajudar a montar um galinheiro ou mesmo ceder alguns animais para que eu comece minha própria criação. Lembro que na roça entre o pessoal que mantém nossas vidas com alimentos uns ajudam os outros, cedendo animais para cobertura, cedendo pasto, ou até mesmo ajudando a levantar uma cerca. Logo vejo isso como uma das finalidades de Exu, mostrar as pessoas que todas têm seu lado prático e podem suprir numa colaboração a necessidade do outro. Uma palavrinha sobre as Pombogiras Quanto as Pombagiras presentes na Umbanda, devemos lembrar que o termo é uma corruptela da palavra Mpambu Njila que pode ser tanto masculino como feminino. Lembro ainda que o próprio Legba da cultura Fon também é dividido (entendido) em masculino e feminino, dando a imagem de que na verdade pode ser para alguns grupos uma figura masculina e para outros a mãe protetora como uma Ìyàmì. Exus de Umbanda chamados de Catiços nos Candomblés – Tentando decifrar como esse termo apareceu entre nós... “Catso” em Espanhol tem o significado de pênis, o que não deixaria de ser uma das formas vistas de Exu. 41

Acredito eu, que tal palavra se deu ou veio a ocorrer na fusão das ditas linhas entre os Ciganos que no início apareceram nas giras dos Exus e hoje tem suas giras muitas vezes separadas. Todos nós sabemos do termo “tissão” que se usa, pejorativamente ou até mesmo brincando com um amigo “negão”. Sabemos também que o prefixo “KA” para os Bantu, além de darem a informação para o diminutivo servem também para dar corpo, verbalizar o indivíduo como ser humano. Assim temos Kambami, Kabila e pode ser também uma contração de KI +A, ou seja, o que é, de que é, aquele que é e etc.... dando a profundidade do porque de assim o ser. Logo se temos Kambami como o filho que fala pelo Pai, temos por outro lado Kabila, aquele que pastoreia ou simplesmente “pastor”. Se pegarmos esse estudo e colocarmos ele na palavra “Katiço ou Katisso” e se soubéssemos que tal palavra teria um significado de “negro”, poderíamos entender que trata-se de uma forma de apontar: katiço/Katiso/Katisso/Catiço, como “Aquele que é negro”. O mano José Roberto, também acrescenta dizendo que: “O que eu aprendi com os mais antigos é que Catiço tinha relação com o significado de “escravo”. Em determinadas regiões os negros escravos eram assim denominados. Ao menos era o entendimento passado, embora não nos utilizemos deste termo. Lembro que há uns 25 anos atrás, ouvia histórias no Terreiro, que traziam este termo. Tempos em que era eu o filho a ouvir histórias... somando o que eu pude absorver sobre o termo e suas elucubrações, acredito que podemos nos arriscar neste caminho do “escravo”. Um espírito vira Exu ou se apresenta como tal? Não acredito que virem, e sim se apresentem como tal pela própria afinidade e permissão. Lembremos aqui das escritas do Ifá que nos informa: "Homens que com sua coragem e bravura pós-morte são cultuados e divinizados como os Òrìsà". Lembro então de uma lenda do Ifá a qual dá a descrição de Òsetùá (conhecido como o 17º Odu). Nessa lenda descreve por que Èsù torna-se o único portador de oferendas a Olódumàrè, pois é através de Òsetùá que ele aceita tal missão. A pergunta então fica numa dúvida, os Exus como os conhecemos na Umbanda seriam de fato Exu ou seriam uma manifestação Egúngún de Òsetùá?. Lembrando a lenda, Òsetùá é um filho do àse de todos os Òrìsà pela imposição de Òsun que torna as prescrições de Orúnmìlà invalidadas pelo poder de Iyá mi àjé; tudo porque queria ter um filho homem. Sabemos que os ditos Exus de trabalho recebem as informações das pessoas e suas necessidades, examinam a veracidade de tais pedidos e suas reais finalidades para então darem seus avais de que farão ter resultados. incards.insite.com.br

Parece-me aqui que na verdade é Òsetùá quem se manifesta e recebe toda informação para poder com a certeza que sempre teve e a confiança de Èsù, poder relatar a Esse para que tome as devidas providências. Na lenda fica claro que as pessoas não têm sinceridade em seus pedidos e apenas Òsetùá era sincero e cumpridor dos interditos ao ponto de fazer com que Èsù intercedesse por ele junto a Olódumàré. 42

