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engenharia 625 / 2015

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ENGENHARIA I

Fundadores Apparício Saraiva de Oliveira Mello (1929-1998) Ivone Gouveia Pereira de Mello (1933-2007)

Rua Alice de Castro, 47 - Vila Mariana CEP 04015 040 - São Paulo - SP - Brasil Tel. (55 11) 5575 8155 Fax. (55 11) 5575 8804 E-mail: info@brasilengenharia.com.br Assinatura anual: R$ 120,00 Número avulso: R$ 25,00 DIRETOR RESPONSÁVEL MIGUEL LOTITO NETTO DIRETOR EDITORIAL RICARDO PEREIRA DE MELLO DIRETORA EXECUTIVA MARIA ADRIANA PEREIRA DE MELLO 31/MAIO A 31/JULHO 2015 - ANO 72 - N.º 625 INSTITUTO DE ENGENHARIA. Presidente: Camil Eid. Vice-presidente de Administração e Finanças: José Olimpio Dias de Faria. Vice-presidente de Atividades Técnicas: Miriana Pereira Marques. Vice-presidente de Relações Externas: Marcos Moliterno. Vice-presidente de Assuntos Internos: Roberto Bartolomeu Berkes. COMISSÃO EDITORIAL: Alfredo Eugênio Birman, Antonio Maria Claret Reis de Andrade, Aristeu Zensaburo Nakamura, Camil Eid, Ivan Metran Whately, Jefferson D. Teixeira da Costa, João Ernesto Figueiredo, José Eduardo Cavalcanti, José Fiker, Laurindo Martins Junqueira Filho, Luís Antônio Seraphim, Miguel Lotito Netto, Miguel Prieto, Miracyr Assis Marcato, Miriana Pereira Marques, Nestor Soares Tupinambá, Paulo Eduardo de Queiroz Mattoso Barreto, Permínio Alves Maia de Amorim Neto, Reginaldo Assis de Paiva, Ricardo Pereira de Mello, Roberto Bartolomeu Berkes, Roberto Kochen, Rui Arruda Camargo, Theophilo Darcio Guimarães. ENGENHO EDITORA TÉCNICA. Diretor Editorial: Ricardo Pereira de Mello. Diretora Comercial: Maria Adriana Pereira de Mello. Editor Chefe: Juan Garrido. Redatora: Cláudia Maria Garrido Reina. Fotógrafo: Ricardo Martins. Editoração: Adriana Piedade (Zaf) e André Siqueira (Via Papel). Assinaturas: Leonardo Moreira. Criação e arte: André Siqueira (Via Papel). Impressão e acabamento: Referência Gráfica. REDAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E PUBLICIDADE: Engenho Editora Técnica Ltda. Rua Alice de Castro, 47 - Cep 04015 040 - São Paulo - SP - Brasil - Telefones. (55 11) 5575 8155 - 5575 1069 - 5573 1240 - Fax. (55 11) 5575 8804. Circulação nacional: A REVISTA ENGENHARIA é distribuída aos sócios do Instituto de Engenharia, assinantes e engenheiros brasileiros que desenvolvem atividades nas áreas de engenharia, projeto, construção e infraestrutura. A REVISTA ENGENHARIA, o Instituto de Engenharia e a Engenho Editora Técnica não se responsabilizam por conceitos emitidos por seus colaboradores ou a precisão dos artigos publicados. Só os editores estão autorizados a angariar assinaturas. Periodicidade: Bimestral. Número avulso: R$ 25,00 Assinatura anual: R$ 120,00 E-mails: info@brasilengenharia.com.br engenho@uol.com.br

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. NENHUMA PARTE DESTA PUBLICAÇÃO (TEXTOS, DADOS OU IMAGENS) PODE SER REPRODUZIDA, ARMAZENADA OU TRANSMITIDA, EM NENHUM FORMATO OU POR QUALQUER MEIO, SEM O CONSENTIMENTO PRÉVIO DA ENGENHO EDITORA TÉCNICA OU DA COMISSÃO EDITORIAL DA REVISTA ENGENHARIA Filiada a:

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NESTA E 36 42

ENTREVISTA

PAULO FERREIRA Secretário Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades “É PRECISO INVESTIR NO PLANEJAMENTO DE MÉDIO E LONGO PRAZOS DO SETOR HÍDRICO”

Segundo Paulo Ferreira a crise de escassez hídrica coloca novamente a discussão sobre os reservatórios de armazenamento de água. Ele acha que a situação atual do Brasil, caso não se observem as chuvas históricas esperadas, levará à necessidade de novos investimentos em obras de infraestrutura para o aumento das capacidades de reserva de água ou mesmo a busca por novos mananciais mais distantes dos centros de consumo. Em sua visão essa questão é polêmica por vários impactos, entre eles o ambiental

LINHA DE FRENTE

RICARDO DARUIZ BORSARI Superintendente do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE)

“INTERLOCUÇÃO ADEQUADA COM A ANA E COM OS USUÁRIOS DE ÁGUA PARA VENCER DESAFIOS”

Na visão de Ricardo Borsari a situação dos recursos hídricos no Estado de São Paulo e, em particular, nas regiões metropolitanas, exige ações firmes, transparentes, com interlocução adequada, frequente e objetiva com os usuários, a ANA e outras esferas de governo. “É o que estamos procurando implementar, uma vez que os desafios que estamos enfrentando, e vencendo, não são pequenos”, destaca. As pouquíssimas precipitações da estação chuvosa 2013-2014, com ênfase na Região Sudeste, constituíram um duro golpe para o sistema de abastecimento de água às populações.

PALAVRA DO PRESIDENTE

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CARTAS

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PALAVRA DO LEITOR

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CURTAS

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DIVISÕES TÉCNICAS

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SEÇÕES

EDITADA DESDE 1942

www.brasilengenharia.com ISSN 0013-7707 REVISTA ENGENHARIA Órgão Oficial do Instituto de Engenharia

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CRÔNICA

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MEMÓRIAS DA ENGENHARIA

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ENGENHO & ARTE

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BIBLIOTECA

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OPINIÃO

ASSINATURAS WWW.BRASILENGENHARIA.COM ENGENHARIA 606 / 2011 engenharia 625 / 2015

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I ENGENHARIA

EDIÇÃO CAPA / ENGENHARIA

CRISE HÍDRICA O FUTURO DO ABASTECIMENTO

CAPA Crise hídrica: O futuro do abastecimento Criação: André Siqueira

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Por meio de ações emergenciais, caso da interligação dos sistemas Rio Grande e Alto Tietê, e obras estruturantes – como o novo Sistema São Lourenço e a interligação da represa Jaguari (bacia do Rio Paraíba do Sul) com a represa Atibainha (bacia do Sistema Cantareira) –, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), tenta vencer a crise hídrica e ao mesmo tempo aumentar a oferta de água na Região Metropolitana de São Paulo. Essas iniciativas fazem parte dos esforços da companhia – que incluem obras de reforço de adutoras e elevatórias para aumentar o volume de transporte de água – visando integrar o sistema metropolitano e torná-lo mais flexível e resistente

APOIA ESTA EDIÇÃO:

ENGENHARIA ENERGIA / ARTIGO

ANÁLISE DO IMPACTO AMBIENTAL CAUSADO PELA GERAÇÃO DE ENERGIA EÓLICA Luciano Laignier de Souza, Rafael Borges da Cunha, Arlete Vieira da Silva, Mario Henrique Pereira Santos

ENGENHARIA CIVIL / ARTIGO

DIMENSIONAMENTO DE SISTEMA DE HIDRANTES PREDIAIS Aderson Guimarães Pereira

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A MISSÃO DO INSTITUTO DE ENGENHARIA Promover a engenharia, em benefício do desenvolvimento e da qualidade de vida da sociedade. Realiza essa missão por meio da: promoção do desenvolvimento e da valorização da engenharia; promoção da qualidade e credibilidade de seus profissionais; prestação de serviços à sociedade, promovendo fóruns e debates sobre problemas de interesse público, analisando e manifestando-se sobre políticas, programas e ações governamentais, elaborando estudos, pareceres técnicos e propostas para o poder público e para a iniciativa privada; prestação de serviços aos associados. Suas ações estão dirigidas para: a comunidade em geral; os órgãos públicos e organizações não governamentais; as empresas do setor industrial, comercial e de serviços; as empresas de engenharia, engenheiros e profissionais de nível superior em geral; os institutos de pesquisas e escolas de engenharia; e os estudantes de engenharia.

ENGENHARIA 625 / 2015 engenharia 625 / 2015

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ENGENHARIA I ENGENHARIA I

PRESIDÊNCIA PRESIDENTE Camil Eid presidencia@iengenharia.org.br ASSESSOR DA PRESIDÊNCIA Victor Brecheret Filho assessoria@iengenharia.org.br ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO Fernanda Eri Nagatomi imprensa@iengenharia.org.br Isabel Cristina Dianin site@iengenharia.org.br Marília Ravasio comunicacao@iengenharia.org.br DIRETOR DA CÂMARA DE MEDIAÇÃO E ARBITRAGEM Maçahico Tisaka camara@iengenharia.org.br 1º DIRETOR SECRETÁRIO Reginaldo Assis de Paiva reginaldopai@gmail.com 2º DIRETOR SECRETÁRIO Alexandre Rigonatti a_rigonatti@hotmail.com DIRETOR DE ASSUNTOS ESPECIAIS João Ernesto Figueiredo jefigueiredo@iengenharia.org.br VICE-PRESIDÊNCIA DE ADMINISTRAÇÃO E FINANÇAS VICE-PRESIDENTE José Olimpio Dias de Faria jodf@iengenharia.org.br e jodf@uol.com.br 1º DIRETOR FINANCEIRO Rui Arruda Camargo ruicamargo@uol.com.br DIRETOR DE TI Abram Belk abram@tqs.com.br SUPERINTENDENTE Ruth Julieta Votta superintendencia@iengenharia.org.br VICE-PRESIDÊNCIA DE ATIVIDADES TÉCNICAS VICE-PRESIDENTE Miriana Pereira Marques miriana.marques@terra.com.br DIRETOR RESPONSÁVEL PELA REVISTA ENGENHARIA Miguel Lotito Netto mlotito@uol.com.br SECRETÁRIO Miracyr Assis Marcato energo@terra.com.br DIRETOR DA BIBLIOTECA Mauro José Lourenço ltd.engenharia@terra.com.br DIRETOR DE CURSOS Marco Antonio Gullo m.a.gullo@mgconsult.com.br

VICE DIRETOR DE CURSOS Luciano Corrêa Serra terracota64@gmail.com SECRETÁRIO DE CURSOS Luciano Gomide Giglio luciano@gabinetegomide.com.br VICE-PRESIDÊNCIA DE RELAÇÕES EXTERNAS VICE-PRESIDENTE Marcos Moliterno info@mmoliterno.com.br DIRETOR REGIONAL DE BRASÍLIA/DF Tilney Teixeira tilneyt@hotmail.com DIRETOR REGIONAL DE SALVADOR/BA Carlos Alberto Stagliorio stagliorio@stagliorio.com.br DIRETOR REGIONAL DE FORTALEZA/CE Fabio Leopoldo Giannini flgiannini@gmail.com DIRETOR REGIONAL DE BELO HORIZONTE/MG Jose Augusto da Silva dirreluca@hotmail.com DIRETOR DE RELAÇÕES EXTERNAS Miracyr Assis Marcato energo@terra.com.br VICE-PRESIDÊNCIA DE ASSUNTOS INTERNOS VICE-PRESIDENTE Roberto Bartolomeu Berkes robertoberkes@terra.com.br DIRETOR DE VISITAS TÉCNICAS E DE LAZER Sokan Kato Young sokan@chinatur.com.br DIRETOR CULTURAL Diogo Domiciano da Costa diogoddc@gmail.com DIRETOR SOCIAL Nestor Tupinamba nstupinamba@uol.com.br CONSELHO DELIBERATIVO PRESIDENTE Camil Eid SECRETÁRIO Miracyr Assis Marcato CONSELHEIROS Alessio Bento Borelli Alfredo Cotait Neto Alfredo Eugenio Birman

Alfredo Mário Savelli Alfredo Petrilli Neto Aluizio de Barros Fagundes Antonio Mª Claret Reis de Andrade Carlos Antonio Rossi Rosa Carlos Costa Neto Carlos Eduardo Mendes Gonçalves Eduardo Ferreira Lafraia Ivan Metran Whately Jerônimo Cabral Pereira Fagundes Neto João Ernesto Figueiredo João Francisco Soares José Eduardo W. de Albuquerque Cavalcanti José Fiker - Licenciado José Roberto Cardoso José Walter Merlo Luiz Felipe Proost de Souza Miracyr Assis Marcato Nestor Soares Tupinambá Odécio Braga de Louredo Filho Paulo Ferreira Pedro Márcio Gomes dos Santos Permínio Alves Maia de Amorim Neto Ricardo Alberto Carneiro La Terza Ricardo Kenzo Motomatsu Rui Arruda Camargo - Licenciado Tunehiro Uono CONSELHO CONSULTIVO PRESIDENTE André Steagall Gertsenchtein VICE-PRESIDENTE João Antonio Machado Neto SECRETÁRIO Tunehiro Uono CONSELHEIROS Alberto Pereira Rodrigues Alfredo Cotait Neto Alfredo Mário Savelli Aluizio de Barros Fagundes Amândio Martins André S. Gertsenchtein Angelo Sebastião Zanini Antonio Carlos P. de Souza Amorim Antonio Galvão A. de Abreu Antonio Hélio Guerra Vieira Antonio Mª Claret Reis de Andrade Arlindo Virgilio Machado Moura Arnaldo Pereira da Silva Braz Juliano Camil Eid Carlos Antonio Rossi Rosa Carlos Eduardo M. Gonçalves Cláudio A. Dall’Acqua Cláudio Arisa Clorival Ribeiro Dario Rais Lopes Dirceu Carlos da Silva Edemar de Souza Amorim Edgardo Pereira Mendes Jr.

Eduardo Ferreira Lafraia Enio Gazolla da Costa Ettore José Bottura Francisco A. N. Christovam Gabriel Oliva Feitosa Hélio Martins de Oliveira Ismael Junqueira Costa Ivan Metran Whately Jan Arpad Mihalik João Alberto Viol João Antonio Machado Neto João Ernesto Figueiredo João Jorge da Costa Jorge Pinheiro Jobim José Geraldo Baião José Olímpio Dias de Faria José Pereira Monteiro José Roberto Bernasconi José Roberto Cardoso Lourival Jesus Abrão Luiz Célio Bottura Maçahico Tisaka Marcel Mendes Marcelo Rozenberg Marco Antonio Mastrobuono Marcos Moliterno Mauro José Lourenço Miracyr Assis Marcato Miriana Pereira Marques Nelson Aidar Nestor Soares Tupinambá Neuza Maria Trauzzola Odécio Braga de Louredo Filho Ozires Silva Paulo Ferreira Paulo Setubal Neto Permínio Alves M. Amorim Neto Plínio Oswaldo Assmann Reginaldo Assis de Paiva Renato Casali Pavan Roberto Bartolomeu Berkes Roberto Kochen Rui Arruda Camargo Sonia Regina Freitas Tomaz Eduardo N. Carvalho Tunehiro Uono Vahan Agopyan Walter Coronado Antunes Walter de Almeida Braga CONSELHO FISCAL EFETIVOS Fenelon Arruda Miguel Tadeu Campos Morata Stella Marys Della Flora SUPLENTES Kamal Mattar Marco Antonio Gullo Roberto Kochen

Instituto de Engenharia Reconhecido de utilidade pública pela lei nº 218, de 27.05.1974 Av. Dr. Dante Pazzanese, 120 - CEP 04012 180 - São Paulo - SP Telefone: (+55 11) 3466 9200 - Fax (+55 11) 3466 9252 Internet: www.iengenharia.org.br E-mail: secretaria@iengenharia.org.br

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PALAVRA DO PRESIDENTE

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Valorização da engenharia

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omo engenheiro e presidente do Instituto de Engenharia – entidade centenária voltada à defesa e ao futuro da engenharia brasileira – tenho agido no sentido de buscarmos soluções para várias questões de nossa sociedade, naquilo que se refere aos aspectos de progresso e desenvolvimento para a melhoria da qualidade de vida. Ultimamente as discussões têm se intensificado. É sabido que a engenharia, e por consequência os engenheiros, encontra-se diante de situações delicadas e que trazem incompreensões para a nossa profissão. Mas, quando nos aprofundamos nestes assuntos, fica claro que a responsabilidade por estas situações não podem ser atribuídas à engenharia ou aos engenheiros. A engenharia sempre foi um sinônimo de desenvolvimento, mas não tem sido utilizada corretamente nos últimos tempos. Atravessamos um período de 25 anos de falta de investimento e baixa eficiência nos projetos em geral e particularmente em obras de infraestrutura no Brasil. Recentemente a economia se aqueceu e ensaiamos a retomada do nosso papel de destaque na vida econômica e social. Porém, o Brasil não conseguiu se alinhar com o crescimento econômico e logo as perspectivas tornaram-se novamente sombrias. Nesta época tivemos, por um breve período, procura exacerbada de profissionais de engenharia qualificados, e a disputa por vagas nas escolas de engenharia eram animadoras. Voltamos a experimentar o tempo áureo, igualmente vivido antes da década de 1980. A satisfação com o promissor futuro da engenharia e dos engenheiros e o planejamento a médio e longo prazos pareciam ser duradouras. Infelizmente a realidade não confirmou estes planos e a insatisfação tornou-se preocupação geral. Neste ano, o governo federal já disse que haverá cortes no orçamento e mais uma vez a engenharia sofrerá as consequências. Conclusão: os projetos e as obras de infraestrutura terão seus investimentos reduzidos, e as equipes desativadas. As empresas se retraem, preocupadas com a possibilidade de que venha a

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CAMIL EID acontecer o mesmo quadro Presidente do Instituto de Engenharia de 1985 a 2010, quando vipresidencia@iengenharia.org.br mos os engenheiros diminuírem suas possibilidades profissionais. Não podemos permitir o retorno desse cenário, inclusive com aspectos ainda mais graves, com interferência direta e nefasta das atividades políticas nas contratações de obras e serviços de interesse nacional, com graves danos ao país, como temos visto na mídia. Preocupados com o futuro da engenharia, liderados pelo Instituto de Engenharia, oito entidades representativas ligadas à engenharia se uniram para iniciar um movimento de defesa e proteção dos maiores valores da nação. Este movimento redigiu e fez publicar o manifesto “Em Defesa da Engenharia”, em que são abordadas as principais questões que nos afetam, e suas causas maiores. Além do Instituto de Engenharia (IE), assinaram o documento o Clube de Engenharia do Ceará (CE-CE), o Clube de Engenharia do Pará (CE-PA), o Clube de Engenharia de Pernambuco (CE-PE), o Clube de Engenharia - Brasil (CE-Brasil), o Instituto de Engenharia do Paraná (IEP), a Sociedade de Engenharia do Rio Grande do Sul (SERGS) e a Sociedade Mineira de Engenheiros (SME). Nesse documento, há, entre muitas outras sugestões, a proposta de 16 mudanças nos procedimentos dos órgãos contratantes da administração pública, com a finalidade de otimizar as contratações, evitar atrasos ou paralisações de obras e dar transparência a todo o processo. Após a divulgação, recebemos muitas mensagens de apoio e pedidos de adesão ao manifesto. Essas atitudes muito nos honram e ratificam nossa preocupação em valorizar a engenharia brasileira. O Instituto de Engenharia, com essa manifestação, deseja reunir o prestígio e a legitimidade da engenharia para promover uma campanha de valorização da profissão de engenheiro. Portanto, convido a todos a tomar conhecimento e se juntar a nós nesta defesa dos valores maiores de nossa profissão. Participe!

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ENGENHARIA I

EM DEFESA DA

ENGENHARIA MANIFESTO DAS ENTIDADES INDEPENDENTES E REPRESENTATIVAS SOBRE O MOMENTO QUE ATRAVESSA A ENGENHARIA

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Nação Brasileira conseguiu desenvolver uma Engenharia de ponta, responsável por projetar e construir toda a infraestrutura do País e que acumulou tecnologia com competitividade excepcional, inclusive ao nível internacional. A Engenharia Brasileira, porém, encontra-se sob o ataque de alguns setores, que buscam identificá-la como a responsável pelos recentes acontecimentos, porém entender quais são as causas que favorecem estes acontecimentos é o primeiro passo para conquistar a sua erradicação.

Destacam-se, entre essas causas, a falta de planejamento no setor público e a não utilização da engenharia, com a contratação de obras sem estudo de projetos favorecendo os desvios e gerando problemas de toda ordem. O projeto de engenharia, contratado previamente, tendo como parâmetro a melhor solução técnico-econômica, com prazo e preço adequados ao seu desenvolvimento e embasados em estudos de todas as suas circunstâncias, é o instrumento básico para garantir uma obra de qualidade, construída no prazo e no custo adequado. A lei de licitação deve ser adequada e específica à contratação de obras e serviços de Engenharia. Projetos contratados pelo menor preço e sem distinção de qualidade, com prazos exíguos para o seu desenvolvimento e preços inadequados ao seu detalhamento, sem a identificação de interdependências e de interferências, entre outras questões correlacionadas, geraram e irão continuar a gerar empreendimentos que não saem do estágio inicial do projeto ou são paralisadas, como consequências desse modelo equivocado e repetido à exaustão pela administração pública. A valorização da etapa de projeto, contratado pela melhor solução técnico-econômica, com o prazo e preço ade-

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quados ao seu desenvolvimento e antes da execução do empreendimento, é o antídoto de que o Brasil precisa para evitar desvios e obras mal acabadas. Além disso, o Estado, sendo principal contratante de obras de infraestrutura, sofre ainda com a influência do processo político, que imprime uma visão de curtíssimo prazo, de olho no calendário eleitoral, incompatível com as necessidades da boa engenharia. Assim, corre-se o risco de se perderem os enormes esforços e a tecnologia e conhecimentos acumulados durante a realização das inúmeras obras de infraestrutura espalhadas por este País e que representam um capital inestimável para o Brasil, fatores imprescindíveis ao desenvolvimento e à competitividade internacional. Entretanto, a situação atual pode ser também a impulsionadora e a motivadora das mudanças necessárias e destinadas a valorizar a engenharia e a corrigir as imperfeições nas contratações de obras públicas. Os desvios e práticas nocivas ao interesse público devem ser corrigidos. Porém, em defesa dos interesses da sociedade, é fundamental preservarmos a nossa capacidade tecnológica e empresarial, visando ao desenvolvimento de nossa infraestrutura, à manutenção de empregos e da renda de milhares de brasileiros. Propomos mudanças nos procedimentos dos órgãos contratantes da administração pública, que, aplicadas, poderão em muito ajudar a Nação. • É preciso que as contratações sejam precedidas de estudos e projetos adequados. Os processos políticos e decisórios devem respeitar essas etapas iniciais. Os estudos de www.brasilengenharia.com


I ENGENHARIA

planejamento, viabilidade técnica, anteprojetos e projetos básicos e executivos devem ser realizados até o nível satisfatório para cada tipo de obra. • As licenças ambientais e exigências legais devem ser atendidas e obtidas com antecedência. Para isso, é necessário que se façam previamente todos os estudos ambientais, sociais e geofísicos necessários. • É essencial que as áreas a serem atingidas pelas obras sejam liberadas previamente. • Os órgãos contratantes devem conhecer antes as condições comerciais e os preços a serem pagos pelos serviços a serem adquiridos. Só assim teremos preços justos e obras concluídas. • Os órgãos de controle e f iscalização precisam adotar procedimentos realistas e ter conhecimento das condições de execução, evitando análises simplistas e controversas, que em geral conduzem a intermináveis demandas judiciais com custos elevadíssimos, resultando em obras inacabadas, danos financeiros irreparáveis, prejuízos para a sociedade e destruição das empresas. • Reduzir ao mínimo as contratações pelo menor preço, substituindo-o pelo critério de preço justo derivado dos anteprojetos e projetos básicos realizados de forma prévia e independente dos contratados para a sua execução. • Evitar a contratação por “pacotes” de obras, porém quando realizados por uma única empresa, subempreitar empresas menores por preços justos. Para isso, é preciso que os órgãos contratantes mantenham equipes técnicas de elevado conhecimento e capacitação, tal como, no passado recente as empresas estatais possuíam. • Todas as obras devem ser contratadas com o equacionamento financeiro definido, para que os pagamentos possam ser realizados em dia. Em casos de atrasos, que os encargos financeiros legais sejam assumidos pelo órgão contratante. • Nos casos de paralisação de obras, por problemas dos contratantes, que os custos fixos sejam também indenizados. • Valorizar a competência técnica da engenharia nacional, que sempre demonstrou capacidade em todos os desafios a que foi submetida.

• Valorizar a engenharia consultiva ou de projetos, que é a fonte de modernização tecnológica do setor e permite a racionalização de todo o processo de implantação. • Valorizar a história das empresas e de sua solidez f inanceira, evitando-se o direcionamento de obras ou exigências descabidas para as contratações de obras públicas. • Rever, complementar e adequar os planos existentes; estruturar novos planejamentos e elaborar os projetos completos para as futuras contratações. • Liberar a execução de projetos, básicos ou executivos, para beneficiar a todos os atores do setor: aos profissionais, que teriam garantido sua remuneração e sobrevivência; às empresas, que teriam possibilidade de atravessar esse período crítico; e aos contratantes (governos, estatais e privados), que teriam assegurada uma biblioteca de projetos com quantitativos definidos, permitindo orçamentos mais precisos e menor risco quando da contratação dos empreendimentos. • Eliminar def initivamente a modalidade de pregão. • É imprescindível a adoção de novos paradigmas, que interrompam o ciclo de planejamento com cronogramas político-eleitorais ou de governo e iniciem uma nova fase mais realista. Essas são providências que poderão melhorar os processos de contratação, equalizar o custo das obras, evitar paralisações ou atrasos tão danosos à sociedade e imprimir transparência a todo o processo. E, ainda, que se faça um esforço em nível nacional para a solução das pendências e obras paralisadas para que a sociedade possa delas se beneficiar. Mas, importante e, sobretudo destacar, que todo esse ciclo de ineficiência só poderá ter fim, se também estiver amparado pelo devido reconhecimento e valorização da Engenharia como mola de progresso e desenvolvimento da sociedade, posto que o segmento seja indissociável do crescimento econômico do Brasil. São Paulo, 24 de Abril de 2015.

Eng. Camil Eid

Eng. Francis Bogossian

Eng. Luiz Ary Romcy

Eng. Nelson Luiz Gomez

Eng. Daniel de Oliveira Sobrinho

Eng. Hilário Pires

Eng. Alexandre Jose Ferreira dos Santos

Eng. Augusto Celso Franco Drummond

Presidente do INSTITUTO DE ENGENHARIA (IE)

Presidente do CLUBE DE ENGENHARIA DO CEARÁ (CE-CE)

Presidente do CLUBE DE ENGENHARIA DO PARÁ (CE-PA)

Presidente do CLUBE DE ENGENHARIA DE PERNAMBUCO (CE-PE)

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Presidente do CLUBE DE ENGENHARIA DO BRASIL (CE-BRASIL)

Presidente do INSTITUTO DE ENGENHARIA DO PARANÁ (IEP)

PresidentedaSOCIEDADEDEENGENHARIADORIOGRANDEDOSUL(SERGS)

Presidente da SOCIEDADE MINEIRA DE ENGENHEIROS (SME)

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PALAVRA DO LEITOR CARTAS&E-MAILS FALSOS AMIGOS “Você, que tem algum vício – mesmo que não o reconheça como tal e diga que é um ‘prazer’ ou que pode largá-lo quando quiser –, responda: quando e como entrou nessa? Considerando os casos que conheço – alguns de desfecho trágico –, a maioria começou na adolescência, quando o organismo está em fase de transformação e ficamos particularmente sensíveis e vulneráveis, pois a transição é física, química e psicológica! O jovem busca sua identidade e ‘independência’. Quer ter sua opinião, mesmo que seja a de terceiros. Apega-se a ídolos. E, no convívio com outros jovens ou sob influência de adultos, tende a questionar os valores de sua formação. Quer mudar o mundo! Isso faz parte da consolidação do caráter, para o bem ou para o mal. E cabe ao jovem, com apoio e compreensão familiar, superar as pressões que ocorrem nesse período, que incluem assédio moral, com segundas e terceiras intenções. É nessa fase que, para ser ‘popular’, ingressar numa ‘tribo’, não sofrer ‘bullying’, em suma, ser ‘aceito’ no meio social em que convive, o jovem ‘baixa a sua guarda’. Também é nesse tempo que a comparação de experiências e as paixões o deixam ‘balançado’, rebelde e presa fácil de aliciadores e de ‘cantos de sereia’, potencial massa de manobra do oportunismo político ou religioso, modismos e vícios, principalmente álcool e fumo. ‘Você não é homem?’. ‘Faz beijar melhor!’. ‘Faz parecer adulto!’. Todos já devem ter ouvido algum desses ‘argumentos’, não? Antes permitida, a publicidade de cigarros associava o vício a aventura, sofisticação, liberdade, beleza e poder. Porém, quase todos começaram a fumar porque um ‘amigo’ ou parente lhe ofereceu, na adolescência: propaganda ‘boca a boca’. A publicidade do álcool, ainda

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permitida, evoca conteúdo basicamente sexual, associando a bebida a prazer e alegria. Mas, mesmo sem ela, os ‘esquentas’ estão por aí, dando ‘coragem’ para ‘pegar’ alguém nas baladas da vida. O Ministério da Saúde adverte para fazer isso ou aquilo ‘com moderação’. No entanto, depois que vira vício é só despesa e, principalmente, tristeza que se multiplica! De fato, é uma questão de saúde! Porém, a razão perde espaço para o modismo, como foi o caso do uso do ‘narguilé’ que, segundo especialistas, é 100 vezes pior do que o cigarro. Ficou comum ver jovens desfilando com aquela tranqueira pelas ruas. Esses pretensos ‘ritos de passagem’ estão presentes no processo de amadurecimento. E são muitas as tentações. Mas não é preciso provar para saber o mal que fazem! A verdadeira coragem está em não ser mais um a se deixar levar pelas aparências. Basta pensar um pouco para notar que é sempre um ‘amigo’ quem faz a iniciação ao vício. E alega que é ‘natural’, ‘medicinal’, ‘abre a mente’, ‘liberta’; e que coisas consideradas legais são muito piores. Constrange. Ironiza. Aí, por curiosidade ou para não ser ‘zoado’, o cara experimenta... Dá um ‘tapinha’ e fica ‘legal’. Na vez seguinte, o ‘amigo’ vai oferecer novamente, preferencialmente com o cara ‘mamado’. Mais adiante, ele não precisa mais oferecer: o cara pede! Em seguida, quer comprar e nem nota que o ‘amigo’ também vende o ‘bagulho’ e outros ‘baratos’. Porém, nessa ‘viagem’, o ‘sem noção’ já não percebe mais nada. Só quer mais! Isso acontece em escolas, universidades, clubes e até nos lugares menos prováveis. Pois é... O vício precisa de companhia, mas não é solidário! E quem oferece os muitos ópios que existem por aí, ou querem compartilhar suas fraquezas, ou angariar novos clientes. Entrar é fácil! Vários ‘amigos sangue bom’, cheios de ‘papo reto’

e discurso ‘engajado’, estão aí para ajudar! O problema é sair do fundo do poço... E, com certeza, esse ‘amigo’ não estará por perto para ajudar! Quem sabe apareça para vender um ‘tapinha medicinal da hora’, cobrar a ‘conta’ ou orar: ‘do pó viestes e ao pó voltarás’...” Adilson Luiz Gonçalves Engenheiro, escritor e professor Santos - SP

LIÇÕES DE UMA TRAGÉDIA “A notícia da explosão ocorrida em um apartamento em São Conrado, bairro da cidade do Rio de Janeiro, ganhou destaque no noticiário nacional. O evento, de grandes proporções, causou destruição em vários apartamentos do mesmo edifício e o proprietário da unidade onde ocorreu a explosão ficou gravemente ferido e veio a falecer dias depois. Conforme noticiado, os peritos do Instituto de Criminalística Carlos Eboli concluíram que a explosão teve origem por conta do gás que vazou para o interior do apartamento em razão de deficiência na instalação de ‘rabicho’ que conectava fogão ou aquecedor à tubulação de gás e que teria sido substituído pelo próprio dono da unidade, pouco antes da ocorrência. Embora muitas vezes não venham para as manchetes dos sites, dos jornais ou das televisões, acidentes domésticos dessa natureza são muito mais frequentes do que se imagina. Reparos que parecem simples podem se transformar em fontes poderosas de tragédias, que podem acontecer imediatamente, ou demorar algum tempo para ocorrer. Vazamentos devidos a deficiências em reparos em instalações de gás, sobrecargas ou falta de isolamento em reparos elétricos inadequados ou mal executados, dentre www.brasilengenharia.com


outros problemas, têm muito mais chance de ocorrer quando os trabalhos são feitos por quem não tem experiência. Embora a tentação de executar certas intervenções seja grande – principalmente por parecerem muito simples – é necessário sempre buscar quem efetivamente tenha conhecimento, exigindo que sejam usados materiais de qualidade e que os reparos sejam devidamente testados. Ainda assim, é recomendável que o desempenho dos reparos mais delicados seja avaliado durante algum tempo depois de concluídos, para se assegurar que não há riscos.” Flavio F. de Figueiredo Conselheiro do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de SP (Ibape/SP) São Paulo - SP

NA CRISE DA ÁGUA EM TRÊS ATOS “Retificação do texto do artigo de Opinião ‘A crise da água em 3 atos’, publicado no número 623/2015, página 66. Atendendo à solicitação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, feita através de e-mail que recebi em 26/03/2015, para que encaminhasse pedido ao editor da REVISTA ENGENHARIA, para incluir no próximo número uma retificação elaborei o texto que segue. E-mail recebido: ‘Prezado Julio Cerqueira Neto, boa tarde! Informamos que esta Secretaria Executiva tomou conhecimento da matéria denominada ‘Crise da água em 3 atos’, de sua autoria, publicada na página 66 da Revista Engenharia número 623/2015, do Instituto de Engenharia-IE. Ocorre que no referido texto foi

informado que a cobrança pelo uso dos recursos hídricos na Bacia Hidrográfica do Alto Tietê ainda não foi iniciada. Esta informação está equivocada, pois a cobrança na BHAT foi iniciada em 2014, com evento oficial de lançamento realizado no dia 26/03/2014. Segue anexo comunicado publicado no Diário Oficial do Estado com informação sobre o início da cobrança. Entramos em contato com o Sr. Ricardo Pereira de Mello, diretor editorial da revista, e nos informou que não pode fazer alteração no texto devido o mesmo ser de sua autoria. Sendo assim, solicitamos a gentileza de encaminhar à editora retificação da publicação na próxima edição. Atenciosamente Secretaria Executiva CBH-AT’ Minha posição: Confesso, que até hoje não sabia desse importante acontecimento, pois

Capivari II (SP)

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PALAVRA DO LEITOR CARTAS&E-MAILS não costumo ler o Diário Oficial. Assim sendo não tenho dúvida em solicitar à revista que faça a retificação como segue: No final da letra “f” onde se lê: (...) inclusive a cobrança pelo uso da água que estava prevista para ser iniciada em 2007 e até hoje não foi feita (...) Leia-se: (...) inclusive a cobrança pelo uso da água que estava prevista para ser iniciada em 2007 somente veio a ocorrer no dia 26/03/2014, ou seja, com atraso de sete anos ( ...)” Julio Cerqueira Cesar Neto Consultor em saneamento e meio ambiente, membro do Conselho de Meio Ambiente da Fiesp São Paulo - SP

O REI ESTÁ NU “Desde sempre é voz geral que o grande problema da falta de competitividade brasileira tem como razão central a famosa tríade maldita: juros, câmbio e tributos. Mas, como tanto se fala, tanto se estuda, tanto se propõe e nada acontece, devem existir outras causas mais profundas. Os fatores da citada tríade, agravados por nossa precária infraestrutura, são considerados os vilões de nossa estagnação econômica porque estão na face visível do problema, mas estão longe de representarem a causa-raiz. Se um determinado remédio é ministrado por um longo tempo e não faz efeito contra os sintomas de uma doença, ou é porque é inadequado ou o diagnóstico está errado. No caso da falta de competitividade, abrindo um pouco mais a lente, vamos nos deparar com outro conjunto de três fatores, que certamente antecedem os demais e estão no epicentro desse terremoto que não permite que nossa economia encontre um solo firme. Analisando desse ângulo mais aberto, lá estão: a burocracia, a incompetência e a corrupção, não necessariamente nesta ordem. Até porque os três fatores são extremamente

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sinérgicos e autoalimentantes, de tal forma que cada um deles potencializa os outros dois e assim por diante. A burocracia esconde a incompetência: decisões demoradas, várias idas e vindas, organogramas contendo interseções de responsabilidades, exigência de inúmeras licenças, diversos níveis de fiscalização, muitas obrigações acessórias, entre outras. Ao invés de contribuir para a transparência dos processos, torna-os cada vez mais obscuros e torna difusa a cobrança na matriz de responsabilidades. Por conta desse fato, abrem-se as portas para a incompetência e para a corrupção. Deixa-se de executar por causa da burocracia, quando na verdade falta gestão, coragem para assumir uma decisão ou insegurança para acolher uma alternativa. Por sua vez, a corrupção também é alimentada pela incompetência, pois processos mal conduzidos, muitas vezes sem nenhum dolo, abrem margens para ‘jeitinhos’, nem sempre muito ortodoxos, que geralmente escondem interesses difusos. A incompetência abre brecha para decisões políticas, facilmente contestáveis se demonstrada sua inviabilidade ou inconsistência com base em fatos concretos, na legislação ou nas melhores práticas vigentes. Mas, para subsidiar argumentos é preciso profundo conhecimento do tema e experiência adquirida, esta sempre usada segundo os devidos princípios éticos. A corrupção e a incompetência aumentam cada vez mais a burocracia, com a falsa finalidade de dar mais segurança aos processos, quando, na verdade, viabilizam malfeitos dando-lhes compatibilidade com a legislação vigente, no conhecido caso em que: ‘é legal, mas não é ético’. Contratos mal estruturados e cheios de cláusulas inúteis; editais mal elaborados; pouca padronização; fal-

ta de investimento em planejamento; estudos de viabilidade precários; decisões tomadas para agradar essa ou aquela corrente política ou plano de poder; furos constantes nos orçamentos; milhares de aditivos contratuais; falhas nos acompanhamentos físico e financeiro. Entre outros fatores, estes podem configurar, conforme o caso, tanto incompetência quanto interesses transversos. Quando um país gasta muito e errado, superfatura ou trabalha sem eficiência e com desperdícios, precisa arrecadar mais e, então, aumentam-se os impostos. Para acomodar interesses difusos pagam-se propinas aos corruptos e oferecem-se cargos aos ‘honestos’, que, muitas vezes, por pouca afeição às atividades a serem desempenhadas, ficam reféns de sua posição, salário e poder: ‘jabuti não sobe em árvore. Se ele está lá é porque alguém o colocou’. Quando um país precisa de mais recursos, toma emprestado e, para isso, aumentam-se os juros ou então usa este recurso para combater a inflação e a indústria perde em competitividade. Após descontar o que o Brasil perde nos intrincados mecanismos de corrupção e nas inúmeras idas e vindas dos meandros burocráticos, o pouco que acaba sobrando é mal utilizado. E, infelizmente, tudo vai continuar como está até aparecer aquela criança do conto do Christian Andersen e avisar que o Rei está nu.” Alberto Machado Diretor de Petróleo, Gás, Bioenergia e Petroquímica da ABIMAQ São Paulo - SP

Como contatar a REVISTA ENGENHARIA Comentários sobre o conteúdo editorial da REVISTA ENGENHARIA, sugestões e críticas devem ser encaminhadas para a redação: Rua Alice de Castro, 47 – CEP 04015 040 – São Paulo – SP – Fax (11) 5575 8804 ou 5575 1069 – ou por E-mail: engenho@uol.com.br

As cartas à redação devem trazer o nome, endereço e número da cédula de identidade do leitor, mesmo aquelas enviadas pela internet. Por questões de espaço e clareza a revista reserva-se o direito de resumir as cartas.

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PALAVRA DO LEITOR Eficiência energética E econômica MIRACYR ASSIS MARCATO*

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ecente pesquisa realizada pela empresa Schneider Electric entre 262 profissionais do setor elétrico brasileiro revelou suas principais preocupações sobre o mesmo: (a) a eficiência energética é a segunda frente de maior prioridade para as empresas no país, atrás apenas da água; (b) energia mais cara é o impacto mais forte dos apagões e da crise hídrica, na opinião dos entrevistados; (c) 62% dos profissionais informaram que suas corporações pretendem reduzir 10% do uso energético nos próximos três anos; (d) o governo federal é identificado como o principal ator social para o país ter eficiência energética, pelos profissionais ouvidos; (e) as companhias estão despreparadas para situações de racionamento ou interrupção de energia. Somente 12% dos profissionais relataram que suas empresas possuem capacidade de geração para atender à demanda nesses cenários. O início de um novo período governamental abre uma janela de oportunidades para a necessária revisão do planejamento holístico da economia brasileira e o engajamento público e privado em políticas e ações efetivas de incentivo à inovação e ao aumento da eficácia dos fatores da produção em geral. Isso inclui o estabelecimento de regras claras e estáveis de contratação e supervisão de serviços públicos, a retomada da credibilidade de seus agentes, a razoabilidade fiscal e financeira, a desobstrução dos entraves de toda ordem que afetam a confiança dos investidores e inibem o indispensável fluxo dos capitais privados compatíveis com as necessidades do crescimento sustentado do país. Com um PIB estacionado em 11 000 dólares per capita será difícil poder atender aos gastos crescentes das políticas sociais e custeio da máquina pública sem um aumento da carga fiscal (já excessiva) ou da dívida oficial (também elevada) restando pouco espaço para os investimentos nas carências de infraestrutura que afetam a economia em geral. É o caso da atual perda de competitividade da indústria brasileira no cenário internacional devido, em parte, ao elevado custo da energia no Brasil. Nossa energia é uma das mais caras do mundo, contrariando o que seriam os pilares de uma boa política energo-econômica, seguida pela maioria dos países desenvolvidos, a saber: 1) segurança de abastecimento e 2) razoabilidade de preços. Para poder crescer a um ritmo desejável e, de momento, distante (4% a 5% a.a.), o Brasil necessitaria de acréscimos de energia “firme” (valor médio) da ordem de 3 500 MW/ano equivalentes a cerca de 6 300 MW/ano de potência nova instalada. Isto sem contar a perda de rendimento ou a desativação por obsolescência de usinas mais antigas e outras perdas de transmissão ou distribuição. Em 2013, para uma oferta interna de energia elétrica de 609,9 TWh (1 TWh = 1 milhão de MWh) as perdas somaram 93,6 TWh ou 15,3% do total, equivalendo praticamente à geração anual da usina de Itaipu (14 GW = 98,63 TWh). A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do Ministério de Minas e Energia (MME) prevê no Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2023) um acréscimo de potência instalada de 63 300 MW no período, compreendendo 28 200 MW em usinas hidrelétricas, 17 000 MW em eólicas, 9 500 MW em fontes não renováveis e 8 600 MW em outras renováveis (PCH, biomassa,

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solar). Os investimentos totais estimados atingem 301 bilhões de reais, sendo 223 bilhões de reais em geração e 78 bilhões de reais em transmissão de energia. Para financiá-los é necessário mobilizar capitais privados que tem se mostrado reticentes em face da instabilidade que ora permeia o setor elétrico. A possível redução dos custos da eletricidade e a atratividade dos futuros leilões e concessões, além dos fatores exógenos já citados, demandam além da correta abordagem dos problemas ambientais, a revisão do atual modelo do setor elétrico para promover a estabilidade e equidade das regras e restabelecer a confiança dos investidores. Passa também pela adequada exploração das vantagens competitivas de cada tipo de geração e respectivos fatores de capacidade na conversão e armazenamento da energia, pelo aumento da eficiência energética no uso da mesma, pela redução de custo dos combustíveis, das perdas na transmissão e distribuição e sucessivamente, pela diminuição dos custos de capital e juros mediante projetos eficientes de engenharia, cumprimento tempestivo dos prazos de construção e a efetiva posta em marcha dos novos empreendimentos previstos nos respectivos planos setoriais. Os dados do Balanço Energético Nacional (BEN – 2014) da EPE permitem uma visão global das fontes de geração do setor elétrico do país. a) Hidráulica – Com 93 695 MW de potência instalada foram gerados em 2013 um total de 430,9 TWh, representando 70,7% da oferta total de eletricidade com um fator de uso médio da capacidade (f.c.) das usinas de 52%. Em termos comparativos a hidroeletricidade é o energético que representa para o Brasil, a sua maior vantagem competitiva, seja como custo de geração como também pela capacidade de armazenamento de energia (inclusive das fontes renováveis e intermitentes) nos reservatórios das hidrelétricas existentes, cuja área alagada total ocupa apenas 0,42% do território nacional. A Alemanha, que implantou um dos maiores parques eólicos do mundo, começou a construir, recentemente, elos de interligação submarina de alta tensão em corrente contínua com a Noruega para intercâmbio e armazenamento de energia nas hidrelétricas com reservatório daquele país nórdico, buscando segurança, estabilidade e economias para seu próprio sistema elétrico. No Brasil, a tendência recente tem sido a construção de usinas a fio d’água (Jirau, Santo Antonio e Belo Monte), sem reservatórios, pois as pressões ambientais impedem, mesmo com pleno respeito à lei, a construção de barragens que promovem a regulação plurianual dos reservatórios que garantem o armazenamento e aumento da energia “firme” das usinas, a perenização dos cursos d’água, a navegação fluvial, o abastecimento das cidades, a piscicultura, as atividades turísticas, a prevenção de enchentes e evitam o desperdício e a esterilização dos recursos hídricos da nação periodicamente sob o impacto de condições climáticas imprevisíveis e desfavoráveis. b) Gás Natural (GN) – Em virtude da forte estiagem as usinas a GN foram acionadas com frequência crescente durante o ano, trabalhando com um f.c médio de 62,5%. Seus 12 590 MW de potência geraram 69 TWh equivalentes a 11,3% da oferta total de energia elétrica, com um consumo específico de GN de 223m³/ MWh correspondente a usinas em ciclo simples (turbinas a GN) de menor rendimento e de maior custo da energia gerada que as de ciclo combinado (GN e vapor). Houve durante o ano importação de gás natural (GNL e GN da Bolívia) num volume equivalente a 44 milhões de m³/dia (similar ao consumo das térmicas) a um custo médio de US$ 11/MMBtu (FOB). A produção nacional disponível no período foi de 54 MMm³/d. www.brasilengenharia.com


c) Cogeração – A cogeração (COGER) que utiliza com maior eficiĂŞncia a energia contida nos combustĂ­veis (tanto fĂłsseis como renovĂĄveis) destaca-se como uma solução viĂĄvel tanto do ponto de vista econĂ´mico como ambiental. A cogeração tambĂŠm conhecida como CHP (combined heat & power) refere-se a um grupo de tecnologias maduras que operam associadas para a geração simultânea de eletricidade e calor Ăştil num processo que geralmente tem uma eficiĂŞncia energĂŠtica muito maior do que a produção de eletricidade e calor de processo, separadamente.â€? É o que estĂŁo fazendo tanto a Europa como os Estados Unidos onde, ao lado de maior segurança e independĂŞncia energĂŠtica, os paĂ­ses procuram alcançar aumentos de eficiĂŞncia de 20% a 30% atĂŠ 2030 – a Europa tem uma meta 20-20-20 (20% de aumento de eficiĂŞncia energĂŠtica, 20% de fontes alternativas e 20% de crĂŠditos de carbono). O Brasil pode obter ganhos substanciais de competitividade e eficiĂŞncia energĂŠtica na geração tĂŠrmica centralizada com gĂĄs natural (ciclos combinados), mas tambĂŠm com o incentivo Ă cogeração na indĂşstria em geral e em particular na sucroalcooleira, no comĂŠrcio (shopping centers), onde pode alcançar rendimentos tĂŠrmicos de atĂŠ 80% (produção de energia elĂŠtrica, frio e calor industrial etc.). As principais vantagens da cogeração: (i) maior eficiĂŞncia e economia no consumo de energia; (ii) redução dos custos de capital em novas usinas; (iii) redução das emissĂľes de CO²; (d) menor dependĂŞncia de combustĂ­veis importados; (iv) maior grau de estabilidade da rede pela redução dos picos e congestionamentos e do sistema elĂŠtrico e potĂŞncia “firmeâ€? disponĂ­vel; (v) melhor aproveitamento de recursos energĂŠticos disponĂ­veis localmente; (vi) some-se a isso o desenvolvimento das redes de distribuição inteligentes (Smart Grids) com controles pelo lado da demanda, centralizados, comunicação e medição bidirecional, que, alĂŠm de viabilizar a Gedis (geração distribuĂ­da), tambĂŠm poderĂŁo contribuir para o aumento da eficiĂŞncia energĂŠtica total. d) Biomassa – A biomassa (especialmente os produtos da cana) ĂŠ responsĂĄvel, no Brasil por cerca de 25% da Oferta Interna de Energia (OIE) – 2013, e junto com outras energias renovĂĄveis – como a hidrĂĄulica, a eĂłlica e a solar – deverĂŁo manter no prĂłximo futuro, uma presença ponderĂĄvel na matriz energĂŠtica brasileira, da ordem de 40%. Seus resĂ­duos (bagaço e folhas) possuem um conteĂşdo energĂŠtico que ĂŠ duas vezes maior que o do caldo ora extraĂ­do, possibilitando a sua recuperação para produção da bioeletricidade via sistemas de cogeração nas usinas, triplicando o aproveitamento energĂŠtico da biomassa. É um combustĂ­vel que poderia agregar valor permanente Ă  matriz energĂŠtica nacional, mas que periodicamente entra em crise, como ocorre atualmente, seja por razĂľes climĂĄticas, pela falta de atualização tecnolĂłgica industrial, agrĂ­cola e administrativa do setor, bem como pela polĂ­tica errĂĄtica de preços praticada pelo governo com o incentivo ao uso da gasolina que inviabiliza o setor sucroalcooleiro como um todo, afeta o equilĂ­brio econĂ´mico-financeiro da Petrobras e o prĂłprio balanço de pagamento do paĂ­s. e) Fontes nĂŁo renovĂĄveis – O incremento na matriz elĂŠtrica brasileira dessas fontes sazonais e de outras fontes renovĂĄveis (lixo urbano, biocombustĂ­veis, resĂ­duos orgânicos, usinas a fio d’ågua etc.) ou intermitentes (eĂłlica e solar) demanda a presença crescente de fontes “firmesâ€? de energia fĂłssil (Ăłleo, gĂĄs natural, carvĂŁo ou nuclear) de maior custo e com o consequente passivo em termos de poluição e gases do efeito estufa (GEE). Essa necessidade de fontes fĂłsseis, que nĂŁo serĂŁo abandonadas tĂŁo cedo pela maioria dos paĂ­ses desenvolvidos (por uma questĂŁo www.brasilengenharia.com

