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A Dama das Flores Yuri Rodrigues Braz

I – Viviane

Ouçais, vós que perderam-se nas noites de estudo insano, vós que embriagardes nos lábios das perdidas na noite, vós de todas as raças; ouçais o vento que sussurra ao ouvido as mais secretas e as mais belas promessas da vida. Hoje ele é o canto do belo porém outrora foi a cantilena da morte. Eis que vos digo, este canto é traiçoeiro, ele já sorriu de escárnio ás manchas negras da tragédia. Aconteceu em terras ermas, campos desconhecidos, longe, muito longe. Lá onde os pássaros não desafinam e onde as águas tocam sua orquestra na mais perfeita harmonia. Lá, nesses campos ocultos vivia Viviane, a dama das flores. Não se sabe de onde ela veio, não se sabe a sua idade, não se sabe nada a respeito dela, somente que ela possui um sorriso de borboletas e uma beleza que pode ser comparada à do sol em plena aurora. É o suficiente para alguns, para outros não passam de conjeturas. Viviane era uma donzela do campo, e sua vida era tão simples quanto se pode ser. Tinha sua pequena horta onde cultivava ervas para toda a sorte de remédios. Uma pequena plantação de hortaliças que utilizava para a própria alimentação e, por vezes, cortejava algum bichinho perdido. Tinha ainda uma cama da mais macia e verde grama no jardim, na qual gostava de se deitar nos finais de tarde para ler algum livro antigo ou para ouvir o canto do vento, o mesmo vento que hoje nos beija a face. Às vezes, no outono, dançava junto com as flores que eram levadas pela brisa. Sua vida era magicamente simples. Seu pequeno casebre era pequeno, mas tinha espaço suficiente para seus móveis e para as suas atividades mais importantes. Uma pequena poltrona no canto da sala, que usava para bordar, um rádio antigo no qual escutava alguma valsa pela manhã, uma cozinha que usava para fazer a gostosa comida que ela comia solitariamente, uma mesa com duas cadeiras, para alguma visita que nunca teve e, no quarto, uma cama confortável, na qual tinha os mais belos sonhos. Não se sabe se a primavera a fazia tão feliz ou se a sua felicidade fazia a primavera sorrir, mas é certo que quando ela sorria o seu sorriso de borboleta as flores todas pareciam mais coloridas e toda a paisagem tomava mais cores e mais beleza. A alguns metros do seu casebre havia um pequeno poço no qual ela pegava água para uso próprio. Era este o seu ritual de todas as manhãs; acordava com o sol nascente em seu quarto, caminhava até o poço olhando ao redor o que havia mudado na paisagem, quais flores tinham crescido e todas essas coisas importantes, enchia um balde com água e voltava para o seu casebre. Fazia seu chá de ervas adocicadas e, enquanto este fervia, fazia seu toalete matutino com a água fresca. Comia pães que ela mesma preparava e bebia seu chá. Colocava água no regador e ia aguar


as ervas, a grama e as hortaliças. Viviane jamais tinha saído daquela área que rodeava sua pequena casa. Lá havia árvores, flores, boa comida, boa música, uma brisa gostosa, um céu sublime, e tudo o mais que ela precisava para ser feliz. Costumava dizer que ao alcance de sua visão havia tanta beleza que ela necessitaria de duas vidas para contemplar tudo o que a natureza lhe oferecia.

