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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RECÔNCAVO DA BAHIA CURSO DE ARTES VISUAIS – 09/10/2012 FOTOGRAFIA II DOCENTE: ROBERTO DUARTE DISCENTE: ZIMALDO BAPTISTA DE MELO – 2010.0408

A FOTOGRAFIA É ÍCONE, ÍNDICE OU SÍMBOLO? A fotografia, técnica de reprodução de imagens surgida nas primeiras décadas do século XIX, desde o princípio causou uma ruptura no campo das artes, Tendo sofrido duras críticas de alguns segmentos artísticos. Isso ocorreu, a princípio, por ter sido identificada pelas suas características técnicas, o que anulava qualquer intenção estética na fotografia. Por outro lado, o artista, que antes cumpria o papel de retratar o real através da mimese, papel esse que foi assumido pela fotografia, por sua característica de captar o real. Foi Walter Benjamin, em A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, que percebeu na fotografia sua característica de liberação da mão, o que deixava para a visão a função de produção de conteúdo simbólico. Com o avanço do aparelho fotográfico, cada vez mais são produzidas imagens que chegam até nós, que somos obrigados a interpreta-las. Com a introdução, a partir do final do século XIX, da linguística, ciência da linguagem verbal e dos estudos da semiótica, como “ciência geral de todas as linguagens”, aprofundou-se o estudo dos processos de comunicação, onde são utilizadas diversas formas de linguagens. É importante para entender as diferenças entre as duas disciplinas a compreensão das diferenças entre língua e linguagem, e entre as linguagens verbais e não-verbais. Língua se refere ao idioma utilizado por um grupo social para a comunicação. No entanto, é importante perceber que “o nosso estar-no-mundo, como indivíduos sociais que somos, é mediado por uma rede intricada e plural de linguagens, isto é, que nos comunicamos também através de leitura e/ou produção de formas, volumes, massas, interações de forças e movimentos” (SANTAELLA). Essa complexidade de linguagens que nos cercam nos constituem como “seres simbólicos, isto é, seres de linguagem”. Quanto as linguagens verbais e não-verbais, Lúcia Santaella esclarece: Existe uma linguagem verbal, linguagem de sons que veiculam conceitos e que se articulam no aparelho fonador, sons estes que, no Ocidente, receberam uma tradução visual alfabética (linguagem escrita), mas existe simultaneamente uma enorme


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variedade de outras linguagens que também se constituem em sistemas sociais e históricos de representação do mundo.

Desta forma podemos entender a semiótica como a ciência que investiga os “modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de significação e de sentido”. A vista da semiótica, a própria vida, por ser impregnada de códigos até em nível genético, é uma linguagem que é composta por dois elementos fundamentais, sendo eles a energia, que possibilita os processos dinâmicos, e a informação, “que comanda, controla, coordena, reproduz e, eventualmente, modifica e adapta o uso da energia”. A semiótica atua no universo do sentido, onde a mensagem é “uma forma significante que o destinatário humano terá que suprir de significado” (ECO, ??) em um processo de significação. Esse processo é ilustrado pelo triângulo de Ogden e Richards onde, em sua base, encontram-se o símbolo e o referente, ligados indiretamente, e ligados a estes, de forma direta, no vértice oposto, encontra-se a referência. Neste esquema, o símbolo, que é um signo qualquer no mudo, tem uma relação mediada com a coisa que indica. Essa mediação entre o símbolo e o referente se faz pela referência, que é a informação transmitida pelo símbolo. Essa relação entre símbolo e referente é, por tanto, “indireta e não natural, a relação que se estabelece entre símbolo e referência é imediata, recíproca e reversível” (ECO, ??). Segundo Eco, “dentro de uma perspectiva semiológica, o problema do referente não tem nenhuma pertinência. […] há símbolos que têm uma referência e não têm um referente; […] há símbolos diferentes com significado diferente que dizem respeito ao mesmo referente” (ECO. ??) Por tanto, quanto ao sentido assumido por um símbolo, Eco afirma: Em alguns sistemas semânticos, indica-se como denotação de um símbolo a classe das coisas reais que o emprego do símbolo abarca (“cão” denota a classe de todos os cães reais), e como conotação o conjunto das propriedades que devem ser atribuídas ao conceito indicado pelo símbolo (entender-se-ão como conotações de “cão” as propriedades zoológicas mediante as quais a ciência distingue o cão de outros mamíferos de quatro patas). Nesse sentido, a denotação identifica-se com a extensionalidade e a conotação com a intencionalidade do conceito.

