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editorial
A lei de Lynch e o “mensalão” A ORIGEM do “linchamento” é polêmica. Alguns atribuem ao coronel Charles Lynch, que teria adotado a prática em 1782 contra os colaboradores dos britânicos na guerra de independência dos Estados Unidos. Outra versão atribui ao capitão William Lynch da Pensilvânia durante a revolução de 1780. Existem ainda outras versões. Trata-se do assassinato por uma multidão, sem qualquer procedimento judiciário ou legal. A imagem do linchamento vem à mente ao presenciar a intensa cobertura da mídia sobre o julgamento do chamado “mensalão” no Supremo Tribunal Federal. O “julgamento do maior crime de corrupção da história do Brasil”, “o mundo inteiro de olho no mensalão”, “sem condenação a Justiça estará desmoralizada”, “país espera que a Justiça condene todos”, “Corregedora entende que o Supremo será julgado pela opinião pública”. As manchetes concorrem no esforço em criar um clima de pressão. Juristas são entrevistados para responder perguntas como
“o senhor acha que será a desmoralização definitiva da Justiça brasileira se não houver condenação no mensalão?”, “Este será o julgamento do Supremo Tribunal Federal pela opinião pública?”, “por que a condenação tem que levar tanto tempo?”. As respostas contêm verdadeiras pérolas como “é impossível falar em absolvição por falta de provas, basta ver a quantidade de volumes do processo...”. A grande mídia utiliza todo seu poder de fogo para pressionar. O objetivo é claro, acuar os ministros do STF e criar a imagem de que uma absolvição seria a comprovação da impunidade. Se existe crime deverá ser punido. Que se julgue com base nos fatos e nas provas registradas nos autos do processo. Se há corrupção deverá ser punida. A questão é de outra natureza. Novamente assistimos a grande mídia agindo de forma compacta, como um partido político. Rede Globo, Veja, Estadão, Folha de S.Paulo... Uma mobilização tão intensa, tão espetacular, tão desproporcional que permite
O objetivo é claro, acuar os ministros do STF e criar a imagem de que uma absolvição seria a comprovação da impunidade a qualquer cidadão com alguma consciência política desconfiar das motivações deste empenho. A um desavisado pareceria que nada mais ocorre no cenário político. As relações entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e a revista Veja são a ponta do iceberg que nos permitiriam entender como funciona esse “partido político”, a quem serve e quem o patrocina. Porém é tamanha a unidade de ação na grande mídia que nenhuma linha fura o bloqueio para desven-
dar a promiscuidade entre o contraventor penal envolvido em tantas atividades ilegais e as manchetes da revista Veja. Esta sim parece ser a pista para desvendar outro escândalo, muito maior e perigoso para a nação. Se a imprensa está realmente interessada no caso do “mensalão”, se for verdade que avalia que está diante do “maior julgamento” de nosso recente século, por qual razão não demonstra o mesmo empenho em investigar e divulgar as denúncias que vinculam a “quadrilha de Carlinhos Cachoeira” com o Ministro Gilmar Mendes e o Procurador Geral Roberto Gurgel? Afinal, não é necessário conhecer técnicas jornalísticas para entender que denúncias que vinculam um acusado preso, que investigado também numa Comissão Parlamentar de Inquérito com um dos ministros que votará no “maior julgamento do século” e com o acusador, são fatos que deveriam merecer mais destaque que o namoro do Ministro Toffoli. Portanto, por mais incauto que seja o leitor, vai perceber que não há ne-
crônica
opinião Ana Maria Costa
nhum jornalismo envolvido, mas uma peça publicitária que simplesmente obedece a uma clara e definida diretriz política. A linha política foi dada por Fernando Henrique Cardoso, este sim o autor das transações mais tenebrosas de nossa história, responsável político pela inigualável fraude da privatização da Companhia Vale do Rio Doce. Em entrevista que deflagrou o espetáculo midiático, FHC pautou o atual “linchamento midiático”. Os ensinamentos do século 20 mostram a força da propaganda política. A ampliação exagerada das notícias é um dos processos jornalísticos mais utilizados para se alcançar uma finalidade política. Mas a história nos dá muitos exemplos de como os poderosos aparatos de propaganda se desmontam quando se percebe que não passam de pura manipulação. Para os bens intencionados, preocupados legitimamente em combater a corrupção, ficará ao menos a dúvida: por que a grande mídia aposta tantas fichas neste julgamento?
Luiz Ricardo Leitão
Impressões sobre Londres Gama
Saúde é Desenvolvimento O PADRÃO NACIONAL de desenvolvimento, voltado aos interesses do mercado, elege como meta o fortalecimento do consumo contribuindo para que a sociedade não seja pautada pelos direitos sociais ao mesmo tempo que esvazia as políticas sociais. Por isso, o direito universal à saúde instituído na Constituição Federal não ganhou o espaço que a sociedade brasileira espera. A reforma sanitária brasileira foi abortada e para que seja retomada é necessário atualizar a agenda política identificando seus novos objetivos e estratégias e construindo novos consensos sociais e políticos para a sua sustentação. O primeiro passo é verificar o impacto sobre a saúde do fenômeno da globalização. Regida pelo capital e pelo mercado, a globalização vem produzindo desigualdades e assimetrias além de impor um modelo de revolução tecnológica que acirra a condição de dependência e de atraso entre países, com repercussões para a saúde. O Brasil, por exemplo, enfrenta, de forma acumulada situações que alimentam, reproduzem e agravam o círculo vicioso entre dependência, atraso e iniquidade, sem nenhum sinal de mudanças significativas na política econômica do país. Em virtude disso, os objetivos “setoriais” para a saúde enfrentam barreiras intransponíveis oriundas do próprio modelo de desenvolvimento como as observadas na atual e perversa configuração dos setores público e privado. A saúde não pode ser mercadoria mas um direito incluído nos direitos sociais, como uma condição para a cidadania. É parte inerente do próprio desenvolvimento. Para isso o direito à saúde foi inserido na Constituição Federal, em um conceito amplo, como resultado da articulação e oferta de políticas econômicas e sociais para o bem estar coletivo. Ali também foi criado um sistema de atenção e de cuidado para promover e recuperar a saúde quando necessário. É o Sistema Único de Saúde, o SUS. A atual crise do sistema de atenção à saúde é resultado das contradições e rumos do desenvolvimento em curso. É imperativo àqueles que defendem o direito social universal à saúde enfrentar as contradições desse cená-
A reforma sanitária brasileira foi abortada e para que seja retomada é necessário atualizar a agenda política
rio de desenvolvimento ou serão cristalizados os limites reais que impedem o avanço do projeto da reforma sanitária. Como atrair as pessoas dos shoppings para as praças para debater sobre o projeto de desenvolvimento para acumular uma reflexão crítica sobre o nosso país? Como construir e implementar novas alternativas de transformação do Estado, adoção de outra política econômica, mudanças na política e nas atuais relações de poder da sociedade? Não existe nenhum país que possa ser considerado desenvolvido com baixa condição de saúde de sua população. A visão ampla da saúde como um direito social constitui uma premissa, inclusive ética, para a definição do desenvolvimento justo e adequado para o país. É, pois, enganoso e falacioso sustentar argumentos que vinculam o crescimento econômico às responsabilidades públicas para com a saúde e, mais ainda, para justificar as políticas universais e o gasto em saúde. Já não são mais admitidos os falsos dilemas, demasiadamente difundidos no passado, pautados por uma dimensão econômica restrita. Mas o que diferencia as agendas da saúde no campo liberal daquela pautada na defesa do direito a saúde nos moldes propostos pela reforma sanitária? Deve ser considerado que o SUS interessa a muitos setores da sociedade que dele se servem seja como comprador de insumos e tecnologias, seja como mercado de trabalho para milhões de trabalhadores que também alimentam o mercado. Há um aparente consenso em defesa do SUS, no qual mesmo os liberais defendem
saúde como “direito” e a necessidade da presença do SUS como política pública para os pobres que não podem pagar por planos privados. Para distinguir os interesses envolvidos na defesa do SUS é preciso identificar aspectos da relação entre saúde e economia e o modelo de desenvolvimento: as falhas de oferta de serviços públicos alimentando o mercado, a adoção das tecnologias de baixo custo pelo SUS que justificam o foco na atenção primária e no contexto local municipal. É o SUS de baixa qualidade, que não compete com o mercado privado da saúde, destinado aos grupos e populações de baixa renda. Entretanto a relação entre saúde e desenvolvimento não se restringe a ser um elemento constitutivo dos direitos sociais ou individuais básicos. A saúde em sua dimensão ampliada também gera um efeito indireto sobre o crescimento econômico, decorrente de sua dimensão social, o que implica na melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do ambiente geral para os investimentos. Nessa perspectiva, a justificativa do gasto como investimento se fortalece ao incorporar a saúde como fator indireto de crescimento, evitando a armadilha de restringir o debate sobre saúde e desenvolvimento à dimensão dos recursos requeridos e ao tamanho do Estado e do Mercado no provimento de bens e serviços e no financiamento. Por ser um tema complexo, o conjunto das dimensões aqui apresentado deve compor os argumentos em defesa da saúde, e em defesa do SUS como sistema de atenção à saúde. A saúde como qualidade de vida implica pensar em sua conexão estrutural com o desenvolvimento econômico, a equidade, a sustentabilidade ambiental e a mobilização política da sociedade. Assim, torna-se parte endógena de discussão de um modelo social e econômico de desenvolvimento. A agenda da saúde deve avançar para além do debate setorial e insulado para adentrar efetivamente na discussão e definição do padrão do desenvolvimento brasileiro. Ana Maria da Costa é médica e presidenta do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes).
ESTE CRONISTA não poderia ficar alheio aos Jogos Olímpicos de Londres. Um evento de tamanho porte em plena era globalizada do capital, cuja abertura foi vista por um público estimado de um bilhão de pessoas nos cinco continentes, possui enorme repercussão na mídia e insere-se de forma efetiva na surda batalha ideológica que continua a ser travada neste pequeno planeta azul. Por isso, cá estou a falar do show, sem esquecer, no entanto, que o mítico “espírito olímpico” do Barão de Coubertin há muito se desvaneceu em meio aos dólares que a indústria do espetáculo movimenta, convertendo o esporte em mais uma mercadoria do seu bilionário balcão de negócios. Neste quesito, aliás, as Olimpíadas 2012 já levaram o ouro (em todos os sentidos), reunindo empresas odiadas pelos britânicos e por vários outros povos, como a Dow (gigante da área química que provocou o desastre de Bhopal, na Índia) e a BP (petrolífera inglesa responsável pelo terrível vazamento no Golfo do México, em 2010). Isso sem falar em corporações como a VISA e a GE, além do transgênico McDonald’s e da surrada Coca-Cola, ícones destes tempos de sedentarismo e fast-food que enriquecem os bolsos de poucos e privam a humanidade de um futuro mais saudável e promissor. Mesmo ciente desse contexto tão sinistro, não me furtei a assistir à abertura da festa, concebida pelo cineasta Danny Boile (o célebre diretor de Trainspotting e Quem quer ser um milionário?). Viajando da Revolução Industrial até a cultura pop dos anos 60/70, entre os versos de Shakespeare e as canções dos Beatles, senti-me diante de um videoclipe sobre a história do Império Britânico, composto com raro brilho e competência, mas que não soube – nem quis – arguir os ideologemas liberais que a sustentam. O regresso ao mundo agrário, por exemplo, é um tema que Raimond Willians já abordou com muita lucidez. Quando as mudanças geram incertezas e as transformações afetam relações sociais e perfis urbanos, a cultura cria estratégias simbólicas e de representação, consagrando invariavelmente o velho mote da idade dourada. Assim, desde a obra de George Stuart, que apregoa a morte da Inglaterra rural entre 1907 e 1923, a nostalgia inglesa embarca em uma “esteira rolante” que retrocede até 1750, com as evocações de Goldsmith – e, sem nenhum exagero, poderia prosseguir até a Idade Média, em 1370, quando o Pedro Lavrador, de Langland, “vê a insatisfação dos camponeses, que se recusam a comer os legumes da véspera e fazem questão de carne fresca, que culpam Deus e maldizem o rei...”
Só podemos celebrar nosso pequeno universo e o passado de absurdos gloriosos Não me aborrece constatar que os compatriotas de Williams e Hobsbawm têm apreço à História. A despeito de suas lacunas, o relato cinematográfico de Boyle nos mostra que as realizações humanas não são uma dádiva do espírito celestial, mas o fruto concreto de relações sociais associadas a distintos estágios de produção, como nos ensinou aquele senhor que hoje, ironicamente, repousa em solo inglês. É pena que o diretor, ao tratar do processo de acumulação que enseja a eclosão da Revolução Industrial, não tenha mencionado o papel da Grã-Bretanha na antiga empresa colonial, nem tampouco aludido à função cumprida pelos corsários do rei, que, a soldo oficial, usurparam dos ibéricos o ouro e a prata que estes saquearam de Nuestra América durante séculos. De piratas, só tivemos direito ao pueril Capitão Gancho – os demais, pelo visto, seguem ilesos na ilha de Jersey ou em algum paraíso fiscal do Caribe... Quanto aos Jogos em si, continuam a ser um evento de enorme valor didático para todos nós. Queiram ou não, eles estimulam o debate sobre a função do esporte na sociedade e ensejam reflexões que vão muito além do chauvinismo vigente na grande mídia, em especial a de Bruzundanga, pautada por ‘sábios’ como Galvão Bueno, Luciano do Valle e outros ufanistas de plantão... Por que investir tanto na competição e abdicar do papel de formação que a atividade possui? Devemos nos orgulhar ou compadecer-nos dos atletas de elite, que abdicam de sua juventude para abarrotar os cofres das multinacionais do setor? E que lições nos reserva o cobiçado pódio olímpico, em que a presença dos países asiáticos é cada vez mais notória? Sobre o Brasil, pobre em medalhas, mas pródigo em cartolas & negócios, muito há de ser dito, mas isso já é tema para outra crônica... Por ora, pelo que se viu em Londres, só podemos celebrar nosso pequeno universo e o passado de absurdos gloriosos – as lágrimas, porém, ainda são verdadeiras... Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor associado da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto – o rebelde imprescindível.
Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Aldo Gama, Cristiano Navarro, Renato Godoy de Toledo • Subeditor: Eduardo Sales de Lima • Repórteres: Aline Scarso, Michelle Amaral, Patricia Benvenuti • Correspondentes nacionais: Joana Tavares (Belo Horizonte – MG), Pedro Carrano (Curitiba – PR), Pedro Rafael Ferreira (Brasília – DF) • Correspondentes internacionais: Achille Lollo (Roma – Itália), Baby Siqueira Abrão (Oriente Médio), Claudia Jardim (Caracas – Venezuela), Marcio Zonta (Peru) • Fotógrafos: Carlos Ruggi (Curitiba – PR), Douglas Mansur (São Paulo – SP), Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper (Rio de Janeiro – RJ), João Zinclar (Campinas – SP), Joka Madruga (Curitiba – PR), Leonardo Melgarejo (Porto Alegre – RS), Maurício Scerni (Rio de Janeiro – RJ) • Ilustradores: Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Jade Percassi • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: Folha Gráfica • Conselho Editorial: Angélica Fernandes, Alipio Freire, Altamiro Borges, Aurelio Fernandes, Bernadete Monteiro, Beto Almeida, Camila Dinat, Cleyton W. Borges, Dora Martins, Frederico Santana Rick, Igor Fuser, José Antônio Moroni, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Marcelo Goulart, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Milton Pinheiro, Neuri Rosseto, Paulo Roberto Fier, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Rosane Bertotti, Sávio Bones, Sergio Luiz Monteiro, Ulisses Kaniak, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800
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instantâneo
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Frei Betto
Dahmer
A excelência do espírito olímpico O QUE MAIS ME impressiona neste XXX Jogos Olímpicos é o congraçamento de todas as nações. Há mais países representados nesta grande festa do esporte (204) que na ONU (193). E pela primeira vez todos os comitês olímpicos nacionais enviaram atletas mulheres, inclusive Arábia Saudita, Catar e Brunei. Nos estádios londrinos são relevadas todas as diferenças e divergências políticas, econômicas, ideológicas, religiosas e étnicas. Ali 29 modalidades de 26 esportes irmanam Israel e Irã, Estados Unidos e Cuba, Coreia do Norte e Coreia do Sul. Foi na cidade grega de Olímpia que os jogos surgiram, há 4.500 anos, como um ritual religioso de homenagem aos deuses e fortalecimento da paz entre as cidades-estado. Em 392 os jogos foram proibidos pelo imperador romano Teodósio I. Séculos depois, em 1896, eles renasceram em Atenas, que sediou o I Jogos Olímpicos da era moderna. As Olimpíadas são o prenúncio de um outro mundo possível, o mundo solidário no qual a humanidade viverá como uma grande família. Em uma família as pessoas são diferentes, possuem talentos e aptidões distintos, mas todos têm os mesmos direitos e oportunidades. Assim deveriam viver os 7 bilhões deste planeta que ocupa a terceira órbita do sistema solar, e onde – dizem – há vida inteligente... Nas Olimpíadas as disputas entre os 10.500 participantes são apenas esportivas. De fato, a maior disputa é a do atleta consigo mesmo, frente ao desafio de superar as marcas vitoriosas de desempenho de sua modalidade esportiva. Nas competições não há rancor ou humilhação da parte de quem é derrotado. Há sim gáudio e ufanismo dos atletas e países que conquistam medalhas de ouro, sem que isso traga ressentimento àqueles que não sobem ao pódio. Nem tudo, entretanto, são rosas na história dos Jogos Olímpicos modernos. Em 1936, a Alemanha de Hitler sediou o evento – pela primeira vez transmitido por TV. Embora os nazistas exaltassem a superioridade de uma suposta raça ariana, foram os negros estadunidenses que conquistaram as medalhas de ouro do atletismo. Um deles, Jesse Owens, pendurou quatro no pescoço.
