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Ygor Moretti Fiorante

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Um objeto quando esquece

Um Objeto Quando esquece

ygor moretti fiorante

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Ygor Moretti Fiorante

Literatura Brasileira Poesia Ygor Moreti Fiorante Um Objeto Quando Esquece

2014

Todos os direitos reservados ao Autor

Publicação independente de Ebook - Distribuição Gratuita Proibido sua venda, reprodução ou alteração de conteúdo sem a autorização do responsável

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Um objeto quando esquece

Prefácio

Mantendo ainda vigente um processo antropológico de

criação, a poesia continua sendo um cuspe, uma exclamação. Uma poesia material, visual, detalhista, figurativa, uma poesia de madeira e metal.

Poesia que dialoga com o espaço físico, tem forma,

objetos e um caráter simbolista, que foge, se esquiva do lirismo egocêntrico, inefável.

Mantendo

característica

de

quem

pinta,

e

faz

uma materialização de sentidos, a bi-dimensionalidade cubista, o retorcimento da carne durante o movimento, como nos quadros de Bacon. O universo noir-surreal de Hoper, e a fotografia dos filmes de Ingmar Bergman.

Trabalhando com probabilidades, possibilidades, e

com o potencial de cada palavra, manuseando a poesia com martelo e serrote. Ygor Moretti Fiorante

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Ygor Moretti Fiorante

nota da presente edição

Aqui um trabalho escrito e reescrito ao longo de dez

anos, a poesia foi o que me moveu até a literatura, tanto quanto leitor como agora escritor. No entanto, como pode ser visto ao longo desse livro, o texto lírico vai aos poucos se transmutando para prosa, que depois se transformaria no meu campo de trabalho atual, mais claramente falando o conto.

Deixo

verdade

não

aqui são

esses os

primeiros primeiros,

escritos, existem

que

na

outros

de

datam de minha adolescência, escritos cujo a inocência e uma gigantesca pretensão me fizeram crer, dignos de publicação. Contudo, hoje entendo e desconfio até mesmo dessas páginas, mas aqui vão, aqui estão elas.

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Um objeto quando esquece

Manifesto Triste Concentremos-nos no coração, este músculo, esta carne, ignorando no entanto, qualquer conotação. Não retenhamos as mãos ao rosto coberto de lágrimas, Estas gotas, esta substancia salobra. Sobretudo, e importantíssimo, não compartilhemos com a dor do cético, sejamos tristes, fiéis a esse modo de ser, esta exatidão de sujeito, este bloco, metal. Não apelemos à lembrança, que não é de fibra. Existamos, tristes, absurdamente, absolutamente, doentes de tristeza. Em silêncio... Absoluto.

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Post Coitum – Animal Triste Câmera lenta, foco, luz, corredor. Andar entre paredes não ousando derrubá-las, nem ultrapassá-las ou transpô-las fisicamente. Aquário, remédio, flash back. Descobrir cartas devolvidas entre outras, entre palavras ilegíveis em blocos de frases perdidas. Cenário, nu, preto e branco. Caminhar para outro lugar, um lago de mármore, oxigênio sintético. Simetria, sinistro.

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Um objeto quando esquece

Todos os objetos do cômodo são muralhas cinzentas de aprisionamento. Um vaso faz chorar, lençol, camisa de força. A tristeza pesa no corpo. Conspiração gravitacional do tapa que desmoraliza, o murro na boca do estômago. O teu chinelo foi roubado, A cama desfeita, os cabelos crescem e lhe personificam, lunático. Impossível fugir dos espelhos, a voz alta toque do telefone, o frio na espinha. Tomada final, take, destino. Interpretar a si mesmo. Não se saber personagem, nem reconhecer as ultimas conquistas.

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Correio, coito, canção. Não entender o fim da historia, claustrofobia, medo de gente, de rua vazia. Tendo a doença da noite mal dormida, morte homeopática, sem rimas, sem “casting”, triste sem querer...

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O Litorâneo Eis que volto a ser aquele solitário com necessidade ambígua de me defender. Os jornais entre os braços, livros, rabiscos, são espadas e são curativos. Sei das ondas que rebatem sobre os pés... me desfaço num sorriso pela outra tranqüilidade. As ondas não batem em meus pés, impossível viajante. Faço da imaginação, a minha lembrança. Ter a cidade bidimensional, reencontrar o prazer na caminhada, e o olhar tristonho-esmiuçado de quem passeia na avenida, só. Pseudo-drama de feriado prolongado, e por estar assim absorto e livre neste pensamento de saudade, aceito a tarde triste, egocentrismo na faixa de pedestre. 10


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Mas, munido de uma filosofia de ultrapassar, penso no olhar o fim do mar, o punhado de areia nas m達os, minha presen巽a como um silfo sentindo a brisa. Acho que o mar deve estar calmo, na areia as pegadas n達o duram muito, nem as aves ao ch達o se demoram. Acho. Muito longe, apenas acho...

