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EDITORIAL

QUER FAZER


edição: bruno azevêdo celso borges reuben da cunha rocha

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o coração é uma granada sem trava breve antologia afetiva de poetas norte-americanos tradução: reuben da cunha rocha

Kenneth Rexroth

ENTRE MIM MESMO E A MORTE p/ a música de Jimmy Blanton: SOPHISTICATED LADY, BODY AND SOUL O ardor vem e te resseca às vezes, Você se curva sobre ele, quieta, Cruel e tímida; às vezes Você se assusta com a devassidão E me oferece apenas desespero. Às vezes enroscados nas cobertas, Protegendo nosso tédio, fingindo Que nossos curativos são as feridas. Mas a roda da mudança para às vezes; A ilusão desaparece em paz; E aí a altivez te ilumina a carne – Diamante lúcido, sábio como pérola – Teu rosto vago, absoluto, Definitivo como o de um animal. É um barato observar você Mulher vivente num quarto Cheio de gente careta, estéril, E pensar no arco das tuas ancas Sob a seda do teu vestido de noite, No fogo derramado lindamente Do teu sexo, queimando carne e ossos, No tecido incrível e complexo Do teu cérebro vivo Debaixo da bagunça esplêndida do teu cabelo.

Gosto de pensar em você nua. De por teu corpo nu Entre mim mesmo e a morte. Se imerso no meu cérebro Ateio fogo ao bico doce dos teus peitos, E aos tendões dos teus joelhos, Posso ver muito além de mim. É bem vazio onde minha vista alcança, Mas pelo menos é iluminado. Conheço o brilho dos teus ombros, O modo de teu rosto entrar em transe, Teus olhos como os de um sonâmbulo, Teus lábios de mulher cruel Consigo mesma. Gosto de Pensar em você vestida, teu corpo Fechado para o mundo, auto-contido, Sua adorável arrogância Que faz com que te invejem as mulheres. Posso lembrar de todos os vestidos, Mais altivos que uma freira nua. Eu vou dormir e meus olhos Fecham numa trama da memória. A nuvem dos seus cheiros íntimos É que sonha em meu lugar.


Gregory Corso UM DIA Um Dia Peter-Pando pelo Céu eu vi um homem, um moribundo sobre o Golfo do Leste, e eu disse a esse homem: – A mesma luz que nos faz diabos de asas fez das nossas feridas um intervalo de nuvens, rasteiro e lento, calmo e triste, no céu, esta masmorra de coisas. – E ele respondeu: – Que céu horrível! O céu desescurece! Hermes, o pés-alados, está de férias na China! Descansa em paz enquanto pés de nuvem dão seus frutos e as ventofolhas caem! enquanto agarro com minhas mãos cansadas a saia violenta da noite! Enquanto o musgo dos meus pés enruga os trapiches do dia! – Deixei o moribundo, e que pra sempre morra, que a Solidão rejeita qualquer mão que afague sua grande cara triste. CÉU DE CAMBRIDGE Olho pra cima e milhares de recém-nascidos pingam da vela dos meus olhos; filhos e filhas de cera derretida sangrados do útero dos meus olhos. Ah esta é a mais lenta hora nuvens nas nuvens como flores da demora até que todas viram uma só e eu fico cego. A última coisa que enxergo é um pássaro desassustado de cantar e ainda verei no céu sua última vitória antes que o vento vença o voo.

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Thurston Moore

PEQUENAS FLORES QUEBRAM O CONCRETO Pequenas flores quebram o concreto agentes de narcóticos revistam covis de poetas arrotam café agarram adolescentes fugitivas pelo cabelo embaraçado e as encoxam no banco de trás dos camburões espancam bardos de barba oráculos de óculos trocando sexo & tantra por total violência espelhos pingam luzes no olho da cidade hippies borrados c/ marmita + maconha roteiros de merda e mistério e porra nenhuma abençoados pelas cores de um chapéu preto azuis atravessam eras atrás do coração de d.a. levy e do que + ele deixou p/ trás poemas de morte aos deuses vivos da américa saxofones de plástico ñ sabem sangrar fardados furiosos arrombando portas seduzidos por fumaça dos subúrbios em guerra contra o brilho sujo dos remendos coloridos a foda dos jeans e os protestos

RIMAS LIVRES DA CIDADE fantasmas dão um tempo numa travessa vazia o calor se apressa luzes pedem passagem soundscapes sopram no olho azul da cidade relâmpago preto primeiro voo do anjo linha livre pro céu mais acima chove uma chuva sagrada chamas acendem fantasmas elevadores perseguem luzes intuição rimas livres da cidade


Allen Ginsberg

À ORELHA DE CREELEY

Todo o peso de tudo é muito coração sutil batendo no vagão cabeça fuma fica tonta e dói embarca pra ver Karmapa Buda hoje à noite

ESCRITO NO MEU SONHO POR W. C. WILLIAMS – Já que você carrega uma conhecida verdade Mais

e atire ao populacho Confie no seu próprio taco

conhecida como Desejo

Escute você mesmo

Pra quê vesti-la

Fale com você mesmo

de adornos ou torcê-la

e outros o farão

até ficar sob medida

felizes, aliviados

pra ser entendida? Pegue seu nariz olhos orelhas língua sexo e cérebro

deste fardo – seu próprio pensar e pesar. O que era Desejo terá ainda mais brilho.

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o incêndio Guaracy Jr.

