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Revista Literária “O Voo da Gralha Azul” n0. 9 – Paraná, janeiro / março 2012 Idealização, seleção , layout e edição: José Feldman Contatos, sugestões, colaborações:

voodagralhaazul@gmail.com http://singrandohorizontes.blogspot.com.br

Endereço para correspondencia: Rua Vereador Arlindo Planas, 901-A Zona 6 Cep.87080-330 Maringá/PR

Que a humanidade possa aprender com a nossa Gralha-azul e entender que o equilíbrio e o respeito ecológico entre fauna e flora é fundamental para a existência do Homem na face da Terra!!!

Prezado Leitor Este almanaque não tem a pretensão e nunca poderá ser considerada como substituição aos livros, jornais, colunas, etc. que circulam virtualmente ou não, mas sim como mola propulsora de incentivo ao cidadão para buscar novos conhecimentos, ou relembrar aqueles perdidos na névoa do passado. Por que o Voo da Gralha Azul? A Gralha Azul, que assim como semeia o pinheiro, ela alça voo e semeia no coração de cada um que alcançar, o pinhão da cultura, em todas as suas manifestações. Ao leitor, novos conhecimentos. Ao escritor ou aspirante a tal, sejam poetas, trovadores, romancistas, dramaturgos, compositores, etc., um caminho de conhecimento e inspiração. Obrigado por me permitir dividir consigo estes breves momentos,

José Feldman


2

SUMÁRIO ANÁLISES LITERÁRIAS CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE O poema das sete faces ...............................................

144

CECÍLIA MEIRELLES Romanceiro da Inconfidência .......................................

203

MACHADO DE ASSIS Trio em Lá Menor .........................................................

183

ARTIGOS ADELTO GONÇALVES Uma “redescoberta” da Literatura Africana no Brasil ...

58

ALBA KRISHNA TOPAN FELDMAN A Identidade da Mulher Indígena na Escrita de Zitkala-Ša e Eliane Potiguara ........................................................... 220

AMOSSE MUCAVELE A poesia epigramática do Amin Nordine ou a Babalaze do Atirador das Verdades .................................................. 49

CILZA CARLA BIGNOTTO Duas leituras da infância,segundo Monteiro Lobato ....

116

ELMANO CARDIM As primeiras revistas literárias ......................................

52

IALMAR PIO SCHNEIDER Outra Época e um Poeta Inesquecível .........................

A literatura infanto-juvenil: do acesso ao livro até a formação do leitor .............................................................................. 133

J. G. de ARAÚJO JORGE 213

JULIANA BOEIRA DA RESSURREIÇÃO A Importância dos Contos de Fadas no Desenvolvimento da Imaginação ................................................................... 71

NILTO MACIEL A Poética de Linhares Filho ..........................................

21

RICARDO FARIA Um poeta chamado Solano Trindade ...........................

154

SERAFINA FERREIRA MACHADO A imagem do negro na poesia de Solano Trindade .....

156

WALDOMIRO WALDEVINO PEIXOTO O Tempo na Ficção ......................................................

103

BIOGRAFIAS Afrânio Peixoto ............................................... Américo Facó ................................................. Amaury Nicolini .............................................. Cassiano Ricardo ........................................... Cilza Carla Bignoto ........................................ Cláudio de Cápua .......................................... Cornélio Pires................................................. Dalton Trevisan..............................................

174 36 55 68 84 80 25 48 179 10

CONCURSOS LITERÁRIOS Concurso Literário Padre João Maia 2012 'Vila de Rei: Rostos e Olhares' .................................. 228 III Concurso Literário da Academia Taubateana de Letras ............................................................ 229 XV Concurso Nacional de Contos 'Prêmio Jorge Andrade' ....................................................... 230 Prêmio Professor Mário Clímaco - Alepon .... 231 15º Prémio Literário Fernando Namora (Portugal) ....................................................................... 232

200

JANDI FABIAN BARBOSA e TANIA M. K. ROSING

Uma Casa na Lembrança .............................................

Dodora Galinari.............................................. Domício da Gama .......................................... Elmano Cardim .............................................. Inoema Nunes Jahnke ................................... Jacy Pacheco ................................................ João Justiniano da Fonseca .......................... Linhares Filho ................................................ Lino Sapo....................................................... Luciene Barrel (lubarrel) ................................ Milton Nunes Loureiro ...................................

16 102 227 31 121 6 165 217

CONTOS / CRONICAS ABÍLIO PACHECO Cheiro de café ................................................ 177 AFRÂNIO PEIXOTO Barro Branco .................................................. 15 AMOSSE MUCAVELE Carta do aniversariante no dia em que não se fará a festa ............................................................... 112 ANTONIO BRÁS CONSTANTE Humor – Sol e Frio (tomou Doril e Não Sumiu) 26 APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA A canção que tocou no meio da noite ............ 64 Caminho sem Volta ........................................ 214 ARTUR DE AZEVEDO Uma aposta .................................................... 125 CAROLINA RAMOS Como de Costume... ...................................... 41 CLÁUDIO DE CÁPUA Galo Doidão ................................................... 6 DALTON TREVISAN Em Busca da Curitiba Perdida ......................................

DOMÍCIO DA GAMA Maria sem Tempo .......................................... FERNANDO SABINO A mulher vestida.............................................

217

33 142


2 FRANCISCO JOSÉ PEREIRA A Velha Senhora e seus Cachorros ............... HENRIQUE OLIVEIRA O Bêbado e o Poeta ...................................... JOÃO SCORTECCI Eu sou um livro .............................................. LEON ELIACHAR A Outra ........................................................... LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO Vitor e seu irmão ............................................ OLIVALDO JÚNIOR Fim de Linha ................................................. MACHADO DE ASSIS Adão e Eva..................................................... Trio em Lá Menor ..... Um homem célebre ........................................ RACHEL DE QUEIROZ Os Dois Bonitos e os Dois Feios .................. VICÊNCIA JAGUARIBE A Decisão ....................................................... Por uma nota de dez reais .............................

10 45 114 81 68 3 195 180 169 130 88 106

ENTREVISTAS LINO MENDES Conversas Curtas com Fernando Máximo ...................

211

FOLCLORE FOLCLORE DO BRASIL Alamoa ......................................................................... Ana Jansen .................................................................. Anhangá ....................................................................... Arranca-Língua ............................................................ A Tartaruga e o Gavião ................................................ Barba Ruiva ................................................................. Bicho-Homem .............................................................. Boitatá .......................................................................... Boto Sedutor ................................................................ Cabeça-De-Cuia .......................................................... Caboclo-D´água ........................................................... Caipora ........................................................................ Canhambora ................................................................ Capelobo ...................................................................... Cavalo Branco ............................................................. Cavalo Das Almas ....................................................... Chibamba ..................................................................... Chupa-Cabras .............................................................. Cobra Grande .............................................................. Cobra-Jabuti ................................................................ Cobra Norato ............................................................... Corpo Seco .................................................................. Cuca ............................................................................. Curaganga ................................................................... Curupira ....................................................................... Famaliá ........................................................................

90 91 91 91 175 91 92 92 92 93 93 93 93 94 94 94 94 94 95 95 95 95 95 96 96 96

Gorjala.......................................................................... Gralha Azul .................................................................. Iara ............................................................................... João Galafoice ............................................................. João Galafuz ................................................................ Labatut ......................................................................... Loira Do Banheiro ........................................................ Lobisomem................................................................... Mãe-Do-Ouro ............................................................... Mani (A Lenda Da Mandioca) ......................................

96 96 97 97 97 98 98 98 98 99

JOSÉ GERALDO MARTINEZ Lendas da Infância .......................................................

201

LENDAS INDÍGENAS O guaraná .................................................................... Vênus e Sirius ..............................................................

140 141

LUIZ EDUARDO CAMINHA Lenda de Iaraguaçu ......................................................

60

MARIA ROSA MOREIRA LIMA A lenda dos tatus brancos ............................................

150

PARLENDAS .................................................

126

HAICAIS ACADEMIA RIBEIRAOPRETANA DE POESIA HAICAIS, 1996 Arthur Francisco Baptista............................... Geraldo Lyra .................................................. Dercy Alonso de Freitas................................. Sérgio Bernardo............................................. Darly O. Barros .............................................. Morais Lopes (Portugal)................................. Maria Thereza Cavalheiro.............................. Arthur Francisco Baptista............................... Napoleão Valadares ...................................... Sérgio Bernardo............................................. Arthur Francisco Baptista............................... Izo Goldman .................................................. Darly O.Barros ............................................... Neide Rocha Portugal.................................... Darly O. Barros .............................................. Dercy Alonso de Freitas................................. Edmar Japiassu Maia .................................... Lila Ricciardi Fontes ...................................... Lila Ricciardi Fontes ...................................... Silvio Ricciardi ............................................... Branca Marilene Mora de Oliveira ................. Lila Ricciardi Fontes ...................................... Sílvio Ricciardi ............................................... Sílvio Ricciardi ............................................... Rita Marcianp Mourão ................................... Lila Ricciardi Fontes ...................................... Silvio Ricciardi ............................................... AFRÂNIO PEIXOTO Haicais ...........................................................

104 104 104 104 104 104 104 104 105 105 105 105 105 105 105 105 105 105 105 105 105 105 105 105 106 106 106 14


3 JOÃO JUSTINIANO DA FONSECA 50 Haicais + 3 ................................................ NILTON MANOEL Haicai – O Poema de Três Versos .................

86

Mistério.........................................................................

84

1

40

João Justiniano Da Fonseca/BA Soneto sem sal e sem pimenta .................................... Sussurros .....................................................................

(Ademar Macedo: seleção) MENSAGENS POÉTICAS 82 ........................ MENSAGENS POÉTICAS 84 ........................ MENSAGENS POÉTICAS 88 ........................ MENSAGENS POÉTICAS 93 ........................ MENSAGENS POÉTICAS 101 ...................... MENSAGENS POÉTICAS 104 ................... MENSAGENS POÉTICAS 108 ...................... MENSAGENS POÉTICAS 111 ......................

3 18 40 62 114 145 176 188

Estrofe do Dia Ademar Macedo/RN ...................................... Ademar Macedo/RN....................................... Carolina Ramos/SP ....................................... Djalma Mota/RN ............................................ Gilmar Leite/PE.............................................. José Lucas De Barros/RN ...... José Tomaz/PB ............................................. José Zilmar/PB ..............................................

4 189 40 19 63 115 177 145

...E Suas Trovas Ficaram Aloísio Alves Da Costa/CE ........................... Aloísio Alves Da Costa/CE ............................ Durval Mendonça/RJ ..................................... Edmilson F. Macedo/MG ............................... Luiz Otávio/RJ ............................... Paulo Cesar Ouverney/RJ.............................. Miguel Russowsky/SC ................................... Waldir Neves/RJ ............................................

19 115 63 40 145 189 4 176

63 177

Rogaciano Leite/PE

Simplesmente Poesia Antonio m. A. Sardenberg/RJ – 63

Antonio Roberto Fernandes/RJ – 19

Djalma Mota/RN Décima- (Redondilha Menor) .......................................

115

Renato Alves/RJ

MENSAGENS POÉTICAS

Saudade... ....................................................................

Um Soneto Filho do Sol ............................................... Soneto do Abandonado ...............................................

PAULO V. PINHEIRO

Sorriso ..........................................................................

19

Francisco Macedo/RN Ialmar Pio Schneider/RS

MENSAGEM Uma Flor no Meio da Vida ...........................................

Soneto do Dia Amilton Maciel Monteiro/SP

Impossível ....................................................................

145

Sônia Sobreira/RJ Eu Gosto da Chuva ......................................................

189

Vanda Fagundes Queiroz/PR Transitório ....................................................................

4

Uma Trova de Ademar Ademar Macedo/RN ..................................... Ademar Macedo/RN ..................................... Ademar Macedo/RN ..................................... Ademar Macedo/RN ..................................... Ademar Macedo/RN ..................................... Ademar Macedo/RN ..................................... Ademar Macedo/RN ..................................... Ademar Macedo/RN .....................................

4 19 40 63 115 145 176 189

Uma Trova Nacional A. A. De Assis/PR .......................................... Carolina Ramos/SP ....................................... Izo Goldman/SP............................................. Jeanette De Cnop/PR .................................... Marina Bruna/SP ........................................... Olympio Coutinho/MG ................................... Rejane Costa/CE ........................................... Roberto Medeiros/MG ....................................

18 145 40 62 3 114 176 188

Uma Trova Potiguar Ascendino De Almeida/RN ............................ Bento Rabelo/RN ........................................... Carmo Chagas De Oliveira/RN ...................... Fabiano Wanderley/RN .................................. Joamir Medeiros/RN ...................................... Marcos Medeiros/RN ..................................... Marivaldo Ernesto/PB .................................... Pedro Grilo/RN ..............................................

18 63 115 188 3 176 40 145

Uma Trova Premiada Alcy Ribeiro S. Maior/RJ ................................ Dorothy Jansson Moretti/SP .......................... Eduardo A. O. Toledo/MG ............................. Marcelo Zanconato Pinto/MG ........................ Olympio Coutinho/MG ...................................

188 4 19 115 145

145

Eduardo A. O. Toledo/MG Por Sobre as Nuvens ...................................................

189

Gilson Maia/RJ .............................................. Manoel De Macedo/RN ................................. Zé De Sousa/PB ............................................

115 40 176


4 Pedro Melo/SP .............................................. Selma Patti Spinelli/SP .................................. Thereza Costa Val/MG ..................................

63 176 40

POESIAS 71 226 226 227 227 227

AMÉRICO FACÓ Noturno ........................................................................ Ar da floresta noturna ..................................................

99 100

ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG Amor e paixão .............................................................. Seu beijo ...................................................................... Presa ............................................................................ Abraço .......................................................................... Noite de amor .............................................................. Você .............................................................................

56 56 56 57 57 57

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Adeus a Sete Quedas .................................................. Balada do amor através das idades ............................. Debaixo da ponte ......................................................... Poema das Sete Faces ...............................................

149 121 130 143

CASSIANO RICARDO Riso e lágrima .............................................................. Manhã de caça ............................................................ Brasil-menino ............................................................... A rua ............................................................................ A sintaxe do adeus ...................................................... Serenata sintética ........................................................ Imemorial ..................................................................... Poema implícito ........................................................... O cacto ......................................................................... Você e o seu retrato .....................................................

27 27 28 29 29 29 29 30 30 31

CECÍLIA MEIRELES Canção ......................................................................... Motivo .......................................................................... Balada das dez bailarinas do cassino .......................... Canção ......................................................................... Canção de alta noite .................................................... Canção do caminho ..................................................... Canção ......................................................................... Guitarra ........................................................................ Serenata ...................................................................... Pássaro ........................................................................

122 122 122 123 123 123 123 124 124 124

189 190 190 190 190 146 69

IALMAR PIO SCHNEIDER Soneto a Laurindo Rabelo ........................................... Soneto para Jayme Caetano Braun ............................. Soneto a Arthur Azevedo ............................................. Soneto a São Francisco De Assis ................................ Soneto a Ernest Hemingway ........................................

2 2 2 2 3

INOEMA NUNES JAHNKE Imortal .......................................................................... Coração guerreiro ........................................................ Corpo e alma................................................................ Esperança .................................................................... Saudade ....................................................................... Refúgio ......................................................................... Lasciva ......................................................................... Janela da emoção ........................................................ É preciso ...................................................................... Compaixão pela vida .................................................... O fim.............................................................................

66 66 66 66 67 67 67 67 67 67 68

JACY PACHECO Ambição do pingo d'água ............................................. Primavera do mundo .................................................... O ateu .......................................................................... Conformismo ................................................................

83 83 83 84

J.B. XAVIER O Camelô ......................................................................

197

JOÃO JUSTINIANO DA FONSECA A beleza da vida ........................................................... A morte do sonho ......................................................... As plantas do sertão .................................................... Coração do velho ......................................................... O esquecimento ........................................................... O tecelão da vida .........................................................

79 79 80 80 80 80

JOSÉ TAVARES DE LIMA Tempo de colheita........................................................

71

LINHARES FILHO A minha mãe, habitante da morte ................................. A Machado de Assis, morto vivo .................................. Das coisas .................................................................... Ode a Fernando Pessoa ..............................................

22 23 24 24

LINO SAPO

70

LUBARREL

51 51 51 51

As fadas ........................................................................ Tributo ao mar .............................................................. Placidez noturna ........................................................... Refúgio ......................................................................... Ode a Iara .....................................................................

EFIGÊNIA COUTINHO Porque amo ................................................................. O sonho realizado ........................................................ Sonhos ......................................................................... Canção do amor ..........................................................

Colheita ........................................................................

69

EDMAR JAPIASSÚ MAIA O tolo e o sábio ............................................................

A briga de dois cegos por causa de uma esmola .........

Jardim dos sonhos ....................................................... Poesia da cachoeira..................................................... Cachoeira do sapo ....................................................... Minha tapera ................................................................

CECIM CALIXTO Colheita da fé ...............................................................

Missão terrestre ........................................................... Segredo........................................................................ Amor de extremos ........................................................ Bacharel ....................................................................... Dia de resgate ..............................................................

HÉRON PATRÍCIO

AMAURI NICOLINI Calendário .................................................................... No caminho ................................................................. Memórias ..................................................................... Passageiros a bordo ..................................................... Velhos carnavais .........................................................

52

ENÉIAS TAVARES DOS SANTOS

ALBA HELENA CORRÊA Semeadura do bem .....................................................

Só quero existir ............................................................

ELISABETH SOUZA CRUZ

46 46 47 47 178 178 178 178 179


5 Reencontro ...................................................................

179

MAURÍCIO CAVALHEIRO Colheita para Deus ......................................................

70

NILTO MACIEL Conhecimento .............................................................. Arco íris ........................................................................ Soneto crepuscular ...................................................... Visionário ..................................................................... O jangadeiro ................................................................

37 37 38 38 39

PEDRO DU BOIS Final ............................................................................. Transformar ................................................................. Estar ............................................................................. Construir ...................................................................... Reinstalar ..................................................................... Esquecer ......................................................................

13 13 13 13 13 14

PLINIO LINHARES Trovamando V - Helena ..............................................

191

PROF.GARCIA Sentimentos ..................................................................

71

ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE Ela e a janela ............................................................... Percepção .................................................................... Passarinho ................................................................... Ponto final ....................................................................

89 90 90 90

ROBERTO RESENDE VILELA Momentos de reflexão .................................................

70

SILMAR BOHRER (Outros) versos marinhos ............................................ Prisioneiro .................................................................... Cantilenas .................................................................... Riquezas ...................................................................... Mensagem ...................................................................

19 20 20 20 21 43 43 44 44

SOLANO TRINDADE Poema autobiográfico .................................................. Canta América ............................................................. Conversa ...................................................................... Eu gosto de ler gostando ............................................. Negra bonita ................................................................ Reflexão ....................................................................... Poema do homem ........................................................ O canto da liberdade .................................................... Meu canto de guerra .................................................... Abolição número dois .................................................. Quem tá gemendo? .....................................................

151 151 151 152 152 152 152 153 153 153 153

THEREZA COSTA VAL Colhendo versos ..........................................................

70

TROVAS ADEMAR MACEDO Trovas Engraçadas ......................................................

113

AQUARELA DE TROVAS A. A. de Assis – PR ...................................................... A. A. de Assis – PR ......................................................

5 5

5 5 5 4 5 5 5 5 4 6 6 6 5 4 5 6 5 4 5 6 6 5 5 5 5 6 5 6

CLÁUDIO DE CÁPUA Trovas ...........................................................................

42

CORNÉLIO PIRES Trovas ........................................................................... Causos sobre Cornélio .................................................

164 167

DODORA GALINARI Trovas ...........................................................................

SILVIAH CARVALHO Insensato coração ........................................................ Canção do amor .......................................................... Me perdoa .................................................................... Até que as águas nos unam ........................................

Ademar Macedo – RN .................................................. Angélica V. Santos – SP .............................................. Antônio da Serra – PR ................................................. Aparício Fernandes – RN ............................................. Carolina Ramos – SP ................................................... Carolina Ramos – SP ................................................... Diamantino Ferreira – RJ ............................................. Dinair Leite – PR .......................................................... Diva da Costa Lemos – RS .......................................... Domitilla B. Beltrame – SP ........................................... Eliana Palma – PR ....................................................... Francisco Macedo – RN ............................................... Francisco Pessoa – CE ................................................ Heliodoro Morais – RN ................................................. Jeanette De Cnop – PR ............................................... Jeanette De Cnop – PR ............................................... José Marins – PR ......................................................... Júlia Leal Miranda – RJ ................................................ Luiz Antonio Cardoso – SP .......................................... Luiz Antonio Cardoso – SP .......................................... Milton Nunes Loureiro – RJ .......................................... Nei Garcez – PR .......................................................... Nilton Manoel – SP ...................................................... Osvaldo Reis – PR ...................................................... Relva de Egypto Rezende – MG .................................. Rodolpho Abbud – RJ .................................................. Ronaldo Afonso Júnior – MG ....................................... Thereza Costa Val – MG ..............................................

174

MILTON LOUREIRO Trovas ..........................................................................

8

PARANÁ TROVADORESCO Adilson de Paula - Joaquim Távora ............................. Alberto Paco – Maringá ................................................ Aldo Silva Júnior – Curitiba .......................................... Angelo Batista – Curitiba .............................................. A. .A. Assis – Maringá .................................................. Antônio Facci – Maringá .............................................. Antônio Salomão – Curitiba ......................................... Apollo Taborda França – Curitiba ................................ Araceli Friedrich – Curitiba ........................................... Argentina de Mello e Silva – Curitiba ........................... Ariane França De Souza – Curitiba ............................. Arlene Lima – Maringá ................................................. Átila Silveira Brasil – Cornélio Procópio ....................... Camilo Borges Neto – Curitiba ..................................... Cassiano Souza Ennes – Curitiba ............................... Cecília Souza Ennes – Curitiba ................................... Ceciliano José Ennes Neto – Curitiba.......................... Cecim Calixto – Tomazina ........................................... Cristiane Borges Brotto – Curitiba ................................ Cyroba Braga Ritzmann – Curitiba .............................. Dinair Leite – Paranavaí ............................................... Fernando Vasconcelos - Ponta Grossa ....................... Gerson Cezar Souza - São Mateus ............................. Gilberto Ferreira – Curitiba...........................................

107 107 107 107 107 107 107 108 108 108 108 108 108 108 108 108 108 108 108 108 108 108 108 108


6 Glycínia De França Borges – Curitiba ......................... Harley Clovis Stocchero – Almirante Tamandaré ........ Heitor Borges de Macedo – Curitiba ............................ Heitor Stockler de França – Palmeira .......................... Hely Marés de Souza - União Da Vitória ..................... Hilda Koller – Castro .................................................... Horácio Portella – Piraquara ........................................ Istela Marina Gotelipe Lima – Bandeirantes ................ Janete de Azevedo Guerra – Bandeirantes ................. Jeanette de Cnop – Maringá ........................................ José Feldman – Maringá ............................................. Josias de Alcântara – Curitiba ..................................... Lairton Trovão de Andrade – Pinhalão ........................ Leonardo Henke – Curitiba .......................................... Ligia Cristina de Menezes – Pinhais ............................ Lorys Marchesini – Curitiba ......................................... Lourdes Strozzi – Curitiba ............................................ Lucília Trindade Decarli – Bandeirantes ...................... Lúcio da Costa Borges – Morretes .............................. Luiz Hélio Friedrich – Curitiba ...................................... Lygia Lopes dos Santos – Curitiba .............................. M. Machado – Curitiba ................................................. Manoel Claro Alves Neto – Curitiba ............................. Manuel M. Ramirez Y Anguita – Curitiba ..................... Maria Conceição Fagundes – Curitiba ......................... Maria de Lourdes Akel – Curitiba ................................. Maria Eliana Palma – Maringá ..................................... Maria Lúcia Daloce Castanho - Bandeirantes ............ Marita França – Curitiba ..............................................

108 109 109 109 109 109 109 109 109 109 109 109 109 109 109 109 109 110 110 110 110 110 110 110 110 110 110 110 110

Maria Nicólas – Curitiba ............................................... Mariza Soares De Azevedo – Curitiba ......................... Maurício Leonardo – Ibiporã ........................................ Maurício Norberto Friedrich – Curitiba ......................... Nei Garcez – Curitiba ................................................... Neide Rocha Portugal – Bandeirantes ......................... Olga Agulhon – Maringá .............................................. Orlando Woczikosky – Curitiba .................................... Ralf Gunter Rotstern – Curitiba .................................... Rose Mari Assumpção – Curitiba ................................. Roza de Oliveira – Curitiba .......................................... Serafim França-Curitiba ............................................... Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão. ................. Sônia Ditzel Martelo – Ponta Grossa ........................... Tasso da Silveira – Curitiba ......................................... Vanda Alves da Silva – Curitiba ................................... Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba ............................ Vânia Maria Souza Ennes – Curitiba ........................... Vasco Taborda Ribas – Curitiba .................................. Vera Vargas – Piraí Do Sul .......................................... Victorina Sagboni – Curitiba ......................................... Vidal Idony Stockler – Curitiba ..................................... Walderez de Araújo França – Paranaguá .................... Walneide Fagundes S. Guedes – Curitiba ................... Wandira F. Queiroz – Curitiba ...................................... Wellesley Nascimento– Almirante Tamandaré .......... ..

110 110 110 110 110 111 111 111 111 111 111 111 111 111 111 111 111 111 111 111 111 111 112 112 112 112

SUPLEMENTO ESPECIAL (ANEXO) – HOMENAGEM A FRANCISCO NEVES DE MACEDO

Este Almanaque não pode ser comercializado em hipótese alguma. Caso assim o desejar, deve-se contatar o/s autor/es para obter autorização. Respeite os Direitos do Autor.


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Mensagem Paulo V. Pinheiro Uma Flor no Meio da Vida O quê queres? Perguntei-me a mim. Dia e outro, na procura dos sentidos, me perco nas palavras que brotam por todo lado com seu propósito de me confundir. Jornais, revistas, livros... tantas letras que doem. Já li de tudo, me arrebatam as bulas... Machado, Alencar, Scliar, Saramago, Lobato, e tanta gente que depois de um tempo me cobra: que dizes? Que me dizes? Ousado, talvez com um pouco de medo, arrisquei umas pequenas linhas... pequeninas... pequenininhas. Então escrevi. Tive a sorte de aprender a letrar pensamentos e os letrei; então achei pouco. Pensei: se posso descrever o que penso... porquê não posso escrever o que sinto? Vi que existia uma ponte estreita, longa, perigosa e muita vez conflitiva, entre o que eu sentia e pensava. Sofri, mas não desanimei, então me reescrevi. Contei contos, desvelei novelas, trabalhei textos... passei a ler com mais cuidado, com mais rigor, com mais seleção.

Passei a ler como se eu tivesse escrito o texto que não escrevi. Busquei o sentimento que vale a pena (no estrito sentido da pena que escreve). Antes disso eu não respeitava os que escreveram tanto como mereciam. Textos bons ou textos nem tanto como queríamos ler, servem para o que servem, para se qualificarem uns aos outros. Quem sabe o que é bom? Sempre gostei das coisas mais fáceis e por isso busquei as mais difíceis, só para me contrariar... só eu sofri no caso das palavras que li. Agora a pouco me perguntaram: e a flor, onde entra nisso que dizes? Ora entendo que a flor é o produto da expressão do que se diz, do que se escreve, do que se pinta, do que se faz para a apreciação, como o trabalho, como o amor... como a expressão pura e simples da ação. Existe no campo ou nos jardins, todo o tipo de expressão floral. Existe no jardim de nossos dias uma quantidade de obras a se admirar, umas com mais cuidado, outras com mais atenção, outras detalhadas, outras simples... cada qual com suas qualidades. Para nós sobra entender o que fizemos ou faremos de nós. Fonte: Revista Entrementes


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Ialmar Pio Schneider Homenagens em Soneto SONETO A LAURINDO RABELO – In Memoriam – Nascimento do poeta em 8.7.1826 - . –

SONETO A ARTHUR AZEVEDO – In Memoriam – Nascimento do escritor em 7.7.1855

Foi poeta... sofreu e fez seus versos, clamando que seriam ais sentidos, pois quanto mais tristonhos, mais perversos, representando corações partidos...

