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Š Rion Sabean

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MURO


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1 André Consciência 2 Rita Severino 3 Pedro Miranda 1

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4 Sara Queiróz 5 Tatiana Pereira 6 João Diogo 7 Joana Sousa

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Editorial.........................................................4 Artigo Arte interventiva e a Ameaça nuclear.............6 Prosa Júnior, o cão. (19/10/2011)............................8 O estranho caso do 5º esquerdo....................11 Morimundo....................................................14 poesia Beneath the Skin...........................................15 Entrevista Well, this is Joana - Joana Well......................16 Portefólio Marco A. Pires................................................20 Música, Shhiu oiçam! Maria Minerva – Cabaret Cixous.....................22 Música, Recomendações Balam Acab – Wander/Wonder......................24 Processory - Change is Gradual......................25 Class Actress - Rapprocher.............................26 Cinema Midnight in Paris............................................28

8 Miguel Simões

© Rion Sabean

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EditoriAl Joana Sousa

Desaparecida, a Muro? Não. Ausente, pois a vida tem solicitado a sua presença noutras andanças. A Muro andou por aí a indignar-se, a fazer ciência, a criar, a fazer pela vida e a deleitar-se com as coisas boas da vida. Num tempo em que a crise e a austeridade são palavras de ordem, não podemos deixar de inscrever na Muro algumas palavras positivas sobre a imensa realidade que nos rodeia. Apesar da instabilidade, há ainda quem avance com projectos, quem esteja disposto a partilhar ideias e a criar sinergias com outros. A Muro é assim: um espaço onde cada um contribui com a sua

darshana, com o seu ponto de vista, quando e como pode. Os meios são diversos: a prosa, a poesia, a entrevista, a fotografia, o artigo de opinião – as manifestações do nosso ser cabem aqui. Afinal, a Muro é um muro nosso. Vosso. Gostaríamos que todos vós se juntassem à Muro na guerra contra o terror e o medo perante o amanhã. Conscientes das dificuldades, pedimos que se inflamem de criatividade e arregacem as mangas perante os obsctáculos. A Muro #8 é um convite à acção. A Muro é um sinal de acção. Porque acreditamos que vale a pena caminhar, mesmo que nesse caminho encontremos muros. Podemos deitá-los abaixo, saltar por cima deles, pintá-los: a opção é nossa. E que nunca nos faltem as opções, ou, melhor dizendo, a capacidade para as ver. Encontramo-nos no #9. Até já.


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Artwork by Janet Echelman


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artigo Rita Severino

Arte interventiva

e a Ameaça nuclear

No passado dia 23 de Outubro a central nuclear de Almaraz II, em Cáceres, a 100 quilómetros de Portugal, parou a sua pro­ dução devido a um sobreaquecimento numa das bombas principais de refrigera­ ção do reactor. Conforme avançado pelo jornal Público e de acordo com o Conselho de Segurança Nuclear espanhol (CSN) a paragem da central “não representa riscos nem para as pessoas nem para o ­ambiente e está classificada como o nível 0 na ­Escala Internacional de Ocorrências Nucleares (INES)”, escala essa que tem sete níveis e é utilizada para informar a sociedade da gravidade de um evento nuclear. À data da catástrofe de Tchernobil, ocorrida há 25 anos, classificada de nível 7, o então líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev uti­ lizou a expressão “confronto com a força real da energia nuclear, fora de controlo”

para informar a comunidade internacional do acidente. Palavras entretanto esqueci­ das... A importância destes acidentes tem sido sistémica e preocupantemente des­ valorizada, conforme a História nos ensina e cujo mais recente exemplo é o acidente de Fukushima (Japão), também classifica­ do de nível 7. Todos os acidentes até à data comprovam que esta não é uma ­forma de obtenção de energia segura, apesar de todas as normas de segurança. Temo que na classificação da INES seja ocultado um nível, superior a 7. Um ­evento dessa magnitude é uma ameaça real. É também real o problema do lixo radio­ activo, para o qual ainda não existe solu­ ção. A alternativa existe, é a energia pro­ veniente de fontes renováveis como o vento, a água, o sol e a biomassa. Sob uma política de custos e de independência


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energética face ao petróleo, tem-se man­ tido um programa nuclear que mais não é que uma catástrofe em potência. A amea­ ça de Fukushima está, por agora, “­contida”, mas não se sabe até quando. Em Março passado a chanceler alemã, Angela Merkel, defendeu o encerramento das centrais nu­ cleares na Alemanha e rotulou de “transi­ tória” a tecnologia atómica. Concordo, não só com o encerramento das centrais nucle­ ares na Alemanha, mas no mundo inteiro. A ameaça nuclear não conhece fronteiras e não é um problema deste ou daquele Governo, é um problema mundial. A socie­ dade não pode, nem ser mantida na igno­ rância, nem continuar a ignorar este facto. Num mundo sob a ameaça nuclear o ­futuro, de todos, é incerto. Informar a sociedade do perigo real que a ameaça é um direito e um dever e a arte, com o seu carácter interventivo, tem o seu papel, como sempre teve. Este é o desafio que deixo a todos os que escolheram a arte como a sua forma de comunicação no mundo.