A fumaça foi se espalhando e dizendo: – É fogo. O fogo foi dizendo: – Queimo. A queimadura nas costas do seu Abelardo gritou: – Ai!!! O Ai!!! Correu. Mas correu mesmo. – Sai, sai, sai da frente! - disseram a corrida e o desespero, um empurrando o outro pela sala do seu Abelardo. O desespero ia tossindo seco entre a fumaça volumosa que explicava. – Sou o resultado da combustão de uma cortina misturada com carpete velho e o corpo de uma barata mofada. O fogo ouviu, mas foi avançando e o avançar do fogo dizia. – Pode crê. Mas não dava para crer que tudo começara com um cigarro aceso entrando por uma janela aberta. A janela dissera para o cigarro. – O que você quer? – Quero me apagar – A resposta do cigarro suicida foi tão infeliz quanto a pergunta inócua. A bagana não conseguiu evitar que a mobília da sala

do seu Abelardo entrasse na festa que o fogo decidiu promover em homenagem a si próprio, pois o fogo é assim, só pensa nele, no crescimento dele, na beleza dele. O fogo disse. – Quem me trouxe aqui foi o vento. Pois sim, botar a culpa no vento que entra pela janela aberta. Era só o que faltava - disse o piso de lajota morno de preocupação com a janela, coitada, que sofreu horrores na hora que o pânico resolveu se jogar do prédio. Foi tão triste, ele decidiu mesmo se jogar. – Meu Deus do céu, não faça isso, os bombeiros vão chegar, gritou a janela. O pânico pulou como um cigarro aceso de angústia. Vi o corpo cair direto sobre a calçada que aparou seu Abelardo do jeito que pode, pegando primeiro a cabeça de ralos cabelos grisalhos, depois os ombros largos onde estavam atrelados braços peludos, depois o corpo pesado e cheio de órgãos que veio em seguida, depois as pernas morenas em calças compridas e foi arrumando tudo cuidadosamente sobre o lençol úmido do baque de som morno costurado a mão com fios de concreto armado que se ouviu. O sangue do velho corretor aposentado, então, correu livremente até se dar conta de que algo muito sério estava acontecendo. O líquido, com sua elegância, parou e viu o incêndio. – Nossa Senhora!! E o fogo não estava nem aí pro Seu Abelardo. Ficou fazendo a festa pelos corredores do décimo andar, onde também morava uma velhinha que acordou em sua cama, viu a fumaça, tentou gritar, tossiu e dormiu de novo, para sempre, um sono agitadíssimo no começo, mas que depois foi acalmando, acalmando até parar e pronto, ela está dormindo, vamos embora ver outra pessoa que está descendo as escadas, encontrando gente pelo caminho, gente que está descendo aos empurrões. Alguém caiu nos degraus, foi pisoteada e ela gritou.


– Ai, minha mão!! E a mão dela ficou vermelha, inchou e ainda estava doendo quando chegou sã e salva ao térreo, local para onde muita gente já tinha escapado do incêndio e agora estava olhando para cima e vendo o prédio sendo tomado pelo fogo que, dando uma de decorador, havia mudado as cortinas azuis e verdes das janelas dos apartamentos do décimo andar para cortinas de cor escaldante, que labaredavam para fora das janelas abertas. – Onde estão os bombeiros? Onde estão os bombeiros? Perguntavam todos na rua e a pergunta telefonou para o Corpo de Bombeiros e ele atendeu e disse. – Já saí, estou quase chegando, faltam duas curvas, uma, agora mais um sinal, cinco freadas, quatro, três, a sirene está ligada, vocês ainda não conseguem ouvi-la? E o fogo ouviu a sirene e disse. – Lá vem ele de novo, o Corpo de Bombeiro acabar com a minha festa. E a festa estava bombando, estava atingindo o décimo primeiro andar onde tinha uma criança no berço que um anjo pegou e levou para o colo do pai que desceu correndo a escada com o anjo atrás segurando uma máscara de oxigênio invisível no rosto da criança e a criança chegou chorando na portaria, mas tudo bem, ela está bem e o anjo sumiu depois disso. Não, lá está ele na parada de ônibus, cuidando de um homem que está olhando o incêndio, mas não sabe que está muito doente e que precisa de um anjo do lado dele. Um vento que batia na hora nos cabelos desse homem espalhava a sirene do Corpo de Bombeiro para todos os lados. O fogo ouviu e ouviu e ouviu a sirene e pensou “Chegaram os chatos”. E o Corpo de Bombeiro lançou suas jibóias cinzas estufadas de água e suas escadas metálicas subiram aos céus como holofotes e a água jorrou do carro pipa, mas logo acabou.

O fogo riu “a brasas soltas” e as pessoas botaram as mãos na cabeça. – Meu Deus, como pode!? O Corpo de Bombeiros não ficou ouvindo, correu atrás do rio mais próximo que ficava bem próximo mesmo. Tão perto que dava para ver a tragédia de um barco que passava enquanto o rio pensava “Vão precisar de mim”. O Corpo de Bombeiros botou uma bomba no rio e um exército de gotas barrentas e com cheiro de peixe uniu-se para acabar com a festa do fogo em jorros da compaixão, já era bem depois da novela. Antes da água do rio chegar na boca da mangueira mais que bem vinda, o fogo ainda teve tempo de atingir o décimo segundo andar onde morava uma menina que não estava em casa de forma que o “língua de brasa” ficou tão enfurecido que queimou tudo que viu pela frente com o dobro de força. E o rio jorrou para dentro do prédio, empurrou o fogo pra dentro da fumaça e a fumaça pra dentro das coisas inflamáveis que reclamaram. – Tem gosto de remédio. E por dois ou três dias ficou, no prédio, aquele cheiro de bocejo velho misturado com carvão. Depois saíram, no jornal, muitas notícias servindo cafezinho para quem lesse. Vinte dias depois já não tinha quase nada para noticiar exceto as causas do ocorrido e o fato de terem encontrado um gato morto no poço do elevador e só. Foi o que eu vi.

