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ENGENHARIA I

Fundadores Apparício Saraiva de Oliveira Mello (1929-1998) Ivone Gouveia Pereira de Mello (1933-2007)

Rua Alice de Castro, 47 - Vila Mariana CEP 04015 040 - São Paulo - SP - Brasil Tel. (55 11) 5575 8155 Fax. (55 11) 5575 1069 E-mail: brasilengenharia@terra.com.br Assinatura anual: R$ 120,00 Número avulso: R$ 39,00 DIRETOR RESPONSÁVEL RUI ARRUDA CAMARGO DIRETOR EDITORIAL RICARDO PEREIRA DE MELLO DIRETORA EXECUTIVA MARIA ADRIANA PEREIRA DE MELLO FEV/MAR/ABR/MAIO-2018 - ANO 75 - N.º 637 INSTITUTO DE ENGENHARIA. Presidente: Eduardo Ferreira Lafraia. Vice-presidente de Administração e Finanças: Victor Brecheret Filho. Vice-presidente de Atividades Técnicas: Jerônimo Cabral Pereira Fagundes Neto. Vice-presidente de Relações Externas: Marcos Moliterno. Vice-presidente de Assuntos Internos: Miriana Pereira Marques. COMISSÃO EDITORIAL: Aléssio Bento Borelli, Alfredo Eugênio Birman, Antonio Maria Claret Reis de Andrade, Aristeu Zensaburo Nakamura, Eduardo Ferreira Lafraia, Ivan Metran Whately, Jerônimo Cabral Pereira Fagundes Neto, João Ernesto Figueiredo, José Eduardo Cavalcanti, José Fiker, Laurindo Martins Junqueira Filho, Luís Antônio Seraphim, Maurílio Luiz Vieira Bergamini, Miguel Lotito Netto, Miguel Prieto, Miracyr Assis Marcato, Nestor Soares Tupinambá, Paulo Eduardo de Queiroz Mattoso Barreto, Permínio Alves Maia de Amorim Neto, Ricardo Pereira de Mello, Roberto Bartolomeu Berkes, Roberto Kochen, Rui Arruda Camargo, Theophilo Darcio Guimarães. ENGENHO EDITORA TÉCNICA. Diretor Editorial: Ricardo Pereira de Mello. Diretora Comercial: Maria Adriana Pereira de Mello. Editor Chefe: Juan Garrido. Fotógrafo: Ricardo Martins. Editoração: Adriana Piedade (Zaf) e André Siqueira (Via Papel). Assinaturas: Leonardo Moreira. Criação e arte: André Siqueira (Via Papel). Impressão e acabamento: Meltingcolor Gráfica. REDAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E PUBLICIDADE: Engenho Editora Técnica Ltda. Rua Alice de Castro, 47 - CEP 04015 040 - São Paulo - SP - Brasil - Tel. (55 11) 5575 8155 - Fax. (55 11) 5575 1069. Circulação nacional: A REVISTA ENGENHARIA é distribuída aos sócios do Instituto de Engenharia, assinantes e engenheiros brasileiros que desenvolvem atividades nas áreas de engenharia, projeto, construção e infraestrutura. A REVISTA ENGENHARIA, o Instituto de Engenharia e a Engenho Editora Técnica não se responsabilizam por conceitos emitidos por seus colaboradores ou a precisão dos artigos publicados. Só os editores estão autorizados a angariar assinaturas Número avulso: R$ 39,00 Assinatura anual: R$ 120,00 E-mails: brasilengenharia@terra.com.br engenho@uol.com.br

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. NENHUMA PARTE DESTA PUBLICAÇÃO (TEXTOS, DADOS OU IMAGENS) PODE SER REPRODUZIDA, ARMAZENADA OU TRANSMITIDA, EM NENHUM FORMATO OU POR QUALQUER MEIO, SEM O CONSENTIMENTO PRÉVIO DA ENGENHO EDITORA TÉCNICA OU DA COMISSÃO EDITORIAL DA REVISTA ENGENHARIA

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NESTA E

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ENTREVISTA

SANTIAGO CRESPO Presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon) OTIMISMO FRENTE ÀS CHANCES DE NOVAS CONCESSÕES DE SANEAMENTO BÁSICO

O engenheiro Santiago Crespo, presidente da Abcon, observa que, na origem, o saneamento básico sempre foi explorado pelas empresas ligadas ao Estado. Mas ele comenta que, há não muito tempo, as empresas privadas do setor enxergaram uma oportunidade de negócios e teve início, então, uma série de atividades privadas (concessões e outros modelos de negócios em vários formatos). Ele está otimista quanto ao sucesso de estabelecimento de contratos em futuro próximo – logo depois da superação das dificuldades econômicas pelas quais o país passa –, embora recomende que na questão do saneamento é muito importante conhecer bem como funcionam as concessões ao setor privado.

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LINHA DE FRENTE

PAULO ROBERTO DE OLIVEIRA Diretor-Presidente do Grupo GS Inima Brasil PREOCUPAÇÃO COM O MEIO AMBIENTE E CONSCIENTIZAÇÃO DAS POPULAÇÕES

Segundo o engenheiro Paulo Roberto de Oliveira, atualmente o grupo tem sete contratos com órgãos municipais e três contratos com companhias estaduais. Perguntamos a ele se há ainda um bom número de projetos de concessão de saneamento em municípios brasileiros que ficaram parados com a entrada de novos prefeitos eleitos no final de 2016. O motivo da possível paralisação teria sido que o índice de reeleição foi muito baixo? Ele respondeu não acreditar que esse tenha sido o principal motivo. “O que aconteceu foi que a situação fiscal dos municípios piorou bastante por conta da crise política e econômica dos últimos anos no país, e então diversos prefeitos, tiveram que se preocupar com as contas públicas e até pagamento de salários de funcionários que estavam atrasados”.

PALAVRA DA PRESIDÊNCIA CARTAS PALAVRA DO LEITOR CURTAS DIVISÕES TÉCNICAS

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SEÇÕES

EDITADA DESDE 1942

www.brasilengenharia.com ISSN 0013-7707 REVISTA ENGENHARIA Órgão Oficial do Instituto de Engenharia

75 77 78 80 82

CRÔNICA MEMÓRIAS DA ENGENHARIA ENGENHO & ARTE BIBLIOTECA OPINIÃO

ASSINATURAS WWW.BRASILENGENHARIA.COM engenharia 637 / 2018 ENGENHARIA 606 / 2011

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I ENGENHARIA

EDIÇÃO

CAPA

Concessões de Saneamento Foto: Divulgação Veolia Crédito: R.Mas

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CAPA ENGENHARIA

Criação: André Siqueira

ESPECIAL CONCESSÕES DE SANEAMENTO À ESPERA DE NOVOS NEGÓCIOS

O setor privado se prepara para aumentar sua participação em face das novas oportunidades de concessões plenas, parciais ou PPPs de saneamento básico que deverão surgir em todo o território nacional à medida que o quadro político do país for ficando menos conturbado. As previsões do Panorama 2018 da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), lançado na primeira quinzena de abril, são positivas. Em que pese a falta de recursos do poder público para transformar a triste realidade do setor, a direção da Abcon entende que existe hoje uma oportunidade para o Brasil ter o saneamento que merece, aquele que a sociedade já reclama há décadas e que se torna ainda mais necessário diante de tudo que o país viveu nos últimos anos: crises de abastecimento, estresse hídrico, proliferação de doenças, rios, mares e lagos mortos pela poluição.

APOIA ESTA EDIÇÃO: A MISSÃO DO INSTITUTO DE ENGENHARIA ENGENHARIA SANEAMENTO / ARTIGO

A TRANSPOSIÇÃO DE ÁGUA BRUTA DOS SISTEMAS RIO GRANDE (BILLINGS) E ALTO TIETÊ (TAIAÇUPEBA-MIRIM)

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Mariana Alves Traskurkemb / Habib Georges Jarrouge Neto / Izabel Gomes Bastos / Roberto Kochen / Marcos Rogério Araujo / Renato Hochgreb Frazão / Carlos Augusto Pleul / Guilherme Machado Paixão / José Francisco de Proença

ENGENHARIA TRANSPORTE / ARTIGO

DISTRIBUIÇÃO MODAL, URBANISMO E MEIO AMBIENTE: A BUSCA PELO EQUILÍBRIO Marcelo Cardinale Branco www.brasilengenharia.com WWW.BRASILENGENHARIA.COM

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Promover a engenharia, em benefício do desenvolvimento e da qualidade de vida da sociedade. Realiza essa missão por meio da: promoção do desenvolvimento e da valorização da engenharia; promoção da qualidade e credibilidade de seus profissionais; prestação de serviços à sociedade, promovendo fóruns e debates sobre problemas de interesse público, analisando e manifestando-se sobre políticas, programas e ações governamentais, elaborando estudos, pareceres técnicos e propostas para o poder público e para a iniciativa privada; prestação de serviços aos associados. Suas ações estão dirigidas para: a comunidade em geral; os órgãos públicos e organizações não governamentais; as empresas do setor industrial, comercial e de serviços; as empresas de engenharia, engenheiros e profissionais de nível superior em geral; os institutos de pesquisas e escolas de engenharia; e os estudantes de engenharia. engenharia 637 / 2018 ENGENHARIA

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ENGENHARIA I

PRESIDÊNCIA PRESIDENTE Eduardo Lafraia presidencia@iengenharia.org.br 1º DIRETOR SECRETÁRIO Ivan Metran Whately iwhately@terra.com.br 2º DIRETOR SECRETÁRIO Habib Georges Jarrouge Neto habib.jarrouge@gmail.com ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DIRETOR George Paulus george@salaviva.com.br ASSESSORA Fabiana de Holanda fabianadeholanda@gmail.com JORNALISTA Isabel Cristina Dianin site@iengenharia.org.br CÂMARA DE MEDIAÇÃO E ARBITRAGEM DO INSTITUTO DE ENGENHARIA DIRETOR Andre Steagall Gertsenchtein camara@iengenharia.org.br

VICE-PRESIDÊNCIA DE ADMINISTRAÇÃO E FINANÇAS VICE-PRESIDENTE Victor Brecheret Filho vicepresidente@iengenharia.org.br 1º DIRETOR FINANCEIRO Fernando Bertoldi Correa fernando@herjacktech.com.br 2º DIRETOR FINANCEIRO Mauro José Lourenço diretoria@ltdengenharia.com.br DIRETOR DE TI Abram Belk abram@tqs.com.br ADMINISTRATIVO FINANCEIRO Sueli Caballeria Mesquita financeiro@iengenharia.org.br

VICE-PRESIDÊNCIA DE ATIVIDADES TÉCNICAS VICE-PRESIDENTE Jerônimo Cabral Pereira Fagundes Neto jcmijs@terra.com.br CURSOS DIRETOR Marco Antonio Gullo m.a.gullo@mgconsult.com.br VICE-DIRETORA Ursula Martins Matheus ursula.matheus@mgconsult.com.br DIRETOR DA BIBLIOTECA Mauro José Lourenço diretoria@ltdengenharia.com.br

REVISTA ENGENHARIA DIRETOR

Alfredo Mário Savelli Alfredo Petrilli Junior André Steagall Gertsenchtein Angelo Sebastião Zanini Arlindo Virgílio Machado Moura Carlos Cotta Rodrigues Carlos Pereira de Magalhães Neto Cláudio Amaury Dall’acqua Edson José Machado Flávia Bartkevicius Cruz Francisco Armando N. Christovam João Baptista Rebello Machado Jorge Pinheiro Jobim José Eduardo F. Poyares Jardim José Roberto Cardoso José Olímpio Dias de Faria José Roberto Bernasconi Kleber Rezende Castilho Luiz Fernando Portella Marcel Mendes Marcelo Rozenberg Pedro Márcio Gomes dos Santos Renato Mattos Zuccolo Ricardo A. Carneiro La Terza Ricardo Kenzo Motomatsu Roberto Bartolomeu Berkes Roberto Kochen Rui Arruda Camargo Vicente Abate

Rui Arruda Camargo

ruicamargo@uol.com.br SECRETÁRIO

Aléssio Bento Borelli alessio.bento@gmail.com

VICE-PRESIDÊNCIA DE RELAÇÕES EXTERNAS VICE-PRESIDENTE Marcos Moliterno info@mmoliterno.com.br DIRETOR DE RELAÇÕES EXTERNAS Miracyr Assis Marcato energo@terra.com.br DIRETOR REGIONAL DE SALVADOR/BA Carlos Alberto Stagliorio stagliorio@stagliorio.com.br DIRETOR REGIONAL DE BELO HORIZONTE/MG Jose Augusto da Silva dirreluca@hotmail.com

VICE-PRESIDÊNCIA DE ASSUNTOS INTERNOS VICE-PRESIDENTE Miriana Pereira Marques miriana.marques@terra.com.br DIRETOR DE ASSUNTOS UNIVERSITÁRIOS Vitor Marques vitinho1991@terra.com.br DIRETOR DE ASSUNTOS ACADÊMICOS Angelo Sebastião Zanini azanini@usjt.br DIRETORIA DE ASSOCIAÇÕES DE EX-ALUNOS DIRETORA Flavia Bartkevicius Cruz flavia.b.cruz@gmail.com VICE-DIRETOR Oswaldo Boccia Junior obocciajr@gmail.com DIRETORIA CULTURAL DIRETOR Nestor Soares Tupinambá nstupinamba@uol.com.br COORDENADOR MUSICAL Sergio Martoni sergiomartoni@hotmail.com DIRETOR DE VISITAS TÉCNICAS Sokan Kato Young sokan@chinatur.com.br

CONSELHO CONSULTIVO

CONSELHO DELIBERATIVO PRESIDENTE Eduardo Lafraia SECRETÁRIO Edson José Machado CONSELHEIROS Adolfo Bolivar Savelli

PRESIDENTE João Antonio Machado Neto SECRETÁRIO Miracyr Assis Marcato

CONSELHEIROS Adolfo Bolivar Savelli Alberto Pereira Rodrigues Aléssio Bento Borelli Alfredo Eugenio Birman Alfredo Mário Savelli Alfredo Petrilli Junior Amândio Martins André S. Gertsenchtein Antonio Galvão A. de Abreu Antonio Hélio Guerra Vieira Antonio Mª Claret Reis de Andrade Arlindo Virgilio Machado Moura Arnaldo Calil P. Jardim Beatriz Vidigal Xavier da S. Rosa Camil Eid Carlos Antonio Rossi Rosa Carlos Costa Neto Carlos Eduardo M. Gonçalves Cláudio A. Dall’Acqua Cláudio Arisa Clorival Ribeiro Dario Rais Lopes Dirceu Carlos da Silva

Edemar de Souza Amorim Edgardo Pereira Mendes Jr. Edson José Machado Eduardo Ferreira Lafraia Enio Gazolla da Costa Ettore José Bottura Gabriel Oliva Feitosa Hélio Martins de Oliveira Ismael Junqueira Costa Ivan Metran Whately Jerônimo Cabral P. Fagundes Neto João Antonio Machado Neto João Ernesto Figueiredo Jorge Pinheiro Jobim José Eduardo Cavalcanti José Geraldo Baião José Olímpio Dias de Faria José Pereira Monteiro José Roberto Bernasconi José Walter Merlo Kleber Rezende Castilho Lourival Jesus Abrão Luiz Felipe Proost de Souza Luiz Fernando Portella Maçahico Tisaka Marcelo Rozenberg Marcos Moliterno Miracyr Assis Marcato Miriana Pereira Marques Nelson Aidar Nestor Soares Tupinambá Neuza Maria Trauzzola Ozires Silva Paulo Ferreira Paulo Setubal Neto Pedro Márcio Gomes dos Santos Permínio Alves M. Amorim Neto Plínio Oswaldo Assmann Reginaldo Assis de Paiva Renato Mattos Zuccolo Ricardo Alberto Carneiro La Terza Ricardo Kenzo Motomatsu Roberto Bartolomeu Berkes Roberto Kochen Rui Arruda Camargo Sonia Regina Freitas Tomaz Eduardo N. Carvalho Tunehiro Uono

CONSELHO FISCAL PRESIDENTE João Ernesto Figueiredo EFETIVOS Marcello Kutner Nelson Newton Ferraz SUPLENTES Clara Cascão Nassar Odécio Braga de Loureiro Filho Paulo Eduardo Queiróz Mattoso Barreto

INSTITUTO DE ENGENHARIA

Reconhecido de utilidade pública pela lei nº 218, de 27.05.1974 Av. Dr. Dante Pazzanese, 120 - CEP 04012 180 - São Paulo - SP Telefone: (+55 11) 3466 9200 - Fax (+55 11) 3466 9252 Internet: www.iengenharia.org.br E-mail: secretaria@iengenharia.org.br

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PALAVRA DO PRESIDENTE

I ENGENHARIA

Partir para a ação

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ais do que dizer o que é necessário fazer, é preciso partir para a ação. Fazer de fato.

Todos nós que assumimos encargos de condução de empresas, institutos, autarquias, organizações governamentais ou não e cargos públicos estamos vivendo um momento crítico e o país exige ação. Ficar no discurso tem sido uma prática de raízes históricas e é recorrente em muitos dos nossos dirigentes. Logo mais terão início as campanhas políticas e, com elas, a proliferação de promessas, discursos infindáveis e cansativos, pedidos de voto e uma enxurrada de material de campanha, programas políticos, compromissos, informações e números. Participar do processo político, de forma consciente, é passo importante para a prática saudável do “melhor” para a coletividade. Como é também – e fundamental – a sociedade civil, organizada, buscar a construção que queremos: justa, igualitária e plena de oportunidades. Há ainda outra dimensão essencial, que tem sido esquecida nos discursos e movimentações, que é crescer, gerar riquezas, empregos e bem-estar. Já passou – e muito – o tempo em que podíamos votar e apenas esperar.  Li outro dia, em um veículo  de comunicação, um artigo que falava sobre a ira santa de Deus que se popularizou como a santa ira dos homens ou a ira do bem. Ira aqui compreendida “como a explosão indignada de quem não consegue mais assistir passiva-

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mente o que é injusto, incorreto ou amoral”.

Eduardo Ferreira Lafraia Presidente do Instituto de Engenharia E-mail: presidencia@iengenharia.org.br

Precisamos urgentemente que a ira do bem tome conta das nossas pautas, das nossas ações. Energia apontada para exigir – sem trégua – o fim dos privilégios, o fim de um sistema tributário ineficiente, o investimento consistente em infraestrutura, a redução do tamanho e da ineficiência do Estado, a transparência dos gastos públicos, o fim dos contratos sem projeto, o fim dos supersalários do setor público, da falta de planejamento e otimização dos recursos públicos e a execução das já tão famosas, e sempre adiadas, reformas – política, fiscal e da previdência. Temos neste ano uma excelente oportunidade para exercer nossa cidadania, sair da letargia e, além do voto, propor as pautas que são essenciais para o país. A sociedade civil organizada atuando como agente transformador, exigindo a retribuição – com trabalho sério e honesto – do voto e dos impostos (escandalosos) pagos por todos. No Instituto de Engenharia, contaminados todos pela ira do bem, colocamos em pauta discussões para as principais questões que o Brasil precisa enfrentar. E mais do que isso: queremos apresentar soluções viáveis e saídas possíveis que permitam o crescimento, a geração de emprego e de renda. Propostas técnicas oferecidas e compartilhadas com os formuladores de políticas públicas. A engenharia cidadã, ativa, presente e a serviço do crescimento. O Instituto do Futuro já começou: uma entidade aberta a ideias, propostas, discussão, troca de experiências e a busca de respostas construídas em conjunto. Eis a nossa convocação: participe e faça parte do futuro que queremos.

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CARTAS&E-MAILS É PRECISO FOCAR NO “I” DO BIM: INFORMAÇÃO QUE GERA VALOR “O valor agregado do BIM (Building Information Modeling) cresce com o aumento do seu uso ao longo do processo de vida do empreendimento. É comum apresentações sobre BIM indicando sua aplicação em todo o ciclo de vida e de forma cíclica, e é muito raro as implantações irem além da fase de projeto. A preponderância das aplicações está no projeto justamente pela facilidade de modelar em três dimensões. É visual e ‘palpável’, já que um modelo em 3D impressiona. O ‘M’ do BIM tem esta preponderância e assim faz com que as aplicações, como a detecção de interferências, o levantamento de quantidades e a integração com o planejamento sejam a grande maioria dos casos existentes no mercado. Embora muito interessantes, restringir o uso do BIM ao projeto faz com que seu potencial seja muito reduzido. O ideal é começar antes, ou seja, na definição de produto, e avançar pela obra e operação. Aí sim os benefícios serão tão grandes que não haverá dúvidas sobre sua aplicação. Este uso estendido é o que motivou programas governamentais de BIM de sucesso, como o programa inglês, que o Brasil vem, de certa forma, se inspirando. E como fazer isso? A resposta é que se deve passar a focar no ‘I’ do BIM. Organizar a informação até mesmo antes de o modelo existir e garantir que ela transite entre as fases de projeto, entre as diversas tecnologias e entre todos os stakeholders de forma contínua, sem silos e sem redundâncias. O programa de necessidades deve estar integrado com o modelo e ser utilizado para avaliar sua maturidade e aderência. As informações do BIM podem ser utilizadas antes mesmo de se modelar para validar custos. Os modelos devem ser continuamente enriquecidos com dados de obra. A gestão da obra deve usar o ‘I’ e o ‘M’ do BIM de forma intensa. A passagem de dados dos modelos para os softwares de facilities deve ser dinâmica e bidirecional. Simples? Barato? Rápido? De forma alguma. Abordar o tema ‘I’ é muito mais complexo do que modelar, envolve muito mais processos e pessoas e é uma implantação com muito mais riscos. Implantar depende muito mais da verdadeira vontade da alta direção. Vai custar, pode demorar mais que alguns esperam, mas é um divisor de águas. Um divisor de empresas, pois o impacto é realmente grande.” Marcus Granadeiro Engenheiro civil, presidente do Construtivo São Paulo - SP

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O PREÇO DA IMPUNIDADE “Infelizmente, tudo o que vem acontecendo no Brasil decorre basicamente da sensação de impunidade existente. Isso vale para os criminosos e, agora, para alguns setores da sociedade, que reagem contando com a mesma impunidade. De quem é a culpa? Bem, ora é da intencionalidade, arrogância ou inconsequência de quem faz as leis, ora de quem as aplica. O mal está em nível superior e irradia-se de forma indiscriminada, contaminando a sociedade. E quando se perde a sensação de que as instituições agem pelo bem comum, está aberto o caminho para o caos! Existem vários ditados que também ‘lutam’ entre si e, de certa forma, explicam o momento atual: ‘Quem cala, consente’, ‘Quando um não quer, dois não brigam’, ‘Os intolerantes ocupam os espaços deixados pelos tolerantes’... Mas tudo se resume a um único ponto: impunidade! E os eleitores não têm como controlar quem elegem, pois não existe ‘recall’ eleitoral no Brasil. E os projetos de lei de iniciativa popular são desconsiderados ou deformados no Parlamento. Além de tudo, esses políticos ainda são blindados pelo foro privilegiado, criação do governo militar, talvez a única unanimidade entre todos os partidos políticos. Se não há como confiar e controlar quem é eleito diretamente, o que dizer de quem eles indicam e referendam? Isso assegura a ‘independência entre poderes’? Vivemos uma crise institucional sem precedentes em nossa história! A Constituição ‘cidadã’ está expondo algumas de suas falhas, sendo as principais a manutenção do ‘foro privilegiado’ e, principalmente, a prisão apenas após trânsito em julgado. Com a desculpa de proteger a liberdade de expressão de políticos sem considerar a lentidão da Justiça no país, ela criou os alicerces da impunidade para todos os crimes que assistimos diariamente no Brasil, de todos os tipos e níveis. O último estágio desse processo de desconstrução da democracia é a tentativa de desacreditar as Forças Armadas e a revisão de sentenças de Segunda Instância. É preciso ter cuidado e prudência para evitar desfechos dramáticos, conflagrações. Senão, os ditados ‘violência gera violência’ e ‘quem com ferro fere, com ferro será ferido’ continuarão a promover uma escalada assimétrica de consequências desastrosas para o Brasil! A disseminação do ódio e a ‘ressuscitação’ da luta de classes tiveram início

no segundo turno das últimas eleições. Apenas isso já configura um crime! E sequelas dessa semeadura oportunista e inconsequente estão sendo colhidas agora. O Brasil precisa de uma revolução, sim! Mas ela não será feita com ódio ou armas! Não precisamos de uma guerra civil! Precisamos, sim, de uma mudança de mentalidade de quem postula ou exerce cargos públicos! Isso também vale para a formação de nossos jovens: em vez de doutrinação ideológica e alienação, eles devem ser preparados para o respeito às diferenças e para o desenvolvimento do país. O resto é uma retórica de fachada, discurso anacrônico, culto à personalidade, hipocrisia, doutrinação, imbecilidade, estupidez...” Adilson Luiz Gonçalves Escritor, engenheiro e professor universitário, membro da Academia Santista de Letras - ASL Santos - SP

INDÚSTRIA 4.0 E IOT: TRANSFORMAÇÃO MUITO ALÉM DO “DIGITAL” “A informatização e o alto nível de conectividade, que juntos dão origem ao conceito de IoT (Internet das Coisas), estão cada vez mais em pauta em todos os segmentos da economia. E não é diferente na indústria, setor no qual são crescentes os burburinhos em relação ao que é a Indústria 4.0 e como ela impacta no dia a dia das empresas e em seus processos fabris. O termo indústria 4.0 nasceu na Alemanha e contempla medidas que visam aumentar e recuperar a competitividade industrial, usando como meio a aplicação de tecnologias, como a IoT, no chão de fábrica. Porém, não estamos falando de uma implantação propriamente dita, mas de uma jornada para melhoria da produtividade, sempre tirando proveito dos benefícios que o mundo digital pode trazer. Em minha visão, não se trata de um pacote que se compra, mas sim de um conceito bastante amplo para aplicar tudo que o ‘mundo digital’ pode oferecer ao chão de fábrica. E isso, sem dúvida, envolve uma grande mudança de paradigma que, assim como tudo, tem prós e contras. Primeiramente, a IoT e a transformação digital criam uma necessidade ainda maior de garantir que todas as informações relacionadas à produção estejam protegidas e não extrapolem barreiras, indo além de quem pode visualizá-las. Fora as questões de espionagem industrial, o cuidado deve ser redobrado quando ingressamos no mundo digital

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e na indústria 4.0. Códigos maliciosos, ‘cavalos de troia’ e outras ameaças veladas podem mudar a ordem de produção e até parar máquinas. Se isso já é desastroso hoje, imaginemos em um cenário 100% conectado, no qual qualquer falha de comunicação pode causar uma desorganização geral, atrasos em entregas, mudanças de rotas e muitos outros problemas. Por isso, esse cenário requer a adoção de controles específicos. Outro ponto importante é que, ao mesmo tempo em os ativos digitais já estão sendo reconhecidos por sua relevância para os negócios, eles ainda são tratados em muitas companhias como caixas pretas, ou seja, ainda predomina o desconhecimento acerca do real valor deste patrimônio. Assim, poucos ativos estão sob uma gestão mais organizada, o que demanda, de certa forma, uma mudança de comportamento por parte dos gestores, mesmo aqueles que não estão ligados diretamente à tecnologia. Além disso, a indústria 4.0 também envolve desafios relacionados à gestão dos recursos humanos, pois as competências terão que estar alinhadas com o uso de Big Data, Robôs Autônomos, Simulação, Integração de Sistemas, IoT, Segurança Cibernética, Computação em Nuvem, Manufatura Aditiva (impressão 3D), Realidade Aumentada e outros conceitos que passarão a ser largamente utilizados nos próximos anos. Inclusive, uma pesquisa da McKinsey apontou justamente isto: que o desafio nesse cenário todo é de caráter cultural e de comportamento. Afinal, são pessoas que decidem e influenciam a adoção de novas tecnologias. Mas, e o Brasil? Conquanto seja difícil fazer comparações, a situação por aqui em termos de competitividade ancorada pela tecnologia, mesmo em se tratando do maior mercado da América Latina e Caribe, não é das melhores, o que fica evidente no ‘The Global Competetiveness Report 2016–2017 – World Economic Forum’. Desta forma, para avançar nessa jornada, o primeiro passo para tornar um processo digital é ‘desmaterializá-lo’ (acho que este termo ainda não consta em dicionários, mas gosto de usar essa palavra), ou seja, tirar suas características físicas e excluir tudo o que impede o crescimento exponencial, característico do mundo digital. E para isso, é preciso

estudar o processo e encontrar formas de automatizá-lo e até mesmo de simplificá-lo. A partir daí, todos os componentes do processo passam a fluir muito rápido, tanto a circulação de documentos como a obtenção de informações sobre o processo para uso em Analytics, Big Data, entre outros. E nesse ponto, emergem benefícios, como rapidez na execução e controle nas variáveis do processo, como identificação de melhorias a partir dos dados gerados e a possibilidade de analisar tudo o que acontece no seu ambiente fabril com base nessas informações. É todo esse embasamento analítico que concede à indústria 4.0 o poder de abranger e ingressar em mercados até então inéditos e vender para outros países. As necessidades dos clientes ficam muito mais evidentes e também podem ser muito melhor atendidas. Quebra-se um pouco o conceito de produtos fechados e de unidades de manutenção de estoque (SKU, sigla em inglês) e tudo se volta às especificidades. A produção pode ser mais diversificada, as vendas mais consultivas e flexíveis e as respostas mais rápidas, respondendo a tal jornada do cliente. Será tudo isso também que preparará as empresas para atender o imediatismo dos clientes das gerações X e Y que vem vindo por aí, afinal são eles os futuros compradores. Isto inclui as empresas B2B. E, por último, este cenário permite aprimorar o desempenho dos processos internos, com menos pessoas e maior velocidade. Diante de tudo isso, o que fica evidente é que a indústria 4.0, antes de tudo, é uma questão estratégica – por refletir o modo como a empresa ‘passará a pensar’ e, assim sendo, não pode ser atribuída exclusivamente à direção de tecnologia das organizações e ao emprego da IoT, por exemplo. Temos aí uma transformação muito mais do que digital. Ainda há muito que evoluir.” Walter Sanches Superintendente de TI da Termomecanica São Bernardo do Campo – SP

Como contatar a REVISTA ENGENHARIA Comentários sobre o conteúdo editorial da REVISTA ENGENHARIA, sugestões e críticas devem ser encaminhadas para a redação: Rua Alice de Castro, 47 – CEP 04015 040 – São Paulo – SP – Fax (11) 5575 8155 ou 5575 1069 – ou por E-mail: engenho@uol.com.br

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As cartas à redação devem trazer o nome, endereço e número da cédula de identidade do leitor, mesmo aquelas enviadas pela internet. Por questões de espaço e clareza a revista reserva-se o direito de resumir as cartas.