II – Fausto

As corujas e os insetos noturnos cantam nênia obscura na noite sem lua. Eis que escreve seus versos, recostado a uma árvore no pântano sujo, Fausto, o mensageiro do caos. Ele não era assim, tão caótico, ele era o que sobrou do caos, o canto depois da morte, a paz depois da guerra, destruída. Oblíquo, melancólico, calmo e sem predições de esperança. Não há como julgá-lo, vivendo naquele pântano imundo, vendo que a vida é cruel, ouvindo o canto triste os pássaros, sentindo o cheiro da morte. Nenhum ser humano conseguiria manter-se humano nas condições daquele Fausto. Nenhuma poesia sobrevive à morte. Ele não tinha rotina, ele não tinha nada. Vivia por aquele pântano, caçando alguns animais para comer, escrevendo seus versos com tinta que ele mesmo conseguia das árvores e observando como a vida pode ser cruel. Não tinha horário para dormir, se é que dormia, e não tinha horário para descansar, se é que descansava. Mas, o que é afinal a felicidade senão o contentamento? Aquela vida bastava para que Fausto fosse contente. Uma vez disseram-lhe que a felicidade tem muito mais a ver com o estado de espírito do que com os fatores externos. Felicidade é uma atitude e ele era a prova viva disso. Apesar de toda sua melancolia, tinha uma vida calma, aceitava a sua situação, aceitava sua não-vida. Tinha prazer em caçar seus animais e mais prazer ainda em comê-los. Quando não tinha a oportunidade de assar, sentir o sabor da carne viva em sua boca, cuidava para que fosse gostosa. Sentia o sabor verdadeiro da carne. E quando algum perigo o ameaçava, ele fazia da fuga uma aventura, e ele gostava da aventura. Contentava-se com a emoção da empreitada, brincava com a morte, divertia-se com o caos. Quando estava quieto, tinha prazer em ouvir o canto dos pássaros, o riso do silêncio ou o acalento da solidão. Adorava sentir o beijo frio da brisa do pântano; parecia congelar-lhe a alma. Nem o cheiro ruim daquele local o incomodava mais, aprendera a sentir cada elemento daquele cheiro que já lhe era tão normal. Quando acostuma-se com algo, ele deixa de causar-lhe medo, deixa de ser ruim. Uma vez amigo da morte, ela nunca mais o preocupará. Não tinha vontade de sair daquele pântano, aquela era a sua casa, a sua vida. Ele gostava de tudo o que tinha lá, estava satisfeito com a não-vida que tinha. Perguntava-se porque o homem sempre quer mudanças, nunca contenta-se com o que tem, nunca se satisfaz.


III – Acidente

Certo dia Fausto colocou-se a escrever versos tristes do nascer ao pôr-do-sol. Acordara daquela forma, mais melancólico do que o de costume, e resolveu que queria escrever, resolveu que queria externar toda aquela dor que sentia, registrar na forma de versos aquela cena fúnebre que se passava em sua alma. A poesia parece ter esse efeito nas pessoas, quando sentem algo que merece ser escrito, não sentem-se bem até que o tenham feito, necessitam escrever, necessitam externar suas emoções. Mas, uma vez que a “tarefa” tenha sido cumprida, o poeta sente-se aliviado, mais vivo, pronto para novas emoções. Na poesia o poeta coloca sua vida no papel. Fausto sentira-se assim naquele dia. Era já a hora do crepúsculo e ela passara o dia escrevendo. Precisava de algo para preencher sua alma, precisava de alguma emoção nova, mesmo que melancólica como as que ele estava acostumado. Ele precisava viver novamente. Resolveu andar. Andar para ver a paisagem obscura, andar para sentir o vento noturno, andar para sentir a solidão preenchendo-o com sua paz. Andou então pela extensão do pântano e viu como era bonita a lua refletida em diferentes superfícies, viu como era bela a paisagem grotesca iluminada pelos raios lunares, pintada com uma tinta mágica, um toque de prata. Era uma cena barroca, decerto. Uma cena bela e, ao mesmo tempo, grotesca. Árvores corpulentas e centenárias sorrindo um riso triste à luz da lua. A lama quase negra exibindo-se com aquele banho de luz, os pássaros escondidos cantando aquele canto triste e belo. Ele amava a vida que tinha. Pois fora andando que ele, ao tentar atravessar um pedaço mais alagado do pântano por cima de uma árvore caída, tropeçou. Estava às margens do pântano e podia ver o campo de onde estava. Ele já havia caído outras vezes, mas naquela noite a história foi diferente. Sujo e ainda coberto pela água lamacenta ele viu ali, perto dele, os olhos amarelos de um crocodilo iluminados pelo brilho da lua. Sentiu medo. Naquela noite ele não queria aventura, naquela noite, por algum motivo que desconhecia, ele teve medo da morte. Revolveu-se o mais que pôde e tentou sair daquele local. Sua perna estava machucada e sangrando, o corpo arranhado pela queda, as mãos destroncadas e ele, amedrontado. Conseguiu arrastar-se para fora do pântano, correu um pouco, mancando, quando finalmente caiu. Conseguiu ir longe o suficiente para não correr risco, mas não conseguia ir mais longe que aquilo. Bem ao longe podia ver uma pequena casa, mas não conseguia andar mais, perdera muito sangue. Olhou uma última vez a pequena casa, esticou as mãos como quem tenta alcançar algo distante e desmaiou. Era ainda noite, no céu e no coração de Fausto.

