Page 1

H UMANAS Revista de Ciências

COMPORTAMENTO ANIMAL E PSICOLOGIA COMPARATIVA

Revista filiada à:

Editora da UFSC


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTACATARINA Reitor Vice-Reitor

Lúcio José Botelho Ariovaldo Bolzan

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor Vice-Diretor

João Eduardo Pinto Basto Lupi José Gonçalves Medeiros

EDITORA DA UFSC Diretor-Executivo Alcides Buss Conselho Editorial Belnice Sueli Nodari (Presidente), José Isaac Pilati, Luiz Teixeira do Vale Pereira, Luiz Henrique de Araújo Dutra, Sérgio Fernando Torres de Freitas, Tânia Regina Oliveira Ramos e Vera Lúcia Bazzo. REVISTA DE CIÊNCIAS HUMANAS Editor José Gonçalves Medeiros Editor Especial Rogério F. Guerra Comissão Editorial Cynthia Machado Campos, Hector Ricardo Leis, José Gonçalves Medeiros (Presidente), Marco Antônio Frangiotti, Maria Juracy FilgueirasTonelli, Norberto Olmiro Horn Filho, Rafael José de Menezes Bastos e Tamara Benakouche. Conselho Científico Alcir Pécora (UNICAMP); Artur Cesar Isaia (UFSC); Carmen Silvia Rial (UFSC); Cécile Raud Mattedi (UFSC); Cleci Maraschin (UFRGS); Darlei Dall’Agnoll (UFSC); Edmilson Lopes Junior (UFRN); Erly Euzébio dos Anjos (UFES); Fernando Ponte de Souza (UFSC); Franz Josef Brüseke (UFSC); Grauben Assis (UFPA); Jane Russo (UERJ); João Cleps Junior (UFU); José Carlos Zanelli (UFSC); Leila Christina Duarte Dias (UFSC); Luis Henrique Araújo Dutra (UFSC); Márcio Lopes da Silva (UFV); Maria Bernardete Ramos (UFSC); Maria Cecilia Maringoni de Carvalho (UNICAMP); Maria Teresa Santos Cunha (UDESC); Mauricio Roque Serva de Oliveira (PUC-PR); Mauro Pereira Porto (UNB); Olga Lucia Castreghini de Freitas Firkowski (UFPR); Oscar Calavia Sáez (UFSC); Rafael Raffaelli (UFSC); Silvio Paulo Botomé (UFSC); Walquiria Krüger Corrêa (UFSC). Organização Geral

Luiz Carlos Cardoso e Allysson Sérgio Vieira

Tiragem Data de circulação Periodicidade

500 exemplares Junho de 2004 Semestral


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

COMPORTAMENTO ANIMAL E PSICOLOGIA COMPARATIVA

H UMANAS Revista de Ciências

ISSN 0101-9589

Revista de Ciências Humanas Florianópolis E D U F S C n. 34 p.209-494 Out. 2003


A Revista de Ciências Humanas é uma publicação semestral do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina. Lançou, em 1982, o seu primeiro número e tem sido um importante veículo na disseminação do conhecimento interdisciplinar nas diferentes áreas das humanidades. Publica com regularidade dois números por ano com uma tiragem de 500 exemplares por volume, além de números temáticos anuais. Os artigos são revisados por três relatores ad hoc, preferencialmente vinculados a instituições nacionais. Editoração eletrônica Allysson Sérgio Vieira allysson@cfh.ufsc.br

Revisão geral José Gonçalves Medeiros Renato Tapado

Capa Allysson Sérgio Vieira

Ilustração da Capa Mãe amamentanto seus filhotes (gerbilo da Mongólia, Meriones unguiculatus). Laboratório de Psicologia Experimental, 2002.

Revista indexada por: — — — — — —

Sociological Abstracts - SA; Linguistics & Language Behavior Abstracts - LLBA; Social Planning / Policy & Development Abstracts - PODA; Public Affairs Information Service, Inc. - PAIS; Nisc Pensylvania Abstracts, inc. - NISC. Qualis/CAPES

(Catalogação na fonte pela Biblioteca Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina) Revista de Ciências Humanas (Temas de Nosso Século) / Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas.- v.1, n.1 (jan. 1982) - Florianópolis : Editora da UFSC, 1982v.; 21cm Semestral ISSN 0101-9589 I. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Endereço para assinatura Mailing address subscriptions

Endereço para correspondência Mailing address

Universidade Federal de Santa Catarina Editora da UFSC Campus Universitário - Trindade Caixa Postal 476 88040-900 - Florianópolis - SC / Brasil

Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Filosofia e Ciências Humanas Revista de Ciências Humanas 88040-900 - Florianópolis - SC / Brasil


Revista de Ciências

número 34

HUMANAS

(Florianópolis)

outubro

2003

Edição Temática COMPORTAMENTO ANIMAL E PSICOLOGIA COMPARATIVA

Sumário

Apresentação................................................................................215 Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares Ana M. A. Carvalho Maria Isabel Pedrosa.............................................................219 Princípios morais e a evolução de um senso moral Dennis Werner........................................................................253 Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia Emma Otta Fernando Leite Ribeiro Vera Sílvia Raad Bussab...........................................................283 Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental Alessandra Bonassoli Prado Mauro Luís Vieira....................................................................313


Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas dos pequenos primatas neotropicais Cristina Valéria Santos.............................................................335 Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal Carlos Roberto de Oliveira Nunes Vera Sílvia Raad Bussab Rogerio F. Guerra...................................................................365 Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos Rogério F. Guerra.................................................................395 Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia Emílio Takase........................................................................441 Relação dos Consultores ad hoc 2003.....................................459 Normas para publicação..............................................................461 Retrospectiva de títulos e autores publicados (1982-2003) .....469


Apresentação

E

ste número da Revista de Ciências Humanas (RCH, n.34, referente a outubro de 2003) é inteiramente dedicado à psicologia comparativa e é resultado de reflexões de alguns colegas que trabalham com comportamento humano ou animal, vinculados ao pensamento evolucionário, com o propósito de trazer informações sobre temas variados e apresentar proposições originais. Nesse sentido, são abordados temas relacionados com o desenvolvimento ontogenético e filogenético da linguagem, a evolução da moralidade humana, a persistente dicotomia do inatismo e ambientalismo, os fatores ambientais e evolucionários que norteiam o investimento parental, estratégias reprodutivas (poliginia e poliandria ou estratégias K e r, por exemplo) em primatas e mamíferos de modo geral. Também são discutidos os efeitos do enriquecimento ambiental, da privação social e manipulação neonatal sobre a plasticidade cerebral e modulação do comportamento. Em um outro texto são analisados a parturição em diferentes espécies e as teorias que explicam o desenvolvimento infantil em mamíferos; aqui, são apontadas as diferenças entre as espécies altriciais e precociais, a modulação da interação mãe-filhote,


a importância do choro e do aspecto físico dos bebês como eliciadores do comportamento parental. Existem poucas análises evolucionárias sobre a parturição e desenvolvimento do comportamento humano, de forma que estes textos procuram preencher esta lacuna. No último texto é apresentado o modo como os avanços da neurociência auxiliam na compreensão do comportamento e o impacto desse conhecimento para o desenvolvimento da atividade profissional dos psicólogos; os estudos sobre o cérebro têm aumentado vertiginosamente, graças às modernas técnicas de neuroimagem, cujas informações poderão resultar em um conjunto sofisticado de métodos de tratamento de distúrbios comportamentais e neurodegenerativos. Os textos foram construídos de forma mais abrangente possível, visando permitir que profissionais e estudantes de pós-graduação possam fazer uso deles. Uma leitura atenta permite concluir que os temas mantêm uma ligação entre si, pois é difícil discorrer sobre a linguagem humana sem esbarrar na dicotomia instinto vs. aprendizagem, da mesma forma que as postulações teóricas sobre o sistema monogâmico, cuidados biparentais à prole e o suporte emocional às parturientes estão relacionadas e refletem os custos energéticos elevados da atividade reprodutiva na espécie humana. Curiosamente, alguns pesquisadores brasileiros utilizam uma estranha palavra de origem grega, doula, para designar a mulher que acompanha as gestantes no momento em que vão dar à luz; trata-se de um estrangeirismo desnecessário, pois a nossa cultura dispõe de um vocábulo muito mais rico, do ponto de vista sentimental e etimológico, que é palavra “comadre”. Quando falamos em comportamento parental sempre vem à mente o relacionamento mãe-filhote, mas nos esquecemos que machos de algumas espécies também exibem respostas afiliativas em direção aos filhotes; uma análise comparativa pode auxiliar a compreensão deste fenômeno, tal como pode ser visto em dois textos arrolados neste número especial da Revista de Ciências Humanas. O pensamento evolucionário não é novo, pois suas raízes se encontram na obra do naturalista Charles Darwin (1809-1882); a novidade é um dos enunciados para a explicação do comportamento humano, podendo contribuir para a compreensão de temas como monogamia e estratégias reprodutivas, investimento parental, origem dos valores morais e assim por diante. Trata-se de uma ousadia intelectual,


mas o pensamento científico sempre está associado com inovações e explorações de terrenos desconhecidos – além do mais, um leitor mais atento poderia argumentar, com algum grau de razão, que a explicação do comportamento humano à luz dos princípios evolucionários significa apenas o uso de antigas ferramentas para lidar com velhos problemas. Por último, deixamos registrado algo obvio: a publicação de um texto científico no Brasil é uma proeza de alto significado e deve ser comemorada, por mais modesta que seja. Devido às precárias condições de trabalho e excesso de burocracia (gastamos a maior parte do nosso tempo redigindo relatórios ou participando de reuniões), o pensamento original não é estimulado nas universidades públicas; buscando fugir do rótulo da improdutividade, as pessoas tentam vencer os obstáculos, mas acabam mergulhando num mar de frustrações. Diuturnamente somos solicitados a justificar sobre a importância do nosso trabalho, mas, feito isto, nem sempre recebemos o que solicitamos e muitas vezes sequer somos merecedores de atenção das autoridades – nesse contexto, tudo parece conspirar contra a atividade científica. Deixando as queixas de lado, os autores e o editor especial deste número esperam que a comunidade faça bom proveito das reflexões aqui arroladas. Torcemos para que este empreendimento seja útil aos espíritos inquietos! Que viceje a ciência!

Rogério F. Guerra – Editor especial


Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares*

Ana M. A. Carvalho1 Universidade de São Paulo

Maria Isabel Pedrosa2 Universidade Federal de Pernambuco

Resumo

Abstract

Apresenta-se uma reflexão preliminar sobre precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem, como subsídio para um projeto de pesquisa sobre transição ontogenética da comunicação nãoverbal para a integração entre comunicação não-verbal e linguagem verbal que caracteriza a comunicação humana. É sintetizada uma revisão sobre contextos funcionais da comunicação na natureza e pro-

This paper presents a preliminary reflection on possible phylogenetic and ontogenetic precursors of language. This reflection is part of an ongoing research project on the ontogenetic transition from exclusively non-verbal to the characteristically human integration of verbal and non-verbal communication. A synthesis of the functional contexts of communication in nature and possible analogues in hu-

__________________________________________________

* Phylogenetic and ontogenetic precursors of language: a preliminary reflection 1 Endereço para correspondências: Rua da Invernada, 12, Fazendinha, Carapicuíba, SP, 06355340 (E-mail: amacarva@uol.com.br). Apoio CNPq/ FAPESP. 2 Endereço para correspondências: Laboratório de Interação Social Humana, Depto. de Psicologia, UFPE, Av. Prof. Moraes Rego, 1235, Cidade Universitária, Recife, PE, 50670901 (E-mail: icpedrosa@uol.com.br). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


220 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

cessos análogos na ontogênese humana. Focaliza-se a seguir a literatura sobre imitação, processo essencial na aquisição da linguagem e de outros comportamentos culturalmente mediados, sob três vertentes: autores interacionistas clássicos, pesquisas a respeito de atenção conjunta e imitação em primatas não humanos, e estudos sobre o papel da imitação na emergência de ações coordenadas na interação criançacriança. A literatura sugere que os precursores filogenéticos que permitiram a diferenciação da cultura e da linguagem humanas se situam no âmbito da aprendizagem social, particularmente em uma modalidade específica de imitação, que produz a cópia fiel das ações de um modelo; pré-adaptações possibilitadoras dessa imitação são a prioridade motivacional do outro ser humano como foco de atenção e atenção conjunta, relacionada à capacidade precoce do ser humano de perceber o outro como agente intencional. Atenção conjunta, imitação e percepção de intencionalidade são focos dos projetos em andamento nesta linha de pesquisa.

man ontogeny is presented. The literature on imitation – a fundamental process in the acquisition of language and of other culturally mediated behaviors – focuses on three theoretical traditions: classic studies of interactionist scholars, research on joint attention and imitation in non-human primates, and studies on the role of imitation in the emergence of coordinated actions in child-child interactions. This literature suggests that the phylogenetic precursors which enabled the differentiation of human culture and language lie in the realm of social learning, and particularly in a specific modality of imitation that produces faithful copies of a model. The requisite pre-adaptations for this type of imitation are the motivational priority of other human beings as focuses of attention, and joint attention, related to the precocious human capacity for understanding others as intentional agents. Joint attention, imitation and perception of intentionality are the focus of ongoing projects in this line of research.

Palavras-chave: Desenvolvimento, Keywords: Development, imitatiimitação, linguagem, cognição, on- on, language, cognition, ontogenesis, phylogenesis. togênese, filogênese.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 221

Situando a questão

A

o longo dos últimos vinte e cinco anos, aproximadamente, vimos trabalhando sobre interação criança-criança com um enfoque psicoetológico (segundo conceituação de ADES, 1986). Esse percurso se caracterizou inicialmente por esforços metodológicos no sentido de descrever interações sociais em situações “naturais”3 – isto é, grupos de crianças brincando em ambientes cotidianos em nossa cultura, tais como creches e pré-escolas (cf., por exemplo, CARVALHO e MORAIS, 1987); evoluiu posteriormente para a discussão do próprio conceito de interação social e tentativas de desenvolver uma forma de análise capaz de apreender sua dinâmica (CARVALHO, 1988; BRANCO et al., 1989; CARVALHO et al., 2002) e para o desenvolvimento de conceitos sobre a natureza dos fenômenos interacionais na troca social humana (CARVALHO, 1992, 1994; IMPÉRIO-HAMBURGER et al., 1996; PEDROSA et al., 1997; CARVALHO et al., 1998). As características centrais desse percurso, a nosso ver, são, por um lado, o foco nas dimensões sociais do fenômeno da infância, tomadas como uma instância dos fenômenos sociais humanos pertinentes ao âmbito da Psicologia – e, paralelamente, pressupostas como constitutivas do desenvolvimento individual. Este pressuposto caracteriza tanto a perspectiva psicoetológica quanto as teorizações contemporâneas sobre desenvolvimento usualmente identificadas como interacionistas, construtivistas, sócio-históricas ou sóciointeracionistas, tais como as de Piaget, Vygotsky e Wallon, que apontaram a interação como fator constitutivo das aquisições “mentais”, procurando superar vieses inatistas e ambientalistas. Por outro lado, o viés etológico de nossa perspectiva encaminha nossas perguntas e nossa análise para os significados funcionais dessas dimensões em termos de adaptações características da espécie, mais do que para suas conseqüências em termos de desenvolvimento individual. A confluência dessas vertentes conduziu ao interesse pelos fenômenos da comunicação nos primeiros anos de vida, o que, por sua vez, encaminhou para o presente interesse por precursores da linguagem, objeto da reflexão preliminar exposta neste texto e dos projetos de pesquisa atualmente em andamento. __________________________________________________ 3

O conceito de “situação natural” é controvertido no caso do ser humano, quando se supõe que os processos biológicos de evolução estão estacionados para nossa espécie; sem entrar nessa controvérsia, utilizamos aqui a expressão “situação natural” em sentido operacional, especificado no texto, em contraposição a situações de laboratório ou qualquer outra condição de interação criada artificialmente pelo pesquisador.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


222 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

O surgimento da questão a partir de um olhar evolutivo Carvalho e Pedrosa (2004a) resumem um olhar comparativo e evolucionário sobre a comunicação, procurando analisá-la em termos de funções adaptativas, processo evolutivo e processo ontogenético. Esse texto constituiu o ponto de partida da presente proposta de trabalho, motivo pelo qual é revisto mais detalhadamente a seguir. A definição psicobiológica de comunicação não é consensual, identificando-se freqüentemente com uma definição mais ou menos abrangente de interação. De fato, em sentido amplo a comunicação pode ser entendida como uma característica universal dos sistemas vivos, incluindo a comunicação entre abelhas e flores de forma a produzir a polinização, a comunicação entre machos e fêmeas de forma a produzir a reprodução, ou entre animais que caçam de maneira cooperativa de forma a produzir o sucesso da caçada (HAUSER, 1996). No entanto, também é consensual o reconhecimento de que a comunicação humana é um fenômeno único na natureza. Rejeitando-se a hipótese simplista de que possa ter evoluído bruscamente, através de emergências ou de mutações sem nenhuma história anterior, parece interessante especular sobre suas origens a partir de uma análise comparativa. Carvalho e Pedrosa (2004a) empreendem essa especulação a partir da consideração dos contextos funcionais da comunicação na natureza. Em um primeiro nível, consideram as implicações do acasalamento em termos da funcionalidade dos fenômenos comunicativos, apontando o caráter de negociação envolvido nesse contexto funcional. Segundo as análises clássicas da Etologia, o acasalamento envolve um processo de negociação, através do qual indivíduos com motivações semelhantes e ao mesmo tempo conflitantes (atração e medo, gerando um conflito aproximação-esquiva) administram esse conflito por meio de rituais de comunicação (em geral ritualizados ao longo da filogênese) que conduzirão (ou não, em caso de fracasso) a um objetivo partilhado: a cópula e suas variadas conseqüências em termos de continuidade de interações. A sugestão é de que, mesmo em outras espécies animais e possivelmente em estágios filogenéticos ou ontogenéticos em que os recursos comunicativos são pouco flexíveis, a comunicação consiste em um processo de negociação. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 223

Essa sugestão é ilustrada, no texto, com exemplos de interações de crianças pequenas, cuja base motivacional parece ser uma forma de disputa territorial, negociada através de recursos comunicativos (cf. também CARVALHO e PEDROSA, 2004b; PEDROSA e CARVALHO, 2004). Em um segundo momento, as autoras consideram os contextos funcionais de sobrevivência – no sentido de proteção contra predadores e outros sinais defensivos – e de interação social – no sentido de troca de informações sobre recursos ambientais e de estabelecimento e administração de relações sociais nos grupos (HAUSER, 1996). O aspecto salientado nesta análise é a passagem da comunicação expressiva para a comunicação referencial, isto é, relativa a aspectos do ambiente físico e social e não apenas a estados emocionais ou disposições comportamentais dos indivíduos em interação. São exemplos disso a comunicação de abelhas a respeito da existência e da localização de alimento através da dança (VON FRISCH, 1967), ou os chamados de alarme de macacos vervet, cujos vários sinais vocais indicam diferentes tipos de predadores e resultam em diferentes estratégias de defesa (STRUHSAKER, 1967). Trata-se de um tipo de comunicação na qual, pode-se dizer, certos sinais representam certos aspectos do mundo externo. No terceiro momento, é analisada a transição entre expressão emocional e comunicação expressiva, através do processo filogenético de ritualização e de seus análogos ontogenéticos (ritualização ontogenética, abreviação – LORENZ, 1966; MONTAGNER, 1978; LYRA e SOUZA, 2003). A essência do argumento é de que a comunicação ritualizada se deriva da manifestação de estados motivacionais, convertendo-se em sinais através de processos filogenéticos ou ontogenéticos que simplificam ou abreviam essas manifestações. Montagner, descrevendo interações de crianças pequenas, oferece vários exemplos de ritualização ontogenética, que caracteriza como um processo de “[...] diferenciação de ações, toques, cheiros ou vocalizações até adquirirem valor de sinais” (1978, p. 252). O termo “ritualização” é tomado de empréstimo ao processo filogenético através do qual certos animais vêm a apresentar comportamentos de topografia estereotipada, simplificada e repetitiva, cujas funções/motivações originais de locomoção, alimentação, defesa, etc. se separam, ao longo da filogênese, do ato em si, adquirindo este, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


224 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

substitutivamente, valor de sinal – um precursor ou pelo menos um análogo do símbolo na comunicação não-humana (HUXLEY, 1966). Um outro exemplo relativo à ontogênese é a análise da constituição do gesto de apontar, diferenciado a partir do gesto de tentar alcançar algo, uma diferenciação mediada pelo outro que interpreta o gesto e responde a ele, em um processo de regulação recíproca (VYGOTSKY, 1984). O gesto ritualizado representa uma espécie de síntese: um comportamento ou uma seqüência de comportamentos é selecionada, fixada, especializada no processo interativo; estes comportamentos se simplificam e se desprendem de seus contextos de origem, adquirindo outro valor funcional, o valor de sinal. Nesse desdobramento da emoção ou da motivação vivida em um gesto passível de tornar-se comunicativo, Wallon (1942/19794) identifica um desdobramento da realidade em representação e um prelúdio da função simbólica: Um gesto ritual não significa nada senão em relação a um protótipo, não tem outro motivo que não seja obter por este intermediário um resultado, cujas condições e possibilidades não pertencem, totalmente pelo menos, ao campo das circunstâncias presentes. É menos um ato que figuração de um ato. As conseqüências que se procuram não estão nele, mas nas forças que tende a evocar, isto é, no que representa. O rito introduz a representação e a representação, através dele, converte-se no intermediário ou condensador duma eficiência que já não está no simples manejo bruto das coisas nem na simples acção muscular ao contato dos objetos (p. 129).

A analogia entre ritualização filogenética e ontogenética, evidentemente, não se estende aos seus mecanismos, no primeiro caso mediados por variabilidade genética e seleção natural, e no outro por interação social e processos culturais. O interesse dessa analogia reside principalmente no que sugere sobre a natureza dos sistemas comunicativos, __________________________________________________ 4

Quando disponível, informamos o ano da primeira publicação de textos de autores clássicos, seguido pelo ano da edição consultada.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 225

quer se constituam na filogênese quer na ontogênese: sua dinâmica de constituição e transformação, de desprender-se dos referentes originais, de simplificar-se ou abreviar-se aumentando a estereotipia e maximizando e/ou especializando (por exemplo, restringindo a grupos e subgrupos) sua eficácia comunicativa. A etimologia da linguagem verbal também pode ser vista como compartilhando essas propriedades como sistema comunicativo em contínua transformação: Vossa Mercê – Vosmicê – Você – Cê..., um exemplo entre muitos. No quarto momento da análise, Carvalho e Pedrosa (2004a) discutem a transição entre comunicação expressiva e comunicação referencial (note-se que há diferença entre as duas transições, de expressão a comunicação expressiva, e desta a comunicação referencial). Do ponto de vista adaptativo, a comunicação referencial implica a possibilidade de reagir a situações nas quais não ocorreu exposição direta, o que é especialmente importante em espécies sociais cujos membros vivem relativamente dispersos e têm a oportunidade de se deparar com novos objetos ou eventos potencialmente relevantes para o grupo. Do ponto de vista da filogênese, isto é, da história evolutiva, a comunicação referencial exige a existência de capacidade de associar sinais a aspectos relevantes do ambiente (capacidade associativa), e de mecanismos que permitam a transferência de informação entre os indivíduos e a diversificação de sinais. O primeiro destes (transferência de informação) envolveria a orientação da atenção para o ambiente mediada pelos parceiros sociais; o segundo (diversificação de sinais) poderia ser baseado em imitação, entendida frouxamente como cópia potencialmente variável da ação do outro. Essa “frouxidão” potencial resultaria, no caso do ser humano, na explosão léxica ou comunicação representacional em sentido estrito (HAUSER, 1996). Ora, parece estar implícito, nessa seqüência de argumentos, o surgimento, ao longo da filogênese, de processos ou mecanismos diferenciados que possibilitariam uma transformação qualitativa, emergente, da comunicação proto-representacional, ilustrada pelos gestos ritualizados, para uma comunicação propriamente representacional, característica da linguagem articulada – desde que se admita, como o fazemos, que a linguagem articulada, embora emergente em relação a fenômenos produzidos anteriormente pela filogênese, não pode ser desvinculada desta, ou seja, tem nela as suas origens. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


226 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

Essa discussão conduziu à questão dos precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem verbal, que foi introduzida no argumento do capítulo que sintetizamos aqui a partir de análises anteriores sobre o processo interacional (PEDROSA et al., 1997; CARVALHO et al, 1998, 1999) e da discussão corrente na literatura sobre modalidades diferenciadas de imitação em primatas não humanos e em seres humanos (TOMASELLO et al., 1993; ECKERMAN e DIDOW, 1996; ECKERMAN e PETERMAN, 2001). Com base nessa literatura, e na análise qualitativa de alguns episódios de imitação em crianças nos três primeiros anos de vida, Carvalho e Pedrosa propõem a noção de protolinguagem para designar os atos imitativos como atos comunicativos no estágio pré-verbal, em dois sentidos diferentes, porém compatíveis: 1) Como recursos comunicativos que emergem antes da linguagem verbal, tanto na ontogênese quanto na filogênese. Os critérios para a identificação de certos comportamentos como proto-linguagem neste primeiro sentido são exclusivamente funcionais, baseados na demonstração de que as ações em questão têm eficácia comunicativa em interações intra ou inter-específicas (cf., por exemplo, NADEL e FONTAINE, 1989; PEDROSA e CARVALHO, 1995). 2) Como precursores ou requisitos da linguagem verbal. Esta é a direção que vem sendo seguida pela pesquisa comparativa e por alguns enfoques sobre desenvolvimento humano, ilustrados pelas referências acima (TOMASELLO et al., 1993; ECKERMAN et al., 1989). Os objetivos delineados nesta direção de pesquisa são: a) Identificar ações e/ ou processos constituintes de uma seqüência ontogenética que conduz à linguagem verbal, de forma a demonstrar possíveis elos entre essas ações/ processos e a emergência do verbal; e b) Examinar a species-specificity desses processos de forma a compreender a singularidade da comunicação humana. Ontogênese humana: emoção, expressão e comunicação referencial em crianças pequenas A criança entra no mundo dos significados bem antes de adquirir e utilizar a linguagem verbal. Pedrosa e Carvalho (1995) evidenciam a construção e a reconstrução de sentidos de objetos e de ações no espaço interacional de crianças pequenas: gestos ou vocalizações que adquirem novos significados em contextos interacionais particulares; Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 227

enredos construídos de brincadeiras, sinalizados e difundidos para o grupo; objetos re-significados como componentes de brincadeiras. Nesse texto, Pedrosa e Carvalho analisam a diferenciação de códigos comunicativos – expressões faciais, gestos e outros movimentos corporais, expressões verbais primitivas – e a reconstrução de seus significados no decorrer de processos interativos de crianças em atividade lúdica livre. Pedrosa e Carvalho (2004) analisam a ocorrência de aprendizagem sobre eventos físicos na interação de pares de idade; um dos resultados mais marcantes dessa análise é a evidência de atribuição de intencionalidade ao parceiro em crianças de menos de três anos. Pedrosa e Eckerman (2000), observando comportamento de crianças de 6 a 18 meses em uma creche, durante períodos de brincadeira livre, evidenciam que as crianças compartilham significados através de ações coletivas (disputa por objetos, ações articuladas e coordenadas, ações de consolo, alternância de papéis), tipicamente mediadas por imitação. O conceito de imitação freqüenta, com maior ou menor destaque, praticamente toda a literatura sobre desenvolvimento. Selecionamos três vertentes dessa literatura para informar nosso argumento a respeito do status da imitação como precursora da linguagem: dois autores interacionistas clássicos que focalizaram a constituição da mente e do sujeito humano, e que destacaram a imitação como elemento central na ontogênese da representação, da função simbólica e da linguagem – Wallon e Piaget5; a vertente etológica de pesquisa comparativa sobre imitação; e os trabalhos de Eckerman e colaboradores (1989, 1996, 2001), que hipotetizam uma função importante da imitação na facilitação do desenvolvimento de meios verbais de consecução de ações coordenadas. a) Imitação e ontogênese da representação: o enfoque de dois autores clássicos da Psicologia do Desenvolvimento A imitação é um tema constante entre os autores clássicos que estudaram a ontogênese da representação nos primeiros anos de vida (PIAGET, 1946/1975; PIAGET e INHELDER, 1966/1980; WALLON, __________________________________________________ 5

Preservamos nesta revisão termos utilizados pelos autores, tais como mente, representação e função simbólica, mesmo quando sujeitos a críticas em nosso próprio enfoque ou no de outros autores.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


228 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

1942/1979, 1949/1971, e os representantes contemporâneos de sua tradição de pesquisa, tais como NADEL e BAUDONNIÈRE, 1981)6. A discussão sobre o processo imitativo e seu papel na constituição da representação começa com a dificuldade de se chegar a um acordo conceitual. Wallon (1942/1979) chama a atenção para duas formas distintas de conceituar a imitação. A primeira concebe imitação como um ato que reproduz um modelo. Conceber deste modo implica admitir a representação do modelo como condição necessária, isto é, admitir um poder de representação anterior ao ato imitativo, o que iria de encontro a evidências de comportamentos imitativos de crianças em idades muito precoces (por exemplo, MELTZOFF e MOORE, 1977), em que o poder de representação não existe de forma manifesta. Outra maneira de definir a imitação é pela semelhança entre dois atos, quando seus protagonistas estão em situação de observação mútua. Discriminam-se fenômenos que não seriam imitação, tais como o comportamento de dois animais famintos diante de uma presa, nos quais a semelhança entre os comportamentos se deve ao despertar simultâneo da mesma motivação: o que regula o comportamento desses animais é a própria presa, e não o parceiro de espécie. Para ser considerada imitativa, a ação deveria, segundo Wallon, ser regulada pelo alvo que serve de parâmetro (o outro animal) para que se possa indicar uma semelhança. Wallon (1942/1979) concebe a imitação como uma atividade onde a representação deve chegar a formular-se. As etapas sucessivas da imitação: [...] obrigam a reconhecer um estado de movimento, em que este deixa de se confundir com as reações imediatas e práticas que as circunstâncias fazem surgir dos seus automatismos, e um estado da representação em que o movimento a contém já antes de ela saber traduzir-se em imagem ou de explicitar os traços de que deveria ser composta (p. 137-138). __________________________________________________ 6

A exposição feita neste item recupera partes da introdução da tese de Doutorado Interação criança-criança: um lugar de construção do sujeito (Pedrosa, 1989), na qual Wallon foi um autor particularmente focalizado.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 229

Wallon pensa que o ato imitativo surge da atividade postural e distingue uma imitação espontânea e uma imitação inteligente. Na primeira, o modelo não se impõe como algo exterior ao sujeito; apesar de ter surgido sob a forma de percepção, parece-lhe íntimo e o impele ao ato imitativo que complementa e restabelece um acordo psicomotor. Na segunda, o ato imitativo distingue-se do modelo; o sujeito decide-se por imitar, ou não, algo sentido como exterior a si próprio. A passagem da primeira para a segunda modalidade é um processo lento e complexo. A imitação inteligente tende a estabelecer uma dissociação entre o que é percebido, desejado ou imaginado e o que é efetuado. Essa oposição propicia o plano da representação. A representação seria o resultado da duplicação do real, ou seja, o desdobramento do plano do sensível e do concreto em seu equivalente, formado de imagens, de símbolos e de idéias. Como se dá esse desdobramento? Segundo a interpretação walloniana, entende-se o processo de imitação como um estado dinâmico de fusão e de diferenciação entre o sujeito e o modelo – isto é, o outro. A criança observa ativamente os outros que a atraem; há uma tendência de se unir a eles numa espécie de participação efetiva. Formam-se aí os ingredientes básicos do processo imitativo: uma constelação perceptivo-motriz ou uma plasticidade perceptivo-postural. Estes ingredientes se constituem em uma espécie de modelo íntimo, agrupando impressões diversas e esparsas no tempo numa fórmula global. Esta fórmula, em seguida, tende a transformar-se, a efetivar-se no meio físico, em termos sucessivos, para compor o desenrolar do ato imitativo. Aparentemente não existe problema nessa transformação, quando se concebe que a ordem dos gestos está implicada no esquema de seu registro. Mas não é bem assim que se interpreta o modelo: ele é concebido como um conjunto, como algo organizado que corresponde a uma impressão global. Visto desse modo, o problema é esmiuçá-lo em seus termos sucessivos. O êxito de uma imitação é obtido quando os gestos se articulam com uma topografia e um momento, integrados na realização de sua totalidade. Começa, então, a oposição ao modelo: a efetivação dos gestos exige comparação e toda comparação exige desdobramento. Mesmo a imitação imediata, na presença do modelo, implica a confrontação dos termos sucessivos atuais com o seu protótipo, apreendido na totalidade do modelo. O trabalho deve ser dividido entre a execução e o controle do ato, e nesse trabalho se destaca a noção de semelhança. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


230 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

Para indicar uma semelhança e não apenas reconhecê-la, parece existir uma figuração que poderia ser considerada uma representação prévia. Mas essa figuração pode estar longe ainda de satisfazer as condições da representação. Quaisquer circunstâncias de que resultem uma concomitância ou outras afinidades podem parecer autêntica semelhança. Entretanto, é possível reconhecer aí um prelúdio de representação. A semelhança é uma qualidade que se desprende dos objetos, das ações, e que permite uni-los, apesar de serem distintos sob outros aspectos. Na medida em que permite associá-los, a semelhança é, em potência, categoria. Inicialmente ela é destacada por uma espécie de participação material; mas é a forma ou outra dimensão que se comunica e que se tornará a qualidade a ser classificada. Nas analogias, mesmo nas mais simples, são as ações de resultados semelhantes que se convertem numa espécie de poder simbólico. A similitude dos processos de imitação e de representação induz a pensar, também, na influência ou participação do primeiro no segundo. Os dois processos se desenrolam em planos distintos: um, no plano motor, e o outro, no das imagens e símbolos. Mas a força da analogia devese ao fato de que os dois processos compartilham um problema: transformar uma fórmula íntima, resultado de uma condensação de impressões e experiências diversas, em termos sucessivos, devendo, portanto, ser dimensionada no tempo. No referencial walloniano, o pensamento parece corresponder a um sistema no qual as impressões e experiências se delineiam como figuras e unidades de consciência sobre um campo diverso e difuso. Imagens ou idéias, qualquer que seja a complexidade de sua realidade, formam um sistema simplificado, apreendido pela consciência de uma só vez, instantaneamente. O desenvolvimento do pensamento implica que ele se torne discursivo, para subsistir e ser utilizado em outros momentos, em outras realidades. Enquanto isso não acontece, o pensamento permanece dominado por impressões sucessivas, sem analisar e diferenciar as relações entre as coisas ou as situações. É um pensamento concreto e sincrético, impotente para se decompor em partes que possam ser articuladas e reorganizadas de outra forma, e assim possam corresponder a outras experiências. Falta ao pensamento um campo de representações onde ele possa evoluir (WALLON, 1942/1979; 1963/ 1986). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 231

Há uma suposta similaridade entre mecanismos inerentes à imitação e à representação: ambas são a redução de impressões mais ou menos esparsas em uma fórmula global e como que atemporal; a ambas cabe transformarem-se em termos sucessivos, ou seja, respectivamente, no ato imitativo e no pensamento discursivo, implicando o aspecto temporal. A imitação imediata, na presença do modelo, supõe também, segundo Wallon, a interveniência da formulação íntima do modelo. Neste caso, porém, são mais evidentes os indícios comportamentais de que está havendo regulação recíproca no ato imitativo. Na imitação imediata acontecem casos em que a criança imitada não nota que está sendo o modelo da outra, mas, na maioria das vezes, isto é percebido e ela própria se ajusta e se regula por esse fato. É o que demonstram Nadel e Baudonnière (1981), ao investigarem o significado da imitação imediata em crianças de 2 a 3 anos, observadas em grupos de duas ou três crianças em uma sala em que eram oferecidos, em igual número, objetos de vários tipos. Utilizando como critérios para a análise os comportamentos de oferta de objeto, que freqüentemente precediam a imitação, e a imitação do abandono de um objeto, os autores sugerem que a oferta de objetos sinaliza uma expectativa de ser imitado, e que nem o objeto nem a atividade que ele suscita são os alvos privilegiados da imitação intencional, mas antes a própria semelhança de atitudes entre as crianças. A imitação é interpretada como um meio para o estabelecimento de contato social, permitindo um acordo entre as crianças, que ainda não podem obtê-lo por meios verbais. A quase simultaneidade das ações facilita um estado de fusão, e só é possível pela antecipação da atitude da outra. O desdobramento inerente à representação está implicado na comparação do ato imitativo com seu modelo. Na formulação de Wallon, embora o modelo seja íntimo, foi constituído a partir da fusão com o outro. Para Wallon, o social é a primeira instância do ser humano, que não é concebido como um ser que se socializa, e sim como um ser que se individualiza (embora nunca completamente) a partir da fusão inicial com o outro. É no processo de interação social que o eu se diferencia através da oposição com o outro (daí o papel relevante do desdobramento implicado na imitação) e se constitui como eu. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


232 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

Segundo Wallon (1959/1986), o primeiro sistema expressivo-comunicativo organiza-se a partir das relações com o outro, e é constituído pelas emoções que harmonizam as reações e os impulsos dos parceiros e os regulam reciprocamente; são as emoções, nesta perspectiva, a origem da atividade representativa, desde as primeiras manifestações expressivas como o sorriso, as posturas, as mímicas, progressivamente diferenciadas na interação com o outro, mediador essencial da interação da criança com o mundo físico. Dada essa perspectiva, a interação social está presente no processo como parte integrante, ainda que o outro possa estar concretamente ausente. Em síntese, a imitação apresenta, segundo Wallon, três facetas relevantes como precursora da linguagem (ou da representação): (a) a segmentação de uma síntese de impressões percepto-motrizes – no caso da imitação – análoga à segmentação de um pensamento global e difuso – no caso das imagens/ idéias – de forma a produzir um desdobramento e um ordenamento no tempo de seus termos sucessivos – dos atos, no primeiro caso, e da linguagem verbal, no segundo; (b) o modo preponderante de comunicação entre crianças que não possuem ainda recursos verbais desenvolvidos; (c) a diferenciação eu-outro. Piaget, contemporâneo e colega de Wallon – e cujas divergências em relação a este decorrem principalmente da forma de conceber a relação indivíduo-social no processo de desenvolvimento7 –, também ressalta o papel da imitação na ontogênese da representação. No contexto de análise da constituição ontogenética da função simbólica (ou semiótica), Piaget e Inhelder (1966/1980) afirmam que, no decorrer do segundo ano de vida, surge: [...] um conjunto de condutas que supõe a evocação representativa de um objeto ou de um acontecimento ausente e envolve, por conseguinte, a construção ou o emprego de significantes diferençados8, visto que devem poder referir-se não só a elementos não atualmente perceptíveis mas também aos que se acham presentes (p. 47). __________________________________________________ 7

8

É incorreto dizer que Piaget não levou em conta a dimensão social do processo interacional; apenas, não a priorizou da mesma forma que outros autores – que devido a isso adotaram a designação “sócio-interacionistas”; e, diferentemente de Wallon, Piaget concebeu o desenvolvimento como um processo de socialização antes que de individuação. Em contraste com significantes perceptivos, ou indícios, que não se descolam de seus significados e sim constituem um aspectos destes (Piaget e Inhelder, 1980).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 233

Cinco dessas condutas são enumeradas em ordem crescente de complexidade: a imitação diferida (que principia na ausência do modelo), o jogo simbólico, o desenho, a imagem mental e a evocação verbal. As quatro primeiras repousam na imitação, e a própria linguagem é adquirida num contexto necessário de imitação – conduta que: [...] constitui, ao mesmo tempo, a prefiguração sensório-motora da representação e, por conseguinte, a passagem do nível sensório-motor para o das condutas propriamente representativas (ibid, p. 49).

A imitação é concebida como uma espécie de representação em atos (e não ainda em pensamento), que começa por contágio e depois se torna automotivada. No final do período sensório-motor, o domínio da imitação possibilita a imitação diferida, em que a representação em ato já é independente da cópia perceptiva e, portanto, em parte, já é representação em pensamento, que evoluirá para a representação-pensamento do jogo simbólico e do desenho, e finalmente para a imagem mental interiorizada9, “[...] pronta para tornar-se pensamento [...]” (ibid., p.50) e possibilitar a aquisição da linguagem. Nota-se nesta breve síntese que o foco da teorização piagetiana sobre imitação e seu papel na ontogênese da linguagem é a diferenciação entre processos perceptivos (intervenientes na imitação imediata, por exemplo) e os que são considerados propriamente representativos: a ausência do percebido (imitação diferida) é condição para se pensar a imitação como caminho para a representação. É como se a percepção impedisse a dedução de ocorrência de processos internos, ou mesmo se desse na ausência destes, o que quer que se signifique por interno ou “mental”. A idéia walloniana de duplicação do real, ou seja, o desdobramento do plano do sensível e do concreto em seu equivalente, formado de imagens, de símbolos e de idéias – quando busca definir o que é a função de representação – , é equivalente à libertação da percepção para Piaget. __________________________________________________ 9

A relação entre interno e externo (e os conceitos decorrentes de interiorização/ internalização) parece-nos ser um foco importante de diferenciação entre autores construtivistas, e carente de uma reflexão mais aprofundada, apenas esboçada aqui, e que pretendemos empreender em outro texto.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


234 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

Entretanto, Wallon não lança mão do conceito de interiorização para dar conta de uma passagem de fora para dentro (para o interno, para o mental), na medida em que os processos mentais são desdobramentos do que já ocorre no indivíduo, na sua biologia, transformando-se em mental pela ação do outro, do parceiro social, que compartilha de um mesmo processo de significação. Assim, o choro, por exemplo, simples descarga fisiológica, que faz parte do repertório da criança ao nascer, transforma-se em um sinal comunicativo pela interferência sucessiva de um parceiro da espécie que tenta minimizá-lo, confortando aquele que chora. A nosso ver, o que mais distancia as concepções walloniana e piagetiana – tanto neste como em outros tópicos – é o lugar do outro, central na primeira e quase ausente na segunda. Tanto Wallon quanto Piaget estudaram o processo de imitação na criança atribuindo a ele um papel na constituição da sua vida mental, especialmente na constituição de sua função de representação (função semiótica, na linguagem de Piaget). Traçaram hipóteses, entretanto, de mecanismos diferentes, condizentes com seus aportes teóricos: Wallon realçou os processos de fusão e diferenciação do sujeito com o outro, inerentes à imitação de outra pessoa pela criança, e afirmou que eles propiciam comparações entre o fazer próprio e o modelo presente ou ausente, comparações que resultam em desdobramentos conseqüentes. Piaget concebeu os processos de assimilação e acomodação como responsáveis pela estruturação do pensamento infantil, admitindo que na imitação há um predomínio da acomodação, e na brincadeira de faz-deconta há a sua contrapartida, o predomínio da assimilação, ambos os processos situados no âmbito do interno ou do individual. Ao priorizar na imitação (imediata ou diferida) a dinâmica entre fusão e diferenciação, ou eu-outro, Wallon oferece um mote que será retomado (por vias diversas e independentes) na literatura etológica recente, especialmente a respeito de primatas. b) Natureza e evolução da imitação no reino animal: algumas novas (?) perguntas. A emergência, no decorrer do primeiro ano de vida da criança, de diversas habilidades “triádicas” – atenção conjunta em relação a objetos, comunicação intencional de desejo de obtenção de objetos ou de atenção conjunta (apontar, mostrar), aprendizagem de novas ações que Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 235

reproduzem não apenas um efeito final, mas também a estratégia para obtê-los – está documentada na literatura desde a década de 70. Carpenter e colaboradores (1995) sintetizam essa literatura e sugerem que essa emergência sincronizada no tempo não é acidental: decorre antes do fato de que todas essas habilidades dependem da crescente capacidade da criança de: [...] compreender as outras pessoas como agentes intencionais cuja atenção e comportamento em relação a objetos podem ser acompanhados, dirigidos e compartilhados (TOMASELLO, 1995)10. [...] Essas habilidades sócio-cognitivas têm sido referidas também como “intersubjetividade secundária” (TREVARTHEN, 1979)11 (CARPENTER et al., 1995; p. 218).

Serão essas habilidades sóciocognitivas especificamente humanas? A análise comparativa entre crianças e chimpanzés é o primeiro objetivo dos autores em relação a essa questão nesse estudo; o segundo é investigar as relações entre atenção conjunta e aprendizagem por imitação, definida de uma forma que pressupõe a primeira: “[...] a aprendizagem por imitação de uma ação sobre um objeto requer que o aprendiz preste atenção não só ao efeito final produzido, mas também aos meios utilizados pelo demonstrador” (ibid, p. 220) – em outras palavras, que sua atenção esteja sincronizada com a do parceiro e se alterne entre as ações deste e o objeto sobre ou com o qual atua – o que define a atenção conjunta. Antes de rever os resultados desse estudo, convém esmiuçar comparativamente a natureza da imitação de que se está tratando. Whiten e Ham (1992) oferecem uma revisão valiosa, e considerações precisas e relevantes sobre as evidências comparativas a respeito de imitação desde os primórdios basicamente anedóticos da Psicologia Comparativa pós-darwiniana – que teria tido sua atenção atraída para __________________________________________________ 10

Tomasello, M. Joint attention as social learning. Em: C. Moore e P. Dunham (Eds.) Joint attention: Its origins and role in development. Hillsdale, N.J.: Erlbaum, 1995. 11 Trevarthen, C. Instinct for human understanding and for cultural cooperation. Em: M. von Cranach; K. Foppa; W. Lepenis e D. Ploog (Editores) Human ethology: Claims and limits of a new discipline. Cambridge: Cambridge University Press, 1979. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


236 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

esse fenômeno uma vez que a imitação, a despeito de sua importância óbvia na transmissão cultural humana, e na aquisição da linguagem em particular, parecia ocorrer também, sob formas mais simples, entre outros animais. Para examinar as evidências alegadas, os autores buscam inicialmente uma conceituação de imitação em comparação com outros processos psicológicos que poderiam explicar a semelhança de comportamento entre dois animais (uma preocupação semelhante à de Wallon, indicada anteriormente, mas desta vez apoiada em uma enorme quantidade de evidência e em uma sofisticação conceitual de que aquele autor não podia dispor no início no século XX). Comparando detalhadamente os fenômenos designados, por diferentes autores e tradições de pesquisa, como imitação ou com os inúmeros termos relacionados (por exemplo, mimetização; influência social; contágio, imitação instintiva, instigação pseudo-vicária, facilitação social, etc.; realce de estímulo ou de local; imitação inteligente, imitação simbólica, imitação interna reflexiva, etc.; emulação), Whiten e Ham (1992) propõem uma taxonomia de processos miméticos, conceituados como processos que resultam em semelhança de comportamentos entre indivíduos, com três grandes categorias: (a) processos não-sociais, em que a semelhança emerge sem interação social; (b) influência social, em que ocorre regulação entre indivíduos, mas não ocorre aprendizagem: por exemplo, contágio, encorajamento social, aprendizagem da ação do outro como estímulo discriminativo; e (c) aprendizagem social, em que ocorre aprendizagem do comportamento ou de parte do comportamento do indivíduo mimetizado: realce de estímulo ou de local; condicionamento por observação (sob certos aspectos igualável ao primeiro); imitação de parte da topografia do comportamento; emulação de objetivos. Os processos incluídos no segundo e no terceiro grupo são, segundo os autores, os que têm o potencial de operar na transmissão cultural. Entre eles, parece-nos que os do terceiro grupo são, por sua vez, os que têm sido focalizados, com maior ou menor grau de diferenciação entre si, na literatura sobre imitação e desenvolvimento, e que interessam mais diretamente ao nosso argumento. Realce (enhancement) de estímulo ou de local pode ser diretamente relacionado à noção de atenção conjunta; imitação, nesta categorização, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 237

refere-se à reprodução da forma da ação, o que se aproxima da noção de imitação de meios; e emulação de objetivos corresponde à noção de imitação de fins12. Whiten e Ham (op. cit.) concluem, com base nessa taxonomia, que apenas no caso de chimpanzés há alguma evidência de imitação de meios; essa evidência é principalmente anedótica ou obtida em cativeiro (freqüentemente em chimpanzés “enculturados”, criados por seres humanos). Todos os demais relatos examinados em relação a outros primatas (macaca, cebus, ateles, papio, cercopithecus), e mesmo muitos dos relativos a chimpanzés poderiam ser explicados por outros mecanismos, como realce de estímulo/local, ensaio e erro, e facilitação social; em outros mamíferos (ratos, golfinhos) a evidência é ainda mais escassa ou controvertida. Os autores concluem, a título de hipóteses de trabalho ainda a serem mais testadas, que chimpanzés podem imitar (grifo nosso: não significa supor que o façam em situações naturais); o mesmo se aplica, com ainda maior margem de dúvida, a golfinhos; e que a imitação está ausente, ou é apenas incipiente, em outros primatas13. Essa conclusão conduz à concepção da imitação como parte de um padrão de diferenciação cognitiva peculiar a certas condições evolutivas bem específicas. Entre os possíveis elementos nucleares desse padrão, destacam a meta-representação ou “leitura da mente” (mind reading): [...] a imitação, por B, de um padrão de ação de A envolve copiar um padrão de ação que foi organizado originalmente a partir do ponto de vista de A (BRUNER, 1972)14. Esse é necessariamente um ponto de vista diferente do de B, mas tem que ser re-representado em sua forma original de organização para que possa ser desempenhado do ponto de vista de B. A expressão re-representado é inevitável e é usada de forma cuidadosa: __________________________________________________ 12

É interessante apontar que, embora as palavras imitação e emulação tenham a mesma raiz latina “Im”, que denota “semelhança” (Ayto, J. Dictionary of word origin. New York: Árcade, 1990), a palavra emulação adquiriu um significado periférico de competição, concorrência ou esforço de superação, o que talvez esteja relacionado com a desvalorização ideológica do imitar como processo inferior do ponto de vista cognitivo, que se reflete em termos pejorativos como “to ape”, em inglês, ou “macaquear”, em português. 13 Implicando que o ser humano é superior aos outros primatas em “macaqueação” – uma implicação no mínimo divertida. 14 Bruner, J.S. Nature and uses of immaturity. American Psychologist, 27: 687-708, 1972. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


238 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

traduz uma representação de segunda ordem ou meta-representação [...] pode-se dizer que B tem que captar o programa de comportamento na cabeça de A: em outras palavras praticar uma espécie de leitura da mente (WHITEN e HAM, 1992, p. 271).

A hipótese é testável: a imitação tornar-se-ia tanto mais difícil quanto mais divergentes fossem os pontos de vista de modelo e imitador (por exemplo, na interação face a face em oposição à observação do modelo a partir da mesma orientação espacial). Assim, essa argumentação comparativa, além de convergente em relação às colocações de Wallon sobre imitação e diferenciação eu-outro, situa-as em uma nova perspectiva conceitual e empírica. Essa convergência é instigante. A nosso ver, ela recupera um aspecto central da teorização de Wallon: a inseparabilidade entre afetivo/emocional e cognitivo. A literatura sobre construção da identidade (ou do eu) situa-se em geral no pólo do afetivo, desvinculada da literatura sobre formação de conceito, fenômeno cognitivo. Essa distinção não tem lugar no pensamento de Wallon, no qual o eu-outro, ou a fusão-diferenciação, é conceito estruturante, referente a processos cuja origem está na imitação. Pode-se dizer que ele está implicado – ou, melhor dizendo, está mais explicitado conceitual e empiricamente – na moderna teoria da mente e em sua interpretação sobre a imitação: para construir o eu, como diria Wallon, é preciso poder pensar o outro e supor que o outro também pensa o seu parceiro interacional (cf. também DUNN, 1988). Carpenter e colaboradores (1995) seguem essa trilha de argumentação explorando comparativamente, por um lado, a correlação entre atenção conjunta e imitação, e por outro a distinção entre imitação de meios e de fins (emulação de objetivos). Seus sujeitos foram três chimpanzés “enculturados” (criados em ambiente semelhante ao de uma criança, em interação com seres humanos adultos); três chimpanzés criados por suas mães no ambiente típico de cativeiro (no qual há mais interação com seres humanos do que teria um chimpanzé em ambiente natural); e seis crianças com 18,4 meses de idade em média (faixa etária escolhida por ser uma fase em que há uma incidência significativa de interações que envolvem atenção conjunta com adultos, mas ainda há pouca verbalização). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 239

O procedimento era uma situação de jogo com objetos, em que o experimentador procurava assegurar a atenção dos sujeitos, apresentava modelos de ações sobre os objetos e esperava suas respostas, eventualmente encorajando-as. Foram codificados a atenção visual dos sujeitos (olhar para objeto, olhar para face do experimentador, nenhum dos dois) e seu comportamento em relação aos objetos (reprodução apenas de meios, sem obtenção do resultado; reprodução do resultado por outros meios; reprodução de meios e de resultados; e nenhum dos anteriores); foi codificado também o comportamento não-verbal dos sujeitos dirigido ao experimentador. Os resultados apontam diferenças entre os três grupos em diversos aspectos instigantes. Nos dois grupos de chimpanzés, os olhares para o rosto do experimentador eram, em sua maioria, curtos, ao passo que os das crianças eram prolongados. Essa diferença é atribuída ao fato de que, na interação de experimentadores e chimpanzés enculturados, há muita ênfase na atenção em relação a objetos, faltando-lhe um componente ontogenético característico da história interacional humana: as prolongadas interações face-a face, os recursos de captação e manutenção da atenção em relação à face e outras formas de “proto-conversas” (TREVARTHEN, 1979, cit. CARPENTER et al., 1995; p. 233). Por outro lado, chimpanzés “enculturados” diferiram dos chimpanzés criados pela mãe quanto à forma de atentar para objetos e de interagir com seres humanos a respeito de objetos: olhavam mais tempo para objetos apresentados pelo experimentador, e envolviam-se durante períodos mais longos com o objeto e com o experimentador durante momentos de atenção conjunta. Pode-se dizer que os chimpanzés enculturados apresentaram padrões intermediários entre os das crianças e os dos chimpanzés criados pelas mães. Discutindo esses resultados, os autores sugerem que: [...] a instrução intencional por parte de adultos (como ocorre com crianças e com os chimpanzés enculturados), a interação com objetos na presença de outros que encorajam a atenção em relação a esses objetos, o reforço pela imitação de ações do adulto, a comunicação com adultos utilizando símbolos convencionais, e ser tratado como agente intencional são todos ingredientes importantes para compreender outras pessoas como agentes intencionais. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


240 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

Essa compreensão está na base da ontogênese de habilidades de atenção conjunta, imitação e comunicação, tanto para seres humanos quanto para chimpanzés (CARPENTER et al.,1995, p. 235).

Os autores encontram ainda uma relação positiva entre atenção conjunta e aprendizagem por imitação (no sentido de imitação não apenas de fins mas também de meios): em todos os sujeitos, a porcentagem de tempo despendida olhando para o objeto durante o período em que o modelo de ação era apresentado e o escore total de imitação relacionaram-se positivamente, e olhar pelo menos uma vez para o rosto de experimentador durante esse período correlacionou-se positivamente com a reprodução de meios e de fins em chimpanzés enculturados. A hipótese sugerida é de que há informação sobre intenções de ação transmitidas pelo rosto dos experimentadores que são úteis para a reprodução de suas ações, mas que são utilizadas apenas quando as habilidades de imitação são de um tipo específico. Conseqüentemente: [...] o fato de que chimpanzés só apresentam habilidades sofisticadas de aprendizagem por imitação quando são criados em ambientes que mimetizam o ambiente cultural humano (humanlike cultural environments) sugere que chimpanzés precisam despender um esforço especial para desempenhar essas tarefas (tal como ocorre com a aprendizagem de signos lingüísticos) e que lapsos de atenção resultariam em fracasso com freqüência maior do que a que ocorre com crianças. Resulta daí que seria interessante investigar a relação entre atenção conjunta e aprendizagem por imitação em crianças por volta dos nove meses de idade, quando emergem as capacidades de imitação, para verificar se tal esforço é exigido também das crianças (CARPENTER et al., 1995, p. 235).

Essa expectativa não corresponde ao que encontramos em nossas observações qualitativas, ilustradas pelo episódio de imitação espontânea descrito a seguir: Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 241

A educadora pergunta a Jef (M; 15 m15): “Onde está o cavalinho?”. Jef, que brincava com um objeto, olha para cima e levanta o braço, segurando o objeto, na direção dos desenhos pintados no teto da sala. Maya (F; 9 m), que olhava para Jef e estava de costas para a educadora, engatinha na direção de Jef, pega o objeto que ele agora colocou no chão, e segurando-o levanta o braço na direção do teto, sempre olhando para Jef.

Essa possível diferença evoca o comentário de Hinde (1987) a respeito do ensino de linguagens simbólicas a chimpanzés: eles podem aprender, mas, diferentemente de uma criança, não têm nenhuma motivação para fazê-lo e requerem técnicas muito particulares de treinamento. Esse comentário, por sua vez, remete a Vygotsky, quando diz que Kurt Lewin define a atividade voluntária como aspecto característico da psicologia humana, e complementa: “Há razões para acreditar-se que a atividade voluntária, mais do que o intelecto altamente desenvolvido, diferencia os seres humanos dos animais filogeneticamente mais próximos” (VYGOTSKY, 1984, p. 42). Mais uma vez, e agora em Vygotsky, parece emergir uma associação entre afetividade/motivação (embora sob o rótulo de “vontade”, possivelmente implicando consciência) e cognição/ação. Que “vontade” ou motivação é essa, e que “competências cognitivas” (possivelmente incluída aí a imitação) ela implica? A direção de resposta sugerida por nosso próprio trabalho, e também pela literatura, envolve dois termos inseparáveis: a prioridade motivacional do outro ser humano como foco de atenção – o que está implícito nos conceitos de orientação preferencial de atenção e de atenção conjunta (ver CARVALHO, 1989; CARVALHO et al., 1998; CARPENTER et al.,1995; TOMASELLO et al., 1993) – e a percepção dos outros como agentes intencionais claramente diferenciados de objetos inanimados (PEDROSA e CARVALHO, 2004; TOMASELLO et al., 1993):

__________________________________________________ 15

M/ F = sexo masculino/ feminino; idade em meses

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


242 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

Crianças não tentam olhar para onde sua boneca está olhando, não tentam utilizar uma cadeira como ponto de referência social, e não pedem que sua mamadeira realize ações. Só fazem essas coisas quando interagem com outras pessoas, porque compreendem o comportamento de outras pessoas em termos de percepções e intenções subjacentes. De fato, argumentamos, esses comportamentos só fazem sentido se a criança tem alguma noção a respeito de agentes intencionais (TOMASELLO et al., 1993; p. 498).

Nestes últimos autores encontramos uma síntese particularmente instigante do argumento desenvolvido neste item, e que introduz o próximo. Segundo eles, a enorme diferença observável entre sociedades humanas e as de outros animais pode ser explicada por pequenas (mas importantes) diferenças em termos de processos: Colocado de forma simplificada, seres humanos aprendem com o outro através de maneiras que animais não-humanos não apresentam. Particularmente, seres humanos “transmitem” ontogeneticamente comportamentos e informações adquiridos, tanto intra- quanto inter-gerações, com um grau muito maior de fidelidade [grifo nosso] do que qualquer outra espécie animal. O processo de aprendizagem que garante essa fidelidade serve para evitar perda de informação [...] e, juntamente com a inventividade individual e cooperativa, constitui a base da evolução cultural. Seres humanos são capazes de aprender uns com os outros desta forma porque têm formas potentes, e talvez incomparavelmente poderosas, de cognição social. Seres humanos compreendem e assumem a perspectiva dos outros de uma maneira e em um grau que lhes permitem participar mais intimamente do que qualquer animal não-humano dos conhecimentos e habilidades de seus coespecíficos (TOMASELLO et al., 1993, p. 495).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 243

Tomasello e colaboradores (1993) comentam ainda que essa perspectiva não é nova e que recupera um tema central da obra de Vygotsky, a diferença entre aprendizagem “cultural” e “natural”; mas sustentam que o papel fundamental da cultura no desenvolvimento humano, apontado por Vygotsky, pressupõe uma capacidade especificamente humana para a aquisição de cultura, ou seja, uma co-evolução entre cultura e capacidade para sua aquisição, que Vygotsky e seus seguidores teriam negligenciado. E propõem buscar essa capacidade em três situações interacionais básicas: a aprendizagem por imitação, a aprendizagem por instrução e a aprendizagem cooperativa entre pares de idade. São a primeira e a última que interessam prioritariamente a nosso argumento, e que retomamos no trabalho de Eckerman e colaboradores (1989, 1993, 1996, 2001), não sem antes finalizar este item com uma citação que corrobora todo o raciocínio anterior. A verdadeira aprendizagem por imitação, em nossa definição, envolve a reprodução, pela criança, das estratégias comportamentais do adulto [grifos nossos, salientando o conceito de imitação de meios; e acrescentaríamos e/ou da outra criança, como ocorre na aprendizagem cooperativa] em seus contextos funcionais adequados, o que implica a compreensão de intenções subjacentes ao comportamento (TOMASELLO et al., 1993, p. 497).

c. A teorização de Eckerman e colaboradores sobre o “padrão imitativo” Eckerman e Peterman (2001) apóiam-se na idéia de ações cooperativas coordenadas – caracterizadas por regulação mútua, semelhança temática ou semântica, e uso integrado dos modos verbal e não-verbal de comunicação – para propor trajetórias de desenvolvimento relacionadas à transição do não-verbal para o verbal, iniciando-se com ações coordenadas ritualizadas – inicialmente limitadas a rituais praticados com adultos e crianças mais velhas; passando pelo surgimento de ações coordenadas não ritualizadas, que emergem a partir de atos imitativos não-verbais; e chegando a ações coordenadas resultantes de meios nãoverbais e verbais de comunicação. Eckerman e colaboradores (1989) Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


244 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

já tinham salientado o papel da imitação não-verbal no desenvolvimento da ação coordenada no segundo ano de vida e, com base nesse resultado, apresentaram a hipótese de que essa atividade imitativa facilitaria o domínio do verbal como meio de atingir a coordenação de ações, uma hipótese confirmada por achados de Eckerman e Didow (1996) sobre aumento de freqüência de tipos de fala facilitadores de ações coordenadas após a emergência do que as autoras chamam “padrão imitativo”. Eckerman (1993) sustenta que, embora os seres humanos se envolvam em ações coordenadas com parceiros sociais desde o nascimento, a forma dessas ações e o tipo de contribuição da criança transformam-se acentuadamente no decorrer dos primeiros três anos de vida, das interações face a face características dos primeiros meses para a construção de brincadeiras, o faz-de-conta, e as conversações e argumentações verbais das crianças de três anos. Nesse processo, a participação da criança evolui das pré-adaptações para a troca social, tais como responsividade a estímulos sociais, contato visual, atenção sustentada, para antecipação de ações do outro e geração de modalidades novas de troca social. A transição do segundo para o terceiro ano de vida seria particularmente crucial nesse processo. Antes disso, a participação da criança tipicamente se restringiria a rituais de interação já exercitados, como o esconde-esconde, dar e oferecer objetos, indicar partes do corpo – rituais propostos e dirigidos basicamente pelo adulto, e gradualmente assumidos e iniciados também pela criança. A primeira transição relevante seria para a ação coordenada, cooperativa e não ritualizada, e nessa transição o papel fundamental seria desempenhado pela imitação, tanto de parceiros “mais competentes” como de pares de idade. O que Eckerman veio a chamar de padrão imitativo foi identificado originalmente em um estudo longitudinal com crianças de 16 a 32 meses, relatado em Eckerman e colaboradores (1989). Esse estudo produziu dois achados relevantes: o de que a imitação de atos nãoverbais explicava praticamente todas as ações cooperativas nesse período, e o de que ocorria um aumento acentuadamente escalonado na freqüência de atos imitativos, em média entre 20 e 24 meses, mas com ampla variação individual. Essa prontidão emergente para imitar, que foi denominada padrão imitativo, gerava uma diversidade de formas de ação cooperativa tais como brincadeiras de imitação recíproca, brincadeiras de seguir o líder, e outros padrões mais complexos. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 245

Esses resultados foram replicados utilizando um parceiro adulto instruído para se comportar de formas que possivelmente maximizariam a probabilidade de ações cooperativas; novamente, a maioria das ações cooperativas consistiu de imitação de ações não-verbais (ECKERMAN e DIDOW, 1989). Sintetizando os resultados desses diversos estudos, bem como outros dados da literatura, Eckerman e Peterman (2001) propõem que, ao construírem brincadeiras através de imitação não-verbal, as crianças geram uma compreensão compartilhada sobre o que estão fazendo em conjunto; essa compreensão as ajudaria a falar a respeito de suas atividades e a compreender e responder de forma significativa às falas do parceiro, e dessa forma desdobrar seus esforços em termos de comunicação verbal com os outros. A seqüência ontogenética proposta pelas autoras acima para essas aquisições é bem mais tardia (a partir de 15-18 meses) do que a que vínhamos encontrando na literatura revista anteriormente. As próprias autoras admitem que essa cronologia pode estar distorcida pelo fato de trabalharem com parceiros que não têm familiaridade anterior, e sugerem que parceiros já familiarizados podem apresentar ações coordenadas em idades mais precoces – o que é corroborado por diversas de nossas observações (cf., por exemplo, PEDROSA e ECKERMAN, 2000; PEDROSA e CARVALHO, 2004). Concluem indicando que: [...] a ação coordenada construída por pares propicia experiências peculiares que podem facilitar o desenvolvimento de habilidades sociocognitivas em crianças pequenas. Brincadeiras de imitação recíproca, por exemplo, parecem ser um contexto primordial para que crianças pequenas vivenciem tanto sua diferença quanto sua similaridade em relação ao outro, bem como o sucesso de suas inferências sobre objetivos/ intenções do outro. (ECKEMAN e PETERMAN, 2001, p. 345).

