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zonacultural. ANO 1

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R$7,00

Gostas do delirio, baby?


// EDITORIAL

download (pdf) zonacultural.tumblr.com

Cultura e política Mal conseguimos colocar a última revis-

ou se interessar por ela? Ao contrário,

aulas que são obrigatórias, imagina falar

ta nas ruas e já estou aqui, pregado na

quem tem não é candidato a nada. O

de cultura ou ter algum plano para tal.

cadeira, escrevendo este editorial. Para

único cara em que eu particularmen-

Por fim, quero firmar aqui para vocês,

aproveitar o embalo e a língua afiada em

te me atreveria a votar em qualquer

leitores da revista, que continuaremos a

época de campanha política, não posso

eleição, até para síndico, seria o grande

editá-la, mesmo sem muitos anuncian-

perder tempo.

Tim Maia. Até para presidente eu votaria

tes e mesmo tomando umas porradas

Fiz um convite a alguns candidatos a

no Tim Maia. Como o meu voto não vale

de vez em quando. Quanto aos anun-

cargos políticos para falarem na revista

nada então não votei, fingi que estava

ciantes, continuamos querendo apenas

sobre algum plano ligado à cultura.

viajando e justifiquei depois. A máquina

aqueles empresários com sabedoria e

Os ditos cujos foram: Zé Fernando

do governo só quis mesmo os meus

inteligência ao ponto de terem noção de

- PV (candidato ao governo de MG),

4 reais. Fiquei mais miserável 4 reais e

que sem cultura voltaremos para as ca-

Miguel Corrêa Júnior - PT (candidato a

com mais saúde, fumei um free maço a

vernas. Aos restantes nossos pêsames,

deputado federal), Jô Moraes - PC do

menos.

e as porradas a gente vai assimilando.

B (candidata a deputada federal), e por

Corri também, na edição passada, atrás

Na verdade gostamos de ser assim um

último Eduardo Janot - PDT (candidato a de colégios que tivessem planos cultu-

degrau acima do que existe por ai. A

deputado federal). Logicamente matéria

rais para seus alunos. Dos procurados

nossa revista não é para todos, apenas

paga, nenhum deles topou.

apenas um tem sempre a preocupação

para uns seletos, não é para o resto,

Por falta de dinheiro não foi, com cer-

de fazer uma feira de livros. Aliás, colé-

que no lugar de massa encefálica, tem

teza absoluta foi por falta do que falar.

gio e botequim hoje em dia é tudo igual,

dentro do crânio bolinhas de cocô de

Afinal o que são estes candidatos a

só existe mesmo a preocupação com a

bode.

não ser meros cidadãos correndo atrás

aparência e mensalidades estratosféri-

de um bom salário? Quem disse que

cas. Já no ensino público nem vou co-

candidato ou eleito tem que ter cultura

mentar, coitados, mal conseguem dar as

Rui Alves

ruialvesluis@yahoo.com


EXPEDIENTE Editor chefe Rui Alves Jornalista João Oliveira Diagramação Vitor Carvalho Correspondentes John Heringer, Mario Pessanha Pesquisa musical Lucas Luis Literatura Gerusa Maya Fotografia Gugu Lois Administração Teresa Cristina Acompanhamento gráfico Simone Goulart, Paulo Groeff Colaboradores Fernanda Shairon, Pedro Strumpf, Bernardo Cortez Comercial Mara Nascimento Revisão Pedro Giuliari Pauta e produção Rafael Mira Capa Adriano Falabella - Foto Rui Alves CONTATO Fone (31) 3681-3044 Editor ruialvesluis@yahoo.com.br Cartas contato.rzc@gmail.com

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FOTOGRAFIA CHASE JARVIS

GOSTAS DO DELÍRIO, BABY?

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CORRESPONDÊNCIA Alameda dos Pequis 390 Bela Vista, CEP 33400-000 Lagoa Santa - MG - Brasil

PUBLICIDADE Fone (31) 8775-5374 e (31) 8694-7700 E-mail financeiro.rzc@gmail.com

DIVULGAÇÃO Quer divulgar seu trabalho? Mande seu material para contato.rzc@gmail.com

ARTE DE RUA GRAFITE

QUE PORRA É ESSA?

BREGA, MACONHEIRO E UNIVERSIOTÁRIO

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RESTARTA MTV, RESTARTA!

8 I SITES CULTURAIS 26 I RICHIE KOTZEN 32 I LONDRES 34 I PORTUGAL 36 I ENTRETENIMENTO 38 I LITERATURA 42 I CINEMA 46 I 2ª AULA DE GAITA


SITESCULTURAIS

fotos divulgação

David Lanham > www.dlham.com “Eu sempre tive um fascínio pelo contraste da natureza e da tecnologia. Com uma imaginação ativa é possível amar tanto a arte digital como a tradicional. Eu tive a sorte de aprender com professores maravilhosos enquanto crescia e seguia estudando desenho e design na Universidade Central da Flórida, graduando-me em 2004. Desde então, fiz todos os tipos de ícones para todos os tipos de software na Iconfactory, enquanto continuava com meus trabalhos pessoais no tempo que me sobrava. Minha arte é feita para ser divertida, apreciada e também aberta para que outras pessoas acrescentem suas próprias histórias às imagens. Os trabalhos digitais são feitos em um Mac, usando Photoshop e/ou Illustrator.” – David Lanham

IMDb > www.imdb.com O Internet Movie Database é uma base dados on line de informações relacionadas a filmes, programas de TV, atores, produtores, vídeo games e mais recentemente de personagens presentes em mídia de entretenimento virtual. No site é possível encontrar informações detalhadas de milhares de títulos, incluindo muitas citações e diversas fotos de pré e pós produções, além de um grande sistema de avaliação.

Worth 1000 > www.worth1000.com Worth 1000 é um site de manipulação e competição de imagens. O site foi aberto em 1 de Janeiro de 2002 e hospeda mais de 340 mil imagens únicas feitas em competições temáticas. O website e seus membros já criaram três livros sobre manipulação de imagens: When Pancakes Go Bad, I've Got a Human in my Throat e More Than One Way to Skin a Cat. Atualmente, oferece também uma vasta seção de tutoriais.

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Joshua Davis > www.joshuadavis.com Joshua Davis é um web designer, artista e autor da nova mídia. Ele foi um dos pioneiros no uso do Macromedia Flash como uma ferramenta para gerar arte. Davis é o autor do livro Flash to the Core (2002) e foi destacado no livro New Masters of Flash (2000). Pintor e ilustrador com paixão pela tecnologia, o trabalho de Davis trouxe uma nova dimensão para a arte. Utilizando randomificação em ambientes controlados, estabeleceu uma nova e única perspectiva na comunicação visual e expressão criativa, sendo o pioneiro em uma área previamente não explorada no design gráfico. Seu currículo inclui trabalhos para a BMW, Nike e Motown Records. Davis já exibiu seus trabalhos no Guggenheim de Bilbao, na Espanha, MoMA (museu de arte moderna) em Nova Iorque, nos EUA, e na Galeria Maxalot em Amsterdã, Holanda, e atualmente é professor na New York's School of Visual Arts.

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// FOTOGRAFIA texto e fotos chase jarvis (chasejarvis.com)

CHASEJARVIS “Eu não me aventurei com piratas, nem nadei no Canal da Mancha. Nunca estive na Antártica, mas eu viajei para lugares muito longes, criei muitas imagens para mim e para outros. E eu fiz com que o objetivo da minha vida fosse ser o mais criativo possível com respeito a tudo em que eu me empenho, fora do meu cereal matinal, quero dizer. Nem sempre faço a minha cama, mas preguiçoso eu não sou. Em uma ilha deserta eu ficaria louco sem fotografia, filmes, música, minha esposa Kate e os mascotes da família. Histórias, inovação criativa e vudu visual – não importando o meio – fazem meu coração bater, e dividir isso com o mundo me dá o máximo de experiência que eu possa reunir e, além disso, faz minha alma cantar. Sou afeiçoado por corvos e amo que eles voem na direção de qualquer coisa brilhante. Sinto-me como um corvo na maioria dos dias. Consigo achar humor em qualquer coisa, ainda estou trabalhando nisso. Ganhei muitos prêmios pelo meu trabalho e sou grato por cada um deles, mas sempre tive incerteza se eu os merecia, se alguém que eu conhecia, ou se alguém que eu conhecia alguém que eu conhecia manipulou o júri. Eu era transparente antes de ser legal ser assim, e eu acredito profundamente em trabalho de equipe, comunidade e colaboração. Vamos ser amigos. Melhor ainda, vamos nadar no Canal da Mancha”. – Chase Jarvis, Fotógrafo

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MAIS TRABALHOS: > www.chasejarvis.com > blog.chasejarvis.com/blog


IMAGENS VALEM MAIS QUE

PALAVRAS

Rui Alves FOTOGRAFIA

(31) 3681-3044 / 8775-5374 myspace.com/ruialves ruialvesluis@hotmail.com


// ARTE DE RUA por pedro strumpf

Grafite

Existem registros de Grafite desde o Império Romano. Considera-se grafite um desenho ou inscrição caligrafada sobre suportes, que normalmente são paredes de rua. Por muito tempo foi visto como um ato subversivo. Atualmente, já é considerado como forma de expressão e catalogado como artes visuais, mais especificamente da street art ou arte urbana – onde o artista aproveita os espaços públicos criando uma linguagem intencional para interferir na cidade. Entretanto ainda há quem não concorde equiparando seu valor artístico ao da pichação, que é bem mais controverso. Normalmente, distingue-se o grafite pela elaboração mais complexa ao contrário da simples pichação, quase sempre considerada como contravenção. No entanto, muitos grafiteiros respeitáveis como Os gêmeos, autores de importantes trabalhos em várias paredes do mundo - incluída ai a grande fachada da Tate Modern de Londres, admitem ter um passado de pichadores. A partir do movimento contracultural de maio de 1968, quando os muros de Paris foram suporte para inscrições de caráter poético-político, a prática dessa arte generalizou-se pelo mundo em diferentes contextos, tipos e estilos, que vão do simples rabisco ou de tags repetidas como uma espécie de demarcação de território, até grandes murais executados em espaços especialmente designados para tal, ganhando status de verdadeiras obras de arte. Os grafites podem também estar associados a diferentes movimentos como o hip-hop e a variados graus de transgressão. Entre os grafiteiros, talvez o mais célebre seja Jean-Michel Basquiat que, no final dos anos 70, despertou a atenção da imprensa novaiorquina, sobretudo pelas mensagens poéticas que deixava nas paredes dos prédios abandonados de Manhattan. Posteriormente, Basquiat ganhou o rótulo de neo-expressionista e foi reconhecido como um dos mais significativos artistas do final do século XX. Muitas polêmicas giram em torno desse movimento artístico, se de um lado o grafite tem qualidade artística, de outro não passa de poluição visual e vandalismo.

