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Teatro BTNext Auto da Barca do Inferno


Auto da Barca do Inferno

Edição btnext


Prefácio

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m grupo de membros do fórum BTNext propôs-se ao desafio de fazer uma adaptação à peça de Teatro Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Cada membro ficou responsável pela “actuação” de uma personagem, isto é, responsável pela criação do texto que essa personagem deveria dizer na sua cena. O texto que se segue nas próximas páginas é o resultado do esforço conjunto destes “actores”. O resultado final pode não ser do agrado de todos, contudo devo referir que este projecto não teve o intuito de criar uma adaptação fiel à obra original, nem tão pouco criar uma obra literária – trata-se apenas do texto escrito por pessoas possivelmente não letradas que só quiseram participar para se divertir numa actividade lúdica diferente de outras mais comuns. Este grupo espera sinceramente que apreciem a leitura do texto que se segue nas próximas páginas. Elenco (nicks dos membros do BTNext envolvidos na concepção do Teatro): Anónimo 1 – Corregedor (cena 9) Anónimo 2 – Brízida (cena 7) b1zbi – Fidalgo (cena 2) e Frade (cena 6) cokinhas – Diabo (todas as cenas) Jonnasemmons – Enforcado (cena 10) kelker – Parvo (cena 3), Frade (cena 6), Procurador (cena 9) e Cavaleiro (cena 11) ladydragon – Narrador (todas as cenas) e Sapateiro (cena 5) Monix – Companheiro (cena 1) S_C – Judeu (cena 8) Scarwolf – Anjo (todas as cenas) Coordenador: kelker Organizadores: ladydragon e kelker


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Cena 1

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Tudo começa na margem do rio do além, onde está o Diabo com o Companheiro. Ao longe vem-se aproximando um Fidalgo, e o Diabo ao vê-lo, começa a dar o ar da sua graça. DIABO: Escravo, olha que temos companhia!! Trata de arrumar a casa, que é hoje que vou tirar a ferrugem ao espeto! Vamos! Vai buscar lenha para as fornalhas! Aquece a panela! Puxa lustro ao chão! Vai buscar a baixela de prata que está no baú! AHAHAHA!! Sim, sim! É hoje! É hoje que acabo o jejum de 100 anos, apenas interrompido por algumas talhadas a ti tiradas! Toca a mexer os presuntos que te restam! O Companheiro sente-se aliviado e contente, olhando para as nádegas que lhe sobraram da última festa que o Diabo deu em honra de si próprio. COMPANHEIRO: Hi-hi-hi, agora é que será! Não via a hora de chegar este dia, meu chefe!!! Tratarei de fazer tudo como pedistes. A baixela de prata já aqui canta, pronta a ser utilizada e o vago cheiro a carne já aqui está chegando... Vamos lá, vamos lá que já falta pouco!!! DIABO: Humm, olha lá, hoje apetecia-me comer língua guisada ao jantar... Se não acabas de dar ao serrote e continuas com as tarefas, talvez seja a tua a próxima a ir para a panela! O Companheiro estremeceu, e, num murmúrio, amaldiçoou o Diabo:


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COMPANHEIRO: Chiça, estou tão farto deste Diabo!!! O meu rico cuzinho já foi, mas se ele me tira a língua, há-de ser a última coisa que me tira, não me chame eu Companheiro! Para já, deixa-me cá trincar a língua que sei que ele não gosta de carne moída! Hi-hi-hi! O Diabo compreendeu que o Companheiro devia de estar a magicar alguma, vendo-o a rir-se e a trincar a própria língua feito parvo, pelo que de imediato lhe mostrou quem mandava: DIABO: Chiça, diabrete duma figa que só me dá trabalho! Se não trabalhas ainda te prendo na masmorra de castigo! COMPANHEIRO: Prender-me na masmorra? Não faça isso, Sr. Diabo. E depois quem é que faria o trabalho pesado? Não me diga que quer receber o Fidalgo que se aproxima com um pano de limpar o pó na mão!... DIABO: Ora, nem preciso do pano: a primeira tarefa que darei ao Fidalgo será ele limpá-lo com a língua! AHAHAHA! E tu já falaste demais - se não queres servir de remo na viagem que se avizinha, sai-me daqui! O Companheiro foge cabisbaixo e receoso, enquanto as atenções do Diabo se voltam para o Fidalgo que vem a chegar.


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DIABO: Oulá, oh jeitoso, não queres entrar? Não é que isto seja a Arca de Noé, mas pareces um pavão! Anda daí!


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Com grande pompa, aproxima-se da barca do Diabo um grande senhor das melhores famílias, vestido a preceito. FIDALGO: Oh senhor, para onde vai esta barca? DIABO: Esta barca? Vai para um sítio caloroso e cheio de festa! Poderás bronzear a tua bela epiderme, comer uns belos churrascos e fazer umas belas fogueiras! FIDALGO: Parece-me bem, mas e o mais importante: há lá senhoritas e margarittas? DIABO: AHAHA! Senhoritas? O que não falta é senhoritas, mas estão reservadas para mim! Margaritas? Farei uma bebida com a tua gordura, que será muito melhor! AHAHAHA! O que te espera é nada mais nada menos que uma vida miserável e infernal! AHAHAHA! FIDALGO: Vida miserável?!?! Mas você sabe quem eu sou? Digo-lhe só que eu poderia comprar 10 iates muito melhores que esta espécie de jangada que tem aqui, onde você mesmo seria meu criado! AH AH AH!! DIABO: Eu? Teu criado? Vossa Alteza, os seus desejos são uma ordem! AHAHAH! Os teus dias de boa vida acabaram! Esse teu ar de Senhor do Mundo agrada-me, mas não penses que vais andar por aqui a pavonear-te. Muito pelo contrário, nas minhas mãos, vais desejar nunca