Amarrando os fios Um olhar comparativo sobre os fenômenos de comunicação no reino animal indica diversos mecanismos e processos que podem ser considerados como precursores filogenéticos da comunicação humana: Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


246 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

a negociação, a transformação da expressão em recursos comunicativos, seja na filogênese ou na ontogênese, e a emergência de comunicação referencial em grupos filogenéticos tão distantes quanto abelhas e primatas. Todos esses processos são identificáveis também na comunicação humana, que no entanto evoluiu para uma forma única, sem análogos no reino animal. Da mesma maneira, embora fenômenos culturais ou protoculturais – no sentido de serem transmitidos na ontogênese através de aprendizagem social – ocorram em diversos primatas (HUFFMAN, 1996; INOUE-NAKAMURA e MATSUZAWA, 1997; RESENDE e OTTONI, 2002), nenhum primata, exceto o ser humano, é biologicamente cultural no sentido de depender da cultura como modo de vida e adaptação. A implicação sugerida pela literatura revista é que os precursores filogenéticos que permitiram a diferenciação da cultura e da linguagem humana se situam no âmbito da aprendizagem social, e particularmente em uma modalidade específica de imitação, através da qual se produz a cópia fiel das ações de um modelo; pré-adaptações possibilitadoras dessa forma de imitação são a prioridade motivacional do outro ser humano como foco de atenção e a atenção conjunta – que podem ser produzidas em outros primatas em certas condições particulares, quando se mimetiza o ambiente cultural humano, mas parecem não ocorrer sistematicamente em condições naturais – , e que estão relacionadas à capacidade precoce do ser humano de perceber o outro como agente intencional. Essa linha de argumentação sugere direções e perguntas específicas de pesquisa sobre a transição da comunicação exclusivamente nãoverbal para a comunicação conjuntamente não-verbal e verbal que caracteriza a interação social humana; além disso, sugere que essa transição apresenta saltos qualitativos (parâmetros de controle, na linguagem de teoria de sistemas) a partir da segunda metade do primeiro ano de vida, em torno dos 8-9 meses – coincidindo, possivelmente de forma não acidental, com as manifestações comportamentais do primeiro vínculo afetivo, a relação de apego. Tentar amarrar alguns desses fios é o desafio que estamos nos colocando em nossos projetos atuais de pesquisa (SESTINI, 2003; CARVALHO, 2003). Esperamos que nossos resultados possam contribuir para a solidificação e/ou para um detalhamento do argumento de Eckerman sobre o papel do “padrão imitativo” na transição para a comunicação verbal, bem como para a articulação teórica entre esse argumento, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 247

a posição clássica de Wallon a respeito de imitação e representação, e os correlatos dessas teorizações na literatura etológica e em nossa própria argumentação teórica. Referências bibliográficas ADES, C. Uma perspectiva psicoetológica para o estudo do comportamento animal. Boletim de Psicologia, v. 36, p. 20-30, 1986. BRANCO, A. U. A.; CARVALHO, A. M. A.; PEDROSA, M. I. e CENEVIVA, M. S. A. G. Descrição do fluxo de interações entre crianças de mesma idade em uma situação de brinquedo. XV REUNIÃO ANUAL DE PSICOLOGIA. Resumos… Ribeirão Preto: SBP, p. 16, 1989. CARPENTER, M.; TOMASELLO, M. e SAVAGE-RUMBAUGH, S. Joint attention and imitative learning in children, chimpanzees and enculturated chimpanzees. Social Development, v. 4, n. 3, p. 217-237, 1995. CARVALHO, A. M. A. Algumas reflexões sobre o uso da categoria “interação social”. XVIII REUNIÃO ANUAL DE PSICOLOGIA. Anais... Ribeirão Preto: SPB, p. 511-515, 1988. CARVALHO, A. M. A. Brincar juntos: natureza e função da interação entre crianças. In: ADES, C. (Org.) Etologia: De animais e de homens. São Paulo: Edicon e EDUSP, 1989, p. 199-210. CARVALHO, A.M.A. Seletividade e vínculo na interação entre crianças. Tese de Livre-Docência não publicada. São Paulo: IPUSP, 1992. CARVALHO, A.M.A. O que é “social” para a Psicologia? Temas em Psicologia, v. 2, p. 1-17, 1994. CARVALHO, A. M. A. Abordagens qualitativas e quantitativas à interação social e comunicação na infância: exploração conceitual e empírica de produtividade e complementaridade. Projeto de pesquisa apresentado ao CNPq para solicitação de bolsa de produtividade em pesquisa. (Aprovado em dezembro de 2003). CARVALHO, A. M. A.; BRANCO, A. U. A.; PEDROSA, M. I. e GIL, M. S. A. Dinâmica interacional de crianças em grupo: um ensaio de categorização. Psicologia em Estudo, v. 7, n. 2, p. 91-99, 2002. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


248 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

CARVALHO, A. M. A.; IMPÉRIO-HAMBURGER, A. e PEDROSA, M. I. Interaction, regulation and correlation in the context of human development: Conceptual discussion and empirical examples. In: LYRA, M. e VALSINER, J. (Editors). Child development within culturally structured environments. Stanford: Ablex Publishing Corporation, v. 5, p. 155-180, 1998. CARVALHO, A. M. A., IMPÉRIO-HAMBURGER, A. e PEDROSA, M. I. Dados e tirados: Teoria e experiência na pesquisa em Psicologia. Temas em Psicologia, v. 7, n. 3, p. 205-212, 1999. CARVALHO, A. M. A. e MORAIS, M. L. S. A descrição do comportamento social da criança: uma contribuição. Psicologia, v. 13, n. 1, p. 37-54, 1987. CARVALHO, A. M. A. e PEDROSA, M. I. Communication in early child development: Some reflections from an evolutionary perspective. In: BRANCO, A. U. A. e VALSINER, J. (Editors). Communication and metacommunication in human development. Greenwich: Information Age Publishing Inc., 2004a (no prelo). CARVALHO, A. M. A. e PEDROSA, M. I. Territorialidade e construção social do espaço em brincadeiras de crianças. Revista de Etologia, 2004b (submetido à publicação). DUNN, J. The beginnings of social understanding. Oxford: Basil Blackwell, 1988. ECKERMAN, C. O. Imitation and toddler’s achievement of coordinated action with others. In: Nadel J. e Camaioni L. (Editors). New perspectives in early communicative development. London: Routledge, 1993, p. 116-138. ECKERMAN, C. O.; DAVIS, C. C. e DIDOW, S. M. Toddlers’emerging ways of achieving social coordination with a peer. Child Development, v. 60, p. 440-453, 1989. ECKERMAN, C. O. e DIDOW, S. M. Toddler’s social coordination: changing responses to another’s invitation to play. Developmental Psychology, v. 25, p. 794-804, 1989. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 249

ECKERMAN, C. O. e DIDOW, S. M. Nonverbal imitation and toddlers’ mastery of verbal means of achieving coordinated action. Developmental Psychology, v. 32, n. 1, p. 141-152, 1996. ECKERMAN, C. O e PETERMAN, K. Peers and infant social/ communicative development. In: Brenner G. e Fogel A. (Editors) Blackwell handbook of infant development. Oxford: Blackwell, 2001, p. 326-350. HAUSER, M. D. The evolution of communication. Cambridge: Bradford/ MIT Press, 1996. HINDE, R. A. Individuals, relationships and culture – Links between ethology and social sciences. New York: Cambridge University Press, 1987. HUFFMAN, M. A. Acquisition of innovative cultural behaviors in nonhuman primates: A case study of stone handling, a socially transmitted behavior in Japanese monkeys. In: HEYES, C. M. e GALEF, B. G. (Editors). Social learning in animals: the roots of culture. San Diego: Academic Press, 1996, p. 267-289. HUXLEY, J. (Editor) A discussion on ritualization of behaviour in animals and man. Phil. Trans. Royal Soc. Brit., v. 251, 1966. IMPÉRIO-HAMBURGER, A.; PEDROSA, M. I. e CARVALHO, A. M. A. Auto-organização em brincadeiras de crianças: de movimentos desordenados à realização de atratores. In: DEBRUN, M.; GONZÁLES, M. E. Q. e PESSOA Jr., O. (Orgs.) Auto-organização: estudos interdisciplinares. Campinas: CLE/Unicamp, 1996, p. 343-361. INOUE-NAKAMURA, N. e MATSUZAWA, T. Development of stone tool use by wild chimpanzees (pan troglodytes). Journal of Comparative Psychology, v. 111, p. 159-173, 1997. LYRA, M. C. D. P. e SOUZA, M. Dynamics of dialogue and emergence of self in early communication. In: JOSEPHS, I. E. (Editor) Dialogicality in development, p. 51-68, vol. 5 on Valsiner J. (Ed.) Child development in culturally structured environments. Stamford, CT: Greenwood, 2003. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


250 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

LORENZ, K. Z. Evolution of ritualization in the biological and cultural spheres. In: J. Huxley (Editor). A discussion on ritualization of behavior in animals and man. Phil. Trans. Royal Soc. Brit., v. 251, p. 273-284, 1966. MELTZOFF, A. N. e MOORE, M. K. Imitation of facial and manual gestures by human neonates. Science, v. 198, p. 75-78, 1977. MONTAGNER, H. L’enfant et la communication: comment des gestes, des attitudes, des vocalizations deviènnent des messages. Paris: Stock, 1978. NADEL, J. e BAUDONNIÈRE, P.-M. Imitação, modo preponderante de intercâmbio entre pares durante o terceiro ano de vida. Cadernos de Pesquisa (FCC), v. 39, p. 26-31, 1981. NADEL, J. e FONTAINE, X. Communicating by imitation: a developmental and comparative approach to transitory social competence. In: SCHNEIDER, B.; ATTILI, G.; NADEL, J. e WEISSBERG, R. (Editors). Social competence in developmental perspective. Dordrecht: Kluwer, 1989, p. 131-144. PEDROSA, M. I. Interação criança-criança: um lugar de construção do sujeito. 1989. Tese de Doutorado. IPUSP:São Paulo. PEDROSA, M. I. e CARVALHO, A. M. A. A interação social e a construção da brincadeira. Cadernos de Pesquisa, v. 93, p. 60-65, 1995. PEDROSA, M. I. e CARVALHO, A. M. A. Aprendendo sobre eventos físicos com parceiros de idade. Cadernos de Pesquisa (FCC), 2004 (submetido à publicação). PEDROSA, M.I.; CARVALHO, A.M.A. e IMPÉRIO-HAMBURGER, A. From disordered to ordered movement: attractor configuration and development. In: FOGEL, A.; LYRA, M. e VALSINER, J. (Editors). Dynamics and indeterminism in developmental and social processes. Mahwah: LEA, 1997, p. 135-151. PEDROSA, M. I. e ECKERMAN, C. O. Sharing means: How infants construct joint action from movement, space and objects. ISSBD. Abstracts of the XVIth Biennial Meetings of. Beijing: ISSBD, 2000, p. 438. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa — 251

PIAGET, J. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1975 (Edição original de 1946). PIAGET, J. e INHELDER, B. A Psicologia da criança. São Paulo: Difel e Difusão Editorial, 1980 (Edição original de 1966). RESENDE, B. D. e OTTONI, E. B. Brincadeira e aprendizagem do uso de ferramentas em macacos-prego (cebus apella). Estudos de Psicologia UFRN, v. 7, n. 1, p. 173-180, 2002. SESTINI, A. E. Interação social e comunicação na primeira infância. Projeto de pesquisa (Doutorado) submetido à Fapesp para obtenção de bolsa (Aprovado em maio de 2003). STRUHSAKER, T. T. Auditory communication among vervet monkeys (cercopithecus aethiops). In: ALTMANN, S. A. (Editor). Social communication among primates. Chicago: Chicago University Press, 1967, p. 281-324. TOMASELLO, M.; KRUGER, A. C. e RATNER, H. H. Cultural learning. Behavioral and brain sciences, v. 16, p. 495-511, 1993. VON FRISCH, K. The dance language and orientation of bees. Cambridge: Belknap Press of Harvard University Press, 1967. VYGOTSKY, L. S. A internalização das funções psicológicas superiores: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. In: COLE, M.; STEINER, V. J.; SCRIBNER, S. e SOUBERMAN, E. (Editors). A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984, p. 59-65. WALLON, H. As origens do caráter na criança: os prelúdios do sentimento de personalidade. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1971 (Edição original de 1949). WALLON, H. Do acto ao pensamento: ensaio de psicologia comparada. Lisboa: Moraes Editores, 1979 (Edição original de 1942). WALLON, H. O papel do outro na consciência do eu. In: WEREBE, M. J. G. e NADEL-BRUFFERT, J. (Orgs.). Henri Wallon. São Paulo: Ática, 1986 (Edição original de 1959).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


252 — Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares

WALLON, H. Ausência de planos distintos no pensamento da criança. In: WEREBE, M. J. G. e NADEL-BRUFFERT, J. (Orgs.). Henri Wallon. São Paulo: Ática, 1986 (Edição original de 1963). WHITEN, A. e HAM, R. On the nature and evolution of imitation in the animal kingdom: reappraisal of a century of research. Advances in the study of Behavior, v. 21, p. 239-283, 1992. (Recebido em outubro de 2003 e aceito para publicação em março de 2004)

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.219-252, outubro de 2003


Princípios morais e a evolução de um senso moral*

Dennis Werner1 Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo

Abstract

Estudiosos muitas vezes confundem descrições ou explicações a respeito do que é com julgamentos a respeito do que deve ser. As falácias naturalísticas, relativistas e moralísticas que se derivam desta confusão são especialmente comuns nas avaliações de teorias sobre a evolução da moralidade. Esta revisão da literatura examina aspectos do nosso senso moral que evoluíram do altruísmo comum nos grupos de parentesco e da acomodação às hierarquias de dominância e reciprocidade mais típicas em grupos

Scholars often confuse descriptions or explanations of what is with judgments about what ought to be. The naturalistic, relativistic and moralistic fallacies, which derive from this confusion, have been particularly common when evaluating theories about the evolution of morality. This review examines aspects of our moral sense that evolved from the altruism common to kin groups and from the accommodation to dominance hierarchies and reciprocity typi-

__________________________________________________ * 1

Moral principles and the evolution of a moral sense Endereço para correspondências: Departamento de Psicologia, CFH, UFSC, Campus Universitário, 88040-900, Florianópolis, SC (E-mail: dennis@floripa.com.br).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


254 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

maiores. Muitos estudos apontam para a necessidade de cautela a respeito do nosso senso moral. Mais especificamente, a nossa indignação moral e o nosso senso de justiça refletem principalmente uma preocupação com o nosso lugar nas hierarquias de dominância, e não preocupações morais legítimas. Um sistema moral baseado no princípio de aumentar o “bem-estar” em vez de “justiça” permite aproveitar pesquisas empíricas para descobrir as melhores maneiras de aumentar o bem-estar. Também evita a dependência no livre-arbítrio tão importante em outros sistemas morais, e assim permite uma visão mais determinista-científica da natureza humana. Estes temas de filosofia moral são pelo menos tão antigos como a Reforma Protestante.

cal in larger groupings. Many empirical studies show how we need to be wary of our innate sense of morality. In particular, our moral indignation and sense of justice mostly reflect concern with our place in the status hierarchy rather than legitimate moral concerns. A moral system based on the principle of increasing “well-being”, rather than “justice” permits us to use empirical research to uncover the best ways to increase wellbeing. It also avoids the dependency on free will important to other moral systems, and so permits a more deterministic-scientific view of human nature. These themes in moral philosophy are at least as old as the Protestant Reformation.

Palavras-chave: Evolução da moralidade, altruísmo, reciprocidade, justiça, Reforma Protestante.

Keywords: Evolution of morality, altruism, reciprocity, justice, Protestant Reformation.

Introdução

D

ificilmente existe um tema mais polêmico na literatura sobre evolução do que as origens do nosso senso moral. Em A descendência do homem, Darwin (1998/1874) explicou que: “[...]qualquer animal dotado de instintos sociais bem marcados, incluindo os afetos de pais e filhos, inevitavelmente adquiriria um senso ou consciência moral, logo que as suas capacidades intelectuais tivessem ficado quase ou igualmente desenvolvidas quanto no homem”. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 255

Já na época reflexões como estas provocaram protestos veementes. O reverendo Leonard Jenyns afirmou numa carta a Darwin que não podia acreditar que: [...] as capacidades de raciocínio do homem, e sobretudo o seu senso moral poderia ter sido adquirido de progenitores irracionais, ou da seleção natural... Isto me parece eliminar totalmente a Imagem Divina que constitui a distinção intransponível entre o homem e os brutos (ênfase minha, citado em UCHI,1996).

Quase um século e meio depois, a polêmica continua. Uma busca na internet pela expressão moral evolution resultou em milhares de páginas, a maioria escrita por pessoas indignadas com a tentativa dos evolucionistas em explicar a moralidade. Por exemplo, Raymond Bohlin, Ph.D. em Biologia Molecular, e organizador de Creation, evolution and modern science, argumenta que a idéia da evolução de moralidade pode apenas levar a “desespero, negação, ou esperança irracional”, uma vez que implica na inexistência de um significado para a vida fora dos ditames da biologia (BOHLIN, 2003). Na grande maioria das vezes os autores afirmam que só Deus ou uma força divina poderia dar conta da moralidade. O cerne da polêmica gira em torno de um velho tema na filosofia moral resumido por David Hume na idéia da intransponibilidade entre is (o que é) e ought (o que deve ser). Como esta distinção é tão importante, vale a pena examinar algumas das suas ramificações. O que é e o que deve ser Em outros trabalhos (WERNER, 1999a; 1999b) distingui três “falácias” que resultam da confusão entre o que é e o que deve ser. São elas: 1) a falácia naturalística; 2) a falácia relativista; e 3) a falácia moralística. Na falácia naturalística conclui-se que, se alguma coisa de fato existe na natureza (“é natural”), logo ela tem que ser considerada boa. Esta falácia tem pelo menos duas versões básicas. Na versão mais simples conclui-se que devemos seguir as “leis da natureza”, não a artificialidade do que advém do ser humano. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


256 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

Normalmente quem adota esta posição acredita que a natureza é bondosa e faz o bem. Mas algumas pessoas, mesmo reconhecendo que a natureza muitas vezes é cruel, ainda acham que devemos seguir os ditames da natureza. Foi o caso do Marquês de Sade (como sátira ou não das idéias de pensadores como Rousseau) e, mais recentemente, de grandes empresários como Andrew Carnegie e John D. Rockefeller. Como Rockefeller pregava nas suas aulas de escola dominical: “O crescimento de grandes empresas é simplesmente a sobrevivência do mais apto... Isto não é uma tendência má dos negócios. É simplesmente a realização de uma lei da natureza e de uma lei de Deus” (citado em RACHELS, 1991). Em meados do século XX intelectuais como Georges Bataille (1949) elogiariam o lado “bom” das crueldades da natureza. Mas, evidentemente, muitos discordam desta visão. Como comentou Katherine Hepburn no seu papel de missionária no filme clássico “Uma aventura na África” (African Queen): “A natureza é o que fomos colocados na terra para superar” (Nature is what we were put on earth to overcome). Numa outra versão da falácia naturalística, conclui-se que devemos seguir os ditames da nossa própria natureza humana. Devemos, por exemplo, buscar dentro de nós os fundamentos do bem e da justiça. Alguns evolucionistas recentes têm adotado uma ou outra versão deste tipo de argumento. Eles sugerem, como Charles Darwin, que as exigências de uma vida em grupo têm criado no ser humano um senso moral, mas vão além desta constatação a respeito do que é para concluir que o nosso senso moral deveria ser o que é, pelo menos nas suas formas mais evoluídas (WILSON, 1998). Por exemplo, Bromberg (2003) sugere que o significado da palavra “bom” evoluiu de significados mais específicos (concretos) para significados mais gerais (abstratos), e que isto, de fato, é e deveria ser a fundamentação da nossa moral. Desta forma acredita que podemos achar na Biologia uma base objetiva para a nossa moralidade. Outros teóricos buscam esta fundamentação na concordância universal entre seres humanos a respeito de um princípio básico de moral. Para Wilson (1998) “[...] o dever é a tradução, não da natureza humana, mas do arbítrio público, que pode se tornar cada vez mais sábio e estável através de uma compreensão das necessidades e falhas da natureza humana”. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 257

Wilson vê no consenso a fundamentação da nossa moral. Esta visão de Wilson é parecida com aquela de Durkheim (1915) para quem também encontramos na vida grupal a única força maior do que o indivíduo que poderia ,fundamentar um sistema moral. Mas enquanto Durkheim enfatizava diferenças culturais e sistemas morais variados, Wilson, como a maioria dos evolucionistas, busca princípios universais. Para ter validade, o “consenso” de Wilson não poderia ter exceções, mas teria que ser realmente universal. Caso contrário, acabamos entrando no lado negativo da solidariedade grupal – a xenofobia. Estas últimas reflexões remetem à distinção entre uma moralidade “objetiva” (ou “transcendental”), baseada em algo externo ao ser humano (como Deus), e uma moralidade “subjetiva” (ou “empírica”), baseada na consciência humana. Para muitos religiosos, uma moralidade “subjetiva” é vazia, sem âncora, e só um Deus poderia fornecer a fundamentação para uma moralidade objetiva. Na tentativa de tirar da Biologia (e mais especificamente da vida grupal) uma âncora para a moralidade objetiva, os evolucionistas ainda precisam esclarecer por que aceitam os ditames da vida grupal como fundamento para a moral e não outros aspectos da Biologia. Aceitar a concordância universal como base para a moralidade não resolve o problema, pois todo mundo pode estar moralmente errado, e ainda não está claro quem (quais espécies, por exemplo) seria incluído nesta concordância! (BOHLIN, 2003). As críticas dos religiosos são bem vindas, mas a sua resposta – “só Deus pode fornecer esta objetividade” – não resolve o problema, no meu entender. Como muitas pessoas, eu aceitaria como princípio básico da moralidade “fazer o bem” (aumentar o bem-estar) por razões que não posso justificar. No caso de um Deus que tem como mandamento principal “fazer o bem” ou “amar a seu vizinho como a si mesmo” não haveria problema, mas se Deus queria que as pessoas prejudicassem os outros e premiasse este tipo de comportamento, acho que seria moralmente correto não obedecer esta vontade e fazer tudo no nosso poder para contrariá-la. No meu entender, fazer algo simplesmente porque ganharíamos um prêmio divino ou evitaríamos uma punição eterna seria um ato egoísta, não um ato moral. No fundo, obedecer as “leis da natureza” ou as “leis de Deus” acarreta o mesmo problema. Estas leis devem ser seguidas quando visam ao bem, mas não quando visam ao mal. Considere–se o caso de Jacó no Velho Testamento. Cometeu extorsão, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


258 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

falsidade ideológica, estelionato e quebras unilaterais de acordos de paz – todos atos que beneficiavam a ele ou a seu grupo, enquanto prejudicavam os outros. O seu Deus premiava estes comportamentos egoístas com um legado de muitos descendentes. Difícil não perceber neste Deus algo muito parecido com a seleção natural no seu nível mais bruto. A intransponibilidade do que é para o que deve ser continua mesmo colocando Deus no meio. Não podendo fundamentar a moral na natureza, outros pensadores recorrem à “falácia relativista”, na qual se conclui que as regras e os princípios morais que uma cultura de fato tem, são as regras e osprincípios que a cultura deveria ter. Esta posição é ainda mais difícil de sustentar, pois leva a conflitos insolúveis entre culturas que possuem sistemas morais diferentes. Além disso, não consegue lidar com mudanças culturais, nem com diferenças de idéias dentro de uma mesma cultura. Para alguns, a dificuldade em achar uma base objetiva para a moralidade leva à conclusão de que a moral simplesmente não existe. Esta postura de niilismo moral acarreta outros problemas, pois ninguém consegue evitar de pensar no que se deve fazer, pois toda decisão depende disto. Parece que temos uma tendência irresistível de confundir o que é com o que deve ser. Observe–se, por exemplo, a facilidade com que passamos de uma constatação do que é, para uma constatação moral ao pensar na causalidade. Dizemos que “A causa B” (uma simples constatação do que é), e “A é responsável por B”, e “A é culpado por B” (uma constatação moral). Até o nosso vocabulário mais elementar confunde o que é com o que deve ser. As palavras “certo” e “errado”, por exemplo, podem tanto se referir a uma constatação do que é (como numa prova de assinalar) como podem se referir a atos que consideramos morais ou imorais. Esta tendência é tão forte que fazemos a passagem sem perceber. Não é de se admirar então que passamos, sem perceber, também de constatações morais (opiniões sobre o que deve ser) para constatações do que de fato existe. Esta passagem constitui a falácia moralística. Percebemos muito esta “falácia” no mundo acadêmico quando pessoas argumentam, por exemplo, que homens e mulheres deveriam ser iguais, e por isso concluem que de fato são iguais (e ai de quem diga o contrário), ou, no caso de estudos sobre moralidade, pensamos que as pessoas deveriam ser altruístas puras, e ai de quem argumenta que não somos. Precisamos ser lembrados constantemente que “explicar não é justificar”, e vice-versa. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 259

Em vista da dificuldade em achar uma fundamentação objetiva para a moral, acho melhor encarar as teorias de evolução da mesma forma como encaramos outras teorias científicas a respeito da moral (psicológicas ou sociológicas, por exemplo) – como tentativas de descrever e explicar os nossos sistemas morais, não como tentativas de justificar ou fundamentar estes sistemas. Conceitos básicos na explicação evolucionista da moralidade Seguindo as idéias originais de Darwin, a grande maioria dos evolucionistas tem buscado explicações para a nossa moral na evolução da vida em grupo. Dependendo do que querem explicar, pesquisadores têm enfatizado o impacto de 1) grupos de parentes; 2) grupos de não parentes caracterizados pela reciprocidade; e 3) grupos caracterizados por hierarquias de dominância. Junto com a vida em grupo, Darwin e pesquisadores mais recentes também ressaltam a importância do desenvolvimento de certas capacidades cognitivas. Grupos de parentes – altruísmo, empatia e simpatia Na época de Darwin, um dos maiores enigmas da teoria de seleção natural foi a constatação de que alguns animais estavam dispostos a sacrificar as suas próprias vidas e a sua própria reprodução para o bem dos outros. Se tais animais não conseguiam se reproduzir, como é que as suas características altruístas poderiam continuar em futuras gerações? A resposta veio com a idéia de “seleção de parentes” ou “gene egoísta” (HAMILTON, 1963; DAWKINS, 1976). O indivíduo poderia, sim, ser altruísta, mas os seus genes, presentes também nos seus parentes, poderiam bem ser “egoístas”. O que interessa na seleção natural é a continuação de genes, não de indivíduos (que sempre morrem). Isto explicaria porque alguns insetos se sacrificam para o bem da colméia. Por exemplo, algumas vespas trabalhadoras possuem mais genes em comum com as suas irmãs do que teriam com os seus próprios filhos. Uma destas vespas passaria mais genes para o futuro ajudando a produzir mais irmãs (por exemplo, sacrificando-se para salvar a mãe-rainha) do que tentando se salvar para poder ter filhos próprios (WILSON, 1980, p. 193-196). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


260 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

Embora muitas pessoas pudessem classificar tais atos reflexos como amorais, Darwin (1998/1874) argumentou que seria difícil fazer uma distinção clara entre atos reflexos e atos que resultam de uma deliberação mais consciente. Definindo um ser moral como aquele “[...] capaz de comparar motivações ou atos passados e futuros e de aprovar ou desaprovar destes atos [...]”, Darwin (1998/1874) esclareceu que não havia razão para acreditar que algum animal inferior pudesse ter esta capacidade. No entanto, destacou que muitos atos e motivações humanos não permitem distinguir entre instintos ou reflexos e atos realizados com deliberação. Por exemplo, a capacidade de sentir simpatia em muitas espécies teria se originado nas relações de pais com filhos, e seria este sentimento que iniciaria o caminho para um senso moral. É difícil saber nos seres humanos quanto dos seus atos morais decorrem de uma simpatia pouco refletida, e quanto de uma deliberação mais consciente. De qualquer maneira, pesquisas mais sistemáticas têm revelado um viés claro no ser humano de se comportar de forma mais “altruísta” em situações que implicam maior probabilidade de passar os seus próprios genes para o futuro. Por exemplo, em muitas situações as mães sacrificam a satisfação da sua própria fome para poder cuidar melhor dos seus filhos – o que parece ser o caso em muitos animais e no ser humano (DALY e WILSON, 1988; WALLACE, 1979). Além disso, pesquisas comparativas (Taiwan versus Estados Unidos, por exemplo) mostram que as pessoas dão preferência praticamente igual a parentes próximos quando precisam escolher quem seria salvo em dilemas morais, mesmo quando estes dilemas envolvem outras questões complicadoras, como “diferenças no número de vítimas”, “status relativo das vítimas”, “aceitação contratual de riscos” ou “possibilidade de não agir” (O’NEILL e PETRINOVICH, 1998). Mas as previsões a respeito de altruísmo podem ser muito mais sutis. Por exemplo, Euler e Weitzel (1999) perguntaram a netos de alemães quais dos seus avós eram mais atenciosos. Independentemente de distâncias geográficas ou idades, os netos tinham maior probabilidade de citar as avós maternas. Os avôs paternos foram considerados os menos atenciosos. Os autores argumentam que isto se explica pelo problema de incerteza de paternidade, ou seja, a mãe sempre sabe quem é realmente seu filho, mas o pai fica na dúvida. A avó materna tem muita certeza de que os seus netos são realmente dela. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 261

O avô paterno pode ter dúvidas tanto a respeito do próprio filho quanto do filho deste. Wright (1996) cita inúmeras pesquisas demonstrando a conformidade dos dados com diferentes variações desta mesma lógica de investimento paterno. Para citar apenas um exemplo, o grau de pesar sentido por pais que perdem um filho está estreitamente relacionado ao esforço que investiram nele. A morte de filhos adolescentes, por exemplo, causa mais pesar que a morte de filhos muito menores. Adolescentes já receberam mais investimento dos pais, mas ainda não deram retorno em termos de netos (CRAWFORD et al., 1989, citado em WRIGHT, 1996). Esta mesma lógica de parentesco também explica fontes de conflitos entre diferentes pessoas. Por exemplo, embora em geral mães e filhos possuam os mesmos interesses (em termos de passar genes para o futuro), há momentos no ciclo de vida quando os interesses divergem. As divergências podem começar já com a gestação. Normalmente o enjôo das primeiras semanas de gravidez é adaptativa, na medida em que evita que as mães comam alimentos com tóxicos que poderiam prejudicar o feto neste período delicado. A prova disso é que mães sem enjôo sofrem mais abortos espontâneos e parem mais filhos deficientes do que mães com enjôo (PROFET, 1992). Mas quando a saúde da mãe é seriamente prejudicada pelo enjôo, surge um conflito de interesse. O feto possui mecanismos de provocar mais enjôo do que seria bom para a mãe. Outros momentos de conflito ocorrem quando nascem novos filhos, quando mães precisam escolher entre cuidar mais de uma criança doente ou de uma criança saudável, ou quando mães novas se casam com outros homens. Os conflitos entre mãe e filho diminuem na medida em que envelhecem as mães. Isto porque as mães mais velhas têm menos chances de terem outros filhos e, conseqüentemente, saem melhor (em termos de passar mais prole para o futuro) se cuidam melhor dos filhos que já possuem em vez de se resguardar para possíveis filhos futuros. Com efeito, Wallace (1979) cita evidências de que são as mães mais velhas que se dedicam mais aos seus filhos; da mesma forma, Daly e Wilson (1988) mostraram para várias sociedades que a probabilidade de uma mãe cometer infanticídio diminui com a sua idade.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


262 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

O parentesco também é importante em explicar atos prejudiciais aos outros. Por exemplo, na sua análise de violência, Daly e Wilson (1988) mostraram que em todas as sociedades humanas estudadas um contato com um não parente tem maior probabilidade de levar a um homicídio do que um contato com um parente. Isto também se aplica ao caso de madrastas e padrastos em comparação com mães e pais. Dentro das famílias a grande maioria dos homicídios ocorre entre marido e mulher (que podem ter alguns interesses genéticos em comum – os filhos – mas não compartilham tantos genes entre si). Além disso, embora a probabilidade de um pai matar um filho diminua com a sua idade, não diminui tanto como no caso da mãe. Isto, segundo os autores, porque os homens mais idosos ainda possuem chances de se reproduzirem, enquanto as mulheres não. Normalmente os filhos mais idosos são mais problemáticos para os pais, e de fato sofrem maiores probabilidades de serem mortos por um padrasto ou madrasta do que crianças mais novas. No entanto, para os pais biológicos os filhos mais idosos representam um maior investimento biológico do que crianças pequenas. Afinal, filhos maiores receberam muito mais atenção e estão à beira de começar a se reproduzir. Seria de esperar que os pais teriam mais inibições em matar um filho maior, pois isto implicaria uma perda biológica maior. Com efeito, pais biológicos (à diferença de padrastos) têm maior probabilidade de matar um filho mais jovem do que um filho mais velho. Ainda há outras correlações: parece que os pais biológicos se refreiam mais do que os filhos quando se trata de conflitos grandes. Os filhos já adultos (>16 anos) têm uma probabilidade maior de matar os seus pais, do que os pais nestas mesmas faixas etárias matarem os seus filhos. Daly e Wilson (1988) argumentam que, nestes casos, os pais têm muito mais interesse em ver os filhos vivos (e reproduzindo) do que os filhos têm em ver os seus pais vivos (já que os pais têm menos capacidade para reprodução futura). Como nas mesmas faixas etárias a probabilidade do padrasto ser assassinado num conflito não é maior do que do enteado, esta diferença nas probabilidades de morrer não poderia ser atribuída a características etárias dos dois (maior força física ou menor controle emocional dos mais jovens, por exemplo). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 263

A importância dada por Darwin à simpatia no comportamento moral também tem sido confirmada em pesquisas. Na sua revisão da literatura sobre as relações entre emoções e desenvolvimento moral, Eisenberg (2000) cita as correlações positivas encontradas entre simpatia e comportamentos “pró-sociais” (de ajuda). Mas a pesquisadora alerta para a necessidade de distinguir entre “empatia” (que implica a capacidade de reconhecer sentimentos alheios, mas não a capacidade de distinguir a própria situação da situação do outro) e “simpatia” (que exige a capacidade de fazer a distinção entre o “eu” e o “outro”). Muitas vezes a empatia leva a criança a prejudicar o outro na sua tentativa de aliviar a sua própria dor. Reciprocidade – cooperação, justiça Embora Darwin (1998/1874) atribuísse as origens dos comportamentos e sentimentos morais às relações entre parentes, ele reconheceu que diferentes animais (como cães e macacos) às vezes demonstram estes comportamentos e sentimentos para não parentes, e até para membros de outras espécies. Ele atribuiu isto às vantagens da reciprocidade. Nas últimas décadas pesquisadores têm dedicado muita atenção a esta questão (AXELROD, 1984; RIDLEY, 1996; ALEXANDER, 1987). Muitos destes pesquisadores têm formação em Economia e usam os modelos desta área (como teoria de jogos) para esclarecer como a reciprocidade poderia ser adaptativa. Muita atenção tem sido dedicada ao “dilema do prisioneiro”. Neste jogo os participantes precisam decidir se vão cooperar ou não. Recursos são distribuídos de tal forma que a cooperação mútua resulta nos maiores ganhos totais (digamos cinco pontos para cada jogador –, dez no total). Se um indivíduo passa a perna no outro, ele, pessoalmente, pode ganhar mais (digamos seis pontos), mas o total de recursos diminui (digamos para oito – o outro jogador recebendo apenas dois pontos). Se os dois tentam trapacear, o ganho é menor (digamos três pontos para cada). Através de simulações de computador pesquisadores têm tentado inventar regras de comportamento que diriam quando um jogador deve cooperar ou não para maximizar o seu ganho individual. Campeonatos têm sido organizados para ver quem descobre as melhores regras. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


264 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

Dependendo dos pressupostos originais (capacidade para lembrar como agiram os outros, por exemplo) as regras otimizantes podem mudar. Por exemplo, quando os grupos são muito grandes, quem não coopera ganha mais pontos; em grupos menores os cooperadores saem melhor. Se existe a possibilidade de “cair fora” e ficar sozinho, eventualmente se juntando com outros solitários em grupos menores, o sistema pode vacilar, ora favorecendo cooperadores, ora não cooperadores (HAUERT et al., 2002). Também a possibilidade de punir os não cooperadores aumenta a cooperação. A presença de castigadores altruístas (que ao punir não ganham nada) é mais viável que a presença de cooperadores altruístas em grupos maiores (BOYD et al., 2003). Estas simulações ajudam a esclarecer o que as teorias prevêem em termos de reciprocidade entre animais, mas não fornecem dados a respeito do que realmente ocorre. Outros pesquisadores, principalmente da área de Psicologia (ou “Economia Experimental”), têm feito experiências para descobrir como animais e humanos realmente agem. Os seus estudos mostram um certo descompasso entre o que os humanos (e animais) realmente fazem e o que as teorias prevêem. Por exemplo, uma série de pesquisas sobre decisões de cooperação foram realizadas em 15 sociedades de pequeno porte, incluindo sociedades de forrageiros como os hadza da África Oriental, agricultores extensivos como os índios aché e machiguenga da América do Sul, e outras sociedades não ocidentais, como os mongóis da Ásia e agricultores de Zimbábue. Nestes estudos os indivíduos participam de um jogo no qual uma quantia X de dinheiro era mostrada para dois jogadores (cujas identidades foram escondidas para garantir anonimato). O primeiro jogador tinha a opção de ficar com todo o dinheiro ou de dar uma parte para o segundo jogador. Se o segundo jogador aceitava a proposta, o dinheiro seria dividido de acordo com a proposta, e o jogo terminaria ali. Caso o segundo jogador recusasse a proposta, ninguém receberia o dinheiro, e o jogo terminaria. Segundo a teoria do homo economicus, o primeiro jogador não deveria oferecer muito, mas o segundo jogador deveria aceitar qualquer coisa, pois assim cada um estaria cuidando dos seus próprios interesses econômicos da melhor maneira possível. Mas em todas as sociedades pesquisadas o segundo jogador recusava propostas consideradas “injustas”, preferindo ficar sem nada para poder punir a injustiça do primeiro jogador (SIGMUND et al., 2002; GINTIS et al., 2003). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 265

Os autores argumentam que estes dados mostram que o ser humano possui um senso de “reciprocidade forte”, uma espécie de altruísmo que vai além do previsto pelas simulações de computador. Os autores sugerem que este comportamento punitivo “altruísta” é compatível com a evolução, desde que reconheçamos que as nossas motivações psicológicas precisam se adequar às pressões da seleção natural, mas não precisam ser perfeitamente adaptadas. Nas condições de vida no grande período em que ocorreu a evolução humana as pessoas reencontrariam os seus parceiros de jogo, e o anonimato de transações econômicas teria sido raríssimo. Nestas situações uma motivação para cooperar e para sentir injustiça teria sido quase sempre vantajosa, independentemente da situação, o que é suficiente para a seleção natural. Uma confirmação da “irracionalidade” dos sentimentos humanos a respeito da cooperação vem de pesquisas com jogos semelhantes feitos com estudantes (CHAUDHURI et al., 2002). Nesta pesquisa ficou evidente que os cooperadores simplesmente tinham uma personalidade ou disposição maior ou menor para cooperar. O fato dos outros participantes do jogo cooperarem ou não não afetava em nada o seu comportamento. Sentimentos de indignação com comportamentos considerados injustos também têm sido observados em animais. Numa experiência realizada com macacos-prego, os animais aprenderam a trocar fichas por pedaços de pepino. As trocas funcionavam bem até que um macaco observava os pesquisadores darem uma uva para outro macaco. Depois de ver isto, o primeiro macaco recusava fazer a troca da ficha apenas por um pedaço de pepino. Se o primeiro macaco observava o pesquisador dar uma uva para o segundo sem a necessidade de troca, o primeiro macaco jogava a sua ficha no pesquisador, numa aparente amostra de indignação moral (pesquisa relatada em The Economist, 2003). Outros pesquisadores têm observado chimpanzés intervirem em conflitos de forma desinteressada e mostrarem mais preocupação com vítimas de agressão do que com os que iniciaram o conflito (FLACK e DE WAAL, 2000). Embora estas reações possam parecer “boas” no sentido de tentarem resguardar a “justiça”, a indignação nem sempre tem este resultado. Quando um babuíno ou um macaco rhesus recebe uma reação agressiva de um animal mais alto na hierarquia de dominância, a reação não é contra o agressor, mas sim contra algum inocente que por acaso esteja perto (CHENEY et al., 1986). Talvez estas reações possam ser explicadas em termos da manutenção da sua posição nas hierarquias de dominância dentro do grupo. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


266 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

O macaco que recebe a bronca do dominante se encontra numa situação precária, pois o seu status de subordinado fica demonstrado. Nesta situação ele precisa afirmar ainda sua posição superior a outros indivíduos, o que faz atacando alguém de um status mais baixo ainda. Estes sentimentos de injustiça ressaltam o valor dado ao respeito que os animais recebem de outros membros do grupo e a importância das hierarquias de dominância. Hierarquias de dominância – indignação moral, respeito à autoridade e bem-estar A importância que Darwin deu à memória na evolução de um senso moral está muito ligada à distinção que fez entre instintos passageiros, como a fome (que desaparece logo que for satisfeita), e instintos duradouros (que continuam sempre). Um instinto passageiro pode dominar um instinto duradouro – por exemplo, o instinto de um pássaro para migrar com os primeiros sinais de outono pode dominar temporariamente o instinto de cuidar da prole. Mas, se um animal possui uma boa memória, logo que o instinto passageiro for satisfeito, podem ocorrer o remorso e o arrependimento, quando voltar a dominar o instinto mais duradouro. Em animais que vivem em grupo, um dos instintos mais duradouros seria o desejo de adquirir a estima e o respeito dos outros (DARWIN, 1998/1874). Este desejo de estima nos remete a um aspecto muito importante da vida em grupo – as hierarquias de dominância. Em todos os animais que vivem em grupo e que reconhecem indivíduos e não apenas categorias (como “abelha operária”) existem hierarquias de dominância (WILSON, 1980). A convivência social exige ajustes de comportamento para lidar com estas hierarquias. Por exemplo, Thomas (1993) notou que cachorros passam muito do seu tempo avaliando o status relativo uns dos outros. Dúvidas quanto a status levam a brigas, mas uma vez estabelecida a hierarquia, os animais conseguem viver numa paz relativa (como “colegas de departamento” para usar a analogia da autora). Mas parece que existem algumas regras tácitas. Por exemplo, cachorros dominantes têm mais direitos a ter filhotes, enquanto cadelas mais baixas na hierarquia ficam nervosas na gravidez e dedicam menos atenção aos filhotes, aparentemente devido ao medo dos dominantes. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 267

Baseando-se em pesquisas com vários primatas, De Waal (1991) descreve como os animais conseguem manter a paz via rituais de conciliação que seguem as brigas para status, os quais confirmam a aceitação das desigualdades. Muitas vezes estes rituais envolvem atividades sexuais (por exemplo, um animal monta o outro). Olhando as pesquisas realizadas com várias espécies de primatas, Werner (1998) argumentou que a cooperação passou por várias etapas na evolução. Uma cooperação simples consiste na marcação de territórios, que estabelece algumas regras de conduta (ficar fora do território do outro implica paz). Onde a cooperação é maior e diferentes animais compartem o mesmo território, ocorre uma pequena modificação na ritualização – os cheiros usados para marcar territórios são usados para marcar papéis de dominação e submissão (o submisso é marcado pelo cheiro do dominante e/ou obrigado a “prestar homenagem” ao dominante ao sentir os seus cheiros). Onde a cooperação se torna ainda mais complexa e animais formam alianças para poder dominar em conjunto, os marcadores de território/ status são cooptados para marcar alianças – isto é, os aliados trocam papéis (e cheiros) para simbolizar a disponibilidade tanto para dominar como para ceder às vezes ao parceiro. Parece que a seleção natural segue uma regra simples: “em time que está ganhando não se mexe”. Na complexificação que ocorre na evolução de organismos unicelulares para organismos maiores o que mais muda é a reorganização de peças pre-existentes. As peças menores mudam pouco. Por isso os seres vivos são mais semelhantes ao nível do seu DNA ou RNA (aliás, todos se baseiam no DNA ou RNA) do que ao nível das suas células. Células são mais parecidas entre diferentes organismos que tecidos, os tecidos mais semelhantes que estruturas maiores. (Um exemplo seriam as moléculas como hormônios e neurotransmissores que servem de mensageiros no nosso corpo. Estas moléculas são muito parecidas às moléculas que servem como mensageiros externos em organismos muito simples como os slime molds (BONNER, 1988)). No caso do comportamento e da cognição, ocorre o mesmo. Por exemplo, os símbolos humanos mais abstratos se baseiam em conceitos mais elementares parecidos com os conceitos de outros animais. As etimologias de palavras ilustram muito este processo. O caso dos marcadores de status humanos é ilustrativo. Considere apenas as expressões mais elementares (e chulas) usadas para descrever alguém que é submisso demais ao seu patrão. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


268 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

A observação de Thomas (1993) de que a paz entre cães com hierarquias estáveis se assemelha à convivência de colegas de departamento pode ser mais do que uma simples analogia. Com efeito, de Waal (1991) sugere que a aceitação de hierarquias é necessária para a manutenção da paz e da união. Mudanças hierárquicas criam conflitos. De Waal chegou a sugerir que a Igreja Católica conseguiu se manter unida mais tempo que as igrejas protestantes justamente por causa da maior estabilidade hierárquica desta igreja. O impacto da instabilidade de hierarquias pessoais se nota numa série de experiências realizadas por Mendes (1997). Numa destas experiências estudantes masculinos receberam de forma aleatória uma de duas versões de uma pequena estória em quadrinhos. A estória básica apresentava uma cena da apresentação de um colega de cela numa penitenciária que os alunos precisavam completar. Um total de 68,5% dos alunos que receberam estórias com hierarquias pessoais instáveis (com muitas mudanças de companheiro de cela) completaram a estória com uma cena de estupro (em vez de amizade), enquanto apenas 26,7% dos alunos que receberam estórias com hierarquias pessoais estáveis (poucas mudanças) deram esta resposta. Mendes explicou que, onde as hierarquias são estáveis, não há necessidade de esclarecer as hierarquias toda hora. Mas quando a posição das pessoas na hierarquia é menos clara, surge a necessidade de esclarecer esta questão via relações homossexuais, nas quais um dos parceiros (o “ativo”) afirma o seu status dominante sobre o outro (o “passivo”). Em outra pesquisa Silva (1998) entrevistou presos a respeito da sua atitude quanto ao estupro de outros presos como forma de punição. Silva descobriu que, independentemente do problema de acesso às mulheres, foram justamente aqueles presos que mais se preocupavam com a sua posição nas hierarquias pessoais que se mostravam mais favoráveis à prática de estupro contra outros presos. É interessante observar que os presos normalmente justificavam este ato como uma maneira de proteger a honra da família e da mulher, uma vez que a maioria dos estupros foi praticada contra presos condenados por estupro. Mas não foram os presos mais preocupados com a situação da família ou da mulher que mais advogavam o estupro como punição. A sua indignação moral estava mais ligada a problemas de honra e estima pessoal. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 269

A ligação entre indignação moral e status se revela ainda em pesquisas a respeito do sentimento de ter sido injustiçado. Numa revisão da literatura sobre o assunto, Miller (2001) citou várias pesquisas mostrando que este sentimento está muito ligado ao sentimento de ter sido desrespeitado. Por exemplo, em processos judiciais sobre a guarda de filhos os homens quase sempre perdem, mas é a sensação de não ter sido adequadamente escutado pelo juiz que melhor explica a sensação de indignação. Da mesma forma, a propensão para entrar com um processo contra um médico está mais relacionada à percepção de ter sido tratado com desrespeito do que com o mérito do caso em si. Miller argumenta que a sensação de injustiça tem mais a ver com o processo de julgamento do que com os resultados (justiça processual versus justiça distributiva). Mas, mesmo se aceitamos esta explicação, o problema de status continua. Citando Rawls (1971), Miller argumenta que a justiça processual é considerada mais importante que a justiça distributiva, justamente porque é no processo de julgamento que os indivíduos recebem uma das coisas que mais merecem – “o direito de ser tratado de uma forma que promove a auto-estima”. De qualquer forma, outras pesquisas citadas por Miller (2001) mostram a relação estreita entre raiva e sentimentos de injustiça, e muitas vezes é a raiva que evoca sentimentos de injustiça e não o contrário. Em outra revisão, Eisenberg (2000) nota que crianças com personalidades mais agressivas tendem a externalizar as suas emoções em geral e a culpar os outros em casos de conflitos. Em contraste, crianças mais medrosas tendem a internalizar as suas emoções e têm maior probabilidade de se sentirem culpadas. Como observa Miller (2001), uma das coisas que mais provoca raiva é o insulto, e tanto pesquisas com seres humanos como com animais (Miller cita de Waal aqui) mostram que a retaliação serve principalmente para preservar a imagem e a honra. Mesmo quando a retaliação serve para dar uma lição no outro, esta lição, muitas vezes, consiste em mostrar o status relativo ou o valor moral do outro. Numa revisão da literatura sobre controle de recursos, agressividade e moralidade, Hawley (2003) argumentou que os evolucionistas têm razão em ressaltar a ligação entre “hipocrisia moral” e “dominância social”, uma vez que o que importa na evolução é aparentar ser moral e não necessariamente ser moral. Pesquisas compararam as relações entre o controle de recursos via atividades “pró-sociais” (ajuda, persuasão) Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


270 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

com o controle via agressão (tanto física, mais comum nos rapazes, como verbal – fofoca e exclusão social – mais comum nas meninas). Estes estudos mostraram que são aqueles que juntam controle via agressão com controle “pró-social” que mais sobem na hierarquia social – muito mais que aqueles que usam apenas técnicas agressivas ou apenas técnicas pró-sociais ou que nem tentam controlar os outros. Estes indivíduos dominantes também trapaceiam e, segundo relatos dos pares (mas não dos professores), são entre os mais agressivos dos adolescentes. Para os autores, a dominância exige uma capacidade intelectual maquiavélica, além de uma disposição para agir de forma agressiva. Isto nos leva à importância das capacidades cognitivas na evolução do nosso senso moral. Capacidades intelectuais – confusão entre o que é e o que deve ser Numa comparação entre diferentes espécies de primatas, Byrne (1995) achou uma correlação forte entre o índice do neocórtex (peso do neocórtex dividido pelo volume total do cérebro) e o tamanho do grupo social. Como este índice é também muito correlacionado com a capacidade que diferentes espécies têm para engodos, Byrne sugeriu que a inteligência humana resultou de uma “corrida armamentista” durante a nossa evolução entre a capacidade para enganar e a capacidade para detectar engodos. Seria esta “inteligência maquiavélica” (BYRNE e WHITEN, 1988) que estaria por trás da maioria das nossas habilidades intelectuais. Vários pesquisadores mostraram que a nossa capacidade para raciocínio lógico é muito relacionada à questão de detectar engodos (ver COSMIDES, 1989; GIGERENZER e HUG, 1992; POLITZER e NGUYEN-XUAN, 1992). Segundo uma análise que fiz sobre o tema (Werner, 1997), nós resolvemos muito melhor problemas lógicos quando estes são apresentados numa forma que levanta suspeitas de trapaça. Parece que buscamos saber não apenas se uma proposição é “verdadeira” ou “falsa”, mas também se a pessoa que está apresentando a proposição é “verdadeira” ou “falsa”. Parece que o nosso senso de “verdadeiro” e “falso” (“certo” ou “errado”) teria evoluído deste fenômeno social. Não é de se admirar, então, que temos uma tendência tão forte para confundir o que “é” com o que “deve ser”, o que “explica” com o que “justifica” e o que “causa” com o que “é culpado por”. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 271

Se o nosso senso de “certo” e “errado” moral está tão estreitamente relacionado com a nossa capacidade para detectar contradições no comportamento dos outros (para poder detectar engodos), seria de esperar que diferentes indivíduos teriam capacidades diferentes para distinguir “certo” e “errado”. Com efeito, a Psicologia tem uma longa tradição de examinar diferenças no desenvolvimento do raciocínio moral. Embora não se baseiem nos princípios de evolução esboçados aqui, as teorias de Piaget e Kohlberg sobre raciocínio moral têm sido confirmadas em dezenas de pesquisas em diferentes culturas do mundo (BOYES e WALKER, 1988). Ligações entre raciocínio moral, inteligência geral e moralidade têm sido confirmadas em algumas pesquisas. Por exemplo, Eisenberg (2000) revisou várias pesquisas que mostram que crianças e adolescentes com maiores dificuldades de concentração são mais anti-sociais e têm mais problemas no raciocínio moral. Wilson e Herrnstein (1985) também citam o papel da baixa inteligência (quando combinada com outros fatores) na geração de criminalidade. O que está em pauta é a capacidade de raciocínio moral, e não necessariamente a capacidade para sentimentos morais. Ninguém argumenta que a alta inteligência sozinha previne a imoralidade (aliás a capacidade de engodo aumentaria com a inteligência) nem que a baixa inteligência sozinha levaria à imoralidade. Mas as diferenças de capacidade para raciocínio moral deveriam nos alertar para um problema básico na nossa legislação – o de que um indivíduo pode ser considerado culpado pelos seus atos desde que consegue reconhecer a diferença entre “certo” e “errado”. Quando se trata de diferentes graus de raciocínio, este princípio deixa de funcionar. Muitos debates têm surgido a respeito dos esquemas de Piaget e Kohlberg, mas na maioria das vezes trata-se de questionamentos a respeito dos critérios usados para avaliar a moral, e não as descobertas sobre raciocínio moral em si. Por exemplo, Gilligan e Attanucci (1988) distinguem entre “orientações para justiça”, que seriam medidas pelas etapas de Kohlberg, que são mais típicas nos homens, e “orientações para cuidado”, que seriam medidas por argumentos a respeito das necessidades dos outros e que seriam mais típicas nas mulheres. Não se pode dizer que uma orientação é melhor que a outra. Do ponto de vista das teorias de evolução apresentadas neste trabalho, estas diferenças teriam mais a ver com o tipo de grupo que está em pauta. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


272 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

Orientações morais para diferentes tipos de grupo Olhando o comportamento de chimpanzés e seres humanos de Waal (1991) sugeriu que existem algumas diferenças básicas nos agrupamentos de machos e fêmeas. Os machos tipicamente se associam em grupos maiores, nos quais as hierarquias são mais marcadas e mais volúveis. As coalizões dos machos “[...] são instrumentos para conseguir e manter um status alto. Há pouco espaço para simpatia ou antipatia em estratégias tão oportunistas” (DE WAAL, 1991, p. 51). Os machos estão sempre brigando e se reconciliando. De Waal cita uma frase de Tancredo Neves como ilustração no caso dos seres humanos. Neves comentou uma vez que “[...] nunca fiz um amigo de quem não poderia me separar, e nunca fiz um inimigo que não poderia abordar.” Em contraste, as fêmeas se restringem a grupos menores, nos quais as hierarquias são mais informais. Nas suas pesquisas com chimpanzés de Waal observou que as alianças entre fêmeas eram mais duradouras, e as inimizades, mais irreconciliáveis. Estas diferenças poderiam explicar as diferentes orientações morais de mulheres e homens observadas por Gilligan e seus sócios. A simpatia e a preocupação com as necessidades alheias seriam mais adaptadas à convivência em grupos menores (e especialmente de parentes próximos). Embora Gilligan tenha chamado de “orientação para justiça” o que é medida pelo esquema de Kohlberg, seria mais correto chamar isto de raciocínio moral, pois “justiça” não é necessariamente o princípio por trás deste esquema. A idéia básica de Kohlberg é que a criança, ao amadurecer, consegue distinguir cada vez melhor o seu mundo do mundo dos outros e raciocinar de acordo com as necessidades de um mundo cada vez maior. Do ponto de vista das teorias de evolução apresentadas aqui, o raciocínio moral (derivado da capacidade para detectar engodos) seria mais adaptado à convivência em grupos maiores caracterizados pela reciprocidade e pelas hierarquias de dominância. Num estudo relacionando orientações morais com características de personalidade em homens e mulheres, Ashton e colaboradores (1998) acharam apoio para este argumento e ainda esclareceram que traços de personalidade como “estabilidade emocional” e “capacidade para perdoar” estão mais relacionados ao “altruísmo recíproco”, enquanto “empatia e apego” estão mais relacionados ao “altruísmo de parentesco”. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 273

Implicações para o que devemos fazer Comecei este ensaio argumentando que a teoria de evolução sozinha não pode nos dizer o que devemos fazer. A sua utilidade consiste essencialmente na sua capacidade de gerar novas idéias para serem testadas com o método científico. Mas isto não quer dizer que não podemos aproveitar estas idéias para ajudarmos a tomar decisões sobre o que devemos fazer. Se aceitamos (por outras razões) que o princípio básico da moral é “aumentar o bem-estar” ou “amar o vizinho assim como a si mesmo”, podemos usar pesquisas inspiradas na teoria de evolução (como outras idéias testadas pela ciência) para esclarecer o que traz bem-estar. As idéias provenientes de uma psicologia evolucionista são especialmente úteis em esclarecer o que é a natureza humana. Sabendo melhor como lidar com a natureza humana estaremos em melhores condições para elaborar sistemas morais e legais adequados ao ser humano, em vez de sistemas mais adequados para anjos ou para brutos. Ao descartar regras tradicionais inadequadas, substituindo-as com regras melhores, podemos progredir na nossa tentativa de melhorar o bem-estar geral. Por exemplo, considere-se o nosso senso de justiça. Chamamos o sistema judicial de um país de “sistema de justiça”, o que demonstra o quão enraizada está a idéia de justiça como fundamento para o nosso sistema legal e moral. Mas uma das questões apontadas pelas pesquisas citadas aqui é justamente a necessidade de ter cautela com este senso de injustiça. Muitas vezes por trás de nossa indignação está um desejo egoísta de autopromoção, e não um desejo de melhorar o bemestar geral. Precisamos reconhecer, como disse Martinho Lutero, que “[...] o santo é aquele que sabe que tudo que faz é feito por razões egoístas” (citado em WRIGHT, 1996), e precisamos questionar se “justiça” merece um papel tão importante na fundamentação dos nossos sistemas morais e legais como querem alguns filósofos (RAWLS, 1971). O questionamento da noção de justiça como embasamento para a moral e a lei não é nada novo na história. Pelo contrário, foi um dos temas principais da Reforma Protestante. (Cito a Reforma, não porque este tema só apareceu naquela época, mas simplesmente porque pessoalmente conheço melhor este período devido à minha própria catequese luterana.) Nos ensaios que considerou os seus mais importantes – Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


274 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

Sobre boas obras e O cativeiro do arbítrio – Lutero esclareceu as suas opiniões a respeito da idéia de justiça. Como milhões de crianças luteranas aprendem nas suas aulas de catequese, para Lutero, “Deus nos ama, não por causa de, senão apesar de”. Não somos salvos porque merecemos. Somos salvos simplesmente pela graça de Deus. Baseando-se na Epístola de São Paulo aos Romanos (que tanto Lutero como Calvino consideravam a base da Reforma), Lutero, como São Paulo, argumentou que a justiça divina não tem nada a ver com qualquer coisa que nos humanos poderíamos entender por justiça. Deus escolhe alguns para salvar, outros não. É uma ilusão achar que nós temos um livre-arbítrio, quando as nossas vidas são pre-destinadas por Deus. E é ilusão, então, achar que estamos sendo recompensados pelo que merecemos por justiça. Como argumentei em outro lugar (ver www.dennis.floripa.com.br), tentar fundamentar um sistema moral e legal na idéia de justiça acarreta alguns problemas conceituais muito problemáticos. Primeiro, diferentes aspectos da noção de justiça são contraditórios entre si. A noção de justiça implica igualdade. Mas que tipo de igualdade – igualdade de bens, igualdade de oportunidades, igualdade perante a lei? Uma vez que os seres humanos são diferentes em suas capacidades e personalidades, igualdade de um tipo necessariamente implica desigualdade de outro tipo. Segundo, a noção de justiça implica idéia de que devemos colher o que semeamos. Mas como conciliar esta idéia com as diferentes idéias de igualdade? Finalmente, uma preocupação com a idéia de justiça nos leva a remoer mágoas do passado num ciclo sem fim, em vez de procurar melhorar o futuro. Em vez de tentar fundamentar a moral na noção de justiça, Lutero, como Santo Agostinho e São Paulo antes dele, recorreu à resposta de Jesus, quando indagado sobre qual a lei primordial da qual todas as outras leis seriam uma conseqüência: “Ame a Deus com todo o seu coração, toda a sua mente, e toda a sua alma” e o seu corolário “Ame a seu vizinho assim como a si mesmo”. Na minha catequese luterana, aprendi que Lutero resumia isto como “Ame a Deus e faça o que quiser”. É a substituição da idéia de “justiça” pela idéia de “aumentar o bem-estar”. Muitos filósofos posteriores (como David Hume e John Stuart Mill) desenvolveriam estas idéias. Darwin simplesmente deixou claro que o bemestar não é equivalente à felicidade como queriam alguns filósofos. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 275

E outros esclareceram que otimizar o bem-estar não é equivalente a otimizar o bem-estar material. (Uma grande área de pesquisa hoje em dia lida com fatores que predizem bem-estar subjetivo e físico.) Isto não quer dizer que é errado buscar justiça. Simplesmente esclarece que se a procura de justiça traz mal-estar em vez de bem-estar, é a busca do bem-estar que deve nos nortear. Ligada à questão de justiça é a questão do livre-arbítrio, pois sem livre-arbítrio não há como atribuir responsabilidade, e sem atribuição de responsabilidade não há como julgar “merecimento” com justiça. No entanto, um livre-arbítrio não é tão importante num sistema moral ou legal fundamentado na idéia de aumentar o bem-estar. Lutero e Calvino ligavam a falta de livre-arbítrio à idéia de predestinação – Deus fez as escolhas. Muitas pessoas hoje continuam ligando a falta de livre-arbítrio ao equivalente moderno de predestinação – o “determinismo” – e temem a perda de um sistema moral se “caímos” no determinismo. Por exemplo, Edelman (1992) busca na aleatoriedade quântica dentro dos neurônios uma saída do determinismo e uma salvação para o livre-arbítrio. Mas o livre-arbítrio não será salvo pelo acaso. Se não podemos controlar relações de causa e efeito, muito menos poderemos controlar processos estocásticos. O grande problema do livre-arbítrio não é o determinismo – é a dificuldade de achar um “eu”. René Descartes dizia que o “eu” está na glândula pineal. Hoje, poucos aceitariam a idéia de achar uma parte do cérebro onde reside o “eu” responsável pelas nossas decisões. Com efeito, LeDoux (1996) cita pesquisas mostrando conflitos entre diferentes partes do cérebro na hora de tomar uma decisão. Mais claro é o caso de pacientes epilépticos que sofreram cirurgias que dividem o cérebro e que às vezes descobrem que as diferentes metades do corpo discordam sobre qual a ação que deveriam tomar (ORNSTEIN, 1977). O que pensar, então, de gêmeos siameses? Qual parte do cérebro teria que ser compartilhada para decidir que se trata de uma e não duas pessoas? Qual parte ou função do cérebro precisa estar morta para decidir que alguém morreu? Eis algumas questões que ilustram o problema. Felizmente, como demonstraram Lutero e Calvino, não precisamos resgatar o livre-arbítrio para ter um sistema moral. O passado e as intenções das pessoas são importantes apenas na medida em que predizem comportamentos futuros. Às vezes, também, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


276 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

podemos influenciar alguém para o bem recorrendo à ilusão do livrearbítrio e a um senso de responsabilidade que muitas pessoas têm. Mas não devemos nos preocupar demais em decidir se atos passados foram “certos” ou “errados”. O importante é pensar como melhorar o futuro. Por exemplo, o castigo só é válido na medida em que corrige o comportamento do culpado ou serve de exemplo para que outros não errem. Em si só, a idéia de “justa retribuição” não é importante. Pode ser necessário tirar pessoas perigosas da rua, mas não adianta castigá-los, se isto não melhora comportamentos futuros (e no caso de muitos crimes, a punição dada atualmente não ajuda grande coisa) (PAEZ DE GIGENA, 1989). Seria melhor tentar criar melhor bem-estar para estas pessoas ao mesmo tempo em que aumentamos o controle sobre elas (cf. WOOTTON, 1959). Falta de liberdade não é equivalente a mal-estar, da mesma maneira que liberdade nem sempre implica bem-estar (por exemplo, liberdade para se suicidar). Á medida que o mundo fica cada vez mais complexo, precisamos reconhecer que conceitos como liberdade, bem-estar e “justiça” nem sempre implicam um no outro. O mais importante é esclarecer para diferentes indivíduos e diferentes situações exatamente quais regras ou leis trazem bem-estar, e tomar cuidado com as palavras demagógicas da nossa época. Pesquisas inspiradas na teoria de evolução podem nos ajudar muito a desvendar estas questões. Referências bibliográficas ALEXANDER, R. D. The biology of moral systems. New York: Dover, 1987. ASHTON, M. C.; PAUNONEN, S. V.; HELMES, E. e JACKSON, D. N. Kin altruism, reciprocal altruism, and the big five personality factors. Evolution and Human Behavior, v. 19, n. 4, p. 243-255, 1998. AXELROD, R. The evolution of cooperation. New York: Basic Books,1984. BARKOW, J. H.; COSMIDES, L. e TOOBY, J. (Orgs.). The adapted mind: evolutionary psychology and the generation of culture. New York: Oxford University Press, 1992. BATAILLE, G. La part maudite, essai d’économie générale. Paris: Éditions de Minuit, 1949. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 277

BOHLIN, R. Sociobiology: evolution, genes and morality. Probe Ministries. http://www.leaderu.com/orgs/probe/docs/sociobio.html. 14/12/2003. BONNER, J. T. Chemical signals of social amoebae. Scientific American, v. 248, n. 4, p. 114-120, 1988. BOYD, R.; GINTIS, H.; BOWLES, S. e RICHERSON, P. J. The evolution of altruistic punishment. PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America), v. 100, n. 6, p. 3531-3535, 2003. BOYES, M. C. e WALKER, L. J. Implications of cultural diversity for the universality claims of Kohlberg’s theory of moral reasoning. Human Development, v. 31, p. 44-59, 1988. BROMBERG, S. E. The evolution of ethics an introduction to cybernetic ethics. Disponivel em: <http://www.ethics.us/>. Acesso em: 14/12/2003. BYRNE, R. The thinking ape: evolutionary origins of intelligence. New York: Oxford University Press, 1995. BYRNE, R. W. e WHITEN, A. (Orgs.). Machiavellian intelligence: social expertise and evolution of intellect in monkeys, apes, and humans. Oxford: Clarendon Press, 1988. CHAUDHURI, A.; SOPHER, B. e STRAND, P. Cooperation in social dilemmas: trust and reciprocity. Journal of Economic Psychology, v. 23, n. 2, p. 231-249, 2002. CHENEY, D.; SEYFARTH, R. e SMUTS, B. Social relationships and social cognition in nonhuman primates. Science, v. 234, p. 1361-1365, 1986. COSMIDES, L. The logic of social exchange: has natural selection shaped how humans reason? Studies with the Wason selection task. Cognition, v. 31, p. 187-276, 1989. CRAWFORD, C. B.; SALTER, B. E. e LANG, K. L. Human grief: is its intensity related to the reproductive value of the deceased? Ethology and Sociobiology, v. 10, p. 297-307, 1989. DALY, M. e WILSON, M. Homicide. New York: Aldine de Gruyter, 1988. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


278 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

DARWIN, C. The descent of man. New York: Prometheus Books, 1998 (Edição original de 1874). DAWKINS, R. The selfish gene. New York: Oxford University Press, 1976. DE WAAL, F. Peacemaking among primates. London: Penguin Books, 1991. Durkheim, É. The elementary forms of the religious life. New York: The Free Press, 1915. EDELMAN, G. M. Bright air, brilliant fire: on the matter of the mind. New York: Basic Books, 1992. EISENBERG, N. Emotion, regulation, and moral development. Annual Review of Psychology, v. 51, p. 665-697, 2000. EULER, H. A. e WEITZEL, B. Grandparental caregiving and intergenerational relations reflect reproductive strategies. In: VAN DER DENNEN, J.; SMILLIE, D. e WILSON, D.R. (Orgs.). The darwinian heritage and Sociobiology. London: Praeger, p. 243-252, 1999. FLACK, J. C. e DE WAAL, F. B. M. Any animal whatever: darwinian building blocks of morality in monkeys and apes. Journal of Consciousness Studies, v. 7, n. 1-2, p. 1-29, 2000. GIGERENZER, G. e KLAUS, H. Domain-specific reasoning: social contracts, cheating, and perspective change. Cognition, v. 43, p. 127-171, 1992. GILLIGAN, C. e ATTANUCCI, J. Two moral orientations: gender differences and similarities. Merrill-Palmer Quarterly, v. 34, n. 3, p. 223-237, 1988. GINTIS, H.; BOWLES, S.; BOYD, R. e FEHR, E. Explaining altruistic behavior in humans. Evolution and Human Behavior, v. 24, n. 3, p. 153-172, 2003. HAMILTON, W.D. The evolution of altruistic behavior. American Naturalist, v. 97, p. 354-356, 1963. HAUERT, C.; DE MONTE, S.; HOFBAUER, J. e SIGMUND, K. Volunteering as red queen mechanism for cooperation in public goods games. Science, v. 296, p. 1129-1131, 2002.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 279

HAWLEY, P. M. Strategies of control, aggression, and morality in preschoolers: An evolutionary perspective. Journal of Experimental Child Psychology, v. 85, n. 3, p. 213-235, 2003. LEDOUX, J. The Emotional brain: the mysterious underpinnings of emotional life. New York: Simon and Schuster, 1996. MENDES, J. C. Hetero e homo: uma relação entre homens. Trabalho de Conclusão de Curso, Ciências Sociais. Universidade Federal de Santa Catarina: Florianópolis, 1997. MILLER, D. T. Disrespect and the experience of injustice. Annual Review of Psychology, v. 52, p. 527-553, 2001. O’NEILL, P. e PETRINOVICH, L. A preliminary cross-cultural study of moral intuitions. Evolution and Human Behavior, v. 19, n. 6, p. 349-367, 1998. ORNSTEIN, R. E. The psychology of consciousness. 2. ed. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1977. PAEZ DE GIGENA, O. M. Relações sociais e prisionização: o caso da penitenciária de Florianópolis. 1989. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. POLITZER, G. e NGUYEN-XUAN, A. Reasoning about conditional promises and warnings: darwinian algorithms, mental models, relevance judgments or pragmatic schemas? The Quarterly Journal of Experimental Psychology, v. 44, n. 1, p. 401-421, 1992. PROFET, M. Pregnancy sickness as adaptation: a deterrent to maternal ingestion of teratogens. In: BARKOW, J.; COSMIDES, L. e TOOBY, J. (Orgs.). The adapted mind: Evolutionary Psychology and the generation of culture. New York: Oxford University Press, p. 327-365, 1992. RIDLEY, M. The origins of virtue: human instincts and the evolution of cooperation. New York: Penguin, 1996. RACHELS, J. Created from animals: the moral implications of darwinism. New York: Oxford University Press, 1991.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


280 — Princípios morais e a evolução de um senso moral

RAWLS , J. A theory of justice. Cambridge: Harvard University Press, 1971. SIGMUND, K.; FEHR, E. e NOWAK, M. A. The economics of fair play. Scientific American, January: 82-87, 2002. SILVA, E. A. A natureza cultural da justiça: por uma teoria multidisciplinar da justiça, vista através do ritual de violência sexual no presídio masculino de Florianópolis. 1998. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. THE ECONOMIST (sem autor). Science and technology – Fair and square: animal behaviour. The Economist, v. 368, n. 8342, p. 108, 20 de Outubro de 2003. THOMAS, E. M. The hidden life of dogs. New York: Simon and Schuster, 1993. UCHI, S. Darwin on the evolution of morality. Trabalho apresentado para a sessão sobre Biologia do Século XIX. INTERNATIONAL FELLOWS CONFERENCE. Castiglioncello, Itália, 20-24 de maio, 1996. WALLACE, R. Sociobiologia: o fator genético. São Paulo: IBRASA, 1979. WERNER, D. Sexo, símbolo e solidariedade: ensaios de psicologia evolucionista. Florianópolis: Coleção Ilha, PPGAS, Universidade Federal Santa Catarina, 1999a. WERNER, D. Evolution: implications for epistemology and cross-cultural variation. In: VAN DER DENNEN, J. M. G.; SMILLIE, D. e WILSON, D. R. (Orgs.). The darwinian heritage and Sociobiology. London: Praeger, 1999b, p. 83-100. WERNER, D. Sobre a evolução e variação cultural na homossexualidade masculina. In: Pedro J. M. e Grossi M. P. (Orgs). Masculino, feminino, plural. Florianópolis: Edições Mulheres, p. 99-130, 1998. WERNER, D. O pensamento de animais e intelectuais: evolução e epistemologia. Florianópolis: Editora da UFSC, 1997. WILSON, E. O. Sociobiology: the abridged version. Cambridge: Harvard University Press, 1980. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Dennis Werner — 281

WILSON, E. O. The biological basis of morality. Atlantic Monthly, v. 281, n. 4, p. 231-249, 1998. WILSON, J. Q. e HERRNSTEIN, R. J. Crime and human nature: the definitive study of the causes of crime. New York: Touchstone Books, 1985. WOOTTON, B. Social science and social pathology. New York: Macmillan, 1959. WRIGHT, R. O animal moral: por que somos como somos: a nova ciência da Psicologia Evolucionista. Rio de Janeiro: Campus, 1996. (Recebido em dezembro de 2003 e aceito para publicação em março de 2004)

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.253-281, outubro de 2003


Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia*

Emma Otta Fernando Leite Ribeiro Vera Sílvia Raad Bussab1 Universidade de São Paulo

Resumo

Abstract

A história da dicotomia inato versus adquirido nas ciências do comportamento é longa e controversa, o que se deve particularmente às intensas reações contrárias ao lado inato da oposição. A herança de padrões comportamentais tem sido severamente subestimada tanto pelos behavioristas como por outras correntes como a piagetiana. A dicotomia persiste, apesar das tentativas para negá-la, simplesmente porque parece ser real e necessária. Não é adequado classificar “uni__________________________________________________

The dichotomy innate-acquired has a long and controversial history in the Behavioral Sciences, particularly because of strong reactions against the innate side of the debate. The inheritance of behavior has been severely underestimated by behaviorists and also by other traditions like that initiated by Piaget. In spite of attempts to deny it, the dichotomy persists simply because it seems to be true and necessary. It is not sen-

* Innate vs. acquired: the persistence of the dichotomy 1 Endereço para correspondências: Departamento de Psicologia Experimental, Instituto de Psicologia, USP, Av. Prof. Mello Moraes, 1721, 05508-900, São Paulo, SP (Emails: vsbussab@usp.br, fjlribei@usp.br e emmaotta@ usp.br). Trabalho desenvolvido com apoio do CNPq. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


284 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

dades” inteiras de comportamento como inatas ou adquiridas, mas o poder do efeito genético é inquestionável, mesmo quando o foco da discussão é o homem. Emoções e outros fenômenos afetivos são tão importantes quanto os comportamentos através dos quais se manifestam. São apresentadas evidências de que é impossível explicá-los exclusivamente através de processos de aprendizagem. Diferentes áreas de investigação – incluindo o estudo da cognição – têm mostrado a importância da genética para a compreensão de fenômenos psicológicos. Estudos de gêmeos monozigóticos e dizigóticos, criados juntos ou separados, demonstram inequivocamente os efeitos dos genes sobre comportamentos e características psicológicas de um modo geral. Estudos de Psicopatologia são particularmente elucidativos da importância e complexidade dos efeitos genéticos. Depois de apresentar evidências dos efeitos do genes sobre comportamentos e processos psicológicos, são examinadas concepções equivocadas de determinação genética, envolvendo justificativa de status quo e situações de iniqüidade social, dominação das mulheres pelos homens e racismo.

sible to classify whole “units” of behavior as either innate or acquired, but the powerful genetic effect is unquestionable, even if the discussion is restricted to humans. Emotions and other affective phenomena are just as important as their overt behavioral displays, and available evidence shows that it is impossible to explain them exclusively by learning processes. The importance of genetic determinants of psychological processes – including cognition – is receiving growing attention in different areas of investigation. Studies of monozygotic and dizygotic twins reared apart and together, have revealed impressive evidence of genetic effects on a wide variety of behavioral and psychological traits. Mental illnesses are substantially heritable. After an examination of evidence on the magnitude and complexity of heritability in behavioral and psychological processes, some misunderstandings were addressed, such as the idea that biological determinism is antithetical to social or political change and justifies sexism and racism.

