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de 26 de julho a 1º de agosto de 2012

editorial

Plano Brasil Maior, pra quem? NOS ÚLTIMOS DIAS o governo Dilma priorizou aprovar no Congresso Nacional as medidas provisórias que garantem a efetivação do Plano Brasil Maior, que objetiva impulsionar o crescimento da atividade industrial. Não há dúvida de que a estruturação de uma indústria nacional forte e soberana é fundamental para que o Brasil consiga consolidar uma etapa de crescimento econômico que deixe nosso país menos exposto aos efeitos da crise internacional do capitalismo. O Brasil Maior surge exatamente num contexto de crise da indústria brasileira. O melhor termômetro é a análise da situação da indústria de transformação que engloba a extensa cadeia industrial, que transforma matéria-prima em bens de consumo ou em produtos e máquinas utilizadas por outras indústrias. No ano de 2011 o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,7%. A participação da indústria de transformação na composição deste PIB foi de 14,6%, o menor percentual desde 1956 quando a indústria de transformação teve uma participação de 13,8% do PIB. Mas isso é só a ponta do iceberg, os obstáculos ao desenvolvimento industrial soberano são de natureza estrutural e isso não se resolverá “enxugando gelo” com medidas paliativas.

O desenvolvimento de uma indústria nacional soberana, ou seja, pautada pelos interesses do povo brasileiro, pressupõe um Estado planejador e indutor da política industrial. Pressupõe também uma evolução industrial fundada em tecnologias que sejam ao mesmo tempo de ponta e nacionais. Isto proporcionaria uma boa produtividade e competitividade. Precisamos romper com a lógica de sermos meros montadores de produtos industriais de multinacionais. Neste sentido, pesados investimentos em ciência e tecnologia são fundamentais. Nosso país deveria investir 10% do PIB em educação. Além disso, uma política industrial digna do povo brasileiro deve ser ambientalmente sustentável. Uma industrialização soberana pressupõe ainda uma política agrícola em consonância com a política industrial. A Reforma agrária é fundamental para subsidiar a indústria com matérias primas em abundância (baixando os custos de produção), gerar milhões de empregos e construir um mercado interno forte. A combinação de tecnologia ao mesmo tempo nacional e de ponta com um ousado programa de reforma agrária (que contemple o desafio da agroindústria) proporcionaria ganhos de

Os obstáculos ao desenvolvimento industrial soberano no Brasil são de natureza estrutural e isso não se resolverá “enxugando gelo” com medidas paliativas produtividade suficientes para que os trabalhadores pudessem conquistar salários nas indústrias bem mais dignos que os atuais. A ausência de reforma agrária potencializou o êxodo rural e, consequentemente, o aumento do exército industrial de reserva, reduzindo o preço da força de trabalho. Foi esta via conservadora que a classe dominante utilizou para redu-

crônica

opinião Mário Maestri Gustave Doré

A sombra do Caudilho EM NOVEMBRO de 2011, o Partido Popular (centro-direita) obteve seu melhor escore eleitoral em relação ao Psoe (centro-esquerda). Mariano Rajoy assumiu o governo de rosto circunspecto, que procurava expressar a grave situação do país. Dissera pouco durante a campanha: prometera sobretudo governo sério e não aumentar os impostos. Iniciou sem delongas cortadeira geral nos gastos e nos salários públicos; nas pensões e nos direitos trabalhistas; nos feriados e nas férias; nos subsídios sociais etc. Uma política social de terra arrasada. Tudo sob os olhos complacentes dos socialistas, dedicados à oposição responsável, já que haviam inaugurado a política de austeridade. Segundo Rajoy, as medidas eram amargas mas tirariam o país da crise. A fuga de capitais contribuiu para a insolvência do sistema bancário, duramente comprometido desde a crise de 2009, quando da explosão da bolha imobiliária. Rajoy pegou o pires e foi a Bruxelas implorar recursos para recapitalizar os bancos, sempre à custa da população espanhola. Concederam-lhe o dinheiro pedido para os bancos, uns cem bilhões de euros, em troca de corte de 65 bilhões de euros, algo sem paralelo na Espanha pós-franquista. Obediente às exigências, Rajoy aprovou subida do ICMS para até 21%; suspensão do décimo terceiro dos funcionários; redução no salário desemprego, já magríssimo; mais impostos sobre a moradia, etc. Tudo prometendo tirar o país da crise. Mas, na crise, o país afundou. Após meio ano de governo conservador, todos os índices despencaram. Os juros da dívida soberana dobraram: os investidores internacionais exigem agora 5,8%, para empréstimos a dois anos; 6,9%, para cinco anos; 7,3%, para dez anos! E seguiram subindo, nesta segunda-feira 23 de julho! Isso em uma Europa que teme a deflação! As receitas espanholas encolheram, com o aprofundamento da recessão; a dívida pública, que devia recuar, explodiu: mais de 9%, em 2013. Espera-se, agora, talvez até um ponto negativo no PIB do país, em 2013! O desemprego superou os 25%; entre os jovens, ultrapassa, em algumas regiões, aos 50%. A bolsa espanhola despencou em dez por cento, desde sexta-feira, 20 de julho – no cômputo anual, é a pior no mundo, após a do Chipre! E a situação seguiu deteriorandose: seis das 17 comunidades autônomas espanholas encontram-se já insolventes, necessitando recorrer ao

zir os custos de produção. Formouse um ciclo vicioso onde o empresariado trocava a moeda nacional pelas divisas provenientes do setor agroexportador para importar máquinas e tecnologia defasada, reforçando sua associação dependente da burguesia internacional. Portanto, se beneficiavam com esse modelo concentrador de renda diversas frações de classe. O desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, principalmente na sua fase imperialista, impede o pleno desenvolvimento de uma industrialização soberana em todo o planeta. Por isso, todos estes desafios devem estar dentro de um projeto político de natureza popular, de longo prazo e que contemple outras reformas na sociedade. Nenhuma, ou quase nenhuma destas tarefas estruturais postas pelo desafio da industrialização soberana estão contempladas no Plano Brasil Maior. O empresariado brasileiro sempre foi profundamente dependente do Estado. Nossa história demonstra que o estatismo das elites brasileiras é conservador, pois não contempla o papel do Estado na ampliação da cidadania social e política. Na verdade é tão conservador que chega a ser um antiestatismo. O Plano Brasil Maior reafirma esta característica estrutu-

Não há entretanto proposta de alternativa política, por parte da esquerda sindical e política espanhola, engolida ideologicamente pelos longos anos de milagre econômico espanhol governo central, que passará a intervir em suas administrações, pondo fim aos direitos autonômicos, cedidos após o fim do franquismo. Algo quase insustentável, politicamente. Para fazer frente às necessidades das províncias, o governo espanhol deverá inapelavelmente pedir a compra de sua dívida soberana pelo Fundo de Resgate europeu. O que transformará a Espanha, oficialmente, em uma espécie de semi-colônia do grande capital europeu, sob a direção atual de Ângela Merkel, capo dessa espécie de colonização sem panzer da Europa pobre. Em Portugal, na Itália, na Grécia e na Espanha, os governos que impõem as terríveis políticas de austeridade acusam os grandes investidores como responsáveis pela total inocuidade das mesmas. Dizem que eles não atentam para as iniciativas saneadoras impostas às populações dos respectivos países, baixando gentilmente o custo do dinheiro que lhes pedem. Mas por que, raios, poriam fim ao ótimo negócio? Por sua vez, o Banco Central Europeu,

sob o controle do capital hegemônico do Velho Mundo, não quer simplesmente falar de um bônus solidário, garantido por toda a União Europeia. Ele permitiria aos países em quase agonia de financiarem-se a taxas não escorchantes. Mas por que os governos da Alemanha, da Holanda, etc. encerrariam situação que permite financiarem as suas dívidas soberanas a taxas já quase negativas, pois tidas como refúgio pelos grandes aplicadores! Na quinta-feira passada, 19 de julho, após a aprovação do maxi-corte de Rajoy, a população espanhola ocupou as ruas: centenas de milhares de trabalhadores, funcionários, bombeiros, médicos, estudantes, desempregados, policiais e muitos jovens. E o governo sequer pode criticar os manifestantes. Eram socialistas, governistas, sem partidos. Era a população dizendo que não aguenta mais. E, como na Argentina, apareceram os primeiros piqueteiros, cortando ruas e avenidas. Agora, as grandes confederações sindicais, igualmente acuadas, propõem a discussão de eventual greve geral. Rajoy anda de cara assustada. Não há entretanto proposta de alternativa política, por parte da esquerda sindical e política espanhola, engolida ideologicamente pelos longos anos de milagre econômico espanhol. Todos querem, de um modo ou outro, mais ou menos, reformar o capitalismo, ressuscitar cadáver em adiantado estado de putrefação. Espanha e grande parte da Europa se defrontarão em médio prazo com questão crucial. A ordem democrática tradicional não corresponde mais à nova situação de destruição estrutural das condições de existência de enorme parte da população. É impossível manter na miséria legiões de cidadãos e chamá-los periodicamente a se pronunciarem sobre a sorte do país. Mui cedo pode se levantar sobre a Espanha e a Europa a sombra do Caudilho. Mário Maestri é historiador.

ral do empresariado brasileiro. Prova disso é que no plano predomina um conjunto de medidas pautadas na desoneração da folha de pagamentos, redução de impostos e crédito abundante a longo prazo se configurando quase numa doação do Estado. São em torno de 45 bilhões de reais. Tudo isso ornamentado pelo discurso conservador da redução do “custo Brasil”. O empresariado brasileiro não hesitará em adotar medidas que intensificarão a exploração da força de trabalho. O Plano Brasil Maior poderá impulsionar o crescimento da atividade industrial brasileira, favorecendo o crescimento da economia e protegendo melhor o país da crise. E isto é importante. Mas não resolverá os problemas estruturais que poderiam garantir uma industrialização soberana para o Brasil. Por enquanto, ainda está na agenda do governo uma absurda meta de superávit primário que impede tanto o aumento no curto prazo da taxa de investimentos do Estado (para pelo menos 25% do PIB) como potencializar os investimentos em políticas sociais e reformas estruturais na sociedade. Somente uma nova correlação de forças favorável aos trabalhadores pode resolver esse impasse.

Luiz Ricardo Leitão

Ídolos de barro, heróis de farelo A JUSTIÇA DA ARGENTINA condenou a 50 anos de prisão o General Jorge Videla, acusado não só pela morte e desaparecimento de centenas de militantes da resistência à ditadura, como também pelo sequestro e ocultação de inúmeros bebês filhos desses combatentes. A sentença exemplar assinala o fim do longo processo deflagrado por uma denúncia das Avós da Praça de Mayo e representa uma enorme vitória do movimento social argentino, cuja intensa mobilização e organização tem sido decisiva para reescrever a história de sua pátria desde a queda do regime militar em 1983. Cá nesta nossa Bruzundanga, no entanto, continuamos a padecer as sequelas de uma história truncada e obscura, repleta de ídolos de barro e heróis de farelo. Basta lembrar a “Independência”, proclamada sobre o lombo de um cavalo por um príncipe português em meio às intrigas da sua Corte, ou então a tosca “República”, decretada sem nenhum tiro na agonia do Império – cujo final, aliás, Caio Prado Jr. descreveu com rara ironia: “uma simples passeata militar bastou para lhe arrancar o último suspiro...” Durante séculos, prevaleceu nas escolas e na imprensa essa história oficial, capaz de exaltar os feitos ‘gloriosos’ de D. Pedro I ou dos marechais da I República, ignorando sistematicamente as lutas de Zumbi dos Palmares, a resistência de Canudos e do Contestado – e estigmatizando sem dó os lutadores do povo, como tão bem o sabem nossos companheiros do MST, tachados de atrasados ou criminosos pelos coronéis da mídia contemporânea. Mas essas vozes dissonantes continuam a desafiar o “coro dos contentes” que se lambuza nas tetas do Estado – e já não há como abafar as maracutaias do estranho consórcio que reúne monopólios, banqueiros, o agronegócio, a grande mídia e os emergentes desta era dita pós-moderna, em que se incluem Eike Batista, Daniel Dantas e outros arrivistas de igual jaez.

Já imaginaram o dinheiro que outros mafiosos têm faturado com suas ‘ações’ em prol do desporto local e mundial? Sua prepotência é apenas fachada, pois, como nos ensinou o velho Marx, se tudo que é sólido se desmancha no ar, imaginem o destino de tais patrimônios erguidos sobre mentiras e riquezas virtuais. Um símbolo de tamanha farsa é o senador Demóstenes Torres: autoproclamado “arauto da moralidade”, o democrata (!) foi cassado por suas relações mui perigosa$ com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Outro cuja desfaçatez veio abaixo é João Havelange, ex-presidente da Fifa, entidade pródiga em escândalos de suborno & corrupção: a Justiça suíça acaba de confirmar que esse “herói do esporte” recebeu R$ 3,1 milhões da ISL para beneficiar a empresa nos contratos de TV das Copas de 1998 e 2002. Há muita carne debaixo desse angu, meu caro leitor. Além de Havelange, seu pupilo Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF, hoje ‘exilado’ em Miami) também abocanhou uma nota: R$ 26,4 milhões! Já imaginaram o dinheiro que outros mafiosos têm faturado com suas ‘ações’ em prol do desporto local e mundial? E as poderosas redes de TV, como a Globo, que geniais ‘jogadas’ terão promovido em seus contratos com a Fifa e a CBF? (Isso sem falar no COI e no COB, cujos negócios têm sido geridos por figuras como Juan Antonio Saramanch e Carlos Arthur Nuzman, gente mui proba e desprendida...). Cevadas no pasto da ditadura, essas empresas e personalidades posam hoje de democratas e benfeitoras do país, desdenhando da memória popular. E quando algum de seus próceres cai em desgraça (caso de Havelange e Teixeira) ou vem a falecer (como ocorreu com dom Eugênio Salles), sua trajetória ou obituário atinge tons inusitados de heroísmo e grandeza. Nas páginas da Veja e da Época, ou nos telejornais da Globo e da Band, o cardeal foi descrito como um mártir da luta contra a ditadura, que abrigou “milhares” (?) de perseguidos pelo regime militar... Bem, na vida real, fora da tela, a história é bem diferente. O mundo, porém, dá muitas voltas... Aqui no Rio, aliás, corre um abaixo-assinado para rebatizar o Engenhão, substituindo o João de farelo pelo saudoso João Sem Medo (isto é: em vez de João Havelange, o estádio cedido ao Botafogo ganharia o nome de João Saldanha). Mesmo simbólico, não seria um gol de letra? Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor associado da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto – o rebelde imprescindível.