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ter morrido! FIDALGO: Tenha tento na língua, sim? Com quem pensa que está a falar? DIABO: Com um futuro escravo, é claro. Só tu é que ainda não o compreendeste. Talvez para fazeres maior fortuna, também tenhas vendido parte do teu pequeno conjunto de neurónios! AHAHAHA! O Fidalgo, sentindo-se indignado, e tendo visto ao longe uma outra barca, dirige-se para lá. Nesta aguarda-o um Anjo. FIDALGO: Que barca é esta? Exijo saber para onde vai essa barca e quem você é! Antes que me desrespeite, fique sabendo que fui tão rico em vida, que poderei comprar a minha estadia no paraíso! ANJO: De facto, é mesmo esse o destino desta barca. Mas só cá entra quem merece e foi convidado. As entradas para o paraíso não se compram, merecem-se. FIDALGO: Tenho a certeza que não dirá isso depois de lhe oferecer uma barca a motor. Dá muito menos trabalho do que essas madeiras aí para remar! ANJO: O teu dinheiro ficou na terra dos vivos, aqui és só tu e a tua arrogância. Nesta barca


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jamais entrarás, pois não és digno dela. FIDALGO: O meu dinheiro ficou na terra dos vivos? Claro que ficou. Lá eu sabia que o meu banco ia ficar sem dinheiro e como tal usei-o todo! O meu gestor é que me deveria dizer para eu não gastar mais dinheiro! Faça favor de me deixar ir à terra dos vivos buscar o meu dinheiro ao meu outro banco! ANJO: Como tu me fazes rir com a tua ignorância... Ainda não viste que este barco não foi feito para ti? Aqui não há lugar para ti, porque só cá entram as pessoas de bom coração, aquelas que tanto fizeram por um mundo melhor. E tu? Quem és? Que fizeste? És um tirano: arrogante, triste, idiota e ainda por cima estúpido. Passaste a vida inteira a desprezar os mais pequenos, nunca ajudaste quem mais necessitava e agora julgavas que te deixava entrar assim? Não... Aqui não entras, porque o teu lugar é no inferno, um local apropriado para homens do teu carácter. O Fidalgo achou que o Anjo nem merecia resposta a tais insultos, pois não iria discutir com alguém que decerto não compreendia a sua superioridade. Voltou, por isso, à Barca do Diabo. DIABO: AHAHA! Olha quem voltou! Sua Excelência perdeu-se? Ou digamos que achou o Jardim do Éden muito, como dizer... Murcho? Claro que o nosso Santo amigo simpatizou con-


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sigo, ao ponto de dispensar a sua bela companhia em prol aqui da minha pessoa! AHAHA! FIDALGO: Apenas vim para aqui, porque aquela barca está ainda mais suja e ainda é mais pequena que a sua! Olha lá, faz-me o favor de matar os meus empregados, para virem aqui remar esta carcaça flutuante. DIABO: Com essa vontade toda de assassínio, um dia ainda me tiras o lugar! És cá dos meus, como presente aqui tens este par de remos! AHAHA!. FIDALGO: Está-me a ver a pôr as mãos nesses pedaços de madeira cheios de lascas? Ponhase você a remar que o tempo urge! DIABO: Coitadinho! Ainda me estragas as mãos com esses remos! AHAHA! Deixa mas é de ser arrogante e admite, não tens outra escolha senão embarcar aqui. Oh! Não fiques triste, porque te garanto que o inferno tem coisas maravilhosas - poderás, por exemplo, apreciar a minha agradável companhia! AHAHAHA! O Fidalgo, contrariado, senta-se num canto da barca do Diabo.


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Cena 3


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Entretanto, vem-se aproximando da Barca do Diabo o Onzeneiro, uma pessoa de modos simples, mas que fez uma fortuna à custa dos outros. A sua vestimenta é algo peculiar, pois tenta-se passar por alguém com classe, sem de facto a ter. De uma forma rude, interpela o Diabo: ONZENEIRO: P’ra onde bai este barco? DIABO: “Bai” para um sítio onde não chove nem faz frio, talvez vás gostar da estadia! Mas diz-me, porque demoraste tanto tempo a vir? E... Porque vens nessa figura? ONZENEIRO: Talbez goste, mas diz-me cá mesmo p’ra onde bai isto, que eu não gosto cá de meias palabras! Ainda agora morri, não quero que me enganem por ser nobiço! DIABO: Não te preocupes, que esta barca é do teu interesse, pois vai para um sítio onde até os “nabos” são aceites! AHAHA! ONZENEIRO: Podes-me chamar o que quiseres, pois na minha bida habituei-me a oubir muita cousa! Diz-me lá de uma bez para onde bai isto! DIABO: AHAHAH! Tens uma maneira muito esquisita de falar! Estou a “ber” que “bou”; ter que “bizer”! Ahhh!! Esta não era! Então esta “varca bai pro” Inferno! ONZENEIRO: ‘Tão esta barca não é p’ra mim!


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Aborrecido, o Onzeneiro dirige-se para a barca do Anjo, mas ainda ouve o Diabo dizer em alta voz, para se fazer ouvir. DIABO: “Bai lá bai”... Mas olha que ainda “boltas” cá! AHAHA! Sem querer mais conversas com o Diabo, o Onzeneiro vai sempre andando, sem olhar para trás, até que chega à barca do Anjo. ONZENEIRO: Oh da barca! P’ra onde bai esta? Na’me diga que também bai p’ra o inferno? ANJO: Não. Esta barca tem como destino o paraíso. E tu? Que fazes aqui? ONZENEIRO: Paraíso? Isso é o céu, n’é? ‘Tão é mesmo p’ra’qui que bou. Arranje-me aí uma escada p’ra eu subir p’ra o barco. ANJO: Nem penses nisso. Mais depressa te arranjava um bilhete para o inferno, do que uma escada para subires para aqui... ONZENEIRO: Porquê? Eu quero ir neste! ANJO: Queres, mas não vais. Neste barco só entra quem tiver bom coração, algo que tu já perdeste há muito tempo, se é que alguma vez tiveste. ONZENEIRO: E eu tenho a culpa de ter tido um ABC?


