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ILUSTRAÇÃO: ZANZA SANDES

Soul

Revista Soul. Projeto interdisciplinar produzido pelos alunos do 5º semestre do curso de Comunicação Social /Jornalismo, da Faculdade Social da Bahia – FSBA, Salvador/BA, nas disciplinas de Práticas Integradoras II e Planejamento Gráfico. Coordenação do curso de Jornalismo: Bárbara Souza Edição geral: Elisangela Sandes Edição de texto: Danielle Zuma Edição de arte e fotografia: Elisangela Sandes, Íris Leandro e Ítalo Freitas Revisão: Danielle Zuma e Elisangela Sandes Projeto gráfico: Alunos do 5º semestre do curso de de CS – Jornalismo TEXTOS: Comportamento: Caroline Lina Cultura: Caroline Lina Religiosidade: Bruno Ganem e Nathália Nascimento Política: Elaine Mendes Crônica: Íris Leandro Glossário: Íris Leandro Editorial: Mônica Marques Saúde: Mônica Marques FOTOS: Newton Soares, Vinícius do Carmo, Cecília Oliveira, Heloíse Nascimento e Reprodução. COLABORADORES: Bianca Andrade, Heloíse Nascimento, Ítalo Freitas, Marcelo Lima, Silas Pessoa, Kaliandra Larissa.

Faculdade Social da Bahia – FSBA. Av. Oceânica, 2717, Ondina, Salvador – BA. CEP 40170-010. www.fsba.edu.br (71) 4009-3840 Diretora: Margareth Passos Vice-diretor: Fernando Miranda Coordenadora Acadêmica: Ornélia Marques

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COMPORTAMENTO

#HashtagDoPoder: a Internet como aliada das campanhas feministas Caroline Lina

06 Vai ter gorda! Domínio e aceitação do corpo feminino Cecília Oliveira

12 Até que a morte nos separe Elaine Mendes

26 POLÍTICA

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CULTURA

“Belas, recatadas e do lar”: séries que mostram o empoderamento feminino Caroline Lina

14 Sacudindo a família nuclear tradicional Íris Leandro

36 Sobre um deus que não é de todos Íris Leandro

34 CRÔNICA

RELIGIOSIDADE

“O amor não faz o mal contra o próximo” (Romanos 13:10)

Bruno Ganem e Nathália Nascimento

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Saúde para tod@s? Mônica Marques

32 SAÚDE


ILUSTRAÇÃO: ZANZA SANDES

Editorial SOU EU, MAS PODERIA SER VOCÊ...

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a imprensa, nas redes sociais, no almoço em família, nas rodas de conversa – seja qual for o seu formato -: a impressão que se tem é de que nunca se falou tanto em respeito à diversidade, em luta contra homofobia, racismo, misoginia e aberrações congêneres.

Um olhar puramente otimista veria um sinal claro de evolução social e cultural. É certo que mudanças estão ocorrendo. Mas é verdade também que elas se processam numa velocidade bem inferior à desejável para evitar que a diferença se torne uma sentença de morte. Ainda precisamos falar muito sobre Gênero e Diversidade, assuntos abordados de hoje em diante pela revista Soul. Por isso mesmo, esse foi o tema escolhido para a publicação, termo que sintetiza algo que nos singulariza e ao mesmo tempo nos torna detentores de direitos iguais. Soul é o desejo de aprofundar a leitura do ser humano a partir das particularidades que nos fazem diferentes. Aprofundar para provocar empatia, para nos unir em nossa igualdade humana.

Simplificando gênero Íris Leandro

39 GLOSSÁRIO

Soul é moderna, alegre e divertida, mas não abre mão do engajamento político e social, porque reconhece sua força-motriz para transformar. Soul nasce do desejo de ver o outro, de enxergar por uma ótica diferente as questões de gênero que perpassam nossas vidas e que nem sempre nos mobilizam. Da perspectiva acadêmica, a Soul materializa uma oportunidade ímpar de experimentar, de forma integrada, para professores e alunos do 5º semestre de Jornalismo da FSBA, que criaram um produto ancorado em formatos e técnicas de composição de conteúdo estudadas, discutidas e aplicadas ao longo do curso. O que pretendemos com isso? Que as histórias contadas e os assuntos aqui abordados toquem de modo especial as almas, que sejam lidos e inspirem reflexões para um mundo melhor, com mais civilidade e muito, muito mais amor, por favor! “Alma, deixa eu ver sua alma / A epiderme da alma (...) Isso do medo se acalma / isso de sede se aplaca / Todo pesar não existe / Alma!”. * *”Alma”, de Zélia Duncan

Mônica Marques JUNHO 2016

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COMPORTAMENTO

#HastagDoPoder: A

internet como aliada

das campanhas feministas Utilizando a internet ao seu favor, com hastag, relatos e protestos, as mulheres tomaram as redes sociais para dizer: MACHISTAS NÃO PASSARÃO! TEXTO: CAROLINE LINA

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de disseminação, colaborando para que a causa se aproximasse dos jovens; a palavra e seu significado deixassem de ser “um palavrão”, expusessem dramas e descontruíssem tabus, combatendo o machismo e aumen-

tando o número de denúncias. Deste modo, há esperanças de (re)construir uma sociedade melhor para tod@s. A ativista feminista Ulli Uldiery, 22, afirma que as campanhas feministas desenvolvidas

FOTOS: SUPERINTERESSANTE E REPRODUÇÃO

im, 2015 foi o ano da primavera das mulheres. O ano que o feminismo invadiu as ruas, as rodas de bate papo, discussões, mas, principalmente, a internet. A web foi o campo

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na internet, principalmente com a utilização do Facebook, são de extrema importância, pois trouxeram uma visibilidade que o movimento não tinha. “O feminismo não chegava às mulheres comuns, aquelas que sofrem com a opressão diariamente - não que as outras não sintam -, que não tinham dimensão do que era feminismo e como poderia ajudá-las, então, as redes sociais geram uma ferramenta de discussão plural”, conta. As campanhas lançadas nas redes sociais propõem denunciar assédios, desmistificar a cultura de estupro, protestar contra o julgamento das vestimentas femininas, contra comentários machistas e de preconceito racial. “Eu estou lutando por algo e eu não consigo sozinha, chega um ponto que não dá mais, então as campanhas feministas ajudam a buscar outras pessoas para lutar junto comigo”, conta a estudante Fernanda Souza, 21. Segundo a analista de vendas, Louise França, 23, cada dia que passa as pessoas estão mais efetivas na luta feminista. “E isso precisa acontecer, porque mesmo com tanta luta, com tanta discussão, ainda vemos em nossa sociedade o machismo em diversas formas absurdas”, conclui.

Mas se engana quem pensa que o feminismo de hoje se resume somente a internet. Ele vai muito além. Após hashtags como #MeuPrimeiroAssédio e #MeuAmigoSecreto, o número de denúncias de violência contra a mulher no disque-denún-

“As campanhas feministas ajudam a buscar outras pessoas para lutar junto comigo” SOUZA, Fernanda. cia (180) em 2015 chegou a 63 mil, 40% a mais do que no ano anterior, de acordo com a Central de Atendimento à Mulher. Houve uma mobilização muito grande de pessoas e os números não mentem: segundo uma pesquisa realizada pelo coletivo feminista Think Olga, #MeuPrimeiroAssédio foi utilizada 85 mil vezes em apenas cinco dias, levando o termo assédio a ser pesquisado mais de 11 mil vezes no Google. Em maio, o caso de estupro coletivo a uma adolescente de apenas 16 anos, no Rio de Ja-

neiro, chocou o país: ela foi violentada por 33 homens. Nem um, nem dois. Foram TRINTA E TRÊS homens e ainda postaram um vídeo na internet expondo a vítima. Comentários surgiram e o debate foi gerado: de um lado pessoas que defendiam a vítima afirmando que ela não tinha culpa; do outro, as pessoas que a culpavam, isentando os agressores. Diante disso, foi criada a hashtag #NãoACulturaDoEstupro, para desmistificar o pensamento de culpabilização da vítima. Após discussões nas redes sociais, o Ministério Público registrou aproximadamente 800 denúncias relacionadas a esse caso de estupro, antes mesmo que a vítima tivesse ido à delegacia. Em depoimento, a adolescente afirmou que não iria denunciar os agressores, mas após ver a mobilização na internet e as mensagens de apoio dizendo que ela estava sozinha, decidiu ir à delegacia. A campanha foi utilizada por diversos meios: a plataforma de streaming de música, Spotify, colocou uma playlist intitulada #NãoACulturaDoEstupro na página inicial do aplicativo com os títulos das músicas formando uma frase de repúdio ao caso. Celebridades como Emma Watson postaram a hashtag em seu perfil no Twitter. JUNHO 2016

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COMPORTAMENTO

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o édi s s

#Meu

Am

#MeuP ri m eir

A hashtag foi lançada após uma explosão de comentários sexistas e desrespeitosos feitos a respeito de uma menina de apenas 12 anos, participante de um programa de televisão. A hashtag foi usada mais de 100 mil vezes no Twitter e fez milhares de mulheres relatarem o primeiro caso de assédio sexual sofrido por elas. A média de idade relatada do primeiro abuso foi nove anos.

Se c o ig

Entenda um pouco mais sobre o poder das hashtags e sua função na sociedade.

reto

Criada, também, através dos comentários sexistas e desrespeitosos feitos a respeito da menina de apenas 12 anos, com o intuito alertar sobre a objetificação e sexualização das crianças.

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mo sF a

O “fiu-fiu” ou as cantadas grosseiras, comentários obscenos, olhares, intimidações, toques indesejados e importunações muitas vezes é minimizado como elogio. A fim de desmitificar esse tipo de pensamento, a hashtag foi criada para coibir o assédio sexual em lugares públicos.

Esca m rU e z

ndalo

Lançada pela vlogger Jout-Jout (Júlia Tolezano), que teve sua página do Facebook retirada do ar após postar um vídeo em que ela afirmava que mulheres não podem se submeter à cultura do estupro e devem denunciar seus opressores. Por esta razão, a vlogger foi alvo de críticas e denúncias vindas de grupos que discordam de suas opiniões. O facebook se desculpou e disse que houve um equívoco com as denúncias.

#Va

#Cheg

ad

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#A

More H er k s

Com objetivo de incentivar que as entrevistas com estrelas femininas tenham perguntas mais inteligentes, além da aparência e moda. “Pergunte mais para ela”, em tradução livre, teve seu ápice durante a cerimônia do Oscar em 2015, quando várias mulheres disseram que gostariam de ser mais questionadas por seus trabalhos.

rs Fo e H

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#V a

#

Desenvolvida pela Organização das Nações Unidas, “Ele por Ela” em tradução livre, visa conscientizar os homens a não repetirem e perpetuarem comportamentos machistas. Além de incentivar que participem na resolução das desigualdades que atingem as mulheres.

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o

ntas u J s

#V aiT

Sh er

nhoSim ort i

Foi criada por alunas de uma escola no Rio Grande do Sul para protestar contra a proibição do uso de shorts nas dependências da instituição. Elas pediram o fim do machismo, da objetificação e sexualização dos corpos femininos.

#S om

A fim de encorajar a união de desconhecidas contra a insegurança das ruas e do transporte público, a hashtag foi criada no Rio Grande do Sul. A intenção é que mulheres dividam o percurso para que não se sintam ameaçadas.

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asMaju d o sT

Lançada em apoio à jornalista Maria Júlia Coutinho, após sofrer comentários racistas na página do Jornal Nacional. Depois, outras atrizes negras também sofreram com comentários racistas, como Taís Araújo, Cris Viana e Sheron Menezes.

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FOTOS: CINESET.COM.BR

CULTURA

GÊNERO, DIVERSIDADE E PIPOCA!

Temas como igualdade de gêneros, diversidade e transgeneridade ganham cada vez mais força nas telonas. TEXTO: VINICIUS DO CARMO E NEWTON SOARES

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s amantes da sétima arte puderam observar uma espécie de “boom” de filmes e documentários com esse mote de 2014 para cá, saindo de um papel coadjuvante de produções independentes para ocupar papel principal de grandes produções. Prepare a pipoca! Listamos algumas produções de grande sucesso dos últimos três anos que dão ênfase aos temas igualdade de gênero, diversidade e trans10

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generidade nas salas de exibição. Leandro Colling, criador e coordenador do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA) faz coro à expressão “a arte imita a vida” para explicar esse fenômeno: “Isso aconteceu porque as grandes produções sempre precisam de temas novos (o que é uma dinâmica da própria indústria cultural), mas isso ocorre também porque a sociedade está debatendo mais os temas considerados tabus em

relação a gênero e sexualidade. Ou seja, o cinema provoca debates mas também sofre a influência dos debates que estão na sociedade”, explica. Colling destaca ainda a importância do papel dessas produções como formadoras de novas compreensões sobre valores no público que tem acesso aos filmes com essas temáticas. “Mostrar esses temas nas telonas é muito importante, especialmente quando as produções conseguem produzir outras


compreensões das pessoas sobre os temas abordados. Muitas vezes os filmes consolidam preconceitos, mas às vezes eles fazem com que as pessoas repensem seus valores e dogmas”.

