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Quando arruela Ivana Almeida

0.cm


Capa e projeto gráfico: 0.cm ________________________________________ Almeida, Ivana Ivana Almeida/ Quando Arruela - Belo Horizonte, MG: ________________________________________

inverno / 2013

0.cm • editora de música e literatura zerocentimetro@gmail.com


Delicadeza Uma mente agitada faz um travesseiro inquieto, pensando no amor: corpos e palavras. E cada segundo de lucidez é quente. No fundo sabendo que o outro lado da ansiedade é a liberdade, simples assim, decidiram namorar, que outro nome poderia ter aquele encontro que se estendia por vários outros? O de dentro e o de fora, pensava enquanto observava seu corpo, suas articulações, o desenho do pé, das unhas. Observava minuciosamente, de ângulos diferentes, sempre de forma furtiva e deliciosa. Guardava esses tesouros invisíveis e de quando em quando perguntava-se se era isso mesmo. Se era assim que acontecia. O de dentro e o de fora. Ouvia as palavras, ouvia seu corpo, comia tudo, insaciável que estava dele. Queria se iluminar, e sorver.


Morada Em uma noite destas, estava quase vazia, e para vencer a tristeza e regularizar a circulação sanguínea, olho para ele com um cigarro entre os dedos e penso que não sei com certeza o que é que me dói. Tenho instrução suficiente para não ser religiosamente crente. ‘Isso os senhores provavelmente não compreendem.’ Ele estava tão profundamente entranhado em minha consciência que, antes que ele tivesse tempo de se transformar, e eu conseguisse me livrar dessas ilusões, nos acarinhamos. Cada um é infeliz à sua maneira. Deixei crescer as unhas, e em pensamento, nas noites espiando o céu estrelado, cravava-as nas suas costas até arrancar sangue. A fome é urgente – e a boca pediu carne e os dentes obedeceram. Uma tortura seria interessante se eu a explorasse com critério. — Me preocupei com problemas do espírito. Acordou de sonhos intranquilos, com as maçãs desamparadas diante dos seus olhos. Ele acabou recitando-me versos e me fazendo poesia. Fechei os olhos duas ou quatro vezes, e ouvi, você é que nem eu, fala coisas malucas dormindo.


Um caminho para o minimalismo Costumava catar arruelas enferrujadas nas ruas, enchia os bolsos, a bolsa, a mochila. Andava olhando para o chão, sempre procurando. Sempre. Era lindo o encanto que as cores lhe causavam assim como a forma circular. A necessidade de acumular e juntar coisas e tê-las pela beleza que esses objetos lhe causavam, foi dando espaço a uma vontade do mínimo. Indo de uma ponta a outra, do acúmulo à limpidez. E é onde pouso, arrumando objetos, desfazendo de papéis, pesos, vidas, bolos, ciscos, já imaginando como serei quando minimal.


Do sorriso e da elegância Porque a música é detalhe, sua própria existência e personalidade. Vi pouco, era pra ter visto mais. A vontade do bem estar está associado a uma ideia de encontros e comunhão – que se passa numa fração de segundo. Transforma sem dó os conflitos internos, indo além das fronteiras do ego - agora ancorados nos vastos enigmas do corpo e da alma. A fonte dessa experiência são reflexos externos, fazendo com que a beleza se manifeste no mundo. Como é que um gesto ou uma palavra ou um som, um timbre… podem nos transportar para um sentimento grandioso que nos pareceria eterno? Foi como ver um o guerreiro desperto que trabalha pela iluminação de todos os seres – do espaço claro ao profundo escuro, com um foco de luz, quase cinema - um caminho espiritual em si mesmo. Ele tocou as coisas sem muito esforço, valendo-se mais do sorriso e da elegância, num êxtase, interminável, atemporal. Parecia tão fácil, tão simples. Sabedoria da igualdade, do espelho, caminhando junto, perto. Entender os outros no mundo deles e não a partir do nosso, com uma incrível capacidade de falar no dentro das pessoas.


Leve Arrumou suas coisas na bolsa, pensando em como ter menos e ser mais simples. Deve ser leve precisar de menos objetos, e, principalmente, menos objetos na bolsa. Faz um caminho para ter pouco, cada vez menos. Qualquer felicidade excessivamente buscada fora de nós é absolutamente temporária, pensa naquela frase que acabou de ler. Ter muitas coisas devia ter um motivo. Só que não conseguia descobrir se era uma forma de romper o isolamento, de se sentir um pouco menos solitária. Ahn, mas entender o motivo ajudaria a ficar mais leve e a escolher alguns motivos que expliquem suas ações. Ignorar não estava adiantando. Mas agora que resolveu ela iria em cada detalhe de si mesma para isso. Ela sentiu um impulso maior no que diz aos seus assuntos pessoais. Se sentir leve. Como essa bolsa pesa, pensou. Preciso de bolsas menores, preciso precisar menos. O acúmulo é cansativo, e eu já estou cheia de andar capengando.


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Quando Arruela  

Ivana Almeida

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