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Poema Doméstico O frio que vem pela janela da sala contrapõe-se com o despertar de misterioso e imprevisto bem estar. São os barulhos da janela, e as contas atrasadas o anúncio da morte caseira, pronta com temperos da cozinha, morte que interrompe as conversas de janelas e a alternância de canais na televisão. Devo tomar a rua, alcançar as praças, sentar-me aos bancos. Ouvir o som baixo fraco das coisas, apalpar jornais envelhecendo no banheiro. O caviar apodrece no refrigerador, espera por outras ocasiões de consumo, intransponível... À luz da garagem acesa, a casa dorme....

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Porcelana, louça, dinheiro, chaves em locais fáceis. Pintava-se assim com o brilhar dos cristais no armário a hipocrisia burguesa de um anoitecer em família. Sem saber os burgueses dos burgos nem das revoluções, a enorme televisão ou os vinhos envelhecidos denotavam a história.

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A Memória Por trás de paredes de madeira, as substâncias, os elementos se arriscavam. A memória esconde-se, não a memória perdida, a memória personagem, mulher, estátua. Mancha de sangue no organismo de gesso, intacto. Fica a suposição de arma para a memória manchada. A memória esconde-se, sabe-se física, atrás de um infinito mural de madeira. A memória esquece, espera ao despertar dos sonhos, sobrevive a dez segundos de lembranças, com a impressão de que não se tem sonhado.

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Um Objeto Quando Esquece Os amigos não se sabiam Barrocos, nem ao mundo declaravam guerra ou ressurgiam num movimento neo. Usavam no entanto, de formas explícitas para dar a poesia o escárnio que lhes pareciam propício. Nem um possível hino a irresponsabilidade posto na primeira página da agenda, era por acidente reconhecido. Preferiam a vida lá fora, imprudente, apressada. Copo de limonada, luz acesa ao meio-dia, contrapondo-se a todas as manobras de economia. A seda que sustentava livros encharcados, possibilitava ainda uma leitura. 15


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Mas o ruflar das páginas carregavam capitulos embutidos. E assim, eu era complacente com os objetos, abdicava de lirismos e metáforas para anunciar meu suicídio. Procurava lugares não habitados na casa, quadros não percebidos, sem perceber que estava dentro de um.

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A Insatisfação da Forma A Filosofia do grito, cabeças e braços, o dorso do cavalo malhado, o torso escuro na sombra. O grito silencioso, contínuo o movimento em desespero, estático. Fêmur, porrete janela lamparina, a tentativa de imprimir o grito na história. Ferradura castidade, os seres atingem um nível de existência, de existência somente. Persistência da garganta, do som do corpo rojo. A bi dimensionalidade das casas, a construção de arestas por corpos mutilados,

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a criança morta, a cabeça que ainda respira. Qualquer coisa respira, pedra touro sono vento. Expressões de mármore e a dança das cores, mas a dubiedade do escuro não ignora um seio ou uma flor...

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Não Alcalóide Sem saber da existência do fantasma de Gene Kelly, permaneço abaixo de gotas que nem desconfiam de ritmo ao cair e explodir na testa franzida. O escuro, o silêncio, são todas formas, são vidas esquecidas. Uma mulher esperava na sala, roubava-me a paciência, mastigava consciências e fazia bolas azuis de chicletes. Um abajur a olhava, a luz tinha gosto de hortelã. Alguns quadros eram pintados, e visões mudas eram ignoradas, um grito necessitava ser gritado, ganhava uma complexidade orgânica, e tinha a altura como fundamento.

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Noutro canto a alegria temia sua denúncia, mas os tecidos mais que células, evoluções menores que os órgãos esperavam, esperavam as conquistas humanas, o estigma das máquinas. Mas a noite chegava, jamais faltava, rios de culturas gastronômicas nos ligavam ao oriente, gotas de Samurai despencavam do ar. Cada susto aguardava por de trás da porta.