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intelectuais maranhenses 01 INTELECTUAIS MARANHENSES

Karl Marx

Nascido em Carutapera no início do século XIX, José de Ribamar Karl Marx (ou Ribamarx, como era conhecido nas mesas de bar e quermesses da cidade) mudou-se em tenra idade para a Prússia com a família. Seu pai queria que o filho tivesse uma vida melhor no velho mundo, que pudesse educar-se e seguir a tradição do clã como bancário. No início, a família abriu em Trier uma filial (a primeira) do Banco Carutaperense de Investimentos. As fundações do banco consistiam em captação de investimentos estrangeiros para as plantações de pequis do outro lado do Atlântico, na quente porém alegre Carutapera. O banco encontrou investidores e cresceu por todo o continente, gerando riquezas para a família e permitindo que o rapaz estudasse e não se preocupasse com as coisas práticas da vida. Neste período manteve intensa correspondência com a cidade natal. Nestas cartas, o jovem Riba logo notou que a relação trabalho/ dividendos dos plantadores de pequis da terra natal não era justa e que a cada centavo aplicado em pequis, um pequeno cidadão deixava de freqüentar a escola.

É famosa a missiva trocada com uma colega de infância, na qual a normalista diz que mais valia catar babaçus a plantar pequis naquela terra, tida como a inspiradora de um dos conceitos-chave do ribamarxismo. O banco veio à bancarrota quando descobriu-se que não havia um pezinho de pequi sequer em Carutapera e que todos os negócios do BCI eram baseados em capital especulativo. Não seria possível sacar pequis porque os pequis nunca existiram. Nesta época foi forçado a interromper a correspondência. Foi na crise que formulou alguns de seus estudos mais famosos e que conheceu José de Ribamar Engels, com quem formou a grande amizade e parceria intelectual que entraria para a história. A falência do banco não impediu que a família recolhesse todos os depósitos e fugisse para Lago da Pedra, onde niciam a bem sucedida Companhia Prussiana de Exportação de Farinhadas e Peixes-pedra. O jovem Marx, já sem o Ribamar que o denunciaria, foi enviado para a universidade e a família mudou seus nomes, vivendo no confortável refúgio do passado esquecido. O resto a gente sabe.


BAZAR BELLEporÉPOQUE Celso Borges

Uma ópera escroque

“éramos os leões, os chacais, os leopardos, os grandes heróis e não há lugar para nós no mundo moderno das pessoas menores da tecnologia e do capitalismo. Não há lugar para heróis” (O Leopardo – Lampedusa) em Era uma vez no Oeste, de Sérgio Leone

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INTELECTUAIS MARANHENSES

Sigmund Freud

13 Às margens do Itapicuru, aos seis dias de maio de 1857, poucos anos após a Balaiada, vinha ao mundo José de Ribamar Sigmund Freud. Filho de um soldado e de uma costureira, o jovem Ribinha intrigava-se ouvindo as conversas da mãe com as clientes, que faziam confissões e os mais íntimos relatos enquanto lhes cosiam as calçolas, vindo daí suas primeiras anotações e seu baque. Com o fruto dos saques e temendo a ira do Duque de Caxias, cuja senhora o soldado Freud encontrava às escondidas, a família muda-se para Freiberg, Viena e posteriormente para a Inglaterra, onde o jovem estudou e abriu um ateliê como o da mãe, com uma suave diferença: só vendia as conversas. Muitas senhoras tinham crises histéricas ao saber que não receberiam as suas confecções no prazo e quanto mais isto acontecia, mais Ribamar atrasava as entregas e mais analisava as clientes. Por complicações fonéticas e paranóia, retirou o pré-nome e Maranhão do currículo, queimando

suas anotações pessoais em 1885 e começando uma nova vida. Chamou a relação alfaiate/madames de psicanálise e passou a cotejar sua aplicação para outros tipos de relacionamentos. Mais tarde, usou de hipnose para conter os ataques histéricos e com isso formulou sua teoria divisora de águas, ao provar que o desejo por cambraias, linhos e peças de algodão era inconsciente e que por trás deste desejo havia uma série de funções da mente, que ele passou a catalogar. Com a morte do pai, passa a dedicar-se à análise dos próprios sonhos, que o remetem à sua infãncia e ao Itapicuru e à mulher do duque de Caxias. Ao recobrar os fatos, questiona-se porque abriu um ateliê e não engajou-se na resistencia ao nazismo, concluindo ser fruto da atração pela mãe e rivalidade com com pai (que ao preferir a mulher do duque à sua própria esposa, mostrava claros sinais de disturbios mentais, ou ao menos de um vergonhoso mau gosto), ou que devia ser mesmo tudo culpa do Maranhão.


LG Movie Shot, LG Star Shot LG Flex, Look, Nice Toques polifônicos e hipersônicos Calculadora e despertador high tech anticrise [Coro] belle époque belle époque não troque a sua por uma mais escroque ouça, veja, sinta, toque belle, belle, belle époque não troque a sua, se toque cê ta ficando lóki? [Vendedor] Venha, venha, venda a alma compre a calma olhe-se no espelho e palmas, palmas, pra você! parabéns, você é mais um cliente preferencial do bazar belle époque Aproveite, deixe de ser otário vale tudo, cartão de crédito, cartão de débito, vário vale até cheque pré-datado do judiciário, promissórias, luta livre, briga de galo pode deixar o relógio também, identidade, CIC, título de eleitor [Coro] belle époque, belle époque nada de black, nada de preto, nada de pobre e viva, viva a belle époque e brinde com drinques, conhaques, scotchs nada de black, nada de preto, nada de pobre [Vendedor] Temos também helicópteros turbinados, carros de corrida com o capacete de Ayrton Senna e Jim Clark, o escocês voador ônibus espaciais, ogivas nucleares roupas de astronauta, mansões em condomínio lunar

