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Bibliotecas do Agrupamento nº 1 de Santa Maria – Beja

SEMANA DA LEITURA 21 A 25 DE Março 2011

Tema: eco-leituras

Dia 21: A RAINHA DA FLORESTA Dia 22: SILVA E PINHEIRO Dia 23: QUEM SABE É O JARDINEIRO Dia 24: LIVRO FECHADO Dia 25: O PARDAL JÁ SABE LER

Agrupamento de Santa Maria - Semana da leitura 2011


A RAINHA DA FLORESTA António Torrado Era um lenhador. Passava o dia na floresta, a cortar árvores. Os filhos traziam-lhe o almoço que ele comia à pressa, para voltar, depois de uma breve sesta, ao seu trabalho. Era muito cansativa a vida dos lenhadores. Uma tarde, ia ele desferir a primeira machada numa grande árvore, quando ouviu conversar dentro do tronco. Estranhou. Espreitou. O tronco era oco e, lá dentro, dois velhos de longas barbas, um diante do outro, muito solenes jogavam às damas. - Não nos interrompas - disseram os velhos. O lenhador aguardou que tempos, entretido, ele também, a assistir ao desenrolar da partida, que nunca mais se decidia. A certa altura reparou que as barbas dos dois velhos tinham crescido imenso, enquanto eles jogavam. O lenhador, a medo, chamou-lhes a atenção para este estranho facto. Os velhos riram-se: - Passou-se mais tempo do que tu imaginas. De facto, a árvore estava maior e a floresta mais cerrada. Que teria acontecido? Sobressaltado, o lenhador voltou à aldeia, mas já não encontrou ninguém conhecido. A casa, a mulher e os filhos tinham desaparecido e ninguém se lembrava deles. O lenhador correu outra vez para a floresta e pediu aos dois velhos jogadores de damas que o acordassem daquele sonho mau. Aquilo não podia estar a acontecer-lhe. Era, certamente, um pesadelo. Os velhos concederam-lhe o que ele pedira, não sem antes o fazerem prometer que nunca abateria aquela grande árvore, no interior da qual eles jogavam um interminável jogo de damas. Quando o lenhador acordou, estava tudo como dantes. Afinal, sempre tinha sido um sonho. Mas, à cautela, o lenhador poupou a árvore, rainha da floresta.

FIM

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SILVA E PINHEIRO António Torrado O senhor Pinheiro é um emproado. Quando chega ao trabalho, não cumprimenta ninguém e vai logo enfiar-se no seu gabinete, como se fosse a única pessoa daquele escritório. Em contrapartida, o senhor Silva é um homem gentil, sempre de sorriso afável e muito amigo de ajudar. Lá no escritório, todos gostam dele. Estava eu a meditar nas diferenças do mundo e comportamento oposto dos meus dois colegas, quando me ocorreu esta história ou fábula entre um pinheiro e uma silva. Era a árvore mais imponente do lugar. De pescoço altivo, o pinheiro bravo não prestava atenção aos seus vizinhos de baixo, pinheiritos jovens e alguns arbustos, como a silva, a ensarilhar uma moita. Mas a silva, enervada com tanta prosápia, interpelou-o, como quem pede explicações: - Fale à gente. Somos todos cidadãos do reino vegetal, uns mais altos do que os outros, mas todos com raízes no mesmo chão. - Julgas tu - respondeu-lhe o pinheiro. - Eu pertenço mais ao céu do que à terra. Os meus ramos e a minha copa quase tocam as nuvens. Não tenho nada a ver com vocês, insignificantes e rasteiras plantas, a cobrirem-se de pó. No meio do seu emaranhado de picos, a silva mais se retorceu de indignação, mas não quis sustentar a disputa. Àquele pinheiro nada o convencia. Convenceu-o um lenhador, que por ali passou. Bateu no tronco possante e disse: - Está na conta. E começou à machadada ao pinheiro. A desmoronar-se sobre a terra, num grande gemido, o pinheiro formulou um último desejo: "Quem me dera ser silva...". Mas não lhe serviu de nada. Um dia destes, hei-de dar a ler esta história ao senhor Pinheiro. Talvez dela tire algum proveito, quem sabe? FIM

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QUEM SABE É O JARDINEIRO António Torrado

Era uma vez um rei que tinha, à roda do palácio, onde vivia, um enorme pomar muito bem tratado. Imensos jardineiros cuidavam desse pomar, que era a vaidade do rei. Árvores de fruto de todas as espécies, algumas vindas de terras distantes, transformavam, na Primavera, o pomar num jardim magnífico, onde sobressaíam o corde-rosa, o azul, o branco e o amarelo das flores, sobre o verde fresco das folhas. E, quando os frutos começavam a ganhar forma, o perfume que inundava o pomar quase entontecia. Estava, um dia, o rei a mostrar o pomar a uns primos, príncipes de reinos vizinhos, quando viu, caídos de um pessegueiro uns tantos frutos meio apodrecidos. Mandou logo chamar o chefe dos jardineiros e perguntou-lhe, muito irritado: - Explique-me este desleixo. Quem é o responsável? - Foram os pássaros, Majestade, que bicaram os frutos mais apetitosos - explicou o jardineiro. - Pássaros? - exclamou o rei. - Como se atrevem a entrar nos meus domínios e a bicar as minhas riquezas? - Os pássaros têm asas e não conhecem muros - respondeu o jardineiro. - Pois vou eu ensiná-los - indignou-se o rei. - Que podem os pássaros contra mim? E o rei foi para o palácio, onde ditou um decreto para ser espalhado pelo reino, em que mandava matar todos os pássaros, passarinhos e passarocos, sem escapar um. As ordens do rei tinham de se cumprir. Foi uma mortandade.