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O Poemas das Canáceas Um tanto cansado de físicas, a linguagem de marceneiros, e cimento em cálculos, trigonometria e física das veias que pulsam e ardem na subtração dos dias. O mundo físico e nada mais, o mundo-tato, mundo centímetro e centésimo. O milímetro entre cada palavra. A fibra que sede a água, mar acidental sobre livros, mas não há o acidente, há o destino da traça, e a morte na alvenaria. A composição dos elementos, e a substância elementar dos móveis,

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transpiram um suor de poeira, enquanto no canto da sala a subjetividade do abajur me observa lendo.

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As Horas Não havia um, mas era enfim o propósito, falar da noite e de tuas horas. Trocar a solidão da T V pela fraqueza do rádio, chegando a regressiva solidão dos livros. Demorava-me a entender e apegar-me aos personagens, ou eles demoravam-se nas minúcias do realismo. Continuava o propósito de ver na noite certa ligação com as horas seguintes, as horas que eram os anos, os anos cansados e furtivos. Havia então algo que eu fazia de propósito, mas no clarão da noite não dormida, não havia propósito algum. A vida não se apresentava em duas pontas ligadas, e nem ao meio desta, alguma corda ameaçava quebrar-se.

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Um objeto quando esquece

O Poema e Nada Mais Os pés passavam, estiveram e permaneciam por todo sempre, em sua perssistência de se afastar das coisas. O corpo como se apenas restasse o seu torso se mostrava besta, cego de olhos de pernas, olhos das mãos, nem os cabelos algo observava, abraço impossivel. Os olhos viam todas as impossibilidades, e as possibilidades ainda não computadas, demarcadas ao grupo de devaneios encaixotados mais ao fundo. Os olhos permaneciam como se oniscientes. Mas negavam qualquer duro reflexo 24


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impregnados na retina. Lembravam-me das duras filosofias, o caminhar pragmático das ultimas alegrias, era preciso burlar os sentidos, acreditar na dor, a dor que se desenhava ultra-possível. Havia ainda um cipreste, que os olhos observadores-cansativos, faziam suprir qualquer impossibilidade, as glândulas e os mecanismos gritavam, gritavam também os sistemas cálculos e composições. Nem uma outra alucinação, confusão ou o engano eram transpostos sobre estas afirmações, que os meus olhos acompanhavam, mórbidos de uma repetida onisciência.

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O Coração Não, Não o Coração O Coração não, o Estômago, não o Coração o Estômago sim, O Coração, o Estômago, não e sim. Talvez o esôfago, a marginal direta ao Estômago, mas o Coração? Não, o Coração não, o Estômago. O Estômago e não o Coração, o estômago de um estóico, mas só o seu Estômago, não o estóico, nem seu Coração. O Estômago sim, o Coração não, não o estômago e o Coração, o Coração não, só o Estômago. 26


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Estômago e pronto. O Coração não, o Estômago, não o Coração o Estômago sim. O Coração, o Estômago, não e sim. Talvez só o Coração de Caramelo, e o de Frango, o Estômago qualquer, todo e todos, mas continuando com as restrições do Coração, sim... O comestível ou decorativo sim, mas o do tamanho do punho não. Mas o Estômago do tamanho de nossas angustias, esse sim que não é decorativo, pós-alimento. O Estômago sim, mas não o por demais visceral, o Estômago órgão, o Estômago dos chutes e socos recebidos.

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Um objeto quando esquece

O Coração não, não mais, o coração, bem menos, sem nenhuma conotação, o coração... só. O Estômago sim, pode ser. O Coração gasto, cansado, esse não, esse é mesmo só coração.

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Poema de Incerteza (uma única incerteza) Longe e ainda no caminho, próximo, ainda, somente próximo, não distante de alcançar, mas distante ao que o tempo sempre julga. O não haver um estar-lá, um nunca-chegar e ter sempre um passo continuo sem saber se há, havendo somente a convicção e a teimosia de ser. Ser o que chega e distancia-se sempre. Ainda próximo, próximo, AINDA, num sempre atrasado passo de dança, nunca de mágica, num destino decodificado em CEP.

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Um objeto quando esquece

O há-de-ser estando lá, e a suspeita de quem é por assim estar, se há ou se é, ser for o que nunca será, se há o que já houve ou nunca haverá e mais a frente houver o que ser. Os passos de longe continuam... Somente próximos, os passos durante os segundos dos anos e nunca os anos dos segundos, os bens planejados passos. E a observação das coisas quando em passos são atravessadas. Mas se houver onde se estar, e ser algo que há, terá valido antes, e tudo... ante a minha convicção de ser e caminhar.