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PALAVRA DO LEITOR

UMA OPORTUNIDADE PARA FAZER MELHOR LUIZ PLADEVALL*

O

saneamento básico é essencial para o desenvolvimento de qualquer nação. Ele atende a princípios básicos de garantia de cidadania, melhorando a qualidade de vida de milhões de brasileiros, e reduzindo os riscos de doenças infecciosas e parasitárias, principalmente em crianças. Por isso, os indicadores do setor contribuem para construir um panorama de determinada localidade e checar suas reais condições de vida. Na saúde, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para cada 1 dólar investido em saneamento, pode-se economizar 4,3 dólares em despesas com saúde pública. Mesmo diante de tantas certezas dos benefícios do saneamento básico, ainda caminhamos a passos muito lentos na implantação de políticas públicas no setor. Aprovada em 2007, a Lei do Saneamento passou a ser um importante marco legal para o desenvolvimento de empreendimentos estruturantes. Com ela, o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), instrumento que deveria ser o responsável pela política nacional, só foi efetivado em dezembro 2013, ou seja, quase sete anos depois da Lei 11.445/07. Desde essa data, os recursos destinados para o saneamento deveriam chegar à ordem de 20 bilhões de reais ao ano para alcançar a universalização dos ser viços de abastecimento de água e esgotamento sanitário até 2033. A demanda continuou crescente nos últimos anos, mas os recursos foram minguando e aplicamos menos da metade dos investimentos previstos para o período, estendendo os prazos estabelecidos para após 2055. O aprendizado dessa aventura desastrosa vai cobrar seu preço nas próximas gerações. O setor carece de uma importante gestão de processo, capaz de traçar um panorama do saneamento no território brasileiro e propor soluções e recursos adequados. Falta ainda apoio técnico em conformidade com os municípios, para que esses estudem a viabilidade dos seus sistemas e consigam minimamente um planejamento para a implantação do saneamento básico. Até o momento, aproximadamente apenas 40% das cidades já concluíram seus planos municipais de

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saneamento. A crise financeira atual só veio arrefecer os recursos destinados aos empreendimentos de saneamento básico, sem qualquer sinalização de novos investimentos por parte do governo federal. Diante da situação de penúria do estado brasileiro, as alternativas vão minguando e a busca de recursos privados torna-se uma das poucas alternativas para esses empreendimentos retornarem aos trilhos. As soluções para impulsionar o saneamento passam em primeira ordem pela necessidade de organizar o setor de forma que, tanto a iniciativa privada como empresas públicas possam investir. A direção a ser tomada depende de reforçarmos a importância na melhoria da gestão dos sistemas, eficiência operacional e uma regulamentação forte e isenta de inf luência política. O caminho tem muitos obstáculos, mas as soluções podem ser encontradas tanto pelas empresas públicas – muitas delas com reconhecida expertise desenvolvida nas últimas décadas – como com novos players. As concessões devem ser estruturadas de forma a atender às demandas de pequenos e grandes municípios. Nossa contribuição como proposta para essa questão passa por concessões regionais, capazes de beneficiar lotes de pequenas e grandes cidades, criando soluções viáveis através de subsídios cruzado. Para avançar, as companhias de saneamento precisam ainda fazer uma profunda revisão tarifária. Os preços cobrados dos consumidores estão distantes dos verdadeiros gastos operacionais. Nesta revisão, os gastos operacionais necessariamente devem ser otimizados, pois não se podem transferir para as tarifas os elevados custos existentes nos operadores atuais. A maioria dos sistemas já implantados e em operação demanda uma gestão adequada como forma de alcançar melhoria da eficiência. Nessa questão, é preciso buscar a redução significativa de perdas, principalmente em algumas regiões do país, assim como o adequado abastecimento da população. Na região Norte, por exemplo, o Amapá tem índice de 78,2% de perdas e a média no Nordeste chega a 48,4% . Para termos um parâmetro de quanto ainda podemos evoluir, basta lembrar que esses índices são de 13% nos Estados Unidos e de 7% na Austrália. Por isso, os investimentos em ações estruturantes no setor de saneamento são fundamentais para alcançar os objetivos. Mas a penúria dos entes federativos ref lete diretamente na incapacidade de fazer esses investimentos. Já avançamos importantes passos até o momento, mas temos um caminho de muito trabalho pela frente. O país precisa continuar investindo em infraestrutura no setor de saneamento como única forma de deixar a fila dos países em desenvolvimento para se tornar uma verdadeira nação desenvolvida. Somente com coragem, determinação e, sobretudo, noção de futuro, que romperemos com as amarras que nos deixam no passado para conquistar nosso pleno desenvolvimento econômico e social. * Luiz Pladevall é presidente da Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente (Apecs) e vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes-SP)

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PALAVRA DO LEITOR Exigência de titulação acadêmica para contratação de profissionais de mercado: um enorme equívoco ÁLVARO RODRIGUES DOS SANTOS*

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e alguns anos para cá vem se estabelecendo como conduta comum ao setor público, e crescentemente também ao privado, a exigência de titulação acadêmica (em nível de mestrado ou doutorado) para contratações de profissionais nos mais variados campos das Engenharias e das Ciências da Terra, como a Geologia, a Geografia, a Agronomia. Obviamente, nas Universidades a titulação acadêmica, independentemente de seus méritos qualitativos circunstanciais, constitui a maior e a mais confiável referência para a progressão na carreira, para a assunção de determinadas responsabilidades no mundo do ensino, da pesquisa e da gestão de conhecimentos. Nesse ambiente ela faz total sentido, e é para esse específico sentido que é concebido o conjunto de disciplinas e as normas de qualificação dos mais diversos programas acadêmicos de pós-graduação. Ainda que a Universidade tenha que ter a sabedoria de agregar um mínimo de experiência profissional aos seus docentes responsáveis por disciplinas profissionalizantes, ou até atrair para seus quadros docentes nestas disciplinas profissionais de enorme competência e experiência que não seguiram em suas vidas os caminhos acadêmicos. No entanto, para o exercício profissional propriamente dito, para o enfrentamento dos problemas colocados pelo cotidiano de projetos e frentes de trabalho, ou seja, para os profissionais de mercado, a titulação acadêmica não acrescenta nenhum atributo de qualificação que possa confiavelmente distinguir o grau de competência e eficiência entre diferentes profissionais. Pelo contrário, os mais experientes empregadores empresariais tenderão a se cismar frente a um currículo onde o destaque maior seja a titulação acadêmica alcançada pelo pretendente. Por óbvio que aqui não se está pretendendo valorizar apenas a experiência profissional ou o empirismo técnico (também não suficientes isoladamente para a boa qualificação de um profissional). O treinamento constante e permanente é complemento essencial e indissociável para a boa formação prática. Mas esse treinamento objetivo, deliberadamente concebido para o enriquecimento técnico-científico de profissionais “de campo”, diferentemente dos cursos acadêmicos de pós-graduação, excessivamente longos – exigentes de alta carga horária

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presencial e disciplinarmente dispersivos –, devem atender as marcantes particularidades destes profissionais: escassez de tempo e dificuldade de deslocamentos constantes. Ou seja, terão que ser cursos de especialização, aperfeiçoamento, atualização de curta a média durações, disciplinarmente objetivos, com baixa carga horária presencial. Do ponto de vista financeiro deverão ser cursos preferivelmente gratuitos, uma vez que são realizados via de regra às expensas do próprio profissional. Esse tipo de treinamento deve ser oferecido por instituições públicas ou privadas de ensino e/ou pesquisa, mas com critérios rígidos de credenciamento e controle de qualidade, de tal forma que resultem de fato em sensível melhor qualificação de seus alunos e que os documentos comprovantes de sua frequência possuam a credibilidade necessária para que sejam reconhecidos como diferenciais de qualificação profissional por futuros empregadores. Há algumas experiências já realizadas nessa direção, como, por exemplo, os cursos de mestrado profissionalizantes. Uma tentativa que ficou ao meio do caminho. Não me parecem fazer muito sentido, pois que a titulação acadêmica decididamente não faz parte das expectativas de um profissional de mercado, e esse profissional não tem porque constranger-se por não possuir algum tipo de título acadêmico. Importante adicionalmente observar-se que a demanda por cursos de pós-graduação estabelecida pelas exigências de contratação no setor público e no setor privado tem introduzido um viés comercial no oferecimento massivo desses cursos, o qual, é de se esperar, é acompanhado de um decorrente viés de perda de qualidade e seriedade. Enfim, no que se refere à necessidade de melhor qualificação técnico-científica dos profissionais de mercado, há que se concentrar o foco e valorizar como instrumentos de um treinamento de alta qualificação e significado os cursos não acadêmicos de atualização, especialização e aperfeiçoamento. Esse é o passo que interessa à engenharia brasileira, e pelo qual as associações técnico-científicas que abrigam profissionais de mercado devem dirigir todo seu empenho. * Álvaro Rodrigues dos Santos é geólogo, ex-diretor de Planejamento e Gestão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), autor dos livros Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática, A Grande Barreira da Serra do Mar, Diálogos Geológicos, Cubatão, Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções, Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica, Cidades e Geologia. Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente E-mail: santosalvaro@uol.com.br

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ENGENHARIA I CURTAS DRONE PARA IDENTIFICAR PRAGAS DO CAMPO Com o objetivo de proporcionar mais qualidade e produtividade do plantio a colheita, a Case IH lançou o seu drone na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP). Por meio das tecnologias de mapeamento e processamento de imagens, instalados no drone e em seu aplicativo, será possível analisar áreas extensas e/ou de difícil acesso; monitorar a saúde da vegetação e identificação de pragas e doenças; além de ter rapidez no processo de captação e processamento de imagens e mapas. Todos esses resultados, obtidos pelo software,

geram mais agilidade e assertividade na tomada de decisões. “A CNH Industrial tem uma parceria com a empresa Drone Deploy, que preparou uma versão de software exclusiva para a Case IH, na qual é possível processar imagens de diversas formas”, explica Silvio Campos, diretor de Marketing de Produto da Case IH. O equipamento pode ser usado em todos os tipos de culturas, como na produção de cana-de-açúcar e de grãos, e até na pecuária

ACCIONA

NOVO DIRETOR PARA O BRASIL

DIVULGAÇÃO

A ACCIONA, líder global em promoção, desenvolvimento e gestão de infraestruturas, água, serviços e energia renovável, anuncia a chegada do novo diretor da sucursal brasileira, o executivo André De Angelo, que assumiu o cargo no mês de abril último. De Angelo atuará com o objetivo de promover o desenvolvimento dos serviços da ACCIONA e criar condições para a evolução da

Engº André De Angelo

empresa em novos mercados no país, contando com sua visão estratégica e global para negócios, além de sua experiência em complexas negociações comerciais. O executivo vinha atuando como diretor executivo da Pentech, multinacional espanhola focada em projetos industriais e de energia, sendo responsável pela gestão de negócios no Cone Sul, abrangendo as operações da empresa na Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Peru e Chile. Anteriormente, desenvolveu uma carreira destacada na Andrade Gutierrez, por 17 anos, gerenciando a parte estratégica e comercial da empresa em toda a América do Sul. É formado em Engenharia Civil com MBA de Gestão Empresarial pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O executivo também possui cursos de MBA em Gestão Comercial pela Fundação Getúlio Vargas; Programa Executivo em Finanças e Estratégias de Financiamento pela IAE Business School, e Gerenciamento Estratégico e Gestão Empresarial pela IMD Business School.

POLÍTICA ENERGÉTICA

ENERGIA EÓLICA NO URUGUAI Em março passado o vento venceu a água pela primeira vez. Durante o terceiro mês do ano, a energia eólica tornou-se a primeira fonte de geração de eletricidade no Uruguai, deslocando a hidráulica para o segundo lugar. Os 40,96% da energia em março foram gerados pelo vento, seguido por água com 38,77%, biomassa de resíduos florestais e casca de arroz (9%), térmica (7,65%) e fotovoltaica (4,65%) No fim do ano passado foram instalados mais parques eólicos que permitiram ao país alcançar e se aproximar ainda mais das metas propostas para 2020 em energias renováveis, estabelecidas na Política Energética (2005 a 2030) do Uruguai. Hoje, os uruguaios possuem 43 centrais de geração, capazes de abastecer mais de 35% da população. Em uma década, o Uruguai tornou-se o país com maior proporção de eletricidade gerada a partir da energia eólica na América Latina e quarto no mundo, segundo o relatório “Renovable 2017: Report Global”. Com isso, o país reduziu sua vulnerabilidade às mudanças climáticas e às crescentes secas que afetam as hidrelétricas, bem como reduzir os custos de geração e cumprir os compromissos firmados em fóruns internacionais como Paris e Marrocos.

DIVULGAÇÃO

DIVULGAÇÃO

CASE IH

NEW HOLLAND

NOVO TRATOR A BIOMETANO o compromisso da New Holland com a produção sustentável, independente e tecnificada”, afirma Rafael Miotto, vice-presidente da New Holland Agriculture para a América Latina. O biometano como combustível sustentável é particularmente adequado a fazendas, pois elas têm as matériasprimas e o espaço para abrigar um biodigestor para produzir o gás. “Em 2013 a marca apresentou o primeiro protótipo do trator T6 movido a metano, que vem sendo, desde então, testado com seus clientes. No Brasil, o modelo chegou em 2017 e desde então está em avaliações práticas no campo, como na Chácara Marujo, em Castro, no Paraná”, explica Nilson Righi, gerente de Marketing para Produto.

D IV U L

GAÇÃ

O

O Brasil é o primeiro país da América Latina a receber o novo trator conceito movido a biometano da New Holland Agriculture. O protótipo simboliza a transformação energética nas propriedades rurais do país, com a possibilidade de o produtor buscar sua independência de combustível. O novo trator conceito foi construído usando como base os protótipos anteriores do T6 movido a metano para alcançar um avanço tecnológico relevante. “A presença do novo trator conceito no Brasil é significativo por dois motivos: a importância do agronegócio no país, responsável por sustentar o PIB e tirá-lo de uma recessão; e por carimbar

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DIVULGAÇÃO

I ENGENHARIA ABRATEC

CONTROLE TECNOLÓGICO E DE QUALIDADE DAS CONSTRUÇÕES

DIVULGAÇÃO

VOLVO OCEAN RACE

REGATA BATE RECORDE EM ITAJAÍ (SC) O tiro de largada que soou às 14h00 do dia 22 de abril, um domingo, em frente à barra do Rio Itajaí-Açu, em Itajaí (SC) marcou o começo da oitava etapa da regata de volta ao mundo, a Volvo Ocean Race, rumo aos Estados Unidos e também mais uma vitoriosa parada na cidade catarinense. Foi a terceira vez que a prova aportou em suas águas e a prefeitura do município já manifestou seu interesse em receber a próxima edição da competição. Em dezoito dias, de 5 a 22 de abril, precisamente 439 876 pessoas passaram pela vila da regata em Itajaí gerando um impacto econômico estimado de 82 milhões de reais e superando em mais de 10% a estimativa inicial dos

A Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Construção Civil (Abratec) identifica que o Brasil ainda está muito distante dos padrões de países desenvolvidos, quer mudar essa realidade e vai intensificar a agenda de trabalho para conscientizar as empresas do setor que é mais barato, em termos de custos e de imagem, investir na Engª Paula Baillot qualidade dos processos e materiais construtivos do que refazer obras mal realizadas. Segundo a engenheira Paula Baillot, que acaba de assumir a presidência da entidade, o Brasil ainda não possui uma estrutura adequada de controle da qualidade das obras realizado com excelência, sejam elas da construção civil – o que inclui moradias e edificações empresariais –, ou de infraestrutura, que abrange desde a simples pavimentação de ruas até grandes complexos construtivos, a exemplo de túneis e hidrelétricas. “As normas que regulamentam qualquer empreendimento construtivo são bastante relegadas a segundo plano na maior parte do país, o que pode representar riscos e gastos desnecessários com o refazimento das obras”, diz Baillot, que é engenheira civil, pós-graduada em Gestão Ambiental.

organizadores locais que já previa um aumento de mais de 40 000 expectadores em relação à edição anterior. A cidade bateu o recorde de visitação desta edição da regata e superou a marca de visitas em dias de semana de todos os tempos. “Foi um grande desafio. As outras edições já tinham sido muito bem avaliadas pela organização internacional e, com isso, tínhamos que atender a estas expectativas. E conseguimos superá-las. Para a cidade é um tremendo sucesso em termos econômicos e de visibilidade. E queremos receber novamente a Volvo Ocean Race na próxima edição”, disse o presidente do Itajaí Stopover e secretário de turismo da cidade, Evandro Neiva.

VOLVO TRUCKS

AUTOMAÇÃO E CONECTIVIDADE, O FUTURO DOS TRANSPORTES tecnologias do presente e do futuro em caminhões e equipamentos de construção. “Os efeitos climáticos, o crescimento da população mundial e a demanda por mais segurança são fatores determinantes para todo o desenvolvimento DIVULGAÇÃO

Durante a parada no Brasil da Volvo Ocean Race, regata de volta ao mundo patrocinada pela marca – que aconteceu em Itajaí (SC) –, a Volvo promoveu encontro com especialistas em inovação para debater as tendências que já determinam as

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tecnológico da indústria automotiva, especialmente em veículos comerciais”, afirmou Lars Terling, vice-presidente global da Volvo Trucks, um dos painelistas do Seminário “Tendências Futuras e Inovação”, promovido no local. Além do executivo sueco, participaram do debate Alan Holzmann, diretor de planejamento estratégico de caminhões da Volvo Trucks na América Latina e Massami Murakami, diretor de engenharia e suporte a vendas da Volvo CE Latin América. Veículos autônomos vêm sendo desenvolvidos em todos os segmentos da indústria automotiva, como protótipos ou até em pequena escala comercial, no caso de automóveis. Lars Terling entende que no segmento de caminhões o cenário é outro. “Acreditamos que veículos autônomos serão gradativamente introduzidos em aplicações muito específicas, em áreas confinadas, sem trânsito regular. São operações de transporte muito repetitivas, em que a produtividade dos motoristas é constantemente desafiada por uma rotina extenuante. Nesses casos, caminhões autônomos ajudam muito a manter a condução uniforme por muito mais tempo, com menos cansaço, aumentando inclusive a segurança”, assegura.

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DIVISÕES TÉCNICAS Mauá. Formando profissionais

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MENTES INOVADORAS SE ENCONTRAM AQUI. engenharia 637 / 2018

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Instituto Mauá de Tecnologia inaugura o primeiro Fab Lab do Grande ABC Espaço será altamente tecnológico e inovador, proporcionando uma sinergia entre diferentes áreas O Instituto Mauá de Tecnologia vem investindo constantemente no aprimoramento e na modernização da infraestrutura de seu Campus de São Caetano do Sul para continuar proporcionando um ecossistema de inovação a serviço da formação de profissionais que são referências no mercado de trabalho. O intuito da ação é levar para o dia a dia de seus alunos e comunidade o contato direto com o que existe de mais atual no mercado. Por isso, entre as novas instalações para 2018, está um ambiente altamente moderno e pioneiro na região do Grande ABC, o laboratório Fab Lab Mauá. O espaço é inspirado na cultura maker, que ajuda as pessoas a pensarem “fora da caixa” e a atuarem com a “mão na massa” na solução de problemas. Desde 2013, o Instituto Mauá de Tecnologia está investindo nesse “conceito” que ganha cada vez mais destaque no mundo e, por isso, criou um ambiente que integra recursos das áreas de Engenharia, Administração e Design e é propício para a

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experiência prática e inovação, com uma série de equipamentos de última geração. “A ideia é que esse espaço seja um laboratório de experimentação e inovação, onde os alunos possam exercer sua criatividade e desenvolver suas ideias para realizar projetos reais e factíveis. Com o apoio de profissionais e monitores, para difundir o alcance do Fab Lab, teremos já em 2018 projetos envolvendo a comunidade em diversos públicos e segmentos, tornando acessível essa tecnologia e disseminando o movimento maker”, comenta a coordenadora de Design do Instituto Mauá de Tecnologia, professora Claudia Facca. Dinâmica do Espaço Envolvidos num novo ambiente de laboratório, num total de mais de 900 m2, laboratórios anexos de Computação Avançada, Criação Digital, Modelagem em Clay e diversos materiais - metais, polímeros e compósitos - formam a base para o desenvolvimento de todo o ciclo de criação, gerando suporte efetivo para

uma área integrada, em que os alunos de Engenharia, Design e Administração e dos programas de pós-graduação do Instituto Mauá de Tecnologia poderão, de forma colaborativa, trabalhar com modernas impressoras 3D, cortadora a laser, CNCs de grandes dimensões, entre outros equipamentos, que permitirão a fabricação de objetos que podem fazer parte de sistemas e dispositivos maiores ou até mesmo de um protótipo de veículo. O laboratório incentivará os alunos a serem criativos e inovadores na execução dos experimentos.“Com o surgimento dos Fab Labs, iniciou-se um movimento de aumento do acesso aos meios de fabricação, aspecto essencial para a proliferação da cultura maker. Pensando nisso, projetamos um espaço altamente tecnológico que fará a sinergia das áreas existentes e que estimulará os alunos a incorporarem a filosofia do ambiente para o melhor crescimento profissional”, diz o engenheiro responsável pelo Fab Lab Mauá, Rodrigo Nicola.

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Organograma

DIVISÕES TÉCNICAS TÉCNICAS presidente: EDUARDO FERREIRA LAFRAIA vice-presidente de atividades técnicas: JERÔNIMO CABRAL P. FAGUNDES NETO diretor programação: RICARDO HENRIQUE DE A. IMAMURA departamento de engenharia de energia e telecomunicações diretor: Aléssio Bento Borelli

divisão de geração e transmissão coordenador: Manoel Ribeiro de O. Neto

divisão de distribuição de energia coordenador: Carlos Costa

divisão de telecomunicações coordenadora: Flavia Bartkevicius Cruz Secretário: Ogelson Dias da Fonseca divisão de instalações elétricas coordenador: Paulo Eduardo de Q. M. Barreto secretário: Oswaldo Boccia Junior divisão de controle e automação coordenador: Jorge Antônio Mariano Duarte

departamento engenharia de atividades industriais e de serviços

departamento de engenharia do habitat e infraestrutura diretor: Roberto Kochen vice-diretor: Habib Georges Jarrouge Neto divisão de estruturas Coordenador: Natan Jacobsohn Levental Vice-coordenador: Lúcio Martins Laginha Secretário: Rafael Timerman divisão de eng. sanitária e recursos hídricos e biotecnologia Coordenador: José Manoel de Oliveira Reis Vice-coordenador: Gisele Pessi Legramanti divisão de geotecnia e mecânica dos solos e fundações coordenador: Francisco José Pereira de Oliveira

divisão de segurança no trabalho coordenador: Jefferson Deodoro Teixeira da Costa vice-coordenador: Theophilo Darcio Guimarães divisão de construção sustentável e meio ambiente coordenador: José Manoel de Oliveira Reis vice-coordenador: Amir Hernandez Musleh secretário: Henrique Dias de Faria divisão de acústica coordenador: Schaia Akkerman vice-coordenadora: Maria Luiza Rocha Belderrain secretário: Ricardo Santos Siqueira

divisão de manutenção

departamento de engenharia química diretor: Miguel Tadeu Campos Morata vice-diretor: Maurílio Luiz Vieira Bergamini

divisão de equipamentos para transporte de carga e urbano de passageiros

departamento de engenharia de mobilidade e logística diretor: Ivan Metran Whately vice-diretor: Neuton Sigueki Karasawa

divisão de materiais

divisão de transportes metropolitanos coordenador: Fernando José de Campos Marsiglia

divisão de equipamentos para o agronegócio

divisão de equipamentos automotores

departamento de engenharia de produção diretor: Antonio Guilherme Menezes Braga vice-diretora: Debora Sanches de A. Marinello secretária: Flavia Maluza Braga divisão téc. de gerenciamento de empreendimentos coordenador: Sergio L. A. Rezende

divisão técnica de avaliações e perícias coordenador: José Fiker vice-coordenador: José Marques secretário: Alfredo Vieira da Cunha divisão da qualidade e produtividade

divisão de planejamento e engenharia econômica

divisão de patologias das construções coordenador: Tito Lívio Ferreira Gomide vice-coordenadora: Stella Marys Della Flora secretário: Odair dos Santos Vinagreiro

divisão de transporte ativo coordenador: Reginaldo Assis de Paiva vice-coordenador: José Ignácio Sequeira de Almeida divisão de trânsito coordenador: Maria da Penha Pereira Nobre vice-coordenador: Vanderlei Coffani divisão de logística coordenador: José Wagner Leite Ferreira

departamento de engenharia de agrimensura e geomática diretor: Miguel Prieto vice-diretor: Aristeu Zensaburo Nakamura secretário: Osiris Monteiro Blanco divisão de cadastro urbano e rural coordenadora: Fátima Tostes

divisão de sistemas de informação geográfica coordenador: Aristeu Zensaburo Nakamura

departamento de tecnologia e ciências exatas

divisão de engenharia de sistemas e inovação

divisão de informática

departamento de engenharia de agronegócios

divisão de engenharia de incêndio coordenador: Carlos Cotta Rodrigues vice-coordenador: José Félix Drigo secretária: Ana Paula de Camargo Kinoshita

diretoria de cursos diretor: Marco Antonio Gulllo vice-diretora: Ursula Martins Matheus

departamento de arquitetura

diretoria da revista engenharia diretor: Rui Arruda Camargo secretário: Aléssio Bento Borelli editor da revista: Ricardo Pereira de Mello

divisão de preser. do patrimônio histórico e cultural da engenharia coordenador: Marcos Moliterno vice-coordenador: Fernando Bertoldi Corrêa secretária: Miriana Marques

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LICITAÇÃO PARA EXPLORAÇÃO DO PORTO DE POSADAS, NA PROVÍNCIA ARGENTINA DE MISIONES governo da província argentina de Misiones em forma conjunta com a Administração Portuária de Posadas e Santa Ana (APPSA) estão convidando os potenciais interessados a participar do procedimento de licitação pública através da qual será adjudicada a concessão integral para o equipamento, adequação, manutenção, ampliação, desenvolvimento e operatividade, a título oneroso, do Porto Multipropósito da Cidade de Posadas e para a habilitação de armazém alfandegado. O concessionário deverá, arcando com todos os custos, realizar as obras e fornecer os equipamentos que sejam detalhados no edital, nos prazos e condições nele estabelecidas. O concessionário do Porto de Posadas será o titular e responsável exclusivo, durante o período de concessão, da totalidade dos serviços que forem prestados no porto, incluindo: a) recebimento, expedição, manuseio, estiva, desestivagem e armazenagem de cargas; b) amarração e desamarração; c) utilização do cais; d) consolidação e desconsolidação; e) todo outro serviço que leve à maior eficiência e operatividade no porto.

Está incluída também na licitação, para que sejam realizados despachos diretos desde Posadas, com caráter obrigatório, a construção e habilitação de um armazém alfandegado no prédio do Porto de Posadas que será parte integrante da concessão. O adjudicatário receberá dos usuários as tarifas pelos serviços públicos que sejam prestados no porto. Sobre as tarifas aprovadas somente poderá adicionar a taxa ao valor agregado correspondente. Outros impostos, taxas, serviços ou despesas de qualquer natureza deverão estar incluídos na tarifa estabelecida. Os interessados que apresentarem ofertas na presente licitação terão ampla liberdade para propor o seu layout para instalação da infraestrutura, os serviços, as tarifas, e para definir o equipamento e outras instalações que resultarem necessárias de acordo com o esquema operativo que propuserem para a exploração do porto. Poderão apresentar ofertas as pessoas físicas e as pessoas jurídicas regularmente constituídas, como também as Uniões Transitórias de Empresas e Consórcios de Cooperação Empresarial.

INVESTIMENTO O investimento inicial que deverá realizar o adjudicatário da concessão estará dado pelas obras, equipamentos e recursos destinados a pôr em funcionamento e operação do porto de Posadas durante os quinze primeiros meses de atividades. A quantia é estimada em um valor desde 3 milhões de dólares até 15 milhões de dólares ou mais, dependendo do valor dos bens e serviços a oferecer, as suas características, tecnologias, velocidade, manuseio, rendimento, segurança das obras, equipamentos oferecidos para o início das operações e das projeções que sejam previstas. O oferente deverá demonstrar a capacidade econômica para arcar com o investimento necessário. A concessão será outorgada por um prazo de 20 anos, podendo ser acordada uma renovação de até mais 20 anos. Na decisão serão julgados os volumes de carga que conseguiram ser operados, a qualidade dos serviços prestados e o impacto da operação do porto na competitividade da indústria e da economia da província argentina de Misiones.

CAMPANHA DA ABCON E SINDCON MOBILIZA OPINIÃO PÚBLICA NO FÓRUM MUNDIAL DA ÁGUA Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Ser viços Públicos de Água e Esgoto (Abcon) e o Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Água e Esgoto (Sindcon) lançaram a Campanha #SomosMaisSaneamento que antecedeu o 8º Fórum Mundial da Água e tem encerramento um mês após o final do evento. Trata-se de uma iniciativa brasileira de organizações que atuam em prol do saneamento com o objetivo de fortalecer o debate sobre este setor no 8º www.brasilengenharia.com WWW.BRASILENGENHARIA.COM

Fórum Mundial da Água. A campanha cria uma rede de compartilhamento de informações e conteúdos entre as organizações apoiadoras e seus públicos. Centrada em oito mensagens, a ação colabora para criar uma voz mais sólida e unificada capaz de fortalecer o debate sobre as principais questões relativas ao saneamento no Brasil durante o evento. -Reconhecidos como direito humano desde 2010 pela ONU, a água potável segura e o esgotamento sanitário adequado são fundamentais para a redução da pobreza, das desigualdades e para a realização de todos os Objeti-

vos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs). Porém, não se pode esquecer que, além de cobrar para que este direito seja uma realidade, todos têm o dever de preser var os recursos hídricos e valorizar os ser viços de água e esgoto. -Em 2013 o Plano Nacional de Saneamento (Plansab), coordenado pelo Ministério das Cidades, estabeleceu o compromisso de alcançar em 2033 a universalização dos ser viços de abastecimento de água e esgotamento sanitário no Brasil. Reforçando este compromisso, em 2015 a ONU estabeleceu, por meio do ODS6, a meta munengenharia 637 637 // 2018 2018 ENGENHARIA

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DIVISÕES TÉCNICAS TÉCNICAS dial de acesso universal à água segura e esgotamento sanitário adequado até 2030. Desta forma, todos precisam somar esforços para o alcance desses objetivos comuns, sem qualquer dilatação de prazos. -Mais de dez anos após a Lei do Saneamento Básico entrar em vigor no Brasil, em 2007, metade da população do país continua sem acesso a sistemas de esgotamento sanitário. O acesso da população à coleta de esgoto passou de 42% para 52% e o de abastecimento de água passou de 81% para 83% . Esta lenta evolução suscita um diálogo transparente sobre os modelos atuais de prestação de ser viços, a fim de identificar barreiras e construir novas oportunidades que garantam a aceleração do acesso aos ser viços e alcance das metas de universalização. -O setor público vem demonstrando dificuldades para investir os recursos necessários demandados pelo setor saneamento. Desta forma, o setor privado se coloca como parceiro fundamental e estratégico, somando forças para garantir mais investimento, contribuir

com seus atributos de eficiência, capacidade de gestão a fim de alcançar as metas de universalização até 2033. -Qualquer ser viço, independente de ser público ou privado, pressupõe a recuperação sustentável dos custos e investimentos, de forma que os prestadores possam garantir suas metas, sua eficiência e a disponibilidade dos ser viços para as gerações atual e futura. Além disso, o ser viço deve ser acessível a todos e garantido pelo Estado. Neste sentido, precisamos tratar o saneamento de forma mais técnica e pragmática e isento de inf luências políticas e ideológicas. O fortalecimento de um ambiente regulatório que atue de forma isonômica sobre contratos público-privados e público-públicos é fundamental para garantir a transparência, o respeito e a eficiência necessária. -O saneamento precisa ser prioridade nas agendas políticas e para isso o engajamento da sociedade é fundamental. Além de cobrar pelo acesso aos ser viços, a sociedade deve participar dos processos de formulação de po-

líticas, do planejamento, do monitoramento e avaliação. Para tanto, empresas e governos devem promover a transparência, a comunicação adequada e o respeito ao saber local. -A integração entre os setores de recursos hídricos e saneamento deve estar presente no planejamento, monitoramento e em ações conjuntas a fim de garantir quantidade e qualidade dos recursos necessários para o abastecimento, promovendo a sustentabilidade e a capacidade de resiliência dos territórios. -O investimento em formação e capacitação técnica e de gestão em saneamento é fundamental para o fortalecimento operacional e melhoria da execução da política pública do setor. Além da qualificação da mão de obra existente, fundamental para garantir a eficiência dos sistemas e investimentos atuais, a formação de novos profissionais garantirá mão de obra qualificada para ocupar mais de 1 milhão de novos empregos gerados pela universalização e distribuídos em todas as regiões do país.

o último dia 27 de março foram eleitos 15 membros para renovação do Conselho Deliberativo. Esse Conselho é formado por 30 conselheiros escolhidos diretamente pelos associados, pelo presidente do Instituto de Engenharia, que também é presidente desse Conselho, e pelos quatro vice-presidentes, que não têm direito a voto. Os novos membros, em conjunto com os veteranos, definirão as ações a serem tomadas pela Diretoria Executiva do Instituto de Engenharia. São eles, eleitos na seguinte ordem: Renato Mattos Zuccolo, Adolfo Bolivar Savelli, Roberto Kochen, Edson José Machado, Cláudio Amaury Dall’Acqua, José Eduardo Frasca Poyares Jardim, José Roberto Cardoso, Flavia Bertkevicius

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DIVULGAÇÃO INSTITUTO DE ENGENHARIA

FORAM ELEITOS 15 MEMBROS PARA RENOVAÇÃO DO CONSELHO DELIBERATIVO DO INSTITUTO DE ENGENHARIA

Jorge Pinheiro Jobim, conselheiro eleito, durante posse no Instituto de Engenharia, sendo cumprimentado pelo presidente Eduardo Ferreira Lafraia

Cruz, Luiz Fernando Portella, Jorge Pinheiro Jobim, Kleber Rezende Castilho, Pedro Márcio Gomes dos Santos, Carlos Cotta Rodrigues, Carlos Pereira de Ma-

galhães Neto, e Ricardo Alberto Carneiro La Terza. Suplentes: Fenelon Arruda, e Jaime Rancman Weber. WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com


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ENGENHARIA I ENTRE VISTA

Santiago Crespo Presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon) O engenheiro Santiago Crespo, presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), observa que, na origem, o saneamento básico sempre foi explorado pelas empresas ligadas ao Estado. Mas ele comenta que, há não muito tempo, as empresas privadas do setor enxergaram uma oportunidade de negócios e teve início, então, uma série de atividades privadas (concessões e outros modelos de negócios em vários formatos). Ele está otimista quanto ao sucesso de estabelecimento de contratos em futuro próximo – logo depois da superação das dificuldades econômicas pelas quais o país passa –, embora recomende que na questão do saneamento é muito importante conhecer bem como funcionam as concessões ao setor privado. “Eu tive uma experiência sobre esses negócios na Argentina, e agora também no Brasil”, diz, explicando que na Argentina, antes da crise local de 2001, a privatização do saneamento em províncias como Buenos Aires, Tucumán e Córdoba, entre outras, ficou praticamente a cargo de empresas estrangeiras. Crespo acrescenta que depois da deflagração da crise mundial de 2008, houve um processo muito ruim na parte específica de saneamento por parte dos argentinos. “Isso porque, na época do presidente Néstor Kirchner, não mais se permitiu reajuste na tarifa do saneamento”, recorda, citando que com a tarifa congelada – e ainda por cima havendo inflação – é impossível manter qualquer tipo de contrato. Então as empresas privadas acabaram devolvendo o sistema para o Estado na Argentina. “Mas se naquela época os contratos tivessem sido respeitados, o saneamento estaria em boa situação até hoje”, afirma.

