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EIS A QUESTÃO

Natal, 08 de maio de 201 8

FICÇÃO CIENTÍFICA, CULTURA E NOTÍCIAS

Telepatia e tecnologia embalam comédia romântica

Philip Dick mostra futuros possíveis em livro de contos “Sonhos Elétricos”

Personagem de ‘Arquivo X’ aproximou mulheres e ciência, diz estudo

E MAIS...

Guia Michelin local ainda parece feito por turistas para turistas

Viagens no tempo ajudam a contar história sobre escravidão em livro

Obras de ficção que ajudam a entender Stephen Hawking

Livro sobre terremotos, vulcões e mutantes 1


EIS A QUESTÃO Natal, 08 de maio de 201 8

Personagem de ‘Arquivo X’ aproximou mulheres e ciência, diz estudo

Everton Lopes Batista

Mulheres cientistas na ficção ainda são poucas, mas um estudo americano divulgado neste mês mostrou que uma delas, a médica legista do FBI Dana Scully (Gillian Anderson), da série TV “Arquivo X”, tem desempenhado um papel importante na aproximação entre mulheres e as áreas de ciência e tecnologia. Mais da metade (63%) das mulheres que participaram da pesquisa, e que conheciam a personagem, afirmaram que Scully contribuiu para aumentar sua crença na importância das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (conhecidas em inglês pelo acrônimo Stem). Além de contribuir para uma visão mais positiva da ciência, Scully pode ter ajudado a levar mais mulheres para carreiras nesse campo, que é geralmente dominado por homens.

21 st Century Fox, canal responsável por “Arquivo X”, pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, organização que pesquisa a representação dos gêneros na mídia, e pelo setor de pesquisas da agência de publicidade americana J. Walter Thompson (J. Walter Thompson Intelligence). Mais de 2 mil mulheres participaram do estudo. Nos Estados Unidos, as mulheres são metade da força de trabalho com ensino superior, mas apenas 24% delas trabaMulheres que assistem, ou já assistiram à série regularmen- lham em áreas Stem, de acordo com dados do te, são 50% mais inclinadas a departamento americano de trabalhar nas áreas Stem do comércio, economia e adminisque aquelas que nunca ou pouco viram o programa de TV, tração de estatísticas. de acordo com o levantamento. O cenário no Brasil é um pouco diferente. Um relatório publicaNa história, a agente Scully é do no ano passado pela Elseviuma cientista designada para er, maior editora científica do trabalhar na investigação de mundo, indicou que metade relatos de casos paranormais dos artigos científicos produziao lado do pouco cético Fox dos no país são escritos por Mulder. Ela faz seu trabalho mulheres. guiada pela lógica e plausibilidade das provas que encontra. A distribuição das mulheres dentro das áreas da ciência, A série teve sua estreia em porém, ainda é desigual. De 1 993 e ficou no ar até 2002. Em 201 6, o programa voltou a acordo com dados da Fapesp passar na TV nos Estados Uni- (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paudos e chegou, neste ano, com lo), de 201 7, a participação sua 11 º temporada ao Brasil. feminina nos projetos submetiA capacidade de Scully de atrair mulheres para a ciência é dos à instituição chegava a especulada há anos e ficou co- 56% no campo da saúde, mas caía para 24% nas ciências nhecida no meio como “Efeito exatas e da terra. Scully”, mas este é o primeiro teste científico da hipótese. O estudo foi realizado pela


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Philip Dick mostra futuros possíveis no livro de contos "sonhos elétricos" Everton Lopes Batista O produtor Michael Dinner (Anos Incríveis) reuniu um grupo diverso de roteiristas com a missão de adaptar para a TV contos de Philip K. Dick (1 928-1 982). O resultado do projeto pode ser visto na série antológica “Philip K. Dick’s Electric Dreams” (sonhos elétricos de Philip K. Dick), disponível no serviço de streaming Amazon Prime Video. Agora, as histórias originais que inspiraram os dez episódios de “Electric Dreams” chegam ao Brasil na edição “Sonhos Elétricos” (editora Aleph). Além dos contos, o livro também traz textos com a visão dos roteiristas responsáveis pelas adaptações. Um deles é Jack Thorne, o britânico responsável pelo texto da peça “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, que roteirizou o conto “O Passageiro Habitual” (“The Commuter”) para a série. Na história original, um passageiro aparece em uma estação de trem insistindo por um bilhete para uma cidade que não existe –pelo menos no universo que conhecemos. Intrigado, o bilheteiro resolve