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Aldo Gama, Cristiano Navarro, Renato Godoy de Toledo • Subeditor: Eduardo Sales de Lima • Repórteres: Aline Scarso, Michelle Amaral, Patricia Benvenuti • Correspondentes nacionais: Joana Tavares (Belo Horizonte – MG), Pedro Carrano (Curitiba – PR) • Correspondentes internacionais: Achille Lollo (Roma – Itália), Baby Siqueira Abrão (Oriente Médio), Claudia Jardim (Caracas – Venezuela), Marcio Zonta (Peru) • Fotógrafos: Carlos Ruggi (Curitiba – PR), Douglas Mansur (São Paulo – SP), Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper (Rio de Janeiro – RJ), João Zinclar (Campinas – SP), Joka Madruga (Curitiba – PR), Leonardo Melgarejo (Porto Alegre – RS), Maurício Scerni (Rio de Janeiro – RJ) • Ilustradores: Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Jade Percassi • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: Folha Gráfica • Conselho Editorial: Angélica Fernandes, Alipio Freire, Altamiro Borges, Aurelio Fernandes, Bernadete Monteiro, Beto Almeida, Camila Dinat, Cleyton W. Borges, Dora Martins, Frederico Santana Rick, Igor Fuser, José Antônio Moroni, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Marcelo Goulart, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Milton Pinheiro, Neuri Rosseto, Paulo Roberto Fier, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Rosane Bertotti, Sávio Bones, Sergio Luiz Monteiro, Ulisses Kaniak, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


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Frei Betto

instantâneo Dahmer

Greve das universidades EIS QUE ESBARRO no aeroporto com um amigo, alto funcionário do governo federal. Fomos colegas de Planalto nos idos de 2004. Fui direto ao ponto: – E quando o governo acabará com a greve dos professores das universidades públicas, que já dura mais de 60 dias? Ela paralisa 57 das 59 universidades federais e 34 dos 38 institutos federais de educação tecnológica. São 143 mil profissionais de ensino de braços cruzados. – O governo? – reagiu surpreso. – Eles é que decidiram parar de trabalhar. Já é hora de descruzarem os braços e aceitar nossa proposta apresentada na sexta, 13 de julho. A partir do ano que vem um professor titular com dedicação exclusiva poderá ter aumento de 45,1%. – Sexta-feira 13 não é um bom dia para negociar... Sei que o PT tem tido sorte com o 13. Mas, pelo que me disseram professores, a proposta do governo está aquém do que eles querem. E só favorece os professores que atingiram o topo da carreira, e não os iniciantes. Como é possível um professor adjunto, com doutorado, ganhar R$ 4.300, e um policial rodoviário com nível superior R$ 5.782,11? – O que pedem é acima do razoável. E se a greve prosseguir, nem por isso o país para. – Você parece esquecer que o PT só chegou à Presidência da República porque o movimento grevista do ABC, liderado por Lula, encarou a ditadura, desmascarou as fraudes dos índices econômicos emitidos pelo ministério de Delfim Netto e exigiu reposição salarial. O amigo me interrompeu: – Aquilo foi diferente. Máquinas paradas atrasam o país.

Beto Almeida

Voz do Brasil e o novo Conselho A APROVAÇÃO DOS NOVOS membros do Conselho de Comunicação Social do Congresso é uma jogada da Abert para preencher as condições legislativas visando aprovar o projeto de lei da flexibilização da A voz do Brasil. Um dos problemas técnicos que o projeto de lei apoiado pela Abert possui é exatamente o fato de não ter sido examinado, em nenhum momento, pelo Conselho de Comunicação Social, obrigação expressa na Constituição para a aprovação de qualquer matéria legislativa relativa à questão midiática. Sem exame do Conselho, a flexibilização da A voz do Brasil poderia ser embargada, inclusive por configurar uma inconstitucionalidade, já que o CCS foi criado pela Constituição de 1988 e regulamentado no governo Collor. Depois de um período breve de funcionamento, estava desativado e é agora acionado quando a Abert, com o apoio do presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, estabeleceu como sua prioridade a aprovação da flexibilização, medida que abre caminho para a extinção do mais antigo programa de rádio do mundo.

O deputado Jilmar Tato, líder do PT na Câmara, retirou o projeto de pauta argumentando, corretamente, que A voz do Brasil cumpre relevantes serviços à sociedade, sobretudo à população mais carente, sem acesso à leitura de jornais e revistas, além de ser informativo eficiente e abrangente sobre programas sociais de grande valia a grande massa da população. Refere-se a informações sobre o Fundeb, o PAA e os preços mínimos do Ministério da Agricultura, os programas do Ministério da Pesca, sobre o preço da borracha, as datas de vacinação etc, que somente pela A voz do Brasil têm sua divulgação realizada de modo adequado. Ao contrário do rádio comercial. Com o campo empresarial fortemente representado na nova composição do CCS e com o período de esvaziamento parlamentar em razão das eleições municipais, é importante que os partidos progressistas e os movimentos que defendem a regulamentação democrática da comunicação estejam atentos para não serem novamente surpreendidos pela eliminação de um espaço público radiofônico que deveria ser fortalecido e qualificado, nunca suprimido.

Quando se trata do fundamental – saúde, educação, saneamento – o governo nunca tem recursos suficientes

Silvio Mieli

Imagem e violência OS DADOS QUE APONTAM uma epidemia de violência entre crianças e adolescentes no país confirmam um processo de naturalização assustador. A taxa de homicídios entre os jovens passou de 17,2 (em 100 mil jovens), em 1980, para 52,4 no ano de 2010, um crescimento de 204% ao longo desses 30 anos. Caíram as causas de mortes naturais (enfermidades), mas as chamadas causas externas (como homicídios e acidentes de trânsito) aumentaram drasticamente entre crianças e adolescentes. Os dados constam do Mapa da Violência 2012, elaborado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz e editado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela). O sociólogo avalia que a violência aparece tanto na mídia como em boa parte da bibliografia, como um dado natural, uma categoria universal, “como se o termo juventude estivesse inexorável e indissoluvelmente associado à violência”. Para ajudar na compreensão dessa naturalização é necessário analisar como os jovens são tratados pelo Estado; retratados (principalmente pela grande mídia e pelo apa-

rato da indústria do audiovisual) e, finalmente, aprofundar como eles mesmos se auto-retratam a partir do núcleo familiar. Este tripé converge para uma situação de violência que deveria ser um desvio, uma exceção aviltante, mas que virou regra e passou a ser aceita sem maiores problemas. Ora, este estado de exceção permanente estende-se para o universo da imagem, a ponto de podermos falar de um estado de exceção informacional e audiovisual. A violência é estetizada e torna-se hegemônica em todos os meios de comunicação. Atinge-se assim o patamar de um realismo ultra-agressivo que transforma o nosso imaginário num campo de guerra permanente. Quem chegou até aqui se perguntará: quer dizer que a violência da imagem (na publicidade, na internet, na TV, no cinema e nos games) pode influir de alguma forma nos índices citados pelo mapa? Sim, a imagem deixou de ser há muito tempo uma mera representação da realidade. É um lugar de ação. Vivemos por entre as imagens que criamos e consumimos. A matança do “Coringa”, que saiu atirando numa sala de cinema dos EUA, pode nos dizer algo a respeito.

Duas ameaças O Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM/RJ), divulgou nota pública denunciando que em menos de 10 dias sofreu duas ameaças das forças retrógadas e saudosistas da ditadura civil-militar. No dia 11 de julho, o Grupo recebeu um telefo-

Frei Betto é escritor, autor de A obra do Artista – uma visão holística do Universo (José Olympio), entre outros livros.

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fatos em foco

da Redação

Dentro dos órgãos reguladores Onze dos 20 integrantes do painel sobre transgênicos da Agência Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) são ligados à indústria ou conhecidos por serem defensores da tecnologia, afirma a organização Testbiotech, para quem a renovação recente de seus membros não alterou o perfil pró-transgênicos do órgão. Entre os integrantes do painel estão especialistas que já trabalharam por muitos anos para o International Life Science Institute (ILSI), entidade financiada por empresas como Monsanto, Cargill e outras do setor.

– Este o erro do governo, meu caro. Não avaliar que escola fechada atrasa muito mais. Quem criará as máquinas ou, se quiser, trará ao país inovação tecnológica se os universitários não têm aulas? Quem estanca a fuga de cérebros do Brasil, com tantos cientistas, como Marcelo Gleiser, preferindo as condições de trabalho no exterior? A maior burrice do governo é não investir na inteligência. Já comparou o orçamento do Ministério da Cultura com os demais? É quase uma esmola. Como está difícil convencer o Planalto de que o Brasil só terá futuro se investir ao menos 10% do PIB na educação. Meu amigo tentou justificar: – Mas o governo tem que controlar seus gastos. Se ceder aos professores, o rombo nas contas públicas será ainda maior. – Como pode um professor universitário ganhar o mesmo que um encanador da Câmara Municipal de São Paulo? Um encanador, lotado no Departamento de Zeladoria daquela casa legislativa, ganha R$ 11 mil. Um professor universitário com dedicação exclusiva ganha R$ 11,8 mil. Agora o governo promete que, em três anos, ele terá salário de R$ 17,1 mil. – O governo vai mudar o plano de carreira. Professores passarão a ganhar mais em menos tempo de trabalho. – Ora, não me venha com falácias. Quando se trata do fundamental – saúde, educação, saneamento – o governo nunca tem recursos suficientes. Mas sobram fortunas para o Brasil sediar eventos esportivos internacionais protegidos por leis especiais e comprar jatos de combate para um país que já deveria estar desmilitarizado. – Você não acha que é uma honra o Brasil sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo? Não é importante atualizar os equipamentos de nossa defesa bélica? – Esses eventos esportivos estarão abertos ao nosso povo, ou apenas aos turistas e cambistas? E quanto à defesa bélica, há tempos o Brasil deveria ter adotado a postura de neutralidade da Suíça e abolir suas Forças Armadas, como fez a Costa Rica em 1949. Quem nos ameaça senão nós mesmos ao não promover a reforma agrária para reduzir a desigualdade social e manter a saúde e a educação sucateadas? Meu amigo, ao se despedir, admitiu em voz baixa: – O problema, companheiro, é que, por estar no governo, não posso criticá-lo. Mas você tem boa dose de razão.

nema anônimo em que uma voz masculina declarou: “estou ligando para dizer que nós vamos voltar e que isso aí vai acabar”. No dia 19 de julho, quando a secretária chegou para trabalhar verificou que a sede do Grupo foi invadida e foram furtados do caixa do Projeto Clínico Grupal a quantia de R$1.567, 37, além de diversos documentos do grupo e notas fiscais de serviço. Alguns arquivos também foram revirados e o computador estava ligado.

MPF denuncia mais um militar O Ministério Público Federal (MPF) denunciou à Justiça Federal mais um militar responsável por crimes contra a humanidade durante a guerrilha do Araguaia, na década de 1970, no sul do Pará. O major da reserva Lício Augusto Maciel, que usava na época o codinome de doutor Asdrúbal, foi denunciado pelo sequestro de Divino Ferreira de Sousa, o

Nunes, capturado e ilegalmente detido pelo Exército durante a repressão à guerrilha em 1973.

Milionários brasileiros Os brasileiros mais ricos têm uma fortuna estimada em 520 bilhões de dólares (mais de R$ 1 trilhão) depositados em paraísos fiscais, o quarto maior volume de recursos no mundo, atrás apenas de China (1,18 trilhões), Rússia (798 bilhões) e Coreia do Sul (779 bilhões). O valor foi levantado no estudo Price of Offshore Revisited, escrito por James Henry, ex-economista-chefe da consultoria McKinsey, e encomendado pela Tax Justice Network. No total, os milionários de 139 países pelo mundo têm entre 21 trilhões e 32 trilhões depositados em “offshores” ao fim de 2010. Somente 100 mil pessoas, que formam uma elite financeira global, respondem por 9,8 trilhões de dólares desse total.

Desde a edição 444, o jornal Brasil de Fato passou a ter quatro páginas a mais. Ou seja, agora são 16 páginas de informação e formação. Com isso, podemos levar para você mais reportagens, jornalismo inteligente e comprometido com as lutas da classe trabalhadora. Assim, acreditamos contribuir ainda mais para elevar o nível de consciência do povo, para que lute por mudanças e por uma sociedade justa. Quem ganha com isso é você, leitor. Assinatura anual: R$

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brasil

Ex-chefe da Rota ameaça liberdade de imprensa Thiago Miranda dos Santos Moreira/cc

DENÚNCIA Em sua página na rede social, Adriano Lopes Lucinda Telhada, candidato à vereador pelo PSDB em São Paulo, faz apologia à violência e ameaça jornalista José Francisco Neto, da Redação APÓS ESCREVER a reportagem sob o título “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, em 14 de julho, o jornalista da Folha de São Paulo André Caramante passou a receber inúmeras ameaças de seguidores do ex-comandante da Rota – Rondas Ostensivas Tobias Aguiar – e também candidato a vereador pelo PSDB em São Paulo, Adriano Lopes Lucinda Telhada, em sua página pessoal da rede social. Caramante relatou na matéria que Telhada usa a sua página no Facebook para “veicular relatos de supostos confrontos com civis (sempre chamados de “vagabundos”), expondo figuras de caveiras vestidas com uniforme da Rota.” Por seu lado, o PM aposentado publicou um texto para se “defender” das acusações do jornalista. Em um dos trechos ele escreve: “Um indivíduo chamado André Caramante, notório defensor de bandidos, publicou uma matéria diretamente usando meu nome” e acrescentou “qual será o interesse desse cidadão em defender bandidos? O que será que tem a ganhar com isso?”.

Manifestantes protestam contra os abusos da Polícia Militar cometidos no estado de São Paulo

“Pena que não invadiram o ‘ap’ e fuzilaram por engano um desses que defende esse tipo de gente” Como resultado, os seguidores de Telhada têm deixado comentários do tipo “pena que não invadiram o ‘ap’ e fuzilaram por engano um desses que defende esse tipo de gente” (sic), assinou o leitor Reinaldo Oliveira, no site da Folha. Em outro comentário, um “fã” do policial no Facebook escreve que “quem defende bandido é bandido também! Bala nesses safados!”. Um outro diz, também na rede social: “É isso aí Telhada, vamos combater esses vagabundos”. Um policial da Rota chamado Paulo Sérgio Ivasava Guimarães foi mais contundente. “Esse Caramante é mais um vagabundo. Coronel, de olho nele.” O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo protocolou um documento no dia 17 de julho para a Ouvidoria das Polícias, a Corregedoria da Polícia Militar (PM) e órgãos públicos estaduais, além dos diretórios municipal e estadual do PSDB e a Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República relatando o problema.

Em um dos trechos do documento, o sindicato solicita às autoridades resguardar a liberdade de imprensa e a integridade física dos profissionais da área jornalística. O sindicato denuncia também a grave atitude do ex-comandante da Rota de incitar a violência física e moral contra o repórter da Folha por meio das redes sociais. Questionada pela reportagem do Brasil de Fato sobre o episódio, a assessoria de imprensa da polícia militar disse em nota que o coronel não pertence mais ao serviço ativo da instituição (está aposentado) e o uso que ele faz das redes sociais pessoais é de sua inteira responsabilidade, assim como os comentários postados em sua página são de responsabilidade de seus autores. Censura Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, José Augusto Camargo, esse tipo de ameaça não é só um ato de violência contra uma pessoa, mas representa também censura. Segundo ele, as ameaças precisam vir a público, pois se não o forem, terminarão por incentivar o agressor.

