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a casa das janelas verdes

ana alegria


em mem贸ria de meu pai, Nuno V. Alegria e para Rodrigo, meu filho

ana alegria - fotos e poemas


a casa das janelas verdes


cal o branco no muro e o verde folha sempre na janela a tábua no chão e o buraco de rato o mofo no armário o mijo na laje o sino de ferro do antigo navio um rebenque de prata o bigode no retrato o cheiro de mato o vento que gela um cruzeiro no céu um besouro de luz sombra da figueira formiga vermelha tesouro enterrado a marca na cerca o cheiro de pão o branco na casa


como seria o livro e comeรงaria a frase e qual seria o tom?


pedra pigmento lĂĄpide puro talismĂŁ


como seria escrito o que, ao virar palavra, passa a ser uma coisa que antes n達o se sabia?


canopus Que tem o silĂŞncio? AlgodĂŁo Nuvens Som de estrelas Espuma branca ou besouros? Tem um estalo de outro ouro dentro dele.


7 p.m. Paz ĂŠ estar naquela casa branca nesta mesma hora, lendo no quarto, Dunga arranhando a minha porta intrigado. Rosa arrumando a mesa, toalha xadrez, verde como as janelas. Brancas as xĂ­caras.


Giz Pena, pluma ou carv達o, grafite, qualquer outra coisa, que apenas n達o deixe voar estas palavras que chegaram novas, cheias de som, nesta manh達 de maio que come巽a.


Bem na frente da casa que era tua e agora é de teu filho, vinte anos depois, voltaram as flores que plantaste. Parecem lírios antigos Serão dálias, magnólias, amapolas? Não sabemos Mas agora elas estão de novo ali E, depois de tanto tempo adormecidas, despertam outra vez em cada primavera.


a chuva e o sino, como seria o som ?


quando nós chegamos na tua casa fazia três meses que tinhas ido embora, quantas coisas novas já tinhamos vivido sem que tu soubesses ? o que mudou em nós e tu não viste? tuas camisas ainda estavam no armário, tuas botas no quarto, teu chapéu, as janelas abertas, a luz era de outono mas foste embora no verão, de manhã cedo ninguém podia adivinhar que ia ser assim


avó Doce o figo verde secando na janela Lã nos teus cabelos presos num coque Brancos os lençóis que guardavas no armário Acesas as velas quando o dia terminava Parado o tempo nas tuas mãos cruzadas Verdes as janelas da casa que era tua Verão e o teu olhar que ainda tudo via


Almofariz Baluarte Arandela tem cheiro de mofo Ponto de bala Flambado Caramelo dão água na boca Andaluz Fidalgo Bigode saíram de um retrato


Sassafrás Almíscar Açafrão vieram de longe, como o âmbar Albahaca Llovizna Gorrión e golondrina me levam rápido pra outro lugar.


receita Escrever. Juntar uma palavra a outra e depois enxugar, palavra estranha em português. Quando todas as palavras estiverem claras certas indispensáveis ainda assim desconfiar um pouco delas e então deixá-las por um tempo dependuradas num fio invisível. Como se estivessem secando ao sol. Sim, num varal. Nunca numa gaveta.


fotografia Aí está o portão de madeira entre as hortênsias azuis, que eu aparei no inverno, e as paredes brancas de cal. Um dia, de manhã, um homem de bigodes deve ter passado por ali, já grisalho e com roupas de lã. Em que terá pensado? Só sei que o vento sacudia as mesmas figueiras, estas que, há muito tempo, foi ele quem plantou.


Em que lugar e dia aquele tempo congelou pra ficar como um filme e virar um vento, um sopro, um sonho recorrente, calendĂĄrio ao revĂŠs?


a lanterna, os óculos, algum bilhete, o Nescafé, o chá, um chocolate, o vinho que guardaste pra depois, alguma fruta, o pão, nada mais disto havia por ali e a casa agora é como nunca foi, sem ti.


antes, os dias como eram? cristal. hoje, mais ásperos, vão rápido em mais outra agenda, azul. não mais terão, então, o que?


Balas de goma coloridas verde, amarelo, azul, vermelho, quase redondas guardadas no vidro lápis de cor, um arco-íris numa caixa, e cadernos para desenhar. num canto, a velha máquina de costura singer com retalhos de algodão uma tesoura grande e escura os cobertores guardados no armário antigo, era verão e numa lata pequena, as penas de caneta pra escrever alguma carta para Marieta ou para Sinhá?


Pequena estrela de pura luz que vira abelha na palma da mão Que dança, pirilampo, pelo campo e se multiplica Rabisca, vagalume, quando alumia o céu como néon Risca o silêncio e fica na noite azul aqui do sul


e já não estás mais no frio da tua casa branca, não precisas mais contar as meias de lã na tua gaveta aquele blusão cinza, o mais quente, deve estar aquecendo alguém que precisava de roupas neste inverno. já não estás ali, valente, em mais um agosto de lenhas, lã e ponchos porque foste levado para uma nuvem de algodão, da cor do teu cabelo, lá já não sentes frio, deves estar em paz, preciso acreditar.


De onde vem vindo este som que quer virar palavra? Do escuro, do ar, de ninguém, do nada? Ele é raio, lampejo, relâmpago, corisco que chega de mansinho. E arisco vai embora. É quase um vagalume que só precisa da noite pra existir, já estava ali. Não pode ser deixado pra depois.


reflexo Onde o gesto da avรณ antiga? nas mรฃos mais calmas ou no jeito de inclinar a cabeรงa? no fio do cabelo, na falta de pressa, um vulto se adivinha, refletido, prisco. Seria ela ou a outra, a que era mais alegre?


visita havia um cheiro de jasmim no pátio Rosa tinha pendurado, como sempre, as roupas no varal alguém cortou a grama pra nos esperar a bisavó me olhava muito mais séria de dentro do retrato e Santo Antônio, no oratório da entrada, estava triste.


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prefeito

josé fortunati secretário municipal da cultura

sergius gonzaga

coordenadora de artes plásticas

anete abarno

criação

ana alegria design gráfico

andrei zebrowski 2012



Ana Alegria catálogo