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Elian Woidello ________________________

O Manifesto da Terra do Quase _____________________________________ Ensaio sobre o sul do mundo


MANIFESTO DA TERRA DO QUASE Elian Woidello Curitiba – Janeiro 2018

1 Sou Elian Woidello, sou compositor, cantor, jornalista e professor brasileiro, nasci em Curitiba, a maior cidade do sul do Brasil e capital do estado do Paraná., Estamos na porta aberta para os trópicos, Paraguai e Argentina, somos consequência de uma terra onde todos os ventos se encontram, por isso a capital mais fria do país, clima subtropical, mas, com muita vontade de um verão aquecido e de sorrisos francos. Curitiba é a terceira maior cidade abaixo do trópico na América-Latina, estamos logo atrás de Santiago, Buenos Aires, e bem a frente de Córdoba, Montevideo e Porto Alegre, ou seja, uma cidade que é cosmopolita por excelência, mas, que carrega consigo ranços provincianos de um lugar que um dia já foi pequeno.


Fomos ao longo da história um ponto de passagem entre as grandes rotas, os Guaranis, que buscavam onde o sol nascia, por isso o Paraná rio que dá nome ao estado significa “parecido com o mar”, ou seja, entre o oeste (Paraguai) e o leste (Litoral) ali estavam os campos de Curitiba, terra onde todos os ventos se encontram. Depois que os portugueses e os espanhóis invadiram a terra guarani, essa terra foi loucamente disputada sendo a porta aberta para Vice-Reino da Prata e o Império Português. Após o ciclo do ouro que fez a Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais ser fundada, veio o ciclo das tropas entre Viamão (Rio Grande do Sul) e Sorocaba (São Paulo), junto o com os tropeiros veio o ciclo da Erva Mate, aquilo que através do Rio Iguaçu contribuiu para que Curitiba se tornasse uma capital economicamente viável. Os imigrantes vindos da Europa e do Oriente Médio foi algo que desencadeou uma grande pluralidade cultural no primeiro planalto paranaense, e por fim a nevasca de 1975 que dizimou o café e marcou uma das maiores diásporas da história brasileira, com


colonos e caipiras do interior paranaense marchando para a capital e definindo Curitiba como uma metrópole. Eu nasci em um bairro da zona oeste da cidade chamado Fazendinha, um lugar peculiar de Curitiba, formado por polacos e ucranianos, por pessoas do interior paranaense e aventureiros de outros lugares do mundo. O suburbano bairro espremido entre o Portão e o Rio Barigui sempre teve uma característica amórfica aos conceitos de Curitibanice que o poder público e os meios de informação tentaram imprimir, já que os grandes movimentos artísticos e culturais da cidade se iniciaram ou passaram por ali, como a cena do punk nos anos 80, o skate, Hip Hop, o Rock curitibano e a musica de viola caipira, para citar por cima a efervescência silenciosa que existe ali. Foi nas ruas esburacadas desse lugar que eu tive ainda na infância a consciência de sul, de ser diferente do que a ideia de brasilidade imprime, foi ali que com Luiza Woidello tomei os primeiros mates da minha vida e com Lena


Avanso aprendi a ver no futebol as cores “rubro negras” como as certas. As minhas avós me deram essa consciência, cada uma a sua maneira, Luiza pela oralidade e Lena pela música, e com esse ambiente familiar me descobri na adolescência um artista em uma cidade que nunca se definiu. Ser artista em Curitiba, como em qualquer lugar do mundo é um ato de resistência, independente do viés econômico, o ato de internalizar as sensações do mundo já é um ato heroico, agora somado a isso o fato de viver em um país que não te dá as condições necessárias para que se desenvolva seu direito fundamental de trabalhar, nos coloca, em uma posição de mártires dentro de uma fábrica de vender ilusões que é o mercado da arte. Especificamente no meu caso, sou músico, primordialmente músico, já toquei em baile, bar, teatro, festival e etc. todos os tipos de músicas possíveis, já fui baixista de dupla sertaneja e pianista de orquestra de vanguarda, vivi na pele todos os benefícios e prejuízos do oficio, porque sempre tentei encontrar um motivo em minha arte.