Palavras-chave: Cultura, aprendizagem, hereditariedade, gêmeos, Etologia, Psicologia Evolucionária.

Keywords: Culture, learning, hereditarity, twins, Ethology, Evolutionary Psychology.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 285

Introdução

A

noção de herança de características físicas e psicológicas, bem como a de sua aquisição por influência do ambiente são categorias de pensamento de nossa cultura. Expressões como “tal pai, tal filho”, “dize-me com quem andas [...]”, “é de pequenino que se torce o pepino”, “quem puxa aos seus não degenera”, mostram que a idéia de classificar aspectos psicológicos dos indivíduos, ora como inatos, ora como adquiridos, faz parte da cultura popular. A observação informal de animais domésticos e de pessoas certamente foi o que deu origem à dicotomia, apesar das enormes complexidades, tanto da transmissão genética, quanto dos efeitos do ambiente. Foram essas mesmas complexidades, no entanto, que impediram que a observação cotidiana, ainda que interessada e intensa, como no caso de criadores de animais, agricultores e educadores, chegasse a algo mais do que alguns conceitos confusos. Por mais que se acumule a experiência ingênua, a trama de semelhanças e diferenças entre pais e filhos é um desafio difícil demais para a informalidade. Somente quando o assunto foi examinado com um esforço científico formal foi possível chegar a uma conceituação coerente da vaga idéia da herança. E os efeitos do ambiente, não obstante todo o empenho científico do século XX, ainda não receberam uma organização conceitual equivalente à da genética. Há cerca de 135, anos Francis Galton (1822-1911), a propósito destas questões, cunhou a expressão “natureza e criação” ou “natureza e educação” para se referir às duas principais fontes de diferenças individuais – genética e ambiente (PLOMIN E MCCLEARN, 1993). Galton usou os termos da dicotomia, nature versus nurture, parafraseando Shakespeare, que na obra The tempest usou a expressão nature nurture para se referir aos elementos que compõem a personalidade, valendose do sugestivo jogo de palavras sugerido pela referida expressão na língua inglesa2 (RIDLEY, 2003). O tema “natureza-criação” continua atual na Psicologia; a dicotomia persiste. Em diferentes áreas recebe diferentes nomes: a) nativismo vs. empirismo, nas áreas de sensação e percepção; b) maturação vs. aprendizagem, na psicologia do desenvolvimento;

__________________________________________________ 2

A devil, a born devil, on whose nature nurture can never stick, insulto dirigido por Próspero a Calibã, no ato 4, cena 1.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


286 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

c) aprendizagem geral vs. aprendizagem preparada, nas áreas de aprendizagem e cognição; d) hereditariedade vs. ambiente como determinante da variação humana, na psicologia das diferenças individuais (KIMBLE, 1993). No século XX deu-se um confronto entre os dois pólos da dicotomia, em grande parte devido à oposição entre etólogos e psicólogos behavioristas. Os etólogos, por sua formação zoológica, e entusiasmados com algumas descobertas de grande repercussão, julgaramse proprietários do comportamento. Afinal, depois do enorme progresso do conhecimento biológico de anatomia e fisiologia, teoria da evolução e outros avanços, o comportamento do animal integral era a última área a ser submetida ao pensamento científico. Ao chegar a ela, deram-se conta que os psicólogos a tinham invadido, com estratégia de pensamento e método completamente diferentes do que sugeria a vitoriosa tradição biológica. É verdade que o Behaviorismo recebeu do fisiologista russo Ivan P. Pavlov (1849-1936) um impulso conceitual mais forte, a idéia de condicionamento. No entanto, Pavlov estava longe do Ocidente, e foi fácil superar esse toque bastardo e considerar a Psicologia como proprietária do comportamento. Acresce que o ambiente filosófico predominante favorecia o empirismo, e, assim, o Behaviorismo procurou acomodar todo seu objeto à noção de aquisição, rejeitando, explicitamente, o pólo oposto da dicotomia. E de outras áreas da Psicologia, alheias ou mesmo avessas ao Behaviorismo, não surgiu nenhum movimento forte de resistência contra o predomínio do adquirido sobre o inato. Na obra de Piaget, por exemplo, não obstante sua formação biológica, todo o empenho conceitual e metodológico voltou-se para a aquisição, e pouco mais do que algumas estruturas gerais foram concedidas ao inato. O confronto era inevitável. Os psicólogos viram nos etólogos uma certa fragilidade conceitual, em comparação com as discussões internas da Psicologia, e também uma lassidão metodológica, em contraste com seus elaborados instrumentos de mensuração e tratamentos estatísticos. E os etólogos denunciavam a ingenuidade ou a pretensão desmesurada de uma Psicologia que não observava a natureza e que se restringia a uma ou duas espécies, colocando-as em ambientes tão artificiais que o comportamento parecia reduzido a algumas reações de preparações fisiológicas, sem dar-lhe oportunidade de exibir toda a sua natureza. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 287

No confronto entre nativistas e ambientalistas, uma parte importante da questão resulta da complexidade da própria noção de comportamento. Não é fácil descrevê-lo nem medi-lo. Não há unidades adequadas. Nossa linguagem, ao dizermos que este comportamento é inato ou aquele é adquirido, está carregada de imprecisões. Ao dar como certo que, se é inato, não é adquirido, e vice-versa, é enorme a probabilidade de estarmos errados a respeito de componentes ou aspectos do comportamento em questão. Em casos especiais, nos quais estão implícitos vários pressupostos, esse tipo de afirmação pode ser razoavelmente aceito. Ao dizer que o choro de um recém-nascido é inato, ou que um urso, ao andar de bicicleta, está fazendo algo adquirido, sentimo-nos razoavelmente seguros de nossa linguagem. Mesmo assim, pelo menos no caso do urso, precisamos dar como subentendido que a afirmação se refere à montagem do conjunto todo, e não aos seus componentes (equilíbrio, coordenações, etc.). Contudo, os casos especiais servem apenas como instrumentos de retórica na discussão sobre a dicotomia. Em muitos outros, o que se vê é que a escolha entre inato e adquirido não pode ser feita para o conjunto completo que estiver sendo estudado. Sempre será possível mostrar que este ou aquele componente escapa à noção radical de “puramente” inato ou adquirido. Outra ingenuidade, nessa discussão, é atribuir ao inato características que, teoricamente, ele não precisa ter: inevitabilidade e imutabilidade. E a contrapartida disto é que o fato de sofrer alterações resultantes da experiência não impede que um dado aspecto do comportamento seja inato. As informações genéticas orientam a construção do sistema nervoso central, assim como os outros sistemas, dando-lhe uma organização que é muito mais complexa do que uma simples máquina de aprender. O estudo do comportamento animal mostra abundantemente que é possível nascer já conhecendo um vasto e relevante conjunto de características ambientais e já sabendo o que fazer diante delas (ALCOCK, 2001). Nas últimas décadas do século passado, depois de um verdadeiro confronto entre ambientalistas e nativistas, duas conclusões importantes, para certos autores, foram: a) a impossibilidade de qualificar o comportamento como inato ou aprendido, na medida em que ele é sempre produto complexo das duas fontes de determinação; Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


288 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

e b) a necessidade de orientar as pesquisas para a identificação do processo pelo qual os fatores inatos e adquiridos se integram (ADES, 1986; HINDE, 1973). Esta concepção ainda é atual e vem sendo reiteradamente afirmada. Entretanto, o que se tem assistido desde a sua formulação não tem sido uma assimilação efetiva desta idéia, mas sim sucessivos renascimentos da dicotomia. Há uma forte resistência em admitir qualquer controle genético sobre o comportamento, especialmente o humano, em parte por maus entendimentos do que seja o controle genético. Mata-se a dicotomia e ela ressurge das cinzas, tal qual Fênix. Os reaquecimentos constantes da polêmica são reveladores da necessidade de aprimoramentos conceituais. A nossa tese é que a dicotomia persiste porque ela é necessária. As tentativas de se abandonar um dos lados, especialmente as tentativas de abandonar o inato, têm se revelado pouco úteis. Emoções O terreno das emoções é particularmente propício para a identificação das determinações genéticas sobre o comportamento e para reflexões sobre a dicotomia inato-aprendido. Quem nos ensinou a ficar alegres ou a sentir tristeza? A própria palavra desperta emoções e remete às emoções reconhecidamente primárias: alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa e repugnância, assim como às consideradas secundárias, vergonha, ciúme, culpa e orgulho, e ainda às emoções de fundo, como calma ou tensão. Todas elas universais. A emoção nos acompanha em nossa vida cotidiana. Tem inspirado os escritores, os músicos e os poetas, e também os etólogos e os psicólogos. Não é por acaso que as emoções estão presentes nos dois extremos da Etologia, desde sua origem até agora. O nome de Charles Darwin (1809-1882), criador da teoria da evolução, que foi um etólogo antes mesmo que a palavra tivesse sido inventada, destaca-se por sua influência em determinar o modo como se pensa hoje a respeito de emoções. A sua obra The expression of the emotions in man and animals, publicada em 1872, é um clássico na área. Darwin sustentou a natureza inata de grande parte da expressão emocional, baseando suas conclusões em evidências que ainda podem ser consideradas atuais: o aparecimento precoce em bebês, antes de haver oportunidade suficiente de aprendizagem; a similaridade de forma, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 289

contexto e função entre indivíduos com experiências notadamente diferentes entre si, como entre pessoas cegas e com visão normal, e entre diferentes grupos culturais humanos, e, finalmente, as homologias e analogias reveladas pelos estudos comparativos de diferentes espécies animais. Desse modo, o estudo das emoções foi posto no contexto evolutivo, e foi colocada a questão funcional: de que forma uma particular emoção ou um comportamento ajuda na sobrevivência? Darwin produziu uma série de hipóteses e de observações que servem de guia para a Etologia até hoje. No entanto, apesar desta origem tão nobre e antiga do interesse por emoções, a Etologia, da mesma forma que o Behaviorismo, apegou-se à idéia de comportamento para definir seu objeto. Outros assuntos, tais como sensação, percepção, emoção, sentimento, cognição, sonhos, que fazem parte indiscutível desse objeto, ficam na periferia, quando muito, como apêndices do núcleo comportamental. Tal distorção se deve, principalmente, a dificuldades metodológicas. Só agora, na ponta mais atual da Etologia e da Psicologia Evolutiva, a emoção reaparece com força total. Há quem diga que o século XX foi o século da razão e que agora estamos recuperando a emoção (DAMÁSIO, 1994, 1999). Talvez seja um exagero, porque em certo sentido o século XX também foi o século do apego, da expressão das emoções, do comportamento não-verbal e da redescoberta do valor sério da brincadeira (Ribeiro et al., 2004). Mas, de fato, está em andamento uma releitura das emoções. Novas tentativas de integração da razão com a emoção também estão sendo ensaiadas (MORRIS, BRAMHAM e ROWE, 2003). Na moderna Psicologia Evolucionária as emoções têm sido entendidas como programas superordenados que coordenam muitos outros, ou seja, como soluções de problemas adaptativos de mecanismos de orquestração; organizam percepções, atenção, inferência, aprendizagem, memória, escolha de objetivos, prioridades motivacionais, estruturas conceituais, categorizações, reações fisiológicas, reflexos, decisões comportamentais, processos de comunicação, níveis de energia e de alocação de esforços, coloração afetiva de eventos e de estímulos, avaliações da situação, valores, variáveis reguladoras, como auto-estima, e assim por diante (COSMIDES e TOOBY, 2000). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


290 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

Uma emoção não se reduz a uma categoria de efeitos, como alterações fisiológicas, inclinações comportamentais, avaliações cognitivas, ou sentimentos, pois envolve todos estes níveis, assim como ainda outros mecanismos distribuídos através da arquitetura física e mental. A estrutura da atenção é regulada pelas emoções. A preocupação estreita a atenção; as emoções positivas alargam-na. O nível de ativação depende da emoção. As alterações fisiológicas, como mudanças circulatórias, respiratórias, endócrinas, dependem da especificidade da emoção em jogo. Limiares de contração muscular baixam em certos casos e aumentam em outros, revelando o valor adaptativo da reação. Outro exemplo do ajuste funcional das emoções é a alocação de reações imunológicas no nojo. Cada emoção atua sobre vários outros programas adaptativos, desativando alguns, ativando outros e mudando os parâmetros de terceiros, permitindo que todo o sistema opere de modo eficaz e harmonioso, toda vez que se defrontar com certos tipos de condições. Conforme análise de Cosmides e Tooby (2000), numa situação típica de medo, como quando uma pessoa está sozinha à noite em lugar estranho, ativa-se o circuito de detecção da presença de alguém ameaçador ou de algum animal. Ocorrem mudanças na percepção e na atenção, exemplificáveis pela mudança de limiar aos pequenos ruídos. Há mais detecção de perigos à custa do aumento de alarmes falsos. A mudança motivacional é notável; a segurança ganha prioridade máxima. Não se tem mais fome, não se pensa mais em conquistar um namorado, ou em treinar nova habilidade. Há um redirecionamento de objetivos: onde está meu bebê? Minha mãe? Onde estão meus amigos? Onde estão os que podem me proteger? Ganham prioridade determinadas categorias, como perigoso ou seguro. As reações fisiológicas parecem depender da natureza exata da ameaça e da melhor maneira de enfrentá-la. Convém notar que estas emoções não são necessariamente conscientes. No curso da evolução, a lógica funcional das emoções ganhou sua sofisticada elaboração para resolver problemas ancestrais. Nenhuma máquina já desenvolvida pelo homem conseguiu alcançar a complexidade do maquinário natural. Programas de emoções que levam os indivíduos a se engajarem em atividades aparentemente sem sentido em curto prazo, como luto, brincadeira, fascinação, culpa, depressão, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 291

sentimento de triunfo, devem ser analisados em termos de como modificam a arquitetura psicológica para benefícios que devem ser avaliados estatisticamente e em longo prazo. A função destes estados emocionais deve ser compreendida com base na análise de suas potenciais conseqüências, como ganhos de conhecimentos, modificações de prioridades motivacionais e reorganização do conjunto de escolhas de variáveis. A hipótese de Cosmides e Tooby (2000) é que emoções específicas ativam sistemas específicos. A felicidade, por sua vez, sinaliza oportunidade para brincar e para explorar (FREDERIKSON, 1998). O processo de memorização é afetado pelas emoções. Os eventos mais emocionantes podem ser memorizados em detalhes. A suspeita de traição do marido pode trazer à tona uma torrente de lembranças de pequenos detalhes que pareciam sem sentido na ocasião. Mecanismos altamente especializados de aprendizagem podem ser ativados, como no exemplo do desenvolvimento típico de aversão alimentar, notável por poder ocorrer após uma única experiência, mesmo quando os efeitos desagradáveis são sentidos apenas muito tempo depois da ingestão (GARCIA, 1990), ou como nos bem conhecidos condicionamentos de medo em primatas, nos quais se verificaram facilidades marcantes para o desenvolvimento de alguns medos, como o de cobras, em contraste com dificuldades para a aprendizagem de outros, como de flores. É muito mais fácil aprender a sentir medo de cobras do que de flores (LEDOUX, 1995). A própria coloração afetiva dos eventos pode ser entendida como uma forma de aprendizagem, ao impregná-los com atributos como perigoso, doloroso ou alegre. Nesse (1990) considera que a função do humor é refletir o quanto certo ambiente é propício para a ação. A suspensão de atividades comportamentais na depressão, acompanhada de intensa atividade cognitiva, sugere esforço de reconstrução de modelos do mundo, eliminando as condições que levaram à própria depressão, muitas vezes associadas a fracassos em investimentos comportamentais intensos, incapacidade de manter contato afetivo com uma determinada pessoa ou conservar uma situação social. Por outro lado, a alegria é uma resposta a um acontecimento inesperadamente favorável que amplia as escolhas e acentua o interesse, permitindo a liberação de novas energias num rumo confiável. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


292 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

Culpa, luto, depressão, vergonha, gratidão, enternecimento, atração sexual são promotores de alterações dos espectros de escolhas e dos graus de interesse. Por exemplo, reelaborações pós-traumáticas típicas são constituídas por repetições sucessivas das imagens do evento traumático. Depois de um estupro, tais reelaborações podem durar de 6 a 18 meses e cessar repentinamente, como se estivessem sendo extraídas, durante este tempo, todas as informações possíveis, num processo de aprendizagem complexa e terapêutica. Importa notar que há um grande inventário de sabedoria de alta qualidade incluído nestes programas. O cérebro foi projetado pela evolução para usar informações derivadas do ambiente e do próprio organismo a fim de regular funcionalmente o comportamento e o próprio corpo, e isto reúne aspectos cognitivos e emocionais. Como reunir aprendizagem com amor, ciúme e nojo? O termo cognição é às vezes usado para se referir a um tipo de pensamento deliberado, voltado para uma solução de problema, como na Matemática ou no jogo de xadrez. Um pensamento “frio”, isento de paixão. Este uso aparece na Psicologia, quando se separa pensamento de sentimento e emoção. Do ponto de vista da perspectiva evolutiva, o conceito de cognição tem de servir para todas as atividades cognitivas, “quentes” ou “frias”, e não para algum subconjunto de operações. Esta visão da perspectiva evolutiva abre novas possibilidades de investigações, obscurecidas por outros esquemas. Esta perspectiva vem sendo corroborada de diversas maneiras (por exemplo, MORRIS et al., 2003). Uma descoberta heurística decorreu da demonstração de que sem emoção a razão parece não funcionar. A demonstração clássica veio da descrição do caso de Phineas Gage, atendido pelo médico Harlow em 1848, cuja análise foi retomada pelo casal Damásio. Depois de um acidente durante uma etapa de construção de uma estrada de ferro, na Inglaterra, em que uma explosão de pólvora fez com que uma barra de ferro trespassasse sua cabeça, provocando danos no lobo pré-frontal, este paciente apresentou alterações de natureza específica. Surpreendentemente, ele sobreviveu e retomou a consciência logo depois do acidente. Preservaram-se as capacidades de memória, de linguagem e outras capacidades intelectuais. Porém, ele mostrou profundas mudanças no seu comportamento social, com inesperadas ausências de emocionalidade, pela falta de cuidados no trato com os outros, antes marcantes em sua personalidade, e pela tremenda dificuldade para tomar decisões. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 293

A reanálise deste caso antigo e de alguns pacientes atuais levou Damásio (1994, 1999) ao desenvolvimento de uma teoria de marcadores somáticos, em que considera que no processo básico de tomada de decisões está envolvida uma pré-seleção emocional; ou seja, sem emoção a razão não funciona. Através deste raciocínio, cai por terra a idéia de que a razão nobre, sem emoções, funciona melhor. Por mais que possamos ter dúvidas quanto à teoria dos marcadores somáticos desenvolvida por Damásio, que, aliás, aparentemente, não teve o impacto que seria de esperar nas Neurociências, parece que o princípio do entendimento das razões da emoção vale a pena. Há, de várias fontes, um entendimento e uma redescoberta do papel da emoção. Tudo isso sem contar com o já bem conhecido papel das emoções na regulação social. Além de cumprir um papel na organização dos processos psicológicos individuais, as emoções têm reconhecida função na organização social. A expressão involuntária de emoções é uma chave para o entendimento da vida social da espécie, reveladora de sua ecologia social. Pode-se considerar que o entendimento da importância adaptativa da comunicação animal e do processo filogenético da ritualização tenha sido uma das principais contribuições da Etologia clássica (ver, por exemplo, CARVALHO, 1998). Expressões específicas anunciam as emoções humanas universais, geradas em contextos semelhantes e associadas a reações padronizadas, conforme tem sido demonstrado em muitos estudos interculturais (como em EIBL-EIBESFELDT, 1989; EKMAN, 1994). Não é fácil definir emoções, sentimentos, sensações, percepções e estados de consciência. O que se nota, na história da Psicologia, em particular na sua evolução recente, é que os investigadores que não se deixam deter por dificuldades conceituais têm feito descobertas de valor incontestável. São contribuições inimagináveis em ambientes acadêmicos nos quais, em nome de uma discutível assepsia conceitual, esterilizase grande parte do próprio objeto da Psicologia. É insensato desprezar os problemas de conceituação. No entanto, é bem possível que o melhor caminho para promover o progresso teórico seja estudar os fenômenos mal definidos da melhor maneira possível, em vez de deixá-los no limbo, ou negar sua própria existência. Tampouco deve levar-nos a ignorá-los a ausência de modelos de aprendizagem que explique sua origem, remetendo-os ao pólo inato da dicotomia. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


294 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

Os estudos de gêmeos e a dicotomia inato x aprendido Os nascimentos de gêmeos idênticos nos colocam diante de um arranjo natural especial para o estudo dos efeitos dos genes sobre os comportamentos e sobre as características psicológicas de um modo geral. A natureza nos presenteou com um experimento natural raro ao produzir um nascimento de gêmeos idênticos a cada 250 partos e um de gêmeos fraternos a cada 125 partos. Mesmo entre os animais, isso não é comum; como se sabe, uma ninhada de camundongos ou de cães não é composta por gêmeos idênticos (RIDLEY, 2003). Ao traçar a história da controvérsia inato versus aprendido, Ridley identificou a origem da dicotomia no trabalho clássico de Francis Galton, justamente num estudo de gêmeos, em 1864. Apesar das limitações metodológicas deste estudo inicial de 35 gêmeos idênticos e 23 não idênticos, Galton apresentou todos os fundamentos sobre os quais se assentam as pesquisas atuais. Hoje, se dispõe de bases de dados notáveis, com tamanhos de amostras que chegam a milhares e com representação de diferentes faixas etárias, da infância à velhice, e de diferentes países – por exemplo: Estados Unidos, Austrália, Finlândia, Noruega, Suécia, Holanda e Inglaterra (GOLDSMITH, 1993). Estudos de gêmeos idênticos e fraternos podem ser complementados por estudos de adoção e gêmeos criados em separado. Acumulam-se evidências empíricas (BOUCHARD et al., 1990, MCGUE et al., 1993) de que efeitos genéticos estáveis explicam aspectos estáveis do temperamento na infância e da personalidade no início da idade adulta. Os estudos de gêmeos parecem preencher todos os requisitos para atender ao raciocínio básico dos estudos de genética do comportamento. A comparação de gêmeos monozigóticos versus gêmeos dizigóticos, criados juntos ou separados, tendo ainda como parâmetro dados de outros irmãos, naturais e adotivos, parece permitir a concretização, em ambiente natural, de todos os controles necessários para o estudo de efeitos do ambiente e da genética. Mesmo assim, os estudos de gêmeos ficaram relegados até o final da década de 70, talvez por causa das possíveis falhas metodológicas e dos prováveis desvios ideológicos, conforme Ridley (2003) assinala em revisão do assunto. Nessa ocasião, um reencontro de irmãos gêmeos depois de 40 anos de separação, Jim Springer e Jim Lewis, anunciado pela imprensa de Minneapolis, chamou a atenção de Thomas Bouchard. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 295

O estudo que ele então realizou com os irmãos Jim revelou uma lista impressionante de semelhanças, quanto a aparência, voz, corpo, história de saúde, dor de cabeça, hábito de fumar, pressão alta, hemorróidas, gostos e preferências. Ocorreu a Bouchard uma completa inversão do raciocínio vigente, na suposição de que gêmeos idênticos criados em separado poderiam ser ainda mais parecidos do que os criados juntos, pois na mesma família as diferenças poderiam ser exageradas, tese que depois se confirmou em vários estudos subseqüentes. Os gêmeos separados mais cedo eram mais semelhantes entre si que aqueles separados mais tarde. Os primeiros estudos de gêmeos feitos por Bouchard, que nos três anos seguintes conseguiu reunir e examinar 39 pares de gêmeos, ainda receberam severas críticas, com acusações de ênfase exagerada nas semelhanças, descuido quanto ao tempo de contato anterior e às semelhanças de educação, o que o levou à realização de pesquisas minuciosas, incluindo também gêmeos dizigóticos criados em separado. Ao fazer isso, Bouchard encontrou uma saída brilhante para a armadilha conceitual que impedia qualquer progresso no entendimento dos efeitos genéticos e ambientais; sempre era possível alegar potenciais semelhanças ambientais para justificar as semelhanças psicológicas e assim anular qualquer indicação de efeito genético. As características dos gêmeos monozigóticos passaram a ser analisadas com parâmetro nas semelhanças de gêmeos dizigóticos, outros irmãos e filhos adotivos. Segundo este raciocínio, as diferenças entre as correlações de gêmeos monozigóticos e de gêmeos dizigóticos, criados separados nos dois casos, assim como as diferenças entre os dois tipos de gêmeos criados juntos, podem apontar a magnitude da influência genética, bem como a do ambiente, para a variação de cada traço psicológico investigado. O que estava em jogo na época era a hipótese “nada nos genes”; acreditava-se piamente que existiriam enormes diferenças de personalidade entre gêmeos idênticos que fossem criados em separado. Os estudos de gêmeos produziram uma verdadeira revolução na compreensão da personalidade. A pesquisa realizada por Bouchard ficou conhecida como o Estudo de Minnesota de gêmeos criados em separado (Minnesota Study of Twins Reared Apart - MISTRA), e trouxe à tona novas questões e compreensões para o entendimento da dicotomia. Por exemplo, Bouchard (1997) Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


296 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

reanalisou os dados da aplicação de um teste vocacional; a medida de correlação dos gêmeos monozigóticos criados em separado é da ordem de 0,50, enquanto a medida de correlação dos gêmeos dizigóticos também separados é da ordem de 0,07. Considerando-se os dizigóticos como um grupo de controle, poder-se-ia dizer que a diferença entre os grupos, da ordem de 0,43, é determinada por efeito genético. Os dados sobre o desenvolvimento de quociente de inteligência (QI) também ilustram os efeitos genéticos, ao mesmo tempo em que se prestam à problematização das questões de desenvolvimento. As semelhanças de QI entre os gêmeos criados à parte não podem ser explicadas por idade de separação, quantidade de contato entre eles ou características gerais das famílias adotivas. Outra restrição às comuns superestimativas de efeitos ambientais provém de estudos sobre indivíduos não aparentados criados juntos, pois medidas feitas na infância revelam uma influência ambiental da ordem de 30%, que cai com o passar do tempo, ao invés de crescer. Além disso, ao rever os resultados da literatura sobre QI de gêmeos criados juntos, Bouchard e McGue (1981) mostraram aumento do efeito da heritabilidade em função da idade. Nos jovens, a influência do ambiente é de 40%, e nos mais velhos decai rapidamente. A influência dos genes no QI vai crescendo de 20, para 40, 60 e 80%, em faixas etárias sucessivas. A correlação entre inteligência e tamanho do cérebro é de 0,40, o que, literalmente, deixa lugar para gênios de cabeça pequena; ainda assim, é uma boa correlação. Recentemente, com o aprimoramento dos equipamentos de leitura cerebral (scanners), foi facilitado o acesso às medidas da massa cinzenta, e foi constatada uma correlação alta com inteligência geral, de 0,89. Além disso, a correlação de variação da massa cinzenta de gêmeos idênticos alcança o patamar de 0,95, enquanto a de fraternos é de 0,50, o que mostra que a variação deste traço está quase totalmente sob o controle do efeito genético, deixando muito pouco espaço para a influência ambiental (POSTHUMA et al., 2001). Estes resultados precisam ser bem entendidos e comportam várias hipóteses, embora sugiram um prevalecimento do efeito genético com o passar da idade. O próprio Bouchard parece levar em conta um conjunto mais geral de indicadores ao apontar, no final do artigo, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 297

que a conclusão não é negar a influência do ambiente nem negar a existência de ambientes inadequados e debilitadores, e tampouco minimizar os efeitos da aprendizagem, mas supor o ser humano como um organismo criativo dinâmico, para o qual a oportunidade de aprender e a experiência em novos ambientes amplificam os efeitos do genótipo no fenótipo. Independentemente das considerações sobre a complexidade do processo de desenvolvimento, deve estar claro que os estudos de gêmeos têm produzido uma demonstração inequívoca dos efeitos da herança (RIBEIRO et al., 2004). A lista de características psicológicas nas quais os gêmeos monozigóticos são significativamente mais semelhantes entre si é impressionante, a começar pelas características relacionadas ao temperamento, como choro, irritabilidade, medo, impulsividade, sorriso e sociabilidade (GOLDSMITH e CAMPOS, 1982; NEWCOMBE, 1996). Para se ter uma idéia, mesmo em medidas de traços tidos como prototipicamente culturais como a religiosidade, a correlação entre gêmeos idênticos é da ordem de 58%, e entre fraternos, de 27%. Em outro estudo, comparando-se as chamadas atitudes de direita, através de pesquisa de opiniões sobre a pena de morte, sobre os imigrantes e outras, os gêmeos idênticos criados separados se correlacionaram em 62%, e os fraternos criados separados, em 21% (BOUCHARD et al., 1999). O mesmo tipo de resultado foi obtido na análise de uma ampla amostra de gêmeos feita na Austrália (KIRK et al., 1999). Embora não seja de simples compreensão, o efeito dos genes não pode ser desprezado. Não se acredita que a religiosidade ou a atitude política estejam diretamente representadas nos genes, mas sim que determinadas características de personalidade mediadas pelos genes estariam correlacionadas a estas atitudes. As pessoas diferem mais em personalidade se tiverem genes diferentes do que se tiverem sido criadas em famílias diferentes (RIDLEY, 2003). Para praticamente todas as medidas de personalidade consideradas, os gêmeos monozigóticos criados separados mostraram-se mais semelhantes que os dizigóticos criados separados (BOUCHARD, 1999). A personalidade foi avaliada em cinco grandes dimensões: abertura, consciência, extroversão, harmonia e neurose. Os resultados obtidos mostram que a variação devida a fatores genéticos é da ordem de 40%, a influência de fatores ambientais partilhados (como a família), de 10%, as influências ambientais únicas vividas pelo indivíduo, 25%, finalmente a variação atribuída a erros de medida é de 25%. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


298 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

Evidentemente a criança tem necessidade de uma família para se desenvolver. Mas desde que tenha uma família para se desenvolver, não importa muito se a família é pequena ou grande, rica ou pobre, gregária ou solitária, velha ou jovem. Uma família é um pouco como vitamina C: você precisa dela ou irá adoecer, mas desde que a tome, o consumo extra não vai tornálo mais saudável (RIDLEY, 2003; p. 86).

Estudos sobre a herança de psicopatologias também podem ser elucidativos da importância e da complexidade dos efeitos genéticos (TORREY et al., 1994). A título de ilustração, vejamos alguns estudos sobre a incidência de transtorno bipolar e de autismo. A concordância entre gêmeos para transtorno bipolar é de 67% para monozigóticos versus 16% para dizigóticos. Para autismo, as indicações são ainda mais fortes, pois a correlação é da ordem de 96% para monozigóticos, enquanto para os dizigóticos é de 23% (RITVO et al., 1985). Diante de dados deste tipo, deve-se imprimir determinado rumo às pesquisas das síndromes autísticas, levando-se em conta as pesquisas da genética do comportamento. Uma hipótese que continua sendo investigada é a contribuição de vírus para o desenvolvimento de psicopatologias. Sabe-se que os fatores genéticos desempenham um papel em determinar se um vírus vai ou não infectar o cérebro (ROOS, 1985). Muitos vírus diferentes podem atingir o cérebro e permanecer latentes por vários anos antes de causar infecção sintomática. Para o vírus da pólio, que foi cuidadosamente estudado no SNC, a taxa de concordância da infecção em gêmeos monozigóticos é de 36%, e em gêmeos dizigóticos é 6%. Os dados para peso também são ilustrativos das questões que podem ser suscitadas na compreensão das relações entre genes e ambiente (RIDLEY, 2003). Em primeiro lugar, há uma forte indicação da influência do componente hereditário: gêmeos monozigóticos criados juntos apresentam correlação da ordem de 80%, e os criados em separado, a correlação também considerável de 72%. O efeito da herança genética fica ainda mais salientado na comparação com as correlações entre gêmeos dizigóticos criados juntos, que cai para 43%, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 299

e entre pais e filhos adotivos, que é de apenas 4%. Conforme Ridley comenta, embora estes índices sejam notáveis, isto não significa que as dietas devam ser jogadas fora nem que o ambiente não importe. O estudo não diz nada diretamente sobre a causa do peso. Apenas revela causas das diferenças de peso numa família particular. Dado o mesmo acesso a alimento, algumas pessoas vão ganhar mais peso do que outras. Deve-se notar também que o efeito do ambiente não é linear quando são examinadas, por exemplo, pessoas de diversos níveis socioeconômicos. Num dos extremos, o ambiente pode ter efeito drástico, assim como, no outro, pode prevalecer o efeito genético. Do mesmo modo, investigando amostra de 350 pares de gêmeos, Turkheimer e colaboradores (2001) descobriram que a heritabilidade do QI depende do status socioeconômico. Nas crianças mais pobres, constatou-se efeito mais pronunciado do ambiente, ao contrário do verificado no outro extremo da distribuição. As principais conclusões dos estudos de gêmeos são contra-intuitivas. Natureza e cultura não competem. Por causa da alimentação, as novas gerações estão cada vez mais altas, mas ninguém acha que isso mostra que a estatura é mais determinada por fatores ambientais do que por fatores hereditários. Ao contrário, porque mais pessoas estão agora alcançando seu potencial máximo de estatura, a heritabilidade da sua variação está provavelmente aumentando (RIDLEY, 2003). Há complexidades adicionais nos entendimentos conceituais propiciados pelos estudos de gêmeos. Em certos casos, ao contrário do que seria de esperar por uma lógica simplista, quanto mais parecido for o ambiente de criação, mais vão aparecer a herança e a variabilidade genética. Por exemplo, se meninos e meninas têm jeitos diferentes de aprender e interesses diversos, como tem sido evidenciado nos estudos de desenvolvimento (como em BJORKLUND e PELLEGRINI, 2000), uma escola que não levar em conta estas diferenças e oferecer a mesma estratégia pedagógica para ambos poderá ser inadequada para um deles, e promover uma diferença maior no desempenho escolar de meninas e de meninos do que promoveria se respeitasse as diferenças. Conforme Ridley (2003) observa, importa menos saber se a natureza humana é mais inata ou mais aprendida e sim entender o modo preciso pelo qual a natureza humana é ambas as coisas. Entretanto, convém salientar que ambos os fatores envolvidos na dicotomia realmente importam. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


300 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

Os resultados das comparações de gêmeos apontam a inquestionável magnitude dos efeitos genéticos. É preciso perceber que estes efeitos não devem ser escamoteados pela constatação de efeitos ambientais, dos quais ninguém duvida, nem pela constatação da interação complexa entre os fatores, mesmo porque a ação do ambiente também é controlada pela ação dos genes. Por outro lado, mesmo quando as variações podem ser totalmente explicadas pela ação dos genes, isto não significa que o ambiente não importa. Propositadamente, ora relativizamos o efeito do ambiente, ora o dos genes. É melhor manter viva a dicotomia do que, precipitada e inadequadamente, descartar qualquer um de seus opostos. Melhor ainda é o aprimoramento das concepções sobre o efeito genético e ambiental, com quebra genuína das concepções estanques. Os genes podem ser considerados como agentes da criação, assim como agentes da natureza. Não é sensato perder a idéia da definição da origem, que pode dirigir de modo heurístico os questionamentos. Por que temer a dicotomia? Encontra-se, especialmente nas Ciências Humanas, resistência em reconhecer a importância dos determinantes inatos do comportamento humano. Uma razão importante é ideológica, fundada no receio de que a noção de determinismo biológico seja usada em defesa do status quo. Edward Hagen, do Instituto de Biologia Teórica, em Berlim, no sítio www.anth.ucsb.edu, apresenta perguntas freqüentes a respeito da Psicologia Evolucionária. Na base da rejeição de algumas pessoas, diz ele, está à suposição de que o determinismo biológico seja contrário à reforma social ou política. Eu [o crítico] desejo mudança política. Mudança política requer mudar pessoas. Os psicólogos evolucionários argumentam que as pessoas têm naturezas inatas e imutáveis. Os psicólogos evolutivos opõem-se, portanto, à mudança social ou política, e estão meramente tentando justificar o status quo.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 301

No seu livro intitulado Blank slate: the modern denial of human nature, Steven Pinker (2002) argumenta que o conceito de tabula rasa está na base do Construcionismo Social (MALLON e STICH, 2000) ou Modelo Padrão das Ciências Sociais (TOOBY e COSMIDES, 1992). Este conceito foi formulado pelo filósofo inglês John Locke (1632-1704); ele postulava que, no nascimento, a mente é vazia de conhecimento e que as diferenças entre as pessoas são inteiramente devidas às diferentes experiências (LOCKE, 1690/1947). O empirismo apresentou-se como uma teoria epistemológica e filosófica sobre o funcionamento da mente. Tendo-a como base, os psicólogos buscaram explicar todo o comportamento, a cognição e a emoção através de um mecanismo simples de aprendizagem. O empirismo também se apresentou como uma filosofia política, que fundamentou a democracia liberal, uma arma contra a igreja e as monarquias tirânicas. Locke opunha-se a justificativas dogmáticas para a autoridade da igreja, para a realeza e a aristocracia hereditárias e para a escravidão. Os escravos não eram inatamente inferiores, assim como os reis não tinham sabedoria ou méritos inatos. Suas mentes eram igualmente vazias de conhecimento de partida e teriam o mesmo potencial de desenvolvimento se tivessem as mesmas oportunidades. Tendo por base o empirismo, as Ciências Sociais buscaram explicar todos os costumes e arranjos sociais como produto da socialização diferencial das crianças. Os psicólogos interpretaram as diferenças entre os indivíduos, entre as raças e entre os sexos, como invenções ou construções sociais. Isto fica claro no Behaviorismo proposto pelo psicólogo norte-americano John Watson (1878-1958). Esta escola psicológica baniu da Psicologia talentos, habilidades, desejos e sentimentos. John Watson (1924/1998) tem uma declaração, que se tornou muito conhecida, na qual diz claramente que, se lhe dessem uma dúzia de bebês saudáveis e a possibilidade de especificar o ambiente de criação, ele seria capaz de transformar qualquer um deles tomado ao acaso no que quisesse: médico, advogado, artista, comerciante e até mendigo e ladrão, independentemente dos seus talentos, habilidades e da raça dos seus antepassados.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


302 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

Diferença não justifica desigualdade As diferenças entre os sexos são uma arena de discussão acirrada, e muitas feministas condenam pesquisas sobre as bases biológicas das diferenças sexuais. Dois tipos de feminismo podem ser diferenciados: de eqüidade e de gênero (JAGGAR, 1983; SOMMERS, 1994; PINKER, 2002). O feminismo de eqüidade se opõe a qualquer forma de discriminação contra a mulher, mas não se compromete com questões empíricas na Psicologia ou na Biologia. O feminismo de gênero é uma doutrina empírica sobre a natureza humana, segundo a qual as diferenças psicológicas entre homens e mulheres são todas socialmente construídas. Bebês são bissexuais e são transformados, ao longo do processo de socialização, em personalidades distintas, uma destinada a mandar, e a outra, a obedecer. O poder é o principal motivo social, e as interações humanas são compreendidas como interações de grupos e não de pessoas lidando umas com as outras como indivíduos. O grupo das mulheres é dominado pelo grupo dos homens. O conceito de tabula rasa parece à primeira vista favorecer as mulheres. Se nada é inato, as diferenças entre os sexos não são inatas. A desigualdade sexual pode ser mudada pela mudança das instituições. No entanto, homens e mulheres não são psicologicamente idênticos. As diferenças entre meninos e meninas aparecem cedo no desenvolvimento; sua força e precocidade levam Matt Ridley (2003) a dizer que o papel dos pais no desenvolvimento da diferença de gênero dos seus filhos é mais reativo do que causal. Um desenho em quadrinhos de Bill Griffith é ilustrativo. Um personagem comenta com outro o fascínio de um garoto de dois anos diante de um caminhão de lixo, enquanto sua irmã gêmea mal levanta os olhos de sua boneca. E explica que os homens são programados para certas funções. O menino de hoje reage do mesmo jeito que seu ancestral remoto. O caminhão de lixo provavelmente era “um mastodonte para o cérebro das cavernas do menino”. Jennifer Connellan e colaboradores (2000) encontraram diferenças entre recém-nascidos de um dia de vida quanto ao interesse por faces e objetos. As meninas olharam mais para faces do que para os objetos. Os meninos, por sua vez, interessaram-se mais por objetos. Svetlana Lutchmaya e colaboradores (2002) verificaram que, com um ano, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 303

os bebês de sexo feminino olhavam mais para o rosto das mães que os bebês de sexo masculino. As pesquisadoras dispunham de amostras de líquido amniótico extraídas no primeiro trimestre de gravidez. Analisando estas amostras, encontraram uma correlação surpreendente. Quanto maior o nível de testosterona durante o período fetal, menor o contato visual de meninos de um ano com suas mães. Esta diferença precoce de gênero pode transformar-se mais tarde numa preferência diferencial por relações sociais. Baron-Cohen (2002) desenvolveu uma hipótese segundo a qual o autismo seria uma versão extrema do cérebro masculino. A masculinização do cérebro pode ter ido longe demais nos autistas. Crianças com Síndrome de Asperger, uma forma menos severa de autismo, têm dificuldade de ter empatia com o pensamento das pessoas, mas são fascinadas pelo funcionamento de objetos (BARON-COHEN, 1995). Esta síndrome atinge predominantemente os meninos (razão menino/ menina 4:1) (OZBAYRAK, 2004). Um volume crescente de pesquisas vêm documentando diferenças sexuais que certamente se originam na biologia humana. Contrariam, portanto, a suposição das feministas de gênero de que todas as diferenças sexuais que não são anatômicas resultam de expectativas dos pais e da sociedade. Como diz Pinker (2002), as diferenças sexuais não são características arbitrárias da cultura ocidental. Em todas as culturas humanas, as mulheres são mais responsáveis pelo cuidado das crianças, e os homens, por atividades que pertencem ao domínio público. Isto também ocorre nos kibutzim israelenses, apesar do comprometimento ideológico dos seus membros com a eliminação das diferenças sexuais (VAN DEN BERGHE, 1974). Os homens têm uma maior tendência a se expor a risco, a agir violentamente e, conseqüentemente, têm uma chance maior de morrer jovens (RIDLEY, 2003). Há diferenças anatômicas visíveis em estruturas cerebrais entre os sexos (GEARY, 1998; KIMURA, 1999). No cérebro masculino os núcleos intersticiais e o núcleo do stria terminalis no hipotálamo são maiores. Estas regiões estão implicadas em comportamento sexual e agressão. As comissuras que ligam os hemisférios cerebrais são maiores nas mulheres. Do ponto de vista de um gene, estar no corpo de um homem e estar no corpo de uma mulher são estratégias igualmente boas [...] É melhor para um babuíno ter o tamanho de um macho e ter Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


304 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

dentes caninos com seis polegadas ou ter o tamanho de uma fêmea e não os possuir? A pergunta não tem sentido. Um biólogo diria que é melhor ter adaptações masculinas para lidar com problemas masculinos e adaptações femininas para lidar com problemas femininos. Assim, os homens não são de Marte, nem as mulheres são de Vênus. Homens e mulheres são da África, o berço da nossa evolução, onde evoluíram juntos como uma única espécie (Pinker, 2002, p. 343-344).

Raça e racismo A Biologia poderia servir como justificativa para o racismo, receiam os críticos da Etologia e da Psicologia Evolutiva. Racismo é um sistema de crenças ou ideologia, estruturado em torno de três idéias básicas (MARGER, 1994): a) os seres humanos dividem-se naturalmente em diferentes tipos físicos; b) estas características físicas estão intrinsecamente relacionadas com sua cultura, personalidade e inteligência; c) com base na sua herança genética, alguns grupos são inatamente superiores a outros. Usando o próprio grupo como padrão, os outros são julgados inferiores. O racismo é manifestação de uma síndrome mais ampla: a xenofobia ou medo/ódio em relação aos que são estrangeiros ou diferentes (CAVALLI-SFORZA e CAVALLI-SFORZA, 1993; QUEIROZ, 1996; QUEIROZ e SCHWARCZ, 1996). Pode ter uma motivação utilitária, quando um trabalhador teme que seu emprego seja ameaçado pela chegada de imigrantes, ou assumir uma forma irracional (Cashmore, 1994). Em vários países europeus encontra-se hoje uma intensificação de ações xenofóbicas, com uma motivação racista subjacente, que se manifesta contra a imigração de pessoas de outros grupos raciais ou étnicos. Segundo Cavalli-Sforza e Cavalli-Sforza (1993), os seres humanos têm uma tendência inata a considerar o grupo a que pertencem como uma entidade (NÓS) em oposição aos que não pertencem ao grupo (ELES). “Nós” pode ser a família, o time de futebol ou o grupo racial/étnico. “Nós” é uma extensão do eu e ajuda a construir uma barreira protetora ao nosso redor. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 305

O conde de Gobineau (1816-1882), diplomata francês, desenvolveu uma teoria racista que inspirou o nazismo. De acordo com essa teoria, os alemães, descendentes de um povo mítico, os arianos, eram a raça suprema. Mesclas étnicas seriam responsáveis pela decadência das civilizações. Hoje, sabemos que não existem raças puras. Qualquer sistema genético apresenta um grau elevado de polimorfismo ou variação genética; ou seja, um gene é encontrado em diferentes formas. De maneira geral, as diferenças entre indivíduos são mais importantes que as diferenças entre grupos raciais. Criadores de animais que, almejando um resultado mais puro, exagerem no cruzamento de animais com parentesco muito próximo correm o risco de perder a raça, por aumento de esterilidade e queda de vitalidade. Diferenças externas visíveis de cor da pele entre as raças podem nos levar a supor que por baixo da superfície existem diferenças de igual magnitude na nossa constituição genética. Isto não é verdade. As diferenças que existem são limitadas, e mais quantitativas que qualitativas em diferentes continentes e em regiões distantes de um mesmo continente. A Tabela 1 mostra a freqüência de um gene (GC) que codifica uma proteína que regula a distribuição de vitamina D no corpo. Este gene aparece em duas formas principais: GC1 e GC2. A similaridade é notável. Portanto, “quem vê cor da pele não vê GC”. Tabela 1 Distribuição (%) dos genes GC1 e GC2 em diferentes regiões do mundo

Região

GC1

GC2

Europa

72

28

África

88

12

Índia

75

25

Extremo Oriente

76

24

América do Sul

73

27

Austrália

83

17

Fonte: Baseado em Cavalli-Sforza e Cavalli-Sforza, 1993. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


306 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

A despeito de diferenças de cor de pele, somos muito parecidos de forma geral no nosso patrimônio genético. Cavalli-Sforza e CavalliSforza (1993) comentam, a partir deste prisma e inspirados em Macbeth, personagem criado por William Shakespeare, que a miséria e a crueldade causadas pelas diferenças raciais entre os homens são uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que nada significa. Conclusão Concluímos citando Ernst Mayr ( 1963): Igualdade apesar de evidente falta de identidade é um conceito algo sofisticado que requer uma estatura moral que muitos indivíduos parecem incapazes de atingir. Eles negam a variabilidade humana e equiparam igualdade com identidade. Ou afirmam que a espécie humana é excepcional no mundo orgânico, na medida em que consideram que apenas caracteres morfológicos são controlados por genes e todas as outras características da mente ou da personalidade são devidas a “condicionamento” ou outros fatores não genéticos. Estes autores convenientemente ignoram os resultados de estudos com gêmeos e das análises genéticas de traços não morfológicos em animais. Uma ideologia baseada em premissas tão evidentemente erradas só pode ser desastrosa. Sua defesa da igualdade humana baseia-se numa afirmação de identidade humana. Assim que se prove que a identidade não existe, o suporte para a igualdade se perde (p. 649).

Referências bibliográficas ADES, C. Entre Eidilos e Xenidrins: experiência e pré-programas no comportamento humano. In: CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA – 6a Região/Sindicato de Psicólogos no Estado de São Paulo (Orgs.). Psicologia no ensino de 2o grau: uma proposta emancipadora. São Paulo: Edicon, 1986, p. 60-73. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 307

ALCOCK, J. Animal behavior: an evolutionary approach. 7. ed., Sunderland, MA: Sinauer, 2001. BARON-COHEN, S. Mindblindedness: an essay on autism and theory of mind. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1995. BARON-COHEN, S. The extreme male brain theory of autism. Trends in Cognitive Sciences, v. 6, p. 248-254, 2002. BJORKLUND, D. F. e PELLEGRINI, A. D. Child development and evolutionary psychology. Child Development, v. 71, n. 6, p. 1687-1708, 2000. BOUCHARD Jr., T. J. Twin studies of behavior: new and old findings. In: SCHMITT, A.; ATZWANGER, K.; GRAMMER, K. e SCHÄFER, K. (Editors). New aspects of human ethology. New York: Plenum Press, p. 121-140, 1997. ATZWANGER, K.; GRAMMER, K. e SCHÄFER, K. (Editors). Genes, environment and personality. In: CECI, S. J. e WILLIAMS, W. M. (Editors). The nature-nurture debate. Oxford, England: Blackwell, p. 98-103, 1999. BOUCHARD Jr., T. J. e MCGUE, M.G. Familial studies on intelligence: a review. Science, v. 212, p. 1055-1059, 1981. BOUCHARD Jr., T. J.; LYKKEN, D. T.; MCGUE, M.; SEGAL, N. L. e TELLEGEN, A. Sources of human psychological differences: the Minnesota study of twins reared apart. Science, v. 250, p. 223-228, 1990. BOUCHARD Jr., T. J.; MCGUE, M.; LYKKEN, D. e TELLEGEN, A. Intrinsic and extrinsic religiousness: genetics and environmental influences and personality correlates. Twin Research, v. 2, p. 88-98, 1999. CARVALHO, A. M. A. Etologia e comportamento social. In: DE SOUZA, L.; QUINTAL DE FREITAS, M. F. e RODRIGUES, M. M. P. (Editores). Psicologia: Reflexões (im) pertinentes. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998, p. 195-224. CASHMORE, E. Dictionary of race and ethnic relations. London: Routledge, 1994. CAVALLI-SFORZA, L. e CAVALLI-SFORZA, F. Quem somos? História da diversidade humana. São Paulo: UNESP, 1998 [1993]. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


308 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

CONNELLAN, H.; BARON-COHEN, S.; WHEELWRIGHT, S.; BATKI, A. e AHLUWALIA, J. Sex differences in human neonatal social perception. Infant Behavior and Development, v. 23, p. 113-118, 2000. COSMIDES, L. e TOOBY, J. Evolutionary psychology and the emotions. In: LEWIS, M. e HAVLAND-JONES, J. M. (Editors). Handbook of emotions. New York: Guilford, 2000. DAMÁSIO, A. O erro de Descartes: emoção, razão e cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1994/1996. DAMÁSIO, A. O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. DARWIN, C. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2002 [1872]. EIBL-EIBESFELDT, I. Human ethology. Aldyne de Gruyter, 1989. EKMAN, P. Strong evidence for universals in facial expressions. Psychological Bulletin, v. 115, p. 268-287, 1994. FREDERICKSON, B. What good are positive emotions? Review of General Psychology, v. 2, p. 300-319, 1998. GARCIA, J. Learning without memory. Journal of Cognitive Neurosciences, v. 2, p. 287-305, 1990. GEARY, D. C. Male, female: the evolution of human sex differences. Washington, D.C.: American Psychological Association, 1998. GOLDSMITH, H. H. Introduction. In: PLOMIN, R. e McCLEARN, G. E. (Editors). Nature, nurture and Psychology. Washington, D. C.: American Psychological Association, 1993. GOLDSMITH, H. H. e CAMPOS, J. J. Genetic influence on individual differences in emotionality. Infant Behavior and Development, v. 5, p. 99, 1982. HAGEN, E. Psicologia Evolucionária . Disponível em: <www.anth.ucsb.edu/projects/human/evpsychfaq.html>. Acesso em: 20 de Fevereiro de 2004.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 309

HINDE, R. A. Constraints on learning: an introduction to the problems. In: HINDE, R. A. (Editor). Constraints on learning. London: Academic Press, 1973. JAGGAR, A. M. Feminist politics and human nature. Lanham, Md.: Rowman e Littlefield, 1983. KIMBLE, G. A. Evolution of the nature-nurture issue in the history of Psychology. In: PLOMIN, R. e McCLEARN, G. E. (Editors). Nature nurture and Psychology. Washington, DC: American Psychological Association, 1993. KIMURA, D. Sex and cognition. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1999. KIRK, K. M.; EAVES, L. J. e MARTIN, N. Self-transcendence as a measure of spirituality in a sample of older Australian twins. Twin Research, v. 2, p. 81-87, 1999. LEDOUX, J. In search of an emotional system in the brain: leaping from fear to emotion to consciousness. In: GAZZANIGA, M. S. (Org.). The cognitive neurosciences. MA: MIT Press, 1995. LOCKE, J. An essay concerning human understanding. New York: E.P. Dutton, 1690 [1947]. LUTCHMAYA, S.; BARON-COHEN, S. e RAGGATT, P. Foetal testosterone and eye contact in 12 month old human infants. Infant Behavior and Development, v. 25, p. 327-335, 2002. MALLON, R. e STICH, S. The old couple: the compatibility of social construction and Evolutionary Psychology. Philosophy of Science, v. 67, p. 133-154, 2000. MARGER, M. N. Race and ethnic relations: american and global perspectives. Belmont: Woodsworth, 1994. MAYR, E. Animal species and evolution. Cambridge: Harvard University Press, 1963. MCGUE, M.; BACON, S. e LYKKEN, D. T. Personality stability and change in early adulthood: a behavioral genetic analysis. Developmental Psychology, v. 29, p. 96-109, 1993. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


310 — Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia

MORRIS, R.; BRAMHAM, J. e ROWE, A. Social cognition following prefrontal cortical lesions. In: BRÜNE, M.; RIBBERT, H. e SCHIEFENHÖVEL, W. (Editors). The social brain: evolution and pathology. England: John Wiley e Sons, p. 232-252, 2003. NESSE, R. Evolutionary explanations of emotions. Human Nature, v. 1, p. 261-289, 1990. NEWCOMBE, N. Desenvolvimento infantil: abordagem de Mussen. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999 [1996]. OZBAYRAK, R. K. What is Asperger’s disorder? Disponível em: <www.aspergers.com>, Acesso em: 2004. PINKER, S. Blank slate: the modern denial of human nature. London: Penguin Books, 2002. PLOMIN, R. e McCLEARN, G. E. Preface. In: PLOMIN, R. e McCLEARN, G. E. (Editors). Nature nurture and Psychology. Washington, DC: American Psychological Association, 1993. POSTHUMA, D.; NEALE, M. C.; BOOMSMA, D. I. e de GEUS, E. J. Are smarter brains running faster? Heritability of alpha peak frequency, IQ, and their interrelation. Behavior Genetics, 31: 567-579, 2001. QUEIROZ, R. S. Não vi e não gostei: o fenômeno do preconceito. São Paulo: Editora Moderna, 1996. QUEIROZ, R. S. e SCHWARCZ, L. Raça e diversidade. São Paulo, EDUSP/Estação Ciência, 1996. RIBEIRO, F. J.; OTTA, E. e BUSSAB, V. S. R. De colo em colo, de berço em berço. In: SEIDL DE MOURA, M. L. (Editor). O bebê do século XXI: a Psicologia em desenvolvimento. Porto Alegre: ARTMed, 2004 (no prelo). RIDLEY, M. Nature via nurture: genes, experience and what makes us human. New York: Harper Collins Publishers, 2003. RITVO, E. R.; FREEMAN, B. J.; MASON-BROTHERS, A.; MO, A. e RITIVO, A. M. Concordance for the syndrome of autism in 40 pairs of afflicted twins. American Journal of Psychiatry, v.142, p. 74-77, 1985. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Emma Otta, Fernando Leite Ribeiro e Vera Sílvia Raad Bussab — 311

ROOS, R. P. Genetically controlled resistance to virus infections of the centralnervous system. Progress in Medical Genetics, 6, 242-276, 1985. SOMMERS, C.H. Who stole feminism? New York: Simon e Schuster, 1994. TOOBY, J. e COSMIDES, L. Psychological foundations of culture. In: BARKOW, J.; COSMIES, L. e TOOBY, J. (Editors). The adapted mind: Evolutionary Psychology and the generation of culture. New York: Oxford University Press, 1992. TORREY, E. F.; BOWLER, A. E.; TAYLOR, E. H. e GOTTESMAN, I. I. Schizophrenia and manic-depressive disorder: the biological roots of mental illness as revealed by the landmark study of identical twins. New York: Basic Books, 1994. TURKHEIMER, E.; HALEY, A.; D’ONOFRIO, B.; WALDRON, M.; EMERY, R. E. e GOTTESMAN, I. Socioeconomic status modifies heritability of intelligence in impoverished children. Paper at ANNUAL MEETING OF THE BEHAVIOR GENETICS ASSOCIATION, Cambridge, July, 2001. VAN DEN BERGHE, P. F. Human family systems: an evolutionary view. Amsterdam: Elsevier, 1974. WATSON, J. B. Behaviorism. New Brunswick, N.J.: Transaction, 1998 [1924]. (Recebido em janeiro de 2004 e aceito para publicação em março de 2004)

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.283-311, outubro de 2003


Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental*

Alessandra Bonassoli Prado1 Mauro Luís Vieira2 Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo

Abstract

Pai e mãe interagem de forma diferente com seus filhos e filhas. Com o objetivo de identificar fatores que modulam o comportamento parental e a repercussão deste na dinâmica familiar, foi realizada uma revisão de pesquisas teóricas e empíricas sobre o assunto, com ênfase na teoria da Evolução. Constata-se que: a) existem diferenças de gênero em relação aos papéis dos genitores no cuida-

Mothers and fathers interact in different ways in relation to sons and daughters. With the aim of identifying which factors modulate parental behaviors and their repercussions in family dynamics, a review of theoretical and empirical studies on the subject was carried out, with emphasis on the Theory of Evolution. Critical reflections on published debates make it clear: a) that gender di-

__________________________________________________ * 1

2

Biological basis and culture factors underlying parental behavior Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina. Professor do Departamento de Psicologia. Endereço para correspondências: Departamento de Psicologia, CFH, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, 88040-900 (E-mail: mvieira@cfh.ufsc.br).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


314 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

do dos filhos e que podem ser considerados complementares; b) o pai tem papel relevante no desenvolvimento infantil; c) existe relação entre sistemas de acasalamento e investimento parental (o cuidado dos descendentes em mamíferos de modo geral está interligado com a possibilidade de vinculação afetiva e sexual com a fêmea); e por fim; e) há necessidade de criar e definir termos que procurem refletir diferentes dimensões do comportamento parental. Conclui-se que o comportamento parental é um sistema motivacional multideterminado e que a abordagem evolucionista pode trazer contribuições significativas para se ter uma compreensão mais holística e heurística sobre o assunto.

fferences in the care of children exist and the role of parents can be considered complementary; b) that the father has an important role in child development; c) that there exists a relationship between mating systems and parental investment (mammalian care for descendants is generally linked to the possibility of emotional and sexual bonding with the female) and finally, e) that it is necessary to create and to define terms that reflect different dimensions of parental behavior. In conclusion, parental behavior is a multi-determined motivational system and an evolutionary perspective can bring significant contributions toward a more holistic and heuristic understanding of the subject.

Palavras-chave: Comportamento parental, sistema de acasalamento, Psicologia Evolucionista, investimento parental, responsividade parental.

Keywords: Parental behavior, mating system, Evolutionary Psychology, parental investment, parental responsiveness.

Introdução

A

discussão natureza versus cultura vem de longa data e é clássica em diferentes disciplinas como Psicologia, Sociologia, Antropologia, Biologia, entre outras; esta discussão pode adquirir um tom ideológico, político, filosófico, mas dificilmente conclusivo. Um dos motivos é a dificuldade em atribuir a um elemento da personalidade uma “causa” que seja unicamente biológica ou aprendida. A principal razão é que mesmo o mais simples reflexo necessita de um contexto para se manifestar, que apresenta conseqüências positivas ou negativas que vão estabelecer diferentes relações condicionadas para um organismo e, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 315

igualmente, qualquer habilidade socialmente aprendida possui uma base biológica. Dessa forma, não se pretende esgotar o tema ou buscar todas as facetas desta contenda e sim apresentar os principais pontos e princípios relacionados aos cuidados parentais e ao desenvolvimento infantil congruentes com a perspectiva teórica da Psicologia Evolucionista. A perspectiva evolucionista admite a complexidade do comportamento humano como resultado do desenvolvimento histórico que se iniciou na filogênese e na ontogênese, que para o ser humano se desenvolveu do mesmo modo na história da cultura (LORENZ, 1973). A cultura se apresenta assim como usos e costumes que são transmitidos pelos ancestrais (ambiente social) ou pela educação institucional e que procura também sua melhor forma, ou seja, o incremento cultural é resultado de uma tentativa de adaptação do ser humano às dificuldades do meio. Skinner (1998) nos auxilia neste sentido quando afirma que: Assim como as características genéticas que surgem como mutações são selecionadas ou rejeitadas por suas conseqüências, também as novas formas de comportamento são selecionadas ou rejeitadas pelo reforço. [...] O grupo adota um dado procedimento – um costume, um uso, um instrumento controlador – seja planejadamente ou através de algum evento que, na medida em que se refira ao efeito sobre o grupo, pode ser inteiramente acidental. Como características do ambiente social essa prática pode afetar o sucesso do grupo na competição com outros grupos ou com o ambiente não social (Skinner, 1998, p. 467-468).