E mais e mais e mais e cada vez mais mais: Empreendimentos Belle Époque cidade de São Judas com campo de golfe de 3 mil metros quadrados vinte vezes maior que o parque do bom menino Um verdadeiro oásis no meio da desertália onde a liberdade e o convívio com a natureza são privilégios inestimáveis [Voz narrador] a preservação da natureza é uma das maiores virtudes do Condomínio Belle Époque. um empreendimento privilegiado com espécies nativas: canela, palmeira, manacá-da-serra, ipê amarelo, roxo, azul, vermelho, branquelo, angelim do campo, jacarandá, pitangueira, eucalipto, araucária, babaçuais, carnaubais, árvores centenárias, entre inúmeras outras que lhe propiciarão maior encantamento .... a possibilidade desse saudável convívio com a natureza, algo muito raro no mundo urbano, torna-se realidade aqui nos espaços do Condomínio e Empreendimento Belle Époque .... e coroando esse paraíso, o canto de sabiás, bem-te-vis, beijaflores, curiós, canários belgas, bigodes e rolinhas, tudo isso para lembrar que, mesmo em meio ao caos urbano e cercado de toda a tecnologia do mundo moderno, os momentos de tranquilidade e bem-estar são perfeitamente possíveis. [Coro ] Eeeehhhhhbbbbaaaaaaa!!!!!!!! [Vendedor] Tranquilidade e bucolismo a natureza como quintal vasto espaço de área verde lagos, rios, parques, playground Vila Belle Époque A casa do seu sonho O carro do seu sonho A vida do seu sonho Agora só falta escolher


[Coro ] viva, viva a belle époque! nada de black, nada de preto, nada de pobre viva, viva a belle epoque! e brinde com drinques, conhaques, scotchs nada de black, nada de preto, nada de pobre [Vendedor ] Nã nã nã nã nã nã, ainda não acabou Temos também outro Empreendimento Belle Époque, este para mexer com o mais moderno dos modernos, o homem urbano do século 21, aquele que gosta cada vez menos de florestas, selvas e natureza em excesso. Mas adora cimento, mármore, o universo clean das grandes cidades, um mundo de grades e upgrades, ilha de proteção e segurança por todos os lados. Para esses, a novidade é o Condomínio Kojac. pra quem quer ser chique e não quer ser chato Condomínio Kojac! Pra quem não quer ser mané, né?! [Coro] Deixa de ser mané, cumpádi, vem comigo nessa, já no novo point da cidade vem pro Condomínio Kojac que chique!

[Voz narrador (com ironia)] A preservação da beleza artificial é uma das maiores virtudes do Condomínio Kojac. Nosso empreendimento privilegia espécies empalhadas, de preferência de buriti legítimo. E como a ordem é reciclar, todas os babaçuais (árvores) inevitavelmente derrubados em nome de uma cidade mais up to date, serão reaproveitados para dar um visual contemporâneo e absolutamente comprometido esteticamente com a vanguarda da arquitetura e a decoração de ponta made in Miami. Em lugar de palmeiras onde cantam os sabiás, estruturas metálicas brilhantes. É preciso saber ouvir o silêncio da modernidade (falar baixinho essa frase). E em lugar de ipês amarelos, roxos, azuis e vermelhos, obeliscos de puro mármore carrara, brancos como neve, alvos como as nuvens de agosto. Quanto a pitombeiras, carnaubais, árvores centenárias: chega de mau gosto!. E para coroar esse new paradise , algo de luz no chão onde você vai adorar caminhar. Nada de graminhas naturalóides. Verde em excesso atrai cafonice, isso sem contar a sujeira. Melhor lajotas brancas espelhadas que trazem o céu e o sol a seus pés, iluminando todos os seus passos. E como resposta ao caos e à violência das ruas, tecnologia de ponta em cercas elétricas. 220 volts de pura energia rodeando nosso condomínio, além de guaritas blindadas com seguranças estilo robocop. Afinal de contas, é preciso estar seguro no mundo que escolhemos para viver. Não vacile! Escolha o certo! Condomínio Kojac: a cara de uma nova São Luís.

Ah, chega de tanto coqueiro e juçara Tem de modernizar essa city afinal Que tal jogar um cimento ou granito bem dentro do nosso quintal

[Coro ] Eeehhbbbaaaa . É Condomínio Kojac! É Condomínio Kojac!

Cercas elétricas por todos os lados Segurança como nunca se viu Tudo isso no Condomínio Kojac Nesta cidade que nos pariu

viva, viva a belle époque! nada de black, nada de preto, nada de pobre viva, viva a belle epoque! e brinde com drinques, conhaques, scotchs nada de black, nada de preto, nada de pobre

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intelectuais maranhenses 01 INTELECTUAIS MARANHENSES

Friedrich Nietzsche

Nos anais da maranhensidade, talvez a página de maior brilho e menor menção seja a reservada a José de Ribamar Friederich Nietzsche. Nascido em Pastos Bons, onde as terras abundam e o gado cresce como cresce o capim, o mancebo Nietzsche lia desde cedo as publicações que chegavam pelos fazendeiros e caixeiros que visitavam a fazenda do seu pai, grande criador de cabritos e cultivador de bigodes. Em meados do século XIX, a produção de Pastos Bons era direcionada ao sul, mas o Sr. Nietzche insistia em mandar seus cabritos para a capital, na esperança de alimentar e fazer-se conhecido pelos portugueses, ignorando a república já instalada e os informes do filho em contrário, vindo daí algumas das ideias debatidas na filosofia ribamaresca sobre verdades absolutas. Em uma viagens à capital para vender bodes, o jovem embarcou para a Europa e lá começou, além de uma grandiosa obra filosófica “que pagava as con-

