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CIDADES

MISTERIOSO E ATREVIDO

Ladrão-chaveiro 'visita' casa por casa em Paraíso Polícia já prendeu um suspeito por três vezes, mas por falta de provas teve que soltá-lo. Moradores afirmam que PM está fazendo o possível, mas que características geográficas da cidade têm impossibilitado prisão em flagrante

Vinícius Ferreira

PARAÍSO - Uma série de crimes ousados tem tirado o sono de moradores do Bairro São Fran cisco, o antigo MinasCaixa, em Santana do Paraíso. Moradores afirmam que, desde agosto do a no p a s s a d o, a s c a s a s d o b a irro têm sido alvos de um ou mais assaltantes especializados em arrombar fechaduras sem fazer barulho. Os crimes sempre s e g ue m o m e s m o p a d r ã o, e ult i mamente o ladrão tem preferido entrar quando o morador está acordado dentro de casa.

FOTOS: LAIRTO MARTINS

REPÓRTER

COMERCIANTE PERDEU A CONTA DE INVASÕES EM SEU SUPERMERCADO

A

polícia já prendeu um suspeito por três vezes, mas não havia provas suficientes para mantê-lo atrás das grades. Os moradores entendem a dificuldade de prender o meliante (ou meliantes) em flagrante, devido às proporções da cidade. Mas, ultimamente, a preocupação tem se tornado outra: vizinhos estão se armando de foices, facas, facões e armas de fogo para fazer justiça com as próprias mãos. O psicólogo e professor Amâncio Borges morou em Ipatinga durante muito tempo, e há onze anos decidiu se mudar para o Paraíso a fim de encontrar paz com sua esposa e seus dois filhos. Mas não é isto que ele tem vivido nos últimos tempos. "A situação está tão fora do controle que os moradores estão ficando acordados o máximo que conseguem. Aqui na minha casa, eu e minha esposa revezamos no mês passado. Cada um dormia uma noite. Mas estávamos de férias, agora não tem mais como. Fico acordado até quando der, e durmo pedindo a Deus que nada de mau aconteça", declarou o morador. O "ladrão-chaveiro", como é conhecido no bairro, já tentou invadir sua residência por três vezes. O amigo do alheio costuma carregar uma mochila com seus equipamentos de 'trabalho', pé-de-cabra e chaves-de-fenda. A primeira tentativa de invasão foi em dezembro de 2010. A casa de Amâncio tem duas portas, uma que dá para a sala e outra, mais nos fundos, da cozinha. Foi pela porta de trás que o assaltante tentou invadir na primeira vez. "Ele quebrou a fechadura e foi puxando a lingüeta devagar. Foi assim que ele entrou. Perguntei para o chaveiro que chamei para consertar como é possível quebrar a fechadura com tanta facilidade e sem fazer barulho. Ele explicou como era, que era só fazer força no lugar certo. O ladrão deve ter conhecimento disto, deve já ter trabalhado como chaveiro", conclui. Na ocasião, a família de Amâncio não estava em casa, e felizmente - para os moradores - o ladrão não encontrou nada de valor para levar. Depois desta invasão, o psicólogo decidiu soldar uma trava na parte interna da porta e colocar cadeados. Foi isto que salvou a casa na segunda e na terceira tentativas de furto, que foi na última terça-feira (22). "O cadeado está dificultando um pouco. O problema é que, quando a gente sai, não dá para fechar todas as portas por dentro com cadeado. E outra, ele tá arrebentando os cadeados também", disse Amâncio. Quando a reportagem esteve na casa de Amâncio, ele comunicou aos outros vizinhos que, com medo, preferiram não dar declarações.

MORADORES DO Bairro São Francisco, antigo MinasCaixa, estão assustados com a ousadia do assaltante, que já invadiu mais de 50% das casas do núcleo habitacional, segundo Amâncio

O "LADRÃO-CHAVEIRO" arrebenta as fechaduras usando chaves de fenda e pé-de-cabra. A solução encontrada por moradores foi soldar travas para cadeado nas portas