“Nós mandamos ofícios para o governador, porque nesse caso específico, ele é o último responsável pela ação da polícia militar. Mandamos também para o comando da PM, Ouvidoria da Polícia Militar e para o diretório da presidência do PSDB. É preciso tornar público para que a sociedade e as autoridades saibam o que está acontecendo. Com os documentos protocolados, eles não podem alegar que ninguém avisou” argumenta José Augusto. André Caramante relatou ao Brasil de Fato que as ameaças não são somente contra ele, mas sim contra a imprensa livre. “Nós temos leis nesse país de imprensa livre. Então, isso é uma reflexão maior do que um simples fato de um ex-comandante da Rota ter dito o que ele disse. Existe uma categoria de profissionais que lutam para levar a verdade até as pessoas. Ele atinge não só a mim, mas também a todos que trabalham com a informação”, frisa. O repórter agradece a solidariedade que recebeu dos companheiros de profissão e diz que não mudará sua postura, mesmo sofrendo ameaças. “Eu sou repórter há um bom tempo e faço isso para ganhar a vida. Aquilo que aconteceu e que eu escrevi sobre as publicações do ex-comandante da Rota em sua página pessoal no

Facebook está lá para todo mundo comprovar e ler. Então, não tem o que mudar em nada”, afirma Caramante. “Por o fuzil pra cantar” A perseguição ao repórter, aliás, não foi a primeira atitude com traços fascistas do ex-PM e candidato a vereador pelo PSDB em redes sociais. No dia 22 de junho, o excomandante Telhada publicou em sua página pessoal uma foto de dois jovens negros dizendo que se tratavam de “suspeitos” que teriam atacado uma base da polícia militar na zona leste da capital paulista. “Eles também podem estar envolvidos na morte do soldado dentro de uma academia. Por favor, compartilhem esse status”, conclamou Telhada a seus seguidores. Sem ter provas dos “suspeitos”, outro policial ligado à Rota fez o seguinte comentário na página de Telhada: “Tem gente que fala que ladrão não tem cara. Ladrão tem cara sim e em geral tem estilo ‘funkeiro’, quem duvida?” Revoltada, outra pessoa questiona, logo abaixo: “Eu só quero saber qual prova que levou a essa acusação sumária?”. Telhada responde: “Você acha que um PM da Rota vai postar alguma mentira? E logo em seguida apela, “esses meliantes acham que mandam. Tá na hora de por o fuzil pra cantar, eu tô muito indignado!” Para Daniela Skromov de Albuquerque, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, esse tipo de declaração revela um problema estrutural, pois incita uma conduta violenta por parte de um coronel de alta patente. “Isso já não é permitido para um cidadão comum. Alguém que é uma figura pública e que pretende ocupar um posto público agrava a situação ainda mais. Ele acaba incitando esse tipo de código que já existe na corporação: a questão da caça ao inimigo”, pontua. Já de acordo com Jaime Amparo Alves, doutor em Antropologia, a polícia apenas empresta a farda para as políticas de extermínio ao pobre levadas a cabo pelo governo paulista. “O comentário do coronel Telhada não traz nada de novo. Ele apenas verbaliza o que pensam os donos do poder e a classe média em São Paulo”, argumenta Amparo, que também é Pesquisador do Departamento de Estudos Africanos e Afro-Americanos da Universidade do Texas (EUA).

A política da polícia de extermínio De janeiro a maio deste ano, o Batalhão de Choque da PM matou 45 pessoas, uma média de nove mortes por mês. Em comparação com o mesmo período de 2010, os homicídios subiram mais de 100% da Redação Adriano Lopes Lucinda Telhada, que também é membro da Congregação Cristã do Brasil (CCB), foi comandante da Rota desde maio de 2009 até novembro de 2011. Em dois anos e meio no cargo, a Rota inflou o número de mortes sob sua responsabilidade em 63,16%, com 114 assassinatos cometidos. Telhada é um conhecido linha-dura, que se orgulha em sentenciar “bandidos” com morte (sob seu próprio julgamento) e ter 29 processos judiciais e militares arquivados, segundo a matéria do site Carta Maior. O Coronel, agora aposen-

tado, se filiou ao PSDB e será candidato a vereador em São Paulo. Para o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo, Adriano Diogo, a candidatura de Telhada é um atentado à democracia. Ele argumenta que se dependesse dos militares, eles criavam uma articulação nacional para defender a pena de morte, o rebaixamento da idade penal e o extermínio em massa. “Esse negócio de ataques às bases da PM é um pretexto pra fazer essa mortandade em massa, porque tem grupos que não admitem que não haja pena de morte no Brasil. Embora a pena de morte não esteja legalizada, eles fazem apologia aos grupos de extermínio”, pontua Diogo, que também é deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT), em São Paulo. Em defesa da morte

“Que chore a mãe do bandido, porque hoje o bote é certo”. Essa é mais uma das “pérolas” de Telhada no Facebook. Como resultado, seus seguidores têm deixado comentários do tipo: “bandido tem que ir pra cova” ou então “vamos arrancar o pescoço desses vagabundos”. Débora Maria, do Movimento Mães de Maio, critica a postura do ex-comandante, pois acha uma falta de respeito com as mães. “A dor de uma mulher é uma dor só, não existe uma melhor ou ou-

tra maior. É uma mulher, ela traz a vida. Será que a mãe dele pensaria a mesma coisa, que a dor dela seria menor do que a minha se viesse a acontecer com ele o mesmo que aconteceu com o meu filho?”, questiona Débora, que teve seu filho assassinado em maio de 2006.

“Essa postura do comandante aponta para uma forma de relação social que eu tenho certeza que a população brasileira não quer mais na história do país, que é a quebra da ordem democrática, ou seja, a ditadura militar” Segundo Givanildo Manoel da Silva (Giva), militante do Tribunal Popular, a candidatura de Telhada defende a morte, e não a vida. Giva ressalta ainda que ele não poderia ser candidato, exatamente porque prega contra a democracia. “A informação que a gente teve da Associação de Juízes pela Democracia é que ele não deve ser candidato a vereador no estado de São Paulo e a nenhum outro cargo eletivo. Essa postura do comandante aponta para uma forma de relação social que eu tenho certeza que a popula-

ção brasileira não quer mais na história do país, que é a quebra da ordem democrática, ou seja, a ditadura militar”, ressalta Giva, que também é candidato a vereador pelo PSOL em São Paulo. A assessoria de imprensa do PSDB, por sua vez, informou ao Brasil de Fato que não tem sentido o partido se posicionar em relação a algo em que um terceiro pronunciou. “Não temos nada a declarar sobre isso”, disse. Dados oficiais

De acordo com dados da Corregedoria da Polícia Militar, de janeiro a maio deste ano, o Batalhão de Choque da PM, que engloba quatro batalhões inclusive a Rota, matou 45 pessoas, uma média de nove mortes por mês. Em comparação com o mesmo período em 2010, os homicídios subiram mais de 100%. A Polícia Militar argumenta que se houve aumento de mortes em “resistências”, isso se deveu ao aumento de operações em que houve “confronto provocado pela reação de criminosos”, e lamenta toda ocorrência em que haja o resultado “morte”, reafirmando que esta opção “é sempre do criminoso”. Com o slogan “Uma nova Rota na política de São Paulo”, Telhada retribui seu “voto de lealdade” a José Serra (PSDB), candidato a prefeito que o nomeou comandante da Rota quando governador do estado. (JFN)


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de 26 de julho a 1º de agosto de 2012 Áurea Lopes

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espaço sindical da Redação

Bancários querem 10,25%

A 14ª Conferência Nacional dos Bancários, encerrada dia 22 de julho, em Curitiba, aprovou a pauta de reivindicações da categoria. Entre as reivindicações, reajuste de 10,25% (inflação mais 5% de aumento real), Piso igual ao salário mínimo do Dieese (R$ 2.416,00), PLR equivalente a três salários mais R$ 4.961,25 fixos, além de mais contratações, fim da rotatividade, fim das metas abusivas e combate ao assédio moral. Os 629 delegados também aprovaram como bandeira política a realização de uma Conferência Nacional do Sistema Financeiro, para que a sociedade possa discutir e definir qual o papel que os bancos devem desempenhar no país. A pauta de reivindicações será entregue à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) dia 1º de agosto. E já estão marcadas as duas primeiras rodadas de negociação, nos dias 7 e 15.

Servidores bloqueiam Ministério

Cansados de esperar, índios da Bahia começam autodemarcação Tupinambás retomam fazenda no Sul da Bahia como forma de pressão

INDÍGENAS Os Tupinambá de Olivença, em Ilhéus (BA) iniciam jornada de retomadas de territórios para pressionar governo e exigir agilidade da Justiça Áurea Lopes de Ilhéus (BA) ELES ESPERAM há 512 anos para voltar a ter o que lhes é de direito por natureza. Eles esperam ter um lugar para morar em paz, uma terra para plantar o que comer e o que possa garantir sua subsistência, um espaço para preservar sua cultura e exercer suas crenças, como fazem todos os brasileiros. Eles esperam que cesse a perseguição que os expulsa de seus terrenos para dar lugar ao agronegócio, esperam que seja impedida a devastação de suas florestas e a poluição de seus rios, esperam que a Justiça coloque na cadeia os fazendeiros que mantêm seus parentes trabalhando em regime de escravidão, esperam coibição e punição a ameaças de morte, desaparecimentos de índios e estupros de índias. Os Tupinambá de Olivença, em Ilhéus (BA) estão, decididamente, cansados de tanto esperar. De esperar, também, que situações de exploração e violação dos direitos fundamentais como essas, detalhadas no relatório de 6 mil páginas que compõe o processo de demarcação encaminhado pela Funai receba um parecer do Ministério da Justiça – o prazo se esgotou em junho. Por isso, os Tupinambá decidiram iniciar sua autodemarcação, uma forma de luta para chamar a atenção das autoridades e fazer valer seus direitos. No dia 14 de julho, foi feita a primeira retomada de um território indígena próximo à aldeia Santana, área ainda dominada por coronéis do cacau, agropecuaristas e grandes plantadores de palmito só para exportação, além de monocultivos que estão destruindo a flora e fauna locais. Desde então, foram retomadas aproximadamente vinte fazendas, em ações totalmente pacíficas, muitas vezes com os ocupantes reconhecendo que estavam instalados em terras indígenas. Uma das recentes retomadas foi na aldeia Potyur, que já havia sido ocupada há dois anos, mas houve uma reintegração de posse a favor do fazendeiro. No entanto, ele não voltou a morar na fazenda, que ficou abandonada. “Eles tiram os índios com a reintegração e deixam tudo abandonado”, diz o cacique Acauã, um dos doze caciques do povo Tupinambá de Olivença. “Se é para fazer isso, a Justiça devia tratar igual as duas partes: sai fazendeiro, não entra índio, mas o Estado cuida da área, não deixa deteriorar”, acrescenta.

No dia 14 de julho, foi feita a primeira retomada de um território indígena próximo à aldeia Santana, área ainda dominada por coronéis do cacau Criminalização O cacique esclarece o caráter pacífico das ações, que vêm sendo criminalizadas pela mídia local: “Queremos viver tranquilos, resgatar nossa língua, acabar com o trabalho escravo de nossos parentes, acabar com a venda de bebida alcoólica para os índios, como for-

ma de manipulação. Queremos ser tratados como cidadãos que somos. Não estamos pedindo o Brasil inteiro, sabemos que o país tem de andar. E outros povos também precisam de terra... os brancos, os quilombolas, os pequenos agricultores... nossa reivindicação é apenas o território nosso para sobreviver”. Acauã reforça ainda que, “se a Justiça não é capaz de impedir as agressões ao ambiente, o índio tem de preservar, porque o índio é a natureza”. A maior parte das supostas propriedades, alerta um jovem e combativo indígena que participa das retomadas, não é habitada por fazendeiros, mas por meeiros ou por famílias obrigadas a trabalhar por salários que não pagam as despesas cobradas por moradia e alimentação. Um indígena que trabalha nessa situação conta: “Toda minha família trabalha na fazenda há muito tempo. Eu só tenho um ano e meio. O trabalho é muito pesado, pois a fazenda tem mais de 400 hectares, um extenso cultivo de cacau e nós só somos seis”. Juntando tudo que ele ganha no ano, chega a R$ 4 mil, mas desse dinheiro tem que dar 50% ao fazendeiro e tirar o necessário para comprar suas próprias ferramentas.

“Foram retomadas aproximadamente vinte fazendas, em ações totalmente pacíficas, muitas vezes com os ocupantes reconhecendo que estavam instalados em terras indígenas” “Não temos nada contra essa gente, esses pequenos agricultores, somos todos do mesmo nível, nossa briga é com os exploradores”, diz essa jovem liderança. Outro jovem, também representativa liderança nas retomadas, explica o espírito da jornada: “A ideia é plantar, reflorestar e daqui poder tirar nosso sustento. Aqui vamos ter a mata, os pássaros, os peixes... muito diferente de viver na periferia, onde os parentes estão espalhados.

Esse território sempre foi nosso, meus ancestrais sempre viveram aqui, meu bisavô, meu pai, eu, meus dois filhos temos de viver do que é nosso. Nossa luta não é contra os agricultores, nossa luta é contra o governo que não faz o papel dele, de demarcar a nossa terra. E a gente acaba sofrendo discriminação e preconceito”. Ao contrário do noticiado em órgãos de imprensa local, que procura criminalizar os Tupinambás, as retomadas são pacíficas. “A gente vem, conversa, dá um tempo para o ocupante retirar tudo o que é seu, não queremos nada que não é nosso. Eles levam todos os móveis, pertences... podiam levar até a casa! Porque a gente não quer isso, a gente quer só a nossa terra”, desabafa o jovem de 28 anos.

“Queremos viver tranquilos, resgatar nossa língua, acabar com o trabalho escravo de nossos parentes”

Os servidores públicos federais em greve, que chegaram a bloquear a entrada do Ministério do Planejamento na manhã do dia 19 de julho, conseguiram reunião com representantes da pasta para tratar das reivindicações dos servidores. No dia 18, os trabalhadores haviam feito uma marcha que reuniu mais de 10 mil pessoas, organizada pelas três centrais sindicais (CSP-Conlutas, CTB e CUT) e pelos sindicatos ANDES-SN, Fasubra, Sinasefe, Condsef e o Comando Unificado de Greve dos Estudantes.

Não só docentes e militares

Nesta reunião, os representantes do governo disseram que até 31 de julho devem apresentar respostas ao funcionalismo. Ressaltaram também não serem verdadeiras as informações de que só os docentes e os militares terão reajustes salariais, mas não tinham como antecipar nenhuma negociação.

CUT desmente Estadão

A Agência Estado publicou matéria online divulgando que a CUT “não apoia a greve dos servidores, mas pressiona Dilma”. A central sindical desmentiu a informação, por meio de nota assinada pelo atual presidente, Vagner Freitas, na qual reafirmou o apoio aos servidores e reivindicou do governo espaços de negociação. “Não só apoiamos a greve dos servidores como estamos fazendo uma série de audiências com ministros para cobrar a abertura de negociações, a apresentação de propostas. Só esta semana me reuni com a ministra Ideli Salvati (Relações Institucionais), os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) e Aloizio Mercadante (Educação) deixando clara a preocupação da CUT com a forma como o governo vem tratando os representantes dos trabalhadores no processo”, descreveu Freitas.