tas”, a teorização e cultivo de fartos e volumosos bigodes. Ao longo dos anos, desenvolveu uma forte teoria pautada na razão e na contestação da religião. Se Jesus e Buda não tinham bigodes, nada que viesse deles poderia redimir ou elevar a humanidade. Para seu desespero, somente as contestações foram absorvidas e a causa raiz vagou por anos no limbo, só encontrando relevo em sua terra mãe, no final do século seguinte, pela reversão origem/síntese e o resgate do bigode enquanto valor intrínceco para a humanidade. É dele a frase “Sem música e bigodes, a vida seria um erro”. A base da teoria totalizante nietzschiana era a de que “todos os bigores do mundo cabem e derivam do meu bigode”, o que não foi aceito na Europa, mas mostrou ter uma superlativa importância no Maranhão e só foi rebatida pelo surrealismo de outro ilustre filho desta terra: José de Ribamar São Luís Dali. Mas isso já é outra história.


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MODERN BOMB BOMBAS MODERNAS Nテグ FAZEM TICTAC


BS DON’T TICK 19

CHUCK PALAHNIUK


Faustina, Mona Lisa da Praia Grande

César Teixeira Desencantou quando botou os pés no cais da Praia Grande sob aplausos imortais Foi coroada no altar da 28 e no Oscar nem Hollywood poderia imaginar E hoje, entre outras novidades, traz as chaves da cidade guardadas no sutiã A luz da madrugada será tombada pelo patrimônio da manhã Faustina! Faustina desamarrava o bode com o seu mamãe sacode Faustina fez o que fez Fez uma zona no Convento das Mercês (Quando era freira no Convento das Mercês) Viva o xirizal!


Mรกrcio Vasconcelos

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A saída seria esfolar a pele. Atravessar paredes até chegar ao sangue, até tocar as células vermelhas e até esmagá-las nos dedos como se fossem piolhos. A saída seria trocar o sangue por ketchup. Lavar o branco dos olhos com maionese. A saída seria bater o nariz na parede, beber gasolina até os postes dobrarem ao meio, quebrar a chave do carro e engatar a partida. A saída continuaria sendo a saída da lanchonete, trocar de banco e garçonete preferida até acabarem as opções do cardápio. Seria uma saída continuar correndo, se não me parecesse mais estúpido correr agora como se fugisse enquanto todos fazem cooper desesperados como se fugissem, não pensam na agressão que fazem a seus corpos por continuarem correndo. Seria autêntico continuar pensando. Nunca será uma saída (apenas) não demonstrar medo. A saída sempre será.

Carolina Mello

Pra você eu compus a valsa agonia lenta. Pra você eu pendurei minhas coxas no açougue enquanto registrava seu nome e endereço na agenda do celular, enquanto telefonava, enquanto printscream sua janela de olhos cansados. Seus olhos pintados de azul fingindo indiferença a Indiferença, eu fingindo indiferença enquanto nos mantemos acordados. Pra você eu aprendo a tocar teclados.


estamos em casa, senhora, como estávamos dez anos antes, e o calendário que nunca move, ali, nunca riscado os dias que passam, os dias santos, da graça e outro dia, mais. na tv um americano fazia bolhas de sabão gigantes. uma chegou a ter tamanho de baleia. teimar um pensamento na enormidade e beleza das coisas inúteis: bolhas de sabão, carne de baleia, um poema, calendário de mil novecentos e setenta e três. e no discurso que falha, vai embora, assim. mais alto de não ter e vai embora. mais alto que um dia sem fim, de chama e fuligem. alguém que te masca, masca, sem fim como um chicle entre línguas e dentes de violet beauregard. declaro guerra a você, senhora, entrincheirado o coração e víceras ardentes. meu arsenal é pobre, da primeira grande guerra desafia tonto seus mil megatons e pistolas desintegradoras. a palavra que fulmina. chuva, fuligem, chicle. estou marcado e atingido. alvo de primeira, patinho de seu parque de diversões no estojo de blush. meu traje é passeio completo.

Carlos Augusto Lima

entre a avenida e o lugar onde moro há um ligeiro declive. a maior rebeldia possível do relevo desta cidade. no bar uns festejam doces com bandeiras alvinegras. estou indiferente, pois raspo o cabelo a cada duas semanas e a barba por fazer a cada três quatro dias. alegramme os pacotes da correspondência, colher de sobremesa e o cheiro de amaciante nos lençóis engomados. quero avisar que sou simples, primário e rude, que fala impropérios e grosserias bonitas a te deixar feliz, de bolsa nova, chocolate e pingente. e deixo claro que todos os anos contribuo pela salvação de um cardume de anchovas e alimento crianças do sinal com a sombra fria da ceia natalina. o que me alivia a culpa e terreno no céu com vista para o mar. entraremos, então, na cidade debaixo de estrelado véu de fogos de artifício e derrame de flores artificiais. será bonita a noite. a lua em aquário, vênus em capricórnio, sagitário aos galopes.