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O

presidente da Abcon, Santiago Crespo, de 58 anos, argentino nascido na cidade de Córdoba (segundo município mais populoso do país vizinho e capital da província de mesmo nome), é engenheiro civil formado pela Universidade de Córdoba e máster de administração pela mesma universidade. Ele entende que num país como o Brasil, em que metade da população continua sem acesso a sistemas de esgotamento sanitário e apenas 42,67% do esgoto gerado é tratado, contar com a iniciativa privada como parceira para solucionar boa parte desse deficit seria um alívio para a população – e também para os cofres públicos, cada vez mais sem fôlego para realizar os investimentos necessários à infraestrutura brasileira. Na sua visão, a escassez de vontade política, a confusão entre os conceitos de concessão e privatização, a indefinição sobre a titularidade dos serviços, a complexidade do acesso a linhas de financiamento, o desconhecimento sobre a capacidade técnica e de gestão da iniciativa privada, a resistência das corporações, entre outros fatores, inibiram na última década o potencial de crescimento da iniciativa privada nos serviços públicos de saneamento básico. Atualmente – entende ele –, frente à escassez de recursos públicos e do enorme deficit do país em cobertura de água e esgoto, a iniciativa privada surge como alternativa para a expansão desses serviços. A seu ver, a dicotomia entre público e privado tem sido uma histórica adversária da evolução do saneamento no Brasil. A solução seria, portanto, a complementaridade dos serviços, uma vez que a iniciativa privada não pressupõe a ausência de atuação do poder público. As iniciativas se somam. Não se trata de privilegiar um tipo de prestador em detrimento de outro, mas sim propiciar as condições para existência de alternativas

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de cooperação. Que ambas possam ser consideradas e avaliadas no planejamento para execução das políticas públicas, bem como a eventual participação conjunta dos investimentos, tão necessária à solução urgente do problema sanitário do país. Ele acha que há mitos que ainda persistem. Por exemplo, a parceria público-privada no saneamento enfrenta há anos a propagação de ideias escoradas em preconceitos ideológicos que somente fizeram crescer o imobilismo do setor. Apesar do avanço na conscientização da opinião pública sobre o assunto, seria importante esclarecer alguns pontos que ainda provocam polêmica, como a questão tarifária. Tarifas justas, estabelecidas em bases técnicas são essenciais para a garantia da qualidade e sustentabilidade dos serviços, e concomitante manutenção dos investimentos. Crespo lembra ainda que os contratos de concessão à iniciativa privada também preveem a cobrança de tarifa social, a fim de atender à faixa da população menos favorecida do ponto de vista econômico. E pontua que as tarifas praticadas pelas concessões privadas são equivalentes às tarifas cobradas pelos operadores públicos. Em entrevista exclusiva à REVISTA ENGENHARIA, o presidente da Abcon destacou, entre muitos outros assuntos, que na primeira fase de sua carreira profissional, com 24 anos de idade, ele trabalhou numa empresa provincial de saneamento em Córdoba, na Argentina. Depois ele passou para a iniciativa privada e logo foi transferido para a capital Buenos Aires. Em seguida veio para o Brasil, no ano de 2001. O grupo para o qual ele trabalhava vendeu os negócios que mantinha aqui no país, mas ele resolveu ficar no Brasil. Atuou durante três anos numa empresa de saneamento internacional e depois entrou para a Aegea, grupo no qual trabalha até hoje. Nas páginas seguintes, a íntegra da entrevista.

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montagem com fotos de: Leonardo moreira e Shutterstock

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FOTOs: Leonardo moreira

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REVISTA ENGENHARIA – Qual o nômico que consistiu na equivalênpapel reservado para a engenharia cia do peso argentino com o dóbrasileira no trabalho de reverter as lar estadunidense por lei. Foi nessa insuficiências que afetam nossa inetapa que cheguei ao Brasil. Fui confraestrutura? Está otimista? tratado por uma empresa argentina SANTIAGO CRESPO – Sim, estou para trabalhar na área de infraestruotimista e quanto à engenharia entura. Na Argentina, estávamos saintendo que estamos numa fase trando de um processo de privatizações sitória. Mas, permita-me fazer um e concessões e tínhamos experiência preâmbulo. Sempre acompanhei a na matéria. E o Brasil estava comesituação brasileira, de onde eu moçando a pensar nessa linha. O grurava, em Córdoba, na Argentina, e po ao qual eu pertencia achava que lembro-me que o Brasil, de uma forhavia uma oportunidade de começar ma ou outra, sempre crescia. Quando a desenvolver negócios na área de houve uma inf lação brutal na Argeninfraestrutura. A gente, quando entina, vim para o Brasil e isso coincitrou aqui, participou de concessões diu com a crise do impeachment do de rodovias. A Argentina teve uma presidente Fernancrise no ano de 2001, do Collor. Então eu com uma depreciação “A grande vivi a transição para muito grande da moo Plano Real, com a eda. Tivemos lá cinco diferença entre Ufir, que era a sigla presidentes numa seo Brasil e a de Unidade Fiscal de mana. Deu-se a crise Referência, um ingeral e no final do proArgentina nos dexador usado como cesso assumiu o presiparâmetro de atuaanos 1990 é que só dente peronista Néstor lização do saldo deKirchner, que deu uma vedor dos tributos e o Brasil deixou que tranquilizada e comede valores relativos a çou depois a tomar meo dólar flutuasse” multas e penalidades didas econômicas, com de qualquer naturetodas as consequências za. Ela passou a vigorar no começo conhecidas. Mas isso é história e ela dos anos 1990, época em que a inf lafala por si só. No Brasil sou otimista ção era muito elevada também aqui na área de infraestrutura. É possível no Brasil, e o indexador corrigiria as ver um movimento ascendente. Se parcelas a serem pagas. A Argentivocê pega a evolução das privatizana naquela época também implantou ções no país nas diferentes áreas de um sistema radical, o famoso “um infraestrutura, tudo começou com as a um”, ou seja, um dólar, um peso. telecomunicações, que foi privatizaNós argentinos fomos dolarizados. O da no governo de Fernando HenriBrasil naquela época fez muita coisa que Cardoso, depois teve a energia parecida. A grande diferença entre o e em seguida as rodovias. Agora está Brasil e a Argentina é que o Brasil começando a haver uma evolução deixou f lutuar o dólar. Era o tempo favorável, que estamos desenvolvendo presidente Carlos Menem e o seu do na área de saneamento. ministro da Economia era Domingo Cavallo, muito lembrado pela citada REVISTA ENGENHARIA – Parece Lei de Conversibilidade, plano ecoque o setor de saneamento nunca foi

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muito valorizado. Isso está mudando, então? CRESPO – O saneamento é um assunto que não estava sendo falado, sempre foi explorado pelas empresas estaduais, na origem. E o setor privado enxergou uma oportunidade de negócios tempos atrás e começaram a ser desenvolvidas algumas atividades em relação ao saneamento. Em geral sou otimista. Como eu tive essa experiência na Argentina e agora estou tendo no Brasil é importante pontuar que questão do saneamento é fundamental conhecer como funcionam as concessões. Na Argentina, antes da crise de 2001, a privatização do saneamento foi toda ela praticamente feita por empresas estrangeiras. Cito as províncias de Buenos Aires, Tucumán, Córdoba, entre outras. Quando eclodiu a crise mundial de 2008, houve, na Argentina um processo muito ruim na parte específica de saneamento. Isso porque, na época de Kirchner ele não deu mais aumento na tarifa do saneamento, ele congelou a tarifa. Com uma política dessas é impossível manter qualquer tipo de contrato. Então as empresas acabaram devolvendo o sistema para o Estado. Mas, se naquela época, tivesse sido cumprido o que determinavam os contratos, o setor estaria funcionando bem entre os argentinos. REVISTA ENGENHARIA – Fale um pouco sobre sua pessoa. Onde e quando o senhor nasceu, como é sua família de origem? Como é a família que o senhor constituiu depois de adulto? Quais as influências que o levaram a escolher o curso de engenharia? CRESPO – Nasci em Córdoba, na Argentina e estou com 58 anos. Minha vocação despontou no seio da família: meu pai era engenheiro. Ele tinha www.brasilengenharia.com


I ENGENHARIA uma construtora, que depois, numa das crises argentinas, teve que ser fechada. Aí comecei a desenvolver minha vida por caminhos próprios. Sempre tive vontade de ser engenheiro. Afinal, meu pai me levava para acompanhá-lo nas obras desde pequeno. Comecei estudar e um ano antes de me formar, meu pai teve que fechar a empresa e aí passei a examinar com mais cuidado as possibilidades à minha volta. Eu tenho uma especialização: máster de administração pela própria Universidade de Córdoba. Quanto à família de origem, só tenho uma irmã. Constituí família e tenho mulher e três filhos. Nenhum deles quer ser engenheiro. Não vou forçar eles a nada. Cada um faz o que quiser. Tenho uma menina que faz relações internacionais, um que faz economia e outro que estuda administração. Eles têm mais é que procurar a felicidade na vida deles. REVISTA ENGENHARIA – Pode falar um pouco sobre sua carreira profissional? CRESPO – Bom, como já comentei, trabalhei numa empresa provincial de saneamento na primeira época de minha carreira, com 24 anos. Depois passei para a iniciativa privada. Comecei em Córdoba e logo fui transferido para Buenos Aires, e em seguida me mandaram para o Brasil, no ano 2001. Pouco tempo depois, o grupo ao qual estava ligado vendeu os negócios que tinham aqui, mas eu resolvi ficar, ou seja, continuar no Brasil. Trabalhei depois, durante três anos, numa empresa de saneamento internacional que atuava no Brasil. Depois entrei neste grupo Aegea, onde estou até hoje. A Aegea tinha uma pequena participação numa empresa de rodovias aqui em São Paulo. Depois, do final de 2005 até 2006, ela se tornou concessionária de saneamento em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, chamada Águas de Barcelona. Depois veio a concessionária Prolagos no Rio, a Águas de Portugal. Aconteceu então que as empresas internacionais que aqui atuavam resolveram voltar para seus países de origem. A partir daí, o grupo tomou como uma base essas duas concessões e montou uma estrutura jurídica para trazer alguns investidowww.brasilengenharia.com

res. Em 2012 a Aegea se aproximou os serviços ficam a cargo da administração municipal, e em apenas 7% do Fundo Soberano de Cingapura e temos as concessões privadas. Dessa também do Banco Mundial. Hoje temos a Águas Guariroba, concessionáforma, o potencial de crescimento é ria responsável pelos serviços de água grande. Mas está interligado também e esgoto de Campo Grande. A Prolacom a participação das companhias gos, por sua vez, é a concessionária estaduais e municipais. O importante é procurar uma solução pela qual responsável pelos serviços de água e se consiga levar a melhoria no saneesgoto em Cabo Frio, Búzios, São Pedro da Aldeia, Iguaba Grande e pelo amento para a população como um de água em Arraial do todo. Ninguém está Cabo. Também no Esquerendo pegar negó“As empresas tado do Rio de Janeiro, cios das companhias temos a concessionária estaduais ou das muestaduais estão nicipais. A gente está Águas de Meriti, que começando querendo consolidar é responsável pelos e fazer uma parceria serviços de esgoto e a enxergar o com elas. Porque tegestão comercial do mos uma capacidamunicípio f luminense parceiro privado de finita de recursos. de mesmo nome. No O que o país precisa Estado de São Paulo, como uma para melhorar o satemos a Águas do Mirante, uma empresa neamento é de muito alternativa de que nasceu através de dinheiro. Que nem as solução” uma PPP para a conestaduais ou as comcessão do serviço de panhias privadas têm, esgotamento sanitário de Piracicaba. juntas. Mesmo somando tudo a gente E também Águas de Matão, concesnão consegue atender a demanda que sionária responsável pelos serviços o país precisa. Mas entendemos que de água e esgoto daquela cidade do estamos diante de uma grande oportunidade de procurar parcerias, teninterior paulista. Ao lado dessas temos a Nascentes do Xingu, holding do em conta, principalmente, que as de saneamento responsável por conempresas estaduais estão começando cessões nos estados de Mato Grosso, a enxergar o parceiro privado como Pará e Rondônia. De seu lado, a Águas alternativa de solução ou de ampliação dos serviços por eles prestados, de São Francisco é a concessionária sem perder a titularidade do negócio. responsável pelos serviços de água e esgoto em Barcarena, no Pará. Em REVISTA ENGENHARIA – Qual a Santa Catarina tem a Águas de São sua expectativa para o futuro? Francisco do Sul, concessionária responsável pelos serviços de água e CRESPO – Para o futuro estamos com esgoto daquele município catarinenbons prognósticos. Tem um plano que se. No Maranhão, temos a Águas de está sendo desenvolvido pelo Banco Timon, concessionária responsável Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, através de pelos serviços de água e esgoto em contratações de consórcios para ofeTimon. E no Piauí temos a Águas de recer soluções no sentido de que emTeresina. Ao todo, a Aegea está presente hoje em 50 municípios do país. presas estaduais possam montar concessões, totais ou parciais, assim como subconcessões. Isso de alguma forma REVISTA ENGENHARIA – O senhor está andando. De 26 companhias estatem a percepção de que o Brasil constitui mercados com grande potencial duais existem oito ou nove que assinaram, ainda que três já tenham desisde oportunidades nas concessões tido. E estamos aguardando a posição privadas de saneamento básico? das demais para ver se haverá bom anCRESPO – Para falar de alguns números, temos que dividir as atividadamento ou não. Evidentemente que é des do setor país afora. Em 70% dos um processo demorado. Mas a decisão 5 570 municípios brasileiros são as está com o próprio governo, que tem empresas estaduais as que cuidam do ligação direta com as estaduais. Então setor de saneamento. Em 23% deles, vamos aguardar. engenharia 637 / 2018

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FOTOs: Leonardo moreira

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REVISTA ENGENHARIA – Noticiou-se há pouco mais de um ano que alguns municípios publicaram edital de chamamento para apresentação de Proposta de Manifestação de Interesse (PMI), com a finalidade da realização de estudos técnicos, jurídico-legais e econômico-financeiros visando buscar alternativas para a universalização dos serviços de saneamento. Por outro lado, outros municípios já haviam publicado – pela mesma época – o edital de licitação para concessão dos serviços de água e esgoto, como por exemplo, Marília (SP), Mogi Mirim (SP), Artur Nogueira (SP), Bombinhas (SC), Conchal (SP), Navegantes (SC), São Mateus (ES) e Ubá (MG). Quantos destes processos foram concluídos? Qual a expectativa da assinatura de contratos ainda em 2018? CRESPO – Apenas como referência: em 2017 não saiu nenhuma proposta na maioria dessas cidades. Em Bombinhas saiu e a Aegea ganhou. A maioria das PMIs foi publicada na gestão do prefeito anterior. Ocorre que boa parte deles não foi reeleita nessas cidades, ou seja, a nova administração eleita pela coletividade tomou a decisão de cancelar. Ou então dar um tempo para ficar mais bem informada sobre a necessidade ou não de fazer uma concessão, seja parcial ou total. REVISTA ENGENHARIA – Sabe-se que o potencial e a disposição da iniciativa privada em investir no saneamento são grandes. Em faturamento, a participação privada até pouco tempo atrás girava em torno de 6,5%. Mesmo assim, os investimentos privados já correspondiam a algo como 15% do total investido/ ano no país. A Abcon acha que há condições de dobrar estes números nos próximos dez anos?

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CRESPO – Os números que você citou estão mais ou menos corretos. Mas são 20% em investimento, não 15% . Nos últimos três anos as empresas privadas investiram 20% , apesar de só ter 6,5% de participação. Do ponto de vista de negócios, de crescimento, as companhias particulares estão em condições de ampliar o tamanho da participação. Mas isso não depende de nós, depende dos processos que venham a ser lançados no futuro. A gente está saindo de todo um processo complexo. O que acontece no histórico do país? A cada dois anos há a realização de uma eleição. Então nós estamos amarrados aos governantes que estão administrando hoje, na atualidade. Em 2016 houve um processo de eleição municipal. É evidente que no final de 2017 ou começo de 2018 deveria haver – num plano ideal – vários projetos em andamento. Estamos enfrentando uma crise política já faz dois anos e isso está atrapalhando. A Abcon enxerga que as oportunidades surgirão para nós depois das eleições gerais que vamos ter este ano. Após a definição é que teremos uma ideia melhor sobre nossas chances. Sabemos que algumas prefeituras não serão inf luenciadas pelas eleições gerais. Acontece que a eleição será não apenas para presidente da República a para governadores, será também para e Câmara Federal e para o Senado. E existem deputados que exercem certa inf luência em algumas cidades e que não vão querer que sejam criados constrangimentos para que isso não venha a prejudicá-los na eleição. Isso também inf luencia o quadro geral. A Abcon acredita que uma vez aclarado o panorama político, o país terá que apresentar uma melhora. Afinal, mesmo com a tímida melhoria atual

da economia já dá para sentir que o país está avançando um pouco. É tímida, mas tem efeito do ponto de vista de se permitir a tomada de decisões. Estão começando a sair propostas de manifestação de interesse (PMIs), mas estas são um rescaldo daquelas que já estavam nas prefeituras. É um processo que demora dois anos até chegar ao final dos trâmites. Nessa altura já estaremos em 2020 e frente a novas eleições municipais. Então os lançamentos teriam que ser feitos este ano e o ano que vem. Porque depois já se entra num processo eleitoral novo. E o efeito que se quer causar, não chegará a se concretizar. Então, infelizmente, nós estamos embaixo desse guarda-chuva político que é preciso que seja enxergado perfeitamente para que se permita uma ação consequente. A concessionária privada tem todo um espaço para poder crescer. Mas isso só acontecerá no final das concorrências. E o setor privado não tem condições de controlar esses acontecimentos. REVISTA ENGENHARIA – De um modo geral como são as modelagens das concessões privadas de serviços de saneamento? CRESPO – Primeiramente é preciso resolver a questão da água. Sem água não tem como cuidar de esgoto. Resolvido o problema da água, que normalmente ocorre no primeiro período da concessão, aí se começa a entrar no esgoto. Que é necessário para você poder atender o contrato. Cada contrato é um contrato. Cada um tem metas diferentes. O contratante, seja a prefeitura ou o governo estadual, sempre cuida de colocar marcos dentro do contrato, ou seja, o atendimento de metas. É preciso ir cumprindo tudo isso. Mas a grande prioridade, www.brasilengenharia.com


I ENGENHARIA quando se entra numa concessão, é necessidade de atender o fornecimento de água tratada. Depois vem o esgoto. Quase sempre o contrato se caracteriza por programas agressivos. Qual é o efeito? O prefeito quer mostrar como era o serviço prestado pelo poder público, antes da concessão – e como é o atendimento agora, pelo concessionário privado. Não é para mostrar que o privado é melhor que o público, ninguém está questionando isso. Até porque tem muito serviço prestado pelo poder público que é melhor que o do setor privado. REVISTA ENGENHARIA – Qual tem sido o papel das populações das cidades no processo de concessão de serviços de saneamento? Elas têm sido favoráveis aos processos, se mantiveram indiferentes, ou são contrárias? CRESPO – Tem de tudo. Mas no geral, o usuário quer ser bem servido. Ele não questiona se o serviço melhor é o público ou o privado. Afinal é ele quem, nos dois casos, está pagando a conta. Se o munícipe abre a torneira e a água não sai, já se sabe qual será a opinião dele. Essa é uma questão que é preciso levar muito em consideração. Então, nós concessionários privados, temos como objetivo número um atender bem o usuário, assegurar que ele fique satisfeito com o serviço. Porque definitivamente ele é quem paga a conta. Há casos de cidades que apresentam inadimplência de 70% a 80% porque o atendimento é falho. REVISTA ENGENHARIA – Fala-se de uma medida provisória que o governo pretende implantar e que deverá impactar diretamente no subsídio cruzado (dispositivo que possibilita que municípios com menos recursos tenham acesso aos serviços). Populações de mais de 5 000 municípios brasileiros poderão ser prejudicadas? Essa medida é uma ameaça? Ela terá potencial de promover alguma desestruturação do setor de saneamento? CRESPO – Trata-se de um projeto que está sendo tratado no âmbito do governo federal e que poderá ser colocado por meio dessa medida provisória. Aliás, nós da Abcon, participamos de algumas discussões, dando www.brasilengenharia.com

de 200 milhões de pessoas não pasalgumas sugestões para as autoridasa por nenhum tratamento. É esse des governamentais. No fundo, o que número mesmo? nos interessa é melhorar o saneamenCRESPO – Acho que é menos, que é to do país. E essa questão do subsídio 60%. Mesmo assim é muito. Você tem cruzado está sendo colocada pelas que entender que não é só coletar, é empresas estaduais para questionar preciso tratar. O esgoto hoje é uma alguns pontos que estão dentro da realidade que exige investimentos pemedida provisória. A iniciativa, na sados. Tem duas coisas importantes. verdade, trata de uma questão legal, Saúde: de cada real que você investe, que permite que dois entes públicos 4 reais são economizadas em saúde celebrem um contrato sem nenhum pública. Não adianta coletar e jogar tipo de concorrência. Essa questão em bruto no córrego. Isso é retirar esestá sendo corrigida, ou melhorada, goto da casa e transferi-lo para o rio. ou instrumentalizada de uma forma É importante tratar. Investir é prediferente, em que as empresas estaciso, até porque se vê muitas praias duais estão questionando o subsídio importantes que estão impróprias no cruzado. Na nossa forma de entender, país. Então você tem essa coisa de subsídio cruzado não existe. “O usuário quer ser que despoluir os rios e mares que estão sendo Mas essa matéria não bem servido: ele contaminados. Porque está oficializada ainuma das grandes reda. Achamos que o não questiona se ceitas do país é o tuCongresso irá debater rismo e tem um monte e aprovar como lei ou o serviço melhor de praias que não permedida provisória. mitem um banho de é o prestado mar seguro. Você pasREVISTA ENGENHAsa numa cidade e não RIA – Olhando o setor pelo poder vê ninguém na praia, o como um todo (tanto público ou pelas que é problema sério. a parte pública como É um assunto que ena privada), o senhor concessionárias” tendo que os políticos acha que mais do que estão tomando conscifalta de recursos, a ência. Eles já perceberam que é precifalta de vontade política tem sido so melhorar o esgotamento sanitário historicamente o maior entrave a e que para isso é urgente investir. um avanço mais célere dos serviços de saneamento básico no Brasil? REVISTA ENGENHARIA – O PlaCRESPO – Acho que há recursos disno Nacional de Saneamento Básico poníveis, o que falta são projetos para (Plansab), elaborado em 2013, preutilizar esses recursos. Hoje existem via investimentos de 303 bilhões de recursos tanto no BNDES quanto na reais (15,15 bilhões de reais por ano) Caixa Econômica Federal, mas não de 2014 a 2033 para alcançar 99% existem projetos efetivos. Para pegar de abastecimento de água e 92% de o recurso é preciso preencher certos esgoto ou fossa séptica. Esses dados requisitos. Ou seja, é preciso cumprir estão sendo revistos? É plausível regras para pegar o dinheiro. Isso deacreditar que essas metas ainda pospende muito também da situação posam ser cumpridas? lítica. Hoje tem até empresas públicas CRESPO – A meta não vai ser cuminteressadas em investir no setor, mas prida. O que acontece é que neste ano elas precisam atender com muito ride 2018 haverá uma revisão do plano gor a Lei de Responsabilidade Fiscal do Plansab. Será no final do ano e vai para ter garantia. E as empresas priser reatualizada toda a parte numévadas, por seu lado, precisam exibir rica. As metas não foram cumpridas nos seus balanços os requisitos exiano a ano, como tinha sido anunciagidos. É uma questão numérica, de do originalmente. Não tenho os valogarantia. res de 2014 para cá. Mas divulgamos em abril nossa tradicional publicação REVISTA ENGENHARIA – Pelo úl“Panorama Abcon” com os dados timo diagnóstico do Instituto Trata atualizados. Brasil, quase 80% do esgoto de mais engenharia 637 / 2018

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Preocupação com o meio ambiente e conscientização das populações estavam atrasados”, diz. As principais empresas da GS Inima Brasil são Ambient (Ribeirão Preto), Araucária (Campos do Jordão/SP), Caepa (Paraibuna/SP), Comasa (Santa Rita do Passa Quatro/ SP), Samar (Araçatuba/SP), Sanama (Maceió/ AL), Sanevap (São José dos Campos/SP) e Sesamm (Mogi Mirim/SP). As concessionárias do Grupo têm uma especial preocupação com o meio ambiente e conscientização da população sobre o assunto. No caso da Ambient, por exemplo, o programa de educação socioambiental tem por objetivo trabalhar questões de conscientização a estudantes das redes públicas e privadas do município de Ribeirão Preto. Criado em 2005, o projeto permite aos alunos conhecer o tratamento de esgoto e os benefícios proporcionados à cidade, assim como outras questões ambientais abordadas. Através de visitas semanais e monitoradas, já foram atendidos mais de 70 000 alunos.

fotos: Divulgação

Segundo o engenheiro Paulo Roberto de Oliveira, Diretor-Presidente do Grupo GS Inima Brasil, atualmente o grupo tem sete contratos com órgãos municipais e três contratos com companhias estaduais. Perguntamos a ele se há ainda um bom número de projetos de concessão de saneamento em municípios brasileiros que ficaram parados com a entrada de novos prefeitos eleitos no final do ano retrasado. O motivo da possível paralisação teria sido que o índice de reeleição foi muito baixo nos pleitos municipais de 2016? Ele respondeu não acreditar que esse tenha sido o principal motivo. “O que aconteceu foi que a situação fiscal dos municípios piorou bastante por conta da crise política e econômica dos últimos anos no país, e então diversos prefeitos, ao tomarem posse, tiveram que se preocupar num primeiro momento com as contas públicas e até pagamento de salários de funcionários que

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Paulo Roberto de Oliveira

FOTO: DIVULGAçÃO

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Diretor-Presidente do Grupo GS Inima Brasil

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Entre as empresas do Grupo no Brasil estão Ambient, Araucária, Caepa, Comasa, Samar, Sanama, Sanevap e Sesamm. A “joia da coroa” é a Ambient, uma concessionária que é responsável pelos serviços públicos de tratamento e destino final dos esgotos sanitários da cidade de Ribeirão Preto (SP). Ribeirão atualmente conta com aproximadamente 680 000 habitantes. Além da construção e operação de duas estações de tratamento de esgotos, seus investimentos, que atingem aproximadamente 300 milhões de reais, incluem a construção de 169 quilômetros de redes interceptoras de esgoto e quatro estações elevatórias. A estação de tratamento de esgotos (ETE) Ribeirão Preto, responde por 86% do esgoto tratado da cidade, possuindo tecnologia de lodos ativados com aeração por difusores de membrana e sistema de digestão aeróbica de lodos de alta carga, obtendo eficiência de 95% na remoção da matéria orgânica. Além disso, a GS Inima Brasil iniciou os estudos para uma planta de dessalinização de 1 metro cúbico/segundo em Fortaleza, capital do Ceará. Após classificar-se em primeiro lugar no processo de seleção do PMI promovido pela Companhia de Água e Esgoto do Estado do Ceará (Cagece), o grupo liderado pela GS Inima Brasil foi autorizado, em 6 de dezembro passado, a elaborar os estudos de viabilidade técnica, econômico-financeira e jurídico-legal de uma PPP para construção e operação da primeira planta de dessalinização de água marinha de grande porte do Brasil, a ser implantada na região metropolitana de Fortaleza. Pioneira em dessalinização – em 1968 projetou e construiu a primeira planta do mundo em Cabo Verde

–, a GS Inima manteve este pioneirismo ao implantar a maior planta da Europa em Carboneras, na Espanha (1999), a maior planta do Chile em Antofagasta (2001), a Taunton, maior planta para uso humano dos Estados Unidos, em Massachussetts (2008) e a Mostaganem, maior planta da África, na Argélia (2010). Todo o conhecimento adquirido e consolidado pela GS Inima no projeto, construção e operação de plantas de dessalinização de águas marinhas, que juntas superam a 1 milhão de metros cúbicos/dia de capacidade, está sendo empregado nos estudos da planta para a Cagece, que tem por vocação contribuir para a solução da grave crise hídrica que há alguns anos atinge a Região Metropolitana de Fortaleza. O grupo liderado pela GS Inima agrega, ainda, a experiência igualmente internacional da Teixeira Duarte Engenharia e Construções e o suporte e experiência local da empresa cearense Fujita Engenharia. *** Paulo Roberto de Oliveira nos enviou um minicurrículo para esta edição dando conta de que é engenheiro civil graduado, pela Faculdade de Engenharia do Triângulo Mineiro em Uberaba no ano de 1976. É vice-presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), Diretor-Presidente da GS Inima Brasil e das concessionárias de serviços de saneamento Ambient Serviços Ambientais de Ribeirão Preto, Araucária Saneamento, Saneamento da Alta Maceió (Sanama), Saneamento do Vale do Paraíba (Sanevap), Companhia de Água e Esgoto de Paraibuna, Companhia Águas de Santa Rita, Samar

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scolhido como personagem para esta edição da série “Linha de Frente”, o engenheiro Paulo Roberto de Oliveira, Diretor-Presidente do Grupo GS Inima Brasil, está no comando de um grande grupo de empresas privadas atuantes nos serviços de saneamento no Brasil. O Grupo GS Inima Brasil funciona como construtora e empresa holding, estruturada para garantir a continuidade operacional e a performance das empresas concessionárias controladas, bem como para disputar, conquistar e implantar novas concessões e parcerias público-privadas (PPPs), seja isoladamente ou em consórcio com outras empresas. Segundo Oliveira, o Grupo atua em projetos de saneamento, desde sua concepção e construção até a operação e manutenção no mercado público e privado. Somado ao portfólio brasileiro, em parceria com a unidade sul-coreana GS E&C, a GS Inima Brasil começa a desenvolver software para redução de perda de água e estudos de viabilidade para projetos de incineração de resíduos, como forma de geração de energia adequada ao meio ambiente. O Grupo GS é o quinto maior conglomerado da Coreia do Sul em termos de receita total. Possui 76 filiais nacionais, das quais oito são de capital aberto (incluindo a GS E&C) e uma rede global de 68 subsidiárias no exterior. O Grupo GS se expande tanto organicamente como através de aquisições. Atualmente está envolvido em diversas áreas de negócios, como petróleo, engenharia e construção, varejo, energia, cimento e aço, com um faturamento superior a 67 bilhões de dólares, reunindo um importante conjunto de empresas.

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I ENGENHARIA Soluções Ambientais de Araçatuba, e também presidente do Conselho de Administração de Serviços de Saneamento de Mogi Mirim (Sesamm). Nos últimos 25 anos tem se dedicado ao desenvolvimento e estruturação de projetos de concessão e PPPs na área de saneamento básico do país. De uma forma mais abrangente, porém, Paulo Roberto de Oliveira (mineiro de Uberaba) atuou em uma grande variedade de segmentos de infraestrutura. Relembrando o início da carreira, merece que se destaque sua participação na construção da usina hidrelétrica Itaipu Binacional, seu engajamento pelo marco regulatório brasileiro de saneamento e o trabalho realizado em outros países, como Argélia, Bolívia e Iraque. Ao comentar sobre o início de sua trajetória profissional, Oliveira diz que optou por estudar engenharia civil e, ainda na Faculdade de Engenharia do Triângulo Mineiro, em Uberaba, começou em uma construtora local, fiscalizando obras de edifícios. Em 1977 foi a Belo Horizonte para participar de um processo de seleção na Acesita (hoje ArcelorMittal Inox Brasil) para a construção de uma planta siderúrgica. Aprovado, passou a trabalhar no Departamento de Licitações e Contratos da Gerência de Expansão de Projetos da companhia. Em 1981, quando a unidade já estava praticamente pronta e operando, surgiu a oportunidade de trabalhar numa grande construtora, pela qual atuou diretamente na construção da usina hidrelétrica Itaipu Binacional. Ele conta que a experiência foi muito interessante e que foi contratado para a área de Planejamento da usina. Migrou, então, para Foz do Iguaçu como engenheiro de Planejamento e ficou lá por dois anos. Explicando o que o motivou a deixar o cargo antes da inauguração de Itaipu, Oliveira lembra que acabou sendo convidado para outro posto. No fim de 1982, houve uma reformulação na diretoria da construtora, cuja sede ficava em Belo Horizonte, e foi chamado por um dos novos diretores para atuar em sua equipe. Com essa mudança ele se tornou chefe do Departamento de Licitações, que na época pertencia à Diretoria de Construções Energéticas. A atuação da construtora era internacional e ele participava das licitações que fossem consideradas interessantes, atuando até a assinatura do contrato. www.brasilengenharia.com

15 anos na companhia. Explicou que Ele tinha de realizar visitas, análises e aquela licitação (em Ribeirão Preto) foi propostas. Esteve envolvido em licitavencida por um consórcio formado por ções na Argentina, na Bolívia, na Colômbia, na República Dominicana e no uma empresa americana (CH2M Hill) e Uruguai. Também foi responsável pela uma construtora de São Paulo chamada coordenação de uma licitação na ArgéREK, que possuía expertise em limpeza lia, além de ter tomado parte em um urbana, operação de aterro sanitário e projeto no Iraque. coleta de lixo hospitalar, mas precisava Perguntado sobre se alguma vide alguém experiente em plantas de travência internacional foi tamento de esgoto. Então, a REK o procurou, mais impactante, OliveiA Ambient é a ra respondeu que uma justamente quando ele concessionária delas foi sua passagem estava entregando um pelo Iraque, onde parprojeto para a Sabesp responsável pelos ticipou da construção em Franca e não sabia serviços públicos de qual seria o próximo do sifão do Rio Eufrates. Era preciso criar um passo. Ele se desligou saneamento do canal para transportar a da grande construtomunicípio de ra no final de 1995 e água do rio para o outro lado do país. Foi uma assumiu a gerência de Ribeirão Preto proposta que demandou Projetos da Ambient intenso desenvolvimento técnico, um Serviços Ambientais de Ribeirão Preto trabalho de nove meses, e havia muiS.A., uma concessionária constituída tos concorrentes. Quando a licitação para o contrato de concessão de tratamento de esgoto da cidade. Pouco defoi ganha, ele teve uma sensação muito gratificante. Também foi marcanpois, Oliveira lidou com mais uma reeste participar de um projeto na Bolívia, truturação. O projeto evoluiu até 1998, onde ficou por três meses. No final de quando a CH2M Hill resolveu desistir da 1989, ele foi para o setor de Edificações sociedade. A REK, sozinha, não tinha da construtora. Foi possível fazer essa capacidade financeira e técnica para o transição porque a empresa, do mesmo desenvolvimento, que ficou paralisado até o ano seguinte, com a chegada grupo da grande construtora, focava da espanhola OHL. Nesse momento, a projetos residenciais, condomínios e OHL passou a ser acionista majoritária construção de empreendimentos industriais. Houve uma reformulação em toda e ele foi promovido a diretor técnico. a diretoria e ele foi convidado a ser o Menos de um ano depois, já se estava responsável por licitações. Seu desafio com a primeira estação de tratamento era reestruturar todo o departamento, entrando em operação e, em 2001, ele tarefa que se prolongou por três anos. se tornou presidente da concessionária. Nos anos seguintes, Oliveira participou Aí, houve outra troca na diretoria. Um ativamente do processo que levou ao dos diretores de Belo Horizonte foi para estabelecimento do marco regulatório São Paulo e o chamou para liderar uma nacional de saneamento básico. Como gerência regional. Assumiu, então, uma foi essa atuação? Ele responde que o unidade em Ribeirão Preto. Lá, já havia setor de concessão privada estava em obras em andamento e Oliveira saiu em crescimento e atraiu muitas empresas busca de novos negócios. Consta que, estrangeiras, sem que estivesse prepanesse período, ele participou de uma rado para tanto. Diferente dos outros das primeiras concessões de saneamento do país, começando de fato sua traramos, o setor não contava, porém, jetória no ramo. Como aconteceu? Ele com estabilidade e os contratos estavam recorda que, em 1995, Ribeirão Preto sob um risco político. Por isso, diversas companhias deixaram o país. Frenfez uma licitação para a concessão dos te a esse quadro, ele se engajou nessa serviços de tratamento de esgoto da cidade. Foi a segunda concessão para a bandeira de luta pelo marco regulatório iniciativa privada no Brasil, logo após a nacional de saneamento básico junto pioneira, em Limeira (SP), e incluía não com a Abcon. Em 2007, a lei federal nº apenas a construção, mas a operação. 11.445 foi promulgada e o setor a considerou o marco regulatório, pois estabeEle participou de todo o processo licitatório, porém a empresa não ganhou. leceu as diretrizes nacionais para o saEle deixou a construtora após mais de neamento básico e definiu uma política engenharia 637 / 2018

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ENGENHARIA I LINHA DE FRENTE nem todos os municípios publicaram os respectivos editais de licitação. Esperamos que neste segundo ano de governo, os prefeitos tomem a decisão política de se conceder os serviços de água e esgoto e liberem a publicação das licitações. Temos expectativa de no mínimo mais dois contratos em 2018.” — O senhor vê condições de que a participação privada e seus investimentos no setor de saneamento possam dobrar nos próximos dez anos? — prosseguimos com Oliveira. “Conforme divulgado pela Abcon, embora esta participação esteja em torno dos 6%, o total dos investimentos privados subiu para 20% do que foi aplicado no país. Isto já demonstra uma grande disposição do setor privado em investir no saneamento. Acreditamos que com as alterações a serem feitas na Lei 11.445/2007, a qual chamamos de Lei do Marco Legal do Saneamento, aumente significativamente o incentivo e a segurança para a participação privada nos serviços de água e esgoto.” — A sua expectativa é de que tenhamos em 2018 – ano de eleições – um ritmo estável de evolução de novas concessões entre os municípios? — pedimos. “Nossa expectativa é de que em 2018 teremos uma evolução de novas concessões sejam plenas ou parciais com os municípios. As eleições deste ano podem afetar somente as PPPs com companhias estaduais de saneamento, uma vez que teremos eleições para governadores e estas companhias podem estar voltadas para outros problemas.” — Quais modelagens deverão prevalecer nas concessões privadas de serviços de saneamento? — seguimos com Oliveira.