investigar o caso e acaba descobrindo uma realidade paralela. Na série, a trama sofreu poucas modificações: ganhou um ar contemporâneo e um desenvolvimento maior de personagens como o filho do bilheteiro, um garoto inexpressivo no conto que se

tornou um adolescente instável emocionalmente na série. “Como alguém que já leu muita ficção científica, acredito que exista uma diferença entre escritores que têm ideias e escritores que constroem mundos. PKD constrói universos”, diz Thorne em sua introdução ao conto no livro. Mas “O Passageiro Habitual” é um dos raros trechos da coletânea que não falam sobre tecnologia e futuro. Os temas são revirados por PKD em outras sete breves distopias presentes na obra.

“SONHOS ELÉTRICOS” (“ELECTRIC DREAMS”) AUTOR Philip K. Dick

TRADUTOR Daniel Lühmann EDITORA Aleph QUANTO R$ 49,90 (274

págs.); R$ 29,90 (e-book)


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Terremotos, vulcões e mutantes são temas de ficção científica premiada sobre geofísica contando com a ajuda de especialistas no tema. O processo de pesquisa teve até uma viagem para o Havaí, onde a escritora visitou quatro vulcões. “Uma coisa é pesquisar por meio de livros, mas eu precisava conhecer o cheiro dos vulcões e a sensação de ter solo e cinzas vulcânicas sob meus dedos”, conta Jemisin. “A Quinta Estação” já está sendo adaptado para a TV pelo canal TNT. A escritora não par(Laura Hanifin/Divulgação) ticipa da produção, mas diz já Não há viagens espaciais ter se reunido com Leigh Dana nesta ficção científica. Quem Jackson, escritor da adaptação ler “A Quinta Estação” (Morro que também teve participação Branco), da americana N. K. em roteiros de séries como Jemisin, vai encontrar um mun- “Helix” “Sleepy Hollow”, para do chamado Quietude com sé- explicar mais detalhes do unirios problemas geológicos e verso do livro. pessoas com a capacidade de O livro foi lançado no Brasil sentir, controlar e provocar tre- em novembro de 201 7, mas fomores de terra. ra do país já está fazendo su“Na natureza, no mundo re- cesso há algum tempo: al, muitos animais têm essa primeiro da série “Terra Partisensibilidade [capacidade de da”, a obra recebeu o prêmio antever terremotos]. Então eu Hugo de melhor romance de apenas dei aos humanos uma 201 6. No ano seguinte, o seversão avançada dessa habili- gundo volume da série (“The dade”, diz a autora. Obelisk Gate”, ainda inédito em A trama principal é a jornada português) recebeu o mesmo de uma mãe orogene (nome prêmio. recebido pelos mutantes com Jemisin também foi a primeias habilidades geológicas) em ra mulher negra a receber a busca da filha raptada pelo honraria, que é concedida topróprio pai — tudo sobre um dos os anos desde 1 953. solo extremamente instável. A editora Morro Branco já Para criar esse universo, Je- adquiriu os direitos do segundo misin, que tem formação em livro da série e deve lançar ainpsicologia, precisou aprender da neste ano por aqui. Everton Lopes Batista

A QUINTA ESTAÇÃO AUTORA: N. K. Jemisin EDITORA: Morro Branco QUANTO: R$ 49,80 (201 7, 560 págs.)

