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A história de quem chegou Um alemão no Brasil e uma brasileira na Turquia. Um decidiu chegar, e o outro, partir. Abertos ao mundo e carregados de ousadia na bagagem, mudaram suas vidas se aventurando planeta afora. Descobriram que o lar mora dentro deles. Nestas páginas, a história de Uli Kaup, que adotou o Brasil como casa. No final da revista, a experiência de Bárbara Liedtke, engenheira gaúcha que fez as malas e foi para a Turquia.

A característica reservada do povo alemão se perdeu ao sentarmos à mesa redonda. O cabelo branco estilizado dava identidade ao penteado. Os olhos azuis amistosos não o deixavam mentir, nem ele fazia questão. Aberto à conversa, o introspectivo Uli Kaup sorria com leveza, esperando a primeira pergunta. Estava à vontade. Quase não o interroguei. Kaup fala bastante e contou, com um português quase impecável e sotaque alemão, os 26 anos de Brasil que carrega na sua história. A ideia de se aventurar em terras tupiniquins invadiu o pensamento de três amigos alemães em viagem pela América do Norte e Central em 1981. Um deles era Kaup. Com a vivacidade dos vinte e poucos anos, depois de conhecerem um grupo de brasileiros que propagandearam o País, decidiram que a próxima grande viagem deles seria ao Brasil. Em meados de 1985, o destino colocou uma brasileira em terra germânica, e o cupido se encarregou de fazer o resto. Uli Kaup, já formado pela Faculdade de Biblioteconomia de Stuttgart e insatisfeito com a instabilidade econômica e política pela qual a Alemanha passava naquela época, além das mudanças de emprego a cada dois anos em Berlim, decidiu partir para o Brasil com a namorada. Ele falava com tanto respeito e satisfação de ter feito parte da vida daquela judia, que esmoreci quando a resposta indicava a separação do casal. O nome dela eu tive que perguntar. Babi Kruchin. Pronunciado com muito amor e afeição. O primeiro casamento acabou há 10 anos, mas o carinho perdura, e quando fala em amizades a primeira expressão é: “minhas duas ex-esposas são amizades especiais aqui”. Sem hesitar. E sem esquecer, cita alguns amigos tão ligados à cultura quanto ele. O alemão tem dedicação completa a projetos sociais que promovem a cultura. Ajudar no crescimento da comunidade em que vive não é encarado como um trabalho, mas é o que o instiga a viver. Na Restinga, um dos maiores bairros de Porto Alegre, uma biblioteca comunitária leva um pedaço de Kaup. Ele ajudou a fundá-la em 2008. Quando define o trabalho proposto na zona sul da Capital, o imigrante se satisfaz, fala orgulhoso sobre os palestrantes que traz para mostrar as crianças um mundo literário encantado. Ao citar um momento especial, surpreendente


porque não consegue se desligar das crianças, cita uma visita a um museu: “Tenho um grande amigo que trabalha no Iberê Camargo e as levamos uma vez para o museu com atividades voltadas para os pequenos. Foi especial”. Mais especial que isso só o resultado de uma pesquisa feita na escola da Restinga sobre quem foi o escritor preferido do ano, dentre os vários: Uli Kaup ganhou. Com grande vantagem. Ele, que não é escritor. Kaup foi o resposável por traduzir os encontros com os pequenos. “As educadoras me contaram. Eram escritores muito premiados e muito bons”, completa, com o peito inflado de orgulho e o sorriso abrindo o rosto do bibliotecário que atuou como tradutor dosautores europeus no encontro com as crianças na biblioteca da comunidade. A dedicação muda a realidade das crianças, e é como se fosse uma forma de agradecimento à solidariedade do brasileiro e ao clima fortemente familiar que o envolveu desde o seu desembarque, em São Paulo, recebido pela mãe da namorada no longínquo ano de 1985. A língua portuguesa foi aprendida aqui, com o contato cotidiano. Baseado no latim, o idioma não lhe pareceu tão difícil. Foram muitos “empreguinhos”. Kaup lecionou alemão e inglês. O emprego fixo há 24 anos no Instituto Goethe dá a ele a segurança de permanecer no Brasil. Mas não só de flores é a vida neste país tropical. Não ver mais o outono da Alemanha e as suas cores foi a sua maior perda. Ao perguntar de sua principal característica, ele, sem jeito, diz ser introspectivo. Talvez pelo que considera típico do povo alemão: ser solitário. O Brasil fez ele se apaixonar. “Gostei da maneira bem menos planejada e aberta a improvisações. Os opostos se atraem. Gosto muito, mesmo não sendo assim”, explica. As noites de Uli Kaup terminam em sua morada, diariamente, próximo ao Planetário, num lugar que ele considera perfeito: “Perto do Parque Farroupilha, da Cidade Baixa, perto do Bom Fim, perto do meu trabalho e perto do Centro”. Sozinho. No momento, em companhia do livro de Eduardo Bueno, Brasil, uma História. Braços recostados um sobre o outro, pernas cruzadas com elegância, ele não impôs limites à conversa. O relógio tradicional serviu de acessório ao pulso. Não olhou as horas em momento algum. O café preto em copo de plástico permaneceu intacto, esfriando. Bastou-nos saber que era o meio de uma manhã de quinta-feira do mês de outubro. Despediu-se com o mesmo sorriso que manteve ao longo da conversa. Um aperto de mão e dois beijinhos selaram o Raio-X de Uli Kaup. Solidário. Solitário. O alemão mais brasileiro que já vi. Ele traz a alegria em si. Dispensa marchas de Carnaval e batucadas de berimbau para se alegrar. Trazido pelo amor e pela curiosidade. O lema que colocou na mochila da aventura era “chegar e ver o que acontece”. Os olhos vibrantes mostraram que valeu a pena.