A GAROTA DINAMARQUESA (2016)

Para começar, o esplendoroso filme do diretor Tom Hooper e estrelado pelos atores Eddie Redmayne (Einar Wegener/Lili Elbe) e Alicia Vikander (Gerda) baseado no romance homônimo de David Ebershoff. Chegou às salas brasileiras em fevereiro deste ano e conta a história da primeira transexual da história ao passar pelo procedimento de redesignação de gênero. Gerda e Lili, até então Einar, era um casal de pintores – Gerda uma pintora de retratos sem o mesmo sucesso de Einar. Um belo dia, uma modelo que Gerda aguardava para ser retratada não veio, então ela teve a ideia de ornamentar o marido Einar com vestes femininas para fazer um esboço: um vestido, meias e sapatos de salto. Tal atitude desencadeou memórias até então adormecidas em Einar, fazendo voltar à tona a personalidade feminina perdida desde a infância. O desejo de se vestir e se comportar como uma dama se tornou incontrolável e Einar virou Lili Elbe, “A Garota Dinamarquesa”. A partir daí, a trama tem contornos dramáticos ao mostrar Gerda aos poucos perdendo o marido para uma nova personalidade feminina. Com o risco de spoilers, vamos ficando por aqui. A obra é recomendadíssima!

AS SUFRAGISTAS (2015)

assistir a gênero, começando pelo direito ao voto em condições de trabalho e vida, questiona, fazendo um contraste a figura do homem quase sempre protagonista em filmes de história. A atriz Carey Mulligan interpreta Maud Watts, que trabalha (com o marido) em uma lavanderia desde os 12 anos e aos 26, sem nenhuma melhoria em condições de trabalho e vida questiona o seu papel submisso na sociedade juntando-se ao movimento sufragista por igualdade de gênero começando pelo direito ao voto. Um drama interessante.

CAROL (2015)

O longa acompanha o envolvimento entre duas mulheres, Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara), que se conhecem por acaso em uma loja de departamentos na Nova York dos anos 1950, com os preconceitos e ignorâncias da época em relação ao universo homossexual. Em um cenário difícil de assumir quem realmente era, Carol, mãe de uma filha, para se proteger da fúria alheia, camuflava sentimentos só percebidos por quem adentrasse seu universo. É para este mundo que a companheira Therese é atraída. É um filme mais “paradão”, exigindo paciência e um olhar mais atencioso do espectador durante toda a trama.

CLUBE DE COMPRAS DALLAS (2014) O filme retrata o movimento sufragista inglês que levou mulheres às ruas para exigir o direito feminino ao voto. Nunca é demais

Premiado filme estrelado por Matthew McConaughey, que vive o caubói, machão e eletricista Ron Woodroof e Jared Leto, que vive a travesti Rayon, mostra uma quebra de barreiras de alguém bem preconceituoso,

inicialmente. Na história, Rom Woodroof leva uma vida de esbórnia, regada a cachaça e pó, traficando drogas lícitas e ilícitas e transando sem proteção com mulheres. Após se machucar em um acidente de trabalho, seus exames de sangue informam que ele está contaminado pelo HIV. Começa aí um estudo próprio do machão em busca da “cura” da AIDS, até então desconhecida nos anos 1980 e a amizade com Rayon numa clínica de reabilitação. Imperdível!

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO (2014)

Do diretor Daniel Ribeiro, o filme traz um fio inicial bastante conhecido no cinema: o primeiro amor. O que faz ele estar aqui é o conflito existente dentro do personagem principal, que é deficiente visual, enxergar o amor nascendo por outro menino. Na história, Leonardo (Guilherme Lobo) leva uma vida como qualquer outro garoto da sua idade, apesar da preocupação excessiva da mãe, não dando margem a qualquer estereótipo. O conflito base do filme se resolve com Gabriel (Fábio Audi), novo colega de Leonardo, que, com tanto cuidado, faz a amizade despertar um romance entre os dois. JUNHO 2016

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COMPORTAMENTO

VAI TER GORDA! Domínio e aceitação do corpo feminino. TEXTO: CECÍLIA OLIVEIRA

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ILUSTRAÇÃO: KELLY BASTOW

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iscriminação estruturada e disseminada nos mais variados contextos socioculturais, consistindo na desvalorização, estigmatização e hostilização de pessoas gordas e seus corpos que não ocupam o atual padrão de beleza ditado pela sociedade, mais conhecido como gordofobia. Não é necessário nenhum esforço extraordinário para entender a gordofobia, a própria palavra indica um desconforto e repulsa contra pessoas gordas. Algumas posturas já estão enraizadas na nossa cultura, então a maioria das pessoas já emitem pensamentos gordofóbicos em algumas situações, como por exemplo, acham inaceitável uma mulher gorda usar biquíni na praia, usar uma roupa curta, ou uma roupa da moda. As pessoas gordas vivem cercadas de barreiras extremamente fechadas pela vigilância alheia, sempre atenta ao que devem vestir, comer ou como devem se comportar. A estudante de jornalismo, Rebeca Santos, conta que tem um certo problema em encontrar roupas que estão na moda do tamanho dela, mas isso não a impede de usar uma roupa curta ou um biquíni, “Os padrões de beleza não me limitam a nada, eu uso roupa curta, uso roupa apertada, eu não ligo para o que as pessoas pensam, eu ligo para o que eu penso, isso para mim é prioridade”. É importante dizer que má alimentação e sedentarismo não estão necessariamente ligados à obesidade, tendo um enorme

número de pessoas gordas ativas e saudáveis, além de pessoas magras com a saúde debilitada por diversos motivos. Rebeca, por exemplo, apesar de estar acima do peso, está em dia com sua saúde, “Sou a favor do se sentir bem, que é meu caso. Apesar de eu estar acima do peso, estou saudável, do ponto de vista clínico”.

A nutricionista e técnica em alimentos, Mayara de Carvalho, diz que os padrões de beleza mudaram muito nos últimos tempos, o que antigamente era sinônimo de saúde, hoje já não é mais, “Muitas mulheres demonstram uma queda de satisfação em relação ao corpo, chegando a desenvolver transtornos alimentares.


tivar outras mulheres a lutar contra o preconceito e a gordofobia”, releva a 1ª miss Plus Size da Bahia. A miss conta que o grupo luta pela conquista de mais políticas públicas como saúde, educação, lazer e, principalmente, acessibilidade, como no transporte público, que tem suas cadeiras e catracas apertadas. Lutam também por valores mais baixos e qualidade nas roupas do tamanho maior, mais emprego e respeito, além de uma lei para não só com as mulheres gordas, mas com as

pessoas gordas também e uma lei para punir os gordofóbicos, pois o preconceito, por muitas vezes, causa problemas psicológicos e morais nas pessoas que sofrem o bullying. Adriana, que sempre foi gorda, diz que quando era criança fazia dietas, não para perder peso, mas por questões de saúde, e que hoje mantém o hábito de comer frutas e verduras para ter uma alimentação balanceada, “Eu sempre me assumi como gorda, gordinha, plus e sempre fui bem resolvida comigo, não vou negar que sou um pouco tímida, mas isso não tem nenhuma relação com meu corpo”. O educador físico, Douglas Sampaio orienta que independente da mulher ser gorda ou magra tem que se preocupar com a saúde, o fato de ir para academia não significa que a mulher tem que emagrecer, mas manter uma vida saudável, “A grande maioria das mulheres que procuram a academia vão em busca do emagrecimento e, assim, adquirir o corpo perfeito. Mas ao mesmo tempo que isso é bom por ser um fator motivador para o exercício físico, pode ser ruim, porque a sociedade nos dita um padrão a ser seguido que às vezes pode ser impossível de atingir”. Adriana ainda complementa que o movimento não faz apologia à obesidade, mas que incentiva as pessoas a elevar sua autoestima, confiança e viver bem com o seu corpo. “Acredito que somos mais felizes e completos quando temos autoestima elevada e amor próprio. A sociedade é muito cruel com os gordos e precisamos dar um basta! Mostrar que o tamanho dos nossos corpos não define padrão algum. O padrão é ser feliz! “

FOTO: MILENA ABREU/REVISTA PLUS

Olhar-se no espelho não deveria ser um pesadelo. A dica é ficar longe dos discursos das revistas, dos ambientes ou das pessoas que desvalorizam você. Antes de fazer uma nova dieta milagrosa, muito restritiva, maluca, com remédios ou cirurgia, pense bem. Mude o foco e imagine o que você vai ganhar em qualidade de vida adquirindo hábitos alimentares saudáveis, comer com prazer é fundamental. Respeite seu corpo e tente encontrar o seu equilíbrio emocional e físico”. Pensando na autoestima e na aceitação da mulher gorda, um grupo de mulheres resolveu criar um movimento “Vai ter gorda, sim”, movimento que mostra e conscientiza a sociedade que a mulher gorda pode ser e vestir o que ela quiser, inclusive, o movimento tem ganhado força nas praias não só da capital baiana, mas de todo o Brasil. Para quebrar paradigmas de que a mulher que está fora dos padrões não pode usar biquíni, roupa da moda ou uma roupa curta. Adriana Santos, funcionária pública e 1ª miss Plus Size da Bahia, conta que sempre fez ações contra a gordofobia na Bahia, “A primeira caminhada foi em fevereiro de 2014, já participamos da conferência das mulheres, alguns protestos no dia 7 de setembro, participamos também de debates e roda de conversa sobre a mulher gorda”. Para fazer o primeiro encontro na praia, Adriana foi convidada por uma blogueira e, para esse primeiro ato, colocaram o nome “Vai ter gorda na praia”, “Entendemos que a mulher gorda não tem apenas a necessidade de exibir seu corpo e, sim, de conquistar outros espaços/lugares e, por isso, começamos a nos organizar para mobilizar e incen-

“Autoestima elevada e amor próprio” são as dicas de Adriana Santos para ser feliz.

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CULTURA

“Belas, recatadas mostram o empod BELAS, RECATADAS E DO LAR. Ou não. Hoje elas são o que quiserem ser. Ou melhor, nós somos. TEXTO: CAROLINE LINA

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e do lar”: Séries que oderamento feminino

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epresentatividade, mulheres empoderadas como protagonistas, desconstrução de padrões e debates sobre a desigualdade de gênero estão se tornando assunto cada dia mais corriqueiro nas séries de TV. As personagens, fortes e guerreiras, além de serem uma fonte de inspiração e representação, têm muito a ensinar a tod@s. Após o grande boom pelas buscas dos termos “feminismo”

e “empoderamento” desde o início de 2014, pode-se dizer então: As mulheres têm invadido todos os meios e locais, sem medo! E claro que isso refletiu nas novas produções culturais. Assim, contribuiu para que o feminismo alcançasse lugares ainda não atingidos, levando diversão e cultura unidos ao conhecimento, seja com heroínas, profissionais capacitadas, transexuais e com mulheres comuns, que mesmo comuns não deixam de ser extraordinárias.

Saindo de papéis de apoio, de acessório, papéis inferiores aos dos homens, com menos visibilidade e importância, a mulher hoje foge dos estereótipos firmados pela sociedade patriarcal, sendo mostrada com seus próprios desejos e objetivos, passando a ser protagonista e essencial às tramas. Sendo assim, organizamos uma lista com 6+3 séries para você ver, no período de 2014 a 2016, se descobrir e se sentir linda e empoderada.

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CULTURA 1. HOW TO GET AWAY WITH MURDER (2014) - ADVOGADA: sua empresa, que competem por um troféu que os livrará de qualquer prova aplicada pela professora, além de ajudá-la nos seus casos jurídicos. Annalise Keating é forte, inteligente, manipuladora, sensual, maternal e fria ao mesmo tempo, negra e merecedora de todas suas conquistas. Ao longo das duas temporadas da série, foram abordados temas como

abuso sexual e psicológico (inclusive, sofrido pela protagonista quando criança), feminicídio, homossexualidade e preconceito racial. Viola Davis foi a primeira mulher negra a ganhar o EMMY de melhor atriz de série dramática através desse papel, em 2015. Vale ressaltar que quando Davis ganhou a premiação só tinham ido ao ar apenas nove episódios da série.