Roberto Malvezzi (Gogó)
Torturadores e mensalões COMEÇOU O PASTELÃO do mensalão, quando a farsa se transforma em espetáculo. Claro que os envolvidos têm que ser julgados, mas, por que só eles? Embora a grande mídia brasileira diga que corrupção leve apenas cerca de 16 bilhões de reais ao ano dos cofres públicos, a KPMG continua sustentando que o rombo está perto de 160 bilhões, algo próximo dos clássicos dez por cento que o conluio empresas e gestores públicos costumam levar do orçamento público anual. Sabemos, pela prática e pela intuição, que esse é um esquema generalizado, que atravessa todos os partidos. Por isso há também o mensalão do DEM, que envolve o PSDB e provavelmente poderia ser de todos os demais. Na lista das maiores fortunas ocultadas em paraísos fiscais os brasileiros ocupam o 4º lugar, com cerca de um trilhão de reais depositados no exterior. Seria interessante conhecer o nome dos que padecem nesses paraísos e qual a origem de tamanha fortuna. O que é a “quadrilha do mensalão” se comparada com aque-
las dos paraísos fiscais? Mais importante que o mensalão é a inclusão na Comissão da Verdade dos nomes dos trabalhadores rurais, advogados, padres, lideranças que foram mortos pelo regime militar e estavam excluídos do processo. Não se trata de razões econômicas, mas da justiça histórica a pessoas humildes que colocaram suas vidas em defesa de vidas e foram torturadas e até mortas pelo regime. Os corruptos, corruptores, torturadores, sempre ocuparam o andar de cima da pirâmide social brasileira. O pior desse momento histórico é a ambiguidade do governo Dilma no trato dos direitos humanos. Ela, uma torturada, sabe o que é não ter seus direitos individuais respeitados. Mas esperávamos que essa terrível experiência a ajudasse a respeitar os direitos coletivos dos povos e comunidades tradicionais. Que nada! O governo Dilma atropela os direitos coletivos dos povos indígenas como os torturadores atropelavam os direitos individuais daqueles que resistiram à ditadura.
Egon Heck
Mortos e desaparecidos SE A COMISSÃO Nacional da Verdade quiser mesmo levar a sério uma investigação sobre os indígenas mortos e desaparecidos, torturados e violentados em sua dignidade, terá pela frente um enorme desafio de começar fazer justiça a esse genocídio secular e atual de povos indígenas no Brasil. Essas não são apenas práticas e violências do regime ditatorial militar. São realidades vivenciadas pelos povos indígenas hoje, e em especial os Kaiowá Guarani durante quatro séculos e que perduram até os dias atuais. Embora não se possa afirmar categoricamente que os indígenas por ocasião da invasão do atual território brasileiro eram 6 milhões de pessoas, esse é uma aproximação de população que fez Darcy Ribeiro, e que nos parece ter maior consistência. O mesmo antropólogo estimou a população indígena na década
de 1960, em menos de 100 mil. Significa dizer que foram mais de cinco milhões de indígenas que desapareceram, pelos inúmeros mecanismos de extermínio e morte, desde as guerras justas até os envenenamentos e difusão de surtos de epidemias que dizimavam aldeias inteiras. Foram centenas de povos exterminados. E não é coisa do passado. Temos no Brasil mais de 70 grupos indígenas em estado de isolamento voluntário que atualmente correm sérios riscos de extermínio diante do avanço acelerado das frontes de expansão agrícola, mineral, geopolíticas... Quem sabe seria esse um momento importante para, de uma vez por todas, começar a passar a limpo a história desse país, a partir dos povos indígenas, dos negros, dos descartáveis, pelo sistema colonial e o sistema capitalista atual.
Para que as Olimpíadas do Rio não sejam apenas uma festa na terra de um povo semianalfabeto e carente de recursos A irritação de Hitler foi aplacada com a conquista, pelos esportistas alemães, do maior número de medalhas de ouro, 33. Os EUA ficaram em segundo lugar, com 24. Foi naquele ano em Berlim que se criou o ritual do cortejo da tocha olímpica. Outro momento trágico ocorreu também na Alemanha, nas Olimpíadas de 1972. A 5 de setembro, terroristas de uma organização denominada Setembro Negro invadiram a Vila Olímpica e ocuparam os dormitórios da delegação israelense. Ameaçaram executar um refém a cada hora, caso não fossem soltos 200 prisioneiros árabes dos cárceres de Israel. As competições foram suspensas no decorrer das negociações e o Comitê Olímpico Internacional (COI) chegou a cogitar o cancelamento do evento. A polícia interveio, deixando um saldo de 18 mortos, entre os quais onze reféns, cinco terroristas, um policial e um piloto de helicóptero. Bilhões de pessoas param diante de aparelhos de TV para assistir à abertura dos Jogos Olímpicos. Cada país anfitrião procura oferecer o melhor de sua arte na inauguração do evento. Os ingleses brilharam numa mistura de história, entretenimento, humor, tecnologia e música. O que mais me chamou a atenção na cerimônia de abertura foi a ênfase do sistema de saúde britânico, o National Health Service (NHS). Equivale ao nosso SUS, com a diferença de que é tido como o melhor do mundo. O Brasil abrigará, em agosto de 2016, a XXXI Olimpíada. A presidenta Dilma prometeu que a abertura dos jogos, no Rio, haverá de superar a de Londres. Teve início, portanto, a competição pelo glamour... E Dilma já fez uma sugestão de coreografia: uma escola de samba. Torço para que, em 2016, o Brasil exiba ao mundo o melhor de sua música, dança e tecnologia de efeitos especiais, mas também mostre como o nosso povo tem assegurado os três direitos fundamentais do ser humano: alimentação, saúde e educação. Para tanto é preciso, desde agora, dobrar o investimento nessas áreas. Se queremos superar Londres, não basta fazêlo na forma, mas também no conteúdo, para que as Olimpíadas do Rio não sejam apenas uma festa na terra de um povo semianalfabeto e carente de recursos para acesso às boas condições de saúde.
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fatos em foco
da Redação
Transgênicos e agrotóxicos Desde 2005, ano em que foi aprovada a Lei de Biossegurança, a área plantada com sementes geneticamente modificadas no país mais do que triplicou, passando de 9,4 milhões para 32 milhões de hectares. Entre 2005 e 2011, o consumo médio de agrotóxicos saltou de pouco mais de 7 quilos por ha para 10,1; aumento de 43,2%. Segundo dados do Sindag, sindicato que representa fabricantes de agrotóxicos, as vendas desses produtos aumentaram mais de 72% entre 2006 e 2012, de 480,1 mil para 826,7 mil toneladas. Veneno e área cultivada Esse maior uso de venenos não pode ser explicado pelo aumento da área cultivada, que no mesmo período cresceu menos de 19%, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) - considerando grãos, fibras, café e cana-de-açúcar.
Frei Betto é escritor, autor do romance Minas do ouro (Rocco), entre outros livros.
Protesto de 20 mil sem-terra Em Aracaju, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promoveu, dia 25 de julho, a maior manifestação do Movimento no Estado. Mais de 20 mil pessoas, em marcha de aproximadamente 15km, fizeram parte da ação, que teve como objetivo pressionar o governo Federal a agilizar o processo de reforma agrária em Sergipe. Atualmente existem mais de 200 acampamentos e 11 mil famílias para serem assentadas. Solidariedade a Anita Prestes Está circulando um abaixo-assinado de solidariedade à pesquisadora e militante política Anita Leocádia Prestes, devido à insinuação por parte da mídia de envolvimento dela no processo conhecido como “mensalão”. A manipulação consiste em não revelar o sobrenome e nem a fotografia de uma indiciada, chamada Anita Leocádia Pereira da Costa, para sugerir a impressão de que se
trata da professora, filha de Luiz Carlos Prestes. De acordo com o documento de apoio, “um importante portal de notícias chegou ao ponto de expor a fotografia de Anita Leocádia Prestes, ao lado de sua tia Ligia Prestes, irmã do Cavaleiro da Esperança”. Semana Social Brasileira A equipe de coordenação da 5ª Semana Social Brasileira se reuniu na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O objetivo do encontro foi preparar o terceiro seminário que será realizado entre os dias 21 a 23 de agosto, no Instituto São Boaventura. Na ocasião, será feita uma avaliação da Conferência Rio + 20 e Cúpula dos Povos e os desafios postos para os movimentos sociais e as igrejas. Temas como: Estado, governo, poder, plebiscito, democracia representativa e participativa estarão em pauta na semana social, que deve contar com militantes de todo o país.
Desde a edição 444, o jornal Brasil de Fato passou a ter quatro páginas a mais. Ou seja, agora são 16 páginas de informação e formação. Com isso, podemos levar para você mais reportagens, jornalismo inteligente e comprometido com as lutas da classe trabalhadora. Assim, acreditamos contribuir ainda mais para elevar o nível de consciência do povo, para que lute por mudanças e por uma sociedade justa. Quem ganha com isso é você, leitor. Assinatura anual: R$
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brasil
“Nossa história não será contada pela Comissão da Verdade” GTNC/RJ
ENTREVISTA Para Victória Grabois, presidenta do Tortura Nunca Mais, essa luta não vai terminar agora, essa luta vai continuar e precisa de seguidores, de herdeiros
em que o Judiciário está sendo cada vez mais pressionado a julgar casos envolvendo militares? Eu vejo esse momento como efervescente, até favorável para nós nesse sentido. A grande imprensa e a imprensa alternativa estão nos procurando muito, nunca se deu tanta entrevista como agora. Esse caso do dia 14 é da família Telles que entrou com uma ação declaratória, sem reparação pecuniária, acusando o Ustra de tortura. Ele torturou toda a família, foi presa Amelinha com o Cesar, depois a Crimeia com as duas as crianças, a Janaína com cinco anos e o Edson com quatro anos. Só no dia seguinte as crianças foram entregues à família do pai. Outro passo importante é a atuação do Ministério Público Federal (MPF) que entrou com ações penais contra o Curió e contra o Lício que matou quatro guerrilheiros, inclusive meu irmão, o André. Agora a procuradora de São Paulo, Eugênia Fávero entrou com um ação de improbidade administrativa contra a lei 9.140 de 1995 que criou a Comissão de mortos e desaparecidos da Secretaria de Direitos Humanos, que em 17 anos nada fez.
Vivian Verissimo do Rio de Janeiro (RJ) FAMILIAR de militantes políticos que atuaram na Guerrilha do Araguaia, a presidenta do Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) do Rio, Victória Grabois, não esconde que observa com ceticismo os trabalhos da Comissão da Verdade. Ela acompanha há décadas todas as lutas de ex-presos políticos e familiares que cobram, além da verdade, justiça pelos crimes de lesa-humanidade da ditadura civil-militar brasileira. “Essa luta não vai terminar agora, ela vai continuar e nós precisamos de seguidores, de herdeiros. Toda nossa história não vai ser contada pela Comissão da Verdade, ainda tem muita história pra ser contada”, lembrou. Nesta entrevista ao Brasil de Fato, ela revela vários pontos fracos da Comissão, mas também aponta aspectos positivos. Brasil de Fato – Na época do lançamento da Comissão da Verdade, o Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) lançou uma nota denunciando que a mesma poderia ser um grande “engodo” e uma “farsa”. Na última semana foi divulgado o plano de trabalho da comissão. Como vocês avaliaram este plano? Victória Grabois – Nós criticamos desde o início o projeto da Comissão da Verdade. Nós queríamos uma Comissão da Verdade e Justiça. O final será um grande relatório, mais um outro relatório. Nós queremos saber a verdade do outro lado, pois o nosso lado nós já contamos através de livros, depoimentos, processos na Justiça. Apresentaram um plano de trabalho que são várias subcomissões e, até agora, o que tenho percebido, é que são muito poucos os comissionados que tem trabalhado. Nessa última reunião do dia 30 de julho em Brasília, só estavam presentes quatro comissionados: a Rosa Cardoso, a Maria Rita Kehl, o Gilson Dipp e o Cláudio Fonteles, os outros não estavam. Hoje (5 de agosto) eu abri o jornal e vi que o José Carlos Dias é um dos advogados do mensalão, quer dizer que ele está mais preocupado em absolver os réus, o Paulo Sérgio Pinheiro é o coordenador de uma Comissão da ONU pra Síria e o outro advogado José Cavalcanti, de Pernambuco nunca participou de uma reunião. A comissão já tem um mês e eu vejo muito pouco trabalho. Na primeira reunião em São Paulo, no dia 11 de junho, que estavam somente cinco comissionados, todos os familiares exigiram que os debates da comissão fossem abertos. Nós avaliamos que o único grande ponto que nós conseguimos até agora foi a abertura das reuniões da comissão. O plano de trabalho estabelece que as reuniões serão transmitidas pela internet e que vai ter um site com base na lei de acesso à informação. Sim. Mas os depoimentos daqueles que cometeram crimes de lesa-humanidade só ficamos sabendo pela imprensa. Outra reivindicação dos familiares foi a divisão da comissão em subcomissões. Então já foram vitórias pontuais das famílias. O terceiro pedido é a abertura dos arquivos da ditadura, pois a gente sabe que, se os militares forem chamados, por estarem protegidos pela anistia, eles não vão falar. Eu tenho experiência do processo da Guerrilha do Araguaia em que foram chamados o Sebastião Curió e o Lício Augusto Maciel. Nenhum dos dois falou nada, eles só falam o que convém. Como está esse processo de abertura dos arquivos? Segundo o Paulo Sérgio Pinheiro, a comissão tem acesso a todos os arquivos, mas eles estão dizendo que muitos arquivos já foram queimados. Diante disso, o Claudio Fonteles exigiu que as autoridades que mandaram “queimar” tais arquivos que elas digam quem foi. Porque não se pode pegar um documento público e dar sumiço nele, tem que dizer qual autoridade, como e por que. Também pedimos que se faça uma pesquisa nas fichas funcionas dos militares no Dataprev e no Ministério da Defesa por-
A professora Victória Lavínia Grabois
que pelas fichas militares podemos saber onde atuaram. Esperamos que a comissão já esteja cumprindo essas exigências mínimas. No Chile, Uruguai e Argentina foram criadas outras comissões em função do pouco tempo. No Chile foram instaladas quatro comissões. A senhora acha que o Brasil caminha pra isso? Eu não sei, eu sou muito cética. Pode ser que daqui a dois anos eles achem que cumpriram seu papel. Nós criticamos que não houve um debate com a sociedade civil. Como esses comissionados foram escolhidos? Está se mostrando que muitos desses comissionados não têm nem tempo. Isso é o mínimo, a pessoa tem que trabalhar e se dedicar full time, afinal são só dois anos. Por outro lado, outra vantagem é a criação das comissões nos estados que podem auxiliar, pois o Brasil tem uma documentação muito vasta. Eu até acho que a maioria dos familiares não precisa nem depor. Se quiser depor novamente, acho que é um direito, se descobrir ou quiser acrescentar alguma coisa, nesse sentido. Mas os dossiês dos mortos e desaparecidos já foram iniciados no tempo dos comitês brasileiros pela anistia que coletaram muitas informações.