Caí de cabeça na poesia e fui um dos fundadores do movimento autoral de Curitiba, ali na Segunda Autoral ao lado de alguns dos mais importantes nomes da música curitibana. Fui ali para buscar uma compreensão da musicalidade de minha aldeia, e descobri algo maravilhoso, que não se pode cantar a aldeia sem antes saber qual é o seu povo, e sim, somos do sul do mundo, e possuímos uma maneira de interação muito semelhante aos da América Platina, porque o sul acima de tudo não é aceitação, e sim é negação.


2 Já dizia o grande compositor argentino Carly Garcia em seu tema “El Karma de Vivir al Sur”, “me vai fazer feliz ou vai me matar com sua forma de ser...”, essa canção dos anos 1980 definia uma condição muito característica dos argentinos de um modo em geral, o fato de considerarem viver no sul um carma, uma coisa que senti na pele no tempo em que vivi em La Plata, capital da província de Buenos Aires. Ali as manhãs do sul do mundo eram tensas, porém bucólicas, o calor de março se esvaia entre os dedos de abril e o cinza governava as arborizadas ruas da cidade. Ali nos becos estreitos do bairro da boca em Buenos Aires aprendi na síntese o que era ser do sul do mundo, identifiquei-me com isso e sempre estabelecia relações entre aquele lugar e o meu, durante o tempo em que morei eu comparava cada pessoa, cada rua, cada lugar, via nos prédios gigantescos da 9 de Julio, a possibilidade do futuro.


Na minha volta ao Brasil, eu levei algum tempo para conseguir compreender algumas mudanças que haviam passado por ali, mas vi muita gente exaltando um tema estético acerca do sul do mundo, que aos meus olhos não era o sul que eu tinha vivido, que eu vivo e que principalmente está presente em minha obra. O carma de acordo com algumas filosofias orientais não é necessariamente algo ruim, e sim algo que temos que aprender com a vida, aprender a conviver, e aprender a viver no sul é perante a isso um carma, algo presente nas relações latinoamericanas de um modo em geral, tentar entender o que está acontecendo, por que as coisas são assim?!, uma conta que não se fecha. A dificuldade em conseguir acessar a espaços, mostrar sua arte, afirmarse enquanto alguma coisa é algo completamente sulista, e nesse aspecto Curitiba é a síntese do sul do mundo, o carma de viver ao sul é a necessidade de procurar o norte, ou de aprender com a negativa das coisas.

Assistir

inúmeros artistas da cena musical exaltando isso foi


algo determinante em meu pensamento, assim como o catingueiro é lamento, o gaúcho também, e toda e qualquer prerrogativa estética em enaltecer uma consciência coletiva inexistente nas grandes cidades é um empobrecimento estético, uma vez que nem em Porto Alegre e nem em Curitiba as pessoas andam pilchadas e fazendo saudações do tipo “viva o chimarrão”, as pessoas torcem para um dia de sol e uma praia. Ou seja, a gente luta contra os estereótipos, somos abertos a universalidade, mas não conseguimos ser universais, e a universalidade é o grande carma do sul, porque quando tentamos ser universais somos mais típicos ainda, uma vez que aquilo que não é tradição é plágio, mesmo parecidos nunca miramos em Buenos Aires e sim em Rio e São Paulo. Na cena musical curitibana vi muitos colegas cometendo esse equívoco, inclusive eu, já pensei que a ideia de vincular a música a um território somente, era o caminho que transformaria minha arte. Acredito isso como elemento de transformação de um povo, jamais de um artista, o artista tem que


ir além, para isso ele tem que ser autentico, e principalmente ter suas matizes muito bem alicerçadas, pois entre caipira e sertanejo há uma diferença gritante e só não vê quem não quer. As grandes cidades do sul sempre foram silenciosas,

as

possibilidades

revolucionárias

porque não criam em uma unidade sulista, e sempre negaram essa questão, logo pensar em uma identidade urbana para as pessoas desses lugares é um verdadeiro equívoco histórico, porque esses lugares não estão interessados em ter uma identidade urbana e sim buscam a diferença, buscam crescer, buscam o niilismo orgânico em sua definição, querem ser únicas porém universais, e não teria como falar da terra do quase sem falar do sul do mundo.