Para este renomado pesquisador do comportamento animal e humano, a cultura é composta de todas as variáveis que afetam o indivíduo e que são dispostas pelas outras pessoas. O ambiente social, em parte, é o resultado dos procedimentos do grupo para solucionar dificuldades do ambiente inanimado e social que geram comportamento ético, e a extensão destes aos usos e costumes. O indivíduo, ao entrar em contato com grupos ou instituições (escolas, governos e religiões, por exemplo) que reproduzem estes procedimentos, passa a desempenhá-los, uma vez que os padrões comportamentais de uma dada comunidade são mais prováveis de serem reforçados, se deixarem passar Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


316 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

sem reforço ou serem punidos. Dessa forma, o efeito de um ambiente social no comportamento pode ser inferido por meio da análise do contexto em que o indivíduo se encontra. A família, em geral, é o primeiro ambiente social em que uma pessoa é inserida, e muitas vezes é através dela que a criança, inicialmente, entra em contato com diferentes grupos e instituições sociais. Durante o desenvolvimento físico e psicológico, para atingir a idade adulta, o ser humano, por ser dependente e imaturo em seu estágio inicial, necessita de cuidados e da presença de adultos que forneçam as condições de sobrevivência. Isto é geralmente propiciado pela família, que pode apresentar diferentes disposições, sendo que cada membro daquela apresenta peculiaridades no modo de agir. Comparados com outros primatas, o ser humano leva uma quantidade desproporcional de tempo para atingir a maturidade reprodutiva. Passa mais tempo sendo dependente dos adultos do que qualquer outro animal e é a única espécie que continua a cuidar da alimentação de seus descendentes até mesmo após o período de imaturidade, como por exemplo, durante a adolescência (BJORKLUND, 1997). O benefício associado com o alto custo de um longo período de imaturidade pode ser um artifício necessário para o efetivo domínio das complexidades da comunidade social humana. À medida que a duração e a quantidade dos cuidados parentais aumentam, o comportamento pode ser cada vez mais desenvolvido por meio da aprendizagem. No período de infância, em que a criança não possui grandes responsabilidades e é tutelada por um adulto, ela tem a liberdade para explorar o ambiente, experimentar papéis, adquirir habilidades e conhecimentos que a auxiliará quando não houver ninguém para observá-la ou ajudá-la. Este conhecimento e a experiência adquiridos podem representar o quão adaptada e hábil a criança será para interagir em uma sociedade complexa (LINTON, 1976; BJORKLUND, 1997). Na sociedade ocidental do final do século XX e início do século XXI ocorreram grandes modificações na organização familiar. Além da família nuclear, constituída de mãe, pai e filhos, os membros desta passaram a assumir diferentes atribuições e responsabilidades que antes eram compreendidas como normativas do comportamento de um dos progenitores somente, como o cuidado com higiene e alimentação, atividade exercida essencialmente pela mãe. Em termos de legislação, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 317

a partir de 11 de janeiro de 2003 entrou em vigor no Brasil o novo Código Civil, que procura adequar a legislação às transformações sociais e políticas. A compreensão de família presente no novo Código modificou-se significativamente, o objetivo destas alterações foram no sentido de refletir a igualdade entre homens e mulheres, o que já vem ocorrendo no cotidiano. Por exemplo, no novo Código a mulher não terá prioridade para ficar com a guarda dos filhos em caso de separação ou divórcio; a custódia dos filhos será atribuída ao membro do casal que revelar melhores condições de exercê-la. Contudo, esta igualdade de direitos é por vezes entendida como igualdade de papéis. Fica subentendido que o pai deveria agir da mesma forma que a mãe – e vice e versa – no papel de cuidador. Exigem-se dos progenitores comportamentos e responsividade semelhantes em relação aos filhos. No entanto, a modificação de uma lei não altera a forma de interação entre as pessoas e a compreensão que elas possuem sobre a dinâmica familiar. Segundo Klaus e colaboradores (2000), seria errôneo pensar que pais e mães possuem papéis iguais. Apesar das mudanças em nossa sociedade, as atribuições de pai e mãe são distintas. Os esforços dos progenitores teriam que ser no sentido de “combinar” responsabilidades em relação aos filhos buscando uma “co-paternidade”. Ou seja, as diferenças deveriam ser encaradas como complementares. O pai merece atenção especial para investigação científica, não como reflexo ou substituição da mãe, mas sim como relevante para o desenvolvimento da criança. Nessa perspectiva, o que se espera do estudo do comportamento parental é uma análise da complementaridade entre pai e mãe, pois sem esta precaução não será obtida uma imagem adequada da dinâmica familiar. Pai, mãe e desenvolvimento infantil O estudo sobre a importância do pai no desenvolvimento da criança teve um impulso especial com a publicação do livro de Michael E. Lamb, em 1976, intitulado: Papel do pai no desenvolvimento infantil3. __________________________________________________ 3

Tradução do título do livro organizado por Michael E. Lamb The role of the father in child development publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1976 e que foi reeditado mais duas vezes, sendo a última em 1997, na qual conta com novas pesquisas sobre a atuação do pai no desenvolvimento infantil e na dinâmica familiar.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


318 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

Os autores que participaram da primeira edição do livro abordaram a relação pai-criança e a influência paterna no desenvolvimento infantil. Quando o livro foi publicado, segundo Lamb (1997a), cientistas sociais em geral, e alguns psicólogos do desenvolvimento, em particular, duvidavam que o pai tivesse um papel significativo para as experiências e o desenvolvimento da criança, especialmente para as filhas. Até então o pai era considerado somente relevante como modelo do papel de gênero4 para o filho homem (LAMB, 1997a; ROHNER e VENEZIANO, 2001), o que poderia ser substituído por modelos sociais apresentados na mídia ou na observação do outros homens adultos. O objetivo dos autores do livro era demonstrar que o pai: a) tem papel importante no desenvolvimento infantil; b) é freqüentemente relevante na vida das crianças; e c) afeta o curso do desenvolvimento de suas crianças tanto de forma positiva como negativa (Lamb, 1997a). A segunda edição do livro, publicada em 1981, possui como principal contribuição o reconhecimento da complexidade do comportamento do pai, ser este multideterminado, e de muitos dos modelos de influência paterna serem indiretos além da construção social da paternidade variar entre épocas históricas, contextos e subculturas. A terceira edição se diferencia das anteriores quando procura, além de estudar a díade paicriança, investigar o lugar do pai no contexto do sistema familiar e nos subsistemas no qual este se relaciona, como sua atitude com a mãe e parentes, que são também de importância crucial para o desenvolvimento infantil (LAMB, 1997a). O pai pode atuar em múltiplos papéis significativos para sua criança, assim como para o sistema familiar por meio de funções como: companheiro, cuidador, provedor financeiro, cônjuge, modelo, guia moral e professor. Em todos estes papéis o pai possui uma relativa importância e impacto sobre o desenvolvimento infantil. Contudo, ao longo da história o pai assumiu, a cada período ou época, um papel proeminente (LAMB, 1997a). No início, o pai era visto como o patriarca que exercia enorme poder sobre a família e vestígios desta noção têm sobrevivido até muito __________________________________________________ 4

O ser humano, de modo geral, adquire um firme senso de si mesmo como sendo homem ou mulher; este desenvolvimento é chamado de identidade de gênero. Na maioria das culturas existe um conceito sobre a diferença biológica entre masculino e feminino, que é expandido por uma série de crenças e práticas de como devem se comportar homens e mulheres, que papéis devem assumir, ou características de personalidade devem possuir “apropriadamente”. Estas características são adquiridas por identificação, segundo a Psicanálise, ou por recompensas e punições, segundo a teoria da aprendizagem social (ATKINSON et al., 1995).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 319

recentemente (PLECK e PLECK 1997). De acordo com esses autores, durante a fase colonial da história da América do Norte, o pai era percebido, principalmente, como guia moral (professor). No senso comum, o pai era responsável por assegurar que suas crianças crescessem com um senso apropriado de valores, adquirissem o estudo da Bíblia ou outros textos espirituais. Com a industrialização, entretanto, o primeiro foco de mudança, do original chefe da moral, foi para o de suporte econômico da família. Por conseguinte, talvez como resultado da Grande Depressão ou quebra da bolsa de valores nos Estados Unidos, que causou grande recessão econômica – o qual mostrou que muitos homens poderiam ser provedores pobres –, os cientistas sociais passaram a descrever o pai como modelo do papel sexual. Daí em diante passou-se, também, a expressar interesse sobre a falha de muitos homens como modelo de comportamento masculino para seus filhos. Durante todo século XX os pais eram questionados a serem mais envolvidos com suas crianças. Assim, no segmento feminista que estudava sobre masculinidade e feminilidade emergiu, na década de 1970, uma nova atribuição para o pai, o de educador que teria um papel ativo na vida, tanto de filhas como de filhos (LAMB 1997a,b). Cada papel está associado com um ou mais modos distintos de influência sobre a criança. Seguramente, o suporte financeiro é visto como elemento-chave e como o principal papel atribuído ao pai em muitos segmentos sociais (BARNETT e BARUCH, 1998); mesmo onde os dois progenitores contribuem financeiramente para o sustento da família, ele é percebido como o principal provedor, o que é confirmado ao constatarmos a contínua disparidade entre o salário de trabalhadores homens e mulheres. O suporte econômico da família constitui um indireto, porém importante meio no qual o pai contribui para a criação e saúde emocional de suas crianças (LAMB 1997a). Uma segunda, mas importante, fonte indireta de interferência é o papel do pai como suporte emocional para outras pessoas, principalmente a mãe, que se mantém envolvida no cuidado direto com a criança (PARKE et al., 1979 apud LAMB, 1997a,b). Quando o pai funciona como fonte de suporte emocional, ele tende a aumentar a qualidade de relação mãe-criança e, dessa forma, facilitar o ajustamento social “positivo” em oposição, quando o pai não atua como suporte, e há alto grau de conflito conjugal, as crianças podem sofrer de desajuste social (CUMMINGS e O’REILLY, 1997). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


320 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

A disponibilidade física do pai pode, segundo Veneziano (2003), servir para a proximidade e a qualidade da relação pai-criança. Contudo, o comportamento “caloroso” é que vai influenciar de forma diferenciada o desenvolvimento infantil. O autor investigou diferentes culturas ocidentais, e, ainda que a socialização para agressão estivesse significativamente relacionada como baixo nível de afeto e calor paterno, houve uma correlação negativa quando havia interação afetuosa e calorosa do pai com a criança, e a expressão de comportamentos agressivos e delinqüentes. O envolvimento paterno ou a participação do pai no desenvolvimento infantil não é somente definido em termos de contato físico direto, mas é conceituado em termos de: (1) interação, ou seja, o tempo que o pai gasta com suas crianças; (2) acessibilidade, que é o tempo gasto em atividades que possuam implicações para a criança, como trabalho doméstico; (3) responsabilidade, ou seja, o quanto o pai se envolve e assume o encargo de atividades que fazem parte da rotina da criança, como levar ou buscar na escola (LAMB, 1997b; PLECK, 1997; LEWIS e DESSEN, 1999). O desenvolvimento do conceito de envolvimento paterno esteve relacionado com sua operacionalização, elaboração e divulgação metodológica e conceitual, o qual refletiu as mudanças sociais e metodológicas que ocorreram durante sua elaboração. As mudanças sociais se referem às pressões sobre a paternidade que emergiram nos anos de 1980 e contextualizaram pesquisas que tinham como propósito verificar se crianças estavam obtendo suficiente paternagem5 e se pais estavam reduzindo suficientemente a sobrecarga do cuidado das crianças sobre as mães trabalhadoras. As mudanças metodológicas eram fornecidas pela disponibilidade de um novo tipo de dado: provenientes de “diários” no qual a coleta de informações se restringe à passagem do tempo ou a uma amostra de extensão de um tempo provável. Esta metodologia caiu em desuso e outros pesquisadores começaram a coletar informações do uso do tempo simplesmente solicitando aos respondentes para estimarem o seu tempo em cuidado das crianças e outras atividades (PLECK, 1997). __________________________________________________ 5

O conceito de paternagem pode ser definido como um conjunto de respostas dos pais diante da solicitação da criança; são respostas carregadas de afeição, como conduzir a criança à escola ou conduzi-la para a cama na hora de dormir.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 321

Os estudos sobre a estimativa de engajamento e disponibilidade variam amplamente porque cada um destes componentes pode ser operacionalizado de forma minuciosa ou ampla, mensurar a relação existente entre o envolvimento do paterno e o envolvimento materno ou o envolvimento paterno em termos absolutos e, ainda, distinguir as horas nas quais o pai está disponível ou engajado em dias de semana e de final de semana (PLECK, 1997). Segundo este autor, os estudos apontam que os pais são mais engajados e disponíveis com crianças pequenas do que com adolescentes, sendo as horas de final de semana privilegiadas para a interação pai-criança. A responsabilidade é compreendida como “disposição para cuidar da criança” ao compartilhar as tarefas como: cuidados centrados na criança e tarefas pré-escolares, atividades de cuidado da casa, etc. Os estudos sobre responsabilidade indicam que o pai tem baixos níveis de responsabilidade comparados com a mãe, e quando esta exerce atividade remunerada, o pai apresenta maior disposição para o cuidado, sendo mais provavelmente eleito para assumir a responsabilidade pelas crianças quando comparado com os avós (PLECK, 1997). O estudo do envolvimento paterno tem demonstrado que diferentes comportamentos expressos pelo progenitor masculino têm benefícios diferenciados para o desenvolvimento infantil e para o sistema familiar como um todo. O engajamento paterno positivo tem benefícios para a criança e o pai, enquanto a disponibilidade e a responsabilidade oferecem benefícios para a mãe, principalmente aquelas que exercem atividade remunerada fora do domicílio (LAMB, 1997b; PLECK, 1997). Assim sendo, ao propor investigar como pais e mães avaliam o comportamento de fato expresso de paternagem e aquele que é desejado que ocorra, estaremos investigando também em quais aspectos os progenitores sentem maior satisfação ao engajar-se no cuidado e na participação no desenvolvimento da criança, no caso do pai, e maior suporte, no caso da mãe. Em função dessa relação dinâmica entre a mãe e o pai, e a influência de um sobre o outro, pode-se supor que, em termos evolucionários, surgiram alguns mecanismos para fazer com que ambos os genitores participassem do cuidado das crianças, uma vez que existem diferentes interesses entre estes genitores ou cuidadores. Para a mulher, o dispêndio para gerar novos descendentes é bem maior do que o homem, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


322 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

em função da gestação interna e da amamentação. Além disso, o período fértil da mulher está centrado na juventude, enquanto no homem não existe um período tão demarcado. O próximo item procura explicar as conseqüências dessa situação para os cuidados parentais. Estratégias reprodutivas e investimento parental Charles Darwin (1809-1882) propôs, por meio de seu livro A origem das espécies, publicado pela primeira vez em 1871, a teoria da descendência com modificação através da seleção natural, ou seja, que os organismos vivos apresentam variações. Essa variabilidade é transmissível por herança genética e selecionada pelas pressões ambientais, o que resulta na sobrevivência dos organismos mais bem preparados para interagir com o lugar onde vivem. Segundo o criador da teoria da evolução: “A luta pela existência, [...] resultado determina a preservação de cada desvio de estrutura ou de instinto que seja útil para seu possuidor” (DARWIN, 1871/1985; p.347). Essa situação tem como conseqüência a busca constante por transmitir a carga genética para o maior número de descendentes possíveis e a luta pela sobrevivência da espécie. Uma das formas de sobrevivência e de garantia de perpetuação da espécie é gerar descendentes. As estratégias que o organismo utiliza para esta tarefa são descritas também por Darwin quando este estabelece a dinâmica da reprodução sexual entre as espécies. A seleção sexual, ao contrário da seleção natural, em que os indivíduos lutam pela sobrevivência em si, vai depender das vantagens que certos indivíduos têm sobre outros indivíduos da mesma espécie e sexo em restringir as relações para a reprodução. Assim, a seleção sexual é restrita às características que estão diretamente ligadas e influenciadas pela escolha por acasalamentos competição entre coespecíficos, sendo as mais discutidas a competição macho-macho e a escolha da fêmea por parceiros para acasalar (GEARY, 2000). Contudo, gerar descendentes não é sinônimo de sucesso reprodutivo, pois, para garantir que um certo número de descendentes sobreviva para a próxima geração, é necessário algum dispêndio de energia, ou investimento de tempo, dedicação, recursos materiais, físicos e psicológicos dos progenitores no cuidado e desenvolvimento da prole. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 323

O nível de desenvolvimento da prole ao nascer e o quanto esta exigirá de energia durante o estágio inicial de seus progenitores são uma relação complexa que foi analisada e discutida por Trivers (1972) em sua teoria do investimento parental. O autor fundamentou suas idéias na teoria da seleção sexual de Charles Darwin. A principal idéia presente na teoria é que machos e fêmeas se comportam de maneira distinta quanto ao investimento na progênie ou na procura por parceiros, com o objetivo de promover seu sucesso reprodutivo individual, dependendo de características físicas da dinâmica sexual reprodutiva de casa espécie como: tempo para início e término de um ciclo reprodutivo, número e tamanho das células reprodutivas, postura dos ovos, tempo de gestação ou incubação, número de embriões por gestação, etc. Deste modo, existiria um equilíbrio entre investimento parental e estado inicial de desenvolvimento, assim como entre o esforço no acasalamento, que compreende todo dispêndio de tempo na procura de oportunidades reprodutivas e, esforço no cuidado da prole, ou seja, toda forma de cuidado direcionada para a descendência, o qual exige um custo energético aos progenitores (TRIVERS, 1972; BJORKLUND, 1997; MARLOWE, 2000; HRDY, 2001). O investimento parental subtrai energia disponível de outro foco, inclusive uma gestação futura, sendo que tal dispêndio de energia no desenvolvimento dos filhotes subtrai do esforço no acasalamento. Assim sendo, o quanto é investido no acasalamento versus cuidado parental irá variar entre espécies e entre fêmeas e machos dentro de cada espécie, dependendo das características de desenvolvimento dos filhotes, das condições ecológicas presentes no ambiente. (TRIVERS, 1972; BJORKLUND, 1997; MARLOWE, 2000; HRDY, 2001). Quando um animal apresenta maior investimento de energia no cuidado da sua prole, possui uma estratégia reprodutiva chamada de esforço no cuidado da prole ou investimento parental. Por outro lado, se os gastos energéticos forem alocados somente na procura por um parceiro, este é chamado esforço no acasalamento. O comportamento parental inicia-se no momento da fertilização, sendo seqüência do comportamento reprodutivo, que inclui estabelecer e definir território, o cortejamento e a cópula, e continua na gestação, segue com o nascimento, modifica-se ao longo do desenvolvimento e inclui vários comportamentos como: produção de gametas (com reservas nutritivas), Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


324 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

transferência de nutrientes aos embriões, preparação de locais apropriados para postura, defesa contra predadores, regulação térmica, alimentação (antes e após o nascimento), e cuidados durante a infância e a adolescência, como a defesa contra membros da mesma espécie e garantir aos filhotes acesso a fontes de alimentos (BROWN, 1998; TOKUMARU, 1998). Dessa forma, o cuidado parental pode ser realizado por qualquer um ou ambos os pais, e vai variar de acordo com o sistema de acasalamento de cada espécie. A estratégia reprodutiva de um indivíduo e como este procura sobreviver às pressões ambientais evolvem diferentes elementos que devem estar em equilíbrio. Para compreender este ponto de equilíbrio se deve, segundo os teóricos evolucionistas, buscar os fundamentados na teoria da evolução (DARWIN, 1871/1985). Estes consistem em: a) ganhar acesso e controle de recursos que sustentam a vida, ou seja, garantir a integridade física6 por meio do esforço somático, que compreende todo investimento de um organismo para seu crescimento, desenvolvimento e manutenção e, deste modo, acumular potencial reprodutivo; b) a procura e a disputa por parceiros reprodutivos aptos a procriar em um esforço no acasalamento7; e ainda c) o esforço parental necessário para a progênie atingir a maturidade suficiente para sobreviver sozinha, o que está relacionado com o tamanho da prole, já que uma progênie grande aumentaria o sucesso reprodutivo, desde que não esteja acima das condições físicas do progenitor ou dos recursos oferecidos pelo ambiente; uma prole pequena e de boa qualidade seria mais adequada quando as condições do progenitor e os recursos do ambiente fossem limitadas (VOLAND, 1998; GEARY e FLINN, 2001; HRDY, 2001). Todos estes aspectos recaem sobre a boa forma (fitness) e o sucesso reprodutivo de um indivíduo, que por vezes deve realizar trocas, ou seja, avaliar o custo e o benefício de investir maior energia em um aspecto do que em outro para manter o equilíbrio e sobreviver às pressões ambientais (falta de recursos, processo degenerativo do organismo, variações climáticas, variações sociais, etc.). __________________________________________________ 6

7

Princípio da seleção natural – sobrevivência do melhor adaptado às pressões ambientais atuais. Princípio da seleção sexual – consiste em o quanto certos indivíduos obtêm vantagens sobre outros da mesma espécie e sexo, seja através de dominância, seja da competição, cujo objetivo é restringir as relações para a reprodução.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 325

O principal benefício de muitas formas de cuidado parental para o progenitor que cuida consiste na criação, no crescimento e na sobrevivência da prole. Entre os mamíferos existe uma grande variedade de padrões de comportamento parental, que podem ser classificados em função do grau de desenvolvimento dos filhotes ao nascer (ROSENBLATT, 1992). Em algumas espécies de mamíferos o período de gestação é curto, e o filhote nasce bastante prematuro, com o sistema termo-regulador e sensorial pouco desenvolvido, sendo incapaz de se alimentar sozinho. Essas espécies são chamadas de altriciais e incluem roedores, primatas e marsupiais. Nestes casos, os cuidados parentais são de vital importância para a sobrevivência dos filhotes. Por outro lado, há espécies em que o período de gestação é longo e os filhotes nascem com visão, audição, sistema termo-regulador e motor bem desenvolvidos (por exemplo, eqüinos e bovinos), sendo chamados de precociais. Nestes, os cuidados parentais são importantes, embora com menor dispêndio de energia do que em relação ao grupo anterior. O nível de desenvolvimento do filhote ao nascer (altricial ou precocial) pode também estar correlacionado com diferentes sistemas de acasalamento (ZEVELOFF e BOYCE, 1980). Para estes autores, a monogamia, em mamíferos, estaria correlacionada como o modelo altricial por apresentar maiores oportunidades de o macho investir em indivíduos aparentados geneticamente. Neste sistema de acasalamento o macho poderia contribuir para a sobrevivência da prole por desenvolver sua habilidade nesta tarefa. Por outro lado, a poliginia estaria correlacionada ao modelo precoce e alto investimento maternal. Os autores argumentam que, no caso do ser humano, embora o sistema matrimonial não seja claramente definido, decorrente da grande variedade de costumes, do dimorfismo sexual e da grande variedade do sucesso reprodutivo do macho, eles o classificam como monogâmico e altricial. Isso pode ser devido à tentativa de equiparar investimento parental do homem e da mulher, assim como o esforço para garantir a paternidade. O investimento parental tem sido considerado responsável pela evolução do casamento monogâmico (MARLOWE, 2000). Contudo, preservar o acasalamento pode ser uma variável importante para a expressão do investimento paterno, o que resulta, por sua vez, em um sistema monogâmico socialmente imposto. Para espécies de mamíferos, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


326 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

a gestação interna e o período de amamentação resultam em uma menor taxa reprodutiva para fêmeas comparadas com os machos. As fêmeas nem sempre estão sexualmente disponíveis ou aptas para uma gestação. Logo, os machos podem se beneficiar, reprodutivamente, procurando e obtendo acasalamentos adicionais. O esforço no acasalamento envolve competição física para o estabelecimento da dominância social e, através desta, o acesso a múltiplos parceiros. Deste modo, o macho mais dominante aumenta seu sucesso reprodutivo comparado com um subordinado. O tamanho físico é um indicador de competição macho-macho e de um sistema de acasalamentos poligínico, no qual um macho monopoliza o maior número de fêmeas possíveis. O reduzido ou moderado dimorfismo sexual sugere mudanças na natureza da competição macho-macho (por exemplo: competição entre “coligações” relacionadas através de laços de parentesco), decréscimo em acasalamentos poligínicos e correspondente aumento no investimento paterno (GEARY, 2000; MARLOWE, 2000; GEARY e FLINN, 2001). O panorama evolucionista apresentado sobre estratégias reprodutivas e investimento parental indica que existe algum grau de determinação biológica nesses sistemas motivacionais para que pudessem ser selecionados. Além da influência genética, mecanismos neuroendócrinos também estão presentes no comportamento parental, sem, no entanto, deconsiderar o ambiente onde o animal ou o ser humano está inserido. Regulação neuroendócrina e ambiental do cuidado parental Os mecanismos envolvidos no comportamento paterno, segundo Brown (1993), podem envolver mudanças neuroendócrinas ativadas por estímulos vindos da fêmea e dos filhotes. Segundo o autor citado anteriormente, estudos com roedores sugerem que a cópula pode induzir mudanças hormonais que alteram respostas do macho aos filhotes, mesmo na ausência da fêmea. Se o macho coabita com a fêmea que acasalou durante a gestação, os odores e o comportamento agressivos advindos dela podem produzir mudanças neuroendócrinas que inibem a agressão do macho aos filhotes e facilitam o comportamento paterno. No parto, a ativação do cuidado paterno pode ser estimulada pela copulação com fêmeas durante o estro pós-parto e continuada exposição a estímulos olfativos da fêmea e dos filhotes. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 327

Gray e colaboradores (2002) estudaram correlatos hormonais do ajuste entre esforço no acasalamento e no cuidado parental em homens. Os autores examinaram o nível de testosterona na saliva e investigaram, por meio de questionário, aspectos sobre moradia, relações conjugais e organização do cuidado parental, de 58 homens divididos em três grupos: solteiros, casados sem filhos e casados com filhos. Não foram encontradas diferenças significativas entre os três grupos estudados. Entretanto, verificou-se que homens que despendiam mais tempo “investindo nas esposas”, ao final do dia de trabalho, tinham baixos níveis de testosterona. Assim, os autores sugerem que o baixo nível de testosterona pode facilitar o cuidado paternal humano e diminuir a probabilidade que homens se engajem em comportamentos de acasalamento competitivo. Storey e colaboradores (2000) procuraram verificar se a proximidade física de casais “grávidos” poderia “preparar o homem para a paternidade”, já que sintomas de gravidez em homens (couvade) são comuns em culturas que apresentam cuidado parental e alto nível de intimidade entre casais. Os autores mediram, em pais recentes e candidatos a pai que viviam com suas parceiras, a concentração hormonal e as respostas a figuras de bebês e pistas auditivas, visuais e olfativas de bebês recém-nascidos (teste de estimulação de reatividade). Foi notado que homens e mulheres tinham diferenças similares em níveis hormonais, incluindo aumento da concentração de prolactina e diminuição na concentração de esteróides sexuais (testosterona e estradiol). Do mesmo modo, os homens que apresentavam mais sintomas grávidos (couvade) e os homens que eram mais afetados pelo teste de reatividade a bebês tinham alto nível de prolactina e reduções maiores de testosterona. A influência exercida pela proximidade com uma mulher foi estudada por Anderson e colaboradores (1999), que investigaram se existe correlação entre a situação conjugal atual de homens e a quantidade de investimento paterno. Os autores sugerem que fornecer cuidado para a criança pode ser considerado uma forma de esforço no acasalamento, se aumentar a probabilidade que o homem tem de permanecer com a mãe das crianças ou aumentar a qualidade de seu relacionamento. No estudo foi mensurado o investimento em educação formal, “mesadas” e horas semanais em contato com a criança. Os testes realizados foram, segundo os autores, consistentes com o papel do “esforço na relação” atual para o cuidado paterno. Os homens investiram mais em crianças de seu casamento atual. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


328 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

Hrdy (2001) apresenta uma série de estudos culturais e comparativos para demonstrar que o comportamento parental não é automaticamente desencadeado. Assim sendo, o contexto histórico e ecológico tem uma importante implicação sobre o modo como as mães avaliam quais as perspectivas de seus bebês e as alternativas que ela deve escolher. O abandono está, antes, num dos extremos de um contínuo que se estende entre o fim do investimento e o compromisso total de uma mãe que carrega seu bebê para todo o lado e o amamenta toda vez que ele pede. O abandono é, por assim dizer, o modo de uma mãe terminar o seu investimento por omissão ou deserção (HRDY, 2001, p.317).

Apesar dos aspectos biológicos do cuidado parental, assinalado durante o século XIX e começo do século XX como um “instinto natural” de dedicação dos pais ser apresentado, em alguns momentos, como um discurso coercivo para cuidar dos seus bebês, a autora anteriormente citada argumenta que entender as bases biológicas da ativação do comportamento parental é essencial para compreender a expressão ou a deserção deste. Por outro lado, embora existam diferentes orientações teórico-metodológicas para explicar o comportamento parental, uma das necessidades básicas na área de estudo é a definição de termos. Responsividade parental e outros termos O conceito de responsividade tem sido destaque na Psicologia principalmente, para o estudo do desenvolvimento infantil, e é, em geral, associado ao estilo de cuidado materno. O termo responsividade não é consenso entre os autores. Ribas e colaboradores (2003), com o propósito de apresentar um panorama de como este conceito é apresentado, realizaram um levantamento bibliográfico com base em dados nacionais e internacionais. Os autores verificaram que este tema vem sendo investigado principalmente nos campos da Psicologia do Desenvolvimento e da Psicobiologia, e 38% dos estudos foram conduzidos com animais e procuraram avaliar aspectos biológicos (níveis hormonais, lesões celebrais e efeito de drogas, etc.) e da experiência anterior (efeitos do contato e da separação mãe-filhote e gestações anteriores); Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 329

os outros 62% foram realizados com seres humanos e vinculados ao estudo de diferentes aspectos que podem intervir na responsividade materna, entre eles, “apego e cultura”. A teoria de apego tem sido freqüentemente associada ao estudo sobre responsividade (RIBAS et al., 2003). BOWLBY (1990) postulou que os primatas, mais especificamente os bebês humanos, possuem uma necessidade inata de apegar-se a uma figura primária nos três primeiros anos de vida, da qual o bebê se esforça para permanecer perto o tempo todo. O apego seguro, necessário para um adequado desenvolvimento, irá dependerá da responsividade (ou sensibilidade) contingente dos pais em relação ao bebê, que é compreendida como a capacidade de o adulto cuidar e mostrar-se sensível aos sinais e gestos do bebê. Hrdy (2001) questiona a “natureza inata” da formação do apego e a incondicional disponibilidade da mãe em fornecer os cuidados primários, apresentando aspectos da teoria evolucionista referentes às leis de Hamilton, e o potencial conflito entre os interesses entre investimento paterno e o investimento reprodutivo proposto por Trivers, como foi apresentado anteriormente. A discussão sobre responsividade inclui, dessa forma, alguns aspectos como a ação das crianças, a ação dos pais e o reflexo desta sobre a criança. O que envolve, segundo Ribas e colaboradores (2003), duas principais dimensões, uma temporal e outra qualitativa. Na primeira é considerada a contingência de resposta, ou seja, o quanto as ações do bebê vão ser contingentes da resposta de cuidado apresentada pelos pais. No caso da dimensão qualitativa estão incluídas características como calor afetivo, proximidade e intimidade, as quais em geral remetem ao afeto. Os autores ressaltam que estas duas dimensões podem ser retratadas tanto como dependentes quanto independentes. A independência entre os diferentes comportamentos parentais, o que define responsividade, pode, segundo Keller e colaboradores (1999, apud RIBAS et al., 2003), favorecer uma melhor compreensão das variações transculturais e individuais do comportamento parental. Os pesquisadores de abordagem evolucionista apresentam especial atenção ao estudar a estrutura de um comportamento para a forma como este é apresentado e a sua função. Assim, os cuidados parentais podem estar diretamente relacionados com a ação da criança (por exemplo, em resposta ao choro), ou ainda, não estar diretamente relacionados ao comportamento da criança, mas promover o seu bem-estar (por exemplo, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


330 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

atentar para o ambiente físico em que ela se encontra colocando um anteparo para protegê-la do Sol). Além disso, diferir de uma outra classe de comportamentos que caracterizam como interação social, que pode ser lúdica, carinhosa, instrutiva, entre outras. Entretanto, é necessário esclarecer a diferença entre cuidado parental e investimento parental. O primeiro se refere às ações especificamente a “[...] qualquer comportamento que aumente a aptidão dos filhotes” (CLUTTON-BROCK, 1991), sendo aptidão entendida por aumento da sobrevida dos filhotes. Ao passo que o investimento parental é considerado todo dispêndio de energia na reprodução, considerando não apenas o comportamento, mas todos os custos para o organismo (TOKUMARU, 1998). A sensibilidade e a responsividade para os sinais da criança se apresentam de forma distinta entre homens e mulheres. Esta diferença, segundo Lamb (1997), não se explica exclusivamente com base nas diferenças biológicas, mas emerge das pressões e expectativas sociais. Principalmente aquelas advindas da mãe, uma vez que os pais são considerados mais envolvidos na interação com seus bebês quando eles são altamente engajados na interação com seus pares. O envolvimento do pai com o cuidado da criança depende de como o conflito de interesses, ou as expectativas entre pais e mães são coincidentes ou não. O estudo de como pais e mães avaliam o cuidado paterno pode auxiliar na compreensão do que homens e mulheres atribuem ser característico do papel do pai e de onde se apresentam mais evidentes as divergências deste. Considerações finais Através do que foi apresentado ao longo desse texto, procurouse apresentar evidências científicas sobre a multideterminação dos cuidados parentais, de modo geral e, do comportamento paterno, de modo específico. Tanto as influências históricas e sociais como as bases biológicas (estas devem ser entendidas como predisposições ou manifestações físicas de um comportamento) são importantes para modular o comportamento do pai em relação aos seus filhos, em curto e em longo prazo. É importante salientar que não estamos propondo criar um modelo de pai com base nas evidências apresentadas e discutidas. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 331

Na perspectiva evolucionista pode-se argumentar que é natural o distanciamento do pai e da criança, pelo fato de que nem sempre é possível determinar com exatidão quem é pai. Também em termos históricos poder-se-ia argumentar que o papel mais preponderante do pai é o de provedor da família e que a vinculação afetiva teria papel secundário. No entanto, por meio dos estudos mencionados aqui, constata-se que o pai pode ter papel decisivo no desenvolvimento infantil e que existe relação entre o comportamento materno e o paterno. Um modelo para explicar como ocorre essa dinâmica entre mãe, pai e filhotes em roedores é apresentado por Vieira (2003). A modulação do comportamento materno está mais vinculada com as pistas somatossensoriais advindas dos filhotes. O comportamento do pai em relação aos filhotes sofre interferência da mãe, o que comprova a ligação entre cuidados parentais e vinculação sexual com a fêmea. No caso do ser humano, essa relação foi apresentada no item sobre sistemas de acasalamento e investimento parental. Esse raciocínio tem como pressuposto básico a teoria da evolução, que explica a sobrevivência diferencial dos indivíduos e, conseqüentemente, da espécie. Contudo, fatores psicológicos e socioculturais também devem ser considerados para explicar diferenças individuais no cuidado em relação aos filhos. Portanto, o mérito da abordagem evolucionista é apresentar uma proposta original e diferente em comparação com a tradição em Psicologia (que está centrada no indivíduo localizado num momento histórico, social e cultural). Ao considerar a espécie, não está se negando o indivíduo. Pelo contrário. A espécie tem sua expressão concreta no indivíduo. A integração entre as predisposições filogenéticas e as experiências individuais é o caminho que deve ser percorrido para que tenhamos uma compreensão mais ampla sobre por que e como o comportamento parental se manifesta. Referências bibliográficas ANDERSON, K.; KAPLAN, H. e LANCASTER, J. Parental care by genetic fathers and stepfather I: reports from Albuquerque men. Evolution and Human Behavior, v. 20, p. 405-431, 1999. ATKINSON, R. L.; ATKINSON, R. C.; SMITH, E.E. e BEM, D. J. Introdução à Psicologia. 11. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. 727p. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


332 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

BARNETT, R. C. e BARUCH, G. K. Correlates of father’s participation in family work. In: BRONSTEIN, P. e COWAN, C. P. (Editors). Fatherhood today. New York: Wiley, 1998, p. 76-78. BJORKLUND, D. F. The role of immaturity in human development. Psychological Bulletin, v. 122, p.153-169, 1997. BOWLBY, J. Apego e perda. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1990. 423p. BROWN, R. E. Hormonal and experience factors influencing parental behavior in male rodents: An integrative approach. Behavioural Processes, v. 30, p.1-28, 1993. BROWN, R. E. Hormônios e comportamento parental. In: COSTA, M. J. R. P. e CROMBERG, V. U. (Orgs.). Comportamento materno em mamíferos. São Paulo: Sociedade Brasileira de Etologia, 1998, p.53-99. CLUTTON-BROCK, T. The evolution of parental care. Nova Jersey: Princeton University Press, 1991. 346p. CUMMINGS, E. M. e O’REILLY. Father in family context: effects of marital quality on child adjustment. In: LAMB, M. E. (Editor) The role the father in child development. 3. ed. New York: John Wiley e Sons, 1997, p.49-65. DARWIN, C. Origem das Espécies. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1871/1985. 366p. GEARY, D. C. Evolution and proximate expression of human paternal investment. Psychological Bulletin, v.126, p. 55-77, 2000. GEARY, D. C. e FLINN, M. V. Evolution of human parental behavior and human family. Parenting: Science and Practice, v. 1-2, p. 55-61, 2001. GRAY, P. B; KAHLENBERG, S. M.; BARRETT, E. S.; LIPSON, S. F. e ELLISON, P. T. Marriage and fatherhood are associated with lower testosterone in males. Evolution and Human Behavior, v. 23, p.193-201, 2002. HRDY, S. B. Mãe-Natureza: uma visão feminina da evolução, maternidade, filhos e seleção natural. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Campus, 2001. 695p. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira — 333

KLAUS, M. H.; KENNELL, J. H. e KLAUS, P. H. Vínculo: construindo as bases para um apego seguro e para a independência. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.187p. LAMB, M. E. Fathers and child development: an introductory overview and guide. In: LAMB, M.E. (Editor) The role the father in child development. 3a ed. New York: John Wiley e Sons, 1997a, p. 1-18. LAMB, M. E. The development of father-infant relationships. In: LAMB, M.E. (Editor). The role the father in child development. 3. ed. New York: John Wiley e Sons, 1997b, p.104-120. LEWIS, C. e DESSEN, M. A. O pai no contexto familiar. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 15, p. 9-16, 1999. LINTON, R. Homem: uma introdução à Antropologia. 10. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1976. 493p. LORENZ, K. Os fundamentos da Etologia. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1973. 466p. MARLOWE, F. Parental investment and the human mating system. Behavioural Processes, v. 51, p. 45-61, 2000. PLECK, J. H. Paternal involvement: levels, sources, and consequences. In: LAMB, M. E. (Editor). The role the father in child development. 3. ed. New York: John Wiley e Sons, 1997, p. 66-103. PLECK, E. H. e PLECK, J. H. Fatherhood ideals in the United States: historical dimensions. In: LAMB, M. E. (Editor). The role the father in child development. 3 a. ed. Nova York: John Wiley e Sons, 1997. RIBAS, A. F. P.; SEIDL DE MOURA, M. L. e RIBAS Jr., R. de C. Responsividade materna: levantamento bibliográfico e discussão conceitual. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 16, p. 137-145, 2003. ROHNER, R. P.; VENEZIANO, R. A. The importance of father love history and contemporary evidence. Review of General Psychology, v. 5, p. 382-405, 2001.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


334 — Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental

ROSENBLATT, J. S. Hormone-behavior relations in the regulation of parental behavior. In: BECKER, J. B.; BREEDLOVE, S. M. e CREWS, D. (Editors). Behavioral endocrinology. Massachusetts: Massachusetts Institute of Technology, 1992, p. 219-229. SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 10a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 489p. STOREY, A.; WALSH, C. J.; QUINTON, R. L. e WYNNE-EDWARDS, K. Hormonal correlates of parental responsiveness in new and expectant father. Evolution and Human Behavior, v. 21, p. 79-95, 2000. TOKUMARU, R. S. Bases evolutivas do comportamento materno. In: COSTA, M.J.R.P. e CROMBERG, V. U. (Orgs.). Comportamento materno em mamíferos: bases teóricas e aplicações aos ruminantes domésticos. São Paulo: Sociedade Brasileira de Etologia, 1998, p.53-99. TRIVERS, P. L. Parental investment and sexual selection. In: CAMPBELL, B. (Editor). Sexual selection and descent of man. Chicago: Aldine Press,1972, p. 136-179. VENEZIANO, R. A. The importance of paternal warmth. Cross-Cultural Research, v. 37, p. 265-281, 2003. VIEIRA, M. L. Comportamento materno e paterno em roedores. Biotemas, v. 16, p.159-180, 2003. VOLAND, E. Evolutionary ecology of human reproduction. Annual Review of Anthropology, v. 27, p. 347-374, 1998. ZEVELOFF, S. I. e BOYCE, M. S. Parental investment and mating in mammals. Evolution, v. 34, p. 973-982, 1980. (Recebido em janeiro de 2004 e aceito para publicação em abril de 2004)

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.313-334, outubro de 2003


Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas dos pequenos primatas neotropicais*

Cristina Valéria Santos1 Universidade do Sul de Santa Catarina

Resumo

Abstract

O sistema monogâmico de acasalamento é raro entre os mamíferos. Entretanto, os calitriquídeos têm sido considerados monógamos devido à exibição de um conjunto de comportamentos que caracterizam este sistema social. Vários estudos descritos neste artigo mostram que os comportamentos exibidos pelo casal modificam-se diante de três situações: tempo de pareamento, período periovulatório da fêmea e nascimento dos filhotes. Essas alterações comportamentais têm sido interpretadas como formas alternativas de asse-

Monogamy is not common in mammals, but some callithrichd species are regarded as monogamous due to behavioral displays of animals. In fact, many findings reveal that the behavior of male and female changes in accordance to the pair-bond time, ovulation and parturition. The increased frequency of affiliative and sexual behavioral displays by recently paired animals and between male and female during the periovulatory phase are essential for the formation of

__________________________________________________

* Monogamous mating system and reproductive strategies of small Neotropical primates 1 Endereço para correspondências: Rod. Haroldo Soares Glavan, 3522, casa 20, Cacupé, 88050-005, Florianópolis, SC (E-mail: sagui@cfh.ufsc.br). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


336 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

gurar o sucesso reprodutivo do casal. A alta freqüência na exibição de comportamentos afiliativos e sexuais em casais recém-formados e durante a fase periovulatória é essencial para a formação da ligação do par e garantir a fecundação da fêmea. As relações sociossexuais modificam-se também no final da gestação e imediatamente após o nascimento dos filhotes. O estreitamento das relações afiliativas durante estas fases pode assegurar a permanência e a assistência do macho no cuidado parental, enquanto os machos aumentariam suas chances de uma nova reprodução com sua parceira reprodutiva. Como vários estudos têm sugerido que diferentes situações reprodutivas podem influenciar na expressão do comportamento do casal. É proposto que tais variáveis devam ser consideradas e controladas, principalmente naquelas pesquisas realizadas com primatas criados em cativeiro.

monogamous pairs and fecundation. Sociosexual relations change at the end of gestation and immediately after parturition. The consolidation of the pair-bond relations makes males more susceptible to exhibit parental care; monogamous pair bond also favors males, since their reproductive performances may be increased due to new copulatory opportunities. On the whole, may studies have been demonstrated that the behavior of male and female may be affected by many types of variables; it has bee argued that such factors should be taken in consideration in the studies of the behavior or primates in captivity.

Palavras-chave: Monogamia, comportamento reprodutivo, cuidado cooperativo, calitriquídeos.

Keywords: Monogamy, reproductive behavior, cooperative infant care, callitrichids.

Introdução

O

sistema monogâmico de acasalamento ou o acasalamento entre um macho e uma fêmea durante uma ou várias estações reprodutivas é extremamente raro entre os mamíferos. A observação de casais monógamos foi registrada em apenas algumas espécies de roedores, canídeos e primatas (SNOWDON, 1990; CARTER et al., 1993; ASA, 1997).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 337

Nas espécies de mamíferos nas quais a monogamia ocorre, determinadas características comportamentais são normalmente observadas (KLEIMAN, 1977a). Podem ser citadas: a) constante proximidade espacial do par, independente da condição reprodutiva da fêmea; b) preferência por determinado (a) parceiro (a) durante a estação de acasalamento; c) ausência de adultos não parentes no território defendido pelo casal; d) exibição de agressão do par direcionado a adultos que tentam imigrar para o grupo; d) reprodução de apenas um casal no grupo familiar, resultando em muitos casos em famílias estendidas; e) exibição da corte envolvendo pouco gasto energético do macho; f) pouco ou nenhum dimorfismo sexual; g) participação ativa do macho reprodutor no cuidado com a prole. Entretanto, Dewsbury (1987) apontou dificuldades na definição e nacaracterização da monogamia entre os vertebrados, sugerindo que dificilmente poderíamos provar sua existência nos animais. Para Dewsbury (op. cit.) a monogamia pode ser identificada a partir de três critérios: a exclusividade no acasalamento, a associação do par e a união dos esforços do casal no cuidado parental. Entretanto, para Dewsbury (op. cit.), a exclusividade no acasalamento abrange dois aspectos difíceis de serem investigados. O primeiro é a certeza de que o par investigado mantém exclusividade sexual, pois cópulas furtivas muitas vezes deixam de ser registradas, devido às dificuldades na observação de determinadas espécies tanto na natureza como no semicativeiro. O segundo aspecto refere-se à certeza da paternidade em relação à prole. Quando se tem a possibilidade de utilizar marcadores genéticos, muitas vezes o macho identificado como parceiro constante da fêmea não é o pai genético de todos os filhotes. O segundo critério, que define a monogamia – a associação “ prediz a existência de prolongada co-habitação entre um macho e uma fêmea em particular, na qual ambos são normalmente observados utilizando o mesmo ninho ou toca, deslocam-se juntos e defendem o território de forma conjunta. O terceiro e último critério prevê que a união do par no cuidado parental ocorre quando a criação dos filhotes se dá pelo casal. Estudos com um pequeno roedor descrito como monógamo – o vole-da-pradaria (Microtus ochrogaster) – têm mostrado, através da utilização de testes de DNA, que em casais observados utilizando a mesma área e com ativa participação do macho na criação dos filhotes, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


338 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

o macho muitas vezes não é o pai genético de todos os filhotes da ninhada (CARTER e GETZ, 1993). Assim, estudos que investigaram o comportamento sociossexual de espécies monógamas têm considerado a cohabitação do par (ou a exclusividade social) como critério mais importante para a caracterização da monogamia, em vez da exclusividade no acasalamento (CARTER e GETZ, 1993; DIXSON, 1997). Entre os primatas do Velho Mundo o acasalamento de um único par durante a estação de acasalamento parece se restringir às espécies do gênero Hylobates (gibões e siamangos) e às espécies Cercopithecus neglectus e Presbytis potenziani (macaco-de-Brazza e macacodo-peito-vermelho, respectivamente) (EVANS e POOLE, 1984; VAN SCHAIK e DUNBAR, 1990; PALOMBIT, 1996). Já pequenos primatas neotropicais – os calitriquídeos2 – além de alguns Cebidae (Aotus spp: macaco-da-noite e Callicebus spp: sauás), têm sido considerados monógamos em função da exibição de um conjunto de comportamentos característicos do sistema monogâmico de acasalamento. Por exemplo, exibição de um padrão de ligação sociossexual de longo prazo (EVANS e POOLE, 1984; SAVAGE et al., 1988; SNOWDON, 1990; SCHAFFNER et al., 1995); cuidado cooperativo dos filhotes, com participação ativa do macho reprodutivo (TARDIF et al., 1990; PRICE, 1992; TARDIF, 1994; SANTOS et al., 1997; SANTOS, 1998); agressividade dos dominantes em relação aos demais membros do grupo, especialmente entre fêmeas ou indivíduos que imigram para o grupo (FRENCH e SNOWDON, 1981; ANZENBERGER, 1985; FRENCH e INGLETT, 1989, 1991; EPPLE, 1990). A ligação do casal na manutenção do bem estar–social do par Se, por um lado, a co-habitação favorece a ligação sociossexual do casal, a separação proporciona mudanças drásticas, tanto comportamentais como fisiológicas. Por exemplo, Smith e colaboradores (1998) observaram que o estresse causado pela separação física do casal no sagüi-de-tufo-preto-de-Wied (Callithrix kuhlii) poderia ser menor caso um dos parceiros mantivesse contato visual com o outro. __________________________________________________ 2

A família dos primatas calitriquídeos compõe os menores representantes dos primatas neotropicais e possui quatro gêneros: Leontopithecus (os micos-leões), Saguinus (os micos Amazônicos), Callithrix (os sagüis) e o Cebuella (o saguizinho-leãozinho-da-Amazônia).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 339

Quando um dos sagüis era colocado em uma gaiola menor, mas com visualização total do parceiro, os níveis de cortisol (hormônio utilizado para medir o estresse) e de agitação do animal separado eram menores que do animal colocado numa outra sala (em um novo ambiente e sem a visualização do parceiro). Após a reunião, os casais que foram privados do contato visual exibiram freqüências mais altas de contato físico que aqueles que mantiveram contato visual durante a separação. Resultados semelhantes foram obtidos por Hennessy e colaboradores (1995) em um experimento bastante similar com Callicebus moloch (macaco-do-crepúsculo). Além do aumento dos níveis de cortisol, foi observado, ainda, que a separação física dos parceiros no macaco-do-crepúsculo pode causar o aumento dos batimentos cardíacos no animal separado (CUBICCIOTTI e MASON, 1975). Esses estudos sugerem a participação de mecanismos fisiológicos e comportamentais, que são disparados em função de alterações no ambiente social – separação e reunião do casal – o que poder estar diretamente relacionado com a manutenção da ligação do par após situações de estresse (ANZENBERGER, 1992; SMITH et al., 1998). Os mecanismos fisiológicos e comportamentais para a manutenção da reprodução de uma única fêmea no grupo Estudos com primatas calitriquídeos têm tentado estabelecer uma relação entre os altos custos reprodutivos da fêmea e aos fatores que permitiram a evolução da monogamia. A grande proporção de nascimentos de gêmeos, a alta relação de peso filhote/mãe (podendo chegar a 21% o peso dos gêmeos do sagüi-do-Nordeste , C. jacchus), e a ausência de supressão da ovulação durante a lactação (que possibilita uma nova gravidez poucos dias após o nascimento dos filhotes) são alguns fatores que contribuem para os altos custos da reprodução nos calitriquídeos (LEUTENEGGER, 1973, 1979; HEARN, 1983; TARDIF et al., 1984; SNOWDON et al., 1985; TARDIF, 1994). Nos calitriquídeos, por exemplo, a fêmea reprodutiva amamenta mais freqüentemente seus filhotes comparado às mães dos gêneros Aotus (macaco-da-noite), Callicebus (sauá) e Callimico (macaco-de-Goeldi), devido ao rápido desenvolvimento das crias, o que, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


340 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

conseqüentemente, acarreta um aumento das taxas de transporte por ela (TARDIF, 1994; GARBER e LEIGH, 1997). Estes autores propõem que o rápido crescimento dos filhotes, em relação ao tamanho e ao peso da mãe, tenha propiciado a evolução de um sistema social, no qual vários indivíduos participariam na alimentação e no transporte da prole. Assim, é provável que o sistema monogâmico de acasalamento e o cuidado cooperativo dos filhotes (pelo pai e demais indivíduos do grupo) tenham co-evoluído a partir do elevado custo energético dos cuidados parentais. O sistema cooperativo propicia uma diminuição gradual do transporte dos filhotes pela fêmea e na partilha de alimento pelos diferentes indivíduos do grupo (SANTOS et al., 1997; observação pessoal). A contribuição no cuidado dos filhotes pelos ajudantes tem sido explicada com base na aptidão abrangente e seleção de parentesco (HAMILTON, 1964). Quando um indivíduo auxilia seus pais no cuidado parental de um irmão mais jovem, este pode estar garantindo tanto a sobrevivência como o sucesso reprodutivo de indivíduos que possuem metade de seus próprios genes, o que representaria um ganho indireto. Por outro lado, quando um indivíduo passa pela experiência da aprendizagem do cuidado, há um beneficio que pode ser medido pelo seu próprio sucesso reprodutivo ou um ganho direto (CLEVELAND e SNOWDON, 1984; TARDIF et al., 1984; SANTOS et al., 1997). Enquanto permanece no grupo, o ajudante tem a chance de participar do cuidado dos filhotes em sucessivas parturições. A presença de filhotes recém-nascidos também parece ser responsável por provocar estimulação hormonal no macho reprodutivo, que, por sua vez, influencia na expressão do cuidado parental (DIXSON e GEORGE, 1982; ZIEGLER et al., 1996; SOUSA e MOTA, 1998; NUNES et al., 2000, 2001; ZIEGLER e SNOWDON, 2000). Entretanto, quais mecanismos estariam atuando no adiamento da reprodução das demais fêmeas do grupo? Ou quais estratégias são utilizadas pela fêmea reprodutiva para garantir apenas sua própria reprodução? Uma característica marcante dos primatas calitriquídeos é a supressão hormonal ou inibição da reprodução das demais fêmeas do grupo imposta pela fêmea reprodutora. A inibição da ovulação ou a exibição de ciclos ovarianos irregulares parece ser importante fator para a manutenção de uma única fêmea reprodutiva no grupo. A supressão da fertilidade das fêmeas filhas ou subordinadas já foi observada, por exemplo, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 341

em alguns gêneros de calitriquídeos: Saguinus oedipus (FRENCH et al., 1984; ZIEGLER et al., 1987; SAVAGE et al., 1988), S. fuscicollis (EPPLE e KATZ, 1983), S. labiatus (KUDERLING et al., 1995), Callithrix jacchus (ABBOTT e HEARN, 1978; ABBOTT 1984, 1987; ABBOTT et al., 1981; ABBOTT e GEORGE, 1991; ABBOTT et al., 1992; SMITH et al., 1995), C. kuhlii (SMITH et al., 1997) e Cebuella pygmaea (CARLSON et al., 1997). Entretanto, em grupos estritamente familiares de espécies do gênero Callithrix existem evidências de que uma das fêmeas, geralmente a filha mais velha, exiba ciclos ovarianos (ABBOTT e GEORGE, 1991; SALTZMAN et al., 1997; SMITH et al., 1997). Embora a filha mais velha ovule, ela não interage sexualmente com os machos adultos do grupo. Várias hipóteses têm sido formuladas a respeito dos mecanismos pelos quais a fêmea dominante poderia provocar mudanças fisiológicas nas demais fêmeas, tendo sido citada na literatura a influência de fatores feromonais3, sociais e a “barreira da endogamia”. Entretanto, não poderíamos descartar a possibilidade de esses fatores atuarem conjuntamente. Um dos mecanismos que poderia atuar na supressão da fertilidade das fêmeas do grupo seria resultado das pistas químicas emitidas pela dominante (ou reprodutiva). Existem evidências de que estímulos feromonais, emitidos através de marcações anogenitais ou circungenitais de cheiro, poderiam resultar em mudanças drásticas na fertilidade das demais fêmeas. No caso do sagüi-do-Nordeste (Callithrix jacchus), a falha reprodutiva nas fêmeas subordinadas parece ser resultado de uma insuficiência de hormônios produzidos pelo hipotálamo e pela hipófise (ABBOTT et al., 1990). Esta espécie possui vestígios do órgão vomeronasal, e odores recebidos através das marcações de cheiro podem ser importantes na regulação da fisiologia reprodutiva das fêmeas (KEVERNE, 1987; ZIEGLER et al., 1990; SMITH et al., 1994; TANAGUCHI et al., 1992). Além dos mecanismos fisiológicos citados acima, contatos físicos e visuais, com a fêmea dominante – ou o estresse social – também têm sido apontados como responsáveis pela inibição da atividade reprodutiva das demais fêmeas e a manutenção de uma única fêmea reprodutiva. __________________________________________________ 3

Feromônios são mensagens químicas voláteis que agem em outros indivíduos, normalmente da mesma espécie, através de receptores olfativos ou gustativos, alterando o comportamento ou o sistema neuroendócrino (BROWN, 1994).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


342 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

O estresse social parece ser um importante mecanismo para inibição da reprodução de fêmeas de mico-leão-dourado. Nesta espécie a supressão de hormônios ovarianos das filhas adultas ou subordinadas parece estar ausente (FRENCH, 1997). Não apenas no mico-leão-dourado, mas também em outras espécies de primatas calitriquídeos, o estresse social é resultado da constante e incansável agressividade emitida pela fêmea reprodutiva do grupo (FRENCH, 1997). Tanto em grupos alojados em cativeiro como os observados em seu ambiente natural, é praticamente impossível a entrada de uma fêmea adulta desconhecida, devido à alta agressividade emitida pela dominante através de comportamentos específicos (perseguição e vocalização). Anzenberger e colaboradores (1996) levantaram uma terceira hipótese para a manutenção da fertilidade de uma única fêmea no grupo, que seria a evitação da procriação consangüínea entre parentes ou a “barreira da endogamia”. Por exemplo, estes autores formaram dois grupos de fêmeas de sagüi-do-Nordeste . No primeiro elas foram separadas do grupo e alojadas com o irmão ou com o pai. No segundo grupo as fêmeas foram alojadas com um macho não parente. Os resultados revelaram que nenhuma das fêmeas pareada com machos parentes exibiu ciclos ovarianos normais, enquanto cinco das sete pareadas com machos desconhecidos ovularam e conceberam em apenas dez dias. Anzenberger e colaboradores (op. cit.) sugerem que, dentro do grupo familiar, o reconhecimento do odor dos machos parentes pode contribuir para a supressão da fertilidade das fêmeas não dominantes. Esses resultados tendem a concordar com outros estudos em que fêmeas anovulatórias iniciaram ciclos ovarianos normais e copularam ativamente logo após terem sido separadas do grupo familiar e pareadas com machos não parentes (S. oedipus: FRENCH et al., 1984; WIDOWSKI et al., 1990; C. jacchus: ABBOTT e GEORGE, 1991). Identificação de outras formas mais flexíveis de acasalamento nos calitriquídeos Se, por um lado, à monogamia é freqüentemente observada em calitriquídeos criados em cativeiro, na natureza formas mais flexíveis de acasalamento, como a poliginia (acasalamento de um macho com duas ou três fêmeas) e a poliandria (acasalamento da fêmea com dois ou três machos), Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 343

já foram identificadas. Digby e Ferrari (1994), por exemplo, identificaram a poliginia em três grupos de sagüi-do-Nordeste na Estação Florestal Experimental em Nísia Floresta (RN). O grau de parentesco entre machos e fêmeas que foram observados copulando não foi identificado. Para estes autores fatores, demográficos como a alta densidade populacional na área estudada e grupos com muitos indivíduos, além do fatores ecológicos como a alta disponibilidade de alimento, especialmente gomas e exsudatos, poderiam ter colaborado para o surgimento e manutenção da poliginia. Goldizen e colaboradores (1996), após treze anos de pesquisas com onze grupos de S. fuscicollis na Amazônia peruana, sugeriram que o mais comum na área estudada era a reprodução de uma única fêmea durante as estações de acasalamento. Entretanto, estes autores confirmaram a ocorrência de reprodução simultânea de duas fêmeas (em alguns casos mãe e filha) em seis situações diferentes. Dessas seis situações, em quatro casos em que uma segunda fêmea conseguiu se reproduzir (geralmente mais nova que a dominante) elas desapareceram ou deixaram o grupo cerca de um ano após o nascimento da sua cria. É possível que a tentativa da reprodução tenha resultado na possível emigração ou expulsão da fêmea de menor status social. Na Amazônia colombiana Savage e colaboradores (1997) realizaram dosagens hormonais em fêmeas S. oedipus na tentativa de correlacionar a emigração de fêmeas com possíveis mudanças hormonais. Foi verificado que, em um dos grupos, a expulsão de uma das fêmeas (filha) pela fêmea dominante ocorreu quando a filha engravidou. As dosagens hormonais realizadas neste estudo revelaram, ainda, que todas as fêmeas filhas do grupo não exibiam ciclo ovariano. Ao que parece, assim como tem sido descrito nos trabalhos realizados com calitriquídeos criados no cativeiro, fatores que podem estar relacionados com o baixo sucesso reprodutivo das fêmeas não dominantes, tais como a redução da expressão dos hormônios ovarianos e a agressividade da fêmea dominante direcionada às demais fêmeas podem também ser disparados em grupos selvagens. No mico-leão-dourado a poliginia foi registrada em cerca de 10% dos grupos estudados ao longo de oito anos de pesquisas na Reserva Biológica de Poço das Antas, RJ (DIETZ e BAKER, 1993). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


344 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

Os nascimentos, em sua grande maioria, ocorreram em grupos em que as fêmeas eram aparentadas (mãe e filha, ou entre irmãs). Entretanto, em apenas poucos grupos houve sobrevida dos filhotes da fêmea não dominante. O baixo sucesso reprodutivo destas fêmeas poderia estar associado à inexperiência reprodutiva. Outros aspectos, tais como, a saturação de micos e o isolamento da mata, seriam fatores que tenderiam a reduzir a dispersão e aumentar a incidência de poliginia. Dietz e Baker (op. cit.) especularam que a reprodução de fêmeas parentes com um macho sem parentesco pode ser positiva para o grupo, uma vez que proporciona um aumento da aptidão abrangente. Em cativeiro a ocorrência de acasalamentos de duas fêmeas de calitriquídeos com um mesmo macho também foi registrada em C. jacchus, C. kuhlii e S. oedipus, e estaria relacionada, principalmente, com a introdução de um macho não aparentado no grupo (KOENIG e ROTHE, 1991; PRICE e MCGREW, 1991; ALONSO e PORFÍRIO, 1993). Saltzman e colaboradores (1996) realizaram um experimento testando esta hipótese. O objetivo desta pesquisa foi o de investigar a relação entre a retirada do pai e a introdução de um macho estranho ao grupo com mudanças hormonais em filhas adultas de C. jacchus. Os resultados das dosagens da progesterona no plasma sangüíneo mostraram que, em todos os grupos estudados, uma das filhas começou a ovular logo após a introdução do macho estranho. Paralelamente ao início da atividade ovariana, as filhas se tornaram dominantes em relação à mãe. Estas fêmeas também interagiram sexualmente com os machos introduzidos, e a concepção foi identificada na maior parte das filhas estudadas. Algumas pesquisas de campo têm revelado que dois ou três machos podem copular com a fêmea reprodutiva do grupo, mostrando que em algumas situações os calitriquídeos podem exibir o sistema poliândrico de acasalamento. Estudos com aves têm sugerido uma correlação positiva entre a ocorrência da poliandria e os altos custos da criação dos filhotes (EMLEN e ORING, 1977). Em algumas espécies de calitriquídeos, esta parece ser também uma possível explicação para o surgimento da poliandria. O alto custo do transporte dos filhotes, normalmente gêmeos, e os grandes deslocamentos para o forrageamento parecem ser as principais pressões para o surgimento de um sistema de acasalamento poliândrico (GOLDIZEN et al., 1996). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 345

Sussman e Garber (1987) apontam que, na Amazônia, dificilmente casais sozinhos de S. fuscicollis e S. mystax se reproduzem ou alcançam sucesso reprodutivo, sugerindo que a taxa de sobrevivência dos filhotes parece se tornar maior a partir da imigração de mais um macho para o grupo. Freqüentemente, os machos dos grupos poliândricos exibem uma alta participação no transporte dos filhotes (SUSSMAN e GARBER, 1987). A ocorrência da poliandria, somada a uma maior taxa da sobrevivência dos filhotes, em situações nas quais não existem ainda ajudantes presentes (animais nascidos ou que tenham imigrado para o grupo), beneficiaria tanto os machos como a fêmea (TERBORGH e GOLDIZEN, 1985; GARBER et al., 1993; GOLDIZEN et al., 1996). Com o aumento do número de indivíduos no grupo, proveniente do nascimento de proles sucessivas, a monogamia tornar-se-ia, então, um sistema de acasalamento viável, para que o sucesso reprodutivo pudesse ser igualmente alcançado (GOLDIZEN, 1987). Em um estudo de campo, com C. humeralifer, Rylands (1985) verificou que, apesar de os três machos do grupo estudado terem montado na fêmea reprodutiva, não foi possível confirmar se dois deles exibiram intromissão e ejaculação. Entretanto, o transporte dos três pares de filhotes nascidos durante a pesquisa foi principalmente observado por dois dos três machos que foram vistos montando a fêmea. Rylands (1985), e Terborgh e Goldizen (1985) apresentaram a hipótese de que a incerteza da paternidade, gerada pelo sistema poliândrico de acasalamento, poderia induzir uma participação ativa destes machos no cuidado dos filhotes. Nos calitriquídeos, os gêmeos gerados são dizigóticos, o que possibilita a paternidade genética de um ou dois machos (BERNIRSCHKE e LAYTON, 1969, apud SUSSMAN e KINZEY, 1984). Um padrão diferente de poliandria foi observado por Baker (1991) em L. rosalia na natureza. Em grupos com dois ou três machos adultos, apenas um dos machos foi observado copulando com a fêmea reprodutiva. Este macho era também bastante agressivo com os demais machos do grupo, monopolizando a fêmea durante os períodos de cópula. Passado o período em que um dos machos adultos a monopolizava, os outros, então, copulavam com ela. Neste caso, a monopolização da fêmea parece estar intimamente ligada ao seu momento reprodutivo, o que poderia resultar na fertilização dos óvulos por apenas um macho. Dietz e Baker (1996) apontam que estes grupos podem ser caracterizados como socialmente poliândricos, mas geneticamente monogâmicos. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


346 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

Schaffner (1996) investigou como a poliandria poderia afetar as relações entre machos e fêmeas de C. kuhlii. Grupos contendo dois machos e uma fêmea foram artificialmente formados e monitorados. Os resultados revelaram que a fêmea não exibiu preferência entre os machos na manutenção do contato e demais interações sociais. Além disso, ambos os machos foram observados exibindo comportamentos sociais e sexuais com a fêmea. A autora sugere que a fêmea Callithrix seria capaz de exibir comportamentos afiliativos com mais de um macho no grupo. Tal comportamento poderia lhe conferir vantagens, uma vez que ambos os machos poderiam ser os pais das crias e participarem ativamente no cuidado parental. Alterações no repertório comportamental do par em função de variáveis sociais e biológicas Estudos mais detalhados sobre o repertório comportamental de casais de calitriquídeos, realizados em cativeiro, têm revelado que as relações afiliativas (sociais e sociossexuais) podem ser influenciadas por três fatores: duração da formação do casal ou do acasalamento, momento do ciclo ovariano da fêmea e nascimento dos filhotes. a) A influência do tempo de pareamento Estudos que compararam casais recém-formados com aqueles acasalados já há algumas semanas ou meses mostraram que casais que estão há pouco tempo vivendo juntos exibem altos níveis de interação sexual durante as primeiras semanas após o pareamento. Nesses casais as cópulas são mais freqüentes, e as iniciativas do macho em manter proximidade espacial com a fêmea também são maiores (C. jacchus: WOODCOCK, 1982; EVANS e POOLE, 1984; L. rosalia: STRIBLEY et al., 1987; C. kuhlii: SCHAFFNER et al., 1995; C. geoffroyi: YOUNG, 1994). Comparações feitas em pares de calitriquídeos acasalados por poucas semanas ou meses com aqueles acasalados há mais de um ano revelaram que as fêmeas cujos casais tinham menor tempo de pareamento, ficavam mais tempo em contato e catavam mais seus parceiros (SAVAGE et al., 1988; RUIZ, 1990). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 347

A exibição de comportamentos afiliativos e sexuais em casais recém-formados tem sido descrita como essencial para a formação da ligação do par (KLEIMAN, 1977b; EPPLE, 1977). Schaffner e colaboradores (1995) sugerem, ainda, que as altas freqüências de interações sexuais combinadas com uma maior responsabilidade do macho nas aproximações, logo após o pareamento, são padrões comportamentais que demonstram uma possível estratégia reprodutiva que resultaria em maiores chances de fertilização da fêmea. Em situações em que os acasalamentos são feitos de forma artificial, ou seja, quando a escolha do macho e da fêmea para o pareamento é feita por quem os maneja, é possível que haja certa variabilidade comportamental possibilitando a ocorrência de casais com diferentes características. Assim, para Silva e Sousa (1997) um maior investimento do macho e da fêmea na exibição dos comportamentos afiliativos em casais recém-pareados pode ser um indicativo do futuro sucesso reprodutivo do casal. Em um estudo com C. kuhlii, Santos (1998) observou que casais com até seis meses de pareamento realizavam mais marcações de cheiro (glândulas localizadas nas áreas anogenitais) e monitoravam mais os substratos do viveiro (cheirar e/ou lamber os poleiros) que aqueles pareados há mais de sete meses. Estudos já realizados com várias espécies de calitriquídeos têm mostrado que os indivíduos do grupo que mais realizam marcações de cheiro são o casal reprodutivo do grupo (EPPLE et al., 1993). Baseando-se na premissa de que casais realizam mais marcações de cheiro que os demais indivíduos do grupo e que os sinais químicos emitidos por eles podem ter importante papel comunicativo, há a possibilidade de o casal ser capaz de discriminar vários aspectos individuais do grupo através de informações químicas. Assim, é possível que a maior manifestação da marcação de cheiro em casais recém-pareados possa ser importante tanto na ligação do par como no reconhecimento interespecífico. b) A influência do ciclo ovariano As fêmeas de calitriquídeos não menstruam nem exibem sinais visuais na genitália que indiquem seu momento de receptividade sexual. Entretanto, muitas pesquisas têm mostrado a ocorrência de alterações no comportamento afiliativo e sexual entre o casal ao longo do ciclo ovariano. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


348 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

Kendrick e Dixson (1983), por exemplo, observaram que, durante a fase periovulatória (dias que circundam a ovulação), machos e fêmeas de C. jacchus exibiram com maior freqüência expressões faciais específicas (projeção da língua para fora e para dentro, interpretada como convite sexual) antes (proceptive tongue-flicks) e durante (receptive tongueflicks) a cópula. Coincidindo com as expressões faciais, as montas e cópulas também foram mais freqüentes durante a fase periovulatória que na fase não ovulatória. Estudos com C. jacchus e C. kuhlii (ROTHE, 1975; KENDRICK e DIXSON, 1983; SANTOS, 1998) e S. oedipus (BRAND e MARTIN, 1983) sugerem que os convites sexuais exibidos entre machos e fêmeas, durante o período periovulatório, estariam associados com o aumento do número de cópulas. Schaffner e colaboradores (1995) verificaram que em C. kuhlii a cópula (interação sexual bem-sucedida), a monta e a tentativa de monta (interações sexuais malsucedidas) estavam associadas com a exibição de convites sexuais. Assim, as interações sexuais bem-sucedidas – as cópulas – ocorreram sempre com maiores freqüências quando precedidas pelo convite sexual, enquanto as interações sexuais malsucedidas (tentativas de monta e monta) estavam associadas com a ausência de convite sexual entre macho e fêmea. Fêmeas também foram observadas emitindo mais convites sexuais que os machos. Assim, parece que a exibição de convites sexuais pelas fêmeas, especificamente durante o período periovulatório, poderia estar associada à motivação da fêmea em interagir sexualmente com seu parceiro. O papel das informações químicas também parece ser responsável pelo aumento das interações sociossexuais. As fêmeas são mais atrativas para os machos durante o período periovulatório que durante o não ovulatório. Em um estudo realizado com casais de C. pygmaea, criados em cativeiro, foi observado que os machos lamberam e cheiraram mais a região anogenital das fêmeas e suas marcações de cheiro durante este período. As montas também ocorreram com maior freqüência durante a fase periovulatória em comparação com a não ovulatória (CONVERSE et al., 1995; SANTOS, 1998). A fim de testar a capacidade de ambos os sexos em discriminar possíveis sinais feromonais emitidos pelas fêmeas ao longo do ciclo ovariano, Ziegler e colaboradores (1993) delinearam um interessante experimento com S. oedipus. Amostras de marcações de cheiro e de urina de fêmeas desconhecidas foram coletadas no interior dos viveiros, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 349

e através de dosagens do hormônio luteinizante (LH) foram determinados os períodos não ovulatórios e periovulatório. Neste estudo foi estipulado que a fase periovulatória seriam os três dias que circundaram o pico de secreção do LH, o que caracteriza a ovulação. Os autores observaram diferentes reações comportamentais do par, quando as amostras coletadas de marcação de cheiro foram introduzidas em locais estratégicos dentro dos viveiros. As amostras contendo informações do período periovulatório de uma fêmea desconhecida foram significativamente mais investigadas pelas fêmeas que as amostras provenientes de outros dias do ciclo ovariano. Os machos, por sua vez, copularam com suas parceiras e exibiram ereções do pênis quando estiveram expostos a marcações de cheiro e urina provenientes dessas amostras periovulatórias. Através desse experimento, Ziegler e colaboradores propuseram que a fêmea poderia ser capaz de emitir pistas olfativas, através de feromônios produzidos durante a ovulação, que informariam ao macho sua condição reprodutiva. Ao que tudo indica, a estimulação dos hormônios ovariano e hipotalâmico pode possibilitar a emissão de pistas comportamentais e feromonais pelas fêmeas. Juntas essas pistas poderiam tornar a fêmea mais atrativa para o macho, resultando em um aumento na freqüência das montas e cópulas. Por outro lado, o período periovulatório da fêmea também pode ser caracterizado por uma maior intensidade na performance das interações afiliativas pelo macho. Em C. kuhlii, por exemplo, o macho é o principal responsável pela proximidade espacial do casal, resultando em maiores períodos de contato físico durante o período de fertilidade máxima da fêmea (SANTOS, 1998). A manutenção da proximidade espacial exibida pelo parceiro, durante o período periovulatório da fêmea, estaria de acordo com a estratégia reprodutiva do macho, no que diz respeito a guardá-la e monopolizá-la. O comportamento do macho, em associação com o aumento do número de cópulas, poderia maximizar as chances de fertilização da parceira. c) A influência do nascimento dos filhotes As relações afiliativas e sociossexuais do casal podem, ainda, modificar-se em função de dois períodos: no final da gestação e imediatamente após o nascimento dos filhotes. Price (1992), baseando-se na perspectiva evolutiva, propôs que diferentes formas de investimento, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


350 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

tanto do macho como da fêmea, poucas semanas antes e após o parto, poderiam promover o estreitamento das relações do par. Segundo esta autora, esse estreitamento beneficiaria a fêmea no sentido de assegurar a permanência e, conseqüentemente, a assistência do macho no cuidado parental, enquanto os machos aumentariam suas chances de reproduzir novamente com a fêmea. Price (op. cit.) chegou a esta conclusão observando casais de S. oedipus durante 24 semanas, doze semanas antes e doze após o parto. Os resultados de seu estudo mostraram que as fêmeas foram as principais responsáveis pela manutenção da proximidade espacial, além de catarem mais o parceiro antes do nascimento dos filhotes. Os machos, por outro lado, foram os responsáveis pela manutenção da proximidade espacial e exibição de comportamentos afiliativos (cheirar e lamber o pêlo da fêmea) durante o primeiro mês após o parto. Mota e colaboradores (1995) obtiveram resultados semelhantes aos de Price em estudos com casais de C. jacchus no que diz respeito às aproximações do macho e da fêmea e às catações exibidas pelas fêmeas antes do parto. Observações realizadas por Santos (1998) com casais de C. kuhlii revelaram que as relações tanto sociais como sociossexuais do par tornaram-se mais intensas após o nascimento dos filhotes. Machos e fêmeas ficaram significativamente mais em contato físico durante as semanas após o parto. Durante esse mesmo período, o macho também seguiu e copulou com a fêmea significativamente mais, enquanto as fêmeas exibiram mais o convite sexual. Antes do nascimento dos filhotes, a fêmea foi responsável pela manutenção da proximidade espacial entre parceiros, enquanto que após o parto o macho foi o principal responsável. A estratégia reprodutiva do par poderia estar intimamente relacionada ao fato de a fêmea gerar gêmeos e da fundamental participação do macho no transporte dos filhotes (PRICE, 1992). Sendo assim, com o investimento da fêmea no estreitamento das relações do par antes do nascimento dos filhotes, é provável que haja um aumento na tendência de o macho permanecer e cuidar dos filhotes. O macho, por outro lado, além de exibir cuidado paterno, tenderia a investir mais na fêmea durante o período pós-parto (período, também, da provável ovulação), maximizando, assim, suas chances de ser o pai da próxima geração de filhotes. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 351

