o h c A DIGNO
06_ANO2_2015
Crédito: Márcio Liolly
EDITORIAL N
a vida é preciso fazer escolhas e saber que cada atitude terá uma consequência. Desde o início, setembro de 2014, percebemos que a revista eletrônica Acho Digno seria o nosso projeto de vida e apostamos na ideia. Porém, há vários obstáculos no caminho que é necessário aprender a pular para dar continuidade ao trabalho e ao sonho. Depois de uma pausa, no início do ano para reflexão, voltamos com mais garra e sede de informação e compartilhamento de conhecimento. Eis que chegamos a nossa sexta edição falando sobre nós, nossos trabalhos, nossos desejos e profissões. Em meio ao carnaval, atmosfera de festa, cores, transformações de corpos, genocídio de uma população, bala perdida que nunca erra os nossos corpos negros, estamos aqui sobrevivendo, porém uma questão fica no pensamento: Não queremos apenas sobreviver. Queremos viver com dignidade e respeito, e conseguir acreditar que existe o belo, por trás disso tudo, de estar vivo. Vamos ocupar os múltiplos espaços, apostar na revolução de gênero. Nessa pegada, produzimos com o fotógrafo Leo Ornelas o editorial de moda “meu corpo em processo”, um ensaio fotográfico que pretendemos mostrar uma libertação da opressão das expectativas baseadas nesse modelo de gêneros em que ninguém se encaixa. Simone de Beauvoir dizia: “não se nasce mulher, torna-se mulher” e quem se torna mulher não é necessariamente uma fêmea. Sabemos que nossos corpos importam, mas também sabemos que nossos corpos não são nosso destino. Um espaço para transcender a materialidade em que vivemos. Aproveitamos esse espaço para falar da chacina do Cabula, bairro de Salvador/Bahia/Braisl, onde 13 jo-
vens negros tiveram suas vidas brutalmente fuziladas por policiais e voltamos ao debate onde nossos corpos negros historicamente são linchados, vendidos e estuprados por um sistema racista que nos aquilina a cada instante. É chegada a hora do basta! No meio desse turbilhão, existem pessoas produzindo e atuando no mercado de trabalho. Por exemplo, na nossa Conversa Fiada a jornalista gaúcha Isabel Clavelin nos conta um pouco sobre a sua trajetória profissional. Há muitas coisas boas nessas páginas. A dica é folhear devagar e degustar, sem moderação, de cada palavra, suspiro e pensamento dos escritos que aqui podem ser encontrados. Vida Longa para nossa revista eletrônica Acho Digno. Boa Leitura!
EXPEDIENTE CONSELHO EDITORIAL: Camila de Moraes e Elisia Santos COLUNISTAS: Arivaldo Souza, Daniel dos Santos, Elisia Santos, Emanuelle Góes, Karla Meura, Lucas Carmo, Malizi Fontoura Gonçalves, Vera Lopes REVISÃO: Vera Lopes
SUMÁRIO
Editorial de Moda Meu Corpo em Processo
Arquivo Pessoal
O fotógrafo Leo Ornelas (esquerda) realizou esse ensaio fotográfico para a sexta edição da revista para que possamos dialogarmos sobre nossos corpos, nossa posição, nosso destino.
Crédito: Leo Ornelas
Modelo: Àlex Ígbó (direita)
Página 10 Arquivo Pessoal
Conversa Fiada e Quem Faz a Comunicação com a jornalista gaúcha Isabel Clavelin (foto) Página 6
Arquivo Pessoal
Poesia
* Emanuelle Góes, Enfermeira - Mestra em Enfermagem. Doutoranda em Saúde Pública. Coordenadora de Saúde do Odara Instituto da Mulher Negra
Pressagio É chegado o fim Mãe que chora Mãe que chora Abatido o filho de Ogun Tombado o filho de Ogun Me partiram em 13 No caminho ancestral me recomponho Me partiram em 13 Mas em mim ficou a memoria Que eu sou nós Sou mãe sou criança sou vó sou negra
Arquivo Pessoal
Opinião
No início do ano tudo foi uma mistura de
preparação e expectativa: carnaval, festa de Iemanjá, premiação do Oscar e é claro a nova edição da Acho Digno! Sem presunção é muita informação para um começo de ano. E pensar que quase tudo são cores e flores e para nós tudo foi de salto alto e voz grossa. Tudo foi diferente para nós, ele é ela, ela é ele, e eu? Não sei exatamente vou encontrar este caminho neste processo. É importante frisar que o preconceito é conceito pré-concebido por pessoas imaturas e despreparadas para a vida, nem toda mangueira precisa dar manga rosa para ser mangueira, acostumem-se com os novos homens e mulheres e com as identidades destas pessoas e respeitem para serem olhados. Sexualidade, gênero, transexuais, franjas, e muito mais nesta edição, confira tudo e nos mande sua opinião, queremos vocês leitores na nossa revista. Fique em paz!