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AMAROLI Ricardo Sanchez


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siete últimas canciones, 1986. Eduardo Jorge

pois, como se ao insinuar um trajeto casa-trabalho você inscrevesse no cartão-postal não mais uma novela à bossa nova; e afinal, ainda posso divertir: (episódicas listras finas horizontais, sax, trompete, tuba, domingo pela manhã) todo o investimento e as aplicações para estar aqui, com tosse alérgica, entre pele e celulose ou que apelido pode tornar comum, o 2. 1. o apelido quase senha, kuitca, 1961, torna-se uma palavra tanto bífida quanto ensaboada e se possível os dois lados, escolha: ainda sem tem um pouco de século – vinte e um, aliás, os números; em qual binarismo se esconde a tosse, os tais ácaros zero e um, qual combinação guarda o segredo de lucro algum reagente de ar mercado, a voz, o que temo dela senão seu assombro entre pele e celulose:


metrônomo agudo para metrópoles e quem sabe acrobatas e funâmbulos despertem ronhosos em busca de um rosto, ou ainda, o que repete guillermo quando em vez seu nome surge entre um instável estímulo no nervo ótico direito e piscadas simultâneas, enquanto um gesto inicial e canhoto é todo ainda e não se marcou à tinta o papel verde sem pauta para traduzir: “yo miento pero mi voz no miente” – e tudo sabe entre pele e pigmento e o que resta além de repetirmos alegres os diaspostais o endereço de até agora e hoje em diante ao estendê-lo em linha transparente enquanto os capítulos casa-trabalho mudam com o fuso a direção do nariz, sua ponta, e ninguém-alguém feito contorcionista, mágico desempregado ou advinha surda de algum banlieue-pirambu pergunta e equilibra em travelling diante de uma alegria estrangeira: ‘que carta ela deverá tirado?’ pois, longe de uma simples resposta motora, entre tons tão escuros, óculos e, mesmo com toda a seriedade, ela ri.

explicar dois, três búzios de onde havia parado, no menor deles. ali há uma súplica, veja-o ou veja-a a mínima escultura curvada diante de um pedido, um agradecimento. se apresentando em casca de navio-fantasma, cujas linhas ao chegarem no topo inclinado, simplesmente somem. há outra história mais genérica e talvez não se aplique a este búzio especifico, o menor deles, dizem: para cada promessa cumprida surge um búzio curvado que traz no som de seu corpúsculo a pequena infinitude do mar que não cessa de agradecer. mas volto para este que sequer cabe em um nome e lembro que explicar dois, três búzios não é uma tarefa difícil, apenas exige que se tire cada petulância do corpo e, vazio de silêncio, vire o rosto em direção ao mar e dance.

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vá pra cadeia bruno azevêdo

Inspirado no Álbum Carlos Alexandre (vol 02), de Carlos Alexandre.

Porque é um século novo e, como a minha mãe dizia, nada vai ser assim pra sempre. Minha mãe entendia pouco das coisas porque o nada é de maneira alguma, mas a minha mulher era mais esperta e disse na minha cara que tudo ia mudar. Não sei quem é mais abrangente, mas ao contrário do que vocês estão pensando, isso não tem nada a ver com o que eu faço. É que eu gosto de atropelar mulheres. Essa da mãe e da mulher foi pra dar um fundo psicológico. Tem gente que gosta de sexo, gente que gosta de estourar balões de festa e gente que gosta, sei lá, de assistir ao Jornal Nacional. Porra, eu atropelo gente! Mulheres. Fêmeas. Antes que me chamem de plagiário, eu li o conto do Rubem Fonseca, mas não tem nada a ver com aquilo. Aquilo é literatura e fodam-se. Eu não tenho um opalão, não tenho uísque em casa e às vezes acho que tudo que tenho é essa ânsia assassina por sainhas esmagando seus quadris. O Rubem Fonseca também foi pra dar um fundo intelectual. Ajuda. Te dá um certo crédito com a moçada. Mas isso não é arte, não tem nada a ver com arte. Eu não as levo pra jantar, não as pesquiso, não faço nada além de apertar o acelerador e administrar o baque, pra não acabar tão amassado num poste quanto a vagaba amassada no chão. Não me programo. Olhei. Foi. Pum! Não sei o nome de nenhuma delas, nunca voltei e parei pra olhar, nunca li os jornais, não ouço no rádio, não acompanho o enterro, gosto de ser essa imagem

anônima na cidade, que faz as mocinhas pensarem duas vezes na autoridade da cor vermelha ou na proteção das faixas brancas. O retrato falado deu mesmo, é meio distinto, dá um fundo de mistério. Bate um frisson louco, quando o parachoques atinge a canela. Algumas caem pra frente e levam as mãos ao capô, rolando por cima do carro e caindo atrás dele, deixando uma mancha vermelha que lembra um moicano ou o fusquinha do filme. Só que é vermelho e eu deixo o fusquinha numa esquina qualquer. Outras caem pra trás (é mais legal) e o carro passa por cima. Às vezes emperra e eu tenho que engatar a ré pra desviar e seguir à frente. Não gosto de reatropelar mocinhas, não é justo. Se não funcionar da primeira vez, paciência. É o destino. Na cadeira elétrica, se o cara sobreviver ao choque, deixam ele ir. Pegou sei lá quantos volts na cuca e não morreu: é macho! Acho justo. Porque eu teria de inventar moda? A minha diferença pro resto das pessoas é que eu gosto de atropelar os outros e elas atropelam, geralmente, sem gostar. Quase sempre é de dia. Acho melhor. O atropelamento é um crime que não causa lá muita coisa e hoje (só pra vocês verem aonde chegamos) se pensa mais em socorrer o atropelado que pegar o atropelador. Se você não tiver apego ao carro, pode sair andando tranqüilamente. O atropelamento é meio que uma forma de matar legalizada. Se você fizer outra merda, se meter em briga em um bar ou alguma coisa, você se fode. Se você envenena alguém eles te pegam. Se contratar um fulano ele aca-