FOTOS: REPRODUÇÃO

A Série de Shonda Rhimes – famosa por criar séries cheias de mulheres fortes e com representatividade racial – conta a história de Annalise Keating (Viola Davis), uma advogada de defesa famosa por nunca perder um caso em sua carreira. Professora de Direito Criminal na Middleton University, Annalise disponibiliza um estágio a cinco estudantes na

2. MADAM SECRETARY (2014) - PESSOA COMUM / SECRETÁRIA DOS EUA: A televisão, na história dos Estados Unidos, nunca teve tantos exemplos femininos fazendo política ou marcando presença na administração pública. É o caso da série da CBS produzida por Barbara Hall e Morgan Freeman, que conta a história de Elizabeth McCord (Tea Leoni), uma professora universitária e ex-analista da CIA que tinha uma vida pacata cuidando de seus três filhos adolescentes ao lado do marido até receber e aceitar o inesperado convite 16

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de ser secretária dos Estados Unidos. Já na Casa Branca, ela lida com as dificuldades de se fazer política e, principalmente, de conquistar espaço num ambiente ainda dominado por homens. Lida com o desrespeito, falta de reconhecimento, as investidas dos chefes de Estado, resolve os problemas e as crises e ainda cuida da família. A série mostra o crescimento da personagem e o quanto ela vai ficando forte e empoderada ao longo dos episódios.


3. JESSICA JONES (2015) - ANTI-HEROÍNA: Criada, escrita e desenvolvida por Melissa Rosenberg, a série original da Netflix foi baseada em quadrinhos para adultos, pouco conhecido, da Marvel e trata sobre relacionamentos abusivos e estupro, mas sem apelar para a violência sexual explícita. A intenção da série é mostrar os danos que o estupro e o abuso causam e a vida após estes acontecimentos. A série conta a história de Jessica Jones (Krysten Ritter), uma investigadora falida, que adquiriu força sobre-humana após um acidente. Ela luta contra Kilgrave (David Tennant), que tem o poder de controlar mentes e a manteve em cárcere por meses. Ele é o tipo de homem abusivo comum: sedutor, manipulador, ameaçador e violento, chantagista e es-

tuprador, além de fazer com que suas vítimas se sintam culpadas pelo que ele as obriga a fazer. Jones foge totalmente dos padrões de “bela, recatada e do lar”: Não é nada certinha, não é fofa. É alcoólatra, rude, egoísta e faz escolhas moralmente questionáveis. Mas também é forte e inteligente, fugindo dos padrões das HQs, que o super-herói precisa estar fantasiado, lutando contra a elite e/ou vilões de outro planeta. Jessica Jones é uma pessoa normal, não caracterizada, e sofrida, com traumas e pesadelos.

3. BROAD CITY (2015) - PESSOAS COMUNS: Produzida por Amy Poehler – atriz, diretora, produtora, humorista e feminista –, a série conta a história de duas melhores amigas, Abbi (Abbi Jacobson) e Ilana (Ilana Glazer), na casa dos 20 e poucos anos aprontando todas de forma descontraída por

Nova York. A série é repleta de humor que subverte as expectativas, que ri não da vítima, mas do algoz, de uma forma leve e inteligente. Broad City prova que o humor feminino não tem limites, não tem pudores e é genial. Além do mais, mostra a realida-

de, que a mulher é comum, fala palavrão, peida, arrota, que ela pode não estar sempre maquiada e muito arrumada, e ninguém é sexy e feminina o tempo inteiro, descontruindo estereótipos bobos que ainda prosperam em nossa comunidade.

4. UNBREAKABLE KIMMY SCHIMITH (2015) - PESSOA COMUM: Mais uma série original Netflix para a lista! Criada por Tina Fey, mulher empoderada que diz que mulher pode fazer uma boa comédia com piadas inteligentes tão bem quanto os homens. Kimmy (Ellie Kemper), a protagonista, foi sequestrada e aprisionada por um pastor maluco e abusivo num bunker durante 15 anos, é resgatada e tenta recomeçar a vida em Nova York longe do seu passado.

Kimmy é forte, cheia de vida, com vontade de fazer as coisas acontecerem, procura independência dos homens para se reerguer na vida. Apesar da falta de representatividade, a série é inpiradora. Kimmy empodera todas as mulheres ao seu redor, dizendo para que elas sejam quem quiserem ser, não ficarem com homens que não as mereçam só para não ficarem sozinhas. Kimmy inspira

todas a serem “inquebráveis” como ela, ter opinião e ter voz, vestir e usar o que quiser. Com personagens secundários como um gay negro, socialite de Manhattan, velha, abre caminhos para as piadas e o humor com temas como homofobia, preconceito de classes, feminismo, machismo, mas rindo do opressor, não do oprimido como é de costume em séries de comédia – sitcoms. JUNHO 2016

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CULTURA 5. EMPIRE (2014) - EX-PRESIDIÁRIA: A série americana do FOX que fala sobre os magnatas do Hip Hop surpreendeu ao revelar seu lado feminista. Conta a história de Lucious Lyon (Terrence Howard), um rapper que saiu das ruas para o estrelato. Dono da uma gravadora Empire, ele construiu um império no meio musical. Cookie Lyon (Taraji P. Henson), negra e encara questões raciais, é forte e guerreira. Ficou 17 anos presa para que seu esposo, Lu-

cious, alcançasse sucesso no Hip Hop. Além de abandoná-la durante todo o período em que esteve presa, sem visitas e sem ver os três filhos, quando sai, ele está com outra mulher, mais jovem, e a deixa sem nenhum tostão. Cookie, agora fora da prisão, vai lutar para reconquistar tudo que é seu de direito, inclusive o amor dos filhos. A personagem sai de secundarista para ser a personagem principal da trama, fa-

zendo com que o enredo gire em torno dela. Além da emporada Cookie, a série conta com muitas outras mulheres, sendo também complexas e interessantes e, boa parte, negra. A série que foi o drama mais assistido dos Estados Unidos em 2014, conta com participações mais que especiais de mulheres fortes, como Courtney Love, Raven-Symoné, Gladys Knight, Rita Ora, Alicia Keys e Kelly Roland.

6. SENSE 8 (2015) - DIVERSIDADE: Série original da Netflix, a trama foi criada e dirigida pelas irmãs Lana e Lilly Wachowski (criadoras da trilogia Matrix, que na época eram irmãos Larry e Andy Wachowski). Conta a história de oito pessoas ao redor do mundo que se veem repentinamente conectadas. Elas ouvem e veem o que em outros países, os sensates ouvem e veem, além de usar as habilidades uns dos outros. A diversidade do elenco, os relacionamentos não-héteros são tratados de forma natural e questões de gênero e sexualidade são centrais na trama. Com mulheres fortes, a série traz 18

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oito sensates, sendo quatro mulheres: Kala Dandekar (Tina Desai) é uma indiana que fez faculdade e é cientista, diferente de muitas em seu país; Sun Bak (Doona Bae), economista formada e filha de um poderoso empresário, não tem o reconhecimento do pai pelo fato de ser mulher, mas é lutadora em ascensão que sofre com o machismo na

Coréia; Nomi Marks (Jamie Clayton - uma atriz trans), é uma mulher transexual, lésbica, ativista política e hacker que luta pelos direitos LGBT; e Riley Blue (Tuppence Middleton), uma DJ que fugiu de casa com medo de ser amaldiçoada. O preconceito, transexualidade, sexismo e direitos das mulheres são pontos da série tão acalmada pelo público.


E como bônus mais três series que não estrearam em 2014, mas que fazem muito sucesso e inspiram “as minas” até hoje: +1: ORANGE IS THE NEW BLACK (2013) - DIVERSOS TIPOS DE MULHERES: Mais uma série original Netflix que tem mulheres negras, brancas, gordas, magras, altas, baixas, trans, cis, héteros, lésbicas…Muitas mulheres mesmo. A história mistura drama e comédia ao mostrar o cotidiano de

uma prisão feminina norte-americana. Trata de temas como diversidade sexual, gênero, raça e faixa etária, além de mostrar a diversidade de corpos, geralmente, pouco vista em outras séries com tamanha participa-

ção feminina. Aqui, não podemos citar apenar a protagonista, Piper Chapman (Taylor Schilling), pois todas as mulheres mostram ensinamentos, empoderamento e representatividade.

+2: SCANDAL (2012) - RELAÇÕES PÚBLICAS: Mais uma série de Shonda Rhimes e, desta vez, com mulher negra e política. Olívia Pope (Kerry Washington) é uma mulher poderosa, dona de si, dona de uma empresa de gerenciamento de crises e, principalmente, alguém que

sabe o que quer e não tem medo de se impor. Como feminista, Olivia não se importa com a opinião dos outros, faz o que quer, do jeito que quer e na hora que quer e esse é um dos fatores que tornam a série tão única e de grande su-

cesso da TV norte-americana. Scandal trata de questões muito importantes como gênero, raça e sexualiadade em suas entrelinhas, porque não é preciso fazer um discurso inflamado para se fazer uma série feminista.

+3: ORPHAN BLACK (2013) - DIVERSOS TIPOS DE MULHERES: Ficção científica feminista. É isso que Graeme Manson e John Fawcett criaram em Orphan Black para a BBC Americana. A série conta a história das clones, todas interpretados por Tatiana Maslany, e trata as questões sobre implicações morais e éticas da clonagem humana e seus efeitos sobre questão de identidade pessoal. Todas as clones têm o mesmo rosto, mas as personalidades são diferentes e elas

não se resumem aos estereótipos. Possuem uma construção emocional complexa, lidando com momentos de fragilidade, mas combatendo os problemas de forma muito corajosa e inteligente. Os homens em Orphan Black são personagens secundários, até tem clones masculinos, mas pouco trabalhados, já que a intenção da série é falar de ficção científica para mulheres feitas também por mulheres. JUNHO 2016

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RELIGIOSIDADE

“O AMOR NÃO FAZ O MAL CONTRA O PRÓXIMO” (ROMANOS 13:10)

As questões de gênero ainda são um tema polêmico para as principais religiões cultuadas em todo o Brasil, apesar do avanço nas discussões acerca do assunto. TEXTOS: BRUNO GANEM E NATHÁLIA NASCIMENTO

IGREJA CATÓLICA

Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger é o mensageiro do Catolicismo acerca do tema, nesta reportagem. A dois anos de completar meio século a serviço da Igreja Católica, Dom Murilo fala sobre a complementaridade dos sexos, ensinamentos de Cristo e da importância do res20

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ILUSTRAÇÃO: FOCOROSOARTENATAL.

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specificamente na Bahia, apenas 11% da população se declara sem religião ou ateu, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre os 89% restantes, as cinco crenças mais cultuadas são de vertentes católica, evangélica, espiritualista, candomblecista e oriental. Nossa missão, então, é mostrar para você, leitor baiano, como essas doutrinas se posicionam diante da diversidade de gênero e de identidade sexual, já que Salvador é a quarta capital com o maior número de gays e transexuais no país, de acordo com a Pesquisa Mosaico. Para tanto, selecionamos uma Igreja de cada vertente citada e conversamos sobre o assunto com seus representantes. O resultado é instigante e revela a face humanística das doutrinas, que, apesar de diversas, são unânimes quanto ao primeiro ensinamento: “ama e respeita o teu próximo”. Confiramos, então, o que dizem as Igrejas Católica, Batista e Messiânica, o Centro Espírita e o Candomblé.


FOTO: INFOVATICANO

Dom Murilo Krieger, Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil.

peito e delicadeza no trato com gays ou transexuais. “No caso sinamentos que deve transmitir da homossexualidade, que pos- a todos. Não podemos manipuo semelhante. Segundo o Arcebispo, a Igreja sui gênese psíquica inexplicada, lar tais ensinamentos para nos católica compreende que sexu- não procede uma complemen- adaptar ao gosto da época ou alidade é uma questão pessoal, taridade afetiva e sexual ver- para atrair pessoas”, complecabendo a cada um seu autoco- dadeira”, pontuou, revelando a menta. nhecimento e aceitação. Porém, desaprovação da Igreja. Quanto ao acolhimento de apesar desse entendimento, Apesar do impasse, o Arce- indivíduos homossexuais ou Dom Murilo afirma que transexuais, Dom Muria Igreja prioriza, enlo é enfático: “Respeito, “A Igreja não é contra quanto ideal de família, delicadeza e compaixão. ninguém. Ela recebeu de o relacionamento heteÉ preciso evitar todo rossexual. “A diferença sinal de discriminação Jesus Cristo um conjunto e a complementaridade injusta. Para a Igreja, de ensinamentos que deve física, moral e espirituessas pessoas também al estão orientadas para transmitir a todos. Não podemos são chamadas para reaos bens do casamento e lizar a vontade de Deus e para o desabrochar da manipular tais ensinamentos para buscar a santidade. Porvida familiar”, ressalta, tanto, podem e devem nos adaptar ao gosto da época afirmando que esse crise aproximar, gradual e ou para atrair pessoas” tério está baseado na saresolutamente, da pergrada escritura, na anfeição cristã”. Segundo tropologia cristã e nas tradições bispo garante que a Igreja Ca- ele, o grande objetivo do catohistóricas. tólica não é contra nem a favor licismo é disseminar a palavra Dom Murilo afirma que a do casamento homoafetivo e de Deus e a igualdade entre os Igreja reconhece os gêneros afirma que a não realização de irmãos. masculino e feminino com igual tal cerimônia se dá por quesTentando refletir os ensinadignidade por sua correspon- tões históricas. “A Igreja não é mentos da Igreja, Dom Murilo dência na manutenção da fa- contra ninguém. Ela recebeu de faz uso de uma passagem bíblimília, o que não é garantido aos Jesus Cristo um conjunto de en- ca: “Acrescento uma caracteJUNHO 2016