Foi dramaturgo, poeta e contista, com “Arrufos”, um soneto forte, após desentender-se com a consorte, fez uns ares de quem do amor desista...

Mas sua obra é vasta e os dias idos na existência de sonhos tão dispersos, lamentou como se fossem perdidos os cantos que compôs, os mais diversos...

Toma o chapéu e sai, sem que suporte, fingir que não mais ama e se contrista, mas algo o faz voltar e então persista a manter a paixão até a morte...

E no soneto “O Tempo” põe sua alma arrependida de gastá-lo em vão, tal como se fosse perder a calma.

Assim são os amores verdadeiros, ao menos na aparência dos amantes, que às vezes têm questiúnculas por nada...

Um conselho final então dos diz: de não desperdiçarmos, sem razão, o tempo em que se pode ser feliz...

E quando voltam ficam companheiros para viverem todos os instantes, seguindo adiante pela mesma estrada...

SONETO PARA JAYME CAETANO BRAUN – In Memoriam – Jayme Caetano Braun, o inimitável poeta gauchesco e pajador, falecido há 12 anos, ou seja, em 8 de julho de 1999, aos 75 anos de idade.

SONETO A SÃO FRANCISCO DE ASSIS – Nascimento em 5 de julho de 1182 -

Jayme Caetano Braun quando tu cantas, eu me quedo silente a te escutar; em teus poemas de belezas tantas, encontro o Rio Grande a me falar. Não posso compreender quem não encantas no teu nobre e gauchesco linguajar; sobre as coxilhas quando te levantas eu vejo um farroupilha em teu lugar. Primoroso cantor, valente e forte, sem temor de lutar, de altivo porte tal qual o lutador galo de rinha que morre de tortura e não se entrega e aguenta firme a ríspida refrega, pois morre sem deixar dobrar a espinha.

Quero ao “O Pobre de Deus” render meu preito de gratidão por suas orações; quando pregava às aves, com efeito, ele atingia a todos os corações... “Padroeiro dos Trovadores”, aceito e venerado pelas multidões, seu nome São Francisco tem conceito, e nos consola em horas de aflições... Pregou a paz entre os irmãos e santo permanece p´ra sempre no seu canto de amor sublime a todas as criaturas... Hoje, no dia do seu nascimento, que sua bênção traga um sentimento de concórdia, de luz e de ternuras...


3 que faça qualquer coisa ao seu alcance...

SONETO A ERNEST HEMINGWAY – In Memoriam – Morte do escritor em 2.7.1961

Um trágico final a um grande amor em que Ernest Hemingway desenvolveu a efemeridade da vida e a dor...

Lembra-me “Adeus às armas”, um romance que li mais de uma vez, pois foi chocante a emoção que senti naquele lance: Catherine despede-se do amante...

Com certeza, não há maior tortura do que aquela em que ele descreveu a passagem da amada criatura...

Henry, desesperado, vive o instante, e reza para um Deus, sentindo o transe que o acomete, e não está confiante

Fonte: Sonetos enviados pelo autor

Olivaldo Júnior Fim de Linha Pois é, o ano velho está no fim, é o fim da linha para ele. Acabam-se as aulas e as férias invadem as casas, causando frisson nas crianças e em todos que estudaram ou trabalharam durante o ano. O ano velho está de molho, o molho que é feito de amizade. Amigos que telefonavam todo dia já não ligam quase nunca; amigos que não ligavam quase nunca já não telefonam mais. Pois é, a vida é assim mesmo: ligações ou longos períodos ocupados ou fora da área de cobertura. Cobrindo o ano velho, cubro a mim mesmo, que eu mesmo ando velho, bem velho, querendo nascer. Nasceram amigos que eu pensei que seriam eternos, mas fenecem no esquecimento desta pessoa; tenho amigos que não telefonam mais, ainda que ligassem quase todo dia. Dia a dia, eu noto bem: tudo é ciclo, e o círculo dos

meus amigos é o quadrado de uma folha de papel em que pousam ilusões. Ilusão é pôr-se à mercê de ninguém. Ninguém vive sem ninguém. Iludo-me. Mas o ano é novo. Fim de linha para o velho que mora em mim. Mas o que faço para o despejo de quem me ajuda a ter assunto para meus versos, combustível para os lampejos de um verso à-toa, que me atordoa? Contando com amores que nunca foram amáveis, amei quem nem sabe que o meu amor contava com o dele, o amor do meu amor. O amor é velho; o ano, não. E eu estou cansado de ser amigo de ninguém e de ninguém estar comigo quando entra o ano novo e todos fazem tim-tim. Fontes: O Autor

Ademar Macedo Mensagens Poéticas 82 Trova do Dia

Trova Potiguar

Neste ano novo eu pretendo rasgar meus dias tristonhos e, de remendo em remendo, reconstruir os meus sonhos... MARINA BRUNA/SP

Um Ano Novo sem guerra, mandai, ó Deus paternal: que reine a paz sobre a terra, que reine o bem contra o mal! JOAMIR MEDEIROS/RN


4 Uma Trova Premiada 2000 > Petrópolis/RJ Tema > Ano 2000 > 13º Lugar Que os anos 2000 nos falem de novos feitos de luz, mas que seus ecos não calem a voz que bradou na cruz! DOROTHY JANSSON MORETTI/SP Uma Trova de Ademar Neste Ano Novo eu queria entre nós mais união; e, que o amor pela poesia cresça em nosso coração! ADEMAR MACEDO/RN ...E Suas Trovas Ficaram Deus com seu saber profundo, para nos trazer a paz, mandou o seu filho ao mundo há dois mil anos atrás MIGUEL RUSSOWSKY/SC Estrofe do Dia Hoje eu pedi para o povo, em preces e em orações, muita paz neste Ano Novo, muito amor nos corações!

E fiz pra Deus uma carta pedindo uma mesa farta para o faminto comer; mandei essa carta em nome daquele que passa fome e que não sabe escrever! ADEMAR MACEDO/RN Soneto do Dia – Vanda Fagundes Queiroz/PR – TRANSITÓRIO. Trezentos e sessenta e cinco dias, meu calendário, foi seu tempo exato. Agora é estranho, quando então constato: - É um bloco velho, já sem serventias. Mas eu o estimo. As datas foram guias... Cada lembrete compôs um retrato do cotidiano que se fez, de fato, de altos e baixos, sombras e alegrias. Releio as notas... Dói-me concordar: - Dever cumprido! Ceda o seu lugar para o que chega e estréia no cenário. Tão companheiro, em toda a minha lida de um ano inteiro... para mim, tem vida! – Adeus, meu velho amigo Calendário... Fonte: Ademar Macedo

Aquarela de Trovas Desta saudade infinita não guardo mágoas, porque foi a coisa mais bonita que me ficou de você. Aparício Fernandes – RN

A ressaca da bebida é pra ninguém esquecer. Por isso a melhor pedida é não parar de beber. Heliodoro Morais – RN

Sou tal qual ave ferida que as suas asas quebrou e Deus, para dar-lhe vida, os seus pedaços juntou. Diva da Costa Lemos – RS

O vazio dos teus braços, depois de tristonho adeus, fez a dor rondar meus passos, na busca inútil dos teus... Júlia Leal Miranda – RJ


5 Disse o carteiro, confuso: - mora aqui o “seu” Leitão? - Não mais, respondeu o luso: virou torresmo e sabão. Relva de Egypto Rezende – MG

Paz, amor, felicidade! Palavras tão usuais, que seriam, na verdade, mais bonitas, se reais. Luiz Antonio Cardoso – SP

Os dois velhinhos dançavam, mostrando desenvoltura; mas sempre que tropeçavam, trocava de dentadura! Ronaldo Afonso Júnior – MG

Do Ano Velho ao Ano Novo: – Baixa a pose, ó garotão, que num zás o jovem ovo torna-se um galo ancião!... Osvaldo Reis – PR

De quantas bênçãos se tecem as vidas fortes, sofridas, que de si mesmas se esquecem para cuidar de outras vidas! A. A. de Assis – PR

Fugindo pela janela, o “dom juan” quis “dar no pé”. – Um fantasma!, gritou ela. E o marido: – Agora é! Angélica V. Santos – SP

Nesta vida não deu certo, mas na próxima quem sabe? Quem sabe, eu de ti mais perto, o muro entre nós desabe?... Antônio da Serra – PR

Toda vez que eu chego tarde, lá em casa, rente ao portão, minha esposa dá “boa-tarde” com a vassoura na mão... Nei Garcez – PR

Deus um dia há de me dar o que peço em cada prece: - A virtude de perdoar a quem perdão não merece. Carolina Ramos - SP

Casa velha, quanto encanto! ... tem cobras, cupins, lagartos! Uma história em cada canto e fantasmas pelos quartos. Nilton Manoel – SP

Não sou ave nem sou peixe, nunca aprendi a nadar, mas peço a Deus que me deixe num dia desses voar! Diamantino Ferreira – RJ

Nos passos do bailarino, na garganta do cantor, em cada tango argentino geme uma história de amor. A. A. de Assis – PR

Palavras ditas à alma num sussurro, é como fosse uma sonata bem calma tocada por flauta doce. Francisco Pessoa – CE

O amigo que nos quer bem é aquele que, sem temor, oculta uma dor que tem e vem sanar nossa dor... Ademar Macedo – RN

Nesta imagem refletida (tão bom se o espelho falasse...), quanta história está contida nos vincos da minha face! Jeanette De Cnop – PR

Somos anões sem idade, a perseguir-te sem tréguas, enquanto, felicidade, tens botas de sete léguas... Carolina Ramos – SP

Ah, o mutirão da pamonha, lá na casa de meus pais; em mim o menino sonha um tempo que não vem mais. José Marins – PR

Na esperança verde e bela há o otimismo de luz! Se a porta fecha, a janela se abre em par e o sol reluz! Dinair Leite – PR


6 Oh, minha mãe, quando eu falho, tua lágrima rolada é qual pérola de orvalho sobre a rosa machucada!... Domitilla B. Beltrame – SP

O que vou fazer agora se a lembrança não tem fim? Luiz Antonio Cardoso – SP Amanhã... Depois... Depois... Foi assim a vida inteira... E entre os sonhos de nós dois, a intransponível fronteira... Milton Nunes Loureiro – RJ

O verde em brasa estalando; uivos doridos da mata: gritos horrendos compondo uma fúnebre sonata! Eliana Palma – PR

Na vida, lutar, correr, não me cansa tanto assim... O que me cansa é saber que estás cansada de mim! Rodolpho Abbud – RJ

A saudade dos meus filhos, dói, machuca, me amordaça. Comparo-me aos velhos trilhos, Por onde o trem já não passa. Francisco Macedo – RN

Agora peço somente, ao tempo de que disponho, que um tempo me dê, paciente, para que eu viva o meu sonho... Thereza Costa Val – MG

Ausência do bem, o mal só traz sofrimento a quem não conhece o especial prazer que é se querer bem! Jeanette De Cnop – PR

Fontes: Ademar Macedo (RN) – O Trovadoresco n. 67, de janeiro de 2011 A. A. de Assis (PR) Revista Virtual Trovia n.133 – janeiro de 2011

A. A. de Assis (PR) Revista Virtual Trovia n. 134 – fevereiro de 2011

Minha amada foi-se embora para bem longe de mim...

Cláudio de Cápua Galo Doidão publicado originalmente na edição número 2 da revista Santos Arte e Cultura

média de cana e uma enorme goiabeira de frutos vermelhos, que, temporã, frutificava o ano inteiro.

Certas cenas indelevelmente ficam registradas, em nossa mente e, de uma forma ou de outra, marcam nossas vidas. Uma delas: eu tinha aproximadamente sete anos e Berto, meu irmão, uns três menos. Morávamos na Avenida Inajá, hoje Lavandisca, no bairro de Indianópolis, em São Paulo. Terreno, com 20 metros de frente, e 65 de fundos. Na frente, a casa de meu avô materno, e nos fundos, a nossa casa. Tínhamos no belo pomar dois pessegueiros, limoeiro, laranjeira, ameixeira e dois pés de figo, sendo que um deles era raro, figo branco. E ainda uma parreira de uvas rosé, um pé de louro, touceira

Certo dia, nossa avó, Maria da Glória, fez-nos uma surpresa; - trouxe da feira cinco pintinhos, que nos foram dados de presente. Dois logo morreram, e os outros três se transformaram em duas frangas e um frango. As frangas logo foram parar na panela, mas o galo virou bicho de estimação. Nossa família, descendente de italianos, como 85% das famílias paulistanas, nunca deixava faltar vinho à mesa. Certo dia, num almoço domingueiro, tio Rafael, irmão de minha mãe, molhou miolo de pão num resto de vinho e arremessou-o pela janela, em direção ao nosso galo. Petisco de imediato


7 devorado. Resultado: o galo pôs-se a cantar fora de hora. Berto, meu irmão, embora pequeno, era vivo e arteiro. Viu o que o pão e o vinho fizeram ao galo e passou a repetir a arte a qualquer hora do dia ou da noite. E, após algum tempo, o galo assumiu um ritual todo seu. Devorava o petisco, subia no tanque, pulava para o muro da vizinha, de onde saltava para o telhado do tanque e depois para o telhado da casa. E, aí, ele percorria o telhado, até a frente da residência e bem no alto da cumeeira punha-se a cantar, a qualquer hora do dia ou da noite, para uma platéia de transeuntes que paravam diante da casa, abismados com o espetáculo daquele galo doidão, sem entender as razões de sua estranha euforia.

CLÁUDIO DE CÁPUA O dia oito de março marca a data do nascimento de Cláudio de Cápua, que é natural de São Paulo, e que em 1960 mudou-se para Araraquara, tendo mais tarde ingressado na Escola Superior de Agrimensura. Paralelamente aos estudos, Cláudio começou a colaborar no jornal semanário "A Cidade" onde respondia pela edição da "Coluna do Estudante". A partir deste momento, Cláudio não parou mais de escrever. Escrever tornou-se a forma de comunicação marcante em sua existência. Foi escrevendo que Cláudio de Cápua passou a escrever em jornais paulistanos como a antiga "A Gazeta", "Diário da Noite", "A Tribuna Italiana", "Diário Popular"; colaborou também na revista "Destaque", de Santos, além de outras assim como ainda em cerca de 30 jornais de bairro, do interior de São Paulo e até de outros estados. Em sua volta a São Paulo, Cláudio de Cápua teve de abandonar em definitivo os estudos de Agrimensura, uma vez que não existia este curso em nível superior na Capital. Foi nesta época que começou a conviver com poetas como Guilherme de Almeida, Paulo Bomfim, Judas Isgorogota. Bernardo Pedroso, Orlando Brito, Oswaldo de Barros, Antônio Lafayette, Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, Laurindo de Brito, Ibrahim Nobre, só para mencionar os mais conhecidos. Para aperfeiçoar sua vocação natural e satisfazer seu desejo de ampliar os conhecimentos e adquirir um maior lastro profissional, Cláudio ingressou num curso de jornalismo. A partir daí, o jornalismo constituiu-se a base de todas as variadas atividades nas quais Cláudio de Cápua se envolveu e nas quais deixou

sempre a marca de sua integridade e força de trabalho. Ainda no jornalismo, tornou-se professor de jornalismo eletrônico, na Universidade Mackenzie, na década de 80. Cláudio de Cápua fez ainda algumas incursões pelas artes dramáticas, tendo participado como ator no filme "A Marcha" baseado no romance de Afonso Schmidt. Na televisão, foi ator coadjuvante na telenovela "Hospital" da extinta TV Tupi, isso em 1971, e na TV record trabalhou como assistente de produção de externas na telenovela "O Leopardo". Cláudio de Cápua atuou sempre de forma marcante na vida literária paulista, tendo participado ativamente de diversas eleições da União Brasileira de Escritores. Nesta entidade deixou marcas de sua defesa intransigente dos direitos do escritor, e tem lutado pela divulgação de suas obras e do pensamento do escritor paulista. Nenhum movimento sugnificativo que tivesse por objetivo a valorização e a divulgação dos escritores e suas obras deixou de contar com o apoio e iniciativa decisiva de Cláudio de Cápua. Da mesma forma teve ainda atuação destacada junto ao Sindicato dos Escritores do Estado De São Paulo e Centro de estudos Euclides da Cunha de São Paulo. Como escritor, Cláudio de Cápua publicou livros que não foram brindados com edições fantásticas, mas que foram procurados avidamente pelos conhecedores das obras de qualidade, esgotando rapidamente suas edições. Estão nessa categoria, a começar por 1980, a biografia do escritor e político Plínio Salgado, livro que alcançou 4 edições e vendeu 11 mil exemplares mantendo-se durante 9 semanas entre os livros mais vendidos. (...) Em 1981, Cláudio de Cápua lançou o livro "Meu Caderno de Trovas", editado por Mestre das Artes; anos depois publicou em co-autoria com sua esposa, Carolina Ramos, o livro "Paulo Setúbal Uma Vida - Uma Obra", que teve sua primeira edição esgotada em apenas 90 dias. Entre os projetos de Cláudio de Cápua está a publicação de um ensaio sobre a revolução de 1924, obra que demandou muita pesquisa e anos de trabalho. Nas palavras de Carolina Ramos, “Ninguém passa pela Trova saindo impune. Rendido aos seus encantos, sempre deixa com ela um pedaço do coração, quando não o coração inteiro. No passado, grandes poetas como Vicente de Carvalho, Martins


8 Fontes, Bilac, Colombina e outros, passaram por ela, ainda que de raspão. Naquele tempo, a Trova não tinha a força nem o prestígio que hoje tem. Mas, convém lembrar que o santista Ribeiro Couto conquistou Prêmio Internacional com o livro "Jeux de l'apprenti animalier", com suas fábulas consideradas superiores às de La Fontaine pela concisão com que eram apresentadas, ou seja, sob o formato de Trovas.”

Embora concorrente bissexto, Cláudio de Cápua conquistou vários prêmios em Concursos de Trovas realizados em território nacional.

Cláudio de Cápua não seria uma exceção.

Fonte: Trechos extraídos do Discurso de Saudação de Henrique Novak em recepção a Cláudio de Cápua. 31 de outubro de 1998 . Disponível em http://www.de-capua.com/biografia.html Excerto da Introdução por Carolina Ramos ao livro “Canto que eu Canto”, de Cápua. http://www.de-capua.com/galodoidao.html

Biógrafo, prosador e poeta, esbarrou na Trova e deixou-se cativar por ela. Em 1969, foi um dos fundadores da "União Brasileira de Trovadores", Seção de São Paulo e, desde 1980, faz parte do quadro associativo da Seção de Santos.

A ciência me conduz a pensar desta maneira: do excesso, às vezes, de luz, pode nascer a cegueira... Amanhã... Depois... Depois... Foi assim a vida inteira... E entre os sonhos de nós dois, a intransponível fronteira... A penumbra que me invade e que nunca chega ao fim, é a janela da saudade fechada dentro de mim... A tristeza que me invade,

Seu trabalho em prol da Trova, sincero e despretensioso, merece o respeito daqueles que cultuam o gênero e fazem do Movimento Trovadoresco Nacional, uma das mais ativas e populares facções da literatura do nosso país.”

parecendo não ter fim, é o cantar de uma saudade que eu ouço dentro de mim... A vida às vezes revela certos contrastes assim: eu – enredado por ela; e ela – a tramar contra mim! Chegaste, os braços abertos, tranqüila... em tuas andanças, e plantaste em meus desertos mil sementes de esperanças... Embora colhendo espinhos em meu viver malogrado,


9 semeio pelos caminhos bem-me-quer por todo lado... Entre caminhos, frementes, os meus lábios, em volteios, dançam valsas diferentes na vereda dos teus seios... Esperança, não me peças que acredite em tuas juras... Já me cansei de promessas e me perdi nas procuras... Esta cautela, querida, Primaveris e frementes os meus lábios, em volteios, trocam passos diferentes sob o manto dos teus seios... Sem direito de sonhar, vagando no mundo, a esmo, nem sequer pude marcar encontro comigo mesmo! Se o meu tempo está marcado e da saudade eu disponho, invento alguém ao meu lado, cerro meus olhos e sonho... Sem jamais fazer menção ao destino que a conduz, a raiz, na escuridão, mantém os ramos na luz!... Somente tristes lembranças vão comigo pela estrada... Eu, que plantei esperanças, colho derrotas... mais nada... Tarde demais... e as lembranças vão comigo pela estrada... eu que plantei esperanças vivo de sonhos... mais nada... Senhor, escuta os cicios dos excluídos, sem teto... Troca seus ninhos vazios por ninhos cheios de afeto! Tanta ternura mostrando, teus olhos – juro por Deus – são mil promessas bailando

que persiste entre nós dois, dá mais vida à nossa vida e mais crença no “depois” ... O poeta em sua lida, ainda que o mundo o afronte, nos devaneios da vida vai muito além do horizonte... O amanhã, que importa agora? Que nos importa o depois?... Vamos viver, vida afora, o imenso amor de nós dois!... na valsa do nosso adeus... EU não entendo, Senhor, a diferença das ruas: - Umas, repletas de amor,.. outras, de amor, sempre nuas. Teu poder de sedução. e a magia dos teus braços, levam minha solidão a percorrer os teus passos ... Não quero o poder que esmaga o sonho com seu furor.. Eu quero o poder que afaga nossos momentos de amor ... Do poder tens o infinito, à fortuna tens direito, mas não sufoques o grito do amor que vive em teu peito... Enquanto a noite vagueia pela minha solidão, a distância mais ateia o fogo desta paixão... Esta carta que ora mando a você, com muita ânsia. é a saudade soluçando sobre os trilhos da distância Liberta este amor profundo dos grilhões dos teus desertos, que o maior Homem do mundo morreu de braços abertos. Esta pergunta te faço,


10 Delegado, além de poeta/trovador, Milton Loureiro é presidente da UBT, seção de Niterói, há mais de trinta anos, pela qual promove um dos mais tradicionais Jogos Florais do gênero no país. Essa realização anual reúne em torno de uma centena de amantes do gênero, além de inúmeras autoridades. Edita um livro de resultados, em riquíssima impressão, com cerca de 60 páginas que, além dos trabalhos premiados, entre diversas matérias ilustrativas traz, aos trovadores, os "Lembretes e Recomendações do Presidente Nacional da UBT", cujo primeiro item dá o seguinte alerta: "Não envie a mesma trova para mais de um concurso".

meu coração sonhador: - se possuis tão pouco espaço, como guardas tanto amor?... Uma verdade patente, que não tem contestação: abrir ESCOLA é semente que fecha muita prisão. Apesar dos solavancos em minha vida sem cor, adornei, com lírios brancos, nossos segundos de amor... De tanto sofrer na vida, eu peço a Deus, sem revolta: - Abra as porteiras da ida, feche as porteiras da volta!...

Títulos: - Cidadão Cantagalense, - Cidadão Niteroiense, - Cidadão Gonçalense, - Cidadão Benemérito do Rio de Janeiro;

Eu não sei, meu Deus, por que, tendo a vida em desalinho, encontro sempre você ao longo do meu caminho.

Membro: - Academia Brasileira da Trova; - Academia Niteroiense de Letras e Artes, e - Academia Ateneu Angrense de Letras e Artes.

Neste mundo passageiro, a vida, que vai fluindo, é um intervalo ligeiro, dois silêncios dividindo...

Autor dos livros: “Sonetos de Outono” “Dos Sonhos Brotaram Versos” e “Varanda dos Sonhos”

Milton Nunes Loureiro (1925- 2011) Milton Nunes Loureiro nasceu em CamposRJ, a 09 de junho de 1925. Radialista, jornalista, apresentador de programas de TV, Escrivão de Polícia, Advogado,

Fontes: Falando de Trova Silvia Araujo Motta

Francisco José Pereira A Velha Senhora e seus Cachorros A velha senhora vivia só, preferira assim. Quando ficou viúva, suas duas filhas propuseram levá-la. Ela não quis. - Assim sozinha e tão longe, mamãe - ponderaram, inutilmente. Embora não fosse necessário, e tampouco elas houvesses pedido, a velha senhora justificou-se.

Alegou razões conhecidas, atribuindo-lhes caráter de irreversibilidade. Assim, as filhas poderiam sentirse consoladas ou redimidas. Disse-lhes: - Casei aqui, nesta casa que ele mesmo construiu. Vocês nasceram aqui, viveram aqui e também casaram aqui. Ele morreu aqui. E eu vou morrer aqui.


11 - Ô mãe, que bobagem, - em uníssono. Sem que pudessem dissimular um certo tom de conforto.

também de pequena horta, com o mesmo desvelo dele, e preparava sem prazer o parco almoço.

Uma eternidade parecia separá-la das meiguices de suas meninas. Elas cresceram e foram perdendo aquela ternura. Ele acompanhara esse lento e natural distanciamento delas, e lamentava. Ela também acompanhara, mas sem lamentar. Afinal a vida é mesmo assim, fora assim também com ela, bifurcando-se igualmente lenta e definitiva. Elas casaram e procriaram com genros chatos. Ele os estima, ela não - e com razão. Por onde, afinal, andavam durante o calvário da penosa enfermidade que terminou por matá-lo? Só ela, solitária, estivera ali, na hora de fechar-lhe os olhos. Depois vestiram lutos, todos. Os netinhos inclusive, com tarjeta preta na manga da camisa curta. Coitados, três pequenos idiotas.

Nas tardes longas e ociosas, senta-se no degrau mais alto da escada lateral, que dá acesso à sala, toma Zimbo no colo, com o Xapado sentado no degrau abaixo, e os faz confidentes de infindáveis revelações de seu tempo de menina, de sua adolescência, e sobretudo de sua vida feliz junto a ele.