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prosa João Biscaia

Júnior, o cão.

(19/10/2011)

Não gosto de cães. Pelo menos não tanto quanto gosto de gatos. Não, não gosto mesmo de cães. Não gosto, pronto. São parolos, cagam ao desbarato, mijam(-se) em todo o lado, rebolam-se no estrume e na merda que os outros cães cagam ao desbarato, são atabalhoados, demasiado submissos. Latem, guincham e ladram sozinhos às 4h da manhã. Às vezes, cheios de cio e ganas, juntam-se três ou quatro na mesma rua em sinfonia rouca que fica a ecoar nos ouvidos — pior que o baque seco do martelo do vizinho — que não deixa as pessoas dormir. Lambem os colhões e não o escondem de ninguém, a sua forma de dizer olá é cheirar o recto do outro respectivo canídeo em busca de, apenas e só, fornicação para a procriação. Não gosto de cães. Enchem tudo de pêlo, babam-se, excitam-se se lhes afagam a pança. Não os suporto. Surpresa — esta pequena história é sobre um cão. Um cão chamado Júnior, com um focinho de jeito e maneira tal que o faz parecer logo, à primeira vista, um animal simpático e inteligente, de pêlo longo e ondulado, espesso, casta­ nho-russo-ruivo brilhante em dias de estio, um pouco murcho nos Novembros e Dezembros de todos esses anos que passaram. Também com a idade se lhe foi murchando a ruivez natural da pelugem, assim como se me encheu a cara de minas terrestres, perdão, acne ou os meus olhos foram ficando mais ama­ relados. Era, ipso facto, um cão esperto e cheio de vida — por vezes, quando


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o chamava e ele vinha apressado deitar-se de papo para o ar aos meus pés, podia jurar que o via sorrir. Sério! Júnior, o cão, existe desde que eu me lembro das coisas existirem, ou seja, desde a pequenez de uns singelos quatro ou cinco anos de idade. É ele o cão duma das minha vizinhas, não vive paredes-meias mas vive ao fundo da rua, isto de aldeias é assim, é-se vizinho até onde for aceitável ir pedir uma colher de fermento, vizinha essa que tem uma filha com certa idade, uma certa idade parecida com a da minha irmã, já contam ambas com vai para mais de vinte e quatro anos, crianças dos anos 90, nunca paravam quietas, para cá e para lá entre a casa de uma e a da outra , folheando revistas Bravo, suspirando pelos Backstreet Boys, usando-me, inocente criança indefesa como figurino de rou­ pas novas ou cobaia de cosméticos, provador oficial de lanches duvidosos, sempre a personagem masculina nos joguinhos que faziam a imitar as nove­ las, fazia de macho latino na alta pequenez dos meus já ditos 5 anos, não é para todos. Pior que tinha de passar pelo tal cão enorme, peludo, de orelhas prodigamente felpudas, mais fulvas que o resto do corpo, com uma gravata de pêlo branco a descer-lhe desde os papos até ao bucho, para entrar em casa da minha tal vizinha. Chorava sem me dizerem nada, bastava ouvi-lo ladrar, tinha medo dele, cheguei a mijar-me uma dramática vez em que minha mãe me mandou ir buscar uns ovos à tal vizinha e, distraído, passei pelo escadario pequeno da entrada sem pedir permissão ao bicho e ele saiu lançado da sua casota a latir violentamente e pronto, comecei a berrar e fiz xixi nos calções, sorte que foi a ir buscar os ditos ovos e não a trazê-los, era tragédia grega soltar-me assim e ainda partir meia dúzia de ovos. Eu cresci, ele também, a minha irmã e a filha da minha vizinha zangaram-se, nunca mais se falaram, e eu, vindo da escola ainda primária, confianças de vizinho, fazia questão de passar pela latada onde estava a casota do Júnior, brincar uns cinco minutos com ele, esfregar-lhe bem aquela pança gorda, co­ çar-lhe debaixo da mandíbula, e ele regalado, no chão, virado para o céu, com as patas brutas em jeitos simpáticos, se me afastava, levantava-se pronta­ mente, vinha atrás de mim. Pedia-lhe a pata e ele dava a pata. Pedia-lhe a outra pata e ele dava a outra pata. E estávamos nisto tempos infinitos. Se eu, por fome ou por que fosse, não por lá passasse, ele ladrava violentamente como que reclamando, mas bastava eu exclamar “ó Júnior!” ou dar um assobio longo que ele levantava as orelhas e abanava o rabo. Deixei de por lá passar,