Considerações finais Resultados obtidos através de experimentações em cativeiro têm revelado que vários mecanismos podem estar envolvidos na manutenção da reprodução de uma única fêmea no grupo. Entretanto, até o momento, esses estudos têm se concentrado em poucas espécies. Por outro lado, o aumento do número de trabalhos realizados em ambiente natural, especialmente na última década, tem revelado que o sistema monogâmico de acasalamento não é uma regra. Entretanto, embora existam estudos revelando a possibilidade de diferentes sistemas de acasalamento, investigações com mais espécies de primatas calitriquídeos ainda são necessárias. Também foram apresentados resultados que demonstram a flexibilidade do comportamento reprodutivo, sugerindo que tanto o macho como a fêmea exibem estratégias comportamentais que tendem a resultar no sucesso reprodutivo do casal. Foi exposto que as relações sociossexuais do casal podem se modificar diante de três situações: o tempo de pareamento do casal, a ovulação da fêmea e o nascimento dos filhotes. Assim, estudos, principalmente os realizados em primatas criados em cativeiro, devem dispor de mecanismos para controlar tais variáveis. Dentre as variáveis citadas acima, o tempo de pareamento e a presença de filhotes seriam as de mais fácil controle por parte do pesquisador, uma vez que a determinação do período periovulatório da fêmea exige a coleta de material biológico e dosagens hormonais. Entretanto, sabendo-se a duração da gestação e da média em dias da ovulação pósparto da espécie estudada, muitos pesquisadores têm utilizado o intervalo entre os partos para obtenção do provável período da ovulação. Uma vez que vários estudos têm sugerido que a experiência reprodutiva prévia e a duração da co-habitação do par podem influenciar a expressão do comportamento do casal, tais variáveis devem ser consideradas quando se pretende realizar uma pesquisa que envolve a compreensão de comportamentos sociossexuais. É possível que mudanças comportamentais específicas, como as cópulas e a proximidade espacial, cuja função está relacionada com a formação da ligação do par, ocorram com maiores freqüências durante as primeiras semanas após o pareamento. Após vários meses de acasalamento, o comportamento social ou sociossexual pode se estabilizar, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


352 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

e a elevação das respostas pode estar relacionada com a ovulação das fêmeas. Assim, para que se identifiquem possíveis modificações entre os comportamentos a serem estudados, é necessário o acompanhamento dos pares desde os primeiros dias de co-habitação, envolvendo ainda, quando possível, a determinação dos períodos periovulatórios das fêmeas. Comparações entre casais que estão acasalados há semanas ou meses com casais recém-pareados, sem que haja o controle destas variáveis, podem levar à obtenção de resultados não conclusivos sobre a expressão de comportamentos sociais e sexuais. Estudos que enfocam o comportamento afiliativo de casais recémpareados devem também levar em consideração que os acasalamentos em cativeiro são realizados pelo pesquisador, nos quais não há nenhuma participação dos primatas na escolha pelo parceiro(a). Acasalamentos artificiais podem, em muitas situações, resultar na demora da reprodução, visto que muitas vezes há pouca expressão de comportamentos afiliativos e sexuais pelo casal (observação pessoal). De maneira geral, a privação do contato social por um longo período resulta, em muitos casos, na ativação da secreção de cortisol pela hipófise, propiciando o surgimento de várias conseqüências deletérias à saúde do primata. Assim, é importante considerar que a garantia do bemestar é resultado do conhecimento das características da espécie e de um manejo adequado. Agradecimentos Parte dos resultados apresentados são de pesquisas realizadas pela autora no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro/CPRJ-FEEMA, com financiamentos concedidos pela CAPES, pelo CNPq e pela FAPESP. Agradeço ao Prof. Adelmar Faria Coimbra-Filho e ao Dr. Alcides Pissinatti pelo apoio e no fornecimento de condições logísticas, o que tornou possível a coleta de dados comportamentais e material biológico dos calitriquídeos. Referências bibliográficas ABBOTT, D. H. Behavioral and physiological suppression of fertility in subordinate marmoset monkeys. American Journal Primatology, v. 6, p.169-186, 1984. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 353

ABBOTT, D. H. Behaviourally mediated suppression of reproduction in female primates. Journal Zoology of London, v. 213, p.455-470, 1987. ABBOTT, D. H. e GEORGE, L. M. Reproductive consequences of changing social status in female common marmosets. In: BOX, H. (Editor). Primate Responses to Environmental Change. London: Chapman-Hall, p. 294-309, 1991. ABBOTT, D. H.; GEORGE, L. M.; BARRET, J.; HODGES. J. K.; O’BYRNE, K. T. E SHEFFIEL, J. W. In: SUTHERLAND, I. A.; CHAMBERS, G. R.; LUNN, S. F. e ELVIRA, M. C. R. Elvira (Editors). Socioendocrinology of primate reproduction. Wiley-Liss, p. 135158, 1990. ABBOTT, D. H.; GEORGE, L. M. E FERREIRA, B. R. Endocrine and behavioral constraints on reproduction in subordinate male common marmosets. American Journal of Primatology, v. 27, p. 13-66, 1992. ABBOTT, D. H. e HEARN, J. Physical, hormonal and behavioural aspects of sexual development in the marmoset monkey (Callithrix jacchus jacchus). Journal of Reproduction and Fertility, v. 53, p.155-166, 1978. ABBOTT, D. H.; MCNEILLY, A. S.; LUNN, S. F.; HULME, M. J. E BURDEN, F. J. Inhibition of ovarian function in subordinate female marmoset monkeys (Callithrix jacchus). Journal of Reproduction and Fertility, v. 63, p. 335-345, 1981. ALONSO, C. E PORFÍRIO, S. Um caso de poliginia em Callithrix kuhlii com criação simultânea dos filhotes. Biotemas, v. 6, n. 2, p. 89-99, 1993. ANZENBERGER, G. How stranger encounters of common marmosets (Callithrix jacchus jacchus) are influenced by family members: the quality of behavior. Folia Primatologica, v. 45; p. 204-224, 1985. ANZENBERGER, G. Monogamous social systems and paternity in primates. In: MARTIN, R. D.; DIXSON, A. F. e WICHING, E. J. (Editors). Paternity in primates: genetics tests and theories. Basel: Karger, 1992, p. 203-224. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


354 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

ANZENBERGER, G.; HORTZ, A. e KELLER, M.. Behavioral endocrinology of inbreeding avoidance in female common marmosets (Callithrix jacchus). Resumo apresentado no CONGRESS OF THE INTERNATIONAL PRIMATOLOGICAL SOCIETY 19, E CONFERENCE OF THE AMERICAN SOCIETY OF PRIMATOLOGISTS 19, Madison “ Wisconsin, 1996. ASA, C. S. Hormonal and experiential factors in the expression of social and parental behavior in canids. In: SOLOMON, N. G. e FRENCH, J. A. (Editors). Cooperative breeding in mammals. Cambridge: University Press, p. 129-149, 1997. BAKER, A. J. Evolution of the social system of the golden lion tamarin (Leontopithecus rosalia): mating system, group dynamics and cooperative breeding. 1991. 179 p. Tese (Doutorado), University of Maryland, Washington DC. BRAND, H. M. E MARTIN, R. D. The relationship between urinary estrogen excretion and mating behavior in cotton-topped tamarins, Saguinus oedipus oedipus. International Journal of Primatology, v. 4, p. 275-290, 1983. BROWN, R.E. An introduction to Neuroendocrinology. Cambridge: University Press, 1994. CARLSON, A. A.; ZIEGLER, T. E. E SNOWDON, C. T. Ovarian function of pygmy marmoset daughters (Cebuella pygmaea) in intact and motherless families. American Journal of Primatology, v. 43, n. 4, p. 347-356, 1997. CARTER, C. S. e GETZ, L. L. Monogamy and the praire vole. Scientific American, June, p. 100-106, 1993. CLEVELAND, J. E SNOWDON, C. T. Social development during the first twenty weeks in the cotton-top tamarins (Saguinus o. oedipus). Animal Behaviour, v. 32, p. 432-44, 1984. CONVERSE, L. J.; CARLSON, A. A.; ZIEGLER, T.E. E SNOWDON, C.T. Communication of ovulatory state to mates by female pygmy marmosets, Cebuella pygmaea. Animal Behaviour, v. 49, n. 3, p. 615-621, 1995. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 355

CUBICCIOTTI, D. E MANSON, W. A. Comparative studies of social behavior in Callicebus and Saimiri: male-female emotional attachments. Behavioral Biology, v. 16, p. 185-197, 1975. DEWSBURY, D. A. The comparative psychology of monogamy. Nebraska Symposium of Motivation, v. 35, p. 1-50, 1987. DIETZ J. M. E BAKER, A. J. Polygyny and female reproductive success in golden lion tamarins, Leontopithecus rosalia. Animal Behaviour, v. 46, p. 1067-1078, 1993. DIETZ J.M. E BAKER, A. J. Why lion tamarin mating systems are flexible. Resumo apresentado no CONGRESS OF THE INTERNATIONAL PRIMATOLOGICAL SOCIETY 19, E CONFERENCE OF THE AMERICAN SOCIETY OF PRIMATOLOGISTS 19, Madison “ Wisconsin, resumo n. 59, 1996. DIGBY, L. J. E FERRARI, S. F. Multiple breeding females in freeranging groups of Callithrix jacchus. International Journal of Primatology, v. 15, n. 3, p. 389-398, 1994. DIXSON, A. F. Evolutionary perspective on primate mating systems and behavior. Annals of the New York Academy of Sciences, p. 42-61, 1997. DIXSON, A. F. E GEORGE, L. Prolactin and parental behaviour in a male New World primate. Nature, v. 299, p. 551-553, 1982. EMLEN, S. T. e ORING, L. W. Ecology, sexual selection, and the evolution of mating systems. Science, v. 197, n. 4300, p. 215-223, 1977. EPPLE, G. Notes on the establishment and maintenance of the pair bond in Saguinus fuscicollis. In: KLEIMAN, D. G. (Editor). The Biology and conservation of the Callitrichidae. Washington, D.C.: Smithsonian Institution Press, 1977, p. 231-237. EPPLE, G. Sex differences in partner preference in mated pairs of saddle-back tamarins (Saguinus fuscicollis). Behavioral Ecology and Sociobiology, v. 27, p. 455-459, 1990.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


356 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

EPPLE, G.; BELCHER, A. M.; KÜDERLING, I.; ZELLER, U.; SCOLNICK, L.; GREENFIELD, K. L. e SMITH III, A. B. Making sense out of scents: species differences in scent glands, scentmarking behaviour, and scent-mark composition in the Callitrichidae. In: RYLANDS, A. B. (Editor). Marmosets and Tamarins: systematics, behaviour, and ecology. Oxford: University Press, 1993, p. 123-151. EPPLE, G. e KATZ, Y. The saddle back tamarin and other tamarins. In: HEARN, J. (Editor). Reproductive in New World primates. London: MTP: International Medical Publisher, 1983, p. 115-148. EVANS, S. e POOLE, T. B. Long term changes and maintenance of the pair bond in common marmoset, Callithrix jacchus jacchus. Folia Primatologica, v. 42, p. 33-41, 1984. FRENCH, J. A. Proximate regulation of singular breeding in Callitrichid primates. In: SOLOMON, N. G. e FRENCH, J. A. (Editors). Cooperative breeding in mammals. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, p. 34-75. FRENCH, J. A.; ABBOTT, D. H. e SNOWDON, C. T. The effects of social environment on estrogen excretion, scent marking, and sociosexual behavior in tamarins (Saguinus oedipus). American Journal of Primatology, v. 26, p. 155-167, 1984. FRENCH, J. A. E INGLETT, B. J. Female-female aggression and male indifference in response to unfamiliar intruders in lion tamarins. Animal Behaviour, v. 37, p. 487-497, 1989. FRENCH, J. A. E INGLETT, B.J. Responses to novel social stimuli in Callitrichid monkeys: a comparative perspective. In: BOX, H. (Editor). Primate responses to environmental change. London: Chapman-Hall, 1991, p. 274-294. FRENCH, J. A. E SNOWDON, C. T. Sexual dimorphism in responses to unfamiliar intruders in the tamarin Saguinus oedipus. Animal Behaviour, v.29, p. 822-829, 1981.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 357

GARBER, P. A.; ENCARNACIÓN, F.; MOYA, L. E PRUETZ, J. D. Demographic and reproductive patterns in moustached tamarin monkeys (Saguinus mystax): implications for reconstructing Platyrrhine mating systems. American Journal of Primatology, v. 29, p. 235-254, 1993. GARBER, P. A. e LEIGH, S. R. Ontogenetic variation in small-bodied new world primates: implications for patterns of reproduction and infant care. Folia Primatologica, v. 68, p 1-22, 1997. GOLDIZEN, A. W. Facultative polyandry and the role of infant-carrying in wild saddle-back tamarins (Saguinus fuscicollis). Behavioral Ecology and Sociobiology, v. 20, p. 99-109, 1987. GOLDIZEN, A. W.; MENDELSON, J.; VAN VLAARDINGEN, M. e TERBORGH, J. Saddle-Back tamarin (Saguinus fuscicollis) reproductive strategies: evidence from a thirteen-year study of a marked population. American Journal of Primatology, v. 38, p. 57-83, 1996. HAMILTON, W. D. The genetical evolution of social behaviour. Journal Theoretical Biology, v. 7, p. 1-16. 1964. HEARN, J. The common marmoset (Callithrix jacchus). In: HEARN, J. (Editor). Reproduction in New World Primates. . London: MTP: International Medical Publisher, 1983, p. 183-215. HENNESSY, M. B.; MENDOZA, S.P.; MASON, W.A. E MOBERG, G.P. Endocrine sensitivity to novelty in squirrel monkeys and titi monkey: species differences in characteristic modes of responding to the environment. Physiology e Behavior, v. 57, n. 2, p. 331-338, 1995. KENDRICK, K. M. E DIXSON, A. F. The effect of the ovarian cycle on the sexual behaviour of the common marmoset (Callithrix jacchus). Physiology e Behavior, v. 30, p. 735-742, 1983. KEVERNE, E. B. Processing of environmental stimuli and primate reproduction. Journal Zoology of London, v. 213, p. 395-408, 1987. KLEIMAN, D. G. Monogamy in mammals. Quarterly Review in Biology, v. 52, p.39-69, 1977a.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


358 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

KLEIMAN, D. G. Characteristics of reproduction and sociosexual interactions in pairs of lion tamarins (Leontopithecus rosalia) during the reproductive cycle. In: KLEIMAN, D. G. (Editor). The Biology and conservation of the Callitrichidae. Washington, D.C: Smithsonian Institution Press. 1977b, p. 181-192. KOENING, A. e ROTHE, H. Infant carrying in a polygynous group of common marmosets (Callithrix jacchus). American Journal of Primatology, v. 25; p. 185-190, 1991. KUDERLING, I.; EVANS, C. S.; ABBOTT, D. H.; PRYCE, C. R. E EPPLE, G. Differential excretion of urinary oestrogen by breeding females and daughters in the red-bellied tamarin (Saguinus labiatus). Folia Primatologica, v. 64, p. 140-145, 1995. LEUTENEGGER, W. Maternal-fetal weight relationships in primates. Folia Primatologica, v.20, p. 280-293, 1973. LEUTENEGGER, W. Evolution of litter size in primates. American Naturalist, v. 114, p. 525-531, 1979. MOTA, M. T. S.; SOUSA, M. B. C. e CAMPOS, M. F. The effect of parturition on the interaction within pairs of common marmosets (Callithrix jacchus). Brazilian Journal of Medical and Biology Research, v. 28, p. 108-112, 1995. NUNES, S.; FITE, J. E. e FRENCH, J. A. Variation in steroid hormones associated with infant care behaviour and experience in male marmosets (Callithrix kuhlii). Animal Behaviour, v. 60, p. 857-865, 2000. NUNES, S.; FITE, J. E.; PATERA, K. J. e FRENCH, J. A. Interactions among paternal behavior, steroid hormones, and parental experience in male marmosets (Callithrix kuhlii). Hormones and Behavior, v. 39, p. 70-82, 2001. PALOMBIT, R. A. Pair bonds in monogamous apes: a comparison of the siamang Hylobates syndactylus and the white-handed gibbon Hylobates lar. Behaviour, v. 133, p. 321-356, 1996. PRICE, E. C. Sex and helping: reproductive strategies of breeding male and female cotton-top tamarins, Saguinus oedipus. Animal Behaviour, v. 43; p. 717-728, 1992. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 359

PRICE, E. C. e MCGREW, W. C. Departures from monogamy in colonies of captive cotton-top tamarins. Folia Primatologica, v. 57, p.16-27, 1991. ROTHE, H. Some aspects of sexuality and reproduction in groups of captive marmosets (Callithrix jacchus). Z. Tierpsychol., v. 37, p. 255273, 1975. RUIZ, J. C. Comparative of affiliative behaviors between old and recently established pairs of golden lion tamarins, Leontopithecus rosalia. Primates, v. 31, n. 2, p. 197-204, 1990. RYLANDS, A. B. Infant-carrying in a wild marmoset group Callithrix humeralifer: evidence for a polyandrous mating system. In: MELLO, M. T. (Editor). A Primatologia no Brasil, v. 2. Brasília: Universidade de Brasília, 1985, p. 131-144. SALTZMAN, W.; SCHUTZ, DARKEN, N. J. e ABBOTT, D. H. Induction of mother daughter polygyny in common marmosets by replacement of the breeding male. Resumo apresentado no CONGRESS OF THE INTERNATIONAL PRIMATOLOGICAL SOCIETY 19, E CONFERENCE OF THE AMERICAN SOCIETY OF PRIMATOLOGISTS 19, Madison “ Wisconsin, resumo n. 62, 1996. SALTZMAN, W.; SEVERIN, J. M.; SCHULTZ-DARKEN, N. J. e ABBOTT, D. H. Behavioral and social correlates of scape from suppression of ovulation in female common marmosets housed with the natal family. American Journal of Primatology, v. 41, p. 1-21, 1997. SANTOS, C. V. Cuidado parental em Callithrix kuhli e Callithrix geoffroyi. In: FERRARI, S. F. e SCHNEIDER, H. (Editores). A Primatologia no Brasil, v. 5. Brasília: Universidade de Brasília, 1994, p. 233-247. SANTOS, C. V. Aspectos sociais e hormonais do comportamento reprodutivo de Callithrix kuhlii (PRIMATES) em cativeiro. 1998. Tese (Doutorado), Universidade de São Paulo, São Paulo. SANTOS, C. V.; FRENCH, J. A. E OTTA, E. Infant carrying behavior in Callitrichid primates: Callithrix and Leonthopithecus. International Journal of Primatology, v.18, n.6, p. 889-907, 1997. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


360 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

SAVAGE, A.; SHIDELER, S. E.; SOTO, L. H.; CAUSADO, J.; GIRALDO, L. H.; LASLEY, B. L. E SNOWDON, C. T. Reproductive events of wild cotton-top tamarins (Saguinus oedipus) in Columbia. American Journal of Primatology, v. 43, n. 4, p. 329-338, 1997. SAVAGE, A.; ZIEGLER, T. E. E SNOWDON, C. T. Sociosexual development, pair bond formation, and mechanisms of fertility suppression in female cotton-top tamarins (Saguinus oedipus oedipus). American Journal of Primatology, v. 14, p. 345-359, 1988 SCHAFFNER, C. M. Social and endocrine factors in he establishment and maintenance of sociosexual relationships in Wied’s black tufted-ear marmosets (Callithrix kuhlii). Nebraska, 1996. 164 p. Dissertation, Faculty of the Graduate College at the University of Nebraska, Lincoln, USA. SCHAFFNER, C. M., SHEPHERD, R. E., SANTOS, C. V. E FRENCH, J. A. Development of heterosexual social relationships in Wied’s black tufted-ear marmosets (Callithrix kuhlii). American Journal of Primatology, v. 36, p. 185-200, 1995. SILVA, H. P. A. e SOUSA, B. C. The pair-bond formation and its role in the stimulation of reproductive function in female common marmosets (Callithrix jacchus). International Journal of Primatology, v. 18, n. 3, p. 387-399, 1997. SMITH, T. E.; MCGREER-WHITWORTH, B. e FRENCH, J. A. Close proximity of the heterosexual partner reduces the physiological and behavioral consequences of novel-cage housing in black tufted-ear marmosets (Callithrix kuhlii). Hormones and Behavior v. 34, p. 211-222, 1998. SMITH, T. E.; SCHAFFNER, C. M. e FRENCH, J. A. Regulation of reproductive function in subordinate female black tufted-ear marmosets (Callithrix kuhlii). American Journal of Primatology, v. 36, p. 156-157, 1995. SMITH, T. E.; SCHAFFNER, C. M. E FRENCH, J. A. Social and developmental influences on reproductive function in female Wied’s black tufted-ear marmosets (Callithrix kuhlii). Hormones and Behavior, v. 31, p.159-168, 1997. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 361

SMITH, T. E.; TOMLINSON, A.; MLOTKIEWICZ, J. e ABBOTT, D. H. Unique ratios of highly volatile chemicals in circumgenital scent marks may provide a basis for discerning individual identity in female common marmosets. Resumo apresentado em CHEMICALS SIGNALS IN VERTEBRATES CONFERENCE, 7., Tubingen-Germany, 1994. SNOWDON, C. T. Mechanisms maintaining monogamy in monkeys. In: DEWSBURY, D. A. (Editor). Contemporary issues in Comparative Psychology. Massachusetts: Sinauer Associates, 1990. SNOWDON, C. T., SAVAGE A. E MCCONNEL P. B. A breeding colony of cotton-top tamarins (Saguinus oedipus). Laboratory Animal Science, v. 35, p. 477-480, 1985. SOUSA, M. B. C. e MOTA, M. T. Possível influência da prolactina no cuidado parental de ajudantes não reprodutivos em Callithrix jacchus. Resumo apresentado na REUNIÃO ANUAL DA FEDERAÇÃO DE SOCIEDADES DE BIOLOGIA EXPERIMENTAL, 12., 1998, p. 444. STRIBLEY, J. A.; FRENCH, J. A. E INGLETT, B. J. Mating patterns in the golden lion tamarin (Leontopithecus rosalia): continuous receptivity and concealed estrus. Folia Primatologica, v. 49, p.137-150, 1987. SUSSMAN, R. W. E GARBER, P. A. A new interpretation of the social organization and mating system of the Callitrichidae. International Journal of Primatology, v. 8, p. 73-92, 1987. SUSSMAN, R.W. E KINZEY, W. G. The ecological role of the Callitrichidae. American Journal of Physical Anthropology, v. 64, p.419449, 1984. TANAGUCHI, K.; MATSUSAKI, Y.; OGAWA, K. E SAITO, T. R. Fine structure of the vomeronasal organ in the common marmoset (Callithrix jacchus). Folia Primatologica, v. 59, p. 169-176, 1992. TARDIF, S. D. Relative energetic cost of infant care in small-bodied neotropical primates and its relation to infant-care patterns. American Journal of Primatology, v. 34, p. 133-143, 1994.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


362 — Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas...

TARDIF, S. D.; CARSON, R. L. e GANGAWARE, B. L. Infant-care behavior of mothers and fathers in a communal-care primate, the cottontop tamarin (Saguinus oedipus). American Journal of Primatology, v. 22, p. 73-85, 1990. TARDIF, S. D.; RICHTER, C. B. e CARSON, R. L. Reproductive Performance of three species of Callitrichidae. Laboratory Animal Science, v. 34, p. 272-275, 1984. TERBORGH, J. e GOLDIZEN, A. W. On the mating system of the cooperatively breeding saddle-backed tamarin (Saguinus fuscicollis). Behavioral Ecology and Sociobiology, v. 16, p. 293-299, 1985. VAN SCHAIK, C. P. e DUNBAR, I. M. The evolution of monogamy in large primates: a new hypothesis and some crucial tests. Behaviour, v. 115, n. 1-2, p. 30-62, 1990. WIDOWSKI, T. M.; ZIEGLER, T. E.; ELOWSON A. M. e SNOWDON, C. T. The role of males in the stimulation of reproductive function in female cotton-top tamarins, Saguinus. o. oedipus. Animal Behaviour, v. 40, p. 731-741, 1990. WOODCOCK, A. J. The first weeks of cohabitation of newly-formed heterosexual pairs of common marmosets (Callithrix jacchus). Folia Primatologica, v. 37, p. 228-254, 1982. YOUNG, J. A Pair behaviour in captive Geoffroy’s marmosets Callithrix geoffroyi: a description and comparison of established and newlyformed pairs. Dodo, J. Wildl. Preserv. Trusts, v. 30, p. 57-69, 1994. ZIEGLER, T. E.; BRIDSON, W. E.; SNOWDON, C. T. e EMAN, S. The endocrinology of puberty and reproductive functioning in female cotton-top tamarins (Saguinus oedipus) under varying social conditions. Biology and Reproduction, v. 37, p. 618-627, 1987. ZIEGLER, T. E.; EPPLE, G.; SNOWDON, C. T.; PORTER, T. A.; BELCHER, A. M. e KÜDERLING, I. Detection of chemical signals of ovulation in the cotton-top tamarin, Saguinus oedipus. Animal Behaviour, v.45, p. 313-322, 1993.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Cristina Valéria Santos — 363

ZIEGLER, T. E. e SNOWDON, C.T. Preparental hormone levels and parenting experience in male cotton-top tamarins, Saguinus oedipus. Hormones and Behavior, v.38, n. 3, p. 159-167, 2000. ZIEGLER, T. E.; SNOWDON, C. T. e UNO, H. Social interactions and determinants of ovulation in Tamarins (Saguinus). Socioendocrinology of Primate Reproduction, p. 113-133, 1990. ZIEGLER, T. E.; WEGNER, F. H. e SNOWDON, C. T. Hormonal responses to parental and nonparental conditions in male cotton-top tamarins, Saguinus oedipus, a new world primate. Hormones and Behavior, v. 30, p. 287-297, 1996. (Recebido em outubro de 2003 e aceito para publicação em março de 2004)

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.335-363, outubro de 2003


Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal*

Carlos Roberto de Oliveira Nunes1 Universidade Regional de Blumenau

Rogério F. Guerra2 Universidade Federal de Santa Catarina

Vera Sílvia Raad Bussab3 Universidade de São Paulo

Resumo

Abstract

Muitos estudos têm demonstrado os efeitos do enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal sobre o desenvolvimento do comportamento e aquisição de habilidades cognitivas. De fato, as intervenções precoces podem afetar a sociabilidade, aprendizagem, desenvolvimento físico e neurogênese em algumas espécies de roedores. A despeito das difi-

Many studies have demonstrated the effects of environmental enrichment, social deprivation and neonatal handling on behavioral development and acquisition of cognitive skills. In fact, early manipulations may affect sociability, learning performances, physical development and neurogenesis in some rodent species. Despite the methodolo-

__________________________________________________ * 1

2

3

Environmental enrichment, social deprivation and neonatal handling Endereço para correspondências: Departamento de Psicologia, Universidade Regional de Blumenau, Blumenau, SC, 89010-971 (E-mail: cnunes@furb.br). Endereço para correspondências: Departamento de Psicologia, CFH, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, 88040-900 (E-mail: rfguerra@cfh.ufsc.br). Endereço para correspondências: Departamento de Psicologia Experimental, Instituto de Psicologia, USP, São Paulo, SP, 05508-900 (E-mail: vsbussab@usp.br).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


366 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

culdades metodológicas nos procedimentos experimentais, estes estudos promovem uma nova compreensão a respeito da organização do comportamento e plasticidade cerebral. Foram analisados os papéis de diferentes tipos de estimulação ambiental para a compreensão da organização cerebral e comportamento humano.

gical difficulties in the experimental procedures, these studies provide a new comprehension about the organization of behavior and brain plasticity. In this review, it has been analyzed the role of different types of environmental stimulation for understanding brain organization and human behavior.

Palavras-chave: Enriquecimento ambiental, manipulação neonatal, privação social, plasticidade cerebral.

Keywords: Environmental enrichment, neonatal handling, social deprivation, brain plasticity.

Introdução

N

o que se refere aos mamíferos e às aves, as pressões cotidianas enfrentadas pelos indivíduos são tão diferenciadas, que seria impossível, por mecanismos de seleção natural, o pre-estabelecimento de um repertório comportamental adaptativo e completo, capaz de garantir a sobrevivência e a reprodução. Parece que a seleção natural favoreceu a plasticidade cognitiva e comportamental, tornando os indivíduos funcionalmente adaptados às contingências ambientais que enfrentam durante o desenvolvimento ontogenético. Este pressuposto leva às deduções de que a experiência interfere sobre o comportamento futuro e de que a variabilidade nos tipos de situações enfrentadas por animais, incluindose os humanos, acarreta diferenças psicológicas intra e interespecíficas. De fato, as experiências precoces de um animal podem influenciar seu comportamento adulto em uma série de tarefas; por exemplo, ratos criados em ambientes grandes e complexos apresentam habilidades superiores de resolução de problemas em relação a conspecíficos criados em condições mais restritas (ROSENZWEIG, 1966). A maior parte dos padrões comportamentais emitidos pelos animais acarreta consequências que podem interferir sobre (a) as probabilidades futuras de emissões dos padrões de comportamento e (b) as propriedades do ambiente no qual estão submetidos.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 367

Neste sentido, os animais não são passivos em relação às pressões do ambiente. De qualquer modo, elas fazem parte dos fatores determinantes do comportamento, principalmente do período do nascimento até o início da vida adulta, quando o sistema nervoso parece mais sensível à adaptação às pressões ambientais. Por esta razão, as pesquisas sobre enriquecimento ambiental freqüentemente têm sido focadas no sentido de investigar os impactos de diferentes condições ambientais de criação sobre a organização comportamental e/ou do sistema nervoso dos animais estudados (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002, NAKA et al., 2002). Os objetivos deste trabalho são: a) expor evidências experimentais que especificam as conseqüências de três diferentes modelos de estimulação ambiental aplicados em pesquisas comportamentais e neurocientíficas, desenvolvidos para elucidar os mecanismos subjacentes à variabilidade do desenvolvimento do comportamento; e b) sugerir indicações de como a aplicação destes modelos - o enriquecimento ambiental, a manipulação neonatal e a privação social – pode contribuir para a compreensão do comportamento humano e de seus processos subjacentes. Implicações do ambiente de criação sobre o comportamento Nos estudos com animais, os efeitos das variáveis ambientais sobre a aprendizagem, isto é, as mudanças duráveis do comportamento decorrentes de experiências específicas, têm sido feitos através de diversos métodos, como a privação materna (ANISMAN et al., 1998), os condicionamentos operante e respondente (CATANIA, 1999), o enriquecimento ambiental, a manipulação neonatal (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002) e o isolamento social (WÜRBEL, 2001), e cada um destes modelos de estimulação tem implicações diferentes sobre o comportamento, a fisiologia e a qualidade de vida dos sujeitos. O enriquecimento ambiental consiste na exposição de animais cativos jovens e adultos a ambientes ricos em estimulação sensorial, gerada por alimento escondido, objetos inanimados, como rodas de atividades, canos e brinquedos, e/ou caixas com infra-estrutura mais complexas, contendo tocas, galerias de túneis e/ou plataformas com diferentes níveis de acesso (ver Chamove, 1989; ZIMMERMANN et al., 2001; MELLEN e MACPHEE, 2001). A manipulação neonatal é a forma mais comum de estimulação precoce (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002), Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


368 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

e tipicamente consiste, em ratos, por exemplo, no manuseio cuidadoso do filhote pelos experimentadores, diariamente, por alguns minutos, durante as primeiras duas semanas de vida (ver LUCION et al., 2003). Os efeitos da estimulação social têm sido investigados através da comparação, em diversos tipos de testes, entre sujeitos criados em grupos de conspecíficos e outros criados isoladamente (ver WÜRBEL, 2001); apesar de que diversas pesquisas têm trabalhado conjuntamente com os efeitos do enriquecimento ambiental e social, em contraposição à privação de estímulos inanimados e sociais (ver ROSENZWEIG et al., 1978; SMITH et al., 2003). O psicólogo canadense Donald O. Hebb foi, nos anos 40 do século passado, o primeiro pesquisador a se interessar pelos efeitos do enriquecimento ambiental sobre o comportamento. Ele descobriu que animais criados em ambientes maiores e com mais variedade de objetos e configurações espaciais do que aqueles então normalmente impostos em criadouros e laboratórios posteriormente apresentavam habilidade superior de aprendizagem, comparativamente em relação a outros animais criados em ambientes menores e não enriquecidos (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002). Krech e colaboradores (1962) submeteram ratos por um período de um mês a ambientes enriquecidos ou não enriquecidos, depois testaram-nos numa seqüência de reversões de problemas de discriminação. No procedimento de discriminação de luz-escuro, os grupos não diferiram, mas quando foram realizadas as reversões, e o problema tornou-se mais complexo, os animais criados em ambiente enriquecido passaram a desempenhar de forma bastante superior aos demais. Os ambientes enriquecidos, isto é, aqueles que provêm ao animal mais oportunidades para experiências perceptuais e padrões comportamentais variados (SCHWARTZ, 1964), habilitam-nos a desempenhar melhor sobre uma variedade de tarefas, quando comparados a animais criados em ambientes mais pobres (ROSENZWEIG, 1966). Em ratos, o enriquecimento ambiental, independentemente das experiências sociais anteriores, melhora principalmente a aprendizagem e a memória espacial (VAN PRAAG, 2000; SCHRIJVER et al., 2002), e acelera a habituação à novidade (ZIMMERMANN et al., 2001), sem necessariamente gerar potencialização de comportamento exploratório (SCHRIJVER et al., 2002). Em síntese, aparentemente os animais criados em ambientes enriquecidos parecem apresentar uma organização do comportamento exploratório mais complexa e diversificada do que os animais criados em ambientes não enriquecidos (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 369

Num procedimento de teste de discriminação, camundongos eram inseridos num labirinto aquático e deviam nadar até um estímulo não discriminativo (SD) ou um discriminativo (SD) indicados por padrões de tela escolhidos pelos experimentadores e apresentados em dois monitores de computador. As apresentações de SD e SD, entre os dois monitores, eram aleatoriamente alternadas, e cada monitor, por tentativa, apresentava apenas um dos padrões. SD indicava a existência, próxima do monitor em questão, de uma plataforma invisível ao nível da água, onde os sujeitos podiam subir. Foi verificado que, em geral, os camundongos criados em ambiente enriquecido e não enriquecido aprenderam a discriminar os padrões, nadando até o monitor com o estímulo discriminativo. Porém, uma vez alcançado um nível equivalente e assintótico de acertos entre os grupos, os experimentadores começaram a aproximar, ao longo das tentativas, a gradação de diferença entre os padrões de estímulos, e verificaram que os camundongos criados sob condição enriquecida foram capazes de responder funcionalmente a estímulos discriminativos e não discriminativos mais semelhantes entre si do que os sujeitos do grupo-controle, criados em ambientes não enriquecidos, sugerindo que o enriquecimento ambiental pode desenvolver as funções visuais dos camundongos (PRUSKY et al., 2002). O labirinto de Hebb e Williams é um recurso utilizado para testar as habilidades de aprendizagem e memória espacial. Por exemplo, podem ser colocados alimentos em partes específicas, que os sujeitos experimentais aprendem a encontrar para comer. Pode-se também modificar os caminhos do labirinto para acesso aos reforçadores, abrindo-se e fechando-se passagens. Os ratos criados em ambientes enriquecidos têm melhor desempenho do que os criados em ambiente não enriquecido, alcançando mais rapidamente o alimento e entrando menos freqüentemente em braços errados do labirinto. Os animais com cérebro intacto apresentam melhor desempenho do que os que sofreram lesão cerebral pós-natal. Além disso, os animais lesionados criados em ambiente enriquecido apresentam desempenho superior aos lesionados criados em ambiente-padrão, e o efeito potencializador do enriquecimento sobre o desempenho no labirinto dos animais lesionados é proporcionalmente superior ao efeito potencializador exercido sobre os animais não lesionados (SCHWARTZ, 1964). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


370 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

O enriquecimento ambiental influencia o desempenho de ratos em tarefas de condicionamento aversivo. Os animais criados em ambientes enriquecidos, quando submetidos a situações estressantes, apresentam-se menos sensíveis às condições aversivas impostas do que animais criados em ambientes-padrão de laboratório, exibindo maior capacidade de adaptar-se e responder funcionalmente a estas situações (ESCORIHUELA et al., 1994). Uma exceção interessante foi encontrada por Klein e colaboradores (1994), cujos sujeitos experimentais, ratos criados em ambientes enriquecidos, expunham-se mais freqüentemente aos potenciais predadores apresentados, uma condição normalmente aversiva, do que os sujeitos do grupo controle. O cuidado parental influencia o desenvolvimento cognitivo. Ratos que receberam altos níveis de cuidado materno – avaliado através da limpeza de filhotes e da permanência em agachamento sobre a ninhada exibem, posteriormente, melhor desempenho em testes de aprendizagem e memória espacial do que outros sujeitos que receberam baixos níveis de cuidado (LIU et al., 2000). Entretanto, através da exposição dos sujeitos que receberam poucos cuidados maternais a ambientes enriquecidos, do período de desmame, 21 dias, até 70 dias, as diferenças de desempenho entre os dois grupos de sujeitos, pouco cuidados e muito cuidados, podem ser minimizadas a ponto de tornarem-se equivalentes (BREDY et al., 2003). Além disso, parece não haver efeito cumulativo entre o enriquecimento ambiental e os níveis altos de cuidado maternal. Os estudos dos efeitos do enriquecimento ambiental sobre a emocionalidade de ratos parecem obter resultados inconsistentes (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002); ainda assim, os efeitos constatados dos vários tipos de ambiente sobre esta característica são sugestivos, e convidam à consideração de que os efeitos gerais da experiência no desenvolvimento subseqüente podem, pelo menos parcialmente, se processar via alterações na reatividade emocional. Ratos criados em ambientes enriquecidos defecam menos em testes em campo aberto (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 1992) e entram mais freqüentemente em braços abertos de labirintos em cruz elevado do que os sujeitos controle, criados em ambientes não enriquecidos, isto é, contendo apenas material de ninho, alimento e água (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 1997). De outro lado, enquanto Huck e Price (1975) Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 371

apontam que ratos criados em ambientes enriquecidos são mais ativos em campo aberto, Pham e colaboradores (1999) não encontraram diferenças destes em relação aos sujeitos criados em ambiente não enriquecido. Chamove (1989) deduziu que os camundongos seriam menos reativos ou menos “emocionáveis”, se fossem criados em caixas que se assemelhassem a tocas, isto é, ambientes que exibem características próximas do ambiente natural e parecendo psicologicamente maiores, em função da maior complexidade de estímulos presentes, e requerendo mais atividades locomotoras para que o animal se deslocasse dentro delas. Neste sentido, o autor criou diferentes quantidades de partições transparentes, horizontais e verticais, dentro das caixas dos diferentes grupos experimentais, variando entre zero (controle) e dez partições, com vias de acesso entre elas. Através dos testes comportamentais e fisiológicos, o autor concluiu que a presença de partições na caixas de camundongos reduziu a estressabilidade dos animais, o que foi inferido em função de que aqueles criados em caixas com as partições se locomoveram mais em suas caixas do que o grupo-controle – caixa sem partições –, ganharam mais peso corporal, apresentaram glândulas adrenais menores, exploraram mais o ambiente novo em teste de campo aberto, e ainda, neste teste, defecaram e limparam-se menos. Em condições naturais, gerbilos da Mongólia (Meriones unguiculatus) são bastante esquivos, evitando a aproximação de humanos, além de poderem tornar-se agressivos e eriçarem os pêlos quando capturados. De outro lado, os animais criados em cativeiro são extremamente dóceis e de fácil manipulação. Clark e Galef (1977) desenvolveram uma seqüência de seis experimentos tentando identificar as variáveis ambientais que causariam a feralização dos gerbilos isto é, a alta emocionalidade observada em espécimes selvagens quando manipulados por seres humanos, e acabaram estudando efeitos de enriquecimento ambiental sobre o comportamento. Os autores descobriram que, para animais muito pouco manipulados, apenas a presença de uma cobertura em parte da caixa-viveiro durante o período de desenvolvimento dos filhotes, que os permitisse se esconder espontaneamente, poderia produzir as mesmas características comportamentais geradas pelo crescimento em tocas. Além disso, os gerbilos criados com acesso a um abrigo apresentaram glândulas adrenais proporcionalmente maiores, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


372 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

menores órgãos reprodutivos e glândulas pituitárias mais pesadas do que animais criados em ambiente-padrão de laboratório, que continha apenas material de ninho, alimento e água, o que sugere maior estressabilidade. No primeiro experimento descrito no artigo de Clark e Galef (1977), os autores acondicionaram casais de sujeitos adultos em viveiros fechados cheios de terra, onde eles puderam construir galerias de túneis. De acordo com Galef (1999), estes animais se mantiveram dóceis e de fácil captura, inclusive saindo para os acessos das galerias quando pessoas entravam no biotério; porém, os filhotes nascidos neste ambiente se tornaram difíceis de manuseio. Quando eles estavam com aproximadamente 60 dias de vida, Clark e Galef (1977) os colocaram num ambiente aberto onde havia um abrigo num dos cantos da caixa. Depois da habituação dos sujeitos ao ambiente, foram realizados testes, através de apresentação súbita de um estímulo semelhante a uma face humana. Os filhotes criados nos viveiros fechados com túneis fugiam mais rapidamente para os abrigos do que os sujeitos-controle criados em caixas-padrão; além disso, após a apresentação do estímulo, permaneciam mais tempo nos abrigos. Em ratos, a manipulação neonatal parece gerar seus principais efeitos sobre os limiares de excitação emocional dos sujeitos experimentais. Os animais manipulados no período neonatal adaptam-se mais eficientemente a condições estressantes e desafiadoras em diversos testes experimentais (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002). Por exemplo, em testes de campo aberto, apresentam freqüências mais altas de comportamento exploratório e mais baixas de defecação (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 1992), sendo estes critérios de avaliação de reatividade emocional. Além disso, ratos submetidos à manipulação neonatal, quando adultos, exibem desempenho superior em testes de esquiva condicionada, em relação a outros não submetidos à manipulação (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002). Provavelmente esta superioridade no desempenho é relacionada, pelo menos em sua fase inicial, ao melhor controle das respostas emocionais de ansiedade pelos sujeitos pré-manipulados (ver Aguilar et al., 2002). A criação em isolamento social, a partir do período de desmame até a fase adulta, gera diversas alterações comportamentais nos sujeitos de pesquisa, quando comparados a outros que foram criados em grupos de conspecíficos. Por exemplo, ratos criados em isolamento exibem diversos tipos de estereotipias comportamentais (SCHRIJVER et al., 2002), Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 373

exibem menos atividades nos braços abertos de labirintos em cruz elevada (PARKER e MORINAN, 1986), e demoram mais tempo para entrar em ambientes novos (ZIMMERMANN et al., 2001). Além disso, os animais criados isolados tornam-se hiperativos em ambientes novos e demoram mais tempo para se habituarem (SCHRIJVER et al., 2002). Entretanto, em relação a estas duas últimas afirmações, há estudos que chegaram a resultados contraditórios, isto é, com os ratos criados isolados apresentando-se menos ativos em campo aberto (GENTSCH et al., 1981), ou não se diferenciando quanto ao tempo necessário para habituação em ambientes novos (ZIMMERMANN et al., 2001). A privação social parece afetar as respostas à novidade através de fatores emocionais, isto é, ela parece ter efeito ansiogênico (SCHRIJVER et al., 2002), gerando prejuízos no controle inibitório do comportamento, e, em especial, na seleção de estímulos de atenção (WÜRBEL, 2001; ZIMMERMANN et al., 2001). Deve-se ter em mente que os efeitos das variáveis sociais sobre o comportamento transcendem os resultados obtidos nas manipulações de privação social, em função: a) dos fatores motivacionais e dos processos de aprendizagem relacionados às interações com diferentes parceiros; e b) das competições por recursos. Filhotes de hamster-dourado (Mesocricetus auratus) que são agudamente privados de contato físico e brincadeira com outros indivíduos, isto é, por 48 horas, exibem níveis de brincadeira e locomoção mais elevados quando são colocados juntos de parceiros com mesma idade, quando comparados a indivíduos não privados. Entretanto, se um filhote de hamster é criado sozinho pela mãe, sem parceiros de mesma idade, mas sem passar por um período de privação de contato físico com um conspecífico, ele também apresenta aumento no tempo despendido em brincadeira quando é colocado com outro filhote. Em qualquer dos casos, se mantidos juntos, as freqüências de brincadeira das díades tendem a retornar a níveis similares aos apresentados por díades de animais que não foram privados de brincadeira (GUERRA et al., 1999). Estes resultados sugerem que os filhotes que são criados pela mãe, sem irmãos na ninhada, apesar de não serem privados de vários tipos de interação social, incluindo vários tipos de contatos físicos, parecem crescer privados cronicamente de brincadeira. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


374 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

O meio social também está associado à disponibilidade de recursos. Os filhotes de hamster-dourado são bastante dependentes de leite materno no décimo quinto dia de vida. Neste período, os filhotes de ninhadas muito grandes (nove filhotes) e muito pequenas (um filhote) são mais leves do que os filhotes de ninhadas intermediárias (três e seis filhotes) (GUERRA e NUNES, 2001). Este padrão de resultados indica menor transferência de nutrientes da mãe para o filhote. Provavelmente isto ocorre por razões diferentes para as ninhadas grandes e as pequenas, o que deve ter conseqüências sobre os padrões comportamentais a serem emitidos pelos filhotes no futuro. No primeiro caso, de ninhadas muito pequenas, provavelmente um único filhote precisa esforçar-se muito na sucção para gerar a ejeção de leite e manter sua produção. No segundo caso, de ninhadas muito grandes, além de provavelmente haver menor disponibilidade de leite por filhote, eles precisam competir muito entre si para terem acesso às melhores tetas. Os modelos de estimulação ambiental discutidos geram, independentemente, alterações de longo prazo no comportamento (ZIMMERMANN et al., 2001; WÜRBEL, 2001; FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002). As diferenças de repertório comportamental implicam, necessariamente, e diferenças das estruturas fisiológicas subjacentes, pois o cérebro se adapta anatômica e quimicamente às exigências de diferentes ambientes. Daí surge a necessidade de identificar as propriedades do ambiente que seriam responsáveis pelas adaptações do SNC, bem como os detalhes anatômicos e fisiológicos relacionados. Neste sentido, as manipulações ambientais têm sido tradicionalmente utilizadas como ferramentas para a identificação das modificações bioquímicas e estruturais associadas às mudanças comportamentais (SCHRIJVER et al., 2002). Plasticidade cerebral e modelos de experiência M. V. Malacarne, entre o final do século XVIII e início do século XIX, foi o primeiro pesquisador que investigou a influência do enriquecimento ambiental sobre o sistema nervoso, tendo descoberto que pássaros treinados sobre condições enriquecidas apresentaram aumentos de volume do sistema nervoso central, principalmente no cerebelo, em relação a outros pássaros que não experienciaram a situação de enriquecimento (RENNER e ROSENZWEIG, 1987, apud FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 375

Lashley (1929, apud SMITH, 1959), analisando os efeitos de lesões cerebrais sobre os comportamentos emitidos por ratos em labirintos, concluiu que, nos processos de aprendizagem dos caminhos, o cérebro dos sujeitos experimentais seguia o princípio de ação global de massa, isto é, quanto maior a quantidade de tecido cerebral destruído, maior era o prejuízo no desempenho observado, e a variação do local da lesão no manto cerebral parecia não modificar de modo significativo os resultados obtidos. Lansdell (1953), por sua vez, relatou que as lesões no córtex posterior resultam em padrões diferentes de respostas no labirinto de Hebb e Williams, em relação a sujeitos com lesão no córtex anterior. Smith (1959), também analisando os desempenhos no labirinto de sujeitos experimentais com lesões cerebrais nas regiões anterior e posterior do córtex, verificou que os sujeitos criados em ambiente-padrão, que apresentavam lesão na parte anterior, tiveram desempenho ligeiramente inferior àqueles com lesão na parte posterior, e entre os sujeitos criados em ambiente enriquecido ocorreu um efeito inverso e mais potente. A exposição de ratos criados em grupo a ambientes enriquecidos com escadas, rodas de atividade, caixas, plataformas e outros tipos mais de estímulos resulta em aumento do peso cerebral. Em especial, os ratos criados em ambientes enriquecidos desenvolvem mais massa cortical do que seus irmãos criados em ambientes pobres – isto é, um ambiente contendo apenas alimento, água e material de ninho (ROSENZWEIG et al., 1962). Os córtices dos ratos criados em ambientes enriquecidos têm seu peso aumentado em torno de 4% mais do que aqueles criados restritos, e quatro quintos dos pares de irmãos comparados apresentam tendência nesta direção (ROSENZWEIG, 1966). Ratos criados em ambientes enriquecidos exibem maior volume do córtex cerebral, mas apresentam em torno de 7% menos massa corporal do que os criados em ambientes-padrão, de modo que, se os resultados forem comparados em termos de proporção de peso do cérebro em relação ao peso corporal, os efeitos são mais evidentes. Se for considerada a razão do peso do córtex em relação ao peso do resto do cérebro, os animais criados em ambiente enriquecido apresentam córtices proporcionalmente maiores do que os criados em ambiente-padrão. O peso maior do córtex dos ratos estimulados reflete maior espessura da camada cortical. Além disso, também o hipocampo dos ratos parece tornar-se mais espesso como conseqüência da experiência enriquecida (ROSENZWEIG, 1966). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


376 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

As regiões do córtex não reagem igualmente em relação a diferentes padrões de experiências. As situações de enriquecimento e empobrecimento ambiental resultam em diferenças superiores no córtex occipital em relação à área somestésica. No entanto, Rosenzweig (1966) aponta que é possível modificar seletivamente uma ou outra região do córtex, dependendo do programa utilizado de estimulação. Por exemplo, ratos criados em ambientes escuros apresentam redução considerável do córtex visual, mas de outro lado desenvolvem as áreas somestésicas de forma mais pronunciada do que irmãos criados em ambiente iluminado, gerando efeitos opostos entre os córtices visual e somestésico em relação aos procedimentos de enriquecimento ambiental (ROSENZWEIG, 1966). A vascularização cerebral também pode responder adaptativamente à demanda aumentada de estimulação, pois os diâmetros dos capilares do córtex de ratos criados em ambientes enriquecidos são maiores do que aqueles dos ratos criados em ambientes não enriquecidos (DIAMOND et al., 1964). Rosenzweig (1966) acreditava que o número de neurônios que um indivíduo tinha era fixado ao nascimento, ou pouco tempo depois, e que as diferenças anatômicas encontradas entre os cérebros de sujeitos criados em diferentes ambientes se deviam à migração de neurônios e à proliferação de células da glia. Ele sabia da necessidade de investigação da regulação bioquímica do cérebro para a identificação dos fatores subjacentes à plasticidade comportamental associada aos ambientes de criação. Neste sentido, ele investigou as atividades das enzimas acetilcolinesterase e colinesterase nos cérebros de ratos criados em ambientes enriquecidos e não enriquecidos. Seus resultados não foram conclusivos, mas ele sugeriu que as diferenças nos cérebros daqueles indivíduos devem estar relacionadas às atividades destas enzimas. Os animais criados em extremo empobrecimento, isto é, ambiente empobrecido e isolamento social, diferem mais dos animais criados em grupo em ambientes enriquecidos do que os criados em ambientes empobrecidos e em grupo. Ou seja, quanto maiores as diferenças entre os ambientes, maiores as diferenças resultantes na anatomia e na química do cérebro. Além disso, o córtex cerebral do rato adulto é capaz de crescimento adaptativo, como é o córtex dos animais jovens, e estas mudanças cerebrais devem refletir aprendizagem e acúmulo de informações na memória (ROSENZWEIG, 1966). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 377

As primeiras publicações de mudanças mensuráveis no cérebro, como conseqüência da experiência, foram recebidas com certo ceticismo (ROSENZWEIG, 1966). Entretanto, atualmente já se sabe que o enriquecimento ambiental aprimora a cognição através da plasticidade neuronal. Os ambientes enriquecidos de estimulação sensorial e de situações que exigem soluções de problemas, como localização de alimentos, são associados a grandes mudanças morfológicas nas vias sensoriais primárias, nas áreas de associação e no hipocampo (ROSENZWEIG et al., 1972). Animais expostos a ambientes enriquecidos apresentam razões mais altas de neurônios para células de glia, botões pré-sinápticos maiores (ver ROSENZWEIG et al., 1972; SCHROTT, 1997; NAKA et al., 2002), aumento da densidade de ramos dendríticos e sinapses (RAMPON et al., 2000), diminuição de mortes de neurônios por apoptose (YOUNG et al., 1999) e mais formações de novos neurônios, isto é, neurogênese, inclusive em indivíduos adultos (GROSS, 2000). A ação dos genes nas modificações fenotípicas relacionadas à plasticidade cerebral tem importância, por exemplo, na produção dos fatores neurotróficos. Estes são proteínas que regulam o crescimento e a maturação dos neurônios, bem como as conexões entre eles. Animais expostos a ambientes enriquecidos apresentam níveis elevados de fatores neurotróficos, como o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF, brain derived neurotrophic factor), um fator implicado na sobrevivência e no crescimento de neurônios, na regulação das conexões neuronais e na plasticidade cerebral (FALKENBERG et al., 1992). O ambiente enriquecido também está relacionado com o aumento da atividade do fator de crescimento neuronal (NGF, nerve growth factor), fator provavelmente associado às alterações plásticas do sistema nervoso central (PINAUD et al., 2002). Em ratos adultos, a aprendizagem e a memória espacial dependem da integridade das funções do hipocampo (MORRIS et al., 1982). O hipocampo de ratos expostos a ambientes enriquecidos exibe níveis aumentados de NGF e acentuada expressão de RNA mensageiro do gene NGFI-A, um fator de transcrição dependente de atividade (PHAM et al., 1999); isto é, o fator de transcrição responsável pela produção do NGF, cuja expressão é regulada pelo nível de ativação dos neurônios (PINAUD et al., 2002). Além disso, o enriquecimento ambiental também potencializa a proliferação de neurônios no giro dentado do hipocampo em ratos e camundongos (NILSSON et al., 1999). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


378 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

Em ratos, os filhotes das mães que exibiram freqüências mais altas de limpeza de filhotes e permaneceram grandes proporções de tempo em postura de agachamento sobre eles (crouching over pups) exibem, posteriormente, como resultado dos níveis de cuidado recebidos, memória e aprendizagem espacial potencializadas, bem como alterações no hipocampo caracterizadas por elevada expressão dos RNAs mensageiros para a codificação dos subtipos NR1, NR2A e NR2B de receptores NMDA (N-methyl-aspartato), e aumento de receptores NMDA (LIU et al., 2000). Os ratos que receberam poucos cuidados maternos, mas que permaneceram em ambiente enriquecido do desmame até 70 dias, exibem níveis equivalentes de respostas nos testes de reconhecimento de objetos, e de memória e aprendizagem espacial, em relação aos sujeitos que receberam níveis altos de cuidados maternais (BREDY et al., 2003). Os mecanismos fisiológicos subjacentes aos padrões equivalentes de respostas dos sujeitos muito cuidados e dos sujeitos pouco cuidados, mas enriquecidos, parecem diferir; isto é, o enriquecimento ambiental não reverte os efeitos do baixo cuidado maternal sobre os receptores de NMDA, mas, como forma compensativa, parece alterar os níveis de resposta dos animais enriquecidos através da atividade dos receptores de AMPA (ácido a-amino-3-hydroxy-5-methyl-4-isoxazolepropiônico) (BREDY et al., 2003). Além disso, estes autores também consideraram a possibilidade de atuação do sistema serotonérgico no hipocampo, como participante desta compensação. Em síntese, os resultados combinados de Bredy e colaboradores (2003), e Liu e colaboradores (2000) sugerem a possibilidade de padrões de respostas equivalentes associadas a mecanismos fisiológicos distintos. As experiências precoces podem alterar o desenvolvimento das respostas do eixo hipotalâmico - hipofisário - supra-renal aos eventos estressores (LUCION et al., 2003). O número de receptores de glucorticóides no hipotálamo aumenta como resultado da manipulação neonatal, acarretando respostas mais eficientes e estáveis em relação aos estressores (MEANEY et al., 1993). Por conseqüência, os sistemas imunológicos destes ratos manipulados ficariam protegidos dos efeitos deletérios dos esteróides supra-renais (HUFF et al., 2003). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 379

A criação em isolamento tem sido principalmente associada à potencialização da função dopaminérgica no estriato (ver HALL et al., 1998). Aparentemente, a privação social precoce também potencializa a ação das vias dopaminérgicas de ligação do córtex préfrontal com o estriato (WÜRBEL, 2001). Por conseguinte, estas alterações do sistema dopaminérgico no cérebro dos ratos isolados têm acarretado o desenvolvimento de pesquisas visando ao aprimoramento da compreensão de desordens psiquiátricas em humanos, nas quais é assumido paralelismo entre os sintomas apresentados por aqueles animais e os apresentados por pacientes esquizofrênicos (SCHRIJVER et al., 2002). A manipulação neonatal parece também estar associada à redução de neurônios no locus coerulus (LUCION et al., 2003), que é um agrupamento de neurônios noradrenérgicos que possuem ação excitatória sobre o eixo hipotalâmico-hipofisário-supra-renal. Provavelmente esta é a razão que faz com que ratos expostos à manipulação neonatal apresentem redução das secreções de corticosterona, ACTH e prolactina diante de diversos estressores, e também apresentem retorno mais rápido aos níveis hormonais basais presentes antes da situação estressora (FERNÁNDEZ-TERUEL et al., 2002). Implicações dos tipos de ambiente de criação sobre os resultados das pesquisas Os procedimentos de enriquecimento ambiental para a criação/ manutenção de animais têm sido utilizados com os objetivos de: a) desenvolvimento de repertório comportamental mais “natural”, com a manutenção de padrões comportamentais típicos da espécies, como as taxas de reprodução, e redução de comportamentos anormais, como a supressão de padrões comportamentais autodestrutivos e estereotipias; b) a melhora das condições de saúde dos animais, com aumento da resistência dos organismos a doenças, aumento de longevidade e redução de níveis de cortisol; c) e aprimoramento do bem-estar psicológico dos animais, através da possibilidade de busca de “presas”, da imprevisibilidade e novidade no ambiente, das oportunidades para explorar e ganhar informações sobre o ambiente, bem como das oportunidades para interação social (GALEF , 1999). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


380 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

Os padrões de estimulação oferecidos pelos ambientes nos quais os animais são mantidos geram alterações nas respostas observadas em testes de aprendizagem, memória, ansiedade e outros. Por esta razão, Würbel (2001) chegou a questionar a validade externa das pesquisas sobre as funções cerebrais complexas nas quais os animais são mantidos em ambientes empobrecidos, sugerindo que pelo menos parte dos resultados obtidos nestes experimentos poderia representar idiossincrasias associadas às situações empobrecidas, mas não generalizáveis para outras mais complexas. Nas pesquisas com roedores submetidos a ambientes enriquecidos, há grande variação nos padrões de ambiente, incluindo-se aí as diferenças nas composições dos grupos de animais. O ambiente enriquecido normalmente contém: a) objetos, que os autores chamam de brinquedos, que serviriam para manipulação pelos animais (PRUSKY et al., 2000); b) túneis e abrigos, que serviriam como “locais seguros” para descanso, locomoção, alimentação e interações sociais (CHAMOVE, 1989; CLARK e GALEF , 1977; ZIMMERMANN et al., 2001); rampas de acesso, ou objetos equivalentes, que serviriam para locomoção tridimensional (ver CHAMOVE, 1989); e rodas de atividade. Além disto: a) as caixasviveiro têm tamanhos diferentes em diferentes estudos; b) os brinquedos podem ser ciclicamente substituídos ou mantidos durante todo o período em que os animais estão em investigação; c) a quantidade e os “tipos” de brinquedos podem variar, apesar de que eles normalmente não são bem descritos na literatura; d) os túneis e abrigos apresentados têm diferentes formas e tamanhos em diferentes estudos; e e) as rodas de atividade podem ter diferentes diâmetros, larguras e ainda exigir diferentes intensidades de força para se movimentarem. As diferenças ambientais indicadas podem gerar importantes diferenças nos resultados obtidos por pesquisas sobre enriquecimento ambiental, como foi observado por Zimmermann e colaboradores (2001), porém evitam os riscos das idiossincrasias. Neste sentido, estes autores defendem que, à medida que evoluírem as teorias explicativas dos efeitos do enriquecimento ambiental sobre o comportamento e a fisiologia, estas deverão se tornar capazes de explicar as diferenças observadas entre os estudos. Os modelos de enriquecimento hoje apresentados têm sido eficazes para o desenvolvimento teórico do campo de pesquisas, apesar de que uma parte considerável deles é construída sob bases intuitivas Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 381

e econômicas, sem testes experimentais da funcionalidade dos estímulos de enriquecimento (WÜRBEL, 2001). Neste sentido, seria interessante a produção de modelos de enriquecimento fundamentados em critérios biológicos válidos para as espécies cativas, o que aprimoraria a validade externa dos estudos, e provavelmente melhoraria a qualidade de vida dos animais. Implicações dos tipos de ambiente de criação sobre a qualidade de vida dos animais A importância dos efeitos dos ambientes físicos e sociais, bem como dos procedimentos de manejo, sobre o bem-estar dos animais cativos foi reconhecida pela primeira vez pelo psicólogo Robert M. Yerkes (1876-1956), em 1925. O campo de pesquisas sobre enriquecimento ambiental tem sido influenciado, principalmente, pela Etologia, pela Zoologia e pela Psicologia, no sentido da identificação de propriedades dos ambientes de cativeiro que podem ter influência sobre as motivações dos animais, a incidência de estereotipias e a emissão de comportamentos adequados para a espécie (MELLEN e MACPHEE, 2001). O trabalho clássico de Breland e Breland (1961) indica limitações dos procedimentos de condicionamento operante para a obtenção de padrões comportamentais desejados pelos experimentadores, e aponta para a necessidade de reconhecimento da história natural das espécies dos animais cativos na implementação de programas de pesquisa comportamental, de manejo e de enriquecimento ambiental. Ou seja, as pesquisas sobre enriquecimento ambiental desenvolvidas tendo-se por base os conhecimentos da história natural da espécie podem mais facilmente prover os animais com adequadas oportunidades espécie específicas de interação com o ambiente e, conseqüentemente, contribuir para seu bemestar (MELLEN e MACPHEE, 2001). Os animais cativos podem, muitas vezes, apresentar necessidades inesperadas para os profissionais que os manejam, de modo que a inserção de um animal num ambiente adequadamente construído sob um “olhar humano” pode não ser tão adequado para as exigências dos animais da respectiva espécie (ver MELLEN e MACPHEE, 2001). Além disso, diferentes espécies de animais cativos possuem diferentes necessidades. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


382 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

No que se refere aos roedores de laboratório, há, espontaneamente, seleção de traços de docilidade, que de fato deve ser considerada como um viés necessário, pois os espécimes selvagens, das espécies normalmente manipuladas, exibem níveis elevados de estresse em procedimentos comuns nestes ambientes, além de mostrarem-se perigosos e difíceis de manuseio, pois mordem, urinam, vocalizam e defecam muito (GALEF , 1999). Não há acordo sobre as medidas de avaliação de saúde psicológica de roedores, visto que: a) a menos que os animais se tornem agressivos, é difícil a identificação de perturbação psicológica; b) eles apresentam uma taxa reprodutiva normalmente superior a de outras espécies mantidas em cativeiro; e c) é difícil a determinação de quais mudanças no ambiente de manutenção dos animais contribuem para sua qualidade de vida, pois eles não apresentam expressões faciais, vocalizações ou posturas indicativas de estados psicológicos positivos. Em síntese, há as necessidades de medidas e critérios objetivos de saúde psicológica para a implementação de programas de enriquecimento para roedores, bem como do desenvolvimento de pesquisas investigando os efeitos de diferentes procedimentos de enriquecimento sobre sua qualidade de vida (GALEF , 1999). Galef (1999) questiona a funcionalidade do aumento das caixasviveiro como estratégia de enriquecimento ambiental para criação de roedores, relatando que alguns anos antes de escrever seu artigo, o Canadian Council on Animal Care determinou um aumento do padrão da altura das caixas para ratos de 16,8 cm para 20 cm, o que geraria grandes custos financeiros. Entretanto, uma questão-chave persistia: os ratos ficariam mais confortáveis nas caixas novas ou nas antigas? Os ratos noruegueses selvagens vivem em galerias formadas por túneis com 7,5 cm de altura em média, que conectam câmaras de ninho com 14,5 cm de altura (CALHOUN, 1962; apud GALEF, 1999). Galef (1999) argumentou que os ratos de laboratório derivam de ratos selvagens, e que, portanto, talvez as caixas de 16,8cm de altura fossem demasiado altas para o bem-estar psicológico dos animais, e não baixas, como supunham os membros do conselho canadense. Assim, Galef e Clark, citados por Galef (1999), produziram um experimento que permitiu aos ratos escolherem a proporção de tempo que permaneciam em cada uma das caixas. Os autores simplesmente ligaram as duas caixas comparadas por um túnel de 7,5cm de diâmetro, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 383

esperaram cinco a seis dias para que os sujeitos se habituassem ao ambiente e depois filmaram as caixas para testar em quais eles prefeririam permanecer. A distribuição de permanência foi similar ao acaso. Galef (1999) inseriu tubos de PVC de 15 cm de comprimento por 7,5cm de diâmetro em caixas com ratos acondicionados sozinhos ou em pares. De 125 observações dos ratos isolados, apenas cinco animais estavam nos tubos de PVC; de 76 observações de sujeitos colocados em pares, apenas em 13 havia animais nos tubos. A partir dos resultados de seu pequeno experimento, ele concluiu que a freqüência de observações dos animais nos tubos foi bastante inferior ao que seria esperado pela distribuição casual dos animais nas várias partes das caixas. Aparentemente eles esquivavam-se do abrigo, e o uso mais freqüente dos canos pelos animais colocados em duplas foi interpretado como uma tentativa dos subordinados de permanecerem distantes dos focos de atenção dos dominantes. O autor apontou que não há argumentos e evidências consistentes de que roedores acondicionados com conespecíficos estariam sempre em condições melhores do que outros acondicionados sozinhos. Ele também argumenta que, quando dois ratos são colocados juntos, formam uma hierarquia de dominância na qual um será o dominante, e o outro, o subordinado, e o dominante provavelmente estaria numa condição melhor do que se estivesse sozinho, porém o mesmo não poderia ser dito em relação ao subordinado. Mesmo que a hipótese do uso do cano com instrumento de esquiva pelos animais, sugerida por Galef (1999), esteja correta, não pode ser considerada como um argumento de que o isolamento social seria uma opção melhor de acondicionamento de roedores. O resultado sugere que, na melhor das opções, os ambientes de acondicionamento deveriam possibilitar aos animais subordinados a opção de controle da proximidade física e do contato sensorial com os dominantes, pois, em ambiente natural, os ratos vivem em grupos, em territórios com sistemas de galerias, onde há esta possibilidade. Além disso, a criação em isolamento social gera uma série de alterações comportamentais em ratos, que podem ser inferidas como associadas à redução de qualidade de vida. O enriquecimento social pode gerar diferentes efeitos entre espécies, sexos e idades dos animais. Em condições de laboratório, o acondicionamento em grupos formados somente por machos ou fêmeas não prejudica o sistema imunológico de indivíduos da espécie Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


384 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

Microtus ochrogaster, nem de fêmeas de M. pennsylvanicus, porém gera prejuízos para os machos desta última (KLEIN e NELSON, 1999). Gerbilos da Mongólia (Meriones unguiculatus) formam, em ambiente natural, agrupamentos familiares (ÅGREN et al., 1989), de modo que, se são mantidos neste tipo de agrupamento no laboratório, as agressões intra-específicas são muito raras. Em comparação com gerbilos mantidos em família, os animais mantidos solitários apresentam aumento da freqüência cardíaca, da massa e volume das glândulas adrenais, e dos níveis circulantes de glucorticóides, o que indica que a situação solitária é estressante para eles (GATTERMANN e WEINANDY, 1997). Deste modo, a composição dos grupos em laboratório deve ser feita de acordo com critérios ecologicamente válidos para a espécie, sob risco, no caso de não consideração da sua história natural, de impor-lhes condições de sofrimento. Os gerbilos são sensíveis aos padrões de estimulação sensorial oferecidos nos laboratórios. Eles tendem a permanecer mais tempo em caixas mais escuras, se tiverem a possibilidade de escolher entre caixas idênticas com diferentes níveis de luminosidade, variando entre 0 e 75% de escurecimento da área da caixa, isto é, 375, 175, 120 e 40 lux na altura do ninho (VAN DEN BROEK et al., 1995). Estes estudos auxiliam na identificação das propriedades do ambiente que seriam associadas ao aprimoramento da qualidade de vida dos sujeitos experimentais. Gerbilos criados sob condições-padrão de laboratório crescem e se desenvolvem mais rapidamente, alcançam maturidade sexual mais cedo, são menos reativos à estimulação – isto é, novidade, apresentam glândulas adrenais mais leves, e glândulas pituitárias e órgãos reprodutivos mais pesados do que gerbilos criados em ambientes que permitem acesso a sistemas de abrigo tipo túnel. As taxas de desenvolvimento, e os pesos dos órgãos reprodutivos e da glândula pituitária são resultados da redução de iluminação, enquanto os pesos corporais e das glândulas adrenais parecem resultar da combinação da redução de exposição à luz e do acesso ao túnel (CLARK e GALEF, 1981). O enriquecimento ambiental imposto aos gerbilos (inclusão de sistemas de túneis) aumenta o nível de perturbação psicológica exibido pelos filhotes quando estes precisaram ser manipulados pelos experimentadores, de forma que este procedimento pode ter efeitos negativos, contrário ao que poderíamos esperar à primeira vista (GALEF, 1999). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 385

O efeito ansiogênico provocado pelo sistema de galerias de túneis em gerbilos é um bom exemplo do desafio imposto quando equipes de pesquisa propõem criar condições de enriquecimento a seus animais. Primeiramente por causa das diferenças inter-específicas, pois camundongos mantidos em ambientes que se assemelhavam mais às condições naturais das tocas se tornam menos excitáveis (CHAMOVE, 1989). Em segundo lugar, com a alteração da infra-estrutura ambiental podem surgir efeitos colaterais inesperados, que a equipe terá de administrar. Em terceiro lugar, este é um exemplo de que a situação de escolha livre pelos animais pode gerar problemas, não sendo critério suficiente para seleção do modelo de enriquecimento. A manipulação neonatal apresenta efeitos mais complexos do que aparentam. A redução da reatividade emocional dos sujeitos experimentais deveria resultar em aumento da resistência imunológica, pela redução da estressabilidade. Entretanto, a manipulação, dependendo dos procedimentos específicos utilizados, pode estar associada à redução de resistência a doenças (MOYNIHAN et al., 1992). Além disso, ela é associada à redução do potencial reprodutivo das fêmeas adultas que durante o início de seu desenvolvimento neonatal foram submetidas a este procedimento, porque elas apresentam mais ciclos estrais anovulatórios (LUCION et al., 2003), sem contar ainda que a manipulação neonatal é um método completamente artificial de estimulação dos filhotes, porque, em ambiente natural, eles muito dificilmente seriam submetidos a intervenções deste tipo por humanos. Diante das dificuldades de definição operacional exata do que é “enriquecimento ambiental”, Mellen e MacPhee (2001) sugerem que os ambientes impostos aos animais cativos, respeitadas as características comportamentais e fisiológicas das diversas espécies e ordens, devem: a) oferecer condições adequadas para a reprodução – isto é, acasalamento e cuidados parentais –; b) minimizar o estresse crônico; c) permitir que os animais lidem adequadamente com situações geradoras de estresse agudo; e d) proporcionar condições para que os animais exibam padrões comportamentais típicos da espécie e menos freqüentemente possível as respostas aberrantes. O pressuposto dos autores é de que estas diretrizes, conduzidas em conjunto, deveriam elevar a qualidade de vida dos animais cativos. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