“É uma demanda da Corte que se façam buscas. Mas nós familiares, fomos os únicos que descobrimos e identificamos três ossadas” Sobre a guerrilha do Araguaia e a condenação do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos. A Advocacia-Geral da União (AGU) fez o pedido para a liberação de R$ 1,3 milhão para indenizar as famílias. Como a senhora vê esse movimento do Estado de querer cumprir a sentença? As reparações tinham que ter sido feitas em 2011. A partir da condenação, o Estado brasileiro tinha um ano para reparar as famílias. Por que eles lançaram isso essa semana? Eu achei estranho, porque nós tínhamos uma reunião do Grupo de Trabalho Araguaia em Brasília e nós íamos questionar o que eles estavam fazendo. Saiu no Jornal Nacional uma matéria informando que eles já tinham pedido a liberação para indenizar as famílias e que precisavam localizar onde estavam 13 famílias. É claro que eles sabem, porque isso está na sentença da Corte, tem o nome de cada família, tem endereço, tem tudo. Eles vão na questão monetária para colocar a sociedade contra a gente para parecer que nós estamos querendo somente o dinheiro. Então eles jogam a sociedade contra as famílias e isso é muito ruim. A outra demanda da sentença seria
a busca dos restos mortais. Como a senhora avalia o Grupo de trabalho do Araguaia? É uma demanda da Corte que se façam buscas. Mas nós familiares, fomos os únicos que descobrimos e identificamos três ossadas. Naquela época nós chegávamos como familiares e as pessoas se aproximavam e davam as informações, pois eles eram amigos dos guerrilheiros. O Araguaia não foi um foco, teve um trabalho com os camponeses, tanto que os guerrilheiros são considerados heróis. Este lugar paupérrimo passou a ter médico, enfermeiro, eles ensinavam o manejo da agricultura e trabalhavam com eles, tinham professores que alfabetizam as crianças e os adultos. Então, eles mesmos vinham nos mostrar os locais. O Estado brasileiro começou as buscas, o exercito estava lá, a Polícia Federal descia de helicóptero, chegavam com AR15 e assustavam as pessoas. Eles achavam que a guerra estava voltando e as informações começaram a escassear. Fizeram quatro missões ao todo. Em 2001, quando o MPF foi pra lá e colheu depoimentos, o que ajudou muito na sentença da Corte Interamericana. A lei 9.140 tem dois pressupostos: o primeiro das reparações e o segundo das buscas para identificar os guerrilheiros e as circunstancias das mortes. Só que no Brasil, começa tudo depois. O governo vai logo pela questão da reparação porque indenizando as famílias é um cala-boca. E o Brasil começou pela reparação, ao invés de começar com as buscas. A senhora falou que as indenizações acabam colocando a sociedade contra os familiares. Por outro lado, a juventude tem apoiado fortemente os familiares com escrachos que começaram em maio. Como isso tem repercutido? Eu vejo os escrachos com muita alegria porque a nossa luta é essa, é pra contar essa história. Grande parte da juventude brasileira não conhece essa história. Não é uma disciplina que está na escola pública, somente estudantes que passaram em colégios da elite ou em colégios militares que estudaram mais a fundo. A juventude está se aproximando, eu acho isso excelente. É uma forma de mostrar à sociedade brasileira que o Brasil teve ditadura militar e tortura, agora a gente pode chegar na casa de um torturador e denunciar que aquele sujeito que mora na cobertura participou do sistema repressivo. Acho isso muito interessante e a alegria da juventude me entusiasma. Isso é fruto do nosso trabalho de mais de quarenta anos, alguma coisa tinha que acontecer. Essa luta não vai terminar agora, essa luta vai continuar e nós precisamos de seguidores, de herdeiros. Toda a nossa história não vai ser contada pela Comissão da Verdade, ainda tem muita história pra ser contada. No dia 14 de agosto, o Coronel Ustra estará sentado novamente no banco dos reús. Como a senhora percebe esse momento de pressão popular
Em maio, a presidenta Dilma anunciou que receberia uma indenização de R$ 20 mil e que repassaria para o Tortura Nunca Mais, como está essa situação? Primeiro ela não especificou qual GTNM. O do Rio de Janeiro nunca foi procurado. Se esses R$ 20 mil apareceram, não é a presidenta da República que está doando é a ex-presa política Dilma Rousseff e nós nunca recusamos a contribuição de nenhum companheiro. E o GTNM que é uma entidade do movimento social, não é uma ONG, está atualmente passando por grandes dificuldades financeiras e quem tem nos ajudado são os ex-presos políticos. Esse dinheiro será bem vindo e destinado ao tratamento clínico dos ex-presos políticos, dos familiares de mortos e desaparecidos e das mães e os defensores de direitos humanos de hoje. No Rio, nós temos muitos defensores de direitos humanos que são ameaçados de morte e nós atendemos essas pessoas. Nós recebemos um financiamento da ONU, que foi diminuído pela metade em função da crise e porque eles acham que o Brasil está muito bem por ser a sexta economia mundial. Se vierem, esses R$ 20 mil servirão para pagar três ou quatro meses de tratamento das vítimas da violência do Estado de hoje e da época da ditadura. O GTNM tem vinte e sete anos, essa foi a primeira vez que aconteceram ameaças e a sede foi invadida? Já se passaram quinze dias, como vocês têm reagido a tudo isso que aconteceu? Ameaças telefônicas e por cartinhas apócrifas nós sempre recebemos, desde a fundação do grupo. Invasão da sede já teve uma que roubaram um fax novo, monitor do computador, TV, videocassete. Dessa vez foi mais grave porque levaram documentos e um montante que seria destinado ao tratamento das vítimas. Isso atrapalha nosso trabalho, levaram notas e comprovantes de pagamentos que têm que ser apresentados ao relatório anual. Tive que ir a delegacia, fazer um boletim de ocorrência na 10ª DP. O delegado já declarou que a linha de investigação será o roubo pelo roubo. Pedimos a investigação da Polícia Federal e também audiências com o Ministro da Justiça, mas ficou por isso mesmo. Desde que esse episódio ocorreu que providências o grupo tem tomado? Eu acho que a gente tem que tomar muito cuidado, mas isso não vai nos intimidar, a gente continua lutando. Claro que alguns cuidados a gente precisa tomar, mas o que a gente pode fazer? Não tem. Se mataram uma juíza, o que a gente pode esperar do Estado? Porque o juiz sempre é a figura magna. O que será de nós que lutamos pelos direitos fundamentais dos trabalhadores, que fomos militantes na época do regime militar, que somos familiares de mortos e desaparecidos que são ex-presos políticos que tiveram uma atuação firme durante todo esse período? Como escrevemos na nossa carta-denúncia, essas ameaças não nos assustam, vamos continuar lutando até o fim. No meu caso, eu acho que cumpri o meu dever. Quero viver mais, claro, pelo menos já estou vendo a juventude indo pras ruas, mas eu quero mais. Acho que eu tenho esse direito. Eu quero que tenha um grande movimento no Brasil pela verdade e pela justiça, que a gente responsabilize essas pessoas que mataram, sequestraram, torturam milhares de brasileiros. Se hoje a impunidade continua, uma das causas é que não houve punição aos militares.
brasil
de 9 a 15 de agosto de 2012
espaço sindical
As novas perspectivas da economia brasileira
da Redação
Guilherme Lara Campos/Folha Imagem
DESENVOLVIMENTO O ciclo de investimentos em infraestrutura reforçou a posição das empreiteiras, as quais encontramse na linha de frente da internacionalização na América Latina e África
O desenvolvimento das forças produtivas no atual ciclo de investimentos sinaliza que as mobilizações contra os efeitos socioambientais devem continuar Desdobramentos
No Brasil, o recente ciclo de investimentos em infraestrutura tem se desdobrado, primeiro, em mudanças no marco regulatório, a exemplo da concessão dos aeroportos, das novas regras para a implementação da telefonia móvel com tecnologia 4G, etc e etc. Segundo, e não menos importante, em um grande apoio do BNDES para os grandes investimentos em energia. A tabela ao lado mostra um levantamento das previsões de investimento brasileiro entre 2012-2016. Dos R$ 12,5 trilhões previstos, 45,9% serão no setor de combustível, decorrente da exploração do Pré-Sal. Outros 23,1% serão direcionados a transporte, envolvendo a industria naval, automotiva e ferroviária, e 12,3% para o setor de energia. Ou seja, o vigor do ciclo de investimentos em infraestrutura tende a se manter no próximo período. Da mesma forma, o BNDES manterá e alavancará este ciclo de investimentos, conforme a segunda tabela. Nos 332 projetos previstos para receber fi-
Metalúrgicos contra demissões Os trabalhadores da Feeling Structures de Taubaté (SP) iniciaram greve no dia 31 de julho, devido à falta de proposta para a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) de 2012. A empresa tem cerca de 200 trabalhadores e atua na produção de estruturas para eventos, shows, etc. O Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté e Região aguarda uma nova rodada de negociações com a direção da empresa, que ainda não ofereceu soluções para o impasse. Greve na Cummins em Guarulhos Também devido ao tema da PLR, a transnacional estadunidense Cummins, fabricante de motores em Guarulhos (SP), está parada desde o dia 6 de agosto. Cerca de 1.400 empregados fazem greve contra o corte do valor do benefício.
Fábio Marvulle Bueno UMA CARACTERÍSTICA comum ao desenvolvimento capitalista recente dos países periféricos agrupados na sigla Brics (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) é um importante ciclo de investimentos em infraestrutura, envolvendo transporte, energia e comunicações, dentre outras dimensões. Tais investimentos ajudam a impulsionar o crescimento econômico e criam elementos estruturais de aumento de competitividade, colocando também importantes contradições entre desenvolvimento das forças produtivas e impactos ambientais e sociais. Para além do debate costumeiro feito pela grande mídia, da suficiência ou não deste ciclo de investimento em infraestrutura diante das carências estruturais dos países periféricos, convém destacarmos outra faceta menos explorada, mas de extrema importância: as consequências políticas e sociais deste ciclo. Um primeiro desdobramento político do atual ciclo de investimentos em infraestrutura é a consolidação de grandes grupos econômicos do setor, a ponto de se tornarem transnacionais relevantes mundialmente, com proeminência do subsetor de petróleo no rol das multinacionais periféricas. No Brasil, o ciclo de investimentos em infraestrutura também reforçou a posição das empreiteiras, as quais encontram-se na linha de frente da internacionalização na América Latina e África. Segundo, o ciclo de investimentos em infraestrutura tem provocado um intenso desenvolvimento do mercado imobiliário urbano, não só elevando rapidamente os preços dos imóveis, mas estimulando e aproveitando o surgimento de todo um arsenal de instrumentos financeiros que impulsionam a concessão de crédito e financeirizam tal mercado, criando as condições potenciais para bolhas especulativas no setor imobiliário e que podem transbordar para o setor financeiro. Terceiro, os investimentos em infraestrutura ganharam proeminência nas agendas dos diversos governos das ultimas décadas, cujos casos mais emblemáticos são as medidas chinesas de contraposição à crise internacional iniciada em 2008 e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Brasil, que perpassa os governos Lula e Dilma e ganha impulso com a descoberta do Pré-Sal e a escolha do país para sediar a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016.
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O ciclo de investimentos em infraestrutura reforçou a internacionalização das empreiteiras brasileiras
nanciamento de R$ 140 bilhões do BNDES, 218 ligam-se diretamente ao setor de infraestrutura, respondendo por R$ 102 bilhões do financiamento previsto do BNDES, com destaque para as Hidrelétricas, responsáveis por 26 projetos, que totalizam uma previsão de R$ 72,4 bilhões de investimentos, dos quais R$ 52,2 bilhões financiados pelo BNDES. Deduções
Do cenário acima descrito, podemos inferir que 1) a depender da situação
da economia mundial, veremos o ciclo de investimentos em infraestrutura no Brasil estendido até meados da década; 2) as frações da burguesia ligadas à infraestrutura continuarão a ter uma forte influência sobre o projeto neodesenvolvimentista; e 3) o desenvolvimento das forças produtivas no atual ciclo de investimentos sinaliza que as mobilizações contra os efeitos socioambientais devem continuar e mesmo ascender na pauta de luta da esquerda brasileira no próximo período.
Fundo anticrise contra demissão As centrais sindicais entregaram, no dia 7 de agosto, proposta para criar um fundo anticrise com o objetivo de manter empregos nas empresas que enfrentam dificuldades econômicas. O fundo seria financiado por recursos de parte da multa do FGTS, paga aos demitidos sem justa causa. Parte do Programa nacional de estabilização e manutenção de empregos no setor privado (Pneme), o fundo poderia ser acionado em situações como a que enfrenta a GM de São José dos Campos. O documento será entregue à presidenta Dilma Rousseff e ao ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) por representantes de cinco centrais: CUT, Força Sindical, UGT, Nova Central Sindical e CTB.
Plano de Investimentos – Brasil – 2012-2016 R$ bilhões
Setor 1
Combustível (Petróleo/Etanol)
2
Transporte / vias urbanas
3
Energia
4
Saneamento básico
5
Industrias
6
Hotel / Resort
7
Habitação
8
Obras
Valor
Peso %
300
679
45,91%
1.136
343
23,19%
750
182
12,31%
7.390
85
5,75%
301
83
5,61%
81
51
3,45%
2.119
17
1,15%
Outros
56
15
1,01%
9
Infra/esportiva
59
14
0,95%
10
Shopping center
73
10
0,68%
12.265
1.479
100,00%
Total
Crise e perdas No plano internacional, somente os setores de trabalhadores metalúrgicos perderam 211.764 empregos de novembro de 2008 a julho de 2009, durante a crise internacional. Nesse período, os operários desse segmento deixaram de receber R$ 405 milhões, de acordo com levantamento do Dieese.
Fonte: Valor Econômico, Maio 2012, p. 10-11.
Plano de Investimentos por Setor e Participação do Financiamento BNDES – 2012-2016 R$ bilhões
Setor
Nº Valor Total de Projetos Investimentos
Valor % do Setor sobre Financiado Total Financiado BNDES pelo BNDES
1
Hidrelétricas
26
72,403
52,292
37%
2
Rodovias
35
29,714
15,421
11%
3
Portos, terminais e armazéns
40
19,881
12,903
9%
4
Distribuição de energia
40
19,308
9,486
7%
5
Energia Eólica
35
17,531
11,458
8%
6
Ferrovias
11
17,229
6,668
5%
7
Linhas de transmissão
44
15,289
8,015
6%
8
Termoelétricas
17
12,596
5,820
4%
9
Energia nuclear
1
10,488
6,146
4%
10
Dutos
1
8,690
5,820
4%
11
Industria naval
20
3,274
2,908
2%
12
Pequenas centrais hidrelétricas
32
3,137
2,189
2%
13
Cogeração de energia
9
1,227
0,894
1%
14
Transporte aéreo
5
0,692
0,472
0%
15
Racionalização de energia
13
0,208
0,131
0%
16
Outros
3
0,020
0,018
0%
332
231,700
140,700
100%
TOTAL
Suspensão temporária Em acordo com o Sindicato de Metalúrgicos de São José dos Campos (SP), a General Motors adotou o lay-off (suspensão temporária do contrato de trabalho) de três meses. Ao todo, 940 funcionários da fábrica de São José dos Campos ficarão parados até o fim de novembro. Em outras duas montadoras, o acordo também ocorreu: na Mercedes-Benz de São Bernardo do Campo (SP), 1,5 mil trabalhadores foram suspensos de junho a outubro. Outros 270 operários da MAN de Resende (RJ) entraram no programa no período de julho a novembro.
Bancos não geraram empregos Os bancos brasileiros geraram 2.350 novos empregos no primeiro semestre de 2012, o que representa um recuo de 80,40% em comparação com o mesmo período de 2011, quando foram criadas 11.978 vagas. A queda do emprego ocorreu em função do saldo negativo em 1.209 postos de trabalho nos bancos múltiplos com carteira comercial, atividade que engloba grandes instituições financeiras como Itaú, Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil. Já a Caixa Econômica Federal abriu 3.492 empregos, o que evitou que o setor apresentasse desempenho negativo. Santa Casa de Jacareí paralisada Desde o dia 31 de julho, trabalhadores da Santa Casa de Jacareí (SP) fazem greve por reajuste salarial e melhorias nas condições de trabalho e na estrutura do hospital. Denunciaram a precariedade no atendimento à população, em virtude da falta de medicamentos básicos para o pronto-atendimento e internação, falta de alimentos para pacientes, ausência de roupa de cama e de materiais de higiene, entre outras críticas. O secretário de saúde do município negou-se a sentar com os representantes dos trabalhadores para negociar. A Santa Casa de Jacareí tem 470 funcionários e realiza cerca de 370 atendimentos por dia. Médicos de Cuiabá em greve Por melhores condições de trabalho, cumprimento de Acordo Coletivo e contra irregularidades salariais, os médicos de Cuiabá (MT) cruzaram os braços desde o dia 31 de julho. Na pauta de reivindicações, o Sindimed-MT exige a contratação de mais profissionais, exigindo 140 agentes de saúde, e faz a crítica da terceirização e falta de condições no atendimento da saúde pública. Rede Conveniada, estado de greve Em Assembleia Geral, os trabalhadores da Rede Conveniada à Prefeitura de São Paulo que atendem a criança e o adolescente (creches, abrigos, Centro de Educação Infantil, etc), decretaram estado de greve. Esta decisão foi definida depois que os trabalhadores foram informados que a categoria não receberia aumento.
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brasil
Pressão sobre os candidatos Janine Moraes/ABr
AGROTÓXICOS Movimento quer que aspirantes às prefeituras e às câmaras municipais enfrentem uso de veneno em alimentos Maria Mello de Brasília (DF) A CAMPANHA Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida lançou um documento que pretende comprometer os candidatos brasileiros a prefeito e vereador nas eleições de outubro com iniciativas de enfrentamento ao uso de agrotóxicos e em favor da transição agroecológica nos âmbitos Executivo e Legislativo. Cléber Folgado, integrante da Coordenação Nacional da Campanha, explica que além do aspecto formativo da iniciativa – com o objetivo de levar aos candidatos informações sobre a situação alarmante do uso de venenos agrícolas no país -, a carta-compromisso sugere que os políticos se empenhem, fundamentalmente, em proibir o uso de agrotóxicos banidos em outros países e a pulverização aérea de venenos, além de consolidar políticas públicas de incentivo à agroecologia. “É fundamental que candidatos nestas eleições possam se posicionar frente ao que se tornou um problema de saúde pública e de meio ambiente”, pontua. Brasil de Fato – Por que é importante comprometer os candidatos com ações de combate aos agrotóxicos? Cléber Folgado – É nítida a falta de compromisso dos governantes em relação ao uso destes produtos e os seus efeitos na saúde da população e no meio ambiente. Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo: são em média 5,2 litros de agrotóxicos por pessoa ao ano, jogados nos campos brasileiros. Esse uso abusivo tem trazido para a sociedade um conjunto de problemas sociais e ambientais que deve ser combatido por meio da construção de leis mais severas, tornando a cada dia mais restrita a utilização de agrotóxicos. É, portanto, fundamental que candidatos nestas eleições possam se posicionar frente ao que se tornou um problema de saúde pública e de meio ambiente. Com iniciativas a partir do Executivo e do Legislativo, podemos dar passos importantes para a superação desta forma atrasada de produzir alimentos – apontando assim para um novo modelo de agricultura, com base na agroecologia.