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Café Literário O fundo sumiu do copo, sobe ao rosto a mórbida fumaça. que esconde o esqueleto. Não me transformo em um nefelibata, apenas contemplo o reflexo negro do meu rosto adormecido. Penetrando numa overdose de chatices...

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Minotauro Lâminas afiadas ao vento, o peso do ar torna-se num triscar imaginário sangue. Armaduras de escamas banhadas a ouro, eis que o corpo se prova alma. A matéria carnal se dissolve em silfo. Rosa, manto de espinhos. Osmose de pontiagudas tentações. Bufos escondendo gritos, lágrimas retorcidas em baba, gosma. Os olhos só vêem sangue, possuem células e pigmentação de sangue. Os Olhos empalhados, as palmas das mãos, Minotauro, égua, mulher. Possuem a vértebra em espada e espetos. Assim os olhos que são metais e gotejam sangue, vêem a eterna imagem de seu matador espanhol...

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A Contradança Faço e refaço, não faço! Nem mesmo penso, anti-maestro crio, teço, sou a contradança. de palavras desajustadas. Uma sempre-próxima metáfora Antes, uma contradição, Uma contradição antes de tudo... Sou o reflexo das coisas, e vem pousar em mim, disfarçado de borboleta, um Anjo tímido que também sou eu. Sou eu aquele e este canhoto convicto de caminhar desconfiado e armado de movimentos ambíguos... 33


Um objeto quando esquece

De volta ao copo de café... Em vão a alquimia do café transtorna apenas os olhos, que insistem olhar as coisas. Pois o sono é a serpente estóica, que vai pela grama acinzentada. A boca, Antropológica, carnuda, tremula. engole o mundo, o buraco do buraco. Engole o túnel de veneno, que torna a engoli-la para sentirmos sobre a pálpebra o peso da morte soniferamente chegando.

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Poema Escrito Mesmo Impossível ou Proibido E se eu pudesse escrever o poema que está aqui dentro. Substancial, absurdo e despercebido, de um amor e um delito. Vitimado num profundo, exercício egocêntrico da noite minha, da tristeza minha, das hipóteses dos meus suicídios. Tristeza querida extrema e egoísta e que só eu sinto igual e repetida, no sentir e no lembrar.

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A visita do poema E como se eu já nem lembrasse de desafios brancos de construções acinzentadas, ia me assustando com as reminiscências do Vesúvio. Junto de passos e barulhos de esqueletos sobre o telhado, percebia uma sensação conjunta ao esquecimento, o espanto-surpresa. Mesmo assim eu já nem lembrava mesmo de uma certa hora noturna e silenciosa, de atitudes e postura invencíveis a qualquer sono. Voltava então a sofrer com a idéia ainda mais invencível e mortal. Tomava-me nos olhos aquele modo de estar sozinho e todos os fingimentos necessários. Instalava um primeiro contato com a folha, movia substancias química e resquícios de superstição num primeiro rabisco. 36


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Alguns círculos e semi-retas, letras maiúsculas estrategicamente montadas para iniciar futuras estrofes. Mas numa curva que se dobra mais e não capota, os meus rabiscos tomavam uma importância demasiada, tinham jeitos de coisas propositais, mesmo não possuindo a inocências das coisas tortas por natureza. Assim as horas passavam... e no suspense de eu decretar a qualquer momento um ponto Final. cada caractere, cada rabisco, ganhava novamente a importância absurda que cerca um ultimo suspiro. Nessa meia benção, meio maldição, por noites voltava a este poema. Mantinha uma desconfiança de não ter nada a dizer, e sofria com calafrios de outras palavras que só aos poucos se revelavam num poema metódico e homeopático.

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Um objeto quando esquece

Quase-Andarilho Sozinho na casa, a sala. Luz apagada, copos à frente e sem saber de quem eram aqueles objetos, ou como tinham chegado ali. Às vezes observava um aquário, me sentia Deus ou um fazendeiro d água. Durante o silêncio da televisão sentia a solidão dos outros cômodos. Sabia do enjôo que me esperava ao debruçar as janelas, o vento no rosto e a rua despretensiosa e desconhecida. Falsamente silenciosa, me chamando por meios mudos e quietos. E mesmo se eu saísse à rua e tornasse meus passos os mais rápidos possíveis pra pouco permanecer em algum lugar, ouviria (ainda que de longe), em um baixo volume, o choro das casas e quartos, vazios e impraticáveis. 38


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Coberto, forrado, entupido de pensamentos que me for莽avam a andar. Permanecia no meio-fio, a cada passo andando sozinho na rua obtendo uma tamanha serenidade que s贸 me deixava mais ansioso e inquieto.