3. A inveja é brava, falo isso pois somos invejosos, inveja é um sentimento de tristeza por sob a glória de outros, não cobiçamos, invejamos, queríamos ser uruguaios e nos livrado da cora em 1828 também, queríamos ser brancos como um alemão ariano, ou pretos como um hutu de Ruanda, queríamos ter o dinheiro do árabe, a persistência do judeu e o bom humor de um baiano, a gente queria que aqui nevasse como em Bariloche ou desse praia como em Porto de Galinhas, a gente queria o calor nordestino e o frio de Montreal, buscamos ser desenvolvidos como um suíço, mas nossa miséria sempre maior que a boliviana, nunca tivemos mais árvores que Porto Alegre, nem nunca fomos maiores que Belo Horizonte, a gente carrega um carma, um carma de quem vê seus artistas morrerem cedo, ou nem nascerem. A gente foi capital do Brasil por 3 dias, está bem, só outras 3 cidades podem dizer o mesmo, mas era porque a ditadura via em nós ovelhas que não


ofereciam perigo ou resistência alguma, veja só onde as "diretas" começaram?! Pois então São Paulo levou a glória, mas o Rio Grande se diz terra do chimarrão também, não há mágoas, até hoje a batata é atribuída à Inglaterra e o macarrão aos italianos, nem por isso os quéchuas e os chineses ficam tomando satisfação com eles. Mas existe uma tristeza profunda, uma revolta, uma tensão gigantesca, pois somos aqueles que temos qualidades, mas não nascemos para isso, até porque o nosso romantismo morre nas alcovas de algum boteco e nada mais. Gostaria de deixar claro que nunca seremos nada diante as coisas que aí estão, somos esquisitos demais para jogar o jogo, logo precisamos reinventar esse jogo, mas para isso temos que aceitar nossa limitação e fraqueza, nunca estaremos em pé de igualdade com as ideias de brasilidade, e não falamos espanhol para sermos argentinos, logo nossa arte, se não deveras genial, deve ser deveras única e cheia de propriedade.


Somos arautos solitários em meio a vários contextos, somos a terra do quase, o riso banguelo de Gilda, esquecida em meio aos pântanos profundos de nossa história. Curitiba é por onde o sul começa para os viajantes do norte, e o que falo aqui pode ser aplicado a qualquer grande cidade que ruma para o sul a partir daqui, o niilismo orgânico de revolver aquilo que foi destruído por ela mesma, vide as placas com nomes de heróis tombados na guerra civil, ou de poetas que morreram para virar pedreira, a gente tem a responsabilidade e temos que solucionar isso. Ao longo do tempo algumas ideias no pensamento ocidental foram muito mais aceitas que outras, e uma dessas ideias foi a de identidade, ou de autenticidade que os culturalistas alemães gostam de tratar, porém não podemos pensar na identidade ou na autenticidade sem pensar na diferença, no outro, na relação de opostos colocada em uma simples conversa, em polos que se complementam.


A terra do quase nunca será alguma coisa enquanto buscar sua identidade, ela precisa acima de tudo da diferença para se sentir em um contexto. Somente onde incide o raio do mito, a vida brilha; o resto de total obscuridade. A filosofia grega bem como todo o pensamento ocidental se despoja de uma mítica na tentativa de se afirmar e tentar tornar suportável nossa passagem pela terra, porém nenhuma planta precisa de mitos para aceitar a luz, no caso especifico da música, precisamos ter cuidado para não cair em determinismos e regionalismos burros, ou principalmente, em tentar colocar em caixas previamente definidas como territórios ou climas. O estado por excelência, bem como toda potência política organizadora, não vê com bons olhos o desenvolvimento cultural, por isso atrelar as manifestações culturais a um estado, cidade ou país é habitar em um terreno muito perigoso, pois a política não admite nenhum “vir a ser” da cultura, e toda manifestação é visto como algo inerente ao social, nunca como um peso de igualdade, muitas