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FOTO: BRUNO GANEM

humanidade, representado no primeiro homem (Adão) e na primeira mulher (Eva). Adão e Eva são colocados como paradigma para as relações humanas. A proposta é que homem e mulher se completariam, um no outro, no propósito criativo do Senhor para a família”. Mesmo diante de um posicionamento contrário à homossexualidade, o pastor afirma que a Igreja enxerga todas as pessoas da mesma maneira e que está pronta para recebê-las, sem distinção. “Entendemos que todas as pessoas são iguais: Igualmente pecadoras, igualmente necessitadas da Pastor e gestor da Pastoral da Juventude da Igreja Batista do Sião, Lázaro Sodré. Graça de Deus e igualmente De acordo com Lázaro, a amadas por Ele. Sendo assim, rística do modo de ser e agir de Jesus: quando lhe apresentaram Igreja Batista toma a Bíblia preferimos não rotular ou conuma adúltera – e poderiam ter- como um manual de fé e práti- denar ninguém, mas sim ajudar -lhe apresentado uma pessoa ca, que retrata como devem ser aqueles que escolhem camicom outro comportamento, ele as relações e o comportamento nhar conosco”, pontua Lazáro, a acolheu. Não fez de conta que humano, inclusive a sexualida- se referindo ao desejo da Igrenão percebeu seu comporta- de. “O sexo, de acordo com a ja em trabalhar como entidade mento. Pelo contrário, demons- Bíblia, deve acontecer em uma terapêutica, em auxílio daquetrou conhecer claramente como relação heterossexual, mono- les que querem se aproximar de ela havia se comportado. No gâmica e entre pessoas adultas. Cristo. final, quando os acuMuito embora a Igreja sadores foram embora, Batista se mostre aberta ele lhe disse: “Nem eu “Pregamos a ampla tolerância e à todos, Lázaro diz não te condeno. Vai e não ter conhecimento sobre a amabilidade, mas respeitamos tornes a pecar!”. nenhum fiel homo ou os ensinamentos e a conduta de transexual no templo Por fim, Dom Murilo destacou a relevância nossa Igreja, fundamentados nas onde atua. Segundo ele, do respeito às opinio único momento em leis da natureza e nos princípios ões distintas. “Pensar que há intervenção da de forma diferente não Entidade com relação a que regem o nascer do ser significa ir de encontro. essas pessoas é quando humano” Uma atitude de respeito estas exercem papel de é também um pedido de liderança ou destaque. reciprocidade”. “O objetivo, nesse caso, Assim, o que foge a este mode- é de preservação. Sabemos que lo, não cumpre o que acredi- a imagem pessoal do indivíduo IGREJA BATISTA Para falar do posicionamen- tamos ser o ideal de Deus para fica exposta e, por isso, a nossa to da Crença Batista quanto à nós”, explica o Pastor, justi- postura é avaliar cada caso de homossexualidade e à transe- ficando a visão contrária da fé forma pessoal e o mais sigiloxualidade, juntou-se a esta re- Batista à homossexualidade. so possível. Sabemos que cada Ratificando esse posiciona- indivíduo tem singularidades e portagem o pastor e gestor da Pastoral da Juventude da Igreja mento, o líder da Pastoral da Ju- respeitamos isso”, esclarece. Batista do Sião, Lázaro Sodré. ventude se refere a uma passaEle revela que esse assunto é Congregando há 11 anos pela gem bíblica: “O primeiro livro comumente tratado nas Escolas doutrina evangélica, Pastor da Bíblia é chamado de ‘Livro Bíblicas Fóruns e Debates realiLázaro esclarece a visão bíblica dos Inícios’. Nele, encontra- zados pela Igreja. Mas, apesar da fé Batista e fala sobre o amor mos o relato poético da criação das discussões, o casamento de todas as coisas, inclusive da entre pessoas do mesmo sexo e como princípio. 22

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a poligamia não são permitidos na fé Batista. “Não somos contra as pessoas, porém o nosso desejo, enquanto seguidores de Cristo, é de sermos imitadores dEle, vivendo aquilo que a Bíblia nos desafia a ser”, ressalta o pastor garantindo que o posicionamento contrário é à forma de se relacionar afetivamente e não às pessoas. Complementando, o pastor defende: “Nossa bandeira é o amor. A bandeira do amor nos ensina a respeitar sempre, acolher quem deseja caminhar conosco e corrigir e orientar, quando necessário. Não levantamos bandeira em oposição a ninguém”.

IGREJA MESSIÂNICA

Ministro André Oliveira, à frente da Sede Garcia da Igreja Messiânica do Brasil.

André afirma que todos são bem-vindos à Igreja messiânica, independente da orientação sexual ou identidade de gênero. Segundo ele, o que de fato é priorizado na fé messiânica o cumprimento da missão dada a cada ser. “Existem fiéis [homossexuais] que frequentam e sempre são recebidos da me-

mos os ensinamentos e a conduta de nossa Igreja, fundamentados nas leis da natureza e nos princípios que regem o nascer do ser humano”, ressalta o ministro.

A missão de falar sobre a visão desta religião quanto à identidade de gênero e condição sexual é do ministro André Oliveira, à frente da Sede Garcia da Igreja Messiânica do CENTRO ESPÍRITA Brasil. André fala sobre uma Quem nos relatou sobre o provável explicação à homosentendimento do espiritismo sexualidade, do proacerca da homossexupósito de cada ser e do alidade e da transexuaideal de família para a lidade foi a membro da “Depois de sucessivas crença, além de ressalConfraternização Espítar a importância da torita Bahiana, Hortênencarnações com um mesmo lerância. cia Carvalho. Espírita gênero, o espírito adquire Segundo ele, a Relihá mais de duas décagião Messiânica possui certos hábitos e, ao reencarnar das, Hortência fala de influência espiritualista sexual, promisnum sexo oposto, não se sente energia e crê na reencarnação e cuidade e reeducação, vida após a morte, aspara explicar o posicioreconhece no novo corpo” sim como o espiritismo. namento de sua douA partir desse conceitrina.Hortência iniciou to, o ministro ressalta nossa conversa falando que as condições de cada ser lhor forma, pois todos são fi- da imortalidade do espírito e são determinadas antes mes- lhos de Deus, com uma missão da função didática das encarmo do nascimento e revela o a cumprir aqui na Terra. Quan- nações. Segundo ela, o espírito entendimento de sua fé sobre do alguém se reconhece através não possui sexo, somente assua homossexualidade: “O espí- de uma nova condição estética me um gênero enquanto encarrito que reencarnou inúmeras o tratamento não muda. Pro- nado. “O espiritismo não tem vezes como mulher, pode, oca- curamos não alterar a convi- um posicionamento condenasionalmente, reencarnar como vência”, pontua André. tório aos gays e transexuais. O homem e vice-versa. O estraApesar desta conclusão, a espírito, fonte da vida, não tem nhamento e a sensação de não religião Messiânica segue uma sexo, apenas assume a forma de pertencimento são uma pos- linha patriarcal e prega um homem ou mulher durante as sibilidade, devido ao apego às ideal de família heterossexual. encarnações. Ou seja, não se é encarnações anteriores”. “Pregamos a ampla tolerância mulher ou homem, se está muDe posse desta ideologia, e a amabilidade, mas respeita- lher ou homem”. Ela compleJUNHO 2016

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Mãe Ângela, Yakekerê do Terreiro do Gantois.

menta dizendo que a determinação do sexo está diretamente ligada à necessidade de cada indivíduo para evoluir espiritualmente. Segundo a espírita, um indivíduo gay ou transexual precisa passar por essa condição para aprender a respeitar a igualdade dos gêneros. Ela esclarece que uma pessoa que reencarna sucessivas vezes em um gênero e não respeita o seu oposto, possivelmente reencarnará com o sexo que desrespeitou, para compreendê-lo e respeitá-lo. “Geralmente essas pessoas erraram muito sexualmente, geram distúrbios afetivos em seus semelhantes. Não existe nenhum estudo definido acerca desse assunto, mas baseados na doutrina espírita, podemos chegar a essa conclusão, que quem desrespeitou a energia sexual tende a viver num outro corpo para se reeducar sexualmente”, esclarece. Já a preferência sexual e os 24

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hábitos são herdados de uma encarnação para outra, justificando a não aceitação no novo corpo, explica Hortência. “Depois de sucessivas encarnações com um mesmo gênero, o espírito adquire certos hábitos e, ao reencarnar num sexo oposto, não se sente reconhece no novo corpo”. A fim de aliviar esta dor da não aceitação, a espírita afirma que “nesse caso, o mais prudente seria a abstenção sexual. Mas quando isso não é possível, é preferível que este indivíduo opte pela monogamia”. Hortência afirma, ainda, que a evolução do espírito é diretamente impactada pelo uso da energia sexual. “Essa é uma energia muito poderosa. Não pode ser usada de forma egoísta e banal, apenas pelo prazer, sem que haja amor e afetividade”, pontua. Ela enfatiza também que “em nenhuma das relações, seja heterossexual ou homossexual, deve haver pro-

miscuidade, apesar deste comportamento ser inerente ao ser humano, independente de sua orientação sexual”. Finalizando, ela assegura: “O sexo é algo positivo quando feito por amor. Não somos contra as relações entre pessoas do mesmo gênero, ou a qualquer outra. Desejamos somente que exista afetividade e respeito, que sejam relações monogâmicas e fujam da deterioração da energia sexual”.

CANDOMBLÉ

A representante do Candomblé nesta empreitada é a Yakekerê do Terreiro do Gantois, Mãe Ângela. Na linha de sucessão do comando de um dos Terreiros de maior representatividade religiosa e cultural no Estado, Mãe Ângela enfatiza a relevância da conduta de cada um, do respeito e da fé, acima da sexualidade. Historicamente, o Candomblé é conhecido como um redu-


to ao público homossexual (Lades, 1967). Mãe Ângela explica que esse título é comumente atribuído à doutrina pelo fato da religião olhar às pessoas com naturalidade, sem distinção. “A orientação sexual não influencia em nada. Isso pertence somente ao indivíduo. A única exigência [feita no Candomblé] é em relação à conduta, que precisa ser condigna com a religião e a espiritualidade dos Orixás e a postura na sociedade. A fé, a dignidade e o respeito é que são importantes”, destaca. Segundo ela, a religião Candomblecista preza, acima de tudo, a junção das pessoas, no intuito da ajuda e do acolhimento. Os visitantes e frequentadores são livres para revelar ou não sua orientação sexual e, de uma forma ou de outra, serão recebidos e respeitados. “Não exigimos carteirinha de nada. A casa de Candomblé visa o acolhimento, o respeito pelo ser humano, pois quem nos procura está necessitando de uma orientação espiritual, de uma ajuda na saúde”, relata Mãe Ângela, que confirma o grande número de seguidores gays e transexuais no Candomblé. Até mesmo através de sua atuação, o seguidor pode afirmar sua sexualidade no Candomblé, se assim preferir, revela Mãe Ângela. Isso porque, é comum que os adeptos exerçam um cargo sacerdotal no terreiro que frequentam, podendo utilizar-se dele para legitimar sua orientação sexual. A Yakekerê fala, ainda, da urgência de desmitificar o assunto entre as doutrinas religiosas: “A relação entre semelhantes sempre existiu. Talvez, hoje em dia, os homossexuais e os transexuais tenham mais liberdade de expressão”. E finalizando enfatizando a importância da tolerância. “A dignidade é o respeito são os preceitos principais”, afirma.