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Um objeto quando esquece

O Morto-Vivo O morto-vivo acompanhado do fantasma de Bunuel faz uma visita as bancas de jornal... Olhar de roubo que denunciam em fagulhas os Ăşltimos acontecimentos... E agora mais vivo (porque morto), o Morto-Vivo lembra-se quando vivo naquele tempo em que andava morto...

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Carnaval de Arlequim Foste para uma visão ou para uma espiada sobre a janela. Eu deveria estar bem mais bêbedo que estou, do que sempre consegui estar. Mas a minha loucura não se acresce a nenhuma outra e nem de outras vistas sãs, esbraveja, fala mal. Enquanto percebo aquele movimento alegre e rotatório, sofro da sandice de quem observa. E juntando os sofrimentos em comprimidos naquela mesa, vou sentindo a presença sóbria da minha sombra quando abro as portas. Tento me fingir de arlequim ou duma cobra bêbeda. Mas não desconfio dos passos e nem da natureza de quem não sabe. 41


Um objeto quando esquece

E se eu for a estrela negra que só observa de longe, de fora? E se eu for o avesso ao objeto, o obstáculo para o carnaval surreal que se apresenta em bloco na cozinha? Continuo observando da janela... Em silêncio... Adormeço, sem saber ate quando seguiu o desfile...

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Das hipóteses dum caixeiro viajante Não há um caminho para Damasco... A estrada que leva a esse “não-lugar ” tem o projeto simétrico duma reta numa estrada que se finge de sem fim. É o encontro dum contra-censo, duma maldição contida nos bolsos, onde é maior o estado de “estar-indo” do que a plenitude do chegar. É a contrapartida dos passos, é o cansaço que alcança um contraponto onde se deita. A viajem para Damasco é a espreita e a cegueira, é o sonido e o ritmo do andar.

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Poema Acalmou-se e desconsiderou a safadeza de quem conduzia o lotação. Guardou as mãos nos bolsos sem partilhar da canção que vinha no assovio. Seguiu... Ultrapassou esquinas emergindo em mundos onde ninguém suspeitava de suas façanhas. Ignorou credores que intervinham os amigos à sua procura. Abençoou mulheres que levavam filhos à porta de tua casa... Manteve-se hermético, insosso e insano. Deixou de lado o estranho prazer de comer peanuts e enquanto mastiga pensar nas resoluções dos problemas.

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Seguiu plantando expectativas de suicídio. Seguiu sem que ninguém suspeitasse de suas façanhas... Na segurança de cada esquina ultrapassada, sorria com o canto da boca... Ninguém suspeitava...

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Homem Jovem à sua Janela A rua não sabia que era espiada, nem o parapeito era usado num quase salto, num sobre-salto sobre as pretensões possíveis do quarto. Os prédios e toda a geometria da esquina não suspeitavam Atrás do Homem na Janela um poema aguarda seu fim, alguém lá dentro retrata tudo o que é de fora, o que não pertence ao Homem, tudo o que é rua e paisagem na real composição de quem observa e constrói o movimento e o estático. Atrás do Homem um corpo que acorda que agoniza ou não reclama mais a sua vida.

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No entanto a calma de quem está na janela é a de quem logo descerá à rua, e irá pegar o pão fresco na padaria, ou o jornal que ainda não anunciou o homicídio. Enquanto o Homem permanece à janela não permite que a morte seja algo maior do que os seus trabalhos noturnos. Não surgirá por enquanto a falta. Por enquanto ainda não se deu o atraso no trabalho, e todas as pretensões daquele cadáver ainda aguardam suas realizações. O Homem à janela mantém as mãos sujas guardadas nos bolsos, e a face lânguida incapaz de voltar-se a cena do quarto observa a esquina e a mulher de vestido. Tenta alcançar as impossibilidades

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de um assassino, enquanto, bem menos possĂ­veis dois olhos mortos vividamente estĂĄticos o observam da cama...