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BANKSY Banksy é o pseudônimo de um prolífico grafiteiro, ativista e pintor britânico, cuja identidade é desconhecida. Sua arte “satírica” de rua e epigramas subversivos combinam um humor negro irreverente com grafite, feito em uma distinta técnica de estampa. Suas obras, de comentário político e social, podem ser vistas em ruas, paredes e pontes em cidades de todo o mundo. > www.banksy.co.uk > banksystreetart.tumblr.com


foto walter nomura foto raul zito

TINHO Um dos pioneiros, iniciou seu trabalho aos 13 anos, em 1986. Desenvolve uma pintura que expressa o acúmulo de informações e a influência da estética punk num mundo de violência e solidão. > flickr.com/tinho_nomura

TIKKA MESZAROS Começou no ano de 2002. Já realizou trabalhos para grandes nomes como Ellus, Spezzato, Credicard, Marie Claire, Shopping Morumbi e Oxford. Já expôs seu trabalho em São Paulo, Belo Horizonte, Bienal Internacional de Grafite - Brasília, Exposição “Reciclando Ideias e Conceitos” - Los Angeles, Carmichael Gallery - Londres, Exposição “400ml” - Edgeart e Paris. > flickr.com/tikka_noturnas


OZI - OZÉAS DUARTE Apaixonou-se pelo grafite em 1985 quando iniciou seu trabalho ocupando os muros da cidade. Desde então tem participado ativamente da cena street art de São Paulo. Nesses 25 anos o artista tem apresentado suas obras em exposições no Brasil e no exterior. > flickr.com/graffitivivo

foto ozéas duarte

foto samir mauad

SAMIR MAUAD Artista multimídia nascido em São Paulo. A partir de 2001 começa a desenhar usando as técnicas do grafite. Passa por vários estilos até que em 2004 resolve voltar a escrever nos muros, mas agora dialoga com a cidade em forma de poesia concreta e frases impactantes. É também web designer. > flickr.com/samirmauad


foto flickr@suvinil

foto divulgação

CELSO GITAHY Iniciou a sua produção artística no começo dos anos oitenta, desenhando e escrevendo com canetas Pilot em banheiros públicos e ônibus coletivos. Graduou-se em artes plásticas pela Faculdade Belas Artes de São Paulo em 1989 e, a partir do começo dos anos noventa, especializou-se em estêncil arte, técnica muito presente em seu trabalho até os dias de hoje. > flickr.com/celsogitahy

RUI AMARAL Artista plástico multimídia, ativista cultural, 48 anos, paulista. Também é um dos pioneiros do movimento no Brasil possuindo, atualmente, um dos maiores murais na cidade de São Paulo. > artbr.com.br/ruiamaral

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// ENTREVISTA texto e fotos rui alves

ADRIANO FALABELLA

DO DELÍRIO,

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Em plena semana do SWU (Starts With You, movimento de conscientização em prol da sustentabilidade), com várias bandas de rock e outros, preferimos ficar no sossego das montanhas de Minas e bater um longo papo com a maior “enciclopédia viva e ambulante” que já habitou este planeta, Adriano Falabella, apresentador do quadro “Enciclopédia do Rock” dentro do programa “Alto-falante” comandado por Terence Machado. Aliás, só pra não deixar passar batido, haverão de se passar largos anos antes que a tv brasileira consiga superar esse programa em informação e qualidade. Falabella é assim, saca tudo do lado “A” mas conhece muito do lado “B”. Duas perguntas foram suficientes para esta entrevista, uma no começo e outra no final. O resto ficou por conta da memória deste cara incrível.


Zona Cultural: Quando é que começou essa Enciclopédia do Rock? Adriano Falabella: A minha história é a seguinte: Janeiro de 1964, a beatlemania ainda não tinha começado. Eu tinha 10 anos de idade quando apareceu na minha casa uma revista Time, surgida não sei de onde, se meu pai trouxe dos EUA ou se alguém pegou de algum lugar. E eu garoto, curioso, comecei a folhear a revista, toda em inglês, eu nem lia inglês. No meio da revista eu me deparei com uma puta reportagem escrita assim “Here Comes The Beatles”. Era uma reportagem de 5 ou 6 páginas, exatamente o anúncio da chegada dos Beatles aos EUA, no dia 7 de fevereiro de 64, à 1 hora da manhã, vôo 101 da Pan Am, no aeroporto JFK. Quando eu vi aquelas botinhas, terninhos, aqueles cabelos, pra época era um escândalo, eu com 10 anos, me apaixonei de cara com o visual. Na matéria, estava escrito “Beattles” com dois “T” e na bateria do Ringo tinha um “T” só, isso já começou a aguçar a minha curiosidade . Na última folha da reportagem veio o “blim”, tinha uma foto deles no camarim, sentados com os instrumentos, o Paul McCartney, com aquele baixo Höfner, a guitarra do John Lennon era uma Rickenbacker, a do George era uma Gretsch e o Ringo só com as baquetas. Do lado de cada um tinha o nome com local e data de nascimentos, todos nascidos em Liverpool. Quando

eu saquei a data de nascimento do John Lennon, 9 de Outubro de 1940 (eu nasci no dia 10), o cara fazia aniversário um dia antes do meu, “Meu Deus”, xinguei até minha mãe: “Pô, por que eu não nasci um dia antes?! Esse cara é meu ídolo!”. Tempos depois fui descobrir que eu já tinha escutado os Beatles. No meu terceiro ano de grupo, em 63, eu estudava no Instituto de Educação, havia uma sala onde funcionava um convênio da escola com uma escola americana. Então a professora, no meio do ano de 63, passou pra gente uma música do Tony Sheridan, era “My bonnie”, eu só não sabia que eram os Beatles acompanhando o cantor. Em suma, quando eu vi a data de nascimento do John Lennon um dia antes do meu aniversário, eu nunca mais parei de decorar nada, não é nem decorar, eu nunca decorei nada, o que vai entrando vai ficando. Então eu desenvolvi um método de memória que eu não sei explicar como é que é, mas foi por causa disso. Bom, daí pra frente eu comecei a encher o saco dos meus pais. Não tinha saído disco nenhum dos Beatles no Brasil, inclusive o primeiro LP que saiu no Brasil - She Loves You/I Wanna Hold Your Hand, a Beatlemania já tinha estourado nos EUA. Como aqui não chegava, eu já ficava naquela e meu pai dizia “Como é que eu vou arranjar esses discos? Eu nem sei quem são esses cabeludos!”, no final eu sei que ele

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OS POLÍTICOS NÃO QUEREM O POVO CULTO, OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO NÃO QUEREM AJUDAR A POPULAÇÃO A FICAR MAIS CULTA 20

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arrumou o disco pra mim. Ai nunca mais parei, eu e meu irmão começamos a colecionar LPs e compactos. Durante os anos 60 fomos pegando tudo na forma, tudo saindo prontinho. Meu irmão estudava num colégio militar e passava todo dia pelo centro da cidade, sempre vindo com as novidades: “Ó, tem uma banda tocando coisas novas, você já viu? Satisfaction” eu: “Satisfaction? O que é isso?”. Era a invasão britânica: The Hollies, The Clark Five e tal, e a gente ávido por informações corríamos atrás de tudo que saia. Eu me lembro do dia que meu irmão chegou e disse “Nossa cara, tem um negão ai com um disco que você não vai acreditar, Jimi Hendrix, e tem outro cara um tal de Jim Morrison, cantando Light my Fire, você tem que ouvir”. Pegávamos tudo assim. Um dia um rapaz chegou com uma revista Manchete, 1969, abriu a revista e estava lá “Led Zeppelin, a banda que veio para desbancar os Beatles”. Meses depois, os Beatles acabaram. Tenho até hoje jornais da morte do Jimi Hendrix, dia 18 de setembro, da Janis Joplin, dia 4 de outubro, agora fez 40 anos. Eu estava lá, jornalzinho na mão, quer dizer, sempre de olho em tudo que acontecia. Continuei colecionando discos, ai veio o rock progressivo. Paralelamente a tudo isso e com o advento dos Beatles surgiu a Jovem Guarda. Quem não gostou da Jovem Guarda na minha idade, não viveu. A Jovem Guarda veio pra ficar, eram os nossos Beatles, Erasmo Carlos, Wanderléa, Ronnie Von. Tenho discos do Roberto Carlos adoidado dessa época, depois ele virou bobão, de cantar música pra coroa. Roberto Carlos era meu ídolo nacional cara, eu era louco com ele. Ainda em 64 meu pai me deu um violão. Então tem uns 46 anos que eu to arranhando guitarra, violão, bateria, gaita, tudo que é instrumento a gente ia pegando e querendo tirar um som, já toquei profissionalmente, mas isso é outra história. Eu me lembro em 68 no programa do Ronnie

Von quando ele anunciou: “Agora estreando no nosso programa uma banda aqui de SP do bairro de Pompeia, Os Mutantes”. Ai entra a Rita Lee vestida de noiva, aquelas figuras. A primeira vez que eles apareceram pro Brasil eles tocaram uma música dos Mamas and the Papas, um cover “Dedicated To The One I Love”, não dá pra esquecer, uma balada linda, eles não tinham ainda música própria. Logo depois os festivais, Gilberto Gil e aquele negócio todo. E foi ali que os Mutantes começaram, peguei tudo fresco, tudo que saia eu pegava fresco. Antes de eu nascer, meu pai já trabalhava com o início da tv no Brasil, ele tinha uma firma de comerciais e foi pioneiríssimo em MG. Meu pai sempre mexeu com isso, televisão, rádio, cinema, então eu já nasci nesse meio, e meu tio também, pai da minha prima Débora Falabella que também é fruto daquilo tudo. Em 68, meu pai foi convidado pra ser diretor comercial da TV Vila Rica que hoje é a Band. Eu enchia muito o saco dele porque a gente queria ter mais informação, o que era difícil em plena ditadura. Ele então importou um programa americano chamado “Shindig!”, o programa levava todos os astros de rock do final dos anos 60, e ele importou vários episódios. Ali então eu conheci Tommy com o The Who, The Moody Blues, The Electric Prunes, em suma, uma porrada de bandas que a gente nunca tinha visto na tv. Eu e meu irmão sempre chegávamos pra nossa turma: “Você conhece o Deep Purple?”, “Deep o quê?!”, “O Deep Purple bicho, uma banda nova inglesa da pesada”, ninguém conhecia nada e a gente fazendo a cabeça de uma moçada que era muito grande no bairro São Lucas, Savassi, que era o nosso pedaço, e sempre com disquinho debaixo do braço, o vinil sempre debaixo do braço, fomos os pioneiros nesse trem todo. Nessa época, já tínhamos banda, inclusive até hoje me relaciono com os integrantes, tocando só de brincadeira. A gente queria ser astro do rock, 15 ou 16 anos, mil sonhos né. Mas a ditadura não deixou a gente progredir.


OS PODEROSOS QUEREM QUE O POVO CONTINUE IMBECIL PARA NÃO TEREM O PENSAMENTO PRÓPRIO Em Belo Horizonte não tinha lugar pra tocar, hoje ainda não tem, imagine na época. O DOPS perseguia “cabeludo, maconheiro e subversivo” levava todo mundo. Não tivemos chance. Não aconteceu o mesmo com aquele povo dos anos 80 que já pegou tudo aberto, a porteira toda aberta, mas nós dos anos 70 corríamos de polícia, não podia tocar. Inclusive, teve um show aqui em 74 no Cine Brasil, de uma banda paulista, o Som Nosso de Cada Dia, no meio do show, cheio de maluco lá dentro, chegou o DOPS, cercou o Cine Brasil, quem ia saindo já ia direto pro camburão. Até provar que focinho de porco não era tomada... e eu consegui escapar, eu era muito magrinho, eu me espremi ali no meio e vupt, saí correndo. Quando eu me dei conta já tava no Parque Municipal e pensei “agora eles não me pegam mais não”, corri quarteirões. Pra você ver, uma banda paulista famosa que tinha o Manito no saxofone, que era do The Clevers que depois virou Os Incríveis, o cara já tinha 30 anos de idade passando por uma situação dessas numa cidade que nem era dele. A ditadura não deixava, teve até um show que o Led Zeppelin vinha fazer em 76, a ditadura espalhou que tinha um surto de meningite no país, os caras não quiseram vir. Era assim. Meio que desencantado com tudo fui criar cães, eu e meu pai abrimos a primeira pet shop que se tem notícia por aqui. Ainda na universidade, continuava minha coleção de discos, meu violão, minha guitarra, tinha banda ainda. Vieram os anos 80, fiz outra banda, a coisa começou a amenizar, veio a abertura política e tal, parei pra pensar uma hora e falei “quer saber de uma coisa, vou largar isso tudo que to fazendo e vou procurar mexer com o que eu gosto, que é o rock n' roll”, aliás não é rock n' roll, é música. As pessoas me estigmatizavam como enciclopédia do rock, tudo bem, minha vida é rock n' roll mesmo, mas no começo dos anos 60 eu aprendi muito no violão, bossa nova, estudei violão clássico, acompanhei a trajetória da MPB todinha, a gente não perdia, era