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federal para o segmento. Indagamos é crescer com sustentabilidade e bons sobre como a regulamentação impactou contratos, dentro de um planejamento o negócio que a empresa liderava. Ele estratégico definido. Desde a chegada contou que explicou ao grupo espanhol a Maceió, Oliveira se convenceu de que que o cenário no Brasil era outro e que existia um mercado bom no Nordeste e não haveria mais riscos de inadimplênse resolveu intensificar a participação cia ou de quebra de contrato. Assim, em Alagoas e nos outros estados da região. Inclusive foi apresentada a citada seria possível buscar outras concessões. PMI ao governo do Ceará para viabilizar Em 2008 houve a conquista do segundo contrato, com a Sesamm (Serviços uma planta de dessalinização de água de Saneamento de Mogi Mirim). Aí, ele para Fortaleza e foi iniciado outro estudo no Rio Grande do Norte. Também sugeriu a criação de uma holding brasileira que poderia ter foram apresentados PMIs outras concessionápara dois municípios do Oliveira participou rias, e foi criada a OHL Espírito Santo e continuará a forte atuação no EsMeio Ambiente Inima ativamente do tado de São Paulo, onde Brasil. Por ter sido uma processo que levou ao o Grupo GS Inima Brasil ideia de Oliveira, ele estabelecimento do está consolidado e possui foi designado presidente da nova estruum grande mercado. marco regulatório de tura e passou a acu— Noticiou-se há saneamento mular as presidências pouco mais de um ano das outras empresas. que alguns municípios Como se deu a transição para GS Inima publicaram edital de chamamento Brasil? Oliveira recorda que a crise glopara apresentação de Proposta de bal atingiu a OHL e, em 2012, a comManifestação de Interesse (PMI), com panhia vendeu sua área de saneamento a finalidade da realização de estudos para o grupo sul-coreano GS. Na época, técnicos, jurídico-legais e econômico-financeiros visando buscar alternaele viajou a Seul, capital daquele país tivas para a universalização dos serasiático, apresentou os quatro contratos viços de saneamento. Por outro lado, existentes (Ambient, Sesamm, Araucária outros municípios já haviam publicaSaneamento e Sanevap – Saneamento do – pela mesma época – o edital de Vale do Paraíba) e obteve o aval para licitação para concessão dos serviços continuar outros projetos. Em 2014, foi de água e esgoto. No caso do Grupo constituída a Sanama (Saneamento Alta GS Inima, qual a expectativa da assiMaceió). Em 2015 foi conquistada a natura de contratos ainda em 2018? primeira concessão plena, com a Caepa — solicitamos de Paulo Roberto de (Companhia de Água e Esgoto de Paraibuna), em Paraibuna. Depois, veio a CoOliveira. masa (Companhia de Água Santa Rita), “A GS Inima Brasil participou ativamente nos chamamentos públicos para em Santa Rita do Passa Quatro (SP), e, apresentação de PMI. Nos últimos dois em 2016, a Samar (Soluções Ambientais anos apresentamos mais de oito estudos de Araçatuba). Oliveira observa que as para diversos municípios. Infelizmente metas para o grupo nos próximos anos

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I ENGENHARIA “Na maioria dos casos em se tratando de municípios autônomos, a modelagem que prevalece é a da concessão plena de água e esgoto. As PPPs se aplicam mais a parcerias com companhias estaduais ou grandes municípios, que possuem maior capacidade de pagamento da contraprestação.” — Em geral, as cidades onde tenha se realizado a concessão aumentam muito significativamente as percentagens de tratamento de esgoto em relação ao passado? — quisemos confirmar. “Sem dúvida, um dos principais investimentos das concessionárias privadas nos últimos anos tem sido na parte de esgotamento sanitário, que é o grande deficit de nossas cidades. De nossos dez contratos a maioria contém metas relacionadas ao esgotamento sanitário.” — Qual tem sido o papel das populações das cidades no processo de concessão de serviços de saneamento? — perguntamos. “Acredito que o que a população quer é a prestação de um serviço de boa qualidade, com perenidade e custos acessíveis, independente do prestador ser público ou privado. Todavia como temos observado nas pesquisas de satisfação que fazemos em nossas concessões, a população em geral tem aprovado os processos onde os serviços nos foram concedidos. Contrários são somente aqueles que por questões ideológicas ou risco de perda de regalias, assim se manifestam.” — Quais seriam os municípios onde há potencial de novas concessões desses serviços nos próximos tempos? — indagamos. “O potencial é grande haja vista os índices de atendimento que temos com os serviços, principalmente na coleta e no tratamento de esgoto. Os municípios com baixos índices de atendimento e sem capacidade para investir, se tornam os principais potenciais alvos para novas concessões. O mesmo se pode dizer das companhias estaduais de saneamento.” — Como vê a questão do subsídio cruzado? — solicitamos. “Não acredito que uma medida provisória do governo, muito comentada, possa impactar municípios menores. Subsídio cruzado é o que praticam as companhias estaduais de saneamento, www.brasilengenharia.com

“Temos acompanhado com muiexatamente as que estão se apegando ta atenção. O programa de PPI do a este assunto por serem contrárias a governo federal, que num primeiro um artigo da medida provisória que momento atraiu a atenção de quase justamente vai trazer maior isonomia 18 estados, finalmente tem seguido competitiva ao setor, possibilitando o a passos lentos, com apenas sete ou aumento da participação privada. Pequenos municípios sem recursos para oito estados. Considerando ainda o investir não serão prejudicados haja fato de termos eleições para governadores este ano e, por tradição, em vista que dos municípios atendidos pela ano eleitoral dizem que nada aconiniciativa privada, 58% têm menos de tece, é normal que alguns municí20 000 habitantes.” pios tomem iniciativas para atrair — O senhor acha que a falta de o capital privado e vontade política tem assim poder mais rasido o maior entrave a “A população quer pidamente atender às um avanço dos serviços públicos de sanea- é a prestação de necessidades da pomento básico no Bra- um serviço de pulação. A GS Inima sil? — questionamos Brasil está atenta e boa qualidade, Oliveira. muito bem preparada “Sem dúvida nenhu- independente do para atender esta dema a falta de vontade prestador ser público manda.” — Pelo último política aliada a posições ideológicas con- ou privado” diagnóstico do Instrárias ao setor privado, tituto Trata Brasil, presente em alguns órgãos públicos, quase 80% do esgoto de mais de 200 tem sido um grande entrave para que milhões de pessoas não passa por nenhum tratamento. Como vê o impacto possamos avançar nos serviços de saneamento. Falta também uma política desse dado sobre a saúde da população? — solicitamos. pública de incentivo à maior participação privada, como também maior cele“Segundo dados da Organização ridade na aprovação dos financiamenMundial da Saúde, a cada 1 real investos pelos agentes financeiros.” tido em coleta e tratamento de esgoto — Há reclamações de que falta um se economiza 4 reais em gastos com esforço maior para fazer valer o que saúde da população. Considerando o está estabelecido na Lei 11.445/2007. atual nível de investimentos no setor e O senhor concorda com isso? — arguio cenário traçado pelo Instituto Trata mos. Brasil, seguramente estamos tendo prejuízos à saúde da população e com mais “Creio que um dos pontos que precisamos avançar é o da regulação dos gastos na saúde, pior para a economia serviços e contratos de saneamento. brasileira.” Hoje temos uma pluralidade de agên— O Plansab previa investimentos cias reguladoras municipais, regionais de 303 bilhões de reais (15,15 bilhões e estaduais, que nem sempre seguem de reais por ano) de 2014 a 2033 para uma mesma diretriz quando exercem alcançar 99% de abastecimento de suas funções. Acreditamos que alguágua e 92% de esgoto ou fossa séptimas diretrizes básicas e procedimentos ca. Dá para cumprir essas metas? — devam ser estabelecidos por um ente concluímos com Oliveira. regulador federal de modo que se es“As metas estabelecidas pelo Plantabeleçam regras e critérios a serem sab em 2013 dificilmente poderão ser seguidos por todas as agências regucumpridas, considerando o valor dos ladoras. Isto está previsto na medida investimentos aplicados nos serviços de provisória em elaboração pelo governo água e esgoto nos últimos cinco anos. federal.” Precisamos é que na revisão do Plansab, — Consta que quase 250 municíque está em andamento, sejam previspios se movimentavam para atrair tas metas factíveis de serem cumpridas, o capital privado a investir em suas bem como claramente estabelecidas as operações e melhorar os indicadores diretrizes e caminhos para que se possam ser atingidas, o que sem dúvida do setor. Como o senhor tem acompanhado essa questão? — perguntamos passa por um claro e maior incentivo a a Oliveira. participação privada no setor.” engenharia 637 / 2018

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À ESPERA NOVOS Por Juan Garrido

O setor privado se prepara para aumentar sua participação em face das novas oportunidades de concessões plenas, parciais ou PPPs de saneamento básico que deverão surgir em todo o território nacional à medida que o quadro político do país for ficando menos conturbado. As previsões do Panorama 2018 da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), lançado na primeira quinzena de abril, são positivas. Em que pese a falta de recursos do poder público para transformar a triste realidade do setor, a direção da Abcon entende que existe hoje uma oportunidade para o Brasil ter o saneamento que merece, aquele que a sociedade já reclama há décadas e que se torna ainda mais necessário diante de tudo que o país viveu nos últimos anos: crises de abastecimento, estresse hídrico, proliferação de

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doenças, rios, mares e lagos mortos pela poluição. Pelos levantamentos de um grande jornal de circulação nacional, o programa de privatização do saneamento lançado pelo governo do presidente Michel Temer pouco depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, está perdendo fôlego. Segundo os dados apurados, dos 18 estados brasileiros que inicialmente tinham demonstrado interesse pelo programa, apenas sete tiveram os chamados “estudos de viabilidade” iniciados. Sete voltaram atrás, um está com os estudos atrasados e três ainda permanecem em fase de contratação de consultoria para elaborar o material. Fontes da área de desestatização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – que é a instância condutora do processo – informam que o programa oferece aos estados www.brasilengenharia.com


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DE NEGÓCIOS a opção de contratar o banco para que ele subcontrate uma consultoria que vai elaborar um estudo da melhor modelagem de prestação de serviço naquela unidade federativa. Ao final desse processo, o BNDES entrega um relatório com o parecer técnico que indica o melhor modelo. De forma frequente trata-se de uma mistura de esforços públicos e privados. A partir do documento, o estado escolhe qual caminho quer seguir. A expectativa da instituição pública é que um ou dois editais saiam em 2018. Ainda assim, os projetos poderão ser retomados em 2019. Segundo o BNDES, quem não conseguir fazer agora não precisa se preocupar, mais adiante poderá aderir. Os sete estados já com estudos contratados são Acre, Alagoas, Amapá, Ceará, Pará, Pernambuco e Sergipe. Os estados de Roraima, Rondônia e Rio de Janeiro ainda estão www.brasilengenharia.com

em fase de contratação. Os demais estados não manifestaram interesse por enquanto. Maranhão, Paraíba e Rio Grande do Norte são apontados como alguns dos estados que voltaram atrás por resistências internas. Além disso, há a situação do Rio de Janeiro, que é um caso específico: a privatização da Cedae (empresa de saneamento fluminense) faz parte do plano de recuperação fiscal do Estado e deve ser conturbada, embora o interesse pelo ativo seja grande. Segundo porta-vozes do Programa de Parcerias para Investimentos (PPI), a pauta relacionada a saneamento está com o BNDES. Boa parte dos especialistas entende que o programa de privatização de companhias estaduais de saneamento, um dos mais alardeados pelo governo federal em 2016, perdeu força com a proximidade das eleições estaduais neste ano de 2018. engenharia 637 / 2018

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0,33% do PIB. De acordo com o levantamento realizado para o Panorama 2018, apesar de se manter em apenas 6% dos municípios, a iniciativa privada já é responsável por 20% dos investimentos do setor. No total, o segmento privado possui 37,6 bilhões de reais em investimentos comprometidos em contratos, dos quais 13,3 bilhões de reais já foram realizados. Com a entrada em operação da subconcessão de Teresina (PI), um novo estado passou a ser atendido por concessões privadas, que hoje estão presentes em 322 municípios, com 31 milhões de pessoas beneficiadas. O segmento possui 266 contratos firmados, em diferentes modalidades. *** Se for comparada a evolução do setor de saneamento com a meta do Plansab, verifica-se um grande deficit. Segundo o Panorama 2018, o investimento concretizado nos últimos anos esteve sempre abaixo do esperado, fazendo com que, a prosseguir nesse ritmo, as perspectivas estabelecidas pelo Plansab, de que o país poderia universalizar seus serviços de saneamento em 2033 serão praticamente inatingíveis. Projetando esse cenário, chegaríamos a 2033 com 9,4 milhões de pessoas não atendidas com os serviços de água e 44,5 milhões de pessoas não atendidas com serviços de esgoto. Considerando a extensão das redes necessárias, o país precisa de mais 500 000 quilômetros de tubulações para atender às metas Foto: Leonardo Moreira

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egundo o prestigiado Instituto Trata Brasil apenas 51,92% da população brasileira têm acesso à coleta de esgoto. Ou seja, num país de 206 milhões de habitantes mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso a serviços sanitários. Desses esgotos coletados, não mais que 44,92% são tratados. Outros especialistas afirmam que o investimento em saneamento básico caiu 26% em termos reais no Brasil, entre 2015 e 2016. Eles argumentam que doenças do século 19 não estão de volta por acaso. A febre amarela que hibernava nas matas invadiu o ambiente urbano. A sangria brasileira, na verdade, prospera no interior de um número-chave: sobram apenas 3,5% da receita tributária para novos investimentos. A divulgação, no dia 9 de abril passado, do Panorama 2018 da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon) – atualmente sob a presidência do argentino Santiago Crespo –, mostra que os números do saneamento são um retrato desse cenário e demonstram avanços a passos lentos. Com dados atualizados, a Abcon indica que dos brasileiros que moram em cidades, cerca de 12 milhões ainda não possuem acesso à água tratada, e 70 milhões não possuem acesso aos serviços de esgoto. Em outros termos, pouco mais da metade do esgoto produzido no país é coletado, e só os citados 44,92% do total são tratados. Em volume total, isso corresponde a aproximadamente 2 milhões de piscinas olímpicas, ou 4 293 sistemas Cantareira de esgoto in natura despejados no meio ambiente, todos os anos. Segundo os dados da Abcon, o imobilismo do setor só agrava essa situação. O investimento total no saneamento em 2016 ficou em 11,33 bilhões de reais, ou 0,18% do PIB, muito pouco relevante dentro do investimento geral no setor de infraestrutura, ou seja, energia elétrica, saneamento, telecomunicações, transporte (aeroportos, ferrovias, hidrovias, portos e rodovias), que equivale a 1,68% do PIB, segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). A média de investimento anual necessária para universalização, segundo o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) seria de aproximadamente

Santiago Crespo, presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon)

de universalização até 2033. Mantido o ritmo atual, chegaremos em 2033 com um deficit de aproximadamente 165 000 quilômetros. Portanto, concretizar essa expansão e outros projetos essenciais para prover saneamento à população representa um grande incentivo à geração de renda e empregos. Ou seja, significa riqueza e desenvolvimento para o Brasil. Mas trata-se de um desafio que não será vencido isoladamente pelo setor público. Como empregar os recursos e o know-how da iniciativa privada para colocar o saneamento nos trilhos? A vontade política será fundamental para a mudança. Mas a vontade política nem sempre está sintonizada com a vontade popular. Com relação ao saneamento, durante muito tempo, essa máxima aparentemente prevaleceu no meio público (a despeito de iniciativas como a Lei do Saneamento, de 2007, e sua necessária atualização, atualmente em tramitação). Basta lembrar que a obrigatoriedade dos Planos Municipais de Saneamento, prevista pela Lei 11.445/07, vem sendo adiada ano após ano, e a última medida nesse sentido postergou a conclusão dos PMSBs para dezembro de 2019. A boa notícia é que as autoridades políticas dirigentes estão, felizmente, despertando para o fato de que saneamento deve ser uma prioridade nacional. A propósito, pensa-se em novo regulador para o setor. O saneamento tem sido uma das prioridades do Programa de Parcerias para Investimentos (PPI) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O banco, à época sob a gestão de Maria Silvia Bastos Marques, chegou a criar um setor especializado para conduzir o processo. Uma medida em estudo para dar mais segurança é tornar a Agência Nacional de Águas (ANA) uma agência reguladora federal do saneamento, embora este seja uma prerrogativa municipal. A ideia é encarada com ceticismo por consultorias envolvidas no processo. Elas entendem que um ente federal dificilmente teria capacidade de fiscalizar o serviço nos municípios. As interessadas nos ativos, porém, defendem que a medida traria segurança. Como são parcerias de longo prazo, a agência seria um mediador de eventuais problemas. Além disso, o órgão poderia dar uma padronização mínima aos contratos. www.brasilengenharia.com


S PE M TNUE 4A0MAE N O CO N C EESS Õ ECISADL EE SA TOS Na mesma direção, o Ministério das Cidades está liderando o movimento com uma proposta de reforma que deverá ampliar a parceria da iniciativa privada no saneamento. Estaria em fase de conclusão um dispositivo legal que pretende incentivar a participação da iniciativa privada no setor. Além disso, seriam incentivadas as ações dos consórcios públicos e as novas tecnologias, num esforço para maximizar resultados e reduzir custos, envolvendo os entes federados na busca de soluções para reduzir drasticamente os índices de ausência de saneamento básico em todo o país. Afinal, com suas dimensões continentais, o Brasil ocupa hoje espaço entre as dez maiores economias do mundo quando se considera o PIB. Contudo, quando se observa os serviços de saneamento básico prestados à população, não atingimos sequer a 120ª posição. Segundo as autoridades federais, isto incentiva o governo a exercer seu papel de coordenação federativa para o saneamento e propor mudanças que façam frente aos enormes desafios do setor, que incluem o atual cenário de racionalização dos gastos públicos. Tal realidade impõe o reconhecimento da necessidade de uma maior participação do setor privado na disponibilização desses serviços. Ou seja, o governo já admite que, juntos, setor público e iniciativa privada, precisam somar esforços para oferecer condições dignas de atendimento à população, com qualidade e modicidade tarifária. Esses são sinais claros que os mitos sobre o saneamento estão caindo por terra. O próprio Panorama da Abcon tem contestado, com números, as afirmações errôneas, motivadas por aspectos ideológicos, que ainda rondam o segmento privado no saneamento. Os números e performances da iniciativa privada, divulgados pela entidade mostram que esse segmento possui perfeitas condições para cooperar com o Estado brasileiro na solução do saneamento. As tarifas praticadas pelo setor privado são compatíveis com as praticadas por operadores públicos. São tarifas realistas e reguladas, estabelecidas em bases técnicas, que garantem a sustentabilidade dos contratos, a qualidade dos serviços prestados, a continuidade dos investimentos e o acesso da população. www.brasilengenharia.com

Os municípios considerados pequenos (com até 20 000 habitantes) representam 58% das concessões em saneamento. De acordo com a Constituição Federal, a titularidade do saneamento é atribuída à esfera municipal, por se tratar de interesse local. Portanto, prover à população os serviços essenciais de água e esgoto por conta própria, através de autarquias ou empresas municipais, é uma possibilidade. Estima-se que 27% dos municípios brasileiros adotem essa solução. Porém, a grande maioria dos municípios – cerca de 71% – delega a prestação dos serviços às companhias estaduais de saneamento. E muitos desses contratos de programa são renovados automaticamente, sem revisão de metas, investimentos ou estrutura tarifária. Uma revisão do marco legal, que permita ao município realizar um chamamento público sempre que um contrato de programa chegue ao fim seria uma medida transparente e justa, ao oferecer alternativas eventualmente melhores à população, tanto do ponto de vista tarifário, como de qualidade da prestação dos serviços e maiores investimentos em ampliação das redes e manutenção dos sistemas. Dessa forma, outras empresas – não somente privadas, mas também companhias públicas – poderiam apresentar propostas para realizar investimentos nos municípios, em condições mais favoráveis. Como é sabido, apenas 6% dos municípios contam hoje com a participação privada em suas diversas formas de contrato (concessões plenas, parciais, PPPs e contratos de gestão). E, com saúde financeira, essas empresas têm conseguido resultados muito positivos. A pergunta que não quer calar, portanto, é: por que não rever esse modelo que existe há décadas e deixar o capital privado, sua capacidade técnica e de gestão, concorrerem para viabilizar com competência os serviços de saneamento público? A livre concorrência não pode ser confundida com a ideia de que a iniciativa privada visa exclusivamente o lucro. Na verdade, mesmo as principais estatais do saneamento perseguem o resultado financeiro positivo, pois sabem que a saúde financeira da empresa é que permitirá a manutenção dos investimentos. Regras claras e regulação eficiente que atraiam a iniciativa privada para o saneamento são

bem-vindas e estão longe de significar retrocesso ou desestruturação. As cidades saneadas são poucas, mas podem se tornar uma realidade em todo o país. Em 2015, a Abcon definiu algumas premissas para identificar cidades que estão compromissadas com o avanço do saneamento em seus domínios, a que denominou “Cidades Saneadas”. As Cidades Saneadas são aquelas que possuem governança dos serviços, transparência e garantia dos direitos dos usuários, tarifas justas, investimento comprometido, compromisso com o meio ambiente e com as pessoas. Nos Panoramas anteriores, a Abcon trouxe exemplos de cidades que seguem esse conceito e buscam avançar cada vez mais para cumprir todas essas premissas. Desde 2015, a Abcon tem destacado algumas dessas cidades entre o universo dos municípios que contam com a parceria do segmento privado. Todos eles constituem bons exemplos, que merecem ser conhecidos. Mas ainda são poucos, diante da extensão territorial do país. Levantamento promovido pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes) e apresentado no Simpósio Ranking Abes da Universalização do Saneamento, em janeiro passado, confirmou essa tendência. O estudo revela que a grande maioria dos municípios está longe de atingir a universalização dos serviços de saneamento básico. Do total de 231 cidades incluídas no levantamento, 176 (76%) ainda se encontram no que a pesquisa chamou de “primeiros passos para a universalização”. Outras 41 (18%) foram classificadas como tendo um “compromisso pela universalização”, e apenas 6%, ou seja, 14 municípios, conseguiram atingir o estágio “rumo à universalização”. Importante ressaltar que metade dessas cidades bem-sucedidas conta com a parceria da iniciativa privada, seja em concessões plenas, parciais ou PPPs. Cidades como Niterói, Araçatuba, Limeira e Votorantim (concessões plenas), Jundiaí (concessão parcial de esgoto), Piracicaba (PPP de esgoto) e São José dos Campos (locação de ativos/esgoto) foram reconhecidas pela boa performance nos serviços de abastecimento de água, tratamento de esgoto, coleta e destinação de resíduos sólidos. engenharia 637 / 2018

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Foto: rogério Reis

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MUDANÇAS NA MAIOR PPP DO PAÍS

MUDANÇAS NA MAIOR PPP DO PAÍS

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egundo as informações da Abcon, a capital pernambucana, Recife, e sua região metropolitana, integram a maior PPP nacional de saneamento, hoje administrada pela BRK Ambiental. Os municípios da Grande Recife são: Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca, Moreno, Goiana, Itapissuma, Araçoiaba, Abreu e Lima, São Lourenço da Mata, Olinda, Paulista, Igarassu, Itamaracá e Camaragibe. A PPP foi constituída pela Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), em 2013, diante da necessidade de recuperação, modernização, operação, implantação e ampliação do sistema de esgotamento sanitário da Região Metropolitana de Recife. O principal objetivo do empreendimento é atingir o índice de 90% da população urbanizada atendida com ser viços de esgoto, e garantir 100% de tratamento para todo o volume coletado, nos 15 municípios beneficiados. A concessionária também é responsável por ser viços associados que, embora não façam parte do objeto principal do contrato, são conduzidos pelas equipes da empresa. Destaque para a leitura e emissão simultânea de contas de água, recuperação de créditos vencidos de clientes da Compesa, insta-

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lação, substituição e remoção de hidrômetros, entre outros. Hoje, 100% das solicitações de ser viço são atendidas em menos de 48 horas após a abertura do chamado, e 75% delas já são resolvidas nas primeiras 24 horas. Em vários bairros, o número de reclamações foi reduzido em 70% . Em meados de março passado, foi divulgado que, para garantir a execução do imenso programa de saneamento estabelecido pelo governo pernambucano e ampliar o avanço das obras de saneamento nas 15 cidades da Região Metropolitana do Recife, a Compesa fez a repactuação do contrato com a BRK Ambiental. A mudança mais significativa diz respeito à obrigação de investimentos do parceiro privado, que aumentou. Antes, do total de recursos que seriam aplicados no Programa Cidade Saneada, 25% era de responsabilidade do poder público e 75% do parceiro privado. Com a repactuação, foram transferidos mais investimentos para a BRK Ambiental, que será responsável por 87% dos recursos previstos no programa, ou seja, 5,8 bilhões de reais do total de 6,7 bilhões de reais – valores estes atualizados para 2017, considerando que a data base era de 2012. Caberá ao setor público investir 870 milhões de

reais para a ampliação dos ser viços de coleta e tratamento de esgoto, o que corresponde a 13% dos investimentos previstos no programa. Tomando a capital francesa, Paris, como referência de parcerias com o setor privado no campo do saneamento, especialistas confirmam que enquanto em Paris a relação entre o setor público e o privado está bem madura, nos países em desenvolvimento isso ainda não ocorre, mas, felizmente já cresce a participação do setor privado no saneamento básico. Eles acham que nos países menos desenvolvidos o discurso populista em relação aos ser viços públicos tem impedido que empresas públicas cumpram sua obrigação de atender a todos com eficiência e de maneira adequada à condição socioeconômica da população. Os avanços na prestação dos ser viços públicos têm sido gradativos, mas sempre passando pela parceria com a iniciativa privada que, historicamente, tem eficiência técnica, rigor na gestão operacional e capacidade de fazer os investimentos necessários. Eles lembram que em Paris, após um longo período de parceria com a iniciativa privada, os ser viços públicos de água foram universalizados. Em 2010, o prefeito eleito Bertrand Delanoe resolveu mudar o modelo de gestão da água para cumprir promessa feita durante sua campanha. Foi uma escolha ideológica. Assim, criou uma empresa municipal (a Eaux de Paris) que atende diretamente a população, enquanto a operação dos ser viços ficou a cargo das mesmas empresas anteriores, dada sua expertise. Com isso, Paris conseguiu garantir eficiência operacional, enquanto mantém o controle sobre as tarifas. A companhia municipal realmente reduziu a tarifa em 8% , como anunciou o poder público ao justificar a retomada dos ser viços. O que não deixou claro é que a maioria das cidades francesas operada por empresas privadas tem conseguido descontos tarifários da ordem de 15% no momento das revisões e renegociações contratuais. Ou seja, com a estatização dos ser viços de água em Paris, a população não só teve uma adequação tarifária abaixo da média do país, como deixou de www.brasilengenharia.com


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C A PA / E S P E C I A L contar com os investimentos necessários para manter a qualidade dos ser viços. Na visão dos especialistas, o fato é que a gestão dos ser viços públicos de água e esgoto tem de ser bem feita, pois os cidadãos merecem e têm direito a ela. Se ela é feita por empresas públicas ou privadas é uma decisão política. O problema é que a polarização ideológica entre privatização e estatização gera distorções. Fica claro que, no Brasil, queremos ser Paris no que diz respeito à água, mas estamos muito longe disso. No Estado de São Paulo e na capital paulista, onde os ser viços de água e esgoto prestados a mais de 90% da população são de responsabilidade de operadores públicos, a cobertura do atendimento e a qualidade dos ser viços estão muito abaixo do nível oferecido na França. Não é preciso lançar mão de estudos aprofundados para comprovar essa informação: basta comparar a qualidade das águas do Rio Sena com as dos rios Tietê e Pinheiros. Ou seja, o que houve em Paris é inspirador. Mas só funcionará no Brasil quando os ser viços públicos de água e esgoto estiverem universalizados, bem regulados por agências e bem geridos. Para chegar lá, o país tem de fazer o mesmo caminho que Paris fez: estabelecer uma parceira séria e justa com as empresas privadas do setor. Como contraponto, existe o interessante caso de Manaus, capital do Amazonas. Trata-se hoje da sétima maior cidade do país, tendo vivido, desde o início deste século, um acelerado processo de crescimento populacional. Toda essa expansão tem como ref lexo o impacto no saneamento da cidade – porta de entrada da maior f loresta do mundo, com enorme diversidade biológica e imensurável valor ambiental. Segundo os especialistas consultados, a iniciativa privada teve grandes problemas quando entrou em Manaus no início do século, pela Suez Brasil, na época. Foi pago um preço por uma empresa que era só de Manaus, não do Estado de Amazonas. Quando se deram conta, foi comprada uma empresa que atendia 1,1 milhão de habitantes, que tinha 90% dessa população teoricamente atendida em

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água e 11% dessa gente atendida em esgoto. Quando foi realizada a devida checagem verificou-se que eram 1,5 milhão de habitantes. havia 400 000 pessoas que existiam, mas não estavam no cadastro da empresa. E que consumia água sem pagar. Eram as pessoas das ocupações ilegais. Sabe-se que Manaus cresceu em cima da f loresta. Segundo dados do Panorama 2018 da Abcon, ao tempo da concessão dos ser viços à iniciativa privada, em 2000, a situação de Manaus era realmente insustentável. A companhia estadual de saneamento do Amazonas (Cosama) registrava em seu balanço daquele ano um prejuízo operacional de 50 milhões de reais. A cobertura de rede de água era de 76% e a de esgoto, somente 3% . Os editais estabeleceram como meta chegar a 91% de cobertura de água e atingir 11% de esgoto. A inadimplência girava em torno de 70% . Relatórios faziam menção a 25 000 reclamações de falta de água por mês. Nos cinco primeiros anos de atuação, a concessionária privada concentrou esforços na regularização do abastecimento e na melhoria da qualidade da água, com a implantação de uma nova estação de tratamento e a modernização da estação de tratamento de água que já operava na cidade. O investimento no período de 2000 a 2005 foi de 300 milhões de reais. Em 2007, a concessão passou a ser administrada por uma nova holding. No período, a operação veio a incluir mais 600 000 pessoas no sistema de abastecimento, passando a atender 95% da cidade com cobertura da rede de água. O investimento alcançou 700 milhões de reais nessa fase. A partir de 2012, já sob a denominação Manaus Ambiental, a concessionária, favorecida pelo fortalecimento regulatório da operação, iniciou novo ciclo de investimentos. Até o final da concessão, algo como 4,31 bilhões de reais serão aplicados, não apenas em abastecimento de água, mas também em esgotamento sanitário. Em meados de fevereiro passado a Aegea Saneamento anunciou a assinatura do contrato de compra e venda das ações da Companhia de Saneamento do Norte, que contro-

la a Manaus Ambiental, responsável pela prestação dos ser viços de água e esgoto em Manaus. Após a finalização das aprovações necessárias, a empresa administrará as subsidiárias Manaus Ambiental S.A. e Rio Negro Ambiental, Captação, Tratamento e Distribuição de Águas SPE S.A. Já a Suez Brasil, que no ano 2000 teve a experiência relatada acima em Manaus, hoje tem um projeto que merece menção, em Olinda (PE). Além de ser muito conhecida pelas belas praias, pelo carnaval e seus famosos bonecos, Olinda tem mais um motivo para celebrar. O projeto Olinda + Água é a promessa da Compesa para resolver definitivamente os problemas de abastecimento de água na cidade, desta vez em parceria com a iniciativa privada. Líder do Consórcio Nova Olinda, a Suez Brasil estuda a rede de abastecimento da cidade, buscando soluções para reduzir significativamente as perdas de água tratada no sistema. A implantação e substituição da rede de abastecimento, a construção de novos reservatórios, a nova divisão do sistema em setores e a implantação de ações de redução de perdas resultarão na melhoria da eficiência operacional do ser viço como um todo e na economia de 48,5 milhões de metros cúbicos de água. Ao todo, 15 bairros serão impactados pelas mudanças, o que representa 56% da cidade e 250 000 habitantes beneficiados. Segundo a Abcon, o entendimento do poder público em relação à necessidade da parceria público-privada na execução dos ser viços irá proporcionar ao município de Olinda a melhoria e a regularização do abastecimento de água. Desde o início do contrato de performance, em 2016, já houve a redução nas perdas de água e abastecimento mais regular. Além das obrigações contratuais, a Suez vem promovendo ações para sensibilizar a população quanto à necessidade de preser var praias e mares. Dentro do programa #SUEZ4Oceans, a equipe socioambiental do Consórcio Nova Olinda lidera todo ano um mutirão de coleta de resíduos sólidos, em particular os plásticos, esclarecendo a população sobre os problemas causados pelo seu descarte inadequado no mar. www.brasilengenharia.com


