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CARTA DO EDITOR_03

OAK//LITERATURA_05 Desassossego.Fernando Pessoa Koan.Rubem Alves

WILLOW//ARTES VISUAIS_21 Colagens.Eduardo Recife O mundo em preto e branco.Sebasti達o Salgado


MAPLE//PENSAR_13 Nossos dias melhores nunca virão.Arnaldo Jabor Instruções para subir uma escada.Julio Cortazar

CEDAR//CINEMA_17 Fazer um filme.Federico Fellini

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EXPEDIENTE// Editora e diretora responsável Daysi Bregantini Estagiárias Amanda Massuela e Mariana Marinho Revisão Carolina Donadio Editora de arte Michaella Pivetti Assistente de arte Paula de Almeida Prado Diretor financeiro Dejair Bregantino Marketing e assinaturas Carolina Donadio Gerente administrativa Ana Lúcia P. Silva Redação Elisa Hulshof Flávia Kimura redacao@wald.com.br


Carta do Editor A todos os nossos futuros leitores, lenhadores iniciantes da Wald — ou para os que conseguem pronunciar, a Waldensamkeit — que acompanham ao mais insólito e extraordinário da arte, cinema e literatura, desbravando e dançando entre uma chuva de possibilidades, encontrarão aqui exatamente o que estavam procurando, ou deixando passar. Nessa primeira edição, todas as nuances e cores de Fernando Pessoa, um dos velhos mistérios da literatura mal decifrados até hoje, e por isso mesmo sempre novo. Arnaldo Jabor, desvendado em um breve — porém riquíssimo— ensaio sobre sua obra, vida e carreira.

E ainda uma sessão fantástica de fotografias de Sebastião Salgado. Corajosos, nos submetemos à fastidiosa tarefa de tentar selecionar as melhores e o resultado é o que você encontrará aqui. Para completar o festim de solstício de inverno em nossa floresta ainda as imagens de Eduardo Recife. Por fim, no topo de nossas altas árvores, temos o sempre grandioso Fellini, com a matéria “Como Fazer um Filme”. Por favor, adentre e usufrua de nosso xilema e floema de cultura. Vamos fotossintetizar à luz das artes e conhecimento.


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Fernando Pessoa

DESASSOSSEGO Nunca durmo: vivo e sonho, ou antes, sonho em vida e a dormir, que também é vida.

Nunca durmo: vivo e sonho, ou antes, sonho em vida e a dormir, que também é vida. Não há interrupção em minha consciência: sinto o que me cerca e não durmo ainda, ou se não durmo bem; entro logo a sonhar desde que deveras

durmo. Assim, o que sou é um perpétuo desenrolamento de imagens, conexas ou desconexas, fingindo sempre de exteriores, umas postas entre os homens e a luz, se estou desperto, outras postas entre os fantasmas e a sem luz que se vê, se estou dormindo.


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Verdadeiramente, não sei como distinguir uma coisa da outra, nem ouso afirmar se não durmo quando estou desperto, se não estou a despertar quando durmo. A vida é um novelo que alguém emaranhou. Há um sentido nela, se estiver desenrolada e posta ao comprido, ou enrolada bem. Mas, tal como está, se estiver enrolada é um problema sem novelo próprio, um embrulhar-se sem onde. Sinto isso, e depois escreverei, pois que já vou sonhando as frases a dizer, quando, através da noite de meio-dormir, sinto, junto com as paisagens de sonhos vagos, o ruído da chuva lá fora, a tornarmos mais vagos ainda. Era sem dúvida, nas alamedas do parque que se passou a tragédia de que resultou a vida. Eram dois e belos e desejavam swer outra coisa; o maor tardavalhes no tédio do futuro. Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo especialmente, por fora. A das emoções sei que também é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; nele roçamos o tempo, umna vez prolongadamente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro.

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Julgo, às vezes, que tudo é falso, e que o tempo não é mais do que uma moldura para enquadrar o que lhe é estranho. Na recordação que tenho de minha vida, os tempos estão dispostos em níveis e planos absurdos, sendo eu mais jovem em certo episódio dos quinze anos solenes. Chegam-me então, pensamentos absurdos, que não consigo todavia repelir. Penso se um homem medita devagar dentro de um carro que segue depressa, penso se serão iguais as velocidades identicas com que caem no mar o suicida ou o que se desiquilibrou na esplanada. Penso se realmente não são sincrônicos os movimentos, que ocupam o mesmo tempo, entre os quais fumo, escrevo e penso obscuramente.

“O enigma em pessoa”, Fernando Pessoa dedicou toda a sua obra à avaliação do intelecto, à criação e contemplação do ser. Interessava-se muito pelo misticismo e ocultismo, características que refletem em sua obra. Deixou-nos uma verdadeira ode à língua portuguesa. A língua era sua pátria.