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vindo já da instituto, quinto, sexto, sétimo, oitavo e nono ano, ia lá uma e outra vez, festa de aniversário, dar um recado, pedir fermento ou ovos, lá está, chamava-o, brincava com ele, afagava-lhe gentilmente a cabeça, reparava que começava a cara até a murchar-se-lhe, os olhos a ficar vermelhos por fora e negruns por dentro, e ele abanava a cauda, mais peluda que a crina de um cavalo, mais felpuda que a de um coelho, feliz por me ver, lambia-me as mãos, ainda dava a pata — e a outra também, às vezes esquecia-se, mas eu alembrava-o — e logo se punha novamente de barriga para o ar. A tal minha vizinha e o marido, quando comecei a estudar no liceu, davam-me boleia até à vila, para não ter que ir de autocarro. Ele era a primeira vivalma que eu via todos os dias de manhã, às vezes ainda o sol não havia despertado, fazia frio ou chovia, mas ele vinha sempre a abanar a cauda, só em busca de uma co­ çadela nas orelhas. Abateram-no hoje, pouco depois da hora de almoço. Estava velho e doente, estava surdo e muito débil, pejado de moscas e varejeiras a seringarem-lhe a paciência, tão fraco que nem força tinha para se abanar e enxotá-las. E eu chorei. Não era o meu cão, não era uma pessoa e eu nem sequer gosto de cães, mas uma parte da minha infância morreu com ele. Era o Júnior. E eu chorei. Ficam as memórias.


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prosa Mara Mota

O ESTRANHO CASO DO 5º ESQUERDO uro os à porta, proc Toca alguém staram cu e les que m chinelos, aque e es­ qu e ng yuan yo uo W o n 1,50 a vez encontro outr os te en am h tran , razão de urina seca s io íg st ve m co do gato r que a porra ta ei sp su ra pa iar-se. tra vez a aliv ou ve te es lá já -me a s nus dirigo pé de o m es M escolhi­ eza que fui o rt ce a n a rt po missão. do para uma e com a ta, deparo-m or p a r ri ab o A querdo, a do 5º es h n zi vi a h in m gritar a Buraco, a ap R a d lin or N ento: ara em sofrim ar a m u o m co MORTO! está MORTO, le e , A A A H — UÍNO! TANÁSIO BAB O M A R TA A M a ontem to? Mas aind or m as n Ta O quem e a esmurrar d ú sa e d vi o super­ a frente no a ci e ar ap e lh ão tinha que a caixa n mercado por ver em ara lhe devol 4 cêntimos p troco. foram: palavras dele — As últimas ti, ó mi­ rar-me-ei de “Só assim liv zinha vi­ ..!” Dizia a vi nha filha da. orien­ crédula e des sívelmente in tada. uste de os? Algum aj — Teria inimig va do tionei à viú contas? Ques morto.

— Ele nunca saía de casa e todos gostáva­ mos dele, eu e os meus amigos. Referia-se ela aos “amigos” que pernoita­ vam regularmente naquela casa onde se ouvia “Amor de Inverno até Arrepia… ai Arrepia” de Rolando Vaqueiro juntamente com ruídos duvidosos à mistura. — Parece que ele foi morto pelo seu as­ sassino, constatei franzindo o sobrolho, gesto que me era característico. Adiei as averiguações porque era dia de arrancar dois dentes do siso, mas o caso do Tanas preocupava-me. No consultório senti algum nervosismo inexplicável por parte da assistente, o que poderia dever-se ao facto de pou­ cas mulheres resistirem aos meus atri­ butos físicos e ao meu charme natural. Ignorei e desviei o pensamento para o estranho homicídio que agora tinha mãos, o caso Ta… — Sou estagiária e arranquei-lhe por engano um molar mas não se preocu­ pe que já lhe devolvo o dente! — Claro, um engano! Eis uma hipóte­ se, a vizinha cometeu um erro e en­ cenou o crime para se safar à res­ ponsabilidade. De regresso a casa começo a derradeira busca pela ver­ dade dos factos. Toco à campainha


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do Sr. Varandas o vizinho de baixo, do 4º esquerdo. — Sr. Varandas sabe alguma coisa do ho­ micídio que ocorreu ontem no andar de cima? — Não me diga que finalmente mata­ ram a velha? Digo-lhe mais, já o deviam ter feito mais cedo. Sabe quantas quei­ xas fiz à polícia por causa do barulho? Até que enfim alguém decidiu calar a velha. — Não, foi o esposo, o Tanas que apa­ receu morto. — Você disse esposo? HA, HA, HA, HA... depois da gargalhada, de repente lan­ ça-me um olhar esbugalhado como se fosse explodir e fecha-me a porta. — O filho da mãe está bêbado! De­ saparece senão apresento-te a mi­ nha “menina”, granadas…fujam, fujam...vem aí bombas…! Bem sabia quem era a menina do Sr. Varandas, veterano de guerra que sofria do stress prós traumáquico e ainda dormia com uma metralhado­ ra tokay (a sua “menina”) debaixo da almofada.