Ponto eletrônico em Rondônia

Determinação Aos 80 anos, com dez filhos e 30 netos, dona Nivalda, que já foi caciqueTupinambá, mostra o mesmo sofrimento, mas também a mesma garra de conquistar o que é seu. Ela participa das retomadas e sonha com um “lugar fixo” para fazer sua roça. Voluntária da Pastoral da Juventude, dona Nivalda já esteve com o presidente Lula e pediu a ele uma escola indígena para a aldeia – conseguiu. Ela lembra que sua avó foi a única a resistir à expulsão dos indígenas de Olivença. “Ela disse: daqui, só saiu morta. Ela construía uma casa e eles derrubavam, construía, derrubavam... até que fizeram uma casa de tijolo, pode dentro da casa de palha. A construção era feita de noite, pra ninguém ver. Um belo dia, tiraram a palha e lá estava a casa, que ninguém ia derrubar. Foi lá que ela morreu”. A avó de dona Nivalda era obrigada a ir para o quintal falar a língua nativa, que era proibida. Hoje, a filha de dona Nivalda é professora de língua indígena. “As coisas mudaram. Antes a gente tinha o direito e não sabia. Hoje a gente sabe. E luta por ele”, se orgulha. (Colaboraram Kaluanã Tupinambá e Vilma Almendra)

Mensagem à Justiça “Eu quero aproveitar essa reportagem para mandar uma mensagem para a Justiça brasileira, para quem faz as nossas leis, senadores, deputados... que olhem para esse povo sofrido, que não suporta mais tanto sofrer. Um povo que foi massacrado no passado, está sendo massacrado agora, no presente. A gente precisa dessa terra para plantar, viver nossa cultura, o pouco que restou dela. Então eu faço um apelo: eu acredito na Justiça e sigo ela também. O que é que está impedindo? São os grandes coronéis? Paguem a eles, indenizem eles, mas tirem eles desta terra, que é do povo Tupinambá. Não aguentamos mais. É a polícia federal de um lado querendo nos pegar, é posseiro do outro querendo nos pegar... pistolagem por outro lado. Em julho do ano passado, eu estive no ministério da Justiça, no Conselho Nacional de Justiça, na AGU, na 6a. Câmara, levando denúncia de armamento... levei provas concretas disso. Eu peço, pelo amor de Tupã, que vocês levem a sério isso.” Cacique Acauã Tupinambá 21 de julho de 2012.

O Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil (Sticce-RO), em negociação feita com a Camargo Corrêa e com o Consórcio Santo Antonio Civil (CSAC), conseguiu o compromisso de implantação do ponto eletrônico nos canteiros de obra, que permitirá um melhor controle das horas trabalhadas, além de facilitar a fiscalização do sindicato e do Ministério do Trabalho.

Vale pressiona sindicato

Foram mortos, somente em 2012, 17 trabalhadores nas minas da Vale, marcada por desrespeitar a legislação trabalhista. Neste momento, a Vale exige que o sindicato desrespeite a assembleia da categoria que recusou a proposta da empresa de horas in itineres (tempo gasto, por dia, em transporte ida e volta ao trabalho) e assine um acordo coletivo contrário à decisão dos trabalhadores, diminuindo o valor da jornada de trabalho ao longo do transporte.

Shopping Higienópolis

Sindicalistas de diferentes categorias participaram, no dia 20 de julho, de protesto em frente ao shopping Higienópolis, na região central de São Paulo. O ato, convocado pelo Sindicato dos Comerciários de São Paulo (filiado à UGT), visava impedir o fechamento do shopping, uma vez que a entidade calcula que cerca de 4 mil comerciários trabalham no local. Havia, ainda, um grande número de seguranças, além de profissionais de outros segmentos.

Luta pelo emprego na GM

Segue a luta pelo emprego na General Motors, em São José dos Campos (SP). No dia 24 foi realizado ato unitário, liderado pelo Sindicato dos Metalúrgicos da cidade, em frente à unidade da fábrica. A mobilização faz parte de uma série de protestos do sindicato visando evitar a demissão de 1.500 trabalhadores, em razão do fechamento de uma unidade da GM, chamada MVA. O presidente do sindicato, Antonio Ferreira de Barros, Macapá, afirma: “A luta contra as demissões na GM deve ser ampla. Vamos mobilizar a sociedade para que empresa e governo se sintam pressionados e tomem medidas garantindo os empregos”.


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Da conquista da terra à vida digna Arquivo Terra de Direitos

REFORMA AGRÁRIA Famílias camponesas do Paraná vão ao judiciário buscar a posse definitiva da terra para obter o título de propriedade Ednubia Ghisi de Curitiba (PR) NO NOROESTE paranaense, entre as cidades de Guairacá e Planaltina, 76 famílias estão ameaçadas de perder a terra onde há oito anos cultivam a área, estudam e garantem a dignidade negada pela lógica do agronegócio. As conquistas alcançadas pelas famílias estão ameaçadas pela dificuldade em desapropriar a terra. Com poucas chances do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) conseguir a desapropriação, as famílias vão diretamente ao judiciário buscar a posse definitiva da terra, obtendo o título de propriedade pela desapropriação judicial.

Na escola Carlos Marighella as famílias do acampamento Elias Meura exercem o seu direito à educação

Apesar do Decreto Presidencial publicado há 14 anos classificar a fazenda como improdutiva, os 1.797 hectares até hoje não foram desapropriados As famílias vivem no pré-assentamento Elias Gonçalves Meura desde julho de 2004, quando cerca de 400 famílias camponesas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Santa Filomena, declarada improdutiva pelo Incra em 1998. A ocupação denunciou a improdutividade da área e a demora na destinação do território para a reforma agrária. Apesar do Decreto Presidencial publicado há 14 anos classificar a fazenda como improdutiva, os 1.797 hectares até hoje não foram desapropriados. Depois de 12 anos de disputas judiciais em que o proprietário buscava impedir a desapropriação, em fevereiro de 2012 a Advocacia-Geral da União (AGU) cometeu um

erro e deixou de recorrer de uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) desfavorável ao Incra, impossibilitando a desapropriação da área. Para o integrante da coordenação do MST no Paraná, José Damasceno de Oliveira, o caso da fazenda Santa Filomena reflete o que acontece em outros municípios do Brasil, em que, apesar do decreto declaratório de improdutividade, os latifundiários conseguem adiar e até impedir a desapropriação para reforma agrária. Uma das formas utilizadas pelos fazendeiros para adiar a desapropriação é burlar a avalização de improdutividade: “Em vários casos o juiz nomeia um perito judicial que às vezes não entende de agricultura e que acaba desfazendo o que foi feito por uma equipe técnica do Incra”, lamenta Oliveira. Desapropriação judicial Sem possibilidade do Incra desapropriar a terra pelo decreto de 1998, as famílias acampadas encontraram no Código Civil a possibilidade de obter o título de propriedade da fazenda por meio da chamada desapropriação judicial. Se-

Terra e trabalho Os camponeses cultivam a área para o autossustento e também para garantir renda com a venda da produção em feiras e comércios da região de Curitiba (PR) Mandioca, feijão, melancia, frutas e uma variedade de verduras e hortaliças cobrem a terra do antigo latifúndio improdutivo. Desde que ocuparam a Fazenda Santa Filomena, os camponeses cultivam a terra para o autossustento e também para garantir renda com a venda da produção em feiras e comércios da região. Apesar de não receber qualquer apoio governamental para a produção, o assentamento hoje fornece alimentos a programas do governo, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por meio da cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária Avante

Ltda (Coana), localizada em Querência do Norte/PR. Mais de 30 famílias estão envolvidas na produção ligada à cooperativa, em um total de 120 pessoas do préassentamento. Os trabalhadores aliam produção à preservação do meio ambiente e preservam 20% do território para reserva legal. A maior parte das famílias utiliza a agroecologia como matriz tecnológica. Antes de conquistar a terra, o agricultor acampado Luiz Fernandes recorda que trabalhava em grandes fazendas e sofria as consequências do uso de agrotóxicos: “Eu era empregado rural numa fazenda de monocultivo de soja, trigo e milho, trabalhava com todas as classes de veneno. No início era bom, trabalho fácil, com os equipamentos, mas comecei a sentir a pele sensível”. A importância do acampamento na região é reconhecida nas declarações de apoio à desapropriação da área emitidas pelo Departamento de Agricultura e Pecuária da Prefeitura Municipal de Amaiporã, pela Associação Comercial, Industrial, Agropecuária e de Profissionais de Planaltina, pela Coana e por diversos empreendimentos comerciais da cidade, que firmaram apoio à desapropriação da área. (EG)

História de violência e impunidade A ação violenta resultou em seis camponeses feridos e na morte do jovem Elias Gonçalves de Meura, de apenas 20 anos de Curitiba (PR) Durante a ocupação da Fazenda Santa Filomena, em 2004, jagunços atiraram contra os camponeses por mais de três horas. A ação violenta resultou em seis camponeses feridos e na morte do jovem Elias Gonçalves de Meura, de apenas 20 anos, que hoje dá nome ao pré-assentamento. O inquérito policial do assassinato permanece inconcluso e o caso foi le-

vado à Corte Interamericana de Direitos Humanos em junho deste ano. A morte de Elias Gonçalves de Meura se junta a outras 22 ocorridas entre 1997 e 2008 no Paraná, em decorrência de conflitos no campo e por milícias armadas a serviço de grandes fazendeiros. Em apenas um dos 23 casos houve condenação do culpado: Jair Firmino Borracha foi condenado em 2011 a 15 anos de prisão pelo assassinato do trabalhador rural Eduardo Anghinoni em 1999, também no Noroeste do estado, no município de Querência do Norte. O cenário paranaense se repete em outros estados brasileiros. Estudo recentemente publicado pela ONG Global Witness aponta o Brasil como responsável pela metade dos assassinatos de defensores de direitos humanos e ambientais no mundo. Dos 711 assassinatos, 365 ocorreram no Brasil. (EG)

No dia dia 31 de julho será realizada a audiência que decidirá o futuro das famílias, pois lá será negociada a permanência na terra gundo o art. 1228 §4º do Código Civil uma propriedade pode ser desapropriada se for extensa e ocupada, por mais de cinco anos, por um considerável número de pessoas que tenha desenvolvido obras e serviços de relevante interesse social e econômico. Nesses últimos oito anos, coletivamente, as famílias acampadas passaram a produzir, morar e viver na terra, investindo o pouco que tinham, fruto exclusivo do trabalho, sem qualquer outra opção de vida, depositando toda sua esperança na criação do assentamento. Essas são as obras e serviços de relevante inte-

resse social e econômico que estão sendo levadas ao judiciário para justificar a desapropriação. A desapropriação judicial autorizada pelo Código Civil foi poucas vezes utilizadas. Para o professor doutor Carlos Frederico Marés de Souza Filho, a desapropriação judicial “é ferramenta jurídica de realização de princípios e objetivos fundamentais da organização social brasileira recriada e reconstituída em 1988. Esta ferramenta a lei colocou à disposição da cidadania, mas na mão do Poder Judiciário para seu reconhecimento, realização e determinação”. A ação de desapropriação judicial foi apresentada dia 25 de julho e será apreciada pela Justiça federal de Paranavaí. Caso o poder judiciário decida receber a ação, as famílias deverão ser mantidas na posse da terra até julgamento final da desapropriação judicial, o que pode demorar anos. Se o juiz não receber a ação, as famílias podem ser despejadas a qualquer momento. No dia dia 31 de julho será realizada a audiência que decidirá o futuro das famílias, pois lá será negociada a permanência na terra.

Educação do campo e para o campo A escola foi erguida com lona preta, sobre chão batido no local em que os antigos proprietários colocavam os animais de Curitiba (PR) As primeiras salas de aula do acampamento Elias Meura começaram a ser construídas no segundo mês da ocupação, em 2004. A partir do trabalho dos próprios acampados, a escola foi erguida com lona preta, sobre chão batido no local em que os antigos proprietários colocavam os animais. Desde o início, a escola atende os acampados e também integrantes do Assentamento Milton Santos, localizado na região. O acesso à educação é uma das grandes conquistas dos camponeses a partir da ocupação da terra e da organização da vida de forma coletiva.

A educação é uma das grandes conquistas dos camponeses a partir da ocupação da terra e da organização da vida de forma coletiva Batizada de Carlos Marighella, a escola itinerante tem 11 professores: seis são do acampamento e lecionam para o ensino infantil e de 1º a 5º anos do ensino fundamental, e outro cinco vêm de outras localidades para ministrar as aulas do 6º ao 9º ano. Além das crianças, adolescentes e jovens que cursam as sérias regulares, a escola também possibilita acesso à educação para jovens e adultos e ajuda a suprir a baixa escolaridade da comunidade.

“As escolas do campo são essenciais por estarem voltadas à vida dos educando, por relacionarem o ensino com o cotidiano. Elas movimentam a comunidade e ajudam a organizar”, afirma Alcione Nunes Farias, integrante do setor de educação no MST que trabalhou no início da escola itinerante Carlos Marighella. Para o professor, a educação da cidade forma as crianças retirando a identidade camponesa, contribuindo para a saída das pessoas do campo.

Além das crianças, adolescentes e jovens que cursam as sérias regulares, a escola também possibilita acesso à educação para jovens e adultos Por ter estudado um período na cidade, a adolescente Keila Souza dos Santos sentiu na pele o significado maior da educação do campo, voltada para o camponeses: “Nas escolas da cidade as pessoas têm posições racistas, não entendem nosso modo de vida. Eles procuram briga com os alunos do MST e os professores chamavam os sem-terra de vagabundos”. Keila é moradora do Assentamento Milton Santos e foi uma das crianças prejudicadas pela falta de vagas nas escolas da cidade e pela falta de transporte escolar. Durante os oito anos de acampamento a escola melhorou, conseguiu a legalização do ensino como escola itinerante, tem melhor estrutura para atender cerca de 50 educandos, mas sempre com pouco ou nenhum apoio do poder público. “O estado legalizou as escolas, mas não assume quase nenhuma tarefa e disponibilização de verba. Tudo é a base da luta e das reivindicações populares”, garante o professor. Crianças, adolescentes e jovens do campo têm o direito à educação ameaçado pela negligência do poder público em todo o Brasil. Desde 2002, cerca de 24 mil escolas do campo foram fechadas no país. (EG)


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Famílias sem terra são contaminadas por agrotóxicos no Espírito Santo Marcello Casal/ABr

AGRONEGÓCIO Fazendeiro ordenou a pulverização de agrotóxicos sobre famílias acampadas do MST Heider Boza e Luciana Silvestre de Vitória (ES) NA MESMA semana em que a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), junto ao Sebrae, lançou o Time AgroBrasil, campanha que visa consolidar a imagem do agronegócio sustentável brasileiro no exterior, um fato ocorrido do sul do Espírito Santo revelou o retrocesso desse modelo de agricultura: um fazendeiro ordenou a pulverização de agrotóxicos sobre famílias acampadas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No dia 3 de julho, no município de Presidente Kennedy (ES), o fazendeiro Martinho Adalmo Venturim ordenou que funcionários da Fazenda Santa Maria pulverizassem venenos contra as 75 famílias do acampamento José Marcos de Araújo. A área, considerada improdutiva pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desde 2009, está em fase de desapropriação. O saldo desse ato foram 18 pessoas intoxicadas, entre elas oito crianças e sete mulheres. Todos foram hospitalizados. Uma gestante de quatro meses sofreu um aborto devido à substância tóxica. De acordo com os relatos dos acampados, a ordem do proprietário foi a pulverização de veneno por toda a área da Fazenda Santa Maria, inclusive na área onde vivem as famílias acampadas. Segundo o técnico agrícola do MST, José Maria Mello Condack, que presenciou o fato, a ação foi intencional. “O trator com os agroquímicos ficou posicionado de forma estratégica em cima das barracas, que foram atingidas por mais de cinco minutos”, relatou. Ele disse que a identificação do produto usado na contaminação está sendo feita pelo Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) e a confirmação sairá em cerca de 60 dias. “A princípio, suspeitamos de que seja o Tordon”, afirmou José Maria. Entre os principais efeitos colaterais sentidos pelas pessoas atingidas, registraram-se diarreia, enxaqueca, náuseas, falta de apetite, cólicas abdominais, salivação e incontinência urinária. Esses são efeitos similares aos provocados pelo Ácido 2,4D, usado como arma química em confrontos armados em alguns países. Herbicida proibido desde 2010