386 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

Em relação aos roedores de laboratório, um conjunto mais específico de critérios, a serem observados conjuntamente pode ser definido: a) o nível de excitabilidade dos animais diante dos procedimentos de manipulação no laboratório (GALEF, 1999); b) as condições gerais de saúde; c) os níveis de agressão intra-específica; d) os níveis circulantes de hormônios supra-renais associados a estresse; d) a freqüência de comportamentos estereotipados; e) a incidência de perda de filhotes por infanticídio, canibalismo e negligência; f) as taxas de sucesso de acasalamento; e g) a freqüência de comportamentos espécie-específicos. Todos os critérios apresentados aqui e por Mellen e MacPhee (2001) são viáveis nas rotinas de laboratório, porém exigem o incremento de pesquisas sobre comportamento e fisiologia animal, já que a adoção inadequada de critérios antropomórficos é mais propensa a gerar ambientes impróprios de criação. Considerações Finais O enriquecimento ambiental tem a vantagem de possibilitar o estudo da plasticidade do sistema nervoso central sem o uso de técnicas de produção de lesões (PINAUD et al., 2002); o mesmo pode ser dito da manipulação neonatal e da privação social. Deste modo, a aplicação dos três modelos de estimulação ambiental aqui discutidos tem sido útil na ampliação da compreensão do comportamento e de seus processos subjacentes nas espécies animais estudadas. Analisando-se especificamente o caso dos mamíferos, a seleção natural fez com que cada espécie tenha muitas características comportamentais distintas; porém há características homólogas e/ou análogas que permanecem, como: a) a organização do comportamento através de um sistema nervoso – o que é bastante similar do ponto de vista estrutural, e composto por diversos tipos de neurônios e células da glia –; b) diversos tipos de hormônios com estrutura química muito semelhante ao longo de diversas espécies (ADLER, 1974); modificabilidade do comportamento através de condicionamentos operante e respondente (CATANIA, 1999), e outras. São as similaridades interespecíficas que, quando tratadas adequadamente, podem permitir inferências a respeito da organização do comportamento e do sistema nervoso central de seres humanos, a partir de experimentos com animais. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 387

As pesquisas sobre estes modelos de estimulação ambiental mostram como exemplo de similaridade entre humanos e outros animais o fato de que os programas de enriquecimento ambiental parecem ter efeito potencializado naqueles sujeitos que, por alguma razão, tiveram atrasos no desenvolvimento, em relação a outros que não sofreram nenhum atraso. Este padrão de resultados foi encontrado por Eickmann e colaboradores (2002) com crianças brasileiras de 24 meses, comparando o desenvolvimento mental e motor daquelas que nasceram com peso normal com outras que nasceram com baixo peso, e por Bredy e colaboradores (2003) com ratos, como já descrito. Neste sentido, a pesquisa com animais permite, tanto do ponto de vista ético, como do ponto de vista técnico, maior controle de variáveis estranhas, o que poderá permitir, como já está em processo, a identificação das propriedades ambientais associadas com a potencialização da plasticidade neuronal. Atualmente, reconhece-se que a plasticidade neuronal é mais ampla do que se pensou durante a maior parte do século passado. A partir de experimentos pioneiros realizados com animais, como os de Altmann e Das (1965; 1966), foram iniciadas pesquisas sobre o fenômeno da neurogênese, isto é, a produção e proliferação de novos neurônios no cérebro, inclusive de indivíduos adultos. Esta descoberta, somada às outras modificações fenotípicas do sistema nervoso associadas a mecanismos de plasticidade, poderá ter importantes implicações sobre a prevenção e o tratamento de doenças neurodegenerativas, como o parkinsonismo ou doença de Alzheimer, assim como proporcionarão uma melhor compreensão dos efeitos de lesões cerebrais sobre o comportamento e a habilidade cognitiva de pessoas idosas (ver GROSS, 2000). Por último, concluímos que os estudos sobre neurogênese em indivíduos adultos são de grande relevância para o desenvolvimento de procedimentos terapêuticos inerentes ao tratamento de lesões cerebrais e doenças neurodegenerativas. Os avanços neste campo de conhecimento terão, indubitavelmente, um enorme impacto para a integração de diversas especialidades (Medicina, Psicologia e Fisioterapia, por exemplo).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


388 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

Referências bibliográficas ADLER, N. T. The biopsychology of hormones and behavior. In: DEWSBURY, D. A. e RETHLINGSAFER, W.A. Comparative Psychology: a modern survey. Johannesburg: McGraw-Hill Kogakusha, Ld., 1974, p. 301-343. AGUILAR, R.; GIL, L.; FLINT, J. GRAY, J. A.; DAWSON, G. R.; DRISCOLL, P.; GIMÉNEZ-LLORT, L.; ESCORIHUELA, R. M.; FERNÁNDEZ-TERUEL, A.; TONEÑA, A. Learned fear, emotional reactivity and fear of heights: a factor analytic map from a large F2 intercross of Roman rat strains. Brain Research Bulletin, v. 57, p. 17-26, 2002. ÅGREN, G.; ZHOU, Q. ZHONG, W. Ecology and social behavior of Mongolian gerbils, Meriones unguiculatus, at Xilinhot, Inner Mongolia, China. Animal Behaviour, v. 37, p. 11-27, 1989. ALTMAN, J; E DAS., G. D. Autoradiographic and histological evidence of postnatal hippocampal neurogenesis in rats. Journal of Comparative Neurology, v. 124, p. 319–335, 1965. ALTMAN, J; DAS, G. D. Autoradiographic and histological studies of postnatal neurogenesis. I. A longitudinal investigation of the kinetics, migration and transformation of cells incorporating tritiated thymidine in neonate rats, with special reference to postnatal neurogenesis in some brain regions. Journal of Comparative Neurology, v. 126, p. 337–390, 1966. ANISMAN, H.; ZAHARIA, M. D.; MEANEY, M. J.; MERALI, Z. Do early events permanently alter behavioral and hormonal responses to stressors? International Journal of Developmental Neuroscience, v. 16, p. 149-164, 1998. BREDY, T. W.; HUMPARTZOOMIAN, R. A.; CAIN, D. P.; MEANEY, M. J. Partial reversal of the effect of maternal care on cognitive function through environmental enrichment. Neuroscience, v. 118, p. 571576, 2003. BRELAN, K. BRELAN, M. The misbehavior of organisms. American Psychologist, v.16, p.681-684, 1961. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 389

CATANIA, C. A. Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. 4. ed. Porto Alegre: ARTMED, 1999. 467p. CLARK, M. M.; GALEF, B. G. Jr. The role of the physical rearing environment in the domestication of the Mongolian gerbil (Meriones unguiculatus). Animal Behaviour, v. 25, p. 298-316, 1977. CLARK, M. M.; GALEF, B. G. Jr. Environmental influence on development, behavior, and endocrine morphology of gerbils. Physiology e Behavior, v. 27, p. 761-765, 1981. CHAMOVE, A. S. Cage design reduces emotionality in mice. Laboratory Animals, v. 23, p. 215-219, 1989. DIAMOND, M. C.; KRECH, D.; ROSENZWEIG, M. R. The effects of an enriched environment on the histology of the rat cerebral cortex. Journal of Comparative Neurology, v. 123, p. 111-119, 1964. EICKMANN, S. H.; LIRA, P. I. C. de; LIMA, M. de C. Desenvolvimento mental e motor aos 24 meses de crianças nascidas a termo com baixo peso. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v. 60, n. 3, p. 748-754, 2002. ESCORIHUELA, R. M.; TOBEÑA, A.; FERNÁNDEZ-TERUEL, A. Environmental enrichment reverses the detrimental action of early inconsistent stimulation and increases the beneficial effects of postnatal handling on shuttlebox learning in adult rats. Behavior and Brain Research, v. 61, p. 169-173, 1994. FALKENBERG, T.; MOHAMMED, A. K.; HENRIKSSON, B.; PERSSON, H.; WINBLAD, B.; LINDEFORS, N. Increased expression of brain-derived neurotrophic factor mRBA in rat hippocampus is associated with improved spatial memory and enriched environment. Neuroscience Letters, v. 138, p. 153-156, 1992. FERNÁNDEZ-TERUEL, A.; ESCORIHUELA, R. M.; NÚÑEZ, J. F.; GOMÀ, M.; DRISCOLL, P.; TOBEÑA, A. Early stimulation effects on novelty-induced behavior in two psychogenetically-selected rat lines with divergent emotionality profiles. Neuroscience Letters, v. 137, p. 185-188, 1992. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


390 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

FERNÁNDEZ-TERUEL, A.; ESCORIHUELA, R. M.; CASTELLANO, B.; GONZÁLEZ, B.; TOBEÑA, A. Neonatal handling and environmental enrichment effects on emotionality, novelty/seeking, and agerelated cognitive and hippocampal impairments: focus on the Roman rat lines. Behav. Genet. v. 27, p. 513-525, 1997. FERNÁNDEZ-TERUEL, A.; GIMÉNEZ-LLORT, L.; ESCORIHUELA, R. M.; GIL, L.; AGUILAR, R.; TEIMER, T.; TOBEÑA, A. Earlylife handling stimulation and environmental enrichment: are some of their effects mediated by similar neural mechanisms? Pharmacology, Biochemistry and Behavior, v. 73, p. 233-245, 2002. FLORENCE, S. L.; TAUB, H. B. e KAAS, J. H. Large-scale sprouting of cortical connections after peripheral injury in adult macaque monkeys. Science, v. 282, p. 1.117-1.121, 1998. GALEF, B. G. Jr. Environmental enrichment for laboratory rodents: Animal welfare and the methods of science. Journal of Applied Animal Welfare Science, v. 2, n. 4, p. 267-280, 1999. GATTERMANN, R.; WEINANDY, R. Lack of social entertainment of circadian activity rhythms in the solitary golden hamster and in the highly social Mongolian gerbil. Biol. Rhythm. Res., v. 28, p. 85-93, 1997. GENTSCH, C.; LICHTSTEINER, M.; FEER, H. Locomotor activity, defecation score and corticosterone levels during an open-field exposure: a comparison among individually and group-housed rats, and genetically selected rat lines. Physiology e Behavior, v. 27, p. 183-186, 1981. GOULD, E.; GROSS, C. G. Neurogenesis in adult mammals: some progress and problems. The Journal of Neuroscience, v. 22, n. 3, p. 619623, 2002. GROSS, C. G. Neurogenesis in the adult brain: death of a dogma. Nature Reviews Neuroscience, New Jersey, v. 1, p. 67-73, 2000. GUERRA, R. F.; TAKASE, E.; NUNES, C. R. O. Play fighting of juvenile golden hamsters (Mesocricetus auratus): effects of two types of social deprivation and days of testing. Behavioral Processes, v. 47, p. 139-151, 1999. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 391

GUERRA, R. F.; NUNES, C. R. O. Effects of litter size on maternal care, body weight and infant development in golden hamsters (Mesocricetus auratus). Behavioral Processes, v. 55, p. 127-142, 2001. HALL, F. S.; WILKINSON, L. S.; HUMBY, T.; INGLIS, W.; KENDALL, D. A.; MARSDEN, C.A.; ROBBINS, T. W. Isolation rearing in rats: Pre- and Postsynaptic changes in striatal dopaminergic systems. Pharmacology Biochemistry and Behavior, v. 59, n. 4, p. 859-872, 1998. HUCK, U. W.; PRICE, E. O. Differential effects of environmental enrichment on the open-field behavior of wild and domestic Norway rats. Journal of Comparative and Physiological Psychology. v. 89, p. 892898, 1975. HUFF, G. R.; HUFF, W. E.; BALOG, J. M.; RATH, N. C. The effects of behavior and environmental enrichment on disease resistance of turkeys. Brain, Behavior, and Immunity, v. 17, p. 339-349, 2003. KLEIN, S. L.; NELSON, R. J. Social interactions unmask Sex differences in humoral immunity in voles. Animal Behaviour, v. 57, p. 603-610, 1999. KLEIN, S. L.; LAMBERT, K. G., DURR, D.; SCHAEFER, T.; WARING. R. E. Influence of environmental enrichment and sex predator stress response in rats. Physiology and Behavior, v. 56, p. 291-297, 1994. KRECH, D.; ROSENZWEIG, M. R.; BENNET, E. L. Relations between brain chemistry and problem-solving among rats raised in enriched and impoverished environments. Journal of Comparative and Physiological Psychology, v. 55, p. 801-807, 1962. LANSDELL, H. C. Effect of brain damage on intelligence in rats. Journal of Comparative and Physiological Psychology, v. 46, p. 461-464, 1953. LIU, D.; DIORIO, J.; DAY, J. C.; FRANCIS, D. D.; MEANEY, M. J. Maternal care, hippocampal synaptogenesis and cognitive development in rats. Nature Neuroscience, v. 3, p. 799-806, 2000. LUCION, A. B.; PEREIRA, F. M. WINKELMAN, E. C.; SANVITTO, G. L.; ANSELMO-FRANCI, J. A. Neonatal handling reduces the number of cells in the locus coeruleus of rats. Behavioral Neuroscience, v. 117, n. 5, p. 894-903, 2003. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


392 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

MEANEY, M. J.; BHATNAGAR, S.; DIORIO, J.; LAROCQUE, S.; FRANCIS, D.; O’DONNEL, D.; SHANKS, N.; SHARMA, S.; SMYTHE, J.; VIAU, V. Molecular basis for the development of individual differences in the hypothalamic-pituitary-adrenal stress response. Cellular and Molecular Neurobiology, v. 13, p. 321-347, 1993. MELLEN, J.; MACPHEE, M.S. Philosophy of environmental enrichment: Past, present, and future. Zoo Biology, v. 20, p. 211-226, 2001. MOYNIHAN, J. A.; BRENNER, G. J.; ADER, R.; COHEN, N. The effects of handling adult mice on immunologically relevant processes. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 650, p. 262-267. MORRIS, R. G.; GARRUD, P.; RAWLINS, J. N.; O’KEETE, J. Place navigation impaired in rats with hippocampal lesions. Nature, v. 297, p. 681-683, 1982. NAKA, F.; SHIGA, T.; YAGUCHI, M.; OKADO, N. An enriched environment increases noradrenaline concentration in the mouse brain. Brain Research, v. 924, p. 124-126, 2002. NILSSON, M.; PERFILIEVA, E.; JOHANSSON, U.; ORWAR, O.; ERIKSSON, P. S. Enriched environment increases neurogenesis in the adult rat dentate gyrus and improves spatial memory. Journal of Neurobiology, v. 39, p. 569-578. PARKER, V.; MORINAN, A. The socially isolated rat as a model for anxiety. Neuropharmacology, v. 25, p. 663-664, 1986. PHAM, T. M.; TCKES, B.; ALBECK, D.; SODERSTRAM, S.; GRANHOLM, A. C.; MOHAMMED, A. H. Changes in brain nerve growth factor levels and nerve growth factor receptors in rats exposed to environmental enrichment for one year. Neuroscience. v. 94, p. 279-286, 1999. PINAUD, R.; TREMERE, L. A.; PENNER, M. R.; HESS, F. F.; ROBERTSON, H. A.; CURRIE, R. W. Complexity of sensory environment drives the expression of candidate-plasticity gene, nerve growth factor induced-A. Neuroscience, v. 112, n. 3, p. 573-582, 2002.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Rogério F. Guerra e Vera Sílvia Raad Bussab — 393

PRUSKY, G. T.; REIDEL, C.; DOUGLAS, R. M. Environmental enrichment from birth enhances visual acuity but not place learning in mice. Behavioural Brain Research, v. 114, p. 11-15, 2000. RAMPON, C.; TANG, Y. P.; GOODHOUSE, J.; SCHIMIZU, E.; KYIN, M.; TSIEN, J. Z. Enrichment induces structural changes and recovery from nonspatial memory deficits in CA1 NMDAR1-Knockout mice. Nature Neurosciences, v. 3, p. 238-244, 2000. ROSENZWEIG, M. R.; KRECH, D.; BENNETT, E. L.; DIAMOND, M. C. Effects of environmental complexity and training on brain chemistry and anatomy: A replication and extension. Journal of Comparative and Physiological Psychology, v. 55, p. 429-437, 1962. ROSENZWEIG, M. R. Environmental complexity, cerebral change, and behavior. American Psychologist, v. 21, p. 321-332, 1966. ROSENZWEIG, M. R.; BENNETT, E. L.; DIAMOND, M. C. Brain changes in relation to experience. Scientific American, v. 226, p. 22-29, 1972. ROSENZWEIG, M. R.; BENNETT, E. L.; HERBERT, M.; MORIMOTO, H. Social grouping cannot account for cerebral effects of enriched environments. Brain Research, v. 153, p. 563-576, 1978. ROWELL, T. E. The family group in golden hamsters: its formation and break-up. Behavior, v. 17, p. 81-93. SCHRIJVER, N. C. A., BAHR, N. I.; WEISS, I. C.; WÜRBEL, H. Dissociable effects of isolation rearing and environmental enrichment on exploration, spatial learning and HPA activity in adult rats. Pharmacology, Biochemistry and Behavior, v. 73, p. 209-224, 2002. SCHROTT, L. M. Effect of training and environment on brain morphology and behavior. Acta Paediatrica, v. 422, p. 45-47, 1997. SCHWARTZ, S. Effect of neonatal cortical lesions and early environmental factors on adult rat behavior. Journal of Comparative and Physiological Psychology, v. 57, p. 72-77, 1964. SMITH, C. J. Mass action and early environment in the rat. Journal of Comparative and Physiological Psychology, v. 52, p. 154-156, 1959. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


394 — Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal

SMITH, M. A.; BRYANT, P. A.; MCCLEAN, M. J. Social and environmental enrichment enhances sensitivity to the effects of kappa opioids: studies on antinociception, diuresis and conditioned place preference. Pharmacology, Biochemistry and Behavior, v. 76, n. 1, p. 93-101, 2003. STAIGER, J. F.; BISLER, S.; SCHLEICHER, A.; GASS, P.; STEHLE, J. H.; ZILLES, K. Exploration of a novel environment leads to the expression of inducible transcription factors in barrel-related columns. Neurosciences, v. 99, p. 7-16, 2000. VAN DEN BROEK, F. A. R.; KLOMPMAKER, H.; BAKKER, R.; BEYNEN, A. C. Gerbils prefer partially darkened cages. Animal Welfare, v. 4, p.119-123, 1995. VAN PRAAG, H.; KEMPERMANN, G.; GAGE, F. H. Neural consequences of environmental enrichment. Nature Review Neuroscience, v. 1, p. 191-198, 2000. WÜRBEL, H. Ideal homes? Housing effects on rodent brain and behavior. Trends in Neuroscience, v. 24, n. 4, p. 207-211, 2001. YOUNG, D.; LAWLOR, P. A.; LEONE, P.; DRAGUNOW, M.; DURING, M. J. Environmental enrichment inhibits spontaneous apoptosis, prevents seizures and is neuroprotective. Nature Medicine, v. 5, p. 448453, 1999. ZIMMERMANN, A.; STAUFFACHER, M.; LANGHANS, W.; WÜRBEL, H. Enrichment-dependent differences in novelty exploration in rats can be explained by habituation. Behavioural Brain Research, v. 121, p. 11-20, 2001. (Recebido em janeiro de 2004 e aceito para publicação em abril de 2004)

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.365-394, outubro de 2003


Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos*

Rogério F. Guerra1 Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo

Abstract

Comportamento materno e desenvolvimento dos filhotes são temas centrais dentro da Psicologia Comparativa, mas a maior parte dos estudos se limita à análise dos mecanismos fisiológicos e comportamentais subjacentes à responsividade parental. O objetivo principal desta discussão teórica é demonstrar a importância de uma abordagem evolucionária para uma nova compreensão de velhos problemas (i.e., a atividade reprodutiva em mamíferos, com ênfase especial em humanos).

Maternal behavior and infant development are central topics in comparative psychology, but most studies have been limited to the physiological and behavioral mechanisms underlying parental responsiveness. The purpose of this theoretical discussion is to show the value of a broader evolutionary approach in shedding new light on these old problems (i.e., reproductive activity in mammals, with a special emphasis on humans). Thus, the

__________________________________________________ * 1

An evolutionary analysis of parturition and infant development in mammals Endereço para correspondência: Departamento de Psicologia, CFH, UFSC, 88040-900, Florianópolis, SC (E-mail: rfguerra@cfh.ufsc.br).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


396 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Assim sendo, o comportamento dos animais durante a parturição, a multiparidade, os intervalos entre os partos, a proporção cefalopélvica e algumas características do filhotes (massa corporal, demanda por leite e atração física, por exemplo) foram considerados como parâmetros para a mensuração dos custos da gravidez e lactação.

behavior of animals during parturition, multiparity, birth intervals, cephalopelvic proportions and some characteristics of infants (body mass, milk demand and physical attractiveness, for example) were taken as parameters for measuring the costs of pregnancy and lactation.

Palavras-chave: Parturição, comportamento parental, desenvolvimento, mamíferos.

Keywords: Parturition, parental behavior, development, mammals.

Algumas descrições de partos Introdução

E

m várias espécies de insetos, répteis e peixes, os animais só se reproduzem uma única vez na vida (semelparidade), e as fêmeas morrem logo após a oviposição; em mamíferos, os animais se acasalam várias vezes ao longo da vida (iteroparidade), mas as fêmeas igualmente vivem pouco tempo após a cessação da capacidade reprodutiva – notável exceção é o que ocorre com a espécie humana, em que as mulheres idosas auxiliam diretamente na criação dos netos e ultrapassam a longevidade masculina. O tamanho da prole pode ser analisado em termos longitudinais (i.e., número de gestações durante o período de vida) ou em função do número de filhotes produzidos a cada gestação; as fêmeas podem dar à luz apenas um filhote (uniparidade) ou pode ter múltiplos filhotes por gestação (multiparidade), tal como várias espécies de primatas ou roedores, respectivamente. Os dicionários da língua portuguesa e da inglesa descrevem as fêmeas multíparas como aquelas que dão à luz múltiplos filhotes ou fêmeas que já passaram por mais de uma parturição durante a vida. No primeiro caso, a palavra multípara está correta, pois se refere ao número de fetos produzidos; no segundo caso, a palavra

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 397

que melhor designa as múltiplas parturições é iteroparidade, pois várias espécies produzem ninhadas, e as fêmeas se reproduzem várias vezes ao longo do período de vida (canídeos, felídeos e roedores). O nascimento é visto como um marco delimitador, momento em que a criança ou o filhote animal ganha o status de ser completo ou “quase” completo. Entretanto, muitas evidências mostram que muitas espécies já apresentam razoável capacidade motora e cognitiva nos momentos finais da vida intra-uterina, principalmente em espécies precociais ou semiprecociais. Existem poucas descrições da interação mãefilhote nos primeiros momentos após o parto, devido às dificuldades metodológicas inerentes a este tipo de estudo. Comumente, a parturição é um evento rápido e discreto; quando estão prestes a dar à luz, as mães procuram um refúgio, e, na maioria das vezes, não há nada que sinalize algum acontecimento especial, o que sem dúvida alguma está relacionado com a minimização dos riscos de predação. A parturição geralmente é um evento solitário, e as mães não exibem sinais de alguma dificuldade especial; as fêmeas mudam muito de posição, mas geralmente dão à luz agachadas, e não recebem ajuda dos outros indivíduos do grupo – elas mesmas puxam a placenta ou deixam-na cair quando se deslocam. Logo após o parto, as fêmeas limpam os filhotes e deixam o local onde ocorreu o parto – as lambidas removem pistas olfativas que atraem predadores, e o contato ventro-ventral permite o mútuo reconhecimento entre mãe e filhote, ao mesmo tempo em que ocorre a transferência de calor. Em primatas, os filhotes nascem cobertos com os restos da placenta, líquido amniótico e secreções vaginais da mãe; o contato físico com o filhote, a limpeza de seu corpo e o consumo dos produtos do parto proporcionam pistas olfativas e gustativas que permitem o rápido estabelecimento do vínculo parental. O parto é um evento discreto, e geralmente as mães não contam com a ajuda de outros indivíduos. Durante e após o nascimento dos filhotes, as mães exibem uma seqüência complexa de comportamentos e é necessário que elas “saibam” exatamente o que fazer neste momento; isto é muito interessante, se considerarmos que o parto envolve um breve espaço de tempo na vida dos animais e que muitas vezes as mães não tiveram oportunidade de “ensaiar” o comportamento.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


398 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

A parturição foi bem documentada em sagüis-de-tufo-branco (Callithrix jacchus). Estes animais são primatas de pequeno porte, nativos das Regiões Norte e Nordeste do Brasil e vivem em sistema familiar. Stevenson (1976) revelou que machos e fêmeas subadultas auxiliam as mães, principalmente no que diz respeito ao transporte e à limpeza corporal dos filhotes. Geralmente, as mães dão à luz dois filhotes a cada gestação e não exibem infanticídio seletivo quando nascem trigêmeos, mas o último filhote fica em nítida desvantagem em relação aos dois primeiros irmãos. Após a completa expulsão dos filhotes, eles escalam o corpo da mãe e se atracam fortemente à região ventral, iniciando a amamentação. Durante a amamentação, as mães inspecionam e limpam cuidadosamente os filhotes, e estes não interrompem a processo. Os contatos ventrais e o atracamento às mamas impedem que o último filhote venha a ter acesso a uma das mamas, permanecendo agarrado a uma das patas traseiras da mãe – em certas circunstâncias, o macho se aproxima e limpa o corpo do filhote, mas, após certo tempo, ele acaba caindo no solo e lá permanece até a chegada da morte. Tais descrições revelam que as mães têm dificuldades em criar três filhotes simultaneamente; as mães não praticam infanticídio seletivo e tampouco consomem a carcaça de filhotes mortos, mas simplesmente negligenciam ou abandonam indivíduos fracos e debilitados. Em babuínos-amarelos (Papio cynocephalus cynocephalus), os membros do grupo exibem interesse pelo parto, mas as mães evitam a proximidade física e exibem vocalizações de medo quando um conspecífico se aproxima. Os partos também ocorrem à noite ou no final de tarde, no momento em que o grupo já se instalou em seu local de repouso noturno; num episódio descrito, o parto durou cerca de 45 minutos, a mãe limpou os filhotes, e ingeriu a placenta e o líquido amniótico (CONDIT e SMITH, 1994). Os partos são difíceis de serem observados em marsupiais, pois os filhotes são diminutos em relação ao tamanho das mães, e estas não exibem sinais visíveis de gravidez. Os filhotes nascem imaturos, as mães dão à luz um ou até quatro filhotes; no momento do parto, elas se apóiam nas quatro patas e, logo em seguida, dobram o corpo de forma a facilitar o acesso dos filhotes à bolsa marsupial. Os filhotes “escalam” a superfície ventral da mãe, exibindo meneios da cabeça para os lados e movimentos coordenados das patas; as mães podem adotar diferentes posições durante o evento. O volume da placenta (menos de 100mg) Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 399

e da ninhada é pequeno, de forma que a parturição dura de dois a quatro minutos (RENFREE e SHAW, 1996; GEMMELL et al., 2002). Os resultados da pesquisa básica revelam que o momento e os fatores que iniciam a parturição em animais e humanos são importantes, pois auxiliam na prevenção de nascimentos de bebês prematuros. Partos em humanos Algumas vezes jornais e TV exibem notícias sobre partos que ocorrem em condições precárias (dentro de táxis, ônibus ou em banheiros públicos, por exemplo); às vezes as mulheres dão à luz sem algum tipo de assistência, mas comumente elas contam com algum tipo de ajuda durante a parturição. Um caso interessante ocorrido em Moçambique, em março/2000, ilustra bem a importância do suporte emocional às gestantes. Com efeito, após uma terrível enchente, a grávida Sophia Pedro teve que, junto com a sogra, buscar abrigo nos galhos de uma árvore. A catástrofe ceifou a vida de 700 pessoas naquele país, mas, com o auxílio da sogra, Sophia teve o seu bebê em condições satisfatórias. Mãe e bebê sobreviveram quatro dias empoleirados na árvore; as imagens do resgate por helicóptero despertaram o interesse dos jornais e TV de vários países (ver ROSENBERG e TREVATHAN, 2001). O episódio acima é bastante ilustrativo, mas nada se compara à dramática experiência vivida por uma mulher mexicana que, diante da falta de assistência médica, resolveu realizar uma cesariana nela própria. A mulher tinha 40 anos de idade e, uma vez que já havia perdido um bebê, devido às dificuldades do parto vaginal, ela decidira enfrentar o problema de outro modo. A experiência com abate de animais ajudou um pouco, mas a mulher teve que buscar coragem tomando três copos de um licor forte antes de realizar a “cirurgia”; ela seccionou o ventre com o auxílio de uma modesta faca de cozinha, e ambos, a mãe e o bebê (um menino), sobreviveram à terrível experiência. Antes de perder a consciência, ela solicitara a um dos filhos que fosse em busca de socorro; no hospital, os médicos conseguiram reparar os estragos causados pelos procedimentos adotados pela mãe (ver MOLINA-SOSA et al., 2004). O episódio causa espanto e revela a forte ligação da mãe com o bebê; por mais dramática que seja a experiência, os riscos seriam maiores, caso a mulher não tivesse tomado tal iniciativa. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


400 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Relatos históricos e hagiográficos mencionam nascimentos de bebês, mas geralmente não descrevem detalhes dos eventos. Alguns episódios relacionados com a gravidez são descritos na Bíblia, mas nada se equipara em nível de detalhamento às descrições sobre a morte de Eudóxia (404 a.C.), esposa do imperador bizantino Arcadius. Eudóxia tivera problemas em dar à luz ao seu bebê e lutou com a morte por alguns dias; vários médicos foram convocados à corte, mas, após muito tempo gasto para que o bebê nascesse naturalmente, eles constaram que o bebê estava morto no ventre de Eudóxia. Os cronistas da época dão conta de que a desafortunada imperatriz tivera hemorragia abundante, sofrera de dores terríveis, vomitara abundantemente, os intestinos já não mais funcionavam, e isto impedia a defecação, a vagina liberava um odor fétido que o mais potente perfume da época não conseguia esconder, a febre era intensa e contínua. Eudóxia não conseguia ter sono adequado, devido à febre e às dores no corpo; no final, ela tinha delírios, alucinações e distúrbios cognitivos. Os documentos revelam que a imperatriz trouxera consigo o feto morto por quatro dias seguidos, o que terminou por afetar irreversivelmente a sua saúde. Em um texto curto, mas muito interessante, Lascaratos e colaboradores (2002) fazem uma análise ex post facto dos sinais e sintomas exibidos por Eudóxia; a decomposição do feto provocou uma endometrite, parametrite, peritonite, septicemia (febre persistente e alterações da consciência) e, por fim, a morte da imperatriz. Curiosamente, os médicos da época tinham domínio sobre como efetuar a embriotomia, mas relutaram muito em realizar a cirurgia. Parece que o paradigma da medicina hipocrática e helênica impediu que os médicos deliberassem por efetuar a cirurgia o mais rapidamente possível, ocasionando a deterioração da saúde da imperatriz. Contudo, os relatos também revelam que Arcadius era um homem violento e, dessa forma, é possível que os médicos tenham ficado amedrontados com a possibilidade de serem julgados incompetentes diante da morte da imperatriz. Mauad (1999) faz um relato sobre o contentamento e a ansiedade que cercaram a gravidez de Maria Isabel, filha de D. Carlota Joaquina, imperatriz do Brasil. Desde o momento em que soube que estava grávida até o nascimento da filha (janeiro a 21 de agosto de 1817), Maria Isabel mantivera correspondência regular com a mãe. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 401

A criança fora descrita como “huma rapariga” forte e saudável, e a princesa relatara que tinha leite em abundância. O melhor parteiro fora convocado para atender a parturiente e, após dois dias de insucesso, ele concluiu que a criança estava morta e chegou a “trazer os ferros” para remover o feto (embriotomia) do ventre da princesa. D. Fernando VII, irmão de Carlota Joaquina e, portanto, marido da própria sobrinha, não permitiu a cirurgia e chamou um outro parteiro para ter maior segurança. O novo parteiro foi mais competente e logo concluiu que “huma membrana” estava tapando a cabeça do bebê; sob seus cuidados, Maria Isabel deu à luz um bebê saudável duas horas e meia após a sua chegada – a criança sobreviveu à fase mais crítica do parto, mas faleceu aos seis meses de idade, provavelmente por ter contraído varíola. Os relatos mostram que os partos representavam riscos de morte mesmo para as mulheres da realeza. O conhecimento científico era bastante precário à época de Maria Isabel, de modo que as mulheres eram vítimas de erros de diagnósticos ou imperícia médica. Um outro caso mais grave de complicações obstétricas foi o da jovem princesa Charlotte Augusta de Gales (1796-1817), que resultou em sua morte e a de seu bebê. A desafortunada princesa Charlotte provavelmente era vítima de porfíria, herdada de seu pai, o Rei George IV (1762-1830); a princesa havia tido dois abortos espontâneos, e o último bebê nascera morto. Durante a parturição, ela tivera dores no peito e abdômen, tinha convulsões e respiração ofegante. O sofrimento de Charlotte durou cerca de 50 horas, e veio a falecer por hemorragia; os historiadores postulam que ela fora atendida por um médico inexperiente, pois, caso tivesse utilizado instrumentos mais adequados, como o fórceps, Charlotte teria sobrevivido, e a história mundial seria radicalmente diferente. Ela teria herdado a coroa real, invés de seu irmão mais novo e, sete anos mais tarde, a sua prima Victoria – em outras palavras, o mundo não passaria pelo florescimento do império britânico, e nós não conheceríamos o que se convencionou chamar de “período vitoriano” (CHUDLEY e HAWORTH, 1999; BURKMAN, 2001). O livro Sobre as epidemias2, uma coletânea do pensamento de Hipócrates, o pai da Medicina, apresenta vários casos de mulheres que tiveram problemas durante os partos. As descrições dos sintomas são __________________________________________________ 2

Hippocratic writings. Great books of the Western world, volume 10. Chicago: Encyclopædia Britannica, 1996.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


402 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

detalhadas e servem para ilustrar o modo como os médicos lidavam com tais problemas. Os partos representavam sérios riscos para as mulheres, e os aforismas hipocráticos lançam conselhos práticos acerca de diagnósticos do sexo dos bebês, a saúde das mães e sobre como evitar os abortos involuntários, pois a medicina hipocrática era contra a interrupção voluntária da gravidez. Parteiras, “aparadeiras” e “comadres” Os partos constituem uma experiência potencialmente perigosa para a espécie humana e, com efeito, o curso da evolução parece ter contribuído para aumentar os riscos, tanto para as mães quanto para os bebês, invés de diminuí-los (TREVATHAN, 1987; ABITBOL, 1996; ELLISON, 2001). As nativas de Zâmbia contam com o suporte emocional de outras mulheres da comunidade (mbusas, equivalente às comadres e doulas) quando vão dar à luz; estas mulheres acompanham os partos, dão conselhos sobre alimentos que a gestante pode consumir, falam sobre as regras relacionadas com a fidelidade, a conduta sexual e o destino da placenta (ela deve ser enterrada próxima à residência da gestante, evitando que bruxas façam uso dela para lançar feitiços contra a mãe e o bebê). Quando o parto não transcorre a contento, essas mulheres acompanham as gestantes até a maternidade; as gestantes contam com o suporte emocional dos parentes e das parteiras, elas preferem ter os filhos em casa, movimentam-se bastante e tem livre escolha da posição mais conveniente durante a parturição (MAIMBOLWA et al., 2003). As mulheres que não contam com serviços de saúde freqüentemente recorrem às comadres, aparadeiras e parteiras da comunidade quando vão ter seus bebês; o parto não é um evento solitário, descomplicado e socialmente irrelevante. As parteiras e comadres foram injustamente consideradas verdadeiras “propagadoras de germes” (SANTOSFILHO, 1947) ou mesmo terríveis bruxas devotadas ao mal (TOSI, 1985), mas alguns relatos bíblicos revelam que elas eram mulheres estimadas pela comunidade (ver Êxodo, 1: 17-21), e, com efeito, o próprio nascimento de Jesus fora acompanhado por duas parteiras, Zebel e Salomé. Os nascimentos são comemorados intensamente pelos cristãos, e tanto as parturientes quanto as parteiras contam com um santo protetor, São Raimundo Nonato – nonato porque ele fora extraído do corpo da mãe que falecera em decorrência dos trabalhos de parto. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 403

Alguns pesquisadores descrevem que as índias brasileiras dão à luz com naturalidade, sem maiores esforços e não interrompem seus afazeres durante todo o processo. Com efeito, Santos Filho (1947) relata que os partos se realizam com a mulher de cócoras, postura realmente mais adequada, raramente nascem gêmeos, e a própria mulher se encarrega de secionar o cordão umbilical. Darcy Ribeiro (1996) também relata que as mulheres indígenas dão à luz na posição vertical (agachadas); os maridos prestam algum auxílio às gestantes, mas, após o término da parturição, eles se deitam numa rede, e a própria mulher se encarrega de remover e enterrar a placenta e secionar o cordão umbilical com a ponta de uma flecha. Os homens parece que se dedicam mais aos preparativos do parto; quando se aproxima o momento crítico da parturição, as mulheres se agacham sobre um buraco (um palmo de profundidade por dois de diâmetro) e esperam que os bebês caiam, sendo amortecidos com uma cobertura de folhas de bananeira. O médico brasileiro Moysés Paciornik (1997) chegou a postular que em menos de 10% dos partos as mães necessitam da ajuda de uma parteira, e deste montante, somente na metade dos casos faz-se necessária a presença de um médico – “[...] assim foi, em todos os tempos e ainda é nos povos primitivos” (p. 15). Estes relatos são inverossímeis, pois diversos estudos apontam que a parturição é um evento especialmente complicado na nossa espécie. Com efeito, raramente as mulheres dão à luz sem a assistência de uma outra pessoa; mesmo em condições mais adversas (dentro de ônibus, táxi, ambulâncias ou mesmo em casa), as mães contam com a ajuda e a assistência de uma pessoa, geralmente uma mulher que proporciona suporte emocional às mães durante e nos primeiros dias após o parto (doula). Às vezes, as pessoas que dão assistência não têm treinamento algum, mas a simples proximidade física proporciona conforto psicológico às mães. Quando as mães dão à luz sem alguma assistência, o parto pode representar um enorme risco para a mulher e o seu bebê. Em tempos relativamente recentes, os partos ocorriam dentro do ambiente doméstico, e os próprios familiares ou membros da comunidade se encarregavam de auxiliar as mães. Atualmente, os partos ocorrem em hospitais, em alas especializadas e, muito freqüentemente, as mães só contam com a ajuda de estranhos – o processo demora cerca de três a quatro vezes o tempo despendido por fêmeas de outras espécies de primatas. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


404 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Por que a parturição de bebês é mais complicada? O parto é um evento especialmente complicado para as mães e seus filhos devido a certas peculiaridades. Com efeito, a cabeça do recém-nascido tem um comprimento médio de 10 cm, da fronte à nuca, e a distância entre os ombros é de cerca de 12 cm. Além disso, devido ao tamanho da pélvis feminina e à nossa adaptação para o bipedalismo, o bebê tem o corpo rotacionado em torno de 90o e emerge do canal vaginiano com a face voltada para as costas da mãe (TREVATHAN, 1987; DAY, 1992; ABITBOL, 1996; ROSENBERG e TREVATHAN, 2002). O cérebro grande do recém-nascido e a pélvis humana adaptada para o bipedalismo tornam o parto extremamente arriscado sem a presença de ajudantes; em primatas não humanos, o parto é um evento discreto e solitário, e dura bem menos. De acordo com Ellison (2001), os bebês estão expostos a sérios riscos de morte durante as primeiras 96 horas, a partir do início dos trabalhos de parto; este período é a fase mais perigosa na vida de uma pessoa, e a evolução intensificou os riscos, ao invés de diminuí-los. A parturição representa riscos consideráveis para a vida das mães e de seus bebês. Entretanto, alguns animais também exibem dificuldades na parturição, pois o tamanho da caixa craniana do filhote é quase o diâmetro da pélvis materna. Levando em conta este parâmetro, as espécies de primatas não humanos que exibem mais dificuldades obstétricas são as pertencentes aos gêneros Ateles, Nasalis, Macaca e Hylobates – o tamanho da caixa craniana de Pongo, Pan e Gorilla é relativamente menor, e, portanto, os partos ocorrem de modo menos complicado. Por outro lado, a caixa craniana dos bebês apresenta uma peculiaridade: ela ocupa quase todo o espaço da pélvis materna, mas a dimensão anterior-posterior é maior que o correspondente à pélvis materna; esta peculiaridade torna necessário que o bebê sofra uma rotação do seu corpo, permitindo o encaixe da cabeça no espaço livre da pélvis materna (SCHULTZ, 1949; TREVATHAN, 1987; DAY, 1992; ROSENBERG e TREVATHAN, 2001; ROSENBERG e TREVATHAN, 2002). Do ponto de vista fisiológico e anatômico, os partos na posição vertical (mãe agachada ou de cócoras) parecem ser mais adequados que os partos realizados com a gestante deitada numa cama (GUPTA e NIKODEM, 2002). As mulheres mudam a posição do corpo em função do desconforto e para facilitar o trabalho da musculatura. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 405

A posição de cócoras é mais vantajosa, pois facilita o aumento do diâmetro da pélvis, e as pressões intra-abdominais facilitam a expulsão do feto, mas poucas mulheres têm condições físicas para manter-se nessa posição pelo tempo necessário para o parto (ROSENBERG e TREVATHAN, 2002). Os próprios relatos da Bíblia contêm elementos que permitem deduzir que a posição agachada ou de cócoras era a forma mais usual durante os partos (I Samuel, 4: 19). O tamanho da caixa craniana do bebê é o principal problema para a “longa travessia” através da pélvis materna; para resolver este problema, se tornou imperiosa a consolidação de três características inerentes a parturição humana: 1) os bebês nascem com a caixa craniana maleável, pois as placas cranianas ainda não foram solidificadas; 2) as mães devem adotar posturas corporais que permitem o aumento do diâmetro interno da pélvis (i.e., de cócoras ou agachadas) e, ao mesmo tempo, o afrouxamento das ligações entre as duas metades da pélvis; e 3) assistência e suporte emocional de doulas ou comadres às mães durante todo o processo. Primatas não humanos dão à luz sem maiores problemas, as mães não contam com a ajuda de outros indivíduos, e os filhotes nascem com a face voltada para o ventre materno; os bebês, por seu turno, nascem com a face voltada para as costas da mãe, e as mães contam com o auxílio e o suporte emocional proporcionado por outras mulheres. A melhoria das condições de vida adicionou um outro risco para as mulheres: o tamanho dos recém-nascidos aumentou com o acesso facilitado aos alimentos e ao conforto da modernidade. Com efeito, medidas do peso corporal de recém-nascidos indicam que eles estão nascendo mais pesados, devido ao sedentarismo das mães e ao conforto da vida moderna (melhor alimentação e acesso facilitado aos serviços de saúde). Um estudo realizado na Dinamarca revelou que, de 1990 a 1999, os recém-nascidos (n = 34.561) ganharam em média 45 g (passaram de 3.474 para 3.519 g) – nos que nasceram no devido tempo o acréscimo foi de 62 g. A porcentagem de bebês com peso corporal acima de 4.000 g pulou de 16,7 para 20%; também foram constatados uma diminuição da idade gestacional (280,3 para 278,9 dias) e, simultaneamente, um aumento do número de partos induzidos (13 para 18,8% dos casos) (ØRSKAN et al., 2001).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


406 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Em primatas de hábitos diurnos, o parto geralmente ocorre à noite, e isto é vantajoso sob vários aspectos. Com efeito, o grupo social se encontra recolhido e acomodado, comumente no alto das árvores, o que torna a díade mãe-filhote pouco suscetível à ação de predadores; além disso, a situação de repouso e de relativa tranqüilidade permite que a mãe tenha mais tempo para se recuperar dos “trabalhos de parto” e possa dedicar mais tempo ao seu filhote recém-nascido, justamente nos momentos mais críticos de sua vida (ver as descrições de JAY, 1963; DEVORE, 1963; JOLLY, 1972; DUNBAR e DUNBAR, 1974; MARTIN, 1990; KUMMER, 1995). A espécie humana ainda exibe esta primitiva característica, pois os partos geralmente ocorrem à noite, mais freqüentemente entre 1 e 3 horas (KAISER e HALBERG, 1962; TREVATHAN, 1987; MARTIN, 1990); as mães que dão à luz durante o período claro do dia relatam mais freqüentemente desconforto (estresse e dores), ocasionando maior debilitamento postpartum (HARKNESS e GIJBERS, 1989). O estresse materno pode prolongar os trabalhos de parto, e parece que o problema é mais grave quando as mães dão à luz sob os cuidados de obstetras, em hospitais. O ambiente nada acolhedor, a presença de pessoas estranhas e os aparelhos utilizados para monitorar o estado fisiológico das mães e dos bebês causam desconforto psicológico; nessas condições, os partos são mais prolongados e, conseqüentemente, interferem nos horários dos nascimentos. Com efeito, um estudo realizado na Holanda revelou que as mulheres que davam à luz com a assistência de parteiras (n = 57.871) e obstetras (n = 31.999) exibiam diferenças nos horários dos partos cerca de 5,43 e 3,34 horas, para as gestantes primíparas e multíparas, respectivamente (HERES et al., 2000). As placas cranianas do bebê não estão solidificadas, de modo que a cabeça do neonato pode suportar uma pressão para se ajustar ao tamanho da pélvis da mãe. Durante o parto, a cabeça do neonato pode sofrer uma deformação em sua circunferência, mas isto não afeta o cérebro. Após o nascimento, ocorre um aumento substancial do cérebro, mas a flexibilidade da caixa craniana permite que o bebê venha ao mundo já com um cérebro relativamente grande – em outras espécies de primatas, os filhotes nascem com as placas cranianas razoavelmente bem solidificadas, o que constitui uma pressão contrária para um aumento maior do volume cerebral após o parto. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 407

Além disso, os músculos mastigatórios estão pouco desenvolvidos no nascimento, de modo que as placas cranianas não sofrem pressão de baixo para cima; os bebês digerem facilmente o colostro e o leite materno, mas eles não possuem enzimas que permitem a digestão de alimento sólido. Nós dispomos de poucos estudos sobre o comportamento de recém-nascidos logo após o parto, mas as filmagens em câmera lenta revelam que bebês com cerca de seis horas de vida exibem movimentos coordenados, precisos e eficientes quando expostos ao seio materno. Eles abrem a boca quando se aproximam do seio, abocanham e puxamno para trás, e voltam ao início do processo, ao mesmo tempo em que ingerem o leite; toda a seqüência deve ser sincronizada, pois o bebê pode facilmente engasgar se a boca for aberta num momento inadequado (KOEPKE e BIGELOW, 1997). O parto é um evento importante na vida da mulher; se ele for executado sem os devidos cuidados, por pessoas inexperientes, a mãe e o bebê correm risco de morte. As mulheres exibem um forte contentamento quando tomam conhecimento da gravidez, mas, simultaneamente, sentem-se temerosas com a parturição; o suporte emocional oferecido pelos familiares é fundamental e atenua o temor vivenciado pelas mulheres quando vão dar à luz. Alguns estudos revelam que o sentimento de controle e a assistência prestada por uma parteira estão associados com a vivência positiva da maternidade; por outro lado, a ansiedade, dores, necessidade de cesariana, uso de anestésicos ou instrumentos cirúrgicos durante os partos vaginais ou o prolongamento dos partos estão relacionados com sentimentos negativos (WALDENSTRÖM, 1999). Ninhos, refúgios, capacidade motora e transporte dos filhotes Os filhotes podem ser agrupados em quatro categorias distintas, de acordo com o padrão de desenvolvimento físico e a capacidade motora no momento do nascimento: filhotes que nascem e se desenvolvem em ninhos (roedores, por exemplo), filhotes que acompanham os pais quase que imediatamente após o nascimento (eqüinos e bovinos, por exemplo), filhotes que passam a maior parte do tempo abrigados em tocas ou refúgios (felinos e canídeos, por exemplo) e os que são transportados continuamente. Além dos custos energéticos da amamentação, as mães e seus filhotes correm riscos de predação, devido ao debilitamento físico; Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


408 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

não obstante isso, as mães mostram-se atentas e exibem respostas parentais dirigidas aos filhotes (agrupamento e aquecimento dos filhotes, remoção da placenta e de restos do líquido amniótico, principalmente da face dos filhotes, por exemplo). Os partos são rápidos e discretos, geralmente ocorrem à noite; e as mães passam por um período de inatividade, abrigadas em ninhos ou refúgios. Os filhotes exibem diferenças morfológicas e comportamentais, e podem ser agrupados conforme descrição a seguir. a) Animais que constroem ninhos Em roedores, os indivíduos constroem ninhos e estocam uma quantidade considerável de alimento – o hamster-dourado, por exemplo, dispõe de bolsas bucais que facilitam o transporte da carga para o ninho. O armazenamento de alimento permite que o animal despenda a maior parte do tempo num lugar seguro, principalmente nos momentos que antecedem o parto ou no período de amamentação. Animais que constroem ninhos geralmente são espécies de pequeno porte e de hábitos noturnos, de modo que o ninho está associado a evitação de predadores. Os filhotes são altriciais e exibem baixa capacidade motora logo após o nascimento. Independentemente da atividade reprodutiva, estes animais vivem em ninhos e freqüentemente se engajam na arrumação de sua estrutura, tal como muitas espécies de roedores; a construção de ninhos é um comportamento típico em aves, devido à gestação externa. O ninho de roedores tem várias funções, pois proporciona: 1) segurança contra a ação de predadores e conforto diante da luminosidade do ambiente; 2) ajuste das funções termorregulatórias, permitindo enfrentar as variações climáticas diárias ou sazonais; 3) funciona como uma reserva biológica, principalmente para os animais que estocam alimento; 4) proporciona um centro de referência necessário para avaliações dos custos energéticos da obtenção dos recursos; e 5) o ninho é um local seguro e confortável, útil em momentos críticos, como a parturição e amamentação (ver GUERRA e ADES, 2002). Os filhotes passam muito tempo sozinhos, e a perda de calor e água é minimizada pelo agrupamento da ninhada. Os filhotes são silenciosos e emitem vocalizações ultra-sônicas para sinalizar o desconforto (frio ou fome, por exemplo). Em diversas espécies de roedores, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 409

as mães limpam a região anogenital dos filhotes e ingerem a urina expelida; como eles não urinam espontaneamente, este comportamento tem duplo significado: ao mesmo tempo em que as lambidas vigorosas da mãe proporcionam uma massagem vigorosa que estimula o funcionamento do sistema digestório, o consumo da urina permite que as mães recomponham o equilíbrio hídrico, de sais minerais e eletrólitos; as mães também ingerem as fezes dos filhotes, pois estas ainda têm alto valor nutritivo. O consumo da urina e das fezes é importante, levando em conta o alto dispêndio de energia durante a amamentação, as dificuldades na mobilidade e o acesso limitado às fontes de alimento. Os filhotes fracos ou doentes podem ser consumidos imediatamente após o parto, junto com a placenta e o líquido amniótico (infanticídio e canibalismo), ou os indivíduos consomem a carcaça de um indivíduo (a mãe ou um irmão) que morreu espontaneamente (canibalismo). O consumo das fezes ou da urina, da placenta ou da carcaça de um conspecífico é importante por três motivos: 1) remove as pistas que possam atrair predadores; 2) elimina focos causadores de doenças patogênicas; e, principalmente, 3) proporciona uma fonte energética de baixo custo de obtenção (GUERRA, 2000). Os animais constroem ninhos em locais de difícil acesso, como galerias subterrâneas (aves geralmente constroem o ninho no topo das árvores), o que proporciona segurança, conforto e segurança às mães em momentos críticos, como a parturição e a amamentação. Os partos geralmente ocorrem à noite, é muito rápido e discreto; as mães imediatamente ingerem a placenta e o líquido amniótico, o que proporciona uma refeição de alto valor energético e, ao mesmo tempo, remove focos potencialmente patogênicos e chamarizes de predadores. b) Animais que crescem em refúgios ou tocas Os animais que vivem em tocas ou refúgios (parking offspring) geralmente são predadores de médio ou grande porte, e dispõem de “armas naturais”. As espécies de grande porte tendem a ter hábitos diurnos ou vespertinos (leões, ursos e tigres, por exemplo), e as de médio porte, hábitos noturnos (lobos, hienas e raposas, por exemplo), mas ambas exibem notável flexibilidade comportamental quando caçam suas presas. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


410 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

No momento em que a parturição se aproxima, as fêmeas deste grupo despendem algum tempo procurando refúgios limpos e seguros, protegidos da luz, sem umidade e com substrato macio; os refúgios se localizam próximos às fontes de alimento e água, permitindo que as mães economizem energia e passem mais tempo próximas aos seus filhotes. Tal como nas espécies que constroem ninhos, os filhotes que são abrigados em tocas e refúgios têm desenvolvimento lento, exibem baixa capacidade motora e podem ser alvos de infanticídio devido à competição intra-específica. Os animais geralmente são carnívoros de grande porte, produzem ninhadas menores e os intervalos entre os contatos da mãe com os filhotes são maiores em relação às espécies que deixam os filhotes em ninhos (hamsters, ratos, camundongos e gerbilos, por exemplo). Os filhotes deste grupo também são crípticos, silenciosos (às vezes emitem vocalizações ultra-sônicas que somente os membros de sua espécie escutam); as mães exibem placentofagia e ingerem a urina e as fezes expelidas pelos filhotes, pois eles podem ser mortos por predadores oportunistas de menor porte durante os longos períodos de ausência da mãe, e além disso este material ainda contém elementos de grande valor nutritivo. Devido aos longos períodos de ausência materna, as mães que constroem ninhos ou usam tocas e refúgios tendem a produzir leite mais rico em proteínas e gordura, em relação às mães que transportam continuamente os filhotes. Diferentemente dos filhotes do primeiro grupo, a termo-regulação não constitui um problema muito sério, pois os filhotes nascem com uma camada de pêlos e a temperatura do ambiente não é tão baixa quanto à do ambiente dos animais que constroem ninhos. Alguns animais de pequeno porte, como o hamster-dourado, vivem em desertos quentes, mas quando saem à noite a temperatura comumente é baixíssima, e isto explica o acúmulo de tecido adiposo marrom e os pêlos densos dos indivíduos adultos. Os animais que abrigam os filhotes em tocas ou refúgios escavam o solo ou amontoam o substrato, tornando o local de repouso mais confortável. Enquanto os ninhos construídos por aves e roedores são mais elaborados e os animais usam material diversificado em sua elaboração, as tocas e os refúgios são mais espaçosos, e os usuários apenas escolhem ou moldam o local de acordo com suas conveniências. Em sistema de reprodução cooperativa (cooperative breeding), os animais compartilham o mesmo espaço físico, como marmotas ou gerbilos da Mongólia, mas eles ocupam locais definidos e interagem de modo oportunístico. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 411

c) Filhotes que seguem os pais Os filhotes deste grupo exibem razoável capacidade motora e seguem as mães logo após o nascimento. No momento do parto, as fêmeas se afastam do bando ou mantêm-se ligeiramente à margem da aglomeração principal, parecendo evitar a proximidade física, mas, ao mesmo tempo, não abdicando da segurança proporcionada pelos conspecíficos. Os filhotes nascem com boa capacidade motora, são de grande porte e acompanham os deslocamentos da mãe ou dos membros do bando quase que imediatamente após o nascimento (leading-following pattern), tal como ocorre em muitas espécies de eqüinos e bovinos. Diferentemente dos filhotes que são abrigados em ninhos ou refúgios, animais deste grupo têm um número reduzido de filhotes por gestação – geralmente um por gestação – e estes não teriam problemas termo-regulatórios, pois a própria locomoção gera calor, e os filhotes já nascem com um revestimento piloso. Os filhotes têm independência locomotora, mas, assim como os animais velhos, fracos ou doentes, eles podem ser deixados para trás durante uma fuga do grupo. Quando eles se extraviam da mãe, eles emitem sinais claros (“choros” e “súplicas”) que sinalizam sua posição; o reconhecimento rápido e imediato da figura materna é fundamental para a sua sobrevivência. Os animais deste grupo são herbívoros de grande porte; como não dispõem de “armas naturais”, eles são alvos preferenciais de grandes felinos, mas minimizam os efeitos da predação através da mútua atração entre os conspecíficos e reprodução sincronizada (efeito de Frazer Darling). Os animais que exibem este padrão de vida são diurnos e exploram um espaço geográfico bastante extenso (home-range). Os deslocamentos são constantes, pois os animais necessitam de uma enorme quantidade de alimento, mas alimento de baixo valor energético e calórico – em contraste com o consumo alimentar de felinos de grande porte, que ingerem alimentos de grande valor energético, mas os intervalos entre as refeições podem ser de vários dias; os filhotes exibem elevado peso corporal no nascimento, o desenvolvimento é rápido e isto explica porque eles nascem um por vez e necessitam reconhecer o mais rapidamente possível a figura materna dentro do grupo social. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


412 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Algumas espécies deste grupo exibem notável agilidade nos deslocamentos, como eqüinos e cervídeos, o que por si só os torna menos vulneráveis a predação; outras espécies exibem uma enorme massa corporal (bisões, elefantes e hipopótamos, por exemplo), o que dificulta a ação dominadora de grandes felinos. d) Filhotes que são transportados continuamente Os filhotes são semi-altriciais ou semiprecociais, pois eles exibem uma boa capacidade de apreensão e se atracam à superfície ventral do corpo da mãe logo após o nascimento (clinging-carrying pattern). Os animais deste grupo produzem apenas um filhote por vez, como os primatas, pois o transporte de múltiplos filhotes dificultaria consideravelmente os deslocamentos da mãe – calitriquídeos dão à luz dois ou três filhotes por vez, mas os machos e os filhotes mais velhos auxiliam no transporte dos irmãos mais novos. As mães marsupiais têm mais de um filhote por gestação e transportam continuamente a ninhada, mas eles são um caso à parte devido ao fato de que os filhotes são extremamente diminutos em relação ao tamanho da mãe, exibem um padrão de desenvolvimento neuromotor bastante diferenciado e são acomodados na bolsa marsupial, algo que poderíamos chamar de “gestação extra-uterina” (ver RENFREE e SHAW, 1996; GEMMELL et al., 2002). O sistema termorregulatório ainda não está plenamente desenvolvido, de modo que os filhotes podem se esfriar facilmente, mas o contato físico constante com o corpo da mãe permite o aquecimento corporal e o acesso ao seio materno sempre que o filhote tiver fome. Diferentemente dos animais que permanecem em ninhos ou em refúgios, o leite das mães que transportam os filhotes é pobre em gordura e proteínas, mas os intervalos entre as mamadas são menores, e os filhotes se desenvolvem mais lentamente. As espécies que deixam os filhotes em ninhos ou em tocas ou refúgios dão à luz múltiplos filhotes, e as dificuldades no transporte da prole, seja devido ao próprio peso da carga, seja por dificuldades de manuseio, constituiriam por si só uma pressão evolucionária para que os filhotes fossem acomodados em um local específico. As mães transportam continuamente os filhotes e acompanham os deslocamentos do grupo. Os animais deste grupo comumente são oportunistas e consomem folhas, frutas e pequenos animais que encontram Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 413

pela frente (insetos, répteis e anfíbios), tal como os primatas de pequeno e médio portes (sagüis, micos e macacos-prego, por exemplo). Animais deste grupo também exibem atração mútua entre os indivíduos do grupo e reprodução sincronizada, tal como em ungulados sociais. Entretanto, eles têm menor massa corporal, geralmente são arborícolas e exibem notável plasticidade comportamental e exploram mais eficientemente os recursos do ambiente. Os custos energéticos da amamentação se somam aos custos inerentes ao transporte dos filhotes, de forma que as mães geralmente perdem peso à medida que os filhotes ganham massa corporal (transferência de recursos energéticos). As fêmeas dão à luz um filhote a cada gestação; em outros casos, nascem mais de um filhote por vez, mas eles são extremamente diminutos em relação ao tamanho do corpo das mães (como os marsupiais) ou as mães contam com a ajuda de outros membros da família (machos consortes ou filhas mais velhas, como em calitriquídeos). e) Os bebês pertenceriam a que grupo? Inúmeras evidências indicam que o gênero Homo emergiu a partir de um sistema social e de caça-e-coleta. Com efeito, os bebês nascem, na grande maioria das vezes, individualmente, a sua precária capacidade termorregulatória não permite que passem muito tempo longe de uma fonte de calor (i.e., o corpo de um conspecífico adulto), necessitam ser alimentados várias vezes ao dia, são extremamente vulneráveis à predação e exibem certas respostas que atraem os adultos, como o sorriso e o choro. Com efeito, presume-se que o sorriso tenha surgido como um elemento para o estabelecimento do vínculo mãe-filhote e que o choro seja uma estratégia importante para sinalizar o desconforto térmico, a fome ou uma situação de risco. Atualmente, várias culturas ainda vivem em sistema de caça-coleta; as mães transportam continuamente os filhos e amamentam por até quatro anos, fenômeno que funciona como um método anticoncepcional natural. A composição do leite e os intervalos entre as amamentações são indicadores importantes para a classificação dos animais nos grupos acima analisados. Em espécies que constroem ninhos ou que vivem em abrigos ou refúgios, os filhotes tendem a se desenvolver mais rapidamente; como os intervalos entre as amamentações são mais longos, o leite materno tende a ser mais concentrado e rico em gordura. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


414 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Em humanos, o leite materno é muito diluído (4,2% de água e 0,9% de proteína), o que sugere que os bebês devem ser amamentados de forma contínua, ou os intervalos entre os episódios devem ser bem menores (ver EWER, 1968). Em espécies que nascem com razoável capacidade motora, os filhotes acompanham os deslocamentos da mãe logo após o parto e o leite materno tem um nível de concentração intermediário entre o leite de animais que constroem ninhos ou que deixam os filhotes em abrigos ou aqueles que transportam continuamente os filhotes (primatas). De acordo com Martin (1990), a imagem de imaturidade do bebê é ilusória e está mais relacionada com o seu baixo desenvolvimento locomotor e a ausência de pêlos, o que sugere imediatamente que a espécie humana exibe um desenvolvimento típico de espécies altriciais. Esta classificação é inadequada, pois os bebês já nascem com os olhos e ouvidos abertos, e vocalizam excessivamente quando necessitam de cuidados parentais; além disso, eles exibem uma cobertura de pêlos durante a fase de desenvolvimento intra-uterino (lanugo), mas perdem-na à medida que a gravidez avança – bebês prematuros às vezes nascem com esta cobertura intacta, o que assusta as mães! –, sugerindo que a espécie humana exibe uma forma de especialização derivada do padrão de desenvolvimento precocial. Os pais comumente embalam os bebês no momento em que estes choram. Segundo o notável psicólogo John Bowlby (1984), o ritmo dos movimentos da mãe deve ser o mais próximo possível da marcha normal (i.e., igual ou ligeiramente acima de 60 ciclos/minuto), parecendo indicar um resquício do padrão caçador-coletor de nossos ancestrais hominídeos. Durante os transportes, os bebês são amamentados continuamente; nos dias atuais, a freqüência de amamentação é variável, indo desde a amamentação em esquema ad libitum (indígenas e caçadores-coletores) ou pode variar desde 5,7 (Alemanha) até 8,6 vezes (Portugal) ao dia (MANZ et al., 1999). As mães indígenas são uma espécie de “berço ambulante”, fenômeno que provoca o envelhecimento precoce, diminuição da longevidade e baixas taxas reprodutivas (ver FREYRE, 1933/1999; CHAGNON, 1992). Em comunidades de caçadores-coletores os intervalos entre as gestações são freqüentemente superiores a quatro anos, e as taxas de mortalidade infantil se elevam em função dos custos de obtenção do alimento (i.e., Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 415

quando há necessidade de percorrerem distâncias maiores ou quando transportam cargas mais pesadas) ou em função da diminuição dos intervalos entre as parturições (BLURTON-JONES, 1986, 1987). As mulheres ocidentais diferem, portanto, das indígenas no que diz respeito à forma como dão à luz (decúbito dorsal, não de cócoras), amamentam menos tempo, deixam os bebês sob os cuidados de outras pessoas e também quase nunca transportam os bebês, em comparação com o modo de vida das mulheres indígenas. Na nossa cultura, o parto muitas vezes é realizado na presença de pessoas estranhas e as mães só têm acesso ao neonato algum tempo depois – em condições críticas, como nas intervenções cesarianas, as mães são submetidas a uma cirurgia, e os efeitos da anestesia só permitem que elas tenham acesso ao bebê no dia seguinte ou mesmo depois. Como na espécie que transporta o filhote, o contato mãe-bebê imediatamente após o parto é importante, pois permite o estabelecimento de um vínculo emocional entre os dois; ao mesmo tempo, o corpo da mãe proporciona conforto térmico ao bebê. As mães exploram muito o corpo do bebê, principalmente se este for menino, acariciam-no, e isto proporciona uma espécie de massageamento. Atualmente, os profissionais que lidam com recém-nascidos (obstetras e enfermeiros) valorizam muito o relacionamento inicial entre as mães e seus bebês, influenciados pelas descobertas da Etologia e Psicologia Infantil. Outras evidências mostram a importância dos contatos físicos entre a mãe e o bebê, sugerindo que estes devem ser transportados continuamente. A técnica denominada “mãe-canguru” é utilizada em algumas maternidades, como alternativa ao uso de incubadoras para a preservação da vida de bebês prematuros. Esta técnica permite que os bebês prematuros (com peso inferior a 2.000 g) tenham contato direto com a pele da mãe, sem que haja queda na temperatura (axilar) ou que o manuseio interfira no repouso do bebê (medições dos movimentos corporais) (CONSTANTINOU et al., 1999; TESSIER et al., 2003). Os efeitos da técnica mãe-canguru ainda são pouco conhecidos, pois um estudo revelou que a estabilidade da freqüência cardíaca, da respiração e da saturação de oxigênio (oximetria) de bebês prematuros (de ambos os sexos, com 25-32 semanas de gestação e peso corporal variando de 760-1.610 g) não exibiram variações significantes antes, durante e após os cuidados de mães-cangurus (FISCHER et al., 1998). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


416 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Alguns resultados indicam que o contato íntimo com o bebê facilita a formação do apego mútuo, mas os bebês prematuros podem exibir um pequeno aumento da temperatura retal (36,9o para 37,3o C), uma diminuição do fluxo respiratório regular (14%), associado com maior incidência de bradicardia e hipoxemia, provavelmente devido ao estresse térmico (BOHNHORST et al., 2001). Do ponto de vista psicológico, a técnica mãe-canguru facilita o vínculo afiliativo entre os indivíduos da tríade (mãe, pai e bebê), pois os casais se tocam mais e exibem olhares direcionados, entre eles ou em direção ao bebê, e a tríade permanece mais tempo em proximidade física (FELDMAN et al., 2003). Entretanto, a fragilidade e a susceptibilidade dos bebês prematuros a choques térmicos são fatores que devem ser considerados quanto adotamos tais procedimentos, principalmente quando realizados no ambiente doméstico. Cuidados aloparentais e a função do “marsúpio social” Animais de pequeno porte geralmente vivem menos e procriam o ano inteiro, como roedores; os custos da procriação recaem integralmente sobre as mães, mas em algumas espécies os machos auxiliam a fêmea, seja direta (transferência de calor ou recuperação de filhotes quando estes se afastam do ninho, por exemplo), seja indiretamente (afastamento de predadores e arrumação do ninho, por exemplo). Todavia, em primatas sociais, os partos ocorrem em períodos delimitados do ano e vários membros do grupo exibem interesse pelo evento. Os filhotes exibem baixa capacidade motora, as mães não permitem que eles saiam de seus braços, e ambos passam a maior parte do tempo em contato físico; os filhotes dependem do leite materno, e um afastamento longo pode causar prejuízo ao seu desenvolvimento. Com poucas semanas de vida, eles gradativamente começam a explorar o ambiente ao seu redor, sempre encontrando um indivíduo adulto que o acolhe, principalmente fêmeas jovens e nulíparas; o filhote pare que cresce numa espécie de “marsúpio social”. Entre os mamíferos que dão à luz simultaneamente, as fêmeas se ajudam mutuamente na criação dos filhotes, e outros indivíduos adultos ou subadultos transportam, limpam e proporcionam segurança aos indivíduos mais jovens do grupo. Em chacais (Canis mesomelas), a fêmea e o macho caçam juntos e deixam para trás os filhotes, sob os cuidados de outros indivíduos adultos; a taxa de sobrevivência dos filhotes está positivamente correlacionada com o número de ajudantes (MOEHLMAN, 1989). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 417