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ANJO: Um ABC? Meu Deus... Tens tanto de riqueza como tens de ignorância. Passaste a vida inteira a explorar os mais pobres, foste egoísta e ganancioso, nunca foste capaz de fazer um único gesto de bondade e achavas que poderias entrar assim? Nem penses. Vai na outra barca, pois coaduna-se melhor contigo. ONZENEIRO: Explorar os mais pobres? ‘Tás a falar dos ucranianos que contratei? Eu ‘tabalhes a fazer um fabor! O Anjo nem se digna a responder, pelo que o Onzeneiro, resolve retornar à Barca do Diabo. DIABO: Olha, olha m’este artista de volta! Já “bieste”? Tiveste saudades minhas? Ou ali o Santo fartou-se do teu “velíssimo” paleio? ONZENEIRO: A culpa foi dos ucranianos! DIABO: Bahh, não os culpes que eles têm bela carne de churrasco! Sozinho, com essa tua “sabedoria”, não vais a lado nenhum, mas aqui no meu barquinho, vais longe, para muito longe! AHAHAH! O Onzeneiro entra resignado na barca do Diabo e cruza-se com o Fidalgo. ONZENEIRO: ‘Tão mas o sôr também ‘tá aqui? Fico contente em poder ‘tar aqui com sua


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excelentíssima. FIDALGO: Mas quem é você? Sabe com quem está a falar? Dei-lhe autorização para me dirigir a palavra?! Dei?! Afaste-se de mim, que apesar de estarmos na mesma barca, você continua a ser um saloio ao pé de mim! DIABO: AHAHAHA!!! Que ricos saloios que eu levo aqui para o Inferno... AHAHAHAH!!!!


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Cena 4

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À Barca do Diabo chega desta vez o Parvo. PARVO: Olha um barco à vela, que giro! XIQIQIQI! Oh cornudo, para onde vai este batel? DIABO: Este batel? Este batel vai para um local maravilhoso que vais adorar. Entra que eu mostro-te que local é esse. PARVO: Já sei! É a DisneyLand! Sempre quis ir lá ver o Pateta para lhe dizer que é burro... E fala com ratos e patos? Cá para mim há ali algum truque, que a mim ninguém me engana! XIQIQIQI! Já a minha mãe dizia que eu era parvo, mas não era estúpido! XIQIQIQI! Espera lá, mas tu és quem? DIABO: Então não sabes quem eu sou? Eu sou um tipo porreiro que te vai levar a um local espectacular. Vais ver que é muito melhor que a DisneyLand! Entra que eu mostro-te que local é esse. PARVO: Porra, já pareces uma vespa, sempre a zumbir o mesmo, oh cornudo. Estava a pensar que eras o tio patinhas mascarado de carneiro! XIQIQIQI! Afinal que local é esse? DIABO: Esse local é o inferno e garanto-te que é um sítio muito giro. Queres entrar para ver? PARVO: Inferno? Isso é a terra dos cornudos como tu, não é? A minha mãe disse-me que o


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meu pai é que era cornudo, por causa do padeiro, do carteiro e do... Mas eu não! Sempre fiz como a minha mãe me disse, portanto não sou cornudo! XIQIQIQI! Vou-me embora, carneiro, que eu não quero ir para o jardim zoológico! XIQIQIQI! DIABO: AHAHA! Bela família a tua! O pai é cornudo... A mãe gosta muito de comer pão e escrever cartas... AHAHAHA! O filho, um parvo dos diabos! Uma coisa te digo, a tua companhia ia ser deveras animada! O Parvo resolve dar meia volta, e vai ter com o Anjo. PARVO: Olha um pássaro! Corvo não é certamente, porque é da cor do burro quando foge! XIQIQIQI! Oh pardal, a tua gaivota vai para onde? ANJO: Este barco tem como destino o paraíso. E tu? Quem és e o que fazes aqui? PARVO: O pássaro fala? É um papagaio? XIQIQIQI! Eu sou Joane, mais conhecido por “parvo”, desde que a minha mãe me chamou isso à frente dos miúdos da escola. Mas parvos são eles, porque “quem diz é quem é”! XIQIQIQI! ANJO: Estás enganado. Eu não sou nenhum pássaro, mas sim um anjo que tem como missão guiar todos aqueles que merecerem entrar no paraíso. Lá só entram as pessoas que em vida lu-


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taram por um mundo melhor, aquelas que sempre acreditaram no amor, na partilha, na justiça e na amizade. É no fundo uma recompensa que não está ao alcance de todos. PARVO: Já percebi porque que é que estás sozinho: só aceitas pessoas imaginárias! XIQIQIQI! Serei eu real? ANJO: De facto poucos são aqueles que conseguem entrar no paraíso, pois poucos são aqueles que ao longo da vida conseguem conservar a bondade e a pureza no coração. Tu mereces entrar porque em todos os teus actos, demonstraste sempre uma pureza encantadora e nunca má intenção. Se quiseres podes entrar. Dito isto, o Parvo fica junto à Barca do Anjo, sem contudo entrar.