DESMITIFICANDO Apesar das diferenças conceituais, todas as doutrinas afirmam pregar o amor e o respeito ao próximo como ideal de conduta. Apesar disso, não são insólitos os casos de segregação aos gays e transexuais que tentam se integrar às práticas religiosas. Para entender melhor essa conjuntura, convidamos o sociólogo e pesquisador em teologia, Ricardo Aragão, que nos ajudou a contextualizar esse contrassenso. Nosso convidado incorpora esta reportagem, falando em convenções históricas, construção dos códigos religiosos e a interpretação destes. Logo de início, Ricardo enfatiza a importância de diferenciar as religiões. Para explicar sobre a leitura das doutrinas quanto a homossexualidade e a transexualidade, ele as distingue quanto a concepção de sua crença, basicamente em politeístas e monoteístas. “As religiões politeístas lidam melhor com a diversidade. Não têm problema com relacionamentos homoafetivos, muito pelo contrário. [Nesses casos], geralmente têm deuses e entidades que refletem esse comportamento. O problema, nós vamos encontrar nas religiões monoteístas, que vão, geralmente, lidar com um apelo ético”, esclarece. Segundo ele, isso se justifica, principalmente, pela representação das divindades de cada grupo religioso. “As religiões monoteístas estabelecem certas regras e padrões, nos quais a própria divindade, por exemplo, geralmente, é homem, velho, heterossexual e machista. Todo mundo deve, então, responder a este modelo predefinido de ser e estar no mundo, que seria baseado na família original criada por essa divindade”, pontua Ricardo que acrescenta ainda que, por esse modelo, “a função da união [afetiva] seria apenas a reprodução”. Para o sociólogo, é essa visão essencialista que alimenta os estereótipos padrão de masculinidade e feminilidade. “Aqueles que rompem o modelo predefinido estão indo de encontro à vontade da divindade. Por isso, eles seriam passíveis de punição e todos aqueles que seguem esta divindade devem repelir esse comportamento e tentar convertê-lo ao comportamento normal, de acordo com a religião”, justifica. Apesar de reconhecida a autocracia das doutrinas, Ricardo salienta que a interpretação dos fiéis é, também, um fator determinante à concepção dos códigos religiosos. “Por outro lado, os códigos religiosos sempre são atualizados, vivenciados e interpretados pelos fiéis. Geralmente, isso varia de acordo com o grau de intensidade da adesão desse fiel a esses códigos. E, claro, esse fiel vai interpretar os códigos religiosos de modo que estes atendam ao seu interesse”. O pesquisador conclui que a manutenção desses códigos é uma via de mão dupla, que acomoda o interesse dos fiéis e dos líderes religiosos. “Numa sociedade em que o direito de herança é tido como mérito e não como um privilégio que produz desigualdade, essas religiões de matriz monoteísta-ética vão defender o princípio da família original. Nesse sentido, as interpretações se estabelecem a partir dos interesses dos líderes religiosos e, também, dos fiéis e das classes médias, que acabam se aproximando dessas doutrinas”, finaliza. JUNHO 2016

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POLÍTICA

ATÉ QUE A MO

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ORTE NOS SEPARE Não é crime passional é FEMINICÍDIO! Terrível realidade. A cada 2 horas uma mulher é assassinada por motivos fúteis e torpes.

FOTOS: HELOISE NASCIMENTO

TEXTO: ELAINE MENDES

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cada hora e meia, uma mulher é assassinada por um homem no Brasil, apenas por ser mulher. Cristiana Ribeiro, Irleide Oliveira, Lúcia Miguel, Daiane Reis, Lindanir Nunes: uma rápida busca em dois grandes portais de notícias da Bahia nos traz cinco vítimas das últimas vinte e quatro horas (enquanto escrevo esse texto) – e essas são apenas as que chegaram à grande mídia. É a esse crime que dá-se o nome de feminicídio, tradução de femicide, termo mais usado na América Latina. O termo passou a ser reconhecido principalmente em março de 2015, com a sanção da lei que o tornou uma qualificadora do

homicídio, mas ainda é pouco discutido fora de círculos especializados, como os do Direito e da militância feminista, onde surgiu originalmente. Os números de mortes chocam e causam questionamento e, embora não haja uma origem única, podemos buscar respostas em nossa história: “Antigamente o homem era dono da mulher ao casar, podia bater, surrar, até matar sem consequências. O machismo está arraigado na nossa cultura, em que o homem teve o poder durante toda nossa história”, contextualiza a superintendente de políticas para as mulheres de Salvador, Mônica Kalile. O Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) mostra que as mulheres negras

representam 61% das vítimas de feminicídios no país. Além do contexto histórico do Brasil, Mônica destaca as motivações da violência de gênero em si: “Não é por acaso que a violência contra a mulher existe. Não é por causa de distúrbios mentais dos homens ou de uma vontade incontrolável de sexo, por psicopatologias, ou mesmo, digamos, porque esses conflitos seriam comuns a relacionamentos”, enfatiza. Segundo ela, a violência é uma maneira de se adestrar as mulheres para que elas se mantenham numa posição de inferioridade. Seria por isso que o ápice de um contínuo ou de uma escalada crescente de violência é a morte de algumas mulheres.

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONJUGAL TEM UMA RELAÇÃO MUITO ÍNTIMA COM O FEMINICÍDIO.

que colocam a autoestima dela lá para baixo, que fazem com que ela não se enxergue mais como gente, muito menos como detentora de direitos”, diz Estênio Cardoso, advogado criminalista. Comentários machistas e humilhantes disfarçados de observações bem-humoradas e ciúme doentio com aparência de zelo e cuidado são armas frequentemente utilizadas por homens para violentar uma mulher, mas não são as únicas. Tirar dela o direito de ser, fazer ou ter algo também é uma grande violência. O processo de violência

doméstica, geralmente, não acontece da noite para o dia, mas de forma progressiva. Durante uma discussão o homem segura o braço da companheira com mais força, em outro momento lhe da um empurrão... E são estas agressões que evoluem para um quadro de es pancamento mais grave. Mais da metade das mulheres vítimas de violência doméstica já foram agredidas fisicamente. O último passo do agressor, que fecha o ciclo da violência, é o suposto arrependimento. “Ele a agride fisicamente e ela, num momento de raiva, pensa em procurar por

Aproximadamente uma em cada cinco brasileiras reconhece ja ter sido vítima de violência doméstica ou familiar provocada por um homem, de acordo com o DataSenado. Isto, no entanto, não quer dizer que elas foram ou são violentadas fisicamente todos os dias. Este tipo de agressão costuma acontecer depois de uma série de investidas psicológicas contra sua integridade mental. “O homem diz coisas 28

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ajuda. Mas pouco tempo após espancá-la ele diz se arrepender e promete que aquilo não acontecerá novamente, assumindo o compromisso de mudar para não perdê-la. Daí, o casal faz as pazes e ele realmente passa um tempo sem agredi-la”, conta a psicóloga Ana Maria Rodrigues. Mas a promessa não dura muito e a violência psicológica começa novamente. Segundo o advogado Estênio, a intensidade das agressões aumenta de um ciclo para o outro. Neste contexto, o risco de um feminicídio cresce enquanto esta mulher não conseguir romper com a relação abusiva – mas ainda que ela seja capaz de buscar a separação, os riscos à sua vida só tendem a aumentar. “As mulheres ficam mais vulneráveis ao feminicídio íntimo, aquele que acontece nas relações conjugais, quando querem se separar e o companheiro não. O período de maior risco seria durante os meses que antecedem e sucedem a tentativa”, enfatiza Estênio. Formalizar uma denúncia, buscar por ajuda de familiares e amigos ou tentar a separação, no entanto, não são decisões imediatas nem fáceis de serem tomadas por qualquer mulher. “Elas sofrem vários episódios de violência até que consigam tomar coragem para romper o silêncio. Seja porque não dispõe de mecanismos emocionais, psicológicos ou financeiros para tal, ou porque é muito difícil para nós, mulheres, que crescemos com o ideal de casamento perfeito, do filho próximo aos pais, da família unida, deixar de lado todas essas representações sociais de um projeto de vida ideal e denunciar um homem que, na maioria das vezes, ela amou ou ainda ama, que é o pai dos seus filhos”, diz Mônica Kalile. Sem contar o medo, a vergonha de

expor a si mesma e a privacidade da família, além da falta de credibilidade na justiça, o desconhecimento de seus direitos e da compreensão dela, mulher,

da aposentada. Hoje ela ainda tem vergonha de admitir que foi vítima de violência doméstica, não o denunciou e convivem juntos até hoje. Alice teve que superar o constrangimento e a humilhação, ela prefere se esconder e não revelar o drama que vivenciam diariamente. “ Eu apanhava todos os dias. A agressão era física e psicológica. Ele me ameaçava o tempo todo. Se eu não parasse de gritar ele me mataria. Tinha que fazer o que ele mandava, todas as vontades dele. Ele era muito agressivo, autoritário nas palavras e manipulador. Caso eu fosse contra a alguma opinião, ele me batia e às vezes queimava a minha mãe com garfo”, disse a aposentada. Nenhuma mulher está a salvo da violência de gênero e nós precisamos falar sobre isso. Se você é ou foi vítima ou, ainda, se conhece uma mulher que passou por um quadro de violência, pode procurar por ajuda ligando para o 180. A Central de Atendimento à Mulher está disponível 24 horas, todos

“ Eu apanhava todos os dias. A agressão era física e psicológica. Ele me ameaçava o tempo todo. Se eu não parasse de gritar ele me mataria. Tinha que fazer o que ele mandava, todas as vontades dele”. como sujeito de direitos. Alice Pessoa (nome preservado por pedido da fonte), 70 anos, foi espancada pelo marido por quase 20 anos. Agressões físicas e verbais faziam parte da rotina

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os dias e em todos os estados do país. Através de uma ligação gratuita você obtém orientações específicas sobre quais medidas tomar de acordo com o seu caso e pode, ainda, protocolar uma denúncia contra o agressor – tenha ele agredido a você ou a alguém que você conheça.

FEMINICÍDIO É O ASSASSINATO DE UMA MULHER PELA CONDIÇÃO DE SER MULHER Suas motivações mais comuns são o ódio, o desprezo ou o sentimento de perda da propriedade sobre as mulheres, em uma sociedade marcada pela desigualdade de gênero, como a brasileira. Com uma taxa de 4,8 assassinatos em 100 mil mulheres, o Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos No país, o cenário que mais preocupa é o do feminicídio íntimo, aquele cometido em contexto de violência doméstica e enquadrado no Projeto de Lei nº 8305/2014 – sancionado no dia 9 de março de 2015 e transformado na Lei Ordinária de nº 13.104/2015 -, que geralmente é precedido por outras formas de violência e, portanto, poderia ser evitado. Além desse, outras duas circunstâncias que caracterizam este crime internacionalmente são a prática de violência sexual ou a tortura e mutilação da vítima antes ou depois do assassinato. Sabe-se que altas taxas de feminicídio costumam ser acompanhadas de elevados níveis de tolerância à violência contra as mulheres e, em alguns casos, são exatamente o resultado dessa negligência. A preocupação no Brasil está em sintonia com a crescente dedicação de organizações internacionais a este tema: órgãos da ONU discutem a criação de protocolos para investigar e enfrentar o problema, enquanto 15 países latino-americanos já criaram leis específicas para coibir o feminicídio. 30

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Entre as propostas para evitar essas ‘mortes anunciadas’, algumas são mais recorrentes na avaliação dos especialistas: o engajamento das instituições públicas para efetivar plenamente a Lei Maria da Penha é um caminho, tanto no sentido de proteção à vida das mulheres, no curto prazo, quanto para coibir o problema, por meio das ações de prevenção à violência de gênero no longo prazo. Feminicídio é o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher Suas motivações mais comuns são o ódio, o desprezo ou o sentimento de perda da propriedade sobre as mulheres, em uma sociedade marcada pela desigualdade de gênero, como a brasileira. Com uma taxa de 4,8 assassinatos em 100 mil mulheres, o Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos. No país, o cenário que mais preocupa é o do feminicídio íntimo, aquele cometido em contexto de violência doméstica e enquadrado no Projeto de Lei nº 8305/2014 –sancionado no dia 9 de março de 2015 e transformado na Lei Ordinária de nº 13.104/2015 -, que geralmente é precedido por outras formas de violência e, portanto, poderia ser evitado. Além desse, outras duas circunstâncias que caracterizam este crime internacionalmente são a prática de violência sexual ou a tortura e mutilação da vítima antes ou depois do assassinato. Sabe-se que altas taxas de feminicídio costumam ser acompanhadas de elevados níveis de tolerância à violência contra as mulheres e, em alguns casos, são exatamente o resultado dessa negligência. A preocupação no Brasil está em sintonia com a crescente dedicação de organizações internacionais a este tema: órgãos da ONU discutem a criação de protocolos para investigar e enfrentar o problema, enquanto 15 países latino-amer-

icanos já criaram leis específicas para coibir o feminicídio. Entre as propostas para evitar essas ‘mortes anunciadas’, algumas são mais recorrentes na avaliação dos especialistas: o engajamento das instituições públicas para efetivar plenamente a Lei Maria da Penha é um caminho, tanto no sentido de proteção à vida das mulheres, no curto prazo, quanto para coibir o problema, por meio das ações de prevenção à violência de gênero no longo prazo. Nenhuma mulher está a salvo da violência de gênero e nós precisamos falar sobre isso. Se você é ou foi vítima ou, ainda, se conhece uma mulher que passou por um quadro de violência, pode procurar por ajuda ligando para o 180. A Central de Atendimento à Mulher está disponível 24 horas, todos os dias e em todos os estados do país. Através de uma ligação gratuita você obtém orientações específicas sobre quais medidas tomar de acordo com o seu caso e pode, ainda, protocolar uma denúncia contra o agressor – tenha ele agredido a você ou a alguém que você conheça.

DA PENHA É O SOBRENOME DELA, QUE ABRIU PORTAS PARA AS OUTRAS TANTAS MARIAS A legislação, desde então, não pôde ficar inerte às políticas de gênero Recente: esta é a palavra que melhor define a legislação brasileira que pretende promover a igualdade entre gêneros no país. A primeira Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) foi criada somente em 2003; a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006; a Lei do Feminicídio, por sua vez, apenas em 2015. Apesar de as mulheres ainda estarem longe de ter os mesmos direitos que os homens na prática, as conquistas são bastante significantes para a luta feminista, a começar pela Lei Maria da Penha.