EMPRESÁRIOS ANTECIPAM O QUE VEM POR AÍ E O QUE TÊM PARA OFERECER

EMPRESÁRIOS ANTECIPAM O QUE VEM POR AÍ E O QUE TÊM PARA OFERECER

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ntrevistamos para esta edição um grande número de empresários e gestores da iniciativa privada. Perguntamos, por exemplo, se, neste ano, as eleições gerais poderiam esfriar ainda mais os negócios da concessão de ser viços de saneamento e fornecimento de água e se a expectativa é que tenhamos em 2018 um ritmo estável de evolução de novas concessões plenas ou parciais entre os municípios – ou se é totalmente o contrário disso. O diretor da Perenge, Paulo Eduardo Raposo, lembra que as eleições deste ano se realizarão em nível estadual e federal, mas apesar disso causar algum impacto certamente este abalo é menor do que quando são realizadas eleições em nível municipal. “Nas ocasiões de eleições em nível municipal, para escolha de prefeitos e vereadores, é que acontecem os maiores conf litos de natureza política local, que inf luenciam em muito as decisões administrativas para realização de concessões.” — Pode comentar a modelagem das concessões a cargo da Perenge? Quais são elas? Há PPPs? Pode citar a ordem de investimentos de cada uma das concessões? — perguntamos a Raposo. www.brasilengenharia.com

“A Perenge trabalha neste setor há 18 anos, desde quando assumiu, no início do ano 2 000, a concessão dos ser viços de água e esgoto da cidade de Sorriso no Estado de Mato Grosso. Naquela ocasião em todo o Brasil existiam apenas 15 concessões totais ou parciais. Em 1999, o governo mato-grossense, através de consultoria do Banco Mundial, concluiu que a empresa estatal estava completamente fora do contexto e com situação tal que seria impossível sua recuperação. Optou então por ‘devolver’ aos municípios os sistemas que administrava. Alguns desses municípios buscaram ajuda da iniciativa privada, promovendo licitações para a concessão de seus sistemas de água e esgoto. Como a Perenge já atuava há anos no estado, realizando trabalhos para a antiga estatal – a Sanemat –, ela participou das licitações e, vencendo-as, passou a administrar em apenas três anos nada menos que cinco concessões plenas municipais. Além de Sorriso, passou a atuar em Guarantã do Norte, Matupá, Claudia e Carlinda. Pouco tempo depois, em 2004, obteve também a concessão de Novo Progresso, no Estado do Pará. Em

2014 a Perenge transferiu essas concessões para outra empresa e passou a dedicar sua atenção a municípios do Estado de São Paulo. Atualmente, associada à empresa Terracom, possui as concessões de água e esgoto das cidades de São Sebastião da Grama e Casa Branca, sendo esta em início de operação. Os referidos contratos são concessões diretas, sem a participação do setor público em sua operação/investimentos, ou seja não são PPPs. Na concessão da cidade de São Sebastião da Grama, nosso consórcio já investiu nesse pouco mais de um ano cerca de 3 milhões de reais, remodelando totalmente a Estação de Tratamento de Água. E está prestes a entregar o sistema de tratamento de esgoto que vai atender 100% da população da cidade. Em Casa Branca os trabalhos estão se iniciando com o compromisso de investir 43 milhões de reais no período da concessão.” Sobre a agilidade nas metas contratadas pelas concessionárias privadas – o que evidentemente inclui a Perenge –, os estudos da Abcon pontuam que investimento, gestão e foco para que as soluções sejam implantadas rapidamente, fazem parte da cultura das empresas privadas, e não seria diferente no setor de saneamento. Não raro, as concessionárias se superam em vários aspectos, antecipando muitas vezes as metas contratadas. Um exemplo recente ocorreu justamente no pequeno Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

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Paulo Eduardo Raposo, diretor da Perenge engenharia 637 / 2018

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município de São Sebastião da Grama, no interior paulista. Em outubro de 2016, a concessionária Águas de São Sebastião da Grama iniciou a operação na cidade, realizando, de imediato, a completa reforma da Estação de Tratamento de Água, já citada, efetivando a substituição dos materiais filtrantes e a remodelação total da estação elevatória de água tratada. Ainda dentro do primeiro ano da concessão, a concessionária executou as obras da Estação de Tratamento de Esgotos mostrando agilidade e comprometimento em relação às metas e prazos determinados. O tempo para entrega foi estipulado em 24 meses. Iniciados os trabalhos de reforma, a concessionária providenciou os projetos dos coletores-tronco, dos interceptores, das elevatórias, do emissário final e da ETE, necessários para execução das obras programadas. A concessionária se superou e inaugurou recentemente o sistema, adiantando em sete meses a previsão contratual de conclusão. Com isso, o município passa a fazer parte do ainda reduzido rol de cidades totalmente saneadas no Brasil, com 100% da população devidamente abastecida com água potável e praticamente a totalidade da cidade ser vida com sistema de coleta e tratamento de esgoto. — Quando a Perenge assumiu os respectivos contratos, as cidades tinham quanto por cento de tratamento de esgoto? De quanto por cento é o tratamento hoje? — prosseguimos com Raposo. “Os contratos de concessão que a Perenge administrava nos estados de Mato Grosso e Pará, encontraram uma situação precária nas cidades no momento do início das operações, onde sequer havia qualquer rede coletora de esgoto. Mesmo os sistemas de abastecimento de água eram extremamente precários. Sorriso, por exemplo, cidade que na ocasião possuía cerca de 25 000 habitantes, tinha menos da metade da população atendida com sistema de abastecimento de água. Hoje Sorriso tem população da ordem de 80 000 habitantes, com 100% atendida com sistema de água e cerca de 50% com sistema de esgoto coletado e tratado.

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Luiz Pannuti Carra, diretor da Cia. Saneamento de Jundiaí (CSJ)

As demais cidades tinham situação semelhante ou pior, e hoje, com os sistemas de abastecimento de água devidamente implantados, partem para a implementação das redes de coleta e o tratamento dos esgotos. Novo Progresso, por exemplo, já possui cerca de 70% da população atendida com sistema completo de esgoto. Guarantã do Norte e Claudia possuem cerca de 50% da população atendida com esgoto coletado e devidamente tratado. As demais estão com suas obras em andamento. Já, a cidade de São Sebastião da Grama, no Estado de São Paulo, em poucos dias poderá ter 100% de sua população atendida com o sistema de esgoto completo, inserindo-se no rol das cidades brasileiras totalmente saneadas.” — Qual o papel da população das cidades no processo de concessão sob a batuta da Perenge? — solicitamos de Raposo. “No início das operações, fruto de divergências políticas, de dúvidas com relação à presença do operador privado e de expectativa com relação aos valores das tarifas, a população mostra-se arredia. Mas a experiência demonstra que em pouco tempo, com o trabalho desenvolvido, essas dúvidas e expectativas vão se clareando e a população passa a apoiar a concessionária. É importante salientar que é realizado um trabalho grande de conscientização

junto escolas, realização de audiências públicas para esclarecimento de dúvidas etc. Com isso passa a haver uma sinergia grande entre a concessionária e a população.” — De uma forma mais abrangente, o senhor tem ideia de quais municípios onde há expectativa de novas concessões desses serviços nos próximos tempos? Até hoje quantos municípios já concederam Brasil afora? Qual o potencial? — arguimos a seguir. “É difícil se identificar os municípios onde poderão ocorrer concessões. Muitas são as variáveis que direcionam o município para esta opção. Como exemplo pode-se citar as ações que o Ministério Público vem desenvolvendo junto às municipalidades no sentido de serem resolvidas as questões ambientais, sejam elas relacionadas a abastecimento deficitário de água ou a inoperância dos sistemas de esgoto, com poluição dos cursos d’água. Hoje existem por todo o Brasil 322 municípios com a presença da iniciativa privada atuando no saneamento, seja através de concessões plenas – água e esgoto –, parciais [água ou esgoto] ou PPPs. Não existe potencial claro para a presença da iniciativa privada, mas esta, com certeza, está à espera de novas oportunidades.” — Pode falar sobre uma medida provisória que deverá impactar diretamente no subsídio cruzado? Essa medida é uma ameaça? — questionamos Raposo. “Por partes: primeiro, a medida provisória referida traz, como principal item de discórdias, a necessidade dos municípios levantarem publicamente sua intenção de fazerem uma concessão antes de transferir os sistemas diretamente a empresas públicas. Se houver outros interessados deverá ser feita licitação, podendo, lógico, as companhias estaduais participarem. Que mal há nisso? A colocação que os contrários à MP fazem com relação a impacto no subsídio cruzado não se comprova, é mero discurso. As companhias estaduais foram criadas, em geral, há mais de 40 anos e mesmo contando com o dito ‘subsídio cruzado’ não conseguiram levar o país a uma situação que fosse pelo menos razoável na www.brasilengenharia.com


S PE M TNUE 4A0MAE N O CO N C EESS Õ ECISADL EE SA TOS questão do saneamento. Por que agora isso seria impactante? A iniciativa privada, tanto quanto as estatais, atuam em municípios de qualquer tamanho, independente de seu porte e com tarifas muito próximas ou geralmente inferiores às das companhias públicas. Tome-se como exemplo o Estado de Mato Grosso. De 39 municípios com os ser viços de saneamento administrados pela iniciativa privada, 28 – ou 72% – possuem população inferior a 25 000 habitantes, seis – isto é, 15% – têm população entre 25 000 e 50 000 habitantes e somente cinco, ou seja 13% , têm população superior a 50 000 habitantes. Veja-se então que a iniciativa privada não segrega qualquer município pelo tamanho de sua população. Na verdade a MP vai trazer a realidade jurídica para o setor. Por que o município deve entregar seus sistemas de água e esgoto a uma companhia estatal sem uma licitação? Será que o setor privado não pode oferecer uma situação melhor para o município, seja com pagamento de outorga ou com tarifas mais realistas? Outra coisa importante é a regulamentação e fiscalização dos ser viços e do cumprimento de metas. Passados os cerca de 40 anos as empresas estatais, salvo raras exceções, não conseguiram cumprir adequadamente seus contratos e como exigir seu cumprimento? Com a iniciativa privada isso pode ser feito com muito mais rigor.” — Em faturamento, a participação privada até pouco tempo atrás girava em torno de 6,5% . Mesmo assim, os investimentos privados já correspondiam a algo como 15% do total investido/ ano no país. O senhor acha que há condições de dobrar estes números nos próximos dez anos? — colocamos para Raposo. “Acho sim que a iniciativa privada pode dobrar esses números. Sua capacidade e velocidade para alavancar recursos são muito maiores que a do setor público, principalmente diante dos problemas econômicos e financeiros por que passa o país. E para isso, em minha opinião, a questão levantada pela medida provisória citada, deve auxiliar em muito, pois permitirá que mais cidades/sistemas possam ser disputados. Hoje, atendendo a apenas 15% da população a iniciativa privada investe 20% do total dos recursos destinados ao saneamento básico no Brasil.” De seu lado, Luiz Pannuti Carra, diretor da Cia. Saneamento de Jundiaí (CSJ), informa que o modelo de concessão adotado em Jundiaí foi concessão precedida de obra pública (em inglês BOT: build, operate, transfer). “Após ter investido pesadamente em coleta e afastamento de esgoto, o município ainda não tinha nenhum tratamento, e promoveu uma concorrência pela menor tarifa para construir e operar a ETE Jundiaí. Foi contratada a CSJ, e em valores atuais, o investimento acumulado na ETE foi de 230 milhões de reais. A ETE Jundiaí entrou em operawww.brasilengenharia.com

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ção em setembro de 1998, e até hoje trata todo o esgoto coletado. Em 1983, quando teve início o processo de despoluição, o Rio Jundiaí era mais poluído do que o Rio Tietê, e o município de Jundiaí era responsável por 70% da poluição do rio. A despoluição sempre foi apoiada pela população, que tem uma forte consciência ambiental. Os bons indicadores de saneamento, além de reduzirem doenças, ser viram para atrair várias indústrias. Todos saem ganhando com o saneamento. O processo de despoluição deu bons resultados, e hoje podemos comemorar a melhora da qualidade do rio. Pelo que sei, foi o primeiro rio brasileiro a ter sua poluição reduzida e mudar para uma classe melhor.” A universalização no tratamento de esgoto, a despoluição do Rio Jundiaí e o avanço na infraestrutura foram frutos de um consenso entre o governo estadual, a comunidade de Jundiaí e as indústrias locais. Foi o entendimento dessas três esferas sobre a necessidade de despoluir o Rio Jundiaí na década de 1980 que permitiu o estabelecimento de políticas de defesa ao meio ambiente, entre elas a parceria com a iniciativa privada na solução do esgotamento sanitário. A cidade de Jundiaí possui um dos melhores IDH’s (Índice de Desenvolvimento Humano) do país e foi considerada pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) um dos melhores lugares do Brasil para se viver. Não por acaso, importante protagonista desse cenário é a CSJ, concessionária responsável pelo tratamento de esgoto na cidade. Antes da concessão, o esgoto era o principal poluidor do Rio Jundiaí. Em 2017, o trecho entre a foz do Ribeirão São José e a foz do Córrego Barnabé no Rio Jundiaí deixou a Classe 4 e passou a ser enquadrado como Classe 3, na proposta aprovada pelos Comitês PCJ (Comitês das Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e posteriormente no CRH (Conselho Estadual de Recursos Hídricos). A decisão fundamentou-se na melhoria dos indicadores de qualidade da água obser vada no rio, cuja água se tornou própria para o abastecimento público.

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Foto: Divulgação

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Vincent Menu, superintendente da Companhia Ituana de Saneamento (CIS)

Na sequência de nossas entrevistas, pedimos a Vincent Menu, superintendente da Companhia Ituana de Saneamento (CIS), que comentasse o interessante caso ituano de duas recentes concessões privadas (uma de esgoto e outra de água) que não deram certo. — Por que houve o malogro e quais foram as concessionárias privadas? — perguntamos a Menu. “Posso comentar essa experiência analisando as duas concessões de forma distinta, pois elas ocorreram num espaço de tempo de 20 anos. No caso da concessão do tratamento de esgoto, a intenção do governo à época iniciou-se no ano de 1995, em um momento de grande crescimento das questões ambientais relacionadas à proteção dos recursos hídricos. Como se recorda, antes essas questões estavam mais focadas na produção industrial e ao uso sustentável dos recursos naturais. Optou-se assim, através da autarquia Ser viço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), pela concessão à iniciativa privada do sistema de tratamento de esgoto, cujo principal objetivo seria a construção e operação de duas estações de tratamento. Através da realização de um processo licitatório, sagrou-se vencedora a empresa CAVO [Companhia Auxiliar de Viação e Obras]. A remuneração prevista era de acordo com o volume de esgoto tratado, com vigência de 20

anos. No entanto, três anos depois do início das operações da principal estação de tratamento de esgoto, a Justiça, através de processo movido pela concessionária, determinou a devolução do ser viço ora concedido novamente ao município. Isso ocorreu após uma série de embates envolvendo discussões de ordem técnica e econômica.” — Foi difícil para a municipalidade assumir novamente o serviço? — prosseguimos com Menu. “O município, ao reassumir o ser viço, teve que se reestruturar a fim de garantir a operação do sistema. Contudo, passou a conviver com constantes decisões judiciais em favor da concessionária, que aliadas a questões provavelmente políticas podem ter contribuído para o desequilíbrio das contas da autarquia. Alegando a existência de uma dívida junto à antiga concessionária CAVO e também da afirmação de que o SAAE naquele momento era incapaz de realizar os investimentos necessários para aumentar a oferta de água no município, o prefeito, então em exercício em 2006, iniciou naquele ano um estudo para que o ser viço fosse concedido de forma plena – água e esgoto – para uma empresa privada. Sagrou-se vencedora, após a realização de uma concorrência pública, a empresa Equipav, a qual denominou como Águas de Itu a nova concessionária que administraria o sistema por 30 anos. E que deveria, segundo o contrato, investir 77 milhões de reais. Contudo, passados quatro anos, a concessionária sofreu uma alteração societária, quando o Grupo Bertin assumiu o comando e promoveu uma série de mudanças administrativas, afetando inclusive sua alta direção. A partir daí, falhas contratuais começaram a ser percebidas e a falta de investimentos ficou evidente. Vários processos foram abertos e a concessionária recebeu inúmeras multas. Dado este cenário e com o agravante da crise hídrica que assolou o Estado de São Paulo em 2014 – quando a concessionária Águas de Itu mostrou-se inerte –, a prefeitura decidiu a inter venção no ser viço em 2015, e após um ano decretou a caducidade do contrato, www.brasilengenharia.com


em 2016, após ter a comprovação de inúmeras irregularidades.” Algumas curiosidades que muita gente alimenta: antes das concessões Itu tinha quanto por cento de tratamento de esgoto? Durante as concessões isso aumentou ou diminuiu? E hoje, com a volta do poder público municipal ao comando das ações, como está a situação do município? De quanto por cento é o tratamento hoje? Segundo Menu, a decisão pela concessão do tratamento de esgoto foi justamente em função da inexistência deste ser viço no município na época. “A concessionária CAVO construiu a primeira estação de tratamento de esgoto, a ETE Canjica, inaugurada em 1998, que responde pelo tratamento dos esgotos de 81,14% da população ituana. Recentemente a Companhia Ituana de Saneamento, a CIS, inaugurou a segunda estação de tratamento, a ETE Pirajibú, que responderá em breve pelos outros 18,86% .” — Qual o papel representando pela população ituana no processo de concessão, anos atrás? Aceitou e colaborou? Ou ficou indiferente? E hoje como está a situação – a população está satisfeita? — concluímos com Menu. “Nos dois casos houve repercussão quando o poder executivo tomou a decisão de transferência dos ser viços ao setor privado. No caso do esgoto, como a concessão foi parcial, a repercussão, embora negativa, foi um pouco menor. Mas no caso da concessão plena, mesmo feita 11 anos depois, e por conta de uma primeira experiência controversa e com resultados negativos, já houve uma maior oposição da população. As duas experiências negativas vividas em Itu nos últimos 20 anos, contribuíram para que o ser viço fosse remunicipalizado, e hoje em dia o ambiente é pouco favorável a uma nova concessão dos ser viços de água e esgoto para o setor privado. Atualmente, com a criação da CIS, em 2017, revelou-se uma face mais compreensiva da população, que quer acreditar no sucesso da companhia, apesar de um histórico de tantos anos com os ser viços aquém do nível de qualidade requerido.” www.brasilengenharia.com

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GRUPO GS INIMA BRASIL

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s principais empresas da GS Inima Brasil são Ambient (Ribeirão Preto), Araucária (Campos do Jordão/SP), Caepa (Paraibuna/ SP), Comasa (Santa Rita do Passa Quatro/SP), Samar (Araçatuba/ SP), Sanama (Maceió/AL), Sanevap (São José dos Campos/SP) e Sesamm (Mogi Mirim/SP). As concessionárias do Grupo têm uma especial preocupação com o meio ambiente e conscientização da população sobre o assunto. Presente em diversos países de quatro continentes, e referência mundial em saneamento, a GS Inima tem na região de Ribeirão Preto uma das bases da atuação do grupo no Brasil. Por meio de contratos de concessão com as prefeituras, a empresa está em Ribeirão Preto e Santa Rita do Passa Quatro, cidades que caminham para universalização do saneamento básico. Determinada a conquistar cada vez mais o mercado brasileiro, mesmo neste momento de crise econômica no país, a GS Inima Brasil mantém os investimentos nos dois municípios, tanto em obras, quanto em modernização de equipamentos, gestão e qualificação técnica. Como resultado, Ribeirão Preto, historicamente, é uma das cidades mais bem avaliadas em saneamento pelo estudo anual do Instituto Trata Brasil,

o mais importante sobre o tema. O conjunto de obras de saneamento que estão sendo realizadas em Ribeirão Preto pela GS Inima Brasil, por meio da Ambient, encaminha a cidade para atingir a meta de 100% de coleta e tratamento de esgoto. O avanço significa rios e córregos mais limpos e, consequentemente, vida mais saudável para a população. Executadas desde junho de 2016 e com previsão de término no início de 2019, as obras incluem a construção de aproximadamente 97 quilômetros de novos interceptores e coletores de esgoto. Também serão construídas duas novas estações elevatórias. O investimento da concessionária tem como objetivo atender à demanda gerada pela expansão do município. Trata-se de uma das maiores obras de saneamento em andamento no Estado de São Paulo. Enquanto que em Santa Rita do Passa Quatro, com apenas um ano de gestão da Companhia Águas de Santa Rita (Comasa), empresa do grupo, o município ganhou o título de Cidade Saneada, concedido pela publicação anual Panorama da Iniciativa Privada no Saneamento 2017, referência na avaliação de indicadores de desenvolvimento econômico e social da iniciativa privada no setor. Com um conjunto de mais de 30 engenharia 637 / 2018

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C A PA / E S P E C I A L ações, Santa Rita do Passa Quatro, cidade de aproximadamente 27 000 habitantes, avançou para chegar à dianteira quando o assunto é saneamento básico, beneficiando a população e fortalecendo as vocações do município, inclusive o potencial turístico. A atuação da Comasa mudou rapidamente o panorama do saneamento em Santa Rita do Passa Quatro com esse conjunto de ações. Em um ano, a empresa investiu em uma ampla reforma em toda a estrutura física da empresa, do prédio administrativo às estações de tratamento de água e esgoto, incluindo a modernização do laboratório de controle de qualidade. Na ETE Marinho, as soluções da equipe técnica elevaram a remoção de carga orgânica do esgoto de 55% para 80% . Na prática, a medida eliminou o odor que atingia bairros da cidade e ajuda a preservar o córrego para onde é destinado o esgoto tratado. Toda a estrutura de atendimento ao público também foi remodelada com a implantação do contato via site, aplicativo, 0800, além de uma loja física. Ao todo, a GS Inima Brasil está presente em cinco municípios do interior de São Paulo. Ainda projetou e construiu a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Pararangaba, em São José dos Campos, e a ETE Araucária de Campos do Jordão, uma das mais modernas do país. O grupo também está em Alagoas. Na capital, Maceió, trabalha para implantação e operação do sistema de tratamento de esgoto da parte alta da cidade (Sanama), onde é responsável por todos os ser viços de gestão comercial do sistema de água. SANEAMENTO É SAÚDE – Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para cada dólar investido em água e saneamento, são economizados 4,3 dólares em saúde. Em estudo divulgado este ano, o Instituto Trata Brasil trouxe a constatação para a realidade brasileira e apontou que a universalização do saneamento básico em 20 anos traria ao país benefícios econômicos e sociais de 537 bilhões de reais. Ganhos concretos, especialmente nos setores da saúde, educação, produtividade, turismo e valorização imobiliária. Em um

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contexto no qual aproximadamente 50% da população brasileira não têm acesso à coleta dos esgotos e somente 42% dos esgotos são tratados, a empresa objetiva colaborar para a universalização dos serviços de saneamento básico no país. Sempre com a meta de prestar o melhor serviço com eficiência, qualidade e soluções sustentáveis. Qualidades que estão no DNA da GS Inima Brasil. Como citado, a Ambient Concessionária é responsável pelos ser viços públicos de tratamento e destino final dos esgotos sanitários da cidade de Ribeirão Preto (SP). Entre outras conquistas, em 2011 a ETE Ribeirão Preto foi a primeira a implantar o sistema de geração de energia elétrica no país a partir do biogás produzido no processo de tratamento. Assim são gerados cerca de 15 000 kw/h por dia, o que possibilita à ETE uma eficiência energética. A ETE Caiçara responde pelo tratamento dos demais 14% do esgoto da cidade e possui uma tecnologia de lodos ativados com aeração prolongada, obtendo uma eficiência de 95% na remoção da matéria orgânica. Ribeirão Preto foi a primeira cidade com mais de 500 000 habitantes a atingir a marca de 98% do esgoto tratado. Hoje são 130 milhões de litros de esgoto tratado por dia, ref letindo qualidade de vida para a população, menos gastos com a saúde pública e preser vação do meio ambiente. A Araucária Saneamento está sediada em Campos do Jordão (SP). A empresa teve por responsabilidade a implantação do sistema de coleta, afastamento e tratamento do esgoto do município. Com capacidade de 230 litros/segundo, visa atender uma população de 80 000 habitantes. A estação de tratamento tem capacidade para atender a alta temporada, ampliando a 300 000 visitantes. Os investimentos de 115 milhões de reais contam com membranas de ultrafiltração, uma tecnologia utilizada pela primeira vez no Brasil para o tratamento de esgotos domésticos. Por ter uma vocação predominantemente turística, a cidade requer, com prioridade absoluta, a permanente preser vação do meio ambiente. Assim o projeto de tratamento foi concebido para não

provocar qualquer impacto negativo nas áreas situadas em seu entorno. A estação conta com controle de ruídos e um sistema de tratamento de gases que elimina os odores, além de produzir um ef luente com características de águas reutilizadas. A unidade é a primeira estação coberta no Brasil, semelhante à unidade de Mônaco na Europa. A Companhia de Água e Esgoto de Paraibuna S.A. (Caepa), é a concessionária responsável pelos serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário da cidade de Paraibuna (SP). O contrato de concessão, que foi assinado em 2015, visa atender à população em abastecimento de água coleta e tratamento do esgoto de 18 000 habitantes. Com o intuito de modernizar e reduzir perdas no abastecimento de água na cidade, a Caepa investe no sistema de abastecimento de água que é realizado através de captação superficial e cinco poços artesianos que, após o tratamento através da estação de tratamento de água realizada por f loculação, torna a água potável para consumo humano. A Companhia Águas de Santa Rita S.A. (Comasa) – também já comentada – é a concessionária responsável pelos ser viços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário da cidade de Santa Rita do Passa Quatro (SP). O contrato de concessão que foi assinado em abril de 2016, com um horizonte de 30 anos. Com o objetivo de modernizar, otimizar e aumentar a confiabilidade de todo o sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário, a Comasa investirá em todas as unidades operacionais, contemplando duas captações de águas superficiais seguidas de tratamento em uma estação de tratamento, dois poços artesianos, oito reser vatórios, estações elevatórias de água e esgoto e duas estações de tratamento de esgoto. A Soluções Ambientais de Araçatuba S.A. (Samar) é a concessionária responsável pelos serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário da cidade de Araçatuba (SP). A Samar atende a uma população de aproximadamente 200 000 habitantes. Operando três estações de tratamento de água, com www.brasilengenharia.com


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A Saneamento do Vale do Paraíba S.A. (Sanevap) está sediada em São José dos Campos (SP), uma cidade com população atual de aproximadamente 630 000 habitantes. A empresa teve por responsabilidade a implantação do sistema de coleta, afastamento e tratamento de esgotos da bacia do Rio Pararangaba, com capacidade nominal de 410 litros/ segundo. O contrato, que complementa e universaliza o sistema de esgotamento sanitário do município, atendendo a uma população em torno de 150 000 habitantes, se estenderá por 20 anos. Os investimentos atingiram o total de 86 milhões de reais e compreenderam a construção e montagem de um sistema composto por coletores troncos, elevatórias de esgotos, linhas de recalque, estação de tratamento de esgotos, nível

secundário do tipo lodos ativados, com aplicação de oxigênio puro e emissário final. A Sesamm é a concessionária responsável pelos ser viços públicos de tratamento e destino final do esgoto sanitário da cidade de Mogi Mirim (SP), que atualmente conta com 110 000 habitantes. Os investimentos já realizados contam com uma estação de tratamento de esgoto e 16 quilômetros de coletores, interceptores e emissários. Com investimentos da ordem de 64 milhões de reais, a empresa trata 65% do esgoto do município, aproximadamente. A ETE Mogi Mirim possui tecnologia de lodos ativados com aeração orbal tipo carrossel e capacidade de tratamento de 150 litros/ segundo e eficiência de 96% na remoção da carga orgânica.   GRUPO ÁGUAS DO BRASIL

GRUPO ÁGUAS DO BRASIL

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Grupo Águas do Brasil – Saneamento Ambiental Águas do Brasil (SAAB) – é destaque no setor de concessões privadas prestadoras de ser viços de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos no país. Com um corpo técnico experiente e grandes investimentos em inovação e na implantação de novas instalações, suas concessões têm levado mais qualidade de vida e saúde a milhões de pessoas. Com atuação desde 1998, o Grupo é 100% nacional e tem como objetivo contribuir para equacionar o desafio do saneamento básico no

Brasil, universalizando os ser viços. Por meio de parcerias de sucesso com empresas privadas, prefeituras e demais órgãos públicos dos municípios onde atua, Águas do Brasil está entre as principais organizações do país no setor. Tanto é assim que tem 15 municípios atendidos, mais de 4 000 colaboradores, 14 concessionárias, população total atendida superior a 6 milhões de habitantes, e contratos de longo prazo de concessão com mais de 25 anos. Em entrevista para esta edição, o diretor do Grupo Águas do Brasil, Carlos Eduardo Castro, esclareceu, entre vários outros www.brasilengenharia.com

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produção em média de 1,9 bilhão de litros por mês, a Samar foi a concessionária da primeira cidade não ribeirinha a captar, tratar e distribuir água do Rio Tietê para o abastecimento público. Os investimentos são realizados visando ampliar e aprimorar os serviços prestados à população, como a construção de 41 quilômetros de redes de distribuição de água e 42 quilômetros de redes coletoras de esgoto, além das obras de controle de perdas de água, operação e manutenção em bombas e estações de tratamento entre outros. A Samar trata 100% do esgoto que é coletado na cidade, através de uma estação de tratamento com sistema de lodos ativados retirando 95% da carga orgânica presente no esgoto. Uma pequena parcela é tratada através de lagoas de estabilização, o que garante saúde e qualidade de vida aos munícipes. Em relação à conscientização e preocupação com o meio ambiente, a Samar desenvolve várias ações junto à comunidade. Através do “Amigos do Meio Ambiente”, um viveiro permanente de plantio de mudas, a empresa ref loresta áreas na cidade envolvendo a comunidade nas ações que buscam melhorar a qualidade de vida. A empresa também fornece recipientes para coleta de óleo usado dando o destino correto. Realizado anualmente, o Concurso de Desenho Samar tem o objetivo de incentivar e valorizar a construção pedagógica no cotidiano escolar. O concurso recebe desenhos de alunos com idades entre seis a dez anos e os temas são a respeito de sustentabilidade e preservação do meio ambiente. Os melhores trabalhos são premiados pela empresa. A Saneamento Alta Maceió S.A. (Sanama) é a concessionária responsável pelos serviços públicos de esgotamento sanitário da parte da Alta Maceió (AL). O contrato prevê a construção e operação de redes coletoras, interceptores, estações de tratamento e destino final dos esgotos gerados por aproximadamente 300 000 habitantes de Maceió. A empresa também realiza os serviços de gestão comercial da água, em toda área da concessão. O contrato prevê investimentos da ordem de 147 milhões de reais, com prazo de 30 anos.


assuntos, que ainda há um bom número de projetos de concessão de saneamento em municípios brasileiros que ficaram parados com a entrada de novos prefeitos eleitos em 2016. Perguntamos se o motivo seria que o índice de reeleição foi muito baixo nos pleitos municipais. Ele respondeu que a alternância de governo provocada pelas eleições é sempre um fator que faz com que projetos que vinham sendo conduzidos pela gestão anterior sejam reavaliados. “Nesse sentido, é natural que haja um atraso, mas a necessidade de expansão dos serviços de água e esgoto permanece e certamente os prefeitos eleitos, ou reeleitos, precisarão buscar soluções. E a iniciativa privada tem interesse em ser parte da solução dos problemas de saneamento.” — Atualmente quantos contratos municipais existem sob as empresas concessionárias ligadas ao Grupo Águas do Brasil? — perguntamos a Castro. “O Grupo Águas do Brasil está presente em diversas regiões do Estado do Rio de Janeiro, nos municípios de Petrópolis, Araruama, Saquarema, Silva Jardim, Campos dos Goytacazes, Niterói, Resende, Nova Friburgo e Paraty. Em parceria com a empresa Zona Oeste Mais Saneamento, seus ser viços de saneamento básico também se estendem a 22 bairros da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Em São Paulo, o grupo atua nas cidades de Jaú, Araçoiaba da Serra e Votorantim. Em Minas Gerais, ele oferece os seus ser viços na cidade de Pará de Minas. O grupo também está presente em Manaus, capital do Amazonas.” — No Caso do Grupo Águas do Brasil, qual a expectativa da assinatura de contratos de concessão ainda em 2018? — continuamos com Castro. “O Grupo está desenvolvendo diversos estudos de PMI [Proposta de Manifestação de Interesse] e está habilitado em todas as licitações que foram lançadas até o momento. Porém, entraves judiciais têm impedido que alguns processos avancem. Mas a disposição da Águas do Brasil é sempre de disputar para vencer.” — Em termos de faturamento, a participação privada até pouco temwww.brasilengenharia.com