na frente da televisão, minha família toda vendo os festivais onde apareceram Chico Buarque, Caetano Veloso, eu era fã demais deles, Gilberto Gil, o Bituca (Milton Nascimento) que hoje é um grande amigo. Nós pegamos isso tudo, tinha Miltinho, Noite Ilustrada, samba, MPB, era um tempo bom de curtir, não só o rock, mas tudo que aparecia era novidade. Ai depois nos anos 80 já virou uma bagunça danada. Em 77, conheci um cara que era o papa da FM de BH, o Zancar Duarte, grande amigo. Ele foi o fundador da Rádio Del Rey, que hoje é a 98, a primeira rádio estéreo do Brasil. Ele tinha um pub ali na Rua Professor Morais, chamava Aqui Jazz, e naquela troca de papo, eu já tinha disco pra dedeu, ele falou pra fazermos um programa ali na Del Rey. Começava ai minha história com rádio. Eu programava junto com meu irmão, levávamos os discos, mas não éramos locutores, não falávamos nada, só fazíamos a fichinha, disco tal, música tal, e ficava a cargo do locutor, que não sabia nada de rock, mas ele pelo menos dava os nomes das músicas, os nomes das bandas. Bom, esse projeto foi engavetado em 78 pois não deu ibope, só rolava Premiata, Gentle Giant, Druid, Fluid, Bel Mel, Jane, bandas alemãs, era só novidade, ninguém entendeu nada. Anexa à Rádio Del Rey estava nascendo a Rádio Terra, com outra estrutura e outra filosofia. O Programa “O Rock que a Terra Não Esqueceu”, com Mr. T, estava no ar fazia algum tempo e eu comecei então a dar uns palpites. O cara abriu a porta, eu falei “Eu tenho disco pra dedeu lá em casa, mas é muita coisa que nunca tocou na rádio” e ele dizia “Traz pô, traz ai”. Comecei a levar, comecei a conquistar o cara, a gente saía junto pra tomar uma cerveja e ouvir a Rádio à noite. Até que me passaram para a Rádio Terra, dois meses e eu já era diretor da rádio. O Zé Augusto, ex-diretor, voltou e com a sua volta nasceu o Get Crazy, coisa de sorte. Foi assim: tinha a chamada do rock, o locutor com aquele vozeirão gravava as chamadas que iam passando durante a

semana. Um belo dia, o diretor Zé Augusto falou assim: “faz um texto ai Adriano, pra chamada do rock, falando os nomes das bandas e tal” e eu pensei “bom, vou fazer o que já tá sendo feito”, e eu tinha levado um disco de uma banda que jamais tinha tocado no rádio de Belo Horizonte, que eu me lembro só a Cultura tocou “Sweet Home Alabama” e nunca mais tocou nada deles, o Lynyrd Skynyrd, uma banda americana do sul da Flórida e que é um nome complicado de falar porque é tudo com “Y”, então pensei “vou programar uma musicassa desses caras”. Na hora de gravar eu falei pro diretor “olha Zé, cuidado na hora do locutor falar esse nome aqui porque a pronúncia certa é 'Lynyrd Skynyrd'”. Acho que eu carreguei demais na pronúncia, ele ficou olhando o papel, olhou pra mim e disse “entra lá no estúdio, você que vai gravar essa chamada”, falei “eu? Nunca falei no rádio”, “vai lá!”. E cara, minha voz pra época era totalmente fora dos padrões do rádio, eu cheguei e já mudei o texto: “e ai galera, nesse domingo ai, vamo chapar com o Rock que a Terra Não Esqueceu”, e ai fui falando o nome das bandas. Foi um rebuliço em Belo Horizonte, todo mundo ligando pra Terra e perguntando “quem é esse doidão da chamada ai?!”. Como os caras tinham visão, eu pensei “Eu to na minha”, o Zancar foi até contra falando que era uma voz muito diferente, muito aguda, o Zé bateu o pé e falou “ntão, quem vai gravar todas as chamadas agora é o Adriano”. Nossa sala era lotada de discos no chão e, numa dessas chamadas, tinha um disco de um filme com o ator Malcom McDowell, Get Crazy. O cara olhou aquilo, sem saber o que significava, ligou pro locutor e falou: “na hora que aparecer ai a chamada do Adriano, você fala que ele é o garotão Get Crazy” da Rádio Terra. Estava eu lá ouvindo a rádio e quando o locutor falou “vocês acabaram de ouvir o garotão Get Crazy da Rádio Terra” e soltou um comercial. Eu falei: “o quê?! Get o quê?!”, “A partir de hoje você é o Get Crazy da Rádio Terra” e aquilo pegou,

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QUANDO TEM O VOTO QUE É PRA DAR A RESPOSTA, A MAIORIA VEM E VOTA NAQUELE QUE QUER O MAL PRO POVO, ISSO QUE EU NÃO COMPREENDO NESTE PAÍS 22

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pegou de tal maneira que a negada ficava ligando “passa ai de novo o negócio do doidão, o Crazy num-sei-o-que”. No carnaval de 86, ainda nas primeiras chamadinhas, dei uma ideia pro diretor de fazer uma brincadeira, “nesse domingo no Rock que a Terra Não Esqueceu, vamos ouvir Beatles, Led Zeppelin, etc”, no meio da minha fala entrava com um batuque de carnaval então eu emendava: “ei, ei, ei, ei, sai daqui meu irmão, samba me dá asma, aqui só dá guitarra!”, ai entrava um Yngwie Malmsteen fritando, um solo de guitarra caxapante. Começaram assim as historinhas do Get Crazy que duraram anos, toda semana tinha que inventar uma história. Isso nunca parou até a minha saída da rádio. Em 89 a Rádio Terra tava indo para o buraco. O Colégio Promove comprou na época a Rádio 107, encontrei com o Claudinei Albertino, que é outro grande diretor de rádio que eu trabalhei, me ensinou demais. O Claudinei me disse que tinha feito um estúdio vitrine na nova 107 FM (onde o vidro dava pra rua), a primeira rádio vitrine do Brasil, pensei então em ir lá fazer uma visita. Cheguei lá e fiquei espantado, uma meninada danada tocando House, aquela bate estaca, mas era a onda na época, e eu como nunca gostei de ficar parado, acabei indo pra 107 FM. De cara o Claudinei: “você quer um programa na rádio? Que dia? Domingo tá bom? De duas as cinco?”, já me deu três horas de programa todo domingo. Fiquei lá até o final dela em 98 e antes de acabar (foi vendida pra igreja, em 1997), eu já estava com um programa chamado Enciclopédia do Rock. Esse programa começou na verdade em 94 quando lá estava o Léo Spinola, novo diretor da rádio, um blueseiro de primeira que odiava “bate estaca”. O Léo queria rock n' roll, então fomos fazer uma rádio de rock. Ai nascia o meu programa “Enciclopédia do Rock”, nome sugerido por um cara que na época já acompanhava meus programas anteriores. A princípio não gostei não, vou te confessar [risos], Enciclopédia do Rock? Mas foi batido o martelo: “você é a enciclopédia do rock, e vai ser isso ai”, eu falei “ah, então tá bom, vamo ver o que vai dar”. Fui programador da rádio, coordenador artístico e tal. 20 anos em função de rádio. Em 97 então, o Terence Machado, que era colaborador do programa Agenda da TV Minas, finalmente ganhou um horário só para ele, o Alto-Falante. Antes de começar o programa, me procurou e disse “Olha, eu to estreando um programa na televisão daqui a dois meses, você não quer participar? Você vai ter um quadro que vai chamar 'Rock em Geral'”. Esse “Rock em Geral” foi ao ar só duas vezes, no terceiro eu já dei um toque: “esse nome tá muito ruim, vamos por o meu nome, Enciclopédia do Rock”. Foi dito e feito, desde junho de 97 que eu to na televisão.

Antes disso passei uma temporada viajando, New York, Miami e tal. De lá pra cá eu fiquei só com a televisão, porque infelizmente Belo Horizonte nunca mais teve uma rádio de rock n' roll. Não ouço mais rádio. Rádio rock n’roll não existe. Dia desses, escutei um programa, só toca aquele Lado A, o cara não dá informação nenhuma porque ele não sabe. Só fala o nome da banda e da música, só toca aquelas manjaderrimas. É um campo muito grande. Tenho pilhas de discos, o que tem de banda que todo mundo tinha que ouvir, eu to pondo no meu twitter, dando um toque “corram atrás de tal banda, disco tal”, tenho cada coisa dos anos 60, 70, 80, caixotes e caixotes. Tem coisas que se tocarem no rádio é uma nova dimensão pra essa nova geração que gosta de rock e não tem acesso. Então essa rádio fica tocando aquele Lado A que todo mundo conhece. Vai tocar um Deep Purple, o cara não pesquisa ai toca “Smoke On the Water”, vai tocar Hendrix é “Purple Haze”, vai tocar Led é “Whole Lotta Love” ou um “Immigrant Song”. O cara não vai num Lado B, não tem informação e a pessoa não sabe falar inglês, então programa de rock n' roll sem a pessoa saber inglês e sem informação não funciona. Já na televisão só tem o Alto-Falante. Hoje eu estava pensando na MTV, estou muito decepcionado com este país. Há muitos anos eu moro aqui por questões familiares, senão já tinha ido embora. Eu vi um sociólogo falando que o Brasil tem um ministério de propaganda em conjunto com essas emissoras de canal aberto que é um oba-oba desgraçado. O Brasil não respeita os outros países da América do Sul, tem um presidente fanfarrão, que fica dizendo pra Deus e o mundo que o Brasil é maior que todo mundo e que está peitando os EUA, que o Brasil vai ser país de primeiro mundo. É tudo mentira, vamos ao caso da MTV. Os EUA estão pouco se lixando pro Brasil, eles querem é vender e comprar o bom e do melhor que nós temos, inclusive música. Então vemos a MTV, o que eles tocam é tudo o que a MTV americana manda. Vemos aquelas meninas apresentadoras e até aqueles mais velhos, como o tal de Léo Madeira, a outra, Marina Person, não entendem nada de música, estão focados completamente na tal de Lady Gaga, que é ridícula e o menininho Justin Bieber, é uma criança, não tem voz. Você liga a MTV, ela é feita pra garotinhos de 10, no máximo 17 anos e olhe lá. Eu penso nisso tudo com muita tristeza. É tudo combinado. Hoje, no Brasil, a MTV virou aquele negócio “engole ai o que vamos vomitar agora, você tem que engolir, é isso que você tem que ouvir, é assim que você tem que ser, bobo, idiota”, quer dizer, nós estamos vendo uma nova gera��ão de idiotas, adolescentes


completamente idiotas, fúteis, sem idealismo nenhum. Não é que tenha que ter idealismo como tinham lá os estudantes dos anos 60 que a ditadura varreu todo mundo, não é isso, eles já pegam tudo pronto “ah, eu quero fazer uma tatuagem de 50 dragões nas costas, eu quero por 40 mil piercings, porque todo mundo usa, a MTV e as figuras todas usam”, quer dizer “engole ai o que vamos vomitar”. Isso é assim pras tvs abertas e a MTV virou tv aberta, então fica fazendo isso com a juventude.

ESSES REALITY SHOWS QUE NÃO SERVEM PRA NADA, UMA BABOSEIRA DANADA Eu tenho uma filha de 6 anos, ela jamais viu Xuxa, ela não sabe quem é Eliana, não sabe o que é “Bom Dia e Cia.” ela não vê tv aberta, não é porque ela é proibida não, nós encaminhamos ela pra um outro lado. Eu tenho orgulho de falar que ela ama os Beatles, ela ama bandas que muita gente não conhece, e a mãe também ajuda nisso. E pra assistir é Disney, Pato Donald, Pateta, Mickey, os grandes clássicos. Isso é muito importante pra formação de uma pessoa, não ficar vendo esses besteirois, desenhos violentos e música da pior qualidade, quer dizer, o menino já cresce em casa, com os pais brasileiros pondo ele pra ver MTV, esses programinhas de auditório ridículos, o domingo por exemplo, a meninada ta vendo o quê? Eliana, Faustão, Gugu, o podre do podre, aquilo ali é uma anticultura. No Brasil é isso, quanto pior, melhor. É uma lástima, e as tvs a cabo já tão entrando no popularesco porque o povo brasileiro, cá pra nós, o povo brasileiro é um povo que não tem cultura, é um povo ignorante, não tem discernimento (a maioria da população), não sabe separar as coisas. Eu gostaria muito de ver o Brasil inteiro culto, ai ia ser a maior nação do planeta. Quer saber de uma coisa? Há muitas décadas que o bom e velho rock n’ roll acabou. Aquele negócio de rock dos anos 80, o rock nacional, aquilo pra mim nunca foi rock n' roll, é uma bobagem. O povo fica ai delirando, falando que Legião Urbana, Capital Inicial é rock n' roll, Paralamas do Sucesso, Titãs, nada daquilo é rock n' roll. Aquilo foi um popzinho pós-ditadura que eles aproveitaram, pegaram as portas todas abertas, não tinha mais repressão, você vê que essas bandas todas estouraram depois de 84. O DOPS não corria mais atrás de quem tinha guitarra. Muita gente fica brava quando eu digo que Titãs não é rock n' roll. Não é. É um pop bobo,