Malizi Fontoura e seu bate papo
O
Malizi Fontoura Gonçalves Acadêmica em Designer de Moda – SENAC/RS Arquivo Pessoal
lá! Leitoras e leitores da revista eletrônica Acho Digno. Divido com vocês um bate-papo com Vanessa Bayo, estudante de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do coletivo OLUCHI: a arte dos turbantes - uma ação de resistência, resiliência e reconciliação. A proposta inicial do grupo inclui a realização de oficinas de turbantes, com objetivo de dialogar sobre questões ligadas à negritude, visando ao empoderamento das mulheres negras, a partir de nossa cultura milenar. Vanessa Bayo falou sobre seu primeiro contato com o turbante, a formação do coletivo e seu pensamento sobre o turbante estar na moda. Perguntei a ela onde foi seu primeiro contato com o turbante. Vanessa respondeu que foi em um terreiro frequentado por sua mãe, Ilva da Conceição Rodrigues. Soube que o turbante era símbolo ligado à fé, força e proteção. A partir de 2013 participou de oficinas sobre o tema e constatou a forte relação entre a mulher negra e o adorno.
“Eu me gostava de turbante, pois me sentia mais empoderada”, relata Vanessa. Continuou a frequentar eventos para aprender cada vez mais. E, em uma oficina regida pela Yalorixá Sandrali Campos Bueno, conheceu mais a respeito da religiosidade de origem africana e o turbante, que tem, entre outras funções, a de proteção do ori (cabeça). Ao ministrar uma oficina no lançamento da MARCHA DAS MULHERES NEGRAS – CONTRA A VIOLÊNCIA E DISCRIMINAÇÃO, PELO BEM VIVER, no Rio Grande do Sul, realizada em 25 de julho de 2014, Vanessa referiu que, a partir daí, aflorou o interesse de grupos em fazer uma ação para mulheres, utilizando a confecção de turbantes. Ela identifica a necessidade de montar um grupo de jovens mulheres com vontade de trabalhar questões da negritude e assim surgiu a OLUCHI: a arte dos turbantes - uma ação de resistência, resiliência e reconciliação. Além dela fazem parte do coletivo: Fabi Machado, Camila Ribeiro da Silva e Malizi Gonçalves. Quando questionada sobre o turbante estar na moda, Vanessa afirmou que não se opõe, mas gostaria que as pessoas usassem turbantes conhecendo a sua história. Sabendo o que ele representa para milhões de pessoas negras brasileiras. O turbante integra o vestuário de religiosas de matriz africana, merecendo respeito, pois sua utilização vai além de modismos. Para ilustrar esse bate-papo, elaborei looks com alguns turbantes, adornando a beleza negra da modelo Marcia Rosa, retratada magistralmente pelo fotógrafo Laudir Dutra.
Arquivo Pessoal
Artigo Jurídico
Publicações eletrônicas e imunidade tributária *Por Arivaldo de Souza
O artigo jurídico
deste mês versa sobre a imunidade tributária de publicações eletrônicas. No Brasil, face a grande concentração de meios de comunicação nas mãos de poucos grupos empresariais, em geral familiares, o uso de publicações eletrônicas se constitui em uma alternativa para a realização da comunicação entre os segmentos invisibilizados pela grande mídia. O ponto deste artigo é a defesa de que o instituto da imunidade tributária pode beneficiar publicações eletrônicas, deste modo servindo como ferramenta de apoio para a divulgação de atividades de produção cultural, intelectual etc. e de geração de renda e criação de uma cadeia produtiva de jornalistas, fotógrafos, artistas dentre outros profissionais. O instituto da imunidade tributária é trazido no artigo 150, inciso VI, alínea “d” do texto da Constituição Brasileira: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contri buinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) VI - instituir impostos sobre: (...) d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão. Deste modo, o Direito torna publicações tributariamente imunes. Explico-me. A introdução do dispositivo que põe livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão a salvo do poder do Estado de tributar apareceu no Direito Brasileiro na Constitui-
ção de 1946, e visava impedir excessos vividos pelo Brasil sob a égide do Estado Novo. Uma interpretação histórica nos deixa ver que o bem jurídico resguardado pelo dispositivo é a livre manifestação do pensamento, e não o baixo custo das publicações. Com essa disposição constitucional, esperava-se que o Estado não continuasse a impedir a manifestação de grupos contra hegemônicos por meio de expedientes fiscais. Ocorre que, no período em que a norma ganhou status constitucional, assim como nas edições constitucionais posteriores, não imaginávamos que o advento da internet transformaria tão radicalmente a realidade editorial do Brasil, e do mundo. Logo, apesar de o conteúdo não ser expresso em meio impresso, o conteúdo continua sendo digno de proteção e, portanto, uma interpretação extensiva deve ser dada ao artigo e a consequente proteção jurídica deve ser dada às publicações eletrônicas. Há julgados que defendem tal posicionamento, assim como há julgados que defendem a tese contrária. Embora o Supremo Tribunal costume adotar teses restritivas na interpretação deste artigo para outros fins, não se pode antecipar qual seria uma eventual decisão do mesmo se instado a se manifestar sobre o assunto. Na prática, a imunidade estabelecida na Constituição é ampla, abrangendo os serviços prestados pela empresa na veiculação de anúncios e propagandas. Esperamos que revistas, a exemplo da Acho Digno, surjam, façam valer tal prerrogativa e contribuam para a construção de uma mídia que respeite a livre manifestação do pensamento, e valorize a diversidade.