O Sr. Varandas era “carta fora do ba­ ralho” porque até desconhecia a identidade do Sr Babuíno. — Chiça! Esqueci-me outra vez...! Corro até ao Centro de Emprego, e levo 3 horas de espera, finalmente atende-me uma senhora com umas argolas gigantes penduradas nas ore­ lhas que já por si não eram pequenas. — No sabe que tiene que aparecer en este centro siempre que se llame?! Ahora tiene que esperar tres meses para recibir el subsidio. Sem perceber nada do que a espanhola estava para ali a dizer, arrisquei: — É verdade esqueci-me de entregar os papéis para o subsídio, mas o que é que isso tem a ver com lama!? yo no parlare espanhole, preferia que um português me explicasse, entiendeste? — Va con los cerdos, fascista portugués! Abandonei a espanhola aos gritos e fugi, antes que se juntassem mais pessoas, até porque sinto-me mal em espaços fecha­ dos e tinha a missão de desvendar o crime do 5º esquerdo. De volta a casa cada vez mais me conven­ cia de que o assassino era alguém das re­ lações da Dona Norlinda Rapa Buraco. Deci­ di controlar as entradas e saídas daquela casa suspeita que era mesmo em frente à minha. Olhava pelo buraquinho da porta e ninguém daria pela minha presença. O primeiro suspeito, um lingrinhas com cal­ ças de cabedal e com meia dúzia de cabelos ensebados a cobrir a careca reluzente. O segundo, um engravatado ­cabeludo que ainda vinha a pentear-se e a perfumar a grande e...farfalhuda peruca.


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Do nada aparece-me o Sr. Ignácio Salva Um de Cada Vez, o senhorio do meu apartamen­ to…a renda estava por pagar! Além de ta­ par-me o ângulo de visão para aquela mo­ vimentação deveras estranha, era inconve­ niente porque não tinha recebido o subsí­ dio, logo não podia pagar a renda. — Triiiiiiimm, Triiiiiiiiimm…Abre caloteiro senão rebento-te primeiro com a porta e depois com esses dentes. Destranquei e abri calmamente fixando os olhos no punho do Sr. Ignácio que era de loiça, porque tinham-lhe arran­ cado a mão numa luta de boxe, quan­ do era moiço. Sr. Ignácio tive uma situação inespe­ rada o meu subsídio atrasou-se uns diazinhos… — Tens a certeza que não queres pagar agora? Perguntou em tom de amea­ça exercitando o punho de loiça. — Não tardou muito até eu levar dois murros na cara e um na parte privada, a dor foi tanta que até me lembrei de um tipo procurado pela polícia uns anos atrás, chamado Rebenta-Piças.

E comecei a ouvir a voz de uma mulher, que proferiu as seguíntes palavras: Ou da­ mos cabo dele, ou dá ele cabo de nós, quando menos esperarmos! Era a Norlinda Rapa Buraco que ­estava no lugar errado e na hora errada a fazer o quê?

To Be Continued…


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prosa Tatiana Pereira Blog: Abismo Humano

Morimundo Na estranheza familiar da narrativa, talvez de loucura rejeitada pelos sentidos ou dos sonhos que não me invadem, as minhas amigas são as folhas brancas de papel. Brancas e puras virgens que eu mancho com meus suplícios. Tudo que me dão é aquilo que erradicam de mim e na sua pureza não se esculpe a crueldade. Brevemente morrerei e é tempo de aliviar minha alma de acontecimentos aterrorizantes. Estes, que me torturam e aniquilam. O horror desprovido de explicações. Fantasmas de inteligência excitável, talvez menos terríveis que grotescos, na sucessão de causa e efeito. Espíritos fantasiosos na troca de palavras, buscando a cura altruísta quando palavras profanas escorrem de lábios doces, no exorcismo do flagelo e na dissolução demoníaca. Descendo os caminhos infinitos do amor incondicional e oferecendo a vulnerabilidade em bandejas de prata. A sucessão de causa e efeito num mundo sem sabores. Na fuga ao infortúnio, o fastio da estagnação nos passos em solo divino. A paz para além das chamas mundanas que envenenam os bosques. E gritando o ódio ao mundo, ouvir ecoar o amor dissimulado implícito. Matar e morrer na cobiça inconsciente para renascer uma vez mais.