As filhas a visitavam com alguma frequência e traziam os netos que cresciam sem que ela se desse conta. E tampouco se deu conta de como as visitas das filhas, com o tempo, se tornaram cada vez menos frequentes e, agora, já muito raras. Raras mesmo. Mas havia seus cachorros. Ela sempre os tivera, dividindo com ele um igual carinho pelos bichos. Foram vários. Agora restavam apenas esses dois, que haviam chorado com ela a morte dele: o mais velho, Zimbo, tão velho quanto ela - exagerava, obviamente- e o Xapado, que chegou bem depois, à época em que surgira a enfermidade dele, e fora ele quem o trouxera e lhe dera o nome. A velha senhora passava parte dos dias falando com seus cachorros. Não só porque carecesse de gente com quem falar - o que era um fato - mas porque eles a entendiam e compartilhavam seus pesares e sua solidão. Há muitos séculos, aliás, que humanos e cães partilham seus alimentos, suas moradais e suas vidas. Neste planeta fortuito,entre outras formas de vida que nos circundam,nenhuma - exceto o cão tem feito aliança conosco. Após o café matinal, a velha senhora seguia sua antiga rotina de afazeres domésticos que, há muito sozinha, já se reduzido a quase nada. Ocupava-se

Nessas ocasiões, como acontece também com a gente, Zimbo se deixa envolver pelo hipnótico som da velha senhora, cochila e dorme. Desperta minutos depois, apruma-se com olhos de espanto, sacode repentinamente a cabeça num eficaz esforço para afastar o sono, e não cochila mais. Xapado, este sempre desligado, logo estendia suas pernas traseiras e dormia a sono solto. Vencidas as longas tardes, segue-se repetitivo ritual. A velha senhora se levanta, beija Zimbo, acaricia Xapado e os afugenta com delicadeza para os fundos do quintal. Ambos obedecem, caminhando a passos lentos e em silêncio, com as compridas e úmidas línguas lambendo seus gelados focinhos um antigo e atávico cacoete. Há dias em que Zimbo sente vontade de alertar Xapado para a recente tristeza da velha senhora. Esta tristeza, preocupava Zimbo, não era como as outras tristezas, tão antigas e conhecidas desde a morte dele. Essa nova tristeza era uma tristeza que lhe reduzia o cheiro. E isso, Zimbo sabia, não era boa coisa. Mas não dissera nada ao Xapado, porque este - desde pequeno - se revelara um cachorro retardado ou de poucos ouvidos. Em verdade, essa tristeza que preocupava Zimbo tomara forma quando a velha senhora, há algum tempo já, percebera, acabrunhada, uma insuportável fadiga que - ela se convencera - iria prostrá-la definitivamente. E, desde então, um sentimento de que sua vida se tornara inútil instalara-se dolorosamente em seu coração. Após anos de tantas ausências a velha senhora finalmente sucumbia à sua imensa solidão. Suas pernas já nem sempre lhe obedeciam, seguindo, cansadas, direção que ela não pretendia. Os pulmões respirando menos ajudavam menos, quando as pernas cansavam. A cabeça insistia em


12 se esquecer, só tendo lembranças muito antigas. Espantou-se, por fim, quando a cabeça embaralhou dia e mês da morte dele. E, então, se horrorizou no limite do desespero, temendo que viesse a esquecer-se de si mesma. Foi quando decidiu não esperar mais pela morte que se tardava tanto, e começou a organizar sua morte com pungentes cuidados. Utilizaria o veneno que ele trouxera para ser usado quando o suplício da dor lhe fosse insuportável. Tinha efeitos semelhantes ao arsênico, dissera, e a ensinou como preparar a dose que ela deveria servir a ele. O suplício dele se estendeu e a dor o matava lentamente, mas ela não teve coragem. Ele morreu, já sem dor, agradecendo o gesto dela. Pensou, sem mágoas, em suas filhas que não apareciam. E resolveu, aflita, não abandonar os cachorros, temendo que eles fossem recolhidos por mãos malvadas. Havia suficiente veneno para os três. Na véspera, à noite, ela preparou meticulosamente e com estranha frieza - da qual, aliás, já não tinha consciência - doses adequadas de veneno. Não havia nela qualquer outra emoção, senão a de concluir, com isenção, esses ritos finais. Desde o quintal, chegavam uivos que - também à véspera - haviam anunciado a morte dele. Como soubera Zimbo? E como soube agora, se ela apenas pensara sozinha? E tem gente que não crê na percepção sensorial dos cachorros! - exclamou baixinho. Ou, quem sabe, é a morte que lhes avisa? - indagou-se ainda, já muito abalada. E dormiu tarde. Despertou cedo. Com o café, comeu mais torradas do que normalmente comia, pois com o estômago vazio - acreditava assim - a dor do veneno seria maior. Tomaria cuidados iguais com os cachorros. No quintal, Zimbo se movia em pequenos círculos sem parar, num verdadeiro desassossego. Xapado,

distante dele, arrastava as patas na vegetação rala, buscando, paciente, algo que só ele aparentemente sabia. Serviu-lhes a ração, como fazia a cada manhã; desta vez, porém, em quantidade excessiva. Zimbo comeu lenta e passivamente, como se já houvesse esquecido seus premonitórios uivos. Xapado, como sempre, digeriu vorazmente sua ração. Após, como também era costume, estendeu-lhes as pequenas tinas com água - agora com o veneno dissolvido em ambas. Zimbo fixou seus olhos remelentos nos olhos exauridos da velha senhra, lambeu-lhe os pés, que já haviam perdido o antigo cheiro, bebeu a água envenenada de sua tina, e toda a água da tina do Xapado - antes que este a bebesse. A velha senhora perturbou-se e, sem ânimo para entender o incidente, voltou à cozinha, encheu a tina de água com nova dose de veneno e depositou-a na frente de Xapado, que se deteve confuso. Zimbo, com seus movimentos já muito afetados pela ação do veneno que agia rápido, ainda teve forças para impulsionar as patas dianteiras e derramar, novamente, a água da tina do Xapado. Só então a velha senhroa percebeu nos olhos moribundos de Zimbo sua derradeira súplica pela vida de Xapado. Não teve tempo sequer de afagá-lo, Zimbo não se movia mais. Com a alma esvaindo-se, a velha senhora retornou a casa. Esqueceu-se de fechar a porta e de se banhar, como pretendera. Sentiu-se aliviada, enquanto sorvia o veneno no copo, escutando, lá fora, latidos alegres do Xapado provocados pelo prazer da barriga cheia. Fonte: PEREIRA, Francisco José. Contos Completos. Florianópolis: Garapuvu, 2006. Disponível em http://grandesautorescatarinas.blogspot.com/


13

Pedro Du Bois Poemas Inéditos FINAL No final do dia aproximado ao cansaço trazido dos ofícios não estou presente. Ausentado ao tempo não traduzido, esmaecido nos alvoreceres da noite amanhecido em finais de tardes recompostas minha ausência despercebida em minúcias: a estrada bloqueando a entrada. TRANSFORMAR Sobre o despovoado: tapera (rancho espalhado ao mar, barco encalhado em areias límpidas, peixe saciado em vontades)

e do início sentimos o ordenar das coisas; ao primeiro soprar da vela em chama, minha senhora, o despertar do monstro se apresenta: assim a espera e a entrega. CONSTRUIR O telhado impede a natureza o piso concede aos pés a maciez as portas, bifurcações do acaso: entrar sair ficar na soleira voltado ao tempo original da hora janelas permitem observar a rua pelo lado de fora. REINSTALAR

sobre a beleza paira: Itapema (rancho desconsiderado em altos prédios, carro congestionando ruas, peixe desesperado em águas impuras). ESTAR Não estamos, minha senhora, à espera do despropositado; as vírgulas assinalam distanciamento; estamos, minha senhora, a praticar atos necessários no encaminhamento da história aos primórdios: cada fato se reporta em cadeia ao fato inicial; minha senhora, o esforço finda o caminhar

Reinstalo a vida e a remeto ao final: o mágico e o profeta duelam crenças a carta marcada indica a morte reinventada: vida na sucessão da hora induzida ao desconhecimento a vida se distancia no espaço em acreditar e descobrir do truque a artimanha: desvanecer em barulhos diários de antigas reconstruções.


14 ESQUECER Inolvidável: a lembrança se aventura em paralisações faciais o medo transparece o suor do corpo

em cabelos ralos em cabelos brancos em olhos ansiosos com que procuro na memória o inolvidável fazer de conta. Fonte: O Autor

sou o mesmo

Afrânio Peixoto Haicais Arte de Resumir

Perfume Silvestre

O ipê florido, Perdendo todas as folhas, Fez-se uma flor só.

As coisas humildes Têm seu encanto discreto: O capim melado...

Crítica à Criação

[Pétala caída]

O boi come a grama E nós o boi. Deus não teve Imaginação.

Pétala caída Que torna de novo ao ramo: Uma borboleta!

Disparidade

[Na alcova desfeita]

Derrete-se o gelo. Porém se resfria a água: Ela fria, eu ardo...

Na alcova desfeita, Onde não há mais ninguém, Uma flor caída...

Herança

[Na poça de Lama]

Ele pó, modesto, Ela neve, pura: deram Um pouco de lama.

Na poça de lama como no divino céu, Também passa a lua Fonte: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931


15

Afrânio Peixoto Barro Branco

Os dias passavam no Barro Branco numa sucessão rápida e descuidada, ao passo que se operava a conformação necessária do tempo e que as distrações incessantes do campo tomavam a atenção de Paulo. E percebendo que lhe voltava a serenidade e a paz, mais se absorvia nas diversões simples da vida da roça, que o tinham valido. Ele, que sempre fora um desatento à natureza, nessa inconsciência espantada das crianças inteligentes que vêem e ouvem, mas sentem apenas exteriormente a representação da própria curiosidade e imaginação, era agora quase um epicurista sutil, a retirar de cada aspecto da natureza - pedra, águas, árvore, ninhos, casa rústica, ou paisagem - uma multidão de observações felizes, logo da primeira impressão transformadas em imagens tumultuosas... Constante nesse vezo irreprimível de trocar a percepção das coisas sentidas em representação adequada ou fantasiosa, comparava-se, e aos artistas, a moedeiros obcecados que onde encontrem uma cintilação de ouro, no minério, na escória, na pepita, são levados a cunhar a medalha nítida e perfeita que lhe dará o circular e viver para o gozo humano. Muitas vezes, saindo para o campo, armado de espingarda e de petrechos de caça, e volvendo sem ter dado um tiro, nem se lembrando, mesmo ao acaso, de acordar um eco na floresta, ele se dizia pago dessas horas de excursão, enlameado embora, ou arranhado de espinhos, pois caçara imagens, vendo, contemplando, divagando...

cabras a ordenhar, o banho frio nos riachos de vale embrumado, o café ou primeiro almoço farto de guloseimas da roça, a partida para a lavoura, a malhada, a caça, ou a feira, as sestas lânguidas e bocejantes dos meios-dias encalmados, a volta fatigada e contente nas tardes suaves e tristes, a ouvir a melancolia do aboio e acompanhar o esmorecimento lento do crepúsculo: tudo ele soubera reviver com volúpia demorada de lembrança e um gozo constante na presença.

Nesses meses procurara reviver todas as alegrias e tristezas da vida do campo; recapitulara numa inteligência afetiva e numa compassividade tranqüila todos os mistérios que encantaram ou assustaram seu coração de menino. Em volta da fazenda não ficaram córregos e valados, cachoeiras ou boqueirões, rechãs ou espigões de serra, sem a sua visita amável e melancólica, agora que, se não tinha mais o espanto dos olhos da infância, sentia a saudade das emoções que outrora lhe causaram. Em casa não perdera nenhuma dessa visões singelas e quase rituais da vida sertaneja. A diligência afanada das manhãs, pelas vacas e

Outras vezes, ficava a ouvir as proezas de caça e de vaquejadas, transes arriscados e artimanhas sutis contra feras e bois bravos, misturados por caçadores e vaqueiros aos entretenimentos práticos da vida, quando a chama da fogueira os reunia no prazer de uma fumaça e no maior de despertar a curiosidade, e dar um interesse. Já lhes aprendera a gíria difícil e expressiva e não encontrava mistério quando ouvia ao Sérgio contar que dera na malhada grande com uma novilha bargada, ponta baixa, com uma estrela na testa, bico de renda e buraco de bala na orelha direita, forquilha e entalhada por cima na outra orelha... ou riscar com a ponta de um garrancho, no

Depois da dispersão curiosa e ativa em busca da natureza, a concentração íntima no convívio dos homens. Coisas e gentes do sertão, como lhe aparecíeis, na mesma simplicidade forte, na mesma ingênua poesia! A noite era sempre docemente ocupada no Barro Branco. Lia na varanda para o Ângelo, o Sérgio e algum adventício, a história de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, comovendo-se com eles por bravuras e façanhas, desacreditadas hoje, mas eternamente interessantes, enquanto os homens forem rústicos e simples ou se lembrarem que a humanidade teve uma infância e eles foram meninos. Em torno da mesa familiar e à luz de uma lâmpada de petróleo, enquanto os homens fumavam e Luisinha cosia, repetira longos romances de Dumas pai, com as suas peripécias, façanhas, ardis, sacrifícios, desprendimentos, sempre animado e feliz, porque ter curiosidade e satisfazê-la foi sempre desejo e contento humano.


16 chão frouxo, o ferro da pá esquerda, uma flor com um monograma incluso: era a marca do Zé Lopes, do Encravado. E as histórias de Trancoso, façanhas, guerrilhas, tretas, esconjuros, assombramentos, notícias de casos rústicos e comuns pareciam-lhe mais divertidos e sadios que as literaturas perversas, indecorosas, as vaidades imbecis e os jornais interesseiros, que alimentam a curiosidade intelectual dos civilizados... Protegido pela sombra na janela aberta, enquanto o luar escorria sobre a parede do oitão como uma gaze doirada que lhe velasse poeticamente a construção grosseira, passara serões ouvindo a velha ti’Ana contar histórias aos meninos... histórias que ele aprendera com terror ou curiosidade, que o fizeram rir e às vezes chorar, e muitas vezes recolher-se no sono para sonhar e sofrer com elas, nas indiscrições dos que não se contêm, mesmo dormindo. Eram fadas amáveis, príncipes perfeitos, animais falantes. Nossa Senhora disfarçada, mendigos que eram Nosso Senhor, pequenos heróis humildes, donzelas desvalidas e de destino magnífico, maldades castigadas, prêmio de esforço e da sagacidade... todas começadas pelo constante Era uma vez ou Foi um dia... e terminadas sempre por um vasto bródio ou grande comezaina, onde houvera doces e guloseimas, a que assistira sempre a contadora do caso e de que trouxera uma amostra, mas que no caminho se desviara e perdera ou fora comida por Sancho ou Martinho, que por isso ficaram barrigudos ou calvos... A pequenada ria do cômico dessa malvadez, quando a última frase aparecia: entrou por uma porta, saiu por outra, rei meu senhor que me conte outra... As vozes débeis e a curiosidade incansada queriam mais, e pediam... Conte outra... aquela do gato do botas... Não, a da moura torta... E assistia de novo, ou os evocava a todos os brincos infantis, as piculas, as bocas de forno, a senhora Dona Sancha, o esquenta-sol, a cabra-cega, o anelanda-na-roda... e cânticos... e descantes de cantadores... e sambas... e batizados e casamentos rústicos... e até os seus primeiros enleios de primavera... o seu violão... a sombra confidente da velha cajazeira... seu sacrifício e sua renúncia... meninice encantada que passara e que revivia na contemplação de outras felizes e que iam passar também, mas cuja saudade doce e carinhosa lhe espraiava uma umidade quente nos olhos e lhe descompassava um apressado bater de coração...

Esquecera o Amparo e o Rio... finalmente. Os jornais que Pedro lhe enviava ficavam atados aos maços, até que Luísa os consumia para moldes de vestidos ou para aproveitar o folhetim... No Rio talvez o esquecessem ou não queriam lembrar-se dele. Teve, pois, uma surpresa, entre mágoa e contentamento, no dia em que recebeu, tanto tempo depois, uma carta sumária do velho Lisboa, pedindolhe notícias. Quando voltaria aos seus trabalhos? Estava o Prometeu à espera da liberdade, que lhe cumpria dar. Fosse pensando em volver. E terminava com uma palavra afetuosa de saudade... A princípio pensou com tristeza e quase protesto: irse já, tão cedo? Mas, desde esse dia, sem o querer, começou a cuidar em tornar ao Rio... Era tempo de recomeçar e de refazer a sua vida... Trepar pela montanha abrupta da existência, aprumado, tenaz e vitorioso, como as árvores das vertentes montanhosas... Fazer a sua sorte como o Zé Lopes... E uma grande esperança, toda de desejos novos, entrou a viver nele... Um dia, calculada a época dos vapores do Amparo, avisou em casa que partiria. Foi uma grande pena silenciosa em sua família rústica... Olhavam-no com tristeza, sem ânimo de se opor, mesmo num pedido, mas numa quase exprobração de os deixar assim, tão cedo, depois que lhes comunicara o gosto de o amarem na sua simplicidade afetuosa e na sua bondade deligente... Várias vezes pegara Luisinha olhando-o de longe, com olhos compridos, cheios dele e de tristeza. Ela os desviava, quando apanhada, afastando-se e encobrindo o seu enleio num sorriso descorado. Ele mesmo andava tristonho e fechado, depois de tomada sua resolução; custava-lhe despegar-se das coisas e dos lugares, das gentes e das lembranças que tanto lhe valeram em sua aflição... possuído de um grande reconhecimento por essa bondade simples, por essa ternura esparsa em que sarara os males passados e cobrara energias sãs para tornar a viver. Fonte: PEIXOTO, Afrânio. A esfinge, 3a parte, capítulo VIII. Clube do Livro.

AFRÂNIO PEIXOTO (1876 – 1947) Júlio Afrânio Peixoto, médico legista, político, professor, crítico, ensaísta, romancista, historiador literário, nasceu em Lençóis, nas Lavras Diamantinas, BA, em 17 de dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de janeiro de 1947.


17 Foram seus pais o capitão Francisco Afrânio Peixoto e Virgínia de Morais Peixoto. O pai, comerciante e homem de boa cultura, transmitiu ao filho os conhecimentos que auferiu ao longo de sua vida de autodidata. Criado no interior da Bahia, cujos cenários constituem a situação de muitos dos seus romances, sua formação intelectual se fez em Salvador, onde se diplomou em Medicina, em 1897, como aluno laureado. Sua tese inaugural, Epilepsia e crime, despertou grande interesse nos meios científicos do país e do exterior. Em 1902, a chamado de Juliano Moreira, mudou-se para o Rio, onde foi inspetor de Saúde Pública (1902) e Diretor do Hospital Nacional de Alienados (1904). Após concurso, foi nomeado professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1907) e assumiu os cargos de • professor extraordinário da Faculdade de Medicina (1911); • diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro (1915); • diretor da Instrução Pública do Distrito Federal (1916); • deputado federal pela Bahia (1924-1930); • professor de História da Educação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (1932). • Reitor da Universidade do Distrito Federal, em 1935. Após 40 anos de relevantes serviços à formação das novas gerações de seu país, aposentou-se. A sua estréia na literatura se deu dentro da atmosfera do simbolismo, com a publicação, em 1900, do drama Rosa mística, curioso e original drama em cinco atos, luxuosamente impresso em Leipzig, com uma cor para cada ato. O próprio autor renegou essa obra, anotando, no exemplar existente na Biblioteca da Academia, a observação: “incorrigível. Só o fogo.” Entre 1904 e 1906 viajou por vários países da Europa, com o propósito de ali aperfeiçoar seus conhecimentos no campo de sua especialidade, aliando também a curiosidade de arte e turismo ao interesse do estudo. Nessa primeira viagem à Europa travou conhecimento, a bordo, com a família de Alberto de Faria, futuro acadêmico, da qual viria a fazer parte, sete anos depois, ao casar-se com Francisca de Faria Peixoto. Quando da morte de

Euclides da Cunha (1909), foi Afrânio Peixoto quem fez o laudo de autópsia. Ao ir ao Rio, seu pensamento era de apenas ser médico, tanto que deixara de incursionar pela literatura após a publicação de Rosa mística. Sua obra médico-legal-científica avolumava-se. O romance foi uma implicação a que o autor foi levado em decorrência de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, para a qual fora eleito à revelia, quando se achava no Egito, em sua segunda viagem ao exterior. Começou a escrever o romance “A Esfinge”, o que fez em três meses antes da posse em 14 de agosto de 1911. O Egito inspirou-lhe o título e a trama novelesca, o eterno conflito entre o homem e a mulher que se querem, transposto para o ambiente requintado da sociedade carioca, com o então tradicional veraneio em Petrópolis, as conversas do mundanismo, versando sobre política, negócios da Bolsa, assuntos literários e artísticos, viagens ao exterior. Em certo momento, no capítulo “O Barro Branco”, conduz o personagem principal, Paulo, a uma cidade do interior, em visita a familiares ali residentes. Demonstra-nos Afrânio, nessa páginas, os aspectos da força telúrica com que impregnou a sua obra novelesca. O romance, publicado em 1911, obteve um sucesso incomum e colocou seu autor em posto de destaque na galeria dos ficcionistas brasileiros. Na trilogia de romances regionalistas Maria Bonita (1914) Fruta do mato (1920) e Bugrinha (1922). Entre os romances urbanos escreveu “As razões do coração” (1925), “Uma mulher como as outras” (1928) e “Sinhazinha”(1929). Dotado de personalidade fascinante, irradiante, animadora, além de ser um grande causeur e um primoroso conferencista, conquistava pessoas e auditórios pela palavra inteligente e encantadora. Como sucesso de crítica e prestígio popular, poucos escritores se igualaram na época a Afrânio Peixoto. Na Academia, teve também intensa atividade. Pertenceu à • Comissão de Redação da Revista (19111920); • Comissão de Bibliografia (1918) e • Comissão de Lexicografia (1920 e 1922). Presidente da Casa de Machado de Assis em 1923, promoveu, junto ao embaixador da França, Alexandre Conty, a doação pelo governo francês do palácio Petit Trianon, construído para a Exposição


18 da França no Centenário da Independência do Brasil. Em 1923 criou a Biblioteca de Cultura Nacional dividida em : História, Literatura, Dispersos e Bio-bibliografia, iniciando esta série com a biografia de Castro Alves. Em sua homenagem a coleção passou a ter o nome de Coleção Afrânio Peixoto. Como ensaísta escreveu importantes estudos sobre Camões, Castro Alves e Euclides da Cunha. Em 1941 visitou a terra natal, Bahia, depois de 30 anos de ausência e publicou 2 livros: “Breviário da Bahia” (1945) e “Livro de Horas” (1947). Afrânio Peixoto procurou resumir sua biografia o seu intenso labor intelectual exercido na cátedra e nas centenas de obras que publicou em dois versos: “Estudou e escreveu, nada mais lhe aconteceu.” Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia das Ciências de Lisboa; da Academia Nacional de Medicina Legal, do Instituto de Medicina de Madri e de outras instituições. Na Academia Brasileira de Letras era ocupante da Cadeira 7, eleito em 7 de maio de 1910, na sucessão de Euclides da Cunha. Principais obras: • Rosa mística, drama (1900); • Lufada sinistra, novela (1900); • A esfinge, romance (1911); • Maria Bonita, romance (1914); • Minha terra e minha gente, história (1915);

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Poeira da estrada, crítica (1918); Trovas brasileiras (1919); Parábolas (1920); José Bonifácio, o velho e o moço, biografia (1920); Fruta do mato, romance (1920); Castro Alves, o poeta e o poema (1922); Bugrinha, romance (1922); Ensinar e ensinar (1923); Dicionário dos Lusíadas, filologia (1924); Camões e o Brasil, crítica (1926); Dinamene (1925); Arte poética, ensaio (1925); As razões do coração, romance (1925); Uma mulher como as outras, romance (1928); Sinhazinha (1929); Miçangas (1931); Viagem Sentimental (1931); História da literatura brasileira (1931); Castro Alves - ensaio biobibliográfico (1931); Panorama da literatura brasileira (1940); Pepitas, ensaio (1942); Amor sagrado e amor profano (1942); Despedida (1942); Obras completas (1942); Indes (1944);É (1944); Breviário da Bahia (1945); Livro de horas (1947); Obras literárias, ed. Jackson, 25 vols. (1944); Romances completos (1962); Trovas brasileiras (s.d.); Autos (s.d.).

Fonte: Academia Brasileira de Letras

Ademar Macedo Mensagens Poéticas 84 Trova do Dia

Trova Potiguar

O grande tenor se cala ante o pássaro silvestre. – É o discípulo de gala querendo escutar o mestre! A. A. DE ASSIS/PR

A bondade não tem dono, nem mesmo pátria ela tem, mas, sem cansaço e sem sono, aonde vai leva o bem. ASCENDINO DE ALMEIDA/RN


19 Uma Trova Premiada Estrofe do Dia 2003 > Niterói/RJ Tema > RAZÃO > Vencedores A razão perde o juízo, ganha um ar de pequenez, quando troca o NÃO preciso pelas sombras do TALVEZ!!! Eduardo A. O. Toledo/MG Uma Poesia – Antonio Roberto Fernandes/RJ – SAUDADE... ...Quem diz que a saudade é roxa, quem diz que a saudade é triste e quem diz que não existe quem a possa definir, não sabe o que é saudade. Saudade é mais do que isso. Saudade é como um feitiço, Saudade é falta de ti... Uma Trova de Ademar Quer saber por onde anda a saudade adormecida? Procure em sua varanda, naquela rede estendida... ADEMAR MACEDO/RN ...E Suas Trovas Ficaram Na minha infância passada, já distante, ainda se vê, um circo... e na arquibancada, eu... a saudade... e você... ALOÍSIO ALVES DA COSTA/CE

É preciso acreditar nunca, jamais desistir... Percorrer longos caminhos vivenciar, resistir... Seguir sempre a boa luz, quem acredita em Jesus ganha força para agir! DJALMA MOTA/RN Soneto do Dia – Amilton Maciel Monteiro/SP – MISTÉRIO A nossa vida em si já é um bom mistério... Mas até onde meu juízo alcança, Eu vejo que o sofrer, se é muito sério, Aumenta sempre em nós a esperança! Foi Deus que quis assim; não sem critério, Mas só visando a nossa segurança... Porque o Criador, mais que cautério, Aspira a nossa bem-aventurança! A dor tem sempre a sua utilidade, Quer para alertar de um mal maior, Ou tendo em vista a nossa santidade. Por certo o sofrimento foi criado Só pra que a gente possa ser melhor E chegue, assim, ao céu, tão almejado! Fonte: Ademar Macedo

Silmar Bohrer Poesias

(OUTROS) VERSOS MARINHOS Estes ventos friozinhos que gemem ali nos beirais

são coitados, coitadinhos dos diabinhos hibernais. Em lentárgica agonia


20 pela intempérie urdidas andam gaivotas perdidas nestas tardes de invernia.

onde muitos vivem com a incerteza de horas felizes e sem desenganos, embora encontrem neles sua defesa,

Tem tido sido inesgotável essa fonte dos meus versos, são petitas dos universos e u'a companhia saudável.

Em nosso mundo nocivo que molesta os corações humanos com embaraços estóicos aos anelos em cada gesta,

Devia ser cá na praia perante o meu céu anil, receber a trova sete mil louvando a essência gaia.

Eu quero ser mesmo um prisioneiro que goza na peia dos teus abraços as delícias do nosso amor fagueiro. CANTILENAS

Ventos, oh dóceis ventinhos, ventilai o meu pensar, céus, oh céus azuladinhos, inspirai meu versejar.

Na rude sina de escrever não tenho o brilho de versejar, sem o estro como me atrever a alguma rima iluminar.

E converso com as musas varando as madrugadas, rimas tantas, profusas, rimas tantas, orvalhadas.

Lendo Confúcio e os sonetos de Bilac reverberando, nos parnasianos, nos analetos a rabiscar vou bem lutando.

Anda uma paz de éden cá na beira dos meus mares, e os ventos, bons ventares em sonares se medem.

São cantigas mãos-atadas, sem vigor e sem brilho, dezenas de estrofes versalhadas,

Uma trova varonil se não fosse singular, é que estou a registrar a filhotinha sete mil.

São carmes sem nenhum matiz, tantos versos cantilenas e garatujas do bardo aprendiz. RIQUEZAS

Caem as noites cá na praia, sopram ventos desgarrados, anoiteceres alumiados, tanta estrela na tocaia.

Tirem-me tudo na vida, mesmo os brilhantes ouropéis, mas me deixem na guarida da caneta e dos papéis.

Ando ao sabor dos ventinhos pelo látego dos mares e vejo tantos avatares por estes velhos caminhos.

Companhias singulares que trago na algibeira, repositório dos pensares que revolvo a vida inteira.

PRISIONEIRO

E assim neste mundo material vou cultivando perenidades que fazem bem ao meu astral,

Em nosso mundo cheio de aguilhões onde os seres aspiram a liberdade, e com toda força em seus corações lutam por ela, lutam com ansiedade, Em nosso mundo eivado de reclamos

Quais delícias inefáveis os meus versos raridades são riquezas inalienáveis.


21 MENSAGEM Meus olhos leram no seu doce olhar a mensagem sublime do nosso porvir, e embevecido, sem poder falar,

Amados versos que faço nesta hora todo satisfeito a relembrar o dia que encarnei no íntimo essa magia e o sentimento que me ocupa agora.

Imerso na candura do seu esplendor, abri o véu da alvorada e vi surgir a manhã radiosa do nosso amor. -----

Não esqueço do seu gracioso olhar eivando o amor a nossas primícias, a voz ternura e as maçãs puníceas são detalhes que não pude olvidar.