*Professor, pesquisador e tradutor. Mestre em Direito pela FGV-SP Bacharel em Direito pela UFBA
Conversa Fiada
Clavelin
Fotos: Arquivo Pessoal
com Isabel
Quem Faz a Comunicação
Nessa edição, conversamos com a jornalista gaúcha Isabel Clavelin. Com tanta informação e conteúdo para ser compartilhado com tod@s @s Leitor@s, escolhemos colocar na integra a entrevista que fizemos e virar um misto Conversa Fiada com Quem Faz Comunicação. Bons ensinamentos e exemplos para nos espelharmos e seguirmos em frente. Boa Leitura!
Acho Digno: Como você chegou na área do jornalismo? Porque escolheu essa profissão? Isabel Clavelin: O jornalismo esteve presente no meu imaginário como uma profissão importante e com mulheres independentes. Quando menina negra, nos anos 1980, fui influenciada positivamente pela imagem de algumas mulheres negras, tais como Glória Maria, Julieta Amaral e Dulcinéia Novaes, que tornavam essa profissão viável do ponto de vista da representação e da projeção. No atual ensino médio, fiz técnico em Contabilidade por conta da pressão de ingressar no mundo do trabalho devido à máxima de que Comunicação não dá dinheiro nem garante es-
tabilidade profissional. Durante dois anos, trabalhei como contabilista num escritório, o que fez crescer o desejo de corrigir o caminho na direção do que eu realmente queria. Na época do vestibular, fiz teste vocacional e reconheci habilidades pessoais no jornalismo. Logo no início da faculdade, percebi que estava na rota certa. Aliás, a universidade foi um mundo novo para mim sobretudo na organização política contra o racismo. Estudei na Unisinos, na região metropolitana de Porto Alegre. O deslocamento até a universidade e a própria organização do campus dava condições para que a gente circulasse e se falasse. Era uma sensação muito boa ver estudantes negras e negros na Comunicação, no Direito, na Nutrição, nas Engenharias, na Enfermagem, na TI, entre outros. Diante do racismo sulista, o qual valoriza a todo o momento o ethos branco, o sentimento de associação racial é muito forte. Logo, aquela presença negra era política e proporcionava empoderamento e reflexão sobre a nossa condição de ser negra e negro. A partir dali, percebi oportunidades de associar o jornalismo
Isabel Clavelin com Angela Davis
à questão racial negra, o que me fez desenvolver projeto experimental em rádio, dialogar com estudantes negras e negros de outros cursos da Unisinos sobre racismo, o que me estimulou a ir para a pesquisa científica e a participar de reuniões do movimento negro. Da rede de jovens negras e negros fui sendo aproximada da militância negra - Vera Lopes, Oliveira Silveira, Eliane Gonçalves, Maria Conceição Lopes Fontoura, Elaine Oliveira, Cecune, Írohín e ACMUN – a qual colaborou fundamentalmente para novos entendimentos sobre o racismo e a politização de minha identidade, influenciando até a minha atuação profissional. Acho Digno: Quais são os desafios da área da comunicação social? Isabel Clavelin: O desafio é alterar a política de comunicação brasileira que viabiliza um sistema concentrado e privado de mídia e incide sobre os conteúdos produzidos e a organização do mercado de comunicação. Muita gente pensa que as emissoras de TV, rádio, internet e impressos se fizeram pela competitividade e competência e que novas iniciativas são inviáveis. Esse é o discurso que novos projetos – como a Acho Digno – recebem quando apresentados a eventuais patrocinadores. A atividade de imprensa neste país teria se iniciado em 1808, mas há registro de marcos anteriores, as quais foram inviabilizadas pelo poder político. Vinte e cinco anos depois do chamando início da imprensa brasileira, temos o marco da imprensa negra, o jornal O Ho-
mem de Cor, editado por Francisco de Paulo Brito, dono de editora responsável pela produção de obras de Machado de Assis, Casemiro de Abreu, entre outros. Comunicar significa articular e influir na circulação de discursos, ou seja, a maneira como os acontecimentos ocorrem, quem os organiza, o que deve ser feito e o que não é aceito, dito ou visível. Percebendo isso, o povo negro se organizou para ter acesso, controlar e produzir uma cadeia discursiva que se contrapusesse ao discurso oficial de manutenção do racismo. Se tudo isso foi possível em 1831, imagine hoje? Lanço essa pergunta porque hoje temos ferramentas e plataformas que nos possibilitam mais autonomia na disseminação de conteúdos. Penso que é preciso crítica para identificar e reconhecer o que precisa ser mudado, ousadia para colocar os projetos em ação e investimentos para dar conta desses projetos. Temos dois dos três ingredientes