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A caminhar para a barca do Diabo, aparece o Sapateiro com a sua mala, onde tem todos os utensílios necessários ao seu ofício. SAPATEIRO: Olha, olha, o Carnaval chegou mais cedo, OHOHOHOH! Dá um soco ao de leve nas costas do Diabo, mostrando um sorriso de gozo. DIABO: Eh lá, Pai Natal, és tu? Essas tralhas que trazes aí são para mim? Olha que não sei coser sapatos!! AHAHAH! SAPATEIRO: Tralhas? Está aqui uma vida inteira de trabalho, e dedicação a ajudar os outros. DIABO: AHAHAH, és como eu! Realmente, dá muito trabalho educar os escravos à rédea curta, para que nos obedeçam e nos beijem os pés, mas são todos uns mal-agradecidos! Só “sapateirices” é que sabem fazer! SAPATEIRO: Deves-me estar a confundir com alguns dos teus servos, só pode. Eu passei a minha vida inteira a ajudar os outros, muitas vezes à chuva ou ao sol, tudo trabalho honesto. DIABO: Pois, acredito que sim. Eras o único sapateiro lá da santa terrinha, aliás, o único


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sapateiro de CLASSE! Muita “boca de sapo” vi andar por aí, graças à tua “honestidade”! SAPATEIRO: Deves querer festa comigo, deves. Com essa roupa nota-se logo quem és, e à distância. Tu é que tens a fama de seres mau, e tu é que te aproveitas dos outros, não queiras colocar todos no mesmo saco, e achar que são como tu. DIABO: Mau, eu? Nada disso, sou simplesmente... Um justiceiro. Todos aqueles que levam uma vida cheia de maldades têm lugar reservado no Inferno. E isso deixa-me completamente feliz! Adoro ver o horror na cara das pobres alminhas quando as torturo! AHAHAH! SAPATEIRO: Fartei-me de ir à missa, sou um bom filho de Deus, portanto acho que vou ali ao outro lado, pedir àquele senhor de branco que me leve. DIABO: Ide, ide, mas não terás sorte... O pessoal daquelas bandas gosta de andar descalço! AHAHAH! SAPATEIRO: Sei fazer umas sandálias de apoio leve, que os vai ajudar a proteger, tal como eu protejo os meus pés imaculados. Verás como serei bastante útil por aquelas bandas. Eu mereço o céu! Dito isto, o sapateiro afasta-se, e vai em direcção ao Anjo.


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SAPATEIRO: Oh Senhor de branco, posso entrar na sua barca? ANJO: Entrar!? Deves-te ter enganado na barca... SAPATEIRO: Não meu Senhor, vim mesmo para onde eu queria, afinal sou um humilde e honesto Sapateiro, e depois duma vida inteira de sacrifícios, e luta a ajudar os outros, mereço o céu. ANJO: Sim, vieste para onde querias vir, mas não é o local para onde vais. Achas mesmo que mereces o céu? SAPATEIRO: Mau, mau, Maria! Mas isto agora é assim? Mas agora quem é bom, não merece o céu? Então para quê que me dediquei tanto a ajudar os outros? Posso fazer umas bonitas sandálias, muito leves para passearem nos jardins sagrados. ANJO: Sim, é verdade que trabalhaste muito, mas mentes quando dizes que dedicaste a tua vida a ajudar os outros, até porque eu sei que também roubaste descaradamente e mentiste desavergonhadamente. Por isso, pergunto: Achas mesmo que mereces ir para o céu? Achas que alguma vez aceitaria alguma coisa de um ladrão e de um mentiroso? SAPATEIRO: São todos Anjos, querem lá ver. “Quem nunca errou, que atire a primeira pedra”, já lá dizia o teu mentor.


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ANJO: Uma coisa é errar sem intenção, ou porque exploramos um terreno que não conhecemos bem, outra é errar com a noção de que estamos a praticar o mal e não queremos saber das consequências dos nossos actos. Nesta arte de enganar e roubar, foste um grande artista. Aliás, acho graça à tua arrogância, porque nem aqui à minha frente, olhos nos olhos, consegues ter a humildade nem o bom senso de admitir que erraste. Não, aqui não entras de certeza, vai na outra barca que vais mais bem servido. SAPATEIRO: Não vale a pena continuar esta conversa, porque não nos vamos entender. Não tenho lugar, assim será feito. Tenha uma boa viagem!! E então o Sapateiro furioso, mas resignado, volta à barca do Diabo. SAPATEIRO: Voltei, e quero ir consigo. Podemos seguir viagem, quando o entender. DIABO: Olha, olha, quem está de volta! Levaste com os pés do branquinho? AHAHAH! Anda daí, dá corda ao sapato que hoje é dia de festa!


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Entretanto chega o Frade, acompanhado duma presença feminina. Ambos se dirigem à Barca do Diabo.

FRADE: La la la la la.. Eish, temos companhia! Rapariga, esconde-me essas mamas que está ali um índio, que pela aparência diria que tem uma esposa que visitou o meu confessionário! CHABABABABA! DIABO: Olha quem é ele! E que rica companhia que traz consigo... É para mim? FRADE: Isso queria você! CHABABABABA! Mas afinal, para onde vai isto? Não será para um local com muitas mulheres, senão não estaria a pedir pela minha moça! CHABABABABA! DIABO: AHAHAHAH! Já devo ter umas 300 mulheres no meu harém, mas ainda não chegam para o meu festim! Esta barca vai para a terra dos malditos, e pelo que vejo, vocês ficariam muito bem lá! FRADE: CHABABABA! Eu nessa terra? Nem morto me vê lá! Eu que ensinei em nome de Deus, não deveria ter um lugar com ele? DIABO: Pois sim! Tu, essa moçoila jeitosa aí ao teu lado e esse saco azul cheio de dinheiro! Graças a ti, todas as moças lá da tua terra viraram freiras e o saco das esmolas anda sempre bem guardado, não é verdade?


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FRADE: Saco azul? Decerto que se refere à minha muito amada Fátima Felgueiras, que não precisou de ir a Fátima, pois aprendeu a missa toda comigo. CHABABABA! E não me venha com rumores sem fundamento; por algum motivo, apesar dessas más-línguas, ela foi reeleita. DIABO: AHAHAH, areia nos olhos, é o que o povinho gosta! Já que a Fátima não vai a Fátima, vai Fátima à Fátima! Mas não falemos da Fefé que com ela eu me entendo depois. Tu e eu temos contas a ajustar... E olha que a factura é bem cara, quero ser bem recompensado pelo tempo extra que pediste ao teu santinho para “converteres” umas pobres alminhas! O aumento do IVA não vem nada a calhar nesta altura! FRADE: Ainda bem que refere o IVA, pois fique sabendo que nunca apliquei o IVA nas esmolas obrigatórias que as pessoas da minha paróquia tinham que pagar. Eis, portanto, mais uma razão para não ter contas nenhumas a ajustar consigo! Reparo agora que ali daquele lado está uma barca, decerto que deverá ser a apropriada à minha beatitude. Anda rapariga, e ajeita-me novamente essas mamas, que precisamos de causar boa impressão. CHABABABA! Nisto o Frade dirige-se à barca do Anjo, onde o Parvo o recebe. FRADE: Ora, ora! E quem será você? Pela sua aparência, não deve ser o dono desta barca!