Para maior entendimento, trago a lenda41 de como ÈSÙ TORNOU-SE ÒSIJÈ-EBÓ “Em tempos memoráveis a terra e o céu eram quase que juntas, para se estar em ambos bastava apenas seguir por caminhos. Essa diferença era apenas a que distinguia Deus (Òlórun/ Òlódumàrè) e sua criação e mandatários. Aos mandatários Òrìsà foi designada a função de proteger, julgar, defender, curar, propiciar, ensinar e etc..., aos seres humanos e para tanto em retribuição, tudo deveria ser realizado através de oferendas em determinados espaços designados como OJÒBO para exatamente fundamentar e separar os espaços “magísticos” de atuação da força por ele emanada. Após a criação do mundo e dos Òrìsà deu-se também a criação humana e de tudo que se tem na terra. Para cada um foi distinguido um espaço de atuação não impedindo, porém que manifestem atuação em qualquer outro caso necessitem, mas apenas um seria responsável pela comunicação entre o Aiye e o Orun (Terra e Céu) e esse seria Èsù. Para tanto tudo que é necessário para movimentar essa energia provedora deve também ser compartilhada com Èsù. Todos os humanos sempre pedem a Èsù por suas necessidades para serem atendidos, porém não agradeciam ao mesmo ou não davam importância a ele e sim ao Òrìsà que atuava naquela questão, esquecendo-se que se não fosse por Èsù a atuação do Òrìsà seria nula, já que a comunicação não se daria a tempo para solucionar tal pedido. O poder se manifestava também nas Grandes Mães Ancestrais ou Ìyàmì Òsòrongá conhecidas como o útero criador e aqui representada por Osun. Ao perceber a adoração dirigida apenas a parte masculina, Osun com seu poder de àjé (feiticeira) começa a promover em toda oferenda seu poder estragando tudo antes de ser oferendado. Começa então uma disputa de equilíbrio entre o poder masculino e feminino. Após Orunmilá subir ao Orun para saber o que ocorria e quais providências tomar, fica entendido que Osun não aceitava que todos se reunissem sem que manifestassem a presença dela, porém mesmo após isso ocorrendo, Osun se recusa a seguir com eles na presença de Egún. Mesmo eles pedindo de joelhos ela os castigava e só se acalmou no sétimo dia quando revelou o porquê de sua cólera. Osun estava grávida de uma criança e disse que se eles fizessem com que sua criança nascesse um homem ela deixaria que ele os seguissem a todos os espaços. Entendia Osun que se nascesse um homem significaria que Olorun a havia ouvido e que então ela poderia se comunicar com ele também e não apenas Èsù. Todos se reúnem para pedir e transferir os seus Àse ao útero de Osun para que nasça um filho homem, porém ao nascer apenas no nono dia é que Osun permite que o vejam, exatamente no dia do Ritual de Ìkomojáde (dia de dar o nome) Òrìsànlà foi o primeiro a vê-la e verificar gritando hurra! (Músò!) é um menino! E escolhem Àsetùwà (O poder trouxe ela a nós). Como era menino passa então a ser chamado de Òsetùá em referência ao dia de seu nascimento onde Ifá verifica os Odu que regiam, Odu Òsé e Òtùá. Assim cresce o filho de Osun indo junto a todos os outros Odu Agba (Odu mais velhos) em todas as oferendas e conhecendo a todos os espaços de ofertá-las. Òsetùà torna-se tão importante pelo conhecimento adquirido que nada mais poderia ser feito, entregue ou resolvido sem sua presença, pois ele passou a ser conhecido entre os dezesseis Odu mais velhos e os dezesseis Òrìsà mais velhos como Akin Osó (Poderoso mago, já que era fruto de uma Ìyàmì e do Àse). Foi então que ocorre uma grande catástrofe na Terra onde uma grande seca se manifesta causando devastação por todos os locais. Oferendas são preparadas e levadas tanto pelos 41

Transcrita de “Os Nagô e a morte” – Pàde, Asèsè e o culto Égun na Bahia de Juana Elbein dos Santos.