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/sonetos/2026220

Nilto Maciel A Poética de Linhares Filho Sou contemporâneo de Linhares Filho. Quase da idade dele. Um pouco mais novo. Em poesia, estreou em 1968, com Sumos do tempo. Ano de terríveis confrontos sociais no Brasil e no mundo, ano em que me vi no meio do turbilhão político. Por isso, talvez, não pude acompanhar o nascimento literário do poeta de Lavras da Mangabeira. Passada a cólera, a ira, o tumulto, a agitação nas ruas (seguiu-se a fase do silêncio ao ar livre e do gemido nos cárceres), passados os devaneios juvenis, salvo das garras das aves de rapina dos anticomunistas, voltei-me para os livros. Linhares também deve ter se recolhido naquele período, pois em sua biografia há um hiato prolongado a separar o livro inicial do segundo e do terceiro: A metáfora do mar no Dom Casmurro (ensaio crítico) é de 1978, e Voz das coisas, (poemas), do ano seguinte. É a partir desses anos meu conhecimento dele. Ou de sua obra literária. Ganhei dele, agora, final de 2010, mais três volumes: Com a palavra (palestras); 50 poemas escolhidos pelo autor (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2008) e No limiar do inverno (Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2010), de poemas. Poderia comentar toda a obra em verso de Linhares, se não me faltassem a dedicação de leitor ou o senso e a sabedoria de crítico. Direi, porém, duas ou três palavras apenas a respeito de sua poética, deixando para outrem o pesquisador da literatura, o analista minucioso e atento de Machado, Pessoa, Torga, Camões, Saramago, Drummond e outros.

A poesia de Linhares Filho tem roupagem tradicional, sobretudo pelo uso frequente do verso medido e rimado. Entretanto, vai além disso, com a manipulação de múltiplos recursos formais: do soneto ao verso livre e a poemas de variados feitios, em versos decassilábicos ou de cinco, seis, sete e oito sílabas. O apego à vestimenta da tradição o livrou da aventura pela chamada poesia de vanguarda, pelo antiverso, pelo poema visual e outras modalidades de efêmera duração. Isto é, consciente e conhecedor do fenômeno estético, tem pleno domínio da técnica do verso. Sem se apegar, com fanatismo, à métrica e à rima, faz uso também do verso branco, como em “Das coisas”. Quanto à rima, ele a pratica muito bem, em todas as suas modalidades ou tipos: consoante, aguda, esdrúxula, grave, etc. Não bastasse isso, é conhecedor dos sortilégios da linguagem, da densa elaboração da linguagem, da melodia do verso, a exemplo dos bons cultores do verso. Encontramos em seus poemas o “encanto verbal” (Drummond) ou a “pureza vernácula” (Iranildo Sampaio), tão afastados de uma infinidade de escritores que estudam pouco, leem quase nada e se acham gênios. Em Linhares a tal pureza vernacular pode ser constatada com facilidade, como quando pomos em linha reta, ou de prosa, alguns versos: “Certo é que, sob o rescaldo da fogueira antropofágica do teu povo caeté, já se ateara teu desafio, e, da fornalha a vir, manarão as


22 larvas de um vulcão, fluindo sempre, em rio” (“A Lêdo Ivo, ante Réquiem”). A poesia de Linhares foi chamada por alguns críticos de intimista. Pois o poeta não se deslumbra com o circunstancial e o efêmero, embora não os deixe de lado. Em seus livros há poemas de puro descritivismo ou de saudação: “És, Cidade Maravilhosa, / luz do Sudeste, glamourosa / fidalga” (...). Ou “Cidade show, cidade shopping, / cidade grávida, / devolves à Nação inteira” (“Ode à Pauliceia”). Assim como há observações de fatos: O terremoto do Haiti. Como percebeu Adriano Espínola, outro poeta admirável, Linhares Filho “encara com a maior seriedade os graves problemas do homem, em termos existenciais, sociais e metafísicos”. São muitos os seus poemas em que se vê além da matéria, como ser, como parte do Todo. E se explica: “Por isso também canto salmos e hinos”. Ou composições recheadas de religiosidade: “Ao Espírito Paráclito”, “Ato de Humildade” (“Sei que, apesar de tudo, / não sou maior em nada”), “Amor Perene” (“Entre nós Deus habita, e por seu nome / cumprimos nosso ideal de amor eterno”).

Como todo grande poeta, Linhares é bom filho e sabe amar seus pais espirituais, os poetas que nos antecederam aqui e alhures. Sua obra é plena de “ressonâncias intertextuais”, de que fala José Augusto Cardoso Bernardes. Não apenas nas muitas homenagens a poetas cearenses e de outros Estados (Anderson Braga Horta, Cassiano Ricardo, Dias da Silva, Drummond, Dimas Macedo, Filgueiras Lima, Lêdo Ivo, Machado de Assis, Manuel Bandeira), mas aos estrangeiros de sua predileção, como Camões (“E cada vez que nos sentimos tristes, / ou do amor com enganos, desenganos, / mais, ao lermos teus poemas, te sublimas!”), Borges, Heidegger, Pessoa, Torga, presentes também em epígrafes. Como observou Sânzio de Azevedo, outro poeta e crítico de reconhecido talento, o autor de Tempo de colheita “é um desses artistas verdadeiros, um poeta no sentido mais nobre do termo”. Isto é de fácil comprovação, como no último verso do belíssimo poema “A Machado de Assis, morto vivo”: “A Dor dos que ainda ficam te saúda!” Fonte: http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2011/01/poetica-delinhares-filho-nilto-maciel.html

Linhares Filho Poesias A MINHA MÃE, HABITANTE DA MORTE Tua branca rede já não se arma para a sesta. Todavia guardo, com o ranger longínquo dos armadores, a placidez do teu sono a entreter o meu sonho No teu aposento, mansa e invisível, dorme uma ave. À mesa posta, entre o apetite e a lembrança, há uma cadeira sem dono. Falta ao alimento o tempero que de tuas mãos ninguém pôde aprender. Mas junto a mim está um cântaro que se encheu de lágrimas que libertam. As dálias do jardim continuam a florescer, cada ano, tão brancas, tão viçosas!

Contudo parecem reclamar a sutileza de um carinho que o meu sono não esquece... Teus pincéis dormem com a resignação de pincéis, Minha alma imperfeita, a despeito de teres sido artista perfeita, pede, todo dia, os últimos retoques. Santa e elmo, no navio em que eu encontrar borrasca, os teus olhos serão santelmo... No silêncio noturno não se ouvem mais os passos cautelosos com que fechavas a janela que dá para a rua, no entanto percebo,


23 na lã escura da noite, o abrigo do teu xale. A MACHADO DE ASSIS, MORTO VIVO De que maneira a fundo iremos conhecer-te, se muita vez estás noutro lugar, mil cabriolas a dar com a manipulação freqüente de um falar e dois entenderes? O que propões, porém, vamos tateando, e o teu pungente riso saboreando. Algo fica, afinal, de tuas reticências – mesmo sem se atingir total a tua essência e não obstante a previsão de Cubas –, também nas duas tais colunas da opinião, não só numa terceira, a dos agudos, e assim o teu discurso não é vão. De além dos vermes que roeram as tuas frias carnes sem deixar boca para rir nem olhos para chorar, escuta-me com a alma que restou do teu grande naufrágio (longe do feroz ágio e do pedágio). Aqui estou para dizer-te o quanto ainda te ouvimos, lemos e te amamos. Ensinaste-nos que há sempre uma gota da baba de Caim, tanto a vontade como a ação umedecendo de indivíduos, de classes ou de tribos. Que por batatas uns aos outros se consomem. (Quantos, qual tu sem Deus, acham que a morte é o fim!) Joaquim Maria, as tuas esquivanças, silêncios e trejeitos e artimanhas deram-nos luz para a experiência do homem. E, quanto a nado, mar, navegação, embora cada um de nós manobre bem a seu modo o timão, para o leitor abriste uma Escola de Sagres, onde muito se pode observar, dos olhos de ressaca em tua Capitu até os confins da Europa no seu corpo, que por Bentinho, enfim, é rejeitado. Fizeste de Escobar o próprio Rio Cobar, para em Ezequiel, homônimo do bíblico, denunciar-se por fumos todo um fogo, a culpa intencional da sedução de um mar... E fizeste surgir a dúvida no ar. Ora com humour, ora com ironia, contra Leibniz puseste Schopenhauer.

Em Maistre e Sterne filtraste a sátira menipéia. E o vulnerável, mestre, apanhas com mão fria. Sobressai-te um vigor: a sensual latência, quase sempre consciente e deletéria, qual sangue a latejar por dentro de uma artéria. Evidenciando aqui, ali insinuando, soubeste registrar o desconforto, o descontentamento e a frustração da nossa humana condição desde o emplasto de Brás Cubas à solda da opinião. E aqui ficamos tristes e inquietos com as mil formas de ser da humana Dor. Muito amor ainda falta e pão. Faltam mais tetos, a paz pública falta e a paz interior. Sentimo-nos pequenos e incompletos. Da glória arrebatou-se-nos a palma. Hoje, além de buraco haver na alma, que no teu tempo e já bem antes se feria, há buracos no asfalto e em nossa economia, várias lesões em corpos pelo césio, e há buracos até na camada de ozônio que protege do Sol a pobre Terra, a que a nossa ambição tanto se aferra. E a interjeição de dor em muitos deste agora sem tílburis, lampiões a gás na rua, alcaides – ai, ai! – enfatizou-se tanto, tanto, que eles a sua dor gritam em AIDS. Mas resta uma esperança, a de que um dia, segundo está em Dante e em Bento Santiago, nós nos encontraremos renovados tal como as plantas novas, além da lágrima e do riso, além de qualquer jogo ou quaisquer provas. Se o mundo mostras sempre negativo, passas de vivo morto a morto vivo. És trágico, mas és eterno na arte. Por isso, estou aqui para saudar-te. Das nuvens não cairás nem de um terceiro andar. Sei que Oblivion jamais te pode apear. O olvido esquecerá quem o lembrou tão bem... E de Saturno não te atingirá o desdém. Habitas aureolado o símbolo, meu bruxo. Por tudo o que tu foste e és, te amamos! De louro te ofertamos novos ramos pela meia palavra, a sugestão, a agudeza do olhar, as linhas do debuxo, a tradução da alma e o bom uso do não. Até o dia, afinal, da grande muda! A Dor dos que ainda ficam te saúda!


24 DAS COISAS Meus cabelos captam a voz das coisas do espaço e do inespaço. As coisas: fungíveis e infungíveis, móveis, imóveis e semoventes, operam o fenômeno ou são o númeno. Queiramos ou não, as coisas nos cercam, nos integram, ou são presença na nossa memória. E nos espreitam com o enigma de seu olho plurimático. Aonde ninguém vai, aí penetra o olhar de alguma coisas. Testemunhas de virtudes e munditudes, de todas as nossas contradições, do sem-saber-para-onde-ir. Levam a marca dos nossos usos e abusos. Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós? Confidentes na solidão, inconfidentes para a perícia. As coisas nos encantam e desencantam. Umas coisas, talvez, nos libertem algum dia, e outras decerto dependurada trazem a morte consigo. As coisas nos mandam e desmandam, formam, deformam, informam, transformam. As coisas nos assaltam e improvisam. Com o xadrez de situações elaboram mais a surpresa do que a expectativa. As coisas nos precederam e nos sucederão. (É preciso reagir contra certas coisas.) Sentimo-nos sós no meio das coisas. ODE A FERNANDO PESSOA 1. Morreste, afinal, ó poeta geral, ou prossegues, lívido, a cantar à paz de teu silêncio e ao verde-azul do mar? Se ponho — sim, estás vivendo em mim. Se digo — não, contemplo-te em canção, qual fantasma, insone, a vagar em nossa solidão. Se morreste, também morreu Ricardo e Álvaro se foi, partiu Alberto. Ou todos esses e quantos mais tu foste

— como as máscaras gregas da tragédia — só viveram no poema, no teu verso, pendurados na dor dos vilancetes?, no teu verso, pendurados na dor dos vilancetes? Pode um poeta perder o seu futuro ou a morte não passa de interlúdio no resfolgar fatal de seus ginetes? E o fingimento? E todo o sal do mar nascido das guitarras marinheiras na hora de cantar? Ai, cantar e chorar são sempre a mesma cousa! Ambos rimam conosco e inscrevem-se na lousa que vai cobrir o que de essência somos. E tu, irmão do Tejo, do Lima e do Montego, por que tão perto estás e és cacto com medo a perecer no meio de um deserto? Oh, o teu verso tão certo a brilhar sobre os homens e o mar português! Teu verso que se fez de sono, mito, encantação e olhar. Mesmo não crendo, creste. E assim criavas novas formas de fé que alimentavam a lenta sombra rubra da existência. E foste na tarde a sobretarde e no real/irreal a consciência em fome de verdade. E cantaste da vida a brevidade entre o sempre e o jamais, a mágoa e a História. E nossa foi tua vasta visão premonitória. 2. É certo: em brumas sobrevéns de Alcácer-Quibir. Foi-te dado com isso pressentir o mistério do tempo e da memória, o lá-dentro das cousas e o lá-fora, a estrada de Delfos e de Ofir. Então, se tal se deu, nunca morreste. Estás nos tombadilhos, a boreste, com capa e pince-nez, a viajar. E aqui ficamos a te reinventar como as nuvens inventam sua sombra de naves fantásticas no mar. O mar de Camões. O reino das canções. A concha dos mistérios e navegações. E aqui te esperamos. Virás — quem sabe — de qualquer ilhota (ao lado de Almada e Sá-Carneiro)


25 no solitário voar das gaivotas. Ou te erguerás, triunfal, a qualquer hora, de algum poema teu, à luz de auroras. Ou talvez desardomeças num soneto inglês. E todos de uma vez gritaremos teu nome que não some e é camerata, e luz, e dor, e ritmo, ou sagrado logaritmo nas álgebras do poema. 3. No tempo te saúdo. Não te enxergo na morte silenciosa. E só estás mudo. A tua voz se oculta entre as ramagens da árvore da vida. A tua voz ferida. A tua voz tão perto e tão distante. Voz, como os perfumes, caminhante, na curva e contracurva de algum fado. E aqui estou, igual a ti, parado, a louvar tua face essencial. Teu sonho delirante e teu naval olhar. Ou o teu guitarreio e suspirar. Ou o maldizer. Ou o teu saber. Ou o teu grito crescendo em solidão no reino de Netuno ou de Plutão.

LINHARES FILHO (1939) José Linhares Filho nasceu em Lavras da Mangabeira, Ceará, no dia 28 de fevereiro de 1939. Graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará, onde fez cursos de especialização e aperfeiçoamento. Mestre em Literatura Portuguesa e doutor em Letras Vernáculas (área de Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É professor titular de Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Ceará, ministrando também Literatura Brasileira. Foi coordenador da Casa de Cultura Portuguesa, do curso de pós-graduação em Letras da UFC (1993), editor da Revista de Letras e pesquisador do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa em Lisboa. Professor visitante na Universidade de Colônia e na Universidade Técnica de Aachen, Alemanha. Ensaísta e poeta, cuja poesia é elogiada por intelectuais de grandes méritos.

Sânzio de Azevedo a propósito de um dos seus livros diz: “... ele é poeta, senhor do verbo e do verso, pastor de metáforas e recriador do mundo...” Faz parte do Grupo SIN de Literatura e de várias entidades culturais. Obras poéticas: Sumos do tempo, 1968; Voz das coisas, 1979; Frutos da noite de trégua, 1983; Tempo de colheita, 1987; Andanças e marinhagens, 1993; Rebuscas e reencontros, 1996; Itinerário: trinta anos de poesia, 1998; Notícias de bordo: poemas selecionados, 2006; e Cantos de fuga e ancoragem, 2007. Outras publicações: A metáfora do mar no dom Casmurro, 1978; A “outra coisa” na poesia de Fernando Pessoa, 1982; O poético como humanização em Miguel Torga, 1997; A modernidade da poesia de Fernando Pessoa, 1998; e O amor e outros aspectos em Drummond, 2002. Recebeu os prêmios: Estado do Ceará de Ensaio, em 1986 e de Poesia, em 1987. Detentor do diploma de Mérito Cultural, concedido pela Academia Brasileira de Filologia, Rio de Janeiro. Ingressou na Academia Cearense de Letras no dia 23 de julho de 1980 na vaga deixada por Josaphat Linhares, ocasião em que foi saudado pelo acadêmico e contista Moreira Campos. Ocupa a cadeira número 30, cujo patrono é Rocha Lima. Sócio • • • • •

da Associação Internacional de Lusitanistas, da Associação Brasileira de Literatura Comparada, da Academia de Letras e Artes do Nordeste, CE, da Academia Lavrense de Letras, de que é presidente de honra e da Associação Brasileira de Bibliófilos.

Fontes: Academia Cearense de Letras. http://www.ceara.pro.br/ACL/Cadeiras/LinharesFilho.html http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=Linhares+Filho Academia Brasileira de Letras


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Antonio Brás Constante Humor – Sol e Frio (tomou Doril e Não Sumiu) ...A netinha então perguntou para sua vovozinha, muito velhinha e bondosa: “Vovó, quando a senhora nasceu o Sol já existia?”, e a vovozinha lhe respondeu cheia de ternura: “sim, minha netinha queridinha, por quê?”, a menininha, na inocência de sua tenra infância, arregalou os seus olhinhos brilhantes e disse: “NOOOOSSA!! COMO O SOL É VELHO!”. Alguns dizem que a anedota termina por aí, já outros juram que a tal avó arrancou a própria dentadura da boca e arremessou na cabeça da netinha malcriada. Mas essa introdução serve apenas para falarmos do maior rei anão que conhecemos: O nosso Sol (para quem não sabe, o Sol é uma estrela anã que fugiu do circo do infinito para brilhar em nosso sistema solar). O Sol parece uma bola gorda e gigantesca (provavelmente deve até ter sofrido algum tipo de bulling após os acontecimentos do Big Bang, moldando assim o seu atual jeitão esquentadinho). Ele fica no espaço ocupando espaço de forma aparentemente sedentária, mas queima calorias como ninguém, e é graças as suas terríveis crises de gases que continuamos vivos aqui na Terra. Algumas pessoas tiveram que queimar na fogueira da ignorância (porém, montada com madeira de verdade), para que o Sol ganhasse o destaque que merece como centro de nosso sistema solar, e apesar de não ser egocêntrico (esses sentimentos pequenos e desprezíveis pertencem a muitas das criaturas minúsculas que se acham grande coisa por aqui na nossa terrinha) ele é a principal peça do sistema heliocêntrico (para quem não sabe, heliocêntrico é como o seu Hélio chama o seu sistema de vendas de pipoca com gordura hidrogenada, que ele estoura e comercializa através de seu carrinho de pipoqueiro, localizado no centro da praça universal, em uma das periferias do bairro Via Láctea). O Sol tem uma característica explosiva, e talvez por isso poucos amigos (apenas nove, sendo que um

deles, Plutão, foi rebaixado para segunda divisão há alguns anos atrás). Eles ficam perambulando em volta do Sol como se estivessem brincando de ciranda (só que em uma espécie de fila indiana formada por bêbados) ou como moscas em volta de uma lâmpada acesa qualquer. Alguns desses planetas são acompanhados por seus filhotes, também conhecidos como satélites. É o caso da lua, que é filha da Terra (e a Terra, como muitos sabem, dispõe de muitos indivíduos que são verdadeiros filhos da mãe e outros que vivem no mundo da lua). É através dos raios do Sol que nóis pega um bronzeado (estou me adequando as novas tendências e aderindo a linguagem popular, lembrando sempre que a principal expressão popular aqui no Brasil é o famoso “nóis fumo”, ou seja, “nóis fumo robadu”, “nóis fumo enganadu”, “nóis fumo sacaneadu”, mas no fundo nóis é tudo CB “Sangue Bom”). O Sol tem seu brilho próprio de verdadeira estrela em todas as suas dimensões, e quando nosso planeta lhe dá as costas (literalmente falando) é porque está na hora de irmos dormir um pouco, muitas vezes olhando para o céu e vendo a parentada celestial e brilhante de nosso astro-rei, pontilhada na negritude do espaço. Mas é no inverno que sentimos mais falta do calor desumano do Sol, principalmente aqui no Sul, que não é o Pólo Sul, mas também é frio pra chuchu (não sei explicar porque o chuchu serve para exemplificar algo tão frio). Neste período do ano o cobertor frio do inverno cobre os habitantes bem ao sul do Equador em uma época em que Papai Noel ainda está hibernando no Pólo Norte ou quem sabe escravizando duendes e obrigando-os a fazerem brinquedos para as crianças do mundo, mas somente para aquelas que foram boazinhas o ano inteiro (provavelmente apenas uma meia dúzia). Ao ser percebido através de uma visão cósmica, o clima frio que muitos lugares enfrentam é insignificante perante a força e majestade do


27 esplendoroso Sol. Mas infelizmente esta insignificância nos dá calafrios quando notamos que ele, o clima frio, não está nem aí para isso tudo que acabei de escrever e nos faz tremer com suas baixas temperaturas, tão agressivas quanto qualquer golpe baixo em campeonatos de luta livre. O Sol na imensidão fria do universo servindo de farol para nossa existência, intrinsecamente ligado a nossa tênue essência, lutando bravamente contra o frio que tantas vezes cerceia nossa temporária vivencia. Frio este também aplacado com o mate

quente e amargo, servido em minha amada querência. Buenas tchê! Já falei do Sol, já falei do frio, mas e o Doril? No caso do Doril, você pega ele, tira da embalagem, e depois você... Você... Você... Você, você, você, você, você, você (vamos lá gente, todo mundo fazendo a dança “Você, Você” do pânico na TV). Eu até ia terminar este texto falando alguma coisa sobre o Doril, mas agora a ideia sumiu... Fonte: Texto enviado pelo autor

Cassiano Ricardo Poesias RISO E LÁGRIMA Há uma lágrima, sempre atenta, em nossos olhos. LUÍS EDMUNDO Morre na alma um sorriso e a lágrima, sentida, surge, treme, de leve, e traz à vossa face o signo natural da tristeza que nasce e não pode viver tão secreta, escondida. Muitas vezes, porém, nas horas em que a vida alegre se vos faz, como se se ocultasse viverá - quem o sabe? - inútil, esquecida. E assim, quando esqueceis a vossa desventura a tristeza se esvai e a lágrima procura ocultar-se, qual flor que nasceu entre abrolhos. No entanto, para mim, há destas variedades: passo a vida a cantar para matar saudades, vivo sempre a sorrir com lágrimas nos olhos... (Dentro da noite, 1915.) MANHÃ DE CAÇA Mal entrava eu no mato era um delírio. Os papagaios se reuniam em bando, protestando. Como em verde comício.

Por que tanto barulho? eu indagava de mim mesmo, da minha malvadez. Como se não soubesse que era justo o protesto dos papagaios ásperos, verde-gaios. Araras, canindés, maitacas mais ensurdecedoras que matracas, reunidas em bando, também gritavam, me acusando. Mas por que tanto horror? por que, de súbito, tanto medo insensato? Como se eu não soubesse, com absoluta certeza, que era o mato contra a minha maueza. Maracanãs, tiribas, periquitos, que eram asas aos gritos, papagaios, enfim, de vários nomes e de vária plumagem, que eram os donos do país selvagem e confuso, lavravam seu protesto contra o intruso, gritando, gritando. Um morro de cabelo verde pixaim começava a pensar.


28 Se encolhia a pensar numa coisa sem fim. Por que pensar assim? Como se eu não soubesse dos motivos de tanta guerra, de tanta algazarra. Conferenciavam, graves, os tucanos. Saltavam rãs e gafanhotos, junto a meus pés, a meus sapatos rotos. O caapora acendia o fogo do cachimbo. A mãe-d'água - se é que a mãe-d'água existe saltava como louca, a face oculta em seu cabelo verde - se é verdade que o seu cabelo é verde. Como se eu não soubesse que no mato tudo é cabelo verde, é susto, é graça, é surpresa, é protesto (quando não é a solidão selvagem). Mas por que tanta atoarda? E eu apontava o cano da espingarda e bumba! um papagaio verde-gaio caía ao solo e os outros, com assombro, se reuniam em bando, gritando. Uma chuva de garras e de bicos despencava do céu sobre o meu ombro. Os ecos proferiam, pelas grotas, outros protestos, como se a distância também caísse ao chão, de bruços, com a boca cheia de soluços! Mas pra quê tanto medo? E - último eco - uma voz, enroscada num cipoal em flor, numa barba-de-bode, ficava protestando: não pode! não pode! (Vamos caçar papagaios, 1926.) BRASIL-MENINO I Meu pai era um gigante, domador de léguas. Quando um dia partiu, a cavalo no seu dragão de pêlo azul que era o Tietê

[dos bandeirantes. lembro-me muito bem de que me disse: olhe, [meu filho, eu vou sururucar por esta porta e um dia voltarei [trazendo umas duzentas léguas de caminho [e umas dezenas de onças arrastadas pelo [rabo a pingar sangue do focinho! E dito e feito! lá se foi dando empurrões no mato dos [barrancos por entre alas de jacarés e de pássaros brancos. Quando veio o Natal meu pai estava longe, em luta com os bichos peludos, com os gatos grandões [de cabeça listada e com as mulas-de-sete-cabeças [que moram no fundo das árvores espessas. No planalto batia um sino perguntando: ele não vem? [ele não vem? Um outro sino de voz grossa respondia: não ... e [não, dizendo "nãão" e repetindo "nãão" e não. II E eu me lembrei de procurar um par de botas das que meu pai usava e pôr o par de botas atrás da porta do sertão que resmungava entocaiado [no arvoredo. Como fazia frio aquela noite! Fiquei com tanto medo... Um gato corrumiau passeava pelos vãos da telha-vã... Mas chegou a manhã, linda como um tesouro! e eu fui achar, com o coração aos pulos de alegria, as duas botas de couro abarrotadas de ouro! III Passou mais um ano e meu pai não voltou. Botei meus sapatões atrás da porta novamente e no outro dia fui encontrar meus sapatões abarrotados de [esmeraldas! Minha vovó, uma velhinha portuguesa com cabelo de [garoa e xale azul-xadrez me garantia: - "Foi o papá Noel quem trouxe." Até que um dia


29 fiz que não vi mas vi; acordei da ilusão. Meu pai era um Gigante, caçador de léguas, um feroz domador de onças pretas, terror do mato, assombração das borboletas mas tinha um grande coração. Por fim cresci. Hoje sou gente grande. Sou comissário de café. Tenho viadutos encantados. Minha cidade é esse tumulto colorido que aí passa levando as fábricas pelas rédeas pretas de fumaça! Barulho fantástico de um mundo que saiu da oficina. Grito metálico de cidade americana. Vida rodando fremindo batendo martelos com músculos de aço. E o Tietê conta a história dos velhos Gigantes que andaram medindo as fronteiras da pátria, ao tempo em que S. Paulo colocava os sapatões atrás da porta e os sapatões amanheciam cheios de ouro...

(Um dia depois do outro, 1947.) A SINTAXE DO ADEUS O frio que a morte traz quem o sente não é o morto. O morto apenas esfria. É o frio do calafrio... E são os vivos que sentem. Também os vivos têm medo de olhar nos olhos do morto. Ah, o terrível segredo. E alguém, com dedos de rosa vem e automaticamente pra que o morto não nos veja, lhe fecha as pálpebras como a duas pétalas e adeus. A-deus quer dizer sem Deus. SERENATA SINTÉTICA

E os sapatões amanheciam cheios de esmeraldas... E os sapatões amanheciam cheios de diamantes... (Martim Cererê, 1928.)

Rua torta. Lua morta.

A RUA Bem sei que muitas vezes, o único remédio é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem, a dívida, o divertimento, o pedido de emprego, ou a própria alegria. A esperança é também uma forma de contínuo adiamento. Sei que é preciso prestigiar a esperança, numa sala de espera. Mas sei também que espera significa luta e não, apenas, esperança sentada. Não abdicação diante da vida. A esperança nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera. Nunca é a figura de mulher do quadro antigo. Sentada, dando milho aos pombos.