“É fundamental que candidatos nestas eleições possam se posicionar frente ao que se tornou um problema de saúde pública e de meio ambiente” Que compromissos os candidatos assumirão ao assinar a carta? O documento apresenta três grandes compromissos que podem ser levados a cabo por meio de iniciativas do Legislativo e do Executivo. O primeiro compromisso é estabelecer legislação proibindo o uso no município dos agrotóxicos e ingredientes ativos já banidos em outros países, em função dos problemas gerados na saúde e no ambiente. São mais de um bilhão de litros jogados nas lavouras de nossos municípios e entre os tipos de venenos empregados encontram-se substâncias já proibidas em vários países do mundo devido a seus terríveis efeitos no ambiente e na saúde da população. O segundo pacto tem a ver com a construção de projetos de lei que proíbam a pulverização aérea de agrotóxicos, pois ainda que esta seja a única forma de pulverização sobre a qual o país dispõe de legislação específica, isso não impede que ela seja a mais perigosa, destrutiva e irresponsável. Segundo os dados do Ibama, dos agrotóxicos pulverizados por avião, 70% se transformam em deriva (não atingem o alvo), sendo que 20% se espalham no ar e podem percorrer, a depender do vento, dezenas de quilômetros – contaminando assim até plantações que não haviam usado veneno – e os outros 50% o solo. Estamos dizendo que apenas 30% dos venenos jogados de avião atingem o objetivo específico para o qual foi usado, e isso é absurdo. O Ibama publicou recentemente no Diário Oficial da União um comunica-
vereadores podem contribuir para os objetivos da Campanha? Podem contribuir construindo e aprovando projetos de lei municipais, uma ferramenta importantíssima. Já existem experiências de projetos que proíbem a pulverização aérea, como em Vila Valério (ES). As câmaras legislativas também podem promover audiências públicas para informar e ouvir a posição da sociedade sobre o tema dos agrotóxicos. Os vereadores devem também construir leis de incentivo à agroecologia, projetos que possam levar a conscientização às escolas, postos de saúde, fazendo com que as próprias secretarias de agricultura possam prestar assistência técnica voltada para processos de transição à agroecologia e investir em pesquisa, possibilitando assim que os camponeses tenham a opção de sair da dependência dos agrotóxicos e adotem uma forma de produção que esteja preocupada com a vida daqueles que produzem e consomem.
“Podemos dizer que onde estão as grandes plantações do agronegócio estão efeitos nocivos resultantes do uso de agrotóxicos”
Mulheres lavam folhas de alface: documento pede comprometimento de candidatos com transição agroecológica
do em que desautoriza, em caráter cautelar, a pulverização aérea dos agrotóxicos que contenham os ingredientes Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil, que são inseticidas não-seletivos, ou seja, matam qualquer inseto e estavam afetando populações de abelhas que são indispensáveis para a produção agrícola, em função do processo de polinização. O terceiro compromisso é o de construir políticas públicas de incentivo à agroecologia. Assim como nas décadas de 1960 e 1970 o Estado brasileiro possibilitou por meio de crédito e outros benefícios a “imposição” do modelo de agricultura dependente dos agrotóxicos, ele tem agora o dever de construir políticas públicas de incentivo que possam ajudar as famílias camponesas a superar o ciclo vicioso do uso de agrotóxicos. E como concretamente os municípios podem fomentar as ações de transição agroecológica, ou seja, que os camponeses deixem de utilizar agrotóxicos e produzam sem venenos? Os municípios devem adotar políticas públicas voltadas para processos
“Os vereadores devem também construir leis de incentivo à agroecologia, projetos que possam levar a conscientização às escolas” de transição, levando em consideração desde a assistência técnica, a pesquisa, o investimento em sementes crioulas e não transgênicas, a compra garantida para alimentos sem agrotóxicos, incentivar as compras governamentais através do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e outros programas que podem vir a ser criados, além, é claro, de investir em um forte processo de educação, onde a sociedade como um todo possa saber dos perigos que corre com o uso dos agrotóxicos e as contaminações por eles geradas. Desta forma, podemos ir construindo territórios livres de agrotóxicos e de transgênicos. Do ponto de vista legislativo, além da proibição da pulverização aérea e dos agrotóxicos banidos, como os Idaf
Cada brasieliro consome, em média, 5,2 litros de veneno por ano
E no aspecto tributário? Os municípios podem reverter a isenção de impostos ou aumentar a tributação de empresas que fabricam agrotóxicos instaladas nas cidades? Várias das empresas que produzem e comercializam agrotóxicos no país são beneficiárias da isenção de certos impostos, e algumas chegam a ter 100% de isenção. As legislações municipais não podem ser mais “frouxas” que a nacional, no entanto podem, sim, adotar tributações municipais em alguns aspectos. Isso pode até ser uma forma de arrecadação que seja destinada depois à saúde ou mesmo a processos de transição para a agroecologia. Quais regiões do país são as mais afetadas pela utilização de venenos atualmente? Segundo o relatório da Subcomissão Especial Sobre o Uso de Agrotóxicos da Câmara dos Deputados, são as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Os cinco estados que mais comercializam agrotóxicos são Mato Grosso, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Goiás, nessa ordem. No Mato Grosso, para se ter uma ideia, a média de consumo de agrotóxico chega a 50 litros por pessoa/ano, segundo dados do próprio governo. Só a soja é responsável por 51% dos agrotóxicos jogados no país. O fato de que estes estados estejam na frente em relação ao uso dos agrotóxicos não significa que outros estados e regiões estejam livres dos venenos. Em regiões de monocultivos de fruticultura irrigada no Nordeste, por exemplo, também vemos uso abusivo de agrotóxicos, assim como em monocultivos de cana, entre outros. Podemos dizer que onde estão as grandes plantações do agronegócio estão seguramente efeitos nocivos resultantes do uso de agrotóxicos. É importante lembrar também que muitos alimentos circulam pelo país de um lugar para outro, de forma que mesmo nas cidades os consumidores estão correndo perigo de contaminação onde quer que estejam. Como será feita a distribuição da carta aos candidatos e como será a divulgação dos nomes que a assinaram? Hoje a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida conta com a participação de mais de 50 organizações nacionais e tem comitês construídos em 23 estados. As organizações e militantes destes comitês presentes nos municípios é que farão os contatos com os candidatos, conduzirão a discussão em torno da importância de que possam se comprometer com o documento e, assim, coletar a assinatura daqueles e daquelas que se dispuserem. A partir daí vamos circular uma lista em nível nacional, conferindo a maior visibilidade possível nos meios de comunicação e em nossa página na internet (www.contraosagrotoxicos.org), para que toda a população saiba quem são os que se comprometeram com o documento, e que após eleitos possam fazer com que os pactos assumidos em campanha sejam de fato efetivados. Também consideramos fazer o levantamento daqueles que se recusaram a assinar, pois é importante que a sociedade saiba em quem está votando.
cultura
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Arena Conta Zumbi,
de 1960 para os dias de hoje Fotos: Divulgação
TEATRO História de Palmares será recontada a partir do romance Ganga Zumba, de João Felício dos Santos
No livro Zumbi, Tiradentes, a professora Cláudia de Arruda Campos registra alguns dos momentos em que, por meio do recurso ao teatro jornal, as personagens em cena são relacionadas aos novos donos de poder, após o golpe de 1964. Um dos principais é o discurso de Dom Ayres, novo governador, em que ele fala: “Descontentes haverá, e sempre. Um governo enérgico toma medidas impopulares de proteção à coroa, não aos insatisfeitos. Meu governo será impopular e, assim, há de vencer, passo a passo dentro da lei que eu mesmo hei de fazer.” Como lembra Campos, o general Castelo Branco, em seus primeiros discursos, dizia que aceitaria a impopularidade, que julgava temporária. Expressões típicas da retórica da ditadura, como “exterminar a subversão”, “moralização”, “infiltração negra” (que deve ser substituída por “vermelha”, nesse procedimento) e “valores de nossa sociedade” aparecem ao longo de todo a narrativa. Os comerciantes brancos, que acabam traindo os palmarinos, dizem que se guiam “pela Bíblia”, citando supostos trechos das escrituras para justificar seu apoio à campanha militar contra o quilombo – o que faz lembrar o apoio que setores da sociedade deram ao golpe, em nome da religião, nas famigeradas marchas da família, com Deus, pela liberdade.
Eduardo Campos Lima de São Paulo (SP) A REMONTAGEM de Arena Conta Zumbi, peça escrita por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, em parceria com o músico Edu Lobo, que estreia nesta quinta, 9 de agosto, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, tem interesse por vários motivos. O mais imediato é que a reencenação de um dos marcos do teatro musical do país funciona como um resgate de nossa história recente, em uma época que parece privilegiar apenas musicais estadunidenses, importados integralmente – produções que têm não apenas seu texto vertido para o português, mas também a montagem reproduzida fielmente nos palcos brasileiros, por razões contratuais. “O que eu acho particularmente absurdo é que esses musicais importados recebam subvenções e ganhem prêmios, ao mesmo tempo em que há uma espécie de abandono e desprezo pelas coisas brasileiras”, argumenta Cecília Thumim Boal, responsável pelo Instituto Augusto Boal, instituição fundada para preservar e manter viva a obra do teatrólogo brasileiro. É do Instituto a iniciativa de levar Zumbi novamente aos palcos. Chama a atenção que, dos anos 1960 para cá, Zumbi tenha tido diversas remontagens Brasil afora, mas, em geral, feitas por elencos amadores, conforme lembra Cecília Boal. “Será, acredito, a primeira vez que haverá uma remontagem profissional”, afirma. Mais surpreendente é que uma peça que trata da luta do Quilombo de Palmares nunca tenha sido encenada por atores negros. “Trabalhar com um elenco exclusivamente negro era a ideia de Cecília e também a minha, de forma que houve uma coincidência de vontades”, explica o diretor João das Neves. O convite do Instituto a João das Neves não se deu por acaso. “Nos últimos anos, tenho feito uma série de espetáculos com temática negra e atores negros. Já são quatro espetáculos. O Zumbi coroa um processo que venho, portanto, desenvolvendo há algum tempo”, conta. Uma das peças a que João das Neves se refere é Besouro Cordão-de-Ouro, musical de Paulo César Pinheiro sobre o capoeirista baiano.
“O que eu acho particularmente absurdo é que esses musicais importados recebam subvenções e ganhem prêmios, ao mesmo tempo em que há uma espécie de abandono e desprezo pelas coisas brasileiras” Opinião e Arena
João das Neves e Augusto Boal foram destacados quadros do teatro de resistência à ditadura civil-militar. Com o golpe de 1964, as experiências de arte militante empreendidas pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da Une), desde 1961, foram bruscamente interrompidas. Os militantes remanescentes, a partir daí, precisariam regredir alguns passos em sua ação. Parte dos artistas ligados ao CPC começou, ainda em 1964, uma nova iniciativa, materializada no show Opinião. O show teve direção cênica de Boal e intercalava músicas brasileiras de diferentes gêneros, cantadas por Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale, a relatos autobiográficos dos três cantores. Tratava-se de uma primeira tentativa de articular variadas forças sociais em uma frente contra o regime recém-instalado. Com o corte dos laços entre os artistas e os movimentos operários e camponeses, os estudantes passaram a ser vistos como camada social mais próxima e junto à qual um trabalho mais consequente poderia ser realizado. O show Opinião marcou, portanto, não apenas um tipo de encenação fortemente ligada à música, mas também uma primeira proposta de ação política para a esfera das artes. Do show surgiu o grupo Opinião, do qual João das Neves fez parte, até 1980. O Teatro de Arena, do qual Boal fazia parte, articulou seu próprio campo de resistência no teatro. O grupo, que até o golpe estivera no campo ideoló-
Momento histórico
Cena da remontagem do espetáculo Arena Conta Zumbi
gico dos pecebistas, progressivamente se afastou da análise e da prática política do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em um momento em que a esquerda fragmentava-se em diferentes organizações e agrupamentos, questionando a ação dos comunistas no período anterior à tomada do poder pelos militares. A luta armada, que ensaiava seus primeiros passos naquele momento, aparece em cena nas peças seguintes do Arena, todas elas muito marcadas pela música e batizadas de Arena Conta... Em Arena Conta Zumbi, a história de Palmares é recontada a partir do romance Ganga Zumba, de João Felício dos Santos, e de pesquisas em outras fontes. O rei Zambi, rebelando-se contra a escravidão, embrenha-se na mata e ganha o sertão, puxando consigo gerações e gerações de escravos em busca de liberdade. No quilombo, os antigos escravos podem viver de seu próprio trabalho, de maneira livre, o que resulta em grande prosperidade – ocasionalmente maior do que a das fazendas chefiadas por brancos, conforme aparece na peça. Seu filho, Ganga Zona, e seu neto, Ganga Zumba, juntam-se a ele anos depois. Os senhores organizam missões para recuperar os escravos fugidos, mas logo percebem que, do ponto de vista econômico, a iniciativa não compensa, pois as expedições custam mais do que importar novos escravos da África. A organização produtiva dos quilombolas atinge tal grau de êxito que os representantes da metrópole sentem que sua sociedade está em risco; torna-se urgente a extinção de Palmares. O destino dos palmarinos é selado no episódio A Bondade Comercial, em que o Cantador – narrador que aparece ao longo de toda a peça – relata:
E tanta riqueza Palmares produzia que o branco começou a se comover e no vende que vende e troca até mesmo amigo do negro quis ser e o branco comerciante contava na cidade ter pelo negro quilombola uma grande amizade. Diante das perseguições anunciadas pelos sesmeiros, os antigos escravos acreditam que seus novos amigos brancos os defenderão, de maneira que não é mais preciso comprar armamentos. Resolvem, ainda, subir os preços de seus produtos, julgando que os comerciantes compreenderão. Contrariados, os comerciantes aliam-se aos senhores contra os quilombolas. É assim que Palmares fica enfraquecido e, por fim, não resiste às forças inimigas. Toda essa história é contada por meio de músicas, projeções e do recurso constante à caricatura e à sátira – o que aproxima Zumbi das experiências do teatro de agitação e propaganda desenvolvido na União Soviética e na Alemanha, na primeira metade do século 20. Conforme analisa Iná Camargo Costa, professora aposentada da Universidade de São Paulo, Arena Conta Zumbi teve como principal avanço, do ponto de vista formal, o desenvolvimento conjunto de duas formas do teatro de agitprop. “Trata-se do teatro documentário, de pesquisa histórica, no plano do assunto – o quilombo de Palmares –, e do teatro jornal, no plano temático. Os dramaturgos, Boal e Guarnieri, punham na boca dos personagens históricos declarações de generais que saíam nos jornais. Os resultados foram extremamente interessantes, pois o público entendia tudo”, afirma.
No novo momento histórico que o Brasil vive, a reencenação de João das Neves destaca outros aspectos da peça. “Vivemos em uma democracia ainda em construção, com defeitos, mas não mais em uma ditadura. Nesse sentido, aparece para nós, agora, no Zumbi, a necessidade de valorizar a própria luta do negro pela liberdade. A tentativa é de fazer que Zumbi apareça como um herói fundador deste país. Um herói negro, que contestou o regime e fundou uma república, cuja luta permanece”, aponta o diretor. “Naquele momento, a escolha era absolutamente correta, estávamos diante de um fato concreto, que era a ditadura. Esse fato concreto desapareceu, então temos que procurar outras motivações, que estão na peça. Por isso a peça é perene, não depende do momento histórico – é uma peça que vai existir sempre com a força com que foi criada”, completa. Uma das ideias que motivaram a montagem foi justamente o debate sobre a escravidão. “Considero que se fala pouco dessa questão, diante da importância que tem a população negra no Brasil, que é a metade do país. A história desses 50% dos brasileiros não tem o destaque correspondente e, além disso, não se fala nas consequências da escravidão. Creio que ela deixou um lastro no comportamento e nos hábitos do país, como, por exemplo, a tortura”, avalia Cecília Boal. Esses temas serão discutidos paralelamente, em um ciclo de debates. A previsão é de que Arena Conta Zumbi fique por dois meses em cartaz no Rio de Janeiro e, depois, faça uma temporada em São Paulo. Será uma ocasião para retomar debates cruciais para a configuração contemporânea da sociedade brasileira. “Continuo achando que a importância de uma montagem de Zumbi hoje é a mesma da época: mostrar que a luta dos oprimidos neste país é multissecular e tem que prosseguir!”, conclui Iná Camargo Costa.