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Odu anciões como pelos Òrìsà anciões e todos deram de cara em portas fechadas no Orun. Foi quando chega a vez de Òsetùà levar tais oferendas, porém antes ele vai a consulta do Ifá para saber como proceder. É quando lhe é avisado sobre a presença de uma velha anciã a quem deve se ater em atenção. Òsetùà de fato quando levava as oferendas que além de seis galinhas continha também seis centavos depara com tal anciã que lhe conta sobre sua situação. Òsetùà então lhe dá os seis centavos para a anciã obtenha alimento e antes que prossiga ela o detém e diz: - Òsetùà, soube do fracasso dos Anciões mais velhos e dos Òrìsà na tentativa de levarem suas oferendas ao Orun. - Você não deve dizer que está levando as oferendas ao chegar ao sítio, - Você não deve comer nada antes da entrega, - Você não deve beber nada antes da entrega, - Você não deve dizer nada na presença de Olorun. Assim quando Òsetùà chega ao sítio informa que não está pronto ainda e que partirá apenas no dia seguinte com as oferendas. Nesse ínterim, vai ao encontro de Èsù para lhe perguntar o que de fato deveria fazer. Èsù fica espantado com o conceito que Òsetùà lhe tem e segue com ele pelo caminho aos portões do Orun. Observando as oferendas e sabendo através de Èsù o que se passava no Aiye, Olorun pega tudo que é necessário à sobrevivência na Terra inclusive alguns feixes de chuva e dá a Òsetùá. Na volta Òsetùà deixa cair um feixe de suas mãos fazendo chover na Terra, tornando-a próspera e com riqueza.

Èsù agradece a Òsetùà por sua gentileza em retribuir e reconhecer sua ajuda e após isso somente aceitará levar os ebós (oferendas) quando estas antes passarem pelas mãos de Òsetùà, pois este demonstrou ser digno e fiel.

raizculturablog.wordpress.com

Autor: Humberto Sabino da Cruz, filho da Associação Umbandista Iansã e Caboclo Pena Branca, situado em São Paulo Meu Encontro com Exu O que vou expor aqui é um breve relato do primeiro encontro que tive com a Linha de Exu. Quando entrei pela primeira vez dentro de uma gira de Exu tive medo no início, pois não sabia o que ia encontrar. Meus pensamentos eram os piores possíveis referentes a estas Entidades. Tinha uma mente totalmente fechada para entender o que era a Umbanda e o que ela representa na sociedade de hoje, pois fazia parte de outra religião. Tinha o pensamento de que Exus eram demônios, espíritos das trevas malignos, que se você não fizer o que eles querem e mandam, tiram tudo de você sem dó, nem piedade. Que pensamento medíocre! Mas confesso aos irmãos que era o que vinha a minha mente antigamente, totalmente cética. Estava na assistência esperando. 44

Quando chegou a minha vez de ser atendido sentei de frente ao Sr Tranca Ruas das Almas, espírito que incorpora no Pai Pequeno da casa. Fui informado que seria bom conversar com Ele, pois Ele teria mais coisas a dizer da minha vida e conseguiria mais respostas. Eu ainda não acreditava nessa hipótese. Não sabia quem era Sr Tranca Ruas das Almas e pelo nome, já podem imaginar o que estava passando na minha mente, não é? Fui com bastante medo. Não sabia o que iria ouvir. Ainda que estivesse com o pensamento voltado a não acreditar, estava preparado para qualquer coisa que acontecesse. Imagem de Tranca Ruas