chato, que não tem nada a ver. Um Titãzinho, Cabeça Dinossauro que eles falam, não vejo nada demais naquele disco. Capital Inicial, acho pavoroso. Se você vê as fotos dos caras em 84, tudo calcado na new wave inglesa, Duran Duran, Smiths, The Clash, e eles falam nesse discurso ai que eram “Punk”. Punk filhinho de papai? Onde você já viu isso? Renato Russo, Dinho Ouro Preto, Dado Vila Lobos, Herbert Vianna, Cazuza, tudo filhinho de papai. É tudo mentira. Sempre digo isso: se uma banda que se diz de rock n' roll - inclusive essas bandas hoje de indie rock, que eu acho nada a ver com rock n' roll - se em uma banda você não sentir traços do rockabilly dos anos 50, dos Beatles, isso engloba Stones, os anos 60, se você não sentir um tique disso, de rock progressivo, de hard rock e até de heavy metal, pode esquecer cara. Eu acho muito engraçado e morro de rir quando algum entrevistador pergunta: “quais são as influências da banda?”, ai é que vem o papo, há muitos anos que a gente escuta a mesma coisa: “é, o baterista ali é muito do heavy metal nós somos ecléticos”, agora o barato é falar que é “eclético”, “eu sou mais assim Beatles, Stones, The Doors, aquele outro ali ouve Radiohead, Justin Bieber, o outro gosta de bater na praia do eletrônico”, quer dizer, os caras hoje, o que eles fazem? Pegam um liquidificador, põem um monte de morango maduro, rabanete, marshmallow, jiló, pimenta, bate tudo e fala que é o som, rock n' roll, “nós somos uma banda de rock”, mentira, não tem nada de rock, pra mim é isso, uma banda que não tem esses vestígios fortes não é nada. A única banda dos anos 80 que foi pra mídia e que realmente tinha várias dessas coisas é o nosso 14 Bis, o primeiro disco então, ouço ele sempre, tem country, aliás até esqueci do country rock, o folk, baladas bem feitas. No 14 Bis você vê country, rocks progressivos com aqueles teclados, o rock progressivo está ali, Beatles pelas harmonias vocais, os falsetes e tal, tá tudo ali, só não fizeram heavy metal e hard rock porque não era a praia deles, mas tem no contexto. Ao vivo eles botam pra fuder. Isso é uma banda de rock n' roll. Tem uma geração ai, que eu encontro na rua, muito garoto me cumprimentando, me parabenizando que está aprendendo muito comigo, meu twitter está cheio de recados “você é responsável por 80% da minha formação musical”, 80% pô? Eu quase formei o cara! Então veja bem, o rock n' roll, esse que nós conhecemos, Beatles, Stones e daí pra fora, é o bom e velho rock n' roll. O Paul McCartney está vindo ai! Ah! Eu já vi tudo, a Rede Globo vai fazer a área vip, ai vão aqueles globais, que nem sabem de nada, vomitar um monte de asneira. Foi como no show dos Stones, a Rede Globo mostrou os Globais,

AS RÁDIOS, CADA VEZ MAIS DETERIORADAS, EM PROL DAQUELE NEGÓCIO QUE CHAMAMOS DE ENLATADO: LADYS GAGAS, JUSTINS BIEBERS, ESSA PORCARIADA TODA REVISTAZONACULTURAL.COM.BR

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EU CONTINUO DESEMPENHANDO O MEU PAPEL. O DRAGÃO TÁ AFIM DE CUSPIR FOGO!

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a gostosona, Cláudia Raia, aqueles globais no camarim, todo mundo com a camisa com a língua dos Stones “issstoooooonis, istoniiiiis”, dá vontade de falar assim “me cita uma música com o Brian Jones dos Stones que você conhece a não ser Satisfaction, me cita cinco músicas do Between the Buttons, me cita duas músicas do Twelve by Five, Stones pra lá, Stones pra cá, me cita uma música do Let it Bleed, e o Beggars Banquet, você conhece o quê? Só o Sympathy for the Devil. Quer dizer, não entendem merda nenhuma. Ai a grande mídia vem, é Paul McCartney “ah, o Paul não sei o que” eu chego e vou sabatinar umas figuras dessas, globais, com a camisa do Paul, The Beatles, “minha querida, qual que é o primeiro disco solo do Paul McCartney? Me canta uma música dele. Me canta uma do segundo, uma! Me canta uma do terceiro! Me canta uma música do Paul McCartney dos anos 70 que você conhece”. Não sabem nada. Mas isso que eu fico injuriado, é de ver o que agora vocês vão ver. Com o Paul McCartney no Brasil, a Globo vai fazer um estardalhaço, já tá fazendo nesse Festival SWU. O que de rock n' roll mesmo tem lá? Kings of Leon? Indie rock gringo, não é rock n' roll. Rage Against the Machine? Não é heavy metal, não é rap, não é hip-hop, não sei o que é aquilo. Você pega um Iron Maiden pra tocar num palco, isso é heavy metal, o Guns N' Roses, isso é hard rock, mesmo com a formação nova, você pega o Soundgarden que tá voltando agora, o Pearl Jam, isso é grunge. Então vem o time Jota Quest, Capital Inicial, ai ai ai que pé no saco, só bobagem nacional, e essas bandas ai, Queens of the Stone Age, não é rock n' roll, não é, é um póstudo que eu não sei definir. Não vai nascer outro Jimi Hendrix, outro Bob Dylan. Não vai nascer não, acabou. Daqui pra frente, jamais. Hoje a tecnologia é tanta que o cara liga tanto multiefeito que ele pode jogar a guitarra pra cima que ela sai falando. Você vê o primeiro disco do Hendrix foi gravado numa bostica de mesa de quatro canais, e o cara fez aquele estardalhaço todo, um gênio. Ele criava os fuzz, as distorções, ele mexia na eletrônica, colava pedal no outro pra ver o que dava, ficava o dia todo por conta disso, é genial, ninguém mais vai fazer não cara. O último guitarrista que eu acho que foi a sombra do Hendrix foi Eddie Van Halen. Depois vem Malmsteen, Steve Vai, Satriani, eles são muito mais de escala. O Van Halen criou um jeito de tocar que você não percebe no Hendrix, por exemplo, mas ele aprendeu tudo com o Hendrix. Então pra mim foi o último guitarrista, Guitar Hero mesmo. Depois aqueles que vieram é tudo em cima do Van Halen, você vê o solo que ele faz com o Michael Jackson naquela música “Beat It”, ali a marca registrada dele, e quantos não

vieram com esses efeitos de alavanca, tudo que o Hendrix tinha feito. Então, não adianta, nunca mais vai ter os Beatles, nunca mais Led, Hendrix, Deep Purple, não adianta, não vai ter. A cada virada de década surge um fenômeno, desde os anos 40 sempre teve um fenômeno, 40 pra 50, os anos dourados, apareceu Elvis Presley, 54, mudou o mundo. Vira 50 pra 60, Elvis vai pro exército, decadência total, fazendo filminho romântico. Vêm os cabeludos de Liverpool, explode. 60 pra 70, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Deep Purple, ai começou a aumentar a gama, fenômenos totais e ai vem aquele monte de banda atrás, Kiss, Aerosmith, Grand Funk, Rush, tudo filhote do Zeppelin, The Who, que são do final dos anos 60. Década de 70 pra 80, Iron Maiden, 90, Guns N' Roses, Nirvana e o Grunge, acabou por ai. Virada do século, who? Quem? Nada. Tá virando agora, nova década, não vai vir nada, eu te garanto. Outra coisa, eles chamam de “música eletrônica” essa merda. Cadê a partitura? Não existe. Isso não é música, isso é “nós” eletrônico. Acho que por um certo lado, a juventude vai ficar cada vez mais burra, porque a mídia não dá chance, e olha que nosso programa é em rede nacional. Nas grandes emissoras, Rede TV, Record, Globo, Band, você só vê porcaria, só vê bunda, todo mundo sabe disso, e o povo não faz nada, eles só querem jogar o vômito na galera. Deu ibope? Patrocinador? Quanto pior, melhor pra esse povo. O dono de televisão deve rir do povo brasileiro. A dona Adélia Prado, que é uma tremenda escritora, disse uma vez na Rede Minas “será que esses donos de televisão, diretores, dormem com a cabeça tranquila? Dessa merda toda que eles jogam o dia inteiro no povo brasileiro? Pro povo brasileiro ficar cada vez mais burro?”. Um país, uma nação só com gente sem cultura, com imbecis, ignorantes, não adianta que isso nunca vai ser um país respeitado, e a música tem uma influência total nisso. Tem um programa que ta sendo transmitido ai, com um tal de Jairo Bauer, é um programinha de auditório, pra adolescentes, fraquíssimo na minha opinião, uns adolescentes que não sabem de nada, dão as opiniões mais bobocas, o cara pra mim é um boboca, ainda tem um assistente, que é um garoto que fica no laptop, só fala bobagem, um conteúdo inútil pra te dizer a verdade. ZC: E pra finalizar, o que você vai deixar pra gente? AF: [risos] No Brasil, a memória é apagada rapidinho. Um livro seria bacana. O povo esquece rápido das coisas, agora um livro não, um livro eu gostaria de deixar. Minha vida, histórias do arco da velha, correndo da polícia, tem muita coisa.


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// CENÁRIO

por lucas luis foto divulgação

RICHIEKOTZEN Nascido em 1971, Richie Kotzen teve o seu primeiro contato com a música aos cinco anos de idade, com o piano. Com sete anos, sente-se influenciado pela banda de Nova York, Kiss, e começa então a tocar guitarra. Aos doze, forma sua primeira banda chamada Exis. A partir de então, passa a realizar vários shows na Pensilvânia e em Nova Jersey, ao passo em que terminava o ensino médio. Sua atividade musical manteve-se em alta durante toda a sua adolescência, realizando cerca de quinhentos concertos com apenas dezessete anos de idade. Em 1989, Kotzen foi para São Francisco onde gravou seu primeiro álbum junto à gravadora Shrapnel Records (editora também de guitarristas como Jason Becker, Paul Gilbert e Marty Friedman) e, no mesmo ano, grava um vídeo instrutivo de guitarra intitulado “Rock Chops”, lançado pela REH. Nessa época, já estava em várias capas de revistas especializadas em guitarra, sendo eleito como um dos três melhores novos guitarristas daquele ano. Até 1991, o guitarrista continuou trabalhando ao lado do selo Shrapnel Records mas nesse ano mudou-se para Los Angeles - Califórnia, por ter sido convidado a integrar (substituindo C.C. Deville), o grupo de Glam Rock - Poison, com quem gravou 1 CD. É então o principal compositor do álbum Native Tongue, destacando os singles - a música Stand (que alcançou a quarta posição no programa “Most Wanted” da MTV e estava entre o Top 20 da Billboard, o que lhes rendeu um disco de platina), e Until You Fuffer Some (Fire and Ice). Após a turnê de promoção deste álbum, Kotzen é expulso do Poison por ter se envolvido com Deanna Eve, mulher de Rikki Rockket (baterista do grupo), com quem mais tarde viria a se casar. Após encerrar o contrato com o Poison, voltou a trabalhar como artista solo e lançou discos em vários selos, Shrapnel, Geffen e JVC, ao passo que foi convidado pela lenda do Jazz, Stanley Clarke, para montar a banda Vertu, com a qual gravou em 1999 um disco pelo selo da Sony. Passaram um longo tempo tocando em festivais de Jazz pela Europa. O próprio Kotzen falou sobre sua experiência com esta banda: “Foi uma honra e uma grande experiência estar em uma banda com Stanley Clarke”. No mesmo ano de 1999, Richie Kotzen foi convidado para entrar na banda de hard rock Mr. Big, famosa pelo hit “To Be With You”, para substituir o antigo guitarrista, Paul Gilbert (Racer X), mantendo o sucesso da banda com a gravação do álbum Get Over It que vendeu 175 mil cópias nas duas primeiras semanas de lançamento no Japão. No álbum seguinte, Actual Size, a música Shine, composição de Kotzen, foi número 1 nas rádios japonesas. Em 2002, o Mr. Big encerrou suas atividades e Richie Kotzen voltou aos seus projetos solo e a partir de então tem viajado pelo mundo para tocar em festivais e, mais recentemente, como banda de abertura para os Rolling Stones na turnê “A Bigger Bang Tour”. Kotzen lançou em 2003 o álbum Change, em 2004, Get Up, em 2008, o Live In São Paulo, e em 2009 o Peace Sign.

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// DESCENDO O PAU por rui alves

Que porra

é essa?