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PALAVRA DO LEITOR de custos e de segurança energética) e o fato do Brasil deter grandes reservas das mesmas, aponta para uma abordagem do uso desses energéticos com racionalidade econômica e ambiental, tendo presentes o desenvolvimento das novas tecnologias de redução dos poluentes (sequestro de carbono, disposição de rejeitos, aumento dos rendimentos, rapidez de posta em marcha etc.). Em relação à energia nuclear, embora a mesma não seja uma fonte renovável, ela pode ter um papel importante nas questões de segurança de abastecimento, independência energética e competitividade da economia, pois: ela é a única não renovável que não emite os gases do efeito estufa e ainda hoje é reconhecida como uma fonte limpa e segura de energia, com uma experiência de mais de 12 000 anos/reator durante as últimas cinco décadas apesar do recente desastre de Fukushima, no Japão. No que se refere ao carvão, as grandes reservas existentes no Brasil têm sido subutilizadas em virtude dos custos econômicos e ambientais de exploração e dos preços do petróleo e energéticos concorrentes que frearam, até agora, a incorporação das novas tecnologias já testadas, para sua adequada utilização. O mesmo ocorre com o xisto betuminoso (gás de folhelho), do qual o Brasil possui grandes reservas, e que nos Estados Unidos garantiu o abastecimento próprio a preços extremamente competitivos à sua indústria: US$ 4,50/MMBtu causando retomada de sua economia e uma verdadeira revolução nos mercados mundiais com baixa notável dos preços não só do GN mas também do petróleo. POLÍTICA ENERGÉTICA Mesmo com o desenvolvimento, agora moderado, das reservas de petróleo do pré-sal, o país deveria seguir com uma política energética com ênfase no MDL (Modelo de Desenvolvimento Limpo) com ações voltadas, entre outras, para: - Incentivo às energias limpas, fixação de teto e taxação dos agentes emissores, prioridade à eficiência energética (cogeração na indústria e comércio, melhores rendimentos dos motores automotivos), e em lugar do incentivo ao transporte individual, apoio ao transporte coletivo de qualidade e a outros modais de transporte, como ferrovias e hidrovias. - Manter e ampliar a presença na matriz energética das fontes primárias renováveis, com ênfase na biomassa, energia eólica e na utilização integral dos recursos hídricos, preservando a capacidade de armazenamento e a regulação plurianual dos reservatórios hidrelétricos. - Fomento à cogeração na indústria sucro-alcooleira e sua efetiva conexão ao sistema interligado nacional (SIN). - Complementação da oferta interna de energia com fontes não renováveis (óleo, gás natural, carvão e energia nuclear), exploradas com racionalidade econômica e ambiental. - Assegurar os recursos necessários para que as empresas, agências e órgãos da administração direta do Estado efetuem o inventário e ofereçam à licitação, tempestivamente, os projetos licenciados de que o país necessita. - Concentrar a atividade direta do Estado, na medida de sua capacidade de gerar recursos próprios, nas atividades que constituem monopólio da União (ciclo nuclear e término de Angra 3), no término das obras inacabadas, na implementação das parcerias público-privadas com foco na eficiência administrativa, na correta governança empresarial e na redução dos custos dos empreendimentos. - Garantir a segurança jurídica aos contratos com o fortalecimento de agências reguladoras autônomas e capacitadas. - Colocação em prática a regulamentação do marco regulatório do gás natural para torná-lo uma efetiva “commodity” disponível para o mercado e uma fonte confiável e barata de energia para a indústria e para o setor elétrico separando-a da política de exploração associada ao petróleo com abertura do setor e da exploração do gás de folhelho (xisto) para investidores privados. - Revisão dos encargos setoriais, incentivos e impostos que gravam os preços da energia como resultado de maior controle e eficiência dos gastos públicos. - Na área ambiental, eliminar a arbitragem ideológica, a burocratização e superposição de esferas de licenciamento, e a desnacionalização decisória, monitorando a expansão do setor com vistas ao respeito à lei e ao uso eficiente das reservas energéticas do país. * Miracyr Assis Marcato é engenheiro eletricista, consultor da GO Associados, diretor de Relações Externas e vice-diretor do Departamento de Engenharia de Energia e de Telecomunicações do Instituto de Engenharia. É membro da CIGRÉ e senior life member do IEEE E-mail: energo@terra.com.br

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CARTA GEOTÉCNICA: FERRAMENTA INDISPENSÁVEL PARA OS MUNICÍPIOS BRASILEIROS ÁLVARO RODRIGUES DOS SANTOS*

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lém dos trágicos desastres associados a enchentes e deslizamentos – mais conhecidos pela ampla repercussão jornalística –, as cidades brasileiras arcam com vários outros graves e crônicos problemas decorrentes de erros técnicos cometidos na ocupação de espaços urbanos. Ocorrendo de uma forma mais difusa – mas não menos deletéria dos pontos de vista econômico, social e ambiental –, destacam-se entre esses problemas: abatimentos e recalques de terrenos com comprometimento de edificações de superfície, solapamentos de margens de cursos d’água, colapso de obras superficiais e subterrâneas, patologias diversas em fundações e estruturas civis, contaminação de solos, contaminação de águas superficiais e subterrâneas, deterioração precoce de infraestrutura urbana, acidentes ambientais, degradação do meio físico geológico e hidrológico, perda de mananciais etc. Principal ferramenta para o acerto das relações técnicas da cidade com seu meio físico geológico, a Carta Geotécnica é um documento cartográfico que informa sobre o comportamento dos diferentes compartimentos geológicos e geomorfológicos homogêneos de uma área frente às solicitações típicas de um determinado tipo de inter venção, como a urbanização, por exemplo, e complementarmente indica as melhores opções técnicas para que essa inter venção se dê com pleno sucesso técnico e econômico. A Carta Geotécnica se destaca, portanto, como uma ferramenta de caráter preventivo e de planejamento. Ela provê aos administradores públicos as informações newww.brasilengenharia.com

cessárias e indispensáveis para não ocupar áreas de alta potencialidade natural a eventos geotécnicos e hidrológicos de caráter destrutivo e a utilizar as concepções urbanísticas e as técnicas construtivas mais adequadas para a ocupação de áreas com restrições geológicas, mas potencialmente urbanizáveis. A propósito, dados e informações mais detalhadas sobre o significado e características de uma Carta Geotécnica podem ser encontrados no recente lançamento do livro Manual Básico para Elaboração e Uso da Carta Geotécnica. No entanto, a adesão espontânea das administrações públicas brasileiras, especialmente no que diz respeito ao âmbito municipal, na elaboração e uso da Carta Geotécnica tem sido, por motivos diversos, ínfima, praticamente nula, pelo que se compreende a trágica multiplicação e sucessão de problemas urbanos gravíssimos. Mais recentemente, justamente como decorrência do recrudescimento de inúmeras tragédias associadas a deslizamentos e enchentes por todo o país, várias iniciativas no âmbito do poder público e do meio técnico afim acabaram por consolidar o entendimento sobre a imprescindibilidade de aplicação de instrumentos técnicos de caráter preventivo e de planejamento, única forma de se estancar a geração de novas situações de risco e de se reduzir os variados tipos de problemas advindos de uma má adequação das técnicas de urbanização às características geológicas dos terrenos que vão gradativamente sendo ocupados pelas cidades brasileiras. O documento símbolo dessa atitude marcada pela ótica da prevenção e do planejamento é a Carta Geotécnica. Reforçando essa preocupação seguidas legislações, como a Lei Federal nº 12.608, o Estatuto das Cidades e até Planos Diretores mais atualizados, vêm estabelecendo a elaboração e o uso da Carta Geotécnica como providência obrigatória para os municípios brasileiros. Mas, em que pesem esses fatos extremamente positivos, o que seria hoje mais desejável, e de resultados mais diretos e rápidos, seria a real conscientização de nossas administrações municipais sobre a importância do uso da Carta Geotécnica, a partir do que decorreriam naturalmente as providências para sua elaboração e para sua adoção como referência obrigatória para os demais instrumentos de planejamento urbano municipal. * Álvaro Rodrigues dos Santos é geólogo, foi diretor de Planejamento e Gestão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Criador da técnica CalJet de proteção de solos contra a erosão. Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia. Autor dos livros Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática; A Grande Barreira da Serra do Mar; Diálogos Geológicos; Cubatão; Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções; e Manual Básico para Elaboração e Uso da Carta Geotécnica E-mail: santosalvaro@uol.com.br engenharia 625 / 2015

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PALAVRA DO LEITOR OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS PARA EMPRESAS DE ENGENHARIA DE MÉDIO PORTE ROBERTO BARTOLOMEU BERKES*

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mportante e recente documento da Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas (Apeop) – Boletim Trimestral de número 3, elaborado pela GO Associados (empresa de Gesner Oliveira, ex-presidente da Sabesp) tece considerações sobre a situação atual e a visão dos empresários do mercado de engenharia, relativos a áreas de empreendimentos na área pública: 1) Quarenta e três por cento das empresas filiadas da Apeop diminuirão investimentos nos próximos 12 meses. Há um clima pessimista do empresário. 2) No editorial são apresentados três cenários distintos: redução de 10%, 20% e 30% nos investimentos da Petrobras em 2015 e qual o impacto sobre a produção, empregos, impostos e crescimento da economia. O cenário 1 com maior probabilidade de ocorrência indica um PIB de 1,3% a.a. Há que se ressaltar que a Petrobras é a maior contratante de serviços de engenharia no país e que uma redução de contratações implica em redução em toda cadeia produtiva. 3) Um dos fatores mais importantes para mitigar a recessão prevista neste ano: capacitar e aprimorar os programas de parcerias e concessões de forma a garantir ampla mobilização do capital privado e maior participação das empresas de médio porte. 4) Relativo a este último, o relatório enfatiza que desde junho quase 80 PPPs estão em fase de formatação em diversas áreas – tanto nas esferas de âmbito federal como nas estaduais e municipais –, e que mais de 2/3 (60%) dos empresários estão interessados em se engajar nestes programas nos próximos 24 meses, mesmo com pouca experiência neste assunto. 5) Há uma análise baseada em pesquisa entre os empresários do setor, sobre os principais motivos dos atrasos das obras: a má qualidade dos projetos, indicado como o mais representativo (12,3%), seguido pela demora na obtenção de licenças ambientais (11,0%) e pela falta de planejamento de longo prazo nos órgãos contratantes (9,6%). 6) O relatório enaltece as vantagens da contratação de PPPs pelo poder público, o que garante, em sua maioria, maior qualidade do produto final e do serviço prestado e permite aumentar o montante de investimentos em infraestrutura pelos governos das três esferas. 7) Em ordem decrescente, as maiores dificuldades para as empresas de médio porte se engajarem nestes programas são: a existência de garantias públicas de pagamento, formas de financiamento e riscos assumidos no projeto. 8) As maiores dificuldades para as empresas de médio porte obterem crédito para as PPPs, também em ordem decrescente são: obtenção de financiamento em bancos internacionais de fomento, obtenção de financiamento de longo prazo junto a bancos privados e, por último, nos públicos. 9) Para mudar este quadro propõe-se a criação de empresas garantidoras estaduais e municipais, e alteração legis-

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lativa para autorização de um fundo garantidor para possibilitar a prestação de garantias aos órgãos contratantes e a difusão destes mecanismos. Além disto, é necessário adequar o porte das contratações, a fim de tornar possível a participação de empresas de médio porte. 10) O relatório indica que existiam 22 projetos no Estado de São Paulo (cerca de 24% do Brasil) na modalidade PPPs no período de 12/06/2014 a 27/02/2015 de um total de 92 (17 PPPs/concessões formatadas e 75 em formatação). Em São Paulo, 10 estão em formatação/licitação e 2 são contratos na área de transporte urbano/rodoviário, sendo que um deles é o BRT de Sorocaba (SP), obra em licitação pela prefeitura local. As características mais relevantes deste empreendimento são: (a) o município obteve um financiamento de aproximadamente 133,9 milhões de reais do governo federal, por meio do programa Pró-Transporte – Mobilidade Médias Cidades, do Ministério das Cidades, obtidos por seleção do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2); (b) a prefeitura vai implantar duas linhas iniciais do BRT, a Norte-Sul e a Leste-Oeste e o estudo preliminar da Urbes-Trânsito e Transportes prevê a implantação de 35 quilômetros para a circulação do BRT dentro de quatro principais corredores da cidade; (c) do total, 20,3 quilômetros serão corredores exclusivos para ônibus, com desembarque em nível pela esquerda do coletivo, junto ao canteiro central, onde serão instaladas as estações. Outros 14,7 quilômetros serão de faixas exclusivas, com desembarque à direita pela escada, nos pontos normais (como os atuais); (d) a previsão é de que entre 150 000 e 180 000 usuários do transporte coletivo poderão ser atendidos pelo sistema alimentador diariamente e o tempo de viagem terá uma redução da ordem de 20%. 11) A área onde a modalidade PPPs está sendo mais aplicada é a área de saneamento básico com 15 projetos. 12) Outra modalidade sugerida no relatório da GO Associados como alternativa para o déficit de infraestrutura no Brasil é locação de ativos, onde os empresários investem em empreendimentos necessários aos órgãos públicos, e estes são arrendados à administração pública, por um determinado período de tempo e ao final revertem ao órgão que se utilizou do bem. Foram apresentados estudos dos casos da Sanasa, Sabesp e Casal. CONCLUSÃO Em função da escassez de recursos nestes próximos anos, o relatório da GO Associados apresenta sugestões de duas modalidades de contratação: (1) PPPs e (2) locação de ativos, que possibilitam às empresas médias participarem dos novos empreendimentos programados pela administração pública. Cabe às empresas públicas contratantes analisar estas duas modalidades como ótimas alternativas visando criar oportunidades para viabilizar seus novos empreendimentos a serem projetados e/ou construídos por empresas privadas de engenharia de médio porte. * Roberto Bartolomeu Berkes é engenheiro, vice-presidente de Assuntos Internos do Instituto de Engenharia E-mail: robertoberkes@terra.com.br www.brasilengenharia.com


A IMPORTÂNCIA CRESCENTE DO REÚSO DA ÁGUA NO BRASIL E NO MUNDO “O esgoto é uma água 99% pura”, engº. Max Lothar Hess” CELSO S. QUEIROZ*

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mbora só mais recentemente o meio técnico e o público em geral fale ou ouça falar, o reúso da água vem sendo praticado no mundo desde os primórdios da humanidade até os dias atuais. Se examinarmos qualquer rio do Brasil ou do mundo, vamos observar condições semelhantes. Tomemos, por exemplo, o caso do Rio Paraíba do Sul, fonte principal do abastecimento da cidade do Rio de Janeiro. Só no Estado de São Paulo há cerca de 20 cidades ao longo de seu percurso que fazem uso do rio como fonte de seu suprimento de água potável e também como via de disposição de seus esgotos, o mais das vezes para as duas funções. Na maioria dos casos, essas cidades estão separadas de alguns poucos quilômetros umas das outras. Nos Estados Unidos, o Rio Colorado tem 456 outorgas de lançamentos de esgotos ao seu longo e as populações que dele se abastecem tomam águas de puríssima qualidade, entre as melhores do mundo. O mesmo vale para as condições dos rios Mississippi, Ohio e outros. Nos casos mencionados anteriormente trata-se de uma modalidade de reúso que se convencionou chamar de “reúso potável indireto não planejado”, mas é um reúso de fins potáveis, que prepondera em todos os países e ao longo da história da humanidade. A crescente carência de água em todo o mundo, os altos custos de se buscar água cada vez mais longe, somados aos aspectos políticos que a prática de reversão de bacias envolve, esbarram agora também em objeções cada vez mais fortes das populações que cedem a água. Veja-se o recente caso da reversão Jaguari-Atibainha, envolvendo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ou da Bacia do Piracicaba, contra a reversão do Sistema Cantareira para a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Essas novas condições vão passar a exigir que se repensem os aspectos fundamentais do abastecimento público de água potável no Brasil, tendo o reúso da água para fins potáveis como uma alternativa segura, viável sobre os aspectos técnicos e de saúde pública e, sobretudo, econômica. Os usos de efluentes de estações de tratamento de esgotos para fins não potáveis, como para fins agrícolas, industriais, usos urbanos (lavagem de ruas, rega de gramados e jardins, de campos de esportes, e outros), para recarga de aquíferos, são práticas muito bem aceitas e correntes em um grande número de países. Mas o reúso para fins potáveis, direto ou indireto, é o próximo passo a ser dado no Brasil. O reúso é indireto quando os esgotos tratados são lançados em um lago, reservatório, rio, ou são injetados no subsolo (aquífero), antes de serem captados e tratados em uma estação de tratamento de água. O reúso é direto quando os efluentes tratados não passam por essa fase intermediária e vão diretamente de uma planta de purificação de esgotos para uma planta de tratamento de água e, desta, para o consumo urbano, como já ocorre em vários lugares. www.brasilengenharia.com

O reúso indireto é o mais comum, tanto nos Estados Unidos quanto em outras partes do mundo; mas o reúso direto é também praticado em várias locais e está se expandindo, tendo vários projetos em andamento. Estes reúsos (direto e indireto) já são praticados em inúmeros casos nos Estados Unidos (Califórnia, Texas, Novo México, Arizona, Flórida, Nevada, Virgínia do Norte etc.), bem como em países como Austrália, Reino Unido, Holanda, Bélgica, Arábia Saudita, Singapura, Namíbia, entre outros. Certamente com toda segurança quanto à qualidade da água distribuída. Na Califórnia, o Departamento de Saúde Pública do Estado impõe rigorosos padrões de controles da qualidade dos efluentes a ser objeto de reúso. Exige que cerca de 400 parâmetros sejam analisados regularmente. No caso do Orange County Water District (OCWD), após um tratamento biológico secundário, seguido de microfiltração, osmose reversa e oxidação avançada (raios ultravioleta, peróxido de hidrogênio), os efluentes tratados atendem a todos os parâmetros, ficando bem abaixo dos padrões exigidos. O índice de Disponibilidade Específica de Água (DEA) de uma região, medido em m3/hab./ano, e universalmente aceito, define que uma região com DEA maior que 500 e menor que 1 000 é considerada uma região de “Escassez Crônica de Água”. E, inferior a 500 m3/hab./ano, é tida como “Além do Limite de Disponibilidade” (Falkenmark, 1992). A RMSP apresentava o índice de 217 m3/hab./ano em 2008 e, hoje, deve estar no entorno de 180 m3/hab.ano (Ivanildo Hespanhol, 2008). E tende a seguir caindo. Nesta condição, a continuidade do abastecimento de água potável para a RMSP terá que encarar a realidade de que a via atual de buscar água de outras bacias, cada vez mais longe, é totalmente insustentável e que o reúso é o próximo passo que precisa ser dado. Para isto, a Sabesp conta com uma tecnologia de tratamento segura e testada, até mesmo para o reúso direto, e com a existência na RMSP de inúmeras oportunidades de praticar o reúso indireto, através dos vários reservatórios que circundam a RMSP. Como vantagens importantes, relaciona-se a possibilidade de produzir uma água de altíssima qualidade, quase de água destilada, e a um preço muito inferior ao de qualquer outra fonte marginal. Com a vantagem adicional de colocar a abastecimento da RMSP numa rota sustentável. A Sabesp já está dando passos nessa direção. O Governo Federal também já caminha nesse sentido, ao lançar recentemente, através do Ministério das Cidades, um edital para a contratação de uma empresa ou consórcio para Formular uma Proposta de Plano de Ação para Implementar no Brasil uma Política de Reúso de Esgotos Tratados. Para esse fim, a engenharia nacional dispõe dos conhecimentos e experiência para conceber e projetar sistemas que permitam o reúso seguro das águas servidas como fontes para o abastecimento público, seja através de reúso indireto ou direto. É hora, pois, de darmos os primeiros passos objetivos nessa rota, cuidando para que a opinião pública seja preparada antecipada e convenientemente para essa nova realidade. E de fazer os necessários ajustes e complementações na legislação aplicável, que já contempla essa possibilidade. * Celso S. Queiroz é engenheiro civil – MSCE e CE pelo MIT – Diretor Técnico da Concremat Engenharia E-mail: celso.queiroz@concremat.com.br engenharia 625 / 2015

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PALAVRA DO LEITOR CURTAS IBP

GRUPO EM CRESCIMENTO

RIO PIPELINE 2015

DIVULGAÇÃO

SENER

O grupo de Engenharia e Tecnologia Sener encerrou 2014 com uma receita de 1,3 bilhão de euros, o que representa um crescimento de 8,02% em relação ao ano anterior. Por sua vez, o resultado operacional do grupo foi de 73,3 milhões de euros, com um aumento de 54,7% em relação a 2013, e os lucros atribuídos à empresa-mãe atingiram 57,8 milhões de euros (+661%). O número de funcionários que trabalham na Sener não sofreu grandes alterações, ficando em 5 541. As áreas de

atividade dentro do grupo Sener são: engenharia e construção; aeronáutica; energia e meio ambiente. O grupo de Engenharia e Tecnologia Sener comemorou este ano o 50º aniversário do FORAN, o sistema CAD/CAM/ CAE naval e de artefatos marinhos idealizado pelo cofundador da empresa, José Manuel de Sendagorta, nos anos 1960, que é atualmente líder tecnológico no setor mundial naval e, desde o início, um paradigma da capacidade de inovar e exportar do grupo.

A edição de 2015 da Rio Pipeline será realizada entre os dias 22 e 24 de setembro próximo. Organizado a cada dois anos pelo Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), o evento é reconhecido como um dos principais do segmento e vai reunir profissionais de nível técnico e gerencial para troca de experiências e conhecimento sobre novas tecnologias e melhores práticas de gestão na área. O tema central da Rio Pipeline é o importante papel dos dutos submarinos no desenvolvimento do pré-sal, que amplia o escopo do evento, intensificando os debates sobre os dutos e linhas offshore. Na programação, um dos destaques é o painel de abertura que trará um panorama atual da indústria de petróleo e gás do qual participará o diretor presidente da estatal Pré-Sal Petróleo (PPSA), Oswaldo Pedrosa. “A Rio Pipeline surgiu há quase 20 anos em função dos grandes investimentos realizados no país na área de dutos terrestres e chega à sua 10ª edição consolidada como um dos principais espaços para realização de negócios nesta área”, comenta o gerente executivo de Abastecimento, Petroquímica e Biocombustíveis do IBP, Ernani Filgueiras.

ALITER COMPLETOU 30 ANOS DE INOVAÇÃO E AVANÇOS COM MÉTODO NÃO DESTRUTIVO

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A Aliter Construções e Saneamento completou, em 2014, 30 anos de atividades. Com sede em São Paulo, a Aliter tem o compromisso de criar a infraestrutura adequada e moderna para o desenvolvimento humano e econômico do País. A essa empresa de serviços de engenharia majoritariamente coube, ao longo dos anos, projetos na área de saneamento ambiental, como implantação de redes de distribuição de água, coleta e destinação final de esgoto,

além da execução de estações de tratamento. É uma tarefa essencial, tendo em vista o baixo nível de desenvolvimento do saneamento no Brasil e o longo caminho esperado até a universalização dos serviços de abastecimento de água potável, coleta e tratamento de esgoto e manuseio de resíduos sólidos. Assim estabelece o Plano Nacional de Saneamento Básico, o Plansab, aprovado no fim do ano de 2013. Mas qual seria a principal característica e

qualidade de uma empresa de engenharia que chega a três décadas de projetos e obras? O que assegura a longevidade? Segundo o corpo de gestores e engenheiros da Aliter, é a opção, sempre, pelos melhores profissionais e tecnologias, o resultado de processo contínuo de desenvolvimento de talentos, aprimoramento de processos e inovação.

Emissário Subaquático de Viamão – Unidade Fabril da Ambev (RS)

Estação de Tratamento de Esgoto em Guareí, no interior de São Paulo

Poço integrante do Sistema de Esgotamento Sanitário no entorno do estádio do Corinthians, em SP

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Pioneirismo - Por exemplo, a Aliter tornouse uma das referências principais de métodos

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CURTAS

MOVE SÃO PAULO

RECUPERAÇÃO DE MATAS CILIARES

GE

NOVO MODELO DE TURBINA A GÁS A GE apresentou ao mercado brasileiro em junho a sua nova classe de turbinas a gás: a linha GE 7HA. Movida a gás natural e com potência entre 275 e 337 megawatts (MW), as novas turbinas foram desenvolvidas para serem as maiores e mais eficientes do mercado, equacionando o uso mais eficiente do capital investido com menor custo operacional. Com cada ponto adicional de eficiência proporcionado pelo novo modelo, uma planta de 1 GW pode alcançar uma economia anual acima de 5 milhões de dólares somente com a redução do consumo de combustíveis. Adicionalmente, a nova tecnologia pode reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2) em mais de 40 milhões de toneladas métricas, ou o equivalente

a tirar de circulação cerca de 8 milhões de carros. No mercado brasileiro, a GE 7HA terá um papel ainda mais importante ao aumentar a flexibilidade e resiliência do sistema elétrico central. “Após acionada, uma GE 7HA pode atingir sua capacidade plena de geração em cerca de 15 minutos, enquanto que a maioria das termoelétricas em operação no país hoje leva em média 12 horas para atingir nível similar de geração”, explica Daniel Meniuk, gerente geral da divisão de Power Generation Products da GE para a América do Sul, acrescentando que a rápida resposta é fundamental para evitar falhas no suprimento energético e para tornar o sistema elétrico brasileiro mais seguro, estável e redundante.

não destrutivos de escavação. Data de 1997 o começo do processo contínuo de aquisição de máquinas automáticas para execução de túneis pelo método de tubo cravado (pipejacking), com diâmetros de 200mm a 2.000mm. O método utiliza os equipamentos chamados Shields (como os tatuzões empregados na escavação de linhas de metrô, mas com porte e diâmetro menores), para escavar e cravar os dutos para água e esgoto, de forma subterrânea, sequencial e coordenada. A técnica prescinde, portanto, da abertura de valas a céu aberto e minimiza interferências na superfície. Aplicação pioneira de método não destrutivo pela Aliter aconteceu em 2008, para a construção do emissário submarino de esgoto tratado no bairro Caiçara, em Praia Grande, no litoral sul paulista, dentro do programa Onda Limpa, do governo estadual. Foi a primeira vez que se utilizou um shield para escavar emissário submarino na América do Sul, segundo a Sabesp, responsável pelo projeto.

O emissário do bairro Caiçara tem cerca de 4 km. Parte da Estação de Pré-condicionamento de Esgoto, em terra, e segue sob o mar. O sistema pipejacking, que funciona conjuntamente com outros equipamentos, como compressores de ar, geradores e guindastes, foi coordenado por radiofrequência por equipe de técnicos, enquanto as escavações ocorriam a uma profundidade de 10m. A Aliter também se fez presente numa das grandes obras para a Copa do Mundo no Brasil: o projeto da Arena Corinthians, em Itaquera, Zona Leste de São Paulo. Contratada pela Sabesp, a empresa comandou a construção do Sistema de Esgotamento Sanitário no entorno do estádio, de modo a atendê-lo. São aproximadamente 7 km de coletores de esgoto, instalados pelo sistema de tubo cravado. A proteção e recuperação do meio ambiente é outro foco de relevo das atividades da Aliter. Ela executou obras do Sistema de Esgotamento Sanitário em Guareí (SP), que universalizou o serviço de coleta e tratamento de esgoto no município. E hoje

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A Concessionária Move São Paulo, responsável pela construção, operação e manutenção da Linha 6-Laranja do Metrô (Brasilândia-São Joaquim) é a primeira concessionária do setor metroferroviário a participar do Programa Nascentes, desenvolvido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo em parceria com ONGs regionais. O programa tem como principal meta a recuperação das matas ciliares das bacias hidrográficas do Estado de São Paulo. Nessa fase, mais de 6 600 mudas serão plantadas em uma área de 44 000 metros quadrados, localizada em Joanópolis, um dos municípios que fazem parte do Sistema Cantareira. O objetivo desta ação é ampliar a produção de água dos mananciais da região por meio da restauração das nascentes e bicas d’água. A iniciativa da Move São Paulo integra a terceira etapa do Programa Nascentes. Com a construção da Linha 6-Laranja do Metrô será preciso suprimir a vegetação existente em alguns terrenos que vão dar lugar às estações. Segundo Maurício Couri, presidente da Move São Paulo, o Programa Nascentes se apresentou como uma excelente oportunidade para realizar compensação ambiental. “Além de contribuirmos com a melhor solução de mobilidade urbana para São Paulo, vamos poder participar de um projeto que vai aumentar a produção de água para o Estado.”

está envolvida em outros projetos da área: Programa de Despoluição do Rio Tietê, Etapas 3 e 4; e intervenções para a despoluição das lagoas de Jacarepaguá e Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, dentro do escopo de obras para a Olimpíada de 2016. Destacamos no setor de Abastecimento de Água outros projetos: a implantação de redes de distribuição de água, utilizando o sistema pipejacking para cravação de tubulação de aço carbono; e o centro de reservação pedreira que contará com 2 reservatórios metálicos circulares de 6.500m³ cada, denominados A e B. Ambos os reservatórios serão metálicos parafusados, com capacidade total de reservação de 13.000m³. Celebrar e projetar - Celebrar os 30 anos é uma ocasião importante, como marco. E serve, de certo, para projetar como serão os próximos 30 anos. É o que se espera agora da Aliter, pois o bom futuro de um País depende também de empresas de engenharia sérias e competentes.

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CURTAS

EMTU/SP

FROTA DE ÔNIBUS A HIDROGÊNIO com recursos do Global Environment Facility (GEF) e da Finep - Agência Brasileira de Inovação, por meio do Ministério de Minas e Energia. Cabe à EMTU/SP monitorar todos os testes realizados pelos veículos e apresentar as especificações técnicas dos equipamentos. O consórcio fornecedor dos veículos e da estação de produção e abastecimento de hidrogênio é formado pelas empresas Ballard Power Systems, EPRI International, Hydrogenics Corporation, Marcopolo, Petrobrás Distribuidora e Tuttotrasporti.

PAINEL ARTÍSTICO NO METRÔ DO RIO O trabalho com esmero e a experiência na finalização de grandes obras capacitaram o pedreiro de acabamentos Iraudo Pereira Cajado, de 35 anos, para um desafio especial: montar as 3 059 peças de azulejo em um dos acessos de passageiros da futura Estação Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, uma das seis estações da Linha 4 do Metrô (Barra da Tijuca- Ipanema) no Rio de Janeiro. Como num enorme quebra-cabeças, Iraudo e outros seis colaboradores do Consórcio Linha 4 Sul precisaram ter atenção e paciência. Foram cinco dias observando os catálogos numerados para posicionar e assentar os azulejos na parede. O painel, de 32 metros de cumprimento por 3,80 metros de altura, conta como a história de Ipanema e da Igreja Nossa Senhora da Paz se misturam. O painel foi feito pelo arquiteto Luiz Neves, professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que há 24 anos restaurou a Igreja Nossa Senhora da Paz. A Linha 4 do Metrô do Rio vai transportar, a partir de 2016, mais de 300 000 pessoas por dia, retirando das ruas cerca de 2 000 veículos por hora/pico. Serão seis estações e aproximadamente 16 quilômetros de extensão. DIVULGAÇÃO

DIVULGAÇÃO

O governador paulista Geraldo Alckmin entregou em meados de junho, em São Bernardo do Campo, três novos ônibus movidos a hidrogênio para transporte urbano. Trata-se da primeira frota brasileira desse tipo e teve coordenação da EMTU/SP, empresa vinculada à Secretaria dos Transportes Metropolitanos. Os ônibus vão circular no trecho Diadema/Morumbi, do Corredor São Mateus-Jabaquara (ABD). O projeto é totalmente brasileiro, desenvolvido sob contrato de pesquisa financiado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento,

CONSÓRCIO LINHA 4 SUL

XYLEM

SOLUÇÕES PARA ÁGUA A Xylem – multinacional americana cujo foco principal é o elemento água – toma por base a ideia de que a água sofrerá uma substancial mudança conceitual, pois a grande importância não será mais na origem, mas na qualidade do insumo. A tecnologia para o reúso, por exemplo, existe e está disponível, abrangendo do tratamento primário ao terciário e desinfecção. Filtração através de membranas, ultravioleta, ozônio e outras podem assegurar a qualidade da água a ser reutilizada, sem nenhum problema. Segundo fontes da empresa, o reúso é ambientalmente uma solução excelente. Hoje não passa muito de 1%, com alguns exemplos para uso industrial, mas deverá exercer um papel muito mais importante, pois como 80% da água fornecida à população transforma-se em esgoto, nada mais lógico que este esgoto seja tratado e posteriormente reutilizado. Há diversos usos para esta água, tais como: áreas urbanas (parques, incêndio, irrigação e descargas); uso industrial: resfriamento; agricultura: irrigação; uso recreacional e

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ENGENHARIA I

ambiental: parques, campos de golfe e outros; retorno ao corpo hídrico: subterrâneo, superficial, represas e rios. A Xylem é uma das maiores fornecedoras mundiais de tecnologia voltada para água, permitindo a seus clientes transportar, tratar e testar a água de maneira mais eficiente, em serviços públicos, residências, instalações comerciais e industriais, assim como na agricultura. A empresa está presente em mais de 150 países através de diversas marcas líderes de mercado; seu pessoal é especializado em uma ampla gama de aplicações, com foco no encontro de soluções locais para os mais desafiadores problemas mundiais relacionados à água. A empresa, com sede mundial em Nova York, foi criada em 2011 a partir da separação dos negócios da ITT Corporation. No Brasil, a Xylem possui a matriz no Estado de São Paulo e escritórios em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pará, Santa Catarina e Espírito Santo. A empresa é detentora das marcas Flygt, Godwin, Lowara, Goulds, Sanitaire, Leopold e Wedeco, entre outras.

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I ENGENHARIA SAS PROTENSÃO

TECNOLOGIA DE BARRAS DE AÇO A empresa Alemã SAS Protensão, líder mundial no setor de ancoragens e aços especiais, oferece sistemas de protensão para contenção de solos e reforços de estruturas e produz mais de 200 000 toneladas de aço por ano. Seu produto de destaque é o sistema de protensão com barras de aço SAS e têm sido bem-sucedidos em diversos canteiros de obras em todo o mundo, como nas fundações dos prédios do governo de Berlim e no novo World Trade Center, em Nova York. A SAS Protensão é especializada no fornecimento de barras de aço especial com rosca de alta qualidade e resistência. A barra roscada SAS 950/1050 é indicada para sistemas geotécnicos e de protensão. Por exemplo, com 18 mm de diâmetro, o produto suporta uma carga de escoamento de até 22 toneladas. As tensões de escoamento e de ruptura são, respectivamente, de 97 kgt/mm² e 107 kgt/mm². São sistemas de protensão com barras de aço de elevada qualidade e alta resistência, com diâmetros variando entre 12mm e 75mm. Segundo Otávio Pede, diretor da SAS Protensão no Brasil, a siderúrgica utiliza, na matriz da Alemanha, parte da matéria-prima

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CURTAS

reciclada, e toda a energia utilizada é natural e autossustentável, pois a empresa gera toda a energia utilizada. Os sistemas da SAS são utilizados em chumbadores para mineração e construção de túneis, reforços estruturais protendidos, tirantes de protensão ancorados no terreno, para contenção, ancoragens para solo grampeado, estais de pontes, agulhas para travamento de fôrmas de concreto, emendas estruturais de concreto pré-moldado, fundações de torres eólicas, microestacas, estacas de fundação à tração, reação para provas de carga, ancoragem de estais de linhas de transmissão, ancoragens de solo e rocha, sistemas geotécnicos protendidos e sistemas de pré-tensão e pós-tensão.

CASE CONSTRUCTION EQUIPMENT

NOVA TECNOLOGIA LEVA ECONOMIA ÀS OBRAS ataque da caçamba para a remoção de material em obras de terraplanagem e preparo da área. A título de ilustração, uma obra da empresa de celulose Klabin, realizada com o uso do aplicativo comprova redução significativa de gastos e aumento da produtividade nos canteiros de

obras. As principais vantagens da utilização estão na eficiência e na qualidade do serviço executado, informa o gerente de Marketing da Case, Carlos França. No estudo de caso realizado pela JMalucelli Construtora, durante a execução de uma obra, houve um aumento de produtividade de 63%, o que levará a uma economia superior a 450 000 reais no ano, com o uso do aplicativo em uma máquina pelo período de 1 500 horas. A obra onde a construtora JMalucelli está utilizando o ‘Site Control’ é o Projeto Puma, no Paraná, para a implantação da infraestrutura da plataforma industrial da nova linha de produção da Klabin. O ‘Site Control’ foi utilizado em três modelos de máquinas Case: motoniveladora 865B, trator de esteira 2050M e escavadeira hidráulica CX220. “A economia é gerada pela redução de pessoal, como greidistas, redução das demandas topográficas e das horas de trabalho”, revela França.

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Acoplado a motoniveladoras, escavadeiras hidráulicas e tratores de esteiras, o aplicativo ‘Site Control’, lançado pela Case Construction Equipment neste ano, é um opcional capaz de determinar qual a profundidade ideal para o corte de terreno ou mesmo o melhor ângulo de

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Capital e Grande São Paulo

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Outros Municípios

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TRIMESTRE

ANUAL– Pagto antecipado

Até 01 ano de formado - Capital e Grande SP - Outro Município

R$ 22,50 R$ 11,25

R$ 67,50 R$ 33,75

R$ 225,00 R$ 112,50

Até 02 anos de formado - Capital e Grande SP - Outro Município

R$ 30,00 R$ 15,00

R$ 90,00 R$ 45,00

R$ 300,00 R$ 150,00

Até 03 anos de formado - Capital e Grande SP - Outro Município

R$ 36,00 R$ 18,00

R$ 108,00 R$ 54,00

R$ 360,00 R$ 180,00

MENSALIDADE

TRIMESTRE

ANUAL – Pagto antecipado

R$ 90,00 Primeiros seis meses R$ 60,00

R$ 270,00 Primeiros seis meses R$ 180,00

R$ 900,00

R$ 45,00

R$ 135,00

R$ 450,00

ENGENHEIRO RECÉM-FORMADO

TITULAR Capital e Grande São Paulo Outros Municípios

CONTRIBUIÇÕES ASSOCIATIVAS As contribuições são através de boleto e de 03 formas distintas: Trimestral ou Mensal ou Anual MENSALIDADE

TRIMESTRE

ANUAL – Pagto antecipado

COLETIVO I Até 30 funcionários 02 representantes

R$ 180,00

R$ 540,00

R$ 1.800,10

COLETIVO II De 31 a 100 funcionários 04 representantes

R$ 360,00

R$ 1.080,07

R$ 3.600,20

COLETIVO III Acima de 100 funcionários 08 representantes

R$ 720,00

R$ 2.160,13

R$ 7.200,40

CATEGORIA

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Instituto de Engenharia • janeiro/fevereiro/março • 2013 • nº 73 19 www.brasilengenharia.com


I ENGENHARIA

Alternativas de financiamento para projetos de infraestrutura *Tatiana Matiello Cymbalista e Juliana Deguirmendjian

O modelo de financiamento de projetos de infraestrutura no Brasil consolidou-se, tradicionalmente, sob a égide de um banco público – o BNDES – que concedia vantajosos empréstimos de longo prazo, sob taxas de juros significativamente mais reduzidas do que aquelas praticadas por bancos comerciais. Ocorre que, em meio a um cenário de desaceleração econômica, iminência de implementação de medidas de ajuste fiscal e dívida do Tesouro Nacional com o BNDES na casa dos R$ 26 bilhões, o modelo tradicional vem demonstrando sinais de esgotamento – ou, ao menos, de saturação. Em razão disso, é possível antecipar uma tendência de deslocamento, ao menos parcial, do financiamento público da infraestrutura para alternativas já existentes de financiamento privado, notadamente por meio da emissão de títulos a serem negociados no mercado de capitais. Os recursos captados junto aos investidores serviriam para financiar a implementação dos novos projetos de infraestrutura. A Lei nº 12.431/2011, com as alterações da Lei nº 12.844/2013, é a referência legislativa para o financiamento da infraestrutura por intermédio do mercado de capitais. A Lei introduziu um incentivo à participação do capital privado no financiamento de projetos prioritários de infraestrutura, com a redução das alíquotas de imposto de renda sobre os rendimentos auferidos por investidores. Para pessoas físicas, a alíquota foi reduzida a zero; para pessoas jurídicas, a alíquota foi fixada em 15%. Mais especificamente, dentre os instrumentos incentivados pela Lei nº 12.431/2011, merecem destaque as debêntures de infraestrutura e os fundos de investimento relacionados à implementação de projetos de infraestrutura (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios – FIDC, e Fundo de Investimento em Participações em Infraestrutura – FIP-IE). As debêntures de infraestrutura são títulos de renda fixa emitidos por SPE, e os recursos auferidos com sua emissão devem necessariamente servir à implementação do projeto de infraestrutura segregado naquela SPE. No caso do FIDC, os direitos creditórios que compõem o fundo devem ser relacionados à implementação de projetos de infraestrutura, tais como debêntures de infraestrutura, cotas de outros FIDCs de infraestrutura, cotas de FIP-IE, títulos de crédito destinados ao financiamento de empréstimos-ponte, dentre outros. No caso do FIP-IE, os recursos captados com as cotas negociadas no mercado de capitais se destinam a investir em participação (equity) em sociedades criadas especificamente para desenvolver projetos de infraestrutura, com envolvimento

no processo decisório da companhia investida, efetiva influência na definição de sua política estratégica e na sua gestão. Importante ressaltar, ainda, que o próprio BNDES vem incentivando a participação do capital privado no financiamento de projetos de infraestrutura pela via do Tatiana Matiello Cymbalista mercado de capitais. Um exemplo disso é a concessão de suporte financeiro a emissões de debêntures de infraestrutura, associada à posterior negociação de cotas de fundo de investimento, estruturado pelo próprio Banco, lastreado nas debêntures adquiridas. Outro exemplo está consubstanciado na recente parceria entre BNDES e Anbima, que pretende vincular a oferta, pelo BNDES, de crédito a taxas convidativas (TJLP) à utilização de debêntures de infraestrutura como parte da estrutura de financiamento. Está em pauta, também, mecanismo de garantia oferecido aos investidores pelo BNDES, que se compromete, em caso de atraso no pagamento de juros pelo emissor, a honrar diretamente os compromissos. Com isso, além de conferir maior segurança às emissões das SPEs, o BNDES incentiva o financiamento privado da infraestrutura. O resultado esperado, no caso, é de redução progressiva da dependência aos recursos do BNDES – um dos objetivos atrelados à atual política econômica do país. A expectativa, portanto, é de que haja melhor aproveitamento dos instrumentos de financiamento privado da infraestrutura já existentes, alicerçados no mercado de capitais. Está em jogo, no caso, a progressiva redução da dependência ao tradicional modelo de financiamento bancário, centrado – quase que exclusivamente – no BNDES. Fonte: Littera Express - nº 509 – 16 de abril de 2015 Tatiana Matiello Cymbalista é advogada, formada pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no ano de 1994. Possui título de mestrado pela Université de Paris I - Panthéon Sorbonne (Diplôme d’Études Aproffondies - D.E.A.), em 1996, e doutorado pela Université de Paris II (Panthéon – Assas), em 2005. Possui 20 anos de experiência na advocacia, tendo se especializado nos setores de direito administrativo e regulatório. Participou de diversos projetos envolvendo a interação entre a Administração Pública e o setor privado, notadamente em modelagens de projetos de infraestrutura e no assessoramento preventivo de empresas e entidades governamentais quanto a questões jurídicas de direito público ou privado. Na área específica de transportes, suas experiências mais relevantes são: a estruturação da modelagem jurídica do projeto Trem de Alta Velocidade, a estruturação de concessões de linhas de metrô, de ônibus e de VLTs, no âmbito de manifestações de interesse da iniciativa privada, a prestação de consultoria à ANTT para o diagnóstico e melhoria do arcabouço regulatório em matéria de transportes, bem como o assessoramento a diversas concessionárias de serviços públicos de transporte. É autora de diversos artigos técnicos.

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Organograma

ENGENHARIA I DIVISÕES TÉCNICAS presidente: CAMIL EID vice-presidente de atividades técnicas: MIRIANA PEREIRA MARQUES gerência de programação

departamento de engenharia de energia e telecomunicações diretor: Aléssio Bento Borelli vice-diretor: Miracyr Assis Marcato

departamento de engenharia do habitat e infraestrutura diretor: Roberto Kochen vice-diretora: Dione Mari Morita secretário: Habib Georges Jarrouge Neto divisão de estruturas coordenador: Natan Jacobsohn Levental vice-coordenador: Lúcio Martins Laginha secretário: Rafael Timerman

divisão de geração e transmissão coordenador: Sergio Anauate

divisão de engenharia sanitária e recursos hídricos coordenadora: Ana Carolina Russo vice-coordenador: Pedro Guidara Junior

divisão de distribuição de energia coordenador: Carlos Costa

divisão de geotecnia e mecânica dos solos coordenador: Habib Georges Jarrouge Neto

divisão de telecomunicações coordenadora: Flavia Bartkevicius Cruz

divisão de instalações elétricas coordenador: Paulo Barreto

departamento de engenharia de atividades industriais diretor: Antonio Maria Claret Reis de Andrade secretário: Alberto Alécio Batista

divisão de segurança no trabalho coordenador: Jefferson Deodoro Teixeira da Costa vice-coordenador: Theophilo Darcio Guimarães secretário: Carlos Alexandre Costa divisão de construção sustentável e meio ambiente

divisão de acústica coordenador: Schaia Akkerman vice-coordenadora: Maria Luiza Rocha Belderrain

divisão técnica de manutenção industrial

departamento de engenharia química

divisão técnica de metalurgia e materiais

departamento de engenharia de mobilidade e logística diretor: Ivan Metran Whately vice-diretor: Neuton Sigueki Karasawa

divisão de engenharia de materiais

departamento de engenharia de produção diretor: Jerônimo Cabral Pereira Fagundes Neto vice-diretor: Miguel Tadeu Campos Morata secretário: Alexandre Rigonatti

divisão de transportes metropolitanos coordenador: Ivan Metran Whately

divisão de transporte ativo coordenador: Reginaldo Assis de Paiva vice-coordenador: José Ignácio Sequeira de Almeida divisão de logística

divisão téc. de gerenciamento de empreendimentos coordenador: Gerson Amaral Françoso vice-coordenador: Fabiano Sannino secretário: Túlio Rossetti Fernandes Miranda divisão técnica de avaliações e perícias coordenador: José Fiker vice-coordenador: Antonio Guilherme Menezes Braga secretária: José Marques divisão técnica de qualidade e produtividade coordenador: José Carlos Muniz Falcon vice-coordenador: Ricardo Lyra secretário: Daniel Nascimento Gomes divisão de planejamento e engenharia econômica coordenador: Alfredo Eugenio Birman vice-coordenador: Eduardo Rottmann secretário: Rodolfo Boaretto Rós divisão de patologias das construções coordenador: Tito Lívio Ferreira Gomide vice-coordenador: Odair dos Santos Vinagreiro secretário: Stella Marys Della Flora divisão de informática coordenador: Pedro Badra

departamento de arquitetura

diretoria da revista engenharia diretor: Miguel Lotito Netto secretário: Miracyr Assis Marcato editor da revista: Ricardo Pereira de Mello

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departamento de engenharia de agrimensura e geomática diretor: Miguel Prieto vice-diretor: Aristeu Zensaburo Nakamura secretário: Osiris Monteiro Blanco divisão de cadastro urbano e rural coordenador: Pedro Guidara Jr.

divisão de sistemas de informação geográfica coordenador: Aristeu Zensaburo Nakamura

departamento de tecnologia e ciências exatas diretor: Ricardo Kenzo Motomatsu vice-diretor: Laurindo Martins Junqueira Filho secretário: Sérgio Franco Rossoni

divisão de engenharia de incêndio coordenador: Carlos Cotta Rodrigues vice-coordenador: José Félix Drigo

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divisão de trânsito coordenador: Maria da Penha Pereira Nobre vice-coordenador: Vanderlei Coffani

divisão de engenharia de sistemas e inovação coordenador: Jairo de Almeida Machado Jr. Vice-Coordenador: Pedro Luiz Scarpim departamento de engenharia de agro-negócios

diretoria de cursos diretor: Marco Antonio Gulllo vice-diretora: Suzana Badra

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I ENGENHARIA

TIPOLOGIAS DE INSPEÇÃO PREDIAL TITO LÍVIO FERREIRA GOMIDE* s primeiros estudos de inspeção predial surgiram no Brasil em 1997, com base na versão americana do “home inspection” e norma de manutenção da ABNT da época – NBR/595 (atual NBR 5674) –, por meio de debates dos colegas envolvidos com as vistorias e perícias em edificações. O desconhecimento prático dessa ferramenta, bem como a variedade de ideias e sugestões para a criação da primeira norma técnica sobre o tema resultou, evidentemente, numa miscelânea técnica-administrativa, sem foco técnico definido, mas, mesmo assim, muito útil, pois permitiu a evolução da disciplina no país. A primeira norma de inspeção predial com a lista de verificação inicial, agregada de questionário e da classificação das anomalias construtivas, todas com as respectivas indicações do grau de risco estimado, além da ordem de prioridades e recomendações técnicas, também focada no marketing, para atender às principais solicitações dos condomínios. Mais recentemente essa norma evoluiu para avaliação com notas técnicas, como recomenda a atual diretriz do Instituto de Engenharia. Porém, ainda assim, predomina a visão da miscelânea original. E ressalte-se que essa miscelânea técnica-administrativa é muito interessante para os condomínios, pois utilizam os laudos não só para conhecer o diagnóstico técnico predial, como também para planejar e recomendar os reparos necessários, além de servir de instrumento para solicitações de serviços de assistência técnica junto às construtoras/incorporadoras, ou servir de prova pericial contra elas, nas ações judiciais. Evidentemente, inspeção predial dessa natureza não se presta como norma técnica formal, principalmente no foro da ABNT, pois essa miscelânea não pode ser conceituada como uma inspeção técnica de engenharia. CONCEITOS Primeiramente é importante se conceituar o termo inspeção, tal qual ferramenta de avaliação técnica, ao invés do antigo conceito de auditoria. Há muita confusão nesse sentido e alguns diplomas atuais de inspeção predial misturam ferramentas de avaliação técnica com ferramentas de

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auditoria, equivocadamente. Para tanto, importante se conhecer as três variantes de conceitos de inspeção constantes do Dicionário de Termos de Qualidade de autoria de Paulo Mundim Prazeres, editado pela Atlas em 1996, ou seja: INSPEÇÃO – (a) Comparação de qualquer característica da qualidade de um material, item, instrumento, processo ou unidade de produto ou serviço com uma especificação (grifa-se). (b) Atividades de controle de qualidade do tipo exame, medição ou ensaio que verificam a conformidade de itens, produtos ou serviços com requisitos especificados (grifa-se). (c) Avaliação da qualidade de alguma característica relacionada a um padrão. O padrão para a característica pode ser uma descrição, um desenho, uma amostra, uma fotografia etc. Sabendo-se que a inspeção predial brasileira, desde seus primórdios, não se enquadra no perfil das auditorias de conformidade, ou comparação com especificações, pois sempre visou a avaliação técnica geral da qualidade predial – fica claro que o atendimento ou não, a conformidade ou não, de uma ou várias normas técnicas, não se enquadram no perfil pretendido para a inspeção predial. Fosse assim, bastaria se confrontar as características prediais do edifício em estudo com as normas técnicas da ABNT, fazendo-se o respectivo check-list das conformidades ou não, e tudo estaria resolvido. Portanto, deve-se adotar o conceito de inspeção como avaliação técnica de qualidade, item (c) acima, ficando fácil perceber que é preciso se partir da estaca zero, renovar o foco, para se produzir verdadeira norma técnica de inspeção predial. Tratando-se de avaliação técnica de qualidade, obviamente, não são cabíveis análises de questionários, análises de risco, ordens de prioridades, recomendações técnicas e outros acessórios absolutamente alheios às verdadeiras investigações diagnósticas. Nesse sentido, a Engenharia Diagnóstica em Edificações bem classifica as ferramentas de investigação técnica e facilita o entendimento das outras atividades que podem se somar às inspeções “prediais”, tais como as auditorias, perícias e consultorias, porém esses são procedimentos acessórios.

