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Lembranças da Aliança II por Kaoru Yamada Aliança II é minha segunda terra natal, onde passei dezesseis anos de minha vida, e é a terra natal dos meus filhos. Mesmo estando distante, sempre me lembro de lá com saudade. Eu vim para o Brasil aos três anos de idade, juntamente com meus pais e meu irmão mais velho. O primeiro passo na agricultura foi na Aliança I, onde permanecemos por cinco anos. Depois passamos dez anos na Aliança III, e em 1942 nossa família mudou-se para Aliança II. Naquela época, o centro de Aliança começava na igreja, havia a residência do Sr Denda, a cooperativa, o Departamento de compras e a quadra de tênis, onde víamos as pessoas se divertirem em jogos de tênis. No centro comercial onde todos eram japoneses, meu pai comprou um terreno na baixada, construiu uma casa e abriu um bar. À direita havia o grande Hotel Takami e à esquerda, uma usina de beneficiamento de arroz, onde uma máquina trabalhava todos os dias fazendo um enorme barulho. Certa vez levei meu sobrinho ainda pequeno para ver a máquina. No outro lado da rua, à direita, morava o marceneiro Sr Tanaka, que era um cristão fervoroso, e à esquerda o Sr Hori, pai de cinco filhos, todos meninos, e o vovô Moriyama, que era muito querido como o vovô do teatro de papel. Eu assisti ao teatro muitas vezes junto com as crianças. Eram vovô e vovó muito carinhosos. Perto da casa do Sr Moriyama, havia uma grande usina de beneficiamento de algodão. Era o auge da cultura de algodão e a usina funcionava dia e noite. O caminhão que transportava o algodão e o arroz de toda a Aliança andava o tempo todo levando a carga. Havia também uma jardineira (ônibus) que fazia o trajeto entre Mirandópolis e Tietê e graças a isso, o bar administrado por meu irmão mais velho prosperou. Meu pai começou a preparar uma massa caseira para oferecer às pessoas que trabalhavam à noite na usina de algodão. Isso também fez sucesso e ele fazia entrega mesmo em noites de frio e chuva. Num lugar um pouco afastado, havia uma criação de bichos da seda e a Aliança era uma vila que fervia. Também aconteciam frequentemente campeonatos de beisebol, que eram muito animados. As festas da igreja também eram muito populares com a presença de muitos italianos que moravam a 11 quilômetros. Tinha a escola de corte e costura da professora Yamanaka, onde eu estudava e auxiliava a professora em seu trabalho de confecção. A mãe da professora era uma vovó bondosa e estimada pelas alunas. Em 1944, casei-me com Yamada e comecei uma nova vida. Meu marido adquiriu a oficina do Sr Hato na Aliança II em sociedade com Sr Miyoshi Baba, seu colega de trabalho na metalúrgica de Mirandópolis. Anos mais tarde, ele comprou um automóvel e passou a dar carona a um corretor de imóveis que conhecera por acaso. Quando era solteiro, ele tinha um projetor de filme e fazia projeções em diversos lugares, então era muito respeitado por conhecer bem a região. Ele passou o trabalho da oficina para seu amigo Sr Amano e deixou o Sr Baba. O Sr Baba era uma pessoa generosa e consentiu. Ele passou a viajar longe com a venda de imóveis e deixou a Aliança onde vivera durante 13 anos para mudar-se para São Paulo; Na Aliança, vivemos tranquilamente sem grandes dificuldades. As crianças, que nasceram uma após a outra, foram trazidas à luz pela Sra Igarashi, uma parteira gentil. Um motivo de tristeza foi ter perdido minha terceira filha aos oito meses de vida, devido a um resfriado. Quando eu chorava todos os dias, a Sra Shimizu vinha sempre me confortar.


A família Baba, nossos amigos de Aliança, mudou-se para perto de nós e a visitávamos às vezes enquanto o casal Baba estava bem, mas agora já são falecidos e quase todos os amigos de Aliança já se foram. A vida em São Paulo não era tão alegre como na Aliança. Aproveitei minha experiência com a sra Yamanaka e fiz uns bicos de costura. Meu marido trabalhou com táxi, vendas de imóveis e por último, representação do Jornal Nippak. Apesar de ser internado e receber alta várias vezes durante 5 anos, ele viveu até os 80 anos. Segundo sua vontade, está enterrado no túmulo da família Yamada em Aliança I, junto com seus pais. Seu orgulho e honra era o cerimonial realizado no estádio do Pacaembu por ocasião da visita do príncipe herdeiro e da princesa Michiko, em maio de 1967. Além disso, ele se orgulhava de que ficara muito emocionado quando os príncipes ficaram impressionados com as mudas de coqueiro, frutos, alimentos e artesanatos produzidos com coco trazidos da Bahia e expostos na feira agrícola do Ceasa. Eles observaram e fizeram muitas perguntas, chegando a permanecer mais tempo do que o previsto. Hoje nossos cinco filhos trilham cada um o seu caminho e eu cheguei aos 80 anos. Agradeço pelos dias felizes que eu passo cercada pelos meus filhos e netos e sou grata aos ancestrais. Pratico dança com os amigos do Rousoukai, faço pequenas viagens e me divirto. Hoje, 50 anos depois de ter deixado a Aliança, vou à Aliança I anualmente para visitar o túmulo do meu marido e cumprimentar meu cunhado, Sr Minoru Yamada, que cuida de lá. Procuro participar das confraternizações realizadas em São Paulo. Após ver o crachá ao peito de cada um, nos abraçamos e conversamos muito. Saboreamos o churrasco trazido da distante Aliança, conversamos sobre os pratos preparados por cada um e passamos um dia agradável, prometendo o reencontro para o próximo ano. Tenho um grande respeito e admiração pelas pessoas que zelaram pela Aliança II durante estes longos 80 anos e os pioneiros já falecidos que superaram grandes dificuldades.

Desejo profundamente a prosperidade da Aliança II e a saúde e felicidade de todos.

Lembranças de Aliança II  

Escrito por Kaoru Yamada, para uma compilação de memórias da cidade de Aliança II, no oeste paulista.