e precisamos tencionar para que os recursos sejam canalizados para essas ações. Acho Digno: Quanto tempo atua na área? Isabel Clavelin: Meu primeiro estágio foi como radioescuta no Departamento de Rádio do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho logo que entrei na faculdade em 1998. A vaga que consegui era para o turno noturno e agarrei a chance que tinha. Diplomei-me em 2003, na Unisinos, e desde então atuo como jornalista profissional, registrada no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul onde integro o Núcleo de Jornalistas Afrobrasileiros. Minha carreira está baseada na assessoria de imprensa e de comunicação há 11 anos. E começo a dar novos passos na profissão. Há três anos, iniciei a carreira docente como professora universitária e, há seis anos, dedico-me a pesquisas em jornalismo na pós-graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília por meio dos cursos de mestrado e doutorado, tendo como objetivo de estudo as questões raciais. Acho Digno: Onde trabalha atualmente e por quais locais já trabalhou? Isabel Clavelin: Atualmente, sou assessora de Comunicação da ONU Mulheres Brasil. Um trabalho
que me enche de satisfação pelas possibilidades de criação e parcerias cada vez mais raras no “batidão” das assessorias de comunicação. Também trabalho como professora na Universidade Católica de Brasília, onde leciono, há três anos, as disciplinas de Ética e Legislação em Comunicação e Políticas e Sistemas em Comunicação para os cursos de Jornalismo e Publicidade e Metodologias de Pesquisa e Diversidade e Inclusão para o curso de Serviço Social. Esse é um trabalho impressionante. A cada semestre, são cerca de 120 a 150 alunas e alunos que passam por cada docente. É um trabalho desafiador e que me proporciona muita satisfação de poder levar para a sala de aula as questões que vivencio no trabalho profissional, na militância negra e na pesquisa – estou trabalhando numa tese de doutorado sobre as relações raciais e de gênero no jornalismo como profissão na Universidade de Brasília. Fui estagiária do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, da Prefeitura de Porto Alegre e do Jornal do Comércio. Trabalhei como repórter temporária da Prefeitura de Porto Alegre e assessora de comunicação na Associação Cultural de Mulheres Negras. Fui colaboradora da imprensa negra em experiências marcantes para a minha trajetória profissional e desenvolvimento pessoal, a exemplo do Ìrohin; revista Eparrei, da Casa da Mulher Negra de Santos; revista Conexão Negra e Jornal Como É – estas últimas publicações
vinculadas ao Cecune, de Porto Alegre. Há dez anos moro em Brasília, onde trabalhei como assessora de comunicação por quatro anos na Seppir, três anos na Secretaria de Políticas para as Mulheres e três anos no UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher). Acho Digno: O que pode ser feito com a comunicação? Isabel Clavelin: Por si só, a comunicação oferece oportunidades muito amplas de atuação profissional pela sua própria natureza de criar, informar, divulgar, revelar, agregar e disputar. Pessoalmente tenho tido oportunidades de vivenciar pontos distintos da comunicação – assessoramento de dirigentes e instituições nacionais e internacionais, envolvimento em projetos de comunicação política vinculados aos movimentos negro e de mulheres negras, pesquisa e docência. Do ponto de vista político, urge desenvolver a comunicação deste país para além dos negócios que estão estruturados e reiteram posições de poder. Temos grupos de comunicação importantes, mas que não dão conta do que é a comunicação por definição: livre circulação de conteúdos, ideias, posicionamentos, fontes, linguagens. A comunicação não se limita somente em ser a favor ou contra. Por exemplo, a questão agrária não se resume em agronegócio ou sem-terras. O Brasil tem populações quilombolas, in-
dígenas, extrativistas, ribeirinhas, propriedades familiares, entre outras. Chamou-me a atenção, há alguns anos, a virada estratégica do El País, jornal hispânico, para a produção de conteúdos em Português. Ou seja, perceberam nichos importantes de audiência no Brasil dentre os lusófonos num momento em que as redações enxugaram e fazem um jornalismo mais aberto do que vemos em muitas publicações brasileiras. Outra questão é o potencial de desenvolvimento de negócios de médio e pequeno porte para que a comunicação se realize por excelência com o propósito de que as pessoas possam ser informadas e se posicionar sobre questões que têm influência nas suas vidas do ponto de vista político, econômico e social e não apenas do entretenimento. Isso é viável com o acionamento de anunciantes de médio e pequeno porte que poderiam dar sustentabilidade a projetos de comunicação condizentes com o tamanho deste país. O potencial de comunicação no Brasil é explorado de forma acanhada, considerando a população de 202 milhões de habitantes, 27 unidades federativas e mais de 5.600 municípios. Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, esta por conta da pauta política, ditam os fatos e os acontecimentos deste país. Logo, sabemos mais da zona Sul do Rio de Janeiro do que acontece em Natal, Macapá, Florianópolis, haja vista