Serviço: Espetáculo: Zumbi (de Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, música de Edu Lobo). Direção de João das Neves / Direção musical: Titane Local: CCBB/RJ – Teatro II Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro/RJ Telefone: (21) 3808-2020 Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia)
Debates: 14/8: Profª. Liv Sovik (UFRJ): Representações racistas e anti-racistas: como distinguir umas e outras. 16/8: Ronaldo Santos (coordenador executivo da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – Conaq): Quilombolas: territórios e direitos 17/8: Marcus Vinícius Faustini (cineasta, escritor e diretor teatral, autor do Guia afetivo da periferia): Rede para Juventude 21/8: Ricardo Rezende Figueira (UFRJ): Trabalho escravo contemporâneo 22/8: Hebe Mattos (UFF): Memória da escravidão
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cultura
Olhares sobre a terceira
Fotos: Divulgação
CINEMA Filmes no Festival de Locarno trazem visões sobre uma época da vida pouco valorizada Rui Martins de Locarno (Suíça) LOCARNO CONTINUA sendo o Festival da descoberta, do cinema independente e não comprometido. Esta nova safra de filmes mostra alguns temas dominantes. Muitos filmes tratam da velhice, um achado para os atores aposentados e marginalizados pela idade, vivendo um tipo de exclusão que se acentua em tempo de crise. Essa exclusão de uma população inativa pode sugerir a ideia perigosa da sociedade se desfazer dos velhos, sugerindo-lhes o fim da vida, a chamada morte ou suicídio assistido. Melhor coisa não poderia se inventar para se equilibrar os orçamentos das caixas de pensão estatais ou das seguradoras privadas, condenadas a pagarem rendimentos a idosos com esperança de vida cada vez mais longa. O filme francês Algumas Horas e Primavera, de Stéphane Brizé, mostra o que ocorre na intimidade do suicídio dos que decidem colocar um ponto final na existência, seja pelo risco da fase final dolorosa de uma doença grave como o câncer, seja pelo receio de se tornarem velhos decrépitos, senis e dementes. Ou em consequência de uma depressão causada pela solidão. Basta o candidato ao suicídio subir os Alpes e ir à Suíça, onde o decrépito segredo bancário começa a ceder lugar à eutanásia oferecida pelas associações Exit e Dignitas. Num ambiente de extrema frieza, mesmo cruel e asséptico, num pequeno quarto, quase isolado, o suicida toma suas duas poções com sabor de morango ou limão, pode escolher o gosto, perde gradativamente a consciência e morre, para ser logo depois incinerado e suas cinzas serem jogadas num lago ou rio suíço.
Cena do filme francês Algumas Horas e Primavera, de Stéphane Brizé
Alain Delon é outro idoso que tranquiliza seu público dizendo não ter medo da velhice Uma Estoniana em Paris, de Ilmar Raag
Idosos que resistem
Mas nem todos os idosos aceitam morrer diante da velhice, que enruga a pele do rosto, torna os músculos dolorosos e os ossos porosos ou deformados pela artrose, enquanto o sexo, motor da juventude, deixa de existir. Uma Estoniana em Paris, de Ilmar Raag, que conta a vida de uma imigrante estoniana na capital francesa dos anos 30, se destaca por mostrar a imagem vigorosa e corajosa da atriz Jeanne Moreau, que se deixa filmar com suas rugas cobrindo o seu rosto de linda jovem do cinema da nouvelle vague. Na sua determinação de fazer cinema enquanto for viva, não se importando se tiver de viver personagens vencidos pela idade. Como Frida, a artista imigrante estoniana que na juventude viveu as folias da Belle Époque, naquela Paris de pintores de Montmartre, de infidelidades, do absinto e que, casada com um francês rico, o traía com um garçon de café chique, bem mais jovem. O tempo passou, tirou os atrativos de Frida, e Stéphane seu amante procurou carne mais nova; guardou porém a fidelidade de providenciar para Frida uma governanta, cujo relacionamento é a força do filme. Sem filme novo para exibir, mas em Locarno para receber um Leopardo de Ouro pela carreira, feita principalmente com René Clement, Visconti e Melville, Alain Delon é outro idoso que tranquiliza seu público dizendo não ter medo da velhice, mas da doença que possa diminuí-lo. E, diante de uma centena de jornalistas, afirma que seria desrespeitoso para seu público fazer um filme ou aparecer numa entrevista diminuído pela idade e, por isso, quando isso acontecer nunca mais será visto. Um dos melhores, senão o melhor filme do Festival, é o austríaco Der Glanz des Tages – O Brilho do Dia, onde um velho ator de circo, palhaço e domador, Walter Saabel, conta seu passado de aplausos no picadeiro e como teria sido incapaz de viver como um funcionário, sentado durante toda a vida diante de uma mesa, numa mesma sala. Forte e dinâmico, apesar da idade, aproveita seu retorno a Hamburgo, na Alemanha, para procurar um emprego num navio em busca de uma nova aventura. O filme também inclui um plano para trazer clandestinamente para a Áustria a esposa de um amigo vizinho, cujos fi-
O Brilho do Dia, de Tizza Covi e Rainer Frimmel
lhos sofrem a ausência da mãe que, ao ir à Moldávia no enterro do pai, não pôde mais obter visto para o regresso. Não muito velho, apenas cinquentão, Emílio é o pai que retorna ao lar de uma família pobre mexicana, depois de quinze anos de ausência, tendo deixado mulher e filhos por uma aventura e depois por uma francesa que o levou à Europa. O regresso do pai não é bem acolhido, pois a família pôde sobreviver sem ele. Mas o filme mexicano Os Melhores Títulos (Los Mejores Temas), revela com sua história haver no México um grande número de famílias monoparentais, por terem sido abandonadas pelo pai. Paralelamente, existe a velha imagem de um país, a Suíça, hóspede do Festival, que se deteriora em consequência dos escândalos acumulados desde o fim da guerra fria. O dinheiro dos judeus do holocausto roubado pelos bancos, as contas secretas em fase final depois de terem favorecido governos corruptos e ditadores, sociedade de matérias primas que exploram os países pobres fornecedores são mostrados no fim Problema de Imagem (Image Problem), dos suíços Simon Baumann e Andreas Pfiffner, encontrando seus compatriotas na busca de salvar a honra perdida da pátria. Mas o bom filme pode também surgir num fast-food americano, onde um trote pode levar à cumplicidade e uso da violência contra uma empregada, num mecanismo imprevisível de obediência de pessoas à ordens de autoridade e na sujeição de pessoas mais fragilizadas (veja matéria abaixo). Muita coisa para se ver em Locarno. Além dos filmes de Leos Carax, um Open Doors africano reúne os melhores realizadores do cinema francófono africano. Como diz Moussa Touré, autor de La Pirogue, filme senegalês, “na África existem filmes mas não há cinemas para mostrá-los” e nem sempre o Estado assume o financiamento de filmes.
Um trote por telefone Um telefone e os limites da crueladade de Locarno (Suíça) O realizador Craig Zobel com seu filme Cumplicidade, baseado num fato real nos Estados Unidos, mostra como as pessoas, submetidas à pressão, são capazes de gestos e ações inesperadas e quase inexplicáveis. A gerente de um pequeno fast-food recebe um telefonema do chefe do comissariado próximo e é informada de que uma de suas empregadas roubou uma das clientes. O delegado pede para Sandra, a gerente, começar a tomar as primeiras providências, como interrogar a jovem Becky, enquanto ele providencia o envio de policiais. Mantendo-se na linha, o delegado explica à gerente como deve fazer para o interrogatório. A empregada nega
o roubo, mas aceita responder às perguntas, mesmo porque o delegado deixa claro ter autoridade sobre ela e sobre Sandra.
A gerente de um pequeno fast-food recebe um telefonema do chefe do comissariado próximo e é informada de que uma de suas empregadas roubou uma das clientes A situação vai pouco a pouco se tornando cada vez mais grave e patética, mesmo se não chegam os policiais, como despir a jovem para ver se ela não esconde o dinheiro no corpo, dar palmadas na bunda de castigo e o noivo de
Sandra acaba tendo um relação sexual com a jovem, na sequência das exigências do delegado. Craig conta ter havido nos EUA 70 casos parecidos de uma suposta autoridade telefonar para uma rede de fastfood, sob pretextos diversos e assim provocar arbitrariedades e humilhações nos empregados. Na verdade não passa de um trote levado às extremas consequências, que levanta a questão de até onde as pessoas são capazes de ir mesmo em termos de tortura, a pretexto de obedecerem ordens. E por que a vítima submetida a diversos tipos de violência, como ser despida, espancada e mesmo violada, não se revolta ? Seria possível, na Europa, um trote por telefone chegar ao extremo como no filme? Na França, um programa na rádio Europa1 consiste justamente em aplicar trotes, com a diferença de que tratam de questões sem grande importância e que a cômica, Anna Romanof, se identifica ao final. (RM)
cultura
O palhaço
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e a mulher gorila
ANÁLISE Dois filmes uma visão mais domesticada sobre a vida circense brasileira
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Thiago Bradimarte Mendonça O FASCÍNIO circense é uma constante na história do cinema nacional. Do clássico O profeta da fome de Maurice Capovilla a Betão Roncaferro de Amácio Mazzaropi, de Bye Bye Brasil de Cacá Diegues a Gargalhada Final de Xavier de Oliveira. O circo foi desde sempre em nossas telas a manifestação de uma cultura popular nômade e libertária em meio à pobreza e adversidade. Mas de uns anos para cá o sinal parece invertido. Ao assistir dois filmes de produção recente que se inspiram neste universo, têm-se a impressão de que o circo deslocou-se de lugar. Perdeu seu espírito popular, domesticado por uma outra forma de perceber e estar no mundo. Este deslocamento torna-se mais sintomático se pensarmos que os dois filmes citados representam lugares diametralmente opostos no cinema nacional: O palhaço de Selton Mello é um filme comercial, estilo globo-chanchada, visando grandes públicos. A Fuga da Mulher-Gorila de Felipe Bragança e Marina Meliande é um representante do que se convencionou chamar por parte da crítica como novíssimo cinema brasileiro, feito com poucos recursos, circulando principalmente em festivais e salas “especiais”. A princípio, estes filmes nada têm em comum. Parece um desvario crítico colocá-los juntos em uma reflexão. Mas, ao menos em um sentido, eles se aproximam diretamente: no abandono da sensibilidade popular, numa espécie de expropriação simbólica de um universo até então relegado aos “deserdados da terra”. Sejamos justos, eles não estão sozinhos. Assim como faz com o samba, uma parcela da elite nacional procura de todas as maneiras apropriar-se deste legado. Multiplicam-se os circo-escolas, os teatros circenses e os pastiches de Soleil. Os palhaços são substituídos pelos clowns, mais “sofisticados” e palatáveis. O ilusionismo é substituído pela pirotecnia. A magia pela nostalgia.
Cena do filme O Palhaço, de Selton Mello
to maior está justamente na irrealidade daquelas duas meninas, típicas de uma classe-média urbana pretensamente “libertária”, escolherem a vida circense. Lógico que podemos argumentar que o filme é metafórico, que não se trata do real, mas de uma representação. Mas ao retirarmos do circo a corporalidade e a visceralidade do artista popular, restanos o pastiche da experiência a partir de corpos deslocados naquele universo. A escolha do filme em procurar uma manifestação particular de expressão através da fala-canto das atrizes-personagens aumenta esta sensação, pois a matriz desta fala está na experiência da classe-média carioca, a bossa-nova zona sul eclodindo sensorialmente aos ouvidos.
O circo foi desde sempre em nossas telas a manifestação de uma cultura popular nômade e libertária em meio à pobreza e adversidade
Singularidades da mulher gorila Comecemos pela Fuga da mulher gorila, onde esta inflexão é mais óbvia. O filme mostra duas atrizes itinerantes viajando pela estrada em uma Kombi, apresentando o espetáculo (tipicamente circense) da mulher gorila. Ao longo do filme descobrimos que uma delas abandonou o filho, escolhendo a vida nômade de artista. O mesmo drama de tantos circenses, mas agora com outro corpo, outra voz, outro sentido. O estranhamen-
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Lembremos que o circo no Brasil sempre foi um lugar privilegiado de criação musical. Ao substituir a matriz das manifestações musicais circenses (no Brasil profundamente ligadas à cultura popular) por outra, de origem elitizada, é realizada uma escolha político-estética privilegiando a experiência de um grupo social determinado. Talvez aí o limite da aposta atual da nova crítica na afetividade das idéias, em detrimento de uma efetividade das idéias, que não pode deslocar-se da experiência do mundo real. É lógico que os autores podem, com legitimidade, defender que estou exigindo deles uma viagem que não a do filme. Não se trata portanto de condenar as escolhas dos autores, mas apenas de constatar que há, conscientemente ou não,
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uma opção de classe nas suas opções estéticas, que reverberam no corpo, na fala e na forma de manifestar os sentimentos das duas atrizes. O palhaço pós-moderno Esta inflexão, apesar de menos clara, também está presente em O palhaço de Selton Mello. O filme conta a história de Benjamin (Selton Mello), palhaço do Circo Esperança, propriedade de seu pai, o também palhaço Valdemar (Paulo José). Benjamin é um homem em crise existencial, cansado da pobreza do circo e por isso resolve abandoná-lo. Longe dos picadeiros, ele recupera sua identidade, e percebe que não pode viver afastado de sua verdadeira vocação. O palhaço aparentemente mergulha no universo circense brasileiro, sua pobreza e as dificuldades do cotidiano. Mas assume uma estética que se exime dos conflitos, em favor de uma leitura alienada do lugar social ocupado por esta atividade. A insistência na ingenuidade dos diversos tipos que aparecem ao longo do filme torna todas as relações anódinas. Os prefeitos das pequenas cidades visitadas são criaturas toscas e simpáticas, as relações de poder são sempre diluídas. A caricatura excessiva e a procura incessante do riso fácil (que nunca chega) fazem com que o filme não aponte nenhum caminho para a experiência limite da pobreza nômade. A morte do circo, assim como sua sobrevida, é simples obra do destino. A estética publicitária tenta incessantemente substituir com efeitos a falta de eficácia do roteiro e a ausência de envolvimento real com aquele universo. Mas o efeito joga contra o filme: os movimentos de câmera excessivos acabam por prejudicar algumas boas interpretações, como as de Paulo José e Teuda Bara. Os personagens circenses são, de um modo geral, superficiais, com diálogos deslocados e beirando o non-sense, insistin-
do sempre na caricatura. O curioso é que talvez o momento mais próximo da experiência de um palhaço em ação situase em uma cena externa ao circo, quando o veterano ator Jorge Loredo, (que não interpreta um palhaço), conta piadas em uma mesa de bar, em um dos raros momentos engraçados. A impressão final é que a matriz formal do diretor não está no circo, mas na dramaturgia e no humor previsível da televisão. Segue-se a inaptidão do ator-diretor para interpretar o palhaço. A constituição de um palhaço fofura, apela para o chavão mais do que gasto do clown triste. Selton Mello pesa a mão na criação de seu sonhador patético, um Carlitos fora de época, ignorando a constituição do corpo do palhaço em sua visceralidade e espontaneísmo.Sejamos honestos: ele não está sozinho no cinema brasileiro. O descompasso entre o corpo popular e suas representações transparece em diversos filmes. Pensemos por exemplo nas diversas ficções sobre o futebol, onde é explícita a artificialidade dos jogadores em ação. O cinema tem uma corporalidade, uma relação física com a experiência social. Ao deslocar um personagem de sua realidade espacial e temporal em busca de um suposto universalismo, criam-se comportamentos e sensibilidades deslocadas. O palhaço de Selton Mello está muito mais próximo da experiência clownesca dos atuais teatro-circos de classe-média (como Os Parlapatões) do que da tradição circense propriamente dita. É interessante notar, no entanto, a escolha do nome Benjamin, referência a Benjamin de Oliveira, o mais popular palhaço brasileiro do início do século XX. A alusão a este negro forro que fugiu com o circo e tornou-se palhaço parece no mínimo forçada, dadas as características do protagonista do filme. Mas um mérito tem de ser dado a Selton Mello. Ele cria em O palhaço uma nova categoria sociológica. Contrariando todos os relatos de exploração de patrões sobre os circenses na história do circo brasileiro, o dono do circo Esperança é explorado pelos empregados. Surge uma nova representação social, até então (salvo engano) ausente em qualquer filme nacional: o patrão explorado. Este grau máximo de diluição das relações sociais só pode acontecer quando nos abstraímos por completo da realidade retratada, em direção a um suposto universal mítico, recoberto por um manto ideológico da nostalgia em mundo “pós-luta de classes”. Com isso perdemos o que existe de mais essencial no circo, sua matriz popular: se depender do cinema brasileiro contemporâneo o espetáculo não pode parar. Thiago Brandimarte Mendonça é diretor e roteirista de cinema. (http://zagaiaemrevista.com.br)
o balcão
dahmer
gama
PALAVRAS CRUZADAS 1
Horizontais: 1.Modalidade na ginástica que o Brasil ganhou um inédito ouro nas Olimpíadas – “Ninguém”, em espanhol. 2.O gato ___ (verbo).