Em primatas, indivíduos adultos despendem atenção e cuidados aos filhotes, mas os cuidados aloparentais podem proporcionar algumas vantagens aos adultos, pois os filhotes podem servir como uma espécie de passaporte para o acesso a outros animais ou fontes de alimento. Em mangustos africanos (Suricata suricatta), adultos de ambos os sexos contribuem para a defesa e a alimentação dos filhotes, e as taxas de mortalidade infantil são mais baixas em grupos numerosos – curiosamente, as fêmeas lactantes expulsam as subordinadas, provavelmente devido aos riscos de infanticídios, mas elas retornam algum tempo depois e auxiliam as mães nos cuidados aos filhotes (CLUTTON-BROCK et al., 1998; DOOLAN e MACDONALD, 1999). Os cuidados cooperativos têm algum custo para os indivíduos que montam guarda nas ninhadas (babysitting), pois eles chegam a perder entre 1 a 2% da massa corporal (CLUTTON-BROCK et al., 1999). Além disso, a estratégia facilita a transmissão de ectoparasitos dentro da colônia, eleva os riscos de infanticídios, e, é claro, dificulta a dispersão no ambiente. Parece que o sistema cooperativo está relacionado com as adversidades ambientais, tais como dificuldades para obtenção de alimento, riscos de predação e baixas temperaturas (BLUMSTEIN e ARMITAGE, 1999). Os benefícios do vínculo entre as fêmeas são difíceis de serem aferidos, mas uma avaliação das taxas de mortalidade infantil de babuínos (Papio cynocephalus), durante um período de 16 anos, revelou que a ligação social entre as fêmeas estava positivamente relacionada com o decréscimo da mortalidade infantil (SILK et al., 2003). Em algumas espécies de mamíferos, os filhotes vivem num sistema familiar e são criados numa “creche comunitária”. Em uma espécie de morcego que habita os EUA e o México (Tadarida brasiliensis mexicana), a creche chega a conter 4.000 filhotes/m2, e a colônia, milhões de indivíduos. As mães conseguem reconhecer seus próprios filhotes dentro do aglomerado de indivíduos, pois o exame de certas enzimas contidas em amostras de sangue de fêmeas e filhotes lactentes (um exame parecido com os testes de DNA) mostrou que elas amamentam outros filhotes (altruísmo recíproco), mas cerca de 80% das vezes elas foram encontradas amamentando seus próprios filhotes (MCCRAKEN, 1984). Tal como ocorre com agrupamentos de animais sociais, as mães e os filhotes se reconhecem mutuamente, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


418 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

e exibem respostas parentais e afiliativas de modo seletivo. O “roubo de leite” é pouco freqüente, mas as altas taxas de filhotes que chegam à fase de desmame sugerem que as adoções são pouco freqüentes dentro das “creches” (MCCRAKEN e GUSTIN, 1991). Na “creche comunitária” vivem filhotes de diferentes idades, e ela é um refúgio seguro para os animais. Um estudo realizado com um morcego indiano (Megaderma lyra) revelou que as mães saem para caçar com o filhote atracado ao seu corpo, permitindo que o filhote seja amamentado durante o vôo. Após o sétimo dia de vida, o filhote é deixado nos abrigos; quando retornam dos vôos, as mães dirigem seletivamente suas atenções para o próprio filhote (BALASINGH et al., 1998). Em alguns casos os filhotes tentam “roubar leite” de outras fêmeas, mas raramente são bem sucedidos – estima-se que os filhotes de morcego vermelho (Nyctalus noctula) têm apenas 14% de chances de serem amamentados por outras mães (KOZHURINA, 1993). As “creches comunitárias” não são apenas um aglomerado de morcegos; as adoções são praticamente inexistentes, pois as fêmeas reconhecem seus filhotes e os órfãos somente poderiam ser adotados em condições excepcionais (por exemplo, no momento em que uma fêmea lactante perde o seu filhote e encontra um órfão no mesmo estágio de desenvolvimento). Em primatas, as “tias” ou fêmeas subadultas auxiliam as mães. Embora as adoções completas sejam fenômenos raros, elas foram documentadas em algumas espécies (ver GUERRA, 1989; 2000). Em certas circunstâncias, uma fêmea chega a amamentar filhotes de outras fêmeas ou mesmo filhotes de uma outra espécie (cross-fostering, ver GUERRA et al., 1998), o que é surpreendente devido aos custos energéticos da amamentação. Em uma revisão sobre este tema, Roulin (2002) sugere que as fêmeas agem desse modo devido a três fatores: erros na identificação de seus próprios filhotes, seleção parental, pois os filhotes da colônia provavelmente têm algum parentesco com as fêmeas, e, portanto, a alocação de leite não representa um desperdício, ou as fêmeas amamentam outros filhotes simplesmente para se verem livres do desconforto causado pelas mamas repletas de leite. A presença de ajudantes depende dos benefícios auferidos pelo investimento numa prole alheia, tanto para as ajudantes quanto para as mães e seus filhotes. No momento em que os benefícios auferidos são assimétricos, favorecendo mais as mães, o comportamento de ajuda é circunstancial e é mais praticado por indivíduos jovens e inexperientes; Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 419

com o surgimento da maturidade sexual, torna-se mais importante que o investimento parental dos ajudantes seja alocado para os seus próprios filhotes. Quando os filhotes são muito pesados em relação ao peso das mães, ou quando as fêmeas dão à luz vários filhotes simultaneamente, os indivíduos do grupo podem auxiliar nos cuidados à prole, dando surgimento ao sistema biparental e “maternidade comunitária” (em algumas espécies, as fêmeas dão à luz simultaneamente e isto pode favorecer o surgimento da ajuda mútua entre as mães), e a reciprocidade e a alternância de papéis entre as fêmeas (como a parturição é sazonal, uma fêmea não lactante pode auxiliar uma mãe, e em outra estação pode ocorrer uma troca de papéis). A reprodução cooperativa é mais freqüente em grupos compostos por indivíduos aparentados (kin selection) e que vivem em sistema familiar. Padrões de desenvolvimento dos filhotes a) Complexo altricial Espécies altriciais nascem com os olhos e os ouvidos fechados, exibem pouca capacidade física e motora, são completamente dependentes da mãe para a aquisição de alimento, proteção contra predação e manutenção da temperatura corporal. Devido às peculiaridades dos mamíferos, a maior parte do desenvolvimento do SNC ocorre no período fetal e nos primeiros estágios após o parto, indicando que o fornecimento alimentar oferecido pelas mães é de vital importância para o desenvolvimento normal dos filhotes. Se levarmos em consideração as características de um adulto, o peso do cérebro de filhotes é consideravelmente maior nas espécies precociais. Uma comparação entre as espécies que exibem a mesma massa corporal revela que os filhotes mamíferos precociais exibem peso cerebral 4,5 vezes maior que o de espécies altriciais; por outro lado, o cérebro dos indivíduos adultos precociais é cerca de 2,5 maior que o de um recém-nascido, enquanto nas espécies altriciais é cerca de 7,5 maior. Espécies precociais exibem capacidade reprodutiva limitada, os filhotes passam por um período de gestação maior, as fêmeas exibem ciclos estrais longos e não apresentam estro postpartum, os filhotes são amamentados por mais tempo e se desenvolvem mais lentamente que filhotes altriciais (MARTIN, 1990, 2003; CLUTTON-BROCK, 1991; Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


420 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

SIKES e YLONEN, 1998). Estas diferenças revelam claramente que o cérebro de um filhote altricial é menor no momento do nascimento, mas aumenta substancialmente de volume na fase postnatal. Filhotes altriciais nascem de olhos e ouvidos selados por uma membrana, são desprovidos de pêlos e, portanto, mais vulneráveis às diminuições da temperatura do ambiente – para minimizar os efeitos da hipotermia, os filhotes passam muito tempo em contato físico com a mãe e com os irmãos. As espécies altriciais exibem alto potencial reprodutivo, em contraposição às espécies precociais, que exibem limitada capacidade reprodutiva, longo período de gestação, longo período estral, ausência de estro postpartum e desenvolvimento postnatal lento (por exemplo, roedores e primatas, respectivamente). As mães que produzem ninhadas compostas por três ou mais filhotes, e estes somente abrem os olhos após o quinto dia de vida, são classificadas como espécies altriciais. Mães que dão à luz ninhadas compostas por, em média, 1,5 filhotes, e estes já exibem abertura dos olhos desde o primeiro dia de vida, são classificadas como espécies precociais. Por outro lado, as espécies intermediárias são aquelas em que as mães dão à luz ninhadas compostas por 1,5 a 3 filhotes, e estes abrem os olhos entre o primeiro e o quinto dia de vida (MARTIN, 1990, 2003). Espécies altriciais geralmente constroem ninhos e este padrão de desenvolvimento ocorre na maioria das espécies de aves. As espécies que produzem ninhadas geralmente constroem ninhos ou vivem em tocas e refúgios. O contato físico com a mãe ou com os irmãos permite a transferência de calor e a preservação da temperatura corporal. As mães recuperam os filhotes que saem do ninho, proporcionam estimulação somatossensorial, por meio de vigorosas lambidas no corpo, ingerem a urina e as fezes dos filhotes, e exibem agressão postpartum dirigidas aos invasores do ninho. O complexo altricial comumente está relacionado com a estratégia reprodutiva r, pois os filhotes nascem em ninhadas e morrem com facilidade. A composição do leite materno depende da disponibilidade das mães, pois elas podem ter contato contínuo com os filhotes (primatas e marsupiais, por exemplo), ou os intervalos entre os contatos maternos podem variar muito ao longo do dia (duas a 24 horas, como em roedores, canídeos e ovídeos, por exemplo). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 421

As mães que permanecem continuamente em contato físico com os filhotes geralmente produzem leite bastante diluído (i.e., mais água e menos gordura e proteína). Em mamíferos aquáticos (golfinhos, focas e baleias, por exemplo), as mães e os filhotes vivem em ambiente frio, e não existe a possibilidade de transferência de calor; o leite materno é mais concentrado (i.e., menos água, mais gordura e proteína). Nos animais que amamentam em intervalos regulares a composição do leite depende do tempo em que o filhote permanece sozinho no ninho ou em abrigos. b) Complexo precocial Em mamíferos precociais, os filhotes exibem uma mudança rápida na seqüência de desenvolvimento cerebral. Na fase intra-uterina o cérebro cresce mais rapidamente, em relação ao desenvolvimento do restante do corpo, mas, logo após o nascimento, ocorre uma brusca desaceleração. Por outro lado, esta seqüência de desenvolvimento continua por um bom tempo em filhotes altriciais, o que torna o desenvolvimento cerebral mais lento nestas espécies. Bebês humanos diferem de outros mamíferos placentários, na medida em que a seqüência de desenvolvimento cerebral continua por cerca de 12 meses após o nascimento. Somente a partir do momento em que completam o primeiro ano de vida é que os bebês passam a exibir uma taxa de desenvolvimento cerebral semelhante ao de um primata precocial típico. O desenvolvimento postnatal dos bebês permite que o cérebro humano aumente cerca de 3,5 vezes, desde o nascimento até a vida adulta, enquanto em outras espécies este crescimento é de apenas 2,3 vezes. O aumento substancial do peso cerebral só foi possível a partir de uma espécie de “gestação extra-uterina”, desde o nascimento até o final do primeiro ano de vida. Devido ao longo tempo de gestação, às baixas taxas reprodutivas (um bebê por gestação, na maioria dos casos), ao lado do fato de que os bebês nascem com olhos e ouvidos abertos, chegou-se à conclusão de que nós seguimos o padrão altricial secundário (ver MARTIN, 1990, 2003). Os filhotes precociais exibem boa capacidade motora imediatamente após o parto, são capazes de emitir vocalizações e seguem as mães em seus deslocamentos. Eles nascem com um revestimento piloso, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


422 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

são menos vulneráveis às diminuições da temperatura do ambiente e geralmente pertencem às espécies sociais de grande porte, como os mamíferos das ordens Artiodactyla e Perissodactyla. Diferentemente das espécies altriciais, que vivem em ninhos ou em abrigos, os animais precociais são nômades – primatas também se deslocam muito durante o dia, mas os filhotes são transportados pelas mães – e não exibem padrões comportamentais típicos de espécies predadoras. O sistema biparental e a monogamia também estão relacionados com o nível de maturidade do filhote recém-nascido, pois tais estratégias reprodutivas estão presentes em algumas espécies altriciais, inexistindo nas precociais. O complexo precocial geralmente está relacionado com estratégias reprodutivas K, pois os filhotes nascem um por vez, são abrigados em refúgios e acompanham as mães durante os deslocamentos diários (ver discussão logo abaixo). Animais deste grupo geralmente são de grande porte, necessitam percorrer longas distâncias em busca de alimento (cervídeos, eqüídeos e bovídeos, por exemplo); em mamíferos aquáticos, os filhotes acompanham os movimentos das mães; calcula-se que 10% das aves sejam compostas por espécies precociais, mas exibem um estágio abreviado de vida altricial – os filhotes ganham independência termorregulatória muito cedo, mas mantêm-se próximos à mãe, seguindo-a em seus movimentos. Mecanismos reprodutivos: estratégias K e r Os organismos exibem diferentes estratégias de acasalamento, e as taxas reprodutivas estão relacionadas com a longevidade, amassa corporal e o aproveitamento dos recursos do ambiente. Animais de grande porte são mais vulneráveis ao empobrecimento dos recursos do ambiente, seja devido à especialização, seja ao montante de alimento necessário à sobrevivência; para enfrentar tais adversidades, mamíferos de grande porte exibem maior plasticidade comportamental durante as atividades de caça ou de forrageio, e estão no topo da cadeia alimentar. Em contraposição, organismos de pequeno porte são susceptíveis a predação, geram um número enorme de descendentes, vivem menos tempo, exibem estereotipia comportamental e habitam mundos diferentes (às vezes dentro do corpo de um organismo maior). Os primeiros aproveitam ao máximo os recursos oferecidos pelo ambiente, mas o desperdício é enorme entre os animais do segundo grupo (ver GUERRA, 2000). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 423

Os organismos podem ser agrupados de acordo com as taxas reprodutivas e a forma como eles aproveitam os recursos ambientais. De acordo com a obra clássica de MacArthur e Wilson (1967), algumas espécies de pequeno porte exibem taxas reprodutivas elevadas, desperdiçam muito os recursos e a evolução parece ter favorecido o fator produção (estrategistas r). Por outro lado, espécies de grande porte são mais susceptíveis aos efeitos da superpopulação, produzem poucos filhotes e vivem mais tempo (estrategistas K), de forma que a evolução parece que favoreceu a eficiência no momento da conversão de alimento em filhotes, com pouco desperdício neste processo. Primatas de modo geral são estrategistas K, e isto é facilmente comprovado na medida em que estes animais exibem alto investimento parental e interação social complexa, as taxas de mortalidade infantil são razoavelmente baixas e são direcionadas a certos indivíduos (filhotes doentes e fracos ou indivíduos velhos), os animais exibem baixa taxa de reprodução (usualmente proles de um ou, como no caso de calitriquídeos, dois filhotes) e longo período de vida (normalmente mais de um ano). Os estrategistas K exibem maior nível de plasticidade comportamental e grande capacidade de aprendizagem e imitação. A taxa de reprodução é baixa e, grosso modo, a ênfase é na “eficiência” e não na “produtividade”, como no caso de animais estrategistas r (insetos ou roedores). Em alguns casos, os animais adotam uma estratégia intermediária entre a seleção K e r, ou podem ser classificados como semiprecociais. De modo geral, roedores adotam a estratégia r, e os filhotes são classificados como altriciais, mas algumas evidências apontam que espécies muito próximas podem exibir padrões comportamentais muito diferentes, tal como ocorre com duas espécies de ratos silvestres pertencentes ao mesmo grupo zoológico, Microtus pennsylvanicus e Microtus ochrogaster. Com efeito, parece que os primeiros adotam a seleção r, pois os machos copulam com várias fêmeas, vivem num ambiente instável, a população às vezes decai abruptamente, e a ninhada geralmente é composta por 4,9 a 5,1 filhotes. Por outro lado, M. ochrogaster adotam a seleção K, pois os animais vivem num sistema monogâmico, seu ambiente é mais estável, os filhotes crescem mais lentamente, a longevidade é maior, e as ninhadas são compostas por 3,5 a 3,6 filhotes (WANG e INSEL, 1996). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


424 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Em espécies que dão à luz muitos filhotes a cada gestação, as mães despendem menos tempo amamentando os filhotes, mas tendem a produzir leite mais concentrado, e os filhotes se desenvolvem mais rapidamente, em relação às espécies que produzem poucos filhotes por gestação e que exibem intervalos curtos entre as amamentações (MARTIN, 1990, 2003; CLUTTON-BROCK, 1991). Um outro exemplo diz respeito às diferenças entre o hamster-siberiano (Phodopus sungorus) e o hamster-djungariano (Phodopus campbelli), duas espécies também pertencentes ao mesmo gênero. Os primeiros são solitários e poligínicos, mas hamster-djungarianos são monogâmicos, coabitam com as fêmeas num sistema biparental, ajudam-nas durante o nascimento dos filhotes, limpam e proporcionam conforto térmico aos filhotes recém-nascidos, e ingerem a placenta e o líquido amniótico durante o parto (JONES e WYNNE-EDWARDS, 2000; REBURN e WYNNE-EDWARDS, 1999). Alguns insetos vivem num sistema social bastante complexo, envolvendo divisão de tarefas, reprodução monogâmica, como espécies da ordem Hymenoptera. Em térmites, o zangão e a rainha podem viver juntos por muitos anos; a rainha às vezes é capaz de produzir cerca de 36.000 ovos por dia, e uma vez que pode viver cerca de 60 a 70 anos, ela produz milhões e milhões de descendentes ao longo da vida. Nessas condições é inimaginável que os pais possam despender cuidados parentais a um único indivíduo, tal como ocorre entre os mamíferos estrategistas K. Dessa forma, a análise comparativa e a utilização dos postulados que levam em conta os custos energéticos do investimento parental podem auxiliar a entender melhor o valor funcional do comportamento, no momento em que “espécies próximas exibem comportamentos díspares” ou quando “espécies distantes exibem comportamentos similares”. Por que os filhotes são atraentes? A maior parte dos filhotes de mamíferos têm um aspecto bastante atraente e os traços infantis despertam respostas afiliativas em adultos e crianças, principalmente entre indivíduos do sexo feminino; indivíduos imaturos pertencentes a outras classes, como Reptilia, Insecta ou Pisces, por exemplo, não exibem esta característica – exceto as figuras antropomórficas dos cartoons e histórias infantis. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 425

Animais tipicamente predadores e ferozes são utilizados como modelos em desenhos animados, histórias em quadrinhos ou artefatos para crianças (bichos de pelúcia, bonecos e figuras decorativas). Animais como ursos, leões, tigres, gorilas ou elefantes não pertencem ao nosso mundo real, e, com efeito, são poucos as pessoas que sequer tiveram oportunidade de ver in loco um animal desses ao longo da vida, seja em zoológicos, seja em circos – tocar fisicamente é altamente improvável. É muito importante para os filhotes altriciais ou semi-altriciais que os parentes e indivíduos adultos exibam um forte interesse por eles, pois eles não têm uma capacidade motora que os capacite à autodefesa ou à obtenção de recursos por meios próprios e são alvos fáceis de predação e vulneráveis às variações climáticas. Assim como os filhotes de ursos, gatos ou lobos, o bebê exerce um fascínio nas pessoas e este fenômeno está relacionado com certas características físicas e comportamentais. Devido à seqüência de desenvolvimento céfalo-caudal, os filhotes nascem com um cérebro razoavelmente bem desenvolvido, a cabeça é muito grande em relação ao restante do corpo – se um adulto tivesse uma cabeça com a mesma proporção que a de um bebê, ele seria visto como uma pessoa portadora de uma grave anomalia física – e os olhos bem desenvolvidos dão-lhes um aspecto de vivacidade. No que diz respeito ao comportamento, certas respostas emitidas pelos bebês têm a capacidade de eliciar o comportamento afiliativo dos adultos, principalmente certos tipos de vocalizações, o abocanhamento do seio materno ou mesmo a sua expressão facial (o sorriso, em humanos). A cabeça desproporcionalmente grande, mas com pouco prognatismo mandibular e nasal, olhos bem desenvolvidos em relação à cabeça, movimentos corporais desajeitados e membros curtos e grossos funcionariam como um estímulo-sinal que ativaria um hipotético mecanismo contido no Sistema Nervoso Central, o mecanismo liberador inato. O interesse humano por filhotes mamíferos mostra a força de nossa herança filogenética, pois indivíduos jovens pertencentes a outras classes (por exemplo, insetos, anfíbios e peixes) não exibem tais características e, portanto, não eliciam respostas afiliativas nas pessoas adultas. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


426 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Os bebês são atraentes e comumente utilizados como “passaportes” para as interações sociais entre pessoas estranhas. Por outro lado, bebês que desafortunadamente exibem alguma anomalia (deformidades do crânio ou da face, por exemplo) geralmente são negligenciados ou vítimas de maus-tratos. Com efeito, mães de crianças com tais deformidades conversam menos com os filhos (ALLEN et al., 1990); embora as mães relatem uma satisfação com os filhos portadores de anomalias craniofaciais, mais que as mães de crianças normais, elas conversam ou sorriem menos para os filhos, assim como são menos responsivas, suas ações não são contingentes com os apelos da criança, e imitam pouco os filhos portadores dessas deformidades (FIELD e VEJALHR, 1984; BORDEN et al., 1989). Mães de bebês bonitos e atraentes brincam ou exibem mais afeição aos filhos (i.e., beijam, embalam, exibem brinquedos como estímulos à brincadeira e falam mais com os bebês) que as mães de crianças pouco atraentes – os bebês foram fotografados inicialmente e as imagens foram apresentadas a um grupo de homens e mulheres, para determinar o grau de beleza e permitir uma análise correlacional entre este fator e o tempo despendido pelas mães em diferentes atividades (LANGLOIS et al., 1995). As características que tornam os bebês atraentes são as mesmas que indicam saúde e vitalidade. Com efeito, estes indicadores estão relacionados com a saúde e a viabilidade da prole, tais como o acúmulo de gordura no corpo, cabeça e olhos bem desenvolvidos, em relação ao restante do corpo, coloração e brilho da pele e dos olhos, reflexos e movimentos corporais vigorosos e, principalmente, exibição de respostas afiliativas contingentes ao comportamento dos pais (vocalizações, sorrisos, fitação e imitação de certas expressões faciais dos adultos, indicadores de uma boa capacidade perceptiva). Bebês subnutridos, portadores de anomalias craniofaciais ou alguma paralisia do corpo em decorrência de lesões cerebrais não exibem tais habilidades e são mais susceptíveis à negligência parental ou são simplesmente abandonados. Profissionais que trabalham com crianças (pediatras, enfermeiras, educadores ou psicólogos) devem ter um treinamento especial para julgar a capacidade motora e cognitiva de bebês, pois eles crescem rapidamente e exibem mudanças comportamentais importantes quase que da “noite para o dia”. Um estudo revelou que profissionais experientes julgam a capacidade física e intelectual de bebês levando em conta a aparência física (oito fotografias do rosto de bebês de seis meses de vida, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 427

de ambos os sexos, previamente classificadas por um grupo de pessoas como atraentes ou pouco atraentes). Em relação aos bebês atraentes, eles julgam os bebês pouco atraentes como mais velhos, com menos habilidades sociais, físicas e intelectuais. Meninos atraentes são vistos como intelectualmente superiores às meninas atraentes; quando os dois são pouco atraentes, as meninas venciam os meninos neste quesito. Também foi notado que o conhecimento prévio das idades dos bebês interfere nos julgamentos, pois os profissionais eram mais severos quando julgavam bebês pouco atraentes e com idade conhecida (CASEY e RITTER, 1996). A aparência física tem efeitos importantes para a auto-imagem, o julgamento das pessoas e a ascensão profissional. Crianças atraentes são vistas como tendo maior capacidade intelectual (CLIFFORD e WALSTER, 1973; CASEY e RITTER, 1996) e mais talentosas ou aptas para estudos acadêmicos (LANDY e SIGALL, 1974; ZAHR, 1985). A beleza de indivíduos adultos também interfere no sucesso profissional, e os anúncios de oferta de empregos veiculados em jornais brasileiros, fornecem amplas evidências dessa importância, quando exigem que os candidatos tenham “boa aparência”. Um estudo feito com bebês prematuros mostrou a existência de uma correlação negativa significante entre o aspecto físico pouco atraente com o tempo de hospitalização (p < 0,002) e os escores de riscos neurobiológicos (p < 0,001) dos bebês. Por outro lado, foi notada uma correlação positiva entre o aspecto físico atraente e o ganho de peso final quando os bebês saíam do hospital (p < 0,03), indicando que o baixo nível de atração pode ter efeitos maléficos para a saúde dos bebês e que mesmo profissionais bem treinados podem exibir tais vieses (BADR e ABDALLAH, 2001). A beleza física é uma característica valiosa, pois os indivíduos mais bonitos são beneficiados desde os primeiros dias de vida, são mais bem remunerados (veja os exemplos de atores, modelos da alta costura e políticos que exibem tais características), e as pessoas inconscientemente associam certos traços morfológicos (simetria facial, baixa proporção cintura/quadril das mulheres, ausência de deformidades ósseas e qualidade da pele, por exemplo) com saúde e potencial reprodutivo. Dependendo das circunstâncias, as pessoas também relacionam rostos bonitos com honestidade, inteligência, integridade moral e apego familiar. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


428 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

O rosto é o nosso “cartão de visita”, pois ele oferece várias informações importantes no primeiro contato; antes do surgimento da linguagem ou mesmo da escrita, tais informações eram importantes para o relacionamento dos antigos hominídeos. Moduladores infantis do comportamento parental: choros e súplicas A literatura descreve o filhote primata como imaturo, inerte e pouco responsivo, o que é parcialmente verdadeiro, mas ele desempenha um papel importante para a modulação do comportamento materno. Os bebês são muito ativos logo após o parto, imediatamente abrem os olhos, vocalizam muito durante a parturição, orientam a cabeça e abrem a boca, de forma sincronizada, em direção às mamas. Eles nascem com os olhos e ouvidos abertos e sinalizam eficientemente o desconforto físico; com poucos dias de vida, eles já interagem com os pais, reconhecem seus rostos e exibem sorrisos e olhares de interesse ou sinalizam o desconforto físico através de choros, revelando algum tipo de controle sobre os adultos familiares. Em espécies que dão à luz vários filhotes ao mesmo tempo e estes são abrigados em ninhos ou em tocas e refúgios, os filhotes competem entre si pelo acesso ao leite materno e, portanto, devem emitir sinais aos pais acerca de suas necessidades. Tal como o choro do bebê e as vocalizações dos filhotes de algumas espécies de primatas, o comportamento de súplica (begging behavior) tem um custo energético considerável e expõe os filhotes à ação de predadores, mas, ao mesmo tempo, serve para sinalizar que o filhote necessita de alimento ou está exposto ao frio, por exemplo. O naturalista Charles Darwin (1809-1882) já notara a importância do choro em bebês e em outras espécies de mamíferos; George Romanes (1848-1894), entusiasta das idéias de Darwin e autor do primeiro livro sistemático sobre Psicologia Comparativa, já mencionava que gatos exibem este comportamento quando têm fome e cita-o como exemplo revelador da inteligência desses animais. Choros e súplicas são moduladores do comportamento parental ou resultam da competição entre irmãos, principalmente entre filhotes que nascem em ninhadas. O número de mamas geralmente é o dobro do tamanho médio das ninhadas (ver GUERRA e NUNES, 2001),

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 429

mas os filhotes competem entre si pelo acesso às mamas que produzem mais leite; em aves, os pais alimentam os filhotes um por vez e, com efeito, a competição é maior. De acordo com Kilner e Johnstone (1997), este fenômeno ocorre em insetos, aves, anfíbios e algumas espécies de mamíferos (camundongos, porcos e focas). Os animais devem emitir sinais “honestos” de súplica, indicando uma necessidade, pois, caso contrário, os pais podem ignorar os apelos dos filhotes. Com efeito, presume-se que este mecanismo tenha surgido da seguinte forma: inicialmente, os filhotes começaram a emitir sinais de súplica de baixo custo energético; no momento em que os pais começaram a alocar mais alimento aos filhotes “suplicantes”, cada vez mais as pressões evolucionárias atuariam em favor dessa estratégia e, além do mais, os filhotes que passaram a exibir sinais mais intensos e vigorosos de “choros” e “súplicas” passaram a receber mais atenção dos pais. Uma vez que os custos energéticos deste comportamento se elevaram em função da freqüência e da intensidade, os pais passaram a ser mais seletivos, ignorando os sinais de menor intensidade; devido ao fato de que os custos crescentes desta estratégia comportamental nem sempre ultrapassam os benefícios energéticos auferidos e as pistas lançadas pelos filhotes também servem como chamarizes para predadores, não é difícil concluir que, do ponto de vista evolucionário, os “choros” e “súplicas” são sinais honestos que indicam algum problema dos filhotes (KILNER e JOHNSTONE, 1997; SMISETH et al., 2001; ROYLE et al. 2002). A comunicação mãe-bebê (ou filhote) deve ser a mais eficiente possível, permitindo o mútuo reconhecimento. Os bebês facilmente eliciam respostas afiliativas num adulto, seja fitando-o mais tempo que o normal, seja exibindo um sorriso direcionado. O choro é um importante componente da interação mãe-bebê, pois as mães respondem prontamente aos apelos do bebê – na cultura brasileira, existe uma frase popular que revela a importância e o valor instrumental do choro infantil: “quem não chora não mama”. A qualidade do choro, em termos de suas propriedades acústicas e duração, é um indicador da saúde e do vigor da criança, pois envolve atividade muscular e um aumento no dispêndio de energia de cerca de 13%. Lummaa e colaboradores (1998) argumentam que infanticídios e, algumas vezes, canibalismo eram freqüentes em grupos de hominídeos no Paleolítico Superior. O infanticídio ocorria quando nasciam gêmeos, Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


430 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

em caso de má-formação do bebê, quando os partos eram pouco espaçados, em situações ecológicas adversas ou quando havia pouca disponibilidade de alimento. Dentro dessa perspectiva, o choro seria uma adaptação ao infanticídio e indicaria um bebê de “boa qualidade”; quanto mais vigoroso o choro, mais os pais investiriam no bebê, e a amamentação prolongada aumentaria os intervalos entre as gestações, beneficiando a mãe e o próprio bebê. O choro sinaliza desconforto físico (dor, fome ou queda da temperatura corporal, por exemplo), e os filhotes provavelmente foram selecionados para chorarem o menos possível – principalmente os filhotes que são abrigados em ninhos ou refúgios (parking offspring) e que passam longos períodos sozinhos. Por seu turno, as mães devem responder o mais rapidamente possível aos apelos dos filhotes, visando à preservação da prole e à minimização de sinais que possam atrair predadores. O choro não deve ser lançado no vácuo, pois tem um custo energético elevado; ele deve ser dirigido aos potenciais cuidadores (a mãe, o pai ou aloparentes, dentro de um sistema de reprodução cooperativa). As vocalizações altas e contínuas sinalizam a presença de indivíduos vulneráveis (fêmeas lactantes e filhotes) e chamam a atenção de predadores; os filhotes que permanecem muito tempo sozinhos geralmente são crípticos ou sinalizam o desconforto através de vocalizações ultrassônicas. Em espécies que transportam continuamente os filhotes, o choro é praticamente inexistente ou são vocalizações baixas e sutis, associadas a pistas não-verbais. O choro é uma resposta instrumental útil para sinalizar algum desconforto do bebê, mas é extremamente antiadaptativo quando ocorre de forma alta e contínua, pois geralmente está associado a maustratos ou até mesmo infanticídio (sufocamento ou estrangulamento, na maioria das vezes). Em condições normais, o choro do bebê é baixo, esporádico e um sinal honesto de desconforto físico, medo ou estresse; caso contrário, ele pode se revelar uma forma de negligência parental ou pode ser um indicador de algum distúrbio psicopatológico no relacionamento parental. Alguns estudos mostram que o choro excessivo não é eficaz para a modulação de respostas afiliativas e, além do mais, ele interfere negativamente no relacionamento do casal (RÄIHÄ et al., 2002).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 431

Conclusões A parturição é um fenômeno pouco investigado, do ponto de vista evolucionário. Em animais, os partos são eventos rápidos e discretos, ocorrem em tocas, ninhos ou refúgios; eles ocorrem geralmente no período escuro do dia, e é bastante difícil estabelecer o momento exato em que as fêmeas terão seus filhotes. Em humanos, não muito tempo atrás, os partos eram circunscritos ao universo feminino, pois somente as comadres e parteiras tinham permissão para acompanhar pari passu o nascimento de bebês. Com o surgimento de novas técnicas (anestésicos, fórceps e procedimentos anti-sépticos), os partos tornaram-se mais seguros, mas as comadres e parteiras perderam o domínio sobre o corpo das parturientes. A medicalização do processo reprodutivo trouxe muitos benefícios para a mulher, pois reduziu as taxas de mortalidade materna e infantil, mas a rica tradição das parteiras e o envolvimento dos familiares e/ou da comunidade com os assuntos reprodutivos perderam-se com o tempo. Os pesquisadores que adotam o pensamento evolucionário fazem uso de expressões como investimento parental, potencial reprodutivo, estratégias de acasalamento e outras. Os filhotes são vistos como commodities, e o comportamento dos organismos é analisado de acordo com uma equação envolvendo custos e benefícios, revelando a influência do pensamento macroeconômico sobre as concepções teóricas neste campo de estudo. As raízes da Ecologia Comportamental ou da moderna Sociobiologia podem ser localizadas nas obras de Charles Darwin (18091882), mas a árvore só começou a dar frutos realmente a partir da segunda metade do século XX. A atividade reprodutiva e a interação mãefilhote foram temas dominantes da Psicologia Comparativa, mas os investigadores se detinham mais na análise dos processos comportamentais e fisiológicos subjacentes ao fenômeno estudado. O uso de teorias e hipóteses de natureza evolucionária trouxe uma nova compreensão acerca de problemas antigos ou deram surgimento a estudos comparativos mais sofisticados. As predições da seleção K e r são úteis para a compreensão das estratégias reprodutivas, e, por outro lado, a análise sobre as diferenças entre os complexos altricial e precocial pode clarificar alguns aspectos do desenvolvimento dos filhotes. Em ambos os casos, os conceitos não são absolutos e devem ser empregados apenas para fins de uma análise comparativa. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


432 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

Referências bibliográficas ABTIBOL, M.M. Birth and human evolution. Westport: Bergin e Garvey, 1996. ALLEN, R.; WASSERMAN, G.A. e SEIDMAN, S. Children with congenital anomalies: the preschool period. Journal of Pediatric Psychology, v. 15, p. 327-345, 1990. BALASINGH, J.; ISAAC, S.S.; SINGARAVEL, M.; NAIR, N. G. e SUBBARAJ, R. Parturition and mother-infant relations in the Indian false vampire bat Megaderma lyra. Behavioural Processes, v. 44, p. 45-49, 1998. BADR, L.K. e ABDALLAH, B. Physical attractiveness of premature infants affects outcome at discharge from NICU. Infant Behavior e Development, v. 24, p. 129-133, 2001. BARDEN, R.C.; FORD, M.E.; JENSEN, A.G.; ROGERS-SALYER, M. e SALYER, K.E. Effects of craniofacial deformity in infancy on the quality of mother-infant interactions. Child Development, v. 60, p. 819-824, 1989. BLUMSTEIN, D.T. e ARMITAGE, K.B. Cooperative breeding in marmots. Oikos, v. 84, n. 3, p. 369-382, 1999. BLURTON-JONES, N. Bushman birth spacing: a test for optimal interbirth intervals. Ethology and Sociobiology, v. 7, p. 91-105, 1986. BLURTON-JONES, N. Bushman birth spacing: direct birth spacing: direct tests of some simple predictions. Ethology and Sociobiology, v. 8, p. 183-203, 1987. BOHNHORST, B.; HEYNE, T.; PETER, C.S. e OOTS, C.F. Skin-toskin (kangaroo) care, respiratory control, and thermoregulation. Journal of Pediatrics, v. 138, p. 193-197, 2001. BOWLBY, J. Apego e perda. Volumes 1, 2 e 3. Trad. de A. Cabral e A.B. Simões. São Paulo: Livraria Martins Fontes Ltda., 1984 [1969]. BURKMAN, R. The obstetrician’s armamentarium: historical obstetric instruments and their inventors. Journal of American Medical Association, v. 286, n. 13, p. 1644, 2001. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 433

CASEY, R.J. e RITTER, J.M. How infant appearance informs: child care providers’ responses to babies varying in appearance of age and attractiveness. Journal of Applied Developmental Psychology, v. 17, p. 495-518, 1996. CHAGNON, N.A. Yanomamö, the last days of Eden. San Diego: Harcourt Brace, 1992. CHUDLEY, A.E. e HAWORTH, J.C. Genetic landmarks through philately – porphyria and its effects on world history. Clinical Genetics, v. 55, n. 2, p. 85-87, 1999. CLIFFORD, M.M. e WALSTER, E. The effects of physical attractiveness on teacher expectations. Sociology of Education, v. 46, p. 248-258, 1973. CLUTTON-BROCK, T.H. The evolution of parental care. Princeton: Princeton University Press, 1991. CLUTTON-BROCK, T.H.; O’RIAIN, M.J.; BROTHERTON, P.N.M.; GAYNOR, D.; KANSKY, R.; GRIFFIN, A.S . e MANSER, M. Selfish sentinels in cooperative mammals. Science, v. 284, p. 1640-1644, 1999. CLUTTON-BROCK, T.H.; BROTHERTON, P.N.M.; SMITH, R.; MCILRATH, G.M.; KANSKY, R.; GAYNOR, D.; O’RIAIN, M.J. e SKINNER, J.D. Infanticide and expulsion of females in a cooperative mammal. Proceedings of the Royal Society London B, v. 265, p. 2291-2295, 1998. CONDIT, V.K. e SMITH, E.O. Yellow baboon and parturition at the Tana River National Primate Reserve, Kenya. American Journal of Primatology, v. 33, p. 51-55, 1994. CONSTANTINOU, J.C.; ADAMSON-MACEDO, E.N.; STEVENSON, D.K.; MIRMIRAN, M. e FLEISHER, B.E. Effects of skin-toskin holding on general movements of preterm infants. Clinical Pediatrics, v. 38, n. 8, p. 467-471, 1999. DAY, M.H. Posture and childbirth. In: JONES, S.; MARTIN, R. e PILBEAM, D. (Editors). The Cambridge encyclopedia of human evolution. Cambridge: Cambridge University Press, p. 88, 1992. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


434 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

DE VORE, I. Mother-infant relations in free-ranging baboons. In: RHEINGOLD, H.L. (Editor). Maternal behavior in mammals. New York: John Wiley e Sons, 1963, p. 305-335. DOOLAN, S.P. e MACDONALD, D.W. Co-operative rearing by slender-tailed meerkats (Suricata suricatta) in the Southern Kalahari. Ethology, v. 105, p. 851-866, 1999. DUNBAR, R.I.M. e DUNBAR, P. Behaviour related to birth in wild gelada baboons (Theropithecus gelada). Behaviour, v. L, n. 1-2, p. 185-191, 1974. ELLISON, P.T. On fertile ground: a natural history of human reproduction. Massachusetts: Harvard University Press, 2001. EWER, R.F. Ethology of mammals. London: Logos Press, 1968. FELDMAN, R.; WELLER, A. e SIROTA, L. Testing a family intervention hypothesis: the contribution of mother-infant skin-to-skin contact (Kangaroo care) to family interaction, proximity, and touch. Journal of Family Psychology, v. 17, n. 1, p. 94-107, 2003. FIELD, T.M. e VEGA-LAHR, N. Early interactions between infants with craniofacial anomalies and their mothers. Infant Behavior and Development, v. 7, p. 527-530, 1984. FISCHER, C.B.; SONTHEIMER, D.; SCHEFFER, F.; BAUER, J. e LINDERKAM, O. Cardiorespiratory stability or premature boys and girls during kangaroo care. Early Human Development, v. 52, p. 145-153, 1998. FREYRE, G. Casa grande e senzala. 35. Ed. Rio de Janeiro: Record, 1999 [1933]. GEMMEL, R.T.; VEITCH, C. e NELSON, J. Birth in marsupials. Comparative Biochemistry and Physiology, v. Part B 131, p. 621-630, 2002. GUERRA, R.F. Infant kidnapping in rhesus monkeys (Macaca mulatta). Ciência e Cultura, v. 41, n. 1, p. 34-38, 1989. GUERRA, R.F. Mães, filhotes e uma análise dos custos do cuidado parental. In: ALONSO, C. e LANGGUTH, A. (Editores). A Primatologia no Brasil. João Pessoa: Sociedade Brasileira de Primatologia e Editora Universitária, v. 7, 2000, p. 107-149. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 435

GUERRA, R.F. e ADES, C. An analysis of travel costs on transport of load and nest building in golden hamster (Mesocricetus auratus). Behavioural Processes, v. 57, p. 7-28, 2002. GUERRA, R.F. e NUNES, C.R. de O. Effects of litter size on maternal and body weight and infant development in golden hamsters (Mesocricetus auratus). Behavioural Processes, v. 55, p. 127-142, 2001. GUERRA, R.F.; TAKASE, E. e SANTOS, C.V. Cross-fostering between two species of marmosets (Callithrix jacchus and Callithrix penicillata). Revista Brasileira de Biologia, v. 58, n. 3, p. 665-669, 1998. GUPTA, J.K. e NIKODEM, C. Maternal posture in labour. European Journal of Obstetrics e Gynecology and Reproductive Biology, v. 92, p. 273-277, 2000. HARKENESS, J. e GIJSBERS, K. Pain and stress during childbirth and time of day. Ethology and Sociobiology, v. 10, p. 255-261, 1989. HERES, M.H.B.; PEL, M.; BORKENT-POLET, M.; TREFFERS, P.E. e MIRMIRAN, M. The hour of birth: comparisons of circadian pattern between women cared for by midwives and obstetricians. Midwifery, v. 16, p. 173-176, 2000. JAY, P. Mother-infant relations in langurs. In: RHEINGOLD, H.L. (Editor). Maternal behavior in mammals. New York: John Wiley e Sons, 1963, p. 283-304. JOLLY, A. Hour of birth in primates and man. Folia Primatologica, v. 18, p. 108-121, 1972. JOLLY, A. The evolution of primate behavior. New York: Macmillan Publishing Co., 1985. JONES, J.S. e WYNNE-EDWARDS, K.E. Paternal hamsters mechanically assist the delivery, consume amniotic fluid and placenta, remove fetal membranes, and provide parental care during birth process. Hormones and Behavior, v. 37, p. 116-125, 2000. KAISER, I.H. e HALBERG, F. Circadian periodic aspects of birth. Annual Review of the New York Academy of Sciences, v. 98, p. 1056-1068, 1962. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


436 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

KILNER, R. e JOHNSTONE, R.A. Begging the question: are offspring solicitation behaviours signals of need? TREE, v. 12, n. 1, p. 11-15, 1997. KOEPKE, J.E. e BIGELOW, A.E. Observations of newborn suckling behavior. Infant Behavior and Development, v. 20, n. 1, p. 93-98, 1997. KOZHURINA, E. Social organization of a maternity group in the Noctule bat, Nyctalus noctula (Chiroptera: Vespertilionidae). Ethology, v. 93, p. 89-104, 1993. KUMMER, H. In quest of the sacred baboon: a scientist’s journey. New Jersey: Princeton University Press, 1995. LANDY, D. e SIGALL, H. Beauty is talent. Task evaluation as a function of the performer’s physical attractiveness. Journal of Personality and Social Psychology, v. 29, p. 299-304, 1974. LANGLOIS, J.H.; RITTER, J.M.; CASEY, R.J. e SAWIN, D.B. Infant attractiveness predicts maternal behaviors and attitudes. Developmental Psychology, v. 31, n. 3, p. 464-472, 1995. LASCARATOS, J.; LAZARIS, D. e KREATSAS, G. A tragic case of complicated labour in early Byzantium (404 A.D.). European Journal of Obstetrics e Gynecology, v. 105, p. 80-83, 2002. LUMMAA, V.; VUORISALO, T.; BARR, R.G. e LEHTONEN, L. Why cry? Adaptive significance of intensive crying in human infants. Evolution and Human Behavior, v. 19, p. 193-202, 1998. MacARTHUR, R.H. e WILSON, E.O. The theory of island biogeography. Princeton: University Press, 1967. MAIMBOLWA, M.C.; YAMBA, B.; DIWAN, V. e RANSJÖ-ARVIDSON, A.B. Cultural childbirth practices and beliefs in Zambia. Journal of Advanced Nursing, v. 43, n. 3, p. 263-274, 2003. MANZ, F.; VAN’T HOF, M. e HASCHKE, F. The mother-infant relationship: who controls breastfeeding frequency? The Lancet, v. 353, April 3, p. 1152, 1999. MARTIN, R.D. Primate origins and evolution: a phylogenetic reconstruction. Princeton: University Press, 1990. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 437

MARTIN, R.D. Human reproduction: a comparative background for medical hypothesis. Journal of Reproductive Immunology, v. 59, p. 111-135, 2003. MAUD, A.M. A vida das crianças de elite durante o império. In: DEL PRIORE, M. (Org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999, p. 137-176. MCCRAKEN, G.F. Communal nursing in Mexican free-tailed bat maternity colonies. Science, v. 223, p. 1090-1091, 1984. MCCRAKEN, G.F. e GUSTIN, M.K. Nursing behavior in Mexican freetailed bat maternity colonies. Ethology, v. 89, p. 305-321, 1991. MOEHLMAN, P.D. Intraspecific variation in canid social systems. In: GITTLEMAN, J.L. (Editor). Carnivore, behavior, ecology, and evolution. London: Chapman e Hall, 1989, p. 143-163. MOLINA-SOSA, A.; GALVAN-ESPINOSA, H.; GABRIEL-GUZMAN, J. e VALLE, R.F. (2004). Self-inflicted cesarean section with maternal and fetal survival. International Journal of Gynecology and Obstetrics, v. 84, p. 287-290, 2004. ØRSKOU, J.; KESMODEL, U.; HENRIKSEN, T.B. e SECHER, N.J. An increasing proportion of infants weight more than 4000 grams at birth. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, v. 80, p. 931-936, 2001. PACIORNIK, M. Aprenda a nascer e a viver com os índios. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. RÄIHÄ, H.; LEHTONEN, L.; HUHTALA, V.; SALEVA, K. e KORVENRANTA, H. Excessively crying infant in the family: mother-infant, father-infant and mother-father interaction. Child: Care, Health e Development, v. 28, n. 5, p. 419-429, 2002. REBURN, C.J. e WYNNE-EDWARDS, K.E. Hormonal changes in males of a naturally biparental and uniparental mammal. Hormones and Behavior, v. 35, p. 163-176, 1999. RENFREE, M.B. e SHAW, G. Reproduction of a marsupial: from uterus to pouch. Animal Reproduction Science, v. 42, p. 393-403, 1996. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


438 — Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos

RIBEIRO, D. Diários índios: os urubus-kaapor. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. ROSENBERG, K.R. e TREVATHAN, W. The evolution of human birth. Scientific American, v. 285, n. 5, p. 60-65, 2001. ROSENBERG, K.R. e TREVATHAN, W. Birth, obstetrics and human evolution. BJOG: an International Journal of Obstetrics and Gynecology, v. 109, p. 1199-1206, 2002. ROSENBLATT, J.S. A psychobiological approach to maternal behaviour among the primates. In: BATESON, P. (Editor). The development and integration of behaviour: essays in honour of Robert Hinde. Cambridge: Cambridge University Press, p. 191-222, 1991. ROULIN, A. Why do lactating females nurse alien offspring? A review of hypotheses and empirical evidence. Animal Behaviour, v. 63, p. 201208, 2002. ROYLE, N.J.; HARTLEY, I.R. e PARKER, G.A. Begging for control: when are offspring solicitation behaviours honest? TREE, v. 17, n. 9, p. 434-440, 2002. SANTOS-FILHO, L. História da Medicina no Brasil. Tomos I e II. São Paulo: Brasiliense, 1947. SIKES, R. e YLONEN, H. Considerations of optimal litter size in mammals. Oikos, v. 83, n. 3, p. 452-465, 1998. SCHULTZ, A. Sex differences in the pelves of primates. American Journal of Physical Anthropology, v. 7, p. 401-423, 1949. SILK, J.B.; ALBERTS, S.C. e ALTMANN, J. Social bonds of female baboons enhance infant survival. Science, v. 302, p. 1231-1234, 2003. SMISETH, P.T. e LORENTSEN, S.H. Begging and parent-offspring conflict in grey seals. Animal Behaviour, v. 62, p. 273-279, 2001. STEVENSON, M.F. Birth and perinatal behaviour in family groups of the common marmoset (Callithrix jacchus jacchus), compared to other primates. Journal of Human Evolution, v. 5, p. 365-381, 1976. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Rogério F. Guerra — 439

TESSIER, R.; CRISTO, M.B.; VÉLEZ, S.; GIRON, M.; NADEAU, L.; DeCALUME, Z.F.; RUIZ-PALÁEZ, J.G. e CHARPAK, N. Kangaroo mother care: a method for protecting high-risk low-birth-weight and premature infants against developmental delay. Infant Behavior e Development, v. 26, p. 384-397, 2003. TOSI, L. Caça as bruxas. Ciência Hoje, v. 4, n. 20, p. 34-42, 1985. TREVATHAN, W.R. Human birth, an evolutionary perspective. New York: Aldine de Gruyter, 1987. WALDENSTRÖM, U. Experience of labor and birth in 1111 women. Journal of Psychosomatic Research, v. 47, n. 5, p. 471-482, 1999. WANG, Z. e INSEL, T.R. Parental behavior in vole. In: ROSENBLATT, J. S. e SNOWDON, C. T. (Editors). Parental care: evolution, mechanisms, and adaptive significance. San Diego: Academic Press, 1996, p. 361-384. ZAHR, L. Physical attractiveness and Lebanese children’s school performances. Psychological Reports, v. 56, p. 191-192, 1985. (Recebido em outubro de 2003 e aceito para publicação em março de 2004)

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.395-439, outubro de 2003


Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia*

Emílio Takase1 Universidade Federal de Santa Catarina

Resumo

Abstract

O cérebro já foi visto como um órgão estático, uma caixa-preta, sem relevância para a compreensão do comportamento humano. Porém, nas últimas décadas as pesquisas sobre o cérebro estão mostrando um papel significativo na compreensão do comportamento humano, indicando que a neuroplasticidade é influenciada por vários fatores: hormônios, ambiente, drogas, idade, nutrição, entre outros. Não se trata somente de compreender como estes fatores afetam o cérebro e o comportamento, mas é importante entender como melhorar e

The brain has usually been seen as a static organ, or a black box of no importance for understanding human behavior. However, in recent decades many findings in the neuroscience field have changed this perception. For example, studies of the brain are useful for understanding the effects of hormones, drugs, age and nutrition on the behavior of many organisms. These findings help improve theories about aging and neuroplasticity, and have practical appli-

__________________________________________________ * 1

Recent contributions of neuroscience to psychology Endereço para correspondências: Laboratório de Neurociência do Comportamento, Departamento de Psicologia, CFH, UFSC, 88040-900, Florianópolis, SC (Email: takase@cfh.ufsc.br).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


442 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

manter a saúde. O presente artigo tem por objetivo apresentar as contribuições recentes de pesquisas da Neurociência Cognitiva e Comportamental para a Psicologia.

cations for health services. The purpose of this article is to discuss the recent contributions of cognitive and behavioral neuroscience for psychology.

Palavras-Chave: Neurociência, Psicologia, saúde, desenvolvimento.

Keywords: Neuroscience, Psychology, health, development.

Introdução

A

pós a década do cérebro (1990-2000), as pesquisas em Neurociência cresceram muito. Podemos observar pesquisadores de diversas áreas estudando o cérebro, desde o neurocientista que estuda os aspectos sociais (DECETY e SOMMERVILLE, 2003; DECETY e CHAMINADE, 2003; HARMON-JONES e DEVINE, 2003; HARRIS, 2003), engenheiros que desenvolvem modelos computacionais (DESOLNEUX et al., 2003) ou um psicólogo que pesquisa a relação entre fé/crença e cérebro (GALLAGHER et al. 2002; BOYER, 2003). Trata-se de investigações multidisciplinares, nos quais cada profissional busca investigar a dinâmica do cérebro. Este trabalho multidisciplinar, através das pesquisas em Neurociência, tem contribuído significativamente para a compreensão do homem nas suas diversas interações com o meio e consigo mesmo, principalmente através do mapeamento cerebral. Por outro lado, ainda existe uma grande dificuldade dos profissionais da saúde em compreender que o nosso comportamento é orquestrado pelo cérebro. Assim, com a crescente divulgação sobre as pesquisas sobre o cérebro, já podemos sinalizar um movimento destes profissionais buscando uma integração com a sua área de conhecimento e a Neurociência (MILLER e KELLER, 2000). A partir de uma revisão bibliográfica, pretendo mostrar as contribuições recentes da Neurociência para a ciência psicológica e o quanto é importante aos psicólogos compreenderem a Neurociência Cognitiva e Comportamental (NCC)2. O objetivo é explorar o conhecimento

__________________________________________________ 2

As áreas da Neurociência Cognitiva e Comportamental que estão contribuindo na compreensão da dinâmica do cérebro para a Psicologia.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


Emílio Takase — 443

que temos sobre o cérebro, ressaltando a importância desse conhecimento para a compreensão do ser humano e, dessa forma, contribuir para o avanço da ciência psicológica. Negligenciar os avanços da Neurociência e a enorme quantidade de artigos publicados sobre o cérebro significa impedir que as teorias psicológicas ganhem maior status científico. É espantoso o número de periódicos e livros existentes na área do cérebro. Desde a última década, foram editados vários periódicos especializados sobre o cérebro, como podemos verificar na base de dados da ScienceDirect3, além de outras bases de dados que publicam revistas especializadas na área da Neurociência, como a The Gale Group e Ovid Technologies, ambas disponíveis via o portal da CAPES (www.periodicos.capes.gov.br). O que presenciamos, então, é um grande volume de artigos publicados anualmente, comparado como de dez anos atrás sobre o cérebro. Diante do número de artigos publicados em Neurociência e áreas afins (Psiquiatria, Neurologia, entre outras), o psicólogo de hoje não pode mais ignorar os resultados das pesquisas nessas disciplinas. Além disso, a tecnologia de rede de comunicação e divulgação tem facilitado significativamente na socialização e na construção do conhecimento, permitindo a compreensão maior do homem na sua dimensão psicológica/mental, física e ambiental. Esta tecnologia de rede, a internet por exemplo, tem publicado as pesquisas realizadas sobre o cérebro através de reportagens/matérias, como a da American Association for the Advancement of Science (http://www.eurekalert.org/) e publicação de livros. Desde o surgimento da internet, as reportagens publicadas têm contribuído significativamente na socialização do conhecimento, cada vez mais acessíveis aos usuários para a compreensão do cérebro. Da mesma forma, livros como o de Herculano-Houzel (2002), Cérebro nosso de cada dia, no qual a autora escreve de forma compreensível para o público leigo, são outro meio de divulgação sobre o cérebro que tem crescido muito nos últimos anos. Na verdade são inúmeros os livros publicados por diversos autores com linguagem acessível, como os livros de Damásio (1996), LeDoux (1998), Ramachandran e Blakeslee (2002), Horgan (2002), entre outros, sobre a Neurociência. __________________________________________________ 3

Disponível em: <http://www.sciencedirect.com>.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


444 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

Apesar das recentes publicações, ainda é pequena a participação dos psicólogos nos avanços científicos da Neurociência, principalmente no Brasil. Para estimular a participação da Psicologia nessa área, em dezembro de 2003 foi publicado no Portal da American Psychology Association (APA) um programa para o treinamento em Neurociência para os estudantes de Psicologia norte-americanos (www.apa.org). É um início que pode contribuir nas mudanças de conceitos e teorias psicológicas em relação ao homem. Muitas dessas mudanças são os resultados das pesquisas em NCC que têm um papel significativo para a compreensão da mente e do comportamento humano, comparadas a outras áreas da saúde (DAVIS et al., 1988; KOLB e WHISHAW, 1998; KEIL et al., 2000; DECETY e SOMMERVILLE, 2003; BAARS et al., 2003). Pelo volume de artigos publicados na NCC, podemos sugerir que a Neurociência está mais para a ciência psicológica do que qualquer outra ciência da saúde. Além disso, nos últimos anos tem aumentado o número de laboratórios de Psicologia em Neurociência, assim como a participação de psicólogos em eventos científicos. Isso mostra a conscientização cada vez mais da importância da NCC na compreensão psicológica do homem. Podemos, então, observar que nos últimos anos há um esforço grande dos cientistas em compreender melhor o cérebro humano, com seus 100 bilhões de neurônios e mais de 100 trilhões de conexões sinápticas. Em termos comparativos, a nossa espécie é um organismo mais complexo, exibindo suas particularidades no modo de pensar, sentir, agir, sonhar e outras particularidades. Mas o que torna a nossa espécie mais complexa é a consciência humana? Desde que Wundt (1873-1874) escreveu o livro Principles of Physiological Psychology, e William James (1890), Principles of Psychology, a compreensão da consciência/mente ainda tem desafiado os cientistas. Abaixo, quando a palavra consciusness e mind são inseridas em uma pesquisa bibliográfica na SciencDirect, observa-se que mais de 2.000 artigos já foram publicados (Tabela 1).

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


Emílio Takase — 445

Tabela 1 Relação entre a palavra-chave e o número de artigos publicados na ScienceDirect

De qualquer forma, o desafio de desvendar o mistério da consciência/mente ainda continua. Será, então, que a dificuldade está no número de neurônios e suas conexões sinápticas na compreensão da consciência ou o fato de que o que eu/self percebe uma realidade, enquanto que o cérebro “percebe” de outra forma? Será que as respostas poderão vir a partir das pesquisas da Física Quântica? As pesquisas sobre a consciência com enfoque em Física Quântica referem-se às questões sobre como os processos quânticos podem apresentar um papel decisivo na compreensão das atividades cerebrais (WOOLF e HAMEROFF, 2001; HAMEROFF, 2002). Alguns Palavras-chaves Númerocomo, de artigos publica as Conferêneventos têm focado estas questões por exemplo, 4 cias de Tucson que são realizadas anualmente Consciousness 2.284e discutem a consciência a partir de várias abordagens. Nessas discussões a ênfase principal é Mind 4.631especialmente no curso se a indeterminação da Mecânica Quântica, do processo de medição, pode abrir a porta para a ação de uma consciência da função fisiológica do cérebro. Nesse sentido, é dito muito pouco sobre a estrutura complexa do cérebro, no qual os processos quânticos poderiam efetivamente atuar. Os estudos que estão sendo realizados por cientistas das áreas biológica, física e de computação sugerem que podemos compreender o funcionamento do cérebro através dos conhecimentos/princípios que a Física Quântica está desenvolvendo. Por exemplo, as pesquisas realizadas na computação por Gerstein e Levitt (1998), Gershenfeld e Chuang (1998) e Adleman (1998) mostram que, simulando as propriedades da água, podem afetar a estruturação/organização das moléculas biológicas dos seres vivos (DNA, proteínas, etc.). __________________________________________________ 4

Disponível em: TOWARD A SCIENTIFIC BASIS FOR CONSCIOUSNESS, Tucson, AZ de 1994 a 2003. <http://www.consciousness.arizona.edu>.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


446 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

Estes estudos indicam que há grande probabilidade de que processos quânticos sejam a linguagem utilizada pelos organismos eucariontes (células com núcleo e membrana plasmática: plantas e animais) estariam utilizando processos quânticos na evolução. Porém, na compreensão do cérebro e seus processos quânticos, podemos enfatizar que toda questão poderia ser dividida em dois aspectos. O primeiro aspecto é epistemológico, ao qual está relacionada a interpretação da Mecânica Quântica (POPPER, 1992), ou seja, as teorias atuais que estão sendo estudadas na Física moderna (teoria da relatividade, Mecânica Quântica e mecânica estatística). O segundo aspecto está na busca para um entendimento dos mecanismos das ações sinápticas e suas relações microscópicas, ou seja, através de uma grande escala dessas ações nos quais os processos quânticos poderiam ser importantes para os estudos atuais da teoria quântica e do cérebro. Certamente, sobre este último as pesquisas podem ser realizadas sem muitas dificuldades, o que não aconteceria para o primeiro aspecto. Para o segundo aspecto, alguns autores têm realizado pesquisas relacionando as atividades cerebrais com a Física Quântica (ECCLES, 1986, 1989, 1990, 1992, 1994; BECK e ECCLES, 1992; CRICK e KOCH, 1992; JIBU e YASUE, 1995; PENROSE, 1991 e 1995; REDMAN, 1990; WALMSLEY, 1993). Por exemplo, os estudos que foram realizados em colaboração com Eccles são baseados nos processos de exocitoses das substâncias neurotransmissoras na sinapse do neocórtex. Os resultados mostraram que a exocitose é um processo no qual são respondidas por impulsos nervosos com probabilidade menor que uma unidade (SAYER et al., 1989). A partir destes estudos pode-se concluir que os processos quânticos podem apresentar ações controladas por microsítios (nas fendas sinápticas) envolvendo um ou poucos átomos de hidrogênio na membrana. Acredito que enquanto não houver avanços significativos na Física moderna, os estudos sobre a consciência e a Mecânica Quântica podem estar mostrando uma visão newtoniana/cartesiana e não quântica; ou seja, ainda é muito cedo para explicar os fenômenos psicobiológicos a partir dos resultados obtidos da Mecânica Quântica. Não é só porque a Física moderna está mostrando e desvendando o mistério do universo que é possível fazer um paralelo com os mistérios da mente/consciência. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


Emílio Takase — 447

Devemos ter cuidado na nossa linguagem, que é um instrumento de comunicação e temporal. Talvez nas pesquisas a consciência demore a ser desvendada, pois acredito que o problema está na nossa linguagem, um instrumento de comunicação. Se a evolução dos organismos vivos (plantas e animais) teve a influência das propriedades eletromagnéticas e gravitacionais, acredito que podemos entender a consciência quando compreendermos os princípios da Física Quântica. Apesar de um certo modismo em relação à Física Quântica, os cientistas estão percebendo que ela pode contribuir para o avanço científico das ciências psicobiológicas. Um dos temas diz respeito ao livrearbítrio e à consciência. Para os neurocientistas, é consenso de que o livre-arbítrio não existe, já que o nosso comportamento é controlado/ decidido pelo cérebro milissegundos antes da nossa ação consciente (GOLDBERG, 2002). No livro O cérebro emocional, de LeDoux, o autor também escreve sobre os nossos comportamentos inconscientes, que são levados por emoções que não conseguimos controlar de forma voluntária das nossas ações, na verdade tudo é controlado pelo cérebro. Uma pesquisa realizada por Sirigu e colaboradores (2003) mostra que o nosso comportamento motor, a nossa ação, por exemplo, ao estar digitando uma letra, seria um movimento voluntário e consciente. Na verdade, os neurônios respondem/ativam milissegundos antes de você pensar em teclar. Até que ponto as bases neurais do comportamento têm influência na nossa vida cotidiana? Uma velha questão é o aprendido X biológico (nurture X nature). Os estudos da Neurociência sobre as diferenças individuais cognitivas, emocionais e comportamentais têm mostrado a influência das bases biológicas. Os estudos com os gêmeos univitelinos, por exemplo, mostram que eles têm suas diferenças individuais que os tornam únicos (LOSOYA, 1997; DE GEUS e BOOMSMA, 2001). As pesquisas têm revelado que há uma forte influência da genética no comportamento (PLOMIN e COLLEDGE, 2001), evidenciando que o ambiente tem pouca influência. Outro estudo, apesar de ter identificado os genes para o autismo, mostra que há muitas diferenças individuais (HAPPÉ, 1999; BARON-COHEN, 2002). O autismo é uma complexa interação entre os genes, o ambiente e as conexões sinápticas (SEQUEIRA, 2001). Há autistas que conseguem cursar uma universidade e outros que não, como é o caso dos Savants. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


448 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

Um outro tema que pode contribuir nesta questão do aprendido X biológico é em relação aos canhotos. A porcentagem de canhotos na população é de 10% (BRYDEN, 1977). Apesar dessa porcentagem pequena na população mundial, os canhotos têm se destacado no decorrer da história, influenciando significativamente na nossa sociedade. Podemos citar, por exemplo, Napoleão Bonaparte, Leonardo DaVinci, Albert Einstein, Mahatma Gandhi, Pelé, Ayrton Senna e Bill Gates. O que têm de diferente as pessoas canhotos? No universo do esporte, é freqüente encontrarmos canhotos entre os primeiros do ranking mundial. No tênis de mesa, por exemplo, tanto no masculino e no feminino, é freqüente encontrarmos canhotos entre os dez melhores classificados no ranking mundial (ver http://www.ittf.com). Não é diferente em relação ao tênis. A justificativa tem sido que os destros levam desvantagem, porque não estão habituados a jogar com um canhoto, pois os movimentos são ao contrário em relação ao jogador destro. Não é o que as pesquisas têm mostrado, e, além disso, os atletas destros de alto rendimento treinam ou estão habituados a jogar com um canhoto. Pugol e colaboradores (1999) estudaram 50 destros e 50 canhotos, através de Ressonância Magnética de Imagem Funcional. Eles verificaram que, durante a geração de palavras, 96 % dos destros apresentaram ativação maior no hemisfério esquerdo e 4 % bilateralização. Nos canhotos, houve 76 % de ativação maior no hemisfério esquerdo, 14 % de bilateralização e 10% de ativação no hemisfério direito. Nesse estudo, somente um sujeito canhoto mostrou ativação maior no hemisfério direito. Por outro lado, o estudo de Basic e colaboradores (2004), através do doppler transcraniano, verificou que os canhotos apresentaram uma significância maior da linguagem no hemisfério direito em relação aos destros. Novas tecnologias e métodos, novos resultados. No decorrer da história existem registros de pessoas e fatos que determinaram grandes mudanças, por exemplo, o naturalista Charles Darwin, ou os aventureiros que percorriam quilômetros ou aqueles que navegaram pelos mares para descobrir outros continentes. Estas pessoas não podem ser consideradas conservadoras, mas sim motivadas na busca por novidades, pelo enfrentamento de desafios, por adrenalina, pelo desafio de desvendar os mistérios, entre outros estímulos motivacionais que os levaram a ter uma participação significativa na construção da história. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


Emílio Takase — 449

Nesse sentido, o ser humano não é diferente de outras espécies, pois muitas espécies são atraídas por novidades (MISHKIN e PRIBAM, 1955). Apesar dessa atração por novidades, não somos aventureiros, revolucionários, criadores de novos paradigmas, pois somos conservadores, sempre escolhendo e buscando o que é familiar, principalmente com a evolução da cultura e o acúmulo do conhecimento. Sugere, então, que para a natureza, é adaptativo ser conservador. A pesquisa conduzida por Goldberg e colaboradores (1994), por exemplo, mostrou que os canhotos escolheram os alvos que diferiam, e não os semelhantes. Este estudo sugere, então, que os homens canhotos são motivados para a busca de novidades (novidades cognitivas). É freqüente, então, encontrarmos canhotos no meio artístico e esportivo, onde eles têm uma participação de destaque no mundo dos destros (rotinas cognitivas). É importante realçar que o ambiente tem um papel importante no desenvolvimento cognitivo dessas pessoas, ou seja, só o fato de ser canhoto não quer dizer que serão bemsucedidos e, além disso, em relação à lateralidade, muitas pessoas não são 100% destros ou canhotos. Por outro lado, um outro fator que pode contribuir no conservadorismo ou na inovação é o papel da dopamina D4 (EBSTEIN et al., 1996). Uma das funções do neurotransmissor dopamina é exercer as atividades do lobo frontal. Será que em canhotos há uma presença maior da dopamina D4 do que os destros? E nos destros que buscam novidades, há mais dopamina D4 no lobo frontal? Apesar de os canhotos terem suas particularidades e diferenças hemisféricas em relação aos destros, o lobo frontal é uma área que pode contribuir no desempenho cognitivo. Em pontos diferenciados do lobo frontal, encontraremos funções que comandam as atividades de outras regiões do cérebro, como equilíbrio, movimento, respostas emocionais, entre outras. O lobo frontal é uma área que tem chamado a atenção dos neurocientistas, já que hoje se exige cada vez mais desta área para obter resultados significativos na sociedade da informação e tecnológica. Além disso, as pesquisas sobre o lobo frontal estão permitindo compreender melhor o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (PANKSEPP et al., 2003), autismo (HILL, 2004), social (DECETY e SOMMERVILLE, 2003; DECETY e CHAMINADE, 2003) entre outras. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


450 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

Até recentemente, os estudos que envolviam o lobo frontal eram pequenos, comparados a outras regiões do cérebro. Muito desses estudos vêm a partir da utilização de animais, principalmente roedores, e de pessoas que tiveram alguma lesão (RAMACHANDRAN e BLAKESKL, 2002; DAMÁSIO, 1996). Uma área que tem crescido nas pesquisas na região do lobo frontal está relacionada aos estudos sobre a prática da meditação (PENG et al., 1999; KUBOTA et al., 2001; DIETRICH, 2003; NEWBERG e IVERSEN, 2003). Por exemplo, a pesquisa de Dietrich (2003) sugere que os estados alterados da consciência são ativados pela região do córtex pré-frontal do cérebro. Já a pesquisa conduzida por Peng e colaboradores (1999), mostra que a amplitude da freqüência cardíaca durante a meditação aumenta significativamente uma resposta autônoma. Por exemplo, as pesquisas com os praticantes de ioga vêm com o interesse dos neurocientistas de compreender o cérebro e o os benefícios que a ioga pode trazer às pessoas. O nosso dia-a-dia é uma soma de sentimentos sobre os quais não temos controle, e, quando aparece uma doença, pode ser tarde para reverter o quadro clínico, como o câncer. Assim, as pesquisas sobre a atividade física como a ioga têm mostrado que é importante aos praticantes estarem conscientes (concentrados) no momento dos exercícios na obtenção de resultados. Esse enunciado é sustentado por investigações da Neurociência, tal como o trabalho realizado por Brigman e Cherry (2002), no qual sujeitos jovens e idosos foram investigados. Os sujeitos foram separados em dois grupos, quanto à sua faixa etária, com o objetivo de analisar as capacidades de memória operacional, avelocidade de processamento de dados e o desenvolvimento no desempenho qualificado após três dias de treinamento. O estudo concluiu que ambos os grupos apresentaram melhora em seus desempenhos cognitivos, reforçando a hipótese de que pessoas idosas, quando estimuladas, também são capazes de apresentar melhoras nas variáveis investigadas. Os efeitos da manutenção e do treinamento das exigências orgânicas são tão benéficos ao sistema nervoso que em muitos casos é possível que doenças conhecidas, como doenças mentais derivadas do envelhecimento, possam ser retardadas ou até mesmo se manifestar de forma insignificante em idosos que se mantêm ativos durante toda sua velhice (DUSTMAN et al., 1984; SUTOO e AKIYAMA, 2003; SMITH e ZIGMOND, 2003). Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