Desde 2010, o princípio 2,4D, contido no Tordon, foi proibido no país devido a seus impactos sobre a saúde humana. A proibição se deu pela alteração da Lei n.º7.802/89, que disciplina os mais di-

vista Carta Capital de abril deste ano, a empresa Dow Agrociences, em e-mails internos, admitiu ter alterado de forma irregular a fórmula de 600 litros de agrotóxicos, em suas fábricas de Franco da Rocha e Jacareí. A empresa também se mostrou preocupada com uma vistoria da Anvisa e com uma repercussão negativa do fato na mídia e, para isso, faria uma estratégia para culpar o próprio órgão pelo ocorrido. A Dow Agrociences está entre as empresas líderes no mercado mundial de agrotóxicos e é a quinta maior do mundo em produção. Formada por um complexo de 12 empresas menores do ramo farmacêutico, de sementes e herbicidas, detém 10,2% do mercado mundial, o qual é dominado por seis grandes empresas, entre elas, a Monsanto, Syngenta, Basf, Bayer e Dupont, Essas empresas controlam 70% do mercado mundial e lucraram, em 2011, o valor de 8 bilhões de dólares. Arma química

Movimentos da Via Campesina protestam contra o uso de agrotóxicos

versos aspectos referentes ao uso de produtos agrotóxicos, proposta pelo Deputado Dr. Rosinha (PT-PR). O Tordon contém uma substância altamente cancerígena e, segundo o relatório da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, o Tordon possui “pouca segurança ambiental”, pois gera “o risco de permanecer no solo ou em microorganismos por longo tempo”. Em uma vistoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) à fábrica da Dow Agrociences no interior de São Paulo, nas localidades de Franco da Rocha e Jacareí, pouco antes da

proibição do Tordon em 2010, foram apreendidos 500 mil litros de agrotóxicos. Na ocasião, o Tordon não possuía controle de impurezas e continha na embalagem informações que induziam os agricultores ao erro quanto ao seu nível de toxicidade. Além disso, foram encontradas embalagens com vazamento, produtos com data de validade alterada e o princípio 2,4D, que era importado da Índia, sem o controle de impurezas. A empresa foi multada em cerca de R$ 1,5 milhão. As irregularidades da Dow Agrociences continuam sendo constatadas. De acordo com reportagem exclusiva da re-

O herbicida Tordon possui em sua composição o Ácido 2-4D, equivalente ao Agente Laranja, arma química amplamente utilizada durante a Guerra do Vietnã. A origem de sua empresa fabricante, a Dow Agrociences, data do pósSegunda Guerra Mundial, com a fusão da indústria farmacêutica com a indústria bélica. Assim como a Dow, grande parte das empresas do agronegócio internacional tem suas origens após Segunda Guerra Mundial. Sob a justificativa de reconstrução da Europa após duas guerras mundiais e de acabar com a fome no mundo, empresas passaram a massificar o uso dessas armas de combate na produção agrícola, processo que ficou conhecido como Revolução Verde.

Organizações fazem alerta à sociedade Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida tem conseguido denunciar irregularidades dos agrotóxicos no país de Vitória (ES) No Brasil, desde 2011, um conjunto de 50 organizações, movimentos populares, pesquisadores e até mesmo órgãos ligados ao Governo Federal vêm desenvolvendo ações em torno da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. A Campanha tem conseguido dar visibilidade a uma série de irregularidades e denúncias envolvendo os agrotóxicos no país.

Desde o início deste ano, a Campanha lançou um abaixo-assinado que reivindica o veto imediato da Presidenta Dilma Roussef à produção, circulação, comercialização e consumo de 14 princípios ativos já proibidos em diversos países. São produtos como os inseticidas Endolssufam e Metamidifós, vetados de países como Austrália, China, Estados Unidos, União Européia, Burkina Faso, Sri Lanka e Mali, por serem classificados como altamente tóxicos. No Brasil, desde 2002, os agrotóxicos têm validade ad eternum para registros, sem previsão de qualquer prazo para renovação ou reavaliação. Porém, os princípios podem ser colocados em processo de reavaliação e serem banidos caso não existam métodos no país para desativação do produto. Em casos de doenças provocadas por agrotóxicos que contenham características cancerígenas ou mutagênicas; que sejam mais perigo-

sos a humanos do que animais; que causem distúrbios hormonais e impactos ao meio ambiente, também pode ser solicitado o banimento do produto. Possuem competência para requerer revisão ou cancelamento de princípio ativo entidades de classe de profissões ligadas ao setor, partidos políticos com representação no Congresso Nacional, entidades de defesa aos interesses do consumidor, do meio ambiente e de recursos naturais. Os 14 princípios que constam na petição da Campanha já foram colocados em revisão pela própria Anvisa. Para acessar o abaixo-assinado, basta entrar na página da Campanha na internet http://www.contraosagrotoxicos.org/. No site também pode ser encontrada a petição online. A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida está organizada em 21 estados do Brasil. (HB e LS)

DIREITOS HUMANOS

Escravos são resgatados no Mato Grosso Trabalhadores viviam em condições degradantes em Nova Monte Verde, sem instalações sanitárias e acesso a água tratada Guilherme Zocchio de São Paulo (SP) QUATRO TRABALHADORES em situação análoga à de escravos foram libertados no município de Nova Monte Verde (MT), a 950 km da capital Cuiabá, aplicando veneno em pastagens de uma fazenda de gado bovino para corte. Apesar de exercerem atividade considerada de risco à saúde, pela possibilidade de intoxicação, eles não tinham equipamentos de proteção individual necessários ou treinamento para a aplicação de agrotóxicos. Além disso, o grupo vivia em condições degradantes, sem instalações sanitárias ou acesso à água tratada. A ação aconteceu em 13 de junho e, além do Grupo Especial de Fiscalização Móvel da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE/MT), contou com a participação do Ministério Público do Trabalho (MPT) e apoio de policiais do Grupo de Operações Espe-

ciais da Polícia Civil local. Os nomes dos proprietários e do empreendimento não foram divulgados. Após a libertação, os quatro resgatados cadastraram-se no Projeto Qualificação-Ação Integrada, que visa a inserção ao mercado de trabalho formal de trabalhadores vindos de condições análogas às de escravos e é organizado pela SRTE/MT, em parceria com o MPT e a Universidade Federal do Mato Grosso.

Os proprietários não forneciam condições mínimas de habitação aos empregados Os trabalhadores resgatados lavavam as roupas sujas de veneno em um córrego local, onde ainda tomavam banho. A água para beber ou preparar refeições era retirada de um poço próximo a esse mesmo riacho, sem qualquer tipo de tratamento. Como, além disso, não havia instalações sanitárias no local, os quatro utilizavam o mato como banheiro. E o encarregado pela fazenda não lhes fornecia alimentos, o que os obrigava a conseguir as refeições por conta própria. A fazenda tem área de 14 mil hectares e presença de cerca de 5 mil cabeças de

gado. Mesmo considerando a dimensão do empreendimento, os proprietários não forneciam condições mínimas de habitação aos empregados, segundo a fiscalização. O alojamento era de madeira, rústico e impróprio. “Para realizar a libertação dos trabalhadores, consideramos a degradância [a que o grupo estava submetido], as condições de higiene, a falta de moradia e a água imprópria para o consumo”, detalha o auditor fiscal José Evaristo Pereira Neto, que coordenou a operação. Sem carteira de trabalho

Contratados para aplicar agrotóxicos, os quatro empregados da fazenda não tinham carteira de trabalho e recebiam o pagamento apenas quando os trabalhos eram terminados. Eles eram tratados como prestadores de serviço autônomos, mas para o coordenador da fiscalização, não restam dúvidas de que “os elementos que caracterizavam vínculo de emprego estavam presentes”. Segundo o auditor, é possível aferir isso porque, entre outros motivos, o trabalho ocorria de forma não-eventual, ou seja, sem que se esgotasse com apenas uma execução; dependia da pessoalidade, pois era de competência de apenas aquele grupo de quatro pessoas; e porque o capataz tinha o controle das atividades de cada um dos empregados. “Chegamos, portanto, a essa conclusão de que eles não eram empreiteiros autônomos”, completa.

Os quatro foram contratados em um escritório em Alta Floresta (MT). Eles não sabiam, de antemão, o quanto receberiam. “Pelo que identificamos, o capataz [responsável pela supervisão dos empregados] acertou com eles o pagamento só no local”, explica José Evaristo. Indenizações

Em 10 de julho, uma audiência administrativa realizada entre o MPT e os responsáveis pela fazenda investigada estabeleceu que os infratores pagassem verbas no valor de R$ 5 mil por danos morais individuais aos trabalhadores, e R$ 20 mil por danos morais coletivos a entidades assistenciais. Na ocasião, os fazendeiros firmaram um Termo de Ajuste de Conduta aditivo com o MPT. Além da indenização, os quatro resgatados também receberam verbas rescisórias, com o montante que a fazenda devia, que totalizaram um valor de R$ 11.300. Ao todo, foram lavrados 20 autos de infração. De acordo com a Procuradora do Trabalho responsável por acompanhar o caso, Monica Delgado Pasetto, o estabelecimento descumpriu no começo do ano outro TAC, firmado em 2007 com o MPT e, por isso, vinha sendo verificado desde então. “A investigação já rodava em torno das condições de trabalho da fazenda, mas, na época [em 2007], eles vieram espontaneamente firmar o TAC”, explica a procuradora. (Repórter Brasil)


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cultura

O mal-estar no lulismo RESENHA Em Lulismo: carisma pop e cultura anticrítica, Tales Ab’Saber analisa como financeirização e carisma se uniram na consolidação da cultura do consumo no Brasil

Julio Delmanto “GÊNIO ANÓDINO do espírito festivo ordinário, comum, de nosso tempo, uma nova modalidade de ‘moda perpétua’ e de moralidade descompromissada. Um monumento pop em uma de suas facetas mais fundamentais: superficial, encantador, descomprometido e universal”. Sob qualquer aspecto, “inimputável”. As palavras são do psicanalista Tales Ab’Saber, na parte final de seu novo livro, e referem-se ao ex-Beatle Paul Mc Cartney. Mas não só: dizem respeito também a Luiz Inácio da Silva, que, segundo o autor, queria e em alguma medida conseguiu ser Paul Mc Cartney. Lançado pela Editora Hedra em 2012, Lulismo: carisma pop e cultura anticrítica é um instigante e sintético retrato cultural, econômico, político e psicanalítico do fenômeno descrito pelo cientista político petista André Singer como “lulismo”: combinação de idéias de esquerda e direita que unem estabilidade e ação distributiva do Estado e é sustentada pelo voto das classes de “baixíssima renda”. “Ex-pau de arara, ex-metalúrgico, exsindicalista, ex-socialista petista, novo mago do capitalismo periférico, ou semiperiférico”, Lula cooptou não só os muito pobres como também os muito ricos, lembra Ab’Saber. Paradigmáticos são tanto os apoios de grandes nomes da grande burguesia quanto uma frase do então recém empossado presidente, que afirmava que iria surpreender tanto esquerda quanto direita em seu governo. O autor vê aí uma referência a um

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traço marcante do “lulismo”, a tentativa de se fazer uma política “que intervenha nos dois polos opostos da vida nacional, o claro desejo de articular extremos (...) de modo que as posições políticas limites acabassem por suspender, rever e inverter os seus próprios critérios, uma a favor da outra”. Ab’Saber define o governo de Lula como uma gestão “ a favor de tudo”, num esforço constante por pacificar e integrar as “imensas tensões sociais brasileiras, tendo como fiador o mágico corpo transferencial de Lula, a radicalidade de seu carisma”. O autor busca aqui usar a terminologia psicanalítica para entender este elemento chave na trajetória de Luiz Inácio, busca entender que elementos compõem a “poética pessoal” do antigo líder operário e que efeitos de transferência produzem sobre um determinado público político.

“O líder carismático é um agente através do qual a política pode entrar num ritmo regular, evitando pontos embaraçosos ou questões divisórias de ideologia” Max Weber definia o carisma como uma das estruturas clássicas de dominação, o que leva o autor a caracterizá-lo, nesta visão, como uma “qualidade própria da exceção”. “Sua base política fundamental é a convocação e o convencimento da comunidade de que ele é o escolhido, e não algum outro, para a realização da missão” – ele é “o cara”, como disse Barack Obama. Em termos psicanalíticos, se trataria do “velho poder mágico paterno diante da criança ainda dependente”. Mas se para Weber o carisma é elemento de exceção, Ab’Saber pesca em Richard Sennet uma definição mais próxima ao fenômeno Lula: a do carisma secular. Surgido na política da personali-

chefe de equipe burocrática modernizadora das bases do capitalismo local. “O ornitorrinco carismático parece ser mesmo único”, sintetiza o autor, adaptando o conceito que Francisco de Oliveira empregara para descrever a interconexão funcional entre modernidade e atraso na História brasileira. O autor não tem receio em encarar a esfera econômica da análise, lembrando como Lula sedimenta sua grande aprovação não só depois de ter driblado a polêmica em torno do “mensalão”, da qual incrivelmente sai fortalecido, ao contrário do PT, mas também por conta da conjuntura internacional. Em um mundo em crise, as ótimas condições oferecidas ao capital financeiro, aliadas à descoberta do pré-sal e à demanda oriental pelas matérias-primas/ comoddities brasileiras colocam o país como “hype” da atual política global. Para dentro, o “lulismo” apaziguador, para fora, o “lulismo” pop.

dade iniciada no século passado, o carisma passa a atuar como força de estabilização da vida política comum: “O líder carismático é um agente através do qual a política pode entrar num ritmo regular, evitando pontos embaraçosos ou questões divisórias de ideologia”, aponta Sennet. Para os pobres, “Lula era uma espécie de igual, deslocado na direção do poder social”, prossegue Ab’Saber. Já para a política fisiológica e de “apropriação patrimonialista brasileira e suas estruturas de enraizamento no Estado”, o ex-líder sindical também se configurou em um igual, “um líder e uma garantia plena de liberdade e impunidade pragmática”. Haveria ainda uma terceira frente, uma elite modernizante e de interesse social mais amplo no desenvolvimento do país, para quem Lula foi também o “líder político que garantiu as condições de trabalho em grandes e generosos gestos de delegação”. De acordo com o ensaio, essas três frentes políticas se converteram em três fontes heterogêneas de carisma: o líder popular benevolente, o recém-chegado patriarca e o generoso e pouco exigente

“Ex-pau de arara, ex-metalúrgico, ex-sindicalista, ex-socialista petista, novo mago do capitalismo periférico, ou semiperiférico” Ab’Saber se alinha a uma tradição crítica que não dissocia a cultura da política, e por isso as páginas finais do livro são de tamanho vigor. É ali onde ele combina sua análise “psicopolítica” do carisma com os elementos socioeconômicos da trajetória recente brasileira para apontar a “radical expansão da economia sobre a cultura, agora incluindo o desejo de consumo das classes pobres” como o principal movimento da Era Lula. A verdadeira obra tucana e neoliberal de submissão total do espaço público ao mercado consolida-se não com FHC, mas durante os oito anos de governo petista, numa cultura do consumo que tem também o consumo como cultura – de salvação. Julio Delmanto é jornalista e mestrando em História Social (FFLCH-USP)