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3.“Ou”, em inglês – Segunda maior cidade da Síria que está sob fortes combates entre rebeldes e tropas leais ao presidente Assad. 4.Diarréia
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– Sigla de Alagoas. 5.Interjeição de dor – Maior artéria do coração. 6.Um dos Trapalhões – Povo do deserto do Saara conhecido por seu véu azul
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índigo. 7.Sentimento de impulso, energia, entusiasmo. 8. Como na Bíblia é chamado o “deus-dinheiro” – “Corpo”, em inglês. Verticais: 1.Abreviatura em inglês para “também conhecido como”
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– “Assim seja”, em latim. 3.Derrubado por uma pedra lançada por Davi, de acordo com uma história bíblica. 4.Perigo. 6.O oposto do ódio – No-
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me pelo qual o Mussum, dos Trapalhões, chamava a cachaça. 7.País do Oriente Médio que passa por uma guerra civil fomentada por nações
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ocidentais pró-Estados Unidos. 8.Aliança militar que rivalizava com o Pacto de Varsóvia e que hoje lança ataques contra países contrários
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às política dos Estados Unidos e da Europa sob uma bandeira de neutralidade. 9.“Correr”, em inglês. 10.Combate. 11.“(?) do Triunfo”, um dos
a bomba atômica sobre Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945.
Horizontais: 1.Argolas – Nadie. 2.Mia. 3.Or – Alepo. 4.Piriri – AL. 5.Ai – Aorta. 6.Mussum – Tuareg. 7.Élan. 8.Mamón – Body.
13.Nome do avião, batizado com o nome da mãe do piloto, que lançou
Verticais: 1.Aka – Amém. 3.Golias. 4.Risco. 6.Amor – Mé. 7.Síria. 8.Otan. 9.Run. 10.Luta. 11.Arco. 12. Pá. 13.Enola Gay.
principais pontos turísticos de Paris. 12.Ferramenta utilizada para cavar.
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internacional Farfahinne /CC
A ruptura pela luta
“Luta dos Trabalhadores”, diz cartaz em manifestação em Paris
CRISE DO CAPITAL Estado de Direito expõe limites a conquistas sociais Sofia Manzano e Milton Pinheiro, de Paris (França) A CRISE GLOBAL do capitalismo, que atinge de forma contundente sobretudo a Europa, coloca aos trabalhadores a necessidade de pensar as táticas de luta e a conformação institucional às quais suas organizações foram submetidas. Aqueles países em que se propalava a alternativa de melhorar as condições de vida da população, e dos trabalhadores, em especial, pela via da conquista de direitos sociais, econômicos e políticos, estão caminhando aceleradamente para uma situação em que o próprio direito conquistado volta-se, agora, contra esses mesmos trabalhadores e suas lutas. Além da Escandinávia, a França talvez tenha sido o país em que os trabalhadores lograram alcançar um conjunto bastante significativo de direitos, como a jornada de trabalho de 35 horas semanais, a estabilidade no emprego, a representação sindical no local de trabalho, direitos sociais e trabalhistas bastante amplos que garantiram a ascensão das condições de vida dos trabalhadores e a redução das incertezas quanto ao futuro. Esses direitos não foram dados, nem fizeram parte de uma “evolução natural” do desenvolvimento capitalista europeu. Foram duramente conquistados por meio de lutas históricas que remetem à Comuna de Paris.
Além da Escandinávia, a França talvez tenha sido o país em que os trabalhadores lograram alcançar um conjunto bastante significativo de direitos A França construiu, assim, a partir da luta da classe operária, sistemas de saúde pública; educação pública; assistência social - com o chamado aluguel social -; transporte público e subsidiado; e rendas compensatórias - como subsídio moradia para aqueles que residirem distante de seu trabalho. Criou também um sistema de relações de trabalho e previdência social que permitiram aos trabalhadores franceses, no último meio século, alcançar condições de vida estável, digna e com razoável conforto. Quando o país percebeu a tendência de redução populacional, devido ao baixo nível de natalidade, criou programas de incentivo à maternidade com renda para as mães que tivessem mais filhos. A reboque do capital
Todos esses direitos positivados, levaram as organizações dos trabalhadores, seus sindicatos, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), e os partidos de esquerda, principalmente o Partido Comunista Francês (PCF), a acreditarem que a tarefa da classe operária não era mais colocar em xeque o sistema capitalista, senão, lutar por reformas paulatinas que proporcionassem garantias legais a es-
sas conquistas. Dessa forma, pensavam transformar os direitos (do homem e dos trabalhadores) em direitos previstos em lei. Ou seja, direitos enquanto horizonte ético-político, como o direito à vida digna, à saúde, à educação, etc., em direitos como forma de regulação social - leis positivadas que estabelecem normas de conduta. Acreditaram ainda que, assim que estivessem assegurados pela lei, esses direitos estariam garantidos para todo o sempre, o que tornou as estruturas organizativas dos trabalhadores em meras instituições incorporadas à ordem do capital e à estrutura do Estado (de direito). Sendo assim, o horizonte em aberto da possibilidade socialista se transformou no reformismo da “democracia progressiva” como forma de avanço social.
Ocorre que no Estado moderno, a estrutura jurídica, seja ela de qual área for, está submetida, em última instância, às mudanças nas dinâmicas do processo de produção e de acumulação de capital Ocorre que no Estado moderno, a estrutura jurídica, seja ela de qual área for, está submetida, em última instância, às mudanças nas dinâmicas do processo de produção e de acumulação de capital. Assim, direitos sociais conquistados com muita luta durante anos em que vigoram um determinado padrão produtivo e de acumulação de capital, são sumariamente eliminados por reformas de cunho liberal quando muda tal padrão produtivo e o processo de acumulação de capital entra em crise. Esse é o processo que se verifica em curso em toda a Europa. Se durante os quarenta anos seguintes ao pós-segunda guerra mundial os trabalhadores alcançaram melhorar suas condições de vida frente à exploração do capital, estão agora sendo jogados novamente nas valas da situação do capitalismo concorrencial-liberal, similar ao que passaram os trabalhadores do século 19. Aqueles direitos trabalhistas, sociais e econômicos que acreditaram terem conquistados para todo o sempre vão sendo eliminados por processos sumários com uma rapidez que espanta até os mais combativos. No entanto, isso nos permite perceber que as lutas políticas e sociais para garantir direitos no marco legal da institucionalidade burguesa são um jogo da cena política que precisamos romper, por meio da luta dos movimentos sociais não fragmentários; do operador político e das organizações dos trabalhadores que não estão agregadas à ordem do capital. Para piorar a situação, os operadores políticos construídos pelos trabalhadores, seus sindicatos, suas centrais sindicais e seus partidos, tendo se transformado em meros instrumentos do aparato institucionalizado do funcionamento burocrático do capitalismo, não se apresentam mais como reais operadores dos interesses da classe. São aparatos institucionais cooptados pela lógica da acumulação de capital em crise que se rendem às suas chantagens e abrem mão dos direitos duramente conquistados
pela luta de mais de um século. A defesa de “direitos mínimos” passa a ser a prioridade, portanto o programa de luta é rebaixado, a solidariedade entre as gerações e categorias de trabalhadores é solapada, e a competição própria do mercado é cada vez mais internalizada nos comportamentos e na subjetividade da classe trabalhadora que não vê saída para sua situação, a não ser torcer para que o seu maior antagonista, o próprio capital, saia da crise. Para além da simbolismo
Se, por um lado, o fato de uma conquista social, econômica ou política ser positivada em lei não garante sua persistência no tempo, já que não há garantia de mudanças no arcabouço jurídico institucional, a própria positivação de formas de atuação política passa a ser um instrumento que se volta contra os interesses daqueles que presumivelmente deveriam defender. Os trabalhadores do século 19 lutaram bravamente pelo direito ao voto. Ao passo que alcançaram essa conquista, porém, presenciaram, talvez mesmo sem perceber, o esvaziamento do espaço político institucional. As democracias representativas diluem a possibilidade de influência do voto popular nas decisões parlamentares, aperfeiçoam suas regras e criminalizam quem as coloca em xeque. Na União Europeia, a distância ampliou-se ainda mais: um trabalhador francês está muito distante do parlamento europeu, e ainda mais dos conselhos diretores do Banco Central Europeu, e da própria União Europeia, que são, atualmente, as instituições que tomam as decisões que irão impactar diretamente sua vida. O voto, então, é apenas um rito insignificante do processo político, porque a conformação da ordem burguesa em uma política e dois partidos fechou as portas para os novos atores.
Mas então, mais uma vez, esses direitos se voltam contra suas lutas, já que delimitam, impedem e criminalizam qualquer ação dos trabalhadores que não esteja estritamente nos marcos legais Os trabalhadores lutaram e conquistaram direitos trabalhistas, direito à greve, direito a ter seus sindicatos, direito a representação no local do trabalho. Mas então, mais uma vez, esses direitos se voltam contra suas lutas, já que delimitam, impedem e criminalizam qualquer ação dos trabalhadores que não esteja estritamente nos marcos legais. Assim, uma greve nos transportes deve manter determinada quantidade de veículos em funcionamento, de modo que a greve passa a ser apenas um ato simbólico, deixando de ser um instrumento político. Qualquer ação fora dos parâmetros legais passa a ser crime e o aparato policial do Estado está sempre pronto a agir em nome da ordem, ou seja, da ordem do capital. Além disso, o próprio fato de uma rei-
vindicação se consolidar num direito previsto em lei, mas que, na maior parte das vezes demanda orçamento e regulamentação pública específica, esvazia a luta, desmobiliza e remete à esfera das instituições a mitigação dos problemas causados pelo sistema econômico explorador. Essa institucionalização desmobiliza os trabalhadores em luta, abate os ânimos, solapa a solidariedade e aguça o comportamento da saída individual, esgarçando o tecido social e alimentando a xenofobia.
A França da Revolução de 1789 que consolidou os direitos do homem e do extraordinário legado da Comuna de Paris encontrase hoje marcada pela indigência que campeia em suas ruas, praças e monumentos Caldo de cultura mexido pela política da barbárie em curso, através das organizações neonazistas que encontram no arcabouço jurídico da ordem capitalista um espaço importante para crescer, além, evidentemente, da capitulação social-democrata, que com seus governos abrem a passagem do túnel do tempo para o retorno das hordas da vingança, que se manifesta pelo fascismo. A França da Revolução de 1789 que consolidou os direitos do homem e do extraordinário legado da Comuna de Paris encontra-se hoje marcada pela indigência que campeia em suas ruas, praças e monumentos. São idosos que não contam mais com a solidariedade geracional, são imigrantes que construíram a França poderosa e estão jogados em favelas depois de Gare du Nord, em Paris. Mas essa é a França que pode se tornar o laboratório para construção de uma nova sociabilidade, em que o futuro da humanidade está em disputa. Esse país é carregado pelo simbolismo das maiores lutas dos trabalhadores. Porém, se a direita espreita na noite suja, por outro lado, novos atores sociais surgem para impactar a luta: sindicatos e operadores políticos convencidos de que a revolução é um rito de passagem para impedir a barbárie. Constroem, revitalizados, uma nova perspectiva de enfrentamento. Agora, com as lutas em curso na Grécia, com as possibilidades que se abrem na Espanha, Itália e leste europeu, a bandeira vermelha que sempre tremulou na França moderna encontrará seu rumo na nova vaga da luta de classes que se inicia. Vem aí um tempo histórico, onde um novo espectro rondará a Europa. Sofia Manzano é economista, professora universitária e diretora do ICP/Unicamp. Milton Pinheiro é professor de Ciência Política da UNEB e autor/organizador, entre outros, dos livros: 140 anos da Comuna de Paris (2011) e A reflexão marxista sobre os impasses do mundo atual (2012), ambos pela Editora Outras Expressões.
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“A esquerda jamais esteve tão unida” Luciney Martins
PARAGUAI Em entrevista, Fernando Lugo diz que movimentos e partidos progressistas do país estão se reunindo para discutir um projeto nacional da Redação APESAR DE TER literalmente acontecido da noite para o dia, do 21 para o 22 de junho, o golpe contra Fernando Lugo vinha sendo tentado repetidamente desde agosto de 2008, quando tomou posse. Ao longo de quatro anos, foram 23 julgamentos políticos contra o agora ex-presidente do Paraguai. “E olha que fomos ‘buenos chicos’. Não fizemos nenhuma travessura com os organismos internacionais. Não tomei nenhuma medida socialista”, esclareceu Lugo, no dia 2 de agosto, em conversa com quase 30 meios de comunicação alternativos brasileiros, em um hotel em São Paulo. “A continuidade do processo de mudanças que iniciamos é que incomodava.” Em São Paulo para realizar exames no Hospital Sírio Libanês, por conta de um tratamento contra um câncer linfático que o acometeu em 2010, Lugo anunciou que o golpe parlamentar mudou totalmente a sua vida. “Pensava que, terminado meu mandato, em agosto de 2013, eu poderia entregar o poder e dedicar-me a outras coisas. Agora, porém, mais do que nunca, tenho de ser mais político que bispo.” Há um mês longe do Palácio de López, em Assunção, Fernando Lugo hoje em dia se define como um soldado disposto a combater pelo retorno da democracia e do restabelecimento do processo político que se iniciou com sua eleição, em 2008. “Na conjuntura atual, sou simplesmente um articulador pela unidade dentro da esquerda paraguaia”, expressou. “E a esquerda paraguaia nunca esteve em tão bom momento.” O ex-presidente comemora ainda que a aglomeração que respaldava seu governo, a Frente Guasú, esteja composta atualmente por 12 partidos e oito movimentos sociais. “Isso nunca tinha ocorrido na história da esquerda paraguaia”, diz, referindo-se ao impulso de unidade dado pelo impeachment-relâmpago. “Sempre disse que o mais difícil é a construção do consenso. Pode ser fácil entrar em acordo sobre eixos programáticos, mas, quando se trata de candidaturas, o consenso é mais difícil.”
“Na conjuntura atual, sou simplesmente um articulador pela unidade dentro da esquerda paraguaia” Candidatura
Sobre a possibilidade de ele próprio se candidatar a presidente nas próximas eleições em abril de 2013, Lugo explicou que, dado a uma curiosa “hermenêutica jurídica” reconhecida inclusive pela Corte Suprema de Justiça do Paraguai, tecnicamente é possível, apesar de ser mais provável que ele concorra a uma vaga no Senado, como senador ativo. “A Constituição não permite que um presidente se reeleja nem que se candidate a qualquer outro cargo após governar por cinco anos, porque se converte automaticamente em senador vitalício. Mas eu não governei por cinco anos, nem sou senador vitalício. Portanto, tenho via livre para recuperar meus direitos políticos e apresentar minha candidatura.” Sucessores
Na provável ausência do ex-presidente na corrida presidencial, seis nomes despontam como possíveis candidatos da Frente Guasú para o Palácio de López. Metade deles ocupou cargos no primeiro escalão do governo destituído em 22 de junho: Luís Bareiro Spaini, militar ligado ao Partido Comunista, que foi o seu ministro de Defesa; Esperanza Martínez, ex-ministra de Saúde; e Miguel Ángel López Perito, ex-secretário-geral da Presidência. Também se apresentaram o economista Fernando Camacho, Xixto Pereira, que vem das lutas sociais, e o jornalista Mário Ferrero – cujo nome é bem recebido pelos grupos da Frente, segundo Fernando Lugo. “Primeiro porque não está atrelado a nenhum partido, o que lhe dá certa vantagem. Pode ser uma opção interessante”, admitiu, explicando que as siglas e movimentos tradicionais da política paraguaia estão bastante desgastados junto ao eleitorado. “Uma das fortalezas da Frente Guasú é a debilidade dos partidos tradicionais, que estão muito divididos.”
O ex-presidente paraguaio Fernando Lugo em entrevista coletiva realizada em São Paulo
Para Lugo, a próxima eleição será uma disputa entre uma esquerda renovada e uma direita que “não está reciclada”. “Por isso há esperança. A sociedade paraguaia está mais polarizada do que nunca. Se a esquerda também conseguir aglutinar forças não políticas, tem chances.” Segundo ele, uma das vantagens da Frente Guasú reside na divisão dos partidos tradicionais do país. “A direita paraguaia passa da euforia à depressão em muito pouco tempo. Acreditava que seria muito mais fácil executar o golpe. Achava que a Unasul [União de Nações Sul-Americanas] não reagiria, que a comunidade internacional aceitaria. É um completo isolamento político”, destacou. O golpe
“Aceitamos as regras do jogo. Tínhamos boas relações com os organismos internacionais e apresentava todos os indicadores conservadores que eles gostam de ver, como economia em crescimento, inflação controlada, multiplicação das reservas internacionais, pagamento das dívidas. Éramos bons meninos. Mas havia um perigo. A continuidade do processo de mudanças. Isso sim incomodava. Estávamos economicamente bem, mas politicamente tínhamos articulações com grupos sociais”, analisou. “Quando eu começava na política, me diziam que 70% das decisões eram tomadas fora do país. Não quis acreditar. Hoje, pela minha experiência, não des-
carto totalmente essa possibilidade”. Segundo Lugo, no Paraguai – assim como na maioria dos países do mundo – o autêntico poder não mostra o rosto. No caso paraguaio, ele citou o narcotráfico, os produtores de soja e as transnacionais do agronegócio. “O governo golpista tomou já quatro medidas que nos fazem pensar na ingerência desses poderes de fato na política paraguaia. A primeira é o fim do imposto à exportação da soja. A segunda é a permissão da entrada no país de soja transgênica, sendo que nosso governo estava trabalhando pela recuperação das sementes nativas. A terceira medida é o anúncio do pagamento de uma dívida que o Paraguai nunca contraiu.