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Poesia Akila Sekhet

Beneath the Skin My trembling heart in its frozen depth Craving for deliverance in lustful sighs Surrendered by the warmth of your passionate breath Caressing your figure in the line of sight Your thighs firmly around my waste Pulling me closer; shivering Stripped bosom flickering Arousing scent which I long to taste Our feverish silhouette of flaming desire Panting, moans from your velvet lips Silky wet skin on my fingertips In the darkness spreading liquid fire Pleasure flowing through our flesh Under temptations’ dominant slash Overwhelming ecstasies were embraced Your eyes reflecting my disgrace From this moment I can feel it Sending chills down my spine Catharsis cleansing our very spirit With your soul entwined in mine


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entrevista

Joana Well

Joana Sousa

Well, this is Joana - Joana Well


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Joana Well publica agora o seu livro: Brinquedo de estranhos, marioneta de sonhos. Conhecemo-la do blog A Funda São, cuja FUNDAdora já foi por nós entrevistada. Acompanhamos a publicação da sua carta aberta sobre a prostituição, que denuncia a ilusão em torno desta vida. E hoje queremos descobrir quem é a Joana escritora. Como é que surge a escrita, na tua vida? Primeiro surgiu a imaginação quase descontrolada. Durante horas, andava em círculos – diziam que havia de abrir buraco no chão – e inventava histórias. Ainda não sabia escrever, pedia ao meu avô, ele escrevia tudo o que eu lhe ditava e depois agrafava as páginas; eram os meus primeiros livros. No fim da adolescência esqueci-me que gostava de escrever. Lembrei-me, há cerca de dois anos; numa altura de grande crise pessoal. E a escrita voltou; acho que entrou, nesses dias maus, por uma porta que uma dor grande abriu. Tens algum autor em que te inspiras? Muitos. Tantas vezes, ao ler, encontro a maravilha nas páginas. E a maravilha é sempre inspiradora, é mãe absoluta da imaginação, só o homem maravilhado consegue dar à luz nas linhas. Ocorreme, agora, por exemplo, Gabriel Garcia Marquez; o que ele escreve é tão absolutamente maravilhoso que não consigo evitar, cada vez que o leio, uma embriaguez de estupefacção nos dias

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Perfil: Joana Well

Blog: Joana Well

Twitt: Joana Well

que se seguem; como é possível criar coisas tão maravilhosas? E é apenas um exemplo; assim, de repente, sem ordem, ocorrem-me: o extraordinário Eça de Queiroz, o mágico Fernando Pessoa, o génio de Saramago, Kundera, Vladimir Nabokov, Orwell, Lorca, José Mauro de Vasconcelos, e mais, e mais, e mais; ficaria dias a nomeá-los… Qual é o livro que tens na cabeceira? (para além do teu!) O Evangelho segundo Jesus Cristo. José Saramago vai acompanhar a minha próxima semana. Brinquedo de estranhos, marioneta de sonhos: podes explicar-nos o significado deste título? “Brinquedo de Estranhos” pode ser uma definição poética de prostituta; é uma metáfora e, por o ser, pode ser interpretada de diferentes formas; as metáforas somam-se ao íntimo do leitor,


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essa equação traz como resultado um significado único, pessoal; eu dou-lhe este, de acordo com a minha realidade íntima mas, intencionalmente, tento deixar espaço para que criem outras equações. Todos temos algo que nos move, uma força de tom mais definido, cada um tem os seus próprios fios nos pulsos, nas pernas, no corpo. Os fios que me puxam com mais força são os do sonho, neles também mora a imaginação e, daí, “Marioneta de Sonhos”. Podemos ser marionetas dos nossos próprios sonhos? Eu sou.

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Em criança, tinhas um brinquedo preferido? Qual? Tinha uma boneca grande e um giradiscos; não sei de qual gostava mais. Imagina que o mundo é todo ele uma grande marioneta e que tu tens a hipótese de a comandar, por um dia. O que farias durante essas 24h? Pois… Eheheheh Não seria grande comandante, acho que entediava toda a gente com discursos utópicos. Não sei, não sei, não sei; nunca me imaginei com os fios nas mãos, acho que não combina comigo.