Marcelo Anício é dono de um supermercado no Bairro São Francisco. Ele afirma que não sabe contar o número de vezes que seu estabelecimento já foi invadido por ladrões. "Todas as janelas e portas já foram quebradas e arrombadas. Só a porta da frente que não, porque daria muito na cara. Mas já invadiram por todas as outras entradas. São dezenas de invasões", disse o comerciante. O empresário não associa as invasões em seu supermercado ao ladrão-chaveiro, mas a outro mal que tem tomado conta da cidade: drogas. "São sempre as mesmas pessoas que furtam. A polícia sabe quem é, mas não tem como prender todo mundo. O principal motivo são as drogas. Eles têm que roubar para manter o vício. Só diminuiu o número de furtos aqui porque arrumei um bom cachorro e coloquei para fazer a guarda. Esta semana mesmo ele machucou um rapaz", afirmou o empresário. Ele afirma que não adianta apenas prender. Ele vê que, na grande maioria, os ladrões são menores de idade viciados. "Eles precisam de um tratamento, e não de cadeia. São garotas adolescentes que viram 'aviãozinho' de traficante, meninas de 12, 15 anos viciadas em crack. Perto daqui tem um centro de reabilitação para viciados. Estas crianças têm uma possibilidade de futuro. A prefeitura deveria incentivar mais estes centros de tratamento para que possam cuidar das nossas crianças", opinou Marcelo.

CRIMES DESDE AGOSTO E BILHETE OUSADO O psicólogo e professor Amâncio Borges explica que a onda de crimes começou em agosto do ano passado. "Creio que, no começo, era apenas um, e acho que ele fazia pela aventura. Ele entrava na casa quando os moradores não estavam lá. Arrombava a fechadura. Em uma das primeiras casas, ele deixou um bilhete: 'Obrigado pela torta', depois de comer um pedaço da torta da senhora", relembrou o psicólogo. Aousadia do bandido só foi aumentando. "Depois de um tempo, ele passou a invadir a casa com a pessoa dormindo. O que foi deixando as pessoas apavoradas. Tem o medo de chegar em casa e ter alguém lá dentro, e também o de estar em casa e alguém invadir", explicou. No final do ano, Amâncio conta que o número de vizinhos que afirmaram ter a casa 'visitada' pelo ladrão-chaveiro aumentou. O bairro se chama São Francisco por causa da igreja, mas nem a igreja ele per-

doou. "Na escola do bairro (Escola Estadual Salvelino Fernandes Madeira) ele já entrou 12 vezes. Levou a TV, depois o aparelho de som, depois material didático e até carne ele já roubou. E nem a igreja ele perdoou. Ela já foi invadida umas quatro vezes. Estamos começando a achar que ele fez um mapa com as casas do bairro e segue um padrão, porque ele começou a invadir a mesma casa repetidas vezes, no mesmo dia da semana. Aqui em casa ele veio nas duas últimas terças. Alguns vizinhos já até comentam: 'Hoje é dia dele tentar entrar aqui'", revelou o psicólogo.

os crimes. "Ficamos apavorados quando começaram a entrar nas casas com a pessoa dentro. Sempre tivemos um suspeito. A polícia já chegou a prendê-lo três vezes, mas o máximo que ele ficou lá foi por 45 dias. Mas, recentemente, um vizinho viu que estavam tentando arrombar sua casa e acendeu as luzes, e viu que o ladrão era outro, usando o mesmo método. Outro vizinho afirma ter visto uma terceira pessoa, com características diferentes das duas primeiras. Então creio que estão usando a fama dele para tentar deixar a população com mais medo ainda", raciocina Amâncio.

MAIS SUSPEITOS Com o aumento do número de arrombamentos, cerca de quatro por semana, de acordo com Amâncio, os moradores começaram a suspeitar que outras pessoas estão querendo usar a 'fama' adquirida pelo ladrão-chaveiro e estão imitando

MORADORES SE ARMAM Amâncio procurou a reportagem para mostrar a situação de sua comunidade, e para tentar chamar a atenção para o caso antes que aconteça uma tragédia. Ele acredita que mais da metade das casas da cidade já foram invadidas, e

que a coisa pode ficar feia caso um dos moradores consiga pegar o ladrão invadindo sua casa. "Um senhor estava dormindo, o ladrão-chaveiro entrou e tirou a carteira do lado da cama dele. O senhor dormia com uma foice debaixo do travesseiro. Quando viu que a carteira não estava mais lá, saiu correndo para tentar achar ele, com a foice na mão. Se tivesse pegado eu não sei o que teria acontecido. E mais pessoas estão se armando, para se protegerem. Não estamos criticando o trabalho da Polícia, porque nas vezes que eles estiveram atendendo ao bairro fizeram um trabalho excelente. Mas é realmente complicado. A cidade de Santana do Paraíso é muito extensa, e o posto da PM fica longe do nosso bairro. É complicado pegar o cara em flagrante. Mas estamos com medo de algo acontecer, e até de um morador ferir este ladrão e acabar se tornando um criminoso também", afirmou o psicólogo.

Ladrão chaveiro visita casa por casa no Paraíso  

Matéria veiculada no Jornal Vale do Aço, no dia 27 de fevereiro de 2011.

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