Sendo a natureza do signo o objeto de estudo da semiótica, o filósofo americano Charles Sanders Pierce (principal teórico da semiótica ao lado do filósofo francês Ferdinand de Saussure e dos teóricos de matriz soviética) propõe uma classificação dos signos estabelecida através de tricotomias, ou tríades, partindo de relações que se apresentam no próprio signo. As mais conhecidas dessas tríades são as que tratam das relações do signo com sigo mesmo, a relação do signo com seu objeto dinâmico e a relação do signo com seu interpretante, sendo que o signo ser uma mera qualidade, um existente ou uma lei. Quando o signo surge como mera qualidade ele á classificado como quali-signo e “é a qualidade apenas que funciona como signo, e assim o faz

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porque se dirige para alguém e produzirá na mente desse alguém alguma coisa como um sentimento vago e indivisível” (SANTAELLA, ??). Como qualidades não representam nada, não podem funcionar como signo e são, portanto, um “quali-signo” e só pode ser um ícone, a prioridade do signo. Já uma “coisa que se apresente diante de você como um existente singular, material, aqui e agora, é um ‘sin-signo’. Isto porque qualquer existente concreto e real é infinitamente determinado como parte do universo a que pertence”. Portanto, tudo que existe no mundo sensível é um índice ou pode funcionar como índice, bastando que para tal a constatação “da relação com o objeto de que o índice é parte e com o qual está existencialmente conectado” na secundidade do signo. No entanto, este signo só funcionará como tal quando há uma mente interpretadora que define o seu sentido. A terceiridade do signo se apresenta quando “em si mesmo, o signo é de lei (legi-signo). Sendo uma lei, em relação ao seu objeto o signo é um símbolo […] extrai seu poder de representação porque é portador de uma lei que, por convenção ou pacto coletivo, determina que aquele signo signo representa o seu objeto” (SANTAELLA, ??). A FOTOGRAFIA COMO ÍCONE, ÍNDICE E SÍMBOLO

Por tratar-se de imagem técnica, obtida através da utilização de diversas ciências como a ótica, a mecânica, a química, a eletrônica, etc., a fotografia capta o real presumidamente sem a interferência da mão do homem. Destarte, “a sua realidade primeira é uma afirmação de existência. A fotografia é, primeiramente índice. Somente depois pode torna-se semelhante (ícone) e adquirir sentido (símbolo)” (DUBOIS, 1991, p. 47). Como ícone, a fotografia é uma reprodução mimética do mundo, é um espelho do real. Como índice, a fotografia indica o referente, mas não há a necessidade da mimése. Já como símbolo, a fotografia é “uma interpretação, uma transformação, sofre uma formalização arbitrária, de cariz cultural e ideológico. A fotografia é aqui um conjunto de códigos, possui uma realidade interna”. Tomando como exemplo um auto-retrato, que se não trouxer em sim traços que indiquem a autoria, como os hoje tão comuns auto-retratos veiculados nas redes sociais onde o autor claramente segura a câmara fotográfica, não se pode saber que se trata de uma fotografia que o autor fez de si mesmo, de onde se extrai um detalhe que impossibilite a identificação do autor (Fig. 01) como o detalhe do olho, que mantêm uma relação com o objeto e denota visão humana, mas que se estende a visão de qualquer um. Este é um signo de primeiridade, pois apresenta apenas qualidades de um olho humano que olha para o lado, que é rapidamente lido pela percepção mas não ganha um significado em si.

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Por outro lado, a fotografia em si (Fig. 02) já é índice que indica o próprio autor, apesar de haver quem não o conheça. É, por tanto, um signo de secundidade, pois é inseparável da sua experiência referêncial. Segundo Santaella: Certamente, onde quer que haja um fenômeno, há uma qualidade, isto é, sua primeiridade. Mas a qualidade é apenas Au parte do fenômeno, visto que, para existir, a qualidade tem de estar encamada numa matéria. A factualidade do existir (fecundidade) está nessa corporificação material. (SANTAELLA, ??)

O auto-retrato é uma índice de um existente singular, que é uma outra coisa com o qual ele esta ligado no momento e nele, apesar de carregado de diversos ícones, o que se sobressai é o “seu caráter físico-existencial, apontando para uma outra coisa (seu objeto) de que ele faz parte”. (SANTAELLA, ??). Não é possível para o interpretaste ir além da relação física entre existentes. No entanto, é possível com o recurso da edição digital efetuar uma ligeira alteração na imagem, alterando seu corte e algumas tonalidades de cor, alterar o significado da imagem (Fig. 03) de tal forma que, para aqueles que dominem o código criado, ela passe a conotar perversão, sadismo, humor negro, maldade, pois a poética adotada busca como referente o personagem de quadrinhos Curinga na estória A piada mortal, de Alan Moore e Brian Bolland (Fig. 04). Desta forma, cria-se uma regra para a leitura do signo, que em sua terceiridade, torna-se símbolo. Como tal, a sua compreensão está associada ao código adotado pelo receptor, pois ele “extrai seu poder de representação porque é portador de uma lei que, por convenção ou pacto coletivo, determina que aquele signo represente seu objeto”. Neste caso a fotografia é um conjunto de códigos, possuí uma realidade interna, por tanto, um símbolo.

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ANEXOS

Figura 01

Figura 02

Figura 03

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