Emílio Takase — 451

Entre os fatores responsáveis pelo aumento da eficiência do sistema nervoso, está a maior capacidade da produção de neurotransmissores. O efeito desse fator é bem documentado em estudos com animais, como o realizado por Dey e colaboradores (1992), e Dey (1994), que investigou as alterações de metabolismo do neurotransmissor serotonina induzidas pelo exercício físico no sistema nervoso de ratos e suas possíveis relações com o efeito antidepressivo. Os resultados sugeriram que a atividade de metabolismo da serotonina aumenta, principalmente pelo aumento dos seus receptores, e esses efeitos podem durar até uma semana após o término das atividades físicas. Assim, o autor concluiu que a prática de esportes pode aumentar os níveis do neurotransmissor serotonina, exercendo um papel importante na prevenção e no auxílio de tratamento da depressão. Conclusão A partir dos avanços tecnológicos, como a tomografia computadorizada, estão sendo registradas as respostas dos neurônios em tempo real. Da mesma forma, através dos estudos da Genética, estamos podendo compreender melhor a dinâmica do cérebro e o comportamento humano. Acredito que essas duas áreas de conhecimento permitirão uma mudança significativa na maneira de ver e compreender os aspectos cognitivos, emocionais e sociais do homem. Através dos avanços científicos e tecnológicos, será possível ao homem realizar algumas atividades ao mesmo tempo, e a saúde mental será resolvida com poucas sessões (PAQUETTE et al., 2003). Assim, os psicólogos precisam se adaptar aos novos resultados neurocientíficos para o avanço científico e tecnológico da ciência psicológica. Não é de hoje, então, que os pensadores e cientistas dizem que a saúde física e mental vem do cérebro (DAMÁSIO, 1996). Vivemos numa época na qual não podemos mais negar o papel que o cérebro tem sobre a nossa vida. Como foi apresentado acima, podemos compreender melhor o nosso comportamento a partir da dinâmica cerebral e o seu meio. O trabalho, então, é interdisciplinar, mo qual os profissionais com o conhecimento em NCC poderão contribuir na saúde e na educação das pessoas. Dessa forma, os psicólogos terão que aceitar os novos resultados das pesquisas da NCC para compreender melhor o processo natural do desenvolvimento cognitivo, emocional e social do ser humano. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


452 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

Sem dúvida que não é fácil mudar uma visão vigente e assimilar e adotar uma nova que está surgindo e crescendo de forma rápida e exponencial. Precisamos, cada vez mais, buscar formas de nos atualizar-mos e produzir-mos novas técnicas de intervenção física e mental. Finalizando, através das pesquisas em Neurociência, do desenvolvimento de tecnologias cada vez mais inteligentes e dos avanços em Biotecnologia, é importante estar acompanhando as pesquisas e aplicar aquilo que foi aprendido e produzido em Neurociência Cognitiva e Comportamental. Referências bibliográficas ADLEMAN, L. M. Computing with DNA. Scientific American, v. 279, n. 2, p. 34-41, 1998. BAARS, B. J.; RAMSEY, T.Z. e LAUREYS, S. Brain, conscious experience and the observing self. Trends in Neuroscience, v. 26, n. 12, p. 671-675, 2003. BARON-COHEN, S. The extreme male brain theory of autism. Trends in Cognitive Sciences, v. 6, n. 6, p. 248-254, 2002. BASIC, S.; HAJNSEK, S; POLJAKOVIC, Z; BASIC, M; CULIC, V. e ZADRO, I. Determination of cortical language dominance using functional transcranial Doppler sonography in left-handers. Clinical Neurophysiology, v. 115, n. 1, p. 154-160, 2004. BECK, F. e ECCLES, J. C. Quantum aspects of brain activity and the role of consciousness. Proc. Natl. Acad. Sci., USA, v. 89, p. 1135711361, 1992. BOYER, P. Religious thought and behaviour as by-products of brain function. Trends in Cognitive Sciences, v. 7, n. 3, p. 119-124, 2003. BRIGMAN, S. e CHERRY, K. E. Age and skilled performance: contributions of working memory and processing speed. Brain and Cognition, v. 50, p. 242–256, 2002. BRYDEN, M. P. Measuring handedness with questionnaires. Neuropsychologia, v. 15, n. 4-5, p. 617-624, 1977. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


Emílio Takase — 453

CRICK, F. e KOCH, C. The problem of consciousness. Scientific American, September, p. 153-159, 1992. DAMÁSIO, A. R. Os sete erros de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. DAVIS, H. P.; ROSENZWEIG, M. R.; BECKER, L. e SATHER, K. J. Biological psychology’s relationships to psychology and neuroscience. American Psychologist, v. 5, p. 359-371, 1988. DeGEUS, E. J. C. e BOOMSMA, D. I. A Genetic neuroscience approach to human cognition. European Psychologist, v. 6, n. 4, p. 241-253, 2001. DECETY, J. e CHAMINADE, T. When the self represents the other: a new cognitive neuroscience view on psychological identification. Consciousness and Cognition, v. 12, n. 4, p. 577-596, 2003. DECETY, J. e SOMMERVILLE, J. A. Shared representations between self and other: a social cognitive neuroscience view. Trends in Cognitive Sciences, v. 7, n. 12, p. 527-533, 2003. DESOLNEUX, A.; MOISAN, L. e MOREL, J. M. Computational gestalts and perception thresholds, Journal of Physiology-Paris,v.97, n.23, p. 311-324, 2003. DEY, S. Physical exercise as a novel antidepressant agent: possible role of serotonin receptor subtypes. Physiology e Behavior, v. 55, n. 2, p. 323-329, 1994. DEY, S.; SINGH, R. H. e DEY, P. K. Exercise training: significance of regional alterations in serotonin metabolism of rat brain in relation to antidepressant effect of exercise. Physiology e Behavior, v. 52, n. 6, p. 1095-1099, 1992. DIETRICH, A. Functional neuroanatomy of altered states of consciousness: The transient hypofrontality hypothesis. Consciousness and Cognition, v. 12, n. 2, p. 231-256, 2003.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


454 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

DUSTMAN, R. E.; RUHLING, R. O.; RUSSELL, E. M.; SHEARER, D. E.; BONEKAT, H. W.; SHIGEOKA, J. W.; WOOD, J. S.; BRADFORD, D. C. Aerobic exercise training and improved neuropsychological function of older individuals. Neurobiol. Aging, v. 5, n. 1, p. 35-42, 1984. EBSTEIN, R. P.; NOVICK, O.; UMANSKY, R.; PRIEL, B.; OSHER, Y.; BLAINE, D.; BENNETT, E. R.; NEMANOV, L.; KATZ, M. e BELMAKER, R. H. Dopamine D4 receptor (D4DR) exon III polymorphism associated with the human personality trait of Novelty Seeking. Nat. Genet., v. 12, p. 78–80, 1996. ECCLES, J. C. Do mental events cause neural events analogously to the probability fields of quantum mechanics? Proc. R. Soc. Lond. B, v. 227, p. 411-428, 1986. ECCLES, J. C. Evolution of the brain creation of the self. London and New York: Routledge, 1989. ECCLES, J. C. A unitary hypothesis of mind-brain interaction in the cerebral cortex. Proc. R. Soc. Lond. B, v. 240, p. 433-451, 1990. ECCLES, J. C. Evolution of consciousness. Proc. Natl. Acad. Sci. (USA), v. 89, p. 7320-7324, 1992. ECCLES, J. C. How the self controls its brain. Springer-Verlag, Berlin, 1994. GALLAGHER, E. B.; WADSWORTH, A. L. e STRATTON, T. D. Religion, spirituality and mental health. Journal of Nervous e Mental Disease, v. 190, n. 10, p. 697-704, 2002. GERSHENFERLD, N. e CHUANG, I. L. Quantum computing with molecules. Scientific American, v. 278, n. 6, p. 50-55, 1998. GERSTEIN, M. e LEVITT, M. Simulating water and the molecules of life. Scientific American, v. 279, n. 5, p. 75-79, 1998. GOLDBERG, E. O cérebro executivo: lobos frontais e a mente civilizada. Rio de Janeiro: Imago, 2002.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


Emílio Takase — 455

GOLDBERG, E.; PODELL, K.; HARNER, R.; RIGGIO, S. e LOWELL, M. Cognitive bias, functional cortical geometry, and the frontal lobes: laterality, sex, and handedness. J. Cognit. Neurosci., v. 6, p. 276–296, 1994. HAMEROFF, S.; NIP, A.; PORTER, M. e TUSZYNSKI, J. Conduction pathways in microtubules, biological quantum computation, and consciousness. Biosystems, v. 64, n. 1-3, p. 149-168, 2002. HAPPÉ, H. Autism: cognitive deficit or cognitive style? Trends in Cognitive Sciences, v. 3, n. 6, p. 216-222, 1999. HARMON-JONES, E. e DEVINE, P.G. Introduction to the special section on social neuroscience: promise and caveats. Journal of Personality and Social Psychology, v. 85, n. 4, p. 589-593, 2003. HARRIS, J. C. Social neuroscience, empathy, brain integration, and neurodevelopmental disorders. Physiology e Behavior, v. 79, n. 3, p. 525-531, 2003. HERCULANO-HOUZEL, S. Cérebro nosso de cada dia. Rio de Janeiro: Vieira e Lent, 2002. HILL, E. L. Executive dysfunction in autism. Trends in Cognitive Sciences, v. 8, n. 1, p. 26-32, 2004. HORGAN, J. A mente desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. JIBU, M. e YASUE, K. Quantum brain dynamics and consciousness. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 1995. KEIL, D.; HOLMES, P.; BENNETT, S.; DAVIDS, K. e SMITH, N. Theory and practice in sport psychology and motor behaviour needs to be constrained by integrative modeling of brain and behaviour. Journal of Sports and Sciences, v. 18, p. 433-443, 2000. KOLB, B. e WHISHAW, I. Q. Brain plasticity and behavior. Annual Review of Psychology, v. 49, p. 43-64, 1998.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


456 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

KUBOTA, Y.; SATO, W.; TOICHI, M.; MURAI, T.; OKADA, T.; HAYASHI, A. e SENGOKU, A. Frontal midline theta rhythm is correlated with cardiac autonomic activities during the performance of an attention demanding meditation procedure. Cognitive Brain Research, v. 11, n. 2, p. 281-287, 2001. LeDOUX, J. O cérebro emocional: os mistérios alicerces da vida emocional. São Paulo: Objetiva, 1998. LOSOYA, S. H.; CALLOR, S.; ROWE, D.C.; GOLDSMITH, H. H. Origins of familial similarity in parenting: a study of twins and adoptive siblings. Developmental Psychology, v. 33, n. 6, p. 1012–1023, 1997. MILLER, G. A. e KELLER, J. Psychology and neuroscience: making peace. Current Directions in Psychological Science, v. 9, n. 6, p. 212215, 2000. MISHKIN, M. e PRIBAM, K. H. Analysis of the effects of frontal lesions in monkeys: variations of delayed alterations. J. Comp. Physiol. Psychol., v. 48, p. 492-495, 1955. NEWBERG, A. B. e IVERSEN, J. The neural basis of the complex mental task of meditation: neurotransmitter and neurochemical considerations. Medical Hypotheses, v. 61, n. 2, p. 282-291, 2003. PAQUETTE, V.; LÉVESQUE, J.; MENSOUR, B.; LEROUX, J. M.; BEAUDOIN, G.; BOURGOUIN, P. e BEAUREGARD, M. “Change the mind and you change the brain”: effects of cognitive-behavioral therapy on the neural correlates of spider phobia. NeuroImage, v. 18, n. 2, p. 401-409, 2003. PANKSEPP, J.; BURGDORF, J.; TURNER, C. e GORDON, N. Modeling ADHD-type arousal with unilateral frontal cortex damage in rats and beneficial effects of play therapy. Brain and Cognition, v. 52, n. 1, p. 97-105, 2003. PENG, C. K.; MIETUS, J. E.; YANHUI, L.; GURUCHARAN, K.; PAMELA, S. D.; BENSON, H. e GOLDBERGER, A.L. Exaggerated heart rate oscillations during two meditation techniques. International Journal of Cardiology, v. 70, p. 101-107, 1999. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


Emílio Takase — 457

PENROSE, R. A mente nova do rei. Rio de Janeiro: Campus, 1991. PENROSE, R. Shadows of the mind: a search for the missing science of consciousness. Oxford: University Press. Reprinted with corrections, 1995. PLOMIN, R. e COLLEDGE, E. Genetics and psychology: beyond heritability. European Psychologist, v. 6, n. 4, p. 229-240, 2001. POPPER, K. A teoria dos quanta e o cisma na Física. Lisboa: Dom Quixote, 1992 [1956]. PUGOL, J.; DEUS, J.; LOSILLA, J. M. e CAPDEVILA, A. Cerebral lateralization of language in normal left-handed people studied by functional MRI. Neurology, v. 52, n. 5, p. 038-1043, 1999. RAMACHANDRAN, V. S. e BLAKESLEE, S. Fantasmas no cérebro: uma investigação dos mistérios da mente humana. Rio de Janeiro: Record, 2002. REDMAN, S. Quantal analysis of synaptic potentials in neuron of the central nervous systems. Physiological Reviews, v. 70, n. 1, p. 165-198, 1990. SAYER, R. J., REDMAN, S. J. e ANDERSEN, P. Amplitude fluctuations in small EPSPs recorded from CA1 pyramidal cells in the guinea pig hippocampal slice. Journal of Neuroscience, v. 9, n. 3, p. 840-850, 1989. SEQUEIRA, S. A complex role for genetics in autism. Trends in Neurosciences, v. 24, n. 11, p. 634-635, 2001. SIRIGU, A.; DAPRATI, E.; CIANCIA, S.; GIRAUX, P.; NIGHOGHOSSIAN, N.; POSADA, A. e HAGGARD, P. Altered awareness of voluntary action after damage to the parietal cortex. Nature Neuroscience, v. 7, n. 1, p. 80-4, 2004. SMITH, A. D. e ZIGMOND, M. J. Can the brain be protected through exercise? Lessons from an animal model of Parkinsonism. Experimental Neurology, v. 184, n. 1, p. 31-39, 2003.

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


458 — Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia

SUTOO, D. e AKIYAMA, K. Regulation of brain function by exercise. Neurobiology of Disease, v. 13, n. 1, p. 1-14, 2003. WALMSLEY, B. Quantal analysis of synaptic transmission. In: WALLIS, D.I. (Editor). Electrophysiology: a practical approach. The Practical Approach Series, New York: Oxford University1993. WOOLF, N. J. e HAMEROFF, S. R. A quantum approach to visual consciousness. Trends in Cognitive Sciences, v. 5, n. 11, p. 472-478, 2001. (Recebido em outubro de 2003 e aceito para publicação em março de 2004)

Revista de Ciências Humanas, Florianópolis: EDUFSC, n.34, p.441-458, outubro de 2003


RELAÇÃO DOS CONSULTORES AD HOC 2003 Revistas números 33 e 34 Álvaro Luiz Heidrich (UFRGS) Ana Amélia da Silva (PUC-SP) Ana Flávia Machado (UFMG) Ana Lúcia Gomes Medeiros (UFSC) Anete Brito Leal Ivo (UFBa) Ângela Maria Mendes de Almeida (UFRJ) Antônio Carlos Walkmer (UFSC) Antônio José Lopes Alves (UFMG) Antônio Virgilio Bittencourt Bastos (UFBa) Benilde Maria Lenzi Motim (UFPR) Carlos Alberto Franco da Silva (UFF) Carolina Palermo Szucs (UFSC) Dennis Warren Werner (UFSC) Dora Orth (UFSC) Fernando Ponte de Sousa (UFSC) João Pinto Basto Lupi (UFSC) José Baus (UFSC) Lecila Duarte Barbosa Oliviera (UFSC) Maria Aparecida Ciavatta P. Franco (UFF) Maria José de Rezende (UEL) Paula Montagner (SEAD) Paulo José Durval da Silva Krischke (UFSC) Rogério F. Guerra (UFSC) Silvia Maria Pereira de Araújo (UFPR) Waldir José Rampinelli (UFSC)


NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

A

Revista de Ciências Humanas (RCH), um periódico interdisciplinar, publica artigos inéditos, em especial aqueles relativos a resultados de pesquisa de caráter teórico e/ou empírico, revisões da literatura de pesquisa e reflexões críticas sobre experiências realizadas nas diferentes áreas das Ciências Humanas. É indexada internacionalmente por Sociological Abstracts - AS; Linguistics & Language Behavior Abstracts - LLBA; Social Planning / Policy & Development Abstracts - PODA; Public Affairs Information Service, Inc. - PAIS; e, Nisc Pennsylvania Abstracts, Inc. - NISC. A RCH não aceita trabalhos encaminhados simultaneamente para publicação em livros ou em outros periódicos, seja no país, seja no exterior. Os manuscritos podem ser apresentados em português ou espanhol. Eventuais modificações sugeridas serão efetuadas em consenso com o autor. No segundo fascículo de cada ano serão publicados os nomes dos pareceristas que contribuíram para a edição daquele volume. Com periodicidade semestral, publica, também, um número temático anual relativo a uma das áreas das humanidades. Todos os manuscritos devem seguir as Normas da ABNT (NBR 6023 / 2000). Para submeter um manuscrito 1) Os originais deverão ser encaminhados por correio, em 3 (três) vias, digitadas em espaço duplo, com 20 a 25 páginas, incluindo figuras, tabelas, fotos e bibliografia. Cada página deverá ter 20 linhas com 80 caracteres. Somente a versão final deverá ser encaminhada em disquete, em processador de texto Word ou compatível. 2) Todos os manuscritos devem ser acompanhados de uma carta de encaminhamento assinada por todos os autores. 3) O processo de revisão editorial só terá início se o encaminhamento do manuscrito obedecer às condições acima. Caso contrário, será devolvido para adequação às normas. 4) Os autores serão comunicados, imediatamente, sobre o recebimento do manuscrito pelo Editor. 5) Os manuscritos deverão seguir a seguinte ordem: Folha de rosto identificada 1) Título em português e em inglês (máximo de 15 palavras). 2) Sugestão de título abreviado para cabeçalho (com cinco palavras, no máximo). 3) Nome de cada autor, seguido por vínculo institucional.


462

4) Endereço do(s) autor(es) e a quem a correspondência deve ser enviada, com o endereço completo, incluindo CEP, telefone, fax e e-mail. 5) Notas dos autores e agradecimentos (pessoas ou instituições financiadoras, caso o artigo tenha se originado de projetos de pesquisa). NOTA: como a revisão dos manuscritos é cega (blind review) quanto à identidade dos autores, esta página deve ser o único local onde a autoria aparece. É responsabilidade dos autores verificar se não existem elementos capazes de identificá-los. Esta folha não será encaminhada aos consultores ad hoc. Folha de rosto sem identificação 1) Título em português e em inglês (máximo de 15 palavras). 2) Título abreviado para cabeçalho (com cinco palavras, no máximo). Resumos 1) Resumo, em português, com, no máximo, 150 palavras, ressaltando o tema, objetivo, método, resultados e conclusões do trabalho. 2) Palavras-chave, em português, com, no mínimo, três e, no máximo, cinco. 3) Abstract, em inglês, compatível com o texto em português. 4) Keywords, em inglês, compatíveis com as palavras-chave. Texto O texto começa na página três (3) com o título centrado. Cada página subseqüente deve estar numerada. Não inicie páginas novas a cada subtítulo, porém dê um espaço antes de iniciar o próximo. Quando o manuscrito for um relato de pesquisa, o texto deverá apresentar, além das páginas de rosto e Resumos, Introdução, Método, Resultados, Discussão e Referências Bibliográficas. Se necessário, outros subtítulos podem ser acrescentados. Em alguns casos pode ser conveniente apresentar Resultados e Discussão juntos, embora essa estratégia não seja recomendável. Utilize o mínimo possível as notas de rodapé. Quando existirem, deverão ser colocadas no rodapé, ordenadas por algarismos arábicos e deverão aparecer imediatamente após o segmento do texto ao qual se refere a nota. Os locais sugeridos para inserção de Figuras e Tabelas deverão ser indicados no texto. Anexos, quando contiverem informação original importante, ou detalhamento indispensável para a compreensão de alguma seção do trabalho, deverão acompanhar o texto, porém colocados no final.


463

Acrescente, no final do texto, após as Referências Bibliográficas, a data em que o manuscrito foi submetido. Citações no corpo do texto (ABNT / NBR 10520) Todos os nomes de autores cujos trabalhos forem citados devem ser seguidos da data de publicação na primeira vez em que aparecerem. Evite fazer citações indiretas quando o original pode ser recuperado com facilidade. Neste último caso, deve-se citar nas Referências Bibliográficas apenas a obra consultada e, no corpo do texto, indicar autores e datas dos dois artigos, conforme o exemplo: Piaget (1932, apud FLAVELL, 1996). Quando o autor ou a instituição responsável estiver incluída na sentença, indica-se o autor em caixa baixa, exceto a primeira letra, e a data e a página entre parênteses: Segundo Morais (1955, p.32) assinala “[...] a presença de concreções de bauxita no Rio Cricon”. Em Teatro Aberto (1963, p.79) relata-se a emergência do teatro do absurdo. Quando o autor estiver entre parênteses, deve vir em maiúsculas, seguido por ano e página: Apesar das aparências, a desconstrução do logocentrismo não é uma psicanálise da filosofia”. (DERRIDA, 1967, p. 293). Especificar no texto a página, o volume, o tomo ou a seção da fonte consultada, se houver: A produção de lítio começa em Searles Lake, Califórnia, em 1928 (MUMFORD, 1949, p. 513). Oliveira e Leonardos (1943, p.146) dizem que a “[...]relação da série São Roque com os granitos porfiróides pequenos é muito clara”. Freud (1974, v.21, p. 81-171) define a dualidade [...]. As transcrições no texto de até três linhas devem estar encerradas entre aspas duplas. As aspas simples são utilizadas para indicar citação no interior da citação: Barbour (1971, p. 35) descreve: “o estudo da morfologia dos terrenos [...] ativos”. “Não se mova, faça de conta que está morta” (CLARAC; BONNIN, 1985, p.72). Segundo Pereira de Sá (1995, p. 27): [...] “por meio da mesma ‘arte da conversação’ que abrange tão extensa e significativa parte de nossa existência cotidiana”. As transcrições no texto com mais de três linhas devem ser destacadas com recuo de 4 cm da margem esquerda, com letra menor que a do texto utilizado e sem aspas: A teleconferência permite ao indivíduo participar de um encontro nacional ou regional sem a necessidade de deixar seu local de origem. Tipos comuns de teleconferência incluem o uso da televisão, telefone e computador. Através de audioconferência, utilizando a companhia local de telefone, um sinal de rádio pode ser emitido em um salão de qualquer dimensão (NICHOLS, 1993, p.181).


464

Quando se tratar de comunicações pessoais (cartas, palestras, debates, comunicações conversas telefônicas ou pessoais – mensagens, etc.) não devem ser incluídas nas Referências Bibliográficas; nesses casos, indicar entre parênteses a expressão “informação verbal”, mencionando-se os dados disponíveis somente em nota de rodapé: Tricart constatou que na bacia do Resende, no Vale do Paraíba, há indícios de cones de dejecção (informação verbal). Para enfatizar trechos da citação, deve-se destacá-los indicando esta alteração com a expressão grifo nosso entre parênteses, após a idealização da citação. [...] para que não tenha lugar a produção de degenerados, quer physicos quer moraes, misérias, verdadeiras ameaças à sociedade (SOUTO, 1916, p. 46, grifo nosso). Caso o destaque seja do autor consultado, usa-se a expressão “grifo do autor”. Na primeira citação de um artigo deve-se mencionar do nome de todos os autores e a respectiva data. Nas subseqüentes citações do mesmo artigo devem-se mencionar o primeiro autor, seguido da expressão “et al.”. Deve-se usar, quando for o caso, expressões latinas no corpo do texto. Exemplos: Apud (citado por, conforme, segundo): Segundo Silva (apud ABREU, 1999, p.3) diz ser [...]. Idem ou Id. (mesmo autor): ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1989, p.9. Id., 2000, p.19. Ibidem ou Ibid. (na mesma obra): Durkheim, 1925, p. 176. Ibid., p.190 Opus citatum, opere citato ou op.cit. (obra citada): Adorno, 1996, p.38. Adorno, op. cit., p.40 Loco citato ou loc. cit. (no lugar citado): Tomaselli; Porter, 1992, p.33-46. Tomaselli; Porter, 1992, loc. cit. Cf. (confira, confronte): Cf. Caldeira, 1992. Sequentia ou et seq. (seguinte ou que se segue): Foucault, 1994, p.17 et seq. Referências bibliográficas Inicie uma nova página para a seção de Referências bibliográficas, que devem ser digitadas usando espaço simples entre as linhas e espaço duplo para separá-las. A palavra da segunda linha de cada referência inicia-se embaixo da primeira letra da palavra da linha superior, não sendo, portanto, mais deslocada. O sinal, na forma de travessão, colocado em uma referência cujo autor seja o mesmo da anterior não deve mais ser colocado. As Referências bibliográficas devem ser colocadas em ordem alfabética e, em ordem crescente de data, para referenciar dois ou mais artigos de um mesmo autor.


465

Exemplos de Referências bibliográficas Livros HARVEY, D. The condition of postmodernity. Oxford: Brasil Blackwell, 1989. 378 p. Capítulos de livros CLAVAL, P. Réseaux territoriaux anracinement. In: DUPUY, G. (Org.) Réseaux territoriaux. Caen: Paradigme, 1988, p.17-161. Artigos em periódicos MOURA, A. S. de. Direito de habitação às classes de baixa renda. Ciências & Trópico, Recife, v. 11, n.1, p.71-78, jan./jun. 1983. Artigos em jornais COUTINHO, W. O paço da cidade retorna ao seu brilho barroco. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 mar. 1985. Caderno B, p.6. Arquivos em disquete KRAEMER, L.L.B. Apostila.doc. Curitiba, 13 de maio de 1995. 1 arquivo (605 bytes). Disquete 3 ½. Word for Windows 6.0. Base de dados em CD-ROM INSTITUTO BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA - IBICT. Bases de dados em Ciência e Tecnologia. Brasília: IBICT, n.1, 1996. CD-ROM. E-mail MARINO, A. M. TOEFL brienfieng number [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por medeiros@mbox1.ufsc.br em 12 de maio de 2000. FTP BRAGA, H. Deus não se agradou dele e de sua oferta. Disponível em: Evangelicos-1@summer.com.br em: 22 de maio de 2000.


466

Artigos de periódicos (on-line) MALOFF, J. A internet e o valor da “internetização”. Ciência da Informação, Brasília, v. 26, n.3, 1997. Disponível em: http://www.ibict.br/cionline/. Acesso em: 18 maio 1998. Trabalhos em eventos CONGRESSO INTERNACIONAL DE FONOAUDIOLOGIA, 4.; ENCONTRO IBERO-AMERICANO DE FONOAUDIOLOIA, 3., 1999, São Paulo. Anais... São Paulo: [s.n.], 1999. 562 p. BRAYNER, A. R. A.; MEDEIROS, C. B. Incorporação do tempo em SGBD orientado a objetos. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE BANCO DE DADOS, 9., 1994, São Paulo. Anais... São Paulo: USP, 1994. p. 16-29. ANDRADE, C. R. F.; SASSI, F. C. Eletromiografia e gagueira: tensão mínima e máxima para produção do som /p/. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE FONOAUDIOLOGIA, 8., 2000, Recife. Resumos... São Paulo: [s.n.], 2000. p.85. ANDRADE, C. R. F. Avaliação das gagueiras: diagnóstico diferencial das disfluências infantis. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE FONOAUDIOLOGIA, 4.; ENCONTRO IBERO-AMERICANO DE FONOAUDIOLOGIA, 3., 1999, São Paulo. Anais... São Paulo [s.n.], 1999. p.470. Mesa redonda. Dissertações e Teses AMBONI, N. F. Estratégias organizacionais: um estudo de multicasos em sistemas universitários federais das capitais da Região do Sul do país. 1995. 143 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Curso de Pós-Graduação em Administração, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. LOPES, H. S. Analogia e aprendizado evolucionário: aplicação em diagnóstico clínico. 1996. 179f. Tese (Doutorado em Engenharia Elétrica) - Curso de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis. Figuras e Tabelas Figuras e Tabelas devem ser apresentadas com as respectivas legendas e títulos, uma em cada página. Títulos de Figuras devem ser colocados na parte inferior, e Títulos de Tabelas devem ser colocados na parte superior.


467

Abreviaturas mais comumente utilizadas (ABNT / NBR 10522):

janeiro

jan.

fevereiro

jan./fev.

capítulo

cap.

ibidem

ib

fev.

citação, citado

cit.

isto é

i.

março

mar.

co-edição

co-ed.

nota do autor

N

abril

abr.

co-editor

co-ed.

nota do editor

N

número

n

(*) Usar no início de uma indicação e antes de algarismos romanos.

maio junho julho

maio maio/dez. colaborador colab.

Apreciação pela Comissão / Conselho Editorial jun. confiraEditorialcf. obra citada o

jul. Os trabalhos serão, e outros el al.apreciados organizador o / Comissão Editoprimeiramente, pelo Editor

rial, que solicitará pareceres de Consultores ad hoc, cujos nomes serão mantiago. e seguintes et seq. página p dos em sigilo. Para esses os manuscritos serão encaminhados sem identificação. Os autores serãoedição, notificados da aceitação ou recusa de seus manuscried. sem data s. setembro tos,set. sendo-lhes enviadas editorcópias do conteúdo dos pareceres. Os originais, mesmo quando não aproveitados, não serão devolvidos.

agosto

outubro

out.

exemplo

novembro

nov.

dezembro

dez.

ex.

tabela (s)

ta

por exemplo p. ex.

tomo

t.

fascículo

fasc.

veja também

v

Idem

id.

volume (s)

v V


468

Pequenas modificações no manuscrito poderão ser feitas pelo Editor/ Comissão Editorial da Revista. Quando forem necessárias modificações substanciais, o autor será notificado e encarregado de realizá-las, devolvendo o trabalho reformulado no prazo máximo de dez dias, sendo duas cópias em papel e uma em disquete, com carta de encaminhamento informando sobre as reformulações realizadas. Caso os autores tenham decidido não realizar algumas das modificações sugeridas, devem justificar essa decisão. Esta carta e o manuscrito reformulado serão encaminhados a um dos Conselheiros Editoriais, juntamente com os pareceres iniciais dos consultores ad hoc e a versão inicial do manuscrito para uma análise final. Nesta etapa do procedimento, o Conselheiro Editorial terá conhecimento das identidades dos autores e dos consultores. Antes de enviar os manuscritos para impressão, o Editor enviará uma prova para a revisão dos autores. Esta revisão deverá ser feita em cinco dias úteis e devolvida à revista. Caso os autores não devolvam indicando correções, o manuscrito será publicado conforme a prova. A decisão final acerca da publicação ou não do manuscrito é sempre da Comissão Editorial. Direitos autorais Os direitos autorais das matérias publicadas são da Revista de Ciências Humanas. A reprodução total ou parcial (mais de 500 palavras do artigo) requererá autorização por escrito do Editor. Os autores da matéria receberão, cada um, dois exemplares da edição em que esta foi publicada.


469

RETROSPECTIVA DE TÍTULOS E AUTORES PUBLICADOS (1982-2003) Número 34 - Outubro de 2003 - Comportamento animal e Psicologia Comparativa

7. Uma análise evolucionária da parturição e do desenvolvimento infantil em mamíferos. Rogério F. Guerra

1. Precursores filogenéticos e ontogenéticos da linguagem: reflexões preliminares. Ana M. A. Carvalho e Maria Isabel Pedrosa

8. Contribuições recentes da Neurociência à Psicologia. Emílio Takase Número 33 - Abril de 2003

2. Princípios morais e a evolução de um senso moral. Dennis Werner 3. Inato versus Adquirido: a persistência da dicotomia. Vera Silvia Raad Bussab, Fernando Leite Ribeiro e Emma Otta 4. Bases biológicas e influências culturais relacionadas ao comportamento parental. Alessandra Bonassoli Prado e Mauro Luís Vieira 5. Sistema monogâmico de acasalamento e estratégias reprodutivas dos pequenos primatas neotropicais. Cristina Valéria Santos 6. Enriquecimento ambiental, privação social e manipulação neonatal. Carlos Roberto de Oliveira Nunes, Vera Silvia Raad Bussab e Rogerio F. Guerra

1. O desafio de uma construção livre e responsável do futuro. Caroline Morais Kunzler 2. Progresso e impureza: viajantes europeus descrevem a ocidentalização de cidades muçulmanas. Vera Chacham 3. A socialidade da estrutura espacial da casa: processo histórico de diferenciação social por meio e através da habitação. Maria Inês Gasparetto Higuchi 4. Reestruturação produtiva e mercado de trabalho na indústria têxtil catarinense. Isabella Jinkings 5. Por um esclarecimento de conceitos. Iñigo Pedrueza Carranza 6. Josué de Castro e a combinação das perspectivas multidirecionais e cíclicas da mudança social. Maria José de Rezende


470

7. Questões sobre a categoria ontológica do trabalho. Mônica Mota Tassigny

7. Processo democrático e visões da democracia no Brasil. Luzia Helena Herrmann de Oliveira

8. Estruturalismo - história, definições, problemas. Léa Silveira Sales

8. O mundo de Comenius: entre conflitos e guerras uma luz para a prática pedagógica. Alvori Ahlert

Resenha 1. LER: uma aprendizagem de dor e exclusão. Clarissa Giuliani Scherer e José Gonçalves Medeiros Número 32 - Outubro de 2002 1. Representações sociais sobre o meio ambiente entre ecologistas ligados a ONG’S no Brasil. Edson A. de Souza Filho 2. O papel da imprensa na política ambiental. Klaus Frey 3. Sartre e a psicanálise. Rafael Raffaelli 4. Pulsão e cognição: categorias da motivação na aprendizagem. Christiane Kleinübing Godoi 5. Teorias da mudança social: as perspectivas lineares e as cíclicas. Maria José de Rezende 6. Conflitos sócio-ambientais e o papel do Ministério Público: o caso de Blumenau, SC, Brasil. Agripa Faria Alexandre; Marjor Andreata e Márcio Minatti

9. Partidos Políticos Brasileiros e Desemprego. Leonardo Secchi Resenha 1. História apologética. Paula Oliveira e Silva Número 31 - Abril de 2002 Agricultura Familiar e Sustentabilidade 1. Rural, rulalidad, nueva ruralidad y contraurbanización. Un estado de la cuestión. Hugo E. Ratier 2. Leite: produção familiar, mercado e saúde pública. Maria Ignez Silveira Paulilo 3. A agroecologia e o desenvolvimento sustentável: uma construção teórica para a análise da agricultura familiar. Maria Jaqueline Elicher 4. Agricultura familiar e agroecologia no município de Praia Grande (SC). Josane Moreira de Costa 5. A produção familiar e os desafios do mercado. Walquíria Krüger Corrêa e Lúcia H. de O. Gerardi


471

6. Uma concepção de agroindústria rural de pequeno porte. Leomar Luiz Prezotto 7. Agroecologia: um processo que favorece ou desfavorece a legitimação do saber tradicional? Janine Moreira 8. A pluriatividade como fator de desenvolvimento do espaço rural do Médio Vale do Itajaí. Sérgio Roberto Maestrelli 9. A modernização da agricultura familiar e as transformações no espaço agrário em Turvo (SC). João Marcos Minatto 10. Agricultura familiar: desequilíbrio ambiental e riscos sociais no município de São Ludgero/ SC. Maurício Alves

4. Hierarquia católica e religiões mediúnicas no Brasil da primeira metade do século XX. Artur César Isaia 5. A igreja do Brasil e o plano de emergência - 1952/1962. Euclides Marchi 6. A ação da Igreja Católica na redefinição da cultura do trabalho rural. Rogério Luiz de Souza 7. Ascetismo jesuítico e disciplina escolar. Norberto Dallabrida 8. História e historiografia da romanização: reflexões provisórias. Jérri Roberto Marin 9. “O crime do padre”: do mito ao esquecimento. Eliane Lucia Colussi N. 29 - abr. 2001

Número 30 - Outubro de 2001 - Religiosidade e Cultura

1. A otimização do passado e a idealização da mudança social em Gilberto Freyre. Maria José de Rezende

1. No mapa das religiões, há lugar para a “religiosidade”? Pierre Sanchis

2. História urbana: uma área de conhecimento. Luís Octávio da Silva

2. Palavra e imagem: a reforma religiosa do século XVI e a arte. Martin N. Dreher 3. Religiosidade e civismo entrelaçados: os congressos de brasilidade. Neide Almeida Fiori

3. A medicalização do sexo ou o amor perfeito. Maria Bernardete Ramos Flores 4. A missão da Filosofia. José Maurício de Carvalho 5. Estado autoritário e tecnocracia. Ricardo Silva


472

6. O discurso católico latino-americano após a II Guerra Mundial. Rogério Luiz de Souza 7. É possível uma história da histeria? Rafael Andrés Villari 8. A pesca artesanal na praia do Pântano do Sul, Brasil. Rodrigo Luiz Simas de Aguiar, João B. S. de Aguiar e Paulo César Simões Lopes N. 28 - out. 2000 1. Desenvolvimento da inteligência: aspectos envolvidos. Vladimir Stolzenberg Torres 2. Trabalho e subjetividade. Tania Mara Galli Fonseca 3. Aspectos psicológicos associados à lombalgia e à lombociática. Jamir João Sardá Jr., Emil Kupek e Roberto Moraes Cruz 4. Orientação Profissional: liberdade e determinantes da escolha profissional. Irene F. Ehrlich, Fernando de Castro e Dulce Helena Penna Soares 5. Re-orientação profissional, orientação e o processo de escolha: notas sobre experiências vividas. Edite Krawulski, Márcia C. B. Siqueira, Sônia S. Caetano, Carla T. Cascaes e Dulce H. P. Soares

6. O grupo do corpo e o corpo do grupo. Lazslo A. Ávila 7. Ecomarxismo e capitalismo. Gilberto Montibeller Filho 8. Sobre o Poder. Kleber Prado Filho Resenha 1. Cultura dos trabalhadores e crise política. Paulo J. Krischke N. 27 - abr./ 2000 Palestras 1. A história como ficção, a ficção como história. José Saramago 2. A ciência no próximo milênio. Luiz Bevilacqua Artigos 1. Uma história de despedidas. A emigração portuguesa para o Brasil (1822 – 1914). Ana Silvia Volpi Scott 2. Mudança social no Brasil: as convergências no interior do ideário conservador. Maria José Rezende 3. Mares agitados: interpretações sobre os processos políticos latinoamericanos. Brasil e Argentina em perspectiva comparada (parte II). Vicente Palermo


473

4. Implantação de um processo de triagem no Serviço de Atendimento Psicológico da UFSC – SAPSI. Edite Krawulski & Beatriz Gomes Molinos 5. Repercussões da introdução do sistema de leitura óptica sobre o trabalho do operador de caixa de supermercado. Roberto Moraes Cruz, Arthur Müller, Beatriz Soares, Daniela Mondardo & Renata Pereira 6. Notas recolhidas sobre a transferência em Freud. Fernando Aguiar Crônica 1. Entre Viena e Londres: Uma visita à casa de Sigmund Freud. Rafael Andrés Villari

5. Associativismo civil em Florianópolis: evolução e tendências. Ilse Scherer-Warren 6. L’intégration européenne par les conférences inter-citoyennes. Jean Rossiaud 7. Interpretações sobre os processos políticos latino-americanos. Brasil e Argentina em perspectiva comparada. Vicente Palermo N. 25 - abr. 99 1. A teoria de Pierre Bourdieu aplicada às pesquisas sobre a grande burguesia: uma metodologia plural para uma abordagem pluridisciplinar. Michel Pinçon et Monique Pinçon-Charlot

N. 26 - out. 99 1. Reflexos de processos e símbolos do imaginário étnico em Moçambique. Maria Antónia Rocha de Fonseca Lopes 2. A (re)construção da identidade masculina. Berenice Alves de Melo Bento 3. Os jovens, as políticas sociais e a formação educativa. Janice Tirelli Ponte de Sousa 4. Atores e conflitos sócioambientais na esfera jurídico-estatal de Florianópolis-SC. Agripa Faria Alexandre

2. Algunas aproximaciones al tema inmigratorio: notas sobre la producción bibliográfica española. Elda González Martínez y Ma. Asunción Merino 3. Interfaces e aporias nos estudos da democratização: análises do regime vs. estudos culturais. Paulo J. Krischke 4. A apologia do turismo em Florianópolis-SC: mitos e contradições. Helton Ricardo Ouriques 5. Marxismo e meio ambiente. Guillermo Foladori


474

6. Operação anti-cangaço: as táticas e estratégias de combate ao banditismo de Virgulino Ferreira, Lampião. Jorge Luiz Mattar Villela

9. João de Camargo: sincretismos e identidade. Óscar Calavia Sáez

N. 24 - out./ 98

1. O imaginário nacionalista em Silvio Romero. Cynthia Machado Campos

1. De misioneros y etnografos, equívocos, superticiones y dilemas frente a la diferencia cultural. Alejandra Siffredi & Ana Maria Spadafora

2. Clivagens geracionais nos valores sócio-políticos. Fábian E., Paulo Krischke e Aluir Toso

2. Catolicismo versus umbanda: lutas de representação e identidade nacional (senzala delenda est). Artur Cesar Isaia 3. O nativismo, os teuto-brasileiros católicos e luteranos no Rio Grande do Sul. René E. Gertz 4. Dilemas de naturalização do protestantismo étnico: a igreja luterana no Brasil. Paul Freston 5. Pecadores de rostro maya. Manuela Cantón Delgado 6. Política, etnia e ritual (o rio das rãs como remanescente de quilombos). Carlos Alberto Steil 7. Confessionalidade e etnicidade em Santa Catarina: tensões entre luteranos e católicos. João Klug 8. Reconstruindo a tradição: milenarismo e fronteiras étnicas. Maria Amélia S. Dickie

N. 23 - abr./ 98

3. Representações de self entre os psicoterapeutas. Ercy Soar 4. O objeto em Bertrand e Salgado. Alcebíades Muniz Neto 5. Crise civilizatória & ambientalismo transetorial. Sérgio Luís Boeira 6. Desenvolvimento & Agroindústria. Fernando Sousa, Laércio Pereira e Márcio Vilarouca 7. Aquisição da linguagem e formação de vínculo. Sérgio Scotti 8. Lagoa da Conceição: um ecossistema lagunar. Usos e legislação ambiental. Tereza Cristina Pereira Barbosa e Ana Cristina José N. 22 - out. /97 1. Profissões no passado - profissões no futuro. Bernardete Wrublevski Aued


475

2. Entre lo normal y lo peligroso. Sandra Caponi 3. O trabalho em questão. Sônia M. G. Larangeira 4. Neoliberalismo e flexibilização. Oswaldo Miqueluzzi 5. Acumulação flexível & Direito do Trabalho. Alexandre Luiz Ramos 6. Qualidade de vida no trabalho. Carla Cristina Dutra Búrigo 7. O fim do trabalho numa economia globalizada. Clarilton Ribas 8. Educação no mundo do trabalho. Edna Garcia Maciel Fiod 9. Centralidade do trabalho: qual centralidade? Sérgio Lessa N. 21 - abr./97 1. Aspectos históricos da luta sufrágica feminina no Brasil. Gisela Maria Bester 2. Homem e mulher na década de 30: tensões sociais e vida cotidiana. Maria de Fátima Salum Moreira 3. Gênero e poder no discurso jurídico. Débora de Carvalho Figueiredo

4. As mulheres narradoras em A Sibila: experiências e memória. Simone Pereira Schmidt 5. Articulando gênero, sexualidade e subjetividade. Laura Helena Chaves Nunes Vieira 6. Relações de gênero e violência nos seringais do Alto Juruá - Acre. Cristina Scheibe Wolff 7. Violência e representação. Sônia Terezinha Felipe 8. Violência sexual na cadeia: honra e masculinidade. Enéleo Alcides da Silva 9. Relações de gênero: silêncio e posições de identidade. Pedro de Souza 10. O estupro suave. Euthalia Xavier 11. Morar Só. Roseli Buffon 12. “Se for mulher na banca, eu tô ferrado”. Tânia Regina de Oliveira Ramos 13. Representações femininas sobre a expe-riência da esterilização. Luzinete Simões Minella N. 20 - out./96 1. Marxismo analítico & funcionalismo. Sérgio Luís Boeira


476

2. A questão agrária e as relações sociedade-natureza. Messias Modesto dos Passos 3. O anarquismo ético de Robert Nozick (uma crítica ao utilitarismo especiezista que predomina na relação dos homens com os animais). Sonia T. Felipe 4. A identidade Catarinense nos discursos do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Élio Cantalício Serpa 5. Os desejos familiares e a escolha profissional dos filhos. Dulce Helena Soares-Luchiari 6. A normatividade metodológica. José Norberto Muniz e Vera Lúcia Travençolo Muniz Convidados especiais 1. Las Universidades y la formación ambiental. Enrique Leff 2. Brasil: a retirada dos direitos sociais e trabalhistas. James Petras 3. Globalização e transculturação. Octávio Ianni 4. A universidade e a civilização. João Lupi Resenha 1. Redes de Movimentos Sociais. Iara Maria Chaves

N. 19 - mar./96 1. Contribuição para uma teoria das práticas do ambientalismo. Héctor Ricardo Leis e José Luiz D’Amato 2. A ética profissional e o espírito do capitalismo: uma questão ambiental. Paula Brügger 3. A construção social da questão ecológica: um questionamento de final de século. Alejandro Olivieri e Luciano Florit 4. Os geossistemas como elemento de integração na síntese geográfica e fator de promoção interdisciplinar na compreensão do ambiente. Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro 5. O futuro se define agora. José Paulo Teixeira e Luiz Scheibe 6. O sistema médico guarani. Aldo Litaiff 7. Considerações sobre os limites energéticos do crescimento econômico. Ivo Marcos Theis 8. Por um ecodesenvolvimento integral. Sueli Amália de Andrade 9. Teses sobre a Justiça Social. Agnes Heller


477

Ns. 17/18 - nov./95 1. Cidadania perversa. André Marenco dos Santos 2. Pesquisas pré-eleitorais em questão: teoria, técnica e ética e sua relação com o processo democrático. Lúcia Avelar 3. A dimensão direita-esquerda na definição do voto: o caso das eleições de 1994 em Porto Alegre. Marcelo Baquero, Sônia Ranincheski, Óthon F. Pereira, Henrique C. de Oliveira de Castro, Rodrigo S. González e Gérson Rodrigues 4. A imprensa e a câmara municipal de S. Paulo. Vera Chaia 5. Cultura sindical e identidade nos anos 80/90. Marco Aurélio Santana 6. Gêneros de comunicação de massa e discernimento político: possíveis relações. Danilo Rothberg 7. Um estudo de comportamento político entre eleitores florianopolitanos na campanha eleitoral de 1994: a representação social de FHC e Lula. Louise A. Lhullier e A. A. Toso

8. Identidade, simbologia e movimento social. João Pinto Furtado 9. As oligarquias dos partidos Criciúma/SC: 1945-1992. Janete Triches 10. Crise do estado e gestão municipal: a política ambiental em Santos e Curitiba. Klaus Frey 11. As eleições de 1994 em Santa Catarina. Yan de Souza Carreirão N. 16 - out.94 1. Relação escola-família. Nadir Zago 2. Modos de vida e escolaridade. Mara Lago 3. A psicologia de Vygotsky. Andréa Zanella 4. A linguagem e os processos mentais. Sérgio Scott 5. Psicanálise e percepção. Rafael Raffaelli 6. As inscrições pulsionais e a constituição do aparelho psíquico. Tania Mascarello 7. Sintoma: a fala enigmática do inconsciente. Ivanir Garcia 8. Epifania Sinthoma. Ivanir Garcia


478

9. Os testes estão sujeitos às leis do mercado? Suzana Tolfo 10. Psicologia, conhecimento e profissão. José G. Medeiros Resenha 1. Approaches to the development of moral reasoning. Louise A. Lhullier N. 15 - mar./94 1. A escola de Alexandria como núcleo do helenismo cristão. João Eduardo Pinto Basto Lupi 2. Estoicismo e helenização do cristianismo. Selvino José Assmann 3. Epicuro no contexto do helenismo. Luiz Felipe Bellintani Ribeiro 4. A possibilidade de viver o ceticismo. Luiz Henrique de Araújo Dutra 5. O ceticismo antigo: pirronismo e nova academia. Danilo Marcondes de Souza Filho 6. Hume acerca da vida e da felicidade. Sara Albieri

2. Algumas notas sobre as complexas relações entre movimentos sociais, educação e cidadania. Lígia Luchmann 3. Sujeitos plurais assessorando em movimento popular em Florianópolis: estudo de caso de uma organização não governamental. Tânia Raitz 4. Simulação por computador na pesquisa e no planejamento de sistemas ecossociais. Paulo Freire Vieira 5. A la sombra de la razón iluminista. Sandra Caponi 6. Materia y forma de la razón popperiana. Gustavo Caponi 7. Herança açoriana e turismo na ilha de Santa Catarina. Hoyêdo Nunes Lins Seção especial: “A decadência do futuro e a construção do presente” 1. Por um debate...! Erni José Seibel

N. 14 - set. 93

2. A insegurança do presente provocada pela “decadência do futuro”. Selvino J. Assmann

1. Uma sociologia do trabalho sem o trabalho? Fernando Ponte de Sousa

3. Jean Baudrillard, conformismo e resistência. Sérgio Luiz Prado Bellei


479

4. O Brasil e a pós-modernidade. Carmen Rial N. 13 - 1. sem./93 1. Carta do presidente de Cuba, Fidel Castro Ruz, à UFSC por ocasião da concesão do título doutor honoris causa. 2. La educación susperior y la construcción de una sociedad justa y democratica. Carlos G. Borroto 3. Discurso do representante do Conselho Universitário. Luiz Fernando Scheibe 4. Los movimientos sociales en el Ecuador Contemporaneo: el caso del movimiento indigena. Augustin Cueva 5. As condições subjetivas da democracia: a lição de Rousseau para nossa época. Héctor Ricardo Leis 6. Las dimensiones y los alcances de la obra de Fernand Braudel. Carlos Antonio Aguirre Rojas

N. 12 - 1. sem./ 92 1. O trabalhador e a máquina na indústria metal-mecânica. Márcia de Paula Leite 2. A reforma agrária no cotidiano dos trabalhadores. Maria Conceição D’Incao 3. O movimento de Bairro ligado às CEBs de Florianópolis: a dimensão participativa. Paulo J. Krischke 4. A reincorporação dos sindicatos têxteis no cenário político uruguaio. Francisco Pucci 5. O tema dos direitos humanos no Uruguai: o caso do grupo de familiares de presos e desaparecidos. Carmen Midaglia 6. Práticas de democratização social durante períodos de democratização política. Juan Carlos Gorlier N. 11 1. sem./92

Comunicação 1. Assentamentos: permanência ou mudança? Alícia Castells e Maria Ignez S. Paulilo Resenha 1. O contrato social, ontem e hoje. Nelson A. Garcia Santos

1. O movimento operário argentino em transição: a U. O. M. Quilmes, da ditadura à democracia. Pablo Pozzi 2. De vítimas a sujeitos: as mães da Plaza de Mayo. Inês Gonzáles Bombal


480

3. O movimento estudantil na transição à democracia (estudo de uma agrupação da universidade de Buenos Aires. Mário Toer e Juan Carlos Gorlier

N. 9 - dez. 90

N. 10 - 1. semestre/91

2. Redes e mediações nos movimentos populares (um breve resumo). Ilse Scherer-Warren

1. Pertence à mulher: mulher e trabalho em comunidades pesqueiras do litoral de Santa Catarina. Anamaria Beck 2. Reflexões sobre a construção do papel feminino. Grace Mary Dias 3. A contracepção no dizer feminista. Izabel Regis 4. Inferioridade feminina: o (des)enredo da violência. Joana Sueli de Lazari 5. Trabalho de mulher - discriminação profissional e realização pessoal. Lélia Pereira da Silva Nunes Resenha 1. Roberto Cardoso de Oliveira e a etnografia da ciência. Mara Coelho de S. Lago 2. Algumas dificuldades na definição da identidade feminina. Reinhard Hesse

1. Comportamento do eleitorado brasileiro na eleição presidencial de 1989. David Fleisher

3. Moralidade e comportamento eleitoral. Luciana B. Cavalcante, Santos Camino e L. Camino 4. O crescimento dos pequenos partidos e a ascensão das alternativas conservadoras nas eleições municipais de 1989. Maria das Graças Rua e Carlos R. P. da Costa Filho 5. A direita política: discurso e comportamento, 1987-1990. Timothy J. Power Comunicações 1. Aproximacões al discuso de la ciencia. Alicia Beatriz Kostenbaum 2. Pesquisa social e suas relações com a ação social e o compromisso político do pesquisador. Louise Amaral Lhullier Resenha

3. A outra face da modernidade: a obscuridade do projeto moderno. Valmir Pereira da Silva

1. Política e natureza humana. Paulo J. Krischke


481

N. 8 - dez./86 1. A mentalidade antipartidária no Brasil. Ayrton Capela 2. Motricidade humana e esporte convencional. Ubirajara Oro

3. Vico, um gênio solitário e renovador. Selvino José Assmann 4. Para pensar a psicologia. Rosa Cristina Monteiro 5. A mentalidade antipartidária no Brasil. Ayrton Capella

3. Notas sobre a teoria marxista da renda da terra. Silvio Antônio Ferraz Cario e Edemar Buzanelo

Notas e comentários

4. Os limites do amor. Rafael Raffaelli

1. Sobre o conceito de ensino superior e o papel da disciplina metodologia científica. Renato Machado

5. Os termos teóricos nas relações entre teoria e observação. Marco Antonio Frangiotti 6. Reflexões sobre a pobreza brasileira. Nelson A. Bonassi

2. Uma proposta pedagógica para o ensino da Metodologia Científica. Núcleo de Metodologia e Filosofia da Ciência N. 6 - ago./84

7. Representação popular. Carlos Lindomar Andrade 8. Trabalho feminino, trabalho improdutivo? Mara Coelho de Souza Lago 9. Psicologia geral em Karl Jaspers. Pedro Bertolino e Rui de Souza Lopes

1. Acesso a recursos durante as enchentes em Itajaí - SC. Dennis Werner e Olga Paz 2. Escola de Frankfurt: uma superação do materialismo histórico? Selvino José Assmann

N. 7 - mar./85

3. A revolução como meio de transformação na moral cristã. Nelson Antônio Bonassi

1. Mulher, singular e plural. Suzana M. Duclós

4. Marxistas e cristãos (ontologia e diálogo). Pedro Bertolino

2. Mulher e acumulação. Maria Ignez S. Paulilo

5. O conceito de utopia na proposta paulofreiriana. Sônia Teresinha Felipe


482

6. Reflexões sobre o ensino da filosofia da ciência. Alberto Cupani

4. Abordagem semântica de problemas filosóficos. Renato Machado

7. Geo-história, geografia política e geopolítica - uma questão de sinonímia? Arlene M. Maykot Prates

5. A situação epistemológica da epistemologia. Roberto de Andrade Martins

8. A disciplina estudos de problemas brasileiros na UFSC. Acácio G. S. Thiago, Nilson Borges Filho e Dante Martorano 9. Mundos e versões: correspondência, coerência e correção. Rejane Machado Carrion

6. Referência: uma função do uso lingüístico. Inês Lacerda Araújo 7. Foucault e a história. Helga Blaschke de Almeida 8. Associação Catarinense das Fundações Educacionais - exemplo de associativismo municipal. Dante Martorano

Notas e comentários N. 4 - ago. / 83 1. As condições para a volta da Filosofia aos cursos de 2. grau - o parecer dos diretores. Sônia Terezinha Felipe 2. Fontes para a História catarinense: os “documentos biográficos”. documentos Walter F. Piazza N. 5- mar./84 1. Descaminhos e caminhos da pesquisa social. Bernardete Wrublewski Aued 2. YHWH - Linguagem. Alroino B. Eble 3. Geopolítica e expansão: Matthew F. Maury e a expedição de Herndon e Gibbon ao rio amazonas (18511852). Ernesto Aníbal Ruiz

1. Uma universidade nova? Paulo Fernando Lago 2. Sobre o ensino da Sociologia. Ilse Scherer-Warren e Maria Luiza de Carvalho Proença 3. Considerações sobre o ensino de metodologia científica. Alvaci Rogéria P. Niehus e Iná Machado Campos 4. Estudo de problemas brasileiros no ensino do direito. Dante Martorano 5. O Instituto Polytechnico de Florianópolis. Amazile de Hollanda Vieira


483

6. Considerações sobre a questão do “eu” em Moreno. Suzana M. Duclós, Carmen Silvia Andaló e Pedro Bertolino N. 3 - dez./ 82 1. A geografia: o espaço e o tempo. Hélio Romito de Almeida 2. Governo Amin - um voto de desconfiança. Remy Fontana 3. A importância da habitação na saúde e na reprodução do trabalhador (brasileiro). Graziela de Oliveira

2. Sartre: transcendência e constituição do ego. Pedro Bertolino 3. Tecnologia e desenvolvimento desigual no centro do sistema capitalista. Armen Mamigonian 4. Renovação de recursos aquáticos: o exemplo japonês. Paulo Fernando Lago 5. O primeiro cirurgião de Santa Catarina. Walter F. Piazza Notas e comentários 1. Cultura e linguagem. Alroino B. Eble

4. Considerações sobre os movimentos partidários brasileiros durante a república velha. Ayrton Capella

2. Proposta de reintrodução da Filosofia no 2o. grau - algumas informações e alguns resultados de uma enquete. Sônia T. F. Feijó

5. O pensamento de Gaston Bachelard e a concepção tradicional da ciência. Alberto Cupani

3. As barragens e os grupos indígenas - G.T. Silvio Coelho dos Santos

6. Olhar de Medusa. Maria José Faustino 7. De um ponto de vista extralógico. Júlio Cabrera N. 2 - 2. sem/82 1. Educação experiencial: um método de pesquisa vinculado à realidade social. Miriam Carvalho Alles

4. Recomendações do II Encontro Catarinense de Professores de EPB. Dante Martorano Resenha 1. Acesso ao ensino superior; articulação entre ensino superior e ensino de 2o. grau. Neide Almeida Fiori


484

N. 1 - (Edição esgotada) 1o. sem.82 1. A radicalização das desigualdades de classe e a produção da violência. Remy Fontana 2. Pobreza urbana. Hélio Romito de Almeida 3. A liceidade do emprego da violência contra a tirania institucionalizada, segundo a doutrina católica, a partir de Tomás de Aquino. Nelson Antônio Bonassi 4. Behaviorismo, quantificação e História. Evolução teórica e metodológica da “nova” História Política. Ernesto A. Ruiz 5. Função social do psicólogo. Tereza Adada Sell 6. Utilização e conservação de recursos Naturais. Paulo Fernando Lago 7. A pesquisa histórica em Santa Catarina. Walter F. Piazza 8. Nota sobre a Filosofia e o espírito crítico. Alberto Cupani


485

Especiais Temáticas

N. 1 - Psicologia Social - 1999 1. Ciência e poder: perspectivas da psicologia social contemporânea. Marisa Faermann Eizirik e Tania Mara Galli Fonseca 2. Narrativas avaliativas como categorias autopoiéticas do conhecimento. Margarete Axt e Cleci Maraschin 3. Subjetividade, linguagem e inserção social: examinando processos de sujeitos surdos. Maria Cecília Rafael de Góes 4. Subjetividade, poder e diferença: marcas de mulheres-professoras em escola especial. Cláudia Rodrigues de Freitas 5. Trabalho, tempo, subjetividade e a constituição do sujeito contemporâneo. Carmem Ligia Iochins Grisci 6. Diálogos entre o capital e os sexos. Tania Mara Galli Fonseca 7. Corpo feminino e estratégias de poder: contribuições a partir de Foucault. Maria Juracy Toneli Siqueira

8. Aprendendo a tecer a renda que o tece: apropriação da atividade e constituição do sujeito na perspectiva histórico-cultural. Andréa Vieira Zanella N. 2 - Políticas públicas e democracia institucional - 1999 1. Estado, descentralização, políticas públicas e novas instâncias participativas: o caso da agricultura em Santa Catarina. Eros Marion Mussoi 2. Duas tensões na teoria democrática. Ricardo Silva 3. Os dilemas da teoria política contemporânea no conflito entre burocracia e democracia. Julian Borba 4. Gestão participativa e agricultura familiar. Erni J. Seibel e Oscar J. Rover 5. Conselhos de gestão de políticas públicas: instituições e/ou espaços políticos. Célio Vanderlei Moraes 6. Proposta para elaboração de planos de ação para Conselhos de Trabalho e Emprego. Roberto Lopes Fonseca N. 3 - Representações sociais e interdisciplinaridade - 2000 1. O estudo das representações sociais no Brasil. Celso Pereira de Sá e Angela Arruda


486

2. Representações e ideologia. Pedrinho Guareschi 3. Representações sociais e saúde pública: a subjetividade como partícipe do cotidiano. Denize Cristina de Oliveira 4. Representações da natureza e do meio ambiente. Clélia Maria Nascimento-Schülze 5. Representações de meio ambiente entre estudantes e profissionais de diferentes áreas. Edmundo Carlos de Moraes, Enio Lima Jr. e Fábio Antonio Schaberle 6. Sexualidade e representações sociais da AIDS. Brígido Vizeu Camargo

3. O processo saúde/doença das empregadas domésticas: gênero, trabalho e sofrimento. Marlene Tamanini 4. Dependência de álcool: o amargo sabor. Lúcia Goreti Gobatto Junkes 5. ‘Dizem que sou louco’: um estudo sobre identidade e instituição psiquiátrica. Tânia Maris Grigolo 6. Balanço da produção acadêmica brasileira no campo da saúde mental – 1990/97. Éder Braulio Leone N. 5 - Psicologia e reestruturação produtiva - 2000 1. Prefácio. Kleber Prado Filho

7. Representações sobre a velhice e sobre o self. Maria Cristina Triguero Veloz Teixeira

2. Organizações: uma visão romântica e ingênua? Francisco Antonio Fialho e Gustavo Fialho

8. Representações sociais na escolha profissional. Alexandre Cidral

3. Dilemas que as concepções de sujeito engendram à teoria administrativa e à psicologia. Suzana da Rosa Tolfo

N. 4 - Saúde mental: uma perspectiva crítica - 2000 1. Controle e subjetividade: revisitando as ‘máquinas’ de vigiar e digitar. Paulo Cesar Volpato 2. A “fadiga psíquica” na indústria. Rosângela Verônica dos Santos

4. Constituição do sujeito, socialização/apropriação do conhecimento e formação em serviço. Andréa Vieira Zanella e Sílvia Z. Da Ros 5. Novas formas organizacionais e o modelo burocrático de organizações. Eloise H. Livramento Dellagnelo e Clóvis Machado da Silva


487

6. A cultura como elemento das estratégias de uma organização do ramo hoteleiro. Narbal Silva 7. Comprometimento do empregado e contextos organizacionais em mudança: o caso do Banco do Brasil. Antônio Virgílio Bitencourt Bastos 8. Avaliação da carga cognitiva de trabalho. Roberto Moraes Cruz e Fábio de Paula Corrêa 9. O programa de preparação para aposentadoria como um processo de intervenção ao final de uma carreira. José Carlos Zanelli N. 6 - Representações sociais: questões metodológicas - 2002 1. As representações sociais: desafios de pesquisa (Palestra). Angela Arruda. 2. Imaginário e representações sociais. João Eduardo Coin de Carvalho 3. Representações sociais e relações intergrupais de duas categorias profissionais. Rosa Cristina Ferreira de Souza e Brigido Vizeu Camargo 4. Avaliação de infrações por adolescentes: valores como representações sociais. Maria Suzana de Stefano Menin

5. Pós-modernidade e morte no entrecruzamento entre os discursos religioso e científico . Alexsandro M. do Nascimento, Denise Rego e Jorge T. Falcão 6. O descobrimento do Brasil nos livros didáticos de história. Denize C. de Oliveira, Celso P. de Sá, Maíra C. Lewin e Denis G. M. Naiff 7. Representações sociais da sexualidade: um estudo com mulheres da terceira idade. Elizabeth Flor e Clélia M. NascimentoSchulze 8. O sentido do trabalho na era virtual. Denise Macedo Ziliotto 9. Produção de conhecimento em representações sociais na enfermagem. Antônia R. F. Furegato, Márcia N. Ogata e Maria Jésia Vieira 10. Representações sociais da velhice em instituições públicas de saúde. Neusa Eiras 11. A morte e suas imagens. Alexsandro Medeiros do Nascimento e Antonio Roazzi 12. Representações sociais da Síndrome de Down. Rita C. P. Lima, Victor E. F. Ferraz, Hernane F. Oliveira, Alexandre M. Fazzito, Lívia M. Lelis e Tiago Domingues


488

13. Capricho ou oráculo: representações na imprensa sobre adolescentes. Camila Vital Menegaz1 e Clary Milnitsky-Sapiro 14. “Socialite linha-dura”: uma análise de representações sociais. Leonora Corsini e Edson de Souza Filho 15. A dialética obesidade/magreza: um estudo em representações sociais com adolescentes. Lucia Marques Stenzel e Pedrinho Arcides Guareschi 16. Representações sociais de atividades físicas. Horacio Accioly Junior 17. Estudos de representações sociais sobre meio ambiente. Edson A. de Souza Filho 18. Atitudes frente ao novo paradigma ambiental. Um estudo no contexto turístico de Fpolis. Clélia M. Nascimento-Schulze, Elisienia Fragnani, Liliane R. Carboni e Maurício E. Maliska 19. Ocupação do espaço, condições de vida e representações sociais. Eduardo A. Tomanik 20. Representações de educação ambiental e meio ambiente. Sônia Maria Marchiorato Carneiro

21. As representações sociais sobre legislação ambiental. Márcio de Oliveira 22. O texto literário e as representações sociais. Valdo Hermes de Lima Barcelos e Clélia M. Nascimento Schulze 23. Representações sociais do diretor de escola. Margot Campos Madeira e Vicente de Paulo Carvalho Madeira 24. Representações sociais e avaliação institucional. Eloiza da Silva Gomes de Oliveira 25. Representações sociais da disciplina escolar. Viviane M. Moraes Villela, Adonia A. Prado e Luiz Fernando R. Tura 26. Representações sociais de poder. Rosane Immig, Clélia M. Nascimento-Schulze e Brígido Vizeu Camargo 27. As professoras e as representações sociais do aprender. Maria de Lourdes Rangel Tura e Maria Inês Marcondes 28. Representações sociais sobre a profissão docente. Magali de Castro 29. Informática educativa para professores do ensino fundamental. Margot Madeira, Luiz


489

FernandoTura e Heloisa Ferreira 30. Prédios escolares: representações sociais das escolas. Luís Carlos Sales 31. Escola e migração: o que dizem as professoras? Maria Isabel Antunes Rocha e Mª Rosalina Soares 32. Representações sociais de professores sobre o adolescente problema. Tania Mª J. A. Vaisberg e Christiane Isabelle C. de M. Camps 33. A representação da Psicologia pelo alunado das licenciaturas da UFRPE. Lúcia Araújo, Alexsandro Nascimento, Eliana Almeida e Antonio Roazzi 34. Representações sociais na nutrição. Aída Bezerra, Edgard R. Fernández, Mª Luiza G. Ibarra e Ricardo Abalo 35. Campo semântico e classificações múltiplas no estudo das representações sociais. Érika dos Reis G. Andrade, Mª do Rosário Carvalho e Antonio Roazzi


490


491

Endereço para encaminhamento de artigos e formulário de assinaturas Para a Revista: Revista de Ciências Humanas Centro de Filosofia e Ciências Humanas Universidade Federal de Santa Catarina Caixa Postal 476 CEP: 88040-900 - Florianópolis - SC E-mail: revista@cfh.ufsc.br Valor unitário de cada número: R$10,00 Para o Editor: José Gonçalves Medeiros E-mail: medeiros@mbox1.ufsc.br Caixa Postal 5060 88040-970 - Florianópolis - SC Telefones: Trab. (048) 331-9457 Fax (048) 331-9751


Apoio: Livros & Livros Especializada em Ciências Humanas e Sociais Loja 1 - Rua: Deodoro, 191 - Sala 02 - Sobreloja - Centro Fone: (48) 222.1244 - Caixa Postal 3177 Loja 2 - Hall do CFH - UFSC (Campus Universitário) Fone: (48) 233-4096 CEP 88.010-970 - Florianópolis - SC


UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA EDITORA DA UFSC Campus Universitário - Trindade - Caixa Postal 476 Cep. 88010-970 - Florianópolis - SC Tel.: (48)331-9408/331-9605 / 331-9686 - Fax: (48) 331-9680 CNPJ: 83.476.911/0001-17 http://www.editora.ufsc.br e-mail: edufsc@editora.ufsc.br

S O L I C I TA Ç Ã O D E A S S I N AT U R A ( ) Nova assinatura

( ) Renovação

NOME DA REVISTA SOLICITADA: ( ( ( ( ( (

) Biotemas ) Ciências da Saúde ) CIÊNCIAS HUMANAS ) Fragmentos ) Geosul ) Graf & Tec

( ( ( ( (

) Ilha do Desterro ) Katálysis ) Motrivivências ) Perspectiva ) Travesia

Nome:____________________________________________________________ Endereço:_________________________________________________________ Bairro:___________________________________ Cep:____________________ Cidade:____________________________________UF:____________________ Fone:_________________________ ( ) ASSINATURA - Válida por 04 (quatro) números a serem editados. Preço: R$ 35,00 (trinta e cinco reais). ( ) Nº AVULSO - Preço por unidade: R$ 10,00 (dez reais). Nº desejados____________________________________________ Depósito bancário: Banco do Brasil - Agência 1453-2, Conta: 204.411-0. O comprovante de depósito deverá ser enviado via fax: (48) 331-9680 ou pelo correio juntamente com esta solicitação de assinatura. Envio de cheque nominal à FAPEU/Editora da UFSC.

______________________ Assinatura

_____/_____/_____ Data


494

teste  

gdfgdfgwed

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you