Tua porta. IMEMORIAL Não fui quem sou, quando nasci. Nem sou quem sou, quando amo. Nem quando sofro. Porque coexisto. Porque a angústia é uma herança. Só me aproximo de mim mesmo quando fujo, atravesso a fronteira, ou me defendo, ou fico triste. Ou quando sinto a rosa secreta e quente da vergonha subir-me à face. O mar me bate à porta,


30 como um grito da origem. Mas como descobrir a onda imemorial que me trouxe? (Um dia após o outro, 1947.) POEMA IMPLÍCITO

uma folha sobre outra, formaremos um grande cacto. De cada braço, já no espaço, nascerá mais um braço, e deste outros braços, qual ramalhete de flores para um só abraço.

O que a vida nos faz supor esteja atrás dos objetos. A presença do oculto, o que a fotografia não nos diz. As coisas que não chegou a me dizer Lenora a que foi morar no reino dos pássaros mudos. E que mais me feriram justamente porque não chegaram a ser ditas. Os gritos, esculpidos na boca das figuras de pedra. Tudo o que é implícito. Tudo o que é tácito.

Filhos da pedra e do pó, fique aqui embaixo o nosso orgulho, pisado sobre o pedregulho. Formaremos, num corpo só

Não gosto dos explícitos Gosto dos tácitos. Daqueles que me dizem tudo sem me dizer uma única palavra. Não amo os lógicos, os socráticos. Amo os lunáticos, os de cabeça virgem e lírica.

Uma folha sobre outra e já uma árvore de feridas por entre os anjos de azulejo e as borboletas repetidas.

Não amo os pássaros que cantam, amo os pássaros mudos.

Para provar a Deus que a terra, numa fotografia exata, não é redonda, mas chata; não é redonda, mas chata.

(A face perdida, 1950.) O CACTO This is cactus land. Here the stone images and raised... T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cacto na areia da nossa tristeza. Uma folha sobre outra, Em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço,

(uma folha sobre outra uma folha sobre outra, um braço a nascer de outro braço), a nossa escada de Jacó. Pra que torre de Babel ou o Empire State, compacto, se, uns nos ombros dos outros, chegaremos ao céu, num cacto?

Que fique aqui embaixo a terra; lá de cima nós tiraremos uma grande fotografia do seu rosto de ouro e prata.

Pra provar, por B mais H, que o homem, animal suicida, já sabe fabricar estrelas... Se é que Deus disto duvida. Que iríamos fabricar luas (se não fora, para Seu gáudio, o espião nos ter furtado a fórmula) mais bonita do que as Suas. Vamos, todos, brincar de cacto, uns nos ombros dos outros, um braço a nascer de outro braço, uma folha sobre outra.


31 me olha, sempre, de frente Vamos subir, de folha em folha, mais alto do que vai o avião. Lá onde os anjos jogam pedras no cão da constelação. Que outros usem avião a jacto pra uma viagem em linha reta: nós, filhos da planície abjeta, subiremos ao céu num cacto.

(amorosamente) Talvez porque o seu retrato mais se parece com você do que você mesma (ingrato). Talvez porque, no retrato você está imóvel,

Uns nos ombros dos outros, injustiças sobre injustiças, formaremos um verde pacto... Vamos, todos, brincar de cacto.

(sem respiração...)

Vamos, todos, brincar de cacto.

(A difícil manhã, 1960.)

(João Torto e a fábula, 1954.)

Cassiano Ricardo (1895 – 1974)

VOCÊ E O SEU RETRATO Por que tenho saudade de você, no retrato, ainda que o mais recente? E por que um simples retrato, mais que você, me comove, se você mesma está presente? Talvez porque o retrato já sem o enfeite das palavras, tenha um ar de lembrança. Talvez porque o retrato já sem o enfeite das palavras, tenha um ar de lembrança. Talvez porque o retrato (exato, embora malicioso) revele algo de criança (como, no fundo da água, um coral em repouso) Talvez pela idéia de ausência que o seu retrato faz surgir colocado entre nós-dois (como um ramo de hortênsia) Talvez porque o seu retrato, embora eu me torne oblíquo,

Talvez porque todo retrato é uma retratação.

Cassiano Ricardo Leite, jornalista, poeta e ensaísta, nasceu em São José dos Campos, SP, em 26 de julho de 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 14 de janeiro de 1974. Era filho de Francisco Leite Machado e Minervina Ricardo Leite. Fez os primeiros estudos na cidade natal. Aos 16 anos publicava o primeiro livro de poesias, Dentro da noite. Iniciou o curso de Direito em São Paulo, concluindoo no Rio, em 1917. De volta a São Paulo, foi um dos líderes do movimento pela Semana de Arte Moderna da 1922, participando ativamente dos grupos "Verde Amarelo" e "Anta", ao lado de Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Raul Bopp, Cândido Mota Filho e outros. No jornalismo, Cassiano Ricardo trabalhou no Correio Paulistano (de 1923 a 1930), como redator, e dirigiu A Manhã, do Rio de Janeiro (de 1940 a 1944). Em 1924, fundou a Novíssima, revista literária dedicada à causa dos modernistas e ao intercâmbio cultural pan-americano. Também foi o criador das revistas Planalto (1930) e Invenção (1962). Em 1937 fundou, com Menotti del Picchia e Mota Filho, a "Bandeira", movimento político que se contrapunha ao Integralismo. Dirigiu, àquele tempo, o jornal O Anhangüera, que defendia a ideologia da Bandeira, condensada na fórmula: "Por uma


32 democracia social brasileira, contra as ideologias dissolventes e exóticas." Eleito, em 1950, presidente do Clube da Poesia em São Paulo, foi várias vezes reeleito, tendo instituído, em sua gestão, um curso de Poética e iniciado a publicação da coleção "Novíssimos", destinada a publicar e apresentar valores representativos daquela fase da poesia brasileira. Entre 1953 e 1954, foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris. Poeta de caráter lírico-sentimental em seu primeiro livro, ligado ao Parnasianismo/Simbolismo, em A flauta de Pã (1917) adota a posição nacionalista do movimento de 1922, revelando-se um modernista ortodoxo até o início da década de 40. As obras Vamos caçar papagaios (1926), Borrões de verde e amarelo (1927) e Martim Cererê (1928) estão entre as mais representativas do Modernismo. Com O sangue das horas (1943), inicia uma nova e surpreendente fase, passando do imagismo cromático ao lirismo introspectivo-filosófico, que se acentua em Um dia depois do outro (1947), obra que a crítica em geral considera o marco divisório da sua carreira literária. Acompanhou de perto as experiências do Concretismo e do Praxismo, movimentos da poesia de vanguarda nas décadas de 50 e 60. A sua obra Jeremias sem-chorar, de 1964, é bem representativa desta posição de um poeta experimental que veio de bem longe em sua vivência estética e, nesse livro, está em pleno domínio das técnicas gráfico-visuais vanguardistas. Se a sua obra poética é tida como de importância na literatura brasileira contemporânea, a de prosador é também relevante. Historiador e ensaísta, Cassiano Ricardo publicou em 1940 um livro de grande repercussão, Marcha para Oeste, em que estuda o movimento das entradas e bandeiras. Cassiano Ricardo pertenceu ao Conselho Federal de Cultura e à Academia Paulista de Letras. Na Academia Brasileira de Letras, teve atuação expressiva. Relator da Comissão de Poesia em 1937, redigiu parecer concedendo a láurea ao livro Viagem, de Cecília Meireles. Saiu vitorioso, e Viagem foi o primeiro livro da corrente moderna consagrado na

Academia. Ao lado de Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Múcio Leão, Cassiano Ricardo levou adiante o processo de renovação da Instituição, para garantir o ingresso dos verdadeiros valores. Marcha para Oeste foi traduzido pelo Fondo de Cultura Económica do México, com o título La Marcha hacia el Oeste; e Martim Cererê, do qual Gabriela Mistral já havia traduzido alguns poemas, foi depois integralmente vertido para o castelhano, pela escritora cubana Emília Bernal, e publicado em Madri, pelo Instituto de Cultura Hispânica, em 1953. Bibliografia Poesia: Dentro da noite (1915); A flauta de Pan (1917); Jardim das hespérides (1920); A mentirosa de olhos verdes (1924); Vamos caçar papagaios (1926); Borrões de verde e amarelo (1927); Martim Cererê (1928), Deixa estar, jacaré (1931); Canções da minha ternura (1930); O sangue das horas (1943); Um dia depois do outro (1947); Poemas murais 1950; A face perdida (1950); O arranha-céu de vidro (1956); João Torto e a fábula (1956); Poesias completas (1957); Montanha russa (1960); A difícil manhã (1960); Jeremias sem-chorar (1964). Ensaio: O Brasil no original (1936); O negro da bandeira (1938); A Academia e a poesia moderna (1939); Marcha para Oeste (1940); A poesia na técnica do romance (1953); O tratado de Petrópolis (1954); Pequeno ensaio de bandeirologia (1959); 22 e a poesia de hoje (1962); Algumas reflexões sobre a poética de vanguarda (1964). Fonte: Academia Brasileira de Letras


33

Domício da Gama Maria sem Tempo Era magra, pequena, escura. Tinha a extrema humildade dos que vivem longos anos sob o céu destruidor, sem pensar ao menos em resistir à sorte, com a passividade inerte da folha que o vento rola pelos caminhos. Era assim mirrada e seca e sombria, como se tivesse perdido a seiva ao ardor dos estios, como se guardasse das noites sem estrelas o negrume cada vez mais denso. Era louca, porque só tinha uma idéia, e a criatura humana pode não ter idéias, mas não pode ter uma só. A sua era o angustioso desassossego das maternidades malogradas. Perdera um filho e o procurava. Andava pelos caminhos para buscá-lo e só levantava a voz para chamá-lo, ansiosamente, carinhosamente: "Luciano! Meu filho!..." E escutava longo tempo por trás nas cercas, no aceiro dos matos, à entrada dos terreiros das fazendas, nos desertos e nos povoados, onde quer que a levasse a sua dolorosa esperança. Aquela figura miserável, toda feita num gesto indagador, com a mão abrigando os olhos, à espreita, ou levantando o chale que lhe encobria a cabeça de cabelos hirtos, para ouvir melhor a resposta ideal, aquela encarnação de um desejo sempre iludido enturvava o esplendor do mais radioso meio-dia. Gente compassiva, donas de casa a quem se apertava o coração ouvindo ecoar pelas estradas o seu reclamo desolador, quiseram rete-la, dar-lhe amparo e agasalho: "Aonde vai, Sinhá Maria? Fique com a gente, mulher! Por estes sóis que matam, assim ao desabrigo do tempo, o que faz uma criatura de Deus? Descanse uns dias e vá então..." Mas a louca se escusava resolutamente: "Não tenho tempo, minha senhora. Vou ao encontro do meu Luciano, que me disse que havia de voltar. Como não tenho mais casa, preciso de estar no caminho. Não vá ele passar enquanto aqui estou..." E se precipitava para fora exalando o seu grito: "Luciano! Meu filho Luciano!..."

E Maria sem Tempo não era uma lição, nem um castigo, nem um exemplo. Se alguma coisa ela provava, era que há sofrimentos que nada provam e que nada justifica, que são, pela razão obscura daquilo que tem de ser. A sua miséria nem mesmo era trágica, porque não exclamava, não lutava, não indagava. O céu rigoroso era-lhe como um senhor cruel, que a pobre escrava não entendia e sob cujos golpes se encolhia apenas. Vivera para ser mãe: sofria disso, como disso outras jubilam. Quem a encontrava pelos desertos, longe de todo o amparo, às horas tristes do dia, pensava logo com piedade na solidão da sua alma. Mas se iam falarlhe, ela se não mostrava agradecida à sociedade que lhe queriam dar: recaía logo no seu silêncio absorto, tão ocupado pelo seu sentimento. O meu Luciano! dizer estas palavras era para ela o mesmo que sentir-se viva. Dizia-as alto, gritando, clamando, enchendo as grotas e os recantos das florestas com o seu alarido de araponga louca; diziaas baixinho, suspirando, fundindo o coração num ajoelhamento de prece, na prostração suprema do supremo amor. E às vezes, caminhando horas ao longo da praia, com os cabelos sacudidos pelo vento do largo, vacilando sobre a areia branca e infirme que entontece, ela cantava ao mar em fúria a canção monotonamente sublime da sua pena sem fim. Eles eram dois humildes e mansos e os soberbos e violentos lá de longe fizeram uma guerra para mal deles, uma guerra de tantos anos durando já que os cabelos da mulata tiveram tempo de embranquecer. E o seu Luciano sempre por lá, longe da sua velha, que só tinha a ele no mundo, e que não pudera opor-se a que partisse, porque com o poder de homens, que o vieram buscar naquela noite, tinha-se juntado todo o poder celeste, estrondando numa trovoada de arrasar o mundo. Quando chegaram os homens malditos, ela estava com o filho rezando o Magnificat, à claridade da vela benta em frente ao


34 registro da advogada contra o raio. A voz dele tinha uma toada grave e cheia de fervor, que lhe quebrava a ela a friura do medo no coração. Ai! não era dos raios e coriscos do céu que a pobre mulata devia recear! Num silêncio entre dois refegões de vento, bateram de repente à porta. Luciano foi abrir e logo um homem entrando, antes de dizer uma palavra, lhe foi deitando a mão. O rapaz deu um pulo, esquivando-se, mas o outro gritou e a casa se encheu de gente armada, soldados, que subjugaram o seu filho e o amarraram. Ela conhecia um dos homens, o que tinha entrado primeiro: de joelhos, como tinha ficado diante da santa, arrastou-se aos pés dele. "Seu Capitão, não me tire o meu filho, que não cometeu crime. Tenha piedade de uma pobre mãe..." O Capitão, meio embaraçado, sem convicção, resmungou umas frases, falou em defesa da pátria, em honra nacional ofendida, dever de todo brasileiro e não sei que mais. Mas a mulher não lhe deu ouvidos; viu que lhe tiravam o filho para a matança nos campos do Sul e desatinou de todo, a pedir, a suplicar, de rastos pelo chão, beijando os pés e abraçando pelos joelhos os seus carrascos, sem poder mais chegar ao filho das suas entranhas. O Capitão começou a se incomodar com a cena e deu ordem de partir, apesar da tempestade no seu auge. Então Maria se endireitou, arquejante sobre os joelhos, e viu, enquadrado pela porta aberta sobre a noite negra cortada de relâmpagos, o seu belo rapaz, que, sem chapéu, de roupas rotas mostrando o peito nu, levantava para ela as mãos algemadas, num gesto de adeus, e lhe dizia com voz trêmula e sentida: "Não se desconsole, Mãe, que ainda hei de voltar..." Nesse instante um fuzil cegou-a e o estampido imediato de um trovão derrubou-a por terra. Quando tornou a si estava sozinha no meio da noite escura. Parece que esta lhe entrou deveras pela mente, e lhe apagou as últimas claridades que lá luziam. Ela se desinteressou de tudo o que ocupa as vidas mais humildes, desprendeu-se por uma inatenção absoluta dos fatos que podem servir de marca aos dias, perdeu a noção do tempo, perdeu as suas afeições menores, enclausurou-se, absorveu-se no seu único sentimento transformado em culto, endoideceu. Como sempre fora uma pobre inteligência, a sua loucura não se caracterizou senão por uma teimosia especial, passiva, mas inflexível, uma recusa absoluta a ceder aos argumentos dos que queriam convencê-la de que o filho não andava por aquelas bandas e que não era gritando pelos caminhos que

ela havia de o recuperar. Ele lhe dissera que havia de voltar... Essa promessa lhe não deixava lugar no espírito nem para a idéia da morte. Quando lhe disseram que Luciano morrera num combate, que um voluntário, que voltava ferido, o tinha visto cair ao seu lado no campo e ao seu lado morrer no hospital de sangue, ela sacudiu a cabeça, incrédula. A força da idéia fixa venceu-lhe a timidez natural e lhe tirou todos os escrúpulos e receios que a pudessem deter no cumprimento do seu fadário. Na abstração poética é assim um caráter heróico. Os sinais físicos de loucura estavam nos seus olhos perdidos como os de um cão de caça, desatentos ou muito atentos, mas sem simpatia, e nos cabelos hirtos, eriçados, como num perene arrepio de pavor. O resto, mãos e pés de nômade selvagem, miséria profunda do corpo desprezado, fizera-o o ascetismo inconsciente da sua existência errante. A voz cantante, plangente antes, arrastava-se apoiando demais em certas sílabas, como quem chama. E falando baixo tinha umas inflexões escuras, vindas mais de dentro, o tom reflexivo de quem pensa em voz alta. Sonhava muito, quando dormia, e prolongava o seu sonho, sempre o mesmo, pela vigília. Era com o dia da volta dele que sonhava, com a hora em que, avistando-o, lhe dissesse: "Bendito seja Deus, meu filho, que te torno a ver!" Ele abaixaria os olhos diante do seu olhar carinhoso, com os seus modos tão bonitos de bom filho e depois lhe contaria o que tinha visto pelas terras longes, a história da sua ausência, as grandezas do mundo, as lindezas das outras gentes, tudo o que ela nem podia imaginar que fosse, tudo evocaria o som da sua voz, cuja lembrança bastava para lhe encher a ela os olhos de lágrimas. E voltariam a levantar a casa arruinada, o ninho velho donde a má sorte os enxotara, a refazer a vida antiga, humilde e pobre, que ela não trocaria pela de uma rainha, com Luciano... Sonhava, e procurava o seu sonho, correndo as estradas. Mas não se afastava dos sítios familiares, algumas léguas de circuito, três municípios, a pátria. Mais longe já parece que a língua mudava ou pelo menos mudavam os costumes. Eram mais duros para a pobre mãe, como se ela pudesse fazer mal, ou não entendiam-na e desconfiavam. Um dia chegou ao pé de uma cidade muito bonita: as casas tinham vidros que faiscavam ao sol; nas ruas passava muita gente, toda calçada de botinas, os homens de gravata ao pescoço, as mulheres de


35 chapéus com flores, todos muito soberbos; carros e cavaleiros passavam a toda a pressa, fazendo muito barulho nas pedras da calçada. Apareceram uns soldados e a pobre Maria fugiu espavorida. Era ali sem dúvida que moravam os que lhe tinham arrancado o seu Luciano. Disseram-lhe mais tarde que ela quase tinha estado na Praia Grande, que era para onde iam os designados para o recrutamento militar, mas que não era ali que eles batalhavam. O invencível terror do desconhecido a impediu de ir procurar o filho aos campos do Sul. O Sul sabia ela onde era. De lá vinham as piores borrascas. E os tiros de canhão, que diziam de gala na cidade, para ela eram batalhas mais perto, a guerra que se aproximava. Se com a guerra lhe aparecesse um dia de repente Luciano! Quando o ar estava pesado, o tempo de oraça, ela escutava estremecendo o troar surdo dos canhões que salvavam no Rio, avaliando a aproximação da guerra pela sonoridade mais clara dos tiros, que lufadas de aragem quente e a banzeira traziam. Um dia de verão, depois do meio-dia, ela vinha subindo da restinga do mar para a terra firme. Não passava ninguém pelas estradas. O sol de fogo retorcia a folha das árvores e fazia ferver o miolo da doida vagabunda. No grande silêncio da calma acabrunhante só se ouvia o zumbido do enxame de mutucas importunas, que acompanham a gente pelos caminhos à beira dos charcos, e o canto de galos longe. O chão escaldava; a doida movia rápida os magros pés descalços e caminhava de braços levantados, sustentando o chale acima da cabeça. Mas de instante a instante parava, com um gesto de impaciência, e se abaixava para atirar uma pedrada ou um punhado de areia aos camaleões cinzentos, que vinham pôr-se à beira do caminho, debaixo dos gravatás de folhas de serra e flor vermelha, e lhe faziam sinaizinhos brejeiros com a cabeça, quando ela passava. Sobre a ponte do Paracatu parou para ver uma cobra verde, que se lavava no magro fio d’água que ainda corria. Depois entrou na sombra do caminho estreito, com árvores dos dois lados, um desfiladeiro entre a lagoa e a barranca de um morro a pique, e se deteve a colher os cachinhos de jatitás verdes para refrescar a boca sequiosa. Passou um cavaleiro pela estrada e no ouvido ficou-lhe a cadência do meio galope, acompanhamento da toada favorita de Luciano, quando falquejava no mato:

Os olhos de Joanita São pretos como carvão... Fora ela que lha ensinara, em pequenino. Vinha de tão longe a cantiga do Mineiro da serra! Vinha de antes das tristezas dela... Cerrou-se-lhe a garganta e retomou a estrada. Já ia pondo a mão à cancela do campo do capitão Rosa, quando um tiro de canhão atroou os ares; depois outro e outro e em seguida um estrondo prolongado, como o de uma casa desabando. Maria sem Tempo pensou na guerra. Chegara enfim! A artilharia destruía as grossas muralhas da casa da fazenda. Só lhe admirava aquele silêncio depois da catástrofe. Deu a volta para ir espreitar pela outra cancela, e não entendeu mais nada, quando viu a casa em pé, o gado no campo e na lombada do morro do Cantagalo e o eito de escravos no trabalho, manejado as enxadas, em que o sol faiscava. Ali estava tudo em paz; no céu nem uma nuvem quebrava a dureza do azul implacável: donde vinha então aquele troar de canhões? A doida aproximou-se da fazenda, mas saíram-lhe cães bravos ao encontro e ela regressou do meio da ladeira. Deu então volta ao morro pelo lado do brejo, para entrar pelo engenho. Mas ao passar pelo campinho de dentro, onde se soltavam os animais de sela e as lavadeiras estendiam a roupa a corar, pareceu-lhe que ouvia deveras a cantiga do Mineiro da serra, a cantiga da saudade, que lhe entrava pelos ouvidos, em vez de ressoar-lhe apenas da memória esvaída. Transpôs a cerca de bambus em moitas sussurrantes e encontrou um cavouqueiro, dos que ali andavam a arrebentar pedra para construção, que descia da pedreira e vinha jantar. Maria perguntou-lhe ansiosamente: "O meu filho? é o meu Luciano quem está cantando?" O homem respondeu: "É o Luciano, sim; mas não vá para lá agora, que ele vai pegar fogo à mina." A doida não lhe deu mais atenção e embarafustou pelos cafezais acima. Chegando à entrada da pedreira, viu um rapaz meio pendurado de uma corda de nós, que acabava de arranjar os estopins e punha fogo à mina. Ela gritou: "Meu filho? És tu, meu Luciano?" O Chico Macaé, que já ia marinhando pela corda acima, voltou-se espavorido: "Meu Deus! que faz aí, Sinhá Maria? Fuja, que aí vai pedra! Corra, suma-se depressa, mulher!" E como ela estacasse atônita, ele lançou mão de uma pedra para afugentá-la. A mãe


36 louca viu o gesto e, pondo as mãos na cabeça, despenhou-se pelo cafezal da grota. Alguns segundos mais e a mina rebentava e Maria sentia cair-lhe em torno uma chuva de pedras miúdas, enquanto ao longo da pedreira as grandes lascas desabavam fragorosamente. Maria sem Tempo caiu extenuada sob uma grande mangueira no meio do campo. Na perturbação da emoção profunda todas as idéias se lhe confundiram e o desvario completo entrou-lhe na mente. Era aquilo a guerra e era o seu filho que a fazia contra ela. O homem dissera que era ele e a cantiga a não enganara. Para se encontrarem daquele modo vivera ela tão longos anos, penando pelos caminhos! À idéia de que pudera ter morrido aos golpes do filho estremecido, um calafrio sacudiu-a toda convulsivamente e por fim as pernas se lhe inteiriçaram. Depois, a necessidade de abandonar toda a esperança quebrou-lhe as derradeiras forças. Uma toalha de gelo espremeu-lhe o coração num grito de agonia infinita e Maria sem Tempo morreu. Algumas horas depois formava-se uma trovoada e um raio caía sobre a árvore que abrigava o cadáver. A tempestade passou e os escravos que, voltando da roça, foram ver o tronco lascado descobriram a morta. Os respingos da chuva lhe tinham coberto o rosto de terra e os olhos esgazeados já pareciam olhar do fundo da sepultura. Um dos escravos se abaixou para lhos fechar, dizendo: "Coitada de Sinhá Maria! Vá que ela agora descanse de procurar o filho!..." E outro, velho, resmungou, sem saber que tão bem dizia: "Esta morreu de ser mãe..." (Histórias curtas, 1901.)

Domício da Gama (1862 – 1925) Jornalista, diplomata, contista e cronista, nasceu em Maricá, RJ, em 23 de outubro de 1862 e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 8 de novembro de 1925. É um dos dez acadêmicos eleitos na sessão de 28 de janeiro de 1897, para completar o quadro de fundadores da Academia Brasileira de Letras. Escolheu Raul Pompéia como patrono, ocupando a Cadeira n. 33. Domício Afonso Forneiro nasceu em Ponta Negra, Maricá, aos 23 de outubro de 1863, sendo filho de Domingos Afonso Forneiro, pequeno comerciante, e

de Mariana Rosa Loreto. De origem humilde, desde a infância mostrava uma inteligência viva e brilhante. O sobrenome Gama, que sempre trouxe consigo, herdou-o de seu padrinho, o Pe. Sebastião de Azevedo Araújo e Gama, vigário de Maricá durante 41 anos, no período de 1851 a 1892. Seus primeiros estudos se passaram no Colégio Henrique, no Rio de Janeiro. Matriculou-se posteriormente na Escola Politécnica, mais precisamente em 1878, mas desistiu logo a seguir, ao perceber que sua vocação não era lidar com ciências exatas. Dedicou-se com sucesso ao estudo de Literatura e Geografia, que realmente o apaixonavam. Não contando com a ajuda de pessoas importantes, foi vencendo sozinho, em decorrência de seus esforços e de sua inteligência singular. Mesmo sem recursos, fez-se repórter da "Gazeta de Notícias", exercendo o cargo com eficiência, tornando-se amigo e auxiliar do famoso jornalista Ferreira de Araújo. Em 1888 encontramo-lo na Europa, correspondente internacional da Gazeta de Notícias. Durante este tempo aprofundou mais os seus estudos de Literatura e Geografia. Membro integrante do Sindicato da Imprensa Estrangeira, atuou com brilho durante a célebre Exposição de Paris, ano 1889. Motivado pelo Barão do Rio Branco, de quem era amigo particular, trabalhou no Comissariado da Emigração da Europa. Lidou na Política Exterior Brasileira, consagrando-se ao lado do Barão do Rio Branco. Diplomata arguto e competente, era sempre lembrado nos casos mais exigentes da Diplomacia Brasileira. É assim que o vemos auxiliando o Barão do Rio Branco nas questões do Amapá, Missões e Acre. Pertencem-lhe, na história da Diplomacia do País, as boas relações com o Peru, em 1906, e com a Argentina, pouco depois. Com larga visão política e grande capacidade, houve-se bem ao substituir Joaquim Nabuco, em Washington. Foi secretário de Legação na Santa Sé, em 1900 e ministro em Lima, em 1906, onde desenvolveu grande e notável a atividade, preparatória da política de Rio Branco, coroada pelo Tratado de Petrópolis.


