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YASMIN THAYNÁ


Nasci no hospital Iguassú, em Nova Iguaçu, em novembro de 92. Assino sempre Yasmin Thayná. Sou vascaína. Estudo jornalismo e o cinema é a minha área de pensamento. Exercito com curtas e me aproximo do mundo através das reportagens e histórias em geral que os elementos da cidade e as pessoas me dão oportunidade de escrever. A minha curiosidade me leva a pensar em fazer mais do que existir. Esse texto faz parte da coletânea Flupp Pensa – 43 novos autores. O livro foi lançado em Novembro de 2012 no Morro dos Prazeres, Santa Teresa, Rio de Janeiro.


Sagacidade é sinônimo de perspicácia, agudeza de espírito, argúcia e astúcia. Mas também poderia ser de Yasmin Thayná. Com seus bem vividos 19 anos, esta jovem iguaçuana, malabarista, artista e estudante de jornalismo, coleciona mais de 10 filmes realizados, dois livros - o primeiro escrito aos 14 anos - e cerca de 80 textos misturados entre poesia, literatura e crítica. Estudou a vida inteira em colégio público e realiza oficinas de audiovisual dentro dos CIEPs em Nova Iguaçu. É vascaína, gosta de aprender a desenhar e o apelido que mais gosta é MC Cabelo. Silvana Bahia, jornalista


Mc K-bela yasmin thayná

No Ciep Nelson Rodrigues, colégio em que eu e uma amiga realizamos uma atividade colaborativa de audiovisual e cultura digital, em Comendador Soares, meu cabelo é um ímã. Na chuva pesada do Rio ou no sol da Baixada Fluminense, que causa calafrios na pele, assim que chego, sempre causo risadas. Não é pela minha roupa nem por algo engraçado que esteja fazendo, é só surgir que o riso se manifesta espontaneamente. A passagem pelos cieps é muito simbólica porque a vida inteira estive presente neles. Desde a primeira série do ensino fundamental, tomando leite pela manhã dentro de um refeitório onde a brincadeira se chamava tiro-ao-cabelo, que, lógico, era o meu, bolinhas de papel sempre me atingiam. O pior era quando uma dessas bolinhas sujas com papel do caderno Kajoma amassado pelo Kichute já aos três anos de passagem por todos os meus irmãos e primos, atingia meu prato de plástico azul marinho cheio de sagu. A lágrima de raiva e desespero descia a minha bochecha abaixo. Não havia um prato daquele doce tão gostoso quanto o do Ciep, pela manhã. Melhor mesmo, só o que a minha avó fazia no mês de junho. Bombril, Assolan, Biro Biro, Drogba do Chelsea e outros apelidos maldosos, já me renderam boas horas de choro no cômodo que ficava no meio do corredor da minha casa, lá no número 216 da Vila Iguaçuana. Todos os dias, após o colégio, a orquestra sinfônica rugia um soluço baixinho de um instrumento sintonizado com o som do cavalgar dos quadrúpedes no asfalto recém-chegado na rua, já molhado com uma chuva de inverno.


O pai e a avó passaram por uma situação complicada durante os meus primeiros anos de vida. Quando mocinha, comecei a passar tudo no cabelo: henê, pente quente, bobs. Com a modernidade, escova progressiva, chapinha, permanente afro, guanidina. Entre esses produtos, todos foram sessões de tortura estética. Pode ser que tenha ficado apresentável e deixado o cabelo sem volume durante algum tempo, mas eu me sentia feia e triste. Havia um sentimento de liberdade. O que eu fazia? Poesia! Esperar por um atendimento nos salões de beleza, sempre lotados, me obrigava a puxar uma folha de caderno, uma caneta azul e borrar a minha dor na folha em branco. Esmigalhar meu sofrimento por ter sido colocada a vida inteira como feia, como a menina do cabelo de Bombril. Aprendi a fazer poesia brincando de esvoaçar cabelos crespos e ousar penteados que nunca seriam bonitos na turma da Vila Iguaçuana. A necessidade de ser bonita e ter os meninos cheirosos do bairro que tinham a bicicleta Poti Caloi e um Kenner de duas cores era mais importante do que tudo. O episódio mais doloroso da minha vida foi no natal de 2010, quando fui relaxar o cabelo no salão que propaga imagens de belos cabelos naturais. A vermelhidão do meu couro cabeludo estava sincronizada com a amargura de ser bonita dentro daqueles padrões para agradar a avó e aos colegas de classe.


Saí de lá com uma lágrima seca de dor nos meus olhos castanhos, do lado esquerdo. Do lado direito, um brilho molhado de liberdade e certeza de que nunca mais voltaria naquela rede que assassinava meus fios crespos remetentes a minha linda e orgulhosa descendência africana. A ferida que dominava o território do meu crânio, permaneceu durante uns vinte dias, com soro, pomadas para queimadura e uma certeza: a poesia estética será dos meus descendentes nos próximos dias, até o fim da vida. Retumbaram gritos fortes de súplica lá na África, me enviando com muita generosidade de afirmação e autoestima, dois personagens lindos que fortaleceram os meus fios fracos ocultos de desespero: a Carla Cris Campos, que colocou as mãos leves na minha cabeça e o Bruno F. Duarte, que me fez olhar no espelho com confiança. O Bruno não foi só um parceiro de trabalho. Ele é o cabelo que eu me senti segura. A marca que registra o nosso encontro no mundo e na vida. Sempre quis fazer literatura com o meu cabelo que se espalha feito um polvo desmesurado pelas regiões afastadas do Rio de Janeiro e pela minha família. A Carla limpou uma região que há dezoito anos havia cravado um azedume que parecia nunca ter fim. Carla é ousada. Meses após as secreções que a sessão de horror deixou no meu couro cabeludo, pegou em sua tesoura escolar verde, sem ponta, me sentou na cadeira de madeira de sua sala de jantar e pediu que eu segurasse um espelho. Ao colocar as mãos no fio que fazia ligação direta ao meu peito, sentiu a amargura e disse: você vai ficar linda porque o mais importante de ser linda é se sentir linda. Ali me conheci. Foi uma tarde de formação e aceitação. Pude perceber, naquela tarde, que o mapa da África é semelhante ao mapa do Brasil, país este que nasci, pátria esta que faz conexão tanto no desenho territorial, quanto em seus costumes e em sua beleza étnica. Nunca fui tão linda. Todos os dias olho no espelho grande da sala de minha casa, que reflete uma imagem brilhosa dos produtos orgânicos de um alquimista que aperfeiçoa o meu cabelo com xampu usados por sensações. Cabelo sem química, sem dor, ausência total de culpa e desespero estético. Negra eu sempre fui, mas foi ali que me tornei, reconheci e me aceitei como mulher negra.


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Yasmin Taynรก Norte Comum Bariol,, Helvetica Neue



Mc K-Bela