“Uma das fortalezas da Frente Guasú é a debilidade dos partidos tradicionais, que estão muito divididos” Um empréstimo de 80 milhões de dólares feito durante a ditadura Stroessner e que nunca chegou ao país. A quarta medida é a negociação da instalação da empresa Rio Tinto. Como é possível quererem produzir alumínio no Paraguai se a matéria-prima e o mercado estão no Brasil? Estão negociando que o preço da energia para essa empresa fi-
que por 30 anos sem reajuste, uma perda de 14 bilhões de dólares. Sem dúvida, essas multinacionais têm o poder de fato”, esclareceu.
“Acredito em Deus e nos milagres, mas nesse eu não acredito” Por isso mesmo, Lugo defendeu que para que haja mudanças estruturais no Paraguai é preciso a instalação de uma Assembleia Constituinte que tenha como uma das prioridades incidir sobre a propriedade da terra no país. Além disso, disse, outro grande desafio é conquistar um grande respaldo no parlamento. Sobre uma possível reversão do golpe e volta à Presidência, Lugo explicou que há dois caminhos. Um deles passa pela Corte Suprema, que no momento analisa a constitucionalidade do julgamento promovido pelo Congresso. A segunda via é a política, desde que o Senado reconheça que o processo foi irregular e volte atrás em sua decisão. O presidente deposto, no entanto, embora admita que exista a possibilidade de voltar ao cargo, não está otimista. “Acredito em Deus e nos milagres, mas nesse eu não acredito”, brincou. (Com informações de Tadeu Breda, da Rede Brasil Atual e Igor Ojeda, da Carta Maior).
“As transnacionais são as que têm o poder de fato” Presidente deposto coloca como principal desafio do país alterar a estrutura políticoeconômica da propriedade privada da terra Luiz Felipe Albuquerque de São Paulo (SP) Dentre as forças que não mostram a cara, há um poder que se sobressai, de acordo com Lugo: o poder do agronegócio. A relação com os agrotóxicos – um dos seus braços – tampouco é deixada de lado pelo ex-presidente. Ao comentar que quase 70% dos agrotóxicos que entravam no país se inseriam ilegalmente, outra curiosidade é colocada por Lugo: a mudança do diretor do Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes (Senave) logo após o golpe, o empresário de agroquímicos Jaime Ayala tomou posse. Ele, segundo Lugo, é um dos que contrabandeava agrotóxicos. Além disso, Ayala foi responsável por, logo em
seguida, liberar a comercialização de uma série de sementes transgênicas, sobretudo da transnacional Monsanto. Questão Agrária
Dentro da grave crise política pela qual passa o Paraguai, o presidente deposto coloca como principal desafio do país alterar a estrutura político-econômica da propriedade privada da terra. Para se ter uma ideia do problema agrário do país vizinho, o Paraguai é o país com maior concentração de terras do mundo, de modo que cerca de 2% dos proprietários rurais são donos de mais de 80% das terras agrícolas do país.
“Hoje, depois do Paraguai, acredito que qualquer país tem que estar alerta” Sobre essa questão, Lugo apresentou um dado um tanto quanto curioso: dentro dos 406.752 Km² de extensão do país, somados todos os títulos de propriedade de terra chega-se aos absurdos 529.000 km². Ou seja, a quantidade de títulos de posse é maior do
que o tamanho do próprio país, o que demonstra o quanto há de terras griladas por parte dos grandes fazendeiros no Paraguai. Golpes e recursos naturais
Um outro tema ainda tratado por Lugo foi o dos recursos naturais. “Eu não sei em que país será, mas o próximo golpe será onde as transnacionais quiserem ter acesso direto e livre aos recursos naturais na América Latina”, destacou. Nesse sentido, Lugo pontuou a existência de diferentes blocos de países na América Latina, com características próprias, com lógicas econômicas distintas e posicionamentos ideológicos diferenciados, mas que toda essa movimentação da última década na tentativa de uma articulação e interação do continente provocou uma contrarreação de setores nacionais e internacionais antagônicos a essa nova proposta. “Hoje, depois do Paraguai, acredito que qualquer país tem que estar alerta. O mais importante é estarmos atentos às novas formas e modos de golpe. O golpe tem muitos rostos hoje em dia. Uma transnacional pode conseguir do Congresso Nacional uma lei que a beneficie, ou pode mudar um presidente, em qualquer lugar.” (Página do MST)
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américa latina Fotos: Comando Carabobo/CC
Chávez usa Lula e mira classe média Chávez em campanha: tentativa de atrair para seu palanque uma enorme classe média ascendente
ELEIÇÕES Campanha na Venezuela entra em seu primeiro mês com polarização entre ricos e pobres. Pleito será em 7 de outubro próximo Jônatas Campos de Caracas (Venezuela) O PRINCIPAL clipe da campanha do candidato à reeleição na Venezuela, Hugo Chávez Frias, mostra vários rostos olhando para o espelho. Índios, brancos, negros e crioulos (como chamam os mestiços aqui) cantam um “país cada vez mais forte” que começa a ter orgulho de suas conquistas. A mensagem, que se assemelha muito com o mote da campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006, não é por acaso. Com economia forte impulsionada principalmente pelos lucros com a venda de petróleo, o governo Chávez tenta atrair para seu palanque uma enorme classe média que ascendeu de status graças aos massivos investimentos públicos em moradia, crédito e alimentos. É do interesse do comando chavista o caráter plebiscitário da campanha, se a população apoia ou não o governo. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), o segmento da população considerado acima da linha de pobreza passou de 49,2% (11 milhões de cidadãos), em 1998, para 59,5% (17,5 milhões) em 2011. O corte é uma renda domiciliar igual ou maior que 3,6 mil bolívares, pouco menos de R$ 1,7 mil em maio de 2012. Além disso, mais de 1,5 milhões de venezuelanos passaram a ser beneficiados pela Previdência Social, um salto de 400% de 1999 a 2011.
Desde que iniciou sua campanha, o presidente acrescentou aos seus discursos novidades que fazem o gosto da classe média Desde que iniciou sua campanha, o presidente acrescentou aos seus longos discursos novidades que fazem o gosto da classe média, como a “eficiência no governo”. O presidente também vem reafirmando sua identidade cristã, em um país majoritariamente católico. “Chamemos a classe média, porque essa revolução também é dela”, disse Chávez em um discurso na paróquia de Petare, conjunto de bairros populares que agregam 500 mil habitantes e palco de várias derrotas chavistas para prefeito, deputados e governador. O chavismo também vem expandindo a oferta do ensino superior, com a criação das universidades Bolivariana e Experimental das Forças Armadas (Une-
fa). O governo afirma que aumentou em 198% as matrículas no ensino superior entre 1998 e 2011. “Nossa proposta revolucionária apresenta um projeto de país definido com o desenvolvimento social da nação. Queremos ser uma potência científica, agroindustrial, diplomática e militar”, afirma o deputado nacional Xoan Noya, do Partido Socialista Unificado da Venezuela (Psuv), mesma legenda de Chávez.
les iniciou sua campanha em um pequeno povoado indígena na fronteira com o Brasil e afirma já ter percorrido mais de 100 dessas localidades. “Nossa meta é visitar mais 195 povos”, diz o coordenador da campanha de Capriles em Caracas e representante do partido Voluntad Popular, Carlos Vecchio. “Henrique está escutando as pessoas, apresentando suas propostas”, defende.
Capriles Radonski
O oposicionista também se detém ao discurso do combate à violência, problema social que o Chávez não conseguiu combater
Já o candidato do conjunto de partidos denominado Mesa da Unidade Nacional (MUD), o jovem governador do estado Miranda, Henrique Capriles Radonski, 40 anos, se apega a um discurso de oposição, prometendo mudanças nas políticas governamentais e reconciliação dos venezuelanos, segundo ele, “divididos” pelo atual governo. O oposicionista também se detém ao discurso do combate à violência, problema social que o Chávez não conseguiu combater e que aparece nas pesquisas como a principal preocupação do venezuelano. Com altos índices de aprovação na classe mais abastada (AB) e na classe média alta (C), Radonski precisa do voto das classes D e E (média baixa e popular), onde estão os mais pobres e também os mais beneficiados pelos programas do governo federal. Com carreira política ascendente, Radonski foi deputado nacional aos 26 anos, prefeito de Baruta (de 2000 a 2008), que integra o Distrito Metropolitano de Caracas, e atualmente é governador do estado Miranda. Esta é sua primeira tentativa de assumir o poder executivo central. Segundo pesquisas da Mercanalisis, nos municípios de Barutas e Chacao, onde vive grande parte das famílias ricas e média-altas da Grande Caracas, Capriles teria 81% dos votos. Mas só esses votos não são suficientes para um êxito nesta campanha eleitoral. Por isso, o comando de sua campanha criou o que chama de “caminhadas povo a povo”, onde promete visitar cada rincão da Venezuela até o final das eleições. Tudo em busca do voto popular. Capri-
Pesquisas
Desde 1º de julho, quando se iniciou a campanha eleitoral, todas as pesquisas apresentam Hugo Chávez com uma média de 15 a 20 pontos à frente de Capriles Radonski. Neste um mês de campanha, nem o mais otimista dos apoiadores do presidente imaginaria tantos fatores positivos em seu favor. Os recentes sucessos da tímida seleção de futebol do país e o envio da maior delegação de atletas às Olimpíadas impulsionaram ainda mais o patriotismo do venezuelano. Característica majestosamente capitaneada por Chávez. Ademais, além da declaração expressa do presidente Lula em seu apoio, vídeo que está sendo exaustivamente utilizado na campanha eleitoral, o presidente viu um antigo objetivo concretizado imprevisivelmente: a entrada da Venezuela no Mercosul, motivada pela suspensão temporária do Paraguai do bloco, único país cujo parlamento se opunha ao ingresso do país caribenho. Capriles Radonski tem em seu favor governadores dos estados mais ricos e populosos. Táchira, Zulia, Nova Esparta, Miranda, Carabobo, Monargas, Lara e a Alcadia Metropolitana juntos agregam mais de 50% do eleitorado na Venezuela.
Tanto Chávez afirma que vai eleger seus candidatos em 16 de dezembro, quando acontecem eleições para governador e integrantes dos conselhos regionais em 23 estados, como Capriles afirma que esse apoio massivo dos atuais mandatários vai lhe garantir a vitória. Se a boa avaliação do governo de Chávez não se converteu, até hoje, em vitórias dos seus candidatos a governadores e prefeitos, tampouco esse forte apoio para Radonski significa voto na urna. Para o doutor em Sociologia e professor da Universidade Católica de Pernambuco, Afonso Chaves, há vários casos onde lideranças bem avaliadas não conseguem transferir votos. “Cada eleição apresenta suas características específicas, seja pelo tipo de questões envolvidas na disputa para cada cargo executivo, seja porque o período no qual ocorre o pleito pode desencadear vários fenômenos que conformem o resultado”, lembra. Se para o veterano Hugo Chávez a forte polarização das classes sociais e os enormes investimentos estatais em todas as áreas da sociedade venezuelana garantem uma vantagem eleitoral, quiçá nunca experimentada nesses 14 anos de governo, ao jovem Capriles Radonski resta garantir o voto dos mais abastados e seguir com sua intensa campanha, onde cumpre cerca de três agendas por dia e, segundo Carlos Vacchio, já o fez percorrer mais de 300 quilômetros de caminhadas em povoados e comunidades pobres.
“Nossa proposta revolucionária apresenta um projeto de país definido com o desenvolvimento social da nação” Segundo um chavista do alto escalão que pediu para não ser identificado, com a entrada no Mercosul, o presidente terá que enfrentar a contradição da falta de diálogo com o setor produtivo e empresarial e a necessidade de incentivar a produção nacional. “Só vendemos petróleo”, disse, analisando também que a “elite” venezuelana acha mais fácil investir na bolsa do que produzir. “A rentabilidade aqui é mais baixa que comprar bônus do governo. Os empresários daqui são bons contadores, mas péssimos trabalhadores”, disse. Mercosul
Partidários de Chávez se reúnem em Petare, no município de Sucre, região metropolitana de Caracas
Assim que chegou de sua viagem ao Brasil, onde participou do ato de inclusão do seu país ao Mercosul (Mercado Comum do Sul), o presidente Hugo Chávez concedeu entrevista coletiva ontem (01/08) para enumerar as recentes conquistas da Venezuela por sua entrada no bloco regional. Além do acordo firmado com a Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) para a compra de seis aviões comerciais no valor de 270 milhões de dólares e da aliança com a petrolífera argentina YPF, Chávez também anunciou a intenção de empresas como a General Motors (GM), Samsung, Yamaha e Renault se instalarem no país.
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A soberania política e econômica Wilson Dias/Agencia Brasil
MERCOSUL Com a entrada da Venezuela, bloco passa a ser a quinta maior economia do mundo Pedro Rafael Ferreira de Brasília (DF) A ENTRADA da Venezuela no Mercosul, formalizada há pouco mais de um semana, traz consigo mais do que um significativo aporte nas relações econômicas entre os países-membros. O processo de integração consolida a guinada do bloco na última década, quando passou aplicar políticas sociais para superar o desafio do desenvolvimento regional. Ao Brasil de Fato, o embaixador da Venezuela no Brasil, Maximillien Sanches, destacou o perfil do novo bloco, que transcende sua perspectiva meramente comercial. “O Mercosul dos últimos dez anos incorporou essa temática de seus governos progressistas, em uma mirada de complementação regional ampla, não apenas econômica, mas social e política”, apontou. A experiência da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) pode ter sido um fator influente na políticas comuns de desenvolvimento baseadas na cooperação, solidariedade e complementação. “Esse processo latino-americano fez com que os governos brasileiro e argentino criassem atrativos para um novo tipo de integração no Mercosul”, avalia Luciano Severo, professor de Economia da Universidade de Integração Latino Americana (Unila), em Foz do Iguaçu. Ele dá exemplo: “Foi ao longo da última década que o Mercosul passou a fomentar espaços, dentro da estrutura formal, para tratar de temas sociais, como educação e saúde, cooperação energética”. Severo é um dos maiores especialistas brasileiros sobre economia da Venezuela. Foi consultor no Banco de Comércio Exterior da Venezuela (Bancoex), assessor do Ministério de Indústrias Básicas e Mineração daquele país e mais recentemente exerceu a função de diretor-executivo da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Venezuela no Rio de Janeiro. “Tem também a institucionalização política do bloco, com a implantação do Parlamento do Mercosul, a cláusula democrática para os países membros e outros mecanismos participação cidadã”, comenta Pedro Barros, economista e chefe da Missão do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) na Venezuela.
“Foi ao longo da última década que o Mercosul passou a fomentar espaços para tratar de temas sociais, como educação e saúde” Financiar o próprio desenvolvimento
Na avaliação dos especialistas, um dos instrumentos mais centrais nessa nova fase do Mercosul é o chamado Fundo para a Convergência Estrutural (Focen), implantado em 2006. Primeiro instrumento financeiro do bloco, o Focen permite corrigir as assimetrias que dificultam a integração regional e são canalizados para os países mais pobres e com menos estrutura. Por isso, a contribuição financeira é proporcional à capacidade de cada país membro. No total, são 100 milhões de dólares, não reembolsáveis, dos quais 70% são financiados pelo Brasil, 27% pela Argentina, 2% pelo Uruguai e 1%, do Paraguai. Já os recursos que financiam projetos de desenvolvimento são aplicados de forma inversa, com o Paraguai recebendo 48% do total do Fundo e o Uruguai, 33%. Brasil e Argentina recebem um percentual menor. A entrada da Venezuela seguirá ampliando o fundo estrutural e abre caminho para discutir aspectos considerados ainda mais “estratégicos” para a soberania política e financeira da região. É o caso do Banco do Sul, instrumento concebido pelo governo Chávez e que se desenvolve no âmbito da União Latinoamericana de Nações (Unasul), que agora pode ter seu fortalecimento impulsionado pelo Mercosul. Outra proposta que deve ganhar uma dimensão política no bloco é o Fundo Latinoamericano de Reservas, criado na década de 1970, como uma espécie de FMI do continente, do qual são países membros Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela. “Se esses projetos forem trazidos para o Mercosul, será um impacto fabuloso. O Banco do Sul financiaria projetos de desenvolvimento a longo prazo e o Flar poderia socorrer países em crise, rompendo com a dependência Fundo Monetário Internacional e de instrumentos como o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Seria uma guinada geopolítica sem igual”, acredita Luciano Severo.