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Poema de fila de supermercado Os movimentos dos braços finos e brancos Chamaram-lhe à atenção. Enquanto aflitos passavam as compras pelo caixa registrador. O olhar furtivo-preocupado com o crescimento da fila e com a presença dele a lhe observar. Deram-lhe a certeza do contato. Tentou disfarçar o encantamento Com o pescoço igualmente fino e branco. Os cabelos curtos e escuros junto aos cílios contrastavam a tudo o que nela era claro e lindo. O uniforme do supermercado que nos outros era démodé. Nela era decote. 49


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O relógio que nos outros era pressa, Nela era jóia. O Cálculo da compra frente a ela, virou investimento. O troco e o “volte sempre”, foi intimidade conquistada. Ensacou as compras e foi embora. A tarde foi triste...

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Todo o tempo que há Eu queria ter todo o tempo do mundo... TODO o tem-po-do-mun-do... Para reler essa estrofe até que Diante dos olhos fatigados e inebriados Ela se tornasse o poema mais lindo do mundo. E assim num estágio além de uma enganação, Impregnar na fala, Ser aquilo que não ouço, e morar na frase futura, já armada entre os dentes. E depois raquítica, com a qualidade fraca daquilo que foi apenas pré-formulado, sucumbir em meio à aniquilação dos olhos que veneram estupidamente. Ter todo o tempo do mundo. 51


Um objeto quando esquece

Do - Mundo... Para mirar seus olhos e me perder em todas as mentiras embutidas em cada desvio do olhar. Por Todo-o-Tempo... Mas ter todo o tempo do mundo para me refazer das mentiras, Pra refazer as mentiras, para fazer as verdades que os olhos nunca construir達o. Ter todo o tempo para dar calma a minha miopia e ajustar os fragmentos do que eu vejo durante todo o tempo Tendo abaixo dos olhos o mundo, o tempo todo...

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O Salto Foi depois... A partir do salto, que não houve mais nada. A água se recolheu do SPLASH O sangue se dissolveu como nuvem mais ao fundo. O gelo agarrou-se à espinha, E a espinha nunca mais ereta e inteira Não alimentava, não suportava nem permitia nenhum movimento. E assim a vida furtiva, evaporou-se, Tornou o banho sintético o teste extremo dos nervos, Aleijou aos arrepios que não seriam mais sentidos. Assim, tudo ficou antes, a arquitetura do salto, O movimento esguio e plástico de uma explosão contida No limite do que se quebra ou num racho na cabeça. 53


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Depois do salto, o decreto da impossibilidade de tudo. Porque tudo não existe mais após o salto, Tudo ficou antes... E agora o silêncio e o estático convivem com o vácuo e o vago Num receptáculo de tudo que é improvável E guarda todo o antes, Porque só o antes existe a partir dali...

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Da presença dum rasgo nas calças Perder a calça para o rasgo, É perder uma matéria para a antimatéria, É perder algo para o vazio, para coisa alguma. É o habitar do vazio sobre o físico, A presença do nada entre a coisa que existe.. Mas se perder as calças é absurdo, absurdo maior quando o que nos faz perder é coisa nada, a extensão dum vácuo no esticar das linhas e fibras do jeans. E se ficar sem calças é estar com coisa pouca, é por pouco que a nudez por debaixo do rasgo faz-se presente no vazio do rasgo. E é na fresta do tecido, na fugaz aparição da carne que tudo se refaz entre a reta do rasgo e as curvas da carne abaixo do rasgo, pulsando e palpitando...

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Um objeto quando esquece

Caixa de Pandora Pisando em ovos, andando lentamente entre fagulhas de granadas. Evitando qualquer movimento involuntário, Ou qualquer exclamação que venha após um tropeço. O som mudo, nulo antes do susto. Porque há o momento em que qualquer sílaba que tropece em si mesmo, Pode tornar-se mais que uma estrofe, um romance. E agora no vácuo do meu silêncio moram todas as hipóteses não concretizadas. E o Não das coisas comporta, guarda todas as impossibilidades, Enquanto na laringe e na saliva morrem todas as possibilidades acidentais.

