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CALHamaço Florianópolis, outubro de 2013 - Ano I - Edição I

A universidade brasileira e a sua função social

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universidade tem servido, historicamente, à classe social dominante, restringindo seu acesso àqueles que vêm do ensino secundário privado. Apenas cerca de 17% dos jovens entre 18 e 24 anos então nas universidades, número pouco expressivo para uma juventude que visa a plenitude de seu acesso à educação, sendo que em outros países da América Latina esse número chega a 40%. Se formos olhar por um viés étnico a situação se torna ainda mais alarmante, apenas 15% da população negra tem acesso ao ensino superior, sendo que 2% estão nas universidades públicas. O que pode ser feito para melhorar essa situação? Qual deve papel da universidade em nossa sociedade? Para mudarmos esse quadro é necessário que se entenda a educação enquanto direito básico e inalienável de todos, combatendo o seu trato enquanto mercadoria. Para garantia de tais direitos não podemos desresponsabilizar o estado das demandas sociais e simplesmente deixar essa tarefa a cabo daqueles que a tratam enquanto um serviço. Somente através da educação não teremos uma sociedade livre da dependência cultural e econômica que historicamente lhe foi imposta, mas é através da educação que podemos almejar uma sociedade co m s u j e i t o s p r o t a go n i s t a s , e m a n c i p a d o s e transformadores de suas realidades. Para suprir essas demandas é necessária uma universidade pública de qualidade, gratuita, laica e popular, que só conseguiremos

alcançar através de uma profunda reforma universitária pensada não apenas a partir dos que estão dentro na universidade, mas nos que estão fora dela. A reforma universitária deve ir muito além da democratização de seu acesso, ela deve mudar a essência da universidade, fazendo-a deixar de ser apenas um centro de formação de mão-de-obra qualificada para transformá-la num amplo instrumento de transformação para uma nova consciência. Qualquer um que deseja mudanças profundas na sociedade terá a educação como foco. Para fazermos com que a universidade deixe de atender apenas à classe dominante para atender às demandas dos trabalhadores é necessário entendermos que esse conflito se dá muito mais no campo político do que no campo pedagógico, visando à conquista de uma universidade que se identifique com a sociedade brasileira e que semeie a nossa cultura.

Grupo de Trabalho de avaliação de curso e currículo

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á 3 anos os professores e estudantes do curso de História da UFSC vem discutindo a reforma curricular. Em 2009 é emitida uma lei que proíbe a ocupação de duas vagas em universidades públicas. Logo após, o MEC interpreta essa lei e afirma que bacharelado e licenciatura são duas habilitações distintas. Isso leva o próprio a lançar um decreto exigindo a separação das habilitações nos cursos que as tinham unificadas, por entender que o aluno estaria ocupando duas vagas públicas. Sendo assim, foi decidido que deveria ser feita uma reforma curricular, e forma-se o Núcleo Docente Estruturante (NDE) para debater a estruturação desse novo currículo. Inicialmente composto apenas por professores, através de muita luta o CALH conseguiu integrar uma representação discente. Depois de extensivas discussão em 2010 e 2011, o NDE passou o ano inteiro de 2012 sem sequer uma reunião. É importante lembrar que a maior parte do departamento de História e dos estudantes sempre se posicionaram contra a separação das habilitações, mas por falta de possibilidades concretas de luta optou-se por iniciar o processo de reforma

curricular. Hoje o panorama é diferente. Ano passado a UFPR conseguiu impedir a separação baseada numa jurisdição que afirma a não distinção entre bacharelado e licenciatura. Esta “boa nova” está sendo utilizada pelos estudantes e pelo departamento para barrar a separação também aqui na UFSC. Sendo assim, o colegiado de curso decidiu no último semestre que agora é necessário que façamos um AVALIAÇÃO DO CURSO, afim de realmente ponderar as qualidades e defeitos do currículo vigente para ter um debate mais sofisticado na futura reforma curricular. O Centro Acadêmico Livre de História construirá esta avaliação com o departamento, mas é importante frisar, de maneira AUTÔNOMA. Nessa conjuntura, se faz mais do que necessário que nós, estudantes, estejamos a par das discussões e constantemente reiterando um posicionamento firme em relação as possíveis mudanças. É por isso que a Gestão em Construção propõe a formação de um GRUPO DE TRABALHO PERMANENTE DO CURRÍCULO, instâncias onde será feito um amplo debate sobre o currículo vigente e deliberará o POSICIONAMENTO DOS ESTUDANTES. Página 1


2013: O ano em que a juventude brasileira se levantou!