Quando sentei de frente para Ele, logo deixei aparente meu nervosismo. umbandaeaxe.blogspot.com.br Como é de Exu, o Sr. Tranca Ruas tirou “uma com a minha cara”. O cambono que estava com ele naquele momento, não se aguentou e deu um gargalhada, junto com a gente. Dali em diante, demos muitas risadas, me soltei um pouco e o nervosismo foi indo embora. Este dia foi inesquecível. Ele começou a falar da minha infância difícil, da falta que eu sentia do meu pai, dos problemas que passava com a minha mãe referente à bebida alcoólica, dos poucos relacionamentos que tive. Enquanto Ele dizia isso, eu me via chorando aos pés de Exu completamente envergonhado; mas era um choro guardado há muito tempo no meu coração, um choro sentido, que parecia que não ia parar mais. Lembrei de muitas coisas ruins que tinham acontecido comigo e com a minha família, que Ele me fez recordar para entender o porquê e os motivos de minha vida não ir pra frente. Eu vi toda minha vida girar em torno da minha cabeça, dos sofrimentos que passava. Ele me fez entender como deveria ser dali pra frente, que eu deveria decidir a partir daquele momento, o que escolher, para crescer espiritualmente. Ele me informou que já deveria estar trabalhando há algum tempo, mas que foi determinado pelo Astral que eu tinha que aprender mais algumas coisas, antes de ter a Umbanda em meu coração. Não foi fácil pra eu decidir. Eu não acreditava em santos, imagens, reencarnação. Tive que fazer uma transformação na minha mente, transformá-la em uma mente acessível a tudo que não acreditava. Aprender a ter fé no que eu não tinha. Estaria ali um novo ser, um novo homem. Meus dogmas já estavam impregnados junto com os conceitos e preconceitos que eu tinha com a religião, aceitar a ritualística adotada por aquela Casa, foi um processo em longo prazo. A partir daquele momento, Ele me acompanhou para nada dar errado neste período de tratamento espiritual e Exu Tranca Ruas das Almas me ajudou muito a entender tudo isso. Ficamos pelo menos uma hora e meia conversando. Tive a impressão que minha presença já era esperada por Ele, que estava aguardando por mim. Quem não gostou muito foram os outros consulentes, que Ele ainda tinha que atender e que tiveram que ser remarcados para outro dia. Fiquei feliz com muita coisa que ouvi e triste com outras, mas foi um extraordinário “tapa na cara” de tudo o que eu pensava destes espíritos e sobre a Umbanda. Até hoje peço perdão por tanta incompreensão, com tantos pensamentos negativos que eu guardava sobre Eles. Hoje entendo Exu como abridor de caminhos, colocando-nos na jornada correta, auxiliando-nos e nos conduzindo, para que nosso dharma seja perfeito nesta vida. Mensageiro de Oxalá que nos envia as melhoras respostas, nas horas certas nos lugares certos. 45

Companheiro de todas as horas! Trabalhadores incansáveis da Lei, deixando o Astral Superior com mais força para combater as maldades deste mundo! Exu me fez aprender a desgarrar do material... Ensinou-me a conquistar os objetivos e o sucesso apenas com pensamentos no alto, a abrir as nossas porteiras para os nossos sonhos. Ajudou-me a ter consciência das Leis Sagradas. Ensinou-me que a Umbanda não é diferente de nenhuma religião, que ajuda a se conectar com o Divino e obter seu crescimento espiritual. Ensinou-me que a toda ação, existe uma reação, tudo que se faça, terá seu efeito. Ensinou-me a resignação, para aceitar toda a ritualística da religião e o amor ao próximo. Aprendi a me auto aceitar e aceitar o próximo com sua forma original; convenhamos que não é uma tarefa muito fácil de executar. Não acredito que Exu possa fazer o mal, pois se trabalha para Deus e a Lei Maior e tem a responsabilidade de cuidar de seus filhos, não lhe é permitido fazer tal feito. Exu hoje me orienta e decide para onde devo ir, qual a melhor direção, sem tomar atitudes precipitadas. Não faço nada sem antes comunicá-lo. Peço orientação. Não por medo ou por temê-lo, mas sim por respeitá-lo e ter consciência que estou bem amparado com as forças da Lei Divina e também por quero mostrar a Eles que todo trabalho que foi feito em meu processo de transformação, não foi em vão. Se hoje tenho a Umbanda dentro do meu coração e a trato como filosofia em todos os sentidos da minha vida (que não funciona apenas nos dias de trabalho, e sim, temos que tê-la e lembrá-la a todo o momento), uma grande parcela dos créditos estão para Exu, que me fez entendê-la em sua forma mais sublime, encantada, esotérica e em sua forma magística. Agradeço ao Sr. Exu Tranca Rua das Almas que me ensinou a caminhar. Agradeço ao que me acompanha nesta vida, meu grande amigo sábio, Sr. 7 Encruzilhadas. Agradeço ao Sr. Tiriri, grande conhecedor da vida e da magia. Agradeço ao grande amigo 7 Catacumbas. Agradeço ao Sr. Exu do Lodo, que de alguma forma me ajudou neste processo de entendimento. Não poderia esquecer de agradecer as maravilhosas Pombagiras, como a Senhora Dama da Noite, que é uma grande conhecedora do astral, muito amiga e entendedora dos sentimentos mais sutis do ser humano e a Senhora Maria Padilha, que com seu jeito único, me fez ter a certeza de muitas coisas em minha vida. Agradeço aos nossos amigos Exus Mirins, em especial ao Senhor Pinga de Fogo, que é um grande amigo, que posso contar em qualquer situação difícil, que ainda me ajudou a modificar muita coisa em meu caráter e me fazendo entender todos os meus pensamentos negativos. Agradeço a todos os Exus, guardiões dos campos santos, das encruzilhadas e dos pontos de força da natureza. Agradeço a todo suporte que me foi dado e darão após meu desencarne.