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É inevitável falarmos da tua carta aberta sobre a prostituição. O que te levou a escrever e publicar esse texto? Recebi (recebo) e-mails cheios de sonhos, mulheres e homens convencidos de que, na prostituição, encontrarão coisas que lhes vão encher a vida de cor e facilidade. E sinto-me responsável, responsável enquanto ser humano e responsável porque, talvez, de alguma forma, o que escrevo, a minha presença na internet, contribuam de alguma

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forma para criar ilusões. O próprio título da carta explica: “Prostituição: carta aberta. Pelos e-mails que me enviam a pedir conselho. Pela responsabilidade de desmanchar ilusões.” Onde podemos adquirir o teu livro? No site da Editora Apenas (http:// apenas-livros.com/pagina/apenas_de_ cordel?id=419) ou na livraria Letra Livre (http://www.letralivre.com/gca/index. php?id=4)


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Portefólio Marco A. Pires

«Era uma vez.» É assim que começam as histórias. Mas não é de histórias que vos vou falar. Estórias. Estórias daquelas que surgem de coisas simples, como um telefonema e uma voz que do outro lado nos convoca. Que surgem a partir de uma casa, abandonada algures, que ao olhar de muitos é o mais imperial dos palácios. Estórias minhas, contadas (e vividas) na primeira pessoa; registadas no primeiro olhar. O meu olhar, cristalizado pela objectiva da minha máquina fotográfica procurando momentos reservados a uma fé própria; a fé de quem caminha sozinho. Sozinho? Talvez não. Afinal, a natureza é companheira fiel. É aquela companheira que apela para o que de infinito existe no momento. É com suor (mas sem lágrimas) que busco a fotografia (im) perfeita, através da qual possa partilhar os meus sentimentos, as minhas emoções, os cheiros e tudo o que me fascina. Sim, não estou sozinho. Aliás, não estamos. Com a natureza ou com a obra humana a nosso lado, o caminho que proponho deixa de ser meu no momento em que alguém abre as páginas desta minha estória. Não uso caneta para vos falar destas

estórias. Pouco sei de escrita e ainda muito tenho que aprender. A pegar na caneta, colocar a tinta no papel e vê-la ganhar forma. Não vos impressiona a forma como as palavras ganham sentido, uma vez ordenadas de uma certa forma? Admito: sou apenas um aprendiz. Da escrita que se faz com a caneta, mas acima de tudo daquela escrita que registo com o olhar, com a objectiva. Observo o momento (ou será que é o momento que me observa?). Foco, porque a vontade de não perder o momento é enorme demais. Se não o posso viver de novo, quero fotografá-lo. Registá-lo, como a tatuagem que nos crava a pele para sempre. E para sempre não é tempo demais? Eternizar o instante, no qual o aldeão da natureza (eu, Marco A. Pires. Prazer em conhecervos!) acredita ser algo mais do que aquilo que imediatamente vê. Chega de conversa (até porque tudo isto não passa de um conjunto de palavras toscas). Entrem. Façam só o favor de limpar os pés à entrada. Espera-vos um lugar reservado para o infinito. Azul, verde, cinzento… da cor que mais vos agradar. Esta casa é vossa. Estimem-na, pois nela guardo saudades, cheiros, sabores. Enfim. Passo-vos a palavra. Repitam comigo: era uma vez…


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Música

Shhiu oiçam!

Miguel Simões Maria Minerva – Cabaret Cixous A editora Not Not Fun tornou-se coqueluche do underground assim que alguns dos seus nomes começaram a inspirar ­linhas pequenas nas revistas e blogs certos. ­Assumido desde o princípio o propósito de lançar cá para fora autores de música psica­ délica e excêntrica mas sem estranheza como fim em si mesma, aquele que começou como um projeto para lançar amigos e amigos de amigos exporta agora para todo o mundo um leque de autores que vai desde os brilhantes Peaking Lights ao português Pedro Magina, passando pela senhora que nos prende hoje. Adeptos das cassetes como suportes ideais para a música feita muitas vezes no quarto, os nomes associados à Not Not Fun e sua spin off 100% Silk (para os sons mais dançáveis) tendem ao som em baixa ­fidelidade, ao gosto pelos territórios não explorados da memória dos 80/90 e à quase total liberdade de escolhas e abordagens, seja na disco, na música etéria ou no garage rock, justificando-se pelo assinalável rácio de qualidade o hype à volta desta editora do Oeste dos Estados Unidos que exporta mais para o resto do mundo que para todo o seu continente. É neste universo que nos surge Maria Juur, uma eslovena radicada em Londres, estudante de artes, filha de um crítico de música e critica de música ela

própria, enorme nos seus 80 metros de altura e de uma simpatia desarmante talvez injustamente atríbuida à semi-tenra idade de 23. Começou a fazer música na procura de hobbies que a mantivessem acordada durante o estágio na Wire e, apesar da sua assumida quase total falta de preparação técnica, conseguiu criar sozinha um imaginário de velhas canções disco do leste europeu, ouvidas do fundo de um tanque cheio de vodka manhoso e sonhos acordados. Estamos perante uma obra em que os sons não emanam da técnica de um músico posta à pratica, mas sim de fragmentos das memórias que esse músico fez por esquecer ao longo da aprendizagem. Guilty pleasures restructurados e feitos arte outra vez. Após uma inesperada troca de emails com Amanda Brown, a co-fundadora da editora Not Not Fun e membro dos LA Vampires, Minerva deu a ouvir algumas das suas propostas, o que lhe conseguiu um acordo posto mais ou menos nos termos “vamos editar tudo o que tiveres”.