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A cultura mais uma vez é usurpada, surrupiada, roubada, desprestigiada e renegada a terceiro plano. Enquanto um ditadorzinho estiver no comando da prefeitura da cidade de Lagoa Santa, assim estará a cultura da cidade: usurpada, surrupiada, desprestigiada e renegada a terceiro plano. O pior de tudo isso, e ainda tem pior, é que não bastasse a ditadura, agora até vereador interfere no trabalho árduo que a secretaria de cultura tenta fazer, referindo-me ao segundo festival de cultura regional da cidade. Afinal, por que vereadores semianalfabetos de pai e mãe têm que interferir em cultura? Simples, se algo ameaça os votos de cabresto de um vereador ele tenta alguma maneira de atrapalhar e jogar por terra a tentativa de se resgatar o mínimo de cultura que a cidade poderia ter. Enquanto não houver pessoas desprovidas de interesses pessoais para enfrentar de frente esses pretensos ditadores, as coisas tendem a piorar, se é que algo mais nesse sentido pode ficar pior nesta cidade. Não tenho caráter para negar o trabalho que vi algumas pessoas executarem dentro da secretaria, trabalho braçal feito por quem tem talento para muito mais que isso, falta de estrutura proposital, pessoas com capacidade de sobra para fazerem as coisas acontecerem pintando paredes, carregando caixas nas costas, e para quê? Vejo nessa secretaria de cultura pessoas deixarem para segundo plano sua vida pessoal e para quê? Vejo artistas indignados com situações de mero descaso, bailarinos de renome

ESTA CIDADE NÃO TEM UM PUTEIRO, AQUELES VELHOS PUTEIROS DE CIDADE DO INTERIOR AQUI NÃO EXISTEM, E TEM RAZÃO DE SER AFINAL A PUTARIA ESTÁ A CÉU ABERTO

subjugados, músicos perplexos e por quê? Se a secretaria sempre foi uma espécie de Sibéria, aonde se jogam aqueles funcionários públicos que só querem bater cartão, por outro lado, mesmo não contando com esses reles trabalhadores que só sabem viver às custas do dinheiro público,outros querem que a cultura vença, porém cultura para o Sr. Prefeito é feita somente de Geraldos Azevedos, Sérgios Reis, e todos que o derem a oportunidade de subir no palanque e claramente com isso arrecadar mais uns votinhos. Fica claro também que a tentativa de se realizar um belo Segundo Festival de Cultura Regional atrapalha e muito o referido vereador, já que a secretária de cultura é oriunda do mesmo lugar onde mora o dito cujo. Só isso basta para que ele se cague de medo de perder seus votos de cabresto. Impressionante mas esse sujeito só consegue enxergar pela frente o salário que ganha dos cofres públicos, salário pago por mim, eu sou o patrão dele, logo me deve respeito. Num ato de covardia, o Sr. Prefeito avisa aos seus escravos que eu, este que escreve esta nota, sou persona não grata. É mesmo Prefeito? Por que hein? Talvez você, em um momento de insanidade, acredite que serei candidato a algo público nesta cidadezinha que você diz governar. Acho que você deveria se preocupar com os buracos desta cidade, deveria se preocupar com a saúde da população carente, deveria abrir mão do monopólio que detém no transporte, em vez de se preocupar comigo. “Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior”, já disse Belchior. Quanto ao vereador aqui citado, sem dizer o nome dele, que tal pelo menos de 10 em 10 anos ler um livro de autoajuda? Quem sabe quando você não for mais eleito esse livro lhe sirva para algo? Mas antes aprenda a ler e a escrever. Esta cidade não tem um puteiro, aqueles velhos puteiros de cidade do interior aqui não existem, e tem razão de ser afinal a putaria está a céu aberto. Ver um trabalho de Osório Garcia exposto num porão sórdido é algo repugnante, ver bailarinos como Belkiss Amorim dançarem sem uma estrutura decente é repugnante, ver músicos locais tocarem no asfalto é repugnante, ter que ver a cara lavada de vocês políticos é repugnante, me dá náuseas, tenho vontade de vomitar, ver a cara de vocês é pior do que

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VOCÊS SÃO VASSALOS E SE ACHAM REIS DA COCADA PRETA 30

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ver alguém estuprado, mesmo com vaselina. Vocês políticos são a escória do povo, vocês políticos que assassinam a cultura são tomates podres perdidos num Ceasa qualquer. Quando chegarem as próximas eleições, tenham a decência de não arreganharem suas bocas lotadas de dentes de ouro para nós que os sustentamos. Vocês são escrotos, só não posso comparar suas mentes a de um burro porque estaria sendo injusto com este animal. Vocês políticos desta cidade nada fazem pela cultura, nada fazem pelo povo, um povo infelizmente estúpido e sem educação suficiente, e é só por isso vocês se mantêm no poder. Prefeitos vão, somem do mapa, vereadores idem, mas nós que lutamos pela cultura permaneceremos, intactos e com dignidade, uma dignidade que vocês políticos jamais chegarão a ter. Nós continuaremos por aqui e faremos com que futuras gerações conheçam um pouco do que vocês tentaram tirar delas. A grana que vos sustenta

só lhes trarão câncer, câncer que nem médico, nem remédio darão jeito. Vocês destroem tudo, tudo que passa pelas vossas mãos vira gangrena, fica podre. Vocês são vassalos e se acham reis da cocada preta. Vocês se acham poderosos mas cagam de medo de meia dúzia de palavras. Enfim vocês não são nada, o poder que julgam ter, vai passar. Caixão não tem gaveta e no inferno grana não vale nada. Ponham a mão na consciência e deem para esta cidade um pouco de dignidade, um mínimo de cultura, cultura é mais barato do que hospital. Quero por fim dizer abertamente que meu osso é muito duro de roer e que minha língua não foi achada em lata de lixo para que reles politicozinhos de quinta categoria possam manter minha boca fechada. Programas de casinha popular e depósito de material de construção de vereador fornecendo para a prefeitura são mais perigosos do que um festival de cultura. Eu uso soutien 50.


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escultura de Leno n 32

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Cavern the

Início da História Alan Sytner abriu o Cavern inspirado pelo distrito de Jazz de Paris, onde havia muitos clubes nos porões. Sytner então retornou a Liverpool com a ideia de abrir um local similiar ao Le Caveau. Ele, eventualmente, achou um porão perfeito para seu clube - um lugar que foi usado como abrigo durante a guerra - e o inaugurou em 16 de janeiro de 1957 com o show da banda Merseysippi Jazz. O que começou como um clube de Jazz, tornou-se moradia para grupos Skiffle. Enquanto jogava golfe com o pai de Sytner, Dr. Joseph Sytner, Nigel Walley - que deixou a escola com quinze anos para ser um aprendiz de golfe profissional - perguntou ao Dr. Sytner se seu filho poderia apresentar os Quarrymen no Cavern, que era um dos três clubes de Jazz que ele gerenciava. Dr. Sytner sugeriu que a banda tocasse primeiramente no clube de golfe, o que ocorreu. Uma semana depois, Sytner telefonou para Walley oferecendo um lugar para tocar Skiffle entre as performances de duas bandas de Jazz, no Cavern, em 7 de agosto de 1957. Antes da performance, os Quarrymen discutiram entre eles sobre o set list, já que canções de rock definitivamente não eram permitidas no local, porém skiffle era tolerado. Depois de começar com uma canção skiffle, John Lennon chamou os outros integrantes para tocarem “Don't Be Cruel”. Davis alertou Lennon de que a plateia iria “comê-lo vivo”, mas Lennon o ignorou e começou a tocar a música sozinho, forçando os outros a se juntarem. No meio da canção, Sytner atravessou a plateia e entregou a Lennon uma nota que dizia “Pare com o maldito rock”. Os Quarrymen voltaram a tocar novamente no Cavern somente algum tempo depois, em 25 de janeiro de 1959, onde aconteceu a primeira aparição de Paul McCartney ali, (George Harrison tocou pela primeira vez numa sessão de almoço em 9 de fevereiro de 1961). Sytner acabou vendendo o clube para Ray McFall em 1959, depois de se mudar para Londres. Bandas de Blues e grupos de Beat começaram a aparecer no clube regularmente no começo dos anos 60. A primeira “Beat Night” foi realizada em 25 de maio de 1960 onde destacou-se a performance da banda Rory Storm and the Hurricanes (que incluia Ringo Starr como baterista). No começo de 1961, Bob Wooler havia se tornado o organizador de tempo integral das sessões de almoço.


foto divulgação foto divulgação

entrada do clube

coldplay

Os Beatles e Outros Os Beatles fizeram sua primeira sessão de almoço no Cavern em 21 de fevereiro de 1961. Eles haviam retornado de Hamburgo, Alemanha, onde tocaram no Indra e no Kaiserkeller. Aconteceram tantas mudanças em seus shows que alguns da plateia acharam que estavam vendo uma banda alemã. Entre 1961 e 1963, os Beatles fizeram 292 shows no clube, sendo o último em 3 de agosto de 1963, um mês antes da banda gravar “She Loves You” e seis meses antes da primeira viagem aos Estados Unidos. Na época, Brian Epstein prometeu que os Beatles retornariam algum dia mas a promessa nunca foi cumprida pois a “Beatlemania” estava brotando através da Inglaterra, e o pequeno clube já não mais satisfazia a demanda de audiência para o grupo. Durante o ano de 1962, os Hollies ocuparam a vaga dos Beatles no Cavern. Os Beatles graduaram e foram incluidos no selo da EMI Parlophone pelo produtor George Martin. O volume da atividade musical em Liverpool e Manchester fez com que os produtores de gravadoras, que nunca haviam se aventurado pra muito longe de Londres, começassem a olhar para o norte. Na década seguinte, uma grande variedade de bandas populares começaram a aparecer no clube, incluindo os Rolling Stones, os Yardbirds, os Kinks, Queen, The Who, Elton John e John Lee Hooker. A futura estrela Cilla Black trabalhou no Cavern como recolhedora de chapéus, em seus dias préfama. Um estúdio de gravação, “Cavern Sound”, foi aberto no porão de um edifício contíguo, dirigido por Nigel Greenberg e Peter Hepworth. O clube foi fechado em março de 1973 durante a construção da ferrovia subterrânea. Jan Akkerman, com o grupo holandês Focus, foram os últimos a se apresentarem no local. O Clube Hoje Em abril de 1984, o Cavern foi retomado pelo jogador do Liverpool F. C., Tommy Smith,

em associação com a Royal Life. Ocupando 50% do local original, foi reconstruido com muitos dos tijolos usados no clube original. Era um período difícil, de grandes mudanças econômicas e políticas dentro e ao redor de Liverpool. O clube sobreviveu somente até 1989 quando cedeu a problemas financeiros, fechando as portas por 18 meses. Em 1991, dois amigos - o professor Bill Heckle e o taxista Dave Jones - o reabriram. Apesar de ser um lugar conhecido mundialmente, continuou a funcionar principalmente como um local de música ao vivo, apesar das contratações de DJs nas noites de sextas e sábados. A política das músicas variava entre músicas indie, rock e pop dos anos 60 aos 90. Em 14 de dezembro de 1999, o ex-Beatle Paul McCartney retornou ao clube para seu último show naquele ano promovendo seu novo álbum Run Devil Run. O Cavern Club ainda é um dos locais mais famosos do Reino Unido. Tem por volta de 40 bandas tocando durante a semana, tanto bandas tributo como bandas originais, apesar da maioria delas tocarem seu próprio material. A sala da frente é o principal atrativo turístico onde as pessoas vão para serem fotografadas junto à parede do famoso palco, local em que estão escritos os nomes das bandas que lá tocaram . Também ouve-se música acústica das 16 às 18:30 horas nas sextas, sábados e domingos, com vários artistas tocando sucessos dos anos 60. Em alguns domingos acontece um evento chamado Mersey Rats onde destacam-se bandas covers dos anos 50 e 60. O Cavern também é usado como um local de aquecimento para turnês com shows semissecretos anunciados no último momento. Os Arctic Monkeys fizeram isso com Thomas Bhoane, em outubro de 2005, assim como outros antes deles, como o Oasis e Travis.