FIM

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LIVRO FECHADO António Torrado Era uma vez um livro. Um livro fechado. Tristemente fechado. Irremediavelmente fechado. Nunca ninguém o abrira, nem sequer para ler as primeiras linhas da primeira página das muitas que o livro tinha para oferecer. Quem o comprara trouxera-o para casa e, provavelmente insensível ao que o livro valia, ao que o livro continha, enfiara-o numa prateleira, ao lado de muitos outros. Ali estava. Ali ficou. Um dia, mais não podendo, queixou-se: - Ninguém me leu. Ninguém me liga. Ao lado, um colega disse: - Desconfio que, nesta estante, haverá muitos outros como tu. - É o teu caso? - perguntou, ansiosamente, o livro que nunca tinha sido aberto. - Por sinal, não - esclareceu o colega, um respeitável calhamaço. - Estou todo sublinhado. Fui lido e relido. Sou um livro de estudo. - Quem me dera essa sorte - disse outro livro ao lado, a entrar na conversa. - Por mim só me passaram os olhos, página sim, página não... Mas, enfim, já prestei para alguma coisa. - Eu também - falou, perto deles, um livrinho estreito. - Durante muito tempo, servi de calço a uma mesa que tinha um pé mais curto. - Isso não é trabalho para livro - estranhou o calhamaço. - À falta de outro... - conformou-se o livro estreitinho. Escutando os seus companheiros de estante, o livro que nunca fora aberto sentiu uma secreta inveja. Ao menos, tinham para contar, ao passo que ele... Suspirou. Não chegou ao fim do suspiro, porque duas mãos o foram buscar ao aperto da prateleira. As mãos pegaram nele e poisaram-no sobre os joelhos. - Tem bonecos esse livro? - perguntou a voz de uma menina, debruçada sobre o livro, ainda por abrir. - Se tem! Muitos bonecos, muitas histórias que eu vou ler-te - disse uma voz mais grave, a quem pertenciam as mãos que escolheram o livro da estante. Começou a folheá-lo e, enquanto lhe alisava as primeiras páginas, foi dizendo: - Este livro tem uma história. Comprei-o no dia em que tu nasceste. Guardei-o para ti, até hoje. É um livro muito especial. - Lê - exigiu a voz da menina. E o pai da menina leu. E o livro aberto deixou que o lessem, de ponta a ponta. Às vezes, vale a pena esperar.

FIM

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O PARDAL JÁ SABE LER António Torrado Quem fala sempre, do princípio ao fim, é o pardal Arisco, arisco de nome, mas atrevido como poucos: Andava eu na minha vida, a petiscar o almoço, quando vi, aberto no meio da relva, um livro de folhas amarelas, como se lhe tivesse dado o Outono antes de tempo. Não é fácil encontrar um livro no campo. Talvez seja por isso que eu não sei ler. Aqueles sinais gordos e finos, muito retorcidos, de que os livros estão cheios, a mim parecem-me minhocas, mas não enchem a barriga. Está visto que sou um pardal muito ignorante. No tal livro, havia minhocas ou...letras (acho que é assim que o Mocho Sábio lhes chama) e, de espaço a espaço, havia bonecos. Disso percebo eu. Basta ver. Que lindeza de bonecos! Vi, num deles, uma porca a ensinar os filhos a comer. Quase de certeza que lhes dizia: - Leitõezinhos, não comam com a boca toda. Não sejam glutões. Tomem cuidado e não sujem as patas. Não sejam porcos. Noutro desenho, via-se um dos leitões a escapar-se, talvez arreliado com as recomendações da mãe. Estava eu nisto de inventar a história, que as tais "minhocas" melhor saberiam contar que eu, quando se levantou, de repente, um ventinho endiabrado, que me roubou as folhas do livro. Folhas de Outono, não havia dúvida... Mal presas, voaram não sei para onde. Lá se ia a história. Que pena! Onde voltaria eu a arranjar outro livro, que me treinasse na leitura? Já me tinha esquecido do livro de folhas amarelas quando ouvi, não de muito longe, uns grunhidos de aflição. Quem grunhe é o porco, quando está bem ou mal disposto, mas aqueles grunhidos eram pedidos de socorro. Alto lá! Aproximei-me, num voo baixo, e que vi eu? Vi um porquinho, igual ao dos desenhos, com a cabeçorra entalada entre as duas traves da cerca, que dá a volta à quinta. Devia ter querido fugir, mas, naturalmente, não fez contas ao seu tamanho e agora via-se naquela ridícula situação. Pobre leitão entalado, metade em liberdade, metade preso... E era tal e qual o leitão dos desenhos, que eu tinha visto no livro. Dei um pulo de satisfação. Ali estava o fim da história, que o vento me roubara. O leitão, que fugira da pocilga, transformara-se num leitão prisioneiro. Dele já se aproximavam vários moços da quinta, com serrotes e serras. Um deles trazia um machado. Tive uma suspeita tola: iriam cortar o bicho ao meio? Pobrezinho... O leitão grunhia como se o serrassem, mas os moços afinal não tinham más intenções. Quando o libertaram da entaladela, lá foi ele a correr, mas, desta vez, a caminho da mãe. Vejam como uma história, começada num livro, termina numa quinta de verdade. Às vezes, deve ser ao contrário - começam as histórias na vida de verdade e continuam, depois, a viver nos livros... Para um pardal pouco dado a letras não está mal a conclusão. FIM

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