o Movimento Passe Livre que surpreendeu o país, em 2013, e que tinha mobilizações em várias capitais há anos. É uma desinformação tremenda sobre o que ocorre nas outras localidades. Isso atinge em cheio a democracia e o direito humano à comunicação, além de desperdiçar talentos que poderiam ser absorvidos em negócios distintos. Outro ponto é a maneira como os sistemas público e comunitário são percebidos, os quais não dispõem da mesma vontade política, econômica e social para se desenvolver. Além disso, entendo como necessárias às regulamentações para as mídias eletrônicas e digitais e a publicidade. Os avanços que temos tido são decorrentes da pressão social. E, ainda, as questões decorrentes das mudanças tecnológicas na comunicação que afetam condições de trabalho de profissionais, especialmente jornalistas, com situações de vantagens, a exemplo de outras possibilidades de atuação, e desvantagens, tais como desemprego, precariedade nas condições de trabalho e assistência, jornadas excessivas, sobreposição de funções e tarefas e desmobilização da categoria, o que prejudica a melhoria da profissão. Em síntese, há muito o que fazer na comunicação brasileira e isso requer a atenção e o envolvimento real de profissionais, sociedade, grupos e empresas de comunicação, poder público e universidades.
Cinema
“Oh, meu Deus! É meu filho?! Está melhor do que a mãe!” Arquivo Pessoal
* Por Lucas Carmo
A
reação da mãe do artista, cosmetologista e paisagista Carl Glorioso, 26, a.k.a. Victoria de Paula expressa o sonho de todo artista transformista, não simplesmente ser uma mulher, mas ser a mulher.
É disso que trata o documentário Pageant, de 2008, dirigido e produzido por Ron Davis e Stewart Halperns. O longa acompanha a trajetória de várias concorrentes do trigésimo quarto concurso Miss Gay América, nos Estados Unidos, trazendo detalhes sobre suas histórias de vida e um pouco dos bastidores do que é ser um artista transgênero. Sobre os bastidores, para Martin, 35, a.k.a. Shantel Rashae, o concurso é uma chance de mostrar que mesmo aqueles que não servem aos moldes podem deixar a sua marca no mundo. E ele prova que isso não é tão fácil: ao longo do documentário dá pra ver muita produção, muito dinheiro, tempo e dedicação investidos em maquiagens multicoloridas, perucas de tecnologia avançada e vestidos dos teci-
dos mais fechativos. A variedade de estilos presentes combina com a variedade de estilos de vida, o que demonstra que não há fator social, etário ou econômico envolvido em ser drag queen, são homens jovens, velhos, solteiros, casados, gordos, magros, com rostos femininos ou não. Tudo está no talento e na vontade de expressar o que lhes vem de dentro. O Miss Gay América é um dos maiores concursos de drag queens do mundo. Desde 1972, seu lema tem sido “um símbolo de excelência”, e essa são palavras mais que adequadas para descrever a quantidade e a qualidade dos critérios utilizados no concurso. Não basta parecer bonita. É um dos poucos concursos do gênero que não permite que os participantes usem
hormônios femininos. A sincronia dos lábios, da expressão corporal e da emoção com a música nas performances precisa estar impecável. Todas querem estar ali e receber a coroa, é a chance de cada uma de continuar uma tradição e fazer valer expor sua subjetividade codificada em arte. Vale a pena conferir esse e outros materiais sobre o tema!" *Estudante de Psicologia na Universidade Federal da Bahia. Trabalha com pesquisa sobre auto estima e imagem corporal em adolescentes e atua junto ao CRP-Ba no Grupo de Trabalho em Politicas Publicas com Diversidade Sexual e Combate à Homofobia
Editorial de Moda
Meu corpo em processo Bárbara Rowland Shannel, ou simplesmente Babi, a Travesti. A personagem encarnada no editorial surgiu da fuga do inevitável, das díades que perpassam a existência humana - o bem e o mal, a vida e a morte, a verdade e a mentira... A Venus Azul atualiza o arquétipo da deusa Afrodite através da mulher baiana, questionando padrões de corpos e cores.