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André Lucap


ba te dedurando por alguém que tem mais grana. O atropelamento foi criado pra preencher essa brecha no mundo. E eu uso. Não tem muito a ver com as mulheres, mas elas dão um tom meio maníaco que eu gosto. Sinal. Quando muita gente passa fica complicado. Não porque seja muita gente, mas porque tem homens e eu só atropelo mulher. Qual o problema? Jack o estripador só matava mulher, dá um fundo tradicional, como diria a minha mãe. O maníaco do parque só matava mulher. Grande parte dos bons assassinos matam exclusivamente mulheres. Uns estrangulam, uns estupram, eu atropelo. Não me pergunte por que, é mais legal, só isso. Meu lance é só passar com o carro por cima (ou por baixo), não tenho essa coisa de fritar seios, enfiar baratas em bocetas, jogar corações em panelas de pressão, acho isso muito démodé. O carro é o instrumento perfeito pro assassinato na sociedade perfeita pra se assassinar. Eu fico aqui dentro elas sofrem lá fora... convenhamos que é melhor que o contrário. Não fui eu, foi aquele pedaço de ferro de 2 toneladas feito pra quebrar em 3 anos. Tem mais deles do que gente hoje e encontrar um carro que atropelou alguém é só um dos passos pra encontrar a pessoa que estava dirigindo o carro quando este atropelou alguém, compreende? Nenhum dos carros é meu. Nem carteira de motorista eu tenho. Você já viu uma mulher ao volante? Já? Não parece errado? Acho que muita coisa hoje parece errada, nesse lado de mulher. O atropelamento devolve a elas essa fragilidade que é delas e que parecem querer tirar. Se eu atropelasse policiais haveria um monte de policiais no meio da rua só pra atirar em mim, se eu atropelasse políticos eles chamariam a imprensa e se eu atropelasse jornalistas parava o mundo; se fossem advogados eles usariam isso pra ganhar uma grana do Estado. Fazer o quê? As mulheres só levam o baque.

A multidão que cruza o sinal, nos dois sentidos, me enerva e quando vejo a desgraçada ela já tá sentada ao meu lado. Abriu, ela diz. E os carros atrás dizem o mesmo. Eu nunca buzino. O pé no acelerador é o dela. Desvio de um último pedestre, homem, que ainda passava e o pneu frita o asfalto. Quando ela tira o pé, tenho que ser rápido pro carro não morrer. Carro morre, Carro bebe, Carro engasga e essa cretina não tem o mínimo direito de pisar no meu acelerador! Meu não, do carro. Merda! Carro bate, Carro afoga, Carro fica cego no farol e eu cada vez mais confundo essas coisas que são minhas com as coisas que são do carro e é por isso que eu digo pra ela que se ela não sair da porra do carro agora eu vou... Melhor não. Ela tá dentro do carro. Tem essa sensação uterina, tudo te envolve e pela pressão da embreagem, pelos sons e pelo cheiro você sabe se é gripe ou se o pneu tá murcho, o carro é essa mulher que se pode confiar. Cada mulher tem um par de peitos e uma forma de lidar com eles, mas o carro tem sempre os mesmos faróis e eles sempre servem pra iluminar, entende? Isso aqui não é táxi. É por isso que muita gente, ao invés de ter mulher, tem carro. Eu não tenho carro, mas também não tenho mulher e ela diz: Eu sei. Isso é legalmente considerado invasão de domicílio, digo. Nem sei se é, mas tem lógica. Em alguns lugares as pessoas moram mais tempo nos carros que nas suas próprias casas. Um amigo tinha um fogãozinho de duas bocas e foi um desses que pediu pra acabarem com a Voz do Brasil.


Mentira. É sim. E... legalmente... o que se faz quando alguém invade um domicílio? Se chama a polícia. Chama! Também se pode matar. Se alguém invade a tua casa tu pode matar a pessoa. Vá em frente. Que horas são? Três da tarde. Taí. Manda. Pra onde que tu quer ir? Agora é táxi? Não vou cobrar. É favor. Qual é teu nome? Ford... Fordinaldo? Não mente pra mim. Tu vai pra onde. Fala! Vou com você. Eu paro. Cheguei, digo. Não seja infantil. Eu? Dirige. Eu dirijo. Se você tiver sempre o carro de outra pessoa, você não existe. Quer desgraçar alguém é só copiar a placa do carro dele e sair por aí fazendo merda. Seu carro é você e não tem pronde correr do que ele fizer mesmo quando você não estiver dentro dele. Esse aqui tava num shopping e o tanque não tem lá muita coisa, preciso trocar. Pronde você acha que eu tô indo? Pra lugar nenhum. Teu negócio é ir. Sou funcionário do Banco do Brasil. Pode até ser. Olha aquela ali. Ela aponta pruma mulher, das que pedem, das que saíram de casa pra não voltar, das que saem de casa pensando num motivo pro noivo a amar pra sempre, das que usam o salto alto na esperança de alguém achar um pé e procurar por ela o resto da vida, das que acordam pra se redimir. Um certo tom Encaixotando Helena no ar. Quando não dá enterro deve dar casório e ela vira o

volante e enfia o pé no acelerador. Ter esses quatro pés de borracha me faz sentir seguro. Firme. Gente não derrapa, gente não freia, gente não frita o asfalto, não enguiça. Carro não dá volta, faz curva. Mas como eu não faço, essa vai por cima. Sinto o cotovelo bater a 40 centímetros da minha cabeça e o meu pé no freio faz o carro ficar com cara de tuberculose. São três da tarde, mas ninguém liga. Ela pisa no acelerador de novo, mas não acontece nada. Morri, tenho que dar partida. Tu é doido!!? Quer que peguem a gente? Ela dá partida e me puxa pro lado, fico bamboleando na pista e meu pé no freio com o dela no acelerador me fazem dar pulinhos na rua, como se eu fosse um daqueles grandes, com pneus largos e loiras peitudas dentro. Ela não é loira e não é peituda e me tomou de mim. Você é um imbecil! Ela fala. Pelo retrovisor ainda vejo a mulher. Casório... Tusso um ar pesado e carbônico. Ela diz que vai parar e vai abastecer e que é melhor eu não dizer nada. Ela sai, volta. Eu passo o cinto. Um dia peguei um desses carros pra paralíticos. Deve ter vários tipos deles (dos paralíticos) porque só o que não tinha mesmo eram os pedais. Não gostei. A sensação de descer o pé, de fazer parte orgânica de um movimento é muito diferente da do botãozinho no volante. Minha vida não é uma cópia barata de Carmageddon e joguei a porra do carro do paralítico numa praia, virgem, sem passar por cima de ninguém. Ela me dá uma cerveja e eu não aceito. Eu não bebo quando dirijo. Ela me lembra que eu não estou dirigindo. É mesmo. Bebo, mas não gosto. Me bate uma sensação de traição, que não vou poder voltar pro volante.