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// PORTUGAL por mario pessanha foto divulgação

BAIRROALTO O Bairro Alto, antes conhecido como Vila Nova dos Andrades, é uma zona típica de Lisboa, com ruas estreitas e calçamento de pedra, bem perto do bairro do Carmo e do Chiado, com suas casas seculares e um pequeno comércio tradicional. Construído mais ou menos em plano ortogonal em finais do século XVI, o bairro é um dos mais pitorescos da cidade, sendo delimitado a oeste pela Rua do Século, a este pela Rua da Misericórdia, a norte pela Rua D. Pedro V e a sul pela Rua do Loreto e Largo do Calhariz, dividindo-se entre freguesias da Encarnação e de Santa Catarina. Desde os anos 80 é o local mais conhecido da noite lisboeta, com inúmeros bares, restaurantes e as famosas casas de fado e onde anos atrás se instalaram quase todos os órgãos de imprensa de distribuição nacional. Nos últimos vinte anos, o Bairro Alto adquiriu uma vida muito própria e característica onde se cruzam diferentes gerações à procura de divertimento noturno. Parte dos prédios foram recuperados, mantendo-se a fachada original, o que veio a permitir instalação de novos e alternativos espaços comerciais, encontrando-se desde lojas multimarcas e ateliers a lojas de tatuagens e piercing. Aos poucos, verifica-se também que passou a ser procurado como um lugar para se viver, estando a sua população a ser renovada e rejuvenescida. Durante o Século XIX e até meados do Século XX, o bairro abrigava as sedes dos principais jornais e tipografias do país. Ainda hoje é possível encontrar ecos desse tempo em nomes de ruas como a Rua Diário de Notícias ou a Rua do Século. Este bairro, um dos mais intelectuais da capital, frequentado e habitado por jornalistas, escritores e estudantes, pertinho do Chiado, era também lugar de bares de marinheiros, de lugares de má fama e de muita

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prostituição. Vitorino Nemésio faz alusões a esse ambiente no romance “Mau tempo no canal”. O edifício onde nasceu o Diário de Notícias foi mais tarde ocupado por A Capital (diário extinto em 2005), sendo hoje mais conhecido por Edifício A Capital. Foi neste prédio que a Companhia de Teatro Artistas Unidos esteve sediada durante muito tempo. A companhia abandonou o espaço há alguns anos, uma vez que a Câmara Municipal iria proceder a obras de reabilitação. Do outro lado, o Bairro do Chiado é um dos bairros mais emblemáticos e com mais história da cidade de Lisboa. Localiza-se entre o Bairro Alto e a baixa pombalina. Em 1856, com a criação do Grêmio Literário, (um clube ponto de encontro dos intelectuais da época), o Chiado tornou-se o centro do romantismo português, ponto de passagem obrigatória para quem queria ser conhecido na cidade. Eça de Queiroz na sua obra “Os Maias” fazia grande referência ao Chiado e ao Grêmio Literário. O Chiado divide-se pelas freguesias do Sacramento e dos Mártires, duas das mais pequenas de Lisboa. Na década de 80 devido à mudança nos hábitos dos Lisboetas e à inauguração do Centro Comercial Amoreiras, o Chiado ficou decadente. Em 1988, na madrugada do dia 25 de Agosto, entre as 3 e as 4 horas da manhã, deflagrou-se um incêndio no Edifício Grandela (famosa construção do local), que viria a tomar grandes proporções, alastrando-se por mais 17 edifícios. O Chiado ficou destruído e a sua reconstrução levou toda a década de 90, ficando o design a cargo do arquiteto Siza Vieira. Hoje, o Chiado voltou a ser um importante centro de comércio de Lisboa sendo uma das zonas mais cosmopolitas e movimentadas da mesma. Quem vai à Lisboa e não “respira a magia” desses bairros com certeza deixará de conhecer uma intensa história portuguesa.


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// ENTRETENIMENTO

PARAPOUCOS! SKIN DEEP (2008) BUDDY GUY É errôneo caracterizar esse lançamento de Buddy Guy, seu primeiro em três anos, como um regresso já que ele nunca foi embora. Mas desde a performance ladra de holofotes do concerto dos Rolling Stones, Shine a Light, do mesmo ano, e a aparência de Skin Deep, Buddy retornou à arena como o magnético e dinâmico blueseiro que sempre foi. Ouça qualquer uma das doze músicas, sete delas de autoria do guitarrista de Chicago, e vai ser como um assopro de vento quente na face. Mesmo com a produção habilidosa do baterista Tom Hambrige, Buddy está na sua cara. Convidados como Derek Trucks e Eric Clapton parecem estar em segundo plano, mas o sensível trabalho com slide na balada principal traz uma ótima qualidade à canção. A mulher de Trucks, Susan Tedeschi, faz um vocal brilhante no óbvio single de meio tempo “Too Many Tears”. Fãs raízes de guitarra vão se emocionar na intensidade do blues “Out in the Woods”, onde Buddy desencadeia grande quantidade de sons crus que fazem o disco consistentemente estimulante e um realce no extenso catálogo da lenda.

MYSTIC MYLE (1993) ROBBEN FORD & THE BLUE LINE Robben Ford nasceu em Ukiah, Califórnia, em 1951. Aos 13 anos de idade começou a tocar guitarra e aos 18 mudou-se para San Francisco onde iniciou sua carreira profissional. Formou a Charles Ford Band (nome de seu pai) mas, paralelamente à banda, tocou com Charlie Musselwhite, Jimmy Witherspoon, Joni Mitchell e George Harrison. Na década de 80 Ford mergulhou no jazz, tendo excursionado com Miles Davis em 1986 e com Sadao Watanabe em 1987. Em 1992 voltou às suas raízes de blues formando o grupo Blue Line e gravando alguns discos de blues-rock, entre eles o “Mystic Mile”.

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FREE FALL (1977) DIXIE DREGS Dixie Dregs é uma banda norte americana de rock progressivo formada nos anos 70. Eles são conhecidos por misturarem em seu estilo os gêneros jazz, bluegrass e southern rock de uma forma única e recheada de virtuosismo. Steve Morse (Kansas, Deep Purple) é o membro mais conhecido do grupo. A performance desta banda é conhecida entre os grandes músicos americanos como sendo a melhor das melhores. Todos os seus membros são, sem dúvida alguma, grandes virtuosos e excelentes tecnicistas. Altamente recomendada aos apreciadores de boa música.

YESTERDAY YOU SAID TOMORROW (2010) CHRISTIAN SCOTT Christian Scott, nascido em 31 de março de 1983 em New Orleans, é um jovem trompetista, compositor e produtor, nomeado ao grammy. O “sobrinho do Jazz”, como é chamado por Donald Harrison, foi considerado pela Jazz Times como “arquiteto de uma nova comercialmente viável fusão de estilos” e “jovem deus do jazz”. Uma das marcas de seu estilo diferenciado de tocar o trompete é a chamada por ele de técnica de sussurro. Christian Scott lançou 5 álbuns desde 2006, incluindo um ao vivo. Imperdível para amantes de boa música.


PARATODOS!

TRAINSPOTTING

ANTES DE PARTIR

DONNIE BRASCO

Direção Danny Boyle Roteiro John Hodge Lançamento 23 de Fevereiro de 1996 Duração 94 minutos Idioma Original Inglês Elenco Ewan McGregor, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle e Ewen Bremmer.

Direção Rob Reiner Roteiro Justin Zackham Lançamento 25 de Dezembro de 2007 Duração 97 minutos Idioma Original Inglês Elenco Jack Nicholson, Morgan Freeman, Sean Hayes e Beverly Todd.

Direção Mike Newell Roteiro Paul Attanasio Lançamento 28 de Fevereiro de 1997 Duração 127 minutos Idioma Original Inglês Elenco Johnny Depp, Al Pacino, Michael Madson, Anne Heche e Bruno Kirby.

Trainspotting é um filme britânico de drama, dirigido por Danny Boyle e com roteiro baseado em livro homônimo de Irvine Welsh. Gerou polêmica em alguns países, incluindo o Reino Unido e os Estados Unidos, devido a alegações de que promovia o uso de drogas. Apesar das críticas, Trainspotting foi aclamado como um filme bastante original e interessante, retratando o movimento clubber no Reino Unido. Em 2004, foi considerado pelo The New York Times como um dos 1000 melhores filmes já produzidos. Num subúrbio de Edimburgo, quatro jovens sem perspectivas mergulham no submundo para manter seu vício pela heroína. “Amigos”, que são ladrões e viciados, caminham inexoravelmente para o fim desta amizade e, simultaneamente, marcham para a autodestruição. Trainspotting revelou ao mundo o talento do cineasta Danny Boyle (Extermínio) e dos atores Ewan McGregor (Moulin Rouge) e Robert Carlyle (Ou Tudo ou Nada). Trilha sonora sensacional, com muitas músicas de Iggy Pop, Lou Reed, Blur, entre outros.

Antes de Partir (The Bucket List) é um filme de comédia do ano de 2007, escrito por Justin Zackham e dirigido por Rob Reiner. O filme conta a história de dois homens: Carter Chambers (Freeman), um simples mecânico, e Edward Cole (Nicholson), um magnata bilionário, que se encontram pela primeira vez em um quarto de hospital após ambos serem diagnosticados com câncer terminal nos pulmões. Eles se tornam amigos e decidem fazer uma viagem com uma lista de coisas pra fazer antes de “bater as botas”. Salto de paraquedas? Feito. Pilotar um Mustang Shelby em alta velocidade? Feito. Admirar a grande pirâmide de Khufu? Feito. Descobrir a alegria em suas vidas antes que seja tarde demais? Feito! Sob a competente direção de Rob Reiner, estes dois astros oferecem interpretações de corpo e alma nesta inspirada saudação à vida, que prova que o melhor momento para se viver ainda é o agora. Você só vive uma vez, portanto, por que não viver com estilo? A música tema do filme, “Say” de John Mayer, concorreu ao Grammy em 2009.

Donnie Brasco é um filme norte-americano lançado em 1997, dos gêneros drama e policial, escrito por Paul Attanasio e dirigido por Mike Newell, baseado em fatos reais narrados no livro de Joseph Pistone. Johnny Depp está no papel do agente do FBI Joseph Pistone, que tem que se infiltrar na máfia e, nesta missão, usa o nome Donnie Brasco. Ele se torna amigo de Lefty Ruggiero (Al Pacino), um mafioso cheio de problemas que o toma como protegido e faz com que conheça muito bem o crime organizado. Enquanto a missão do FBI vai se estendendo, a vida pessoal de Donnie é afetada e ele fica cada vez mais amigo de Lefty. Com uma visão nada glamourosa ou sensacionalista da Máfia, “Donnie Brasco” é um filme sempre envolvente, tenso e interessante que também é um estudo do próprio Joseph Pistone, que sacrificou sua própria convivência com a esposa e as filhas por seis anos e até hoje vive em anonimato por ter sua cabeça colocada a prêmio pelos mafiosos. O filme concorreu ao Oscar de melhor roteiro adaptado em 1998.

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// LITERATURA por gerusa maya

O SOM DO SILÊNCIO Dia desses tive um sonho. Estranho. Era meu ou era seu? Tão seu, que nem sei se fui eu quem teve. Vi você lá no fundo. E me descobri através. Era eu no s(eu) espelho. Eu sabia. Como se me pedisse que lhe contasse o que você mesmo fazia. Sua boca se mexia e sua mão descrevia. O cenário era vermelho, meio terra, meio ocre que cheirava forte. Vida ou morte? Nadava num fundo longe, triste, deep blue. Um mar de dentes frenéticos e saltitantes aguardava a dança do toma lá dá cá. De repente, tudo cresceu e se alinhou. Assim, coisa seguida de coisa. Umas baixas outras altas. Umas longas outras curtas. Como uma montanha russa. Ao fundo castanholas, tambores, oboés, flautas, pianos, sons, sons, sons e vozes, choros, gritos, ventos de giros, giros de vírgulas, ponto, ponto, ponto, e ponto. No outro dia lhe contei o que havia se passado. Escrevi um poema e você o musicou. Mas como? Isso era um sonho! Não - você me disse – isso é o barulho do pensamento. O texto acima ilustra de maneira metafórica o nascimento de uma ideia. Uma ideia que pôde ser traduzida em palavras que por sua vez foi traduzida em sons e depois remusicada por um intérprete de acordo com sua percepção. Uma ideia textual e melodiosa, como todas, que teve seu início no útero do pensamento. O mesmo útero dos sons que deram origem aos instrumentos musicais criados, inicialmente, para imitar as vozes humanas, e que é, também, a caixa de ressonância do ritmo das palavras, o fator mais importante da composição. Na poesia, por exemplo, o ritmo é mais importante até que o domínio do vocabulário ou a criatividade do escritor. É através dele que o escritor dita a emoção de um texto. É ele que determina, também, grande parte do que sustenta o interesse do leitor. O mesmo acontece na música, até mesmo na considerada música absoluta, aquela composta unicamente por instrumentos, onde o artista estrutura suas melodias em notas, que por sua vez formam frases de sons. Isso se torna mais fácil de entender quando imaginamos uma música como um texto literário, carregada de rimas, de repetições com início, meio e fim, mesmo que os símbolos usados sejam distintos. Mas, além das comutações entre palavra e