A história de quem partiu Uma brasileira na Turquia e um alemão no Brasil. Um decidiu partir, e o outro, chegar. Adotaram uma nova cidade, adaptaram-se a uma nova cultura e ao desconhecido, conhecem-se a cada dia. No início desta revista, contamos a história de Uli Kaup, bibliotecário que resolveu deixar a Alemanha para se aventurar em terras brasileiras. Agora, a história de Bárbara Liedtke, que adotou Bursa como sua cidade.

Babi encontrou na Turquia uma forma de acrescentar experiência à carreira de engenheira. Bárbara Bazílio Liedtke, de preferência Babi. Ainda que morando distante das suas origens, opta pelas coisas mais próximas, e encurtar o próprio nome traz a ideia de vizinhança, de “estar em casa”. A origem portuguesa e alemã trazida nos sobrenomes Bazílio e Liedtke não a instigaram a conhecer os países de seus antepassados. Ela foi escolhida pela Turquia. “Nunca pensei em vir parar na Turquia”, afirma, com um olhar de graça. O pensamento nunca transpôs a barreira da Inglaterra. Ela realmente acreditava que o destino seria a Terra da Rainha. Foram dois anos de entrega e preparo para então começar a escolher algumas vagas das milhares do sistema e se candidatar: “Fiz entrevistas para Gana, Estados Unidos, Inglaterra, até que recebi um email da AIESEC de Bursa sobre uma vaga em uma empresa do ramo automotivo.” Ela nunca ouvira falar de Bursa e a curiosidade nunca havia levado Babi a fuçar a história nem as características da Turquia, muito menos da cidade de 1.854.285 habitantes em uma área de 1.036 quilômetros quadrados, do tamanho do Taiti. Há dois meses, acorda às 7h e trabalha das 9h às 18h em uma empresa multinacional que fabrica peças automotivas. Ao chegar na Balap Otomotiv, os sapatos permanecem em seus pés. Lá, não é obrigatório abandoná-los na porta enquanto aplica os conhecimentos matemáticos, técnicos e científicos na fabricação de peças para a Renault, Fiat e Toyota. O dia chega ao final na casa dos Şengül. O pai, a mãe, os dois filhos e a Babi. A jornada acaba no apartamento 14 do Bloco K15. Um vilarejo familiar, exatamente na alameda Kayapa Tokı. No distrito de Nılüfer, em Bursa, na região de Mármara, noroeste da Turquia. Mesmo considerando a residência um lar, minutos antes de dormir o pensamento é remetido ao Brasil, no interior do Rio Grande do Sul, precisamente em Glorinha, no sítio onde a família mora. No bemestar dos pais e na vontade que a invade de estar na companhia deles. Na cama que ela deixou antes de fazer o mundo virar a sua casa. Quando pergunto de fracassos, vejo ela retomar o passado em segundos, como se folheasse um livro rapidamente. Abandona a ideia com um balanço de leve na cabeça e impõe uma barreira nela mesma, sintetizando a decepção de não conseguir voltar ao Brasil sem falar a língua turca fluente. Mesmo assim, não vê perdas, enxerga somente ganhos. E complementa: “É


aquela coisa: ver o copo meio cheio, ou meio vazio. O meu está sempre cheio.” É uma alegria espiritual, como definiu a animação e o sorriso que insistem em permanecer. Foram noites do mês de setembro de muita conversa no computador, pelo Messenger e Skype, para captar exatamente a energia que a envolvia nessa nova fase, e ela sempre me pareceu leve. Feliz. “Consegui realizar o sonho da minha vida!”. Foi com essa frase cheia de sentimento e um sorriso que ocupou o rosto inteiro que Bárbara expressou a experiência de ter escolhido viver em outro país. “Me sinto vitoriosa!”. A adaptação tem sido fácil, e a ajuda da família que a acolheu, fundamental. Sentada na cama com o computador sobre as pernas, Bárbara define como “a minha casa turca” quando pergunto onde ela está. A dificuldade está em somente os pais turcos falarem inglês. Eles são os mediadores da comunicação de Bárbara com os outros membros da família. A cultura diferente e a religião são o que mais causa estranheza. Acordar às 5h porque o sino toca para que a cidade reze em direção à Meca não a fascina. As mulheres rezam o dia inteiro. Os homens, quando o sino toca. Ela reza pra si, alguns minutos toda noite, deitada com as mãos perto do peito e as pernas junto aos braços e, como em posição fetal, pede proteção e agradece ao dia. “Na primeira semana de estada eles compraram um roupeirinho pra eu colocar minhas roupas, sem contar a preocupação deles para que eu me adapte e me acostume com a comida local. Sempre fazem pratos típicos, sem carregar no tempero”, exalta com o sorriso vibrante ocupando o rosto redondo. A intensidade está em tudo. Desde as amizades instantâneas até os relacionamentos fugazes. A explicação da aventureira é que tudo lá se torna maior do que realmente é. “É como se fosse um capítulo à parte da minha vida”, complementa. O imprevisível é o que motiva a mulher de 22 anos, pele branca, cabelo quase castanho querendo ultrapassar os ombros e olhos vibrantes. Depois do capítulo turco, a pretensão está na África – trabalhar voluntariamente e se descobrir ao se perder na Europa com uma mochila carregada de água e chocolate. Quando pergunto o cheiro que mais gosta, ela hesita. Olha para o lado direito. Vejo um sorriso vindo na minha direção e, saudosa, deixa sair: “cheiro de terra molhada”. Que chova!


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