7 catacumbas acartomantepriscila.blogspot.com.br

templodosoraculos.blogspot.com.br

LAROYE EXU!!!!!!!!! Senhores dos caminhos!!!

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AUTOR: Marc Maeda, filho da Casa de São Jorge e Ogum Beira Mar, situada em Minas Gerais EXUS, SENHORES DA SABEDORIA, ESPELHOS DOS SEUS MÉDIUNS Meu Primeiro Contato com Exu (indireto) Meu primeiro contato com Exu se deu quando eu tinha uns sete anos de idade. Havia um Terreiro em frente à casa de minha prima e estava tendo toque42. Minha mãe carnal estava lá dentro. Eu e minha prima brincávamos lá fora, quando resolvemos "descobrir" o que havia dentro daquela “casinha” com cheiro de velas queimando. Ao abrir a “casinha” (tronqueira) nos deparamos com umas imagens “bizarras” e a que ficou na minha mente durante muito tempo, foi do Exu Brasinha, que só fui identificar anos depois. Nessa época, minha mãe me deu uma enorme bronca, me advertiu sobre o perigo em mexer com os Exus. Meu Primeiro Contato com Exu (direto) Aos meus 12 anos de idade, tive uma fase de adolescência rebelde e complicada. Às vezes atraía problemas dos outros para dentro de minha casa, comecei a me desentender demais com meu pai e sempre que ficava nervoso, algo mais forte que eu, tomava conta de meu ser. Numa dessas discussões fiquei possesso e parti para cima do meu pai, com uma força sobrenatural para um garoto franzino, como eu era na época. Com muito custo minha mãe, meus três tios e mais um amigo me seguraram. Caí desfalecido e só acordei depois de horas, sem entender o que se passava e só minha mãe estava me olhando bem séria. Na semana seguinte, ela e meu pai, me levaram em um Terreiro de Umbanda. O responsável desse Terreiro era pai de um amigo do meu pai e sua orientação foi de consultar com o Baiano. Chegando lá, ouvi que eu estava com “encosto43” e que poderia acabar me machucando se fosse descarregado ali mesmo. Comecei a procurar algum Terreiro por conta própria, pois sempre tive esse meu lado independente de resolver minhas próprias coisas, até que criei coragem e fui conhecer o Terreiro que tanto me atraía e que ficava na mesma rua de minha casa. Por coincidência (não acredito em coincidências) era uma Gira de Esquerda. Entrei e me sentei em um dos bancos da assistência, sem saber o que fazer, sem conhecer nada e sem entender quase nada do que falavam ou cantavam, tremia, não de medo, mas de ansiedade. Uma moça (que eu conhecia por ser muito popular na rua e alvo de nossa turma de Skatistas) trajada de uma forma totalmente diferente do natural, toda perfumada, me abordou. Pediu para que eu fosse conversar com ela. Disse que para muitas das minhas dúvidas, ela teria algumas respostas… Neste longo papo que tive com a Senhora Rosa Caveira, me foi explicado o porquê de me sentir estudiomakako.com.br ansioso com certas coisas, o porquê de sempre sentir energias diferentes, cada vez que visitava algum cemitério. 42

- Toque é como também se chamam as Giras, em referência aos cânticos e “toques” de atabaques.

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- Designação de “obsessor”.