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Sabe onde o posso encontrar? PARVO: Para parvo já chego eu, podes-te ir embora! Ah, você é padre! Pormenores! XIQIQIQI! E o que traz aí? Uma das santas que roubou do altar? Ah, não, essas vendeu-as para comprar essa, que de santa não deve ter nada! XIQIQIQI! FRADE: Não, esta “santa” veio ter comigo de livre vontade para eu lhe ensinar a fazer um Pai Nosso. CHABABABABA! Oh você aí, você da auréola, para onde vai esta barca? Para o paraíso, suponho. Quero ir para lá, em recompensa dos longos anos que ensinei na Igreja do nosso Senhor. O Anjo, com um semblante triste, nem responde ao Frade, que compreendendo que o Anjo jamais o deixaria entrar na sua barca, volta, frustrado, à barca do Diabo. DIABO: Eh lá, que cara é essa? Ali o anjinho não te deixou ficar com o saco das esmolas? Ou esqueceste-te de rezar o Pai Nosso? AHAHAH! FRADE: Nem por isso. Aquele barquinho é demasiado pequeno para mim... Esta é a cara de quem não tem alternativa, senão ter de o suportar para a eternidade... O Diabo sorri e o Frade entra na barca.


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Aproxima-se da barca do Diabo uma mulher com um aspecto normal, bem vestida e com um ar confiante, mas que é, no entanto, uma Alcoviteira. ALCOVITEIRA: Ó jeitoso da cornadura, é você o motorista deste BMW a velas? DIABO: BMW? Isto é um verdadeiro Rolls Royce, o cadillac dos sete mares! Atrai as garinas todas, até peixeiras! E tu, jeitosa, tens bom físico para pegar aqui num remo que é um brinde de boas-vindas! ALCOVITEIRA: AH AH AH, essa sua poesia faz-me cócegas aqui no meu “bom físico”! De remos não percebo nada, cornudinho, mastros sim, são a minha especialidade. Com certeza não está a pensar que embarcarei nessa cacareca a que chama barca sabendo o destino que ela tem... Com o calor que lá faz, derreter-me-ia a maquilhagem e o meu silicone explodiria! DIABO: Eh lá, peitos de borracha? Prefiro os peitos da cabritinha, assadinhos! Mas não te queixes, o nosso destino é um verdadeiro paraíso, as gentes são muito calorosas! E já que falas em mastros, tenho ali o meu todo empenado. Se fizeres a gentileza, pega no martelo, puxa-lhe o lustro, põe-no todo catita! ALCOVITEIRA: Olha-me este...! Quem desdenha quer comprar, sempre ouvi dizer... Nunca


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nenhum homem se queixou aqui dos melõezinhos da Lady Bibi! Peitos de cabritinha, só os arranjo mesmo aos pares e fresquinhos, prontinhos para consumo, tudo de boa qualidade. Quanto ao seu mastro, que lhe puxem o lustro os que estão aí consigo, que belo corpo têm para trabalhar. E agora se me der licencinha, vou pôr estas ricas pernas a passear, que já vi que está ali ao lado quem me vai fazer subir aos céus! DIABO: AHAHAH! Literalmente falando, ali o anjinho arranja-te um par de asas, até voas! Só não te dá uma auréola porque... Tu sabes! Bem, vai lá vender os teus melõezinhos, vou trincar umas espetadas, e quando voltares, quem sabe se não guardo umas para ti! A Alcoviteira mostra ao Diabo que não se sentiu sequer atingida e, virando-lhe as costas, segue em direcção à barca do Anjo. ALCOVITEIRA: Ó borrachinho de branco, já cheguei! Vamos lá, que já se faz tarde e eu estou louca para chegar ao Paradise Resort... Ora dê cá uma mãozinha à Lady Bibi! ANJO: Lamento, mas não necessitarás da minha ajuda para nada, até porque te posso garantir que aqui não há lugar para ti. Quanto muito poderia arranjar-te uma lambreta para ires mais depressa para o inferno, mas mesmo assim não te posso ajudar.


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ALCOVITEIRA: HI HI HI, que brincalhão! Ora aí está uma coisa que aprecio num homem, para além de outras coisas, claro, o humor! Não acha que este rico corpinho, talhado pelos anjos, que tanto trabalhou para o bem estar de muitos dos homens da vossa casa, ia alçar a perna para montar numa lambreta... ANJO: Lamento desiludir-te, mas também não alças a perna na minha barca, até porque o teu lugar não é aqui. Esta barca está destinada a todos aqueles que trabalharam e se esforçaram por um mundo melhor. Tendo em conta a vida que levaste, com certeza que deves estar mais do que consciente de que este não é o teu lugar!? ALCOVITEIRA: Olha, olha... Então e eu não me esforcei para fornecer as meninas mais jeitosas para cuidarem dos homens da fé, para ajudá-los a sentir-se melhor, mais levezinhos? Já vi que aqui não me safo! Vou mas é ter ali com o cornudinho, cheira-me que no Sauna Resort vou encontrar lá muitos conhecidos meus, sempre será menos enfadonho... Mediante as palavras proferidas ao Anjo, a Alcoviteira resolve regressar à barca do Diabo. ALCOVITEIRA: Ó borrachinho, dê cá uma mãozinha para ajudar a Lady Bibi a subir! Parece-me que a viagem vai ser mais divertida nesta barca do que ali na do pãozinho sem sal, HI HI


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HI! Vá, aqui a Brízida até lhe faz umas festinhas nesses corninhos, seu grande maroto... DIABO: Anda daí! Agarra-te ao remo que não tarda nada, levantamos âncora e vamos todos p’ra outra banda!