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Carlos Eduardo Castro, diretor do Grupo Águas do Brasil

po atrás girava em torno de 6,5% . Mesmo assim, os investimentos privados já correspondiam a algo como 15% do total investido/ano no país. Dá para dobrar esses números nos próximos dez anos? — questionamos. “Os operadores privados detêm esse market share há alguns anos e sempre estamos na expectativa de dobrar nossa participação nos dez anos seguintes, o que ainda não aconteceu. Para que de fato a participação privada seja ampliada nesse setor, além de uma maior segurança e estabilidade jurídica, é preciso que alguns entraves burocráticos sejam superados. Um desses pontos, que é a contratação direta das companhias estaduais de saneamento pelos municípios, está sendo tratado pelo governo federal, por meio de uma minuta provisória em discussão pelos ministérios das Cidades, Casa Civil e Planejamento para alterar e modernizar a Lei Federal 11.445/2007, que é o marco legal do saneamento.” — A sua expectativa é de que tenhamos em 2018 um ritmo estável de evolução de novas concessões plenas ou parciais entre os municípios, ou seria totalmente o contrário disso? — colocamos para Castro. “Em 2018 a expectativa é que os municípios avancem com seus processos, sejam PMIs ou licitações dos ser viços. Mas, no âmbito estadual, justamente por causa das eleições, é pouco provável que algum grande

processo ocorra. A expectativa de momento é que os estudos que estão sendo conduzidos pelo BNDES, no âmbito do PPI, sejam concluídos e apresentados aos governadores. Assim, os governantes que assumirem em janeiro de 2019 terão um instrumento em mãos para tomada de decisão visando a universalização dos ser viços de saneamento, podendo levar às companhias estaduais a possibilidade de associação com a iniciativa privada em suas mais diversas formas, ou seja, concessão plena, concessão parcial, subconcessão e PPP.” — Como são as modelagens das concessões privadas de serviços de saneamento? Há PPPs prevalecendo? — arguimos Castro. “Em geral os modelos tendem a ser de concessão ou subconcessão, que podem ser plenas – com os serviços de água ou esgoto – ou parciais – com apenas um dos ser viços –, pois o risco para o parceiro privado fica diluído, uma vez que não há contrapartida financeira do ente público, a não ser o pagamento regular de suas contas de consumo. As PPPs poderão ser adotadas pelas companhias estaduais, e até mesmo por municípios, mas a questão do fundo garantidor e a segurança para a realização dos investimentos precisará estar assegurada.” — Quando as empresas concessionárias assumem os contratos, as cidades aumentam muito significativamente as percentagens de tratamento de esgoto em relação ao nível anterior? — solicitamos. “Sim, via de regra é o que acontece, pois o operador privado tem uma capacidade de investimento comprovada e tem obrigações contratuais estabelecidas, fazendo com que os ser viços avancem conforme previsto no edital, de maneira célere.” — As populações das cidades têm sido favoráveis aos processos de concessão? — perguntamos. “O usuário de ser viços públicos, em geral, está interessado que a prestação dos ser viços ocorra com qualidade, regularidade e preço justo, não importando se o operador que está do outro lado é uma empresa pública ou privada. O usuário quer eficiência e um atendimento engenharia 637 / 2018

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C A PA / E S P E C I A L com qualidade, sem se importar com questões ideológicas que, muitas vezes, envolvem o tema saneamento. A iniciativa privada está presente em pouco mais de 320 municípios e seguramente há outros 300 que demandam por ampliação em seus sistemas de água e esgoto para atingir a universalização dos ser viços. Essa é a expectativa do nosso setor.” — Como vê a medida provisória que o governo pretende implantar e que deverá impactar diretamente no subsídio cruzado? — propusemos. “A MP ora em discussão, conduzida pela Casa Civil do governo federal, objetiva alterar o marco regulatório do saneamento no Brasil para fazer com que a expansão dos ser viços de água e esgoto avance, congregando os esforços dos entes públicos e privados. E, para isso, traz algumas alterações relevantes, como o papel de um órgão federal na regulação do saneamento no Brasil e a ampliação da competitividade no setor, estimulando o aumento da eficiência e colocando em xeque o subsídio cruzado entre municípios. Do ponto de vista de aumentar a competitividade e incentivar a eficiência, a exigência de chamamento público antes da assinatura do contrato de programa entre a companhia estadual de saneamento [Cesbe] e o município abre oportunidade para apresentação de mais propostas para a prestação dos ser viços, o que amplia a possibilidade do município de buscar pela melhor alternativa e comparar os projetos. Desta forma, há a possibilidade de selecionar a proposta mais vantajosa para os munícipes e de definir metas para universalização, considerando a capacidade de pagamento dos usuários e o horizonte de investimentos. E para o cidadão daquela localidade, os efeitos diretos seriam a possibilidade de redução das tarifas e o estabelecimento claro das metas para atendimento dos ser viços, seja no quesito qualidade ou mesmo de abrangência e alcance. Quanto à questão de que haja receio de se desestruturar o setor, o subsídio entre municípios precisa ser mais bem discutido, pois o modelo atual está centrado nessa premissa e há mais de 20 anos se discute que o saneamento será uni-

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versalizado nos 20 anos seguintes e isso não foi atingido. De onde se conclui que não é esse tipo de subsídio a solução para o setor. Deve-se ampliar a discussão para outras que envolvam eficiência da operação, a redução dos índices de perdas, o aumento da produtividade e a inovação tecnológica. Em minha opinião, acho que deve se discutir se está sendo dada a devida importância para a redução de custos ou até se está sendo incentivada a busca da otimização de recursos utilizados na operação e manutenção dos ser viços, assim como daqueles voltados para investimentos. Adicionalmente, é preciso considerar que o fato de haver o subsídio cruzado entre municípios não garante que o usuário de baixa renda tenha pleno acesso ao ser viço. O que é importante garantir – frise-se – é que os usuários da camada mais vulnerável da sociedade tenham o acesso garantido à água e esgoto e que possam pagar pelos ser viços uma tarifa compatível à sua condição social. O subsídio tem que ser, de fato, para quem precisa.” — Qual o senhor acha que é o maior entrave a um avanço mais célere dos serviços públicos de saneamento básico no Brasil? — adicionamos. “Muitas vezes ocorre uma discussão ideológica sobre quem deve prestar os ser viços de água e esgoto, um ente público ou privado, ao invés de haver um debate sério e ampliado voltado para a eficiência do setor e como é possível ampliar e assegurar o acesso da população a esses ser viços. Perde-se muito tempo discutindo ‘quem está certo’ em detrimento de se discutir ‘o que é o certo’, entendo eu.” — O senhor considera que é preciso parar de usar o saneamento para fazer política e passar a usar a política para fazer saneamento? — arguimos Castro. “Em algumas situações é possível identificar essa inversão, o que é uma pena. Se alguns entraves legais fossem removidos, a ampliação dos investimentos no setor poderia ganhar um impulso. Há um o projeto de lei do Senado [PLS-52, que cria o Regime Especial de Incentivos

para o Desenvolvimento do Saneamento Básico (Reisb)]. Esse projeto prevê a possibilidade de que o PIS/ Cofins devido pelas companhias de saneamento seja destinado a novos investimentos das empresas. Outra alavanca identificada é a MP que altera e moderniza a Lei 11.445/2007, citada anteriormente, que traz a questão do chamamento público e amplia a possibilidade de apresentação de mais propostas para a prestação dos ser viços.” — A propósito, há reclamações de que há falta de esforço para fazer valer o que está estabelecido pela Lei 11.445/2007. Como o senhor vê a questão? — prosseguimos com Castro. “A questão aqui é que a Lei 11.445/2007 foi o consenso possível para sua época e é inegável que ela trouxe avanços significativos para o setor. Mas, passados dez anos de sua vigência, é necessária não apenas sua atualização, mas também que sejam contempladas as variáveis presentes no momento que o país vive. Por exemplo, a necessidade de ampliar a eficiência do setor, a importância de metas claras e o respectivo comprometimento objetivo de investimentos, a qualidade da prestação dos serviços e a segurança regulatória. Com esses aperfeiçoamentos, é possível trazer todo o setor, com entes públicos e privados, para um círculo virtuoso.” — O jornal Valor Econômico publicou recentemente que quase 250 municípios se movimentavam para atrair o capital privado a investir em suas operações e melhorar os indicadores do setor. Como o senhor tem acompanhado essa questão? — solicitamos. “O Grupo Águas do Brasil tem mais de 20 anos de fundação e, desde a sua origem, se preocupou em estudar todo o mercado de saneamento brasileiro. Temos análises de muitos municípios país afora e estamos preparados, e com disposição, para disputar novos projetos pelo Brasil. Ainda mais que pelo último diagnóstico do Instituto Trata Brasil, quase 80% do esgoto de mais de 200 milhões de pessoas não passa por nenhum tratamento. O resultado são prejuízos à saúde das pessoas e à economia nacional. Não restam dúvidas de que é preciso conjugar todos os esforços para acabar com esse gigantesco déwww.brasilengenharia.com


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C A PA / E S P E C I A L neste ano de 2018 e possivelmente suas metas de universalização dos serviços de água e esgoto, previstas para até 2033, também serão revistas, uma vez que já estão seriamente comprometidas, já que o Brasil não conseguiu atingir nos últimos anos o investimento necessário para cumprir essa previsão.”

DEPOIMENTOS DOS PONSÁVEIS PELAS CONCESSIONÁRIAS ÁGUAS DO BRASIL

RESDE

DEPOIMENTOS DOS RESPONSÁVEIS PELAS CONCESSIONÁRIAS DE ÁGUAS DO BRASIL

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m retrato do potencial da iniciativa privada no saneamento é fornecido pelo Sistema de Informações do Segmento Privado do Setor de Saneamento (SPRIS). Os relatórios são atualizados anualmente, com dados coletados entre as concessionárias privadas de saneamento em operação no país. Com ele é possível ter uma visão mais adequada da participação do segmento privado no setor, pois nem todos os contratos são evidenciados no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). É preciso lembrar que, de acordo com o modelo do contrato, uma parte significativa das estatísticas do segmento privado compõe os números de seus parceiros, os prestadores públicos locais e regionais. Ouvimos os profissionais que comandam as concessionárias ligadas ao Grupo Águas do Brasil. Começamos pela concessio-

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nária Águas de Araçoiaba, no município paulista de Araçoiaba da Serra, pertencente à Região Metropolitana de Sorocaba. CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DE ARAÇOIABA - Entrevistamos Rodrigo Macool, gerente geral da concessionária Águas de Araçoiaba, que completou, em dezembro passado, oito anos de operações em Araçoiaba da Serra, com muitas ampliações e melhorias no saneamento básico da cidade. As obras, realizadas desde dezembro de 2009, quando a empresa iniciou as atividades, totalizam mais de 20 milhões de reais. Os investimentos garantiram a eficiência e a regularidade no abastecimento de água e esgotamento sanitário do município. Entre as principais obras desenvolvidas ao longo desses oito anos no sistema de água estão a reestruturação geral da captação

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ficit. É importante também citar que o Plansab, elaborado em 2013, previa investimentos de 303 bilhões de reais de 2014 a 2033 – ou seja, 15,15 bilhões de reais por ano – para alcançar 99% de abastecimento de água e 92% de esgoto ou fossa séptica. Mas essas metas dificilmente serão cumpridas. O Plansab deverá ser revisado

de água do Rio Pirapora, com implantação de sistema de back-up e duas bombas de sucção e recalque; a reforma e ampliação da Estação de Tratamento de Água (ETA) Jundiaquara, com capacidade de produção passando de 75 litros/segundo para 110 litros/segundo; implantação de novos reser vatórios e melhorias dos já existentes, com armazenamento de água ampliado de 2,5 milhões para 5,2 milhões de litros; implantação de novos poços, para levar água tratada aos bairros mais distantes, como Altos do Cercado e Retiro, além de revitalização dos já existentes. Outros destaques foram a implantação de laboratório dotado de modernos equipamentos, que permitem um perfeito monitoramento da qualidade da água distribuída à população; implantação do Centro de Controle Operacional (CCO), com videomonitoramento das unidades de captação de água, e reser vatórios e poços, com comando remoto das bombas. No sistema de esgoto, Águas de Araçoiaba recuperou e revitalizou a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Vacariú, que hoje trata 100% do esgoto coletado no município; instalou aeradores na ETE Vacariú, ampliando a capacidade de degradação da carga orgânica e proporcionando mais eficiência ao sistema; substituiu 2 600 metros do coletor tronco Vacariú, para inclusão de novos bairros da bacia Vacariú e atender demanda futura; e implantou o coletor tronco Jardim Salete, para coletar o esgoto de mais 1 100 residências do bairro. — Pode comentar a modelagem da concessão de saneamento sanitário da concessionária Águas de Araçoiaba? A concessão exige investimentos de que ordem? — perguntamos a Macool. “A concessão é de ser viço público, para o tratamento e abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto, mediante a cobrança de tarifas diretamente dos usuários do município de Araçoiaba da Serra. De acordo com o contrato de concessão, Águas de Araçoiaba deve investir 54 milhões de reais até o final do contrato. Em 2009, quando assumimos os ser viços de água www.brasilengenharia.com


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Rodrigo Macool, gerente geral da concessionária Águas de Araçoiaba

e esgoto, 22% do esgoto gerado no município eram coletados, com zero por cento de tratamento. Hoje são coletados 45% e tratado 100% do

SCADA Mostra: Histórico do nível de água do reservatório

WaterGEMS Alerta: Reservatório se esvaziando em 5 horas

que é captado. No início de nossas atividades, a população passava por inúmeras faltas de abastecimento e não havia rede de água em todo o município. A precariedade da situação vivida pela população colaborou para que os ser viços assumidos pela iniciativa privada fossem bem vistos. Desde então, foi significativamente ampliada a rede de distribuição de água e colocada em funcionamento a Estação de Tratamento de Esgoto Vacariú, que estava desativada e passou por ampliação e melhorias.” CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DAS AGULHAS NEGRAS - Por meio de depoimento de Ivan Moura, superintendente de Águas das Agulhas Negras, assumiu os ser viços de saneamento básico do município de Resende, no sul do Estado do Rio de Janeiro, em janeiro de 2008. Por essa época, apenas 3% da população tinha o esgoto tratado e o sistema de abastecimento de água contempla-

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Dados de SCADA somente podem mostrar o que já aconteceu. Mas, com o WaterGEMS você pode também simular condições futuras WaterGEMS Identifica: Tubos candidatos para serem trocados

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va 96% da população. “Atualmente 100% dos resendenses têm acesso à água tratada, 99% da população é atendida com coleta e afastamento de esgoto e o percentual de esgoto tratado está em 72% , sendo a cidade que mais trata esgoto de toda a região Sul Fluminense”, diz, acrescentando que para o próximo ano, a meta é chegar em 90% . Em dez anos de atuação, a empresa realizou mais de 86 milhões de reais em investimentos. “Não houve rejeição ao processo de concessão por parte da população. Existe um trabalho realizado com as associações de moradores, onde a empresa se mostra cada vez mais próxima de seus clientes. Além do Disque 115 e as lojas físicas de atendimento ao cliente, o canal da ouvidoria funciona diariamente, recebendo solicitações dos órgãos públicos e representantes das comunidades. A empresa preza o bom relacionamento com o consumidor.” Até o momento, sete estações de

Você pode encarar os desafios nos serviços de gerenciamento de redes, incluindo problemas em bombas, rompimentos, queda de energia e estudos de troca de tubos em curto/médio/longo prazo. Para mais detalhes: www.bentley.com/WaterGEMS 0800 55 63 14

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Marcio Salles, superintendente da concessionária Águas do Imperador

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CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DO IMPERADOR - Segundo Marcio Salles, superintendente da concessionária Águas do Imperador, Petrópolis foi a primeira cidade do Estado do Rio de Janeiro a outorgar a concessão de prestação de ser viços de água e de esgoto à iniciativa privada. Águas do Imperador assumiu a concessão do município em janeiro de 1998. Nessa época, não havia nenhum tratamento de esgoto e somente 2% da população recebiam água apenas clorada. Atualmente, 95% dos petropolitanos têm acesso à água tratada, e a cobertura de esgoto urbano tratado é de 85% , fazendo com que a cidade

Ivan Moura, superintendente de Águas das Agulhas Negras

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ganhe destaque em relação à maioria dos municípios brasileiros. “O nosso é um contrato de subconcessão em caráter de exclusividade da gestão integrada dos sistemas e ser viços de saneamento básico, ou seja, abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto. Foram investidos 141 milhões de reais até dezembro de 2017. A população foi muito receptiva ao processo de concessão e reconhece o nosso trabalho.” Foram construídas, até o momento, sete estações de tratamento de água, que somadas tratam 61,8 milhões de litros por dia, e 26 unidades de tratamento de esgoto, responsáveis pelo tratamento de 56,2 milhões de litros por dia. A meta é universalizar o tratamento de esgoto nos próximos anos. Águas do Imperador também realiza um importante trabalho socioambiental com o seu projeto de biodigestores em áreas carentes, que virou referência internacional. Nesses equipamentos, toda a matéria orgânica presente no esgoto é convertida em gás metano, sendo utilizada como combustível em fogões de cozinha e geradores. O biogás é oferecido gratuitamente para moradores, creches e outras instituições. Os biodigestores não consomem energia elétrica e usam material reciclável como pneus e garrafas PET em seus filtros.

CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DE JAHU - Segundo Ivan Mininel, superintendente de Águas de Jahu, trata-se de uma concessão dos ser viços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário no município de Jaú, no interior paulista. O contrato compreende a construção, a operação e a manutenção das unidades integrantes dos sistemas físicos, operacionais e gerenciais de produção e distribuição de água potável, coleta, afastamento e tratamento de esgotos sanitários, incluindo a gestão dos sistemas organizacionais, a comercialização dos produtos e serviços envolvidos e o atendimento aos usuários. “A concessão tem um prazo de 35 anos, com investimentos previstos na ordem de 165 milhões de reais. O início dos ser viços na cidade de Jaú ocorreu em abril de 2015, quando existia 93% de tratamento de esgoto. Atualmente o município conta com 94,5% de esgoto tratado e 100% coletado, com previsão de 100% do tratamento de esgoto até o final do ano de 2019. Desta forma, a partir do ano de 2020, a cidade de Jaú terá o saneamento básico universalizado, uma vez que hoje já existe o atendimento com água potável para 100% da população.” — Como a população de Jaú reagiu ao processo de concessão? — perguntamos a Mininel. “Como ocorre em toda mudanFoto: Divulgação

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tratamento de água estão em operação, tratando cerca de 31 milhões de litros de água por dia. O sistema de esgotamento sanitário conta com nove unidades de tratamento de esgoto, responsáveis pelo tratamento de aproximadamente 22 milhões de litros de efluentes por dia. A meta é universalizar o tratamento de esgoto nos próximos anos. Ao longo dos 30 anos de concessão, a empresa pretende investir mais de 136 milhões de reais na cidade, sendo que 60 milhões de reais foram empenhados logo nos primeiros anos. Nos próximos anos Águas das Agulhas Negras construirá novas estações de tratamento de esgoto e fará a ampliação e substituição das redes de água e esgoto.

Ivan Mininel, superintendente de Águas de Jahu www.brasilengenharia.com


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Nelson Gomes, superintendente da concessionária Águas de Niterói

CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DE NITERÓI - Segundo Nelson Gomes, superintendente da concessionária Águas de Niterói, da cidade de Niterói (RJ), em

novembro de 1999 tiveram início os serviços de distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto no município. “Com uma população supe-

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ça, a população jauense ficou na expectativa sobre os resultados da concessão, mas sentiu um impacto positivo logo no início, em função da qualidade e agilidade dos ser viços prestados. Desde a assunção dos ser viços, foram feitos muitos investimentos pela concessionária, desde as estruturas administrativas e de atendimento ao cliente, até o sistema de saneamento da cidade, em especial na área de água. Em curto prazo, graças a inter venções como implantações de novas adutoras, ligação de subsistemas, modernização e substituição de equipamentos e outras providências, não mais houve problema de falta d’água em Jaú. Hoje, certamente, a imensa maioria dos jauenses está satisfeita e aprova a atuação de Águas de Jahu.”

rior a 490 000 habitantes, a cidade é destaque nos índices de qualidade de vida, com um dos melhores serviços de saneamento básico do país. Durante todo o tempo de concessão estão previstos investimentos na ordem de mais de 1 bilhão de reais. A concessão dos serviços de distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto sanitário foi concedida pelo um prazo de 30 anos com metas contratuais para universalização da distribuição de água no prazo de quatro anos e de atingir coleta e tratamento de esgoto sanitário para 93% da população. Até o momento já foram investidos 800 milhões de reais na concessão. Os indicadores alcançados pela concessão confirmam a aceitação da população pelos serviços prestados. Quando assumimos os serviços no município, mais de 140 000 pessoas não tinham acesso a água potável. Essa parcela significativa dos munícipes dependia de água de poço de péssima qualidade e

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carros pipa. Na parte de esgotamento sanitário, foram construídas e/ ou reformadas oito estações de tratamento de esgoto, possibilitando o retorno da balneabilidade nas praias da Baía de Guanabara, localizadas em Niterói, e contribuindo para que o município esteja entre as 15 melhores cidades do Brasil em termos de saneamento básico. No início das operações realizadas pela Águas de Niterói na cidade, apenas 35% da população tinha o seu esgoto coletado e não havia tratamento. Por meio de oito estações de tratamento, hoje, a concessionária já atende 93% da população com esgoto coletado e tratado.” De fato, Niterói se mantém como referência em saneamento básico no país. Segundo o ranking divulgado pelo Instituto Trata Brasil, desde 2009, o município está em primeiro lugar entre as cidades do Estado do Rio de Janeiro e se consolidou entre as mais bem colocadas do Brasil.

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Neste ano de 2018, Niterói foi uma das 14 premiadas no ranking Rumo à Universalização da Associação Brasileira de Engenharia Ambiental (Abes). Destaque quando se trata de índices de qualidade de vida, com um dos melhores ser viços de saneamento básico do país, Niterói sofria grandes impasses no saneamento até novembro de 1999, quando a concessionária Águas de Niterói assumiu os ser viços de distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto. Nos primeiros cinco anos de atuação, a concessionária conseguiu levar água tratada para 100% da população, superando o índice de 72% anterior à concessão. Outro feito marcante da concessionária foi a redução do índice de perdas de água, considerado hoje um dos menores do país. No final da década de 1990, o índice era de 40% e chegou a 16% , reduzindo a perda de água em mais de 50% . Esse resultado permitiu o abastecimento de mais 150 000

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Juscélio Azevedo, superintendente de Águas do Paraíba

pessoas com a mesma quantidade de água. Os investimentos realizados no Centro de Controle Operacional (CCO), no centro da cidade, foi uma

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S PE M TNUE 4A0MAE N O CO N C EESS Õ ECISADL EE SA TOS das medidas que possibilitou alcançar as metas de redução de perdas de água. Com a adoção de tecnologia e sistemas automatizados, especialistas controlam a pressão da rede e garantem a melhoria dos processos de distribuição. Assim, é possível verificar problemas na rede de distribuição, como rompimentos de adutoras e a interrupção do fornecimento de água, de modo imediato até o reparo do vazamento. CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DO PARAÍBA - A concessionária Águas do Paraíba assumiu, setembro de 1999, os ser viços de água e esgoto do município de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro. Segundo Juscélio Azevedo, superintendente de Águas do Paraíba, a modelagem da concessão inclui captação, tratamento e distribuição de água e coleta e tratamento de esgoto para a adequada destinação de seu ef luente. “Nos 19 anos de concessão já fo-

ram investidos nos sistemas de água e de esgoto, aproximadamente 450 milhões de reais. No início, havia zero por cento de esgoto tratado e apenas 30% coletado. Atualmente, são coletados 90% de esgotos e tratados 100% desse total. Pesquisas internas de satisfação realizadas diariamente na Central de Atendimento expressam aprovação de mais de 80% . Os formadores de opinião não só reconhecem como elogiam os avanços. E a percepção das melhorias avança junto às camadas D e E, na medida que os ser viços chegam às suas comunidades, em áreas bastante carentes de infraestrutura e também na zona rural.” Já foram construídas 16 estações de tratamento de água, que, somadas, tratam cerca de 85 milhões de litros por dia, além de seis unidades de tratamento de esgotos. A meta é universalizar o tratamento de esgotos nos próximos anos. Águas do Paraíba é a primeira e

única concessionária do Estado do Rio de Janeiro a conquistar o Prêmio Nacional de Qualidade em Saneamento (PNQS-2010) da Associação Brasileira de Engenharia Ambiental e Saneamento (Abes); e a Certificação de Qualidade ISO 9001 nos anos de 2001 e 2008. Em 2015, Campos dos Goytacazes foi considerada a quarta melhor cidade, entre as maiores do Estado do Rio de Janeiro. A empresa também conquistou, no mesmo ano, o primeiro lugar do Prêmio Sustentabilidade do Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas dos Serviços Públicos de Água e Esgoto (Sindcon), na categoria Técnica, com o projeto “Programa Água Certa – Otimização do uso da água no sistema de abastecimento”, que é responsável pelo combate às perdas físicas e aparentes de água. CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DE PARÁ DE MINAS - A concessionária Águas de Pará de Minas comemorou no dia 17 de abril passado três anos de ser-

Tigre-ADS - Solução e tecnologia em grandes obras. Tubos Tigre-ADS SaniPro® foram desenvolvidos para aplicação em esgoto sanitário, seu design inclui sistema de união ponta-bolsa que permite uma fácil e rápida união de forma mecânica, graças ao uso de anéis de vedação cuja finalidade é garantir a estanqueidade na união. Nos diâmetros maiores, a bolsa possui duas cintas cerâmicas permitindo uma maior rigidez na união. O Tubo SaniPro® é submetido a todos os ensaios de laboratório requeridos pela norma ABNT NBR ISO 21138-1 e NBR ISO 21138-3. Os tubos são oferecidos nos diâmetros de 400 a 1200mm. Tubos SaniPro® se diferencia dos produtos disponíveis no mercado pelos seguintes aspectos: - Maior rigidez; - Maior espessura da parede interna; - Maior vida útil devido a qualidade de sua matéria prima; - 100% hermético em sua união; - Baixo peso.

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viços prestados no município de Pará de Minas, a cerca de 80 quilômetros de Belo Horizonte. Nestes três anos, a cidade passou por uma verdadeira revolução na área de saneamento. Segundo Thiago Contage, superintendente de Águas de Pará de Minas, assumir desafios e responsabilidades para superar as metas foi o princípio adotado pela concessionária, que atua nesse importante polo mineiro. “Trata-se de uma concessão plena de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto sanitário, o contrato é de 35 anos e prevê investimentos na ordem de 230 milhões de reais. Quando teve início o contrato a cidade contava com uma ETE problemática do ponto de vista de sua operação e manutenções preventivas, preditivas e corretivas e operacionalmente tratava de aproximadamente 70% de todo esgoto coletado. Após todos os investimentos, adequações e modernizações pelas quais a ETE passou nestes três anos elevou seu padrão de tratamento para 100% .”

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Thiago Contage, superintendente de Águas de Pará de Minas

— Qual a expectativa da população do município de Pará de Minas no processo de concessão? — perguntamos a Contage. “Como todo início de operação, a expectativa da população era muito grande ao passo que também era

tomada pelo ceticismo, frente ao sofrimento pelo qual toda população pará-minense passou nos últimos anos com a falta d’água no município. O ápice do colapso se deu nos anos de 2013 e 2014, quando a população de vários bairros ficou, por diversas vezes, sem água por quase um mês. Foi uma questão de tempo para consolidar a marca da empresa na cidade e região, se tornando referência em eficiência, rapidez na tomada de decisão e nos investimentos que resolveram, em apenas cinco meses, a falta d’água, com a construção do Sistema de Abastecimento do Paraopeba. Foram 28 quilômetros de adutoras sendo uma de captação e outras duas estações de bombeamento para levar água do Rio Paraopeba até a estação de tratamento de água no bairro Nossa Senhora das Graças. Mesmo sendo uma empresa jovem, em crescimento e que encerrou apenas o seu terceiro ano completo de operações, a Águas de Pará de Minas consolidou sua marca na cidade – poder con-

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CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DE VOTORANTIM - O Rio Sorocaba, o Parque Ecológico do Matão e outros pontos importantes de Votorantim não seriam os mesmos hoje se a cidade não fosse um caso de sucesso em relação ao saneamento. Considerada a quarta maior cidade da Região Metropolitana de Sorocaba, Votorantim conta com ser viços de coleta e tratamento de esgoto com ótima gestão e resultados, sob a batuta da concessionária Águas de Votorantim. “Quando assumimos os ser viços de saneamento básico, em 18 de junho de 2012, eram coletados

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cedente, clientes e sociedade civil organizada –, merecendo destaque regional, principalmente, pelo fato de ter resolvido, definitivamente e em tempo recorde, a falta d’água que há tanto assolava a população pará-minense. Enquanto isso, em 2017, mais uma vez diversos municípios mineiros sofreram com a falta d’água e inclusive com o estado de calamidade pública decretado.”

Alex Macedo, superintendente da Águas de Votorantim

e tratados 62% do esgoto gerado no município e atualmente o atendimento da população com esgoto coletado e tratado é de 99,07%”, diz Alex Macedo, superintendente da Águas de Votorantim. “Quanto à

modelagem, a concessão para o consórcio formado pelo Grupo Águas do Brasil e SGA Sistemas de Gestão Ambiental é de ser viço público, em caráter oneroso, nos termos da Lei Federal nº 8.987/95 e da Lei Federal 11.445/07, regulamentada pelo Decreto 7.217/10. O caráter é de exclusividade, mediante a cobrança de tarifas diretamente dos usuários do município de Votorantim. Conforme proposta comercial, os investimentos até o final da concessão serão da ordem de 90 milhões de reais. De maneira geral a população se mostrou satisfeita com o anúncio dos investimentos previstos e com a melhoria de todo o sistema de água e esgoto. E essa posição se consolidou ao longo desses anos, graças aos bons ser viços que a concessionária vem oferecendo.” Desde 2012 foram implantados novos emissários, redes coletoras, ramais de ligação, elevatórias, além da substituição de ramais e redes antigas. Próximo de completar seis anos de operação sob a gestão da iniciativa

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Carlos Gontijo, superintendente de Águas de Juturnaíba

privada, o índice de atendimento à população com coleta e tratamento de esgoto aumentou tanto que beira a universalização. Já no primeiro ano de atuação da concessionária, foi implantado o coletor tronco do Vidal, uma obra considerada de alta complexidade, solucionando problemas ambientais de Votorantim e beneficiando a população. Com a ligação do coletor, 5 milhões de litros de esgoto por dia deixaram de ser despejados diretamente no córrego do Vidal e passaram a ser tratados na ETE Guimarães. A cidade recebeu mais uma estação de tratamento de água, que trata cerca de 2,6 milhões de litros por dia. As três unidades de tratamento de esgoto são responsáveis pelo tratamento de aproximadamente 18 milhões de litros por dia. O investimento desses primeiros anos soma em torno de 39 milhões de reais. CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DE JUTURNAÍBA - Em março de 1998, a concessionária Águas de Juturnaíba assumiu a distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto nas cidades de Araruama, Saquarema e Silva Jardim, na Região dos Lagos do Estado do Rio de Janeiro. “Nessa época, apenas 0,7% da população tinha esgoto tratado e o sistema de abastecimento de água apresentava

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vazão de 600 litros por segundo e hoje o nível de esgoto tratado é de 72%”, diz Carlos Gontijo, superintendente de Águas de Juturnaíba. Sobre a modelagem ele informa que é uma concessão pública de ser viços e obras de implantação, ampliação, manutenção e operação dos sistemas de abastecimento de água, de coleta e tratamento de esgoto das áreas urbanas dos municípios de Araruama, Saquarema e Silva Jardim, que foi concedida por 25 anos, sendo prorrogada por mais 25. “O montante investido até o final de 2017 é de aproximadamente 103 milhões de reais. A população teve engajamento no processo e projetos apresentados pela concessionária, com participação dos poderes concedentes, Comitê de Bacias Lagos São João, Consórcio Intermunicipal Lagos São João, Sociedade Civil e stakeholders. ”Atualmente, 98,6% da população têm acesso a água tratada. Até o momento, foram realizadas a ampliação da capacidade de tratamento de água da ETA Juturnaíba, de 600 para 1 100 litros por segundo, que correspondem a 95 milhões de litros por dia, além da construção de seis unidades de tratamento de esgotos responsáveis pelo tratamento de 25 milhões de litros por dia. A concessionária tem mais três unidades em processo de construção. Das seis estações, duas delas (Araruama e Silva Jardim) utilizam o sistema de tratamento do tipo wetland. O processo busca reproduzir os ciclos naturais, utilizando o esgoto como fonte de nutriente para plantas, permitindo que sua devolução ao meio ambiente seja feita de forma correta, gerando um ef luente adequadamente processado. A ETE Ponte dos Leites é a maior ETE da América Latina que utiliza o sistema wetland. A estação chama a atenção por utilizar elementos da natureza no processo de tratamento de esgoto, além de possuir uma área de preser vação ambiental. A ETE foi inaugurada em 2005 e, com a ampliação, em fevereiro de 2009, aumentou sua capacidade de tratamento de esgoto de 100 para 200 litros por segundo. Ao longo dos

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João Henrique de Sá, superintendente da concessionária Águas de Nova Friburgo

50 anos de concessão, a empresa pretende investir aproximadamente 400 milhões de reais. A meta é que, até 2023, a população tenha 90% do seu esgoto tratado, além da universalização das áreas urbanas no abastecimento de água potável. CONCESSIONÁRIA ÁGUAS DE NOVA FRIBURGO - Pode comentar a modelagem e os investimentos do contrato de saneamento sanitário da concessionária Águas de Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro? — perguntamos a João Henrique de Sá, superintendente da concessionária. “A concessionária Águas de Nova Friburgo firmou com o poder concedente, a Prefeitura Municipal de Nova Friburgo, o contrato de administração dos serviços de captação, produção e distribuição de água potável e coleta e tratamento de esgoto sanitário por 40 anos, a partir de janeiro de 2009. Nesse contrato, estão previstas todas as cláusulas referentes às metas, compromissos e cálculos de tarifa, ficando claros os benefícios gerados pelos investimentos na melhoria e expansão dos serviços: saúde, qualidade de vida da população e geração de emprego e renda, principalmente durante a fase das obras. No médio e longo prazo também haverá grandes benefícios www.brasilengenharia.com


S PE M TNUE 4A0MAE N O CO N C EESS Õ ECISADL EE SA TOS no aspecto ambiental, pois é evidente a contribuição para a despoluição dos rios. Para esses resultados, a concessionária já investiu cerca de 180 milhões de reais em implantações, melhorias e modernização dos sistemas nos últimos nove anos. Em virtude da perspectiva do crescimento demográfico e universalização dos serviços de distribuição de água e esgotamento sanitário, se torna imprescindível a continuidade dos investimentos para modernização e ampliação da capacidade de cobertura dos serviços de saneamento ambiental na cidade.” — Quando teve início o contrato, o município tinha quanto por cento de tratamento de esgoto? De quanto por cento é o tratamento hoje? E qual o papel da população de Nova Friburgo no processo? — solicitamos de Sá. “Desde que assumiu o contrato, muitos foram os investimentos re-

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alizados pela concessionária, sendo o foco principal o tratamento dos esgotos. Quando iniciamos a prestação de ser viços sanitários havia zero de tratamento de esgoto em Nova Friburgo. De 2009 até o final de 2014 foram construídos 43 quilômetros de interceptores e quatro ETEs. Juntas, as ETEs Olaria, Campo do Coelho, Centro e Conselheiro Paulino têm capacidade para tratar mais de um bilhão de litros de esgoto por mês, ou seja, atualmente o tratamento é de 90% do esgoto coletado, acima da média nacional – que é de 40% , segundo o Instituto Trata Brasil. Quanto à reação da população, o município de Nova Friburgo completa 200 anos em maio deste ano e a história da colonização aponta o espírito nobre das administrações públicas e da população friburguense, pois a cidade recebeu imigrantes de várias nações: portugueses, suíços, italia-

nos, libaneses, alemães, japoneses, espanhóis, húngaros e austríacos. Um povo hospitaleiro que percebeu logo a seriedade do Grupo Águas do Brasil, ao qual a Águas de Nova Friburgo está ligada. Embora o foco principal dos investimentos nos últimos anos tenha sido o tratamento de esgotos, a empresa realizou também obras importantes no sistema de abastecimento de água. Desde 2009, já foram realizados mais de 52,6 quilômetros de substituição e expansão de redes de distribuição e adutoras. Juntas, as 13 ETAs produzem cerca de 40 milhões de litros de água por dia, um total de 15 bilhões de litros por ano. A concessionária investiu também em mais de 8 500 novas ligações domiciliares de água e modernização das ETAs em Lumiar e São Pedro da Serra, entre outras obras que contribuíram para melhoria e universalização dos ser viços de saneamento de Nova Friburgo.”