Quanto ao termo predial, que bem se relaciona ao termo condominial, o mesmo causa ambiguidade, devido aos aspectos sociológicos, administrativos e jurídicos da vida condominial, além daquele estritamente técnico. Seria mais adequada, sob a ótica técnica, a denominação “inspeção em edifício” ou “inspeção edilícia”, pois essa terminologia melhor se enquadra no meio técnico, principalmente no foro da ABNT, devido às reconhecidas normas de manutenção e desempenho em edificações. Porém, a tradição da expressão “inspeção predial” não pode ser desprezada, e pode ser mantida, mas a tradição na mixórdia não, pois essa prejudica a boa técnica. QUALIDADE PREDIAL Entendendo-se que o objetivo principal da inspeção predial é a avaliação técnica da qualidade com base num padrão genérico (a expertise do inspetor), é importante se classificar esse padrão. Tratando-se de avaliação técnica de natureza prática, que requer o exame “in loco” pelo inspetor experiente, é recomendável se adotar o que prega a norma de desempenho da ABNT, NBR 15.575/13, que determina a avaliação por adequação ao uso, através de “investigação sistemática baseada em métodos consistentes capazes de produzir uma interpretação objetiva sobre o comportamento esperado”. Para facilitar o entendimento dessa interpretação objetiva sugere-se a classificação do padrão genérico da qualidade em três níveis, consoante recomenda o item 12 das Diretrizes de Inspeção de Manutenção Predial do Instituto de Engenharia, como segue: A avaliação da condição de manutenção está associada à análise dos serviços coletados, com foco no planejamento, gestão e operação, que deve ser enquadrada nos seguintes padrões: I - Inferior – qualidade inferior à expectativa mínima; M - Médio – qualidade regula com a expectativa média, usual; S - Superior – qualidade supera a expectativa média; Os serviços serão analisados através da documentação técnica pertinente e inspecionados “in loco”.

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DIVISÕES DIVISÕESTÉCNICAS TÉCNICAS dial”, passa por diversas fases (PPEEU), desde a concepção inicial da edificação, seu projeto, sua construção, sua garantia e seu uso. Nas fases da concepção, projeto e construção essas avaliações técnicas estão recomendadas através da norma de discriminação de serviços para a construção de edifícios – NBR 12.722 e norma de desempenho – NBR 15.575, ambas da ABNT. Na fase pós-obra a inspeção predial entra em nova fase, pois o uso e degradação exigem a manutenção, impondo novo foco técnico (figura 2).

Figura 1

TRIDIMENSIONALIDADE A qualidade predial, por óbvio, não visa apenas a habitabilidade com desempenho, pois a vida moderna exige cuidados com a sustentabilidade e responsabilidade social. Sabendo-se que 30% das emissões de carbono se originam da construção civil, bem como é sabido que aproximadamente 5% da população requer alguma necessidade especial, fácil perceber a importância da sustentabilidade e responsabilidade social no meio predial. A inspeção predial moderna, portanto, não pode se eximir dessas vertentes (habitabilidade com desempenho, sustentabilidade e responsabilidade social), sob o risco de anacronismo (figura 1). A avaliação técnica da qualidade, portanto, objetivada pela inspeção “pre-

Figura 2

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TIPOLOGIAS DE INSPEÇÃO “PREDIAL” Segundo Al Gore, os estudiosos da genética humana entendem que os fatores ambientais e de estilo de vida contribuem com cerca de três quartos do processo de envelhecimento, restando à genética, portanto, uma contribuição modesta de apenas 25%. No caso predial também há essa duplicidade, mas com percentuais invertidos, pois a genética predial, s.m.j., deve ter percentual de uns 75%, sabendo-se que a qualidade construtiva é fundamental no desempenho e vida útil da edificação. Esse raciocínio é importante para entendermos que as inspeções prediais devem seguir o modelo do check-up médico, separando os fatores intrínsecos daqueles extrínsecos. Portanto, é recomendável se adotar duas tipologias nas inspeções “prediais”, ou seja, a inspeção da construção predial (intrínseca) e a inspeção da manutenção predial (extrínseca). A inspeção intrínseca, ou da construção predial, deve ser realizada em todos os sistemas construtivos, equipamentos e instalações, logo após a conclusão da obra e no decorrer da vida útil, sugerindose periodicidade de dez anos, para bem analisar o comportamento do desempenho ao longo do tempo. Quanto à inspeção extrínseca (manutenção, uso e degradação), a mesma deve ser rotineira na fase do pós-obra, visando o bom uso e a preservação da vida útil projetada para a edificação, recomendan-

do-se periodicidade anual entre elas. Com essas duas inspeções edilícias, intrínseca e extrínseca, surgem os diagnósticos de qualidade necessários para os bons cuidados técnicos visando bom desempenho e prolongada vida útil (figura 3). INSPEÇÃO INTRÍNSECA A inspeção intrínseca ou da construção predial pode ser segmentada, através dos diversos sistemas construtivos, instalações e equipamentos, tais como: - fundações (estacas, blocos, muros de arrimo, paredes diafragma etc.); - estrutura (pilares, vigas, lajes, marquises, empenas, apoios, consoles etc.); - fechamentos (paredes de alvenaria, dry wall, divisórias etc.); - esquadrias (portas, janelas, portões, grades, corrimãos, escadas marinheiro etc.); - revestimentos (pisos, paredes, tetos, esquadrias etc.); - fachadas (painéis, jardineiras, juntas, vedações etc.); - coberturas (mantas, proteções mecânicas, rufos, pingadeiras etc.); - impermeabilizações (jardins, varandas, térreo, cobertura etc.); - hidráulica e esgoto (tubulações, registros, ralos, caixas de passagem e gordura, torneiras, drenagens, reservatórios, barriletes, válvulas de pressão, bombas etc.); - elétrica (poste de entrada, sala dos medidores, quadros, conduites, tomadas, pontos de luz, luzes de emergência, luz de obstáculo, minuterias etc.); - ventilação e ar-condicionado (exaustão, fan-coils, bombas, shillers, filtros etc.); - proteção contra incêndio (extintores, SPDA, hidrantes, sprinklers, bombas de incêndio, quadros de controle de sprinklers, sinalização de escadarias e demais áreas comuns); - elevadores (casa de máquinas, cabinas, portas e sinalização); - telefonia (poste de entrada, quadro geral - DG, quadros de passagem, conduites e pontos de telefone); - acessibilidade (equipamentos, trajetórias e sinalizações visuais, táteis e sonoras). Essa inspeção construtiva dos sistemas deve enfocar a habitabilidade com desempenho, a sustentabilidade e a responsabilidade social e ser realizada logo após a conclusão da obra, no decorrer e final da garantia legal, quando encerrados os serviços de assistência técnica que corrigem eventuais problemas de qualidade. No decorrer da vida útil, também são recomendadas outras inspeções da construção, devido ao uso e degradação natural que podem afetar o desempenho e WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com


a vida útil, mas essas com periodicidade de aproximadamente dez anos entre elas. A prática desse tipo de inspeção da construção revela que o ideal é uma equipe multidisciplinar com especialistas dos principais sistemas e equipamentos. INSPEÇÃO EXTRÍNSECA Quanto à inspeção extrínseca ou de manutenção e uso predial, a mesma deve focar a gestão, planejamento e operação da manutenção, e a degradação gerada pelo uso e meio ambiente. Essas vertentes estão bem caracterizadas nos itens das normas de manutenção e desempenho da ABNT. Dessa forma, é evidente que a inspeção da manutenção e uso predial deve ser o principal foco normativo da atualidade, principalmente aquele da ABNT. O Instituto de Engenharia saiu na frente e já elaborou e publicou suas Diretrizes Técnicas de Manutenção e Uso Predial, atendendo as doutrinas técnicas, os princípios da Engenharia Diagnóstica e, principalmente, cobrindo a enorme lacuna técnica que existia para esse tipo fundamental de inspeção de engenharia. A inspeção da manutenção requer a análise da gestão, planejamento e operação. Quanto ao uso, deve-se avaliar a adequação, a intensidade e a produtividade. As influências das condições do meio ambiente, com as variações climáticas e particularidades do solo, ar e água, além dos fatores e agentes biológicos, devem ser analisados para se determinar a degradação. Os danos extrínsecos, devido às

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eventuais falhas de manutenção, irregularidades de uso e degradação precoce interferem na vida útil projetada e devem ser devidamente diagnosticados. CONCLUSÃO A miscelânea técnica da inspeção predial original, misturando técnicas intrínsecas e extrínsecas (sistemas construtivos e manutenção) com objetivos diversos (anomalias e riscos), além de outras finalidades (prioridades, recomendações etc.), evidentemente, não se constitui de norma técnica, mas de “inspeção” condominial. Quanto à questão da segurança predial, por óbvio, a mesma estará resguardada pela boa construção e boa manutenção, o que será determinado nas inspeções intrínsecas e extrínsecas, além disso, a segurança deve ser fiscalizada pelo poder Figura 3 público, através das legislações e instruções técnicas do Corpo de Bombeiros. Afinal, passados mais de 16 anos dos primeiros estudos de inspeção predial no Brasil, não é admissível que a tradicional miscelânea predial predomine, ainda mais no respeitável foro técnico da ABNT. Que venha a terceira geração de inspeção predial, sem mixórdias, e nas duas tipologias técnicas que interessam: intrínseca (construção) e extrín-

seca (manutenção, uso e degradação), pois esses são os verdadeiros diagnósticos técnicos, sem miscelâneas. * Tito Lívio Ferreira Gomide é engenheiro civil, perito de engenharia diagnóstica em edificações do Gabinete de Perícias Gomide, coordenador da Divisão Técnica de Patologias das Construções do Instituto de Engenharia E-mail: gpgomide@uol.com.br

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DIVISÕES TÉCNICAS

NOSSA ENGENHARIA E A EQUIVOCADA ESPECIALIZAÇÃO PRECOCE PEDRO GUIDARA JÚNIOR* uando ouço, leio ou vejo dezenas de especializações da engenharia publicadas no Guia do Estudante, ofertadas pelas universidades e faculdades, me pergunto: o mercado de trabalho e consumidor absorve e entende tanta especialização? E os estudantes entendem tanta especialização e sabem optar com 17 anos de idade na hora do vestibular? Mas afinal o que é engenharia? Agora a moda é ser engenheiro de petróleo e gás ou, engenheiro biomédico; antes era ser engenheiro ambiental – ou ainda é –, ou ser engenheiro de segurança, engenheiro mecatrônico (desculpem, já mudaram o nome para engenheiro de controle e automação, mas parece que tem diferenças), de computação e por aí vai. Temos também a engenharia de pesca, de alimentos, de materiais, florestal, física, acústica, engenharia hídrica, engenharia de horticultura, naval, aeronáutica, de agrimensura, cartográfica, elétrica, mecânica e ainda temos a especialização da especialização no caso da engenharia de produção (exemplo: produção mecânica ou elétrica, produção civil, agroindustrial, química) que são graduações específicas. E não para por aí: o ano que vem é bem provável que seja lançada mais uma engenharia. Mas o que elas têm em comum? A engenharia começa no vestibular e o estudante tem que escolher entre 34 especializações ou mais e não pode errar de especialização porque a mudança para outra engenharia não é tão simples, pois muitas vezes terá de mudar de faculdade ou prestar novo vestibular. O que fica claro é que o nome engenharia é muito forte, ainda tem certo glamour e, por razões históricas, sempre foi uma das três mais importantes ao lado do direito e da medicina. É o profissional que sabe fazer cálculos, projetar, especificar, construir, edificar, desenvolver produtos, assim reforça uma autoridade. O país teve, nas décadas de 1980 e 1990, a ausência de projetos de engenharia, gerando lacunas e vazios de desenvolvimento e infraestrutura, desinteressando novos estudantes a ingressar nos cursos. Isto parece que também provocou pelo lado das faculdades uma tentativa de criar

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e vender uma gama enorme de cursos (bem especializados) de engenharia, ditos modernos, com intuito de atrair mais jovens e evitar a evasão. E dá uma impressão que é uma facilidade enorme criar mais um tipo de curso de engenharia. EQUÍVOCOS E ARMADILHAS Com dezenas de especializações da engenharia aconteceram vários equívocos e armadilhas: - Dificuldade de todos os interessados (sociedade, estudantes, academia, mercado) em saber o que é engenharia; onde ela começa e termina; o que estes cursos específicos têm em comum e como se comunicam. - Falta de sinergia entre os diversos engenheiros, o que não acontece com médicos e advogados que se especializam apenas após a graduação, assim criaram Conselhos grandes, uníssonos, homogêneos e fortes politicamente que protegem seu mercado, suas disciplinas do conhecimento e suas atribuições. Ainda cabe ressaltar que os médicos e advogados têm presença forte nos meios de comunicação, opinando e se posicionando sobre vários temas, ainda ocupando vários cargos públicos e de liderança. - Concorrência entre os diversos engenheiros, pois muitas vezes há as mesmas atribuições, ou seja, engenheiro concorrendo com engenheiro. Superposição de disciplinas e atribuições. Por exemplo, um caso interessante e emblemático é o engenheiro agrimensor que possui praticamente as mesmas atribuições do engenheiro cartógrafo. São cursos com títulos diferentes em faculdades distintas, mas com disciplinas e cargas horárias semelhantes. Resultado: confundem o mercado e concorrem entre si. - Engenheiro civil concorrendo com engenheiro ambiental ou sanitário, engenheiro mecânico ou eletricista concorrendo com mecatrônico, engenheiro de minas concorrendo com engenheiro de petróleo e gás, entre outros. Isto tudo porque geralmente se escolhe uma tendência de mercado e se cria um curso de engenharia específico, se utilizam de disciplinas e atribuições de outro mais antigo e envelhecem os cursos mais antigos ou tradicionais. Um verdadeiro canibalismo profissional. Em vez de

se dar oportunidade de extensão ou especialização ao engenheiro – por exemplo, engenheiro civil especializado em gestão ambiental; engenheiro eletricista especializado em automação ou computação; engenheiro de minas especializado em petróleo e gás. - Outro lado mal resolvido são outros profissionais não engenheiros que muitas vezes concorrem e substituem os engenheiros como, por exemplo, os geólogos, geógrafos, arquitetos que muitas vezes possuem atribuições ou disciplinas que permitem assumir várias tarefas que se superpõem com as do engenheiro. Além de vários tipos de tecnólogos e técnicos de nível médio como o de edificações, de agrimensura, eletrônico, mecânico, gestão ambiental entre outros que acabam roubando parte e confundindo o mercado de trabalho do engenheiro. - Não existe técnico em cardiologia ou oftalmologia, nem técnico em relações trabalhistas ou direito criminal. Os modelos e sistemas profissionais do médico e do advogado deram bem mais certos. Os médicos cuidam de saúde e também cuidam muito bem do seu mercado, haja vista que psicólogos e enfermeiros não podem mais aplicar homeopatia nos seus pacientes. Os médicos e advogados planejam e executam todo o serviço, controlando todos os processos, do começo ao fim, não há ou há poucos intermediários. Lógico que pode haver assistentes, enfermeiros, mas principalmente há os médicos iniciantes, os residentes e no caso de advogados os estagiários e juniores, executando os trabalhos mais rotineiros, mais simples – até aprenderem, se especializarem e, repetindo o ciclo, dando lugar a mais médicos e advogados. - No caso da engenharia de produção, conforme comentado anteriormente, a questão é mais profunda, há especialização da especialização na própria graduação (engenheiro de produção civil ou eletricista ou mecânico ou agroindustrial). Devido à enorme migração de engenheiros para área administrativa (finanças, contabilidade, logística, produção, marketing, vendas) e devido à falta de empregos e valorização na sua área de origem, as empre-

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DIVISÕES TÉCNICAS sas notaram que este profissional poderia exercer funções administrativas iguais ou melhores que os próprios bacharéis em administração. Aí as faculdades, percebendo o mercado criaram o engenheiro de produção, um misto de administrador e matemático, para preencher vagas de administradores que não se qualificavam. Em minha opinião, isto foi mais um desvio, uma aberração que tirou milhares de engenheiros da infraestrutura e desenvolvimento do país para ocupar cargos de finanças, logística e produção. Agora temos os administradores, engenheiros eletricistas, mecânicos e de produção concorrendo pela mesma vaga. Em vez de especializarmos os engenheiros com pós-graduação em produção/logística, fragmentamos e enfraquecemos mais o engenheiro e o seu mercado. Cabe ressaltar que não devemos ser contrários à especialização, mas na pósgraduação. Vão dizer que toda esta especialização precoce teve tendências norte-americanas, do mercado ou indústria internacional, mas, na verdade, o problema de evasão escolar continua, a baixíssima inovação continua e a falta de engenheiros continua – como ressalta o engenheiro Roberto Leal Lobo, que foi reitor da Universidade de São Paulo (USP), nos seus artigos no Estadão: “Precisamos de engenheiros inovadores” e “Para quê devem ser formados os novos engenheiros?”, que inspiraram o título deste meu artigo. UMA IDEIA A ideia é recriarmos apenas dois grandes blocos “de concreto”: engenharia civil e engenharia industrial. Ou seja, somente duas graduações de duração de quatro anos. Todo engenheiro tem que sair da graduação com conceitos fortes de desenvolvimento de projeto e produto final (seja tangível ou serviço), saber elaborar bem um projeto, especificar processos, escolher métodos, tecnologia e normas/ padrões adequados, entender bem o que é um sistema, controlar estatisticamente a qualidade de processos ou do produto final, buscar ou pesquisar soluções, medir, comparar, testar, otimizar, fiscalizar, elaborar pareceres, simular (desenvolvendo modelos icônicos, matemáticos e diagramáticos). Isto é engenharia! Saber de cor e salteado todos os tipos de erros e o porquê de desastres e falhas em grandes obras ou no produto final. Por exemplo: erros de topografia, estruturas, fundação, geotecnia, tecnologia, materiais, modelagem, métodos, dados ou sistemas inadequados. Para isso a Academia tem que estar também e presencialmente no campo, na indústria, no

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mercado acompanhando tudo para poder ensinar este básico tão importante. Professores devem atuar na prática para passar conhecimento aplicado, empírico, atalhos, armadilhas, erros, trabalho em equipe, a vivência no campo, na indústria, o dia a dia do profissional, desde coisas básicas (como se fazer um currículo e se comportar numa entrevista) até detalhes da experiência em projetos, conhecimentos de vendas e marketing específicos para o engenheiro. “Engenharia não é ciência pura, é ciência aplicada! Se completa fazendo, executando, e a própria ação nos permite progredir no saber. O engenheiro não é pago pelo que sabe, mas pelo que faz!” Este novo bloco é o Bloco da Engenharia Civil e tem que abranger as especialidades: a própria civil (construção civil, estruturas e geotecnia, hidráulica, sanitária e transportes), ambiental, de agrimensura, cartográfica, agronomia, minas, florestal, petróleo e gás. Este novo engenheiro civil, logicamente bem mais generalizado, terá – como já mencionado – conceitos fortes de projeto, técnicas de modelagem, sistemas e controle de qualidade de produto final, mas ainda conhecerá bem todas as especializações e aplicações da engenharia civil para poder escolher bem qual área irá atuar. Noções básicas e técnicas para atuar em qualquer segmento (construção civil, hidráulica, sanitária, ambiental, topografia, cartografia, transportes, sistemas CAD, BIM e GIS, minas, petróleo, agronomia ou florestal). O outro bloco é o Bloco da Engenharia Industrial que deve abranger as especialidades: elétrica, mecânica, mecatrônica, produção, naval, aeronáutica, materiais, têxtil, química e metalúrgica. Este novo engenheiro industrial, também bem mais generalizado, terá também conceitos fortes de projeto, técnicas de modelagem, sistemas e controle de qualidade de produto final, mas ainda conhecerá bem todas as especializações e aplicações da engenharia industrial para poder escolher bem qual área irá atuar. Noções básicas e técnicas para atuar em qualquer especialidade. Mas como unir tantas especialidades e disciplinas em apenas dois blocos? O conteúdo programático da graduação deve ser reestruturado e dimensionado para formar um engenheiro mais generalizado – mas, ao mesmo tempo, com uma visão bem mais ampla da engenharia, suas especializações e também moderna frente aos desafios das cidades e da indústria, sem perder a essência do engenheiro descrita no parágrafo acima “isto é engenharia”. Sem dúvida seria um desafio para pedago-

gos e engenheiros, mas é algo factível sim. Depois da graduação o engenheiro poderá ou não escolher uma especialização. Poderá contar com cursos rápidos para se habilitar em algum software, tecnologia, equipamento; opções de cursos de extensão (mínimo de três meses) algo mais elaborado para capacitação, entender e aplicar métodos dentro de uma especialidade ou contar com uma pós-graduação (lato sensu) que lhe dará formalmente o título de especialista, algo de duração de um a dois anos. E por último, opções mais acadêmicas como mestrado e doutorado. Assim reforçamos a ideia da unidade, aumentando a sinergia, o que é engenharia, onde começa, onde termina, eliminando as redundâncias de atribuições e a competição autodestrutiva. Sim, lógico, uma ideia que pode ser lapidada, estruturada ou apenas discutida. * Pedro Guidara Júnior é engenheiro, coordenador da Divisão de Cadastro Territorial do Instituto de Engenharia e Diretor da Metalocation (www.metalocation.com.br) E-mail: pedro@metalocation.com.br WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com


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Paulo Ferreira

Secretário Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades Segundo o engenheiro Paulo Ferreira, secretário nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, a crise de escassez hídrica coloca novamente a discussão sobre os reservatórios de armazenamento de água. Ele acha que a situação atual do Brasil, caso não se observem as chuvas históricas esperadas, levará à necessidade de novos investimentos em obras de infraestrutura para o aumento das capacidades de reserva de água ou mesmo a busca por novos mananciais mais distantes dos centros de consumo. Em sua visão essa questão é polêmica por vários impactos, entre eles o ambiental. “Em decorrência da priorização do abastecimento humano é preciso que tal discussão seja mais objetiva”, diz, acrescentando que como consequência disso há a necessidade de conscientizar sempre a população sobre o uso racional da água, incentivando a redução do consumo e a não utilização da água potável para fins menos nobres, como lavar calçadas. Ele lembra que diversas atividades, notadamente nas regiões metropolitanas – áreas densamente povoadas –, contribuem para a poluição dos corpos hídricos. E lamenta que no Brasil ainda exista um déficit considerável na oferta dos serviços de saneamento, como a coleta e o tratamento de esgoto – além da coleta e o tratamento de resíduos sólidos urbanos –, mesmo com os investimentos federais dos últimos anos. Por outro lado, Ferreira destaca que os conhecimentos e as habilidades desenvolvidos pela engenharia – sendo esta a arte de planejar em médio e longo prazo as soluções visando melhoria da qualidade vida humana – são muito úteis na formulação e implementação das políticas públicas, notadamente na área de saneamento, que está partindo para uma fase de busca por inovações e uso de tecnologias cada vez mais apropriadas aos diversos ambientes urbanos.

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N

a visão do engenheiro civil Paulo Ferreira, secretário nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades desde janeiro passado –, a criatividade e a objetividade da engenharia podem contribuir bastante para que as políticas públicas sejam incorporadas na rotina das cidades. “Todos dizem que os engenheiros são bons administradores”, lembra, acrescentando que, neste sentido, a boa gestão dos recursos técnicos e financeiros também leva à maximização dos resultados de tais políticas. “Merece menção especial a atuação dos profissionais de engenharia na área de saneamento, o que ganhou força com a criação no governo federal das carreiras de especialista e de analista de Infraestrutura, e a contratação de pessoal especializado por empresas e governos em decorrência do aumento de volume das obras com o Programa de Aceleração do Crescimento [PAC]”, destaca. Doutor em engenharia hidráulica e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie há 44 anos – o secretário trabalhou em diversas áreas relacionadas ao saneamento ambiental. Durante 30 anos, ocupou os cargos de diretor, superintendente, coordenador de projetos e engenheiro de planejamento e controle da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Também atuou na diretoria da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e em órgãos de classe, como o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-SP) e o Instituto de Engenharia (IE). Ele foi o primeiro presidente da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), com o aval dos sócios fundadores presentes à Assembleia Geral de outubro de 1986, cujas medidas deram grande credibilidade à categoria. Paulo Ferreira costuma afirmar que a criação da AESabesp não foi uma iniciativa sua, mas de um grupo de engenheiros que enxergava  a competência técnica dos profissionais da Sabesp. Seus colegas, no entanto, afirmam que se não fosse a sua articulação e o seu dom da palavra em público (próprios do professor universitário que é), a fluência dos fatos que levaram a AESabesp ao patamar que hoje ocupa não seria a mesma. O secretário participou também de alguns projetos, entre eles o Alto Tietê e o Projeto Tietê, que envolvem tratamento de água e esgoto.

Nesta entrevista exclusiva à REVISTA ENGENHARIA, Paulo Ferreira fala sobre os principais desafios à frente da secretaria nacional da qual é titular, entre eles o enfrentamento da crise hídrica e a universalização do saneamento. Na verdade, ressalva o secretário, as questões relativas a recursos hídricos e mudanças climáticas não são da alçada direta do Ministério das Cidades, estando a cargo de outros mi­nistérios no âmbito federal. Entretanto, a título de contribuição para as discussões, a Secretaria Nacio­nal de Saneamento Ambiental entende que a questão hídrica, no que se refere ao abastecimento público de água para consumo humano, requer du­as abordagens. A primeira é na esfera da gestão de recursos hí­dricos, a qual envolve os problemas de escassez de água observados em algumas regiões do país, relacionados com o baixo índice de oferta hídrica. São os casos da região do semiárido brasileiro, ou de locais de grande concentração populacional e intensas atividades econômicas, como ocorre no Sudeste, por exem­plo. Neste caso, a responsabilidade pela mediação de conflitos de uso da água e de adoção de medidas para racionalizar o seu uso, ou ainda de conserva­ç ão da água, estão a cargo do Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos, que se iniciou, no Brasil, no formato atual, com a implantação da Lei nº 9.433/97. Portanto, os órgãos gestores de recursos, a exemplo da Agência Nacio­nal de Águas (ANA), dos Comitês de Bacias Hidrográficas, e órgãos estaduais congêneres, são os que dispõem de estudos, mapeamentos e recomendações relati­vas à oferta hídrica nos diversos pontos do território nacional. A segunda abordagem – específica do setor de saneamento – se refere à implantação e operação dos sistemas de produção e distribuição de água das cidades brasileiras. Quanto a este aspecto, o Minis­tério das Cidades tem apoiado estados e municípios, viabilizando recursos para implantação de gran­des obras, em especial nas regiões metropolitanas, algumas já devidamente concluídas e outras em an­damento. São obras que estão permitindo ampliar substancialmente a oferta do abastecimento para uso humano, eliminando em alguns casos, proces­sos recorrentes de intermitência no abastecimento. A seguir, a íntegra da entrevista.

Montagem com FOTOs de: Bruno Peres/Ministério das Cidades e André Siqueira

I ENGENHARIA

É preciso investir no planejamento de médio e longo prazos do setor hídrico

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FOTOs: Bruno Peres/Ministério das Cidades

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REVISTA ENGENHARIA – Numa crise hídrica, como a do Sudeste, que soluções podem ser tomadas em curto, médio e longo prazo? PAULO FERREIRA – O assunto da crise hídrica envolve diretamente os órgãos gestores do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. No entanto, há uma grande interface com o setor de saneamento, uma vez que a escassez hídrica pode impactar o abastecimento humano. O governo federal, sob a coordenação do Ministério das Cidades, com a participação de outros órgãos e ministérios fez um esforço nos últimos anos de apoiar os estados, municípios, Distrito Federal e prestadores de saneamento na implementação de obras e serviços que possam ampliar a produção de água para abastecimento, além de obras de tratamento de esgoto que visam melhorar a qualidade da água dos corpos hídricos, alguns com potencialidade para mananciais de abastecimento humano. Muitas das obras executadas estão minimizando os efeitos da crise hídrica e outras em execução terão importância estratégica no futuro, quando devidamente concluídas. A atual crise hídrica deve ser avaliada pelos diversos entes de governo e prestadores de serviços de saneamento, de modo a incorporar nos instrumentos de planejamento ações e iniciativas voltadas para ampliar a oferta hídrica, reforçando as estruturas físicas dos sistemas, além de outras medidas que tenham como foco o uso racional da água. Há uma necessidade cada vez maior de aprimoramento do planejamento de médio e longo prazo do setor, incorporando a possibilidade de eventos climáticos agudos, além de necessidade de integração maior, especialmente em nível local e regional das políticas públicas urbanas relativas a uso e ocupação do solo, habitação, meio ambiente, e seu respectivo planejamento. REVISTA ENGENHARIA – Que tipo de suporte o governo federal pode oferecer? PAULO FERREIRA – No conjunto de

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“A meta do medidas tomadas pelo propor ações a serem adotadas em parcerias com esgoverno federal em rePlansab é a de lação à ampliação da tados e municípios no senuniversalizar o tido de minimizar os efeitos oferta dos serviços de saneamento, implicando saneamento no país da escassez de água. em melhorias no abasaté 2033 e aplicar tecimento de água e na REVISTA ENGENHARIA qualidade dos corpos – A crise hídrica coloca 508,4 bilhões de hídricos há pelo menos novamente no foco da reais nisso” cinco pontos a destacar. discussão os reservatórios de armazenamento Um deles é a retomada de água. Quais os pontos mais imporde investimentos no setor de saneamento, tantes desse debate? com a disponibilização, nos oito últimos PAULO FERREIRA – Sim, a crise de esanos, período 2007-2014, de investimentos cassez de água coloca novamente o dede 88 bilhões de reais para o setor, média bate sobre os reservatórios. Notadamente de 11 bilhões reais por ano. Atualmente já observa-se que a situação atual do Brasil, foram selecionados empreendimentos estratégicos com foco em implantar obras caso não se observem as chuvas históricas para dar segurança hídrica para o abasteesperadas, levará à necessidade de novos cimento humano. Outro aspecto que meinvestimentos em obras de infraestrutura rece menção foi a aprovação, no final de para o aumento das capacidades de reservação ou mesmo a busca por novos ma2013, do Plano Nacional de Saneamento nanciais mais distantes dos centros de conBásico, o Plansab, com metas estratégicas de universalização dos serviços de sasumo. Essa questão provoca polêmicas por neamento no país para um período de 20 ter, dentre outros, impactos ambientais. anos – 2014-2033 – e previsão de invesEm decorrência da priorização do abastecitimentos de 508,4 bilhões de reais. Além mento humano é preciso que tal discussão dos investimentos o Plansab estabelece seja mais objetiva. Também como consequência há a necessidade de conscientização uma série de medidas institucionais para do usuário para o uso racional da água, o fortalecimento do setor de saneamento, incentivando a população a reduzir seus como, por exemplo, o reforço à regulação consumos, não utilizar água potável para da prestação dos serviços, o incentivo à fins menos nobres como lavar carros e calgestão associada e o reforço aos instrumentos de planos. Também vale lembrar çadas, por exemplo. A redução da disponibilidade hídrica pode em algumas situações a implementação do Programa de Desenvolvimento do Setor Água – Interáguas –, ter um impacto em termos de quantidade parceria do governo federal com o Banco de água disponível para o abastecimento Mundial, na qual, dentro do componente humano, como pode impactar na qualidade de saneamento, serão priorizadas ações da mesma, permitindo em alguns casos o como apoio à regulação e ao planejamento aumento da concentração da carga poluidora, a qual gera uma série de adversidades do setor, estruturação do Sistema Nacional para o tratamento para consumo humano. de Informações em Saneamento [Sinisa] e Portanto, a redução do nível dos reservatóapoio à redução e ao controle de perdas rios pode, em algumas situações, se tornar em abastecimento de água. Além disso, o um grande problema para o abastecimengoverno federal tem feito, por intermédio to, em termos de quantidade e qualidade. da Casa Civil da Presidência da República, Vale lembrar que diversas atividades, em uma articulação com todos os ministérios, especial em áreas densamente povoadas, no sentido de monitorar a crise hídrica e www.brasilengenharia.com


I ENGENHARIA como as regiões metropolitanas, contribuem para a poluição dos corpos hídricos e infelizmente no Brasil há ainda um déficit considerável na oferta dos serviços de saneamento como a coleta e o tratamento de esgoto, e a coleta e tratamento de resíduos sólidos urbanos, mesmo com os grandes investimentos federais dos últimos anos. REVISTA ENGENHARIA – Qual a importância da engenharia na formulação de políticas públicas voltadas para a questão hídrica? PAULO FERREIRA – Sendo a arte de criar soluções para os problemas humanos e de construir a qualidade de vida, os conhecimentos e habilidades desenvolvidas pela engenharia são muito úteis na formulação e implementação das políticas públicas, notadamente na área de saneamento, que está partindo para uma fase de busca por inovações e uso de tecnologias cada vez mais apropriadas aos diversos ambientes urbanos. A criatividade e a objetividade da engenharia podem contribuir bastante para que as políticas públicas sejam incorporadas na rotina das cidades. Todos dizem também que os engenheiros são bons administradores. Neste sentido, a boa gestão dos recursos técnicos e financeiros também leva à maximização dos resultados de tais políticas. Deve-se ainda destacar a atuação dos profissionais de engenharia na área de saneamento, o que ganhou força com a criação no governo federal das carreiras de especialista e de analista de Infraestrutura, e a contratação de pessoal especializado por empresas e governos em decorrência do aumento de volume das obras com o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.   REVISTA ENGENHARIA – Através do Plansab o governo propugna que dentro de duas décadas o Brasil possa alcançar a universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgoto e abastecimento de água. Que políticas serão necessárias para cumprir essa meta? PAULO FERREIRA – O Ministério das Cidades trabalha rumo à universalização do abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, gestão de resíduos sólidos urbanos, além do adequado manejo de águas pluviais urbanas, com o consequente controle de enchentes, valorizando pilares essenciais como eficiência, eficácia e efetividade da gestão, planejamento, regulação e fiscalização, e participação e controle social. O saneamento básico é www.brasilengenharia.com

uma área que ainda tem grandes desafios muitos desafios para universalizar o saneamento básico no país, e o governo federal a vencer, mas nos últimos anos tem recebido uma grande priorização por parte do tem atuado fortemente no sentido de colaborar com os demais entes federados no governo federal, especialmente a partir da enfrentamento destes desafios. Para isso, o destinação de recursos do PAC, que equacionou o principal gargalo do setor, que governo federal, dentro de seus programas era a falta de investimentos. A política de de investimentos, tem o saneamento básico saneamento, como qualquer outra, para como uma de suas prioridades, e disponibiliza recursos significativos para apoiar os ter resultados efetivos depende, especialmente, de recursos e da continuidade desgovernos estaduais, municipais, e prestadoses investimentos. O goverres de serviços de saneno federal tem conseguido, amento, na execução de “A redução do nível obras, estudos, projetos, nos últimos anos, aumentar consideravelmente os ine ainda na elaboração dos reservatórios vestimentos em saneamende planos municipais de pode se tornar um to e há a consciência da saneamento. Em especial, visando a evolução importância da manutengrande problema, ção destes investimentos dos serviços prestados, em termos para que as metas previstas o governo federal concluiu o planejamento sejam alcançadas. Assim, a também da nacional de longo prazo principal razão da existênqualidade da água” para o setor, de forma cia do Plansab foi identificar as carências e fazer uma amplamente participativa, tanto que foi aprovado o já referido estimativa dos recursos necessários para Plansab com propostas de diretrizes, estraatender aos patamares de cobertura de saneamento que o Brasil precisa, e seguir em tégias, metas e programas de investimento busca da universalização. A continuidade para o país. Com a elaboração do Plano foi do que vem sendo feito certamente nos leidentificado o déficit do setor para os quavará a atingir as metas previstas no Plantro componentes do saneamento básico: sab. Dentro dessa linha, será dedicado um abastecimento de água, esgotamento sanitário, resíduos e drenagem. O atendimento empenho especial no sentido de aprimorar adequado a estes componentes é um dos o que se fizer necessário. As ações e o volume de investimentos são expressivos e fatores que podem contribuir para a melhoria dos indicadores sociais e de saúde da permitem projetar uma evolução adequada, na medida em que muitos obstáculos população brasileira e, consequentemente, inerentes a empreendimentos de grande para a superação dos desafios de melhorar porte, como os de saneamento, vão sendo a distribuição de renda e o acesso a outros serviços públicos. Cabe enfatizar que gradativamente superados. o acesso ao saneamento básico pode resul tar em impactos diretos na melhoraria do REVISTA ENGENHARIA – Qual é o cenário do saneamento nacional hoje? Como rendimento escolar, assim como minimizar fazer com que saneamento e água potáa demanda por atendimento no sistema de vel cheguem aos rincões mais pobres e saúde. Vencer tais desafios envolve o esforço conjunto dos governos federal, estaduperiféricos? ais e municipais. PAULO FERREIRA – O saneamento evoluiu muito, mas ainda há muito por fazer   e a prioridade do Ministério das Cidades REVISTA ENGENHARIA – Tem ficado é atender exatamente a essas áreas mais patente a difi­culdade na elaboração dos frágeis, como os bolsões mais pobres e planos de saneamento por parte dos municípios, apesar de constituir-se em obriperiféricos dos grandes centros. É conhecido de todos que quanto mais crescem gação legal deles. Como o senhor avalia os índices de cobertura, mais difícil vai este panorama? Em sua opinião a meta ficando aumentá-los. Por exemplo, elevar colocada foi realista? a cobertura de abastecimento de água em PAULO FERREIRA – Os Planos Municipais de Saneamento são instrumentos certas capitais de 70% para 90% é mais previstos na Lei 11.445/07, cuja elaboração fácil do que sair dos 90% para 100% de deve ser feita pelo titular dos serviços. Eles acesso. Isso porque as áreas não atendidas, são importantes porque constituem instrude forma geral, são aquelas de mais difícil mentos que visam diagnosticar a situação acesso, ou de assentamentos precários, ou local existente e estabelecer prioridades áreas densamente povoadas. Existem ainda engenharia 625 / 2015

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FOTOs: Bruno Peres/Ministério das Cidades

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para investimentos e ações no curto, médio e longo prazo. Trata-se de uma relevante ferramenta de gestão para a boa aplicação de recursos e para o controle social, o que beneficia diretamente a população local. Ter o Plano será condição para o acesso a recursos federais na área de saneamento a partir de 2016. A Lei 11.445/07, e os decretos 7.217/2010 e 8.211/2014 não fixaram propriamente uma data para a elaboração e/ou apresentação dos Planos Municipais de Saneamento Básico. Os referidos decretos definiram a existência dos planos como uma das condições para acesso a recursos federais. O Ministério das Cidades vem apoiando os municípios no processo de elaboração de seus Planos Municipais por meio de disponibilização de materiais técnicos de apoio e de diversos eventos de capacitação, bem como apoia diretamente diversos municípios e consórcios na elaboração de planos de saneamento básico, via seleção pública do PAC.   REVISTA ENGENHARIA – Os problemas de grande parte dos municípios bra­sileiros e mesmo das companhias estaduais dificulta ou impossibilita a boa prestação de serviços de saneamento? O que o senhor pretende fazer para melhorar técnica e gerencialmente estes operado­res? PAULO FERREIRA – É importante comentar a importância de ações estruturantes, previstas no Plansab, que consistem em investimentos nas ações de gestão para a promoção da sustentabilidade na prestação de serviços, modernização, adaptação e/ou reorganização de sistemas e apoio ao suporte político que resulte num aperfeiçoamento da gestão, concomitantemente com a melhoria da infraestrutura física, como ampliação e manutenção dos sistemas. O avanço esperado exige dos prestadores de serviços de saneamento, e dos demais atores do setor, esforços específicos para o enfrentamento do problema. Além disso, o Ministério das Cidades mantém o

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“Elevar a cobertura

Programa Nacional de que envolvam organização Capacitação das Cidade atividades. No caso do de água em certas des – o Portal Capacisetor público, elas precisam capitais de 70% dades –, que oferece estar em sintonia com a legislação vigente, especialdiversos cursos online, para 90% é mais mente as leis, os decretos, bem como a ReCESA, fácil do que sair os acórdãos e instruções que é a Rede Nacional de Capacitação e Exdos 90% para 100% dos órgãos de controle, e tensão Tecnológica em as normas das entidades de acesso” Saneamento Ambiental, financeiras. Nos últimos a qual visa promover anos, o governo federal, o desenvolvimento institucional do setor obedecidos estes parâmetros, simplificou saneamento, mediante soluções de capacimuitos dispositivos, atendendo inclusive tação, intercâmbio técnico e extensão teca sugestões de entidades representativas. nológica, por intermédio de um processo continuado de formação de capacidades. REVISTA ENGENHARIA – Pode dar detalhes sobre o PAC nesse quadro? Existem ainda outras atividades de capacitação com os entes federados visando a PAULO FERREIRA – Neste panorama qualificação institucional, a exemplo de merece destaque especial a inclusão das seminários, oficinas e palestras. obras do PAC no Regime Diferenciado de   Contratações, o RDC, mas podemos relacionar diversas outras medidas adotadas REVISTA ENGENHARIA – Um dos grandes problemas do setor de saneamento para os empreendimentos do PAC, como é o longo período decorrido desde a mapor exemplo: dispensa do CAUC [inadimturação de um empreendimento até sua plência com a União] para acesso a recursos do PAC que estão no Orçamento concretização. O senhor vê possibilidades de encurtar estes prazos? Geral da União [OGU]; inversão das fases PAULO FERREIRA – Inicialmente, vale de pagamento e aferição; uniformização ressaltar que as intervenções de saneade procedimentos técnicos entre OGU e mento, destacadamente de esgotamento financiamento; ampliação dos prazos para sanitário, em geral compreendem obras prestação de contas parciais, carência de complexas e/ou de grande porte, que duas prestações de contas antes de bloquear desembolsos; utilização de recursos demandam uma fase de planejamento federais para elaboração de estudos de detalhado, equacionamento e aquisição concepção, projetos básicos e executivos das áreas onde serão edificadas as obras de engenharia e Planos Municipais e Ree todo o procedimento de licenciamento gionais de Saneamento Básico, gerenciaambiental, sem contar o tempo necessário mento das obras, aquisição de terrenos e para a licitação. Além disso, em vista do admissão de pagamento de materiais em porte e da complexidade das obras, o tempo médio de execução é elevado e situacanteiro; titularidade, ou seja, aceitação -se na faixa de 36 meses. O saneamento de declaração formal de autoridade para básico é uma área que ainda tem grandes área pública; admissão de pagamento desafios a vencer, mas nos últimos anos antecipado de equipamentos especiais; tem recebido uma grande priorização por simplificação do licenciamento ambiental parte do governo federal, especialmende obras de esgotamento sanitário; redute a partir da destinação de recursos do ção de 40% na contrapartida do PAC 1 e PAC. As simplificações de procedimentos contrapartida zero no PAC 2; alteração da são sempre desejáveis em quaisquer ramos Lei das PPPs; melhoria da qualidade das www.brasilengenharia.com


I ENGENHARIA cartas-consulta apresentadas nos processos seletivos do PAC. Além dos empreendimentos do PAC, foram adotadas outras providências para melhoria ou simplificação dos empreendimentos não incluídos no programa, como por exemplo, uma portaria para regulamentar os requisitos para debêntures em saneamento básico e uma portaria – a 507/2011 –, além da simplificação para convênios e contratos de repasse. REVISTA ENGENHARIA – O Plansab pre­ vê grande avanço no atendimento dos serviços de água, esgoto, resíduos sólidos e drenagem num prazo de 20 anos. Como avalia o andamento do plano e os principais obstá­ culos encontrados? O que pretende fazer para acelerar o andamento do pla­no? PAULO FERREIRA – Como já dito, o Plansab é um importante instrumento de planejamento para o país, que permite uma melhor compreensão da realidade do saneamento básico no Brasil, contemplando o abastecimento de água, o esgotamento sanitário, a limpeza urbana e o manejo dos resíduos sólidos, a drenagem e o manejo das águas pluviais urbanas. O plano, uma vez implementado, mudará a situação do saneamento básico no Brasil nos próximos 20 anos, com consequências positivas para as condições de salubridade, de saúde e de qualidade de vida da população. O objetivo do Plansab é avançar rumo à universalização da prestação dos serviços de saneamento básico, com previsão de investimentos de 508,4 milhões de reais até 2033, para todas as modalidades do saneamento, a serem investidos pelos governos federal, estaduais e municipais, bem como por outros agentes do setor. Destaca-se que o plano apresenta diretrizes e metas globais e que os municípios devem ter também seus planos municipais de saneamento para nortear o detalhamento da aplicação dos recursos necessários. A avaliação do andamento do Plansab é que sua evolução está adequada, na medida em que muitos obstáculos inerentes a empreendimentos vão sendo superados. Os números atuais e a previsão dos futuros são expressivos, especialmente quando se leva em conta os anos anteriores ao PAC, em que não ocorreram investimentos significativos do governo federal em saneamento.    REVISTA ENGENHARIA – As enchentes asso­lam as grandes metrópoles e a percepção da sociedade é de que pouco www.brasilengenharia.com

é feito. O senhor acha que a drenagem – projetos e obras –, relativos à gestão de urbana está recebendo a devida atenção risco, com investimentos da ordem de 14 de nossos administradores? Como a Sebilhões de reais. Estes consistem em obras cretaria pretende atuar neste segmento? que devem privilegiar a redução, o retarPAULO FERREIRA – As enchentes são damento e o amortecimento do escoasintomas típicos de expansões urbanas e mento das águas pluviais e incluem: reocupações territoriais inadequadas, que, servatórios de amortecimento de cheias, no âmbito local e regional, demandam adequação de canais para a redução da ações de planejamento dos respectivos velocidade de escoamento, sistemas de entes federativos, para conter seu agradrenagem por infiltração, implantação vamento e equacionar sode parques lineares, luções. Daí a importância recuperação de várze“No Ministério dos Planos Municiais de as e a renaturalização Saneamento Básico, que de cursos de água. E das Cidades, os devem estar coerentes com contribuem significainvestimentos na os Planos Diretores Munitivamente para evitar cipais. No Ministério das desastres naturais e área de prevenção Cidades, os investimentos melhorar a qualidade de desastres naturais de vida das populações na área de prevenção de desastres naturais são de envolvem obras para beneficiadas. responsabilidade da Secre  evitar deslizamentos REVISTA ENGENHAtaria Nacional de Acessibilidade e Programas UrRIA – Como entida­des em encostas” banos, responsável pelas técnico-profissionais obras de contenção de ene outras organizações costas para prevenção de deslizamentos, do Terceiro Setor podem contribuir no e também de nossa Secretaria Nacional en­frentamento da crise hídrica? de Saneamento Ambiental, que cuida das PAULO FERREIRA – A participação das obras de prevenção de inundações e de entidades técnico-profissionais e do Teraumento da oferta de água no semiárido. ceiro Setor tem sido fundamental para o O Programa Temático de Gestão de Riscos saneamento, especialmente no que se ree Resposta a Desastres possui vinculado à fere ao controle social, definido na Lei de nossa Secretaria um dos seus cinco objeSaneamento de 2007 como o conjunto tivos. Dentro do referido objetivo enconde mecanismos e procedimentos que gatra-se a ação de Apoio a Sistemas de Drerantem à sociedade informações, reprenagem Urbana Sustentável e de Manejo sentações técnicas e participações nos de Águas Pluviais em municípios com processos de formulação de políticas, de população superior a 50 000 habitantes planejamento e de avaliação relacionaou integrantes de regiões metropolitanas dos aos serviços públicos de saneamenou de Regiões Integradas de Desenvolto básico. A referida legislação também vimento Econômico, que contempla indestaca que as funções e competências tervenções estruturais e não estruturais atinentes ao controle social dos serviços voltadas a apoiar estados e municípios públicos de saneamento básico poderão na redução das enchentes e inundações, ser exercidas por órgãos colegiados. A bem como à melhoria das condições de origem plural desses órgãos e entidasegurança sanitária, patrimonial e amdes, bem como sua tradição de atuação biental dos municípios, privilegiando as diante da temática de desenvolvimento ações àqueles municípios mais suscetíveis urbano, possibilita aos segmentos uma a desastres. A nossa Secretaria Nacional atuação caracterizada pela articulação e de Saneamento Ambiental apoia então as negociação política, ação propositiva e ações preventivas de drenagem urbana, qualidade técnica nos debates, possibilimanejo de águas pluviais, com recursos tando, entre outras coisas, a construção do Orçamento Geral da União e de fide políticas públicas que favoreçam o nanciamento. O objetivo é a redução das acesso a todos os cidadãos. A participainundações e melhoria das condições de ção destas entidades foi relevante para a segurança sanitária, patrimonial e amboa elaboração do Plansab. Em especial, biental dos municípios. Apenas no âma participação social é uma preocupação bito do PAC, no Ministério das Cidades prioritária da presidenta Dilma Rousseff existem 410 empreendimentos de drenae diretriz governamental que envolve togem urbana e manejo de águas pluviais dos os Ministérios. engenharia 625 / 2015

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“Interlocução adequada com a ANA e com os usuários de água para vencer desafios” não recuperação do armazenamento dos lençóis freáticos, que contribuem com a alimentação dos cursos d’água, o que levou às baixíssimas vazões registradas até janeiro de 2015”, diz Borsari – que é engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP, mestre em Hidráulica e funcionário do DAEE desde 1978 – lembra que algumas das ações propostas para prevenir déficits hídricos no curto prazo já estão em andamento pelo governo estadual, como é o caso da reversão das águas da bacia do Rio Juquiá para a Região Metropolitana de São Paulo (PPP São Lourenço), pela Sabesp. E enfatiza que o DAEE está trabalhando nos projetos executivos para construção das barragens Duas Pontes (no Rio Camanducaia, em Amparo) e Pedreira (no Rio Jaguari, em Pedreira e Campinas), ambas na bacia dos rios Piracicaba, Jundiaí e Capivari (Bacia do PCJ). “Os projetos deverão estar concluídos até o final de agosto e já está decidido que as obras serão realizadas pelo DAEE”, antecipa.

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Na visão do engenheiro Ricardo Daruiz Borsari, superintendente do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) pela segunda vez – a primeira foi de setembro de 2001 a fevereiro de 2007 –, a situação dos recursos hídricos no Estado de São Paulo e, em particular, nas regiões metropolitanas, exige ações firmes, transparentes, com interlocução adequada, frequente e objetiva com os usuários, a Agência Nacional de Águas (ANA) e outras esferas de governo. “É o que estamos procurando implementar, uma vez que os desafios que estamos enfrentando, e vencendo, não são pequenos”, destaca Borsari. Segundo ele, do ponto de vista hidrometeorológico as pouquíssimas precipitações da estação chuvosa 2013-2014, com ênfase na Região Sudeste – e particularmente na área de abrangência do Sistema Cantareira –, constituíram um duro golpe para o sistema de abastecimento de água às populações. “A consequência dessas ocorrências climáticas foi a

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FOTOS: DIVULGAçÃO DAEE

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Ricardo Daruiz Borsari Superintendente do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE)

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scolhido como personagem para esta edição da série “Linha de Frente” – que a REVISTA ENGENHARIA publica há muitos anos –, Ricardo Daruiz Borsari tem larga experiência em gestão dos recursos hídricos. Ele é mestre em Engenharia Hidráulica e Sanitária pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e foi professor da Escola de Engenharia Mackenzie, da Faculdade de Engenharia da Fundação Armando Álvares Penteado, Faculdade de Engenharia Elétrica da PUC São Paulo e da própria Politécnica da USP. Desde janeiro deste ano, Borsari ocupa o cargo de Superintendente do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). Um desafio e tanto, uma vez que o Estado de São Paulo está vivendo a mais séria crise hídrica desde que se têm registros confiáveis dos volumes de chuvas que caíram na Região Sudeste. Esta é a segunda vez que Borsari assume o mais alto escalão do DAEE, órgão com que tem ligação profissional desde 1978, ocupando vários cargos no Centro Tecnológico de Hidráulica (CTH), inclusive a presidência da Fundação CTH no período agosto/1994 a agosto/1995 e agosto/1998 a agosto/2000. A primeira gestão como superintendente do DAEE foi de setembro de 2001 a fevereiro de 2007. Nos últimos quatro anos, Borsari exerceu a presidência da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE) e ocupou também a presidência da Pirapora Energia em 2014. — Como vê a atual crise hídrica? — perguntamos a Borsari. “O Sistema Cantareira, principal manancial da Região Metropolitana de São Paulo [RMSP], com capacidade de tratar 33 m³/s para o abastecimento de cerca de 9 milhões de habitantes, tem uma série histórica de vazões afluentes a seus reservatórios com dados desde janeiro de 1930. Em 2013, portanto, contávamos com 84 anos de registros dessas vazões, o que é raro em nosso país. O pior ano dessa série foi o de 1953, com a menor vazão média anual, de 21,8 m³/s. A menor magnitude de vazão média mensal, até então registrada, era 9,6 m³/s, em setembro de 2003. Em 2014, tivemos uma média anual de 8,7 m³/s. Em outubro do ano passado, chegamos a registrar apenas 4 m³/s. Os dados se referem à somatória das afluências aos aproveitamentos dos rios Jaguari/Jacareí, Cachoeira e Atibainha, que, juntos, formam um volume útil de 974 milhões de metros cúbicos no Sistema Cantareira. Os resultados de vazões afluentes mostram a raridade e a intensidade do fenômeno climático ocorrido. A consequência dessas ocorrências climáticas, com pouquíssimas chuvas durante o verão 2013-2014, foi a não recuperação do armazenamento dos lençóis freáticos, que contribuem com a alimentação dos cursos d’água, o que levou às baixíssimas vazões registradas até janeiro de 2015.” — Como garantir o suprimento hídrico da Macrometrópole? — indagamos.