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À barca do Diabo chega o Judeu, que se prepara para lhe dirigir a palavra, mostrando alguma superioridade. JUDEU: Ora bem... que espelunca é esta que aqui temos? DIABO: Espelunca? Esta barca vai “ao fundo”, mas não se afunda, meu amigo! Vejo que gostas de coisa fina, hein? JUDEU: Fina e da boa! De preferência da melhor que possa haver. Quanto é que tenho de pagar para entrar nesta espelunca de meia tigela? 10,99€ chega? DIABO: AHAHAH! Aqui, nem de graça entras... a carga está pesada demais! JUDEU: Não seja por isso. O meu peso não fará grande diferença. Além disso, onde entra um fidalgo, um onzeneiro, um sapateiro, um frade e uma alcoviteira, repito: uma ALCOVITEIRA… caberá mais uma pessoa tão honestíssima quanto eu. Lá diz o ditado: “onde cabe um, cabem dois…”. Verá como eu ainda lhe irei ser útil. DIABO: Honestíssimo... diz que sim! AHAHAH! Tenho aqui de tudo, menos gente honesta, que dessa, já o Inferno ‘tá cheio! JUDEU: Honestíssimo, virtuoso, sensato... O quê que pensa?! Está a recusar um ser tão


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completo como eu? Eu estava disposto a dar o braço a torcer e entrar na sua barca. Não sabe o bem que eu faria. Haverá de chorar por mim, haverá de querer gente como eu e não ter, haverá de me implorar que volte... Entretanto o Parvo vai-se aproximando do Diabo e do Judeu, e dirige-lhes algumas palavras. PARVO: Honestíssimo, ou bestíssimo? Virtuoso, ou virose? Sensato, ou x-acto? Ups, esta não fez sentido! XIQUIQUI! Eu posso ser parvo, mas ao menos não sou ladrão! XIQUIQUI! Nem o Diabo te «grama», talvez porque tenha receio que ainda lhe possas roubar o lugar! JUDEU: Olha que piada… já a formiga tem catarro, querem ver! Quem julga que é para dizer o que quer que seja? Quem o chamou para a conversa, oh pateta de um raio? Ah… querem ver que, agora, aqui o velejador cornudo precisa de alguém para o defender e falar por ele?! Realmente, talvez não fosse má ideia trocarmos de lugar… pelo menos eu não preciso de ajuda vinda do Céu! DIABO: Tu, aqui no meu lugar?! AHAHAH! Tens que comer muita lama para chegar aos meus calcanhares! Mas olha, vai tocar ao sininho ali ao lado, pode ser que te arranjem um cantinho!


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PARVO: Ele até poderia tocar outra coisa!... XIQUIQUI! Se o charlatão do sapateiro não entrou na “minha” barca, o rei dos gatunos iria entrar? XIQUIQUI! Irá com o cornudo e que disputem o trono!... DIABO: PFFF...! Vou ter que gramar este triste!? Salta daí, mas não faças muito barulho... nem te mexas muito... aliás, pega nos remos e arranja aí um canto, que não quero ver ninguém parado! E tu, Parvo, deixa de meter o nariz onde não és chamado! Ainda vais p’ras masmorras c’os porcos!


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Cena 9

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À barca do Diabo, chega o Corregedor que lhe diz num tom cortês: CORREGEDOR: Meu caro Diabo, que linda barca temos nós aqui!? DIABO: Excelso Senhor Corregedor, esta barca há muito que aguarda a sua “justa” visita! CORREGEDOR: “Justa” visita? De que faleis, Diabo? Só se esta maravilhosa barca for em direcção ao Céu, porque se for para suas terras decerto que haverá aqui algum engano! DIABO: Ora, mas claro que não, Meritíssimo! Foi um grande justiceiro, defensor das causas mais obscuras, merece todo o devido respeito e um lugar na minha terrinha! CORREGEDOR: Eu sempre velei pelos interesses da sociedade, garanti que a justiça fosse aplicada e a Coroa representada! Estes feitos não são obscuros - são gloriosos! DIABO: E com toda a razão! Aquela sua mansão construída nas terrinhas do Ti Manel, que agora, coitadinho, mora debaixo da ponte... Ah! Ele que volte p’rá terra dele, não é?! Fez-se justiça! AHAHA! É por isso que seria digníssimo e sensato da sua parte juntar-se à minha humilde comitiva! CORREGEDOR: O Manel não fazia nada naquelas terras! Ele tinha lá apenas a sua horta e as suas ovelhas, e é por isso que construí lá a minha humilde habitação. Eu represento a Coroa,


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mereço muito mais aquelas terras que ele, que é um simples plebeu. Se vive debaixo da ponte, é porque não lutou por ter algo mais! Sim, fez-se justiça! Entretanto aparece o Procurador, que junta-se ao Corregedor: PROCURADOR: Saudações, meu honorável colega de profissão! É como dizeis, meu caro Juiz, somos os profetas da justiça e da ordem, uma ocupação não menos importante que aquela que é executada pelos padres, que comunicam a palavra de Deus. A justiça e a sua imposição é a forma de obter ordem, para que possa haver paz entre os povos. É evidente que há chefes de estado e estes, como o nome indica, é que mandam, logo a sua vontade é que tem que ser cumprida - também são humanos, logo nem sempre tomam as melhores decisões, contudo, independentemente de quais sejam, serão sempre melhores em relação à ausência das mesmas. Note-se bem: os povos não estão preparados para a anarquia, o excesso de liberdade conduz a motins e a outras desgraças! A igualdade é uma utopia: se eu sou mais inteligente que o campónio, é certo que lhe sou superior e poderei chegar mais longe que ele, o que implica que a justiça me tem que defender do campónio, que na sua rudeza e falta de intelecto, irá ter inveja do que eu tenho e tentará suprimir essa diferença recorrendo a qualquer acto animalesco. Do mesmo modo que se