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Embaixador em missão especial, em 1910, representou o Brasil no centenário da independência da Argentina e nas festas centenárias do Chile. Embaixador do Brasil em Washington, de 1911 a 1918, foi o digno sucessor de Joaquim Nabuco, por escolha do próprio barão do Rio Branco. Ao celebrar-se a Paz européia de Versalhes, Domício, como ministro das Relações Exteriores, pretendeu representar o Brasil naquela conferência, propósito que suscitou divergências na imprensa brasileira. Convidado para a mesma embaixada, Rui Barbosa recusou, e o chefe da representação brasileira foi, afinal, Epitácio Pessoa, eleito pouco depois, em seguida à morte de Rodrigues Alves, presidente da República. Domício foi substituído na Chancelaria por Azevedo Marques, seguindo como embaixador em Londres, em 1920-21. Foi posto em disponibilidade durante a Presidência Bernardes. Sua atuação como Embaixador Brasileiro em Londres valeu-lhe as seguintes observações, feitas por Pandiá Calógeras, em sua obra "Estudos Históricos e Políticos": "só quem conhece os meios

oficiais londrinos pode apreciar o prestígio que cercava esse diplomata calmo, sisudo, inimigo da ostentação e atento a quanto interessasse ao Brasil". E disse ainda mais: "a sua perda é um empobrecimento mental e moral para o País". Em 1919 foi Presidente da Academia Brasileira de Letras, em substituição a Rui Barbosa. Domício da Gama era colaborador da Gazeta de Notícias ao tempo de Ferreira de Araújo. Escreveu "Contos a Meia Tinta" (1891 ) e "Histórias Curtas" ( 1901 ). Foi ainda Diretor de Publicação do Atlas de Geografia Física e Política e do Atlas de História Antiga e Moderna. O seu estilo é primoroso, leve e sutil, prenhe de originalidade, e revela o espírito profundamente observador do literato. Como tantos outros vultos ilustres, faleceu esquecido depois de tão numerosos serviços, aos 8 de novembro de 1925, na cidade do Rio de Janeiro Fontes: Academia Brasileira de Letras Texto do livro "Maricá meu Amor", de Paulo Batista Machado, disponível em http://www.marica.com.br/2003b/2910domicio.htm

Nilto Maciel Poesias CONHECIMENTO Poucos conseguem entender o verbo, por mais comum que seja. Muito menos, o silêncio. ARCO ÍRIS As árvores tocavam alaúde, requebravam-se bailarinamente ao escapar dos ventos e das nuvens.

As torres das igrejas e seus pássaros - geometrias ásperas, cadentes desenho branco no reverso azul. Azafamado, o homem nem sequer via o menino ver sua partida, a porta aberta, a rua, seu chapéu. Quando chovia e o sol brilhava ainda, via o menino o espectro das cores nos olhos da menina que sorria. E longe deles, onde os anjos moram, o arco-celeste a cauda aberta em leque, em cores se curvava sobre o mundo.


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Os alaúdes não se tocam mais; há forcas pelos campos e cidades; morcegos voam pelas sacras naves. O homem sumiu com seu chapéu de feltro na curva da avenida, e, mais sisudo, nem disse ao filho expectante adeus. Do paraíso os anjos foram expulsos. Desvaneceu-se o arco-íris, pouco a pouco. Menina foi, menino foi - partiram. SONETO CREPUSCULAR Para Francisco Carvalho Nos campos de meu pai antigamente as chuvas inundavam meus pensares e do pomar do céu pingavam frutos. Ventos ninavam aves repousadas nas árvores vigias de seu sono, sentinelas da luz crepuscular. As ovelhas baliam suas crias, os vaga-lumes alumbravam tudo e a solidão das vacas nos currais. Duendes se assustavam co’os trovões. Na escuridão dos quartos o perfume do amor gemente à sombra dos lençóis. Invernos que de mim se evaporaram nos campos de meu pai antigamente. VISIONÁRIO Da varanda do apartamento olho para a cidade. Torre de marfim, torre de babel. Árvores agitadas, carros correndo na avenida, pessoas andando à toa, um cão vadio. Cheiros diversos, chiados, barulhos. Onde estará o centro do mundo? Onde estará acontecendo a notícia de amanhã? Dentro daquele ônibus

viajará a moça iludida e que poderia estar comigo. Viajará o rapaz triste, embriagado e que poderia me contar sua vida - arcabouço de um conto. O motorista irá atropelar uma criança sem futuro. No automóvel de luxo vai a mulher que brigou com o marido e anda atrás de vingança. Na parada de ônibus talvez esteja o assassino de logo mais. Na tela do cinema a musa de todos nós, estrela que se apagará. Numa cadeira um homossexual olhará para as pernas do rapaz que come pipoca. Noutra cadeira um senhor alisará o próprio bigode pensando no passado. No banco da praça o mendigo comerá pão olhando para as nádegas das mocinhas que passam. No palácio o presidente alinhará o decreto que me dará dor de cabeça. O deputado beberá uísque no bar e falará de si mesmo. Sentado num sofá o homem lerá o romance da mulher deitada eternamente em berço esplêndido. O poeta escreverá uns versos que lerão daqui a dez anos, versos sem rima ou sem ímã, sem métrica e sem ritmo. No meio do mato a onça farejará o veado; o macaco morderá o rabo do tatu; a formiga caminhará sem rumo; e tudo estará escuro. No rio o peixe, a água, o frio, o pescador. No mar o tubarão, a baleia, o turbilhão.


39 No céu a estrela virando pó, o foguete se espatifando, o infinito e nada. Aqui, sozinho, longe e perto de todos, de tudo, quero estar no centro do mundo, na crista da onde, quero ser testemunha do crime, da crise, do apocalipse. Quero ver de perto o amor, o ódio, a solidão, a multidão. Quero estar no palco, no show, no centro da cidade, do campo, do rio, do mar, do céu, do universo. Quero a onipresença, a onisciência, toda a ciência. O JANGADEIRO Para Edinardo, às vésperas do primeiro ano de sua partida. Arrodeio a superesfera na minha jangada amiga, rindo de quem me espera, chorando à moda antiga. De quantos paus ela é feita só dizem os jangadeiros velhos e companheiros, fugidos da rota estreita. Não rio por palhaçada nem choro angustiado; já me bastava a maçada de ansiar o desejado. Levo comigo a coroa dos filhos da Eternidade, relendo Fernando Pessoa frente a toda realidade. Passeio as nebulosas, os astros, o espaço sem fim, saudadoso das carinhosas meninas do Otávio Bonfim. De dois velhos meus criadores, meu primeiro e doce abrigo,

de duas pequenas flores, em quem pensando prossigo. De uma soidade que amei e que na Bahia deixei, de sete meus germanos deixados a fazer planos. Dos pareceiros risonhos do pobre Amadeu Furtado, esses bebedores bisonhos de fel, cachaça e melado. Mergulho a atmosfera montado em cavalo-de-pau, zombando da besta-fera, lembrando o primeiro mau. Conduzo comigo um poema jamais publicado em papel para reler na suprema corte do mais alto céu. Vasculho os tempos perdidos no carro dos deuses gregos, tristonho de ver iludidos os que ficaram aos pregos. De recordar os pileques que com meu mano bebi, choroso de ver os moleques famintos do que comi. Cavalgo o cavalo das eras na mais incrível carreira, carregando uma flor de parreira para o homem e para as feras. Na minha ida desejei deixar o que sempre sonhei: projetos de muito amar para a terra e para o mar. O mundo que nos aguarda não tem regulamentos nem leis, é o país do povo sem guarda, não tem um, nem dois, nem três, tem milhões de seres iguais, é a utopia dos pensadores, o sonho dos ancestrais, a terra só dos amores. Comigo navegam poetas,


40 revolucionários e santos, partimos no rumo das metas, dos fins, começos e cantos

Fonte: Visionário. Poemas inéditos.

Ademar Macedo Mensagens Poéticas 88 Uma Trova Nacional Nosso amor que o destino vai pintando com ternura, forma um quadro tão divino que nem precisa moldura... (IZO GOLDMAN/SP) Uma Trova Potiguar Com as rimas de rebolo fiz um verso sem projeto tijolo sobre tijolo, um verso quase concreto. (MARIVALDO ERNESTO/PB) Uma Trova Premiada

nem todo lorde é decente, nem tudo que tomba cai. (MANOEL DE MACEDO/RN) Uma Trova de Ademar Toda menina é bonita, toda morena é faceira, toda cabra tem cabrita, toda semana tem feira. (ADEMAR MACEDO/RN) ...E Suas Trovas Ficaram A saudade é como o espinho que entra no peito da gente: no início – dói um pouquinho, depois... dói profundamente! (EDMILSON F. MACEDO/MG)

2010 > Curitiba/PR Tema > MADRUGADA > Menção Honrosa

Estrofe do Dia (Em resposta a de Ontem, de J.Ouverney)

Madrugada, por que insistes - na solidão que apavora – em arrastar horas tristes... se eu anseio pela aurora? (THEREZA COSTA VAL/MG)

Para ser bom trovador, inteligência não basta, que a cabeça se desgasta e o Q.I. perde o valor! É preciso estar marcado com aquele dom sagrado que em seu coração virá! Sim, o estudo e a inteligência, dão-lhe conceitos, fluência, mas alma à trova... quem dá?! (CAROLINA RAMOS/SP)

Simplesmente Poesia MOTE : Nem tudo que tomba cai. GLOSA : Nem todo homem tem brio, nem toda moça se casa, nem todo fogão tem brasa nem toda lã dá pavio. Nem todo inverno faz frio, nem todo filho tem pai, nem tudo o que entra sai, nem toda fera é valente;

Soneto do Dia – Ialmar Pio Schneider/RS – SONETO DO ABANDONADO. Se teu amor chegasse de mansinho e aos poucos me envolvesse corpo e alma;


41 se ele viesse me trazer carinho quando me desespero e perco a calma...

tanto sincero quanto predileto, viveríamos horas mais amenas...

Se fosses o fanal do meu caminho e me surgisses numa noite calma, como alguém que procura um quente ninho para amar e aquecer o corpo e a alma...

Mas enquanto não vens não tenho nada; minha vida é uma casa abandonada onde alguém chora a sós amargas penas. Fonte: Ademar Macedo

Ambos unidos pelo mesmo afeto,

Carolina Ramos Como de Costume... A majestade daquela lua enorme, exageradamente iluminada, não combinava, em absoluto, com o nebuloso astral daquele homem abatido à procura de um jeito honroso para retorno ao lar.

Largou-se em seguida na cama, soluçando desconsolada. Algum tempo depois, socava o travesseiro, como quem socasse a cara do marido desaforado...

O dia fora terrível! O almoço, desastroso! Homem e mulher, se por uma balela qualquer se desentendem, a cada palavra cavam cada vez mais fundo o abismo que os separa, envolvidos pela avalanche verborrágica, que enrola razões, manipula argumentos, inflama egos e espicaça vaidades, na tentativa insana, de provar quem de fato é o dono da verdade.

De volta à pia, filosofava: - Por quê são os homens tão incompreensíveis?! Tão intransigentes, a ponto de comprometerem um diálogo sadio... um acerto de opiniões, uma análise de pontos de vista capazes de levar ao consenso ou, quem sabe, à discordância, já que nem sempre duas cabeças pensam de forma igual. Sempre cheios de razão ...incapazes de admitir um erro... dar a mão à palmatória... E, que fácil seria dizer: - “Desta vez, errei, querida” . Até que aquele querida poderia ser dispensado. Bastaria dizer: - Errei, pronto! Perdoa, sim? – Claro que, depois disso, tudo terminaria bem. Qualquer mulher, mesmo entre raios e trovoadas, agiria assim, com aceitação... com naturalidade. Mas, qual deles à beira de uma tempestade, pensaria em valer-se do guarda-chuva do perdão, mesmo sabendo ser, essa. a única solução?

Em poucos minutos, aquele casal, até ali tão unido, escorregara do éden conjugal para o inferno dantesco das acusações mútuas. Lágrimas enxugadas na barra do avental e a batida violenta da porta, foram mais que convincentes para provar que o primeiro round estava findo, mas a luta , não. Mirna empilhou os pratos sobre a mesa, transportando os copos para a pia, sem conseguir evitar que um deles se espatifasse a seus pés. Catou os cacos resignada. Era o primeiro copo quebrado, daquele bonito jogo azul, bico de jaca, presente de casamento da tia Júlia. Gostava dos copos. E mais ainda, da tia. Contudo, a dor que lhe doía no peito era tão forte que nem sentiu a perda. Com raiva, atirou os cacos na lata de lixo.

A esponja da filosofia, ajudou... e a louça foi lavada com requinte. A cozinha, arrumada, ganhou ares de cozinha de revista. Na fruteira, o brilho das frutas foi despertado pela flanela, em lustro vigoroso. As maçãs ficaram mais rubras, apetitosas. A raiva da moça exagerou no esfregão, a ponto de machucar uma delas. Precisava ficar mais calma. Nenhum homem merecia uma lágrima de mulher – isso lhe dissera


42 tantas vezes a mãe – pobre mãezinha, quantas vezes a vira chorar em silêncio!

porém, não passou despercebido o torcer da chave na fechadura.

O chuveiro lavou-lhe corpo e alma. Maquiou-se com cuidado e perfumou-se. Nenhum gladiador adentra a arena desarmado. Faltava pouco para o retorno do marido. Retornaria? - Ah... haveria de ouvir poucas e boas!

Ele! Sequer virou a cabeça ou desgrudou os olhos do vídeo. O tricô...

Dedos nervosos pegaram o tricô e ligaram o televisor. Tempo de novela. Tanto drama em casa e aquela mania tola de imiscuir-se nas tramas televisivas, como se a vida não passasse de histórias somadas entre tapas e beijos... briguinhas e abraços , intrigas e enrolações, quase sempre encaminhadas para um final feliz, a premiar bons e castigar maus. Como se tudo pudesse ser resolvido por toques no teclado de um computador, à disposição dos dedos do autor. Como se aqueles dedos fossem pequenos deuses a tal ponto poderosos que capazes de criar vidas, tecer tramas e alterar destinos, a bel prazer. Envolta em mágoas, Mirna deixou escapar a malha do tricô e perdeu o fio da novela. Ao ouvido atento,

Esperava pela primeira palavra, que não veio. A tensão cresceu quando sentiu a aproximação do marido. Teve vontade de encará-lo. Conteve-se. Ele sentou-se no sofá ao seu lado. Tenso e mudo. O corpo da moça retesou-se, pronto para recomeçar a batalha verbal interrompida. Relaxou, quando sentiu a cabeça do marido aninharse no seu colo, como de costume. E, como de costume, os dedos dela deslizaram mansamente pelos cabelos macios, como que alisando, com a ternura de sempre, o pelo macio de um gato fujão. Naquela noite, o amor falou tão alto... que nem foi necessária palavra alguma! Fonte: A Autora

Cláudio de Cápua Trovas

É neste "Canto que eu Canto" belezas que a vida tem que ao meu mundo dão encanto e tanto me fazem bem! Ante ao talento me ajoelho... E o teu talento invulgar, tanto me serve de espelho como me serve de altar. (uma homenagem a Carolina Ramos) Esta foto é mais um fato, que nos traz para o presente, através deste retrato, lembranças de antigamente. Palhaços de profissão?

Ah, Como é bom, fazem bem. O triste é ter coração e ser palhaço de alguém! Unindo a seresta ao verso quero compor na amplidão. Sou menestrel do universo, em tardes de solidão. Olha! A noite é uma criança, diz o refrão popular que sacode e balança presa às tranças do luar. Só por descuido é que a Helena acabou por se casar... Pois, pensou que Cibalena


43 fosse a pílula... Que azar!

Certo bispo ouve uma "história" de um padre chamado Hilário e grava, assim, na memória um bom "Conto do Vigário"

Avisto do alto da serra a pujança do sertão e sinto orgulho da terra que mora em meu coração!

Servidor da tributária, bem "Severo", sem igual, ergue a saia à secretária, por ser, de "rendas", fiscal.

Quando o rei sol estorrica, tortura, com seu clarão, mais forte é aquele que fica e dá valor ao seu chão!

O delegado Pereira... Êta Pereira bacana, - É de pouca brincadeira, não dá pêra, só da "cana"!…

De "mau jeito" o Zé Baleia, pescador de sorte estranha, noivou com uma sereia, casou com uma piranha..

Fonte http://www.de-capua.com/publicacoes.html

Silviah Carvalho Um Coração que Ama INSENSATO CORAÇÃO

CANÇÃO DO AMOR

Meu pobre coração perdeu-se em meio as suas palavras, dúvidas e incertezas ferem minha consciência, como pode este amor surgir do vazio de suas respostas, do silêncio que domestica minha impaciência, eu que sou um ser arredio e limitado levo-te frases, mas, deixo cair palavras que, alimentam outros corações, mesmo sem intenção e percebo a semelhança de estupidez com inocência. Às vezes, nos parecemos egoístas agindo de acordo com nossos interesses, como a águia que, quando avista uma presa, se lança sem se dar conta das intempéries, dos obstáculos... Insensato coração, pois, não deseja mais ninguém além de você, nem se vê em outros braços senão nos teus, os olhos do meu sentimento te vê só, sem ninguém a cuidar-te, desprotegido cercado pelas águas... Saiba, o anseio da minha alma é parecido com a tristeza que, me faz preferir o silêncio a uma triste surpresa. Consciente desprezo as agruras que este amor possa deixar aqui dentro e, assumo este sentimento mesmo sem esperança de poder vivê-lo.

Quando no frio da madrugada meu corpo tremer na solidão Unirei meus sentidos e em uma só voz cantarei – Eu te amo... E um som borbulhante, um brotar de águas e uma corrente encherá seu meigo coração... Quando pela manhã acordares e aquecer-se do frio do fim da madrugada, no vento banhado pelos primeiros raios de sol Levarei aos seus ouvidos o meu canto de fidelidade - Eu te espero Sentirás aquecido na sobriedade de minha sinceridade... Quando a integridade de meu amor tocar o curso das águas no fundo do seu ser, e alcançarem as torrentes que há muito estavam ocultas, a música do meu desejo acendera a chama que se consumirá em você...


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Sim, na noite, está se preparando nosso cântico, e no monte afinamos nossa voz, sem rimas, as nuvens darão sonoridades aos acordes que dissipam toda dor. A chuva suaviza a melodia, eternizando este louvor na transição brusca do meu medo à minha esperança Eu te ofereço este sincero cântico de amor... ME PERDOA No vale, lugar onde o menor sobrepõe o maior, onde as lagrimas substituem as palavras... Onde a obsessão perde a razão, entendo que, em nenhum dos seus estágios o amor verdadeiro é vulgar. Esvazio-me no meu silêncio, revelo o desalento de te amar... Mergulho no fundo do meu ser, vitimada pelo sentir em demasia, quanto mais me humilho em oração, mais sinto no meu peito esta agonia. Somos duas metades separadas pela vida, eu sei tão pouco de você e nem sabes que existo, nada sabes de mim... Se um dia a vida nos unir, então meu ser se satisfará de tudo que falta para mim. Aqui no vazio do meu quarto, na solidão do meu viver, no momento em que falando com Deus Penso em você! – Rogo, com o rosto banhado em pranto, me perdoa por em tão pouco tempo e, sem nenhuma explicação, te querer deste jeito - te amar tanto... ATÉ QUE AS ÁGUAS NOS UNAM Dir-se-ia uma prova de amor um tanto estranha... Mas,

quem deixaria seus sonhos para viver um amor desconhecido Alguém de quem pouco se ouviu falar, nem tenha visto seu rosto Quem atravessaria um oceano na possibilidade de um desgosto Eu, pois ainda ontem eu me encontrava em terra firme, hoje perdi o chão, eu cantava no esplendor da manhã, hoje estou abatida e, canto na prisão. Ao meio dia eu me aquecia com o calor da solidão Agora sinto medo deste sentir, do silêncio a afligir meu coração Bem sei que a sombra faz o trabalho que a claridade não faz Mas sei que o amor pede sempre mais, pois na sombra ou na luz O amor se refaz e, vive de refazer-se, o amor é como a canção Faz dormir ou acordar, sugere palavras, proporciona ocasião... A minha alma engrandece este amor, pois nenhum outro a alcançou Um querer se apega a suas palavras que, o meu ser as adotou Ah! Alma minha, um amor além do mar te arrebatou? Saibas, nem sempre estamos preparados para o deserto, desta vez eu não estou. Diga-me amor distante, esperava um amor assim tão presente? Procura-me, estou tão só! Se for sua vontade logo me achará Encontremos-nos no meio deste caminho, encurtemos este mar Anjo tecedor de sentimentos rasgue o oceano e vem me buscar Fontes: http://umcoracaoqueama.blogspot.com/


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Henrique Oliveira O Bêbado e o Poeta - Faz tempo que não venho num espetáculo - Tem leão? - Acho que tem. - Quer quebra-queixo? - Quero. - Chocolate quente também? - Prefiro uma. - O circo é um lugar sagrado. Você não pode beber aqui. - Ué. Não é desrespeito beber da forma que eu bebo. Sabe disso. A noite começava a chegar quando a fila se formava sob a gigante lona amarela e azul. O chão de terra batida era coberto pelo pó de serra. Um friozinho agradável aumentava a venda do tiozinho da barraca de chocolate quente. Osvaldo, o poeta pacientemente aguardou sua vez e pediu ao tiozinho um chocolate e se ele tinha vodka. O bigodudo lhe serviu a bebida quente e balançou a cabeça para os lados respondendo a pergunta. Enquanto fazia o troco para dez, o tiozinho lembrou. - Não quer um conhaque? - Pode ser. - Com gelo? - Não precisa. Quero quatro doses. Antes de voltar pra fila Osvaldo passou na barraquinha de doces e comprou dois quebraqueixos. Num, deu uma pequena mordida. O outro deu para o moleque que pedia para engraxar sapatos. - Obrigado por guardar o lugar. A moça de vestido roxo sorriu. - Está forte o chocolate, bêbado? - Está bom. - Vamos sentar aqui. - Aqui é melhor. - É muito perto do palco. Assusto-me com as bombinhas dos palhaços. - Deixa de frescura. - Demora pra começar?

Osvaldo era homem de bom coração. Com canetas e teclados transformava palavras em obras admiráveis. Era um nobre escritor. Chorava fácil. Seus ápices da felicidade atingiam-se em momentos toscos, ingênuos e infantis. O circo era um deles. As luzes se apagaram, uma lágrima desceu para a bochecha do poeta. Gritou o homem de cartola e smoking pretos. - Gosto de malabares. - Eu também. - Esses são bons. - Vou pegar mais um conhaque. Não tinha fila na barraquinha do bigodudo. “O senhor me vê quatro doses de conhaque e um chocolate quente”, pediu o bêbado, que sentou no banquinho de madeira do meio. O tiozinho, sem fregueses naquela hora, puxou papo com o bêbado. “Frio, né? Não gosta de circo?” O bêbado já tem ela pronta. “Gosto sim, e muito. Estou aqui fora porque queria tomar mais um conhaquinho, mas já vou voltar. Quero ver os palhaços. Adoro os palhaços. Você gosta?” “Gosto também. Já fui palhaço. Era um dos bons. Ninguém ficava sem rir. Tenho saudade daquela época.” O causo foi longo. O bêbado ouviu o bigodudo atenciosamente. Despediu-se do tiozinho e voltou para o circo. O espetáculo chegara ao fim. Sua decepção foi visível. Encheu os olhos de água e partiu em direção a porta de saída. - Eu não vi nada. - Quem mandou ficar lá fora? - Não seja ruim comigo. - Não estou sendo. - Vamos passar no bar Osvaldo puxou a cadeira de uma mesa que estava próxima à parede e se sentou. Puxou uma caneta do bolso, um pedaços de guardanapos do portaguardanapo e começou a resenhar. O bêbado pediu uma vodka. - Vai tomar vodka?


46 - Não quero mais conhaque. - Você está triste por ter perdido os palhaços? - Um pouco. - Vamos voltar ao circo amanhã. - Ótimo.

Responde o dono do boteco: “Vou pendurar, mas preciso que você me pague na semana que chega. Combinado Osvaldo?” “Combinado”, responde o bêbado que foi para casa terminar o conto que havia começado.

O bêbado, completamente embriagado levantou-se. Foi ao balcão.

Só fico sóbrio para corrigir a gramática do que crio na embriaguez. Osvaldo, o poeta.

- Eu quero mais uma vodka. Marca pra mim. Estou indo embora.

Fonte: http://oliveirando.blogspot.com/2009/09/o-bebado-e-o-poeta.html

Lino Sapo Poesias JARDIM DOS SONHOS

POESIA DA CACHOEIRA

Abra seu coração e liberte a solidão Vá até a porta do egoísmo e o prenda com as algemas do altruísmo. Ache o lugar onde guardou seu ódio e o extraia até a última gota e as lance no fogo do perdão Atice com coerência, Para que a temperatura seja correspondente a da razão. Para apagar o fogo use a lógica, Depois junte as cinzas no caco da esperança E misture com honestidade Deixe descansar por algum tempo à sombra da ética. Quando estiverem homogêneas plante uma semente do bem Aguai todos os dias com muito amor, Quando a paz estiver desabrochando adube com dignidade Aguai e adube sempre e em pouco tempo colherás felicidade Tire uma semente e deixe secar aos raios da sabedoria Embrulhe na gratidão e amarre com solidariedade Presentei alguém e peça que continue fazendo Só assim existirá o jardim dos sonhos Que brotará unicamente da simplicidade Para que o jardim seja sempre vivo. Use como inseticida para o orgulho a humildade

Cachoeira do sapo desvirginada antes de nascer , Por tropeiros valentes em suas entranhas a percorrer. Nascida isolada depois de batizada em recantos tão errantes, Crescendo cheia de vida adotada por pais distante. Com remonto de segredos que embeleza o existir, Triunfante como um cometa no seu curso a seguir, Foste menina que a infância não celebrou, Devendo obediência a quem não se importou, Adolescente rebelde que já que andar sozinha, Nos caminhos da vida já sabe cobrar carinho. Sempre fostes mãe antes que soubesse caminhar, De seca a inverno sempre no mesmo lugar Um presente que Deus deu a quem não sabe cuidar, Guardas em teu seio segredos de lutas longas a conquistar. Tua alma espelha a grandeza daqueles que a povoou, E chora com saudade aqueles que te amou. Entre o chorão e o purão tuas lagrimas despejou, Por Inês que foi embora e Sofia que não chegou. Tão linda como era quando belas fica a encantar, Mas triste como Danaê sem a chuva a encontrar. O sol que brilha nascendo por trás das serras a coroa de magia, E a criança que chora procurando o peito da mãe


47 É tão viva quanto a lua que a vigia. Teus rochedos são tão fortes que parecem Sansão. Tens ventos suaves que alivia o fardo do pobre coração. Cachoeira das Damianas,das coroas de espinhos. Sois cigana que sangra cada ano um pouquinho. Teu poeta é tão simples que nem parece existir, Mas te louva com amor e te planta na memória Para no futuro te dividir. CACHOEIRA DO SAPO A minha amada terra (Cachoeira do Sapo) Onde as águas rolam fortes, onde as pedras são sem igual Onde o vento é maravilha, onde tudo é bem normal A natureza é uma beleza, E que por aqui ficou A fauna e a flora que o tempo conservou. Tudo é maravilhoso, por aqui se pode ver Já sabemos quem criou, e agradecemos ao senhor. Como prova de sua grandeza essa terra povoou Com criaturas exóticas e homem de valor Obrigado pelo presente que vós nos deixou O orgulho dessa gente, é que cachoeira do sapo se tornou. Que eu sou cachoessapense, eu sou. Com muito orgulho e muito amor. Cachoeira do sapo eu sei, Nesta terra me criei. Foi aqui que eu nasci, por aqui aprendi O que deve cultivar, o amor e a alegria Sempre em grande parceria, eternamente iremos levar. Nossa dor é quase nada e foi imediatamente superada, Transformada em piada para quem nos escutar. E a força dessa gente, se deve ao lugar Nossa historia é forte, não se pode duvidar Houve conflitos teve mortes, Mas deixou tudo pra lá Hoje o povo é feliz e pode se orgulhar, Pois nos restou, a paz para contemplar. Que eu sou cachoessapense, eu sou. Com muito orgulho e muito amor. Cachoeira do sapo eu sei, Nesta terra me criei. De seca a inverno, de janeiro a dezembro

Essa terra não deixou seus filhos morrerem em desalento Água pra matar a sede e pão pra saciar fome A vida por aqui é bela, e molda nosso homem De Pedro leite a Junior Bernardo, de Silvio a andrelino Vivemos de realizar sonhos, que nasceram quando menino De Neném loicera a Zé Quixaba, de Nicolau a expedito Nossa sociedade é organizada, esse é o lado mais bonito São José nosso padroeiro e também bom protetor Ajude aos filhos de cachoeira do sapo, a viver com muito amor. Que eu sou cachoessapense, eu sou. Com muito orgulho e muito amor. Cachoeira do sapo eu sei, Nesta terra me criei. MINHA TAPERA Quem dera fosse uma mansão Com quarto, cozinha, banheiro e salão. Não, não era. Era miúda com cacto crescendo em suas telhas, Como cresce verrugas em crianças que contam estrelas. Tortinha e pensa, Baixinha e magra, Suas varas apareciam amarradas com embira E coberta com folhas de marmeleiro. Parecia um menino buchudo e desnutrido Com os pés cheios de feridas. Assim, ficava Quando o barro começava a caí dos paus que a segurava. Barroquenta e fria, Com meus pés tocando o chão, A sentia e a via, Com os olhos remelentos rodeados de mosquitos. Suas janelas viam os lados E quando suas portas se fechavam, As tramelas eram transpassadas Para dar segurança; Segurança desnecessária. Em suas paredes estavam as digitais Dos dedos marcados no barro seco, Legado da luta que foi construí-la.