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“O Plano Diretor de Aproveitamento de Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista [PDMM], desenvolvido pelas secretarias estaduais de Saneamento e Recursos Hídricos, de Meio Ambiente, de Planejamento e Desenvolvimento Regional, e pelo DAEE – e concluído em outubro de 2013 –, recomendou um conjunto de medidas e intervenções com objetivo de garantia do suprimento hídrico de uma grande parcela do território paulista, que inclui as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Baixada Santista, Sorocaba, e Vale do Paraíba e Litoral Norte. É importante destacar que essa vasta área inclui a capital, 180 municípios, mais de 30 milhões de habitantes – o que corresponde a 75% da população paulista e 16% da população do país – e é responsável pela geração de 83% do PIB paulista e 28% do PIB nacional. As ações propostas foram escalonadas em três etapas a serem implementadas, respectivamente, até 2018, 2025 e 2030. Entre elas se destacam a vertente marítima/Serra do Mar – Itatinga, Itapanhaú, Braço do Rio Pequeno/ Billings; a bacia do Rio Paraíba do Sul – Hidrelétrica Jaguari-Atibainha, do Sistema Cantareira; Guararema-Biritiba; Bacia do Rio Ribeira de Iguape – Alto Juquiá; São Lourenço e São Lourencinho; bacias hidrográficas do Médio Tietê e do Alto Paranapanema – Jurumirim, Reservatório Cabreúva, Sarapuí-Sorocaba-Salto; bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí – Barragem Piraí, Barragem Campo Limpo, Barragem Pedreira e Barragem Duas Pontes. É preciso citar, também, várias ações de captações de água bruta para reforço dos sistemas produtores da RMSP que a Sabesp vem implementando.” — O DAEE está trabalhando em quais destas ações? — pedimos. “Algumas das ações propostas para prevenir déficits hídricos no curto prazo, até 2018, já estão em andamento pelo governo estadual, como é o caso da reversão das águas da bacia do Rio Juquiá para a RMSP, a PPP São Lourenço, que está a cargo da Sabesp. O DAEE está trabalhando nos projetos executivos para construção das barragens Duas Pontes, no Rio Camanducaia, em Amparo; e Pedreira, no Rio Jaguari, em Pedreira e Campinas. Ambos os reservatórios estão na bacia dos rios Piracicaba, Jundiaí e Capivari, mais conhecida como Bacia do PCJ. O governo estadual está investindo, através do DAEE, 14,8 milhões de reais no desenvolvimento dos projetos executivos e EIA-RIMA dos reservatórios. Inclusive, o DAEE apresentou no dia 3 de junho passado o EIA-RIMA para os novos reservatórios à Cetesb. Os projetos executivos deverão estar concluídos até o final de agosto. E já está decidido que as obras serão realizadas pelo DAEE.” — Como serão os projetos dessas barragens? — inquirimos. “Os novos reservatórios serão construídos abaixo do complexo Cantareira e têm por objetivo criar uma reserva hídrica estratégica na

bacia do Piracicaba, Capivari e Jundiaí que vai permitir flexibilizar a operação do Cantareira, especialmente nas épocas de estiagem. O complexo vai permitir aumentar a oferta hídrica em cerca de 9 m3/s, com 98% de garantia para a Bacia do PCJ e beneficiar também a RMSP, na medida em que se pode desafogar o Sistema Cantareira, cujas águas são compartilhadas pela Grande São Paulo e bacias do PCJ. O reservatório de Pedreira ocupará uma área de 2,1 quilômetros quadrados, terá capacidade para acumular um total de 31,9 milhões de metros cúbicos de água e vai permitir uma vazão regularizada de 8,5 m³/s. O reservatório Duas Pontes deverá ocupar uma área de 4,9 quilômetros quadrados, terá capacidade para 53,4 milhões de metros cúbicos e vai permitir uma vazão regularizada de 8,7 m³/s.” — Já estão definidas as áreas a serem desapropriadas? — emendamos. “O DAEE está investindo também 820 000 reais no cadastramento e avaliação imobiliária das propriedades que serão desapropriadas para a implantação dos reservatórios de Pedreira e Duas Pontes. O trabalho está sendo realizado pela Companhia Paulista de Obras e Serviços, a CPOS, e deverá estar concluído até o final de agosto. A desapropriação deverá ocorrer em duas etapas. A primeira é da área necessária para a construção das estruturas das barragens. A segunda, da área dos lagos, quando as obras civis estiverem bem adiantadas. O DAEE já tem um levantamento prévio dos imóveis que deverão ser desapropriados para a construção dos reservatórios. A definição da área é projetada através da linha d’água do nível máximo mais 100 metros de afastamento da linha d’água para implantação de APP [área de preservação permanente].” — Como será a distribuição da água desses novos reservatórios? — indagamos. “O DAEE está iniciando os estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental para construção do Sistema Adutor Regional da Bacia do PCJ. Este sistema complementará o conjunto dos novos reservatórios de Pedreira, no Rio Jaguari, nos municípios de Pedreira e Campinas, e Duas Pontes, no Rio Camanducaia, em Amparo. O estudo vai caracterizar os municípios na área de influência dos reservatórios e definir a melhor alternativa, sob os aspectos técnico, econômico e ambiental, de traçado do sistema adutor, com objetivo de melhor atendê-los com a vazão regularizada proporcionada pela barragem de Pedreira. O trabalho deverá estar concluído em dez meses e representa um investimento de 2,7 milhões de reais.” — Quanto será investido para a construção desse complexo? — prosseguimos. “As previsões iniciais indicam a necessidade de investimento de 1,2 bilhão de reais. A construção das barragens e implantação dos reservatórios está incluída no PAC da Crise Hídrica. O governo paulista aguarda a liberação

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I ENGENHARIA dos recursos pelo governo federal para iniciar o processo de licitação para as obras.” — Mais alguma ação neste segmento? — perguntamos. “Estamos realizando a licitação para limpeza de dois quilômetros do Ribeirão Taiaçupeba Mirim, no trecho compreendido entre a Estrada do Pouso Alegre na Vila Lusitânia e a travessia da Rodovia Índio Tibiriçá, no município de Ribeirão Pires. O Ribeirão Taiaçupeba Mirim é um dos formadores do reservatório do Taiaçupeba, localizado em Suzano. O trabalho é fundamental para viabilizar a interligação dos sistemas Rio Grande e Alto Tietê, que vai permitir a transferência de 4 m³/s de água por segundo para o reservatório, que integra o Sistema Alto Tietê.” — Como será o sistema de emissão de outorgas eletrônicas para uso da água? — pedimos. “O sistema de emissão de outorgas eletrônicas é baseado na plataforma web, em que o usuário poderá requerer e acompanhar o andamento do processo de outorga e cadastro de recursos hídricos no Estado de São Paulo pela internet. Isso trará inúmeros benefícios para o requerente, como a diminuição do tempo de tramitação dos processos de solicitação de outorgas, maior agilidade na análise dos pedidos por parte do corpo técnico do DAEE, devido à menor quantidade de documentos em trânsito. Além disso, facilitará a troca de informações entre diversos órgãos governamentais, como ANA, DNPM, CPRN, Cetesb, CVS e prefeituras.” — Como vai a fiscalização de captação de água no PCJ e Alto Tietê? — indagamos. “Estamos aprimorando o mapeamento dessas áreas. Foram realizadas campanhas com sobrevoos e fiscalização mais intensas nas regiões das bacias do PCJ e do Alto Tietê devido à estiagem atípica, com destaque para a abordagem dos usuários irregulares nas áreas de influência dos reservatórios. Foram encontrados mais de 1 000 usos irregulares, em sua maioria, captações superficiais. Vale lembrar que o DAEE realiza a fiscalização desde 1992, em todo Estado, quando foi aprovada a Lei 7.663, que regulariza a emissão de outorgas.” — Os chamados atos convocatórios e declaratórios ajudam no mapeamento? — quisemos saber. “O Ato Declaratório é uma grande ferramenta para esse mapeamento. Ele é um instrumento legal para cadastramento dos usos de recursos hídricos existentes nos empreendimentos em áreas rurais como fazendas, sítios e similares para fins de irrigação de culturas agrícolas, aquicultura, dessedentação de animais, usos sanitários, recreação ou paisagismo nas várias bacias hidrográficas do Estado. O cadastramento permite ao DAEE conhecer e gerenciar a demanda de usos de água de usuários rurais no Estado de São Paulo; avaliar de forma integrada o contexto de demanda e disponibi-

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lidades dos recursos hídricos para os diversos adequando seus projetos de irrigação. Foi nesse sentido que o DAEE desenvolveu 62 projeusos, assegurando o controle quantitativo e tos para perfuração de poços em propriedades qualitativo da água e o efetivo exercício do direito do acesso à água. Além disso, atende à rurais localizadas nos municípios de Mogi das necessidade de compatibilizar procedimentos Cruzes, Biritiba Mirim e Salesópolis. Os projetos técnicos e administrativos para controle dos foram desenvolvidos por técnicos do Centro de usos dos recursos hídricos superficiais e subterEstudos de Águas Subterrâneas, localizado em râneos, de forma a garantir o Araraquara. Os poços têm princípio do uso múltiplo da profundidade de 200 a 250 “O DAEE está água. Os usuários têm commetros e vazão de 4 000 a trabalhando nos preendido sua importância e 6 000 litros de água por vêm respondendo positivahora.” projetos executivos mente. Nós recebemos mais — Como está a situadas importantes ção das indústrias do PCJ de 4 900 registros nas bacias que fazem captação sem do Piracicaba e Alto Tietê. Já barragens de Duas outorga? — inquirimos. o Ato Convocatório tem outro objetivo: a cobrança pelo “Todo usuário de recurPontes e de Pedreira” so hídrico só pode fazer uso uso da água, para um perfil de água com outorga. Quando autuado, por específico de usuários, que são as indústrias, meio de fiscalização, ele deve providenciar a os sistemas de abastecimento público e os sistemas de abastecimento privados urbanos, suregularização dos usos, sendo concedido prajeitos a outorga e cobrança. Sua abrangência é zo para isto, conforme estabelece a legislação menor. Porém, traz como benefício a atualizae normas complementares, em especial a Porção de dados de usuários já outorgados ou em taria DAEE 01/98. O DAEE possui uma rotina busca de regularização.” de fiscalizações que envolve o atendimento de — Haverá novas outorgas de águas sudenúncias, atendimento ao Ministério Público perficiais? — solicitamos. e a verificação de cadastros existentes no órgão. São fiscalizados usuários de águas super“A suspensão na concessão de outorgas ficiais e subterrâneas, para todas as finalidades: nas bacias do Alto Tietê, Piracicaba, Capivari e indústria, abastecimento humano, irrigação, Jundiaí, Turvo Grande e São José dos Dourados e no município de Itu durante este período entre outros. Se não são cumpridos os prazos de crise hídrica foi estabelecida pela Portaria estabelecidos nas autuações iniciais, podem ser DAEE 1.029, de 21 de maio de 2014, que disaplicadas multas que variam de 200 a 1 000 ciplina as outorgas nessas regiões. A portaria UFESPs [4 000 a 20 000 reais], conforme a infração. Reitero que qualquer usuário pode facontinua em vigor e a medida só será revogada ao final da presente crise hídrica.” zer uso da água, desde que possua a outorga — Estão sendo feitas autuações nas ine cumpra os seus termos: finalidade, volume dústrias que captam de forma irregular? — captado, localização da captação, entre outros. perguntamos. As condições e os documentos necessários para “A fiscalização de uso de recursos hídricos obtenção e renovação estão na Portaria DAEE está sendo efetuada rotineiramente para todos nº 717/96. No caso das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, devido aos efeitos da esos usuários. O foco das fiscalizações não está na tiagem, estão valendo regras extras de restrição finalidade de uso, mas sim, se o usuário possui como a Portaria DAEE nº 1.029, que suspende a ou não outorga. Para quem estiver irregular serão aplicados os dispositivos da Portaria DAEE emissão de novas outorgas superficiais, Resolução Conjunta ANA/DAEE nº 50/2015 e a Portanº 01/98. Os usuários que possuem Outorga de ria DAEE nº 761/2015, que estabelecem condiDireito de Uso podem utilizar os recursos hídricos. O cálculo de uma possível restrição do valor ções de restrição de uso de águas por diversos da vazão dependerá da situação da evolução da tipos de usuários, conforme as condições de estiagem na Bacia do Alto Tietê. Os agricultores disponibilidade de recursos hídricos nos rios da serão tratados da mesma forma que os outros região. Essas vazões são continuamente monitoradas e divulgadas na internet. Os usuários usuários de água. Nós fizemos uma série de com captações acima de 10 litros por segundo reuniões com agricultores da região, alertando para o risco de sermos obrigados a lacrar as estão obrigados a instalar um hidrômetro e a bombas de captação de água caso a crise hídrica informar diariamente as vazões captadas.” se aprofunde. Existe inclusive um decreto es— Mudando o foco, como está a polítadual neste sentido e que prevê a atuação da tica de combate a possíveis enchentes? — Polícia Ambiental em apoio às equipes de fiscapropusemos. lização do DAEE. O DAEE instalou um escritó“Como representante do poder público esrio, em Mogi das Cruzes, exclusivamente para tadual e considerando a necessidade do tratamento integrado da macrodrenagem na Bacia atendimento aos irrigantes, auxiliando-os no do Alto Tietê, para disciplinar as ações dos 39 preenchimento do Ato Declaratório, elaboração municípios pertencentes à bacia, o DAEE é a de projetos de poços profundos e com orientações para economia de água, substituindo ou entidade responsável pelo estabelecimento das

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ENGENHARIA I LINHA DE FRENTE especialmente nos bairros da Vila Prudente e Mooca. Nossa expectativa é entregar essa obra em março do próximo ano.” — Como vão os trabalhos de desassoreamento no Rio Tietê e afluentes? — pedimos a seguir. “Ao longo do tempo a ocupação das cidades ocorreu de forma desordenada e desprovida de planejamento. O processo de aceleração urbana, que se intensificou a partir dos anos 1960, trouxe como consequência a impermeabilização do solo. Todo espaço, antes destinado ao armazenamento natural das águas – as várzeas dos cursos d’água – acabaram eliminadas, dando lugar a áreas urbanizadas e inundáveis. Acrescenta-se a isso, a prática das canalizações dos rios e córregos, muitas vezes de forma radical, alterando o comportamento das cheias e resolvendo o problema de forma localizada – não de maneira abrangente – uma vez que a cidade continuou crescendo sem planejamento, exigindo cada vez mais medidas para disciplinar e conter as águas. Todos os cursos d’água naturais como rios, córregos e ribeirões, quando atravessam áreas urbanizadas apresentam transporte de sedimentos e materiais sólidos, que podem ser partículas de solo, restos de materiais de construção civil, rejeitos industriais, detritos diversos, lixo e até mesmo esgoto doméstico. Quando um rio atravessa uma região urbana em desenvolvimento, com implantação de loteamentos e grandes movimentos de terra, é intenso o carreamento de solo, levado para o rio pelas águas das chuvas. Quando um córrego tem suas margens ocupadas por habitações irregulares de baixo padrão [favelas], suas águas costumam transportar muito lixo e esgoto doméstico. Quando ocorre a deposição de material sólido no fundo do curso d’água, tem-se o que se chama de assoreamento do seu leito. A consequência direta deste assoreamento corresponde à redução da área da seção transversal do escoamento. Portanto, para que a mesma vazão seja transportada, haverá uma elevação do nível d’água. Uma vez ultrapassando-se uma determinada cota, ocorrerá o transbordamento do leito, com as águas invadindo as margens, provocando as inundações, com os seus prejuízos que se manifestam de várias formas: perda de bens e até de vidas humanas, transmissão de doenças veiculadas pelas águas contaminadas, interrupção do tráfego de pessoas, de veículos,

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diretrizes destas ações. O mecanismo para isso sentados forem compatíveis com este conceito.” — O Comitê de Bacia Hidrográfica do Alto é o Plano Diretor de Macrodrenagem, o qual já Tietê ajuda nesse trabalho? — perguntamos. se encontra em sua terceira versão [PDMAT 3]. “O Comitê de Bacia Hidrográfica do Alto O PDMAT apresenta os estudos hidrológicos e Tietê [CBH-AT], cuja atuação está voltada para hidráulicos que resultam na proposição de um questões como a implantação da cobrança pelo conjunto de ações estruturais e não estruturais, visando o controle de uso da água, gestão da escassez de recursos hídricos, enchentes no Alto Tietê, com “Foram realizados outorga do Sistema Cantafoco na gestão integrada da reira, entre outros, aborda bacia, considerando todas sobrevoos e a drenagem urbana em seu as sub-bacias como partes fiscalização mais Programa de Bacia, tendo interligadas de toda a bacia principal. O objetivo é como instrumento o PDintensa nas regiões MAT do DAEE. Em função impedir a adoção de interdas bacias do PCJ e venções localizadas em um da dimensão territorial e da curso d’água para resolver complexidade da bacia, o do Alto Tietê” um problema localizado sem CBH-AT foi dividido em cinco subcomitês, cada um coranalisar os seus impactos na respondente a um agrupamento de municípios. bacia como um todo. O PDMAT 3 contou com Em termos de gestão da macrodrenagem, esta ferramentas atualizadas para as análises do divisão, baseada em critério geográfico, não é a escoamento nos cursos d’água do Alto Tietê, mais adequada, sendo proposta, pelo PDMAT 3, partindo-se de novos conceitos de avaliação de a divisão segundo os denominados Distritos de chuvas e vazões de projeto, com utilização de Drenagem, cujos limites são estabelecidos em eventos pluviométricos registrados pelo radar função de seções de controle dos cursos d’água meteorológico do DAEE, o que permitiu considerar a variabilidade de tais eventos no tempo principais e suas respectivas bacias e ensejando a criação de uma entidade gestora deste e no espaço. Como resultados destes estudos, conjunto de 12 distritos propostos, o chamaforam propostas medidas estruturais que correspondem a intervenções e obras para os prindo Gestor Metropolitano de Drenagem [GMD]. cipais e os mais críticos cursos d’água na bacia, Ainda sobre o tema enchentes, o DAEE tem em com ênfase especial para o Rio Tietê. Quanto às sua história a construção de 29 piscinões em medidas não estruturais, destaca-se a profunda diversas cidades da Grande São Paulo. Isso inclui seis piscinões em São Paulo, um em Santo e necessária análise apresentada no PDMAT 3 André, nove em São Bernardo do Campo, um de um dos temas mais importantes na gestão em São Caetano do Sul, três em Diadema, quado rios, córregos e ribeirões de uma bacia hidrográfica, tanto nos aspectos de quantidade tro em Mauá, um em Embu, dois em Osasco e quanto de qualidade, que consiste na abordadois em Taboão da Serra. Esse conjunto pergem institucional da questão. O texto apresenta mite acumular mais de 6,2 milhões de metros um diagnóstico abrangente da situação institucúbicos de água das chuvas, reduzindo o risco cional atual, considerando cada um dos munide inundações em importantes áreas urbanas. cípios que compõem o Alto Tietê. A partir disso, Atualmente trabalha-se na construção do piscinão Guamiranga ao lado do Rio Tamanduachegou-se a conclusão que há ainda muito a teí, entre a Avenida Dr. Francisco Mesquita, fazer neste tema, pois praticamente inexiste um Rua Patriarca, Viaduto Grande São Paulo e o sistema integrado e institucionalizado de gestão início da Rua Guamiranga. O governo estaduno âmbito da bacia, no tema da macrodrenagem. Os 39 municípios que compõem a Bacia do al está investindo 113,7 milhões de reais neste Alto Tietê atuam de forma praticamente indeque será um dos maiores piscinões do Estado, pendente, com o DAEE sendo a única entidade com capacidade para 850 000 metros cúbicos que de alguma forma procura disciplinar suas de água das chuvas. O piscinão ocupa uma área ações, dentro do conceito de gestão da bacia, de 70 000 metros quadrados, terá 30 metros utilizando como instrumento o instituto da oude profundidade, e vai contribuir para minimitorga, que só é concedida se os projetos aprezar o risco de inundações no trecho a jusante,

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I ENGENHARIA

Gerenciamento da Implantação do Sistema Produtor São Lourenço

Estudo de Abastecimento de Água da Macrometrópole Paulista

Plano de Macrodrenagem da Bacia do Alto Tietê – PDMAT3

Elaboração e Revisão dos PDPAs dos Mananciais da RMSP

Gerenciamento do Programa Várzeas do Tietê

Gerenciamento do Programa Onda Limpa

Gerenciamento do Programa Programa de Uso Racional de Dessassoreamento de da Água – PURA Rios da Bacia do Alto Tietê

Gerenciamento do Programa Pró-Billings

Estudo de Viabilidade do Sistema Adutor das Bacias do PCJ

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ENGENHARIA I LINHA DE FRENTE de transporte coletivo, de transporte de cargas, entre outros fatores.” — Qual o volume de detritos já retirado e qual o investimento feito? — pedimos que detalhasse. “O trabalho de desassoreamento é praticamente contínuo. No caso do Rio Tietê é realizado desde a década de 20 do século passado. No atual contrato, firmado em 2011, o DAEE já investiu 735 milhões de reais no desassoreamento de mais de 10 milhões de metros cúbicos de detritos do rio, em um trecho de 66 quilômetros do Tietê, divididos em três frentes de trabalho: da Barragem Edgard de Souza ao Cebolão, com 16,5 quilômetros, englobando os municípios de Santana de Parnaíba, Barueri, Carapicuíba e Osasco; do Cebolão à Barragem da Penha, com 24,5 quilômetros, no município de São Paulo; da Barragem da Penha ao Córrego Três Pontes, com 25 quilômetros. E também em 12 de seus afluentes, sendo eles: Rio Cabuçu de Cima, Córrego Três Pontes, Ribeirão Guaió, Rio Baquirivu Guaçu, Rio Juquery, Rio Itaqui, Canal de Circunvalação, Rio Cotia, Ribeirão Carapicuíba, Areias e Rio Paraitinga. É importante destacar que o fenômeno do assoreamento em geral é recorrente, podendo ser permanente, caso não ocorram melhorias nas áreas adjacentes ao curso d’água, melhorias estas que consistem na eliminação das fontes produtoras dos materiais carreados pelas águas das chuvas. Esta tarefa é de atribuição das prefeituras municipais, por meio de suas políticas de uso e ocupação do solo. Assim sendo, enquanto não são efetivadas tais melhorias, os trabalhos de desassoreamento dos rios, córregos e ribeirões devem ser obrigatoriamente executados periodicamente, para que se mantenha a capacidade de vazão dos cursos d’água e se promova uma redução na frequência de ocorrência e na intensidade dos transbordamentos. Trata-se, portanto, de trabalhos de manutenção da capacidade de escoamento de canais naturais ou artificiais, continuadamente. Os cursos d’água da nossa região metropolitana, cujos limites praticamente coincidem com os da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, apresentam como uma característica marcante o elevado transporte de sedimentos e detritos diversos. Esta condição é estabelecida pelo fato de que todos os seus córregos e ribeirões têm suas nascentes nas áreas periféricas da bacia principal, coletam os sedimentos em suas sub-bacias e todos descarregam suas águas turvas nos rios Tietê e Pinheiros, que têm baixa declividade. Dessa forma, os assoreamentos ocorrem tanto nas calhas dos principais rios da Bacia do Alto Tietê – Tietê e Pinheiros – como em todos os seus afluentes. Os municípios devem disponibilizar locais apropriados para descarte e atuar em campanhas educativas junto a população, buscando erradicar o descarte irregular

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servir de acesso ao Parque e aos Núcleos de Lae consequente carreamento de lixo e detritos como pneus, garrafas descartáveis PET, zer previstos no projeto, dotados de espaços de móveis e outros, nos rios e córregos. Além lazer, cultura, recreação e educação ambiental. disso, é de suma importância que se faça a O PVT incorpora o Parque Ecológico do Tietê, vigilância constante dos rios e córregos para na zona leste da capital; o Parque Nascentes evitar uma possível ocudo Tietê, em Salesópolis; e o pação das margens, áreas primeiro núcleo de lazer, da “O desassoreamento estas que tem a maior proVila Jacuí, com 17 hectares do Rio Tietê e seus babilidade de alagamento. e 30 equipamentos de lazer Muitas vezes as ocupações e esportes; 15 quilômetros afluentes é um das margens, inviabilizam o de Via Parque e Ciclovia no trabalho realizado de município de São Paulo e 8 desassoreamento do rio ou córrego, porque impossibiquilômetros desses mesmos maneira continuada” litam a passagem das máequipamentos no município quinas utilizadas.” de Guarulhos.” — Como o Parque Várzeas do Tietê pode — O governo estadual criou o Programa contribuir no controle das inundações na Nascentes visando a recuperação da mata Grande São Paulo? — inquirimos. ciliar de reservatórios e cursos d’água. Qual “O Parque Várzeas do Tietê [PVT] é o proa participação do DAEE no projeto? — perjeto para implantação de um parque linear, com guntamos. 75 quilômetros de extensão e 10 700 hectares “Esse programa, idealizado pela Secretaria de área. Isso é equivalente a 68 parques do Ibido Meio Ambiente, é importante para a recurapuera. Estima-se a população diretamente peração e proteção dos recursos hídricos através da recomposição e preservação das matas beneficiada pela implantação integral do projeto em 2,1 milhões de pessoas. O programa ciliares. A participação do DAEE no Programa tem como principal objetivo a preservação das Nascentes está dividido em três etapas. A primeira, em execução, prevê o plantio de 10 000 várzeas do Rio Tietê, fundamentais para o ecossistema do rio, visando restabelecer a função mudas de espécies nativas em uma área de 6 hectares ao longo da faixa de área de APP destas para o amortecimento de cheias. Durante as ondas de cheias, as várzeas devem garantir nas margens do reservatório de Paraitinga, em a descarga de vazão para o trecho situado a Salesópolis. A segunda etapa, prevê o plantio jusante da Barragem da Penha, que atravessa de 290 000 mudas em mais 208 hectares de a área urbana central da cidade de São Paulo APP dos reservatórios de Paraitinga e Biritiba, em Biritiba Mirim; além da implantação de em condição compatível com a capacidade limite do rio. Esse objetivo deve ser alcançado cerca e aceiro carroçável em todo perímetro por meio de ações voltadas à proteção e à redos reservatórios, visando auxiliar a manutencuperação do ambiente natural, que preveem a ção do plantio, controle das áreas do DAEE promoção de usos sustentáveis e compatíveis, e também na prevenção e combate de focos tais como implantação de parques, vias de trânde incêndios que são recorrentes na região. A sito local e ciclovias junto aos limites externos, terceira etapa prevê fomentar o plantio junto equipamentos de lazer, turismo e cultura, de aos proprietários de áreas vizinhas aos reservatórios de Paraitinga e Biritiba, o que deverá forma a promover educação ambiental, inclusão social, proteção e recuperação da flora e beneficiar mais 530 hectares.” fauna. Devido à sua extensão e complexidade, — Para finalizar, que ações estão em o PVT será implementado em três etapas, sendo andamento na gestão de recursos hídricos? a primeira etapa, atualmente em execução, que — solicitamos. abrange os municípios de São Paulo e Guaru“No campo da gestão de recursos hídrilhos num trecho de aproximadamente 25 quilôcos, em sua vertente abastecimento público metros, da Barragem da Penha até a divisa com de água, merece destaque também o Plano Itaquaquecetuba. A segunda etapa ocupará Diretor de Aproveitamento de Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista, elaboraum trecho de 11,3 quilômetros, abrangendo os do pelo DAEE em conjunto com a Secretaria municípios de Itaquaquecetuba, Poá e Suzano. de Saneamento e Recursos Hídricos, concluJá a terceira etapa compreenderá um trecho de ído em outubro de 2013, que contemplou as 38,7 quilômetros, situado nas cabeceiras do Rio regiões metropolitanas de São Paulo, CamTietê, abrangendo os municípios de Mogi das pinas, Vale do Paraíba e Baixada Santista e Cruzes, Biritiba Mirim e Salesópolis. O investimento previsto para a implantação das três etacujos estudos, após avaliação das demandas pas, conforme concepção elaborada em 2010, e disponibilidades hídricas até o horizonte de é de 1,7 bilhão de reais. A primeira etapa do 2035, recomendou um conjunto de medidas PVT é composta por obras de Via Parque (faie intervenções com vistas à garantia do suxa de rolamento acessível para veículos leves) primento hídrico dessa macrorregião. Foram e Ciclovia que acompanha a Via Parque, cuja propostas ações estruturais escalonadas em implantação é estratégica para impedir o protrês etapas a serem implementadas até 2018, cesso de invasão e ocupação indevida, além de 2025 e 2030, respectivamente.”

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I ENGENHARIA

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CAPA CAPACRISE CRISEhídrica hídrica

montagem de andré siqueira com fotos da ShutterStock

Por Juan Garrido

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O futuro do

Por meio de ações emergenciais, caso da interligação dos sistemas Rio Grande e Alto Tietê, e obras estruturantes – como o novo Sistema São Lourenço e a interligação da represa Jaguari (bacia do Rio Paraíba do Sul) com a represa Atibainha (bacia do Sistema Cantareira) –, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), tenta vencer a crise hídrica e ao mesmo tempo aumentar a oferta de água na Região Metropolitana de São Paulo daqui para frente. Essas iniciativas fazem parte dos esforços da companhia – que incluem obras de reforço de adutoras e elevatórias para aumentar o volume de transporte de água – visando integrar o sistema metropolitano e tornálo mais flexível e resistente. Outra realização nessa mesma linha: instalação de membranas ultrafiltrantes na obra de ampliação da Estação de Tratamento de Água do Alto da Boa Vista (ETA-ABV) do Sistema Guarapiranga. Nesse caso, o aumento de produção de água tratada ajudará a reduzir a retirada do Sistema Cantareira, permitindo ao Guarapiranga avançar em novas áreas, principalmente na região da Avenida Paulista. Além dessas providências, a crise continua sendo enfrentada por meio da manutenção

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de bônus para quem faz economia de consumo. A adoção dessa estratégia completou um ano em maio passado e teve a adesão de 82% dos usuários – o que representa hoje uma redução de consumo de 6,2 metros cúbicos por segundo (m³/s). Ao lado disso, também foi adotada a cobrança de tarifa de contingência para os usuários que gastam água acima do normal – e que incidiu sobre 11% dos clientes nesse mesmo período. Os 7% restantes são de usuários do sistema que já consumiam muito pouco (até 10 metros cúbicos por mês) desde sempre, seja pelo fato de morarem sozinhos ou, entre outros fatores, porque adquiriram consciência ambiental já há tempos. Os técnicos da companhia acham que a manutenção do bônus é um incentivo para que a população continue economizando até que isso se torne um hábito na rotina do dia a dia. Outro ponto importante no enfrentamento da crise é o trabalho da Sabesp voltado para a redução de perdas de água ao longo da operação. Segundo fontes da companhia consultadas para esta edição especial a atual gestão de pressão da água vai continuar vigorando mesmo depois que voltarem os tempos de bonança.

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abastecimento O pressuposto é que as dificuldades atuais estão levando a Sabesp a explorar limites que seus técnicos desconheciam quando se vivia numa zona de conforto. Essas novas experiências já permitiram constatar que o sistema pode oferecer muito mais do que se supunha antes. No caso da obra emergencial de interligação entre os sistemas Rio Grande e Alto Tietê haverá transferência de 4 m³/s ao longo de 11 quilômetros de tubulações e de um córrego no leste da Grande São Paulo. Por meio de bombeamento, o empreendimento fará com que regiões que hoje recebem

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água do Sistema Cantareira possam ser atendidas pelo Alto Tietê, ajudando a aliviar o sistema que mais sofre com a crise. Já o melhor exemplo de obra estruturante é a parceria público-privada (PPP) do Sistema Produtor de Água São Lourenço, maior obra hidrográfica do país. O novo sistema vai captar 4,7 m³/s na cachoeira do França, em Ibiúna, volume suficiente para atender 1,5 milhão de moradores de sete municípios metropolitanos. Desse total, cerca de 1,1 milhão são abastecidos hoje pelo Cantareira. Ao mesmo tempo, a Sabesp protocolou pedido em duas agências reguladoras para aumentar a outorga do futuro sistema para 6,4 m³/s. No caso da interligação entre as represas Jaguari e Atibainha – empreendimento incluído no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) de forma emergencial, com 90% do seu custo total financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – a obra permitirá a captação de água na represa Jaguari e a transferência para a represa Atibainha com vazão média prevista de 5,1 m³/s e máxima de 8,5 m³/s. O sistema também permitirá a transferência de água no sentido contrário, da represa Atibainha para a Jaguari.

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CAPA CRISE hídrica

P

(m³/s) – ou seja, 33 000 litros por segundo –, atendendo cerca de 47% da demanda da RMSP e 65% da demanda do município de São Paulo (posição de dezembro de 2013). Em plena crise hídrica, no início de maio passado começou a execução, em São Bernardo do Campo, da principal obra emergencial planejada para enfrentar o drama provocado pela escassez de chuvas, garantir o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) neste ano e ao mesmo tempo aumentar a oferta de água para milhões de habitantes da região nos próximos tempos. Trata-se da interligação entre os sistemas Rio Grande e Alto Tietê, que vai transferir 4 m³/s de água ao longo de 22 quilômetros. Esse bombeamento fará com que regiões que hoje recebem água do Sistema Cantareira possam ser atendidas pelo Alto Tietê, ajudando a aliviar o manancial em crise. “Essa obra é importante para a segurança hídrica da Grande São Paulo, para enfrentar o período de estiagem”, diz o governador Geraldo Alckmin. O período de seca iniciado em maio vai até o fim de setembro. O investimento da Sabesp é de aproximadamente 130 milhões de reais. Inclui a instalação de bombas para transportar a água 80 metros acima, superando o morro que divide a região do ABC (onde fica o Sistema Rio Grande) de Suzano (no Alto Tietê). Conta também com duas adutoras paralelas, cada uma com diâmetro de 1 200 milímetros. Elas vão levar a água por quase 11 quilômetros até o córrego Taiaçupeba-Mirim. Por esse curso d’água o volume avançará mais 11 quilômetros, chegando até a represa Taiaçupeba, onde fica a estação de tratamento de água (ETA) do Sistema Alto Tietê. A previsão é que a obra esteja concluída no final de agosto. FOTO: Divulgação sabesp

or meio de entrevistas com diretores da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), especialistas em hidrologia, empresários do setor, e pela compilação de dados do relatório “Crise Hídrica: Estratégia e Soluções da Sabesp para a Região Metropolitana de São Paulo - CHESS” (de 30 de abril passado), a reportagem das páginas a seguir pretende descrever a estratégia e as ações realizadas para o enfrentamento da crise hídrica que se iniciou em 2014 na Região Sudeste, principalmente na Grande São Paulo, que é atendida pelo Sistema Integrado Metropolitano (SIM) da Sabesp. O SIM é responsável pelo abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) por meio da produção e transporte de água potável para cerca de 20 milhões de habitantes distribuídos em 35 dos 39 municípios da região. A RMSP ocupa uma área de 8 051 quilômetros quadrados, sendo um dos maiores aglomerados humanos do planeta, comparável a Tóquio, com 26,4 milhões de habitantes; Nova York, com 18,9 milhões; e Cidade do México, com 18,1 milhões. O SIM é composto pelos sistemas produtores Alto e Baixo Cotia, Alto Tietê, Guarapiranga, Rio Claro, Rio Grande, Ribeirão da Estiva, Embu Guaçu e Cantareira. Como amplamente sabido, o Sistema Cantareira – implantado em 1973 – foi o mais afetado pela ausência das chuvas de 2014. Abastecia antes da crise a aproximadamente 9 milhões de habitantes da RMSP e é composto pelas represas Jaguari/Jacareí, Cachoeira, Atibainha, Paiva Castro e Águas Claras. A capacidade de produção de sua estação de tratamento de água – a ETA Guaraú – alcança 33 metros cúbicos por segundo

Guilherme Paixão, superintendente de gestão de empreendimentos da Diretoria Metropolitana da Sabesp

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Para que a água seja transferida de uma represa para a outra ao longo desses 22 quilômetros, a Sabesp está instalando 16 geradores, sendo que parte deles ficará como reserva de segurança. Cada gerador tem potência de 1 000 kVA, o que equivale a 1 000 cavalos de força. O Sistema Rio Grande chegou a mais de 97% de armazenamento de água no final de março. Para aproveitar esse estoque, a Sabesp vai bombear os citados 4 m³/s para o Sistema Alto Tietê. O Alto Tietê tem grande capacidade de tratamento de água – 15 m³/s –, mas suas represas estão com nível mais baixo. Com o bombeamento, a Sabesp levará a matéria-prima (água disponível na represa do Rio Grande) até o local onde há maquinário para o tratamento (Sistema Alto Tietê). — Qual a capacidade de armazenamento das duas represas e quais as principais dificuldades que estão sendo enfrentadas para a execução do empreendimento? — perguntamos a Guilherme Paixão, superintendente de gestão de empreendimentos da Diretoria Metropolitana da Sabesp. “Hoje nós estamos com um nível de 95% na represa do Rio Grande, um pouco abaixo do de março passado, o que corresponde a 115 milhões de metros cúbicos de água. Já o Alto Tietê tem capacidade de armazenamento de 500 milhões de metros cúbicos. Sobre as dificuldades do ponto de vista da engenharia, como nós temos que sair de um ponto da represa e levar para outra, obviamente fomos desafiados a vencer obstáculos, porque existe uma elevação ali no trajeto que nos obrigou a vencer um desnível de 80 metros de altura. Então nós vencemos essa diferença de nível e para fazer a captação de água na represa do Rio Grande nós temos que aduzir por duas tubulações de PAD [Polietileno de Alta Densidade] de 1 200 milímetros até um ponto do corpo receptor. A partir do ponto culminante de 80 metros a água passa a ser conduzida por gravidade. Para que isso fosse feito rapidamente, a proposta foi desfilar, ou seja, utilizar áreas de pântano e da própria represa até chegar a uma faixa da Petrobras, a partir da qual é possível seguir em área livre até o corpo receptor. Metade do trajeto fica na faixa da Petrobras e o resto em área de represa, pântano e charco. Para fazer o bombeamento a gente vai ter que utilizar bombas superficiais na represa. São equipamentos com as mesmas características técnicas utilizadas nas reservas técnicas 1 e 2 do Sistema Cantareira. Serão quatro equipamentos instalados dentro da represa, num ponto específico, fazendo bombeamento para uma outra elevatória nas margens da represa. Essas bombas superficiais têm uma boa vazão mas elas não têm altura manométrica, ou seja, não é possível vencer 80 metros de coluna de água diretamente, apenas com elas. Então elas fazem a captação, www.brasilengenharia.com


jogam água para uma outra elevatória na beira da represa e essa sim faz a elevação e vence todo o desnível. As bombas instaladas na represa serão quatro conjuntos de 350 cavalos de força, cada conjunto. Elas fazem a adução para essa elevatória na margem da represa onde nós teremos quatro equipamentos de 1 250 cavalos cada. Como a obra é emergencial e não teremos energia elétrica de matriz hídrica em tempo hábil, está sendo estudada a geração de energia usando geradores a diesel ou a gás. Ainda não foi batido o martelo de qual será a alimentação a ser instalada.” A interligação entre os sistemas Rio Grande e Alto Tietê beneficiará, diretamente, os bairros da Mooca, Parque da Mooca, Vila Oratório, Quarta Parada, Belenzinho, Tatuapé, Belém, Catumbi, Vila Maria, Chácara Bela Vista, Vila Guilherme, Parque Vila Maria, Parque Novo Mundo, Vila Medeiros, Jardim Japão, Vila Izolina Mazzei, Vila Munhoz, Vila Ede, Vila Medeiros, em São Paulo; todo o município de São Caetano do Sul e 70% da cidade de Guarulhos (municípios permissionários). Além dessa obra, outras duas são importantes para levar mais água para o Alto Tietê. Uma delas já foi entregue e está em operação desde 27 de janeiro passado: é a ampliação da transferência de água do córrego Guaratuba para a represa Ponte Nova, que compõe o Sistema Alto Tietê. O investimento, feito em pouco mais de

JNS

dois meses pela Sabesp, fez com que o volume transferido subisse de 0,5 m³/s para 1 m³/s. O Guaratuba nasce na Serra do Mar e deságua em Bertioga, no litoral. Parte de sua vazão é bombeada em direção ao Alto Tietê. A importância dessa obra é aumentar a quantidade de água que entra no Sistema Alto Tietê neste período de poucas chuvas. O sistema é composto por cinco represas (Ponte Nova, Paraitinga, Biritiba-Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba). Elas são alimentadas pela chuva direta sobre elas e pelos rios que as abastecem. Portanto, a entrada de mais água do Guaratuba amplia o nível de todo o sistema. Sobre o Sistema Rio Grande, diga-se que ele ganhou mais importância ao longo de 2014 justamente por causa da crise hídrica. Mesmo com a seca, esse reservatório registrou boa quantidade de chuva. A adoção do bônus na conta de quem economiza no consumo de água também fez com que o fornecimento para o ABC diminuísse, já que o consumo caiu. A propósito, a adoção da estratégia do bônus completou um ano em maio passado e teve a adesão de 82% dos usuários – o que representa hoje uma redução de consumo de 6,2 m³/s. Com a água excedente, a Sabesp executou ainda em 2014 obras para que o sistema passasse a chegar até Santo André. Associado a isso, a companhia aumentou a produção de água potável no Rio Grande. No

final do ano passado, a capacidade subiu de 5 m³/s para 5,5 m³/s de água potável. A Sabesp instalou na respectiva ETA equipamentos de ponta, chamados de membranas ultrafiltrantes. Essa combinação de fatores permitiu que, neste ano, o Sistema Rio Grande passasse a abastecer a capital pela primeira vez desde que foi criado, em 1958. Outra obra emergencial com o mesmo objetivo é a nova captação do Rio Guaió. Segundo Marcio Oliveira, superintendente da Unidade de Negócios Leste da Sabesp, a obra está orçada em 28,9 milhões de reais. A intervenção foi iniciada em fevereiro passado e está em fase de pré-operação, beneficiando aproximadamente 300 000 habitantes da RMSP. “Essa obra está sendo realizada no município de Suzano, na divisa com Ferraz de Vasconcelos, com mão de obra própria da Sabesp e consiste na implantação de nove quilômetros de adutoras de água bruta, além da construção de uma estação elevatória de água bruta com três bombas e potência total de 4 000 cavalos, contribuindo com um aumento de vazão de 1 m³/s para o Sistema Produtor Alto Tietê. A água captada do Guaió será bombeada até o Ribeirão dos Moraes, que deságua no Rio Taiaçupeba-Mirim, que por sua vez deságua na represa de Taiaçupeba, pertencente ao Alto Tietê.” — Quais as características do Rio Guaió

ENGENHARIA, CONSULTORIA E GERENCIAMENTO LTDA é parceira da SABESP no Programa de

Fonte: Imagem Sabesp

Desenvolvimento de Saneamento do Estado de São Paulo.

Projetos e Gerenciamento dos Programas de Requalificação Urbana - Área de Mananciais.

Projeto de Ampliação da Capacidade da ETE Barueri para 14,25m³/s

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FOTO: Divulgação sabesp

CAPA CRISE hídrica

Marcio Oliveira, superintendente da Unidade de Negócios Leste da Sabesp

*** Levando-se em conta que a atual crise hídrica em São Paulo é um fenômeno agudo – mas que pode se repetir no futuro –, perguntamos a Gesner Oliveira, Ph.D. pela Universidade da Califórnia em Berkeley, sócio da GO Associados e presidente da Sabesp entre 2007 e 2010, se ele achava que a partir de agora qualquer planejamento deve conter esse dado nos cálculos para aumentar a segurança hídrica. Sua resposta: “Sem dúvida, é importante passarmos a trabalhar com o conceito de ‘seguro hídrico’. Tendo em vista essa nova realidade hídrica precisamos projetar soluções que possam ser acionadas em novas situações excepcionais. Podemos fazer um paralelo com o setor de energia elétrica

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que conta com térmicas no sistema e que são acionadas apenas em momentos de risco de escassez. Tanto a dessalinização como a recarga de mananciais com água de reúso são soluções que podem servir como térmicas para os sistemas de abastecimento de água a custos bastante competitivos, quando comparados com outras alternativas”. — Pelo que o senhor acompanha, as indústrias, setor agrícola e comércio estão agora fazendo planos para aumentar a eficiência, otimizar o uso da água e evitar desperdício? — solicitamos de Gesner Oliveira. “Se há um lado bom da crise é chamar a atenção da sociedade para a importância do uso racional da água. Muitas indústrias e o setor agrícola estão sensibilizados para o pro-

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e qual a importância da obra emergencial? — perguntamos a Marcio Oliveira. “O Rio Guaió, que nasce na cidade de Mauá, próximo à nascente do Rio Tamanduateí, na região do Parque Ecológico Santa Luzia, tem extensão aproximada de 20 quilômetros e passa, na margem esquerda, pelos municípios de Mauá, Ribeirão Pires, Suzano, Ferraz de Vasconcelos e de Poá. Na margem direita, pelos municípios de Ribeirão Pires e de Suzano. É contribuinte do Rio Tietê, na divisa de Poá com Suzano. A importância desta obra está no fato de que o Sistema Produtor Alto Tietê, que hoje produz 12,3 m³/s, tem capacidade de tratar até 15 m³/s. Como os sistemas produtores da Sabesp na Grande São Paulo são interligados,  podemos transportar mais 3 m³/s até o Sistema Cantareira, que foi o mais afetado pela baixa quantidade de chuvas no período. Portanto, o volume transportado do Rio Guaió poderá chegar até a zona norte da capital paulista.”

blema e começam a adotar medidas de redução de consumo. É importante, porém, que os governos continuem a fiscalizar as outorgas concedidas para captação própria, incentivando o reúso de água tanto industrial como agrícola. Para se ter uma ideia, na Grande São Paulo, menos de 10% do consumo total industrial vem de abastecimento público – fornecido pelas concessionárias de água, como a Sabesp. O restante advém de fontes próprias, captadas em poços e mananciais. É fundamental uma fiscalização dessa captação.” — O senhor acha que, apesar dos repetidos alertas de especialistas, não se tinha, do ponto de vista técnico – nos primórdios da crise hídrica do Sudeste – uma indicação clara de que era preciso alterar o padrão de dimensionamento da necessidade de água? — continuamos com Gesner. “A crise hídrica vivida pelo Sudeste não encontra precedentes recentes. Dessa forma, não era possível prevê-la no planejamento de longo prazo. Entretanto, o mito da abundância hídrica brasileira também não ajuda a adoção de métodos permanentes de redução do consumo e diminuição do desperdício. É fundamental, que os programas de consumo racional da água se mantenham e que o combate às perdas seja obsessivo e permanente. Nesse sentido, seria importante multiplicar as iniciativas de redução de perdas, inclusive por meio de parcerias público-privadas e contratos de eficiência e performance.” — O senhor acha que o governo paulista e dos demais estados do Sudeste terão que mudar radicalmente o referencial para as obras de engenharia e de reservatórios, levando em conta as variações climáticas com impactos hidrológicos significativos que produzem fenômenos

Gesner Oliveira, Ph.D. pela Universidade da Califórnia em Berkeley, sócio da GO Associados www.brasilengenharia.com


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de escassez de água como o que estamos atravessando? — questionamos Gesner. “Eu diria que uma agenda para o enfrentamento futuro de crises semelhantes deveria estar pautada nos seguintes aspectos: água de reúso, incluindo o reúso para recarga de mananciais, para a indústria e, no longo prazo, reúso direto; dessalinização como um seguro hídrico; redução constante e obsessiva de perdas, inclusive por meio de parcerias público-privadas, como já disse; redimensionamento de reservatórios; programas constantes de uso racional da água e consumo consciente; e, finalmente, fiscalização e monitoramento das captações superficiais e de poços.” — Há estudos dando conta de que a verticalização das construções sobrecarrega as tubulações e milhões de litros de água se perdem por vazamento. Como o senhor encara essa questão? — perguntamos a seguir. “A verticalização é inevitável e ocorre em muitos países. A despeito dela, na Europa, Israel e no Japão, por exemplo, as perdas de água têm níveis bastante baixos. Temos que adotar tecnologias e realizar investimentos que permitam a redução dessas perdas. Além disso, é fundamental incentivar a medição individualizada. Trata-se de medida de justiça social e ajuda na conscientização dos usuários. Se cada um souber o quanto gasta com água, certamente reduzirá seu consumo.” — Também a ocupação desordenada, a falta de saneamento e o desmatamento à beira dos mananciais ameaçam as fontes com esgoto e lixo? Pode comentar esta vertente de problemas? — colocamos para Gesner. “Sim, a falta de saneamento interfere na qualidade de vida da população e até mesmo no desenvolvimento do país. A falta de água tratada e de esgotamento sanitário causa grande impacto no aprendizado de crianças e jovens do país. Doenças provocadas pelo consumo de água contaminada, como as infecções gastrointestinais, que ocasionam diarreia e vômito, levam a queda no rendimento dos alunos. A propósito da saúde, há estatísticas acerca dos ganhos em termos de redução da mortalidade infantil e de menor incidência de doenças transmitidas pela água não tratada ou relacionadas à falta de esgotamento sanitário. Quanto à educação, a diminuição de problemas de saúde aumenta a frequência escolar, repercutindo positivamente sobre o rendimento escolar. Por sua vez, a menor incidência de problemas de saúde é acompanhada da redução das faltas do trabalhador e do aumento do seu bem-estar, com reflexos positivos sobre sua produtividade e renda. Quando uma área que não dispunha de água tratada e esgotamento sanitário passa a ter acesso a esses serviços, experimenta valorização imobiliária, beneficiando o conjunto da sociedade. Além disso, regiões com

Silvio Leifert, superintendente de Gestão de Empreendimentos da Sabesp saneamento são mais adequadas para novas atividades industriais e de serviços, atraindo investimento e gerando renda e emprego. Por fim, é preciso proteger nossos mananciais e intensificar as parcerias entre concessionárias de saneamento e municípios. Os municípios são responsáveis pela regularização de moradias e de suas ações depende o aumento de cobertura de água e esgoto em áreas irregulares. Sem o apoio municipal fica difícil universalizar os serviços no país.” *** Uma das obras estruturantes em execução pela Sabesp para enfrentar a crise hídrica provocada pela escassez de chuvas e ao mesmo tempo aumentar a oferta de água na Grande São Paulo é o Sistema Produtor São Lourenço, uma parceria público-privada (PPP). É também a maior obra hidrográfica em andamento no país. Com conclusão prevista para outubro de 2017, as obras do novo sistema – que ajudará, principalmente, na recuperação do Cantareira – foram iniciadas há um ano e dois meses. O novo sistema vai captar 4,7 m³/s na cachoeira do França, em Ibiúna, volume suficiente para atender 1,5 milhão de moradores dos municípios de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. Desse total, cerca de 1,1 milhão são abastecidos pelo Cantareira. A obra está orçada em 2,21 bilhões de reais. Segundo Silvio Leifert, superintendente de Gestão de Empreendimentos da Sabesp, a companhia protocolou pedido na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e no Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) para aumentar a outorga do futuro sistema para 6,4 m³/s. Se for aprovado esse acréscimo, será possível abastecer mais