Partido e revolução RESENHA Livro debate contemporaneidade e desafios da luta de classes e as perspectivas para a esquerda Ronaldo Coutinho APÓS O FIM do chamado “socialismo real”, em 1989, com o início da “longa noite” do movimento operário instaurou-se uma época contrarrevolucionária que perdura até os dias atuais e é interpretada como o definitivo triunfo do projeto capitalista e da democracia ocidental burguesa sobre as demais formas societárias até então conhecidas. Com a disseminação ideológica da ideia de “fim da história”, das ideologias, das lutas de classe, da impossibilidade de novos movimentos revolucionários etc., vive-se, como assinala o próprio autor, “uma vaga histórica pouco propícia para se reconstruir uma projeção societária assentada em valores radicalmente antagônicos aos burgueses”. E é precisamente nesse quadro histórico desalentador que Marcelo Braz resolveu enfrentar o desafio de contribuir para a revitalização teórica e política da possibilidade de revolução como emancipação humana, plenamente consciente de que atingir esse objetivo “requer uma renovação teórica que procure realizar uma articulação entre as fontes clássicas da tradição marxista e as contribuições da tradição teórico-política que delas se derivaram e a elas se associaram no curso da trajetória do movimento socialista e comunista” e que essa articulação “deve se dar em função e a partir dos enormes desafios postos pela contemporaneidade das lutas de classe”. O resultado: um livro essencial. Nele conjugam-se a pesquisa extremamente cuidadosa, o pleno domínio da bibliografia, o conhecimento dos processos históricos analisados, a fundamentação segura na teoria marxiana e um profundo conhecimento das questões exploradas ao longo de todo o texto. Demais, vale sublinhar a maneira densa e ousada como são analisadas e interpretadas questões como o saldo teórico-político do stalinismo, a questão nacional,

o “socialismo num só país” tendo sido, ao mesmo tempo, obra teórica de Stalin e demanda real das contradições internas na Rússia e do fracasso da revolução no ocidente, a ideia de um Estado socialista, do tipo proletário, assentado numa unidade operário-camponesa, com uma forma específica – predominantemente estatal – de controle social da produção como a mais apropriada para identificar o governo bolchevique, entre outras. O exame crítico das contribuições de Togliatti e Trotsky, a avaliação do eurocomunismo, as pertinentes ressalvas às análises de Mandel e Claudin, as observações sobre os equívocos de interpretação da Internacional Comunista sobre o fascismo como possível forma final do capitalismo, o problema da dificuldade que a unidade de ação em torno das frentes antifascistas provocou nas forças do campo revolucionário constituem sólida contribuição para uma reavaliação de interpretações históricas ainda predominantes.

“O processo revolucionário impõe ao partido um permanente acompanhamento dos fatos e uma contínua análise da conjuntura” Retomo o ponto de partida de Marcelo Braz para destacar, uma vez mais, a relevância e a profundidade de sua contribuição teórico-política, uma vez que este é sobretudo um texto de combate: a crise que as esquerdas vivem hoje é, acima de tudo, uma crise de suas expressões mais avançadas (os movimentos socialista e comunista), ou seja, nos partidos políticos revolucionários. Logo, estudá-los “é estudar as próprias possibilidades de transformação social; discutir a falência de algumas de suas formas históricas é imprescindível para problematizar as alternativas possíveis à superação da crise; realizar uma viagem de volta às mais importantes experiências revolucionárias que existiram efetivamente é decisivo para lançar luzes sobre o debate atual” (p.22). Debate, aliás, marcado por uma convicção da definitiva superação do partido como instrumen-

to político e organizador da classe proletária e, ao mesmo tempo, por uma fetichizada concepção dos “novos” movimentos sociais e das organizações que integram o Terceiro Setor. O livro alicerça-se na vertical investigação das revoluções proletárias desenvolvidas ao longo do século 20, que se caracterizaram por dois aspectos determinantes: ou tiveram os partidos políticos (socialistas ou comunistas) como seus principais protagonistas desde a preparação do processo revolucionário, passando pelo desenlace decisivo e se prolongando pela sua afirmação e consolidação posteriores, ou os engendraram ulteriormente como desdobramento político e os tiveram como principais condutores. Também se orienta pela constatação de que a partir das próprias revoluções se consolidou, no âmbito da tradição marxista, toda uma tradição teóricopolítica voltada para o debate em torno da concepção de revolução e da noção de partido revolucionário, tradição que deu continuidade – aprofundando, inovando, revisando ou deformando – aos debates que se iniciaram na segunda metade do século 19, daí a análise das obras de Kautsky, Lenin, Rosa Luxemburgo, Bernstein, Trotsky e Stalin. Estudo empreendido, conforme adverte (e realiza) o autor, com uma impecável contextualização histórica. Registre-se a leitura crítica das noções de partido e de revolução inauguradas pelo Manifesto do Partido Comunista desenvolvida no Capítulo 1 e na Conclusão e, sobretudo, a refinada análise da importância política e do legado teórico de Lenin que ilumina substancialmente o texto e permite ao autor observar, quando estuda a relação entre o programa do partido e a prática política concreta que “(...) o processo revolucionário impõe ao partido um permanente acompanhamento dos fatos e uma contínua análise da conjuntura na qual se inserem as classes sociais em disputas com seus projetos e seus interesses. Ainda que o partido não necessite abandonar suas teses centrais, nas quais, em geral, se vislumbram horizontes macrossocietários de maior lapso temporal, não implica que elas não possam ser subordinadas, estrategicamente, às necessidades político-conjunturais mais prementes” (p.109).

O livro de Marcelo Braz, escrito de forma elegante, clara e muito expressiva, enriquecido por notas de rodapé sempre oportunas, elucidativas e com referências indispensáveis, revela-se essencial e deve ser lido com a maior atenção, especialmente porque evidencia, com argumentação sólida, consistente e com suporte histórico que as experiências revolucionárias por ele estudadas, possibilitam afirmar que “até hoje, o partido foi a organização política do proletariado que, como instrumento de mediação universal, tornou possível historicamente a realização da síntese fundamental das diversas lutas numa luta política – ou, noutros termos, tornou possível a própria revolução como emancipação humana” (p.308). Ronaldo Coutinho é Livre-Docente/ Doutor em Sociologia; Professor da UFF e da UERJ-aposentado Reprodução

Serviço Partido e Revolução – 1848-1989 Marcelo Braz Editora Expressão Popular: 2011


cultura

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Crônica universitária

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CRÔNICA Até o boteco sujo do seu Juca está virando café-com-leite

Maykon Souza Encostou no balcão, mas não falou nada. Aproximou o polegar do indicador, mostrando o tamanho da dose, e foi rapidamente entendido. Em alguns segundos, o garçom apareceu com uma garrafa. Ele reagiu: – Nem vem com isso... Esse negócio de pinga universitária não é comigo, não. – Pinga universitária, seu Juca? – É essa coisa docinha que vocês começaram a fazer agora. Parece até que já vem com mel e limão pra descer mais facinho. E, de repente, mesmo sem saber, meu filósofo de boteco preferido jogou uma luz de sabedoria sobre o balcão daquele bar. Universitário! Porque as coisas vêm se chamando assim de uns tempos pra cá, eu não sei; mas sabemos muito bem o que significa. Tudo que ganha uma versão docinha, que desce macio pode ser chamado de universitário. Quando eu era criança, a gente chamava essas coisas de café-com-leite. Arrastei meu copo para perto do Juca e pedi que falasse mais sobre o assunto. – Veja você, rapaz, pinga sempre foi coisa de bêbado, de pudim de cachaça. Agora, tem umas mais docinhas que batida. De pinga, só o nome. – Interessante. – E o que fizeram com a música sertaneja? A coisa começou lá com a música caipira, que essa molecada aí acha que é brega, que dá sono. Se esse pessoal escutar Tonico e Tinoco, vai gargalhar, debochar. Mas, aí, colocaram um sonzinho mais moderno, letra fácil, guitarrinha, calça apertada, e passaram a tocar em festa e rodeio. Fiquei pensativo. Ele tinha razão. Arrisquei: – Seguindo sua lógica, posso dizer que a comédia stand-up é uma espécie de teatro universitário? – Como assim? – É uma versão docinha do teatro de verdade. Ninguém tem saco mais pra ver Shakespeare, Moliére ou Nelson Rodrigues. Dizem que é pesado, complicado, demorado, tem que ficar pensando. Então, criaram um jeito de continuar indo ao teatro só que pra ver uma coisa rapidinha, que não precisa pensar muito. Vão ao teatro, porque é chique, mas deixaram de lado a parte chata, que são as peças. Juca terminou o gole, passou a língua nos lábios e balançou a cabeça pra cima e pra baixo, aprovando a teoria. Outro cara empurrou seu copo para perto e entrou na conversa. – E esse açaí que vocês comem aqui, em São Paulo? Coisa mais estranha. Lá no Pará que é

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açaí de verdade, com a fruta mesmo. Onde é que já se viu açaí doce? Isso que se come aqui é sorvetinho. – É o açaí universitário! – cravou Juca, sem disfarçar a empolgação. – Isso mesmo. Pegaram a parte boa, que é dizer que é da Amazônia, e deixaram tudo bem docinho, que é pra vocês aqui conseguirem comer. Ficamos tão encantados com a nossa filosofia de botequim, que experimentamos o silêncio por alguns minutos. Renovamos a dose e aproveitei para pensar em outras coisas que poderiam ganhar uma versão docinha. Que tal o baile funk universitário? Todo aquele climão, mas tudo café-com-leite. Músicas sem palavrão, sonorização de tiroteio a cada 15 minutos e de sirene a cada duas horas, e encenação com atores fortemente armados cruzando o salão a cada 45 minutos. Tudo na maior segurança. Uma vez por mês, poderiam organizar até uma briga de gangues pra coisa ficar bem real. Sei que nem todos os bailes funk são assim, mas é assim que as pessoas imaginam e uma das características das versões café-com-leite é abusar dos clichês que já caíram no gosto do grande público. Posso ver até seu Juca explicando: “Pegam a fama exótica da coisa e jogam fora sua essência. Pasteurizam a ponto de ficar igual a tudo que já foi consumido antes. Tudo pra não correr risco de rejeição”, diria ele, com seu português exemplar. Outra coisa “feia”, mas que poderia se transformar em “bonitinha” para ganhar os corações e o bolso da molecada cheia da grana é a rinha de galo. Galos de pelúcia comandados por controle remoto (pra ninguém ver sangue e correr o risco de passar mal), bolsa de apostas virtuais acessadas de celulares ultramodernos, e até algumas encenações da chegada da polícia para elevar o nível de adrenalina da rapaziada. No final, ao som de um sertanejo universitário qualquer, o vencedor poderia até dar um trago na pinga universitária do Juca. Sem esquecer, é claro, de tomar um açaí universitário antes de cair no sono em sua cama quentinha. Ao olhar para o balcão, percebo que Juca se foi. Sua passagem pelo bar é cada vez mais rápida. Dou uma olhada geral. Um autêntico risca-faca, mas com mesas cheias de menininhas arrumadinhas, pingas universitárias nas mesas e, na TV, uma luta-livre cheia de glamour. Logo logo, colocam segurança na porta e cobram consumação mínima. Até o boteco sujo do seu Juca está virando café-com-leite. Do outro lado do balcão, o dono sorri feliz da vida. Compreendo o Juca. Mato a dose e peço a conta.

Veja você, rapaz, pinga sempre foi coisa de bêbado, de pudim de cachaça. Agora, tem umas mais docinhas que batida. De pinga, só o nome

Maykon Souza é autor do blog Amenidades Crônicas (http://amenidadescronicas.blogspot.com)

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o balcão

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PALAVRAS CRUZADAS

Verticais – 1.País do Oriente Médio que admitiu recentemente a possibilidade de usar armas químicas em caso de “agressão externa” - Cemitério de (?), localizado na periferia de São Paulo onde, em 1990, foram encontradas em uma vala 1.049 ossadas de indigentes, presos políticos e vítimas dos esquadrões da morte. 2.Símbolo que representa o tamanho da pilha pequena. 3.Líder do Khmer Vermelho. 4.Criatura imaginária assustadora, devoradora de seres humanos, bicho-papão – Mentira. 6.“Uma Torre de (?)”, diz-se quando as pessoas não se entendem – Partido que esteve no poder no México por 71 anos e que acaba de voltar à presidência sob denúncias de fraude eleitoral. 7.Cidade do interior de São Paulo conhecida folcloricamente por tudo lá ser grande. 8.Cidade que abrigará os Jogos Olímpicos. 9.Ministro da religião muçulmana – Sigla de Alagoas. 10.Furgão – Elemento que indica oposição. 11.Forma coloquial de “está”. 12.Aquilo que raspa. 13.Prato típico japonês que significa “caranguejo” que leva esse nome por ser originalmente feito com a carne desse crustáceo. 14.Maior espécie de lagarto brasileiro, atingindo até 2 metros de comprimento – País asiático que tem como sua capital a cidade de Vientiane. 15.De acordo com o Gênesis, foi a terra natal de Abraão – Segunda nota da escala musical. 16.Faniquito - “corredor” entre assentos em um ônibus ou avião, em inglês. 17. Antes de Cristo – Menciona. 18.Estado dos EUA em que recentemente um atirador entrou em um cinema e matou ao menos 12 pessoas.

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Horizontais – 1.Simón Bolívar – Túpac. 2.Oma – Américo. 3.Bananas. 4.Pote – Único. 5.Lira – Tak – Ir. 6.Alle – Telhada – Ata. 7.Papo – SUS – On – Riad. 8.Ora – Capriles. 9.Roto – Pan. 10.Otelo. 11.Racionais MC’s. Verticais – 1.Síria – Perus. 2.AA. 3.Pol Pot. 4.Ogro – Lorota. 6.Babel – PRI. 7.Itu. 8.Londres. 9.Imã – AL. 10.Van – Anti. 11.Tá. 12.Raspador. 13.Kani. 14.Teiú – Laos. 15.Ur – Ré. 16.Piti – Aisle. 17.AC – Cita. 18.Colorado.

Horizontais – 1.Líder venezuelano que comandou as guerras que resultaram na independência de vários países sul-americanos e o Panamá do domínio espanhol, nascido há 229 anos - (?) Amaru II, líder indígena peruano que conduziu a maior rebelião anticolonial da América no século XVIII. 2. “Avó”, em alemão - (?) Vespúcio, navegador que “empresta” o nome a um continente. 3. República das (?), termo pejorativo para um país, normalmente latino-americano, politicamente instável, submisso a um país rico e frequentemente com um governador corrompido, o termo inicialmente referia-se a Honduras. 4.Reza a lenda que no final de um arco-íris há um (?) de ouro – Exclusivo. 5.Foi a moeda da Itália entre 1861 e 2002 - “Obrigado”, em dinamarquês – O oposto de “vir”. 6. “Todos”, em alemão – Coronel, ex-chefe da Rota, candidato a vereador pelo PSDB de São Paulo, que vem usando sua página no Facebook para incitar a violência contra jovens negros e pardos das periferias – O registro de uma reunião. 7. Conversa – Sistema Único de Saúde - “Ligado”, em inglês – Capital da Arábia Saudita. 8.Reza – Principal candidato de oposição a Hugo Chávez nas eleições presidenciais de outubro na Venezuela. 9.Rompido - “Pão”, em espanhol. 10. “(?), o mouro de Veneza”, obra de Shakespeare escrita por volta de 1603, que por causa dos seus temas variados – racismo, amor, ciúme e traição – continua a desempenhar relevante papel para os dias atuais. 11. Grupo de rap que acaba de lançar a música “Marighella”.