Considerada uma das três melhores leis do mundo sobre violência de gênero pela Organização das Nações Unidas (ONU), a Lei 11.340 é baseada na história da cearense VIOLÊNCIA FÍSICA Todo o tipo de agressão Maria da Penha a integridade Maia Fernandes. A quedomachuca corpo da mulher e farmacêutica sof- prejudica sua saúde física. reu duas tentativas de feminicídio por parte do marido e, na primeira delas, ficou paraplégica. Mesmo quinze anos após o primeiro julgamento dos crimes, a justiça brasileira não havia condenado o agressor.

VIOLÊNCIA MORAL

A princípio ela pode parecer com a violência psicológica, porém é entendida como qualquer atitude que caracterize calúnia, difamação ou injúria contra a mulher.

VIOLÊNCIA SEXUAL

Qualquer atitude que obrigue a mulher a presenciar ou manter uma relação sexual não consentida, que a impeça de usar métodos contraceptivos ou que a force à gravidez, ao aborto ou à VIOLÊNCIA PATRIMONIAL Quando se tira da mulher seus objetos e documentos pessoas, instrumentos de trabalho, bens, valores e direitos e seus recursos econômicos.

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SAÚDE

Saúde para tod@s? TEXTO: MÔNICA MARQUES

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oderia ser Amanda, Pedro, José, mas é Luana Araújo, uma jovem secretária que aos 22 anos de idade sente o peso de um mundo cuja norma a coloca à margem pelo que em essência ela é, mulher! O que para a maioria é algo comum, para Luana é uma questão primordial para a realização de seus sonhos. Receber tratamento de saúde como qualquer pessoa de acordo com a Constituição é uma tarefa difícil, partindo do princípio que, segundo ela, desde as questões administrativas, como emissão de Carteira Nacional de Saúde, há dificuldades expressas quando alguns colaboradores de forma jocosa dizem estar despreparados para lidar com ‘pessoas como ela’, e isso se confirma nas portas dos serviços de saúde. “Tive que fazer um acompanhamento médico, sendo que eu já tinha retificado meu nome na carteira do SUS, não no RG normal, e os atendentes optaram por escrever 32

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“então, mais uma vez, quando o médico me chamou, usou o nome masculino e eu acabei passando novamente pelo mesmo constrangimento na frente de várias pessoas” o nome que estava no RG, então mais uma vez quando o médico me chamou, chamou pelo nome masculino e eu acabei passando por mais um constrangimento na frente de várias pessoas”, reforça, deixando claro que existe uma carência de formação para que os profissionais entendam os transcidadãos e que deem a eles tratamento digno e igualitário em sua diferença, como preconiza o princípio da equidade que

rege o SUS. Para Maria Luisa Soliani, reitora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, é na formação que se deve propiciar aos futuros profissionais de saúde a oportunidade de discutir sobre as questões ligadas ao atendimento de transcidadãos e criar as condições para que possam desenvolver as atitudes e habilidades necessárias para este atendimento “Este tema começa a ser discutido nos currículos, por incentivo do próprio MEC que, por meio de seus instrumentos de avaliação dos cursos e das instituições, induz à inclusão desta temática durante a formação e às instituições a terem ações concretas de atenção à diversidade, incluindo questões de raça, gênero, religião etc. As ações ainda são pontuais, mas, de qualquer maneira começam a existir nos diversos cursos”, o que Viviane Vergueiro, travesti, mulher trans, pesquisadora da UFBA e ativista do movimento de trans, considera ser algo fundamental, pois segundo ela o atendimento


é bastante complicado na área, com dificuldades como não ter o nome social respeitado, ou de se conseguir acesso ao acompanhamento de endocrinologistas, algo elementar para um cidadão trans que tem na terapia hormonal a base de seu processo de adequação (cirurgias e tratamentos) de gênero. Segundo Viviane, os relatos são muitos nos grupos de ativismo “se a gente fizer uma análise sociocultural sobre as questões de gênero, isso se repete e se agrava em muitas outras experiências. O caso da travesti de 60 anos que teve um AVC e teve atendimento recusado no Hospital Roberto Santos e que somente conseguiu ser internada noutro hospital por conhecer alguém, ficando, porém, em área masculina, é um exemplo disso” enfatizou, relatando que para além de nomes sociais e outros gargalos há uma dificuldade de entendimento dos corpos trans, quando há necessidade de tratamento ginecológico para um home trans ou urológico para uma mulher trans, por exemplo. Para Simmy Larrat, Coordenadora Geral da Secretaria de Políticas LGBT da Presidência da República para além do nome social existe o processo transexualizador, que segundo ela, é tratar de forma equânime o cidadão que pretende resignificar seu corpo, existindo inclusive uma plataforma de Educação à distância em que a Universidade do SUS - UNASUS oferece formação na área de saúde para o atendimento aos transcidadãos, um debate que o governo trava “A gente acredita que a formação dos cidadãos e cidadãs nas universidades, não só na área de saúde, precisa dessa realidade. Nós estamos primeiro discutindo uma diretriz curricular em orientação sexual e identidade de gênero, e a partir da aprovação dela, passar a debater com cada disciplina” conclui. Théo Meireles, homem trans, considera que os direitos adquiridos têm sido uma busca incessan-

“eu estou dando entrada num processo sozinha contra o Estado, para poder garantir o direito de travestis e transexuais terem um atendimento à saúde” te da população trans “Nós temos conseguido vitórias de grandes significados dentro dessa busca, seja pela militância do próprio movimento trans que está mais forte a cada dia, ou por pessoas simpáticas à causa”, o que para Luana Araújo é uma premissa, pois acredita na luta mesmo que solitária e vê na justiça um meio de garantir seus direitos pessoais e de abrir precedentes para que outras pessoas também tenham acesso. Na área da saúde, considera ser algo que ajudaria a evitar problemas, já que um atendimento de saúde sem limitações trabalharia preventivamente, evitando, por exemplo, que pessoas trans usassem substâncias impróprias

para o ganho de características masculinas ou femininas “nesse momento eu estou dando entrada num processo sozinha contra o Estado, para poder garantir o direito de travestis e transexuais terem um atendimento à saúde” afirma, enfatizando que para ela saúde é algo que garanta bem estar físico e mental, o que significa, por exemplo, ter acesso às próteses mamárias, o que já acontece em alguns Estados do Brasil, mas na Bahia ainda não. Em meio a questões religiosas e políticas, os movimentos LGBT tiveram avanços como acesso aos tratamentos de correção de gênero e a portaria que garantem o uso do nome social em algumas esferas, entre elas em escolas, instituições públicas e serviços de saúde, além de direitos previdenciários e a consolidação de arranjos familiares formados por trans, gays, lésbicas e outras denominações, porém ainda é evidente a necessidade de igualdade nas diferenças, a efetivação do princípio da equidade, que de fato garanta que transcidadãos tenham direitos iguais e com os mesmos nomes, nem mais nem menos direitos que qualquer cidadão, e que isso se reflita também nos serviços de saúde.

Luana Araújo, secretária. JUNHO 2016

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CRÔNICA

Um deus que não é de todos A vivência trans como crônica na linguística da vida. TEXTO: ÍRIS LEANDRO

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unca fui de ter muito dinheiro. O pouco que tenho gasto com bebidas, comidas, roupas, cigarros e coquetéis para a suposta cura do meu HIV. Trabalho na noite, não nego. Sempre imaginei que, “de duas, uma”: ou Deus é muito escroto, ou nós é quem somos. Me pergunto, por vezes, se ele me perdoa pelos meus pecados, me respondo por via de uma iluminação que vem direto dos céus: não sei, nem nunca vou saber... Mas uma coisa é certa: a sorte é que a boate que escolhi trabalhar tem luzes em laser coloridas. Eu duvido que deus tenha ‘essa olho clínico todo’ pra me 34

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reconhecer debaixo de tanto pisca pisca e entra e sai de gente. Pensando assim, deus só me enxerga durante o dia, quando curo minha ressaca alcoólica ou vou na praia tomar um sol (dia certo de usar “tomara-que-caia” de noite). Acendo minha vela toda sexta-feira. Digo tudo isso pra vocês enquanto fumo meu L.A. mentolado vindo direto dos states.. Também não sei se deus me perdoa por isso, mas, dá licença, é cigarro gringo, não largo isso aqui por nada nesse mundo. Uma coisa eu aprendi em tantos anos de profissão: é um dia de cada vez. “deus que me perdoe”, mas vivo a vida inten-

samente, “como se não houvesse amanhã” - ouvi isso em um filme na TV a cabo do motel onde dei plantão. Nesse dia fui agredida. Inclusive, lembrei agora, nunca dei queixa disso. Minha vizinha, Dona Carmem, me recomendou que eu fosse na delegacia prestar depoimento e eu disse “Dona Carmem, alô, acorda... até parece que vão dar ouvidos a uma trans”. “deus que me perdoe”, mas a justiça não é lá essas coisas, só que “tarda mas não falha”. Ouvia isso da tia que me criou. Minha mãe me pôs pra fora cedo, logo que descobriu que eu era trans. Eu nunca contei, ela leu na minha conversa pelo celular e já


foi logo fazendo minhas malas. Achei até bom, estava cansada de morar naquele cafofo. “deus que me perdoe”, mas “existem males que vem para o bem”. Nunca me incomodei em ter escolhido ser quem sou. Me incomodo é com o cheiro podre de urina das ruas dessa cidade. Esses “homens tão machos” botam o pinto pra fora em qualquer lugar e mijam. Onde eles aprenderam que isso é certo ? Eu, “nem sonhando” posso por o pinto pra fora em qualquer lugar e mijar. Imagina que incoerente, uma mulher de cabelão, mancha de batom no dente e salto plataforma com pinto de fora? Evito confusão. Sei que o que tenho que fazer é procurar um banheiro feito de um quadrado fechado, igual a mente desse povo todo. Um quadrado fechado, cheio

de normas, padrões, valores e monstruosidades. É o quadrado da sociedade normatizante. Eu sou o monstro, já me conformei. Tento fazer o que posso para me ajudar aqui. Por vezes afino a voz para parecer mais feminina. Fonoaudiólogo? Nem pensar. Para uma trans ir em qualquer tipo de médico é quase cometer um crime. Você chega lá, bota seus documentos em cima do balcão e já começa a confusão. O nome que chamam você não é “nome de mulher”, chama-se a coordenação do hospital, ouço as piadinhas, risadinhas e até agressões. Já me acostumei, estou sempre apega a deus. Saio ainda de sorriso no rosto. É melhor assim. As crianças...Essas são as mais divertidas. Me olham como eu olhava para os palhaços na infância. Me olham por horas quer-

endo entender o que sou eu, ali. Acostumados com meninas da televisão padrão europeu e meninos brincando de bola e sendo másculos, com pinto e tudo, caem na gargalhada ao perceber que sou incoerente. As mães, assustadoramente, alimentam as suas reações e tapam os seus olhos. “Isso não é coisa de deus”. “Deus que me perdoe”, mas tem horas que da vontade de matar um. Mas imagina, uma trans na cadeia? “Está repreendido”, nem vou pensar nisso que é pra não atrair, eu quero viver. Não sobreviveria. Seria muita incoerência para uma instituição tão primitiva. No mínimo iam querer me estuprar, fazer uso desse corpo lindo aqui. Falando nisso, tenho um irmão gêmeo, Antônio Cláudio. Esse é coerente, “chega me dá orgulho”. “Esse é homem de verdade”, foi o que ouvi a vida toda. Antônio foi preso, está lá mofando há 2 anos. Ouvi dizer que bateu na mulher. “Deus que me perdoe”, mas tem mulher merece. Ê mulher do cão que meu irmão foi arrumar. Saía de tardinha e só voltava de noite trocando as pernas. Não tem como não se injuriar com uma mulher dessas. Uns dizem que sou muito inocente, deveria ter mais malícia. Tenho clientes que me dizem isso sempre, dizem que meu jeitinho é um charme. Fazer o que se deus me pôs no mundo pra ser assim, como sou? Não gosto de fazer mal a ninguém, me apego a deus e até frequentei os cultos de domingo da igreja evangélica aqui perto. Foi lá que conheci minha vizinha, Dona Carmem. Ela fez de tudo pra me ajustar ali. Conversou com o pastor, conversou com todo mundo, não faltou nem falar com deus. Mas nenhum deles permitiu que eu ficasse. Me aperreei logo de início. Eu faço tudo certinho. Acendo minhas velas dia de sexta. Dou comida para os mendigos lá da rua. Nunca bati em ninguém

e nem desrespeitei meu pai e minha mãe. Não entendia aquilo — “deus que me perdoe” — , não foi fácil, mas aceitei. Gosto de ouvir música clássica e tenho um espelho bonito na sala da casa que alugo. Espelho com brilhos em volta. Me acabo, danço até o chão, uma mistura de ballet clássico com batidão (funk). Vou ser sincera com vocês, se fosse possível, mesmo ,escolher o que eu quisesse ser, eu escolheria era ser dançarina. Subir em um palco, que me jogassem purpurina e tudo mais. É sempre isso o que uma trans pode ser. É o que vemos a TV falar sobre as trans. Também tenho sonhos. Também tenho vida. Quero me formar, tirar diploma. Quero ter família. Quero mudar meu nome — de José Antônio, para Flora —. Achou estranho ,”Flora”, para por nome a uma trans? Por que nome de trans tem que ser algo sempre tão escandaloso e fluorescente? Eu sou gente. Tenho princípios e, como já disse, levo deus no coração. Não tem quem me faça tirar meu terço da bolsa e rezar meus 20 “pai nossos” todo domingo. Também não perco o por do sol dia de domingo. Vou pra frente do mar. É foda, 3 ônibus. Mas eu tô é feliz porque dia de domingo “é meia passagem”. Não reclamo não, “deus que me perdoe”. Não sei ao certo onde estou e de onde falo. Me ofereceram uma vaga de modelo , aceitei e já estou no avião, fumando escondido no banheiro (deus que me perdoe). Quem me conhece sabe que o que sempre quis, no fundo, é ser modelo. Eu tô é feliz! No fim das contas não sei o que sempre quis ser (dançarina, modelo ou ter família, diploma e marido). Nunca me entendi direito por aqui, não tenho espaço. Me jogo e me apego a deus. Sou teimosa, admito, “deus que me perdoe”, mas vou ser assim pra sempre: atrevida! JUNHO 2016