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juventude e os trabalhadores de nosso país há muitos anos assistem os noticiários da mídia tradicional e vêem a juventude e os trabalhadores de diversos países se levantando. A praça Thahir foi tomada no Egito, movimento este que foi responsável por tirar um ditador que estava há mais de 30 anos no poder, este movimento desencadeou a primavera árabe, movimento que acabou com as ditaduras de grande parte dos países do norte da África. A Grécia teve nos últimos anos mais de 14 greves gerais, vimos no fim do ano passado a primeira greve geral unificada da Europa que contou com a participação de diversos países. Com toda a certeza se atualmente nós fossemos algum jovem de outro país neste momento estaríamos vendo noticias sobre os acontecimentos do Brasil. Nossa hora chegou!! A juventude neste ano se levantou no Brasil como há muito não era visto, vivemos em 2013 as maiores manifestações dos últimos 30 anos colocando mais de 2 milhões de pessoas nas ruas, mais do que na campanha do “Fora

Collor”!! No dia 11 de julho a juventude ao lado dos trabalhadores participou de uma das maiores greves gerais da história de nosso país. O barulho que a juventude de fez está longe de ser silenciado. Já aconteceram mais 8 ocupações de Câmaras Municipais o que fortalece a luta da juventude no país inteiro pelo Passe Livre. Mas a luta não acabou, a volta às aulas em diversas universidades colocou os estudantes em contato direto ao descaso com a educação pública em nosso país. É a hora das universidades refletirem o que foi junho! Reitorias estão sendo ocupadas em defesa da qualidade da universidade pública, contra privatizações, em defesa da democracia. Aqui na UFSC precisamos nos organizar junto com o movimento estudantil e dos trabalhadores para lutar pela reabertura imediata dos Xerox, contra as Empresas Juniores no CFH e contra a privatização do Hospital Universitário!

O CALH TEM COMO PRINCíPIO A LUTA CONTRA TODA A FORMA DE OPRESSÃO

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uando chegamos à universidade, muitas vezes pensamos que ao entrar na vida acadêmica vamos nos livrar da opressão que existe no “mundo lá fora”, mas a universidade não é uma bolha e reflete todo o tipo de ideologia que existe em nossa sociedade. O machismo, o racismo e a homofobia estão presentes em muitos trotes da UFSC e de várias universidades. No início deste ano o trote da UFMG que humilhou uma menina acorrentada e fez menção a escravidão e ao fascismo virou assunto nacional e chocou com seu racismo escancarado. Este semestre não foi diferente, na UFSC episódios como o da atlética de medicina, que vinculou nas redes sociais a frase "estupro que é bom ninguém tá ganhando”, Página 2

infelizmente são recorrentes. Mas não é apenas fora da sala de aula que isto acontece, muitas vezes o machismo e o assedio moral partem de dentro da sala de aula. Já vimos isto acontecer no nosso curso, e isso é muito grave. O assédio moral ocorre, por exemplo, quando um professor se utiliza de seu cargo para humilhar um estudante, e agravado pelo machismo (ideologia que cria a falsa verdade de que as mulheres são inferiores aos homens) cumpre a função de afastar ainda mais as mulheres da universidade, do movimento estudantil, diminuí-las no trabalho e na vida acadêmica, e serve para justificar que em nosso país uma mulher ganhe cerca de 30% a menos que os homens para exercerem a mesma função, ou mesmo para que uma mulher


apanhe até a morte pelo pai ou marido como vemos todos os dias Caso algo assim aconteça com você, na UFSC existe uma ouvidoria na reitoria onde você pode e deve denunciar todo o tipo de opressão e assedio moral, mas sabemos que isso muitas vezes não é o bastante e é preciso que o movimento estudantil tome para si esta luta. O CALH tem como princípio lutar contra toda a forma de opressão e estará sempre ao lado dxs estudantes na luta pelo fim do machismo, racismo, homofobia e do assédio moral dentro e fora da UFSC.

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uando chegamos à universidade, muitas vezes pensamos que ao entrar na vida acadêmica vamos nos livrar da opressão que existe no “mundo lá fora”, mas a universidade não é uma bolha e reflete todo o tipo de ideologia que existe em nossa sociedade. O machismo, o racismo e a homofobia estão presentes em muitos trotes da UFSC e de várias universidades. No início deste ano o trote da UFMG que humilhou uma menina acorrentada e fez menção a escravidão e ao fascismo virou assunto nacional e chocou com seu racismo escancarado. Este semestre

Novas contratações de professores

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este semestre tivemos a contratação de dois novos professores para o Departamento de História da UFSC, e já estão lecionando disciplinas para os cursos de História, Relações Internacionais e Arquivologia. Professor Márcio Roberto Voigt (História das Relações Internacionais II e História Contemporânea II) e o professor Fernando Cândido da Silva (Introdução ao Estudos de História, História do Oriente Antigo e História da Antiguidade Ocidental). Nosso novo professor de antiga possui graduação

em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2003) e mestrado em História e Sociedade (História Antiga) pela mesma universidade (2006). Doutor em Ciências da Religião na área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico pela Universidade Metodista de São Paulo (2011). Sua tese recebeu o Prêmio Capes de Teses em 2012 na área de Filosofia/Teologia. Atualmente realiza pós-doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em História da FCL/UNESP-Assis na Linha de Pesquisa Religiões e Visões de Mundo. Interessado, especialmente, na construção de uma Recordação do Mundo Antigo em prol das lutas emancipatórias contemporâneas. Enquanto o professor Márcio Roberto Voigt é