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ENGENHARIA I SANEAMENTO

A transposição de água bruta dos sistemas Rio Grande (Billings) e Alto Tietê (Taiaçupeba-Mirim) MARIANA ALVES TRASKURKEMB*, HABIB GEORGES JARROUGE NETO**, IZABEL GOMES BASTOS***, ROBERTO KOCHEN****, MARCOS ROGÉRIO ARAÚJO*****, RENATO HOCHGREB FRAZÃO******, CARLOS AUGUSTO PLEUL*******, GUILHERME MACHADO PAIXÃO********, JOSÉ FRANCISCO DE PROENÇA*********

O presente trabalho discorre sobre a concepção emergencial da transposição de água bruta dos sistemas produtores Rio Grande (Billings) para o Alto Tietê (Taiaçupeba-Mirim), uma das mais importantes obras executadas pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) no ano de 2015. A referida obra de adução mista em meio aquático e terrestre foi desenvolvida e inaugurada no mesmo ano (2015), visando abastecer até 1,3 milhão de pessoas, ampliando a produção de água no Alto Tietê e apoiando indiretamente o abastecimento de alguns bairros antes realizado exclusivamente pelo Sistema Produtor Cantareira, o mais afetado pela escassez hídrica. Um dos principais desafios da atualidade e futuro é a garantia da segurança hídrica e oferta de água; o que requer obras inovadoras e estrategicamente inteligentes, bem como o aprimoramento contínuo da gestão dos recursos hídricos. INTRODUÇÃO Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) é o maior e mais populoso aglomerado urbano do Brasil e um dos cinco maiores do mundo; abrange 39 municípios conurbados, com estimativa de 21 milhões de habitantes situados a uma altitude superior a 700 metros. O Sistema Integrado Metropolitano (SIM) da Sabesp abastece a RMSP, sendo composto pelos sistemas produtores: Alto Cotia, Alto Tietê, Baixo Cotia, Cantareira, Embu-Guaçu, Guarapiranga, Ribeirão da Estiva, Rio Claro e Rio Grande. A brutal escassez hídrica que castigou os reservatórios contribuintes dos sistemas supracitados nos anos de 2014 e 2015 exigiu do governo paulista estratégia e investimento financeiro para a rápida tomada de decisões que envolvessem ações anticrise, tais como a busca de água em mananciais ociosos, reversão das águas de rios de vertente marítima, a utilização das reservas técnicas e outras operações extraordinárias na captação, integração de reservatórios, reforma de adutoras e sistemas hidráulicos existentes, reversão de boosters, combate intensificado de perdas e redução da pressão nas redes de distribuição, ampla divulgação de campanhas socioeducativas sobre o uso racional da água, aplicação de sobretaxas e descontos em faturas e, evidentemente, as obras de transposição de águas entre sistemas pro-

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dutores, como o caso em questão. O Sistema Produtor Alto Tietê (SPAT) foi o segundo mais impactado pela estiagem, atrás apenas do Sistema Cantareira. Porém, no lado sul da capital paulista o Sistema Rio Grande (Billings) apresentava boa capacidade de reservação na época. Estrategicamente, a obra emergencial da transposição de água bruta dos sistemas produtores Rio Grande (Billings) para o Alto Tietê (Taiaçupeba-Mirim) foi concebida com o intuito de abastecer até 1,3 milhão de pessoas mediante a ampliação da oferta de água no SPAT; o que permitiu apoio indireto ao abastecimento de bairros anteriormente dependentes do Sistema Produtor Cantareira.

mento de Água (ETA) do SPAT. O caminhamento adutor utiliza vias aquáticas, terrestres secas ou charcosas. Em voos de reconhecimento de campo, a Sabesp percebeu que a implantação da adutora seria mais rápida desde que utilizado parcialmente o percurso que a Petrobras possui para seus sistemas de gasodutos, cabendo uma especial parceria com a Petrobras, a regularização e liberação junto aos órgãos governamentais. A figura 1 apresenta a planta de intervenção do projeto supracitado. A transposição contou predominantemente com o emprego de tubulação em Polietileno de Alta Densidade (PEAD), vantajoso em termos de produtividade executiva (menor tempo) e por sua melhor adaptação ao ambiente onde inserido. A mudança conceitual de uma adutora com diâmetro de 1 600 mm para duas adutoras paralelas com diâmetro de 1 200 mm

DESCRITIVO GERAL DA OBRA A transposição de água bruta dos Sistemas Produtores Rio Grande para o Alto Tietê é composta essencialmente de três processos: 1. Captação e bombeamento; 2. Adução superando um relevo acidentado com altura na ordem de 80 metros, que divide a região do Grande ABC (Sistema Rio Grande) de Suzano (Sistema Alto Tietê); 3. Disposição das águas no córrego Taiaçupeba-Mirim, curso d’água que chega até a Represa de Taiaçupeba, onde existe uma Estação de Trata- Figura 1 - Implantação Geral da Transposição

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permitiu que o fornecimento pudesse ser agilizado, fundamental para o caso de uma obra emergencial. Como um todo, houve a divisão da obra em nove frentes de trabalho, onde intervenções em vias terrestres charcosas/aquáticas eram de responsabilidade de uma empresa executora e o assentamento em vias terrestres secas, de outra. O projeto e execução caminharam juntos.

CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS Na sequência estão apresentados os detalhes referentes especificamente aos estudos hidráulicos desenvolvidos. Aspectos técnicos de projeto e de construção serão abordados em artigos específicos.

1. Captação e Estação Elevatória de Água Bruta (EEAB) Em suma, foram construídas duas elevatórias em série – sendo uma flutuante, composta por quatro módulos e uma elevatória principal com quatro conjuntos de moto-bombas com capacidade máxima de vazão na ordem de 1m³/s cada. A figura 2 representa o layout geral da área da captação, estações de bombeamento e pátio de Figura 2 - Planta Geral Adaptada, fornecimento Sabesp geradores. WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com

A seguir apresentamos as informações técnicas. - Elevatória flutuante composta por quatro conjuntos moto-bombas flutuantes Rio do Sul AFG 500-500 DR=520mm, potência 2x175 cv (cada flutuante), altura manométrica de 10 mca, vazão nominal de 1 m³/s, rotação 880 rpm, tensão 0,44 kV. - Adutora de recalque da elevatória flutuante composta por quatro tubulações de PEAD DN 1 000 mm, Standard Dimensional Ratio¹ (SDR) 32.25, Polietileno (PE) 100 com aproximadamente 250 m (trecho pressurizado). - Elevatória principal com quatro conjuntos moto-bombas, vazão nominal de 1 m³/s, altura manométrica de 77 mca, modelo/tipo: Worthington 16 LN 35 “C”; rotação 880 rpm; potência do motor 1.250 cv, tensão 3,8 kV (vide foto 1); - Adutora de recalque da elevatória principal composta por duas tubulações de PEAD DN 1.200 mm SDR 17 PE 100 (trecho pressurizado). - Doze grupos de geradores a gás natural para a alimentação das bombas (capacidade de 19,5 MVA) em substituição ao diesel (vide foto 2). Para o sistema projetado, a vazão máxima veiculada é de 4,00 m³/s. ENGENHARIA engenharia 637 / 2018

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Foto 1 - Vista geral da EEAB principal

Foto 2 - Pátio de Geradores a Gás Natural (utilização inédita no Brasil)

Foto 3 - Vista Geral dos Vasos de Pressão

Foto 4 - Tubulação desfilada em trecho aquático

2. Principais Estruturas Protetivas do Sistema O desafio hidráulico em qualquer projeto de adução envolve estabelecer condições seguras para a operação do sistema em face da ocorrência de eventos transitórios (variações oscilatórias de pressão e vazão) e viabilizar o emprego de dispositivos que protejam

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as tubulações e equipamentos do efeito do golpe de aríete ocasionado pela partida e parada repentina do bombeamento, manobras inadequadas, dentre outros exemplos. A partir do perfil topográfico da transposição foram verificados para os regimes de escoamento permanente e transitório o desenvolvimento da linha piezométrica e envoltórias das pressões mínimas e máximas, simulando para alguns eventos o comportamento resultante do sistema adutor. Todas as simulações hidráulicas foram realizadas com o apoio dos softwares Watercad (regime permanente) e Hammer (regime transitório). Deste estudo dos regimes de escoamento (permanente e transitório) resultou que os principais dispositivos protetivos utilizados na transposição são a Chaminé de Equilíbrio e os Reservatórios Hidropneumáticos (RHO), descritos na sequência. a. Chaminé de Equilíbrio A Chaminé de Equilíbrio absorve ou supre volumetrias durante o evento transitório, transformando as rápidas oscilações transitórias em lentas, admissíveis para o sistema adutor. Tem a vantagem de controlar as envoltórias extremas sem consumir energia elétrica, requerendo baixa manutenção. Conforme pode ser conferido na foto 1, foram utilizados: - Quatro tanques com Diâmetro Nominal (DN) 1.500 mm, altura de 12,00 m operando nominalmente a 6,00 m (podendo chegar a 10,00 m). Esses tanques servem de equalização para o regime permanente e de proteção para os mangotes flexíveis dos flutuantes. b. Reservatório Hidropneumático (RHO) Conceitualmente é um vaso de pressão estanque composto por água e ar, este último mantém o interior do RHO com uma pressão igual à da rede em regime permanente. Absorve ou supre vazões e pressões nas partidas e paradas de bombas, eficientemente capaz para o amortecimento das oscilações transitórias. Para a transposição foram empregados hidropneumáticos baseados no modelo do gás perfeito, sendo dois tanques de 30 m³ operando em paralelo com volume de água inicial de 15 m³ dotados de placas de orifício (vide foto 3). 3. Adutora de Água Bruta (AAB) Conforme dito anteriormente, o sistema adutor é composto por dois condutos paralelos de PEAD, um plástico extremamente resistente cujas informações técnicas estão indicadas a seguir.

Foto 5 - Assentamento terrestre no aclive mais íngreme do traçado adutor e recomposição vegetal na faixa da Petrobras

Foto 6 - Ventosas Tríplice-Função instaladas

Foto 7 - Vista Geral do Ponto de Lançamento (durante a construção)

- Adutora DN 1 200 mm, SDR 17, PE 100 bar. – tensão circunferencial padrão a 50 anos e 20º C do material, utilizado na extensão aproximada de 20 km. O traçado geométrico do caminhamento adutor respeitou o raio mínimo de curvatura horizontal compatível com o SDR do PEAD utilizado. a. Peculiaridades de Implantação Em vias aquáticas, foi tomado o simples cuidado de entre as adutoras haver material que impeça os animais que por lá circulem de ficarem presos por causa da superfície extremamente lisa do tubo (vide foto 4). Para a absorção dos esforços gerados em curvas, ou quando a declividade da tubulação é de tal ordem que, os atritos entre a tubulação e o terreno fossem insuficientes para manter o equilíbrio da tubulação aswww.brasilengenharia.com WWW.BRASILENGENHARIA.COM


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Foto 8 - Operação de teste de uma linha adutora - Fase Construtiva: (a) Vista de Montante; (b) Vista de Jusante com lançamento no córrego Taiaçupeba-Mirim

sentada, foram construídos calços maciços em concreto, capazes de absorver e transferir estas forças ao solo (vide foto 5). b. Ventosas e Descargas Para a expulsão ou admissão mecanizada do ar nas adutoras, foram empregadas válvulas ventosas de diversos diâmetros e algumas com o modo slow-closing. Todas as válvulas ventosas especificadas no projeto são tipo tríplice função, para o atendimento a três finalidades específicas: 1) expelir o ar deslocado durante o enchimento das adutoras; 2) expelir pequenas quantidades de ar desprendidas da água e não arrastadas pelo fluxo; 3) admitir quantidade suficiente de ar durante o esvaziamento da linha. A foto 6 representa as ventosas instaladas de modo desabrigado, notar que a retirada dos volantes para acionamento das válvulas de controle é uma ação necessária por questão de segurança pública. Se tratando de descargas, entre os dispositivos instalados nas adutoras, estes pontos foram empregados por diversos motivos: - necessidade de descargas de água na fase de pré-operação em que ocorre a limpeza e a desinfecção da adutora; - necessidade de drenagem em raras ocasiões que, na manutenção de acessórios, torna-se necessária a remoção destes; - necessidade de remoção de sólidos (areia) que, se decantados nos pontos baixos, redu-

Figura 3 - Perspectiva da Caixa Dissipadora de Energia www.brasilengenharia.com WWW.BRASILENGENHARIA.COM

zem a seção de escoamento, diminuindo a eficiência operacional da adução; - necessidade de drenagem total da adutora para inspeção interna em ocasiões excepcionais etc. 4. Dissipação de Energia e Descarga Para a dissipação de energia e descarga do trecho final, foi construída uma estrutura em concreto armado (caixa com câmaras separadas por linha) para receber o impacto das águas em suas paredes, dimensionada segundo a metodologia de Peterka descrita na literatura do Hydraulic Design Criteria (HDC), United States Bureau of Reclamation. A figura 3 mostra o protótipo estudado onde as linhas adutoras foram separadas por um muro central. As válvulas gavetas, cunha metálica DN 900 mm, PN 16 ajudam a elevar a curva piezométrica no trecho a montante da caixa (vide foto 7). As águas dissipadas seguem por um pequeno canal composto por colchão Reno e concreto ciclópico até o encontro com o córrego Taiaçupeba-Mirim, ponto final da obra da transposição (vide foto 8 ). A obra foi inaugurada ao final de setembro de 2015. Após um período foi necessária a conformação do deságue com dragagem, regularização geométrica e estabilização das margens do trecho a jusante do lançamento, intervenções realizadas pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). CONCLUSÃO A escassez hídrica vivenciada entre 2014 e 2015 na Região Sudeste mostrou a importância de investimentos preventivos em infraestrutura tipicamente inovadora e criativa. A exemplo disso, a Sabesp possui em andamento a construção do novo Sistema Produtor São Lourenço, a Interligação Reversível² entre as represas Jaguari (Bacia Paraíba do Sul) e Atibainha (Bacia Cantareira), bem como o aproveitamento do Rio Itapanhaú, cujas águas serão en-

caminhadas para reforçar a disponibilidade do Sistema Alto Tietê. No curto prazo é essencial a manutenção da política de conscientização da população sobre o uso racional da água. A exitosa obra emergencial da transposição de água bruta dos sistemas produtores Rio Grande (Billings) para o Alto Tietê (Taiaçupeba-Mirim) foi concebida com o intuito de abastecer até 1,3 milhão de pessoas mediante a ampliação da oferta de água no SPAT e permitiu apoio indireto ao abastecimento de bairros anteriormente dependentes do Sistema Produtor Cantareira, mais impactado pela escassez hídrica. Todas as iniciativas que venceram a crise atualmente são referências para a gestão dos recursos hídricos em todo o mundo. Notas ¹Relação entre o diâmetro externo nominal do tubo / espessura do tubo. ²Obra pioneira no saneamento brasileiro.

* Mariana Alves Traskurkemb, engenheira civil da GeoCompany Tecnologia, Engenharia e Meio Ambiente ** Habib Georges Jarrouge Neto, engenheiro, gerente de Projetos da GeoCompany Tecnologia, Engenharia e Meio Ambiente *** Izabel Gomes Bastos, MSc. engenheira, gerente de Projetos da GeoCompany Tecnologia, Engenharia e Meio Ambiente **** Roberto Kochen, professor doutor, engenheiro, presidente e diretor-técnico da GeoCompany Tecnologia, Engenharia e Meio Ambiente ***** Marcos Rogério Araújo, engenheiro mecânico da Sabesp MME - Departamento de Engenharia da Manutenção ****** Renato Hochgreb Frazão, engenheiro, gerente de departamento da Sabesp ME - Gestão de Empreendimentos da Metropolitana ******* Carlos Augusto Pleul, engenheiro, gerente de departamento da Sabesp ME - Gestão de Empreendimentos da Metropolitana ******** Guilherme Machado Paixão, engenheiro, superintendente da Sabesp ME Gestão de Empreendimentos da Metropolitana ********* José Francisco de Proença, engenheiro, superintendente da Sabesp MM - Manutenção Estratégica

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] REVISTA ENGENHARIA - Vitória Duradoura. São Paulo, nº 632/2017, ano 74, ISSN 0013-7707, Edição Especial – Sabesp Pós-Crise Hídrica. [2] SABESP - Legados da Crise Hídrica. Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), Publicação Especial, 1ª Edição, BB Editora, São Paulo, 2017.

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Distribuição modal, urbanismo e meio ambiente: a busca pelo equilíbrio MARCELO CARDINALE BRANCO* transporte confiável e seguro de pessoas e mercadorias é fator fundamental para o desenvolvimento de qualquer economia. Porém, a circulação de veículos continua sendo o grande responsável pela emissão de gases poluentes e geração de calor nos centros urbanos, no Brasil e no mundo. Estudo elaborado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial de Saúde (OMS), classifica a poluição do ar gerada pela queima de combustíveis fósseis como uma das principais causas de câncer de pulmão, mostrando que a concentração desses poluentes é mais danosa ao sistema de saúde pública do que o uso do cigarro. Pelo estudo feito em 2013, mais de 220 000 pessoas morrem anualmente vitimadas por câncer de pulmão causado pela existência de materiais particulados na atmosfera, provenientes da queima de combustíveis fósseis. A utilização de grandes volumes de energia, característica dos sistemas de transportes motorizados tradicionais, também é um fator que merece atenção, pela crescente preocupação com o custo e escassez de energia e com o meio ambiente. É preciso, portanto, tratar de forma séria a questão da poluição atmosférica principalmente nas grandes cidades, onde a concentração de poluentes é sensivelmente maior e a exposição humana a esses gases muito mais acentuada. Mas a vida saudável em cidades não depende apenas do grau de contaminação do ar, ainda que seja um parâmetro extremamente importante, e que iremos comentar ao longo do texto. A qualidade de vida no meio ambiente urbano depende fortemente da estrutura, desenho, forma de implantação e manutenção dos equipamentos urbanos, ou seja, da qualidade desses equipamentos. Cada vez mais, as pessoas mostram sinais de que desejam ter uma vida mais livre no ambiente urbano, mais saudável, menos

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dependente do carro para locomoção, em que possam circular mais a pé ou de bicicleta. Se isso é verdade, é preciso se preocupar em preparar a cidade para essa desejada realidade, desenhar um futuro diferente do presente e que não seja uma repetição do passado. Proporcionar não só cidades com menor grau de poluição atmosférica como pensar de forma diferente a estrutura viária, com maiores volumes de áreas verdes por metro quadrado impermeabilizado, estruturas que realmente permitam que as pessoas utilizem mais as vias para se locomover a pé, para lazer, principalmente nos finais de semana, que se desfrute melhor da cidade, fora de seus condomínios. A QUESTÃO DA POLUIÇÃO DO AR Ao longo do tempo, grande parte (senão todos) dos setores da indústria brasileira reduziram sensivelmente o volume de emissões de poluentes e o grau de degradação ambiental gerados por consequência de seus processos produtivos. Obter a redução das emissões de poluentes gerados pelos veículos é tarefa bastante mais complexa, por se tratar de dezenas de milhões de pequenas unidades geradoras de poluentes a serem controladas, espalhadas pelo país e pelo mundo afora. Essa redução do volume de poluentes pressupõe ações de três naturezas, basicamente. Em primeiro plano, disciplinar a indústria automobilística para que os veículos saiam de fábrica com motores e sistemas que possuam cada vez maior rendimento e sucessivamente menor volume de emissões; Na sequência, exigir a correta manutenção dos veículos em circulação, garantindo a qualidade da frota e evitando a circulação de veículos com falta de manutenção, deterioração excessiva e modificações inadequadas. Um veículo que sai de fábrica com um determinado volume de emissões pode passar a emitir dez vezes mais poluentes pela simples eliminação ou modificação do catalisador e/ou pela substituição do chip

e modificação da programação do sistema de injeção, modificações feitas constantemente por oficinas não autorizadas, com promessas de aumentar o ruído do escapamento, dando um ar esportivo ao veículo, aumentar a sua potência ou outras invencionices facilmente encontradas no mercado. A terceira linha de ação voltada à redução de emissões é, talvez, a mais complexa: a modificação da distribuição modal, da forma como as pessoas se locomovem a pé, de bicicleta, em veículos privados ou coletivos. É questão complexa porque depende de diversos fatores, além de grande volume de investimentos, principalmente se estamos falando de projetos em grandes metrópoles, onde o metrô é fundamental. Mas é ferramenta da mais alta importância na redução do volume de poluentes atmosféricos, uma vez que o volume de emissões associado a circulação de um ônibus, por exemplo, é significativamente menor, em relação ao volume médio de passageiros transportados, do que aquele emitido por um carro ou motocicleta. E, quanto maior a capacidade do equipamento de transporte público, melhor será essa relação, desde que utilizando tecnologias adequadas (ou para um dado padrão tecnológico). Na cidade de São Paulo a média geral de pessoas transportadas por unidade de veículo individual (considerados somente os carros e caminhonetes) é de pouco mais de um passageiro e meio (1,5) por veículo. Ou seja, em média, o transporte de 190 passageiros demandaria mais de 120 carros. Esse mesmo volume de passageiros pode ser transportado por um único ônibus biarticulado ou por dois ônibus comuns (Padron), com emissão de poluentes e gasto energético muito menor por passageiro transportado, e com impacto evidentemente muito menor no trânsito da cidade. E se a energia utilizada nesse transporte for elétrica, com a utilização de tróleibus ou metrô, tecnologias que não emitem gases poluentes, aí a distân-

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Automóvel (c/1 pessoa)

Automóvel (c/4 pessoas)

Jatos comerciais - média

Moto 125 cc

Airbus A 320

Ciclomotor

Ônibus Padron

Ônibus Articulado

BRT Articulado

Trólebus SPTrans

Trólebus BRT

4,4 4,2 4,0 3,8 3,6 3,4 3,2 3,0 2,8 2,6 2,4 2,2 2,0 1,8 1,6 1,4 1,2 1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 0,0

Figura 1 - Consumo de energia nos veículos de transporte (Fonte: Environmentality, 2010)

cia fica brutal, quando comparamos com as emissões de veículos particulares à combustão ( figura 1). A busca por uma reestruturação gradativa, contínua e objetiva do ambiente urbano, buscando inclusive induzir a essa mudança de matriz nos transportes é ação que necessita do empenho das administrações públicas, pelo potencial que um projeto adequado de reestruturação dos sistemas de transporte certamente terá na mudança de qualidade de vida dos cidadãos. No caminho para essa mudança, procuramos comentar aqui ainda dois aspectos básicos, fundamentais, que talvez sejam menos considerados nos planos tradicionais de transportes: Hábitos e costumes da população e o desenho urbanístico das ci-

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dades. Nas duas questões, há situações em que é difícil definir o que veio primeiro: o ovo ou a galinha. Falando dos hábitos e costumes, se de um lado as pessoas se habituaram a buscar a comodidade do carro e a agilidade da moto, ambos aparentemente encabeçando a lista de objetos de desejo dos brasileiros (talvez, hoje, só abaixo do i Phone), também é preciso atestar que os sistemas de transportes das grandes cidades brasileiras são, normalmente, insuficientes em quantidade (rede, frequência e lotação) e qualidade, o que torna difícil ter argumentos convincentes para que as pessoas deixem o carro em casa. Soma-se a isso o fato de que muitos gestores públicos ainda buscam sua aprovação frente à opinião pública através da antiga fórmula das inaugu-

rações de obras viárias, dando à população a falsa impressão de que a solução para os transportes é abrir avenidas, inaugurar viadutos. Convite certo para que as pessoas comprem mais e mais veículos... Criou-se um círculo vicioso per verso, onde essa deficiência dos sistemas de transporte público leva as pessoas a procurarem outro meio de locomoção, lotando as ruas de carros e motocicletas que, gerando congestionamento, contribuem para a redução de velocidade dos ônibus, do transporte coletivo, que passa a ser menos atrativo ainda... Pedestre, então, nem se fala. E, ao final, não nos damos conta de que grande parte do nosso tempo é dedicada unicamente para a locomoção diária, vivendo ainda em um ambiente urbano saturado, barulhento, inadequado, em que as pessoas se esquecem de que as vias são muito mais do que caminhos para a circulação de carros, perdendo quase que totalmente a sua função social de permitir a circulação de pessoas, e não de carros. O fato é que as cidades brasileiras são, atualmente, geridas para o carro, e não para as pessoas. Para o individual, e não para o coletivo. A CONTRIBUIÇÃO DOS EQUIPAMENTOS URBANOS Mas se a falta de sistemas de transporte adequado e confortável em algumas regiões é argumento para utilizar o carro, o que podemos dizer desse mesmo hábito em regiões amplamente ser vidas de meios de transporte ou em deslocamentos de apenas alguns poucos quarteirões? Por que, para esses pequenos percursos, há tanta resistência das pessoas em circular a pé? É preciso um esforço de ambos os lados: reestruturar os sistemas de transporte para que atraiam maior número de pessoas de várias classes sociais; e que o cidadão admita também a mudança de seus hábitos e, conhecendo uma forma de ir ao seu destino sem utilizar o carro, que se proponha a utilizá-la. E para esse exercício, de mudança de hábito, o ambiente das cidades, seu desenho urbano, também é peça fundamental e tem, a meu ver, ligação quase umbilical com o hábito das pessoas. Não é difícil imaginar que as pessoas estarão dispostas a andar um trecho de 2 quilômetros a pé (mudando seus hábitos) se esse trajeto atravessar um parque ou uma área bastante arborizada da cidade, com calçadas largas, sem obstáculos. Da mesma forma www.brasilengenharia.com WWW.BRASILENGENHARIA.COM


FOTOS: DIVULGAÇÃO AUTOR

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Foto 1

Foto 2

que não é difícil compreender por que não se tem a mesma disposição para percorrer um percurso de 1 quilômetro apenas, mas agora por ruas esburacadas, sem calçadas nem pontos para travessia segura de pedestres. É evidente que as pessoas terão maior disposição para andar a pé ou de bicicleta se o percurso for seguro, confortável, agradável, bonito, assim como é extremamente penoso andar alguns poucos quarteirões em locais sujos, mal iluminados, inseguros, perigosos, onde não haja nenhum respeito pela preferência de travessia aos pedestres, mesmo nas faixas a eles destinadas. É curioso observar como as mesmas pessoas que só circulam de carro nas cidades brasileiras se dispõem a se locomover de metrô ou por longos trechos a pé quando visitam outros países, como os da Europa, no Japão ou nos Estados Unidos. Ou seja, forma-se outro grande círculo vicioso: as pessoas não estão dispostas a andar a pé em regiões onde o trajeto não seja agradável, seguro, confortável, e acabam por demandar cada vez mais intervenções em sistemas viários, ruas, viadutos e largas avenidas. Os administradores públicos, muitas vezes procurando dar resposta a essa demanda ou seguindo seu próprio convencimento equivocado, investem os poucos recursos públicos em sistemas de transporte individuais, não integrado, o que leva a um incentivo a esse mesmo mowww.brasilengenharia.com WWW.BRASILENGENHARIA.COM

delo de transportes, ao invés de modificá-lo. Nesse sentido, é fundamental ter um olhar diferente sobre o conceito de transportes coletivos, de áreas públicas e de uso comum, a começar pelas calçadas e travessias de pedestres. O conceito de calçada deve ser exatamente o mesmo daquele visto na implantação de ruas, mas para circulação de pessoas e não veículos. Certamente será o primeiro passo na direção de transformar as cidades em ambientes mais humanos e saudáveis. Parece simples dizer que as calçadas devem ser projetadas e implantadas minimamente para permitir a circulação dos pedestres, assim como as ruas são implantadas prevendo a circulação dos veículos, mas não é bem assim. Os projetos de calçada não têm um mesmo padrão entre eles (ou alguns padrões pré-determinados, como são os projetos de ruas e avenidas), chegando ao absurdo de termos calçadas por onde não é possível a circulação de pedestres, pois estão ocupadas com postes, ár vores, canteiros de f lores, lixeiras. Ou seja, áreas onde a circulação dos pedestres é o menos importante. Outra questão fundamental a ser enfrentada é o fato de os proprietários de imóveis serem responsáveis pelo projeto, execução e manutenção das calçadas à frente de seus imóveis. Discussões financeiras à parte, fato é que esse modelo não funciona. Basta um pequeno passeio a pé Foto 3 em qualquer bairro da cidade para constatar que é impossível andar por alguns quarteirões sem que a calçada seja interrompida por aqueles obstáculos já mencionados ou ainda por degraus. É preciso lembrar que a circulação pelas calçadas também é feita por idosos, crianças, cadeirantes. Pode-se imaginar a gritaria que ocorreria se uma rua fosse construída com degraus ou Foto 4

com largura menor do que a de um carro? É urgente o enfrentamento realista e objetivo dessa questão. Olhando para o incentivo ao uso de transportes públicos, é evidentemente impossível imaginar um sistema de transportes coletivos onde haja um ponto de ônibus ou metrô em frente de cada casa, escritório ou ponto comercial. Portanto, a circulação de pedestres é fundamental, inclusive, para utilização de transportes públicos, que depende sempre de um trecho de circulação a pé na origem, no destino ou, mais comum ainda, nas duas pontas. Voltamos aqui ao ponto principal: é preciso cuidar dos aspectos urbanísticos das cidades como forma de incentivar as pessoas a circular a pé pelas cidades, inclusive para utilizar os sistemas de transportes públicos. Surge, então, como em todos os projetos que dependem de recursos públicos, a dúvida acerca do custo de um programa de reestruturação dos sistemas de calçadas em uma grande metrópole, como São Paulo, por exemplo. E de onde sairiam esses recursos. Existem algumas respostas que atendem a esse questionamento. Uma delas é a ampliação da cobrança de Zona Azul, modestamente utilizada na cidade de São Paulo, se comparada a amplitude de sua utilização em cidades europeias como Barcelona, por exemplo.