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MAPPLE//PENSAR

INSTRUÇÕES PARA Ninguém terá deixado de observar que freqüentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis. Abaixando-se e pondo a mão esquerda numa das partes verticais, e a direita na horizontal correspondente, fica-se na posse momentânea de um degrau ou escalão. Cada um desses degraus, formados, como se vê, por dois elementos, situa-se um pouco mais acima e mais adiante do anterior, princípio que dá sentido à escada, já que qualquer outra

combinação produziria formas talvez mais bonitas ou pitorescas, mas incapazes de transportar as pessoas do térreo ao primeiro andar. As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada em baixo à direta, quase sempre envolvida em couro ou camurça


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júlio cortazar//

SUBIR UMA ESCADA e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.

Chegando dessa maneira ao segundo degrau, será suficiente repetir alternadamente os movimentos até chegar ao fim da escada. Pode-se sair dela com facilidade, com um ligeiro golpe de calcanhar que fixa em seu lugar, do qual não se moverá até o memento da descida.

Foto: David Chacon


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Fede

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Fellini Fazer um filme Um filme pode nascer de um detalhe insignificante – Federico revela como encontra inspiração para os seus filmes, e como chegou a este ponto em sua carreira.


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Acho que quando crianças todos temos um relacionamento embaçado, sonhado com a realidade; para uma criança tudo é fantástico porque é desconhecido, jamais visto, nunca experimentado, o mundo apresenta-se diante de seus olhos totalmente desprovido de intenções, de significados, vazio de síntese conceitual, de elaborações simbólicas, é só um gigantesco espetáculo, gratuito e maravilhoso, uma espécie de ameba que respira e ultrapassou os limites, na qual tudo habita, sujeito e objeto, confusos num único fluxo incontrolável, visionário e inconsciente, fascinante e aterrorizante, do qual ainda não emergiu o vértice, a fronteira da consciência.

Até o segundo grau nunca havia me perguntado o que faria da vida; não conseguia me projetar no futuro. Pensava na profissão como algo que não se pode evitar, como a missa de domingo. Nunca disse: “Quando crescer serei.” Não tinha a impressão de que um dia cresceria e, no fundo, não estava errado.

Do dia em que nasci até a primeira vez que entrei na Cinecittà, parece que minha vida foi vivida por outra pessoa, alguém que só de vez em quando e quando menos se espera decide me fazer participar de alguns fragmentos de sua memória. Então devo admitir que os filmes de minha memória falam de lembranças completamente inventadas. E para dizer a verdade, que diferença isso faz?

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Como dizer de que maneira nasce a idéia de um filme? Quando e de onde vem, os itinerários tantas vezes desconexos ou dissimulados que percorre? Passaram-se 25 anos desde que filmei A Doce Vida e é difícil lembrar. Parece que quando um filme acaba ele sai para sempre de mim, levando embora tudo, inclusive as lembranças. Se eu disser, por exemplo, que um filme pode nascer de um detalhe insignificante, como a impressão de uma cor, a recordação de um olhar ou de uma música que volta à memória, obsessiva e atormentadora, por dias inteiros; ou então, como você bem me fez lembrar, que vi A Doce Vida quando apareceu

uma mulher que caminhava pela via Veneto numa manhã ensolarada enfiada num vestido que a fazia parecer uma verdura, não tenho certeza de estar sendo de todo sincero, e quando um amigo jornalista se lembra disso, me sinto ridículo. Não acredito que no mundo exista muita gente que considere a própria vida mal resolvida porque eu não soube precisar a relação entre aquele vestido da moda saco e o filme que fiz depois. Mas talvez minha impaciência com relação a este tipo de pergunta venha do fato de que muitas vezes as ocasiões que originam um processo criativo, sobretudo se identificadas e alegadas de maneira clara demais, como distintos indícios para severas visitações semiológicas,


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de repente podem se tornar improváveis, às vezes até meio cômicas ou insuportavelmente exibidas, até mesmo falsas, ou dotadas de uma profunda e embaraçadora gratuidade.

Por que desenho os personagens de meus filmes? Por que tomo notas gráficas dos rostos, dos narizes, dos bigodes, das gravatas, das bolsas, da maneira como cruzam as pernas, das pessoas que vêm me encontrar no escritório?

Talvez já tenha dito que é uma forma de começar a olhar a cara do filme, para ver de que tipo é, a tentativa de fixar alguma coisa, ainda que minúscula, no limite da insignificância, mas que, de qualquer forma, me parece ter algo a ver com o filme e me fala dele de modo velado; não sei, talvez seja até um pretexto para dar início a um relacionamento, um expediente para segurar o filme, ou melhor, para retardá-lo.

Por que faço aquele filme, aquele em vez de outro? Não quero saber. Os motivos são obscuros, confusos.

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Revista Digital // Trabalho de Editorial