IV - Encontro


Naquela manhã Viviane fazia tudo conforme o costume, seu café, seu toalete, regar as plantas e tudo o mais. Porém, depois de tudo, ela resolvera – como tantas outras vezes – caminhar pelo campo à luz do sol matutino para sentir a brisa e ver as belezas da vida. Fausto vegetava naqueles campos, pálido, quase desfalecido. Sujo de sangue, de lama e de dor, com as vestes rasgadas e com a morte mordendo-lhe dos lábios. Viviane vira ao longe aquela mancha negro no meio do verde do campo e correu para ajudar. Quando viu aquele homem pálido e tão machucado ela sentiu-se desolado. Conseguiu levantá-lo com muito esforço e apoiou-o em seu ombro. Com muito custo levou-o para a grama do seu jardim e pôs-se a cuidar daquele estranho que era misteriosamente melancólico. Pegou um balde extra de água naquele dia com o qual fez um chá para tirar a dor do estranho e com o qual limpou-lhe as feridas. Levou um bom pedaço de pão e deu-lhe de comer, estava fraco e quase desacordado. Ela deixou que descansasse enquanto ficava observando aquele estranho de aspecto tão sofrido. Amou-o naquele silêncio. O porque ela não sabia, alguma coisa de sincero e de belo havia visto naquela expressão sofrida e naquela feição triste. Eles eram tão parecidos e não sabiam. O amor tem dessas coisas, às vezes dá-se para alguém que parece tão diferente. Isso porque o amor não se apaixona por sorrisos, por roupas ou por maquiagens, o amor apaixona-se por corações. Eles não sabiam que ambos gostavam da simplicidade da vida. Não sabiam que ambos regojizavam-se pelo belo, escondido no sublime ou no grotesco, cada um ao seu modo. Não sabiam que ambos vivam seus sentimentos com intensidade, e ambos buscavam apenas a paz de espírito. O amor é complicado demais para ser explicado em um olhar, ele não se explica, apenas se faz sentir. Ele acordou, abriu os olhos, viu aquela claridade, seus olhos doeram. Olhou para si, cheio de curativos, limpo, dolorido. Ouviu um barulho, olhou para os lados e viu aquela mulher que lhe sorria. Conheceu as borboletas naquele sorriso encantador, sentiu algo que jamais sentira antes. Aquela cena mágica jamais se apagaria de sua memória. Sentiu aroma das rosas que estavam ao seu lado, viu o azul do céu sem as sombras das velhas e corpulentas árvores do campo. Não disse uma só palavra. Era, naquele momento, um poeta sem palavras. Não tinha o que dizer, não tinha o que fazer. Quem era aquela dama das flores?

V - Romance

Ela aproximou-se dele para perguntar-lhe como se sentia. Sua voz era linda, tão linda quanto o canto dos pássaros que ele ouvia ao longe naquela que parecia ser uma terra estranha. Suave, gostosa de ser ouvida, não expressava tristeza alguma, não era melancólica. Uma voz doce que ele bebia a longos goles. Fausto não respondeu. Olhou-a com aqueles olhos verdes profundos e despiu-a com seu