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MARIA MINERVA Os primeiros rebentos foram os EPs Tallin at Dawn / Noble Savage e agora o primeiro LP Cabaret Cixous, todos ainda em 2011, ano que não acaba sem a prometida edição de um terceiro EP de nome Sacred & Profane Love?. Os dois primeiros foram demonstrações daquilo que a faz mexer: em Tallin at Dawn a reapropriação de velhas memórias dis­ co e pop (atenção à cover t­otalmente fora do baralho para Unchain My Heart) para um festim desapaixonado regado a estupefacientes; em Noble Savage a pureza rude da Rave, se ouvida ao fundo do corredor, dois andares abaixo. Cabaret Cixous consegue a proeza maior de reunir as duas ideias e ainda assim evitar o mal comum e mortal do conceito se sobrepor ao prazer da audição. A cada audição a melodia só se torna mais clara (Favorite Song) , o ritmo mais hipnótico (Pirate’s Tale) e a entrega ácida da voz mas sexy, benza-a deus. Maria Minerva não é, avisamos já, música imediatamente acessível, embora não necessariamente complexa. Como grande parte do catálogo da

Dil

Not Not Fun, é música supra-estimulante (no verdadeiro sentido do termo) que pode ser a melhor companhia para mentes abertas à procura de música realmente nova, se ainda amaldiçoadas pela repetida necessidade de voltar aos maus vídeos com que a MTV nos ajudou a crescer. Faixas: Ruff Trade, Luvcool, I Luv Ctrl,…


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música

Recomendações

Miguel Simões

Balam Acab – Wander/Wonder Mais produto de um recente novo apreço pelo poder do silêncio que do género do witch house a que ainda é associado, Wander Wonder surge como uma meditação submersa que, respeitada a qualidade de uma audição com bons head­ phones, uma das mais fascinantes e belas aventuras músicais de 2011. Como um Burial a viver na caverna de Gollum, Balam Acab junta um cauteloso número de elementos de campo para sugerir a frieza do ­inóspito enquanto nos assombra com as vozes dos seus fantasmas benignos. Tudo isto a espaços pautado com um uso abrasador do bass, o que para o bem e apenas para o bem coloca Wander /Wonder, o primeiro longa duração do jovem prodigio de 20 anos Alec Koone, junto do melhor de nomes como Kode 9 e James Blake. Para ouvir sem interrupções. Faixas: Welcome; Oh, Why?.


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Processory - Change is Gradual Change is Gradual é gigantesco: 77 minutos para um álbum pop é talvez tempo demasiado para absorver todo o c­onteúdo de uma assentada. Felizmente existe vida caseira ou viagens longas a pedirem banda sonora, e é aqui que entra o segundo álbum dos Processory. Projeto de Jori Hulkkonen e Jerry Valuri, os Processory são uma proposta finlandesa que promete mais revivalismo neoromântico a um primeiro contacto, mas que entrega algo bem mais próximo das experimentações alquimistas em busca da canção pop perfeita duns Lansing-Dreiden. O resultado é um denso álbum pop, de temáticas negras e carnais, ambiências de sonho acordado e ritmos apagados, que cresce na nossa mente como um vírus se nos arriscarmos a uma segunda audição. Recordamos: é grande. Faixas: Young Italians; Human, Unfortunately.


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Class Actress - Rapprocher Jornal of Adency foi um dos mais excitantes Eps de 2010, não só por nos apresentar a elegante embora frágil voz de Elizabeth Harper, mas especialmente por dar um interessante toque de frieza dark wave a um conjunto de canções synthpop sobre o glamour do amor. Rapprocher, estreia nos longa-duração do trio de Brooklyn, tira-nos o tapete às expectativas ao apostar num incremento da presença de diva de Harper (mais segura e duma sensualidade quase sempre pertinente) e ao abandonar as ambiên­ cias gélidas por uma paleta de sons que vai desde a disco à pop com pitadas de fins de 80, arranhando até o dubstep segundo Cassius. No fim dos 40 minutos fica uma agradável sensação de dever cumprido, mesmo assumindo que parte desse dever é assegurar que Elizabeth Harper será, um dia, uma estrela. Adoro ouvi-los tentar. Faixas: Hangin’ On; Need To Know.