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Ao final, ela me disse para seguir a conversa com o Chefe da Casa, Senhor das 7 Tronqueiras, ou apenas Seu Tronqueira, como ele pediu para chamá-lo. Convivências, experiências e desmistificação. Quando incorporei pela primeira vez estava com 13 anos de idade e foi Exu quem me abriu o caminho. Foi Exu quem meu deu a segurança necessária para uma boa incorporação, sem medos. Ao longo desses 25 anos de trabalho com esses maravilhosos Guardiões, pude ouvir centenas de pessoas. Cada uma com sua própria experiência e sua própria convicção sobre nossos “Cumpadres” 44. Já tive medo de Exu, confesso sem culpa, por os colocarem no patamar de verdadeiros diabos mercenários, “que só trabalham em troca de algo”, ou que são "faca de dois gumes". Crescendo, convivendo e aprendendo,fui descobrindo que são amigos fiéis. “Cães de Guarda” quando necessário e que refletem tudo o que o ser humano sente e faz. Faço questão de desmistificá-los sempre que posso. Seguindo os próprios conselhos deles, não dou ouvidos quando se trata de pessoas leigas, que estão querendo botar a culpa do mal do mundo e das pessoas, neles. Acredito que em 90% disso, os culpados são os próprios Umbandistas que os tratam como “malfeitores”. Citando alguns exemplos: tratando os Exus como entidades sem luz; fechando Congás em Giras de Exu, como se as imagens de Orixás ou Santos não fossem à altura deles; deixando os médiuns da Casa se embebedar e falar palavrões escandalosos como se fossem o Exu. Isso tudo é nocivo e desrespeitoso a essa Linha de trabalho, que considero tão importante quanto as Linhas de Direita. Sem Exu não se faz nada. LAROYÊ Seu Gira-Mundo!

Pontos de Giramundo ptwj.sites.uol.com.br

“Causos” que vivi com os Exus Morei fora do Brasil durante muito tempo, só voltando de vez em quando, para fazer turnês musicais, no tempo que vivia como DJ. Numa dessas visitas ao Brasil, fui ao Terreiro que minha prima frequentava em Santo André. Como eu estava "solto" lá, acabei cambonando o Exu Gira Mundo. A cada intervalo de consulta, Ele me fazia uma brincadeira meio enigmática. Eu, quietinho cambonava. Ao final, Ele me pediu para servir a última dose do Whisky dele e me ofereceu, tirando logo em seguida e dando uma enorme gargalhada. Falou que eu não podia beber, que Ele sabia muito bem como eu me senti, amanhecendo com o corpo gelado e a boca cheia de areia há sete Luas grandes, indo parar no hospital, logo em seguida. Ele me contou até os detalhes das água-vivas que me queimaram a perna esquerda. Coisa que ninguém do Terreiro sabia. Quando indaguei porque Ele não me ajudou nessa época, Ele só me disse que: “Como eu não o chamei, Ele não foi me ajudar. Que Exu só entra se for convidado!!!!” Em 2010, no final de uma Gira de Exu, Sr. Capa Preta solicitou a uma amiga que fizesse um trabalho, para dar um rumo na vida dela. Teria que acender uma vela preta enfiada em um cupinzeiro ao meio dia. Estava em Minas Gerais e como no interior e muito fácil encontrar enormes cupinzeiros, aproveitamos o calor e decidimos ir tomar banho de cachoeira e no caminho fazer o tal trabalho dela…

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- Popularmente chamados de “cumpadres”. Mantivemos a grafia como se fala, apesar de fugir da norma culta.