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américa latina

A integração, seus instrumentos e as ameaças continentais Fotos: Joka Madruga

DEMOCRACIA Parlamentares do Mercosul dimensionam problema do golpe no Paraguai e as ferramentas de integração Pedro Carrano, de Curitiba (PR) O COLORIDO das bandeiras dos países latino-americanos tomaram a bancada de mármore branco da Assembleia Legislativa do Paraná. Em meio ao recesso dos parlamentares paranaenses, no lugar deles estavam professores, estudantes e militantes participando do debate “Crise, Estado e Desenvolvimento: desafios e perspectivas para a América do Sul”, organizado por representantes do Parlamento do Mercosul (Parlasul), para ouvir três dos seus integrantes: o deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR), Guillermo Carmona (deputado argentino) e Ricardo Canese (parlamentar e secretário da Frente Guazú paraguaia).

Dr. Rosinha afirma que o momento de certa estagnação do Parlasul se deve ao Senado brasileiro (que possui integrantes favoráveis à permanência de deputados paraguaios) III Cepial recebeu parlamentares do Parlasul

O evento foi parte do Congresso de Cultura e Educação para Integração da América Latina (III Cepial). No debate, os três parlamentares reafirmaram a posição dos respectivos países em favor do afastamento dos deputados paraguaios das instâncias do Mercosul, Unasul e, consequentemente, do Parlamento do Mercosul. Em entrevista ao Brasil de Fato, Dr. Rosinha afirma que o atual momento de certa estagnação do Parlasul se deve ao Senado brasileiro (que possui integrantes favoráveis à permanência de deputados paraguaios), uma vez que o Parlamento segue completo pelos parlamentares de Uruguai e Argentina. O deputado argentino Guillermo Carmona defende o afastamento dos deputados paraguaios, justificando que apenas Ricardo Canese manifestou-se contrário ao golpe institucional. Enquanto isso, os outros 17 parlamentares paraguaios no Parlamento mantiveramse favoráveis. “Os parlamentares paraguaios fizeram uma forte crítica aos uruguaios e argentinos por solicitarmos a suspensão e não irmos à sessão programada. Parlamentares do Mercosul têm que se incorporar no momento em que se produza o retorno à normalidade democrática”, afirma.

ção dos países membros. Um dos exemplos citados foi o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), no qual Brasil e Argentina são responsáveis por 77% dos recursos do Fundo. “Há discussões sobre o fundo social e o fundo para agricultura familiar. Entretanto, ou corrigimos a assimetria ou não há integração”, afirma Dr. Rosinha. Após a mais recente reunião do Mercosul, o Focem destinou 50 milhões de dólares para a segunda etapa da construção da Avenida Costañera Norte, em Assunção, o que mostra que as sanções sofridas pelo governo no Paraguai estão ocorrendo no campo político, não no econômico.

“A ONU hoje procura resolver o conflito, mas foi destruída pela invasão militar do Iraque, e não consegue saída para a Síria”

O deputado do Parlasul (Parlamento do Mercosul) eleito em 2008, Ricardo Canese, é secretário-geral da Frente Guazú (Frente Ampla, na tradução do guarani), bloco que integra 20 organizações paraguaias de naturezas distintas. Canese vive, no momento, o que poderia ser um dilema pessoal: ele é um dos 20 parlamentares paraguaios que não estão participando do Parlasul. Até o momento, os governos de Argentina, Brasil e Uruguai concordam com a suspensão dos parlamentares paraguaios do bloco comercial. “São os golpistas que são suspensos da Unasul e Mercosul e não o povo paraguaio”, reafirma Canese, enfático. Canese defende que o governo Lugo trouxe melhorias na área da saúde e no combate à pobreza, mas esbarrou na falta de maioria no Congresso. “Tínhamos 58% de apoio, um governo muito bem conceituado, com popularidade e vencemos com 41% em 2008, porém, com minoria no Congresso”, recorda.

Carmona informou que todo o Congresso Nacional Argentino, sem exceções, votou a favor da defesa das “instituições democráticas no Paraguai” – o que, para ele, revela que a luta pela democracia está na ordem do dia. A decisão tomada no Parlasul, no dia 31 de julho, de incorporar a Venezuela ao bloco tem sido objeto de disputas políticas. “Os jornais diários disseram que existiam fortes divergências entre Brasil e Argentina, ou que [o presidente do Uruguai] Mujica teria se oposto à presença da Venezuela. Presenciei o contrário”, comenta Carmona. No caso da União das Nações SulAmericanas (Unasul), Carmona observou que mesmo em um espaço de tendências divergentes, países mais à direita, como Colômbia e Chile também foram contrários ao golpe de Estado no Paraguai. Integração

Ao longo do ato político, foi desenhado qual o caráter do Parlasul e o papel dos seus parlamentares. Na avaliação do vice-presidente desse espaço, Dr. Rosinha, é importante construir o que ele denomina de uma “família política”, dentro de um espaço político parlamentar, que aponte para um posicionamento de esquerda. De acordo com o deputado, o objetivo não é corporativo. “Não vou defender o Brasil, vou defender a cidadania do Mercosul”, argumenta. A desigualdade social e econômica do Mercosul foi abordada no debate, ao lado da necessidade de equalizar a situa-

“Os jornais diários disseram que existiam fortes divergências entre Brasil e Argentina, ou que [o presidente do Uruguai] Mujica teria se oposto à presença da Venezuela. Presenciei o contrário” Politicamente, Dr. Rosinha enxerga que organismos internacionais como a ONU não conseguem intervir sobre esse tipo de conflito, como foi o caso do golpe. “A ONU hoje procura resolver o conflito, mas foi destruída pela invasão militar do Iraque, e não consegue saída para a Síria”, sa-

lienta. Esse fator reforça a necessidade de integração entre os países. “Não é uma disputa localizada. Não há soberania em um só território. Qual a capacidade do Uruguai? Brasil e Argentina não têm condições de fazer disputa no mundo, condição dada pela integração”, afirma.

Minoria no Congresso, maioria nas ruas Expectativa em relação a 2013 esbarra na atual perseguição política de Curitiba (PR)

“São os golpistas que são suspensos da Unasul e Mercosul e não o povo paraguaio”

Dr. Rosinha destaca a importância da “cidadania” do Mercosul guiada por um posicionamento à esquerda

Outras medidas do governo Franco foram a liberação de sementes transgênicas e a redução de impostos para grandes produtores de soja. Canese demonstra preocupação com as eleições de 2013, em que pese o otimismo em relação ao apoio que a esquerda terá no pleito. “Precisamos que essas eleições sejam livres e democráticas. Mas temos dúvidas. Já há jornalistas perseguidos”, denuncia. Ele apontou que deve haver, no dia 15 de agosto, uma jornada internacional contra o Golpe, a partir da ida de uma delegação internacional ao Paraguai.

raguaia não tem autonomia para executar um julgamento. Trata-se da mesma Corte que agora deve examinar o pedido de inconstitucionalidade requerido pela defesa de Fernando Lugo.

“A direita clama que o golpe é legal porque a Suprema Corte do Paraguai manifestou-se pela constitucionalidade do golpe”

Constituição frágil

O deputado paraguaio cita os interesses do atual governo que, no intervalo de três dias, abriu negociações com a mineradora Canadense Rio Tinto Alcan, produtora de alumínio. A empresa, segundo ele, já teria recebido do governo de Federico Franco 14 bilhões de dólares em subsídios, o que soma sete vezes a dívida pública paraguaia. Diferentemente do governo Lugo, que havia prorrogado a abertura das negociações para três anos.

A leitura do deputado federal Dr. Rosinha, vice-presidente do Parlasul, é de que o golpe institucional no Paraguai é semelhante ao caso de Honduras, ao aproveitar brechas em constituições frágeis. “Não usam mais forças armadas, ficou antiquado botar tanque nas ruas. Aproveita-se de brechas em constituições muito frágeis. No caso do Paraguai, foi usado um dos artigos da Constituição e não o artigo que falava em direito de defesa”, elucida. Pela descrição do deputado, a Suprema Corte Pa-

“A direita clama que o golpe é legal porque a Suprema Corte do Paraguai manifestou-se pela constitucionalidade do golpe. Ora, o mesmo artigo que faz o julgamento político do presidente pode fazer dos membros da Suprema Corte. Quer dizer, como é que eu vou votar contra a decisão do Congresso se depois o próprio congresso pode dar impeachment a cada um dos juízes que votaram contra. É uma Constituição frágil”, critica. (PC)


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Egito, uma consciência em construção Fotos: Paula Sacchetta

OPINIÃO A polarização entre islamistas e seculares ainda dita quase todo o debate político na atual fase pós-Mubarak Aldo Cordeiro Sauda e Marcia Camargos QUANDO, NO DIA 15 de junho, a junta militar egípcia dissolveu o Congresso Nacional, Kamal Abu Aita, o único dirigente sindicalista que integrava o parlamento deposto, preparava-se para o pior. Passados 18 meses de revolução, quando as eleições para o legislativo simbolizavam o mais concreto avanço da luta por democracia no país, os sinais de um novo golpe de estado liderado pela linha dura do exército estavam visíveis em todas as esferas da vida nacional. “Este parlamento podia ser tudo, menos revolucionário”, afirmava o líder operário, para completar que, apesar disso, sua abolição pela Junta Militar indicava o quanto a contrarrevolução sentia-se à vontade para dar as cartas e ditar as regras do jogo. O golpe branco, que na previsão de Kamal se materializaria na nomeação do ex-primeiro ministro de Hosni Mubarak, Ahmad Shafiq como novo presidente, acabou não se confirmando. Depois de dissolver o parlamento, impor lei marcial e adiar seguidamente a divulgação do nome do candidato vitorioso do segundo turno das eleições, os militares cederam. Mesmo com a totalidade dos observadores independentes anunciando o líder da Irmandade, Muhamad Mursi, como vencedor do pleito, a Junta apenas o declarou vencedor após inúmeras rodadas de negociação com a direção de seu partido. Ainda que o novo acordo entre os “irmãos” e os militares tenha possivelmente evitado uma crise de proporções imprevisíveis, para o líder sindicalista, a disputa entre a irmandade e a junta é de interesse secundário para os trabalhadores. “Shafiq e Mursi são, ambos, candidatos da burguesia e inimigos da classe”, disse Kamal. “Agora precisamos formar um campo próprio de esquerda”. Presidente da Central Sindical Independente Egípcia (CSIE), cuja fundação ocorreu na praça Tahrir em meio às manifestações que derrubaram o então ditador Hosni Mubarak, Kamal reivindica a

Depois de dissolver o parlamento, impor lei marcial e adiar seguidamente a divulgação do nome do candidato vitorioso do segundo turno das eleições, os militares cederam liderança de quase dois milhões de trabalhadores em sua base. Para uma organização com pouco mais de um ano e meio de existência, a central cresceu em uma velocidade impressionante. Visto assim, fora de contexto, tal número de filiados pode surpreender, mas a verdade é que ele não representa, na realidade, uma suposta força do operariado. Em um país sufocado há mais de 30 anos por uma ditadura truculenta e alienante, a classe trabalhadora encontra-se sub-representada no mundo da política egípcia. De fato, eleito apenas nove meses após a queda de Mubarak, o parlamento deposto retrata com extrema crueza não só o conturbado cenário ideológico do país, mas, sobretudo, o profundo isolamento da sua classe operária. Dos 508 parlamentares, apenas 25 deputados de raros partidos de esquerda são computados como simpáticos à causa dos trabalhadores. E nem mesmo a comissão de assuntos trabalhistas do Congresso está em mãos dos aliados da classe. A presidência da comissão, que pertence à Irmandade Muçulmana, é dirigida por um gerente do setor petroleiro, Saber Abu Fattuh. Embora tenha, em determinados momentos, se posicionado de forma favorável às mobilizações operárias nos anos Mubarak, Fattuh e a Irmandade estão longe de configurarem um aliado confiável dos trabalhadores. Os principais dirigentes do grupo, como o multibilionário Kairat el Shater, têm anunciado a cada oportunidade que sua organização mantém concordância ideológica com o programa de privatizações implementado pelo ditador deposto, descartando apenas a participação de “empresários corruptos” em seus meios.

Praça Tahrir tem sido tomada por manifestantes que lutam por direitos sociais

impulso para a sua derrubada. Ao longo dos anos 2000, um ascenso das mobilizações dos trabalhadores não só abriu caminho para o fim da era Mubarak como também reinventou a cultura das manifestações de rua. O caráter estritamente economicista das reivindicações, porém, acabou por impedir que o movimento, sobretudo durante o governo Mubarak, desenvolvesse uma agenda minimamente política para lidar com a realidade social do país. Quando o povo egípcio, formado em sua maior parte por jovens excluídos e subempregados, tomou as ruas no dia 25 de janeiro de 2011, entoando as palavras de ordem “pão, liberdade e justiça social”, a classe trabalhadora, de maneira desorganizada e individual, aderiu ao chamado. Sua mobilização deuse num crescente. Foi a partir desta data simbólica, e logo após a organização da direção dos trabalhadores na central livre, que o operariado, pela primeira vez, atuou politicamente como classe. Depois da declaração da greve geral na Tahrir, realizada em conjunto com a fundação da central sindical, a economia do Egito parou. Diante do caos, e assustados com a possibilidade de que as mobilizações atingissem e prejudicassem ainda mais as finanças do exército, os generais até então fieis a Mubarak abraçaram o slogan pedindo a derrubada do presidente. Verdade seja dita, em momento algum a classe trabalhadora dirigiu o processo nem atuou como vanguarda. Seus líderes não ocuparam palanques na Tahrir. Suas demandas “específicas” como a questão da liberdade sindical sequer foram ouvidas. No campo simbólico, ela praticamente não marcou presença. Mas sua intervenção concreta na marcha dos acontecimentos alterou de modo definitivo a correlação de forças da fase inicial do processo revolucionário, colocando, de fato, a ordem vigente em xeque. Interessante notar que mesmo em meio a uma revolução, com as ruas tomadas por protestos, com a alta política ocupando os debates diários da população, a maioria do movimento sindical egípcio ainda se revindica, contraditoriamente, apolítico. Com exceção de Kamal Abu Aita e esparsos integrantes da diretoria da central, são raros os sindicalistas, até entre os dirigentes nacionais, que se enxergam como sujeitos ativos das mudanças em curso. No centro do

debate revolucionário que tem contado com a participação incisiva da classe trabalhadora, o temor expresso pela maioria das lideranças sindicais de se envolver em “disputas políticas” não deixa de ser desconexo e, no limite, contraditório. A explicação é simples e, ao mesmo tempo, perturbadora. “Existe um enorme abismo entre as lutas sociais e as lutas políticas neste país”, afirma Fatma Ramadan, uma das principais figuras públicas do movimento revolucionário e única marxista de destaque da central. “Enquanto os trabalhadores fazem greves, tensionando o governo e parando a economia, quase nenhum se vê como ator político” afirmava. Ao abordar o histórico das mobilizações operárias, a dirigente destacava a insistência absurda dos trabalhadores em reafirmar que a greve ocorria não pelo bem da classe, mas da empresa na qual trabalhavam.