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CRÔNICA

Sacudindo a família nuclear tradicional brasileira Desabafo, feminismo e páscoa

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rês computadores e um, apenas um, sabe o que faz ali. Sabe onde está, com que caixa foi embalado e qual é seu HD. O resto só está lá cumprindo seu papel. Espero que ao menos saibam quais são os seus papéis. Papéis, por muitas vezes, só são papéis de impressora. Falsas impressoras. Imprimem o real e vendem por aí seu produto como sendo o último lançamento de realidade. Depois, se você quiser, pode, inclusive, pegar 36

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ILUSTRAÇÕES: ZANZA SANDES

TEXTO: ÍRIS LEANDRO

esse “real” e escanear, produzir milhares deles. E serão milhares feitos a partir de um, o que é ainda pior. Antes, ao menos, tinham um ponto-pensante-consciente: a CPU. Agora estão sendo produzidos em larga escala, pela máquina scanner, sem nem visualizar direito o que se faz : aperta-se os botões ‘scanner’, ‘selecionar quantidade de páginas’, ‘ok’. Ainda querem que eu me convença de que está tudo bem. Como ? Falsos americanos para

lá, falsos americanos para cá. Árvores sendo trocadas por papéis que serão transformados em falsas realidades, que serão reproduzidos e produzidos em larga escala com ainda mais indiferença. Tendência absurda à piora. E então querem que eu sorria e aceite passar o domingo depois da páscoa comendo um peixe porque a semana é santa (não sei se o peixe é antes ou depois do chocolate; antes ou depois da semana). Ontem eu fui nas Lojas Ame-


ricanas e me assustei ao ver ovos de páscoa pendurados no teto. Assustei-me, naturalmente, porque estamos em fevereiro ainda. Outro dia ainda era natal. Você pensou que me assustaria por estarem pendurados no teto? Por que será que estão pendurados no teto? Será que é por que não cabem mais no chão ou em prateleiras comuns? O ‘fenômeno dos ovos no teto’ também se deu por aqui, com a gente, alojados em cidades. Já não cabíamos mais aqui com nossas famílias nucleares individualizadas e dotadas de cachorros, papagaios, empregadas, filha, filho e um homem inutilmente mal posicionado e então fomos postos uns em cima dos outros. Sem que tivéssemos nos dado conta já estávamos sendo produzidos em larga escala. Essas famílias de núcleos e homens inutilmente mal posicionados crescem e ‘descrescem’ todo o tempo. Não se sabe o porquê de ter que ser assim, mas deve ser: mãe, pai (homem inutilmente mal posicionado), filha, filho, cachorro, uma ave, uma empregada e uma das avós desabrigada depois de ter ficado viúva. E então na páscoa todos compram ovos de chocolate para se presentear. Acho que se esquecem de que a ave bota ovos e seria bem mais interessante e econômico que se presenteassem com a produção de ovos da ave. Pensando bem, inclusive seria instaurado um sentimento humano de atenção e acolhimento ao reconhecer e incentivar o trabalho de um grande ente querido: a ave (que talvez seja a galinha). Mas não. Não se sabe nem o porquê da ave estar lá. Talvez para divertir os pequenos, que sorriem enquanto a torturam com palmadas em seu traseiro de penugem. A avó sorri abobalhada quando assiste os pequenos imitando os grunhidos do animal. “ É igualzinho”, ela diz, principalmente quando está

mais pra lá do que pra cá, depois de goles da cachaça Ypioca prata, última safra guardada do natal. A família de núcleo se assusta ao encontrar no elevador duas mulheres se beijando. – Como podem duas pessoas de mesmo sexo se beijando? Isso não é coisa de deus. Diz a Vovó Nuclear em tom de terror, logo que botam (como a galinha bota ovos) os pés em casa, havia sido proveitoso o passeio em comboio nas Lojas Americanas. A empegada, a mais subjugada, então diz: – Não é sexo, é gênero, Vovó nuclear. Esta que responde

“com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar” (dentes de dentadura): – Quem já viu? De onde você tirou isso, Cleide? Isso não é coisa de deus. Vá fazer o mingau que os meninos estão com fome. O homem inutilmente mal posicionado (pai por coincidência) não sabe o que dizer. Não sabe e nem faz questão de saber. Senta seu traseiro espaçoso (e quase que com penugens iguais as da ave) na poltrona chamada “poltrona do papai”, que deveria chamar-se “poltrona do homem inutilmente mal posicionado”. Acha-se no direito de tecer um comentário sobre o ocorrido (julgarão alguns como JUNHO 2016

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sendo um pensamento ‘construído inconscientemente’, na tentativa de naturalizar o ocorrido): – Eu acho bonito duas mulheres se beijando. Aproveitando a deixa para afirmar a virilidade de um bom macho inutilmente mal posicionado de penugens. Todos se calam. Depois que o homem nuclear fala ninguém mais fala. A mãe, a essa altura, já está no banheiro depilando-se e preocupada com os quilos que vai ganhar na páscoa. Pega o telefone sem fio e faz uma ligação escondida. Estritamente secreta. – Carmem, você está ai? É deste modo que a Mãe Nuclear responde ao “alô” de Carmem no outro lado da linha. – É claro que sim. Caso contrário não estaria falando. Responde a confidente, com senso de humor tipicamente desmedido. – Acho que meu marido nuclear não gosta mais de mim. Não sente mais desejos por mim. Declara com certo desespero contido na fracassada tentativa de não mostrar suas reais emoções por considerar isso fraqueza ( a sua mãe e escola assim lhe ensinaram). – Ah, mas seu marido nuclear nunca gostou de você de fato. Sabemos do que ele gosta. Derrama Carmem, direta e sem medo de ser feliz. – Como pode, Carmem? Ser tão, tão...Hunf. Não sei porque ainda ligo pra você. Vou continuar minha depilação, a cera já esquentou. Em seguida desliga. Sem esperar resposta. Carmem pensa de lá e dá continuidade ao diálogo telepaticamente: – Você ainda me liga porque precisa de alguém que te diga o que você precisa saber, meu bem. Essa comunicação final se dá sempre assim, da mesma maneira. A Mãe Nuclear desliga antes que Carmem diga a verdade final. A Mãe Nuclear já sabe da 38

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verdade final e por isso não precisa sequer ouvir. Carmem sabe que ela sabe. A comunicação entre elas, mulheres, é tão firme e intrínseca quanto a ligação delas com a fertilidade da terra. As duas mulheres que se beijam no elevador bem sabem disso. A verdade final “não dita” torna-se o acontecimento final: a ave de estimação vai pra panela. Decisão final dos bastidores da cozinha entre Cleide, a mais consciente entre os seres nucleares e a Vovó Nuclear (ainda convicta de que Duas** pessoas “do mesmo sexo” não podem se beijar porque isso não é coisa de deus). A morte da ave seria mais perdoável do que o terrível ato assistido no elevador na volta do passeio as Lojas Americanas. As crianças choram, sentiriam falta da galinha e de bater no seu traseiro. A mãe nuclear está de dieta, só vai comer folhas. O pai nuclear nem perceberá do que se trata o prato principal, tamanha é a fidelidade ao papel que desempenha naquela casa: quase nulo, o seu dever está na vida pública, prefere não olhar ‘olho no olho’ a galinha morta no prato, se o fizesse estaria abdicando de sua masculinidade . Está lá para ser servido. Cleide não é convidada a sentar a mesa, mas tem o contato mais íntimo e karmático com o jantar daquela noite: a morte da ave. Cleide a mata com suas próprias mãos depois de dar-lhe goles de cachaça para que ficasse tonta e vulnerável (a Ypioca da vovó). Depena-a com muito cuidado e atenção. Com fonte de inspiração imagina se tratar ali da penugem do homem nuclear inutilmente mal posicionado. Tinha a impressão de que cultivava aquele instante de crueldade por simples ato de vingança: o homem nuclear havia atrasado seu salário. ** Aqui a palavra “Duas” e não “deus” tem letra maiúscula, como referência de respeito às duas mulheres do elevador.


Glossário e explicações para desconstruir preconceitos

ILUSTRAÇÃO: ZANZA SANDES

TEXTO: ÍRIS LEANDRO


Simplificando gênero

Gênero, diversidade e sexualidade

ANDROCENTRISMO:

Visão de mundo onde se valoriza o ponto de vista masculino

BROPRIATING:

Brother + appropriating. Quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e leva o crédito por ela em reuniões.

CISGÊNERO:

Indivíduo cuja identidade de gênero se identifica com o sexo biológico atribuído no nascimento.

CLASSICISMO: Discriminação classe.

baseada

CULPABILIZAÇÃO:

em

É quando a mulher, no contexto patriarcal/machista, é levada a se sentir culpada por tudo: por não querer ter relação sexual, pela briga, pelo fim do relacionamento, pelo estupro (por estar com roupas curtas), por não ser desejada etc.


DESCONSTRUÇÃO:

Movimento de reflexão e construção de consciência sócio-política que possibilita a percepção de desigualdades sociais (como as de gênero),para então desconstrui-las . Geralmente comportamentos e ideologias aparentemente sutis são as que mais necessitam de desconstrução, como os estereótipos de gênero em sociedade (mulher frágil, submissa, incapaz). Atitudes como chamar uma mulher de gostosa na rua, que dentro da cultura existe com um elogio, que é, na verdade, uma violência naturalizada.

EMPODERAMENTO:

Capacidade do indivíduo de desenvolver auto percepção, evoluindo e se fortalecendo tendo por via a libertação de sistemas opressores e preconceituosos.

EQUIDADE DE GÊNERO: Pense em duas sementes germinando em solos diferentes. Um com péssimas condições de fertilidade e outro que cresce sem encontrar barreiras. O objetivo do feminismo é tornar estes solos com condições iguais para crescimento. O ambiente de crescimento, para a mulher, sempre foi desfavorecido em relação ao do homem.

FEMINICÍDIO:

Assassinato de uma mulher pelo fato de ser mulher. Motivados por ódio, aversão, desprezo ou perda de controle sobre a mulher, comum em sociedades patriarcais e que repudiam o feminino.

EQUIPARIDADE:

Movimento de equiparar as condições de gênero na sociedade, em prol de direitos e emancipação feminina.

ETARISMO:

Discriminação baseada em idade/geração.

FILOGINIA:

Filoginia é o despertar da consciência da importância do exercício do amor e amizade entre as mulheres. Este exercício fortalece o movimento de emancipação sócio-político-cultural das mulheres e, concomitantemente, promove o resgate do feminino ancestral, sagrado. “Mulheres são como águas, juntas, crescem quando se encontram” (autora desconhecida). Leis a favor da proteção da mulher são exemplos de esforço filógino.


GASLIGHTING:

Violência emocional por meio de manipulação psicológica que leva a mulher a achar que enlouqueceu ou duvidar de seu senso de realidade, suas próprias memórias, percepção, raciocínio, etc.

GÊNERO:

Identidade construída socialmente para determinar os papéis esperados dos indivíduos. Essas construções estão em constante transformação. “Gênero” é também uma categoria de análise construída por estudiosas (os) e ativistas para desconstruir tudo isso. A percepção que temos em relação às diferenças é altamente influenciada por nossa cultura. O que precisamos compreender é que “mulher” é uma idealização universal de uma imagem socialmente construída, portanto o que entendemos por mulher e

as suas relações com o mundo são ideias que precisam ser descontruídas em prol da equidade

GORDOFOBIA:

Preconceito contra pessoas gordas. Em nossa sociedade ser gordo é visto com o uma opção e os corpos gordos são associados a doença.