RACISMO

Críticas ao racismo e à segregação social também existem na obra. Jemisin descreve as condições de estrito controle sob as quais vivem os orogenes, regras geradas por humanos sem poderes geológicos que se sentem ameaçados por eles. Na narrativa, os personagens centrais têm a pele escura, enquanto pessoas de pele clara são geralmente vistas com algum desprezo pela sociedade de Quietude. Para a escritora, ainda existe um desequilíbrio de representatividade na literatura de ficção que precisa ser superado. “Muitas sociedades, como Estados unidos e Brasil, têm grandes populações de pessoas negras. Não faz sentido a maior parte de nossa ficção fingir que essas pessoas não existem ou não possuem histórias dignas de serem contadas”, afirma.


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EIS A QUESTÃO Guia Michelin local ainda parece feito por turistas para turistas Josimar Melo

A edição do Guia Michelin São Paulo e Rio ainda não conseguiu dissipar a impressão de ser um guia não somente feito para turistas, mas também feito... por turistas. Parece uma visão distraída de quem está de passagem e apenas colhe no ar algumas impressões sobre a gastronomia das duas cidades. Talvez por ser dirigido, de fora, por uma empresa de tradição europeia; talvez por ter inspetores estrangeiros analisando nossos restaurantes com um olhar exterior; o fato é que o Michelin brasileiro continua surpreendendo pelas inconsistências.Há guias e guias. E listas. Como entre as casas com uma estrela o Kosushi está no time e o Shinzushi não? Como é possível que, ainda em São Paulo, restaurantes como Arturito, A Casa do Porco, Jiquitaia, Tordesilhas não tenham nenhuma estrela? Mas para quem vive e frequenta esses restaurantes, não. Por fim, que não haja nenhum três estrelas, algo que fere o brio dos brasileiros, parece no entanto um acerto. Quem vai aos grandes restaurantes no mundo sabe que ainda falta um pouco mais de consistência e de perfeição (técnica e emotiva) para entrarmos neste time.

Capa de “Interferências”, de Connie Willis (foto: divulgação)

Telepatia e tecnologia embalam comédia romântica sci-fi

Conhecer alguém, se apaixonar, começar um namoro e, finalmente, planejar uma cirurgia no cérebro que faça um experimentar os sentimentos do outro. É assim que a personagem principal, a jovem Briddey, vai parar em uma mesa de cirurgia para fazer um EED – cirurgia que faz o cérebro do crush entrar em sintonia com o seu. A ideia foi de seu namorado, que trabalha na mesma empresa de telecomunicações que ela, a Commspam. Mas, em vez de se conectar com o namorado, Briddey cria uma ligação muito mais forte do que a prevista pelo tal EED. Só que não com Trent. Depois de alguns dias, Briddey passa a escutar

Natal, 08 de maio de 201 8 pensamentos de desconhecidos também, consolidando a telepatia adquirida misteriosamente após a cirurgia. A escritora é veterana na ficção científica. É dela o elogiado “O Livro do Juízo Final”, também publicado no Brasil pela Suma. Mas “Interferências”, impresso originalmente em inglês em 201 6, dividiu as opiniões dos fãs e de críticos pelo mundo. Parte disso vem da tentativa de construir uma narrativa incomum dentro do gênero. “Interferências” é uma história de amor. Há tecnologia e especulações científicas, mas ainda é uma história de amor que poderia virar um filme da Sessão da Tarde. A autora tem uma escrita ágil e certamente algumas risadinhas vão aparecer durante a leitura. Entretanto, se prepare para a torrente de pensamentos –os da personagem principal e os de centenas de pessoas que ela é capaz de ouvir. Pode desanimar os leitores menos pacientes. Connie quer chamar a atenção para a velocidade e a superficialidade com as quais nos comunicamos hoje. “As pessoas se comunicam demais”, conclui um dos personagens em um dado momento. Depois de ler as mais de 450 páginas de “Interferências”, o leitor pode chegar a considerar deixar o smartphone um pouco de lado também.