doutor em Ciência Política na área de Política Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2010). Mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1996). Bacharel em História pela Universidade Federal de Santa Catarina UFSC (1990) e licenciado em História pela mesma instituição (1992). Leciona a disciplina História das Relações Internacionais desde 1998, tendo atuado inicialmente na UNIVALI (Universidade do Vale do Itajaí) e mais recentemente como professor substituto nessa mesma disciplina, no Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (2011-2013). Atualmente é professor de Política Externa Brasileira da UNISUL (Universidade do Sul de Santa Catarina). Tem experiência na área de Relações Internacionais, com ênfase em História das Relações Internacionais e Política Externa Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: História das Relações Internacionais, Política Internacional, Política Externa do Regime Militar e os Choques do Petróleo; Energia e Relações Internacionais. Professor Márcio é o próximo convidado para o História em Debate, realizado pelo CALH, que será dia 23 de outubro às 9 horas no mini-auditório do CFH. Em breve convidaremos também o Professor Fernando assim como demais professoras e professores. Contamos com a presença de todxs.

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Editorial

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gestão Em construção buscando melhorar ainda mais a comunicação entre os estudantes de história retorna com o CALHamaço, jornal do Centro Acadêmico Livre de História. Queremos convidar à todxs que tiverem interesse em contribuir com textos para as próximas edições, sugestões de colunas temáticas, entre outras ideias, sintam-se a vontade em participar das reuniões do CALH semanais, envia-las através do e-mail calh.ufsc@gmail.com ou através da página www.facebook.com/calhufsc. Aqui será um espaço para expor opiniões, sejam elas políticas ou acadêmicas, com o proposito de difundi-las entre os estudantes do curso. Planejamos ter no mínimo duas edições semestrais, porém de acordo com as demandas d e i n te re s s a d o s e m construir e a receptividade, podemos repensar essa freqüência. E s p e ra m o s q u e gostem desta edição e venham construir conosco o CALH das maneiras mais diversas. Página 4

primeiras conversas com cada fase estão acontecendo, decidido no grupo de trabalho permanente de currículo. Participe! Dê sua opinião e nos ajude a conhecer o Curso de História da UFSC! A Gestão Em Construção já realizou as primeiras reformas na sede do nosso Centro Acadêmico. A sala foi devidamente limpa e o sofá antigo trocado, mas ainda há muito a fazer: como a organização da Xeroteca e a restauração da nossa cafeteira e micro-ondas. Venha debater as políticas, pautas de curso e acadêmicas e nos ajudar a manter vivo este espaço que é de todxs os estudantes de História. Apenas com se os estudantes ocuparem este espaço teremos de fato um Centro Acadêmico atuante. Já iniciamos os encontros para a construção da X Semana Acadêmica de Historia, fique atento no mural, na página do facebook ou participe das reuniões do CALH. As reuniões acontecem semanalmente as terças feiras às 17:30 e nas quintas feiras às 12:00, na sede do Centro Acadêmico. Participe das reuniões e faça parte das lutas e conquistas do CALH! Curta nossa página no facebook: www.facebook.com/calhufsc Envie email com sua sugestão/dúvida: calh.ufsc@gmail.com

Ficha técnica Diagramação e Edição Geral:

Leonardo Cardoso Revisão: Danielle Dornelles Redação: Carla Teixeira Fanny Spina França Realização: Félix Lins Gabriela Santetti Centro Acadêmico Livre de História Leonardo Cardoso Gestão Em construção Vitor Prudêncio (Xuxa) 2013/2014 Victor W. Kegel Amal

Tiragem: 350 cópias

esde o início desta gestão, em junho de 2013, o Centro Acadêmico Livre de História vem desenvolvendo inúmeras atividades em conjunto com os estudantes, como debate sobre a função social do historiador e o currículo vigente hoje na UFSC. Trouxemos de volta História em Debate, no qual os estudantes tem a oportunidade de conhecer a fundo a pesquisa e o trabalho exercido pelos professores do curso de História. Outro evento resgatado pela gestão Em Construção são os Jogos Sedentários, que visa à integração entre as diferentes fases do curso, gerando momentos de lazer e diversão. Mas a atuação do Centro Acadêmico não para por aí: estamos presentes no movimento estudantil geral na Universidade, debatendo, nos posicionando e participando de forma ativa na pautas latentes como a permanência estudantil que permeou recentemente a bolsa permanência estudantil, os indeferidos do auxílio moradia. Hoje há representantes discentes participando regularmente dos Colegiados de Curso, de Departamento e do Conselho de Unidade. O CALH é a voz dos estudantes dentro do curso, e a sua luta é a nossa luta! Além disso, iniciamos em conjunto com o Departamento do Curso de História, o processo de avaliação do curso. Essa avaliação será construída de forma aberta em conjunto com os estudantes. As

www.umsabadoqualquer.com

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E o CALH está a todo vapor!!!

CALHamaço  

Outubro - 2013 Ano I - Edição I

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