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Guilherme Tauil

Sobreviventes do ver茫o cr么nicas


Em casa, longe de casa

Há qualquer coisa de jeca em ser caipira na cidade grande. Olho para toda camionete prata que passa na esperança de ver minha mãe, a mais de cem quilômetros daqui. Aos poucos, o interiorano vai perdendo sua inocência, tão contrastante com a megalomania de São Paulo. Eu me lembro de uma senhorinha que foi alvo de maldosas piadas depois de fazer sinal para o metrô parar. Sensibilizado, avisei a ela que os trens param automaticamente em cada estação. “É que esse eu não podia perder de jeito nenhum, meu filho”, justificou-se. Não poderia dizer que ela era de Taubaté – não somos tão caricatos assim –, mas senti uma certa emoção compartilhada do interior, algo que nos move buscando outros rumos, guiando nosso olhar para detalhes ignorados pelos metropolitanos. Não há nessa condição nenhuma garantia de vantagem, porém: pode-se ser taubateano para pior. Minha relação com Taubaté nunca mais foi a mesma desde que de lá saí, em 2011. É natural a todos os divorciados. De longe, acompanho as notícias, um pouco por ciúmes, um pouco para preparar o coração, porque toda vez que volto e vejo que mudaram o sentido de uma aveni-

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da, me sinto traído. Já nem perguntam minha opinião. Sou um filho emancipado, devidamente substituído. No começo me chateava, voltava com maior frequência para tentar reconquistar algum espaço, e era desconfortante como evitar contato com quem acaba de desfazer a relação. Eu estava ali, Taubaté estava ali, mas nos olhávamos com reservada desconfiança. Com o tempo, passei a dar oi com a cabeça, depois a acenar, a sorrir e até a apertar a mão de seu novo namorado. Foi aí que compreendi minha nova posição na cidade e passei a desfrutá-la de bom grado, pois há muita coisa que só se revela para quem está à margem. Eu tinha virado visita, e visita não lava louça. Assim, livre de certa obrigação cívica, bater perna pelo centro passou a me render boas histórias, análises e lembranças. Inventava de parar na loja de brinquedos, por exemplo, só para ver como andavam os herdeiros da dona Alice, que meu pai sempre cumprimentava quando íamos à feira, sábado pela manhã. Perguntava por algum carrinho de controle remoto, e, enquanto o funcionário me mostrava as novidades, reconhecia no balconista os traços da matriarca. Não sei o nome de seus parentes, eles não fazem ideia de quem sou, mas há essa complacência, um sentimento bom de que as coisas permanecem. E nesse sentido faço o meu percurso, recolhendo pela cidade páginas da memória. Disso sinto falta em São Paulo, que não vê com bons olhos quem caminha à toa. A metrópole acelera o passo dos vagarosos, induzindo a harmonia dos ritmos. Os paulistanos têm um sotaque forte nos pés. Só nas galerias congestionadas do metrô é que vão devagar, conquistando aos poucos o espaço que lhes é cedido por quem vai à frente. A aglomeração assusta, mas fascina. Nos horários de

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pico, ao mesmo tempo em que sofro repulsa por deixar o corpo à deriva dos outros, arrastado de estação em estação, chego a me emocionar observando a ordem contida do conjunto. É uma boiada rumo ao matadouro. Mas os bois são animais sem ambição, e portanto nada têm a ver com esse povo – que, mesmo amuado, carrega em frente todos os seus anseios. E em cada particularidade afogada, a força discreta da multidão. Quantas ideias revolucionárias estarão alinhadas em silêncio? Quantos projetos, quantas saudades incuráveis? Certamente há segredos ocultos inestimáveis. E há a pressa contida para chegar ao banheiro, a ansiedade para ser recebido pelo cachorro, a preocupação com o atraso no aluguel, a sugestão de roteiro para a novela, a indignação com o transporte público, a jura de morte, a certeza da traição, o arrependimento da traição, a estratégia infalível para a seleção brasileira e uma saudade danada da terrinha.

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Sobreviventes do verão  

Primeira crônica do livro de estreia de Guilherme Tauil, "Sobreviventes do verão", publicado pela editora Zepelim. Loja virtual: www.zepeli...

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