EIS A QUESTÃO Conheça obras de ficção que ajudam a entender a ciência de Stephen Hawking O físico britânico Stephen Hawking foi também um divulgador de ciência com livros como “O Universo numa Casca de Noz” e “Uma Breve História do Tempo”, nos quais explica em linguagem acessível conceitos complexos de cosmologia e física teórica. As hipóteses de Hawking, porém, chegam até o campo da ficção ao inspirar enredos que usam conceitos de suas teorias para guiar romances, dramas e aventuras nas telas e nos livros. Buracos negros, regiões do espaço onde a força gravitacional seria tão grande que nada conseguiria escapar delas, ocuparam a maior parte de suas pesquisas. Não é difícil imaginar a tensão que esse elemento acrescenta a uma narrativa, com a tripulação de uma nave espacial lutando para fugir de uma área dessas. Buracos de minhoca, túneis hipotéticos formados por buracos negros que seriam atalhos capazes de ligar dois lugares distantes no espaço — também foram estudados pelo cientista. Veja abaixo uma seleção de obras que podem ajudar a entender um pouco dos conceitos mais marcantes do trabalho de Stephen Hawking.

Contato (1 997)

O filme é inspirado no romance homônimo de Carl

Sagan, astrônomo que também teve importante papel na divulgação científica. Na adaptação, dirigida por Robert Zameckis (“De Volta Para o Futuro”), acompanhamos a jornada da cientista Ellie Arroway na defesa por sua pesquisa de busca por vida extraterrestre. Os buracos de minhoca se apresentam como a solução capaz de promover o contato entre civilizações distantes umas das outras.

Star Trek (2009)

No filme dirigido por J. J. Abrams (Star Wars: O Despertar da Força), desdobramento da série clássica de televisão dos anos 1 960, um composto chamado de “matéria vermelha” pode criar um buraco negro artificial. É esse elemento que a frota estelar usa para defender os integrantes da Federação Unida dos Planetas da ameaça representada pelos romulanos, alienígenas hostis à organização.

Interestelar (201 4)

No futuro da Terra, quando os recursos naturais estão próximos do fim, uma equipe de cientistas viaja por buracos de minhoca pelo universo para encontrar uma nova casa para a humanidade. O filme tem a direção de Christopher Nolan (“Dunkirk”).

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Viagens no tempo ajudam a contar história sobre escravidão em livro

A escritora americana Octavia Butler (Foto: Cheung Ching Ming/Divulgação)

Lopes Batista

A autora nos faz viajar no tempo com a protagonista Dana, uma mulher negra da década de 1 970 que inesperadamente se vê na fazenda onde seus ancestrais escravizados viviam, em algum momento do século 1 9. Dana é uma mulher moderna que vive em Los Angeles e tenta ganhar a vida como escritora enquanto encara uma série de empregos mal pagos — situação também vivida por Octavia. Mesmo tendo nascido cerca de duzentos anos depois dos parentes que encontra no passado, a personagem também sente o peso do preconceito contra os negros. Dana enfrenta discriminação por ser casada com um homem branco, por querer ser escritora, pela cor da sua pele.

Entre as idas e vindas que acontecem sem aviso, ela acaba por entender as origens de sua própria família e, ao mesmo tempo, Octavia nos conta uma história que não deve ser esquecida. “Kindred” mostra momentos de angústia que os negros viviam diariamente para poderem sobreviver, presos a um dos sistemas mais cruéis já inventados pelos humanos. O mecanismo usado para viajar no tempo não é explicado no livro. A autora se preocupa mais em imaginar como seria o encontro dessas duas gerações tão diferentes. Ela faz isso bem e nos leva junto para testemunhar essa reunião. A experiência da escritora como mulher negra está em toda sua obra e parte da potência de sua escrita vem disso.

Em uma entrevista concedida ao programa de TV do jornalista americano Charlie Rose, em 2000, Octavia disse que escolheu a ficção científica porque, nela, não há muros nem portas fechadas. “Você pode olhar, questionar e brincar com qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa”, afirmou. Publicado em 1 979, o livro chegou ao Brasil apenas no ano passado. É justiça feita a uma das autoras mais importantes da área. As novas edições em português de livros das escritoras Margaret Atwood, autora de “O Conto da Aia” (editora Rocco), e Ursula Le Guin, autora de “Os Despossuídos” (editora Aleph), são exemplos desse movimento.

Revista de Ficção Cientifica - experimental  
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