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ENGENHARIA I TRANSPORTE Mas é preciso estar convencido de que a circulação de pessoas a pé pelas cidades é fundamental. Não será possível mudar essa realidade se não for uma prioridade de governo (ou de governos, incluindo as três esferas). Sendo prioridade, algumas medidas são fundamentais, e teriam um forte efeito imediato ou de médio prazo. Em primeiro lugar é preciso dar ao pedestre absoluta prioridade ao cruzar as vias nas faixas a ele destinadas. É uma questão básica. Não é admissível que em cidades como São Paulo, com dezenas de milhares de faixas de pedestres, as pessoas não consigam atravessar as ruas nessas faixas. Isso sim é dinheiro público jogado na lata do lixo, além da demonstração de absoluta falta de cidadania e descaso dos poderes públicos. É questão de respeito com as pessoas, de civilidade, de organização social, de segurança, de proteção à vida. Já será um grande primeiro passo. O segundo momento pode contemplar um amplo projeto de viário estratégico para pedestres, sendo o poder público responsável pela reestruturação de todo o parque de calçadas em um raio de 500 metros, por exemplo, de todos os terminais de ônibus e de estações do Metrô e da CPTM, inicialmente para dar maior segurança e conforto aos atuais usuários desses sistemas, mas também com o objetivo de atrair mais pessoas para esses sistemas, pessoas que utilizam transporte individual, fora dos horários de pico dos sistemas coletivos e que poderão passar a utilizar os sistemas públicos se o trajeto casa/estação e estação/ destino final tiver as características para circulação de pedestres já mencionadas. Nessas regiões, seriam eliminados todos os obstáculos (inclusive escadas e degraus) das calçadas e garantida uma largura mínima em todos os circuitos, levando em conta o número de pessoas que circula por hora em cada uma delas – permitindo a circulação confortável dos pedestres e cadeirantes. Fundamental que a atenção ao respeito de travessias de pedestres nessas zonas estratégicas também seja prioritária. Os recursos, na cidade de São Paulo, podem vir facilmente das obrigações indicadas nas certidões de diretrizes para grandes e médios empreendimentos, recursos que já existem, porém normalmente direcionados apenas para obras viárias. Olhando atentamente para a questão do respeito à prioridade de travessia de pedestres nas faixas é necessário partir de uma ampla campanha, como aquela vista na cidade de São Paulo seis anos

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atrás, relembrando ao motorista (não se trata de ensinar, uma vez que se ele tem habilitação para conduzir veículo, deve saber das regras de trânsito) e, a partir daí, cobrar a obediência. Não existe regra de trânsito que seja cumprida espontaneamente por todos os motoristas. O mundo ideal seria aquele onde nenhum motorista seria multado, mas nunca por falta de fiscalização, e sim pelo amplo e absoluto respeito a todas as normas de trânsito, por todos. Estamos muito distantes desse ponto. Esse deveria ser o ideal, utópico, buscado pelos organismos de trânsito. Mas acredito que seja também fundamental rever a forma de implantação de alguns equipamentos públicos, como o exemplo das calçadas. Também como exemplo, modificar o conceito de implantação de faixas de travessias ou “faixas de pedestres”, como são conhecidas. Tradicionalmente, as faixas de pedestre são implantadas na linha de continuidade das calçadas, como mostrado na foto 1. A justificativa fundamental para essa prática é de que o pedestre deve fazer o menor desvio possível de sua trajetória (considerando que ele venha andando pela calçada, deverá atravessar a via transversal sem qualquer desvio de seu caminho). Essa visão tem, obviamente, sua lógica além de grandes defensores – pelos quais tenho enorme respeito. Mas acredito que, para que tenhamos um sistema de travessia para pedestre realmente eficiente, é preciso não apenas pensar na comodidade e conforto do pedestre (sem dúvida, fatores fundamentais e extremamente importantes), mas, mais do que isso, na sua segurança. E para tal, é preciso implantar projetos que proporcionem a maior possibilidade do condutor do veículo de respeitar “sempre” a preferência do pedestre nas faixas. Ou seja, promover o amplo respeito à preferência de travessia do pedestre na faixa é mais importante do que desenhar um trajeto com alguns poucos metros a menos. Supondo que todos os motoristas tenham absoluta disposição de respeitar a regra de travessia, existem situações em que a faixa será interrompida por um veículo enquanto seu condutor aguarda, por exemplo, a sua vez de cruzar uma via de certo movimento. Não há como enxergar o f luxo de uma via transversal sem que o veículo esteja parado sobre a faixa de pedestres, se esta faixa estiver implantada exatamente no alinhamento das calçadas. E, dependendo do f luxo da via transversal, que se pretende atravessar com o veículo, estaremos impedindo o f luxo de

pedestres por algum tempo. Ao contrário, se a faixa de pedestres estiver posicionada alguns metros antes do alinhamento da calçada, como mostrado na foto 2 e foto 3, o veículo pode ser parado antes da faixa para a travessia dos pedestres que já estejam ali e depois da faixa (deixando-a livre novamente para a travessia de pedestres), enquanto o motorista aguarda sua vez de cruzar a via transversal. Quando a faixa de pedestres está posicionada depois de um cruzamento, considerando a mão de direção da via, a situação se repete. Se estiver alinhada com a calçada, impedirá que um motorista que acabou de cruzar a via espere a travessia de pedestres sem deixar seu veículo ou sobre a faixa de pedestres ou impedindo o cruzamento que acaba de atravessar. De outra forma, se a faixa estiver deslocada alguns metros do alinhamento das calçadas, como na foto 4, permitirá que esse veículo aguarde a travessia dos pedestres sem interromper o fluxo da via transversal, que acaba de atravessar. Finalmente, o que se quer demonstrar com esse exemplo de algumas poucas ações pontuais, que certamente deverão fazer parte de um conjunto de ações muito mais amplo, é que os projetos e implantação dos equipamentos mais simples, como as faixas de pedestres e as calçadas, podem influenciar diretamente na percepção de segurança e conforto das pessoas ao circular a pé, de bicicleta ou outro equipamento não motorizado pela cidade. E essa sensação de segurança e conforto é fundamental para que as pessoas utilizem a cidade de outra forma, assim como ocorre nas grandes cidades europeias, contribuindo, de forma gradativa, para a melhoria da qualidade de vida nas cidades, através de um ambiente mais equilibrado e saudável.

* Marcelo Cardinale Branco é administrador de empresas, mestre em Engenharia pela Poli/USP. Atualmente é consultor em assuntos de transportes, meio ambiente e gestão pública. Atuou como Secretário Adjunto Municipal da Habitação (Sehab-SP); Presidente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU); Secretário Adjunto de Estado da Habitação – Estado de São Paulo; Presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb); Secretário Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras de São Paulo (Siurb); Secretário Municipal de Transportes, Presidente da São Paulo Transporte S/A (SPTrans), Presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET) E-mail: marcelobranco@uol.com.br

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CRÔNICA

Oportuna crônica

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sta bela história, um tipo de fábula japonesa, conheci-a em um curso de gerenciamento no Japão para se entender melhor a noção de cliente/fornecedor, internos à empresa. O que você deseja receber do seu fornecedor e como deve fazer para passar o serviço ao seu cliente. Parece simples, mas quando aplicamos essa técnica no Metrô de São Paulo, percebemos que nosso projeto era considerado bastante inteligível para nossos clientes, o setor de construção. Não percebíamos que durante muito tempo na geração dele ficávamos familiarizados a tal modo que julgávamos tudo como autoexplicativo. Qual foi a nossa surpresa quando perguntamos aos engenheiros que iriam por de pé o projeto se havia dúvidas. Muitas! Mas, como sempre, na apresentação do projeto, já o colocavámos como “claríssimo” e facílimo de entender – e nossos colegas ficavam um pouco engessados e não perguntavam quase nada, intimidados pela nossa, talvez, “soberba”. Acredito que na crônica esse ponto também ficará claro. Havia escrito uma crônica nova para a revista, mas lembrei-me dessa, já publicada, há muitos anos atrás. Mas, achei como mais importante e muito oportuna para os tempos “bicudos” em que estamos vivendo, reescrever a que segue. Afinal quantas brigas e divisões nas famílias, amigos, empresas etc., por causa da divisão política tem havido? Não se ouve mais, não se pergunta mais, só se acusa e se agride. Coxinhas, petralhas! Discutir política seria muito importante, mas sem sectarismos, sem partidarismos. No entanto o país nunca precisou de tanto entendimento, compreensão e conversa. Mas vamos à história que, espero, ajude um pouco e que seja em uma reflexão para se entender o próximo, seja ele quem for e como se apresentar. Há cerca de uns 300 anos o mais famoso samurai do Japão, Hideki Takeuchi, caçava nas montanhas dos Alpes japoneses em um tórrido dia de verão. Subia e descia trilhas, procurava fontes de água, regatos, em vão. A época era de uma forte seca. Nosso samurai, com muita sede, e já sentindo o peso da idade sentia a garganta colar e a boca seca. Aliás, procurava, em suas andanças, uma criança para treinar e substitui-lo na posição de um grande samurai. E ainda não encontrara este sucessor. A escolha desta criança era uma grande honra para a família que a cedia. Não achá-la lhe angustiava. Afinal o treinamento era bem longo... Viu então as torres de um monastério budista e dirigiu-se para lá, rapidamente. Tocou o sino e atendeu-o um menino de cerca de cinco ou seis anos. Takeuchi san disse que tinha muita sede. Sem nada falar a criança correu até o mosteiro e voltou com uma cuia de chá. Nosso herói sorveu-a rapidamente, mas continuava com sede. O menino entendeu, foi e voltou com outra cuia de chá. O samurai tomou a cuia, parou, e disse: “que chá delicioso! Poderia tomar uma terceira cuia?”. www.brasilengenharia.com

Rapidamente a criança foi NESTOR SOARES TUPINAMBÁ e voltou com outra cuia que é engenheiro, mestre em urbanismo e Takeuchi tomava, agora, com consultor de transporte mais vagar sentindo gosto e E-mail: nstupinamba@uol.com.br aroma da infusão. E enquanto bebia observava atentamente o garoto que, também curioso, o observava. O silêncio de uma concentração tão usada por samurais e budistas. Os primeiros diziam que numa luta você se esquece de você mesmo e torna-se o inimigo. Com isso prevê tudo o que ele vai fazer! Ao cabo de alguns minutos disse que queria conversar com o monge dirigente daquele monastério. O monge veio, reconheceu-o, cumprimentando-o demoradamente. No Japão antigo a categoria mais admirada, após os xoguns, era a dos samurais. Em seguida vinham agricultores, artesãos, curadores, e outras. A última era a dos agiotas! O samurai disse, então, que procurava seu sucessor para o longo treinamento até tornar-se o principal samurai japonês. E acabara de encontrá-lo! Escolhera aquele menino... O monge muito surpreso perguntou como, em breve encontro e quase sem palavras, o herói poderia saber que o escolhido poderia honrar a difícil missão. Afinal ele havia observado da janela o rápido encontro entre os dois quase sem palavras... Takeuchi disse que o garoto tinha o principal atributo para a difícil e nobre missão. Colocar-se no lugar do outro, o que trazia uma grande e essencial condição de entendimento entre as pessoas e estabelecer, assim, a paz entre elas. Na paz e nas batalhas. E como percebeu isso nessa criança, pergunta-lhe o monge? Simples, disse o guerreiro. Quando me viu suado e com a boca seca ele me trouxe chá frio, não convencional, porque entendeu que iria sorvê-lo rapidamente dado à minha sede. Já na segunda cuia trouxe um chá morno uma vez que a sede se aplacava. E na terceira cuia veio o chá quente, como se faz normalmente, para que eu pudesse apreciá-lo! O monge entendeu e, muito surpreso, cedeu a criança que, de fato, veio a tornar-se um dos mais famosos samurais do Japão. Massaru Kato, se a memória não me trai. Quanto entendimento em tão poucas palavras! Então, leitores (os poucos que, com paciência, chegaram até aqui), procurem sempre se colocar no lugar de seus interlocutores, desprendendo-se dos sentimentos do ego, sem pensar na resposta que vão dar – o que nos impede de escutar os argumentos do outro. É uma técnica eficaz para se promover o consenso e união entre pessoas, sem muita discussão (sem se render, necessariamente, aos argumentos do outro). Afinal não é nada mais e nada menos que um corolário do primeiro mandamento da Bíblia: “Ama o próximo como a ti mesmo!”. Inspire-se, portanto, no samurai! Seja forte, cedendo sua vaidade ao lugar do próximo! engenharia 637

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MEMÓRIAS DA ENGENHARIA

Acerca de fissuras em edifícios e da origem dos recalques

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o responder questionamentos sobre quais as principais implicações das fissuras num edifício, o engenheiro e professor Ercio Thomaz, especialista do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), destaca que, além do óbvio constrangimento psicológico exercido sobre os usuários, as fissuras comprometem o desempenho das edificações como um todo, e, em particular, sua durabilidade. “Quando as fissuras estão presentes nas fachadas, além de eventualmente prejudicarem a isolação acústica e a salubridade do ambiente interno, favorecem as infiltrações de umidade gerando fenômenos de lixiviação, eflorescências, movimentações higroscópicas, desagregações e outras, além de aumentarem significativamente a condutibilidade térmica dos materiais umedecidos”, explica, acrescentando que quando se desenvolvem em componentes de concreto armado, redundam geralmente em maior deformabilidade das estruturas fletidas e favorecem o acesso de umidade, oxigênio e agentes agressivos ao interior das peças, induzindo principalmente processos de corrosão de armaduras. Ercio Thomaz é graduado em engenharia civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1973), possui mestrado em engenharia civil pela USP (1986) e doutorado em engenharia civil também pela USP (1999). Além de pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, Thomaz é professor das disciplinas “Patologias das Edificações”, “Alvenarias”, “Qualidade das Construções” e “Técnicas de Construção Civil”. Tem vasta experiência na área de construção civil, com ênfase em materiais e sistemas construtivos, estruturas de concreto armado, alvenarias, revestimentos e fachadas de edifícios. Segundo ele, as fissuras podem ter apenas implicações estéticas e funcionais, mas podem sinalizar eventuais estados perigosos, o que não é muito fácil de discernir: fissuras com aberturas de 5mm ou 6mm numa alvenaria de vedação podem ser inócuas para a estabilidade e segurança da edificação. “Também fissuras com aberturas de 1mm no centro do vão de uma viga fletida geralmente não representam nenhum risco, enquanto que fissuras com abertura de 0,1mm na região dos apoios da mesma viga fletida podem representar significativa redução da segurança da peça contra ruína.” Ele considera que o desenvolvimento de novas tecnologias, na maioria das vezes, tem contribuído para a diminuição das patologias nas construções. “Mas, em alguns casos, quando o desenvolvimento é pautado quase que exclusivamente pela ideia de redução do investimento inicial e maximização dos lucros, os resultados direcionam-se na contramão do que a sociedade espera para os ativos imobiliários”, diz, esclarecendo que as pessoas esperam racionalização do custo total do empreendimento (investimento inicial + custos de operação + custos de manutenção + custos de demolição ou reaproveitamento ao final da vida útil), necessidade de maior durabilidade e extensão do ciclo de vida, consumo racional de recursos e maior preservação ambiental. Thomaz ressalta que o tratamento de patologias e recuperação de obras, principalmente nos casos das patologias congênitas, deve sempre levar em conta “o que deveria ter sido

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Engº Ercio Thomas feito” em termos de planejamento, projeto, materiais e processos de execução. “Para tanto, há necessidade de estabelecer-se com razoável precisão o diagnóstico dos processos degenerativos e o prognóstico da eventual evolução dos problemas, tentando-se a partir daí recuperações que envolvam o menor custo e considerem os parâmetros apontados no parágrafo anterior.” Em relação ao papel das fundações na questão dos recalques, o especialista entende que a superestrutura bem projetada e bem executada repercutirá na almejada durabilidade da obra e na perfeita concatenação com alvenarias, revestimentos, sistemas prediais e outros elementos, aliando economia com desempenho técnico. “Essa superestrutura é composta por armaduras e concreto compatíveis com as tensões atuantes e com a agressividade do meio no local da implantação, pilares e vigas sem desvios significativos de locação, sem desbitolamentos importantes das peças de concreto armado ou falhas na seção, posicionamento e cobrimento das armaduras, entre outros fatores.” Por outro lado – observa Thomaz – estruturas deficientes repercutirão em engrossamentos de alvenarias, enchimentos de lajes de piso, eventual necessidade de reparos e reforços localizados, onerando a obra, atrasando o cronograma, aumentando as cargas atuantes e gerando mais um sem número de inconvenientes. “Se o bom comportamento da superestrutura é relevante para o bom desempenho da obra, é preponderante para tanto o bom funcionamento dos elementos que a suportam, ou seja, as fundações.” Ele lembra que até algum tempo atrás, quando havia pilares “trabalhando” com cargas que não ultrapassavam 100 ou 200 toneladas, as fundações eram dimensionadas quase que exclusivamente pelos critérios de resistência do solo, dando-se pouca importância ao risco de ocorrência de recalques diferenciados. “Com o advento das megaobras de infraestrutura e dos ‘edifícios altos’ – alguns chegando a atingir 400 ou 500 metros de altura –, os pilares passaram a atuar sob cargas superiores a 1 000 ou 2 000 toneladas, exigindo-se agora cuidadosos estudos das interações solo/estrutura e dos significativos recalques que certamente ocorrerão.” Para o pesquisador do IPT, a correta previsão dos recalques é uma das tarefas mais árduas da engenharia atual, envolvendo, além das cargas atuantes, do material, tipo, dimensões e formato dos elementos de fundação, inúmeros aspectos relacionados à geotecnia, geologia, hidrologia e outras disciplinas. Dessa forma – ressalta ele –, chegaremos sempre a valores aproximados dos recalques que se desenvolverão na prática: se não ocorrerem alterações significativas ao longo do plano das fundações (camadas deformáveis profundas, efeitos de grupo etc.), os erros que afetarão a previsão de recalques num determinado pilar serão aproximadamente os mesmos que afetarão os pilares vizinhos. “Ou seja, fica relativizada a importância do erro na avaliação da distorção angular – que é a relação entre o recalque diferencial e a distância entre dois elementos de fundação adjacentes –, em última instância a responsável pelos problemas de fissuras e outras anomalias na superestrutura.”

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ENGENHO&ARTE

De volta à

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ivemos num mundo globalizado, onde não só se procura tornar homogênea a produção agrícola como até a percepção do sabor humano. Todos têm que ter o mesmo gosto para se agradar aos exportadores de alimentos multinacionais. Na questão do vinho não é diferente. Hoje vinhos “facinhos”, com poucos taninos, sedosos, secos, mas com um pouco de açúcar residual, agradáveis e sem muito caráter, são produzidos no mundo inteiro, fazendo com que o consumidor, principalmente os neófitos, acreditem ser este o padrão de todas as regiões. Não é este o caso da região portuguesa da Bairrada, que vai à contramão da história e, sem abandonar um só milímetro o caráter diferente de seus vinhos, vem apresentando ótimos resultados e criando caldos maravilhosos, que vamos abordar neste artigo. As regiões portuguesas mais conhecidas no Brasil são, sem dúvida, o Douro e o Alentejo. Temos esquecido um pouco o Dão, antigamente muito conhecido e grande exportador para nós, mas que hoje se modernizou e tem feito vinhos desde interessantes até maravilhosos. Já na Bairrada, região que se estende de Coimbra até as imediações de Aveiro, já perto da praia, com 9 000 hectares de vinhas, são produzidos vinhos muito peculiares. Os brancos, feitos à base de Cercial, Bical, Fernão Pires, Rabo de Ovelha e Arinto, com algum Chardonnay, podem ser muito bons, principalmente quando oriundos de vinhas muito velhas. São acídulos, frescos, refrescam o palato e a mistura de castas muitas vezes lhes aporta complexidade, sendo companheiros de peixes de forno e outros pratos que careçam de um branco estruturado. Também a produção de espumantes na Bairrada remonta ao século 19, com produtos frescos e acídulos que combinam muito bem com a gastronomia local. Mas é do vinho tinto que queremos falar. Ele pode ser produzido, segundo a legislação local, por nove castas diferentes, mas a que melhor representa sua história, e que produz quase que a totalidade dos grandes vinhos, é a Baga. A Baga é uma casta diferente de todas do mundo. Nos vinhos mal-elaborados, quando ela é colhida imatura ou trabalhada deficientemente na adega (por exemplo, com extração demasiada ou prensagem com engaços) dá origem a vinhos simultaneamente tânicos (amargos) e áci-

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dos, com sabor à terra e que metalizam na boca. Assustam assim qualquer amador que não conheça seu caráter idiossincrático. Estes vinhos (quase não há mais deste tipo na região) se conservam ruins por décadas, dado o grande teor de taninos que ostentam. Não melhoram com o tempo, são apostas perdidas. Porém a Baga, na mão de enólogos sábios, dos quais falaremos mais adiante, dá origem a vinhos intensos, de grande concentração de sabor e poderosa estrutura, que podem envelhecer melhorando por duas décadas, e, ainda que mantenha o seu caráter rude, com taninos e acidez proeminentes, esta rudez não lhe diminui a qualidade, antes, a aumenta.

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Bairrada IVAN CARLOS REGINA

E não há como não começar por Luis Pato, o maior dos divulgadores da região. Produtor na pequena cidade de Curia, ele é mundialmente conhecido como “o homem que domou a casta Baga”. Engenheiro de formação, observador atento, meticuloso ao extremo, e um marqueteiro de mão cheia, Pato vai aos quatro cantos do mundo divulgar a cepa principal de sua querida região natal. Também um experimentador, irrequieto, produz vinho de pé franco (sem se valer dos cavalos, ou seja, videiras diretamente plantadas no solo arenoso da Bairrada), vinhos doces, brancos que passam na madeira etc. Sua filha, Filipa Pato, herdou o mesmo

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é engenheiro do setor de transporte público, estro do pai, e seus associado do Instituto de Engenharia vinhos também e autor dos livros Vinho, o Melhor Amigo são espetaculares. do Homem e Harmonizando Vinho&Comida Temos que menE-mail: ivanregina@terra.com.br cionar também o produtor Mário Sérgio Alves Nuno, que rotula seus maravilhosos vinhos como Quinta das Bágeiras. Homem ligado ao campo, com uma visão tradicionalista no que este termo mais tem de riqueza, suas Garrafeiras e sua linha “Pai Abel” registra o que de mais excelso tem a região a oferecer. A Bairrada também possui um nível qualitativo médio muito alto, e mesmo os vinhos produzidos em cooperativas são bons. Recentemente, espelhando-se em formação semelhante no Douro, alguns produtores juntaram-se e constituíram os “Baga Friends”, que reúne Luis Pato, Filipa Pato, Quinta das Bágeiras (dos quais já falamos), Sidônio de Souza (produtor ultraconservador, vinhos à moda antiga e muito interessantes) e Niepoort, cujo mentor, Dirk, tem papel proeminente na revolução recente da qualidade do vinho português. Gostaria de citar ainda Carlos Campolargo, produtor que conheci quando seus vinhos ainda eram apenas uma promessa. Arguto, perspicaz, não se inibe em produzir vinhos juntando cepas portuguesas com estrangeiras, sempre na busca de caldos melhores. Cito, apenas como exemplo, o “Calda Bordalesa” (com uvas de Bordeaux) e o “Rol de Coisas Antigas”, uma mistura de todas as uvas tintas usadas para fazer vinho na região. Outros bons produtores são Kompassus (vinhos tintos e espumantes), Caves São João e Caves do Solar de São Domingos (vinhos longevos, que necessitam espera em garrafa), e Encontro, este com vinhos mais modernos, mais acessíveis. Por último deixamos o melhor. O vinho feito com a casta Baga combina perfeitamente com a tradicional gastronomia da região, em especial com o Leitão à Bairrada, onde o bacorinho assado é servido crocante e estaladiço, e a Chanfana, onde a carne de cabra ou carneiro é cozida muito tempo em panelas de barro. A acidez e o tanino presentes no vinho harmonizam com a rusticidade e gordura destes pratos, num conúbio de deuses. Só nos resta honrar a tradição bairradina e erguer uma taça deste esplêndido vinho: Saúde!

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ENGENHARIA BIBLIOTECAI ALBUQUERQUE, Carlos Eduardo Camargo de. (Coordenador) DVD – Engenharia Industrial Madeireira. Projeto de Extensão nº: 029/15.

UFPR, 2 mídias, a Blue-Ray e DVD, com a duração de 1h 33min. A obra na verdade é o projeto em vídeo de extensão da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O DVD traz imagens lindas da universidade e de Curitiba, e fala a respeito da Engenharia Industrial Madeireira. Ivan Venson foi o Vice-Coordenador do projeto em questão.

EL DEBS, Mounir Khalil. Concreto pré-moldado: fundamentos e aplicações. 2ª edição.

São Paulo – SP, Oficina de Textos, 2017, 456p. Após 17 anos a obra recebe uma nova edição revigorada e ampliada. Traz a última atualização da principal norma brasileira sobre o assunto, a NBR9062 - Projeto e execução de estruturas de concreto pré-moldado. Além da atualização técnica, no decorrer do período ganharam importância novas questões, como as relacionadas à sustentabilidade. Esta obra procura motivar os leitores para sua aplicação, rompendo um círculo vicioso: não se constrói porque não se têm insumos tecnológicos (conhecimentos, experiência, equipamentos e dispositivos auxiliares) e não se têm os insumos tecnológicos porque não se constrói. O livro está dividido em 4 partes e 13 capítulos, compreendendo desde os fundamentos do concreto pré-moldado, prosseguindo pelas aplicações em edifícios, pontes e outras construções civis e completando com os elementos de produção especializada. Na última parte são apresentados anexos, que entre outros assuntos, incluem exemplos numéricos. Este livro é direcionado a alunos e profissionais de engenharia civil e arquitetura, com ênfase ao projeto das estruturas formadas por elementos pré-moldados.

MASSAD, Faiçal. Mecânica dos solos experimental.

São Paulo – SP, Oficina de Textos, 2016, 287p. Conhecer o solo é requisito fundamental para diversos projetos – aterros de estradas, barragens de terra e de enrocamento, fundações de edifícios, escavação de valas e túneis etc. E os ensaios laboratoriais e de campo são peça-chave para isso. O livro detalha os conceitos básicos, as técnicas e os equipamentos necessários para a realização desses ensaios. O conteúdo é lastreado nas normas brasileiras e, quando pertinente, nas estrangeiras também. Além de apresentar suporte teórico e procedimental, o autor investiga as principais fontes de erro e como eles se propagam em diversos parâmetros do projeto geotécnico – e propõe, a partir disso, as medidas para mitigá-los. A obra traz ainda exercícios solucionados, questões reflexivas e roteiros para os ensaios, que cobrem temas como sedimentação, propriedades químicas dos argilominerais, limites de liquidez, ensaios de compactação do solo, determinação da densidade, da permeabilidade e do adensamento, entre outros.

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SOHLER, Flavio Augusto Settimi; SANTOS, Sérgio Botassi dos. (orgs.) Projeto, execução e desempenho de estruturas e fundações.

Rio de Janeiro – RJ, Editora Ciência Moderna, 2018, 475p. O livro destaca os principais aspectos da engenharia quanto às estruturas e fundações que devem ser observados na construção civil. São tratados temas como dimensionamento de fundações superficiais e profundas; boas práticas para execução de fundações; análise geotécnica; análise de estruturas de concreto armado; emprego de software para dimensionamento estrutural; elementos pré-moldados e protendidos; dimensionamento de cortina em edifício; manifestações patológicas e técnicas preventivas e de recuperação de estruturas de concreto; edifícios de parede de concreto; concretos especiais como o autoadensável; controle tecnológico de insumos e produção do concreto; princípios, detalhamento e execução de estruturas metálicas; técnicas de fôrmas e escoramentos; ferramentas estatísticas aplicadas à qualidade da construção e concepções arquitetônicas visando a excelência estrutural.

SILVA, José Pereira da. A trajetória de um calculista de estruturas. Natal - RN, Editado pelo autor, 2009, 376p. A história do engenheiro que calculou várias das grandes obras de engenharia da capital, como a Catedral Metropolitana, o Machadão e a ponte Newton Navarro, será imortalizada no livro “A trajetória de um calculista de estruturas”. Trata-se de uma autobiografia do engenheiro José Pereira da Silva, escrita em parceria com os seus filhos, Flávio César e Fábio Sérgio da Costa Pereira. Nessa obra, o engenheiro relembra aspectos de sua vida, como as dificuldades em cursar engenharia no final dos anos 1950, quando o curso não era oferecido no Rio Grande do Norte, e as poucas ferramentas de trabalho que dispunha para o cálculo de estruturas. O livro foi editado na forma de uma grande apostila, no intuito de oferecer um estímulo aos engenheiros recém formados. A obra é destinada a profissionais de Engenharia Civil e Arquitetura.

TRANI, Eduardo; GUSSONI, Maria de Lourdes Badejo. (organizadores) CDHU: 50 anos Promovendo a Habitação Social no Estado de São Paulo. São Paulo - SP, KPMO Cultura e Arte, 2016, 452p. O livro CDHU – 50 Anos Promovendo a Habitação Social no Estado de São Paulo foi editado entre os anos de 2014 e 2016. Num trabalho de grande esforço realizado pelas equipes da CDHU e da KPMO, os mais de 50 anos de história desta Companhia estadual foram contados por meio de seus marcos institucionais e por sua produção habitacional. Centenas de projetos realizados em todo o Estado ilustram momentos que vão desde o final dos anos de 1960 até o início da década de 2010. Dividido em 7 grandes períodos (1964-1974; 1975-1982; 1983-1988; 19891994; 1995-2000; 2001-2006; 2007-2013), a publicação ressalta que este livro é uma “contribuição importante para estudos sobre problemas habitacionais no Estado de São Paulo e sobre as condições enfrentadas nas diferentes fases da existência do órgão.

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I ENGENHARIA

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ENGENHARIA I OPINIÃO

Um plano para requalificar o Rio Pinheiros

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m dezembro do ano de 2014, o jornal Folha de S. Paulo, em sua coluna “Tendências e Debates” publicou um artigo de minha autoria relativo à crise do abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) cujo auge já se avizinhava. Na ocasião, o artigo alertava que era urgente que as autoridades sanitárias do Estado implantassem um plano B visando reduzir a insegurança hídrica. Plano este que se basearia na adoção de tecnologias de tratamentos avançados para a purificação de águas de mananciais não protegidos localizados dentro da própria RMSP que, por esta razão, estavam com qualidade de água incompatível com as técnicas convencionais ainda adotadas de tratamento de água. O meu artigo de 2014 propunha também a implantação de uma nova captação no corpo da Represa Billings, próximo ao reservatório das Pedras de modo a se aproveitar dos efeitos de autodepuração daquele manancial, cujas águas agregariam também as do Rio Pinheiros, requalificadas com o reforço do efluente tratado da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Barueri e excepcionalmente (como procedido atualmente) de parte das águas do Tietê a montante. Naquelas condições, o reaproveitamento das águas do Rio Pinheiros seria feito de modo perene, situação impensada nos dias de hoje dadas à péssima qualidade de suas águas, o que ensejou as restrições sanitárias e ambientais por força das Disposições Transitórias da Constituição paulista promulgada em 1988. A requalificação do Rio Pinheiros se daria em um primeiro momento por diluição através do reforço da vazão do canal do Rio Pinheiros por meio da introdução, na embocadura do Tietê, do efluente tratado da ETE Barueri da Sabesp, a qual seria tratada a nível terciário segundo uma vazão de cerca de 16 metros cúbicos por segundo (vazão referente à estação de tratamento de esgoto, ETE, ampliada). Esta vazão corresponderia a um acréscimo de cerca de 150% na vazão do rio em tempo seco o que garantiria uma melhoria significativa na qualidade da água, que, no entanto, seria ainda imprópria para contato primário ou para fins de abastecimento de água, mas apropriada para fins estéticos contribuindo para melhor emolduramento das margens do rio em todo o seu curso, aspiração almejada pela população paulistana que quer se orgulhar de seu rio. Para se atingir um grau de depuração adequado à reversão do esgoto tratado da ETE Barueri somente poderia ser realizada após um tratamento terciário do efluente secundário, indispensável também para evitar a formação de espuma e restringir a concentração de Fosfato menor que 0.025 mg/l como exagera a Cetesb. Esta intervenção

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seria feita no mínimo JOSÉ EDUARDO W. DE A. CAVALCANTI com a adoção de proé engenheiro consultor, diretor do Departacessos de micro filtramento de Engenharia da Ambiental do Brasil, ção do efluente tratado diretor da Divisão de Saneamento do Deinfra e futuramente com a - Departamento de Infraestrutura da Federação substituição dos decandas Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), tadores secundários por conselheiro do Instituto de Engenharia, e membro membranas de ultrafilda Comissão Editorial da Revista Engenharia tração o que propiciaria E-mail: cavalcanti@ambientaldobrasil.com.br também a liberação de áreas para expansão daquela ETE. Com tal grau de qualidade, esta reversão se daria por recalque com a tubulação seguindo pelas margens do Rio Tietê, porém em sentido contrário, em direção à embocadura do Rio Pinheiros por onde adentraria evoluindo ao longo do canal através das estruturas hidráulicas já existentes até a Represa Billings. O tratamento ao nível terciário das águas revertidas à Represa Billings acrescentaria pelo menos 22 metros cúbicos por segundo, àquela represa de forma contínua. Por sua vez, a água captada na Represa Billings naquele local seria submetida a tratamentos avançados incluindo tecnologia de membranas, complementada com eventuais processos oxidativos. Esta solução traria como vantagens além da melhoria da qualidade das águas do Rio Pinheiros a elevação da segurança hídrica da metrópole podendo ainda reforçar a geração de energia em Henry Borden quando as condições hídricas forem favoráveis, sem esquecer, todavia do caráter prioritário que se reveste o abastecimento de água à população. Focando-se, entretanto, na requalificação apenas do Rio Pinheiros, como foi desejo do governo do Estado de São Paulo no chamamento frustrado da iniciativa privada em 2017 por meio de concessão ou sociedade de propósito específico (SPE), as intervenções hidráulicas, após a validação técnica desta proposição por meio de simulações, se limitariam à captação e à reversão por bombeamento do efluente tratado na ETE Barueri através de linhas de dutos ao longo da margem esquerda do Tietê em uma extensão de cerca de 11 quilômetros sob baixa altura manométrica. A Sabesp retomou a implantação dos coletores-tronco na bacia do Rio Pinheiros no bojo do Projeto Tietê, interrompido enquanto perdurou a recente crise hídrica. Mas essa intervenção por si só não é suficiente para revitalizar o Rio Pinheiros sendo necessárias ações no próprio rio e em seus afluentes conforme aqui sugerido. Mas, sem a participação da iniciativa privada isso seria impossível. www.brasilengenharia.com


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