Blog: Anita vai ao mel


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Cinema Sara Queiróz Os filmes de Woody Allen têm uma determinada especificidade que torna imediatamente reconhecível quem os realizou. É um cineasta único, e nessa medida, a fasquia é sempre alta no que toca aos seus filmes. Daí que, cada vez que um filme de Woody Allen é anunciado, é quase que inevitável criar-se expectativas. Porque Allen é um verdadeiro visionário, e a sua extensa e fantástica filmografia são prova disso. Em Midnight in Paris, Woody Allen regressa ao seu registo habitual e demonstra mais uma vez as suas fantásticas capacidades, ao brindarnos com um filme brilhante e humorístico que, para variar, tem muito que se lhe diga. Há qualquer coisa, de facto, em relação à meia-noite... Não sei se será algo mágico, especial, ou até místico, mas o certo é que vemos o verdadeiro impacto dessa hora no nosso protagonista, quando se apercebe que é aí que tem a oportunidade de se deparar com aquilo que verdadeiramente admira e sonha (dispensando-se o motivo). Gil e Inez (Owen Wilson e Rachel McAdams) estão noivos e de visita a Paris. De casamento marcado, eles têm ainda algumas dificuldades em acertar agulhas no que diz respeito à vida em comum. Ele é um argumentista de Hollywood com “síndroma da Idade de Ouro” que sonha viver em Paris e escrever o romance da sua vida seguindo os parâmetros dos grandes escritores da história da literatura. Já ela é uma mulher pragmática que aspira a uma vida estável e luxuosa em Malibu, nos EUA. Uma noite, embriagado pela beleza da cidade (e algum vinho), Gil perde-se

na cidade e vive a mais extraordinária experiência da sua vida num encontro com personagens que ele julgava existir apenas nos livros e que o farão reformular toda a sua existência... Em primeiro lugar, devo realçar que achei a cena de créditos inicial belíssima, se bem que ligeiramente extensa, em que o realizador convida o espectador a apaixonar-se por Paris, através das deslumbrantes imagens da capital francesa. Falando já da narrativa em si, o argumento acaba por ser brilhante, por mais imaginário e louco que seja: Ao misturar a comédia com uma pitada de


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fantasia, evidentemente que traz um certo irrealismo que provoca cenas bastante caricatas, especialmente as cenas de interacção entre Gil e as personagens com que se vai deparando na suas “aventuras”. Estamos perante um humor ao mais alto nível, hilariante até dizer chega, especialmente nas cenas protagonizadas por Adrien Brody, Owen Wilson e Michael Seen. Quem diria que Owen Wilson protagonizaria um filme de Woody Allen, e melhor ainda, se sairia muito bem no papel? Fiquei verdadeiramente impressionada com a sua performance, aliás, todo o elenco está perfeito para o filme. Owen encara na perfeição o sujeito insatisfeito à procura de mais, e neste filme demonstrou a sua versatilidade;

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Marion Cotillard, belíssima actriz, ilumina qualquer sala de cinema simplesmente pela presença. E, claro está, apesar de ter pouco tempo de antena, Adrien Brody está qualquer coisa de extraordinário no papel de Salvador Dali. Mas prefiro nem me debruçar sobre isso, para não “estragar” a surpresa. Meia Noite em Paris é um filme propositadamente fácil. A intenção de Woody Allen não é ser simbólico ou susceptível de diversas interpretações... Não, o objectivo é somente o contar de uma história, por mais peculiar que seja, em que nos apercebemos que o presente parece sempre ser insuficiente, e não há limites para quem sonha. A


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premissa do filme acaba por ser clara: estamos sempre insatisfeitos. Sem surpresa, Woody Allen faz-nos pensar: são filmes que apelam ao espectador. Embora imperfeito, ao sair do cinema, fiquei com a sensação que assisti a

um filme profundamente mágico e apaixonante, portanto não percam a oportunidade de vê-lo, especialmente se forem nostálgicos incorrigíveis. Não é uma obra-prima, mas uma verdadeira beleza clássica.

EXAME

Média Global: 8.1/10

Realização: 8/10 Actores: 9/10 Argumento/Enredo: 8/10 Duração/Conteúdo: 7.5/10 Transmissão da ideia principal do filme para o espectador: 8/10

Informação Título em português: Meia-noite em Paris Título Original: Midnight in Paris Ano: 2010 Realização: Woody Allen Actores: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAddams, Adrien Brody, Kathy Bates, Michael Sheen

Blog: Depois do cinema


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