vezes quando se atrela a cultura ao entretenimento, e o entretenimento a um publico alvo. Quando comecei a trabalhar com música eu via com muito entusiasmo a mítica, os estereótipos e principalmente o terreno fértil que você pode ter ao explorá-los, Porém, isso é um dado limitador ao fenômeno artístico de perceber o mundo,

não

devemos ter nossa arte atrelada como fim a um território, ou um clima, por isso discordo de algumas prerrogativas estéticas impostas por sobre a música brasileira, mesmo acreditando na especificidade de cada região, creio que essas características não devem ser elementos únicos da expressão artística. No caso curitibano, a invenção de uma identidade para fins políticos foi uma determinante prejudicial ao desenvolvimento de manifestações inerentes à cidade, tudo foi forjado e inventado, e quando não forjado e inventado, precisou ser ressignificado para ter algum valor perante a opinião pública.


Na música, saímos de Seattle brasileira para Goiania do sul em duas décadas, porém quase todos os artistas que se dizem curitibanos, padecem de uma ausência de público, uma dificuldade em acessar os meios difusores e principalmente, em se definir como músicos, compositores, ou artistas. Eu comecei desde muito cedo a lidar com os mais diferentes estilos musicais, do caipira ao rock, da vanguarda ao fandango, imprimi em cada um desses estilos uma fotografia muito pessoal que apenas eu posso ter, porque percebi que a segmentação é um agente limitador, e isso foi minha grande sacada, porém um tiro no pé, hoje em dia ninguém quer alguém autêntico, por isso tenho até hoje que abrir concessões para poder tocar em rádio ou aparecer em televisão. A ideia popular de brasilidade apontada pelo Tropicalismo, ou a de sulismo colocada pela “Estética do Frio” nunca me satisfizeram como artista, mesmo que válidas para um grupo, quero apontar um caminho além de arquétipos e ressignificações, quero uma música transformadora


sobre o oceano do social, que transforme a escuta de quem estiver disposto a ouvi-la. Por isso a ideia do quase, quase como o clique de uma máquina fotográfica, ou aquele instante antes do beijo, onde o imaginário das diferenças habita, onde somos humanos e nada mais, sem idade, apenas mensagem. O quase é a interação humana, a literatura de Clarisse Lispector, a cidade de Curitiba, qualquer grande cidade do mundo que não queira estar presa a estereótipos ou ideias de identidade, mas que tenha usado

isso

para

chegar

a

um

ponto

de

desenvolvimento popular, como Porto Alegre ou Florianópolis, e hoje esteja disposta a dar um passo a frente e olhar todos os lados em que o mesmo sol bate. Não devemos estar preso a estilos, tendências ou modas, temos que ser aquilo que somos, e assumir de uma vez por todas a nossa diferença como fator principal de manifestação humana, por isso temos que ser tudo e nada.


Não estou propondo o morno ou blasÊ, estou propondo o visceral, a criança radiosa dentro dessa cibercultura que a humanidade sofre tanto em compreender.


4 Esse manifesto não possuí pretensão estética alguma, apenas quero através dele relatar minha forma de compreender o meio e principalmente, como que pelo meio crio canções, pois sou fundamentalmente um compositor que luta contra um oceano de hipocrisia e falsidade. Quero que esse texto sirva de inspiração aos meus pares nesse mundo, não apenas aos curitibanos ou sulistas, a todos que entendem que a nossa luta é fazer com que nossa essência seja a argamassa para edificar o novo, e não apenas um reboco para as estruturas já existentes. Não carrego comigo preconceitos musicais em nenhum nível, e sim, tenho um gosto que se reflete em minha verdade, também afirmo admiração a alguns artistas que citei ou que de certa forma praticam alguma das coisas que condenei. O Manifesto da Terra do Quase é a consequência de uma luta artística e musical de quem muitas vezes se viu abandonado por sua música e seu público, mas a luta continua, e nossa


arte ĂŠ uma porta sempre aberta para o novo que sempre vem. Cantarei, essa ĂŠ minha Ăşnica arma!

Manifesto da Terra do Quase  

O Manifesto da Terra do Quase é a consequência de uma luta artística e musical de quem muitas vezes se viu abandonado por sua música e seu p...

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