48 E as frestas de suas telhas, Quando não tinha uma lata de óleo aberta substituindo uma, Clareavam o chão batido do piso. As restas redondinhas ou ovais Seguiam seu caminho ao contrário do sol. Em suas rachaduras, Ficava o habitat dos insetos, Que furavam seus buraquinhos redondos. Maribondos também faziam suas casas Nas linhas de facheiro ou nos caibros de mufumbo. Minha tapera, Que não era só minha, Abrigava sapos, ratos, Cobras, lagartixas, víboras, maribondos e muriçocas. Minha tapera, Que na chuva quase se desfazia por completa e que na minha infância seu barro era comestível Tão fria e lamacenta, Fedorenta e fumacenta. Lembro ainda do teu fogão de lenha, Das tripas e preás espendurados num cordão, Da portinha toda emendada, Dos armadores da minha rede, Do pote no canto da sala, Do cupinzeiro na furquia. Ah! Que lembrança salgada, Lembranças das noites mal dormidas Em que as goteiras caiam dentro de minha rede Ou os grilos cantavam nos rachões do barro até de manhã. Velha minha, Velha tapera, Hoje já não estais aqui. Teu barro foi nas águas do riacho Que tanto nos acordou no meio da noite (com água) Querendo nos levar. Tua madeira foi queimada nos fogões da vizinhança E nas fogueiras de são João. Tuas poucas telhas Não serviram para nada, Nem mesmo para cobrir a casa do meu cachorro, Virou aterro para o baldame de tua substituta. Minha querida tapera, Da minha infância nostálgica, Ainda lembro de teus quatros repartimentos, Da meia parede,

Dos papelões tapando teus buracos, Das pontas de vara nos portais Arranhando-nos os braços ao passar. Quantos sonhos de te substituir Elaborados dentro de ti! Separamo-nos Como quem há tempo desejava. Mesmo ao longe, Via-te erguida. Tristinha, Como se sentisses a minha saída. Em pouco tempo, Viesses ao chão Se desmanchando por completa E não duraste muito até desapareceres, Ficando apenas marcas tuas Do lugar onde foste erguida. Não te guardei os restos mortais pequenina, Mas te gravei pra sempre em meu coração, Que parece te encontra em cada arranha céu que vejo, Hoje, ele parece ser do mesmo barro que você, Pois acolhe a todos Dentro de seus limites, que queira nele viver. (Homenagem a tapera em que vivi minha infância)

Lino Sapo (1981) Andrelino da Silva (Lino Sapo) nasceu no dia 06/01/1981, no distrito de Cachoeira do Sapo/RN. Filho do casal José Adelson da Silva e de dona Damiana Lúcia da Silva. Foi o segundo filho do casal num total de cinco. Após seu nascimento foram morar em outras casas do lugar somando num total de doze casas e um pé de árvore por um dia. Começou seus estudos no Projeto Casulo, e sua primeira serie fez na mesma escola que nasceu, agora reformada e em atividade. Aprende a ler influenciado pelos livros de cordéis que via seu pai ler. Em 1989, seu pai se separa de sua mãe deixando apenas com seus cinco filhos onde a mais velha tinha 10 anos e a mais nova estava na barriga com dois meses. Andrelino encontra na escola uma oportunidade de fugir de sua realidade, já que a fome e tantas outras necessidades o faziam sofrer diversas formas de preconceito tanto racial como econômico.


49 Faz seu ginásio em Cachoeira do Sapo, e conclui seu ensino médio em 1998, aos 17 anos. Considerado como vagabundo por gostar e andar com livros pra cima e para baixo, foi amante da literatura no qual se apaixona por personagens como dom Quixote e Policarpo Quaresma.

Também começa a fazer o curso de História na Universidade potiguar UNP.

Trabalhou como carregador de ração de porco durante nove anos, foi carvoeiro, batedor de tijolo e arrancador de toco. Mesmo não tendo apoio fundou o PLUJET, grupo de jovens que trabalhava com o desenvolvimento social e cultural de Cachoeira do Sapo, no qual ocupava a função de diretor de eventos, colocando sua pequena cidade na mídia ao realizar a festa de comemoração dos 70 anos de Cachoeira do Sapo no ano de 1999.

Também leva para o interior a idéia de que é possível chegar a universidade, e começa a dar aulas solidariamente para alunos tanto do interior como de outros.

No ano 2000 foi soldado do exército, onde começou a criar suas primeiras poesias. Ao terminar seu ano no exército retorna para Cachoeira do Sapo onde funda no ano 2001 o Arraiá do Sapo, o primeiro grupo de quadrilha matuta a disputar em festival e a ganhar destaque no meio cultural da região conquistando seus primeiros troféus. Criador de peças de teatro e também ator, investiu por conta própria na cultura de Cachoeira do Sapo pesquisando e escrevendo história local. No ano de 2003 foi trabalhar em Natal como servente de pedreiro, lugar onde se encanta com a Universidade Federal. No ano de 2005 presta seu primeiro vestibular. Passando em décimo lugar para o curso de Biblioteconomia, se tornando o primeiro cidadão Cachoeissapense a entrar na Universidade Federal, saindo do interior e estudando somente em escola pública sem nunca ter feito cursinho. No mesmo ano passa no concurso para agente de saúde da Prefeitura Municipal de Riachuelo.

Em 2006 torna-se palestrante do projeto conheça a UFRN através do residente, motivando os alunos do interior do estado através de sua história de vida.

No ano de 2007 se torna conselheiro da residência universitária CAMPUS II, durante um ano. Nesse mesmo ano escreve a fabula Inês. Em 2008 apresenta na câmara municipal proposta de um projeto de lei que para cada criança nascida no município, um livro seja comprado, dedicado à criança e inserido na biblioteca pública do município. Suas poesias são trabalhadas a nível acadêmico e além de despontar o patriotismo da terra que nasceu, apresenta as situações econômica das famílias humildes do interior do estado. Atualmente Andrelino ou Lino Sapo, nome que ganhou por ser dessa terra e ter herdado do sapo a característica de ser persistente. Bacharel em biblioteconomia, licenciado em Historia pela UNP, aluno de letras da UFRN, e mestrando de Ciências Sociais pela UFRN. Tem como ícone de suas poesias coisa do sertão de antes, e o conto Conhecendo os Nomes das cidades do Rio Grande do Norte (publicado neste blog), além de livros e outras tantas poesias. Fonte: http://linosapovidaeobra.blogspot.com/

Amosse Mucavele A poesia epigramática do Amin Nordine ou a Babalaze do Atirador das Verdades Um poema assim é árduo/ sem cola e na vertical/ pode levar uma eternidade. ‘’ ARMÊNIO VIERA’’ Ao Sangare Okapi e Lúcilio Manjate "Amosse Mucavele"

Amin Nordine nasceu em Maputo aos 17 de fevereiro de 1969 e perdeu a vida aos 5 de fevereiro


50 de 2011,e autor de apenas 3 livros, o que não tem importância porque a literatura não se assemelha a uma competição, onde quem publica muitas obras sai vencedor (assim sendo existem escritores que tem sido felizes nesta maratona aliando a quantidade versus qualidade como o seu cavalo de batalha e tem se notabilizado como verdadeiros campeões ex: Mia Couto, Antônio Antunes, Pepetela, Moacyr Scliar…),bastando lembrar-se do Luís B. Honwana, Noemia de Sousa, Gulamo Khan,e Lilia Momple para sustentar a tese de que qualidade nem sempre rima com a quantidade. Publicou - Vagabundo Desgraçado (1996), Duas Quadras para Rosa Xicuachula (1997), e Do lado da ala-B. Amin Nordine e um militante de uma escrita sólida em todos lados seja o da ala- A ou da ala- B, isenta de qualquer submissão política, caracterizada pelo inconformismo da realidade que o circunda e pela revolta social, esta poesia epigramática e uma revelação de um fatalismo que voa em voo rasante sobre as angustias de um passado melancólico, e um presente envenenado. E do futuro o que se espera ? o futuro não será isto!’’… superlotada receita galgando o vento/com as mãos no coração do destino.’’ O que é do lado da ala-B? o leitor descobrirá que esta no lado mas vil de um jovem país com os seus problemas, e é neste lado onde reside o poeta solitário nas suas abordagens anti-heróicas, mas das multidões na sua mordacidade social, um verdadeiro maquinista do comboio dos duros, um autêntico vomito da babalaze de um poeta bêbedo do seu dia-a-dia. Detentor de uma caligrafia rebelde, com versos quentes como o fogo e cortantes como a espada afiada, onde eclodem temáticas de afrontamento de um certo tempo histórico (ex: carta ao meu amigo Xanana, banqueiros de banquetes, bandeira galgada aos 25, (c)anibalizinhos…) Talvez o outro lado da ala destes poemas, não! Isto ultrapassa a dimensão poética, ou por outra destes melancolicos dissabores que despertam os filhos desta pátria que nos pariu deste manancial de barbaridades versus mentiras, que transformam o sonho de estar livre da opressão em um pesadelo ,não será esta a voz do povo?

Estes melancolias dissabores são a pólvora contida na’’ bala’’(ala-B) desta poesia que o autor preferiu chamar de’’ arma da vitória’’ que dispara esta bala certeira onde a cada estrofe vai abatendo o seu alvo. Dai nasceu este livro embrulhado por uma critica social. A título de exemplo o poema ‘’barbearia dos cabrões (‘’queixos barbudos engravatados/ barbearia dos cabrões/ que deixa todo chão careca/ e ao alto mastro hasteiam bandeira/ para desfraldarem o corpo nu do povo…’’) ‘’Apesar da irrequietude e da impenitência, algumas vezes virulentas que caracterizam esta poesia ou das entremeadas doses de apurada ironia ou de compaixão pelos desafortunados, o que sobressai nesta forma particular da escrita e um virtuosismo estimulador da sensibilidade da razão,(…),nessa brevidade desafiadora da nossa capacidade leitoral e estética.’’( F.NOA-o prefaciador). Segundo Zenão a brevidade e um estilo que contêm o necessario para manifestar a realidade. Esta brevidade encaixa-se na poesia do A.Nordine onde nota-se uma presença massiva de traços intertextuais da obra do poeta Celso Manguana cidadãos da mesma esquina (ambos eram jornalistas culturais do semanário Zambeze) guerreiros da poesia epigramática, e soldados da mesma trincheira. A.Nordine exilou-se na morte, Celso Manguana exilou-se na loucura, e eu procuro exílio na memória destes 2 poemas: ‘’Sonâmbula esta pátria cresce nas estatísticas e acorda com fome custa amar uma bandeira assim? tem o amargo do asilo almoço de pão com badjias sabem bem todos dias.’’ Celso Manguana pag.14- aos meus pais-Pátria que me pariu-2006. ‘’ Se por tanto tivesse ser capaz moça-pátria deste amor que refrega seja o meu coração a minha entrega escrever-te a cerca duma paz e alto levante-se da vez que nega não é para o povo o discurso assaz nenhum político, milagroso ás é tamanho o sofrimento que chega!


51 para o povo aumentem um quinhão venha do vosso governo mais pão burilada a página da história apagar a sua triste memória fazemos o país livre da escória!!!’’

A.Nordine-pag.50-soneto da paz-Do lado da ala-B2003. Fonte: Texto enviado pelo autor

Efigênia Coutinho Poesias PORQUE AMO Amo-te na união de todos os sonhos Que te completam em cada era destinada. Amo-te nos meus ideais mais risonhos... Teu coração é minha estrela Futurecida! Amo-te até na aerosfera que respiro… Tal qual o verão estação que prefiro, Amo-te acima, aos céus, onde és meu suspiro, Porque creio nos sonhos e por ti aspiro!

E nas noites, jamais sozinho ficarás, Porque o futuro ditará a nossa vontade. Na cama, teu corpo ao meu tu unirás E no sempre viveremos nessa dualidade. Este sentir que hoje é tão sonhado, Logo será o nosso mais belo momento. Quando se fizer em ato consumado, O aconchego deste sublime sentimento. SONHOS

Num amor pelos deuses do Olimpo aclamado, Onde sou vestal preparando a tua vinda, Vestida em brocados de cristal dourado, Para te ofertar o amor de minha alma infinda! Amo-te! E amarei assim tão docemente, Afagando os sonhos postos em minha mente. Amo-te! Deste grande amor eu sou ciente Que seremos abençoados eternamente! Sei que a vida nos colocou num só destino, Por esta razão o meu amar eu proclamo. Vou embalando o amor ao tons cristalinos, Acalentando por todo Universo porque Amo!

Quando tiver um sonho, construa um altar: um espetacular altar de rua que lhe couber em sorte no ato de amar ainda que imperfeito à luz da Lua! Quando você sonhar, construa um caminho de saibro ou granito, pouco importa!, onde a Lua possível seja o linho dum telhado com janelas e uma porta! Não há sonho que dure eternamente, perdemos um-a-um, sem grande esforço, sorrimos à deriva pela mente que nos atrai o pólo ou o seu dorso.

O SONHO REALIZADO E na noite, onde o sonho que te inflama, Tornar-se-á na mais bela realidade. Ao amanhecer tecendo toda trama, Unindo corpos em aprazível felicidade. No real que nos tinge nas cores do amor, Serei tua, sequiosa de todos os desejos. Na pele, sentirei da paixão todo ardor Do teu afago em mim, tão benfazejo.

Somos fiéis ao amor pra nosso mérito porque nele encontramos o que é feérico... CANÇÃO DO AMOR Quando em teus braços estou sou o teu sonho todo esplendor vestida nas cores dum arco-íris Palpitando o coração amoroso!


52 Com teu Amor deixo-me a sonhar dentro, teu olhar, ouvindo teu cantar outra vez, em teus olhos banho-me Com este imenso Amor a Sonhar...

Me prendem nas prendas Enclausuradas do lar Afinal, você faz tudo Mas exigem tudo de mim

Vou levando essa melodia sem par Se é sonho ou soneto, veio para ficar... Com teu olhar tua voz, eu Amo sonhar!

Me tolhem ações e pensamentos Mas quando ajo e penso Querem saber o que fiz Querem saber o que penso

De Amar e de ser Amada..., Todo meu esplendor te dou Na canção que nasceu essa paixão!

Me tiram até o direito ao sonho Mas me exigem sonhando Me tiram até o direito ao canto E me querem só música

SÓ QUERO EXISTIR Me dão asas que me prendem Querem-me mãe-líder Porque você resolve tudo E me mantém submissa

Me prendem imobilizada Sem deixar de cobrar-me liberdade Sem que eu possa me dividir Nem me doar a ninguém

Me querem omissa Mas me cobram decisões Não me permitem ir Mas me cobram a busca

Fontes: A Autora Academia Virtual Sala dos Poetas e Escritores

Elmano Cardim As primeiras revistas literárias Idade d'Ouro do Brasil (1a. edição publicada) Contudo, a imprensa literária surgiu cedo no Brasil, logo em seguida aos dois primeiros periódicos, que se registram na história do nosso jornalismo. Depois da Gazeta do Rio de Janeiro e da Idade d’Ouro do Brasil, apareceu na Bahia em janeiro de 1812, com o título AS VARIEDADES ou ENSAIOS DE LITERATURA, o primeiro jornal literário, que foi, ao mesmo tempo, o terceiro publicado no país. Fundou-o, ao que tudo indica, Diogo Soares da Silva de Bivar, português culto, dado às letras, formado em Coimbra e de espírito liberal. Dizia-se descendente do Cid, o Campeador. Mandado em degredo para Moçambique, por haver hospedado Junot na sua casa da vila de Abrantes, desviou-se na viagem para a Bahia, onde se instalou e obteve depois o perdão pelo crime que hoje seria chamado

de colaboracionismo com o inimigo. Da Bahia, onde exerceu a advocacia, passou para o Rio e aqui viveu até os 80 anos, ocupando vários cargos em associações cultas, benquisto e considerado. Era sócio do Instituto Histórico e faleceu aos 10 de outubro de 1865, deixando dois filhos ilustres, Rodrigo Soares Cid de Bivar e Luís Garcia Soares de Bivar, e uma filha que foi a primeira jornalista brasileira, Violante Atalipa Ximene de Bivar e Velasco, diretora, em 1852, do Jornal das Senhoras. O Sr. Hélio Vianna desfez todas as dúvidas e confusões dos bibliógrafos sobre As Variedades, que se publicou em três números, reunidos os dois últimos num só, e assim se apresentava aos leitores: "O Folheto que oferecemos ao Público, mostra de alguma forma o plano que havemos concebido, e que, quanto em nós é, desejamos desempenhar na


53 redação e publicação do presente Periódico. Discursos sobre os costumes e as virtudes morais e sociais, algumas novelas de escolhido gosto e moral; extratos da história antiga e moderna, nacional ou estrangeira, resumo de viagens; pedaços de autores clássicos portugueses, querem em prosa, quer em verso, cuja leitura tenda a formar gosto e pureza na linguagem; algumas anedotas e boas respostas, etc. - tais são os materiais que tencionamos servir-nos para a coordenação desta obra, que algumas vezes oferecerá artigos que tenham relação com os estudos científicos propriamente ditos, e que possam habilitar os leitores a fazer-lhes sentir a importância das novas descobertas filosóficas". O sumário dos três números das Variedades é interessante, de nível evidentemente elevado para o meio, o que determinaria, por certo, o seu fracasso, pois logo desapareceu, por falta de assinantes. O segundo jornal com o tipo de revista literária surgido no Brasil foi O Patriota, fundado em janeiro de 1813 pelo Coronel Manoel Ferreira de Araújo Guimarães, redator da primeira folha brasileira, a Gazeta do Rio de Janeiro, e fundador do Espelho, que foi, no período da Independência, um periódico muito informativo. O Patriota teve, para a época e para o seu feitio, uma longa duração, pois se publicou até dezembro de 1814. Foi, na opinião do Sr. Carlos Rizzini, comprovada pelos fatos, a melhor publicação literária, não apenas da Colônia, mas do Reino e da Regência. Foi o primeiro jornal no Brasil a apresentar ilustrações. O seu fundador, que abreviava o nome para Ferreira de Araújo, igual ao do jornalista que foi no fim do século uma glória da imprensa carioca, era baiano e tinha uma marcada vocação profissional. Fez carreira de engenheiro, alcançou o cargo de professor da Academia da Marinha de Lisboa, onde estudara, lecionou depois nas Academias da Marinha e Militar do Brasil e chegou ao posto de brigadeiro. Tinha um grande pendor para as letras e por isso fundou O Patriota, cujas páginas publicaram a melhor produção literária da época, dos escritores Borges de Barros, Garção Stockler, Mariano da Fonseca, José Bernardes de Casto, Camilo Martins

Lage, Ildefonso José da Costa e Abreu, Pedro Francisco Xavier de Brito, Silva Alvarenga, José Bonifácio, Silvestre Pinheiro e José Saturnino. O Patriota, pelo seu subtítulo, se destinava a ser um jornal literário, político, mercantil etc. Saiu da Imprensa Régia. Publicou - diz Inocêncio - muitos documentos inéditos e notícias importantes para a história de Portugal e do Brasil, muitas poesias e artigos de arte, ciências e literaturas, como se vê do índice geral inserto no terceiro e último volume. Manoel Ferreira de Araújo Guimarães, que era poeta, divulgou muitos dos seus versos no Patriota. Da veia lírica do jornalista, Joaquim Norberto, no seu Bosquejo da História da Poesia Brasileira, diz "que Araújo Guimarães cultivava a poesia lírica com pouca felicidade, porque a sua fantasia estragada com círculos e retas não era para poesia; e suas produções, a maior parte delas seladas com o cunho da mediocridade, ali jazem, e foram o assunto de muitas censuras dos seus coevos". Os Anais Fluminenses de Ciências, Artes e Literatura estavam fadados a morrer de inanição, por falta de assinaturas que correspondessem ao esforço representado pela sua criação. Era uma revista, com 15 páginas, aparecida em princípios de 1822 e publicada uma só vez pela Sociedade Filotécnica, associação literária, que não chegou propriamente a funcionar, presidida pelo Conde da Palma e que fora fundada por José Silvestre Rebelo, que depois serviu à Diplomacia brasileira e foi um dos fundadores do Instituto Histórico. A introdução, ou plano da revista, teria sido escrita por José Bonifácio, segundo a Vale Cabral declarou Varnhagen. Os Anais foram o terceiro jornal literário do país. O seu redator era José Vitorino dos Santos e Sousa, que tinha uma oficina tipográfica e era matemático, autor de livros de álgebra e geometria e foi depois redator do Jornal Científico, Econômico e Literário. O único número dos Anais tem na capa externa esta quadra, seguida de tradução: Père de la nature, Être puissant et bon Protège cet Empire, où l’humaine raison, Dans un ordre nouveau, sous ton Auguste auspice, De la Societé rebatit l’édifice.


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O principal trabalho publicado nos Anais é o estudo do Desembargador Antônio Rodrigues Veloso de Oliveira sobre "A Igreja no Brasil", com dados e informações que constituem ótimo subsídio para a história eclesiástica do país. *** Todos os historiadores são acordes em reconhecer o relevante papel que teve a imprensa na proclamação da Independência. A influência desse fator da emancipação nacional foi, no entanto, menos dos jornais propriamente ditos e dos panfletos de então do que dos redatores, cuja ação estudamos rapidamente nesta palestra. Com exceção de Hipólito da Costa, todos eles agiram à margem dos periódicos que redigiam, em ação política desenvolvida nas associações secretas, como a Maçonaria, nas reuniões, na Assembléia Legislativa e no próprio seio do governo. Os nomes dos redatores das folhas de então não apareciam nos cabeçalhos, nem assinavam os artigos publicados. As "correspondências" valiam pelos "A pedido" de hoje. A luta contra o anonimato era, como já vimos, uma preocupação dos homens públicos, a fim de coibir os excessos da liberdade de imprensa. Estudando esse aspecto da época, o Sr. Octávio Tarquínio de Souza acentua que "por força da estreiteza e do acanhamento do meio social do Rio desse tempo, de par com a exaltação das paixões políticas, o jornal era a expressão de uma personalidade, refletindo-lhe as idéias, os sentimentos, o feitio moral. O jornal era o seu redator, recebia-lhe a marca, como um livro, como uma obra individual a recebe do seu autor exclusivo". Nas lutas da Independência, como em todos os outros momentos graves da nacionalidade, a imprensa representou, de fato, um grande papel. Mas não é de crer que a sua influência sobre a elite dirigente resultasse do reflexo da opinião pública, expressão que raramente aparecia nos escritos da época, embora neles se usasse e se abusasse mesmo das invocações ao povo. Mas povo, em verdade, ainda não havia no país, cuja população era na sua grande maioria composta de analfabetos e de escravos.

Na época da Independência, o "povo" brasileiro era um valor muito relativo, uma expressão muito mais social do que demográfica. Basta dizer-se que o apelo entregue ao Príncipe Regente em favor da Independência continha 8.000 assinaturas, quando a população do país andava por três milhões de habitantes. Como mostraram Armitage, Oliveira Lima, Oliveira Viana, Barbosa Lima Sobrinho e outros publicistas, o "povo" eram então os fazendeiros, os letrados, o clero, a burguesia comerciante. Havia, naturalmente, as manifestações da rua, nas quais aparecia, não o povo, mas a plebe, facilmente manejada pelos agitadores que a usavam como instrumento para os seus desígnios políticos. Foi essa plebe que acompanhou, com vaias e assobios, os deputados presos por ocasião da dissolução da Constituinte, o que levou José Bonifácio, ao entrar no Arsenal da Marinha, caminho da Fortaleza da Lage, onde ficaria preso, a dizer ao General Morais, que o recebeu: " hoje é o dia dos moleques". Os fatos marcantes da época tinham pouca repercussão no noticiário, e entre eles a própria proclamação da Independência, sobre a qual os periódicos foram omissos ou parcimoniosos. Nem se usava, para a divulgação dos acontecimentos, das colunas dos jornais, embora em 1822 constasse o Rio de Janeiro com quatro tipografias e 14 jornais, entre os quais dois quotidianos, o Volantim, de existência muito passageira, e o Diário do Rio de Janeiro, aparecido em 10 de junho de 1821 e cuja publicação foi até 1878. Esse jornal, que teve uma grande importância na imprensa brasileira, timbrando no começo em não cuidar de política, deixou de noticiar a proclamação da Independência. Os acontecimentos da história pátria eram conhecidos, seja por editais afixados nas esquinas, seja por meio dos bandos, que vinham à praça pública, numa pitoresca encenação, descrita por Max Fleiuss como uma "espécie de proclamação de caráter todo municipal, consistente em uma ruidosa cavalgada, em que tomava parte todo o Senado incorporado: presidente, procurador, portaestandarte, oficiais, almotáceis e meirinhos, precedidos de um pelotão de cavalaria de polícia,


55 seguido de uma banda de música da milícia burguesa.

jornal redigiu por algum tempo as famosas “Várias” e passou de revisor de provas a diretor e proprietário.

"À frente iam pretos, soltando foguetes, e fechava o préstito outro pelotão de cavalaria e o povo dando vivas.

Exerceu cumulativamente alguns cargos públicos, no Arquivo Nacional e mais tarde foi indicado escrivão de uma das Varas de Órfãos e Sucessões.

"Nas encruzilhadas das ruas, parava o cortejo e um dos oficiais da Câmara, a cavalo e de cabeça descoberta, procedia à leitura do bando ou proclamação como assim sempre se fazia, nos três dias antes das principais solenidades da Corte, tais como o nascimento, casamento ou falecimento de alguma pessoa real.

Em 1935 presidiu a delegação de jornalistas que acompanhou o presidente Getúlio Vargas em viagem aos países do Prata.