500 000 moradores de Santana do Parnaíba, Carapicuíba e Osasco, que hoje são exclusivamente atendidos pelo Sistema Cantareira. O superintendente da Sabesp explica que para aumentar a produção do São Lourenço não será preciso ampliar a construção, mas apenas operar o sistema durante 24 horas por dia. No projeto original, a vazão de 4,7 m³/s seria produzida durante 19 horas, sendo paralisada no horário de pico, entre 17h00 e 22h00. Serão instalados 83 quilômetros de adutoras (grandes tubulações), incluindo um túnel de 1 100 metros pela serra e uma passagem por baixo da Rodovia Raposo Tavares. Em parte do trajeto, os tubos chegam a ter 2,10 metros de diâmetro. Um dos pontos principais é o bombeamento da água para superar o desnível de 300 metros da Serra de Paranapiacaba. O projeto prevê ainda a construção de uma estação de tratamento de água (ETA) em Vargem Grande Paulista, e reservatórios para armazenar até 110 milhões de litros d´água. Com 1 200 funcionários trabalhando em 14 canteiros de obras, a PPP São Lourenço assentou mais de 3 000 metros de adutoras nos municípios de Ibiúna, Barueri e Carapicuíba. Outro marco importante ocorreu em 27 de março passado, quando houve a primeira concretagem na área onde está sendo construída a ETA de Vargem Grande Paulista. A previsão é entregar 26 quilômetros de adutoras até dezembro deste ano. O pico da obra será em janeiro de 2016, quando 3 000 funcionários estarão trabalhando ao mesmo tempo. O Sistema Produtor de Água São Lourenço é uma parceria com duas construtoras da iniciativa privada. O investimento de 2,21 bilhões de reais será feito em troca da operação do sistema por 25 anos.  — Se o projeto São Lourenço tivesse engenharia 625 / 2015

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CAPA CAPACRISE CRISEhídrica hídrica 8,5 m³/s no sentido Jaguari-Atibainha, intersido feito de outra forma poderia captar ligando a bacia do Rio Paraíba do Sul às bamuitíssimo mais água? — perguntamos a cias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. No Silvio Leifert. sentido inverso, Atibainha-Jaguari, a vazão “A verdade é a seguinte: a Sabesp só tem máxima poderá ser de 12,2 m³/s. A transposiautorização para tirar 4,7 m³/s do rio. Então ção irá beneficiar diretamente 39 municípios não adianta a companhia fazer um projeto de que compõem a Grande São Paulo. Beneficiaengenharia para tirar 10 m³/s se não tem aurá também, subsidiariamente, 20 municípios torização legal para tirar água além daquela da Região Metropolitana de Campinas (RMC), cota. Há toda uma questão envolvida de, por pois o Sistema Cantareira, em condições norexemplo, a utilização dessa fonte para gemais, fornece uma vazão de 5 m³/s para a reração de energia elétrica. Como a Sabesp já gião. O edital de licitação foi publicado pela tem direito a 4,7 m³/s e agora está pedindo Sabesp em 12 de maio passado. A previsão é 6,4 m³/s esse é o limite máximo que o sisteque a obra esteja concluída em dezembro de ma aguenta. Não tem como fazer um inves2016. O empreendimento será contratado por timento maior se você não vai poder contar meio do Regime Diferenciado de Contratação com a água. A agência reguladora é a Arsesp (RDC), sistema de licitação pública que evita [Agência Reguladora de Saneamento e Enerburocracia e acelera o inígia do Estado de São Paulo] e ela só autoriza Na Grande São Paulo, cio e a entrega de obras. A interligação é coma remuneração do seu menos de 10% do posta por um conjunto ativo – ou seja, aquele de instalações lineares investimento novo que consumo industrial com 13,43 quilômetros você faz – na capacidade de adutora de água (com de utilização. Não adiande água vem de 2 200 mm de diâmetro), ta construir para 8, 9 ou túnel de 6,13 quilômetros 10 m³/s porque só vamos abastecimento e instalações – tomadas receber 4,7 m³/s, ou, na público de água, estações elemelhor das hipóteses, vatórias, instalações de 6,4 m³/s.” controle hidráulico – situadas nos municípios Outra grande obra estruturante planejade Santa Isabel, Igaratá e Nazaré Paulista. da para enfrentar a crise hídrica provocada — A interligação consiste em que tipo pela escassez de chuvas e ao mesmo tempo de obras de engenharia para captação de aumentar a oferta de água na Grande São água?— perguntamos a Edison Airoldi, suPaulo é a interligação da represa Jaguari perintendente de Planejamento Integrado (bacia do Rio Paraíba do Sul) com a represa da Sabesp. Atibainha (bacia do Sistema Cantareira). No “Vou falar primeiro no sentido de ida – último dia 25 de junho, o governo federal Jaguari-Atibainha – e depois no sentido de liberou 747 milhões de reais de financiamenvolta. No sentido de ida nós temos basicato para esse empreendimento que reforça o mente uma estação elevatória, uma estação abastecimento de água em São Paulo. Include bombeamento, uma adutora, uma caixa de ída no Programa de Aceleração do Crescipassagem, um túnel que vai funcionar como mento (PAC) de forma emergencial, a obra conduto livre, uma área de chegada, uma batem 90% do custo total financiado pelo Bancia de tranquilização e a conexão com o eleco Nacional de Desenvolvimento Econômico vatório Atibainha – além de uma subestação e Social (BNDES). A obra terá investimento elétrica e dispositivos de proteção. No sentido de 830,5 milhões de reais. Os outros 83,05 de volta a obra conta com uma elevatória de milhões de reais são a contrapartida da Sabaixa carga. Aí a gente utiliza a mesma estrubesp, que executará a obra. A operação de tura anterior, volta pelo túnel, pela caixa de crédito tem prazo de 20 anos, incluídos os transição, pela adutora e tem uma estrutura períodos de carência e amortização. de dissipação, uma bacia de tranquilização, Na assinatura do contrato entre o BNDES de modo que não se tenha um jato entrando e a Sabesp para liberação do crédito, a presina represa. A água precisa chegar de maneidente Dilma Rousseff declarou que o contrara adequada na barragem. A primeira etapa, to de 747 milhões de reais vai viabilizar, junto portanto, é no sentido Jaguari-Atibainha e a com os recursos que o governo estadual cosegunda fase é de Atibainha para Jaguari.” locará, maior segurança hídrica para o Estado Além desses empreendimentos, o gode São Paulo. “Não é a única [obra] que nós verno paulista havia entregado, nos últimos apoiamos. Estamos apoiando também o Sismeses, três obras importantes para aumentema Produtor de Água São Lourenço e, em tar a oferta de água para a RMSP. O Sistema 2012, nós também tínhamos apoiado a consGuarapiranga teve sua capacidade de produtrução do Sistema Adutor do Alto Tietê”, disse ção aumentada em 1 m³/s; também no fim ela. A interligação permitirá a transposição de de 2014, o Sistema Rio Grande ganhou mais uma vazão média de 5,1 m³/s e máxima de

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0,5 m³/s de capacidade. No dia 26 de janeiro deste ano, a Sabesp entregou a ampliação da transferência de água do córrego Guaratuba para o Sistema Alto Tietê, o que garante mais 0,5 m³/s de água entrando nesse sistema. Ainda sobre a interligação Jaguari e Atibainha, em 27 de maio passado, o governador Geraldo Alckmin havia assinado decreto para desapropriação de área a ser usada pela Sabesp para as obras entre as represas. Trata-se de pouco mais de 73 600 metros quadrados na região do bairro Jaguari (Funil), no município de Santa Isabel, e mais 5 026 metros quadrados no bairro de Boa Vista (localizado na zona rural do município de Igaratá). Na área em Santa Isabel, a companhia realizará as obras para a captação da água na represa Jaguari. Na faixa localizada em Igaratá será executado o início de um túnel que encaminhará a água até a represa Atibainha. Uma terceira área, de 3 530 metros quadrados, no Ribeirão Acima, em Nazaré Paulista, também já foi desapropriado por meio de um decreto municipal, assinado em 8 de janeiro. Neste ponto, a Sabesp construirá um túnel de acesso ao trecho de obras. A represa Jaguari, de Igaratá, tem capacidade para 1,2 bilhão de metros cúbicos de água. Sozinha ela armazena 20% mais água do que o volume útil dos quatro reservatórios do Cantareira. A Jaguari alimenta o Rio Paraíba do Sul, situação que não será afetada pela nova obra. A novidade é que a represa poderá também receber ou enviar água para o Sistema Cantareira. A intervenção está prevista no Plano da Macrometrópole, que lista as obras necessárias para garantir o abastecimento nas próximas décadas para a Grande São Paulo, Região Metropolitana de Campinas, Baixada Santista e Vale do Paraíba. Em relação às outras obras estruturantes já realizadas, merece ênfase a PPP do Sistema Alto Tietê, que entrou em operação em 2010 e acrescentou mais 5 m³/s de capacidade de produção ao Sistema Integrado Metropolitano. Dentre as obras emergenciais executadas em 2014, destacam-se: ampliação da ETA Rodolfo José da Costa e Silva com aumento da capacidade de tratamento em 1 m³/s com a utilização de membranas de ultrafiltração; ampliação da Estação de ETA Rio Grande com aumento da ampliação de capacidade de tratamento em 0,5 m³/s e implantação de sistema de membranas de ultrafiltração; implantação da adutora Bela Vista/Conceição, em Osasco, 1 300 metros extensão e diâmetro de 700 mm; intervenções elétricas no Booster Ermelino Matarazzo, do Sistema Alto Tietê, possibilitando transferência de 0,3 m³/s para o Cantareira [o sistema booster permite a distribuição de água em rede pública de uma forma mais econômica, reduzindo significativamente as instalações em reservawww.brasilengenharia.com


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CAPA CRISE hídrica tórios]; readequação hidráulica no Booster Cidade Líder, permitindo transferência de 0,5 m³/s para o Cantareira; adequações elétricas nas estações elevatórias da ETA Taiaçupeba, aumentando a capacidade de produção de 13 para 15 m³/s; adequação dos painéis elétricos da Estação Elevatória de Água Tratada (EEAT) Biritiba, ampliando recalque do Rio Tietê em 2 m³/s para o dique da represa Biritiba-Mirim; adequação hidráulica na EEAT Vila Guarani, transferindo 0,2 m³/s para o Cantareira; intervenções na EEAT Theodoro Ramos e adequações operacionais na adutora Vila Olímpia, para avanço do Sistema Guarapiranga em cerca de 0,5 m³/s; operacionalização da Adutora Jabaquara-Sacomã, do Sistema Guarapiranga, ampliando transferência em 0,2 m³/s; nova regra operacional na EEAT Alto da Boa Vista/Jabaquara e no Booster Cadiriri, possibilitando a transferência de 0,7 m³/s para o Cantareira; alteração da regra operacional da EEAT França Pinto, possibilitando transferência de 0,25 m³/s para o Cantareira; instalação da Adutora Haras/Vila Vitória, do Sistema Rio Grande, permitindo a transferência de 0,5 m³/s para o município de Santo André; conclusão das obras da Adutora Jardim das Nações/Parque Real, em Diadema, permitindo a transferência do Sistema Rio Grande para Guarapiranga e Cantareira; na EEAB Guaratuba houve adequações para aumento de vazão na ordem de 0,5 m³/s. Até o momento, com as intervenções executadas, tem sido possível avançar o Sistema Guarapiranga até o município de Osasco e os sistemas Alto Tietê e Rio Grande/Rio Claro até o bairro paulistano da Mooca. Em relação às ações para 2015, decidiu-se pela manutenção e intensificação das ações iniciadas em 2014; e a implantação de novas ações focadas em obras emergenciais para aumentar o aporte de água à área originalmente servida pelo Sistema Cantareira, com o propósito de diminuir ainda mais a produção desse Sistema. Para isso foram identificadas ampliações da ETA Alto da Boa Vista, para aumentar a produção do Sistema Guarapiranga, e novas aduções de água bruta para os reservatórios do Alto Tietê, para aproveitar a capacidade ociosa (por falta da “matéria prima”, a água bruta) da ETA Taiaçupeba. Segundo o relatório CHESS é imprescindível que esses reforços fiquem prontos ainda em 2015 para que seja possível evitar um sacrifício maior à população. O planejamento dessas ações com execução em 2015 possibilitou a adoção de novos patamares de produção na ETA Guaraú, com o objetivo de preservar os respectivos mananciais, reduzindo a vazão já em janeiro passado. Nos meses de fevereiro e março de 2015, as chuvas finalmente ocorreram e, pela primeira vez em dois anos, a afluência do Cantareira foi superior a 40

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m³/s, mas ainda muito abaixo das médias esperadas para os respectivos meses (na faixa de 70 m³/s). Isso acontece muito em virtude da estiagem recente, que provocou ressecamento do solo da região e consequentemente, o rebaixamento do lençol freático. Ou seja, a recuperação dos mananciais neste período não foi suficiente para trazer o abastecimento à normalidade. Vale ressaltar novamente que o cenário ocorrido em 1953, que até 2013 era considerado como o pior da série histórica, passou a ser considerado como cenário “otimista”. Efe-

tivamente, a crise hídrica não teria ocorrido se no ano hidrológico 2013/14 tivessem ocorrido as condições hidrológicas de 1953, tendo em conta que o planejamento e implantação dos sistemas produtores Sabesp na RMSP foram concebidos a partir das disponibilidades hídricas referenciadas às séries históricas de vazões dos 84 anos anteriores, sendo que o biênio 1953/1954 era apontado, até então, como o período mais crítico registrado na região. Para as condições de 2015 foram concebidas, portanto, novas ações para reforçar os sistemas produtores de Guarapiranga e Alto

Segurança hídrica: alicerce do crescimento socioeconômico Ao longo de nossa História existe um elo conectando estabilidade social, prosperidade individual, crescimento econômico e ecossistemas sustentáveis. Esse elo é a gestão integrada de recursos hídricos. A água é um elemento fundamental para se atingir saúde pública adequada, segurança alimentar e produção sustentável de energia. Infraestrutura hídrica e o seu consequente gerenciamento tem sido a mais importante medida de adaptação adotada desde longa data pelas sociedades desenvolvidas para fazer frente à variabilidade climática. A comunidade científica internacional da área de climatologia tem reiterado que a perspectiva para o futuro é de mais variabilidade do clima, com secas mais longas e cheias mais intensas. Nesse contexto, a importância das obras de infraestrutura, como barragens e reservatórios, fica mais evidenciada. O mundo hoje enfrenta um grande dilema ético no campo das políticas públicas. Nossos debates sobre água e segurança aumentam a ansiedade das populações sobre como as mudanças do clima irão afetar a disponibilidade de água para consumo humano e o aumento dos desastres ligados às inundações. Ao mesmo tempo, dificuldades financeiras fazem com que os recursos para investir no setor hídrico sejam limitados. A humanidade se defronta hoje com grandes incertezas em relação ao fenômeno das mudanças climáticas às quais o ciclo hidrológico está inexoravelmente ligado. Os recursos hídricos são os mais vulneráveis aos impactos da variabilidade e às mudanças climáticas. A preocupação das populações com a mudança do clima não se refere ao clima per si, mas sim às consequências no setor hídrico, com as secas e cheias. De forma geral os

impactos da variabilidade e mudança do clima são manifestados através da água. Os impactos do furacão Katrina ou a redução da safra agrícola devido à seca na Rússia em 2010, que afetou o preço dos alimentos no mercado internacional, mostram que temos que estar preparados para os desastres relacionados à água tanto em países pobres como também naqueles mais desenvolvidos do planeta. Ao mesmo tempo, a infraestrutura hidráulica existente na bacia do Mississippi, nos Estados Unidos, e do Yangtzé, na China, reduziram de forma significativa o impacto das cheias de 2011 em termos de perdas de vidas humanas e prejuízos econômicos. A estimativa dos retornos econômicos desses investimentos chega a uma relação benefício-custo de sete para um. O cenário para os próximos anos não é animador quando as projeções são de que mais de 60% da população mundial estará vivendo em megacidades em áreas costeiras vulneráveis, com secas reduzindo as colheitas, quando a demanda por alimentos aumentará em 40%; com o aumento dos riscos em função da maior variabilidade do clima. Dentro desse cenário complexo, a engenharia construtiva e de logística passa a desempenhar um papel fundamental. MUDANÇA CLIMÁTICA E SOCIEDADES RESILIENTES A questão que temos que nos perguntar é o que o setor de recursos hídricos pode fazer para aumentar a resiliência e assim reduzir a vulnerabilidade de nosso sistema social. Como podemos nos adaptar a um vasto conjunto de impactos em vários setores e nos diferentes continentes que irão decorrer das mudanças do padrão climático vigente? Adaptação à mudança climática signifi-

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mas Guarapiranga e Alto Tietê. Adotou-se a estratégia de maximizar o uso das estruturas existentes no Sistema Integrado Metropolitano (produção + adução), buscando soluções que as utilizem em suas plenas capacidades ou, no limite, ampliações que se viabilizem de forma rápida e eficiente. Diante das restrições impostas pela crise hídrica, principalmente sobre os dois principais sistemas produtores – Cantareira e Alto Tietê –, as possíveis soluções de curtíssimo prazo passam pela utilização da água dos braços alimentadores da

ca entender o papel desempenhado pela água na economia global, no desenvolvimento socioeconômico e bem-estar social das pessoas. Esse deveria ser o foco das discussões que terão lugar ao final de 2015 em Paris durante a Convenção do Clima – COP 21. Até hoje o foco das discussões girou em torno do tema da mitigação na área da energia onde ainda não existe consenso entre as partes sobre a redução das emissões de dióxido de carbono. Nossa capacidade de gerenciar incertezas de escassez ou excesso de água é fundamental para garantir crescimento e prosperidade. Isso requer a implementação de infraestrutura específica. Essa infraestrutura é deficiente nos países menos desenvolvidos do mundo. Enquanto no mundo desenvolvido, onde a maioria das barragens, diques e similares já foi construída, as perdas devido às secas e inundações foram reduzidas a menos de 5% do Produto Interno Bruto; nos países em desenvolvimento, esse valor em geral é maior do que 20%. Os danos evitados em função de inundações nos Estados Unidos indicam a soma impressionante de uma média anual na casa dos 700 bilhões de dólares.

vazões afluentes aos córregos, rios e reservatórios. Esse novo cenário requer gestão de recursos hídricos adaptativa, o que inclui não só o aumento da oferta, mas também a gestão da demanda para os diferentes usos da água. Do lado da demanda, temos que incentivar o consumo doméstico consciente, o reúso na área industrial e práticas conservacionistas na área agrícola. No âmbito da oferta, nossos reservatórios deverão ser projetados para atender os múltiplos usos. Em nível global, o Conselho Mundial da Água propôs à Assembleia Geral das Nações Unidas que todos os seus Estados membros subscrevam esse pacto para a segurança hídrica mundial. Esse movimento deverá resultar em um objetivo específico sobre água no âmbito das Metas para o Desenvolvimento Sustentável pós-2015, que serão lançadas na próxima Assembleia Geral em setembro desse ano. No âmbito do Estado de São Paulo, o governo enfrenta a maior crise hídrica de sua história. Sentimos pela primeira vez de forma contundente a importância da segurança hídrica. E medidas de curto, médio e longo prazo já estão em pleno andamento. Entre essas medidas encontram-se obras emergenciais para fazer frente às demandas nesse ano de 2015; obras de curto prazo no horizonte de 2016-2017; a contratação de estudos de viabilidade técnica-econômica de obras de grande porte para a segurança hídrica da Macrometrópole até o ano 2050 e um grande programa estadual de gestão da demanda.

UM PACTO PARA SEGURANÇA HÍDRICA Segurança hídrica consiste em ter assegurados os requisitos humanos de acesso à água de boa qualidade para consumo, higiene e saúde. Consiste também em manter o bom funcionamento dos ecossistemas aquáticos e em utilizar a água para o desenvolvimento socioeconômico através da produção de alimentos, energia e serviços necessários à garantia de um padrão de vida adequado às populações humanas. As mudanças de padrão do clima têm afetado a segurança hídrica dos países em todo o mundo. Mudanças bruscas e imprevisíveis nos padrões de precipitação decorrentes destas mudanças geram incertezas nas

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FOTO: Divul ga

ção

Tietê, possibilitando a diminuição da produção da ETA Guaraú (Sistema Cantareira) para uma vazão próxima a 10 m³/s durante os meses mais secos de 2015, evitando assim o esvaziamento total do Sistema Equivalente do Cantareira. Foi justamente para possibilitar a ampliação da transferência de água de outros sistemas para a região originalmente atendida pelo Sistema Cantareira que foram definidas obras emergenciais a serem implantadas ainda em 2015, que permitirão maior capacidade de produção dos siste-

Benedito Braga é secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo e presidente do Conselho Mundial da Água

represa Billings. Embora a qualidade de água da Billings não seja uniforme, nos trechos mais a montante, nos braços formadores, é satisfatória para transformação em água potável, depois de competente tratamento empreendido pela Sabesp. Por essa razão parte significativa da população metropolitana já é abastecida há décadas a partir de água extraída desses braços formadores, respectivamente Rio Grande e Taquacetuba. Perguntamos a Gesner Oliveira sócio da GO Associados, se ele tinha conhecimento da existência de projetos elaborados há anos (mas que não saíram do papel), que agora estariam sendo reanalisados com o objetivo de aumentar a oferta de água em São Paulo e no Sudeste em geral (sempre acostumados com o gasto de água sem restrições). Sua resposta: “Uma das ações destacadas é o tratamento e reversão do Rio Pinheiros para a represa Billings, que devem ser estudadas a fundo. Como costumo dizer, os projetos de água de reúso também precisam ser incentivados, a exemplo do Projeto Aquapolo Ambiental, que tem capacidade para produzir 1 m³/s de água de reúso a partir da ETE ABC da Sabesp”. *** Em março, o Sistema Alto Tietê produzia cerca de 12 m³/s (frente a uma capacidade de 15 m³/s) devido ao baixo estoque de água bruta nos mananciais. As ações programadas pela Sabesp reforçarão o estoque de água na represa Taiaçupeba, permitindo que a correspondente ETA volte a produzir na capacidade máxima. Por outro lado, após devida aprovação de outorga, será permitida a ampliação da capacidade de produção do Sistema Guarapiranga de 15 para 16 m³/s. Há ações programadas para aumentar o estoque de água bruta no reservatório Guarapiranga. Estas ações se caracterizam como emergenciais por terem papel essencial na manutenção do abastecimento à população sem a necessidade de implantação de rodízio. Vamos aos detalhes. Em primeiro lugar, o bombeamento de 4 m³/s do Rio Pequeno para o Rio Grande e, na sequência, transporte para a Represa Taiaçupeba (Sistema Alto Tietê): a intervenção é composta de uma estrutura de captação localizada no braço do Rio Pequeno. Será montado, nesse novo local, três flutuantes de 350 CV/440 V, com potência total de 1050 CV/772,8 kW, estação elevatória com desnível geométrico de 10 metros que irá bombear a água captada no braço do Rio Pequeno e descarregar no braço do Rio Grande. Na sequência, para levar esta água para a Represa Taiaçupeba, será construída outra estrutura de captação composta de estação elevatória com desnível geométrico de 80 metros, duas adutoras de diâmetro 1 200 mm e extensão aproximada engenharia 625 / 2015

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CAPA CRISE hídrica Boa Vista, fornecida pela Centroprojekt, está em pleno funcionamento desde dezembro de 2014, e em condições normais de operação. Segundo Valdir Folgosi, diretor comercial da Centroprojekt do Brasil, a empresa utilizou o processo de ultrafiltração com membranas submersas da Koch. “Além dessa inovação ao cenário brasileiro, outro fator positivo foi a conclusão da planta em prazo recorde, efetivada em 180 dias, após a finalização das obras civis”, diz. Ele explica que no início da operação foi utilizada água decantada e o desempenho foi muito bom com turbidez abaixo de 0,5 NTU e sem necessidade de dosagem de produtos químicos. “A partir de fevereiro de 2015, a planta começou a operar com água bruta, vinda da Represa de Guarapiranga, e o desempenho continuou o mesmo, acrescentando-se apenas uma pequena dosagem de coagulante”, explica Folgosi, acrescentando que a Sabesp contratou novamente a Centroprojekt para ampliar a planta de tratamento, para disponibilizar mais 1 m³/s de água potável aos paulistanos. “A Centroprojekt se comprometeu a entregar a segunda fase no final de julho deste ano.” Mais uma ação: ampliação da capacidade de bombeamento do braço do Taquacetuba para a represa Guarapiranga. Aqui são intervenções nos equipamentos elétricos da Estação Elevatório de Água Bruta do Taquacetuba, possibilitando ampliar a transferência em mais 0,5 m³/s do braço do Taquacetuba para a represa Guarapiranga. O correspondente pedido de ampliação da outorga para 5 m³/s será submetido ao DAEE e aos órgãos ambientais. A garantia do abastecimento de água à população metropolitana depende da execução e conclusão dessas obras dentro do FOTO: FOTO: Divulgação sabesp

de 13 quilômetros, além de uma estrutura de descarga no Rio Taiçupeba Mirim, tributário da represa Taiaçupeba. As obras irão auxiliar na recuperação do estoque de água desta represa e retorno da produção da ETA ao máximo da capacidade (15 m³/s). Por via de consequência, será possível transferir água para as regiões abastecidas pelo Cantareira. Através de intervenção no sistema adutor (obras para reversão de fluxo no Booster Cangaíba e na adutora Cangaíba-Penha) será possível transferir mais 4,5 m³/s para áreas abastecidas pelo Sistema Cantareira. Em outra intervenção, haverá o bombeamento de 1 m³/s do Rio Guaió para a represa Taiaçupeba (Sistema Alto Tietê). O empreendimento já foi descrito nesta reportagem e é composto de uma estrutura de captação localizada no Rio Guaió, estação elevatória, adutora e estrutura de descarga localizada em tributário da represa Taiaçupeba. Outra ação já comentada rapidamente aqui é a ampliação da capacidade de tratamento da ETA Alto da Boa Vista (ABV) de 15 para 16 m³/s (+ 1 m³/s no Sistema Guarapiranga). No caso, trata-se da implantação de mais um módulo de ultrafiltração com membrana, com capacidade de 1 m³/s, semelhante ao equipamento recentemente instalado e já em operação na ETA do ABV. Para transferir esta vazão adicional de 1 m³/s, serão executadas obras para ampliação do Booster Cadiriri, aumentando a vazão na adutora ABV-Jabaquara. Também será executada a recuperação de uma linha da adutora França Pinto, que permitirá ampliar o abastecimento do Sistema Guarapiranga para a região da Avenida Paulista, Ipiranga e São Caetano do Sul. A planta de tratamento de água do Alto da

Valdir Folgosi, diretor comercial da Centroprojekt do Brasil

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cronograma, ainda em 2015. Nesse sentido, o desenvolvimento dos projetos e as tratativas para obtenção das correspondentes licenças estão sendo feitas celeremente, sem qualquer descuido com a abrangência, profundidade e qualidade dos trabalhos. Ainda na linha de ampliar a capacidade de transferência de água tratada entre os sistemas produtores e visando a recuperação dos mananciais afetados pela crise e o aumento da segurança hídrica para a RMSP, outras obras para reforço dos mananciais do Guarapiranga e Alto Tietê estão sendo estudadas e encontram-se ainda em fase de concepção/ projeto. São obras com características estruturantes e fundamentais para a recuperação do abastecimento na RMSP. Quando construídos, os empreendimentos irão fornecer água de excelente qualidade para a Grande São Paulo e possibilitarão melhor aproveitamento das instalações existentes (ganho de produtividade). Todavia, tendo em vista as exigências da legislação ambiental, não será possível concluí-las ainda em 2015. Listamos essas obras a seguir. Transferência de 1 m³/s do Alto Juquiá para o Ribeirão Santa Rita (bacia Guarapiranga): captação e estação elevatória no Rio Juquiá, e implantação de adutora até o Ribeirão Santa Rita, com extensão em torno de 5,3 quilômetros e diâmetro de 1 000 mm. Transferência de 2,5 m³/s do Rio Itapanhaú para a represa Biritiba (Sistema Alto Tietê): captação e estação elevatória no Rio Sertãozinho, afluente do Rio Itapanhaú e implantação de adutora até o Rio Biritiba Açu, tributário da represa Biritiba-Mirim, na bacia do Alto Tietê, com extensão em torno de 7,3 quilômetros e diâmetro de 1 200 mm. Transferência de 2 m³/s do Rio São Lourenço para o Ribeirão das Lavras (bacia Guarapiranga): captação e estação elevatória no Rio São Lourenço e implantação de adutora até o Ribeirão Lavras, com extensão em torno de 9 quilômetros e diâmetro de 1 200 mm. Transferência de 1,2 m³/s do Rio Itatinga para a represa Jundiaí (Sistema Alto Tietê): captação e estação elevatória no Rio Itatinga, e implantação de adutora até tributário da represa Jundiaí, na bacia do Alto Tietê, com extensão em torno de 5,7 quilômetros e diâmetro de 900 mm. Além disso, estão fartamente relatadas nesta edição duas obras de grande porte: a PPP São Lourenço, em construção – com entrega prevista para o final de 2017 –, e a interligação das bacias do Paraíba do Sul (reservatório Jaguari) e Piracicaba (reservatório Atibainha), prevista para o final de 2016. O novo sistema São Lourenço poderá aportar mais 6,4 m³/s à capacidade de produção do www.brasilengenharia.com


*** O citado relatório da Sabesp fornece todos os detalhes da crise hídrica que se caracterizou pela ausência das chuvas de primavera e verão de 2013/2014. A gênese da crise foi a ocorrência de formação de zona de alta pressão atmosférica a 6 000 metros de altitude, que bloqueou a chegada das frentes da Amazônia, da Zona de Convergência do Atlântico Sul e das frentes frias do Polo Sul, alterando a dinâmica da região Sudeste do Brasil. Neste período do ano hidrológico (outubro de 2013 a fevereiro de 2014) ocorreram 444 mm de chuvas na região do Cantareira, quando a média é de 995 mm (55% a menos, portanto). Sobre a previsibilidade do sistema de bloqueio, os diagnósticos mais confiáveis descrevem que o sistema meteorológico causador da falta de chuvas na maior parte do setor leste do país não pôde ser previsto com antecedência de semanas ou meses, em função das limitações da previsão climática sazonal na região Sudeste do Brasil. As previsões existentes em outubro e novembro de 2013 não indicavam como cenário mais provável o de chuvas inferiores ao normal nessa região. Assim, o sistema de alta pressão só foi previsto a partir de modelos numéricos de previsão de tempo, poucos dias antes do seu estabelecimento. Por isso, a análise feita pelos especialistas da área ocorreu a posteriori. A gravidade e a excepcionalidade da seca histórica são reconhecidas por todos, desde especialistas até a população usuária do sis-

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FOTO: Divulgação sabesp

Sistema Integrado Metropolitano (SIM) da Sabesp e a interligação Jaguari-Atibainha possibilitará a transferência de 5,13 m³/s para o Sistema Cantareira, sendo esta última obra de fundamental importância para a recuperação das represas desse sistema e o aumento da segurança hídrica.

Samanta Tavares de Souza, gerente da gestão das relações com os clientes da Sabesp tema de água tratada da Sabesp. Afinal, como informa Samanta Tavares de Souza (gerente da gestão das relações com os clientes da Sabesp), a adoção da estratégia de concessão de bônus para quem faz economia de consumo – que completou um ano em maio passado – teve a adesão de 82% dos usuários – o que representa hoje uma redução de consumo de 6,2 m³/s. Essa manifestação de solidariedade da população ao apelo do governo por economia de água pode ser interpretado como uma tomada de consciência sobre a importância da crise hídrica. Mas, de forma sincera e transparente muitos diretores da Sabesp se questionam que se não existisse o bônus, talvez o nível de adesão aos apelos por economia de água na crise não fosse tão surpreendentemente grande. “Não sabemos

como seria o comportamento da população sem o bônus”, admite Marco Antonio Lopez de Barros, superintendente de Produção de Água da Sabesp para a RMSP. Para ele, a manutenção do bônus até o final deste ano – já decidida pela companhia – é um incentivo para que a população continue economizando até que isso se torne um hábito na rotina do dia a dia. Pelo relatório, mesmo com a dissipação do fenômeno iniciado em meados de fevereiro de 2014, a condição climatológica ao longo de 2014 continuou crítica, com as precipitações pluviométricas muito abaixo das médias. Consequentemente os reservatórios continuaram a esvaziar. As médias de chuvas no ano hidrológico 2013/2014 ficaram bem abaixo das médias históricas em todos os sis-

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CAPA CRISE hídrica controle pela duvidosa alocação dos escassos recursos públicos. Como muito ainda restava (e ainda resta) para ser feito com vistas à universalização do saneamento, uma análise baseada em prognóstico fundamentalmente subjetivo e estimativo recomendaria investimentos na infraestrutura para coleta e tratamento de esgoto. Porém, numa análise depois da sua execução, do tipo “comentarista de videoteipe” ou “engenheiro de obra feita”, a alocação prioritária dos escassos recursos financeiros para reforço do sistema produtor de água potável, mesmo em detrimento de investimentos no saneamento, teria sido uma decisão premiada pela sorte. Uma vez frente a frente com o fenômeno climático extremamente desfavorável ocorrido e com a necessidade de manutenção de condições operacionais dos reservatórios, no entanto, era preciso partir para o enfrentamento da crise hídrica. Daí restou a evidente necessidade de medidas urgentes para permitir a redução das vazões produzidas pelo Sistema Cantareira. A Sabesp, então, passou a avaliar as estratégias para tal enfrentamento, tendo como opções a adoção da providência clássica – a implantação de um rodízio – ou outra medida para a redução da vazão produzida na ETA Guaraú. Examinada em detalhe, a alternativa dos rodízios de abastecimento representa interrupções planejadas no fornecimento de água à população, baseadas em regras que alternam períodos com e sem abastecimento, com o objetivo de reduzir a vazão disponibilizada para a população e, consequentemente, a retirada de água do manancial. Para obter redução de vazão com um rodízio, parte-se FOTO: Divulgação sabesp

temas produtores da RMSP, destacando-se principalmente o Sistema Cantareira. Como consequência direta da falta de chuvas, todos os sistemas produtores, sem exceção, tiveram afluências abaixo das médias, prejudicando a recarga dos mananciais. A estiagem de 2014 foi, portanto, um evento excepcional, sem precedentes na longa série histórica de observações. A vazão média afluente aos reservatórios do Sistema Cantareira no ano de 2014 foi a menor da série de 85 anos. A vazão média de 2014 (11,3 m³/s) foi cerca de um quarto da média anual (44,1 m³/s). Numa comparação feita mês a mês, entre fevereiro/2014 e janeiro/2015 foram registradas as menores vazões de toda a série. Ou seja, em nenhum ano anterior haviam sido observadas afluências ao Cantareira tão baixas como o ocorrido ao longo de 2014. Dessa forma, a crise hídrica de 2014 acarretou uma mudança de paradigma, uma vez que, até então, os registros indicavam que o ano de 1953 havia sido o mais crítico da história, quando se registrou uma vazão média de 24,6 m³/s, mais que o dobro do observado em 2014. Até o final de 2013 não havia evidência que seria provável a ocorrência de uma afluência tão baixa quanto a que ocorreu em 2014. Pelo contrário, ao final de 2013 a probabilidade que ocorresse uma vazão média menor ou igual a 11,3 m³/s (como a ocorrida em 2014) era mínima. É razoável supor que se o administrador público destinasse vultosos investimentos antes de 2014 para se precaver contra uma seca de baixíssima probabilidade poderia ser questionado pelas entidades de

Marco Antonio Lopez de Barros, superintendente de Produção de Água da Sabesp para a RMSP

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da vazão original, agrupam-se os setores de abastecimento em blocos para viabilizar as manobras em campo (abertura e fechamento de válvulas, acionamento e desligamento de bombas, acompanhamento das pressões nas redes, entre outras) e estabelecem-se o tipo e a intensidade do rodízio (regra que estabelece períodos com e sem água para cada bloco). Diferentes alternativas para a periodicidade da suspensão do abastecimento caracterizam o rodízio como mais brando ou mais severo. A escolha de uma determinada alternativa é função do valor necessário para evitar o colapso do sistema produtor, conforme as avaliações de probabilidade definidas pela área de Hidrologia da Sabesp. O rodízio apresenta as seguintes vantagens: a redução do consumo per capita é compulsória; a parcela da população que não economizaria água voluntariamente é forçada a economizar; a região do Sistema Cantareira fica dividida em blocos, possibilitando novos avanços dos outros sistemas em sua área de influência. Por outro lado, apresenta as seguintes desvantagens: riscos sanitários; aumento dos riscos de vazamentos nas redes que deixa uma “herança” nas tubulações após o final do rodízio, com grande impacto no aumento das perdas; necessidade de criação de contingência para os serviços essenciais; regiões mais distantes e altas podem ficar dias sem receber água pelo eventual risco de descontrole na operação do rodízio, causado, por exemplo, por ocorrências de falta de energia, vazamentos, altas temperaturas, entre outros, podendo aumentar o grau de desconforto para a população e, consequentemente gerar graves perturbações sociais. Agora, examinem-se as ações de contingência para redução de vazões. Pensando-se no menor impacto para a população e menor risco operacional de implantação, a Sabesp estruturou um plano para redução das vazões retiradas do Cantareira, cuja estratégia de atuação foi baseada em três pontos centrais: incentivo à redução do consumo de água dos clientes através de implantação de Programa de Bônus; transferência de água tratada de outros sistemas produtores para a área atendida pelo Sistema Cantareira; intensificação do Programa de Combate às Perdas, com redução do tempo de conserto de vazamentos, ampliação das setorizações, ampliação do percentual de rede coberto por válvulas redutoras de pressão e redução das pressões nas redes, diminuindo vazamentos. Pelo relatório da Sabesp é possível afirmar que a estratégia criada, quando comparada com a medida clássica do rodízio, é menos prejudicial à rotina dos quase 9 milhões de habitantes anteriormente atendidos pelo Cantareira. — A implantação do programa de bônus www.brasilengenharia.com


segurar o abastecimento, teríamos um dia sem água e dois dias com água. É mais sacrificado do que a situação que temos hoje. Porque no momento atual, salvo exceções, todo mundo tem água o dia inteiro. O que podemos perceber é que as pessoas que sofrem mais é porque acabaram negligenciando o abastecimento interno. Seja por falta de reservação ou até mesmo por condições conhecidas de todos, ou seja, tem gente que quer economizar na execução das instalações hidráulicas e acaba por subdimensionar as mesmas.” As medidas de combate à crise, na voz de profissionais linha de Sabesp

As medidas de combate à crise, na voz de profissionais linha de frente da Sabesp

S

obre a criação do Programa de Incentivo à Redução de Consumo para contribuir para a redução da vazão de retirada do Sistema Cantareira, visando estimular a população a mudar costumes e rotinas dentro do imóvel, adotando ações para reduzir o gasto de água, pedimos a Samanta Tavares de Souza, gerente da gestão das relações com os clientes da Sabesp, que fornecesse um quadro geral sobre o programa de incentivo à economia de água da Sabesp: nível de adesão dos usuários e números mais recentes do Programa Bônus. Ela optou por relatar a sequência dos acontecimentos – uma espécie de “linha do tempo” para facilitar a contextualização. “A gente se deparou com um cenário de escassez hídrica que saltou aos olhos em janeiro de 2013 com as ocorrências das temperaturas altas e zona de alta pressão. A Sabesp fez uma avaliação e foi à mídia para alertar sobre a questão da falta de chuva. Em janeiro de 2014 a diretoria da Sabesp disse que a situação havia se agravado. E durante o mês de janeiro a Sabesp www.brasilengenharia.com

começou a implantar a primeira fase do plano contingencial para que conseguíssemos superar a crise. Do ponto de vista comercial, o primeiro passo da Sabesp diante desse cenário foi durante o mês de janeiro de 2014 entrar com pedido na agência reguladora em caráter emergencial solicitando a aprovação do programa de incentivo à redução de consumo de água – o bônus –, que naquele momento tinha o objetivo de bonificar todos os clientes que morassem na região do Sistema Cantareira e contribuíssem com 20% de redução do consumo, concedendo a eles 30% de redução na tarifa durante o período de fevereiro a setembro de 2014. Ou seja, nossa meta naquele momento era que todo esse pessoal reduzisse 20% seu uso de água. Se naquele momento toda a região fizesse 20% de redução isso ajudaria muitíssimo para que a gente ultrapassasse esta fase. E isso de fato aconteceu, como veremos.” A implantação do Programa de Bônus foi aprovada pela agência reguladora Arsesp, através da Deliberação nº 469/2014.

Foto: Divulgação gesp / A2img / Daniel Guimarães

e a intensificação do programa de combate às perdas foram mais acertadas do que a adoção de uma política de rodízio de abastecimento? — perguntamos ao superintendente de Produção de Água da Sabesp para a RMSP, Lopez de Barros. “Sim. O nosso entendimento operacional é que estas ações que a companhia adotou foram mais acertadas do que se tivesse aplicado o rodízio desde o inicio da crise. Na condição operacional do momento em que estávamos trabalhando, em fevereiro de 2014, se tivéssemos aplicado o rodízio para

O programa se iniciou em 1º de fevereiro de 2014, na região do Sistema Cantareira, e avançou para os demais sistemas, considerando a lógica de avanço de transferências entre sistemas. Juntamente com o programa foi desencadeada uma série de campanhas de conscientização para a população, com ampla divulgação, incluindo desde anúncios de televisão a visitas porta a porta, para distribuição de folhetos e cursos sobre uso racional de água. Após um ano de vigência do Programa de Bônus, identificou-se que uma parcela da população manteve o consumo de água acima da média estabelecida, mesmo com toda a campanha de conscientização existente. Daí, para inibir este consumo foi criada a tarifa de contingência, cobrada dos clientes cujo consumo mensal tivesse ultrapassado a média apurada no período de fevereiro/2013 a janeiro/2014. A tarifa de contingência é aplicada inclusive para clientes com contrato de Demanda Firme, em sua maioria indústria e comércio. A tarifa de contingência é de 40% sobre o valor da tarifa de água para quem exceder em até 20% a média do consumo ou 100% sobre o valor da tarifa de água para quem ultrapassar 20% da média.” — Como você enfrentou o desafio a partir de fevereiro de 2014? — perguntamos a Samanta. “Bom, em 1º de fevereiro a Arsesp aprovou, a Sabesp anunciou e aí começamos um plano de comunicação estruturada que levou até os clientes informações para que eles tivessem subsídio para fazer economia. A partir de então começamos a fornecer todos os dados estatísticos para a opinião pública saber das razões da Sabesp. Fizemos campanhas de massa. Aviso prévio na conta. Aviso porta a porta para os clientes, orientando o que eles podiam fazer para chegar aos 20% de economia de consumo. Colocamos cartazes em todos os condomínios. Naquele momento os condomínios residenciais tinham uma baixa gestão de consumo – o que não ocorre mais hoje. Atualmente o condomínio é uma categoria que diminuiu fortemente o seu consumo. Passou essa primeira fase. Depois de 55 dias que se tinha implantado o plano, porém, a situação se agravou e os órgãos reguladores de recursos hídricos começaram a restringir a retirada do Cantareira. E a Sabesp, com base nesse cenário, resolveu expandir o bônus para toda a Grande São Paulo mais a Bacia do PCJ. E iniciamos então essa ação. Fizemos outra campanha de divulgação. Como nós tínhamos esses 55 dias do Cantareira como ensaio, foi possível detectar uma série de comportamentos e qual eram os nichos de clientes que tinham oportunidade de melhoria. E aí começamos a fazer estratégias específicas para cada nicho.” engenharia 625 / 2015

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CAPA CRISE hídrica

FOTO: Leonardo Moreira

material divulgamos outras coisas para os — Quais foram os principais nichos? — clientes. Então construímos um projeto chasolicitamos de Samanta. mado Projeto Água, que é uma unidade mó“Os condomínios e as grandes empresas vel – geralmente um veículo van – que vai eram naquele momento nosso foco. Porque com agentes da Sabesp até a população em àquela altura o cliente residencial unifamilocais populosos. Isso porque a experiência liar, as casas já apresentavam um nível de do voluntariado já tinha dado certo. Agora redução de consumo considerável. Bom, estamos todos os dias num ponto diferenaí a gente começou a fazer campanhas em te da cidade fazendo isso. É uma van com condomínios: de cobertura de piscina, de identidade visual voltada para a economia utilização de água de chuva para as áreas de água. Além disso, agora com foco nos comuns e diversas outras ações. Depois degrandes consumidores, mos curso de pesquisa a gente fez parcerias vide vazamento. CondoO Sistema São sando programas de uso mínio tem muita alta de Lourenço, uma racional de águas com consumo por vazamento entidades empresariais interno que não é moniparceria públicocomo Secovi e CBIC, astorado. A gente treinou sociações nacionais de 7 000 síndicos e zelaprivada, é a maior bares e restaurantes, de dores dos municípios da Grande São Paulo obra hidrográfica em supermercados, de condomínios, empresas púpara que eles mesmos andamento no país blicas e privadas como a pudessem fazer alguns Cia. do Metrô, a CPTM, testes em seus conBradesco, Itaú, Carrefour, Grupo Abril, e sedomínios, para ver se o que eles gastavam cretarias estaduais. São parcerias tanto para era por consumo dos apartamentos ou se a força de trabalho delas traçarem planos estava perdendo água em vazamentos. Fidomésticos de consumo familiar em suas cazemos blogs, cadernos especiais em jornais sas, como para elas usarem no conjunto de diários com dicas. E aí num determinado seus negócios. Também publicamos práticas momento de junho de 2014 nós mobilizade economia de água nas redes sociais. E a mos 2 000 funcionários da Sabesp para ir Sabesp tem uma prática de relacionamena campo, em locais de grande circulação, to com seus clientes desde 2012, pelo qual para tirar duvidas da população. Nesses lua empresa mantém comunicação direta via gares a gente fez algumas pesquisas para SMS e ligações ativas fonadas em que se faz saber o que os clientes queriam saber a mais uma gravação da mensagem que se quer da Sabesp para reduzir o consumo. Nesse passar para o consumidor. Nesses casos dadia – um dia de mobilização – atingimos mos aos consumidores informações perso60 000 pessoas abordando o que podenalizadas sobre como economizar água. Aí ria melhorar a vida delas e em cima desse

Eric Carozzi, superintendente de desenvolvimento operacional da Sabesp

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chegamos a outubro de 2014 intensificando ainda mais a gestão do consumo na região metropolitana. Nesse mês o governador Alckmin anunciou, em conjunto com Sabesp, um novo incentivo à população, porque esta vinha se mostrando muito motivada a economizar. Em 24 de outubro de 2014 foram ampliadas as faixas de desconto do programa de bônus – faixa com 20% de desconto para quem economizasse de 15 a 20% e faixa com 10% desconto para quem economizasse de 10 a 15%.” — E o que foi feito para reprimir o gasto exagerado de água? — pedimos a Samanta. “Paralelamente a essa questão do bônus nós começamos a tratar de outras estratégias que pudessem impactar indiretamente no consumo. Então passamos a discutir as tarifas de contingência. Mesmo com a consciência geral tendo melhorado muito, uma pequena parcela de clientes consumia um volume muito maior do que aquele que acontecia em 2013 que foi um ano de normalidade hídrica. Bom, aí encaminhamos a proposta de uma tarifa de contingência para a agencia reguladora Arsesp, que analisou e fez considerações. No dia 8 de janeiro deste ano foi anunciada a criação da tarifa de contingência – ou seja, ônus – para quem consumir acima da meta estipulada no programa. A partir daí a gente voltou com a mesma estratégia: divulgação em massa, porta a porta, o pessoal que faz a leitura e entrega da conta continua ajudando a orientar o cliente sobre bônus e começa a instruir sobre tarifa de contingência. Em 9 de fevereiro os clientes começam a receber a conta com o ônus. Inclusive os clientes são orientados a procurar a Sabesp quando ele é contingenciado e seu perfil de consumo não é o apurado – ou seja, pode ter havido algum problema especifico, a vida dele pode ter mudado e assim por diante. Em março passado 18% dos clientes apresentaram consumo no mês acima da média estabelecida pelo programa, sendo que para 11% houve a aplicação da tarifa de contingência e para 7% não, por terem o consumo mensal abaixo de 10 metros cúbicos ou estarem cadastrados em tarifa social.” — Que mais vocês fizeram no sentido de economizar o consumo de água? — prosseguimos. “Bom, além da tarifa de contingência, foi anunciado um programa de governo chamado ‘Água, sabendo usar não vai faltar’. Ao lado da criação da faixa de bônus houve a distribuição de kits economizadores, que são redutores de torneira. É um pequeno redutor de plástico que se coloca na entrada da torneira para que a pressão da água seja menor, um equipamento de simples instalação. No kit vai um passo a passo de como usar. Ele proporciona uma redução de consumo www.brasilengenharia.com


da torneira de 20%. Sei que você vai perguntar, portanto me adianto: sim, a estratégia de entrega do kit para os condomínios é diferente da estratégia de entrega para os domicílios tipo casa. Nas casas a entrega do kit é porta a porta pelo profissional que vai fazer a leitura. No caso do condomínio é entregue à empresa administradora – daí as parcerias com o Secovi e a CBIC. O pacote é entregue à administradora. Se o condomínio tem 100 apartamentos, ela recebe 100 kits. Outras estratégias, como a redução da pressão, foram muito importantes. Com isso as casas que estavam com as reservações inadequadas, foram prejudicadas. Principalmente nas periferias, onde as casas não suportam um reservatório de água no seu teto de telha ‘brasilit’ e a ligação de água é conectada diretamente na rua. Com redução de pressão ficava patente que essas casas precisavam de uma caixa d’água. Nossas equipes de campo observaram que essa incidência ocorria em aproximadamente 25 000 residências da Grande São Paulo, então, em parceria com a Defesa Civil, a Sabesp passou a fazer um cadastro desses imóveis e está ainda entregando caixas d’água para esse nicho de clientes. Até meados de maio tínhamos entregado 5 200 caixas. Até agosto pretendemos completar as 25 000. É demorado porque a logística é complicada, imagina fazer transporte de caixa e levar na porta do cliente e veja o quão difícil é. Quando a gente faz esse programa de entrega de caixa, a gente está atuando de forma a também orientar o morador: ou ele faz a instalação da caixa dentro das normas técnicas do artefato que a gente entrega para ele, ou ele pode optar por outras formas. É comum haver casos em que não há alternativa, se o morador colocar a caixa a casa cai. Para esses casos então a gente identifica um lugar no solo, no chão, e ele usa a caixa como cisterna. Porque se não o cliente nunca teria uma caixa, ou seja, nós teríamos que construir uma casa nova para ele, o que não é possível. Nós entregamos a www.brasilengenharia.com

caixa sempre com tampa, não só pelo perigo do mosquito da dengue como para higiene do próprio cidadão, para não ter contaminação, ou seja, a presença de pequenos animais e insetos na água do reservatório. Em linhas gerais está sendo isso. Todas essas medidas que tomamos até agora permitiram que pudéssemos minimizar os efeitos da crise hídrica. Nós continuamos atuando da mesma forma, inclusive porta a porta com nosso staff. E procuramos aprimorar a cada dia que

passa essa questão de nosso relacionamento com o cliente. Importante: nosso programa continuará pelo menos até o final de 2015.” — Vamos aos números agora? — propusemos. “Em termos de bônus, nós conseguimos do inicio do bônus até maio deste ano uma redução de 6,2 m³/s de consumo na Grande São Paulo. O que estou falando é que em 12 meses – completando em maio – nós chegamos a um status de diminuição de 6 200

litros de água por segundo. Hoje estamos com uma adesão dos clientes em relação ao bônus de 82%. Esses reduziram o consumo de água. E apenas 18% aumentaram o consumo. Só que desses 18% de gastadores, nós temos 7% de clientes que consomem muito pouco, até 10 metros cúbicos. Esses não estão sujeitos à tarifa de contingência. Porque esses 7% são clientes que já consumiam muito pouco desde sempre. Ou porque moram sozinhos ou porque sempre tiveram consciência ambiental, coisas assim. Efetivamente apenas 11% dos clientes da Sabesp estão pagando a tarifa de contingência. Porque estão consumindo realmente mais do que consumiam em 2013. Aí mistura comércio, indústria, residência, condomínio, tudo. A tendência é que esse número vá caindo. Os condomínios, por exemplo, reduziram significativamente o consumo.” — Qual o universo abrangido pelos chamados grandes clientes? Como é essa história? — indagamos de Samanta. “Os grandes clientes são os clientes fidelizados, que consomem água segundo contratos que chamamos de demanda firme. Em fevereiro de 2015 nós suspendemos todos esses contratos. A demanda firme, ou contratos take-or-pay – preço fixo para a água, que é pago para a nossa companhia mesmo que ela não seja usada – constituem um compromisso de exclusividade firmado entre o cliente e a Sabesp, cujo objeto é o fornecimento de água e/ ou coleta/tratamento de esgotos, com uma política de preços diferenciados. A partir daquele momento – fevereiro passado a gente suspendeu a demanda firme. A propósito, esses clientes foram os que apresentaram a maior redução de consumo, chegando a 27% de diminuição.” — Quer dizer que qualquer notícia de que os contratos de demanda firme continuam vigorando está equivocada? — questionamos. “Sim. E já que você tocou no tema, deve-se esclarecer que quando se fala de tarifa engenharia 625 / 2015