HOMOFOBIA:

Atitude/comportamento de repulsa, medo ou preconceito contra os homossexuais. A violência se dá física e simbolicamente.

HOMOAFETIVIDADE:

Relação afetiva entre pessoas do mesmo gênero.


HETERONORMATIVIDADE: Ordem sexual/social que exige que todos os sujeitos organizem suas vidas “conforme o modelo “supostamente coerente” da heterossexualidade”.

HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA:

Ordem sexual/social que naturaliza a heterossexualidade e a define como única forma de viver sexualidade.

INTERSECCIONALIDADE:

É o cruzamento entre categorias, por exemplo, a questão de gênero, geração, raça e classe.


LEI JOÃO W. NERY/2013:

Lei de identidade de gênero. Dentro dessa lei toda pessoa tem direito ao reconhecimento de sua identidade de gênero, ao desenvolvimento de sua pessoa conforme sua identidade de gênero, a ser tratada de acordo com sua identidade de gênero.

LEI MARIA DA PENHA (LEI Nº 11.340/2006): A principal legislação brasileira a favor da mulher em processos de violência e abusos.

LESBO-TRANSFOBIA:

Atitudes e comportamentos de repulsa, medo preconceito contra lésbicas, trans e homossexuais. Essa violência se dá física e simbolicamente.

MACHISMO:

Comportamento de quem não admite a equiparidade entre direitos da mulher e homem. Sendo contra o feminismo e a emancipação feminina. O machismo opera de modo ideológico e está introduzido culturalmente muito profundamente.

MANSPLAINING:

Man + explaing. Quando o homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio e fala didaticamente como se ela não fosse capaz de compreender, afinal é mulher.

MANTERRUPTING:

Man + interrupting. Comportamento comum em reuniões, quando uma mulher não consegue concluir sua frase porque é constantemente interrompida por homens.

MISOGINIA:

Ódio/negação ao sexo feminino. (Em grego, miso: ódio, gymno: aparelho reprodutor feminino).

NB:

Pessoa que se identifica como “nãobinária”: não se identifica com o gênero definido em seu nascimento e nem com o gênero oposto.


NATURALIZAÇÃO:

Está ligado ao essencialismo.

NOME SOCIAL:

Nome reconhecido por determinadas instituições para reconhecimento de identidade trans, apesar de essas pessoas não terem esse nome nos documentos oficiais. As instituições (universidades, SUS etc.) reconhecem esse nome social porque a pessoa tem uma identidade de gênero que não é legitimada pelo estado. Diferença do nome social para a retificação do gênero no documento: burocrática.

ORIENTAÇÃO SEXUAL:

Atenção para o fato de que não é ‘opção sexual’, é a sua ‘preferência’ em relação a viver a sexualidade, que se dá de forma muito subjetiva e diversa.

PAT R I A R C A D O / PATRIARCALISMO:

Sistema sociocultural que organiza a sociedade em torno de figuras de autoridade masculinas.


RACISMO:

Discriminação baseada em raça.

RELACIONAMENTO OBSESSIVO E ABUSIVO:

Relacionamento no qual uma das partes é abusada simbolicamente, psicologicamente, sexualmente, etc. Relacionamentos abusivos estão estritamente ligados à violência romantizada.

TRANSEXUAL:

ROMANTIZAÇÃO:

É dar um tom de ‘cinderela’ a contextos de violência e opressão. Por exemplo, no contexto de novela em que a mulher é abusada sexualmente e esse abuso, que pode ser considerado estupro, é romantizado e posto como conto de fadas.

SEXISMO:

discriminação baseada em gênero.

SORORIDADE:

Estimular a união entre mulheres, rompendo com o estigma da rivalidade e da competição. É a filoginia em prática e é uma forte ferramenta contra o sistema patriarcal.

Quando a identidade sexual de uma pessoa não corresponde ao sexo biológico. Podem ser transexuais que buscam cirurgia de mudança sexual e outros. É importante pontuar que não tem relação direta com orientação sexual.

TRANSFOBIA:

Aversão contra pessoas trans (transexuais, transgêneros ou travestis).

TRANSGENERIDADE:

Toda a abrangência expressiva do contexto trans. Importante pontuar que não existem formas definidas de ser trans.


TRANSGÊNERO:

Engloba as pessoas que estão em trânsito entre os gêneros. O prefixo ‘trans’ pode ser definido como ‘além de’. Então engloba os indivíduos que não se identificam com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento ou que não se encaixa em uma definição binária de identidade de gênero, por isso estão ‘além do masculino’ e ‘além do feminino’.

TRAVESTI:

Indivíduo que se traveste de roupas e assessórios associados ao sexo oposto, pode ser uma vivencia de facetas. Importante salientar que esta definição não está ligada, diretamente, a orientação sexual.


O QUE É GÊNERO? Em nossa sociedade, vivemos a biologia através da cultura. Dentro do contexto de gênero isso significa que os aspectos biológicos (plásticos) da mulher determinam o seu papel na nossa sociedade patriarcal. O senso comum acredita que o modo de agir dos homens e mulheres são naturais/instintivos, como se existisse um padrão de comportamento para cada um dos gêneros. Na cultura ocidental presume-se que o feminino seja frágil e submisso e o masculino agressivo e viril. Estes aspectos determinados como femininos estão intimamente ligados à função reprodutora da mulher. Por muito tempo esses valores machistas foram difundidos, de modo que nossas regras, instituições (escola, trabalho e religião) e costumes cresceram e se reproduziram a partir dessa lógica. Com essas limitações pré-estabelecidas culturalmente a mulher foi depositada na esfera familiar com a mera função de

procriar e cuidar da casa, garantindo que o marido fosse ir trabalhar na esfera pública de modo seguro, “alimentado e vestido”. A mulher acaba sendo um ‘motor’ para essa dinâmica capitalista.

PENSE RÁPIDO E RESPONDA: Qual é o papel da mulher dentro da família? “No tempo de minhas avós era cuidar da casa e ter filhos, mas hoje as coisas estão mudando. Minha mãe trabalha, também, assim como meu pai.”. Outros podem pensar: “No meu caso minha mãe trabalha e o meu pai não.”. Mas preste atenção: Na lógica patriarcal, que serve de motor para o sustento do capitalismo, o pai/homem, representa a autoridade, o poder simbólico dominante, o ‘chefe de família’, que responde por todos e está acima de todos, inclusive da mulher, que está apagada dentro dessa esfera familiar e con-

dicionada aos papéis de cuidar da casa, cozinhar e cuidar dos filhos. Vocês vão pensar: “ah, mas isso mudou, hoje as mulheres já trabalham”. Sim, elas já trabalham, mas ainda estão incumbidas de responsabilidades do lar, sim, simbolicamente e por via de estruturas microscópicas. Então a mulher hoje tem dupla ou tripla jornada de trabalho. Trabalha em casa, na rua e em condições de trabalho desiguais em relação ao homem. A situação das que trabalham o dia inteiro e tem empregada doméstica, por exemplo, muito menor parte, também demonstra a situação aprisionada e sexista da mulher. É uma mulher de classe média que contrata OUTRA MULHER para fazer os trabalhos que estão condicionados a ela. Então a mulher continua aprisionada. E quanto à própria empregada doméstica, essa vai deixar seus filhos em uma creche, onde predominantemente as funcionárias serão mulheres (já que mulheres nessa lógica são ‘essencialmente’ mais delicadas e dóceis para lidar com crianças),


mas vai passar o dia inteiro se sentindo culpada por não estar com seus filhos, já que está é a sua obrigação enquanto mulher. Caminhar em prol da igualdade/equidade de gênero perpassa pela necessidade de desconstruir os valores/ideias e costumes que fortalecem a lógica binária dos gêneros. Ou seja, desconstruir modelos de compreensão do que seja mulher, homem e sexualidade, como, por exemplo, a ideia de que mulheres devem ser delicadas, usar roupas tidas como femininas (saias e rosa), ser enfermeira ou professora, assim como a ideia de que homens são viris, racionais, inteligentes, jogam futebol e são dominantes.

O QUE A DIFERENÇA? Dentro da nossa cultura o “diferente” é o que destoa do padrão de normalidade. A questão é que a normalidade é cheia de padrões e crenças e esses padrões são preconceituosos e discri-

minatórios. Correntes de estudiosos criaram o conceito de interseccionalidade: a forma como as categorias de gênero, raça, classe social e geração se interligam. “Sexo”, “cor”, “idade” e “classe” são classificações que se relacionam na esfera social. 1. Por trás da variável “sexo” existe o gênero e o sexismo. 2. Por trás da variável “cor” estão raça e racismo. 3. Por trás da variável “idade” estão etarismo, camuflado na concepção de geração. 4. Por trás da categoria “classe” está o classicismo. Dentro dessa perspectiva isso significa que as mulheres têm vivências portencialmente diferentes e de acordo com as variáveis “em que se encaixam”. Dentro dessa perspectiva isso significa que as mulheres têm vivencias potencialmente diferentes e de acordo com as variáveis “em que se encaixam”. Estabelecendo “cruzamentos” da categoria “gênero” com algumas

variáveis teremos grandes surpresas: Uma mulher negra, com pouca escolarização, poucos recursos financeiros e com mais de 60 anos e gorda será potencialmente desprivilegiada. Uma mulher branca, de classe social “alta” e com 30 anos terá o potencial de desprivilegio menor. Isso porque a nossa sociedade é permeada por valores sexistas, racistas, classicistas, etaristas e gordofóbicos. A mulher de 30 anos tem mais privilégios em relação à de 60 porque está na “flor de idade”. Ou seja, está em idade reprodutiva. Tá vendo ai que a associação da “mulher” à função reprodutiva está presente em instâncias quase invisíveis? Quase passa despercebido. Percebemos então, que quando cruzamos as categorias fica mais fácil de analisar todo esse sistema e, mais importante do que isso, percebemos que a luta deve ser feita em união e com muito critério, prestando atenção em cada detalhe porque todas as identidades devem ser visibilizadas.


CATEGORIAS DE ABUSO CONTRA MULHER, DE ACORDO COM A LEI MARIA DA PENHA:

objetos, sacudir, morder ou puxar os cabelos; mutilar e torturar; usar arma branca, como faca ou ferramentas de trabalho, ou de fogo;

1. VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA: xingar, humilhar, ameaçar, intimidar e amedrontar; criticar continuamente, desvalorizar os atos e desconsiderar a opinião ou decisão da mulher; debochar publicamente, diminuir a autoestima; tentar fazer a mulher ficar confusa ou achar que está louca;

3. VIOLÊNCIA SEXUAL: forçar a mulher a ter relações sexuais quando ela não quer ou quando estiver dormindo ou sem condições de consentir; fazer a mulher olhar imagens pornográficas quando ela não quer; obrigar a mulher a fazer sexo com outra(s) pessoa(s); impedir a mulher de prevenir a gravidez, forçá-la a engravidar ou ainda forçar o aborto quando ela não quiser;

2. VIOLÊNCIA FÍSICA: bater e espancar; empurrar, atirar

4. VIOLÊNCIA PATRIMONIAL: controlar, reter ou tirar dinhei-

ro da mulher; causar de propósito danos a objetos de que ela gosta; destruir, reter objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais e outros bens e direitos; 5. VIOLÊNCIA MORAL: fazer comentários ofensivos diante de estranhos e/ou conhecidos; humilhar a mulher publicamente; expor a vida íntima do casal a outras pessoas, inclusive nas redes sociais; acusar publicamente a mulher de cometer crimes; inventar histórias e/ou falar mal dela para os outros com o intuito de diminuí-la perante amigos e parentes.

REFERÊNCIAS: MATHIEU, Nicole-Claude. Sexo e gênero. In HIRATA, Helena et al (orgs). Dicionário crítico do feminismo. São Paulo: UNESP, 2009. pp.222-230. Documentário http://www.revistacapitolina.com.br/glossario-de-termos-feminismo/ http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/12/violencia-contra-mulher-nao-e-so-fisica-conheca-10-outros-tipos-de-abuso http://www.agenciajovem.org/wp/parada-lgbt-gente-mas-o-que-e-homolesbotransfobia/ https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1020100481404614&set=a.706809862733679.1073741832.100002140156321&type=3&theater http://www.tjrj.jus.br/web/guest/observatorio-judicial-violencia-mulher http://espartilho.forumeiros.com/t36-os-10-d-da-transgeneridade https://feminismonapratica.wordpress.com/2016/01/24/dicionario-feminista/


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PRODUÇÃO DOS ALUNOS DO 5º SEMESTRE DO CURSO DE JORNALISMO DA FSBA, NAS DISCIPLINAS PLANEJAMENTO GRÁFICO E PRÁTICAS INTEGRATIVAS II, ORIENTAD...

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