música para traduzir pensamentos ritmados, existe a intertextualidade entre elas, tal como mostra o início do texto. Muitos artistas consagrados como Chico Buarque, por exemplo, se valeram dos versos de Drummond, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e muitos outros para musicarem seus pensamentos. O próprio Chico, numa conversa com o cineasta Roberto de Oliveira, disse certa vez que “...há sempre uma música no fundo da minha cabeça quando escrevo, é quase uma trilha sonora, um assovio, um cantarolar que dita o ritmo”. Imagino que Chico tenha se referido ao ritmo inerente das palavras na narrativa. Um ritmo que quando intertextualizado, às vezes, fica tão misturado que mal conseguimos reconhecer a autoria da ideia, ou, ao contrário, imediatamente reconhecemos o outro, o parceiro, o coautor quase plagiado. Mas, Chico poderia estar falando, também, da velocidade que uma obra literária possui, pois um texto pode ser frenético, alucinante, carregado de ação como o thrash metal, ou até mesmo uma composição alucinada de Beethoven, ou pode ser calmo, lírico, carregado da mais tenra emoção. De fato, um poema pode ser musicado, e apesar de já possuir sua música inerente, esta pode ser modificada sem perder sua essência melódica. Por outro lado uma música ao ser narrada em prosa ou verso pode passar a ter outra melodia, outro ritmo a partir de então, e assim cria-se um novo olhar, um novo diálogo. Um diálogo, que pode, também, ser criado na ausência das palavras, como no filme “O pianista”, por exemplo, em que o homem usa a música para expressar suas angústias e vencer a ausência de sons, o silêncio. Mas, se o silêncio é a ausência de som, como pôde, então, musicar meu silêncio? Certa vez, o poeta Décio Pignatari disse que o silêncio é o fundo do som. Pois, para mim, o silêncio é o barulho do pensamento, às vezes musicado, às vezes não.

ESTRANHO. ERA MEU OU ERA SEU? 38

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INDICAÇÕES DE LIVROS ESCLARECIMENTO Os livros indicados nesta seção não são, necessariamente, títulos recém lançados, ou que se encontram divulgados nas listas dos mais vendidos, mas sim, obras que merecem atenção particular independente do gênero literário e data de suas primeiras edições.

A PASSAGEM TENSA DOS CORPOS Mello, Carlos de Brito Cia das Letras Ficção # 249 páginas

NOTURNOS Ishiguro, Kazuo Cia das Letras Contos # 210 páginas

O MELHOR DO INFERNO Tassis, Christiane Língua Geral Ficção # 149 páginas

Um ser, que se diz incompleto, trava uma batalha em busca da aquisição da forma humana e para isso busca a extinção da mesma colecionando obituários e narrando suas ocorrências nas cidades de Minas Gerais. Mas, um corpo insepulto por uma família que se nega a fazê-lo, o mantém impossibilitado de se completar. Carlos Brito Mello utiliza de um sentimento, ao mesmo tempo comum e tão individual, do ser humano para afirmar a necessidade da morte e nos deixa a simples opção de narrá-las. “Minha língua tem dito as mesmas coisas, sem alcançar sucesso. Tornei-me repetitivo”.

Kazuo Ishiguro relata em contos as experiências vividas por cinco músicos de diversas partes do mundo, que despertam impressões diversas nas pessoas por onde passam. Nesta obra o autor utiliza a música como um veículo para traduzir sentimentos que descrevem histórias de amor, paixões delirantes, ilusões, encontros e desencontros. Cinco narrativas, carregadas de emoção, que além de traduzirem sentimentos muitas vezes inefáveis, se contrapõem com as limitações impostas pelo profissionalismo que o mercado musical exige, submetendo os músicos, então, a momentos comoventes e engraçados. Kazuo Ishiguro recebeu o “Booker Prize” pela obra, “Resíduos do Dia”, em 1989.

Um videomaker e duas mulheres tentam inventar uma vida através dos frames de uma câmera de filmar. Um triângulo amoroso intrigante onde o real e o virtual se misturam todo o tempo. “A palavra mais difícil de dizer é um número: dois. É possível ser um, ou vários. Dois, nós não conseguimos. Imaginei que poderíamos ser três.” Christiane Tassis constrói um diálogo denso de sensações, expectativas e possibilidades que acompanham o timecode desordenado das gravações enquanto cria o inferno particular do protagonista.

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// CRテ年ICA por rui alves foto harrison keely

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BREGA, MACONHEIRO E UNIVERSIOTÁRIO Faz tempo que ser brega e maconheiro era coisa de nordestino ou de hippie. Hoje todos somos bregas, maconheiros ou ex, e universitário só não é quem não tem pai rico. Vou voltar no tempo. Em 21 de fevereiro de 1975, estava minha pessoa embarcando no Aeroporto da Portela, em Lisboa, rumo ao Brasil, após passar seis tenebrosos meses na capital portuguesa, recém saída de uma ditadura e ainda respirando ranços antigos de um regime de quarenta anos de autoritarismo. Um frio medonho e uma família perdida pelo mundo devido à guerra da África, lá estávamos eu e minha irmã doidos pra revermos os “velhos”, que por aqui desembarcaram meses antes. Lembro-me que nesse dia, ainda no aeroporto e com muita grana no bolso, comprei tudo que era revista brasileira, das mais bregas às mais sofisticadas, logicamente sem entender de nenhum assunto pois o que eu conhecia do Brasil, naquela época com quinze anos de idade, era praticamente zero. Sabia eu de Roberto Carlos, Nelson Ned, Emerson Fittipaldi, Pelé e Martinho da Vila, sendo que este último conheci num final de ano em que passei junto a amigos negros moçambicanos nas “palhoças” de lá. Conhecia também um pouquinho sobre Ouro Preto, que me foi ensinado na escola de Moçambique. Fora isso o Brasil para mim era uma grande fantasia. De onde eu vinha não havia TV, a meninada se divertia na rua com uma vitrola de um cara mais velho, hippie e maconheiro, que nos “aplicava” Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan e outros doidões da época. Era uma grande vida, muito calor, fartura de tudo e, apesar da ausência de meios de comunicação, a gente sabia de tudo, ou achava que sabia. Dia 22 de fevereiro de 1975 ao desembarcar no Rio de Janeiro, já tinha consumido todas as revistas que comprara em Lisboa. Fotos enormes e pôster de formato duplo com artistas brasileiros eram uma constante em quase todas as publicações. Estava fascinado com tudo aquilo, cheguei numa terça-feira de carnaval, calor de rachar os bicos, mas o melhor de tudo: preto, branco, amarelo, vermelho, tudo junto em clima de festa, definitivamente era o paraíso. Ainda estava longe de conhecer o que era brega ou não, era tudo muito legal, aliás “legal” foi a primeira expressão aprendida do jeito brasileiro. Dias depois, já instalado em Belo Horizonte, o que mais me fascinava era a televisão, minha nossa quanto programa de diversão, o meu

preferido era o Silvio Santos. Era estranho mas os primeiros amigos que fiz sempre me diziam que o tal de Silvio Santos era muito brega e que eles não assistiam, logicamente não me fiz de rogado, nunca mais toquei no assunto porém não deixei de ver Silvio Santos. O engraçado dessa historia era que ninguém assistia, mas todo mundo dava conta das coisas que aconteciam nas tardes de domingo do dito programa.

2010, trinta e tantos anos se passaram. Hoje farto de rir quando me lembro desses primeiros meses em terras tupiniquins. Adotei o Brasil, o Brasil me adotou, perdi o sotaque português, perdi o Landim (dialeto falado em Moçambique), e perdi a vergonha de dizer as coisas que penso, mesmo porque, hoje já naturalizado brasileiro, com direito a voto e pagando imposto, não tenho mais idade pra não dizer o que penso. Penso, por exemplo, que a música brasileira nunca irá necessitar de adjetivos, os músicos brasileiros então nem se fala. No entanto, hoje me deparo com descalabros titânicos, vou contar: forró, sertanejo, caipira e tantos outros sons sempre foram considerados bregas, mas a exemplo do Silvio Santos, todo mundo gosta sem querer assumir. Um belo dia algum esperto produtor musical sacou isso e inventou o tal de forró universitário. Era o seguinte: era forró, mas intelectual. Afinal, já que não dava para estudantes universitários assumirem o gosto pelo forró original, então, com o nome de universitário ninguém ia achar brega. Esse produtor sacou esse lance e matou a charada fácil. Tudo resolvido, as gostosinhas da universidade e os “mauricin” agora poderiam curtir o forró, afinal virou universitário. Lógico que o forró é o mesmo, huuuum, mais ou menos o mesmo. Junto com o lance de universitário tiveram que arrumar grupos de forró com uns “carinhas” de cabeça menos achatada e ai fudeu, forró sem ser tocado por nordestino não existe,é só algo parecido, mas que vendeu pra cacete vendeu. Boa jogada desse tal produtor, mas... como

no Brasil tudo vira gigante, os caras não se contentaram com apenas essa melodia, e ai começa a merda toda. Atrás vieram todos os gêneros musicais. Era preciso entender que universitário batendo cabeça com thrash metal não pegava bem, então vai ai thrash metal universitário, aproveitando vamo lá de samba universitário, um pagodinho universitário, um rock universitário, um pop universitário, um blues universitário e por ai vai. Resumindo, hoje existem basicamente as mesmas músicas em duas versões, a comum para os “civis” e a música universitária. Mas que porra é essa? Vocês estão loucos ou eu que pirei o cabeção? Que cacete de merda são esses tais universitários? Hoo, para com isso. Universitário é o bicho mais escroto que conheço, são uns bostinhas que depois que entram para aquela porra se acham intelectuais. Será que esses bossais não podem ouvir forró apenas legítimo, nordestino? Será que esses babacas não podem ouvir metal sem acharem que tem que ser maconheiros? Aliás, numa pesquisa da “da-lhe folha”, nove entre nove universitários é ou já foi fumante da “erva mardita”. O pior de tudo isso é que os universitários dos dias de hoje nem são mais os mesmos, são literalmente uns bossais despolitizados e sem merda nenhuma na cabeça (regras e exceções sempre existirão), haja vista a escola de belas artes que forma a cada seis meses um bando de gente que nunca chegará a lugar algum pela simples falta de talento pois arte não se aprende em universidade. Tem também a galera das Letras, que nunca irá escrever nada. A grande maioria vira professor, e como diz o velho ditado, “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Universitário sabe mesmo é de balada com muito TUC TUC e grandes orgias. Alguém já se perguntou por que os velhos e bons puteiros acabaram? Ora, é por que hoje existem muitas universidades, tanto é que se uma gostosinha for para a universidade de micro saia e os boiolas tentarem pegá-la, a gostosinha vira celebridade global fácil fácil. Então, meus caros, música universitária e putaria são a mesma coisa. Música universitária não existe, o que existe é uma tentativa de se acabar com o original porque é mais fácil e dá mais grana arrumar um Zé bonitinho e dizer que ele canta música universitária do que contratar os originais. Forró sem “nego” de cabeça chata nunca será forró, eu acho.