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Engenharia e conscientização para a travessia do deserto de 2015 O presidente da Sabesp, engenheiro Jerson Kelman, aborda seus primeiros seis meses no comando da companhia e destaca as principais ações empreendidas para o enfrentamento da mais grave seca da Região Metropolitana de São Paulo No início de 2015, ao assumir o desafio de enfrentar a pior crise hídrica da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), em um momento em que o armazenamento do Sistema Cantareira estava próximo a 5%, resolvi fazer um extenso sobrevoo sobre os principais reservatórios e rios que abastecem as 39 cidades e mais de 22 milhões habitantes. Em uma região cuja disponibilidade hídrica per capita chega a ser menor que a do estado do Piauí, qualquer nova possibilidade faria toda a diferença, sobretudo quando vivenciávamos o momento mais crítico da seca. Ao longo de 2014, a afluência ao Sistema Cantareira tinha sido a metade da registrada em 1953, o pior ano do histórico, e apenas 25% da média dos últimos 85 anos. A probabilidade de ocorrer um evento como o de 2014 é de 0,004, ou seja, com tempo de recorrência de 250 anos. Enquanto buscávamos in loco informações que complementassem os dados de planilhas, plantas e mapas, tornava-se evidente

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a necessidade de encontrar saídas de curtíssimo prazo para encarar a árdua travessia do deserto de 2015. Passamos a atentar para cursos d’água talvez tidos como menores num primeiro olhar, mas que seriam fundamentais para compor soluções rápidas e decisivas. Dentre algumas opções interessantes, conseguimos visualizar alternativas na vertente atlântica, a exemplo do Rio Itapanhaú, que nasce em Biritiba Mirim, próximo a Mogi das Cruzes, e desce para Bertioga, no litoral paulista. O bombeamento de suas águas para a vertente metropolitana era uma obra rápida, de aproximadamente sete meses, porém inviabilizada como solução para 2015 em função do maior tempo demandado pelo processo de licenciamento ambiental (EIA Rima). Diante dessa corrida contra o tempo, além de dar sequência às medidas acertadamente tomadas ao longo de 2014 (captação das reservas técnicas, avanço de sistemas de abastecimento sobre áreas atendidas pelo Cantareira, calibragem de pressão nas redes e a bonificação para

as manobras para redução da pressão são realizadas manualmente. A Norma Brasileira NBR 12.218/94 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) prevê pressão dinâmica mínima de 10 mca (metros de coluna de água) nas redes públicas de distribuição. A Sabesp atende à referida norma em todas as situações de projeto de suas redes de distribuição. No entanto, o texto dispõe em um de seus itens que “os valores da pressão estática superiores à máxima e da pressão dinâmica inferiores à mínima podem ser aceitos, desde que justificados técnica e economicamente”. Ou seja, em uma situação real de operação da distribuição de água, especialmente com as restrições atuais oriundas da crise hídrica, a pressão dinâmica pode ficar abaixo dos 10 mca, conforme a demanda daquele momento e, principalmente nos horários de maior consumo, em consonância com o previsto na própria norma. Importante destacar que a manutenção das redes pressurizadas, mesmo em patamares reduzidos (por exemplo, 1 mca), evita a entrada de materiais estranhos na rede, que poderiam comprometer a qualidade da água distribuída à população. Na situação atual, ção sabesp

quisa de vazamentos não visíveis por métodos acústicos; apontamento de vazamentos pelos TACE (Técnico de Atendimento ao Cliente Externo); mutirão de caça-vazamentos; reabilitação e troca de redes de água; intensificação da troca de ramais de água; treinamento, qualificação e certificação da mão de obra; redução dos prazos de atendimento para conserto de vazamentos. Uma das principais medidas da Sabesp para combater a crise hídrica consiste na redução da pressão nas redes de distribuição, de modo a minimizar as perdas físicas. Essas operações estão sendo realizadas em horários pré-estabelecidos, divulgados amplamente pela companhia e disponíveis para consulta pública através dos canais de relacionamento com os clientes (Central de Atendimento Telefônico, Agências de Atendimento, site da Sabesp na internet e redes sociais). A Sabesp dispõe atualmente de cerca de 1 500 válvulas redutoras de pressão em operação na RMSP, o que representa uma cobertura de aproximadamente 46% da rede de distribuição. Nas áreas onde a rede de distribuição de água não é coberta por válvulas redutoras de pressão,

consumidores mais econômicos) tivemos que optar por ações imediatas. Elas permitirão, em 2015, acrescentar 6 000 litros de água por segundo (6 m³/s) ao Sistema Metropolitano de Abastecimento. Com a ampliação da produção, reservação e redistribuição de áreas atendidas pelos sistemas, que são interligados, estamos buscando minimizar os impactos no Cantareira e Alto Tietê, os dois mais afetados pela estiagem. Neste sentido, em abril entregamos a nova adutora do Rio Grande, tubulação de 2,1 quilômetros de extensão que permite levar água do Sistema Rio Grande (Billings) até a região de Pedreira, na zona sul da capital, onde passou a abastecer aproximadamente 250 000 pessoas antes atendidas pelo Guarapiranga. A “sobra” de água do Guarapiranga foi redirecionada para áreas anteriormente atendidas pelo Cantareira. No final de maio, finalizamos nova ligação entre duas adutoras em Vila Ema, na zona leste da capital, ampliando o transporte de água pelo aqueduto do Sistema Rio Claro, uma tubulação de 80 quilômetros de extensão que parte de Salesópolis. A obra permitiu o envio de mais 500 litros de água por segundo – volume suficiente para abastecer cerca de 200 000 pessoas – do Sistema Rio Claro para bairros da zona leste que recebiam água do Sistema Cantareira. Além disso, estamos empreendendo um FOTO: Divul ga

de desconto, a tarifa do contrato de demanda firme é de 9,17 reais por metro cúbico. O cliente residencial paga 1,78 real por metro cúbico. É uma relação considerável. O cliente grande consumidor subsidia o custo da água consumida por todos os clientes que consomem até 20 metros cúbicos. Essa é a realidade dos fatos.” *** Segundo Eric Carozzi, superintendente de desenvolvimento operacional da Sabesp, frente à crise intensificou-se também o combate às perdas de água. O Programa de combate às perdas empreendido pela Sabesp tem caráter permanente e envolve investimentos de grande porte (previsão de 5,2 bilhões de reais para o período 2009-2020). Graças a este programa, as perdas na Grande São Paulo têm sido reduzidas à taxa média de 1,2 pontos percentuais ao ano na última década. As principais medidas, dentro desse esforço planejado e sempre intensificado para a redução das perdas reais ou físicas, preveem: instalação e otimização de VRPs (Válvulas Redutoras de Pressão); implantação e revisão de setorização e DMCs (Distritos de Medição e Controle); otimização de boosteres; pes-

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atípica e anômala, é imperioso destacar que a redução de pressões tem se mostrado a ação mais eficiente no enfrentamento da crise hídrica, sendo responsável pela redução apenas no Sistema Cantareira, de 7,3 m³/s (março de 2015), o equivalente a 41% de toda economia obtida nesse Sistema. — As perdas de água da Sabesp continuam representando um dos grandes dilemas da companhia? A meta é chegar até 2020 com um índice entre 13% e 17% de perdas? — perguntamos a Eric Carozzi. “Em fevereiro de 2015 o nível de perdas relativo à micromedição ficou em 29,3%. Quero esclarecer que até pouco tempo atrás, quando fazíamos referência de 13% a 17% como meta, nós utilizávamos o índice de perdas percentual do faturamento [índice de perdas do faturamento]. Não são indicadores adequados tecnicamente, por causa do conceito deles. O que é o índice de perdas? As perdas estão diretamente ligadas às condições da infraestrutura instalada e à eficiência operacional e comercial na gestão dessa infraestrutura. Basicamente, as perdas nos sistemas de abastecimento correspondem à diferença entre o volume total de água

produzido nas ETAs e a soma dos volumes entregues a todos os clientes, os quais são medidos mensalmente por meio de hidrômetros instalados nos imóveis dos usuários. É importante esclarecer que essas perdas de água são divididas em duas parcelas: as perdas físicas, ou reais, e as perdas não físicas, ou aparentes. As perdas físicas correspondem ao volume que não são consumidos, por serem perdidos em vazamentos no percurso feito pela água, desde as estações de tratamento até os pontos de entrega nos imóveis dos clientes. Esses vazamentos ocorrem, principalmente, devido ao envelhecimento das tubulações e às elevadas pressões. Já as perdas não físicas correspondem aos volumes de água que são consumidos, mas não são contabilizados pela companhia, principalmente devido às fraudes – os chamados ‘gatos’, às irregularidades ou a submedição dos hidrômetros. Portanto, as perdas não físicas representam, basicamente, perda de faturamento da empresa, não devendo ser confundida com a parcela de perda física, que corresponde ao tão precioso recurso hídrico não consumido. Você tem o volume produzido nas ETAs e aí desconta o consumo

dos clientes e divide pelo volume produzido.” — Como é o índice de perdas relativo à micromedição? — pedimos que Carozzi explicasse. “Quando eu uso o índice de perdas da micromedição – e nesse caso os volumes medidos são menores -, o índice de perdas percentual fica maior. Quando uso o índice faturado, como também é considerado o volume virtual isso acaba reduzindo o índice de perdas. Então no passado quando começamos o programa ainda se usava o índice faturado. Mas no meio do caminho resolvemos mudar e hoje usamos o critério da micromedição. Para você te uma ideia da diferença que existe entre um método e o outro, hoje o índice de perdas por faturamento está em 19,9%. Se for olhar o micromedido está 29,3%: ou seja, são 10% de diferença. Então quando tínhamos aquela meta de 13% estávamos usando o índice de faturamento. Agora mudamos o conceito e houve um reenquadramento das metas, isto é, houve uma revisão. A meta hoje é 25,9% para 2020, relativa à medida de índice de perda na micromedição. Para 2015 a meta é 29,7%, para 2016 é 29%, para 2017 é 28,1%. Com a crise hídrica houve uma intensificação da gestão

ritmo acelerado na execução das duas principais soluções para este ano de 2015. Com uma delas estamos ampliando a entrada de água no Sistema Alto Tietê a partir da transferência de 1 000 litros por segundo do Rio Guaió, em Suzano, para a represa Taiaçupeba, que faz parte do Sistema Alto Tietê. A obra foi inaugurada no final de junho e sua execução – instalação de nove quilômetros de adutoras e uma estação de bombeamento – levou apenas quatro meses. Até setembro, o Sistema Alto Tietê também será beneficiado pela interligação do braço Rio Grande da Represa Billings à de Taiaçupeba. Trata-se da mais complexa obra de 2015, que possibilitará a transferência 4 m³/s entre as duas represas. Paralelamente, em retaguarda à transferência para o Alto Tietê, estão sendo instaladas bombas e adutora para levar os mesmos 4 m³/s do Rio Pequeno, outro braço da Billings, ao Rio Grande. Em junho, iniciamos a instalação de novas membranas ultrafiltrantes na Estação de Tratamento de Água (ETA) Alto da Boa Vista, pertencente ao Sistema Guarapiranga. O uso da membrana oferece uma série de vantagens: mais rapidez na filtragem da água, funcionamento completamente automatizado e menor adição de produtos químicos. Dessa forma, vamos ampliar a produção daquela ETA em 1 m³/s (de 15 m³/s para 16 m³/s), diferença suficiente para atender de até 400 000 pessoas e que contribuirá na redução da retirada do Sistema Cantareira, já que permi-

te o avanço do Guarapiranga para novas áreas, principalmente na região da Avenida Paulista. Com a entrega de oito reservatórios metálicos, aceleramos a execução dos 29 equipamentos programados para serem instalados até o final do ano em 16 cidades da RMSP. A um investimento total de 169 milhões reais, o conjunto de reservatórios terá capacidade para 235 milhões de litros, ampliando em 20% a estrutura de reservação de água tratada da metrópole. Também estamos dando sequência à entrega de caixas d’água em regiões de maior vulnerabilidade social. A ação busca minimizar o desconforto daquelas famílias que habitam regiões mais distantes das principais adutoras, onde as oscilações resultantes da redução da pressão nas redes – outra medida mantida em 2015 para mitigar perdas – é mais sentida. Ainda em relação às perdas, o combate foi reforçado com a troca de mais tubulações e ramais e a realização de intensas varreduras nas redes em busca de fraudes. Os melhores recursos da engenharia e a grande perícia técnica e operacional de um quadro de profissionais altamente capacitados tem sido uma das grandes armas utilizadas na travessia de 2015. Enquanto isso, seguimos com as obras e/ou processos de implementação de interversões estruturantes de longo prazo, a exemplo do Sistema Produtor São Lourenço – que acrescentará até 6 m³/s na RMSP; e da interligação do Cantareira com o Paraíba do Sul, que permitirá a troca de aproximada-

mente 5 m³/s entre as bacias, ampliando a capacidade de armazenamento de ambas. Além dessa série de medidas para a ampliação da oferta de água, outras ações eram necessárias para reforçar o controle da demanda. Com esta lógica, mantivemos o bônus e instituímos o ônus aos que consomem além da média. Os resultados indicam consumidores cada vez mais conscientes da gravidade da situação e dispostos a participar. Em maio de 2015, foi registrada adesão recorde às campanhas pelo uso racional e ao programa de bonificação, com a redução na conta de 83% dos clientes da RMSP, o maior percentual desde o início do programa, em fevereiro de 2014. Com essa união de forças, hoje se produz aproximadamente 70% do que era produzido em condições normais, ou seja: até o final de 2013. Em relação ao Cantareira, sistema mais afetado, a retirada de água para abastecimento da RMSP é de 40% do que era retirado antes da crise. Estamos apenas no meio da travessia, o desafio ainda é grande. O fortalecimento do olhar sustentável e consciente sobre a gestão e consumo da água nos dá a certeza que todos sairemos ainda mais preparados para futuras adversidades. Uma crise é uma oportunidade de aperfeiçoamento que não pode ser desperdiçada.

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CAPA CRISE hídrica de pressões. Isso não é o normal, é em função emergencial, e isso está levando a uma grande redução das perdas. E este é o objetivo. Porque a outra alternativa seria fazer um grande racionamento, um rodízio, vários dias sem água, com graves consequências.” — Como funciona a ferramenta do balanço hídrico? — indagamos de Carozzi. “Pelo balanço hídrico nós temos o que chamamos ‘consumos autorizados’, que é o volume de água que vendemos para os clientes. Na Grande São Paulo, por exemplo, a Sabesp fornece água para os municípios não operados, como Guarulhos e Mauá. Nesses casos os preços e contratos são diferentes. Então nós somamos o que entregamos para os clientes e para os municípios não operados. Temos também usos próprios da Sabesp: são os usos operacionais. Por exemplo, vamos fazer a limpeza de um reservatório, então se faz uma estimativa de quanto gastamos num mês para lavar reservatório. E, além disso, existe outro volume considerável que é verificado em áreas invadidas e favelas. Como nós temos restrições para atuar nessas áreas, adotamos estimativas de volume de entrega. Porque não é como numa fraude em que você vai lá, identifica a fraude, elimina e regulariza a situação. Numa favela há centenas de pessoas morando, puxando água clandestinamente. Nós não podemos ir lá e simplesmente cortar. Existe um problema social. E em muitas áreas invadidas nós não podemos ir lá, fazer a rede e regularizar: há restrições, principalmente nas áreas de mananciais. Nesses casos temos restrição à atuação e regularização. Limitação legal. Então o que a gente faz? Chega-se a uma estimativa desses volumes e se considera isso como consumo autorizado. Respondendo diretamente à sua

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10, na realidade criou-se um volume virtual: pergunta: o balanço hídrico de um sistema os 8 metros cúbicos. Isto é uma regra code abastecimento apresenta a subdivisão do mercial da empresa. Não expressa a realidade volume de água produzida em parcelas que total, mas é um indicador que é usado. Então representam volumes de entrada ou de saída o que existe? Uma coisa é o volume fatudo sistema, em um dado período de tempo. rado e o outro é o micromedido. A Sabesp É uma ferramenta padronizada pela International Water Association [IWA], associação tem feito os dois cálculos. Então no volume internacional que congrega os maiores esde perdas da micromedição, eu pego o vopecialistas mundiais em controle de perdas. lume produzido nas ETAs menos a soma do Ela serve para análise dos componentes – ou volume medido que eu entrego para todos parcelas – de consumo e de perdas de água os clientes e divido pelo volume produzido. – tanto reais como apaEntão é a porcentagem rentes – permitindo-se do que eu produzo nas Adotou-se a identificar os componenETAs e que eu não medi. tes das perdas de água É claro que eu desconto estratégia de de um sistema de abasa parcela dos usos opetecimento. Dentro dessa racionais, usos sociais. E maximizar o uso composição, as perdas tem também o uso dos das estruturas totais da Sabesp são dibombeiros. O bombeivididas em duas parcelas: ro conecta a mangueira existentes no SIM dois terços são composno hidrante, carrega o tos por perdas reais ou (produção + adução) carro pipa do caminhão vazamentos, e um terço e vai apagar o incêndio. é perda comercial.” Não tem medição em — Dá para explicar melhor a questão dos todos os hidrantes. Então é feita uma estimativa. Algumas unidades têm uma troca indicadores? — insistimos com Carozzi. “Como já disse, no passado a gente usava de informações com os bombeiros, porque o índice de perdas relativas ao faturamento. eles usam não só para apagar incêndio como E qual é a questão? Pelas regras da Sabesp, para treinamento. Dessa forma, a gente faz quando se vai compor a fatura, considerauma estimativa desses usos e tudo isso é mos um faturamento mínimo de 10 metros considerado consumo autorizado. Eu somo cúbicos por mês. Então quando o leiturista tudo e desconto. O fato é que nós conseguimos reduzir o nível de perdas. Só que passa na casa do cliente, se der zero 1, 2, 3, daqui a dois, três, quatro anos – não saaté 10 metros cúbicos de consumo, não importa: nós faturamos 10. Então como o fatubemos quando os mananciais voltarão a se ramento é calculado? Nós pegamos o volume regularizar – voltaremos a uma condição produzido na ETA menos a soma dos volutalvez não como o que era antes da crise, mes faturados e dividimos pelo volume promas certamente não vai ser como é hoje.” duzido. Qual é o problema? Quando o cliente — Qual o impacto da redução de pressão? — perguntamos a Carozzi. consome 2 metros cúbicos e nós faturamos “Uma das coisas que mais têm impacto na diminuição de perdas é a redução de pressão. Só que nós temos também que manter a pressão estável e nos menores patamares possíveis. Essa operação de zerar a pressão, reaumentar a pressão, vai gerando fadiga de material e isso vai trazer mais vazamento posteriormente. Então o conceitualmente correto é a gente fazer estudos de uma área de abastecimento. Em áreas muito baixas se faz um isolamento e se instala uma válvula redutora de pressão. Daí pode se programar para operar com uma pressão menor à noite. Por que isso? Porque à noite quase não há consumo no setor. Então nesse horário, simplificando o raciocínio, se todo mundo estiver dormindo e todas as caixas d’água estiverem cheias, toda vazão que está entrando ali está indo para vazamento. Então não tem sentido a gente manter uma pressão tão alta como a do dia, em que se está abastecendo toda Roberval Tavares de Souza, superintendente da Sabesp a população. A gente faz esse estudo, isola

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as áreas. Podemos programar vários tipos de válvulas redutoras de pressão, algumas podem ser programadas por horário, outras podem ser colocadas acopladas a um sensor num ponto crítico. O sensor dá o comando para a válvula em função da pressão que esteja nesse ponto e aí a válvula abre ou fecha, de dia ou de noite, mantendo a pressão adequada para cada ocasião. Isso é uma coisa que a gente começou em 1996 e depois, com a tecnologia, a operação foi evoluindo. O valor atual de vazamento – dentro da meta de 29,7% de perdas para esta ano – não reflete muito bem as coisas porque estamos num regime emergencial de redução de pressão. Importante lembrar que com a crise a Sabesp tem dois problemas graves afetando suas finanças. Primeiro a gente está vendendo menos água. Então reduzimos na área metropolitana de 70 m³/s caiu para 50 m³/s, em números médios – uma redução de 20 m³/s. Então essa gestão de pressão, o bônus, as pessoas consumindo menos, tudo isso está afetando fortemente a receita da Sabesp. Com essa afetação da receita a companhia está precisando rever seus investimentos, suas despesas, seus custos e fazer uma repriorização dos investimentos. E o programa de redução de perdas também está sofrendo esta revisão. Então tínhamos esta previsão para 2020, mas agora isso está sofrendo revisão, está em discussão na empresa. Não se tem, portanto, certeza do que será feito. Mas o fato é que isso está afetando todos os investimentos da empresa e inclusive o programa de redução de perdas. Aliás, esqueci de falar que, ao contrário do que se pensa, o vazamento visível geralmente tem vazão grande mas o volume total perdido é pequeno porque o reparo é feito rapidamente – em dois ou três dias –, porque a população avisa. O vazamento não visível pode durar anos e a vazão pequena por muito tempo resulta em muito volume perdido. É preciso pesquisar demoradamente os não visíveis para poder localizá-los e fazer o reparo.” www.brasilengenharia.com

*** Ainda sobre a redução de pressão de água adotada pela Sabesp nestes tempos de dificuldades hídricas, Roberval Tavares de Souza, superintendente da companhia reitera que a questão é política adotada desde o ano 2000 quando a empresa começou a implantar as válvulas redutoras de pressão. “Com a crise hídrica motivada pelo desvio total das chuvas, nós intensificamos a redução da pressão nos canos. Antes a Sabesp

trabalhava em parte do sistema reduzindo pressão, geralmente em horários noturnos. Em 2014 nós colocamos todo o sistema de abastecimento de água em caráter de redução de pressão em toda a Grande São Paulo. Com um grande objetivo: economizar a água que é perdida nas juntas das tubulações, que é a chamada perda física.” — O programa continuará até o fim do ano? — perguntamos a Roberval. “Sim. Nós atuamos no sistema de abastecimento reduzindo a pressão principalmen-

te no período noturno. Como não há água requerida no sistema porque na noite e madrugada 98% da população desta dormindo, nós não introduzimos água com pressão suficiente nas tubulações. Nós atendemos aos pontos críticos, com pressão mínima exigida, mas deixamos o sistema estável com pressão reduzida. Como não há consumo, não há reclamação. Isso vale para 98% de nossos consumidores. Os 2% restantes seriam indústrias que trabalham durante a noite, bares noturnos e alguns imóveis que em função da redução da pressão podem ficar com baixa pressão no cavalete e a água acaba não atingindo a caixa d’água do cliente. Portanto, o destaque é que se todos os milhões de imóveis atendidos pela Sabesp na Grande São Paulo tiverem seus equipamentos conectados a suas caixas d’água, não se sente a redução da pressão. Isso porque a caixa d’água vai estar sempre trabalhando, sempre com armazenamento de água. É interessante lembrar que de madrugada não tem metrô – porque não tem demanda para ter metrô – e nem trem metropolitano, porque também não tem demanda. Estamos utilizando a mesma teoria na Sabesp, do ponto de vista de engenharia. Nós identificamos o problema hídrico em 2014 e agora isso vai ter continuidade. O que acontece é que antes, de forma geral, as pessoas não percebiam a redução de pressão porque isso era feito num instante de tempo menor. Nós ampliamos a redução tanto no tempo quanto para todos os setores de abastecimento.” — O conjunto de medidas, entre elas a redução de pressão, adotado para enfrentar a crise poderia se tornar perene? — indagamos de Roberval. “Acho que o hábito de consumo da população tende a se perenizar. É o que aconteceu em casos semelhantes, quando, por exemplo, tivemos o problema de produção de energia em 2002 e a partir daí mudou o patamar de consumo energético. Tivemos também no ano 2003 um problema hídrico – não com a magnitude deste que estamos enfrentando engenharia 625 / 2015

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CAPA CRISE hídrica ciais e funcionários da Sabesp vai investigar a alguém de uma forma que não é conocorrência. Descobre, por exemplo, a existêntabilizada pela Sabesp, qual a maior cia de uma ligação que transfere água da rua percentagem de ocorrências: roubo diretamente para as torneiras de uma casa ou ou fraudes? — perguntamos a Fridori. estabelecimento sem passar pelo hidrômetro, “Só para explicar as denominações correque desviava um número xis de litros mentas: roubo a gente chama de furto de água. sais. Trata-se de um ramal clandestino. Quando há esse furto a gente classifica de A patrulha da seca, que tem sido muito fraude. Talvez você queira comparar o furto convocada nestes tempos de água com a submede crise hídrica, costuma dição. Por exemplo, teOs condomínios agir em duas frentes. A mos um hidrômetro que residenciais tinham primeira é composta por deveria medir 100 litros, agentes da Sabesp que uma vez que passaram muita alta de consumo 100 litros pelo equipafazem batidas em locais suspeitos na companhia mento. Se o hidrômetro pelos vazamentos de policiais civis. Antes, não está funcionando os funcionários da embem, ele pode marcar internos que não presa iam sozinhos, e 80 litros: isso é uma eram monitorados enfrentavam resistência submedição. Tem o caso para entrar no imóvel. diferente que é o fato de Desde então, um acordo com a Secretaria o hidrômetro estar funcionando bem, mas de Segurança Pública afinou a parceria, e o vai alguém lá e usa algum expediente ilícinúmero de equipes da Sabesp nas ruas puto para interromper a medição. Isso é fraude, lou aumentou consideravelmente. Além das ou furto de água. Pois passaram 100 litros, denúncias, a identificação é feita por meio mas quando o técnico da Sabesp vai ao doda análise do consumo. Um alerta acende se micilio para fazer a leitura e entregar a fatuum cliente diminui o uso bruscamente ou ra ele enxerga 80 litros porque houve furto possui gastos incompatíveis com seu perfil. de água. Submedição é perda de precisão do A segunda frente é composta pelo setor de aparelho. Para submedição, a Sabesp conta análise da companhia e pelo Departamento com um departamento de medidores totalEstadual de Investigações Criminais (Deic). mente voltado para isso. Ele estuda como Eles buscam capturar fraudadores que fazem os hidrômetros operam e é especializado em os “gatos” para o consumidor comum. Na submedição. Em minha opinião, tem mais maioria dos casos, são funcionários ou exproblema de furto do que de submedição. -funcionários da Sabesp ou de contratadas Pelo seguinte: a Sabesp tem um programa de prestadoras de serviços. “A estratégia é dessubstituição de hidrômetros. Quando que a cobrir quem está levando vantagem e pegar Sabesp troca? Quando o aparelho dá algum os fraudadores graúdos”, afirma Fridori. problema. É manutenção corretiva. Mas tem — Quando a água é consumida por a troca preventiva também. Quando o hidrômetro está funcionando há muitos anos nós fazemos a troca preventiva, dependendo da categoria do hidrômetro. Ele ainda está rodando, funcionando. Mas eu vou lá e troco. Justamente para minimizar a possibilidade de submedição. É uma rotina que faz parte do programa de controle de perdas. A preventiva é pelo tempo ou pelo volume. Digamos que há um dado imóvel que está gastando muita água durante anos. Se for atingido um volume alto, a equipe da Sabesp vai lá e troca o hidrômetro. Já o furto de água é quando tem alguém que está mexendo indevidamente ou no hidrômetro ou na ligação.” — No caso das fraudes, quais as principais modalidades do ilícito: ligação clandestina ou adulteração do hidrômetro? — pedimos a Fridori. “A ligação clandestina é o que os técnicos chamam de bypass. Só para explicar: tem a rede de distribuição de água, que está na rua. Depois tem um conector, aí vem um ramal que obrigatoriamente passa pelo cavaleMarcelo Fridori, superintendente de Auditoria da Sabesp te e chega ao hidrômetro. Só que alguém fez FOTO: Leonardo Moreira

hoje –, mas ele motivou mudança do perfil de consumo com a entrada do programa de uso racional da água dentro das iniciativas de incentivo da Sabesp: a população economizou e não voltou aos padrões anteriores. A gente trabalha com a questão da consciência da população de que o hábito anterior de gastança não voltará mesmo que caia um dilúvio e encha todas as nossas represas. Temos a consciência total de que o hábito vai ser mantido. Ele pode até dar uma acomodada, mas não passará disso.” Segundo o superintendente de Auditoria da Sabesp, Marcelo Fridori, a fraude prejudica toda a população, diante da pior seca da história da Grande São Paulo. Dessa forma, a denúncia é uma questão de cidadania e ela tem que ser valorizada. Em 2014, a Sabesp flagrou, em ações conjuntas com a Polícia Civil, 15 578 fraudes na RMSP, que representam um volume de aproximadamente 2,6 bilhões de litros de água recuperados. No primeiro trimestre de 2015, houve 3 870 fraudes identificadas, que correspondem a 647,3 milhões de litros na Grande São Paulo. Para identificar a fraude, a Sabesp trabalha com as equipes de caça-fraude, que acompanham o consumo e vistoriam os imóveis. Além disso, conta com a colaboração dos próprios moradores, que podem relatar casos suspeitos pelo telefone 195 ou pelo Disque-Denúncia (telefone 181), cuja chamada é gratuita e não exige a identificação de quem telefona. Na linha, um delator anônimo relata o crime que está se tornando comum em tempos de crise hídrica: o roubo de água. O suposto delito está ocorrendo em determinado local da Grande São Paulo. De posse da informação, uma equipe composta por poli-

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FOTO: Divulgação sabesp

outro ramal paralelo, ou seja, ele quebrou o iniciamos as operações de gestão. Então tir um abastecimento adequado neste ano chão em algum ponto e em algum momento. com isso gradativamente foi sendo reduzida e nos próximos? — solicitamos de Barros. E o tubo vai direto para a rede de distribuia produção até chegar aos níveis atuais de “São basicamente três os meios de que a ção: com isso a água deixa de passar pelo 52 m³/s mais ou menos. É uma redução de Sabesp está utilizando e continuará utilizancavalete e hidrômetro. Aí a Sabesp deixa de 17 m³/s a 18 m³/s no período de um ano do para combater e vencer a crise. O primeiro medir. Isso é a ligação clandestina, o bypass. e três meses. Se a gente pensar, são quaé a manutenção do bônus. Acho que isso é se 25% de redução para atender a mesma O hidrômetro fica zerado. Mas geralmente os um incentivo para que a população busque quantidade de população. Então é lógico fraudadores usam uma parte da água pelo a economia até que o comportamento se inque a gente percebe tubo clandestino e outra corpore aos hábitos da rotina diária. A gente o sacrifício que acaba pelo hidrômetro. às vezes se questiona: se não fosse o bônus O programa de O camarada tira o sendo imposto em alguqual seria o grau de adesão da população aos combate às perdas mas áreas, por conta de equipamento que faz o apelos por economia na crise. Não sabemos. todas as restrições exishidrômetro interromper Então pela incerteza, durante o período de de água tem caráter tentes. Mas, o nosso ensua medição uns dias ancrise esse é um dos fatores que com certetes do leiturista passar – tendimento operacional za garantirá a obtenção dos resultados que permanente e ou seja, ele recompõe a lié que estas ações realia gente espera. O segundo ponto é o fortagação normal. Hoje temos zadas foram mais acerlecimento do sistema, com sua integração, custará 5,2 bilhões tadas do que se tivésse60% de pessoal que está por meio de uma série de obras. Casos da de reais até 2020 mos aplicado o rodízio mexendo no hidrômetro ligação do Rio Grande com o reservatório desde o inicio da crise. e 40% que está mexendo de Taiaçupeba; ampliação da ETA do ABV Na condição operacional em que estávamos na ligação. No caso do bypass clássico tem a no Guarapiranga para jogar água dentro do naquele momento, em fevereiro de 2014, se ligação clandestina que geralmente corre em Cantareira; obras de reforço de adutoras e tivéssemos aplicado o rodízio para segurar paralelo à normal. Pode ser ligação aérea, mas elevatórias pra que elas possam aumentar o o abastecimento, se estaria trabalhando um quem tem que furtar procura esconder o ilícitransporte de água e a integração do sistema. to e fura o chão. As ocorrências são bem disdia sem água e dois dias com água. Seria É isso que nós estamos buscando para tornar tribuídas regionalmente. Não há mais casos mais sacrificado do que o que ocorre hoje. o sistema mais flexível e resistente. Porque neste ou naquele bairro ou região. A Sabesp Porque hoje, salvo exceções, os clientes da hoje a crise é do Cantareira. Mas no passado se interessa mais em saber em qual categoria Sabesp têm água todo dia. O que se pode já tivemos crise no Guarapiranga, já tivemos se situa o ilícito: se no comércio, indústria, perceber é que as pessoas que sofrem mais crise no Alto Tietê e em outros sistemas. Enagricultura ou casas. Talvez nas residências são as que negligenciaram o abastecimento tão a gente precisa ter esse sistema flexível haja uma incidência maior. Porque, quantiinterno. Seja por falta de reservação, seja de forma a que ele trabalhe em ondas, indo e tativamente, tem mais residência cadastrada pelo fato de se fazer economia na execução vindo – dependendo da condição –, para que como cliente. Aliás, interessa a nós o cliente das instalações hidráulicas – que acabam possamos continuar garantindo o abasteci– comércio e indústria – que consome muisendo subdimensionadas. A nossa perspecmento. Estamos trabalhando nessa direção to. Porque esse quer furtar e não vai pagar tiva geral é continuar trabalhando com uma há um ano e meio de forma constante e nela por isso. Então tem tinturaria, hotel, motel, produção total por volta de 52 m³/s.” continuaremos. O terceiro ponto é o trabalho — Pode resumir os principais pontos shopping, posto de gasolina, lava-rápido. Em operacional da Sabesp voltado para a redução da estratégia da Sabesp para enfrentar a todas as unidades de negócios da companhia de perdas. Todo mundo sempre pergunta se crise de produção de água visando garantemos uma ou mais equipes que fazem anália gestão de pressão atualmente em curso vai se de consumo.” Segundo o superintendente de Produção de Água da Sabesp para a RMSP, Marco Antonio Lopez de Barros, os níveis atuais de produção de água da RMSP caíram muito em relação aos níveis de mesmo período de 2014 e 2013. “Hoje até por conta da crise hídrica e das restrições que nos são impostas pelas agências reguladoras e até mesmo da gestão operacional que se faz para poder gerenciar os mananciais, na Grande São Paulo estamos atingindo uma produção de por volta de 52 m³/s para atender 20 milhões de pessoas. Quando se faz a comparação com 2013 e 2014 a companhia vinha com uma produção bem regular entre 69 m³/s e 70 m³/s em 2014. Ou seja, até fevereiro de 2014 a gente estava produzindo entre 69 e 70 m³/s. Aí nós tivemos que logicamente reduzir porque naquele momento a crise no sistema Cantareira já estava grave.” — Foi quando começou a política do bônus? — comentamos com Barros. “Exatamente. Começamos a aplicar o Luiz Paulo de Almeida Neto, diretor de Sistemas Regionais da Sabesp bônus, a fazer as transferências de sistemas,

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CAPA CRISE hídrica das muitas crenças que se tinha em relação mos falar de regiões. Nós estamos hoje com à possibilidade de abastecimento de variadas 93% de cobertura na área operada entre o regiões. Nós, da Sabesp, começamos a explolitoral e o interior, que é um nível muito alto rar possibilidades que não estavam previstas. em termos brasileiros. A região com menor Houve uma mudança grande de paradigcobertura é o Litoral Norte com 68% de coma. O DAEE dá a outorga para se explorar bertura em coleta de esgoto. Mesmo assim, os aquíferos subterrâneos. Mas a Sabesp é acima dos níveis nacionais: na média, os níveis nacionais estão abaixo dos 50%. E é prea concessionária de água e ela é que faz o ciso considerar o problema de extensão terempreendimento. Ela perfura e explora esses ritorial nos municípios do poços dentro das regras Litoral Norte. Porque há legais e da outorga esCom a crise, a venda tabelecida pelo DAEE. dificuldade de fazer coleta e nós consideramos Para você ter ideia nós de água na área que todo esgoto coletado exploramos hoje, na área tem que ser tratado.” atendida pela Sabesp, metropolitana — Quais as princi957 poços que produzem caiu de 70 m³/s pais obras voltadas para 7 800 litros por segundo, água suficiente para abastecimento de água para 50 m³/s, uma abastecer 2,5 milhões de e saneamento atual*** mente em execução nas pessoas do interior, só redução de 20 m³/s Perguntamos ao diretor de Sistemas diversas regiões pauliscom poços profundos. tas? — solicitamos do Regionais da Sabesp, Luiz Paulo de AlmeiEntre esses aquíferos os da Neto, se haverá mudança de paradigma diretor de Sistemas Regionais. principais são o Guarani, o Bauru, o Serra “Nestes últimos anos executamos 32 nono futuro por causa do sofrimento da crise Geral e o Taubaté. É um número bastante vas ETAs na região em que operamos. Desatual. Ele respondeu que, por exemplo, havia significativo. Dos 326 municípios do interior sas, 23 estão concluídas e nove está em exeregiões do Estado de São Paulo em que nune litoral em que a Sabesp tem operação, 252 ca se pensou em explorar poços profundos. cução. A principal ETA em execução fica na deles têm poços abastecendo.” — Qual a posição do Estado de São “Mas nós começamos a fazer estudos e vericidade de Franca, uma estação que vai abasficar que há viabilidade. Então, por exemplo, tecer cerca de 300 000 pessoas hoje, mas vai Paulo (e da Sabesp) no ranking Trata Brasil? — perguntamos a Almeida Neto. Botucatu é uma cidade que sempre pensou poder atender mais de 450 000 quando for “No Trata Brasil você verá que entre em manancial superficial. Agora já pensamos concluída logo no inicio do ano que vem. as dez melhores cidades, a primeira é uma em usar o Aquífero Guarani em futuro próNós concluímos também, no final de 2013 ximo. Nas cidades de Piracicaba, Capivari e operada pela Sabesp: a cidade de Franca, no uma ETA em Jurubatuba no município do Jundiaí sempre se disse que elas constituíam interior paulista. Dois anos atrás, a primeira Guarujá que atende toda a população de lá. uma região muito pobre em poços. Mas nós foi a cidade de Santos. Este ano tivemos SanFoi concluída também uma importante estos entre as principais colocadas, e também tação no Litoral Sul: a ETA Mambu-Branco, temos vários poços projetados para entrar em Taubaté. Tivemos, portanto, Franca, Santos e que aumentou a oferta de água potável para operação neste ano na Bacia do PCJ. Temos Taubaté no topo do ranking Trata Brasil, três os municípios praianos de Itanhaém, Peruna região uma cidade situada numa cota íbe, Mongaguá, Praia Grande, além da área cidades operadas pela Sabesp. Prefiro não faalta, de 1 000 metros: nós vamos lá agora lar em municípios com menor cobertura. Vacontinental de São Vicente. A ETA Mambucom poços do Guarani. Então foram muda-Branco tem capacidade de produção de 1 600 litros por segundo. Nós estamos agora concluindo uma ETA em Itatiba, que é uma cidade importante a região do PCJ. Também na área de influência de Campinas estamos com obras em Paulínia. E outra coisa importante que conseguimos nestes últimos tempos foi a construção de 138 reservatórios no interior, 11 deles ainda em execução. Para ter ideia eles agregam volume importante que dão segurança hídrica às populações, porque o reservatório é principalmente uma garantia para os períodos de pico de consumo. Foram 150 milhões de metros cúbicos de reservação pelo interior e litoral. Neste momento o reservatório mais importante que está sendo feito é o de Praia Grande, que é um empreendimento com capacidade para 25 milhões de metros cúbicos. A previsão de conclusão é para o início do ano que vem.” Segundo Edison Airoldi, superintendente de Planejamento Integrado da Sabesp, está correta a afirmação de que a reversão Edison Airoldi, superintendente de Planejamento Integrado da Sabesp FOTO: Divulgação sabesp

ter continuidade. Respondo que vai. Essa é a condição que vai ser adquirida para a operação do sistema no futuro. Não vai mudar mais. A gente conseguiu explorar limites que a gente desconhecia. E hoje sabemos que o sistema consegue oferecer mais do que se imaginava que pudesse oferecer. Lógico que eu reitero que hoje ainda se trabalha com certo sacrifício em alguns pontos da cidade por conta da gestão que nós somos obrigados a implementar. Numa normalidade, esse sacrifício tende a não existir. Mas a ideia é que nós, de fato, entreguemos a água necessária para que as pessoas possam sobreviver com elas sem perdas. Então quando nós ajustamos o sistema ajustamos também as perdas que não são nem contabilizadas para o cliente. Perdas essas que ficam por conta da Sabesp.”

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Sul é da ordem de 4,3 bilhões de metros cúbicos – o que corresponde a 4,4 vezes mais do que a reservação do sistema Cantareira –, temos clareza quanto à relação custo benefício existente. Por outro lado, depois de muito debate, nós procuramos cuidar de que o recurso hídrico fosse otimizado. A importância da iniciativa é que essa quantidade de água é absolutamente fundamental para Grande São Paulo ou Sistema Cantareira como um todo – e o impacto na região de influência do Rio Paraíba do Sul no que diz respeito ao Vale do Paraíba, Minas e Rio é bastante pequeno perto do beneficio que trará do ponto de vista da preservação do desenvolvimento socioeconômico dessas regiões como um todo. Por isso reafirmo que essa interligação representa uma questão estratégica de nível nacional, em vista da riqueza gerada e do tamanho da população envolvida, e da necessidade de um acordo, um ajuste bem feito entre os estados envolvidos e a própria União.

A interligação consiste em um conjunto de instalações para captação de uma vazão média anual de 5,13 m³/s a uma vazão máxima de 8,5 m³/s de água da represa do Jaguari, e posterior transporte para a represa de Atibainha, pertencente ao Sistema Cantareira. Essa reversão objetiva a recuperação do volume armazenado nas represas do Sistema Cantareira, operado pela Sabesp e também reduzir o risco sistêmico nos abastecimentos da RMSP e bacias do Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ).  Em uma segunda etapa, a reversão possibilitará o fluxo no sentido inverso, da represa Atibainha para a represa Jaguari, em situações de cheia. A interligação é composta por um conjunto de instalações lineares com 13,43 quilômetros de adutora de água (com 2 200 mm de diâmetro), túnel de 6,13 quilômetros e instalações localizadas – tomada de água, estações elevatórias, instalações de controle hidráulico, situadas nos municípios de Santa Isabel, Igaratá e Nazaré Paulista.” Como experts da iniciativa privada avaliam a atual realidade hídrica

Foto: Divulgação gesp / Vagner Campos

(interligação) entre as represas Jaguari (bacia do Rio Paraíba do Sul) e Atibainha (bacia do Sistema Cantareira) envolve (ou tem repercussões sobre) três estados: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. “Ela tem reflexo nesses três estados e eu diria que ela é estratégica em nível nacional. Sim, porque é preciso considerar que os recursos hídricos envolvidos têm efeito na Grande São Paulo, na Região Metropolitana de Campinas [RMC] – uma vez que o Sistema Cantareira tem uma interface com a RMC –, no Estado de Minas Gerais e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Afinal, o Rio Paraíba do Sul ele corta os estados do Rio, São Paulo e Minas. Se você considerar só as regiões metropolitanas e as populações envolvidas estamos falando de um contingente populacional extremamente relevante e uma geração de PIB também de grande magnitude.” — Com tal abrangência, a obra foi discutida em várias frentes? — perguntamos a Airoldi. “Sim. Por esses aspectos de que falei, a obra foi muito discutida por todos os envolvidos. No caso de São Paulo, por exemplo, houve um conjunto de discussões coordenado pela ANA com participação do DAEE, da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos, do Instituto Mineiro de Gestão das Águas [IGAM], de Minas Gerais e do órgão correlato do Rio de Janeiro. Foi tudo muito discutido justamente pela importância estratégica dos recursos hídricos no desenvolvimento da vida de uma forma geral desses três estados. Por outro lado, nós procuramos mostrar, no caso do Estado de São Paulo, que com a retirada média de 5,13 m³/s perante a disponibilidade hídrica existente e a capacidade de reservação do próprio Paraíba do Sul, o beneficio seria muito superior que um possível ônus. Ou seja, o impacto seria residual e de pequena monta perto do benefício que traria do ponto de vista do desenvolvimento socioeconômico e para o abastecimento público de água para essas populações. Levando-se em conta a RMSP, PCJ, Vale do Paraíba e Grande Rio, a população envolvida é de 37 milhões de pessoas, o que equivale a quase 19% da população brasileira. O PIB dessas regiões, somados, chega a 1,6 trilhão de reais, o que corresponde a 30% do PIB nacional.” — Quais os impactos na Bacia do Paraíba do Sul? — indagamos de Airoldi. “Basicamente trabalhamos com duas linhas de argumentação. A primeira é representada pelo fato de os 5,13 m³/s – que é a vazão média a ser transferida do reservatório Jaguari do Paraiba do Sul para o Atibainha do Sistema Cantareira – corresponder a apenas 1,7% da vazão média do Paraíba do Sul. Segundo parâmetro: se você considerar que a reservação útil operacional do Paraíba do

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a visão de Alceu Guérios Bittencourt, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES-SP), considerando-se que a atual crise hídrica em São Paulo é um fenômeno agudo – mas que pode se repetir no futuro –, a partir de agora qualquer planejamento deve conter esse dado nos cálculos para aumentar a segurança hídrica. “Os parâmetros de projeto para esta região mudaram. Como os dimensionamentos são baseados na estatística da série histórica de chuvas e vazões ocorridas, e o período entre dezembro de 2013 e janeiro de 2015 apresentou registros ineditamente baixos, todos os cálculos probabilísticos têm que

ser refeitos. Isso permite dizer que, para uma determinada demanda será necessária maior capacidade instalada de agora em diante. Isso independe da discussão sobre mudanças climáticas; decorre imediatamente da aplicação da metodologia de dimensionamento usualmente adotada. Uma importante consequência dessa constatação é que, se é necessária mais capacidade para atender a uma dada demanda, a água nessa região já está mais cara.” — Quais os projetos mais importantes já elaborados com o objetivo de aumentar a oferta de água em São Paulo e região Sudeste? — perguntamos a Bittencourt. “Em São Paulo, o Plano Diretor de engenharia 625 / 2015

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Alceu Guérios Bittencourt, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES-SP) “A crise de escassez vem provocando uma importante alteração nos padrões de consumo. Eu penso que, no uso doméstico, os novos hábitos que a população vem desenvolvendo deixarão um efeito permanente, devendo alterar as referências para planejamento e gestão no futuro. Nas atividades econômicas, que é o foco da pergunta, também se verificam alterações significativas. A indústria já vinha há anos reduzindo o consumo e aumentando o reúso nos processos. Agora os estímulos passaram a ser ainda maiores. Na agricultura, o uso ainda é muito intensivo, em uma região onde os custos da água são crescentes. Vem ocorrendo um interessante movimento de discussão de mudança de técnicas de irrigação, com incentivos FOTO: ricardo Martins

Aproveitamento de Recursos Hídricos para a Macrometrópole, concluído em 2013, analisou as propostas existentes para essa região de mais densa ocupação do estado, incluindo muitas dessas propostas nos arranjos de soluções indicadas. Algumas dessas soluções estão sendo desenvolvidas, em graus diferentes de avanço. O Sistema Produtor São Lourenço já está em obras, com conclusão prevista para 2017. Outra proposta em desenvolvimento, cuja implantação foi antecipada com o início da crise hídrica, é a interligação entre os reservatórios Jaguari e Atibainha, que permitirá aumentar a segurança hídrica das bacias do Cantareira e Paraíba do Sul e que está em fase de licitação das obras. Outra intervenção importante, hoje em fase de projeto, é a construção das barragens de Pedreira e Duas Pontes e respectivo sistema adutor, na região das bacias do PCJ, que regularizará vazões suficientes para o abastecimento daquela importante região nas próximas décadas. Outras estão sendo estudadas, em fases mais iniciais, como a reversão dos rios Itatinga e Itapanhaú, da vertente marítima para o Sistema Produtor do Alto Tietê. Além das medidas de implantação mais rápida, ainda em 2015, que a Sabesp está realizando para ampliar a oferta de água na Grande São Paulo, como as reversões do Rio Guaió e do Rio Grande para o Alto Tietê, e a ampliação de capacidade de tratamento na Estação Rodolfo Costa e Silva, no Sistema Guarapiranga.” — As indústrias, setor agrícola e comércio estão aprimorando planos para aumentar a eficiência, otimizar o uso da água e evitar desperdício? — solicitamos de Bittencourt.

FOTO: Divulgação

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Roberto Kochen, diretor de Infraestrutura do Instituto de Engenharia, Prof. Dr. da Escola Politécnica da USP, e diretor técnico da GeoCompany

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governamentais, que deverá resultar em redução de consumo no futuro de médio prazo. No comércio, temos visto, como nas residências, alterações significativas, no sentido de uso racional, reúso, aproveitamento de águas pluviais para usos não potáveis e outras medidas de racionalização. Em geral, acho que não é exagero dizer que um novo padrão cultural de usos da água está sendo gestado na crise.” — Apesar dos alertas de especialistas com espírito mais crítico, não se tinha, do ponto de vista técnico – nos primórdios da crise hídrica do Sudeste – uma indicação clara de que era preciso alterar o padrão de dimensionamento da necessidade de água? — questionamos Bittecnourt. “Havia indícios de aumento de eventos críticos, máximos e mínimos, e a discussão de mudanças climáticas, com indicação da necessidade de se discutirem medidas de adaptação a uma nova situação, discussão então, como agora, em desenvolvimento, sem ter ainda gerado novos padrões universalmente aceitos. Por outro lado, os métodos de dimensionamento até hoje adotados baseiam-se, como já mencionei, na análise probabilística da série disponível de dados dos fenômenos ocorridos até então. O último ano alterou dramaticamente a série, mas não havia como se prever antes do episódio ocorrer. De todo modo, o Plano da Macrometrópole a que me referi antes simulou os efeitos de uma crise de escassez, tomando como referência o período até então mais crítico, da primeira metade da década de 1950, e, com, base nisso, dimensionou as propostas de ampliação de capacidade de produção para a região. Isso em termos de critérios de projeto e tendências de longo prazo. Em termos de curto prawww.brasilengenharia.com


zo, é importante lembrar que as previsões meteorológicas existentes até novembro de 2013, ou seja, um mês antes do início do período de seca, não previam precipitações abaixo do normal para aquele verão.” — O senhor acha que o governo paulista e dos demais estados do Sudeste terão que mudar radicalmente o referencial para as obras de engenharia e de reservatórios, levando em conta as variações climáticas com impactos hidrológicos significativos que produzem fenômenos de escassez de água como o que estamos atravessando? — insistimos com Bittecnourt. “Como já comentei, o referencial de dimensionamento já mudou nessa região. Já temos uma nova série histórica, que inclui um período muito mais crítico que os anteriormente registrados. Mas eu concordo com a pergunta, acho que se terá que ir além, já que as evidências de mudanças climáticas vão se acumulando, o que recomenda discutir a adoção de padrões mais conservadores, que aumentem a resiliência dos sistemas de produção, tratamento e distribuição de água.” — É fato que a verticalização das construções sobrecarrega as tubulações e milhões de litros de água se perdem por vazamento? — quisemos saber. “As nossas cidades não são planejadas, e os padrões de ocupação dos bairros frequentemente alteram-se de modo acentuado. Como resultado, a infraestrutura instalada torna-se insuficiente, demandando reforços e mesmo reconstrução. Vias que eram de tráfego leve, com pavimentos de pouca resistência, passam a receber cargas elevadas, o que é uma das causas do aumento de rompimentos e vazamentos nas tubulações de distribuição de água.” — Também a ocupação desordenada, a falta de saneamento e o desmatamento à beira dos mananciais ameaçam as fontes com esgoto e lixo? — solicitamos de Bittencourt. “É outro aspecto de nossa falta de planewww.brasilengenharia.com

jamento e controle da ocupação do território. Há décadas a Grande São Paulo, a exemplo de outras áreas densas do país, vem tendo suas áreas de mananciais invadidas e ocupadas inadequadamente, o que gera altas cargas de poluição, parte das quais continuam chegando aos corpos d’água, mesmo após as necessárias intervenções de urbanização e dotação de serviços de esgotamento sanitário e coleta de resíduos. Alguns mananciais acabam sendo perdidos, enquanto outros continuam a ser utilizados, mas com custos

crescentes de tratamento. Embora tenhamos legislação de proteção, e programas de recuperação que vêm desde o início dos anos 1990, ainda continua a ocorrer ocupação inadequada, em alguns casos tomando as últimas áreas remanescentes com vegetação. Mesmo com a crise tendo elevado a água a tema do topo da agenda política, no último ano ocorreram invasões nos mananciais da zona sul de São Paulo, e não houve reação da opinião pública para reverter o processo.”