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Localizamos um belo cupinzeiro. Acompanhei-a para fazer o trabalho. Quando entramos no carro e demos a partida, meu amigo que estava dirigindo disse que a vela não estava mais lá. Descemos, procuramos e nada… Fomos para a cachoeira. Voltamos pelo mesmo local, três horas depois e lá estava a vela, acesa pela metade!!! LAROYÊ Seu Capa-Preta!!! Essa é bem mais uma prova de força e fé do que um causo... Estávamos desesperados, um mês antes de abrirmos um estabelecimento. Eu e meu sócio (que também é simpatizante da Umbanda e dos Exus) investimos bem alto. Estávamos com 99% dos equipamentos comprados, mas a exsócia dele estava travando tudo o que podia para não realizarmos a inauguração, dificultando em todos os caminhos. Tudo estava tão pesado, que virávamos a madrugada com ideias aflorando e quando chegávamos ao estabelecimento de manhã, só conseguíamos ficar sentados, sem saber o que fazer. Numa dessas ocasiões, incorporei o Exu com quem eu trabalho e meu grande amigo, Exu Morcego. Ele disse que: “até a espiritualidade fica nebulosa com tanta coisa no caminho e que tomássemos uma providência urgente procurando o meu Campo de Força.” 45 Fizemos uma loucura de viajar de surpresa para Minas Gerais. Chegando lá, estavam realizando uma gira fechada de Exu, com o Chefe Exu Veludo dando consultas para duas pessoas. Ao chegarmos fomos encaixados. Ao pegar a planta do local, esse maravilhoso Exu conselheiro realizou um trabalho para abrir caminhos. Passamos a noite toda lá e regressamos de madrugada. Mal chegando a São Paulo, metade das coisas estavam sendo encaminhadas. Até a ex-sócia que estava tão apática, resolveu colaborar. LAROYÊ Sr. Exu Veludo! Minha Visão sobre Exu Senhores da sabedoria, espelhos dos seus médiuns, respeitáveis e notórios. Humildes e astutos sabem interagir tanto com cultos como com simplórios. Ensinam a vida, tanto no amor como na dor. Não gostam de repetir a mesma “bronca” na mesma pessoa. Não se importam quando falta o Charuto ou seu Marafo, mas se irritam quando o médium a quem tanto prezam, começa a se desviar do caminho que lhe foi confiado. Apresentam-se de variadas formas, em variados lugares. Adoram uma bela prosa produtiva, mas cobram quando não é cumprida a palavra que lhes foi dada. LAROYÊ EXU,EXU É MOJUBA!!! Alguns Pontos Cantados “Foi na Porteira que eu deixei minha sentinela (bis) Deixei todos os Exus tomando conta da cancela (bis) Foi na Porteira que eu deixei minha sentinela (bis) “Deixei... tomando conta da cancela (bis)” “Eu amei alguém, mas esse alguém não ama ninguém (bis) Eu amei o Sol, eu amei a Lua, Na Encruzilhada, eu amei Seu Tranca-Rua (bis).” Ponto de Morcego google imagens

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“Olhei para o céu e vi a Lua surgir, Ele vem da Encruza e logo vai chegar aqui (bis), Exu Morcego é quem me guia nos caminhos em que eu andar (bis)”

- Referência do autor ao Terreiro onde se iniciou.

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Agradeço primeiramente ao meu grande companheiro de guerra, Sr. Exu Morcego, por sempre me guiar, chamando minha atenção quando estou me desviando, me dando forças e orientações nas minhas decisões. Agradeço ao meu Exu das Sete Cruzes, que estou aprendendo a conhecer. Agradeço ao meu Exu Mirim, Faísca, que aos poucos foi tomando um espaço enorme na minha vida. Agradeço à Senhora Padilha do Cruzeiro das Almas, ao grande Exu Veludo, ao Sr. Exu CapaPreta, ao Sr. Exu Pimenta e à Senhora Pombagira da Praia!

Esperamos que nossas escritas do Ayê, possam ter permitido a você, conhecer mais Exu. Para saudá-lo mais uma vez, trazemos um poema de Mário Cravo Junior.

“ Não sou preto, branco ou vermelho; Tenho as cores e formas que quiser. Não sou diabo nem santo, sou Exu! Mando e desmando, traço e risco, faço e desfaço. Estou e não vou. Tiro e não dou. Sou Exu! Passo e cruzo. Traço, misturo e arrasto o pé. Sou reboliço e alegria. Rodo, tiro e boto; jogo e faço fé. Sou nuvem, vento e poeira. Quando quero, homem e mulher. Sou das praias e da maré. Ocupo todos os cantos; Sou menino, avô, maluco até. Posso ser João, Maria ou José. Sou o ponto do cruzamento. Durmo acordado e ronco falando. Corro, grito e pulo. Faço filho assobiando. Sou argamassa, de sonho, carne e areia. Sou a gente sem bandeira. O espeto, meu bastão. O assento? O vento! … Sou do mundo, nem do campo, nem da cidade. Não tenho idade. Recebo e respondo pelas pontas, pelos chifres da Nação. Sou Exu. Sou agito, vida, ação. Sou os cornos da lua nova; a barriga da lua cheia!… Quer mais? Não dou, não tô mais aqui”.

climazzentotal.blogspot.com.br

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Cópias deste trabalho literário poderão ser retiradas gratuitamente junto ao endereço eletrônico: http://umbandalivre.forumeiros.com/

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Exu na Umbanda