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Quem vai ser? Não respondo. Quem vai ser que a gente vai atropelar agora. Viu aquela? Cadela! É melhor não. Melhor não? Que porra é essa de melhor não? Melhor sim! Você aponta, eu acelero; você manda, eu aponto. Ainda não são nem quatro. Quem é você, afinal? Eu já te atropelei? Quê? Eu já atropelei você? Quero saber. Claro que não, mas que idéia idiota, onde tu já viu atropelado querer atropelar. Isso é horrível. Aquela? Ainda não. Me diz quando for. Quer que eu ligue o som? Quer um cigarro? Eu atravesso sinais vermelhos e fico com medo de alguém bater em mim, alguém outro carro. Não gosto de ver batidas. As pessoas retorcidas na rua. Tudo parado. As buzinas. Pessoas passando pelas calçadas. Gente não engulha, gente não buzina, gente não tem radiador. Eu só quero passar a tarde com você. Só isso. Não precisa ficar assim. Ela passa a mão na minha perna pra me acalmar. Só porque eu sou mulher tu tá com medo? Acaba a latinha. Até que ela dirige bem. A primeira vítima do automóvel foi uma mulher: Mary Ward, ela era uma cientista e caiu num motor a vapor, ficou toda fatiada. Deve ser daí aquele lance de mulher no volante, perigo constante. Mulher não deve mesmo fazer coisa desse tipo. Pra elas tem lugar e pra gente tem lugar e cada macaco no seu galho e eu sei que tô nervoso quando começo a falar por ditados. Antes tarde do que nunca. Qual era o nome do cara que inventou o motor? Ela pergunta. Não sei. Pois é. Não precisa se preocupar, não vou te fazer nada. Eu gosto do seu trabalho e quis ver como era, mas acho que você é um cagão, viu. Um cagão. Aquela.

Aquela? Sim. Espera. Pára, deixa ela chegar mais. Agora? Não. Deixa ela chegar mais. Tu já ouviu falar de Bruce Lee? Aquele cara que era ninja? Pode ser. Ele tinha um negócio chamado de soco de meia polegada. Ele colocava a mão a meio dedo do adversário e, sem recuar, quebrava o cara com um suco. Entendi. A minha mão do peito dela não sai. Desgraçada. Pé na embreagem, ronco. Não preciso falar. Meia polegada, ela sabe. Pum! Continua leve, para nos sinais. Uma viatura ao nosso lado e a desgraçada faz gracinha com os guardas. Deve ter uma mancha do tamanho do mundo na frente, mas eles só olham pros peitos dela. Não lembro que horas tirei a mão dos peitos dela, que buzina pros guardas e vira à esquerda. Eu quero ir pra casa. Cansei. Me deixa lá. Onde é? Em tal lugar. Tá. Tal lugar. Vâmo. É longe e já passa das sete quando a gente chega. Ermo. Umas árvores altas e aquela cara de criancinhas brincando de esconde-esconde. Ela desce. Obrigado. Volta. Escuta, você me pega amanhã? Acho que gostei. E aqui sou eu de novo, apesar da porrada. Não sabia se a proposta era séria, essa coisa de ter um comparsa, ou se é como essa coisa de mulher que te chama de cagão de maneira sutil. Quando você chegar no meio da rua, vou passar por cima de você, falo. É como se eu tivesse no peito um daqueles acendedores de cigarro. Como aquilo faz fogo quando se coloca um cigarro e eletricidade quando se coloca um telefone, por exemplo, como é que o carro sabe? Deve ter um sensor, desses que só quem tem são as mulheres. Vou ficando no volante.


amaral andré lucap bruno azevêdo carlos augusto lima carolina mello celso borges cesar texeira eduardo jorge fernando mendonça guaracy jr márcio vasconcelos reuben da cunha rocha ricardo sanchez

2011

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A imortalidade literária. Não sei como ainda há escritores que crêem na imortalidade literária. Entendo que haja quem creia na imortalidade da alma, posso entender inclusive os que crêem no Paraíso e no Inferno, e nessa estação intermediária e surpreendente que é o Purgatório, mas quando ouço um escritor falar da imortalidade de certas obras literárias me dá vontade de esbofeteá-lo. Não estou falando de surrá-lo e sim de dar-lhe uma só bofetada e depois, provavelmente, abraçá-lo e confortá-lo. Sei que alguns não estarão de acordo com isto, basicamente pessoas não violentas. Assim como eu. Quando digo dar-lhe uma bofetada estou pensando sobretudo no caráter lenitivo de certas bofetadas, como aquelas que no cinema se dão aos histéricos e histéricas para que reajam e parem de gritar e salvem suas vidas. RobertoBolaño.TraduçãoReubendaCunhaRocha

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Pitomba! #1  

Revista Pitomba! nº. 1, editada por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha

Pitomba! #1  

Revista Pitomba! nº. 1, editada por Bruno Azevêdo, Celso Borges e Reuben da Cunha Rocha