*** O engenheiro Roberto Kochen, diretor de Infraestrutura do Instituto de Engenharia, Prof. Dr. da Escola Politécnica da USP, e diretor técnico da GeoCompany – Tecnologia, Engenharia & Meio Ambiente, dá uma explicação didática sobre os tão citados volumes mortos do Sistema Cantareira. “O volume de água do Sistema Cantareira abaixo do nível das tomadas de água, conhecido por volume morto, nada mais é do que o volume de água que não estava previsto para ser utilizado no projeto original das barragens deste sistema. Quando estas barragens foram projetadas, em meados das décadas de 1960 e 1970, parte do volume de água armazenado seria estocado abaixo da entrada de túneis e canais, e, assim, ficaria sem uso. O nome ‘volume morto’ não é adequado, ele não tem nada de morto, é a mesma água que é armazenada em cotas superiores. Este volume passou a ser utilizado em decorrência da maior estiagem em quase 100 anos. É melhor chamar este volume de água armazenado de ‘reserva técnica’, para ser utilizado em situações de escassez hídrica, como a Sabesp vem fazendo. No Cantareira, a reserva técnica é da ordem de 300 a 400 bilhões de litros. As reservas técnicas são similares em barragens do Alto Tiete e Guarapiranga.” — Quantas represas [reservatórios] e túneis o sistema Cantareira tem ao longo de seus 48 quilômetros? — perguntamos a Kochen. “O Sistema Cantareira é composto por seis barragens – Paiva Castro, Águas Claras, Cascata, Cachoeira, Atibainha, Jaguari e Jacareí –, e sete túneis/canais, que levam a água bruta até a Estação Elevatória Santa Inês. Esta bombeia a água bruta até o reservatório de Águas Claras, de onde segue para a Estação de Tratamento de Água do Guaraú.” engenharia 625 / 2015

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Parceria público-privada no setor de saneamento: o modelo que vem dando certo Não trata este artigo propriamente de assuntos ligados a uma PPP, moderna modalidade de associação entre os setores público e privado para a implantação de grandes projetos. Mas, efetivamente, a mais antiga forma de parceria público-privada que ao longo dos anos tem se revelado eficaz é aquela cujos atores são representados, de um lado pelas empresas privadas de consultoria, planejamento e projetos em saneamento básico, e do outro pelos órgãos públicos responsáveis pela implantação de estruturas de saneamento do meio envolvendo sistemas de abastecimento de água, tratamento de esgotos e resíduos, drenagem, bem como pela gestão de recursos hídricos. Esta parceria tem sido aplicada com sucesso nas diversas esferas de governo, incluindo companhias estaduais de saneamento e autarquias municipais encarregadas dos serviços de água e esgotos. Iniciada nos anos 1950, esta parceria teve seu auge na época do Plano Nacional de Saneamento (Planasa) implantado nas décadas de 1960 e 1970, ocasião em que foram criadas no âmbito de cada estado da Federação as empresas de economia mista de saneamento que foram responsáveis pela universalização do abastecimento de água em praticamente todo o país, graças à implantação de um modelo independente de gestão, muito mais ágil do que aquele pra-

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ticado até então pela administração direta, e a um mecanismo efetivo de financiamento muito bem coordenado pelo extinto Banco Nacional de Habitação (BNH). Nesta época, se expandiram empresas de consultoria e projetos de saneamento, atraídas pelo grande mercado que se avizinhava fruto da seriedade com que era tratado este setor. Jovens engenheiros e tecnólogos eram procurados avidamente tão logo se formavam para compor os quadros das firmas de consultoria e também por empresas estatais de saneamento onde eram treinados por um corpo de profissionais sanitaristas experientes advindos das universidades e das antigas autarquias que historicamente eram as responsáveis por tais serviços. Atualmente, da ordem de 2 100 profissionais estão em atuação, desenvolvendo serviços nas áreas de planejamento, concepção de sistemas, detalhamento de projetos, acompanhamento e gerenciamento de obras. Neste contexto, tem sido notável o papel representado pela Cia. de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), principal companhia de saneamento do país, junto às empresas de consultoria de São Paulo e também de outros estados, que mesmo após o término do Planasa continuou sendo a responsável por demandar estudos e projetos diversificados e sofisticados. Contudo, tal cenário vem se alterando, com a surpreendente redução da demanda.

São Paulo? — colocamos para Kochen. “A Sabesp vem realizando diversos empreendimentos para reforçar a disponibilidade de água bruta e tratada na Grande São Paulo, visando garantir a segurança hídrica da população, dos serviços essenciais – escolas, hospitais, entre outros –, da agricultura e da indústria. Têm sido amplamente noticiadas pela imprensa diversas ações relevantes para este fim, como as transferências no Alto Tietê, e transferências no Guarapiranga. Isto sem contar com empreendimentos como o Sistema Produtor São Lourenço. Ou seja, a Sabesp, a Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos e o DAEE estão trabalhando de forma intensa a curto e médio prazo para a superação da atual crise hídrica. E a longo prazo me parece que o reúso de água, como já vem ocorrendo no Projeto Aquapolo, é uma excelente opção para a indústria. Outras soluções, como a dessalinização, se aplicam mais a regiões litorâneas, onde ueira

Sabesp, através de suas coordenadorias, gerências, superintendências e diretoria. Por exemplo, as obras de utilização da reserva técnica de Atibainha, que compreende tomada d’água, estrutura de transição, canal, vertedouro, barragem e comportas, foram iniciadas e entraram em operação em cerca de três meses, um prazo extremamente curto para este volume de obras. Logo após vieram obras similares de captação da reserva técnica de Jaguari I e Jaguari II. Simultaneamente, a Sabesp concebeu a Interligação Paraíba do Sul e Cantareira, ligando os reservatórios de Jaguari – na bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, que corre no Estado do Rio de Janeiro – e Atibainha, empreendimento que se encontra hoje em fase de licitação. E encontra-se atualmente em obras a Interligação Rio Grande-Alto Tietê, que irá aduzir cerca de 4 m³/s do braço Rio Grande da Represa Billings para o Sistema Alto Tietê.” — Do seu ponto de vista, qual a real situação dos recursos hídricos do Estado de

FOTO: Andr é Siq

— Quantas bombas possui a Elevatória de Santa Inês no pé da Serra da Cantareira? — solicitamos de Kochen? “A Elevatória Santa Inês é uma bela obra emblemática da engenharia brasileira de hidráulica e de túneis. Trata-se de uma caverna subterrânea, totalmente escavada em rocha sã a cerca de 60 metros de profundidade, onde estão instalados quatro conjuntos de moto bombas de 20 000 HP cada, e de eixo horizontal. Cada conjunto de moto bombas tem capacidade de bombear 11 m³/s, vencendo uma altura manométrica [desnível] de 120 metros! É uma obra de engenharia notável, concebida, construída e operada pela Sabesp.” — Quais os trabalhos que têm sido feitos para viabilizar o volume morto do Sistema Cantareira? — pedimos a seguir. “É importante ressaltar que todos os trabalhos para viabilizar a reserva técnica, conhecida por volume morto pelo público em geral, foram concebidos, projetados, contratados, gerenciados e realizados pela

Embora tenha sido grande o esforço empreendido pela Sabesp na expansão dos serviços de saneamento em todos os municípios que atua, refletido nos investimentos realizados nos últimos anos, os mesmos tiveram sensível redução a partir de 2013, provavelmente reflexo da situação econômica por que passa o Brasil, agravada em 2015 pela atual crise hídrica sem precedentes que nos assola. Assim sendo, é preocupante a paralisação e descontinuidade de novas contratações, sobretudo as representadas pelos serviços de consultoria e projetos, capazes de fornecer suporte ao esforço de planejamento no equacionamento das soluções propostas em caráter de urgência, propugnadas pelo governo paulista, bem como àquelas outras que se afiguram pertinentes no médio e longo prazo. Ademais, o incremento da participação das empresas de consultoria no detalhamento dos projetos e no acompanhamento da execução das obras nos processos em andamento trará maior transparência às ações que estão sendo empreendidas pela Sabesp. Deve ser enfatizado que os investimentos em obras, materiais e equipamentos, os custos de consultoria e projetos do setor representam uma parcela de apenas 5% do total. Por outro lado, a descontinuidade em termos de investimentos que deem supor-

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o cenário é diverso da Grande São Paulo.” — Consta que o Estado do Rio precisa de apenas 50 m³/s para seu consumo. Mas entram no sistema 110 m³/s. Portanto, se o Rio não desperdiçasse tanta água para diluir esgotos e amenizar os efeitos da chamada intrusão salina, a situação lá seria confortável. Com esse quadro de fundo como vê a questão da transposição do Rio Paraíba do Sul [para melhorar os recursos hídricos paulistas]? — pedimos que explicasse. “Não sou especialista em recursos hídricos, porém me parece que a vazão citada de 110 m³/s é realmente necessária para o Estado do Rio de Janeiro, já que as ações de diluição de esgotos e amenização da intrusão salina são muito importantes para garantir a disponibilidade de água bruta naquele estado. A questão da Interligação Paraíba do Sul-Cantareira foi tratada de forma inovadora e eficaz pela Sabesp, que realizou diálogos com a ANA, com o DAEE e com os governos dos estados concernentes à Bacia do Paraíba do Sul: Minas te à sobrevivência destas empresas, com certeza trará prejuízos inestimáveis para a engenharia nacional, com o colapso do setor de consultoria e projetos, justamente em um instante que a crise hídrica vem a exigir do poder público uma revisão do planejamento e de premissas que irão requerer por consequência um grande esforço da engenharia nacional. Como em outras épocas que o setor já viveu, quando os investimentos sofreram grande redução, muitas empresas não sobreviveram e parte considerável dos profissionais migrou para outras áreas desfalcando um valioso patrimônio em termos de conhecimento técnico. Essa situação só foi revertida anos depois, à custa de muito sacrifício e grande perseverança dos profissionais e empresas remanescentes do setor. Não podemos nos dar ao luxo de desarticular novamente o setor de consultoria em saneamento, sob a pena de perdermos de forma inexorável as equipes técnicas dotadas de profissionais altamente qualificados e especializados nas diferentes áreas em que atuam, constituindo hoje um acervo inestimável para toda engenharia nacional e representando uma força de trabalho com elevado know-how. José Eduardo Cavalcanti é engenheiro, presidente do Grupo Ambiental, membro do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp e conselheiro do Instituto de Engenharia

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Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Com Sabesp. Há também a utilização de tecnologias inovadoras, como a de membranas isto possibilitou o entendimento do empreendimento e sua aprovação em tempo ultrafiltrantes, que já estão sendo utilizadas pela Sabesp. Quanto a águas subrecorde. Este projeto, muito bem concebido pela Sabesp, já se encontrava delineaterrâneas, existe o Aquífero Guarani, um do no Plano Diretor de Abastecimento há vasto reservatório que abrange regiões do mais de uma década atrás. Esta interligaBrasil, Argentina e Paraguai. A dificuldação é reversível, ou seja, quando houver de está no custo de coletar, aduzir e tratar esta água, que se encontra a grandes sobra de água no Sistema Cantareira ela profundidades e a grandes distâncias da será bombeada para o Rio Paraíba do Sul, Grande São Paulo. Para e vice-versa, quando a empresas com capasituação for a oposta. A Sabesp precisa citação em geologia, Essa reversibilidade foi hidrogeologia e geoum dos principais fater o sistema bem tores que levou a uma tecnia, a futura exploflexível de forma ração do Aquífero Guamaior compreensão do rani poderá abrir novas projeto e à sua aceitaa poder trabalhar ção pelos demais infrentes de trabalho.” tegrantes da Bacia do — A atual crise híem ondas, drica está servindo de Paraíba do Sul.” indo e vindo — Como se poderia suficiente alerta para o explicar que as barrafuturo? — indagamos de gens construídas nos Kochen. “A Sabesp, a Secretaria de Saneamento anos 1940 ao longo do Paraíba do Sul [para e Recursos Hídricos e o DAEE têm atuado geração de energia] façam com que o Rio de forma intensa, eficaz e competente na tenha hoje um volume morto equivalente concepção e implantação de ações emera duas Cantareiras? — pedimos a Kochen. “Naquela época os critérios de projeto genciais – para 2015 –, de médio prazo e construção de barragens eram diferen[2016-2018], e de longo prazo – até o hotes, inexistia a preocupação com o meio rizonte de 2050 –, para enfrentar o desafio de suprir a demanda hídrica da Grande ambiente, e a população era menor. E cabe São Paulo, de forma segura e sustentável. ressaltar novamente que a presente crise O sucesso obtido até o presente momento hídrica se deve à seca mais intensa desde na garantia de nossos recursos hídricos nos que se iniciaram medidas pluviométricas permite antever o sucesso nestes objetivos na região, no início da década de 1930. E essenciais para o progresso de nosso Estasão várias barragens no Rio Paraíba do Sul, do. E a população se conscientizou e reduque, por motivos topográficos e de operação, tiveram de ser projetadas e construíziu o consumo de água, que hoje é muito das da forma como estão hoje.” mais racional e parcimonioso do que antes — Além da transposição do Paraíba do da crise hídrica.” — Na mesma linha, a crise mudou a viSul e do Sistema São Lourenço, a Sabesp são dos paulistas – governo e população – deve investir em duas estações de reúso sobre a governança hídrica? Poderia estar de água e estaria analisando explorações em curso uma mudança de paradigma? — de águas subterrâneas. Que oportunidades finalizamos com Kochen. isso oferece para empresas fornecedoras “Sem dúvida, o governo tem atuado de serviços? — propusemos. “No caso do reúso da água, já citei em obras de curto prazo e de médio/longo prazo – estruturantes – para aumentar anteriormente que esta é uma tecnologia muito importante, que já vem sendo a oferta de água, e na administração da utilizada na Grande São Paulo, e que é gestão da demanda e de recursos hídricos. A indústria, agricultura e população uma solução que deverá ser cada vez mais de modo geral têm reduzido o consumo e empregada para garantir a segurança hídrica de indústrias. O projeto Aquapolo adotado padrões mais racionais e eficazes da Sabesp já está operacional há alguns de uso dos recursos hídricos disponíveis. anos, e mais projetos deste tipo deverão Isto, para mim, caracteriza uma mudança surgir e ser implantados no futuro. O muito positiva de paradigma, que persistirá pelos próximos anos, e certamente se reúso apresenta dupla vantagem: reduz perenizará na visão e atuação diária dos o volume de efluentes de esgotos sanitários, e aumenta o volume de água dispaulistas em seu ambiente. Os órgãos do ponível para fins industriais. A gestão da governo paulista estão trabalhando intensamente, e de forma competente, e com demanda e o controle de perdas são ações certeza os paulistas poderão contar com muito importantes, e que também já estão sendo plenamente empreendidas pela segurança hídrica no futuro.” engenharia 625 / 2015

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Análise do impacto ambiental causado pela geração de energia eólica LUCIANO LAIGNIER DE SOUZA*, RAFAEL BORGES DA CUNHA**, ARLETE VIEIRA DA SILVA***, MARIO HENRIQUE PEREIRA SANTOS****

A utilização da energia eólica possui várias vantagens se comparada com o modo de produção de energia tradicional. A principal e a mais notável é que se trata de uma fonte inesgotável, já que depende apenas de recurso natural, o vento. Outra grande vantagem é não emitir gases poluentes e não gerar resíduos, evitando assim ser prejudicial em questão de aquecimento global e por isso ter um baixíssimo impacto ambiental. Outro benefício é a redução no custo de produção, o que torna ela uma das fontes de energia mais baratas atualmente. Entretanto, o aproveitamento energético eólico também apresenta as suas desvantagens e impactos. Apesar de ser uma fonte inesgotável, ela depende da força dos ventos, que às vezes não é suficiente para gerar eletricidade. Em nosso país os ventos costumam ser aproveitáveis somente durante parte do ano. Outro grande malefício é o impacto visual que a fonte provoca, principalmente para os moradores ao redor dos parques. A instalação de parques eólicos gera uma grande modificação da paisagem local. Outro impacto facilmente notado é o sonoro, o som do vento batendo nas pás produz um ruído que pode alcançar até 43 dB (decibéis). Por esse motivo as residências devem ficar no mínimo a 200 metros de distância.

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nergia eólica é a energia produzida a partir da força dos ventos, sendo abundante, renovável, limpa e disponível em muitos lugares. Essa energia é gerada por meio de aerogeradora, nas quais a força do vento é captada por hélices ligadas a uma turbina que aciona um gerador elétrico. A quantidade de energia transferida é função da densidade do ar, da área coberta pela rotação das pás (hélices) e da velocidade do vento. A avaliação técnica do potencial eólico

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exige um conhecimento detalhado do comportamento dos ventos. Os dados relativos a esse comportamento que auxiliam na determinação do potencial eólico de uma região são relativos à intensidade da velocidade e à direção do vento. Para obter esses dados é necessário também analisar os fatores que influenciam o regime dos ventos na localidade do empreendimento. Entre eles pode-se citar o relevo, a rugosidade do solo e outros obstáculos distribuídos ao longo da região. Para que a energia eólica seja considerada tecnicamente aproveitável é necessário que sua densidade seja maior ou igual a 500 W/m2 a uma altura de 50 metros, o que requer uma velocidade mínima do vento de 7 a 8 m/s. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, o vento apresenta velocidade média igual ou superior a 7 m/s, a uma altura de 50 m, em apenas 13% da superfície terrestre. Essa proporção varia muito entre regiões e continentes, chegando a 32% na Europa Ocidental. O número de aerogeradores utilizados depende da potência dos mesmos, permitindo-se uma significativa redução do seu número pelo aumento da sua potência, com consequências positivas do ponto de vista econômico e ambiental. É, no entanto, necessário ter em atenção que uma maior potência está associada a uma maior altura das torres e a um maior diâmetro das pás, verificando-se que uma potência superior só é preferível até um dado limite. Deste modo, o desenvolvimento de um projeto eólico é susceptível de gerar efeitos ambientais negativos que devem ser minimizados ou eliminados. Os impactos que mais têm interessado a comunidade científica e ao público em geral é, por um lado, a perturbação e o efeito de barreira causado pelos aerogeradores sobre as diversas espécies de aves e por outro, a mortalidade destas e de morcegos, devido à colisão com as pás dos aerogeradores e outras estruturas associadas. Um recente estudo de revisão sobre este tema mostra que algumas espécies de aves diminuíram os seus níveis reprodutores após o início do funcionamento de parques eólicos. Noutros casos verificou-se uma diminuição da densidade de aves que utilizavam as zonas ocupadas por estes empreendimentos como locais de alimentação ou dormitório. A mortalidade de aves e morcegos devido a colisões com as pás dos aerogeradores e estruturas associadas é, atualmente, a questão que mais polêmica levantada. Um estudo de revisão sobre este tema num universo de 15 000 aerogeradores implantados nos Es-

II ENGENHARIA ENGENHARIA tados Unidos, estimou uma mortalidade de 2,19 aves/ aerogerador/ ano, ou seja, aproximadamente 30 000 indivíduos, entre os quais 448 rapinas. Estudos realizados nos Estados Unidos concluíram que a mortalidade por colisão em parques eólicos existe, mas é muito pequena quando comparada com outras fontes de mortalidade de aves por colisão. As principais razões apontadas são o fato de o número de turbinas existentes serem muitíssimo menor que o de outras fontes, e de os parques eólicos se localizarem muitas vezes em áreas de utilização relativamente reduzida pelas aves. Alguns autores consideram que a composição das vítimas em termos dos grupos de aves afetadas é provavelmente tendenciosa para as aves de maior porte, uma vez que as menores são mais difíceis de detectar e a predação sobre elas é, em princípio, superior. Mesmo assim, vários estudos têm confirmado impactos relevantes sobre passeriformes em termos de mortalidade por colisão, que podem constituir mais de 33% (Erickson et al., 2001), 67% (Saraiva, 2004), ou 82% (Tomé, 2003 a, b), do total de aves mortas. É ainda de se salientar que a grande maioria dos estudos considera que o principal fator que condiciona a mortalidade de aves e morcegos é a localização dos parques eólicos e de cada um dos aerogeradores que os constituem (e.g. SEO/ BirdLife, 1998; Erickson et al., 2001; PNAWPPM-IV, 2001; BirdLife, 2002; Erickson et al., 2002; Saraiva, 2003; Anderson et al., 2004). IMPACTO AMBIENTAL CAUSADO PELA ENERGIA EÓLICA Os equipamentos de pequeno porte têm impacto ambiental geralmente desprezível. Já parques eólicos apresentam impactos ambientais consideráveis, e podem ser classificados em: 1) Impacto sobre a fauna - A maior preocupação relativa à fauna é com os pássaros, os quais podem vir a colidir com estruturas (torres de alta tensão, mastros, janelas de edifícios) e com as turbinas eólicas, devido à dificuldade de visualização. Outros motivos, como o tráfego de veículos em autoestradas e a caça, também são responsáveis pela morte dos pássaros. Porém o comportamento dos pássaros e as taxas de mortalidade tendem a ser específicos para cada espécie e também para cada lugar. Estimativas de mortes de pássaros nos Países Baixos (figura 1), causadas por várias ações diretas e indiretas do homem, mostram que o tráfego de veículos apresenta uma taxa que, em comparação às ENGENHARIA 625 / 2015 engenharia 625 / 2015

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Figura 1 - Estimativa de mortes anuais de pássaros nos Países Baixos (fonte: Bourillon, 1999)

estimativas de mortes por parque eólico de 1 GW, é 100 vezes maior (Bourillon, 1999). Na Alemanha foi contabilizado um total de 32 pássaros mortos por turbinas eólicas entre os anos de 1989 e 1990, em todos os parques eólicos do país. Em comparação a esse número, também foram computados os pássaros vitimados pelo impacto em torres de antenas. Encontrou-se, para o ano de 1989, um total de 287 pássaros mortos na Alemanha devido a este fator (Dewi, 1996). O pior caso de colisão de pássaros em turbinas eólicas aconteceu nas proximidades de Tarifa, na Espanha. No final de 1993, 269 turbinas eólicas foram instaladas de um total projetado de 2 000 turbinas. Localizado nas principais rotas de migração de pássaros da Europa Ocidental, o local onde se instalaram as turbinas é um “grande mal-entendido” segundo o diretor da Agência Espanhola de Energia Renovável (IDAE), que fez uma das mais extraordinárias admissões de culpa: “O que me ocorreu sobre o fato é que foi um inoportuno lapso de memória. Ninguém pensou nas migrações dos pássaros”. Muitos pássaros de inúmeras espécies ameaçadas de extinção morreram em colisões com as turbinas (World Energy Council, 1993). Fora das rotas de migração, os pássaros são raramente incomodados pelas turbinas eólicas. Estudos com radares em Tjaereborg, região oeste da Dinamarca, mostram que no local onde foi instalada uma turbina eólica de 2 MW, com 60m de diâmetro, os pássaros tendem a mudar sua rota de voo entre 100m a 200m, passando por cima ou ao redor da turbina, em distâncias seguras. Esse comportamento tem sido observado tanto durante a noite quanto durante o dia. Na Dinamarca é comum um grande número

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de ninhos de falcões nas torres das turbinas eólicas (Elliot, 2000). 2) Ruído - As turbinas eólicas produzem dois tipos de ruído: o ruído mecânico de engrenagens e geradores, e ruído aerodinâmico das pás. Os ruídos mecânicos têm sido praticamente eliminados através de materiais de isolamento. O ruído aerodinâmico é produzido pela rotação das pás gerando um som sibilante que é uma função da velocidade de ponta. Os projetos modernos de usinas eólicas estão sendo otimizados com escopo de reduzir o ruído aerodinâmico. O ruído no interior ou em torno de uma usina eólica varia consideravelmente dependendo de uma série de fatores, como: o leiaute da usina, o modelo de turbinas instaladas, o relêvo do terreno, a velocidade e a direção do vento e o ruído de fundo. O aumento das emissões de som das turbinas eólicas está relacionado com aumento da velocidade do vento. No entanto, o ruído de fundo que normalmente aumenta mais rápido que o som da turbina, tende a mascarar o

ruído das mesmas com o crescimento da velocidade do vento (Noise Association, 2002). Níveis de ruído diminuem à medida que aumenta a distância entre turbinas eólicas e são mais comumente expressos em dB(A), decibéis medidos na escala A de compensação do aparelho medidor (decibelímetro), por ser essa a escala que mais se aproxima da percepção humana do ruído. As previsões dos níveis sonoros em usinas eólicas futuras são de extrema importância a fim de prever o impacto do ruído. Quando há pessoas que vivem perto de uma usina eólica, os cuidados devem ser tomados para garantir que o som das turbinas de vento seja em um nível razoável em relação ao nível de som ambiente na área. Devido à grande variação dos níveis de tolerância individual ao ruído, não há nenhuma maneira completamente satisfatória para se medir os seus efeitos subjetivos, ou as reações correspondentes de aborrecimento e insatisfação (Noise Association, 2002). O aborrecimento individual para o ruído é um tema muito complexo, mas estudos demonstraram uma correlação entre o ruído incômodo com a interferência visual e a presença de características de som intrusivo. Da mesma forma, o incômodo é maior na área rural do que na periferia e também mais elevados em terreno complexo, em comparação com o solo plano em um ambiente rural (Winds Energy, 2012). Ruído de baixa frequência (RBF), também conhecido como infrassom, é usado para descrever a energia sonora na região abaixo de 200 Hz. O RBF pode causar desconforto e incômodo para as pessoas sensíveis e por isso tem sido amplamente analisado. O efeito mais importante é que as turbinas eólicas modernas com o rotor colocado contra o vento produzem níveis muito baixos de infrassom, geralmente abaixo do limiar de percepção (Leventhall, 2003; Hep-

Figura 2 - Escala de ruídos em dB (fonte: Revue Sciences et Avenir, julho de 2004)

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burn e Edworthy, 2005; DTI, 2006, apud Winds Energy, 2012). Um levantamento dos resultados nas medições de infrassom de turbinas eólicas publicados, conclui que, com turbinas upwind, o infrassom pode ser negligenciado na avaliação dos efeitos ambientais (Jacobsen, 2005). As emissões de ruídos são reguladas por normas técnicas da ABNT 10.151 e 10.152. Vários estudos têm demonstrado os perigos deste tipo de decibéis à saúde humana. Decibéis do tipo B e C, chamados de infrassom, embora inaudíveis (figura 2 ), são sentidos como uma vibração no corpo, mesmo dentro das casas, sendo prejudiciais à saúde tanto quanto ou mais do que o tipo A, e podem causar falta de sono, náuseas, tonturas, dores de cabeça, aumento de pressão arterial, agressividade e outros. Um observador, se exposto por um tempo curto ao ruído é limitado a uma percepção instantânea deles, mas é incapaz de assumir os verdadeiros efeitos no longo prazo. A exposição distribuída por um período de tempo, pelo menos, duas semanas pode causar a maioria dos efeitos sentidos em seres humanos. Os impactos do ruído dependem de vários fatores: direção e força do vento, altura e tipo de vento, topografia, pressão do ar, obstáculos e fenômenos físicos específicos (Noise Association, 2002). A agência ambiental francesa, Agence de l’Environnement et de la Maîtrise de l’Energie (Ademe), sugere um afastamento mínimo de 250m entre a torre de eólica e uma residência humana, sendo entretanto, essa distância definida em audiência pública. A Academia Nacional de Medicina da França e do Reino Unido, Noise Association, recomenda uma distância de 1,5km (Villey Migrainel, 2004). Vários estudos registraram um conjunto comum de efeitos adversos à saúde de pessoas que vivem próximas aos aerogeradores. Esses sintomas começaram após o funcionamento das usinas eólicas, e incluem: distúrbios do sono; dor de cabeça; zumbido nos ouvidos; pressão no ouvido; náuseas; tonturas; taquicardia; irritabilidade; problemas de concentração e memória; episódios de pânico com sensação de pulsação interna ou trêmula que surgem quando acordado ou dormindo. Esses distúrbios têm sua principal causa o efeito da baixa frequência do ruído de turbinas eólicas nos órgãos do ouvido interno. Existe uma tabela de referência, onde consta um resumo das pesquisas realizadas sobre a distância a ser definida entre a torre de eólica e residências próximas, sendo esses valores, em sua maioria de ordem prática, pois nem todos foram regulamentados. WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com

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Figura 3 - Parque Praias de Parajuru (CE)

Figura 4 - Energia eólica e agricultura ocupando o mesmo espaço

3) Impacto visual - Os impactos visuais são decorrentes do agrupamento de torres e aerogeradores, principalmente no caso de centrais eólicas com um número considerável de turbinas, também conhecidas como fazendas eólicas. Os impactos variam muito de acordo com o local das instalações, o arranjo das torres e as especificações das turbinas. Apesar de efeitos negativos, como alterações na paisagem natural, esses impactos tendem a atrair turistas (figura 3), gerando renda, emprego, arrecadações e promovendo o desenvolvimento regional. 4) Utilização da terra - Impactos sobre o uso de terras é quantificado pela área ocupada, sendo que em geral ocupam 0,06 a 0,08 km²/MW (12-16MW/km²), podendo a área ser utilizada para outros propósitos tais como agricultura (figura 4 ). No entanto não devemos esquecer que a implantação de obstáculos ou o aumento da rugosidade do terreno implica uma diminuição da produção do parque. De uma forma geral a instalação de parques eólicos, não afeta significativamente o habitat natural.

O impacto sobre o solo ocorre de forma pontual à área de instalação da base de concreto onde a turbina é instalada. Vários testes de compactação do solo são feitos para avaliação das condições de instalação de cada turbina. Por não haver uso de combustíveis fósseis, o risco de contaminação do solo por resíduo líquido devido à operação e manutenção de parques eólicos é reduzido ou quase nulo. Esta característica minimiza também os riscos de contaminação do lençol freático. Para que a energia eólica seja considerada tecnicamente aproveitável, é necessário que sua densidade seja maior ou igual a 500 W/m2 , a uma altura de 50 metros, o que requer uma velocidade mínima do vento de 7 a 8 m/s (Grubb; Meyer, 1993). 5) Interferência eletromagnética (IEM) - Um parque eólico pode causar distúrbio em sistemas de telecomunicações de rádio micro-ondas e celular, comunicação naval e sistemas de controle de tráfego aéreo (ondas de rádio e micro-ondas são utilizadas para uma grande variedade de propósitos de comunicação), uma que grandes estruturas em ENGENHARIA 625 / 2015 engenharia 625 / 2015

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ENGENHARIAII ENERGIA ENGENHARIA adequado e uma boa manutenção. O grau e a natureza da interferência dependerão da localização da turbina entre o transmissor e o receptor, as características das pás, frequência do sinal, características do receptor e a propagação das ondas de rádio na atmosfera local (Ewea, 2009). Como medidas de mitigação desses impactos, em geral, é possível a instalação de antenas de maior qualidade e amplificadores ou satélites e TV a cabo, além disso, se a área afetada for grande, é possível realocar as antenas ou mesmo construir uma estação repetidora no local afetado. A IEM é causada em sua maioria por materiais metálicos, que são refletores e na minoria por pás de madeira, que absorvem. A fibra de vidro reforçada com epoxi, que é utilizada na maioria das pás modernas é parcialmente transparente às ondas eletromagnéticas e, portanto diminui o efeito da IEM (McGowan et al, 2000).

Figura 5 - Interferência produzida por uma turbina eólica

movimento podem produzir interferência eletromagnética (IEM). A interferência pode ser produzida por três elementos de uma turbina eólica: torre, pás e o gerador ( figura 5 ). A torre e as

lâminas podem obstruir refletir ou refratar as ondas eletromagnéticas. Já o sistema elétrico geralmente não é um problema para as telecomunicações, pois a interferência pode ser eliminada com isolante

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CONCLUSÃO Mesmo apresentando, como toda tecnologia energética, algumas características ambientais desfavoráveis, conforme visto neste trabalho, o aproveitamento dos ventos para geração de energia elétrica deve ser encorajado e algumas destas características podem ser significativamente minimizadas e até mesmo eliminadas com planejamento adequado e inovações tecnológicas. De todo modo, cabe agora observar o desenvolvimento de tais empreendimentos de modo a dar continuidade à evolução tecnológica da energia eólica no país, e desta forma, planejar da melhor maneira possível à expansão da matriz de energia elétrica, de maneira que as metas estabelecidas pelo governo sejam atingidas e garantidas para segurança no fornecimento elétrico nacional.

* Luciano Laignier de Souza é engenheiro eletricista - Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH E-mail: lucianolaignier@yahoo.com.br ** Rafael Borges da Cunha é engenheiro eletricista - Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH E-mail: rafaelborgesc@hotmail.com *** Arlete Vieira da Silva é mestre em Geografia e Análise Ambiental (UFMG), professora e coordenadora de Curso de Tecnologia em Manutenção do Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH E-mail: arlete.silva@prof.unibh.br **** Mario Henrique Pereira Santos é engenheiro eletricista, mestre em Engenharia Elétrica com Ênfase em Eletrônica de Potência, professor e orientador do Centro Universitário de Belo Horizonte UNI-BH E-mail: mariohenriquesantos@gmail.com WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com


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Dimensionamento de sistema de hidrantes prediais Isenção da perda de carga na mangueira de incêndio ADERSON GUIMARÃES PEREIRA*

O presente trabalho de pesquisa buscou estudar as legislações e normas referentes à obrigatoriedade de instalação de sistema de hidrantes e de mangotinhos em edificações e áreas de risco, sua importância no ensino da graduação em engenharia civil, tendo especial atenção no procedimento de cálculo para seu dimensionamento, bem como, principalmente, em verificar as implicações na isenção da perda de carga na mangueira de incêndio e a adoção de novos parâmetros, devido à alteração da instrução técnica do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP). Primeiramente para realizar este estudo, foi feita uma pesquisa bibliográfica de forma a promover um melhor conhecimento sobre o assunto e sua importância para ao futuro profissional da engenharia civil. No desenvolvimento da pesquisa, com base na fundamentação teórica, nas instruções técnicas do CBPMESP e utilizando-se das fórmulas hidráulicas, foram realizados os cálculos para dimensionamento dos sistemas de hidrantes prediais (ocupação residencial - sistema tipo 2) para análise quanto às implicações já descritas, conforme legislação vigente no que tange à potência final da bomba de incêndio. Mediante a elaboração de isométrico padrão para aplicação em situações diversas, ou seja, considerando em um primeiro momento a perda de carga na mangueira e as características mínimas de instalação do sistema, conforme Instrução Técnica nº 22/2004. No segundo momento, não considerando a perda de carga na mangueira, porém considerando as características mínimas de instalação conforme Instrução Técnica nº 22/2011. Foram estudadas as referidas condições para finalizar discussão decorrente à alteração da instrução técnica do CBPMESP, conforme o descrito. Diante às condições supracitadas e após realização dos cálculos hidráulicos, utilizando como apoio uma planilha de cálculo conclui-se que há alteração do valor da potência da bomba de incêndio, ou seja, há necessidade de aumento para o caso da IT nº 22/2011.

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ENGENHARIA I CIVIL gestão pública – nas cidades do Estado de São Paulo – de prevenção contra incêndios é executada pelo Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo desde sua fundação. Na atualidade, faz as exigências de proteção contra incêndios por meio do Decreto Estadual nº 56.819/11 – Regulamento de segurança contra incêndio das edificações e áreas de risco (São Paulo, 2011 a). As atribuições exercidas pelo órgão público estão fundamentadas nas Constituições Federal e Estadual e na lei de celebração de convênios com os municípios para os serviços de bombeiros. Nesta lei, os municípios se obrigam a autorizar o órgão público competente a se pronunciar quanto à observância das normas técnicas de prevenção contra incêndios (Pereira, 2009 a, p. 277). As normas técnicas e as legislações existem em vários níveis e são elaboradas pelos organismos de normatização, nas quais há a participação de integrantes da sociedade. Esta variedade torna difícil, porém necessário, acompanhar as evoluções das mesmas. Os cidadãos devem conhecer e entender as classificações das normas para fazer o uso e emprego correto, para melhoria contínua da prevenção contra incêndios nas edificações e áreas de risco existentes nas cidades. Em 2011 foi aprovado o novo decreto, ou seja, o de nº 56.819/11 que substituiu o de nº 46.076/01, porém as instruções técnicas permanecem com os respectivos números. A Instrução Técnica nº 22 - Sistema de hidrantes e mangotinhos para combate a incêndio, inserida no Decreto Estadual nº 46.076/01 e contida no Decreto Estadual nº 56.819/11, fixa as condições necessárias exigíveis para o dimensionamento, instalação, manutenção, aceitação, e manuseio, bem como as características dos componentes do sistema, sendo para uso exclusivo de combate a incêndio. Aplica-se às edificações e áreas de risco em que sejam necessárias as instalações de sistema de hidrantes ou de mangotinhos para combate a incêndio. Em relação à Instrução Técnica nº 22/2011 ocorreram mudanças quanto ao procedimento do cálculo hidráulico dos sistemas propostos, motivo pelo qual está sendo, portanto, proposta esta pesquisa. OBJETIVO DA PESQUISA Verificar a influência da isenção da perda de carga da mangueira de incêndio no dimensionamento do sistema de hidrantes prediais de ocupação residencial WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com

para o cálculo da potência da bomba de incêndio. JUSTIFICATIVA DA PESQUISA Necessidade de analisar se a mudança, quanto à nova metodologia de cálculo, facilitou a realização do dimensionamento do sistema de hidrantes (tipo 2 – ocupação residencial) e suas influências de desempenho operacional. DELIMITAÇÃO DA PESQUISA O estudo é delimitado a verificar as exigências contidas na Instrução Técnica nº 22/2004 – Decreto Estadual nº 46.076/01 e Instrução Técnica nº 22/2011 – Decreto Estadual nº 58.819/11, ambas originárias do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo nos respectivos anos, sendo, portanto, objeto de estudo as exigências para o sistema do tipo 2 (ocupação residencial). REFERENCIAL TEÓRICO Descreve Pereira (2009 b, p. 124) que o sistema de hidrantes e de mangotinhos é um tipo de proteção instalado em edificações e áreas de risco, utilizado como meio de combate a incêndios. É composto por reser va de incêndio (água), bomba de incêndio (quando necessário), rede de tubulações, hidrantes e outros acessórios descritos em norma. O sistema tem como objetivo dar continuidade à ação de combate a incêndios até o domínio e possível extinção. O sistema de hidrantes e de mangotinhos difere dos hidrantes urbanos em relação à forma de abastecimento, ou seja, os hidrantes urbanos são pontos de tomada de água providos de dispositivos de manobra (registros) e uniões de engate rápido, ligado à rede pública de abastecimento de água, podendo ser emergentes (de coluna) ou subterrâneos (de piso). Descrevem Lara et al. (2005) que: “O sistema de hidrantes é um tipo de proteção instalado em edifícios, destinados ao combate a incêndios. É composto de reserva de incêndio, bomba de recalque, tubulação, abrigo da mangueira e registro de recalque” (p. 142). Na Instrução Técnica nº 22 do Decreto Estadual nº 56.819/11 (São Paulo, 2011 a) a definição referente ao sistema de hidrantes e de mangotinhos é remetida à Instrução Técnica nº 3 (São Paulo, 2011 b) do mesmo decreto, que é similar à NBR 13.714:2000 - Sistemas de hidrantes e de mangotinhos para combate a incêndio (ABNT, 2000), onde temos que: “conjunto de dispositivos de combate a incêndio composto por reserva

de incêndio, bombas de incêndio (quando necessário), rede de tubulação, hidrantes, mangotinhos e outros acessórios descritos nesta Norma”. O sistema, portanto, irá dispor na sua composição: reserva de incêndio, bomba de incêndio, rede de tubulação, hidrante, mangotinho e outros acessórios (abrigo, chave de mangueira, esguicho, mangueiras, registro de recalque e válvulas). Citam Pereira e Popovic (2007, p. 60) que o sistema de hidrantes e de mangotinhos tem como objetivo dar continuidade na ação de combate a incêndio até o seu domínio e possível extinção. O agente extintor utilizado é a água, sendo que ao utilizar o sistema é fundamental que seja desligada a chave principal de entrada de energia da edificação e/ou do setor onde seja efetuado o combate, a fim de evitar acidentes (descargas elétricas). Os sistemas (tipos) são classificados – conforme norma técnica (ABNT, 2000) ou especificações (São Paulo, 2011 c) – de acordo com o tipo de esguicho (agulheta ou regulável), diâmetro (mm) da mangueira, comprimento máximo da mangueira, número de expedições no hidrante e vazão no hidrante ou mangotinho mais desfavorável. O número de tipos de sistemas poderá variar de acordo com a norma técnica ou especificações (reconhecidas e aceitas pelos órgãos oficiais) adotadas para previsão da proteção específica. Segundo (Pereira, 2009 b, p. 128), os sistemas poderão, ainda, ser diferenciados quanto: ao princípio de funcionamento do sistema (manual, automático ou gravidade), posição do reser vatório (elevado, nível do piso, semienterrados ou subterrâneos), tipo de bomba de incêndio (motor elétrico ou motor à explosão), fonte de energia (ligação independente ou por gerador automatizado), características de automação (chave de f luxo ou pressostatos), tipos de bombas empregadas (bomba principal, bomba auxiliar, bomba destinada a suprir deficiências de pressão e bomba de escor va), características do reser vatório (concreto armado, fibra, metálico, utilização de piscinas ou reser vas naturais), tipos de tubos (aço, cobre e termoplásticos) e características da rede de distribuição (interna ou externa à edificação). A aplicação ou escolha do sistema a ser instalado deve atender às características da edificação ou área de risco a ser protegida, observando a exigência da norma técnica ou especificações adotadas, a viabilidade de instalação, à eficácia do sisENGENHARIA 625 / 2015 engenharia 625 / 2015

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ENGENHARIA ENGENHARIA II CIVIL Tabela 1 - Dados iniciais para o cálculo de sistema de hidrantes e de mangotinhos Decreto Estadual

Nº 46.076/01

Nº 56.819/11

Instrução técnica

Nº 22/2004

Nº 22/1011

Grupo

A

A

Ocupação/Uso

Residencial

Residencial

Divisão

A-2

A-2

Descrição

Multifamiliar

Multifamiliar

Carga de incêndio

300 Mj/m²

300 Mj/m²

Risco

Baixo

Baixo

Altura

- Tipo: IV - Edificação: Média altura - 12,0 m < H ≤ 23,0 m

- Tipo: IV - Edificação: Média altura - 12,0 m < H ≤ 23,0 m

Área construída

2100 m²

2100 m²

Tipo de sistema

2

2

Tipo de esguicho

∅ 13 mm (agulha/A)

∅ 40 mm (regulável)

Tipo 2 ∅ 40 mm - Comp. 30 m Simples

Tipo 2 ∅ 40 mm - Comp. 30 m

Vazão mínima do hidrante mais desfavorável (lpm)

130

150

Pressão mínima

No bocal do esguicho de acordo com a vazão mínima de ∅ do esguicho (tipo)

No hidrante mais desfavorável (mca) 30

Tipo 2 - 8m³ - elevado

Tipo 2 - 8m³ - elevado

Galvanizado Fator C = 120

Galvanizado Fator C = 120

Mangueira de incêndio Número de expedições

Reserva de incêndio Tipo de tubo

Simples

Obs.: Comprimento de tubulação no isométrico será padrão para os dois casos

tema, o custo e a facilidade de operação pelo usuário. O sistema a ser instalado deve corresponder um memorial, conforme a NBR 13.714:2000 (ABNT, 2000) e IT nº 22/2011 (São Paulo, 2011 c), constando cálculos, dimensionamento e uma perspectiva isométrica da tubulação (sem escala, com cotas e com os hidrantes ou mangotinhos numerados). Todos os parâmetros, ábacos, tabelas e outros recursos utilizados no projeto e no dimensionamento devem ser relacionados no memorial. São exigências, de acordo com a IT nº 1/2011 Procedimentos administrativos, do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, para inserção na planta das medidas de segurança contra incêndio, os seguintes dados referentes ao sistema: indicar os hidrantes ou mangotinhos; indicar as bo-

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toeiras de acionamento da bomba de incêndio; indicar o dispositivo responsável pelo acionamento no barrilete, quando o sistema de acionamento for automatizado, bem como, a localização do acionador manual alternativo da bomba de incêndio em local de super visão predial, e com permanência humana constante; indicar o registro de recalque, bem como o detalhe que mostre suas condições de instalação; indicar o reser vatório de incêndio e sua capacidade; indicar a bomba de incêndio principal e “jockey” (quando houver) com indicação de pressão, vazão e potência; quando forem usadas mangueiras de incêndio e esguichos com comprimentos e requintes diferentes, devem ser indicadas as respectivas medidas ao lado do símbolo do hidrante ou mangotinho; deve constar a perspectiva isométrica completa (sem

escala e com cotas); deve constar o detalhe da sucção quando o reser vatório for subterrâneo ou ao nível do solo; quando o sistema de abastecimento de água for através de fonte natural (lago, lagoa, açude etc.), indicar sua localização; juntar o memorial de cálculo do sistema (São Paulo, 2011 d). Os dados acima serão de fundamental importância para o desenvolvimento do cálculo, no que se refere ao desenvolvimento da planilha de dimensionamento do sistema. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO Os métodos e técnicas utilizados para realização da pesquisa serão (Gil, 2002): Objetivos: exploratória e descritiva; Procedimentos técnicos: bibliográfica e estudo de caso. Porém, os métodos podem ser subdivididos em métodos de abordagem e métodos de procedimentos (Lakatos; Marconi, 1995, p. 106), ou seja: Método de abordagem: hipotético-dedutivo; Método de procedimento: comparativo. ESTUDO DE CASO O trabalho de pesquisa visa fornecer parâmetros técnicos para sanar dúvidas relativas aos procedimentos de dimensionamento do sistema de hidrantes prediais (tipo 2 – ocupação residencial), bem como sua influência no cálculo da potência da bomba de incêndio. Mediante a realização deste trabalho de pesquisa poderá auxiliar os profissionais de engenharia quanto ao conhecimento dos procedimentos para o dimensionamento do sistema de hidrantes prediais aplicando-se as exigências da atual Instrução Técnica do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP). Com base no que foi descrito nos capítulos anteriores e mediante o estudo das instruções técnicas do CBPMESP (nº 22/2011 e nº 22/2012) foi estabelecido um isométrico padrão ( apêndice I ) para realização dos cálculos que foram objeto de análise. Os cálculos foram baseados nas respectivas instruções técnicas, sendo que o conteúdo disponível na pesquisa serviu como orientador sobre os procedimentos de cálculo. Os parâmetros iniciais para realização do cálculo hidráulico, de acordo com os regulamentos de segurança contra incêndio das edificações e áreas de risco e as respectivas instruções técnicas, a partir de uma edificação fictícia, foram indicadas em um quadro de informação, ver tabela 1. No quadro da tabela 1 podem-se veriWWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com


II ENGENHARIA ENGENHARIA

ENGENHARIA I CIVIL Tabela Tabela22--Planilha Planilhado doMemorial Memorialde decálculo cálculoIT ITnº nº22/2004 22/2004 Esguicho Esguicho

Mangeiras Trecho

Vazão (lpm)

15,52 15,52

H1-PA H1-PA

13 13

18,5 18,5

---

Tubulação

Diâm. Diâm. (mm) (mm)

Compr. Compr. (m) (m)

JJ Unitário Unitário (mca/m) (mca/m)

JJ Total Total (mca/m) (mca/m)

Diâm. Diâm. (mm) (mm)

Compr. Compr. Real Real (m) (m)

Compr. Compr. Equiv. Equiv. (m) (m)

Compr. Compr. Total Total (m) (m)

JJ Unitário Unitário (mca/m) (mca/m)

130 130

38 38

30 30

0,105 0,105

3,15 3,15

63,5 63,5

0,20 0,20

10 10

10,20 10,20

0,012 0,012

0,122 0,122

--

18,79 18,79

0,68 0,68

H2-PA H2-PA

141,94 141,94

38 38

30 30

0,123 0,123

3,70 3,70

63,5 63,5

3,40 3,40

14,30 14,30

17,70 17,70

0,014 0,014

0,248 0,248

-3,20 -3,20

19,25 19,25

0,74 0,74

19,30 19,30

PA-EB PA-EB

271,94 271,94

--

--

--

--

63,5 63,5

3,50 3,50

40,80 40,80

44,30 44,30

0,045 0,045

1,99 1,99

-1,60 -1,60

19,69 19,69

1,42 1,42

19,69 19,69

IB-RI IB-RI

271,94 271,94

--

--

--

--

75,0 75,0

3,80 3,80

54,70 54,70

63,50 63,50

0,0203 0,0203

1,284 1,284

--1,80 1,80

19,18 19,18

1,02 1,02

Diâm. Diâm. (mm) (mm)

Pressão Pressão (mca) (mca)

13 13

nica nº 22 do CBPMESP - Sistema de hidrantes e de mangotinhos para combate a incêndio, foram inseridas algumas alterações em relação à anterior: em especial quanto ao procedimento de cálculo (desconsidera a perda de carga na mangueira de incêndio, valores mínimos de pressão e vazão etc.) e mudança quanto ao tipo de esguicho a ser aceito para os diversos tipos de sistemas. Ou seja, enquanto o texto anterior citava os de jato compacto (agulheta) e os reguláveis, o novo texto menciona apenas os reguláveis, que têm a capacidade de emitir tanto o jato compacto quanto o tipo neblina. Há diferenças de desempenho entre os referidos esguichos, sendo que o do tipo regulável é considerado melhor em relação ao outro. As vantagens apresentadas pelos esguichos reguláveis, por exemplo, são o controle do fechamento da descarga: a neblina gerada propicia a proteção do operador e maior eficiência no combate ao fogo. Portanto, sendo os esguichos um acessório hidráulico acoplado na extremidade final das mangueiras, para dar forma, direção e velocidade ao agente extintor (água) no sentido do fogo até sua extinção, é relevante que facilitem o trabalho dos usuários do sisCONCLUSÃO tema, tenham diferentes jatos, vazões e Instituída alteração na Instrução Técofereçam proteção. A importância Tabela 3 - Planilha do Memorial de cálculo IT nº 22/2011 da proteção contra incêndio em Perda de carga (Tubulação) edificações e áreas Elevação Velocidade Pressão Vazão Pressão na (m/s) de risco é indis+ ou no ponto (L/min) válvula Diâm. Compr. Compr. Compr. J J cutível, portanto, (m) (mca) (mca) interno Real Equiv. Total Unitária Total necessário, sendo (mm) (m) (m) (m) (mca/m) (mca) que a instalação é 150 30 63,5 0,20 10 10,20 0,015 0,153 0,78 30,15 de responsabilidade do profissional 156,89 32,86 63,5 3,40 14,30 17,70 0,017 0,30 - 3,20 0,82 29,96 de engenharia, po306,89 30,20 63,5 3,50 40,80 44,30 0,057 2,52 -1,60 1,60 31,12 rém a fiscalização de responsabilidade 306,89 31,12 75,0 3,80 59,70 63,50 0,025 1,59 -1,80 1,15 30,91 do órgão público

ficar algumas diferenças entre as duas instruções técnicas, como: tipo de esguicho, vazão mínima no hidrante mais desfavorável (IT nº 22/2004), vazão mínima na válvula do hidrante mais desfavorável (IT nº 22/2011), cálculo da pressão mínima no bocal do esguicho (IT nº 22/2004) e a pressão mínima no hidrante (válvula) mais desfavorável (IT nº 22/2011). Mediante as informações disponibilizadas no quadro (tabela 1), bem como se utilizando das fórmulas indicadas nas instruções técnicas e no capítulo IV, e, com o auxílio de planilhas de cálculo ( apêndice II e III ), foram realizados os cálculos hidráulicos. A planilha de cálculo referente à Instrução Técnica nº 22/2004 pode ser observada na tabela 2. Pode-se observar que para este caso foi considerado a pressão mínima e a vazão mínima no bocal do esguicho do hidrante mais desfavorável, bem como considera a perda de carga na mangueira de incêndio. Ao final é calculada a vazão e pressão mínima para a bomba de incêndio, considerando dois hidrantes em funcionamento simultâneo, sendo que a potência poderá ser dimensionada a partir destes dados, com base na referida instrução técnica. A planilha de cálculo referente à Instrução Técnica nº 22/2011 (tabela 3).