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Poema Foi porque comecei bem antes... Quando você era ainda um punhado de possibilidades e hipóteses E os teus cabelos que nem existiam assim, fio-a-fio, compunham um emaranhado e um enrosco na boca, pois, qualquer coisa maior que a primeira sílaba do teu nome, soava estranho nas inúmeras repetições treinadas. Mas quando você partiu, juntou-se ao batalhão de todas as mulheres que me deixaram, aonde na linha de frente iam as minhas suicidas. Assistindo a marcha, invejosas, ficavam as mulheres que eu deixei. Aí... Quando você foi, olhou pra trás, sorriu... Permaneci por isso, vendo o canto da tua boca, Fui com isso através do seu vácuo. 57


Um objeto quando esquece

Num rastro disperso e descrente de quem não sabe mais onde mora. Era assim, porque nesses tempos eu andava perpendicular a barreira dos próximos trinta anos que eu viveria. Vivendo à sombra de todos os homens que eu poderia ser. Mas quando sua presença tomou contornos claros, e os teus olhos se apresentaram escuros, nítidos... Apaixonei-me com a força de todos os meninos que não fui, acompanhado de todos os exageros possíveis. Porque quando você surgiu ainda numa sombra, sem que eu soubesse a mulher que você se tornaria, já me sentia assim... propenso, inclinado, já no meio de uma queda que era tanto por sua culpa quanto uma queda assim declamada, num gesto explicito, pra você.

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Ceratocone Eu que tenho uma visão duplamente única, numa tríade que não se completa... O que vejo e o que os meus olhos conseguem enxergar são coisas distintas, segredos, outras coisas que nunca as saberei plenamente. Vejo um desfoque um nada, a hipótese do que pode ser tudo aquilo que cerca a visão de um míope. Pois estas visões vazias quando separadas são ainda incompletas quando juntas nem constroem coisa nítida juntamente. Contemplar esse branco que tudo contorna, estar a espreita dum mundo tato escondido na clareza que cega... E aos poucos... bem aos poucos, tudo nuvem, tudo neve, alvi branco, tudo nada... 59


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Poema perdido Eu percorro o caminho de um poema perdido... Percorro o caminho de um poema primeiro perdido e com o tempo da perdição, da distancia, esquecido. Percorro com a angústia de quem perdeu o mapa de um tesouro, ou a pressa e a esperança dos pelotões que voltam em busca de sobreviventes. Enquanto na memória, agoniza uma lembrança, cada vez menor, cada vez mais distante e fraca. Em contra partida uma falsa memória vai construindo, reconstruindo um falso poema, um outro poema que jamais será aquele, ainda que eu me lembre e recoloque cada métrica, cada palavra naquele que fora seu devido lugar. Mas este lugar não existe mais, este espaço vai sendo preenchido em outra folha, em outro arquivo tentando 60


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dizer o que já foi dito, mas diz algo parecido, diz outra coisa. Quão controversos e esguios são os caminhos de um poema, pois aquele poema depois de pronto é outro poema que já nem pertence a alguém, que é dedicado a todas as musas, contra todos os opressores e descreve todos os hipócritas, e tentar “re-percorre-lo” é percorrer caminho novo, caminho algum, sem mais arquitetura, sem traços ou cálculos que nos levariam ao mesmo número. Mas aquele poema perdido nunca mais será escrito, e a vã procura por um inútil oficio de arqueólogo de palavras, jamais vencerá a palavra dispersa, distribuída. E fica, pois essa anti-matéria a perda, da perda, de que são feito todos os poemas...

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Aquário Precisava de um aquário para lhe fazer companhia... Encasquetou. Silencioso e presente o bastante para fazer presença nos momentos alegres, mas solitários enquanto escrevia... Um enorme peixe dourado a lhe observar com dois grandes olhos. Boca e guelras em constantes movimentos, mas pareciam mais súplicas do que qualquer outro gesto de vida. Sentiu-se tão preso e sufocado quanto aquele peixe, aquela presença agora o incomodava, o motor do filtro e as bolhas de água causavam um barulho ensurdecedor. Havia ali dentro daqueles 100 litros um pedido constante e silencioso de socorro que o ligava quase de forma magnética, escrava aquela visão. A partir dali por trás do vidro num reflexo sem muita exatidão via-se preso outra vez solitário de mãos atadas sem poder nadar... 62


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Traje Traje social quase uniforme para toda e qualquer situação, rosto pálido sempre cansado, assustado. Camisas largas no corpo, cores claras inexpressivas, as calças curtas sobrando nas canelas cumpridas. Passos e vida calma até o fim, no caixão pela primeira vez um rosto terno e não mais apático, nunca mais...

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Um objeto quando esquece

Santana Santana não se abalava com o sorriso dos outros em face dos seus poucos risos, pois sabia que a felicidade está inserida também nas bocas sérias, nos lábios rachados e sobre tudo, abaixo e entre o seu enorme bigode. Sabia Santana que o ato de usar seu vestido era incutir o seu corpo todo de felicidade. E suas lembranças de General estavam imbuídas de felicidade. Ah... A Felicidade... Santana a via refletida em tudo, inerente inclusive aos momentos tristes, eram todos repletos de uma felicidade que apenas Santana acreditava de forma inabalável...