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// CINEMA por fernanda shairon foto divulgação

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QUENTIN TARANTINO

À PROVA DA CRÍTICA Os filmes de Quentin Tarantino deram-lhe fama imediata. São marcados por falar do submundo, sempre mesclando doses de humor e uma abordagem irônica e inteligente à violência no cinema. Revolucionou a indústria de filmes independentes na década de 90, mostrando que estes filmes também são rentáveis. Em 27 de março de 1963, no Tennessee, Estados Unidos, nasceu o mais famoso dos diretores por trás da revolução de filmes independentes, Quentin Jerome Tarantino. Diretor, ator e roteirista com vasto conhecimento em crítica e história do cinema, especialista em filmes estrangeiros, de gênero e pouco conhecidos. Sua paixão por estes estilos de cinema reflete-se em seus trabalhos. Em seus filmes o estilo, histórias ou diálogos fazem referências a outros filmes ou gêneros diferentes de cinema. Alguns críticos consideram suas ideias plágio, desconsideram que o cinema de Tarantino é o de homenagens. “Eu nunca frequentei a escola de cinema. Eu frequentei o cinema”, disse. Alcançou a fama rapidamente por seus roteiros de cronologia fragmentada, diálogos afiados e memoráveis, obsessão pela cultura pop e o uso de violência, que trouxeram um novo padrão de filmes norte-americanos. Quentin Tarantino chegou a atuar em diversas séries da TV americana antes de estrear como diretor em “Cães de Aluguel”. Captou recursos para o filme vendendo dois roteiros

seus que se tornariam sucessos em Hollywood, “Amor à Queima-Roupa” (1993), de Tony Scott, e “Assassinos por Natureza” (1994), de Oliver Stone. Atuou em alguns filmes de destaque, como “A Balada do Pistoleiro” (1995) e ”Um Drink no Inferno” (1996). O famoso “Pulp Fiction - Tempo de Violência” ressuscitou a carreira de John Travolta, deu novo impulso para Samuel L. Jackson e Uma Thurman, e ainda rendeu a Tarantino a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1994 junto com “Sexo, mentiras e videotape”, de Steven Soderbergh e “Roger e eu”, de Michael Moore, além do Oscar de Melhor Roteiro Original e indicação na categoria de Melhor Filme. Escreveu e dirigiu a saga vingativa “Kill Bill”, filme lançado em duas partes, com influência dos filmes japoneses, de faroeste, de terror italianos e de artes marciais chineses. O filme é baseado em uma personagem chamada A Noiva, que Tarantino criou conjuntamente com a atriz principal deste filme, Uma Thurman, durante as filmagens de “Pulp Fiction”. Em “À prova de morte”, sua metade em “Grindhouse”, homenageou os filmes “B” de horror recebendo excelentes críticas. No último trabalho, “Bastardos Inglórios”, filme de maior bilheteria de Tarantino até hoje, recebeu vários prêmios e indicações, incluindo oito indicações ao Oscar. Pela sua brilhante atuação como Hans Landa, Christoph Waltz ganhou o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes, bem como o BAFTA, o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

FILMOGRAFIA 1992. Cães de Aluguel (Reservoir dogs) 1994. Pulp Fiction - Tempo de Violência (Pulp fiction) 1995. Grande Hotel (Four Rooms) (Episódio - O Homem de Hollywood) 1997. Jackie Brown (Jackie Brown) 2003. Kill Bill: Volume 1 (Kill Bill: Vol. 1) 2004. Kill Bill: Volume 2 (Kill Bill: Vol. 2) 2005. Sin City - A cidade do pecado (Sin City) 2007. À Prova de Morte (Death Proof) 2009. Bastardos Inglórios (Inglorious Bastards) 2014. Kill Bill: Vol. 3 (anunciado no dia 16 de Outubro de 2009)

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// CRÔNICA

por rui alves

RESTARTA MTV, RESTARTA! Pai nosso que estais no céu, que não vejais a MTV, mas que seja feita a vossa vontade, não nos deixeis cair em tentação, dai-nos Miltons, Ritas e Caetanos, se puderes Skanks também. Livrai-nos do mal Restart nossas mentes, amém. Não sei como enviar esta súplica ao céu mas, de repente, vamos que Deus lê a nossa revista. Perdi meu precioso tempo ao parar na frente da televisão para assistir ao Video Music Brasil (MTV). Um repeteco do prêmio Multishow de música, só deu retardado, e logicamente, o “pau” vai comer solto. O que se passa na cabeça do jovem brasileiro? O que se passa na cabeça dos dirigentes

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da MTV? O que se passa na cabeça do Brasil, anos a fio desperdiçando tempo com jovenzinhos coloridos que munidos de dois acordes viram superstars ovacionados por menininhas histéricas? PQP, por onde anda o bom e velho rock 'n' roll? Mas que porra é essa que ta acontecendo na música brasileira? Não está acontecendo nada, nada literalmente. Os velhos roqueiros estão cansados e tristes, mudaram o mundo e no mundo que eles mudaram, a herança foi toda uma geração desperdiçada, crianças desprovidas de talento, de atitude política e de capacidade até para verem que meios de comunicação

como a própria MTV só tiram deles grana fácil com sucessos mentirosos e um futuro vazio. Essas crianças, desprovidas de talento musical, poderiam muito bem ajudar este país em outras funções, no caso do “Restart” por exemplo, dariam ótimos estilistas de moda, isso eles fazem razoavelmente bem, muito estilo pra se vestir e apenas isso. Daqui a poucos dias todos eles da banda estarão sendo fotografados por paparazzi de plantão em praias cariocas, comendo algumas dessas menininhas histéricas e é exatamente na praia que a carreira dessas pobres criaturas irá morrer. E a música brasileira aonde chegou?


A minha esperança é que em algum porão deste país esteja nascendo rock, música, músicos, talentos de verdade, seres pensantes filhos de pais pobres que pela própria pobreza sejam obrigados a pensar. Talento não se compra com grana, qualidade musical não se adquire com a grana do papai. É duro ter que engolir goela abaixo o poder da grana interferir na música. Sempre foi assim? Creio que não. Na origem daqueles que mudaram o mundo através da música não havia grana, havia puro talento. Jimi Hendrix é seguido até hoje, várias gerações tentam alcançar seu modo de tocar, Bob Dylan cantou o desencanto de toda uma geração. Papo retrógrado? Porra nenhuma, papo sensato sim. Vamos analisar friamente. Coincidência fudida, a MTV coloca uma bandinha como a Restart no topo e, coincidentemente, elege Justin Bieber artista internacional do ano. Prato cheio para as menininhas histéricas de plantão e caixa registradora abastada para a MTV. Chegamos ao fundo do poço ou será que esse poço ainda é mais fundo e coisa pior virá? Pai nosso que estais no céu, que seja feita a sua vontade, mas livrai-me deste mal, que seja mantida a minha sanidade, não me deixeis cair na tentação, dai-me lucidez, amém.

A MINHA ESPERANÇA É QUE EM ALGUM PORÃO DESTE PAÍS ESTEJA NASCENDO ROCK, MÚSICA, MÚSICOS, TALENTO DE VERDADE. REVISTAZONACULTURAL.COM.BR

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// AULA

2ª AULA DE GAITA Suas primeiras canções na gaita diatônica A tablatura traduz informações contidas no pentagrama (pauta musical). Esta simbologia facilita o estudo da harmônica e de outros instrumentos que oferecem dificuldade na visualização das notas e que são tocados através da memorização de “digitações”. As tablaturas para gaita diatônica variam de país para país e nós a usaremos da seguinte forma: • 1s - Soprar o orifício 1 • 1a - Aspirar o orifício 1 • 3a’ - Produzir 1 semitom no orifício 3 • 3a’’ - Produzir 2 semitons no orifício 3 • 3a’’’ - Produzir 3 semitons no orifício 3 • (1234)s - Soprar simultaneamente os quatro orifícios (acorde) • (1-4)s - Soprar somente os orifícios 1 e 4 (oitavar) • (4=5)a - Alternar entre o 4 e o 5 aspirado (Head Shake) Execute com a ajuda da tablatura suas primeiras canções: Noite Feliz 6s 6a 6s 5s 6s 6a 6s 5s 8a 8a 7a 7s 7s 6s 6a 6a 7s 7a 6a 6s 6a 6s 5s 6a 6a 7s 7a 6a 6s 6a 6s 5s 8a 8a 9a 8a 7a 7s 8s 7s 6s 5s 6s 5a 4a 4s Popeye - Tema do Desenho 5s 6s 6s 6s 5a 5s 6s I'm Popeye, the sailor man. 6s 6a 5a 6a 7s 6a 6s I'm Popeye, the sailor man. 6s 6a 5a 6a 7s 7a I fight to the finish 6a 6s 6a 6s 5s Cause I eats me spinach. 6s 6s 6s 6s 6a 7a 7s I'm Popeye, the sailor man Oh Susanna 4s 4a 5s 6s 6s 6a 6s 5s 4s I came from Al-a-bam-a 4s 4a 5s 5s 4a 4s 4a with my ban-jo on my knee;

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ZONACULTURAL

4s 4a 5s 6s 6s 6a 6s 5s 4s I'm goin' to Lou-'si-an-a 4s 4a 5s 5s 4a 4a 4s M-y true love for to see. I-t rained all night the day I left The weath-er it was dry; Th-e sun so hot I froze to death, Su-san-na, don't you cry. 5a 5a 6a 6a 6a 6s 5s 4s 4a Oh, Su-san-na, oh, don't you cry for me; 4s 4a 5s 6s 6s 6a 6s 5s 4s I-ve come from Al-a-bam-a 4s 4a 5s 5s 4a 4a 4s with my ban-jo on my knee.

a técnica, encha o abdome de ar e sopre o máximo que puder uma mesma nota. Tente sempre aumentar sua resistência e o tempo de duração desta nota. Com o ar quente você pode tocar sempre no seu limite de força, pois o seu próprio corpo regula esta força e não permite que você agrida sua gaita, mantendo o timbre desejado.

Traqueia Pulmão

Happy Birthday (Parabéns pra Você) 6s 6s 6a 6s 7s 7a Hap-py birth-day to you 6s 6s 6a 6s 8a 7s Hap-py birth-day to you, 6s 6s 9s 8s 7s 7a 6a Hap-py birth-day to 9a 9a 8s 7s 8a 7s Hap-py birth-day to you. Como soprar e aspirar corretamente sua gaita Aprenderemos agora a soprar e aspirar corretamente uma harmônica. Sopre sua gaita com o “bafo”, ar quente ou “o ar da vida” e não com o ar frio. Tencione seu abdome pra empurrar o ar para fora como os vocalistas e outros instrumentistas de sopro. Ao utilizar o ar frio ou ar torácico você estará se limitando, pois não possui tanta reserva de ar em seus pulmões. O certo é utilizar seu ar residual (ar que existe em seu corpo). Com o ar quente você conseguirá um timbre mais interessante, maior controle sobre sua gaita e maior resistência física. A grande dificuldade é conseguir soprar desta forma com a embocadura de bico, já que a tendência natural ao usar o bico é também usar o ar frio ou torácico. Um bom exercício é acender uma vela e soprá-la com a embocadura de bico. Se a vela apagar você estava usando o ar frio, se a chama somente ondular você estava usando o “bafo” ou ar diafragmático (abdominal). Quando se acostumar com

Diafragma

Diafragma

Aspire sua gaita pronunciando a vogal “A”. Não é necessário vocalizar. Desta forma você aspira com a glote (garganta) bem aberta e a língua em repouso e pra baixo, evitando sugar seu instrumento e o travamento das palhetas, incluindo a palheta 2 aspirada que costuma ser o grande problema dos iniciantes. Você deve sentir sua garganta gelada como se tivesse acabado de chupar uma bala mentolada. Portanto seus lábios devem funcionar somente como um canalizador de ar e nunca use seu poder de sucção, o que é uma tendência natural ao se aspirar com o bico. Um bom teste é aspirar a mão com a embocadura de bico e observar se está sugando, o correto é você não exercer tal pressão. Se ainda não conseguir assimilar a técnica correta, você pode ensinar ao seu corpo a não sugar as

palhetas inclinando a cabeça totalmente para trás e esticando a laringe, ou tampando o nariz ou ainda, ao aspirar a gaita, também aspire ar pelo nariz simultaneamente. A próxima fase é aprender onde colocar este ar. O correto é colocá-lo no abdome (respiração diafragmática). Qualquer sensação de cansaço se deve ao uso da respiração torácica. Observe diante de um espelho se seus ombros sobem quando aspira a gaita. Esse movimento indica o uso da respiração incorreta. Dicas: Evite tocar gaita após comer. Com o diafragma comprimido você se sentirá mais limitado. O corpo em repouso, como durante o sono, aciona o uso da respiração diafragmática. Portanto tocar gaita deitado é um bom exercício. Coloque um livro sobre o abdome e observe o movimento do diafragma. Coloque a mão esquerda sobre o peito e a mão direita sobre o abdome. Respire normalmente e observe qual mão se mexe mais. O correto é a mão direita (abdome) se movimentar mais do que a esquerda (tórax). Tais técnicas estão totalmente ligadas a um bom timbre e uma perfeita fabricação de notas (bends).

Leandro Ferrari Gaitista endorsee Bends Harmônicas, leciona aulas particulares, idealizador do projeto Minas Harp, gravou e tocou com vários grupos, incluindo a banda mineira Skank e a banda norte americana Living Colour. Tel.: (31) 9632-1525 > leandroferrari@leandroferrari.com > myspace.com/leandroferrari


Alê Magalhães

George Israel

Luiz Gustavo & Alessandro

Nasi

EstEs são alguns artistas da vitrinE núclEo dE produção Rua Barão do Rio Branco, 44 Sala 301 Tel.: 3681-1713

Tianastácia



Zona Cultural #5