Trecho

H1-PA H2-PA PA-EB IB-RI

JJ Elevação Pressão Velocidade Total Total + ou - no ponto da água (mca) (mca) (m) (mca) (m/s)

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É importante observar que para este caso foi considerado a vazão e pressão mínima na válvula do hidrante mais desfavorável, portanto, desconsiderando a perda de carga na mangueira, sendo o esguicho do tipo regulável. Ao final é calculada a vazão e pressão mínima para a bomba de incêndio, considerando dois hidrantes em funcionamento simultâneo, sendo que a potência poderá ser dimensionada a partir destes dados, com base na referida instrução técnica. Ao final, em ambos os cálculos podemos observar a potência da bomba de incêndio para os respectivos casos (2,7cv e 4,7cv). Em relação aos volumes das reser vas de incêndio, para as respectivas áreas construídas, para o sistema do tipo 2, não ocorreram alterações com a publicação da Instrução Técnica nº 22/2011 (8m³). Por meio os valores finais dos cálculos (pressão, vazão e volume da reser va de incêndio) pode-se verificar o tempo disponível da reser va de incêndio, sendo que para o caso da Instrução Técnica nº 22/2004 o tempo será de 29 minutos e 24 segundos e para a Instrução Técnica nº 22/2011 o tempo será de 26 minutos e 36 segundos.

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ENGENHARIA ENGENHARIA II CIVIL competente. A instalação e fiscalização deverão estar fundamentadas de acordo com as legislações e normas técnicas pertinentes. Mediante a proposta de pesquisa, devido às mudanças de parâmetros para dimensionamento, procurou-se verificar, por meio de desenvolvimento de cálculos hidráulicos padronizados, a ocorrência de influência na potência da bomba de incêndio do sistema de hidrantes. Ao final, por meio dos cálculos, conforme dados inclusos na pesquisa, verifica-se que as mudanças dos parâmetros de cálculo, para uma edificação de ocupação residencial, sistema tipo 2, em relação a Instrução Técnica nº 22/2011, há necessidade de uma bomba de incêndio com maior potência. A diferença é notória, pois ao final do cálculo verifica-se que para uma mesma situação (isométricos similares), a potência da bomba deverá ser de potência de 2,7cv no caso da IT

nº 22/2004 e de 4,7cv no caso da IT nº 22/2011. O descrito no parágrafo anterior é ratificado até pela condição da mudança do tipo de esguicho, pressão e vazão mínima inicial de cálculo. Portanto, conclui-se que há diferença do valor da potência da bomba de incêndio entre os procedimentos de cálculo. A mudança interfere no tempo disponível da reser va de incêndio, uma vez que ocorrida as mudanças dos parâmetros para dimensionamento do sistema, o volume da reserva de incêndio, para a situação em estudo (ocupação residencial – sistema tipo 2 – área até 2 500 m²), não foi alterada, ou seja permaneceu com volume de 8m 3 (reserva de incêndio). Portanto, no caso da IT nº 22/2004, o tempo disponível para reser va de incêndio é para 29 minutos e 24 segundos, enquanto, para a IT nº 22/2011 é para 26 minutos e 36 segundos. É relevante destacar que o esguicho do tipo regulável, diferente

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] ABNT - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS - NBR 13714: Sistema de hidrantes e de mangotinhos para combate a incêndio. Rio de Janeiro, 2000. [2] GIL, ANTÔNIO CARLOS - Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2002. [3] LAKATOS, EVA MARIA; MARCONI, MARINA DE ANDRADE - Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Atlas, 1995. [4] LARA, ALEXANDRE MARCELO FONTES, ET AL. - Inspeção predial: check-up predial: guia da boa manutenção. IBAPE-SP - Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo. São Paulo: Liv. Ed. Universitária de Direito, 2005. [5] PEREIRA, ADERSON GUIMARÃES; POPOVIC, RAPHAEL RODRIGUEZ - Tecnologia em segurança contra incêndio. São Paulo: LTR, 2007. [6] PEREIRA, ADERSON GUIMARÃES - Gestão pública de prevenção de incêndios no Estado de São Paulo. Revista Integração - Universidade São Judas Tadeu, Brasil, ano XV, n. 58, jul./ago./set., pág. 271-278, 2009 a. [7] PEREIRA, ADERSON GUIMARÃES - Segurança contra incêndios. São Paulo: LTR, 2009 b. [8] SÃO PAULO (CIDADE) - Força Pública - Secretaria dos Negócios da Segurança Pública. Polícia Militar. Corpo de Bombeiros. Decreto Estadual nº 56.819, de 10 de março de 2011, Institui o Regulamento de

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Segurança contra Incêndio das edificações e áreas de risco para os fins da Lei nº 684, de 30 de setembro de 1975 e estabelece outras providências. Disponível em: <http://www.ccb.polmil.sp.gov.br/index. php?option=com_content&view=article &id=28&Itemid=42>. Acesso em: 21 mai. 2011 a. [9] _____ - Secretaria dos Negócios da Segurança Pública. Polícia Militar. Corpo de Bombeiros. Instrução Técnica nº 3/2011: terminologia de segurança contra incêndio. Disponível em: <http://www.ccb.polmil.sp.gov.br/index.php?option=com_co ntent&view=article&id=28&Itemid=42>. Acesso em: 21 mai. 2011 b. [10] _____ - Secretaria dos Negócios da Segurança Pública. Polícia Militar. Corpo de Bombeiros. Instrução Técnica nº 22/2011: sistema de hidrantes e de mangotinhos para combate a incêndio. Disponível em: <http://www.ccb.polmil.sp.gov.br/index. php?option=com_content&view=article &id=28&Itemid=42>. Acesso em: 21 mai. 2011 c. [11] _____ - Secretaria dos Negócios da Segurança Pública. Polícia Militar. Corpo de Bombeiros. Instrução Técnica nº 1/2011: procedimentos administrativos. Disponível em: <http://www.ccb.polmil.sp.gov.br/index.php?option=com_content&view=artic le&id=28&Itemid=42>. Acesso em: 21 mai. 2011 d.

do tipo agulheta, a vazão e pressão de trabalho é predefinida na fabricação do esguicho, sendo constante a uma determinada pressão; portanto, quando é girada a cabeça do esguicho, o formato do jato é mudado (de sólido para neblina), assim como sua amplitude, mas não há alteração da vazão. O valor total da vazão do sistema, junto com o volume disponível da reserva, é o que irá definir o tempo de operação do sistema de hidrantes. A hipótese da pesquisa é confirmada, pois as mudanças de parâmetros para o dimensionamento de sistema de hidrantes prediais, por meio da atual instrução técnica, provocou influência na potência da bomba de incêndio em relação à instrução técnica anterior, sendo que tais alterações reduz o tempo disponível de uso da reserva de incêndio. As questões referentes à problematização foram respondidas e o objetivo geral foi atingido, sendo que os objetivos específicos desenvolvidos durante o processo de pesquisa. Diante do descrito ratifico a proposta aos profissionais de engenharia e integrantes dos órgãos públicos responsáveis pela fiscalização e revisão das instruções técnicas, a levar em conta a necessidade de preocupação quanto aos novos padrões de cálculo devido à interferência na definição da potência da bomba de incêndio e consequente interferência no tempo disponível da reser va de incêndio. É necessária uma verificação de desempenho dos sistemas, tendo em vista os dados técnicos exigidos pela instrução técnica e os necessários para o desempenho dos esguichos reguláveis, uma vez que a pressão mínima de trabalho dos esguichos (10 kgf/cm² = 100 mca) é maior que a pressão mínima exigida para o hidrante mais desfavorável - IT nº 22/2011 (3 kgf/cm² = 30 mca), bem como considerar as vazões ideais de trabalho dos esguichos reguláveis (IT nº 22/2011 = 150 L/min; Anexo IV - diâmetro 1 ½’ 492,10 L/min). Todos os dados técnicos citados devem ser considerados para definição final da potência da bomba de incêndio e o volume da reserva de incêndio por tempo padronizado de acordo com a área construída, ocupação e a carga de incêndio da edificação ou área de risco.

* Aderson Guimarães Pereira é engenheiro civil e de segurança do trabalho E-mail: capguimaraes@yahoo.com.br WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com


CRÔNICA

Saudades do metrô de antanho

“A

vida é o que fazemos dela, as viagens são os viajantes, o que vemos não é o que vemos, se não o que somos.” (Fernando Pessoa) Pessoa é o Pessoa e com este verso me adverte que posso estar idealizando um passado romantizado tal como os mais velhos reclamam: “Ah! No meu tempo...”. Bem, mas eu tenho fatos! Eles vêm da Linha 3-Vermelha, a LLO (Linha Leste-Oeste)! Foi para o seu projeto que entrei no Metrô de São Paulo e, através dela, que conheci a enorme zona leste (ZL), sua variada matriz cultural, e aprendi a gostar da região e de seus moradores... Mas foi também nela que, contracenando com colegas de todas as áreas do Metrô, comecei a entender melhor, a empresa que escolhera para cumprir minha missão de engenheiro, ajudando nossa sociedade. Quando começaram as inaugurações das estações da Linha 3-Vermelha, sempre aos sábados, os empregados eram chamados para fazer horas extras, ajudando nas solenidades de abertura das mesmas. Meu início foi ajudando a distribuir e controlar os sanduíches em Penha. Colegas da obra, da manutenção, operação etc., estavam lá sem distinção alguma, mas com um denominador comum: o orgulho de contribuir para a melhoria e qualidade de vida daquela importante área da cidade. Mas, de todas as inaugurações, a mais pitoresca, para mim, foi a da Estação Arthur Alvim. Minha missão era arregimentar às 6h00 da manhã, no Largo do Paiçandu, uns seis músicos que iriam dar o cenário musical à cerimônia de abertura da estação. Cheguei ao Largo com uma Kombi e percebi cerca de dez músicos dormindo profundamente nos bancos da praça após terem tocado nas boites do centro da São Paulo (alguém se lembra do Avenida Danças e suas “taxis-girls”, só para dançar, com um papel onde se picotava o tempo pago para bailar?). Só para registrar: o Argimiro Alvarez saiu com outra Kombi para levar uma troupe de mágicos à Itaquera!

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Mas, lá no Largo do PaiNESTOR SOARES TUPINAMBÁ çandu acordei os músicos e fiz é engenheiro, mestre em urbanismo e a chamada, alguns entrando na consultor de transporte Kombi reclamando que teria E-mail: nstupinamba@uol.com.br que tocar com um desafeto, que atravessava seu “fraseado” etc. Artistas são artistas, sempre! Já em Arthur Alvim agrupei a retreta sob a passarela que se liga à estação, já apinhada de gente para assistir a inauguração. E eu mal, disfarçando minha vontade de ser maestro, mandei tocar “Lampião de gás”, depois “Índia”, “Luar de Ipacaraí”, “Saudades de Matão” etc. – sempre nessa linha. A população se animou, pessoas cantavam, algumas até arriscavam uns passos. E, para nossa surpresa, às 10h00 chega o trem com o governador André Franco Montoro e sua comitiva, que desce rapidamente, descerra a placa, tira fotos, acena para o povo e entra no trem. Os músicos, cansados, pedem para ir embora, mas lembrei-os que o contrato dizia até às 14h00. E mostrei a eles que sua música estava sendo bem apreciada, o que forneceu energia extra aos artistas, que continuaram com “Menino da porteira”, “Cavalo zaino” etc. Só lá pelas 12h00 (a hora da “boia”) as pessoas começavam a sair da passarela e acordamos a saída da “furiosa” muito cansada, mas feliz com o carinho do povo se divertindo. Enfim uma parceria que conseguiu o jogo do “ganha-ganha” (o único possível), da população aos músicos, passando por mim! Por dias cantarolei “lampião de gás quantas saudades você me traz...” e, pior, contava a todos que encontrava a minha experiência de Arthur Alvim! Que percebo, até por que a lembrei para escrever esta crônica, ficou entranhada em mim. Crônica que aqui termino porque já começo, instintivamente, a cantarolar: “lampião de gás, lampião de gás, artur alvim, arthur alvim, metrô, quantas saudades vocês me...”.

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Realização

Apoio

Organização e comercialização

Apoio institucional

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE GEOLOGIA DE ENGENHARIA E AMBIENTAL

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Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo

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MEMÓRIAS DA ENGENHARIA

POR CLÁUDIA GARRIDO REINA*

O engenheiro que foi ao mesmo tempo aluno e professor

Q

uando no final de 1947, pouco antes de completar 18 anos, o jovem paulistano Péricles Brasiliense Fusco (hoje com 85 anos), prestou o vestibular para a Escola Politécnica da USP, escolheu fazer o curso de engenharia civil. Era uma época em que não havia muitas opções à disposição além dessa especialidade – as outras eram as de mecânica-eletricista, de engenharia química e de minas e energia. Também era um tempo de pouca oferta de engenheiros no mercado, o que fazia com que as empresas já contratassem os futuros profissionais antes mesmo de se formarem. Tanto que, ainda durante a graduação, o engenheiro Telemaco Van Langendonck, professor da Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), o indicou para estagiar no escritório de engenharia estrutural de Paulo Franco Rocha, onde trabalhou até alguns meses após a formatura. Graças a essa experiência, mesmo antes da diplomação, Péricles já podia ser considerado engenheiro formado, até com seu primeiro prédio alto projetado. Pouco depois, na seção de estruturas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), onde ficou por três anos, deu os primeiros passos na carreira acadêmica. O amadurecimento veio à medida que ele começou a dar aulas de estabilidade das construções e de estruturas metálicas na FEI. A consolidação da carreira viria quando ele foi convidado a ser professor-assistente da cadeira de concreto da Poli-USP. Assim, de forma natural, sem maiores percalços, a carreira acadêmica do professor Péricles seguia o itinerário por ele idealizado no âmbito da engenharia de estruturas. Foi quando eclodiu uma inesperada cadeia de acontecimentos que o conduziram a novos rumos e acabaria por levá-lo a ajudar na concepção do primeiro curso de engenharia naval do Brasil. “Nessa época, entre as décadas de 1950 e 1960, as autoridades perceberam, quase num estalo, que o país não tinha capacitação tecnológica para atividades de construção naval”, recorda Péricles, acrescentando que a Marinha de Guerra entrou então em contato com a Poli-USP solicitando um curso de engenharia naval no qual seriam formados os engenheiros próprios dessa força armada. Antes a Marinha mandava formar seus engenheiros nos Estados Unidos, no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Não havia reparos a fazer sobre a competência tecnológica desses engenheiros, mas eram escassos seus conhecimentos sobre o contexto brasileiro e as reais necessidades do país na área naval. Assim sendo, com assessoria técnica da Marinha norte-americana, o governo brasileiro montou, na Poli-USP, o primeiro curso de engenharia naval brasileiro. Segundo Péricles, foram chamados engenheiros de diversas partes do mundo para dar as aulas das primeiras disciplinas. “Mas não se dispunha de professores com conhecimentos aprofundados na área de projeto de estruturas de navios de guerra.” Ele faz questão de ressaltar que na época o apoio dos americanos foi o maior possível. “Tanto que mandaram para o Brasil um professor que foi o primeiro responsável pela cadeira, o contra-almirante reformado da Marinha americana e ex-professor do MIT, George Charles Manning, que coordenava os trabalhos”, conta. Só que não foi possível encontrar ninguém que pudesse dar o curso de estruturas do navio. E também não foi encontrado ninguém no mundo que pudesse vir para ministrar esse curso. Foi então que a Marinha brasileira e a Poli-USP, em conjunto, tomaram a decisão de procurar algum brasileiro capaz de enfrentar

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ENG.º PÉRICLES BRASILIENSE FUSCO o problema e se transformar, de maneira autodidática, na pessoa que se estava procurando. “E por algum atavismo, esse brasileiro fui eu”, brinca Péricles, que fora chamado por seus conhecimentos de estruturas em construção civil. Ele, que era assistente do curso de engenharia de concreto armado, se transferiu para o departamento de engenharia naval da Poli-USP. “Aí mergulhei no assunto, usando o material didático que o Manning me passou”, diz, explicando que o professor americano iria dar o curso de estruturas do navio durante um ano pelo menos – e ele, Péricles, assistiria às aulas e se prepararia para ministrá-las mais tarde. Quando chegou ao fim do semestre o professor Manning chamou Péricles e disse que havia tomado nota de tudo o que o brasileiro estava fazendo e chegou à conclusão que este entendia mais de estruturas do que ele. “Então neste semestre vai ser ao contrário: você vai dar o curso e eu vou assistir”, diria Manning a Péricles, que passou a ministrar as disciplinas de estruturas em 1958. “Eu dava as minhas aulas no quarto ano do curso de engenharia naval, sendo que a primeira turma de engenheiros dessa especialidade se formou em 1959.” “Aí fui desenvolvendo uma expertise e evoluindo nesse ramo. Só que percebi que tinha que me transformar em engenheiro naval porque me faltavam conhecimentos paralelos. Dessa forma me matriculei no curso de engenharia naval da Poli. E a única grande vaidade que eu tive na vida foi o fato de na Poli-USP eu ter sido oficialmente, aluno de mim mesmo, porque fui ao mesmo tempo aluno e professor. Ou seja, eu precisava ter crédito, como aluno, da mesma matéria da qual eu era professor. Na época do exame a minha prova vinha em envelope fechado do MIT.” Mais tarde, Péricles ganhou uma bolsa de estudos da Petrobras e foi fazer estágios nos estaleiros Verolme, em Roterdã (Holanda) e em companhias navais de Copenhague, na Dinamarca. “Portanto, eu aprendi a construir navios também. Aí evoluí e fiz doutoramento em engenharia naval, tendo, inclusive, chegado a participar de um grupo de engenheiros que estava desenvolvendo um projeto de escritório de engenharia naval.” “Nosso grupo desenvolveu projetos de construção de uma frota de embarcações guarda-costas. E a holandesa Verolme se interessou em construir uma coisa que nós mesmos, brasileiros, projetamos. Eram três grupos de embarcações: pequenas, médias e grandes.” Péricles recorda, porém, que logo depois, no governo do presidente Jânio Quadros o projeto foi abandonado e ele teve uma decepção. “Aí me transferi de volta para o departamento de estruturas da engenharia civil da Poli-USP. Mais tarde, nos anos 1990, quando me aposentei, meu amigo empresário Salvador Arena me convidou para cuidar de uma pequena escola técnica que ele tinha desenvolvido em sua empresa metalúrgica do ABC, a Termomecânica. Só que seis meses depois Arena morreu. Aí a Fundação Salvador Arena me chamou para desenvolver mais a escola, que era um sonho do Salvador. Me tornei funcionário da fundação e transformei a escola numa instituição tecnológica grande e moderna: a Faculdade de Tecnologia Termomecânica, coisa de Primeiro Mundo. Aliás, as últimas palavras de Salvador Arena quando o socorreram do infarto que acabou por matá-lo, foram, textualmente: ‘Me levem para a escola’. Ele queria morrer na sua pequena escola que eu depois transformei.” * Juan Garrido, interino.

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O vinho e a

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amos iniciar pela genial solução encontrada por Herzog & Meuron, contratados para desenvolver a planta vinícola da Dominus, na Califórnia, em seu primeiro trabalho em solo norte-americano, em 1997. Esta dupla de arquitetos suíços dispensa apresentação. Famosos, entre outros trabalhos, pela Tate Modern Art Gallery, em Londres, a Arena de Munique, o Estádio Olímpico de Beijing (O ninho de pássaro), receberam o Prêmio Pritzker em 2001 e a Royal Gold Medal, da Inglaterra. Conhecidos por sua inovadora arquitetura, sua abordagem para a vinícola consistiu em integrá-la no terreno, construindo uma enorme caixa de arames em aço inoxidável, que foi preenchida totalmente com rochas basálticas oriundas do vizinho “canyon”. Vista à distância, a estrutura em gabião está totalmente dissolvida na linda paisagem. Usados normalmente como contenção, aqui os gabiões são elementos estruturantes usados para moderar a extrema temperatura do Napa Valley. A variada espessura das paredes externas e internas consegue adequar perfeitamente as temperaturas, de acordo com a necessidade de diversas áreas da vinícola. O jogo de luz interno é muito bonito, pois o sol penetra nos interstícios das paredes provocando interessantes contrastes entre claridade e sombra. Uma concepção maravilhosa, que agrega funcionalidade à beleza, aproveitando-se de componente estrutural local. Alguns detratores dizem que estas paredes criam muitos insetos e aranhas, dificultando a limpeza e higienização dos recintos. Ainda nos Estados Unidos da América vale a pena conhecer o Projeto da Opus One, uma vinícola oriunda da junção de esforços (e investimentos) de Robert Mondavi (o mais importante vinicultor da Califórnia) e o Barão Phillipe de Rotschild (proprietário do Château Lafitte Rotschild, um dos vinhos mais caros e conhecidos do mundo). A vinícola tem uma forma hemisférica, circundada por encostas de grama. Também localizada no Napa Valley, seu arquiteto, Scott Johnson, refere-se a ela como “introvertida como uma caixa de jóias”. Da mesma forma que a composição societária da empresa, o projeto da vinícola une elementos arquitetônicos clássicos da Europa com materiais e ideias contemporâneas da Califórnia. Unindo as estéticas do Velho e Novo Mundo (como o vinho ali produzido), a vinícola utiliza estilos e materiais diversos, como aço inoxidável, madeira e pedra na cor creme. Internamente possui salas decoradas com cadeiras do “Oitocento italiano”, mescladas com elementos decorativos mais modernos, num estilo “fusion”. Longas escadas, colunas, flores exóticas, rotundas, conduzem ao último nível da edificação, onde mais de 1 000 barris maturam lentamente as recentes safras deste vinho mítico e lendário (mas muito caro). Não é de estranhar que vinícolas norte-americanas ostentem projetos primorosos de arquitetura. Desde a introdução do plantio de uvas destinadas à produção de vinhos, que remonta aos patriarcas da independência (Thomas Jefferson e George Washington eram entusiastas), os cidadãos deste país ostentam um nacionalismo exacerbado em relação à qualidade do vinho localmente produzido.

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Opus One

Quinta do Portal

Adega Mayor

Concha y Toro

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(segunda parte)

FOTOS: divulgação

arquitetura

Vinícola Gonzalez Byass

Viña Montes

Bodegas Ysios

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Nicolas Catena

IVAN CARLOS REGINA O vinho norte-amerié engenheiro do setor de transporte público, cano é bom, mas nunca é associado do Instituto de Engenharia barato. O epicentro da proe autor dos livros Vinho, o Melhor Amigo dução é a Califórnia, mas do Homem e Harmonizando Vinho&Comida os estados de Washington E-mail: ivanregina@terra.com.br e Oregon também têm bons produtores. Muito do dinheiro gerado em Wall Street e no Vale do Silício foi canalizado para a implantação de vinícolas de primeira classe, que possam produzir vinhos que rivalizem com os melhores exemplares franceses. Além das já citadas outras plantas vinícolas merecem serem visitadas, como Gallo, Beringer, Caymus, Stags Leaps, Château Monthelena, Kistler, Marcassin, Rochioli, William & Sellyem, entre outras. Existe até uma vinícola que possui um teleférico que efetua paradas em locais estratégicos da vinha, com o nome das variedades de uva plantadas, onde o visitante pode experimentar o Chardonay, o Merlot, o Cabernet Sauvignon, por exemplo. A Espanha também tem uma enorme quantidade de bons projetos arquitetônicos desenvolvidos especialmente para vinícolas. Começamos pela contratação, pela vinícola Marquês de Riscal, do arquiteto Frank Gehry, também ganhador do Prêmio Pritzker, para modernização de sua antiga “bodega”, situada em El Cego, no coração da Rioja Alavesa. Nesta proposta o impacto surge com o contraste entre o antigo (as instalações originais da vinícola, datada de 1858 e apelidada de “A Catedral”) e a modernidade, pois os contratantes solicitaram um “edifício vanguardista que despertasse emoções”. Gehry, da mesma forma que o seu projeto para o Museu Guggenheim de Bilbao, recobriu o edifício com folhas de titânio. Num simbolismo evidente, as placas na cor rosa remetem ao vinho tinto ali produzido, as placas ouro à malha dourada que costuma recobrir as garrafas do vinho da Marques de Riscal e as placas na cor prata evocam as cápsulas que recobrem o gargalo da “botella”. Para convencer o arquiteto a fazer o projeto, a vinícola presenteou-o com um vinho do ano de seu nascimento, 1929. O mesmo vinho foi servido na festa de inauguração dos edifícios modernos. Importantes adaptações internas foram realizadas para agregar funcionalidade às vetustas e inadequadas instalações. Ali também existe um hotel e um restaurante de excelência, como complemento de atividades turísticas. Passemos agora ao projeto desenvolvido por Santiago Clatrava para a vinícola Bodegas Ysios, também na mesma região da Rioja Alavesa. O edifício está concebido como elemento integrado à paisagem, mas cisalhando-a, como uma escultura autônoma. Os telhados e as paredes descrevem curvas em forma de senóides, como estratégia para agregar um plano volumétrico a elas. No terreno acidentado, uma estrutura de concreto com quase 200 metros de comprimento, aliado a paredes de 26 metros, modelam sua aguda forma sinosoidal, tanto no plano como em elevação. A fachada sul está recoberta com placas de cedro. Refletidas num espelho de água repleto de cerâmica branca quebrada, lembram os barris de madeira no qual os vinhos passam tanto tempo de sua existência. engenharia 625 / 2015

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ENGENHARIA I ENGENHO&ARTE A fachada norte é recoberta com painéis e pequenas aberturas de ventilação. As faces leste e oeste são recobertas com alumínio. O telhado é constituído por lâminas de madeira, com o mesmo tratamento das paredes. A estrutura se apresenta como uma grande onda na superfície, que combina curvas côncavas e convexas que envolvem ao longo eixo longitudinal. As sinuosidades externas refletem-se para o interior do edifício, que, em seu centro, apresenta um enorme balcão para visualizar os trabalhos na vinícola e nos vinhedos adjacentes. Uma ponte de granito propicia aos visitantes um acesso através dos fossos que circundam o prédio. O total do projeto inclui 72 000 metros quadrados, dos quais 8 000 construídos. Outro lindo projeto foi feito pela ACXT, um grupo de arquitetos reunidos pela empresa espanhola IDOM. O contratante foi a tradicional Vinícola Gonzalez Byass, produtora de Jerez, um vinho fortificado clássico da região da Andaluzia. A própria descrição da empresa reflete a concepção arquitetônica: “A localização da vinícola coincide com o ponto mais elevado da propriedade. A geometria do edifício se apoia na retícula dos caminhos e das construções existentes, com uma volumetria controlada graças à decisão de semienterrar as altas naves de produção, melhorando suas condições higrotérmicas interiores e facilitando a recepção da uva por gravidade. A posição enterrada do plano de produção permite uma segregação em níveis de circulação e usos. A cota de acesso permite que visitantes possam percorrer e acompanhar didaticamente todo o trabalho ali efetuado, sem perturbá-lo. As zonas administrativas, laboratoriais e de controle da qualidade estão em cotas que permitem acompanhar todo o processo de elaboração do vinho. As fases de produção (fermentação, envelhecimento, engarrafamento e armazenamento) são desenvolvidas em duas naves paralelas, permitindo futuras ampliações. Os materiais são utilizados de acordo com a função da área, madeira na cave de barricas, chapas de aço nos depósitos de fermentação e vidro na seção de engarrafamento. O fechamento do edifício se realiza com painéis de concreto pré-fabricado, servindo de tela de fundo para os materiais citados. Tanto a volumetria, sistemas construtivos e os materiais utilizados foram eleitos de acordo com o critério de custo, que permitiram trabalhar dentro do orçamento e executar a implantação em apenas seis meses de obra”. A Espanha, nos últimos 30 anos, passou por um renascimento de sua cultura gastronômica e enológica. Dona da maior área plantada com uvas para vinhos do mundo, e graças a um intenso lucro advindo do turismo, o país se aproveitou destes fatores para promover sua culinária e seus vinhos. Os cozinheiros mais falados hoje são espanhóis, e seus vinhos se alinham entre os grandes. Diversas outras vinícolas na Espanha merecem uma visita. Para finalizar, citamos apenas mais uma, da empresa catalã produtora de cavas (espumantes naturais) a Raventós i Blanc. O projeto arquitetônico, a cargo de Jaume Bach e Gabriel Mora, contrapõe luxo e simplicidade, com uma bela fachada de formas geométricas. Uma praça central, onde impera um velho e familiar carvalho, dá as boas vindas. A arquitetura é marcada por arcos e paredes duplas, conferindo beleza à construção.

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Marques de Riscal

Vinícola Dominus Passando ao vizinho Portugal, impossível deixar de citar o grande arquiteto Álvaro Siza, autor, para quem não sabe, do design do copo oficial de degustação dos Vinhos do Porto. Ele realizou o projeto para a Adega Mayor, no Alentejo, num investimento de cerca de 8 milhões de euros. Siza espelhou-se nos casarios caiados de branco, típicos da região, para realizar uma vinícola moderna, onde um grande espelho de água ajuda no arrefecimento da área de guarda dos tonéis, pois, como sabemos, o Alentejo tem um clima muito quente. A enologia está a cargo do simpaticíssimo e competente Paulo Laureano, que, com seus largos bigodes, tanto nos ensina de vinhos em suas visitas ao Brasil. Também é de Siza o projeto para a Quinta do Portal, na região do Douro, entre Sabrosa e Alijó. Num investimento do mesmo porte do anterior e com quase 5 000 metros quadrados, Siza também foi buscar inspiração na paisagem para utilizar-se do xisto (presença recorrente no solo duriense) e da cortiça, como elementos que remetem à paisagem local, sem dúvida uma das mais bonitas de todo o mundo dos vinhos. Passando para a América do Sul, iniciamos pelo Chile, país em que gigantescas inversões de capital vêm paulatinamente expandindo o mercado do vinho para exportação. A Vinícola Concha y Toro, por exemplo, têm suas ações negociadas na Bolsa de Nova York, e ilustra a seriedade com que o vinho vem sendo tratado neste país. A Viña Montes inaugurou, em dezembro de 2004, sua nova vinícola em Apalta, na região de Colchagua, Vale Central do Chiwww.brasilengenharia.com


FOTOS: divulgação

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Vinícola Perez Cruz le. Com uma inversão de 7 milhões de dólares americanos, esta “bodega” tem por finalidade a produção de vinhos Premium para, em sua maioria, o mercado de exportação. O projeto esteve a cargo do arquiteto chileno Samuel Claro, que possui vasta experiência neste tipo de edificação. Ele coordenou uma destacada equipe de especialistas, que incluíram uma profissional de decoração e uma paisagista que cuidou dos parques e jardins. Interessante também a colaboração de uma especialista em Feng Shui, para que todos os elementos básicos – água, metal, madeira etc. fossem incorporados no projeto, assegurando uma atmosfera positiva e harmonia na produção do vinho. O ambiente é calmo e visivelmente voltado para passar uma imagem de qualidade, que se reflete no produto final. Paredes que simulam quedas d’água e longas fendas por onde penetra a luz do sol, tudo é pensado para impressionar favoravelmente. O mais importante, contudo, é a extrema simpatia e competência do staff inteiro, desde o enólogo até os mais simples atendentes. Em suma, é uma empresa que nos deixa maravilhados por sua competência e profissionalismo. As instalações da “Vinícola Perez Cruz”, projetadas pelo arquiteto José Cruz Ovalle, foram inspiradas nos arbustos das parreiras e seus ramos quebrados, com a implantação de vários corpos longitudinais levemente inclinados entre si, o que gera um volume que posa estendido na paisagem plácida que a rodeia. Em belo artigo intitulado “A embriaguez da paisagem: vinícolas no Chile”, Underlea Bruscato e Rodrigo Garcia Alvarado, doutores em arquitetura, nos levam a um passeio por várias vinícolas chilenas, cada uma mais bonita que outra. São citadas nominalmente a fábrica de barricas Nadalie, a já descrita Perez Cruz, a Gracia, a Kingston, a Altair e a Matetic. Destaco pessoalmente esta última, projeto do arquiteto chileno-suíço Laurence Odfjell. No cimo de Casablanca, mas já em direção ao Vale de San Antonio, esta vinícola foi totalmente concebida em um enfoque de inserção e respeito ao meio ambiente que a rodeia. Desde o tratamento orgânico dos vinhedos até a concepção de fluxo gravitacional dos vinhos, tudo está pensado de forma a otimizar os processos naturais. De certa forma, o vinho “caminha” verticalmente pela vinícola. Enquanto a uva é recebida pelo telhado, que constitui sua área de recepção. Após a prensagem, sem ação das bombas, o vinho “escorre” para o piso inferior, onde termina sua fermentação. www.brasilengenharia.com

Concluída esta, mais uma vez o vinho desce de piso, sem interferência de máquinas, para um grande recinto de tonéis onde passará o seu período de envelhecimento em madeira. No piso abaixo deste estão as áreas de engarrafamento, rotulagem e expedição, onde o vinho pronto será embarcado em grandes caminhões que penetram na vinícola para transportar sua preciosa carga. A vinícola, parcialmente enterrada, está construída em grandes espaços, com a utilização de concreto e também de amplas superfícies em vidro. Um enorme salão inferior, um espaço que se acessa por uma rampa curva entre grandes muros de pedra, conduz para um anfiteatro, onde, numa iluminação indireta, centenas de barris dormem seu sonho e sonham com noites e garrafas, embaladas ao som de música clássica. O projeto, desenhado para ser, per si, um espetáculo, é coadjuvado pela extrema simpatia e competência do pessoal da casa, cujos vinhos são realmente muito bons. Na Argentina, quinta produtora de vinho do mundo, a maior parte das plantas vinícolas é antiga, muitas delas voltadas para a produção quantitativa, pois o mercado interno consome a maior parte dos vinhos ali produzidos. Nos anos 70 do século passado, algumas vinícolas despertaram para o grande desafio que seria produzir vinhos de alta qualidade, e iniciaram experimentos para modernizar todos os aspectos influentes para a produção de vinhos melhores, em especial com a utilização da uva Malbec, que se adaptou perfeitamente ao entorno de Mendoza. Esta região tem uma geografia peculiar, com um clima semidesértico, onde as plantações são irrigadas por água de degelo dos Andes, que correm por canais nas encostas, sulcos estes parcialmente abertos pelos índios originais que ali habitavam. Como forma de buscar complexidade e elegância aos seus vinhos, Nicolas Catena experimentou plantar uva em cada vez maiores altitudes, com resultados maravilhosos. Sua vinícola mendocina, sem dúvida alguma, é o expoente de qualidade do moderno vinho argentino. Ela tem a forma de uma pirâmide truncada, característica dos maias, não por acaso, mas como forma de homenageá-los. Do topo do edifício vislumbra-se a paisagem exuberante, com as eternas neves dos Andes emoldurando os altiplanos salpicados de verde e vermelho das uvas maduras, que darão origem ao caldo mágico de Baco. Vou finalizando, sem falar na arquitetura brasileira, tão premiada e inovadora em diversos aspectos, mas ainda sem grande tradição nos projetos de vinícolas. Também não falei das edificações francesas, onde somente a região de Bordeaux com seus imponentes “chateaus” daria material para vários artigos. Espero ter transmitido meu amor pelo vinho, e peço desculpas antecipadas pelos erros cometidos nos conceitos de arquitetura, pois sou apenas engenheiro eletrônico. Que sirva este artigo simplesmente para que nós nos lembremos deste fascinante tema. Visitar os sites das vinícolas que usei como exemplo pode ser delicioso. Que pode ser ainda melhor se você for visitá-las pessoalmente, acrescer uma taça do vinho lá produzido e agradecer todas as bênçãos a Deus, o grande arquiteto do universo. Saúde! engenharia 625 / 2015

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ENGENHARIA BIBLIOTECAI

CESAR NETO, Julio Cerqueira. Um estadista urgente: São Paulo está precisando.

São Paulo – SP, Scortecci, 2014, 130p. O objetivo principal é chamar a atenção para uma mudança radical ocorrida no comportamento dos governos e da sociedade a partir do início da década de 1990 e que tem passado despercebida por grande parte das pessoas. Os governos deixaram de governar, passando a se dedicar exclusivamente aos processos eleitorais, e a sociedade deixou de reclamar e exigir seus direitos. Para demonstrar essa realidade, Julio Cerqueira Cesar Neto apresenta um retrospecto dos nossos governos nos últimos 68 anos e, para dar uma medida da gravidade da situação atual da Região Metropolitana de São Paulo, detalha a evolução dos passivos urbanos, sanitários, ambientais e institucionais a partir de 1990. Mostra que os problemas, embora de grande porte e complexidade, podem ser superados desde que apareça um governador estadista como já tivemos no passado.

PINTO, Flávia Bizzotto Ferreira. Dicas preciosas em iluminação.

Rio de Janeiro - RJ, Editora Ciência Moderna, 2014, 110p. O livro mostra a iluminação arquitetural de interiores como um assunto que afeta e sensibiliza a todos. Desvenda a plástica da luz e sua capacidade de encantar o ser humano. Mostra as bases e conceitos fundamentais da matéria iluminação. Contempla assuntos como tipos de lâmpadas e sua adequação a cada ambiente, tipos de iluminação e suas ambiências resultantes, efeitos de luz e sombra e forma de apresentação de projetos luminotécnicos. Com linguagem clara, mostra os caminhos a serem seguidos na projetação de iluminação com dicas simples e “preciosa”, pesquisadas e testadas ao longo de mais de vinte anos de vivência nesse mercado. É como um manual de práticas em luminotécnica, pois promove o bom entendimento de questões com as quais todos convivemos no dia a dia.

PERELMANN, J. Aprenda matemática brincando: histórias e quebra-cabeças.

São Paulo – SP, Hemus, 2015, 182p. Instruir alegremente é o lema deste livro, que a partir do seu primeiro capítulo, “ Quebra-Cabeças para a Hora do Almoço” até o último, “Trinta Problemas Diferentes”, faz jus ao título e à sua forma de ensinar uma matéria que já causou muitas dores de cabeça. Este livro vem preencher uma lacuna, há tempos necessária, a todos que estudam ou se interessam pela Matemática, ciência dos números e de comprovada eficiência na solução de quase todos os problemas, de todas as modalidades da vida e do trabalho, e ainda, imprescindível a todos os ramos da atividade humana.

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ENGENHARIA 625 / 2015 engenharia 625 / 2015

LOPES, Eugénio. Que futuro!!! : os efeitos da poluição eletromagnética sobre a saúde.

Salto – SP, Schoba, 2014, 367p. ‘Vivemos em um micro-ondas gigante’, com essa frase o engenheiro eletrotécnico, resume os efeitos da Poluição Eletromagnética (PEM) sobre a saúde. Entre os causadores desse mal estão os celulares, os aparelhos eletrodomésticos e, até mesmo, as linhas de alta tensão. Nesta obra, reuniu todo o conhecimento adquirido em anos de pesquisa, somado a experiência de décadas como engenheiro, para alertar sobre os perigos da PEM. De forma didática, o autor conceitua termos específicos da física, química e biologia, se aproximando do leitor por meio de exemplos facilmente entendíveis. A obra aborda desde as tecnologias poluentes e como elas afetam o corpo humano, até as medidas de prevenção.

CAMARGO, Ana Maria; GOULART, Silvana. Centros de memória: uma proposta de definição.

São Paulo – SP, Edições Sesc São Paulo, 2015, 110p. Nos dias atuais, quando a velocidade do mundo contemporâneo nos dá a impressão de que o tempo escapa à percepção humana, o cultivo da memória assume importância capital. Este livro enfoca tal processo no que tange as instituições, a partir de uma reflexão sobre os meios e as finalidades para que organizações públicas e privadas de diversos segmentos reúnam arquivos e experiências pessoais e coletivas de seus membros. As historiadoras propõem maneiras para que esses acervos se integrem ao funcionamento geral de todos os setores e, ao mesmo tempo, prezem pela identidade e pelos valores originais de sua matriz.

MARTINS, Maria João; NEVES, Isabel Ventim. Propagação e radiação de ondas eletromagnéticas. Lisboa - Portugal, Lidel – Edições Técnica, 2015, 532p. Esta obra introduz os princípios físicos da propagação e radiação das ondas eletromagnéticas, ligando aspetos teóricos e aplicações práticas na área das telecomunicações. Os conceitos teóricos são acompanhados de interpretação física para apreensão dos aspetos essenciais e o domínio de validade das aproximações efetuadas. Contém diversos exercícios resolvidos, e inclui questões que permitem aferir da compreensão da matéria apresentada, bem como problemas propostos com as soluções. Destina-se a estudantes das Engenharias Eletrotécnicas (Eletrónica, Telecomunicações, Eletromecânica e Eletrotecnia), proporcionando-lhes uma base sólida no domínio da propagação e radiação de ondas eletromagnéticas que lhes permite adquirir os conceitos-base necessários para aplicações mais avançadas. WWW.BRASILENGENHARIA.COM www.brasilengenharia.com


I ENGENHARIA

FERNANDES, Daniel Batista. Análise de sistemas: 10 habilidades fundamentais.

MARQUES, José. Perícias em edificações.

PRADO, Pedro Paulo Leite do; GONÇALVES, João Bosco; MARCELINO, Marcio Abud. Sistemas de medição, erros e calibração.

CARDOSO, Roberto Sales. Orçamento de obras em foco: um novo olhar sobre a engenharia de custos.

Rio de Janeiro - RJ, Editora Ciência Moderna, 2014, 202p. Para ser um Analista de Sistemas de sucesso, conhecer o software do momento não basta. Para completar a formação profissional e acadêmica, é necessário desenvolver um leque de habilidades fundamentais. O pleno exercício dessa empolgante profissão requer uma sólida visão empresarial e conhecimento da área de negócio em que se pretende atuar, o que só se adquire na prática, com dedicação e empenho. O desenvolvimento dessas habilidades essenciais, aliado ao conhecimento do processo sistêmico e o domínio de todas as suas etapas, proporcionará uma Visão 360°. Um profissional com visão sistêmica global, atento às novas tendências, que conhece suas aptidões e está sempre pronto a desenvolver novas habilidades; tem maiores chances de conquistar seu espaço no disputado mercado da Tecnologia da Informação.

Rio de Janeiro - RJ, Editora Ciência Moderna, 2014, 193p. O livro condensa de modo prático e didático os conhecimentos fundamentais a respeito de sistemas de medição, erros e calibração. Apresenta as técnicas de redução do erro nas medidas, decorrentes da temperatura, da interferência eletromagnética (EMI) e da especificação e utilização inadequadas dos instrumentos. Reforça os conhecimentos básicos a respeito de erro, avaliação do desempenho de transdutores, linearidade e distorção. Equaciona a estimação do erro total de um sistema, decorrente da combinação do erro dos seus componentes. A obra mostra a calibração com foco na regressão linear, empregando o aplicativo Excel como ferramenta. Contém exercícios resolvidos e propostos com dicas.

BOTELHO, Manoel Henrique Campos. Princípios da mecânica dos solos e fundações para a construção civil.

São Paulo - SP, Blucher, 2015,182p. E s te te x to fo i p re p ar a d o p ar a e s t u dante s , tecnólogos e engenheiros civis. O livro apresenta, em linguagem botelhana, de forma resumida, prática e direta, os principais assuntos da Mecânica dos Solos e Fundações para obras comuns de construção civil. O livro contém o estudo de tipos de solos, ensaios de caracterização, tipos e aplicações dos mais usados em fundações, aterros, obras estradais e casos ocorridos e interpretados, facilitando a compreensão da matéria.

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São Paulo – SP, Leud, 2015, 217p. Trata-se de livro importante aos iniciantes e interessados nas Perícias em Edificações, contendo os principais conceitos e abordagens sobre as normas técnicas e legislações pertinentes, além de estudos e técnicas sobre as principais manifestações patológicas e gestão da qualidade. A estrutura e as fundações, as instalações elétricas e hidráulicas, os telhados, as impermeabilizações e outros sistemas construtivos são devidamente comentados e ilustrados, facilitando o aprendizado e o aprimoramento aos profissionais interessados na arte pericial. A teoria enunciada é devidamente comprovada com exemplos práticos, cabendo destaque às fartas ilustrações com desenho e fotografias, que faz o diferencial do presente livro em relação ás obras anteriores sobre o tema.

São Paulo – SP, Pini, 2014, 481p. O autor aborda duas importantes questões no estudo do orçamento ligadas ao tema das licitações. A primeira é o problema da manipulação da planilha orçamentária conhecido como ‘jogo de planilha’. A segunda é uma crítica à Lei das Licitações no que se refere ao critério de estabelecimento das propostas consideradas manifestamente inexequíveis. Introduzido pela Lei nº 9.648 tal critério pode ser considerado um grave erro que possibilita a contratação de propostas com valores inferiores e bem distantes do valor de custo orçado pela administração. O autor propõe um novo critério em substituição ao modelo atual que ao admitir valores negativos de BDI tem levado inúmeros contratos de obras ao insucesso e ao consequente abandono das construções configurando má e inconsequente aplicação do dinheiro público.

YAZIGI, Walid. A técnica de edificar. São Paulo - SP, Pini: Sinduscon, 2014, 848p. O livro reúne em 21 capítulos os conhecimentos necessários para o planejamento e execução de obras de edifícios. Respeitando a mesma ordem de construção, o livro apresenta fase a fase as etapas de construção de empreendimentos imobiliários, desde o levantamento topográfico até aspectos de gestão da manutenção. O autor, com larga experiência como profissional do setor, procurou fornecer orientações técnicas com rigor metodológico, com foco na qualidade e no respeito às normas vigentes.

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OPINIÃO

Engenharia a serviço da competitividade

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m tempos modernos, adotar um modelo de gerenciamento de alto padrão é essencial para ampliar a competitividade das empresas, como as de bens de capital, promover os negócios, incentivar os funcionários e garantir a sustentabilidade. Atenta a esse cenário, a indústria de modo geral tem avançado nessas práticas e alguns resultados apresentados já podem ser considerados fantásticos. As companhias são certificadas e conseguem ganhos mensuráveis e calculáveis nas gestões de custos, qualidade, meio ambiente, produção, logística, entre outros. No ranking dos sistemas de gestão, o World Class Manufacturing (WCM) é considerado o mais completo e um dos mais eficientes do mundo, o que explica a grande adesão das empresas. É uma metodologia moderna que reforça as normas industriais e prioriza os processos de melhoria contínua, a fim de eliminar os desperdícios de qualquer espécie (energia, materiais e esforço humano) na manufatura, buscando soluções com o envolvimento sinérgico de todos os colaboradores. Em linhas gerais, o WCM identifica os problemas, as perdas e os métodos que serão usados, e controla os resultados. Baseado em pilares técnicos e gerenciais, o WCM abrangem as principais etapas de produção, como organização do posto de trabalho, controle de qualidade, manutenção autônoma e profissional, atividades independentes, logística, atendimento ao cliente interno, gestão preventiva de equipamentos, segurança, desdobramento de custos, melhoria focada, desenvolvimento de pessoas e preocupação com o meio ambiente. Por meio desses pilares, o sistema estabelece uma série de diretrizes, que envolve, entre outros aspectos, regras de padronização de produtos e de relação com fornecedores, disposição de materiais nas fábricas e métodos científicos para executar operações de melhorias. Para manter o padrão de qualidade, comprovar se os métodos estão sendo aplicados e se os pilares desenvolvidos, assim como registrar as evoluções, as unidades das empresas que operam no modelo de gerenciamento do WCM passam anualmente por auditorias internas e externas. No decorrer das auditorias e pelos resultados finais, as companhias certificadas podem ter destaques Ouro, Prata e Bronze. As evoluções comprovam que as empresas adquiriram conhecimento acerca da metodologia, aplicaram e desenvolveram as melhores práticas mundiais e, principalmente, expandiram a base de conhecimento criada para todo o processo produtivo. A ideia é que as companhias, ao longo dos anos, trabalhem vários pontos e ampliem os pilares das áreas modelos para 100% da manufatura. A missão não pode ser concluída apenas com a implantação, pois em cada evolução se amplia a competitividade. Nesse processo a tecnologia também tem uma grande im-

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VILMAR FISTAROL portância, devido aos necessários sistemas que controlam é presidente da CNH Industrial para a os pilares do WCM. Com reAmérica Latina (detentora das marcas lação às iniciativas sustenCase e New Holland para máquinas táveis, por exemplo, há uma agrícolas e de construção, além de outras plataforma para controlar dez no setor de bens de capital) toda a rede de água de algumas empresas. Assim, quando houver alguma anormalidade o sistema aponta e o problema é corrigido. Outro ponto forte do WCM é permitir que os funcionários contribuam para a excelência da aplicação da metodologia e para os positivos resultados. Um bom exemplo é que cada área possui uma espécie de ordem de serviço; a de meio ambiente, por exemplo, é verde. Nela, os colaboradores podem apontar irregularidades e sugerir ideias, que se forem implantadas eles recebem recompensas, que podem ser até em dinheiro. Isso estimula a participação efetiva deles no processo. Um sistema de gestão bem implementado gera inúmeros benefícios para todos os envolvidos na cadeia: funcionários, fornecedores, clientes, parceiros e comunidade. Em pouco tempo, as empresas adquirem mais flexibilidade produtiva, maior segurança, eficiência e ergonomia, além de alcançarem maior qualidade final dos produtos, redução de desperdícios, melhorias na manutenção, otimização do prazo de entrega e uma relação mais sustentável com o meio ambiente. Os resultados positivos são rápidos, mas o investimento é a curto, médio e longo prazo. Vale reforçar que as empresas são diferenciadas quando têm um gerenciamento industrial de excelência. Temos exemplos de plantas que tiveram uma redução de 50% ou mais dos gastos com inventário de matéria-prima, o que é muito bom! Além disso, adotando uma série de soluções inteligentes e sustentáveis, as unidades conseguem economizar energia elétrica e racionalizar o consumo de água. E não para por aí. Tem também a reutilização de água para lavagem do produto final, a reciclagem de quase 100% dos resíduos da unidade produtiva e a redução anual de 10% do consumo de energia total nos últimos cinco anos. Continuando com os bons resultados do WCM, na busca contínua por aprimoramento, como segurança, as fábricas trabalham com altos índices de horas trabalhadas sem acidentes. O caminho é exatamente esse: investir no processo contínuo de aprimoramento da gestão industrial, sempre de olho na eficiência, nos custos e nas responsabilidades de uma ponta a outra, bem como no engajamento dos funcionários. No caso das empresas de bens de capital, como a que eu tenho a honra de presidir, entregar os produtos, que têm alto valor agregado, com um custo menor e com alta qualidade para o cliente, garante excelentes posições de mercado. Isso tudo é o resultado da engenharia aplicada à competitividade. www.brasilengenharia.com


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Brasil Engenharia Engenharia, saneamento básico, transportes, infraestrutura, construção, rodovias, ferrovias

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