Frida Costa: "Eu sou isso, horas depois, sou outra coisa."
Àlex Ígbó, 28 anos, é estudante do Curso de Licenciatura em Desenho e Plástica pela Ufba, além de ser artista visual, design e educador. Atualmente faz intervenção urbana usando lambe-lambe (técnica artística), no qual leva para as ruas questionamentos sobre gênero, sexualidade, política e raça. “Dentro da minha vivência artística, a Arte não será sublime. Ela será simplesmente um coquetel molotov.”
Literatura
Réquiem Para Heleno: Nossos Ossos, de Marcelino Freire
Arquivo Pessoal
*Por Daniel dos Santos (DanDan)
L
er os contos de Marcelino Freire sempre foi um exercício de vertigem para mim. Conheci a obra desse escritor pernambucano através de uma entrevista antiga do ator e cantor Lirinha (ex Cordel do Fogo Encantado) à revista Caros Amigos, na qual citava o Marcelino entre seus autores preferidos, rejeitando sempre literatura estrangeira por não confiar em traduções. Costumo dizer que Pernambuco é uma das grandes usinas de arte do Brasil, e Marcelino Freire é um de seus operários. O primeiro texto que li de Marcelino foi “Trabalhadores do Brasil”, o primeiro conto que abre o livro Contos Negreiros, que acredito que seja seu livro
mais conhecido. Na época li o conto inúmeras vezes, e aquela imagem de Ossain fazendo sexo oral anal no Pelourinho ficava girando em minha cabeça. Arte pernambucana é assim: ou lhe choca ou lhe deixa em vertigem, e é esse o tipo de arte que eu costumo consumir. Uma estética do mormaço. Nossos Ossos é o primeiro romance de Marcelino, após vários livros de contos: uma sequência violenta de atos vingativos, como ele costuma caracterizar sua obra. A tragédia homofóbica do assassinato de um michê sem nome se confunde com narrativas autobiográficas, amarradas com sangue, mistério e homoerotismo pelo personagem Heleno, um dramaturgo que tenta resgatar o corpo de seu amante e leva-lo de volta para sua família que vive no Poço do Boi, interior de Pernambuco. Nossos Ossos é um livro para corações pulsantes, para quem não vira a página das manchetes de assassinatos de LGBT’s enquanto lê o jornal do dia.
*Mestrando em Cultura e Sociedade Universidade Federal da Bahia. Licenciado em História Universidade do Estado da Bahia. Membro Fundador e Pesquisador Residente Núcleo Interdisciplinar de Estudos Africanos e Afrobrasileiros (AFROUNEB)
Ponto de Vista
Já é carnaval cidade, mais uma matança está aê... * Por Vera Lopes
“de
Atriz Vera Lopes no Sarau Bem Black contando nos dedos as mortes dos jovens negros do bairro do Cabulo em Salvador, Bahia, Brasil
vida, o esguichar do sangue de mais uma matança de jovens e homens negros, em um bairro periférico de Salvador. Era madrugada, falaram que tinha por volta de 30 homens fortemente armados, se preparando para assaltar um banco... a polícia chega, e, depois de uma intensa troca de tiros, apresenta o resultado, 13 “bandidos” mortos, um policial ferido de raspão, duas armas velhas, cocaína e maconha... Ao olharmos as imagens dos 13 “bandidos” mortos, podemos ver os corpos de jovens homens negros, a maioria de bermudas, alguns sem camisa, magros, corpos alvos, sem direito à lei, a comoção da sociedade, a dor do seus. São apenas corpos negros, que por serem negros, pobres, “bandidos”, podem serem mortos, sem causar qualquer sentimento de solidariedade, nem mesmo naqueles e naquelas que em suas religiões cristãs professam a defesa da vida, que no seu dia a dia se comovem diante dos seus filhos, filhas, netos, netas. Corpos negros pobres, corpo de “bandido” não comove, pode ser alvejado, na madru-
hoje a oito” nome de um bloco que desfila pelas ruas do bairro Santo Antonio, oito dias antes de iniciar, oficialmente, o carnaval de baiano. Carnaval em Salvador, para muitos o mais democrático do Brasil, chegando alguns “olhos azuis” afirmarem que aqui é o lugar onde todos brincam sem qualquer distinção, que confirmem tal afirmação os/ as “cordeiros/cordeiras”... Pois então, foi neste tempo espaço “de hoje a oito”, que no dia 06 de fevereiro de 2015, recebermos nos peitos, na cara, na mente, na
gada, em bairro periférico, lugar de pobre, de preto, portanto, para muitos, lugar de bandido. Aliás, essa denominação: bandido, se for pobre e preto, retira do ser a condição de humanidade, pode ser vilipendiado, pois bandido, não tem mãe, não tem pai, não tem família, não tem lugar... Só que esses 13 bandidos, são tão parecidos com meu pai, meus irmãos, meu filho, meu neto... basta colocarem uma bermuda, tirarem a camisa e se perderem em uma madrugada qualquer, imediatamente virarão corponegroalvo, portanto bandido, digno ser morto pelo Estado, e, estamos no Estado Democrático de Direitos, Brasil, a sua mercê. E, já é carnaval cidade, mais uma matança está aê...