Os presidentes Hugo Chávez, Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e José Pepe Mujica durante reunião do Mercosul
Mercosul do norte Integração regional pode viabilizar cadeias produtivas associadas à petroquímica e indústria naval de Brasília (DF) Da Patagônia ao Caribe, a nova configuração geográfica do Mercosul incorpora uma área com a maior biodiversidade e a mais extensa reserva de hidrocarbonetos do planeta. Esse novo polo equilibra a integração econômica que até agora só focava a região sul do continente. De imediato, com o ingresso da Venezuela, a exportação intra bloco deve ter um acréscimo de 20%. Os países membros e associados do Mercosul comercializam uma gama de 650 produtos, entre cereais, manufaturas, carne, madeira, frutas, vegetais, derivados de petróleo, produtos têxteis, entre outros. O embaixador da Venezuela no Brasil, Maximillien Sanches, entende que a entrada de seu país no bloco fecha a “equa-
ção energética” da região. “Ademais do nosso enorme potencial humano, a nova dimensão trará uma independência extraordinária ao Mercosul”, afirma. Chefe da Missão do Ipea no país vizinho, Pedro Barros crê que a estratégia para fomentar um processo de integração produtiva deve ser a busca pela complementaridade entre as economias, baseada no planejamento. A cadeia vinculada ao setor petroleiro, diz o economista, tem tudo para ser o carro-chefe da expansão da demanda.
“O Mercosul agora é peça central para a equação de duas questões centrais para o futuro da sociedade global: a segurança energética e a alimentar” “O bloco será uma potência energética. Com os recursos da Faixa do Orinoco, a Venezuela será o país com maiores reser-
vas comprovadas de hidrocarburetos líquidos pesados e extra pesados do mundo. O Brasil tem o pré-sal. É o potencial para desenvolver uma poderosa indústria de insumos para o petróleo”, pontua. Na avaliação de Barros, a demanda conjunta dos dois países, mais a Argentina, através da estatal YPF, podem impulsionar a indústria naval para a fabricação de petroleiros, por exemplo, necessários ao processamento e transporte do combustível. “Por ser também o segundo maior produtor agrícola do mundo, o Brasil tem uma forte demanda por fertilizantes, como o fosfato, mas o país ainda não é autossuficiente. Nesse aspecto, há um enorme potencial de complementaridade com a Venezuela, que pode fornecer o insumo ao Brasil”, exemplifica. “Se considerarmos que o Mercosul já era um dos principais produtores de alimentos, vemos agora que o bloco é peça central para a equação de duas questões centrais para o futuro da sociedade global: a segurança energética e a segurança alimentar”, avaliou o embaixador Antonio José Ferreira Simões, Subsecretário-Geral da América do Sul, Central e do Caribe, em entrevista à Agência Carta Maior. (PRF)
Aproximação acelerada Países planejam colaboração em área de infraestrutura e desenvolvimento social de Brasília (DF) Apesar de mais de cinco séculos de história, o primeiro encontro entre chefes de Estado da Venezuela e do Brasil só foi ocorrer no fim do século 19. O segundo encontro, já no século 20, ocorreu em 1973. “Mesmo vizinhos, Brasil e Venezuela viveram a maior parte de suas histórias de costas um para o outro”, diz Pedro Barros, chefe da Missão do Ipea no país vizinho. As relações bilaterais só se fortaleceram de forma efetiva nos anos 1990, ainda durante os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso e com a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1998. Mas o patamar superior dessa aliança estratégica se deu mesmo na última década. Em 2007, as diplomacias definiram uma agenda trimestral de encontros presidenciais, que coincidiu, não por acaso, com o ingresso do país como membro associado do Mercosul, um ano antes. “As relações entre o Brasil e a Venezuela alcançaram um momento especial e um nível bastante elevado, que abrem inúmeras perspectivas que se-
rão ainda mais favoráveis com a entrada do país no Mercosul. Poucos países contam com tantas importantes agências brasileiras estabelecidas em suas capitais e principais cidades”, comenta Luciano Severo, economista e professor da Universidade de Integração Latinoamericana (Unila).
“Mesmo vizinhos, Brasil e Venezuela viveram a maior parte de suas histórias de costas um para o outro” Há acordos de cooperação do Brasil com a Caixa Econômica Federal – que empresta sua expertise para viabilizar o programa habitacional do governo venezuelano, ao estilo do “Minha Casa, Minha Vida”, que lá já assegurou a construção de 300 mil moradias –, com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Associação Brasileira de Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), Instituto do Coração (Incor), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre outros. Na relação comercial, o Brasil tem um saldo extremamente favorável. Em
2003, as exportações do chegaram a 600 milhões de dólares. Já em 2008, este valor havia sido multiplicado por nove, superando os 5,2 bilhões. Em 2009, mesmo com a diminuição das exportações como reflexo da crise internacional, as vendas brasileiras para a Venezuela alcançaram 3,6 bilhões de dólares, sendo cinco vezes maior do que em 2003. Em 2011, foi de 4,7 bilhões. Progresso social
Se a balança comercial entre os dois países requer a correção das assimetrias, o Brasil tem o que aprender com a Venezuela em termos de progresso social. Ao longo dos últimos anos, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país – fator que mede de forma combinada a renda per capita, expectativa e de vida e grau de escolaridade – melhorou muito e já é um dos melhores do continente. A distribuição de renda (medida pelo coeficiente Gini) também cresceu, alcançando a marca de 0,39 em 2010 contra 0,5 dos anos 1990 (quanto mais próximo de 0, melhor o desempenho). Desde 2005, o país é considerado pela Unesco território livre de analfabetismo, façanha que o Brasil não está perto de conquistar. “Em relação às metas do Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, fixadas pela ONU, a Venezuela tem tido um dos melhores resultados. Nem mesmo no auge da renda gerada pelo petróleo, na década de 1970, houve progresso social tão significativo, o que resulta de políticas sociais efetivas”, avalia Luciano Severo. (PRF)
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de 9 a 15 de agosto de 2012
internacional
Kofi Annan incapaz de mediar conflito UN
SÍRIA Resolução apresentada pela Arábia Saudita na ONU permite que tanto EUA quanto a Grã Bretanha apoiem rebeldes Achille Lollo correspondente em Roma (Itália) BAN KI-MOON tentou salvar, antes de tudo, a imagem das Nações Unidas pedindo aos delegados da Arábia Saudita para que modificassem a proposta de resolução. A ONU falhou. Não só porque a Rússia e a China vetaram todo tipo de resoluções que atacavam a Síria. Falhou porque, como no caso da Líbia, não manteve a necessária equidistância diplomática, mas passou a apoiar somente as posições de EUA, Israel, Arábia Saudita, Qatar e Turquia. Estados que, desde 2009, haviam decidido que o governo sírio de Bashar El-Assad devia passar para as mãos de seus “pupilos”. Um complicado contexto político, diplomático e militar que o negociador da ONU, Kofi Annan entendeu e tentou resolver impondo como primeiro ponto das negociações o fim dos combates. Durante sua missão Kofi Annan se chocou com “os amigos da Síria” – EUA, Israel, Arábia Saudita, Qatar e Turquia – que exigiam da ONU uma imposição ao governo sírio de “corredores aéreos” para impedir o bombardeio das populações civis. Na realidade, Kofi Annan descobriu que com as chamadas fly road os rebeldes poderiam se movimentar com armas pesadas ao redor das cidades sem serem interceptados da aviação governamental e, também, receber com maior abundância a ajuda militar dos países que se qualificam “amigos da Síria”. Por sua parte, Kofi Annan chegou à conclusão de que “rebeldes e governo sírio não querem interromper os combates e, quando dizem fazê-lo, é porque, na realidade, estão preparando uma contra-ofensiva”. Diante desse quadro, Annan, que conhece muito bem o cinismo e o oportunismo da atividade diplomática internacional, renunciou, deixando o Secretário Geral da ONU cada vez mais sozinho e perplexo. Obama, CIA, M15
É com base no fracasso de Kofi Annan que a CNN veiculou a notícia de que
Kofi Annan, enviado especial da ONU para a Síria, durante entrevista coletiva
Na realidade, Kofi Annan, descobriu que com as chamadas fly road os rebeldes poderiam se movimentar com armas pesadas ao redor das cidades sem serem interceptados da aviação governamental
o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, havia oficializado o plano de desestabilização do governo sírio de Bashar al Assad, assinando um decreto que conferia à CIA – serviço secreto estadunidense – e outras agências top secret o poder de “apoiar amplamente a rebelião na Síria até derrubar o governo de Bashar al Assad”. Em seguida, EUA e Israel tramaram com a Arábia Saudita, Qatar e Turquia uma resolução da Assembléia Geral para justificar as atividades subversivas que estes países estão desenvolvendo contra a Síria desde março de 2011. De fato, o embaixador russo na ONU, Vitaly Churkin, ao registrar o voto negativo da Rússia sublinhava que “o fracasso da missão de Annan foi determinado pelos países que sustentam militar e financeiramente os rebeldes e são esses mesmos países que hoje propõem uma resolução na Assembléia Geral contra a Síria”. Também o embaixador do Irã na ONU, Ramin Mehmanparast, após ter votado contra a resolução da Arábia Saudita declarava, enfático: “Nós denunciamos todos os mandados que estão sendo elaborados no momento em que os mesmos violam o direito internacional, violam o plano de paz das Nações Unidas, violam a jurisprudência dos mesmos Estados Unidos e sua Constituição. O que está sendo feito, na realidade, é uma operação secreta totalmente criminosa.” Visto que Obama livrou a cara da CIA, também o ministro das Relações Exteriores da Grã Bretanha, William Hague, reiterou que seu país tem sim ajudado os rebeldes fornecendo equipamentos de telecomunicações e que iria “continuar a ajudá-los tendo em conta o fracasso do processo diplomático liderado por Kofi Annan.” As palavras de Hague praticamente confirmam as denúncias dos governos da Rússia e da China quando ponderam que a ONU não pode tomar partido e apoiar unicamente os rebeldes e depois dizer que vai abrir negociações justas entre os beligerantes. Infelizmente, após a facilidade com que EUA e os países da Otan manipularam o Conselho de Segurança da ONU e silenciaram a Assembléia Geral, criando um “ad hoc” com status especial e juridicamente capaz de justificar o ataque à Líbia, a resolução apresentada pela Arábia Saudita é apenas a fachada de um projeto de subversão geoestratégica em curso. Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.
Conflitos se intensificam pelo controle de Aleppo
Na Líbia, primeiro atentado em Trípoli contra o governo
Governo de Bashar al Assad aposta na retomada da cidade e prepara um cerco com 20 mil soldados
Um grupo de “terroristas” fez explodir, em 5 de agosto, um carro-bomba no centro da capital, Trípoli, destruindo o prédio onde estava instalado o Comando Central da Policia Militar. Por ser a única a filmar o local do atentado no momento em que as ambulâncias retiravam os feridos, entre os quais um imigrante tunisiano que estava preso, a TV árabe Al Arabya – não resistindo à possibilidade de veicular no mundo inteiro um “scoop exclusivo” – decidiu romper o silêncio e produziu um programa sobre os novos terroristas e as violências cometidas na Líbia. Porém, para tornar o scoop mais crível, a TV árabe revelou que dias antes houve outro atentado, desta vez, no centro de Benghazi, cujo alvo foi o quartel geral dos Serviços Secretos Militares. Um atentado que, apesar de não ter provocado vítimas, apenas danos à fachada do prédio, chamou a atenção dos investigadores e de seus “assessores europeus”. Fato é que isso tudo ocorre quando Benghazi não abriga mais as estruturas dos comitês revolucionários criados por Muamar Kadafi. Portanto, a pergunta que mais recorre nas reuniões dos chefes militares, policiais e membros do governo é: “quem preparou as auto-bombas e porque iniciar os atentados mesmo em Bengase e não em Trípoli?”. Até hoje, ninguém do governo deu uma explicação e, por outro lado, nenhum grupo armado reivindicou o atentado com uma mensagem. A situação no interior é ainda mais complicada por causa do comportamento das diferentes milícias que bloqueiam carros ou caminhões de transnacionais petrolíferas exigindo de seus motoristas o pagamento de uma “taxa revolucionária”. Neste contexto, vários membros do novo governo pediram aos embaixadores dos Estados Unidos e seus aliados da Otan para não impedir a chegada no Líbano dos mujahdin e, posteriormente, sua imediata infiltração na Síria para se juntar às fileiras do Exército Livre Sírio. Neste contexto, um correspondente da France Presse revelou que, na cidade síria de Aipo, estaria operando uma inteira “brigada revolucionária” líbia, sob o comando do general Al-Maljhdi al-Harati, famoso por ter sido o primeiro a entrar em Trípoli após a fuga de Kadafi e pela repressão sangrenta que operou contra todos imigrantes africanos negros e os funcionários públicos. (AL)
correspondente em Roma (Itália) Desta vez, está em jogo na batalha de Aleppo o futuro político do Exército Livre Sírio (ELS), bem como a consistência estratégica do governo de Bashar al Assad. Por isso os chefes do fundamentalismo islâmico, em particular os sunitas organizaram uma autêntica Guerra Santa (Jihad) contra a Síria, considerando que a população síria de religião alauita, cristã-ortodoxa, maronita, drusa, turcomana são, no conjunto, simplesmente “infiéis que devem ser eliminados”. Desta forma a Irmandade Muçulmana Síria pretende devolver a Síria aos islâmicos fundamentalistas. Ou seja, todos os povos sunitas dos Estados petrolíferos do Golfo Pérsico, da Jordânia, do Líbano, de uma parte do Iraque e, sobretudo, da Turquia. Um projeto que mistura, com muita confusão e oportunismo, os sonhos dos clãs sunitas com os perspectivas geo-estratégicas do imperialismo e do Estado sionista de Israel. Por sua parte, o governo de Bashar al Assad aposta na retomada da cidade de Aleppo e por isso seus generais prepararam um gigantesco cerco com 20 mil soldados, centenas de tanques e baterias de canhões de longo alcance, além de um uso maciço da Força Aérea (helicópteros e caças-bombardeiros) para esmagar fisicamente os 10 mil mujahdin, entrincheirados nos bairros de Salah Al-Din e Seif al-Dawla.
Estes, oriundos da Chechênia, Bósnia, Líbia, Iraque, Jordânia, Argélia, França e até da Suécia, esperando resistir ao ataque final do exército sírio e eventualmente contra-atacar e conquistar a capital Damasco. Foi neste contexto que a Turquia tentou bombardear o aeroporto de Aleppo para impedir a aterrissagem dos helicópteros e dos jatos. Em resposta, o governo sírio mandou logo uma severa advertência. Assim, para maquiar o recuo da Turquia, a mídia ocidental divulgou outra invenção da TV Al Jazeera, segundo a qual os rebeldes teriam capturado um tanque e viajado tranquilamente até Aleppo para, depois, entrar no aeroporto e disparar contra a pista de aterrissagem. Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi, pressiona seus homólogos da Turquia e do Qatar exigindo a libertação imediata dos 48 peregrinos que o grupelho ligado a Al Qaeda (Frente Al-Nusra) havia sequestrado nos arredores de Damasco. O governo turco não esperava uma reação do Irã tão direta e ameaçadora, de forma que o ministro das Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, em apenas quatro horas garantiu a libertação dos reféns sequestrados pelo Al-Nusra. Mesmo assim, o vice-ministro das Relações Exteriores, também do Irã, Hossein AmirAbdollahian, foi à TV e esclareceu: “Desmentimos de forma categórica as notícias dos jornais e das TVs que veicularam que nossos peregrinos sequestrados eram membros da unidade de elite do nosso Exército chamada Guardiões da Revolução. E sublinho que esta operação foi planejada antecipadamente. Quem a realizou pretendia exercer pressões sobre o Irã e induzir seu governo a suspender seu apoio ao povo sírio.” Gerou-se na região um clima de guerra em que a satanização dos re-
beldes sunitas contra os “infiéis” chegou ao ponto máximo quando ocorreu o sequestro do famoso apresentador da TV síria, Mohammed Al Said e depois um desconhecido piloto da Síria Airlines, torturando-os e filmando os assassinatos. Ambos eram alauitas. Guerra civil
Para quem não quer enfrentar os riscos da guerra civil até o fim a única saída é fugir em direção ao Líbano ou à Jordânia. Assim, 140 mil sírios (sunitas) já fugiram para a Jordânia, enquanto outros 200 mil foram para os postos de fronteira com o Líbano e a Turquia. Gente pobre, camponeses que perderam tudo nesta guerra e que não querem perder a única coisa que lhes sobrou: sua vida.
O governo turco não esperava uma reação do Irã tão direta e ameaçadora Por outro lado, cerca de 250 mil emigrantes sírios que todos os anos voltavam as suas cidades ficaram esperando o desfecho da situação, inclusive porque a maioria mora nas regiões onde há muitos confrontos entre o exército e os rebeldes. Porém, este momento de crise é o melhor para quem quer faturar dinheiro ou negociar fatias do poder negociando sua traição. Foi o que fez o primeiro-ministro da Síria, Riad-Hijab que, após ter sido removido juntamente com o ministro das Finanças, viajou com a família até a Jordânia, onde os emissários do Emir do Qatar já haviam preparado uma nomeação no Comitê Nacional de Transição e uma milionária conta bancária. Afinal não é todos os dias que um ex-primeiro-ministro opta pelo exílio após ter sido demitido. (AL)
correspondente em Roma (Itália)