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usam armas para domar os animais selvagens, é preciso também usá-las para domar toda uma sociedade, que sem isso se tornaria selvagem. Em suma, a justiça é a ordem do mais forte - o mais fraco submete-se, ou sofre as consequências. No final de contas, todos ficam a ganhar - o ente superior é protegido da escumalha, e a escumalha é levada a não mostrar a sua verdadeira identidade. De qualquer modo, o que somos nós, simples executantes do sistema social, para dizer se isto está bem ou mal? Todos somos igualmente reféns do sistema imposto, quer ele seja bom, ou mau. Portanto, como é evidente, eu e o meu caro Juiz não poderemos ir para esta barca - não seria digno de tudo quanto nós fizemos em vivos. Venha, meu caro amigo, vi ali uma outra barca, decerto que é aquela que nos está destinada... DIABO: Ide, ide, legião da boa justiça, pregar a vossa palavra aos ouvidos do santo. Mas não demorem, que a barca ‘tá quase pronta p’ra zarpar! Mediante as palavras do Diabo, o Procurador e o Corregedor vão até à barca do Anjo. CORREGEDOR: Belíssimo anjo, deixai-nos entrar na sua majestosa barca, e dar-nos acesso às terras pelas quais tanto lutámos durante a nossa vida terrena. ANJO: Terras!? Acho que devem estar enganados na barca. Aqui só entra quem na vida prati-


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cou o bem, algo que não vejo em vossas excelências... PROCURADOR: Mas compreenda senhor, o “bem” é um conceito muito subjectivo. Como já explicámos ao outro barqueiro, tudo quanto fizemos em vida foi em prol de um bem superior, talvez não segundo a sua definição de bem, mas decerto consoante a de outra pessoa. Não quero equiparar essa outra pessoa a vossa excelência, contudo, eu e o meu colega, como cidadãos que fomos, isto é, à mercê da sociedade, não pudemos fugir ao seu sistema. Aliás, quem nos garante a nós que uma eventual “fuga” seria positiva para o “bem”? Vivemos na Terra, segundo a Lei Humana; agora que vamos para o céu, estaremos dispostos a viver segundo a Lei de Deus - sejamos realistas, de outro modo não faria sentido. Portanto, caro anjo, peço-lhe respeitosamente que nos conceda o privilégio de navegar consigo até às águas e terras. ANJO: Mas afinal, que espécie de “bem” é esse que protege os mais fortes e que reprime os mais fracos? Explica-me, que conceito é esse que passa por cima de todos os valores e de todos aqueles que se esforçaram por um mundo melhor? Que lei é essa que permite que ladrões e mentirosos passem impunes à justiça, a troco de terras ou de algumas moedas? A propósito, que podem dois impostores como vocês ensinar a mim, quando na realidade hipotecaram a própria


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alma a troco de umas meras regalias, passando por cima de todos os valores humanos e usurpando todas as normas que a vossa sociedade criou!? A justiça e o bem são dois conceitos que não podem ser usados de forma tão leviana, nem os senhores têm os requisitos necessários para isso. Façam o favor de se retirar, porque aqui não há lugar para vocês. PROCURADOR: Naturalmente que a repressão dos fracos em prol do bem dos fortes parece um “mal”, mas temos que analisar a questão de um modo menos parcial, se me permite. O forte é superior ao fraco, exactamente por ser forte - o Leão come a Zebra, não há lei da natureza que proteja a Zebra! Na sociedade humana passa-se o mesmo: o forte domina o fraco. A lei é criada pelo forte, pois só o forte consegue impor a lei. Como o forte não é perfeito como sua excelentíssima, e portanto carece de certos problemas morais, como o egoísmo, evidentemente que irá criar leis que o beneficiam a ele, e não aos fracos. Como tal, a lei torna o forte mais forte e o fraco mais fraco. A justiça é a lei posta em prática e, como tal, irá favorecer necessariamente o forte. E porquê que eu digo que daqui surge um bem superior? Porque independentemente da lei ser desleal, da justiça ser injusta e do sistema social ser feito a pensar em alguns indivíduos e não na sociedade global, no fim de contas é preferível haver esse sistema imperfeito, do que não


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haver sistema! Sem sistema, não haveria sociedade, e todos ficariam em pior situação, quer o forte, quer o fraco! Assim, o bem é assegurado. Que outro bem se poderia esperar? Aquele que foi pregado pelo nosso Senhor Jesus? Ora, tenhamos os pés na terra - isso é uma fantasia; por algum motivo ele foi assassinado! Referiste o uso do dinheiro como algo contra a justiça - não poderias estar mais errado. O dinheiro é a medida da força! Quem tem mais, é o mais forte, é assim que o sistema funciona! Que poderíamos nós ter feito? Somos inocentes, pois fomos impotentes contra o sistema imposto! ANJO: Não sejas ignorante herege, porque Nosso Senhor Jesus Cristo derramou o seu sangue para vos dar vida, salvando a humanidade do poder do pecado e da fraqueza humana. Ele ensinou-vos a ter fé e a acreditar no espírito humano, porque só a fé nos leva a ultrapassar obstáculos e a suportar a amargura dos momentos mais difíceis. A maior prova da sua grandeza é que até hoje, todos os exércitos que já marcharam, todos os navios que já navegaram, todos os parlamentos que já se reuniram, todos os reis que já reinaram, juntos, nunca influenciaram tanto a vida do Homem como Jesus Cristo o fez. E sabes porquê? Porque ele através da sua fé, desafiou todas as leis humanas e todos os tiranos para vos conduzir à salvação, morrendo pregado na