mistério. Beijou-a. Não um beijo qualquer, não um beijo que se pode esquecer. Beijou-a com a alma. Beijou-a com todo o seu sentimento. Beijou-a com tudo o que ele era. Um único e intenso beijo. Viviane estava perdidamente possuída por aquele amor. Não queria mais aguar as ervas e hortaliças, não queria mais bordar, não queria mais nada por si só. Fausto, depois daquele beijo, dormira novamente. Ainda estava muito fraco e cansado. Ela resolvera então preparar algo para ele comer, o amor de sua vida, encontrado a poucas horas atrás. Ficou ali, em silêncio, sentindo o amor tomar conta de si. Ficou nervosa como a muito não ficava, será que ele iria amá-la como amou-a naquele beijo? E se aquele estranho acordasse e partisse levando consigo a vida dela, os sonhos e os desejos? E se ele não achasse a aparência dela agradável? Eles eram tão diferentes. Ela teve medo e foi tomada por uma profunda energia destruidora. Estava caótica, inquieta. O seu amor parecia dormir pela eternidade. Ela levantava-se, tentava caminhar, tentava fazer as coisas que sempre fez. Não dava, não conseguia, ele não saia da mente dela. É tão estranho como todas as coisas que sempre se gostou perdem o sentido quando está-se apaixonado. Quer-se fazer tudo e, ao mesmo tempo, quer-se fazer nada. Tudo ao lado de quem se ama, nada sem a pessoa amada. Todas as coisas que sempre foram boas parecem vazias, falta algo. Fausto dormia tranqüilamente. Estava feliz e calmo, seu coração estava preenchido como nunca estivera anteriormente. Tinha sonhos de amor, sonhava com aquele beijo doce, com a voz suave, com o sorriso de borboletas. Quando acordasse teria a vida mais bela que um homem pode ter, ao lado daquela que era a mulher mais linda e mais perfeita de todo o mundo, a dama das flores. Se escrevesse um poema naquele momento, seria o mais belo e apaixonado poema de todos os tempos. Mas nessas horas os poemas perdem o valor, eles não podem nem poderão jamais exprimir tudo o que um coração é capaz de sentir. Nessas horas queremos viver o sentimento e não escreve-lo com palavras que podem ser achadas em um dicionário. Aquele sentimento não poderia ser guardado em um papel. Os poemas são para quando o sentimento não pode ser vivido, por isso todo poema é triste.

VI – Tragédia

Depois de algum tempo de descanso e de sonhos, Fausto começou a ter pesadelos com o crocodilo, com sangue, com o pântano, com a morte. Se tivesse morrido naquela ocasião jamais conheceria a dama das flores de sorriso de borboleta. A epilepsia é um mal que atormentava este homem e, naquele momento, atormentado por pesadelos, teve um ataque. Viviane já suava, temia perder o amor de sua vida. Passou horas a fio parada, observando o seu amor. Viu cada reação, cada suspiro. Quando Fausto entrou no ataque epilético ela correu já chorando, tentou sentir se coração. Ficou desesperada. Ele havia morrido! Não! Depois de uma vida sozinha, ela finalmente havia encontrado o


amor de sua vida, a resposta para os seus desejos mais secretos, o acalento para a sua alma carente. Ele não podia morrer, não depois daquele beijo, não depois de deixá-la apaixonada. Ela pegou algumas ervas, tentou fazer algum chá, tremia. Nada surtia efeito, nada! Passaram-se apenas alguns minutos, mas para ela parecia uma eternidade. Chorava, estava desesperada, apaixonada por um homem que jazia em seu próprio jardim. Não suportou. Em um ataque de nervos e de desesperança resolveu que queria morrer também. Ela não iria enterrar o amor de sua vida. Ela não suportaria aquela dor. Colocou-se ao lado dele, olhou para os lados e não viu mais nada, com uma pequena faca que usava para cuidar das ervas cometeu suicídio. Cravou-a em seu peito, plantou-a em sua alma. Este foi o fim de Viviane, a dama das flores, a mulher de sorriso de borboletas. Faleceu ao lado do seu amor, na casa que sempre a fez feliz, perto das flores. O vento cantava naquela tarde, beijando a tez daqueles dois corpos. Chorando por aqueles dois apaixonados. Fausto enfim acordou do seu estado de letargia. Abriu os olhos num rompante, queria ver novamente aquela mulher que havia mostrado o amor para ele. Queria ver uma vez mais aquele sorriso de borboletas e um beijo mais naqueles lábios doces. Olhou para o lado e viu-a morta, gelada como um cadáver. Morreu também naquele momento. No mesmo dia que conhecera o amor e encontrara nele a vida que jamais tivera antes, conheceu também uma dor como jamais havia sentindo antes, uma desilusão. A solidão naquele momento não era calma como a do pântano, era vazia, ela morta. Chorou como uma criança, molhou a face de sua amada com suas lágrimas, beijou-lhe os lábios gelados entre aquele pranto. Abraçou-a no chão, disse-lhe no ouvido que a amava, tirou a faca do peito dela e cravou-a no seu. Amaram-se mortos, deitados no campo, por toda a eternidade.


A Dama das Flores