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Rosa e Menina-Rosa Acordei cedo hoje, causa desconhecida de alguma sensação que quis me tirar da cama. Acho que ouvi um sussurro em meus ouvidos, de alguém que eu não sei dizer quem. Talvez um pássaro perdido dizendo-me que a aurora estava se espreguiçando lá fora e que o dia seria muito belo para perder-se dormindo. Quando defrontamos com algum segredo muito sério, não temos coragem de perguntar causa alguma, apenas ouvimos e seguimos em silêncio. Acordei. Resolvi caminhar um pouco para ver as flores fazendo o seu toalete, espreguiçando-se também, tal a aurora que lhes beijava as pétalas. Como sempre, da única forma que haveria de ser, lembrei-me da minha amada. Se aquelas florzinhas me ouvirem estarei em sérios problemas mas, enquanto eu as via florescerem, pintando o mundo com suas cores preguiçosas, comparei cada uma delas com a minha menina-rosa, a princesa que conquistou meu coração, a minha menina com sorrisos-de-borboletas. E, como era de se esperar, não econtrei rosa alguma mais bela do que a minha. Não florzinhas, se leem esse texto, por favor não fiquem bravas comigo. A minha menina, a rosa do meu mundo, jogou em mim um feitiço terrivel que me fez ficar assim, só pensando nela o dia inteiro e achando ela a rosa mais linda do mundo. Briguem com ela e não comigo! Depois de muitas florzinhas e borboletas, depois de ouvir o canto desafinado de muitos passarinhos que estavam ensaiando ainda, depois de muito de tudo isso que é tão chato para todo mundo – mas que por alguma razão eu adoro – achei uma rosa chorando. Suas lágrimas de orvalho comoveramme! Ela estava amarrotada, molhada e suja, parecia não ter dormido à noite como as outras rosas que vi no caminho. Tomei claro a única decisão que qualquer homem normal tomaria: parei para conversar com aquela rosa. Ela era vermelha, linda, mas estava tão acabadinha que eu nem sei se eu senti compaixão ou admiração. O fato é que eu parei para conversar com ela que de pronto gritou comigo dizendo: “sai daqui! Eu não quero conversar com ninguém hoje” e desatou a chorar ainda mais, expulsando borboletas, joaninhas, pássaros e tudo o mais que se aproximava dela. Eu insisti, não desisto fácil. Segurei o caule fininho e sensível dela e contei-lhe nos ouvidos algumas palavras doces – mulheres adoram palavras doces e sempre as uso para acalmá-las. Ela resolveu então conversar comigo e contar-me o que havia acontecido. Crepúsculo passado, disse ela, havia ido um custoso de um beija-flor até ela, beijado cada uma de suas pétalas e dito-lhe que ela era a rosa mais linda do mundo. Ela acreditou, disse para ele as promessas mais apaixonadas de amor eterno e passou os 2 minutos mais felizes da vida dela ao lado daquele beija-flor. Mas o danado, pássaro que não se aquieta, logo se despediu, voou para a rosa que estava a alguns metros dela e beijou-lhe também! Ela, claro, ficou sem ação. Gritou ele bem alto falando nomes que rosas não falam (e nunca deveriam falar) e desatou a chorar enquanto ouvia ele dizer para a outra rosa as mesmas mentiras que havia lhe dito. Entendi então a desilusão daquela rosa que tanto chorava, entendi o motivo das suas pétalas amarrotadas e de tanto pranto. Fiquei sensibilizado. Disse então eu para ela que os beija-flores são assim mesmo, não sabem amar rosa alguma. O negócio deles é o pólem, o sabor das pétalas dela. Tentei consolar ela de que beija-flor nenhum sabe nada da vida e que eles eram muito tristes porque não conheciam o amor verdadeiro – os adultos precisam de um amor verdadeiro para serem felizes. Mas não adiantava, eu falava e ela chorava. Eu falando e ela me molhando de lágrimas. Foi então quando tive uma idéia. Sussurrei nos ouvidinhos de rosa dela um segredo que agora vos revelo.


Dei-lhe então a idéia de que ela deixasse eu colhê-la e a levasse para a minha menina-rosa, que lhe ensinaria algumas coisas sobre os beija-flores e sobre o amor. Disse que a minha rosa lhe faria companhia e que as duas poderiam ficar conversando coisas-de-rosas. Ela, claro, adorou a idéia. Desconfio que essas rosas adoram uma boa fofoca, mas não contem isso para elas, por favor. Foi o que eu fiz então, colhi aquela rosa amarrotada de tanto chorar, embrulhei em um plasticozinho simples e entreguei para a minha menina-rosa que tem sorriso-de-borboletas. A minha menina-rosa virou só sorrisos. Beijou-me e pulou com a rosa chorona nas mãos. Fiquei com ciúme, claro. As duas desataram a conversar e a se fazer carinhos. Rirem sozinhas e fazerem coisas-de-rosas. Acabaram me esquecendo. Como já era tarde - passei o dia conversando com aquela rosa melancólica – tive de voltar para a minha cama confortável e dormir novamente. Deixei as duas rosas com um beijo e fui embora. E não é que as duas se gostaram mesmo? Estão ainda agora, a rosa e a menina-rosa, conversando e conversando, falando mal de beija-flores e contando sobre as belezas da vida. Essas rosas... Cantiga da Rosa Hoje conheci uma rosa Que chorava e chorava então Chamei-a para uma prosa Quando ela me disse que não! Depois de muito insistir O segredo ela me contou A rosa não queria sorrir Porque ele a abandonou. Um beija-flor custoso Que não conhecia o amor E beijava todo dengoso Rapidinho de flor em flor. Levei aquela rosa Para o meu amor no lar Que encantou-se de tão formosa; Desataram a conversar. As rosas conversando Esqueceram então de mim Fui embora sorrindo e pensando Essas rosas são mesmo assim.

Rosa e Menina-Rosa  

Conto infantil.