* Atriz e bacharel em Direito pelo Centro Universitário Metodista do Sul - IPA
Cultura
Carnaval em Porto Alegre 2015
Crédito: Karla Meura
*Por Karla Meura
O
Carnaval de Porto Alegre surgiu nos bairros Areal da Baronesa e Colônia Africana. O primeiro assim chamado por ser na beira do rio, e tem esse nome por antigamente pertencer a Baronesa de Gravataí, e o segundo pelo numero de negros que ali fixou residência. Ambos foram locais onde a comunidade africana passou a morar após a abolição da escravatura. ("Fragmentos Históricos do Carnaval de Porto Alegre") Contemporaneamente o modelo principal do Carnaval de Porto Alegrense se dá através do Campeonato de Escolas de Samba, onde cada entidade apresenta na pista de eventos os trabalhos elaborados ao longo do ano. O Desfile acontece no Complexo Cultural do Porto Seco. Esta modalidade do espetáculo é composta por 23 Escolas de Samba que concorrem em 3 grupos: Grupo Especial, composto por 10 Escolas que desfilam nas noites de sexta-feira e sábado que antecedem o
carnaval; Grupo “Intermediário A”, composto por 7 Escolas que desfilam no sábado que antecede o Carnaval; e Grupo de “Acesso”, que possui 6 Escolas que desfilam no domingo de Carnaval. No carnaval de 2015, após uma disputa acirrada, a Imperadores do Samba sagrou-se bicampeã no Carnaval de Porto Alegre. A escola, que levou para a avenida elementos opostos, polaridades e rivalidades, com o tema enredo “A Magia dos Opostos”. Terceira escola a desfilar no Complexo Cultural do Porto Seco, na madrugada de domingo, a Imperadores retratou o homem e mulher, sagrado e profano, leve e pesado, dia e noite, bem e mal, passado e futuro, tragédia e comédia. O enredo do carnavalesco Silvio de Oliveira, teve como destaque a homenagem da Imperadores à sua maior rival, a Bambas da Orgia. A Escola – A Imperadores do Samba foi fundada em 19 de janeiro de 1959 na rua Joaquim Nabuco, no bairro Cidade Baixa. Suas cores são o vermelho e o branco e seu símbolo são dois leões africanos que guardam a coroa imperial. É a segunda escola com mais títulos do Carnaval do Grupo Especial da capital gaúcha, foi campeã 17 vezes. O segundo lugar ficou com a Embaixadores do Ritmo, que surpreendeu com um luxuoso desfile na Avenida. A escola Copacabana foi a última classificada no Grupo Especial, sendo rebaixada para o Grupo Intermediário A.
Os Blocos
Outro tipo de manifestação é o Carnaval de Rua de Porto Alegre. É uma festa popular, gratuita e a céu aberto que mais cresce na cidade. Este ano cerca de 300 mil foliões participaram da festa e superou, positivamente, qualquer previsão. Destaca-se a espontaneidade dos foliões que saem às ruas fantasiados, irreverentes e alegres, fortalecendo a tradição que toma conta das ruas da cidade. Contribuem com a festa Grupos antigos da cultura negra, como Satélite Prontidão – Clube Negro de Porto Alegre, Areal do Futuro – formada pela comunidade quilombola Areal da Baronesa, e o Bloco da Rua do Perdão – idealizado por militantes do Movimento Negro. Os desfiles dos blocos carnavalescos acontecem na Cidade Baixa, bairro boêmio de Porto Alegre, entre
os dias 31 de janeiro a 15 de março com uma programação organizada com o apoio da Prefeitura.