Os assuntos ligados às identidades culturais e religiosas conseguiram monopolizar o cenário nacional, em detrimento das discussões sobre direitos sociais Enquanto o baixo grau de consciência do proletariado dificulta a organização radical dos trabalhadores, as polarizações sociais, para além do movimento sindical, pouco ajudam. No Egito pós-Mubarak, os assuntos ligados às identidades culturais e religiosas conseguiram monopolizar o cenário nacional, em detrimento das discussões sobre direitos sociais. A divisão islamistas/fundamentalistas de um lado, e seculares de outro, tem ditado quase todo debate político. Revolucionários, que ombro a ombro acamparam na praça Tahrir durante os 18 dias de confrontos que derrotaram um ditador no poder há quase 3 décadas, abandonaram as reflexões em torno de “pão, liberdade e justiça social” para um debate confuso sobre o papel de Deus na nova república. Se em uma primeira fase, de forma unida, conver-

Ignorados e apolíticos

Por mais que as narrativas clichê da revolução egípcia apontem a “juventude” como ator solo do processo responsável pela deposição do antigo regime, é consenso entre boa parte dos analistas que a greve geral convocada às vésperas da renúncia do então presidente foi um dos mais importantes, senão o principal

savam sobre como “limpar” a pátria dos remanescentes do ancien régime, agora seculares e fundamentalistas abandonam o tema. O grau de radicalismo injetado em certos círculos pelo sentimento anti-islamista acabou por empurrar fervorosos militantes de esquerda a suspeitas e temíveis alianças políticas com remanescentes de proa da era Mubarak. “Terceiro campo”

Se é inegável o predomínio da questão “secular versus islamista”, que sufoca as reflexões em torno de direitos sociais, se continua inquestionável a hegemonia deste último bloco sobre as massas, o grau de inserção da Irmandade entre os trabalhadores é discutível. Após o retumbante desempenho nas eleições parlamentares, nas quais abocanhou 10 milhões de votos, teve sua votação cortada pela metade no pleito presidencial, apenas quatro meses depois. Nas urnas, os “irmãos” sentiram o efeito de sua atuação desastrosa no parlamento, onde dedicavam-se mais a examinar a proibição dos biquínis nas praias do que buscar soluções para as demandas sociais. Neste vácuo, personagens que, com um discurso nacionalista, centravam-se nas preocupações diárias da população, foram ganhando fôlego. Hamdeen Sabbahi, o candidato nasserista de esquerda, que no decorrer de toda a campanha presidencial foi praticamente ignorado pela mídia, terminou em terceiro lugar, com 4 milhões e 700 mil votos. Ou seja, menos de 700 mil votos atrás do candidato do regime, Ahmad Shafiq, e 900 mil de Muhamad Mursi, da Irmandade Muçulmana. Dado seu baixíssimo financiamento de campanha, Hamdeen, cuja candidatura foi ativamente apoiada por Kamal Abu Aita, voou mais alto do que alguns suporiam.

Dado seu baixíssimo financiamento de campanha, Hamdeen, cuja candidatura foi ativamente apoiada por Kamal Abu Aita, voou mais alto do que alguns suporiam Mesmo fora do páreo, Hamdeen parece reunir forças, junto com o nascente sindicalismo independente, para enfrentar os desafios que se apresentam. Os problemas acumulam-se na mais nova democracia do Oriente Médio. Superpopulação, miséria, déficit de habitação, saúde e educação em frangalhos, drástica redução de terras férteis, desemprego galopante. Mursi, que já sela acordos com Washington, dificilmente conseguirá responder aos anseios mínimos dos eleitores no panorama de crise global do capitalismo. Resta às esquerdas superar falsas polarizações e se apropriar o espaço de insatisfação popular advinda da ineficiência anunciada do próximo governo. Muitos acreditam que é a deixa para o socialismo entrar em cena e ocupar o centro do palco. Aldo Cordeiro Sauda é cientista político e vive no Cairo desde a Revolução egípcia.

Analistas apontam para a necessidade de “consciência” de classe

Marcia Camargos é escritora e jornalista com pós-doutorado em História/USP.


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internacional

EUA, Israel e Turquia ameaçam intervir sem autorização da ONU Flickr Barack Obama/cc

SÍRIA O governo estadunidense disse ter abandonado a solução diplomática e, publicamente, admitiu ter triplicado a ajuda financeira e militar aos rebeldes Achille Lollo correspondente em Roma (Itália) O GOVERNO da Síria se mantém silencioso sobre os últimos acontecimentos que fizeram deflagrar ainda mais a guerra civil no país e que podem abrir o caminho para a intervenção militar do exterior. Em primeiro lugar, trata-se da captura por parte dos rebeldes do ELS – Exército Livre Sírio – de dois postos de fronteira com a Turquia: Jarablus e Bab al Salam, situados a norte da cidade de Aleppo. O terceiro posto, Abu Kamal, está localizado ao longo da fronteira com o Iraque. É evidente que a preventiva retirada dos 90 tanques que presidiavam os três postos de fronteiras impediu, até o momento, a explosão de um conflito fronteiriço com a Turquia e o Iraque, visto que os ataques dos grupos rebeldes aos postos de fronteiras tinham apenas a função de permitir que as unidades do exércitos turco e iraquiano contra-atacassem a partir do momento em que os blindados disparassem contra os rebeldes. Enfim uma “operação de inteligência” para denunciar, na véspera da reunião do Conselho de Segurança da ONU, que a Síria estava violando as fronteiras com a Turquia e o Iraque. Portanto, o recuo dos tanques sírios foi uma forma de baixar a tensão na fronteira com a Turquia onde um mínimo erro pode provocar o início da guerra entre os dois países. De fato, não podemos esquecer que a Síria abateu um caça-bombardeiro F-15 no mês de junho e depois, no dia 29, colocou 170 tanques a norte da cidade de Aleppo, nas proximidades do posto de fronteira de Bab al Salam. Em resposta, o Ministério da Defesa da Turquia instalou na região fronteiriça de Mardin cerca de cinquenta baterias de foguetes terra-ar. Explosões em Damasco

Em segundo lugar, o Ministério da Defesa e a própria inteligência da Síria nada disseram sobre as explosões que vitimaram os ministros da Defesa e do Interior, em Damasco. De fato, a grande imprensa publicou e legitimou a tese do “ataque suicida” de um guarda que portava escondido um cinturão com explosivo. Porém, após a avaliação da força da explosão e o estudo da dinâmica da onda deflagradora, surgiu outra tese que ainda não circula oficialmente porque isso significaria declarar guerra a Israel e a Turquia. Há fortes suspeitas de que o ataque dos rebeldes à cidade de Damasco, na realidade, serviu para desviar a atenção das unidades sírias, enquanto um grupo especial, infiltrado a partir da Turquia, chegava aos arredores de Damasco e aí montava os equipamentos de uma base de lançamento para dois foguetes terra-ar. A seguir, os especialistas dirigiriam o vôo deles por via digital até cair acima do local onde se reuniria o Conselho de Segurança. É claro que os rebeldes do ELS não têm esses meios tecnológicos e, antes de tudo, não dispõem de pessoal tecnicamente capacitado para manobrar esse tipo de armamento. Portanto, os responsáveis por esse ataque podem ser oficiais dos serviços secretos de Israel, ou dos Estados Unidos ou da própria Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que na Líbia fez largo uso desses foguetes. Se Bashar al Assad tivesse denunciado publicamente a participação dos homens do Mossad ou da CIA no lançamento dos foguetes em Damasco, era como se a Síria tivesse declarado guerra a Israel ou aos Estados Unidos, no momento em que os respectivos responsáveis militares dos dois países contavam com esse tipo de reação para justificar uma ação militar mais ampla. Ataque aéreo sionista

Em terceiro lugar, 70% do exército sírio está mobilizado para responder a dois possíveis ataques que podem vir, simultaneamente, da Turquia e de Israel. De fato, depois que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou ao New York Times que “os EUA haviam abandonado os esforços para uma solução diplomática na Síria e por isso haviam aumentado as ajudas aos rebeldes, e depois estariam consultando as autoridades da Turquia e de Israel para definir como obrigar Bashar al Assad a deixar a Síria”. Frente a isso, o ministro da Defesa sionista, Ehud Barak, no dia

Oriente Médio pode ser um chamariz para atrair votos para o presidente Obama

22, logo declarou em Tel Aviv, diante da TV israelense: “Tenho ordenado as Forças Armadas de Israel a ficar de prontidão máxima para enfrentar uma situação em que deveremos avaliar a possibilidade de um ataque às Síria.” Portanto, nos próximos 15 dias é possível que a Síria seja o alvo preferencial de mais uma “guerra humanitária do Ocidente”, que como aconteceu na Líbia, no Iraque e em Kossovo (ex-Iugoslávia), será legitimada e endeusada pela mídia ocidental. Difícil é dizer quanto tempo o governo de Bashar al Assad e o próprio povo sírio poderão suportar o ataque midiático, político, econômico e sobretudo militar. O que a “grande mídia” não diz é que os EUA, para decapitar Bashar al Assad, decidiram investir nos dois segmentos da rebelião síria – a sunita e a fundamentalista islâmica – desde o último semestre do governo de George Walker Bush e que os democráticos Obama e Hillary Clinton continuam trilhando, enquanto que na ONU falam de soluções diplomáticas, democracia e direitos civis. Apesar de tudo, até agora não conseguiram iniciar a tal “guerra humanitária”, não só porque o exército sírio se mantém fiel ao governo, mas porque a maior parte dos sírios não acreditam nas propostas dos Estados Unidos e, sobretudo não aceitam a ingerência de Israel. Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.

Grupos sunitas voltam a atacar IRAQUE No mesmo dia, foram alvo Bagdá e outras 13 cidades importantes correspondente em Roma (Itália) Em maio de 2010 Bagdá e outras dez cidades iraquianas foram alvo de atentados a bomba que provocaram a morte de 110 mortos. Poucos meses depois, em setembro, as autoridades e seus assessores estadunidenses garantiram que haviam destruído todas as redes logísticas dos terroristas, inclusive a estrutura da Al-Qaeda, que, segundo o Ministério do Interior, havia sido desmantelada por completo. Após dois anos, os ataques voltaram e com mais vigor, visto que os alvos dos rebeldes foram ainda mais amplos: 26 atentados em 14 cidades. Além disso, na manhã de dia 22 de julho, um grupo de rebeldes atacou a base militar de Ba-

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atentados em 14 cidades com 103 mortos e 216 feridos

lad, matando 15 militares entre soldados e oficiais. As fontes governamentais acusam a Al-Qaeda, apontando a organização do falecido Bin Laden como a responsável de tudo. Porém, nem todos concordam com essa tese, visto que, desta vez, três dos atentados foram realizados na província de Kirkuk, ao norte do país e considerado território estranho aos homens da Al-Qaeda. O deputado iraquiano xiita, Hakim alZamili acredita que a Al-Qaeda está tentando enviar uma mensagem ao Ociden-

te e ao mundo árabe para demonstrar que é bastante forte e organizada, a ponto de escolher o tempo e as localidades para atacar simultaneamente. Entretanto o mesmo al-Zamili nada falou sobre as responsabilidades da polícia de fronteira do Iraque e as unidades do exército desse país que permitiram a uma unidade de rebeldes do Exército de Libertação Sírio (ELS) atacar e ocupar o posto de fronteira sírio em Abu Kamal. Este posto de fronteira corta a rodovia que corre ao longo do rio Eufrates na qual passam todas as rotas comerciais do Oriente Médio. Para alguns analistas, a ocupação do posto de fronteira de Abu Kamal é fundamental para permitir a entrada na Síria de armas e, sobretudo, dos combatentes sunitas que estão sendo recrutados no Iraque pelos homens do ELS. As mesmas fontes admitem que os rebeldes sírios estejam dando preferência à contratação de antigos oficiais, membros da Guarda Republicana de Saddam que, além de ter uma boa formação militar, são todos sunitas. (AL)

Eleitores dizem não a partidos fundamentalistas LÍBIA Entre os 63% de líbios que foram votar, 52% optaram pela Coalizão das Forças Nacionais, de Mahmoud Jibril, que reúne 65 partidos não islâmicos correspondente em Roma (Itália) Dos 150 partidos que participaram das eleições de junho, 65, considerados liberais, leigos ou progressistas aceitaram o chamado do ex-primeiro ministro interino do primeiro Governo de Transição, Mahmoud Jibril. Entretanto, a vitória de Jibril corre o risco de sofrer uma revanche logo após a posse dos 200 deputados do futuro Congresso Nacional que terão, também, a tarefa de escrever a nova Constituição. Os primeiros 80 deputados foram eleitos com base a cota proporcional dos partidos, porém os outros 120 serão legitimados por meio do sistema majoritário uninominal. Será neste contexto que os “tesoureiros” do Partido pela Justiça e a Reconstrução (PJR), de Mohamed Sawwan, e as lideranças da Irmandade Muçulmana começarão a “comprar” os deputados dos pequenos partidos eleitos com o objetivo de negociar a futura adesão ao PJR dando em troca cargos no governo, além dos dólares sauditas e qatarianos.

Uma operação “suja” que Mohamed Sawwan justifica publicamente, sublinhando que a Irmandade Muçulmana da Líbia, apesar de ter sido derrotada, rejeita a possibilidade de governar com partidos não islâmicos e, sobretudo, exige que a liderança do governo esteja em suas mãos. Isto é: Primeiro-Ministro, Ministro da Defesa, do Interior, da Economia, do Desenvolvimento Energético, da Educação e das Relações Exteriores. Ministérios que, segundo Sawwan, devem ser pastas controladas unicamente pelos homens da Irmandade. Caso contrário, tudo poderá acontecer. Além disso, o motivo dessas exigências tem muito a ver com a decisão da dita comunidade internacional da Irmandade Muçulmana, que havia teorizado para a nova Líbia o papel de “Nação-Cofre”, e levar a frente (financeiramente) as lutas da Irmandade no mundo árabe. Mahmoud Jibril

Os jornais que apoiaram a decisão da Otan de acabar com o regime de Muamar Kadafi ficaram desiludidos com a vitória de Mahmoud Jibril. Isso porque os fundamentalistas da Irmandade Muçulmana, apesar das restrições religiosas e a aversão aos modelos culturais do Ocidente, quando se trata de definir a estratégia do poder e as relações econômicas, paradoxalmente, são os mais sensíveis às exigências das potências, inclusive se tornam os mais silenciosos diante da presença de Israel. Por isso, a mídia europeia apresentou Mahmoud Jibril como uma surpre-

sa, identificando-o como o ex-colaborador de Kadafi e incapaz para tirar a Líbia da confusa situação política que hoje vive devido ao vácuo de poder que continua existindo. De fato, por um lado o país sofre com as milícias que bloqueiam regiões no sul e no centro do país. Por outro, deve suportar as pressões dos homens da Liga da Cirenaica, que pretendem transformar a Líbia em um estado federal. É bom lembrar que Mahmoud Jibril foi um integrante próximo do governo de Kadafi onde desempenhou, até 2011, o papel de presidente do Desenvolvimento Econômico Nacional. Entretanto, sua defecção em favor dos rebeldes do Comitê Nacional de Transição, em março de 2011, foi uma bomba midiática que a Otan utilizou para demonstrar a desintegração do regime de Kadafi. Em mais uma reviravolta, quando já nomeado primeiro-ministro interino do Governo de Transição da Líbia, e formulando as primeiras críticas à metodologia intervencionista da Otan, foi substituído por Ali Tarhurni. O principal elemento político da vitória da CFN de Jibril é que essa coalizão representa a maioria dos eleitores que não aceitam a introdução na sociedade líbia do fundamentalismo islâmico como instrumento político ou como meio de regulamentação das instituições. Por isso, é imperativo lembrar que esta posição, considerada progressista e liberal ao mesmo tempo, é, sobretudo a posição das mulheres líbias que votaram. (AL)


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