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Ygor Moretti Fiorante

Edgar Além Poeta ...Afinal, diziam que os Ultra-Românticos tinham desistido de envelhecer ricos de cultura, por isso eram rápidos, marcantes e efêmeros aos 27 ou pouco antes dos 20. Mas e se a evolução tivesse lhes dado pés intactos de tiros acidentais, peitos inflados sugadores e purificadores de um ar de vida, plena, i-mor-tal?... Um novo email... era o que assinalava a luzinha piscando na tela do monitor, de pronto Edgar detectara o remetente, era mais um trabalho free lancer. Torcia para que aquela nova encomenda coincidisse com algum texto já produzido e arquivado no HD. Perguntava-se se algum editor teria culhões para apostar em um de seus inéditos contos de terror...

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Um objeto quando esquece

A Ponte Então ia retirando tijolo à tijolo, recontando, devolvendo cada um ao depósito, construindo torres ou cubos maciços que em nada lembravam os seus projetos. Neste momento os repensava, imaginava-os melhorados, concretizados. Era o tempo de entende-los e definir aqueles ainda não muito claro em sua mente como por exemplo: A Ponte Subterrânea. Ao final juntava o bilhete “refaça a ponte” a pilha de recortes iguais espetados no porta recado. Refazia os cálculos que se repetiam sem-pre-cor-retos. Então começava a reconstruir a ponte, desde a colocação do primeiro tijolo já sabia que queria que recompô-la outras tantas vezes, mas assim mesmo era per feito em casa movimento naquela nova tentativa de transpor um abismo...

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A incrível história do homem que desistiu de viver... Era uma vez um homem que desistiu de viver... Não se jogou da ponte, nem tomou veneno ou deu um tiro na têmpora, embora a palavra cicuta lhe agradasse aos ouvidos, lhe fazia lembrar daquele filósofo com nome de jogador, misto de dó e dor faziam com que ele gostasse ainda mais daquele homem. Alguém lhe disse que se desistindo de viver se transformaria em uma pessoa extraordinária, fora da luta bravia e rotineira. Desistir no entanto não era ficar trancafiado numa sala vivendo sobre a cama. Ele continuava a pagar suas contas, ia ao trabalho, subia escadas, trocava ou comprava novas roupas e lavava a calçada aos finais de semana, tudo o que as outras pessoas cheias de vida faziam, mas ele... tinha desistido.

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Um objeto quando esquece

cafeína Depois de uma dose cavalar de café, durante uma corrida vertiginosa, onde os seus passos eram leves e seu rosto intacto, tenso. Enquanto a endor fina inundava seu corpo, enquanto trespassava rios de enchentes como quem caminha acima da água que por sua vez tomava pistas e autopistas. Pensou ter encontrado Deus, e nesse momento através de seus passos gigantesco-incansáveis, talvez alcançasse ou ultrapasse o Divino passeando por sua pista de nuvens, planetas e palácios... Depois de novos quilômetros que até então não faziam parte de seu 68


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repertório amador de corrida, ultrapassou todos os sentidos, deixou pra trás todos os significados, quanto mais seu peito tremia, quanto mais forte era o ataque cardíaco, mais ao fundo do túnel branco ele atingia, Imaginando que aquela visão branca fosse as costas ou a bata de Deus, acelerou ainda mais, flutuava e saltitava entre um cosmos e outro, não saberia se alcançaria ou se partilharia o cooper eterno ao quão Deus fazia em torno do infinito, mas somente correndo descobriria o caminho até ele...

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Um objeto quando esquece

Sobre o autor

Ygor Moretti Fiorante nasceu em São Paulo,

Capital, em 1980, formado em Letras, trabalha como designer gráfico e capista.

Lançou pela Editora Incomum o livro de con-

tos “Do Som ao Impacto e outras histórias”, e “O Menino Susto”, participou da antologia de contos “Brainstorm” da Editora Andross tendo dois contos publicados.

Mantém o blog www.moviemento.blogspot.

com e colabora para os sites: O Cinemista, Cenas de Cinema e Arte no Movimento. Contato com o autor ygormoretti@gmail.com

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Poesia de Ygor Moretti Fiorante