As Tribos
*Advogada formada pelo Centro Universitário Metodista do Sul - IPA Arquivo Pessoal
Outra característica única do carnaval de Porto Alegre são as tribos carnavalescas. As tribos tiveram grande destaque na década de 1950, quando equiparavam-se numericamente com as escolas de samba. Algumas delas eram: Os Arachaneses, Os Aymorés, Os Bororós, Os Caetés, Os Charruas, Os Navajos, Os Potiguares, Os Tapajós, Os Tapuias, Os Tupinambas, Os Xavantes, entre outras. As Tribos Carnavalescas possuem importante papel na tradição cultural da cidade. O visual apresentado nos desfiles revela interesse pela pesquisa, adequação tanto às histórias reais relacionadas com lendas indígenas e, acima de tudo, profissionalismo como requisito essencial ao Carnaval.. Embora careça de maior número de componentes, o desfile das Tribos Carnavalescas representa a tradição do Carnaval
“indígena” de Porto Alegre. Contudo, pondera-se que a crescente influência do carnaval espetáculo realizado pelas Escolas de Samba contribuiu para o desaparecendo das tribos, restando hoje apenas duas: Os Comanches e Guaianazes.
O SeU EsTiLo S
e arrumar é mostrar personalidade, é ousar e abusar do corpo que tens e potencializar o que tens de mais bonito. Se vestir bem é ter consciência das curvas sinuosas e retas e percorrê-la devagar e sem pressa de acertar. Das dicas para esta edição a primeira será franjas e onde e como usá-las? As franjas foram tendência em 1920 e algumas marcas famosas decidiram voltar com elas e tiveram muito êxito, contudo: Cuidado! Franja é igual à pluma em excesso não fica bonito e não combina com look algum. Elas combinam mais com inverno, pois solidifica a roupa e da uma sensação de encorpado e volume. A matéria- prima normalmente é couro e camurça, é um charme ideal para bolsas e sapatos, todavia blusas ou vestidos com franjas longas ficam belíssimas.
Fotos: Reprodução da Internet
* Por Elisia Santos
A segunda e última dica é o uso do amarelo em qualquer estação, desta vez ele será a peça coringa do armário que todo mundo precisa ter. Amarelo é uma cor aberta que ilumina o visual e potencializa a beleza negra de todos os tamanhos.
Dica do Salão
Coloração dos Cabelos Q
Fotos: Reprodução da Internet
uando pensamos em colorir os cabelos procuramos ir ao profissional ou ir comprar na loja mais próxima ou farmácia? Estamos realmente preocupados com os tipos de coloração que colocamos no cabelo e se depois hidratamos? Muitas pessoas infelizmente acreditam que tudo que se coloca no cabelo é tarefa fácil e qualquer pessoa poderá fazer. A primeira coisa que precisamos ter consciência é que se tratando de coloração ou tonalização dos cabelos o ideal é procurar um profissional habilitado paratal procedimento, pois, estamos falando em mudança química da cor dos cabelos, a qual requer conhecimentos específicos. Quando desejar colorir observe seu tom de pele, seus olhos e sua identidade. Nada de reproduzir que mulheres negras não pintam o cabelo de vermelho
ou loiro, sigamos nossos ideais e nossas vontades de contradizer o sistema racista que nos excluem de ter os gostos e sonhos de cabelos arco-íris. Cuidados indispensáveis: observe se a coloração contém complexos vitamínicos, a concentração de amônia deve ser mínima, busque hidratar, ao menos, nas três semanas seguintes para manter o cabelo com cutículas fechadas e com brilho. Se não desejar uma coloração por um tempo maior use shampoos na cor branca, caso queira manter use shampoos de camomila, vermelho ou preto, a depender da cor do seu cabelo, e abuse de óleos de coco para fixar a cor. Algumas colorações são caras, porém, usar produtos de marca e qualidade duvidosas é perigoso para pele e couro cabeludo, o profissional saberá indicar qual a melhor marca, bem como, as mais acessíveis. Usem e abusem da criatividade pintem de vermelho:
Abusem do loiro:
E porque não azul? As mudanças devem vir de dentro, sem imposições ou traumas, todavia se faz necessário investir em tonalidades para além do preto e do castanho. Por conta disso, pesquise bem a cor desejada, o profissional e como será a nutrição dos fios.
*Elisia Santos Socióloga e cabalereira