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cruz, para mostrar ao ser humano a importância de nunca perder a sua fé em Deus. Mas infelizmente, isso é algo que tu e o teu colega nunca compreenderão, pois renegaram a fé em troca de umas quantas regalias físicas, vendendo a alma ao diabo para te tornarem escravos do pecado. Tu acreditas mesmo que uma simples moeda de metal vale mais do um pequeno gesto de humanidade? Pobre tolo, não sabes o que dizes e acima de tudo fico chocado, porque percebo que não só não tens vergonha pelos actos que cometeste, como também revelas toda a tua ignorância em quereres-me ensinar a mim o conceito de “bondade”, quando na realidade não fazes a mínima ideia do que isso seja. Não, definitivamente aqui não entram, porque aqui não há lugar para a tirania! Vão na outra barca que têm lá lugar de certeza. O inferno é o local mais indicado para vós. Com toda esta conversa tão convincente do Anjo, o Corregedor e o Procurador ficam envergonhados, e vão cabisbaixos ter com o Diabo novamente. DIABO: Ora, ora, Vossas Excelências estão de volta?! O santinho ganhou a causa? Que injustiça! Podiam ter usado os préstimos do meu advogado, que me tem ajudado tantas vezes! AHAHAH! Parece que os vossos pregões de “justiça justa” não o convenceram! Mas não fiquem


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tristes, têm ainda lugar garantido na minha barca! E sempre podem brincar aos tribunais, tenho ali uns quantos desgraçados que merecem uns castigos! CORREGEDOR: Caro Diabo, infelizmente o Anjo não compreendeu a missão à qual nós estávamos destinados. No entanto, é uma oportunidade para vossa excelência, pois tem à sua disposição dois indivíduos de créditos formados no estabelecimento da ordem e decerto que precisará da nossa ajuda no Inferno. Não cometa o erro de desperdiçar um potencial como o nosso! … DIABO: AHAHAH, na escola onde vocês estudaram já eu era professor! Eu nunca erro, e sei que vocês realmente têm um grande potencial para trapacear! Já agora, tenho ali uns martelos reservados p’ra vocês, mas não é p’ra baterem nas mesas... tenho umas tábuas soltas e quero que as preguem no chão!


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Cena 10


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Eis que chega um enforcado - Saddam Hussein, ainda com a corda ao pescoço, dirigindo-se para o Diabo, o qual lhe lança um sorriso maléfico, dizendo-lhe: DIABO: Eh lá, de corda ao pescoço? Casaste-te ou quê?! ENFORCADO: Casei, casei, mas não foi contigo que não tive culpa do que aconteceu! Casei com o azar e o infortúnio, pois tudo o que fiz foi para proveito dos que me seguiam. Não tenho culpa se tinha algum proveito também! Tenho aqui uns filmes do youtube no telemóvel, que provam que o pessoal que está à fome está todo preso pelos judeus e a comer do que eles lhes dão. Os meus cidadãos vivem todos em casas de luxo e não lhes falta nada. Ora vê, vê! E mais, tenho também o vídeo do meu enforcamento para veres como é que me pagaram, esses cães que hão-de morrer sarnentos numa valeta sem que ninguém lhes atire um osso! DIABO: Oh Saddam, sou teu fã número 1! Adorei a tua célebre afirmação no julgamento: “Rebenta a bolha!” E p’ra mostrar o quanto gosto de ti, ofereço-te um lugar na minha barca, ao meu lado! Pode ser ainda que os ratos que tenho no porão consigam roer a tua corda! ENFORCADO: Cantas bem, mas não me alegras! Aí não quero eu ficar! Na tua não quero eu governar, pois se os meus cidadãos, que eram umas santas almas e seguidores do Corão, fizeram


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o que fizeram, imagino a população que tens aí, o que me fazia! Os únicos ratos que me roeram a corda foram aqueles que eu ajudei, mas ainda espero que o vejam lá da outra barca e me chamem. Os teus ratos roerem-me a corda, ora vejam-me só isto! DIABO: Se pensas que vieste p’ra continuar a governar, ‘tás muito enganado! Aqui no pardieiro mando eu! Quanto aos teus cidadãos, parecias o Valentim... “matem-se que vos ofereço 30 virgens no céu”! AHAHAH! Olha, tenho ali uma “virgem” p’ra começares, se quiseres! ENFORCADO: Pois, vinha fiado que as encontrava, mas na outra barca! Venha de lá essa, vamos ver o que é que vale! Mal por mal, vou consolado! Já ouço cavalos! Deixa-me entrar, deixame entrar que se calhar vêem-me buscar! DIABO: AHAHAH, este não deu trabalho nenhum! Nem sabe a “sorte” que lhe espera lá em baixo! AHAHAH!


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Cena 11

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Ao longe, avista-se um mártir a cavalo, que vem a declamar algo. CAVALEIRO: Tudo valerá a pena, Se o fraco ficar mais forte. Lutar pela igualdade, Facultou-me uma digna morte. DIABO: Eh lá, onde vais com tanta pressa, assim armado à D.Quixote? CAVALEIRO: Eu não tenho pressa: A Dulcineia não me espera, A missão foi cumprida, Vento de mudança nesta era. DIABO: Então, meu caro, se fizeres o favor, galopa cá p’ra dentro, que não tarda nada vamos iniciar a nossa viagem p’ro inferno! CAVALEIRO: Não morri pela recompensa, Ofereci a minha vida à igualdade, Se agora posso escolher,


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Então que seja a felicidade. Sendo assim, Diabo, Não irei com a tua comitiva, O meu destino é o Céu, Terra onde não sobe o IVA!... Mediante as palavras proferidas ao Diabo, o Cavaleiro continuou a trote até à barca do Anjo. ANJO: Ainda bem que chegaste, tenho estado todo este tempo à tua espera, pois eu bem sei os tormentos que passaste até aqui chegares, mas a tua coragem e a tua luta foram o suficiente para que hoje tivesses um lugar reservado nesta barca. Eu sempre soube que este era o teu destino, porque só quem luta assim é que merece o paraíso.

FIM



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