"Nos bandos que anunciariam a aclamação e coroação de D. João VI, que se realizou em 6 de fevereiro de 1818, e as cerimônias da coroação e sagração de D. Pedro I, a 10 de dezembro de 1822, os mais notáveis personagens disputavam a honra de neles figurar". A imprensa, com a restrita circulação dos periódicos, era então essencialmente política, doutrinária e personalista. Mas nem por isso deixava de existir e de pesar sobre o ânimo dos que detinham o poder e orientavam os acontecimentos formadores da nação que se criava. É que já se forjara, nítida e robusta, como alavanca de comando dos episódios históricos, uma consciência nacional, que naqueles dias confusos e tormentosos orientava o patriotismo dos brasileiros. (Jornalistas da Independência, 1958)

Elmano Cardim (1891 – 1979) Elmano Gomes Cardim era natural de Valença, no Estado do Rio de Janeiro, onde nasceu a 24 de dezembro de 1891, filho de Francisco Eduardo Gomes Cardim e de Adelia Figueiredo Cardim. Faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 19 de fevereiro de 1979. Estudou nos Colégios Pedro II e Alfredo Gomes. Concluiu o curso de Direito na Faculdade do Rio de Janeiro em 1914. Iniciou cedo a carreira de jornalista em "O selo" e no "Diário de Notícias". Integrou-se, em 1909, na equipe do "Jornal do Commercio", do Rio de Janeiro. No

Recebeu em 1951 o Prêmio Moors Cabot de Jornalista. Foi eleito sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro" em 1937, passando a efetivo em 1970 e a benemérito em 1976. Integrou a missão cultural no Uruguai em 1943, onde pronunciou conferências na Universidade daquele país. Entre os trabalhos publicados por Elmano Cardim merecem destaque - "Justiniano José da Rocha", "A vida jornalística de Rui Barbosa", "Joaquim Nabuco, homem de imprensa", "Na minha Seara", "Jornalistas da Independência", "Discursos", "Rocha Pombo", "Vidas Gloriosas", "Graça Aranha e o modernismo Brasil", "Na pauta da História". Presidiu Elmano Cardim a Associação Brasileira de Imprensa. No Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro ingressou como sócio honorário em 1937, passado a efetivo em 1970 e a benemérito em 1976. Membro da Academia Brasileira de Letras, quinto ocupante da Cadeira 39, eleito em 13 de abril de 1950. Obras publicadas: Justiniano José da Rocha, A vida jornalística de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, homem de imprensa, Na minha Seara, Jornalistas da Independência, Discursos, Rocha Pombo, Vidas Gloriosas, Graça Aranha e o modernismo Brasil, Na pauta da História. Fonte: Academia Brasileira de Letras


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Antonio Manoel Abreu Sardenberg Poemas de Amor AMOR E PAIXÃO Amor é brisa suave, é aconchego, é carinho, vôo cadente da ave indo em busca do seu ninho. É bruma leve do mar em manhã de primavera, desejo louco de estar com alguém que se espera. Volúpia louca é paixão, mar revolto, tempestade... É amar sem a razão, é só loucura e vontade. Paixão é amor sem juízo, sem norte, reta ou tino, errante sem ter destino, o inferno no paraíso! Amor é paz, é ternura, é o frescor da aragem, a mais cálida coragem, maior ato de bravura. É o céu lá nas alturas, é a mais sublime imagem! Paixão é inconseqüência, é demência desmedida, é o nada, é ausência, é o fim – a despedida! Amor é tudo, enfim é a vida iluminada, é a afirmação, é o sim, é o encontro na chegada!

É o fogo mais ardente, que se pode experimentar, é sinônimo de querer, volúpia louca de amar! Seu beijo é tudo, enfim! É o querer. O gostar, vontade imensa de ter mas que não posso alcançar! seu beijo é gotinha dágua, nas profundezas do mar! PRESA Quero ser a sua presa, Enroscar-me em sua teia Sem reação ou defesa, Ser manjar em sua mesa, Deixar sugar o meu sangue Até secar minha veia... Quero ser seu alimento, Provisão de cada dia, Ser o seu pão, seu sustento, E depois do acalento, Ser sua noite de orgia. Eu quero ser o seu vinho, O cálice que inebria. Ser madrugada, seu dia, Ser seu parceiro no ninho.

SEU BEIJO

Quero ser a sinfonia Mais suave e maviosa, Ser seu verso e sua prosa Seu delírio e fantasia...

Seu beijo é favo de mel, a seiva que me alimenta, é pedacinho do céu, desejo que me atormenta!

Quero ser a sua rima, Sua trova e sextilha, Sua estrada, sua trilha, Seu fogo ardente, seu clima.


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ABRAÇO Chegou como aragem mansa Em manhã de primavera... Era a mais doce quimera, A mais intensa esperança, A desejada bonança Que um homem quer e espera.

Sinto o calor que ele me irradia, Ouço em teu peito o coração pulsar, Quero que a noite nunca vire dia, Que o tempo pare, só pra te amar! Em toques cálidos fico a percorrer, Todo teu corpo , só para sentir, A sensação gostosa de te ter!

No rosto, abria um sorriso, Um semblante angelical, Um mundo pleno e total. Era o próprio paraíso! Nunca senti nada igual.

E já em êxtase eu te quero tanto, Mais, muito mais, começo a te pedir, E você me dando todo teu encanto!

Nos seus olhos cor de mel Trazia a luz que irradia Lindo toque de magia, Universo de esplendor Que eu sempre quis um dia.

No rosto traz um sorriso terno, amigo e verdadeiro, no peito traz um gigante, que se abre a todo instante e acolhe um mundo inteiro!

Seus braços aconchegantes Eram buquê de carinho, O afago de um ninho, A ternura de amante, O perfume do jasmim, Emoção mais fascinante Que senti dentro de mim.

És ternura da mais terna, és doçura da mais doce, e se eu poeta fosse, diria da forma mais Vera: és outono, primavera, o mais ardente verão! És acalento, alegria, meu sonho de cada dia, és tudo afinal então!

E, assim, bem de mansinho, Nossos braços se enroscaram. E ficamos bem juntinhos Atados como num laço... Então eu pude sentir Minha razão de existir Nesse terno e doce abraço. NOITE DE AMOR Entro em teu quarto com meu pensamento, Devagarinho pra não te despertar, E pouco a pouco, em doces movimentos, Passo em teu corpo todinho tocar!

VOCÊ

E neste dia de hoje, quero te confessar: se eu fosse o CRIADOR, dar-te-ia o céu, o mar, o campo coalhado de flor, e para arrematar, dar-te-ia todo amor, que se possa imaginar! Fonte: E-mail enviado pelo poeta http://www.sardenbergpoesias.com.br/dia_dos_namorados/dia_dos_n amorados.htm


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Adelto Gonçalves Uma “redescoberta” da Literatura Africana no Brasil A Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) colocou no mercado uma nova coleção, Poetas de Moçambique, em que apresenta antologias dos maiores poetas modernos de língua portuguesa e origem moçambicana. Segundo a editora, os autores escolhidos estabeleceram freqüentemente diálogo com a literatura brasileira, especialmente com as obras de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cecília Meireles (19011964), Vinicius de Moraes (1913-1980) e Manuel Bandeira (1886-1968). Os primeiros volumes são dedicados a José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997). Craveirinha, primeiro autor africano galardoado com o Prêmio Camões, em 1991, é um dos nomes fundamentais da literatura moçambicana. Filho de pai algarvio e mãe ronga, é dono de uma obra concisa, que cobre cinco livros publicados em vida e duas coletâneas póstumas, além de dezenas de poemas espalhados em periódicos e antologias. Este livro reúne os principais poemas do autor com nota biobibliográfica de Emílio Maciel. Já Rui Knopfli produziu uma encorpada e original obra literária durante o período colonial. Seus poemas selecionados estabelecem diálogo com as principais tradições clássicas e modernas da poesia. O livro traz posfácio com texto crítico e nota biobibliográfica de Roberto Said. Ao mesmo tempo, a Ateliê Editorial, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), acaba de lançar Portanto... Pepetela, organizado por Rita Chaves e Tania Macêdo, professoras de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP). O angolano Pepetela, nascido Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, ganhador do Prêmio Camões de 1997, é talvez o mais importante romancista de seu país. Com apresentação do moçambicano Mia Couto, o livro reúne 38 artigos e ensaios de estudiosos da obra de Pepetela.

Nada mais alvissareiro do que essa “redescoberta” da literatura africana de expressão portuguesa. Mas desses três autores, apenas José Craveirinha é resultado da mistura do sangue português com africano. O que se espera é que esse interesse não se restrinja apenas a autores lusodescendentes, mas seja aberto a todos os africanos que fazem literatura em Língua Portuguesa. II Nada contra Pepetela, Agualusa, Mia Couto ou Luandino Vieira, nomes hoje incontestáveis no panorama da literatura africana de expressão portuguesa. O que se estranha é por que só descendentes de portugueses que nasceram em terras africanas têm largo espaço nos veículos de comunicação de Portugal e nas universidades de Portugal e do Brasil. Basta ver que o livro Portanto... Pepetela traz, ao final, uma lista de 56 teses de doutorado e dissertações de mestrado defendidas em universidades brasileiras sobre a obra de Pepetela. Um exagero, evidentemente, porque há muitos outros autores africanos de expressão portuguesa que poderiam ser estudados. E não o são. Não se quer acreditar que seja por racismo, pois o que se espera é que esse tipo de comportamento seja algo já superado, sem razão de existir neste começo de século XXI. Talvez seja ainda a "saudade do império colonial perdido", como disse Patrick Chabal, professor de Estudos Africanos do King´s College, de Londres, para se citar aqui um nome isento destas questiúnculas lusófonas, que impeça os acadêmicos e editores portugueses de enxergar que a lusofonia é uma falácia – que não vai chegar a lugar nenhum – enquanto eles não aceitarem a verdadeira dimensão da língua portuguesa para além da Europa. Em outras palavras: Pepetela, Agualusa, Mia Couto e Luandino Vieira fazem parte da última geração de lusodescendentes que, nascidos na África, praticam


59 uma literatura com vivência africana. Dentro de 20 ou 30 anos, quando provavelmente já não estiverem mais neste mundo, quem irá representar a Literatura Africana de expressão portuguesa senão os autóctones ou um ou outro miscigenado? Portanto, o futuro da Língua Portuguesa na África vai depender dos naturais desses países por onde os portugueses criaram raízes – e também daquelas regiões que, hoje, sofrem com a opressão de vizinhos que não falam português. É o caso da Casamansa, província do Sul do Senegal, que ainda aspira livrar-se da opressão de Dakar para se tornar um país independente e membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Será que em Casamansa não há um único poeta ou escritor que escreva em português? Ou somos nós que não queremos vê-los? Como diz o escritor moçambicano João Craveirinha, por mais que se assumam "lusófonos", os escritores de tez escura serão sempre os "outros", os outsiders, os ex-colonizados. Entre esses, além de João Craveirinha, pode-se citar de uma enfiada Paulina Chiziane, Ungulani ba Ka Kossa, Nelson Saúte, Noémia de Sousa, Kalungano, Luís Bernardo Honwana e Suleimane Cassamo, de Moçambique; Adriano Mixinge, João Melo, Ondjaki, Victor Kajibanga, Uanhenga Xitu, Ana Paula Tavares, Luís Kandjimbo, de Angola; José Luís Hopffer Almada e Germano Almeida, de Cabo Verde; Abdulai Sila, Hélder Proença (?-2009) e Odete Semedo, da Guiné-Bissau; Alda do Espírito Santo e Tomás Medeiros, de São Tomé Príncipe. E muitos outros.

portuguesa, especialmente entre aquela camada mais culta, que gostava de ler Jorge Amado (19122001), Érico Veríssimo (1905-1975), Guimarães Rosa (1908-1967) e outros tantos. Rui Knopfli mesmo é um poeta fortemente influenciado pela literatura brasileira, além de suas grandes ligações com a poesia portuguesa moderna. De africano, só carrega o fato de ter nascido em Inhambane. Trata-se de um fino poeta, cuja poesia está entre o que de melhor se escreveu em Língua Portuguesa no século XX, mas que, ao contrário de Pepetela que permaneceu em Angola e lutou contra o colonialismo, deixou Moçambique tão logo o país se separou de Portugal. Jamais se assumiu "moçambicano" no anterior e muito menos no atual contexto africano e sociopolítico do pósindependência. Assumiu-se, sim, como um português de Moçambique agastado com os "pretos" da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) que queriam ser iguais aos "brancos". A visão que Knopfli tinha da África era eurocêntrica, de um colono que pertencia a uma elite colonial intelectual que, provavelmente, sonhava com um Moçambique semelhante à Rodésia ou à África do Sul sem apartheid, mas com os chamados “brancos” a mandar nos "pretos", ou seja, “cada macaco no seu galho", para se repetir aqui uma expressão politicamente nada correta que se ouve ainda neste Brasil de racismo disfarçado. A lusitanidade européia de Knopfli sempre falou mais alto.

III

Quem conhece a vida moçambicana préindependência sabe muito bem que Knopfli atacara a arte banta do escultor Alberto Chissano e do pintor Malangatana em termos depreciativos, como a dizer que eles nunca poderiam ascender a artistas plenos em razão de sua origem "primitiva", tal como os "bons selvagens" de Jean-Jacques Rousseau (17121778), que seriam congenitamente limitados. Isto está na Revista Tempo, de Lourenço Marques (hoje Maputo), dos anos 1970-1971. Quem duvidar que consulte na Biblioteca Nacional de Lisboa a coleção da revista. Mas é claro que isto ninguém gosta de lembrar.

Embora o desconhecimento no Brasil acerca dos assuntos africanos seja abissal, não se pode deixar de reconhecer que foi graças aos literatos brasileiros que a Língua Portuguesa continuou viva nas décadas de 1950, 60 e 70 na África de expressão

Como se sabe, na África os conceitos não são os mesmos vigentes no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa em relação ao ser e estar africano. Até porque na África os "nativos" não foram exterminados como os ameríndios nas Américas. E,

O que é preciso dizer – e quase ninguém o faz – é que persistir nessa visão preconceituosa é um erro, que equivale a dar um tiro no próprio pé, pois recusar-se a reconhecer que o futuro da Língua Portuguesa na África depende dos naturais daqueles países é condená-la ao desaparecimento. E olhem que quem escreve isto é um brasileiro de primeira geração, de pai português de Paços de Ferreira, Norte de Portugal, e de avós maternos açorianos.


60 como continuam a sê-lo no Brasil em pleno século XXI. Para se ter um exemplo desse holocausto, basta ver que os traços indígenas hoje são pouco perceptíveis no brasileiro médio, exceto talvez no homem do Centro-Oeste e do Amazonas, ao contrário do que se pode constatar no Chile, no Paraguai, na Bolívia, no Equador e até na antigamente tão conservadora Argentina. Basta ver o que fazem, nos dias de hoje, certos fazendeiros e seus capangas com os caiowás, em Mato Grosso do Sul, sem que as autoridades tomem qualquer providência mais efetiva. Na África, os autóctones continuam a ser maioria esmagadora e isso tem um peso enorme na consciência dos africanos, mesmo em meio a crises econômicas. Até mesmo porque eles estavam num estágio de desenvolvimento superior ao dos indígenas americanos, o que obrigou a chamada colonização portuguesa a restringir-se a vilas e destacamentos litorâneos. Até mesmo para “atravessar” o comércio da escravatura, os portugueses dependiam de nações africanas que traziam subjugados seus inimigos para comercializálos nas praias. Com isso, a ocupação européia, de um modo geral, nunca conseguiu apagar no homem africano o grande sentimento de pertença ao legado banto.

Como tudo isso são águas e ressentimentos passados, o que importa hoje é preservar a Língua de Camões também na África. E essa preservação passa por um apoio mais decisivo em favor da divulgação e estudo da literatura de expressão portuguesa que é hoje praticada por africanos de todos os matizes de pele, indistintamente. _______________________ PORTANTO... PEPETELA, de Rita Chaves e Tania Macêdo (organizadoras). São Paulo: Ateliê Editorial/Fapesp, 2009, 389 págs. ANTOLOGIA POÉTICA, de José Craveirinha. Organizadora: Ana Mafalda Leite. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 198 págs. ANTOLOGIA POÉTICA, de Rui Knopfli. Organizador: Eugénio Lisboa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 206 págs.

__________________________ Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br Fonte: Literatura Sem Fronteiras.

Luiz Eduardo Caminha Lenda de Iaraguaçu Lenda premiada em 1º.Lugar no 1º. Concurso Internacional de Lendas e Poesia ME (Mulheres Emergentes) - 2010

Iaraguaçu, grande mãe d’água, era uma velha índia da aldeia Mbyá, do tronco Guarani-karijós, que habitava a ilha de Santa Catarina nos séculos XVI a XVIII, quando o homem branco chegou. Sua tribo descendia dos últimos sete casais fugitivos dos brancos invasores que massacraram a maioria dos Guaranis-karijós da Ilha da Magia. Antes, os casais refugiaram-se no sul da ilha, donde atravessaram para a Praia da Pinheira. Ali, permaneceram apenas um verão, temerosos de novos massacres. Foram para o Morro dos Cavalos. Anos mais tarde, seus pais e parentes migraram para o local onde vivia.

Eram pescadores e não podiam viver longe das águas. Dela tiravam seu sustento em canoas de um pau só de garapuvu. Assentaram-se, ainda na segunda metade do século XVII, às margens da Lagoa de Fora, como chamavam a Lagoa de Santo Antônio onde, na margem oposta, crescera a Vila de Laguna. Iara, como gostava que a chamassem, vivia numa choupana de paus e telhado de folhas de Indayá, uma palmeira da região. Desde pequena tinha visões que prenunciavam coisas boas ou ruins. Na tribo, estas atribuições eram próprias dos Pajés, mas muitos de seus “irmãos da terra” - como ela chamava os índios – dela se valiam. Também era


61 dada a práticas medicinais e até caciques vinham atrás de seu conhecimento sobre as ervas. Era o ano de 1838. Sua idade era desconhecida, mas os fatos que narrava ter vivido, como a fundação de Laguna em 1776, supunham que beirava os 75 anos. Sua vida resumia-se aos arredores da choupana e, boa parte do dia, em torno de um fogão de barro construído por um de seus netos. Curava muita gente, dava muitos conselhos e mesmo as autoridades de Laguna e as famílias de posse, de vez em quando, a ela recorriam. Afirmavam que, além das curas, ela mudara a vida de muita gente com seus aconselhamentos e adivinhações. Ainda menina, fora levada pela mãe para servir a uma família da Vila, mas não sabia viver longe da liberdade da mata. Quase nada fazia que fosse costume dos brancos. Sua Senhora, uma mulher má, surrava-lhe com açoites e com uma espalmadeira “pra aprender as coisas”, como dizia. Um dia, já moça feita, depois de inúmeras tentativas de fuga, fora mandada embora. A mãe já não vivia mais. Havia morrido de fraqueza nos pulmões, doença trazida pelos brancos. A maioria da aldeia havia deixado o lugar. Iara foi catequizada aos 30 anos e aprendeu malmente a língua dos brancos misturando palavras com o tupi-guaraní. Era assim que falava com as pessoas que a procuravam. A todos atendia e transmitia sua paz interior, fruto das bênçãos de Nhanderú-etê, o Deus Verdadeiro, em quem acreditava. Vivia com o neto, um cachorro velho e uma formosa águia cinzenta que ela mesma amestrara. Os moradores de Laguna já haviam se acostumado com sua presença soberana e solitária nos céus. Sempre que ela aparecia com seus estridentes trinados, alguma coisa estava por acontecer. Diziam que era Iaraguaçú que a enviava para lhes avisar. Era corrente a crença: quando a águia de Iaraguaçú plainava silente era época de calmaria e peixe em abundância, mas quando aparecia gritando e fazendo voos rasantes, um tempo ruim estava por vir. Era melhor guardar os animais, não sair para o mar e recolherem-se em suas casas, “prá modo de mal algum assussedê”, como diziam os matutos pescadores. Era dito e feito. Quando alguém desafiava o aviso, alguma tragédia acontecia. Barcos que soçobravam, pessoas que adoeciam – e

até faleciam – vítimas de uma molha de chuva, gado que morria por ter ficado fora dos potreiros, enfim, o melhor era se precaver. Uma das protegidas de Iaraguaçú era Aninha, a quem chamava kunhataí, filha do tropeiro Bentão. Fora Iara quem prevenira Aninha que seu casamento, arranjado pela mãe, com o sapateiro da cidade, não vingaria. Também previra que Aninha iria esposar um aventureiro de outras terras, vindo do mar, um valente que viria junto com a guerra que aconteceria no sul do Brasil e que tentaria criar em Laguna uma outra nação, a República Juliana. Tudo acontecera como dissera. Até a doença do pai, também vítima dos pulmões, quando tomara uma chuvarada no alto da Serra do Dose, assim escrita, com “esse”, em virtude de um estalajadeiro italiano da família Dose que vivia no sopé da escarpada montanha. O pai não aguentara e, como previra Iara, atravessara “manõ yvy ugwa” - o vale da morte, para se juntar a Nhanderú-etê. Aninha não dava um passo sem consultar a velha índia. Muitas vezes, quando algo lhe afligia, era a própria águia que pousava num galho alto de um garapuvu, perto de sua casa, emitindo trinados peculiares, sinal de que a índia queria lhe falar. Por isso, Aninha muito chorou quando a velha amiga partiu. Teve um estranho pressentimento naquela manhã, ao ver a chuva incomum com raios e trovões como se fosse uma chuvada de verão. De repente, o sol se abriu, o vento parou e um duplo arco-íris, que ia em direção à Lagoa de Fora, apareceu no céu. A passarada, que já vinha se ocupando do acasalamento, no leva e trás de palhas e raminhos para os ninhos, parecia ter sido convocada por um Ser Supremo para uma revoada conjunta. O barulho dos pardais, tico-ticos, sabiás laranjeiras, coleirinhas e dos sanhaçus azuis, se misturavam com o gorjeio das pombas rolas e com o grito agudo dos gaviões. Uma Sinfonia da Natureza. Todos os pássaros seguiam o mesmo rumo, em direção ao final do arco-íris. Nas ruas, cavalos relinchavam como se pressentissem um predador. Cães ladravam. Não um latido comum. Uivavam como se estivessem a sofrer, a chorar. Foram três minutos daquela algaravia. E uma calada se fez. Um grito agudo, da águia cinzenta que voava


62 acima de tudo, rompeu o silêncio. A atenção se voltou para os lados da Lagoa de Fora.

serviços funerais de um padre, mas queria que seus restos repousassem com sua gente.

A notícia correu pela Vila como o vento gelado vindo do Sul. Era trazida por “pena-esvoaçante” o pequeno indiozinho carijó, o neto que vivia com Iaraguaçu.

Aninha estava desolada, mas ao mesmo tempo resignada. Embora triste, ficou ali, velando aquele corpo cuja alma, cujo espírito, já estava no lugar que a vida eterna lhe reservara. Um lugar diferente da choupana humilde e pobre que vivera, embora Iara sempre lhe dera a impressão que era feliz do jeito que vivia, da sorte que “Nhanderú etê” lhe reservara. Talvez porque soubesse que a morte era uma passagem para um lugar de Paz, sem sofrimentos, sem o frio gelado do inverno e o calor insuportável dos verões. Uma vida onde as primaveras e os outonos eram as únicas estações. Lá, onde dizia que seu pai Bentão também estava, Iara seria uma luz a brilhar em todos os momentos.

~ Mãe Iara suspirou! Foi pra terra de seus pais! Seu espírito viaja pra encontrar “Nhanderú etê”. Aninha montou seu cavalo assim mesmo, no pelo, sem perder tempo de encilhá-lo. Disparou em cavalgada para as bandas de onde, à beira da laguna, jazia no leito de palha, o corpo da amiga. Chorava pelo caminho. Suas lágrimas escorriam pelo rosto e embaçavam-lhe a visão. Não foi só Aninha a única que para lá se dirigiu. A cidade quase se esvaziara para reverenciar a velha índia. Até o Vigário se abalou, em uma charrete, para lá estar. Embora guardasse alguma ligação com aquela espécie de ocultismo dos silvícolas, ele não tinha dúvidas, ali, naquele corpo, habitara um Anjo. Não! Iaraguaçu não era uma bruxa como insistiam alguns poucos maldizentes. Seu Deus era o mesmo Deus da Cristandade. Quando fazia uma prece a “Nhanderú etê”, estava orando ao Deus Verdadeiro dos cristãos. Quando rogava a “Nhanderu ra'y”, o filho de “Nhanderú etê”, era a Jesus Cristo que evocava. Por isso, e por ser batizada, merecia um enterro cristão, no Cemitério da Vila. Mas, estas vãs preocupações eram desnecessárias. Iara tinha um testamento. Queria um enterro cristão, mas também, de acordo com a tradição tupiguarany, ser enterrada no Campo dos Espíritos, aonde muitos de sua tribo jaziam em paz. Manifestou ainda em vida, o desejo de ter os

Hoje, as águias cinzentas são uma raridade. Como os índios, foram enxotadas por seu predador, o homem. Mas o espírito de Iaraguaçu ainda paira sobre a Lagoa. Dizem os mais antigos que quando uma tormenta vinda do sul ameaça os pescadores, basta uma prece: “Iaraguaçu, grande mãe d’água, socorrei-nos!” Logo o vento se dissipa e a calmaria reina absoluta. Quando uma águia cinzenta ainda é vista plainando silente e graciosa sobre os céus da região, os mais velhos sabem que a pesca do camarão e das tainhas será afortunada. E ainda se recolhem e se protegem quando ouvem alguma delas, com trinados agudos voarem em rasantes por ali. Luiz Eduardo Caminha Ratones, Florianópolis Fonte: – O autor

Ademar Macedo Mensagens Poéticas 93 Uma Trova Nacional Você me faz tanta falta, que eu tenho a triste impressão de ser nota numa pauta

sem clave nem duração... (JEANETTE DE CNOP/PR)


63 Uma Trova Potiguar Minha mãe – por sua cruz, meu pai – por sua bondade, hoje são anjos de luz que tenho na eternidade. (BENTO RABELO/RN) Uma Trova Premiada 2000 > Niterói/RJ Tema > DELÍRIO > M/H. Quando a ilusão me conclama a esperar por quem não vem, eu deliro... e, em minha cama, beijo o lençol... sem ninguém... (PEDRO MELO/SP) Simplesmente Poesia – Antonio M. A. Sardenberg/RJ – SORRISO Esse seu sorriso aberto, Mais lindo do que o luar É como chuva miúda Que faz a vida nascer E a esperança germinar. Ele é toque de ternura, Toda candura que há, É a beleza mais pura, Tem a leveza e frescura Da brisa que vem do mar. Esse seu sorriso aberto Transmite tanta energia Que parece a luz do sol Raiando ao nascer do dia. Ele é doce que nem mel, É como um jardim florido, É pedacinho do céu, O meu mundo colorido. Uma Trova de Ademar Uma mensagem de luz, que trouxe uma fé tamanha, foi aquela que Jesus

deixou pra nós na montanha. (ADEMAR MACEDO/RN) ...E Suas Trovas Ficaram Chuvarada de granizo deu cabo da plantação, deu cabo do meu sorriso, do cabo da enxada, não!... (DURVAL MENDONÇA/RJ) Estrofe do Dia Eu fiquei contemplando o Ser divino Exalando seu mundo de inocência Os orvalhos cristais da transparência Cintilavam no rosto pequenino. O seu jeito delicado e cristalino Expressava da vida a flor ternura, Cada planta se curvava com brandura Ofertando respeito e reverência, Onde os galhos sutis da consciência Tinham Deus na divina criatura. (GILMAR LEITE/PE) Soneto do Dia – João Justiniano da Fonseca/BA – SONETO SEM SAL E SEM PIMENTA. Eu te responderei. Tenho presentes os teus olhos, nas praias do infinito, aonde o azul do céu é mais bonito, em manhãs de maré, sonhos ardentes! Nos teus porões de sonhos descontentes, de bruxas e duendes, de maldito, há sofrimento? Então, dá por proscrito, o mal. Põe riso nos teus alvos dentes. Busca-me sempre e mais, estás bem viva, na lembrança do amado. És a Diva do sonho, do ideal - o que desejo. Toca a orquestra do amor no coração, e mais te quero e com maior paixão, onde me encontre, junto a ti me vejo. Fonte: Ademar Macedo


64

Aparecido Raimundo de Souza A canção que tocou no meio da noite Minha namorada ao ouvir uma música no rádio resolve me acordar às quatro horas da manhã.

- Engraçadinho. Fala sério – troveja injuriada. Quem canta essa preciosidade?

- Amor, amor -, grita numa euforia barulhenta. – Olha que coisa linda...!!!

- Sua irmã Pri - digo acorrendo num ímpeto quase carinhoso.

Pulo, assustado, tropeçando os olhos embaralhados no travesseiro sonolento.

- Não brinca - Brada incontrolável. - Olha como estou trêmula. Parece até que me acorrentei às raias de um piripaque.

- O que foi PP??? - Olha...!!!

- Minha linda, se essa droga da música está lhe fazendo mal, me deixa desligar o som. Basta um clic e pronto.

- Não estou vendo nada. Onde? Cadê??? - A música...!!!

- Pelo amor de Deus, não faça isso. Eu amo essa música. Eu amo, entende? Amo de paixão. Amoooooooooo!...

- Que música??? - Essa que está tocando... Ouça...!!! - Então não é pra ver, é pra ouvir. Tudo bem! Estou gostando. O que tem ela? - Não é divina? - Completa PP espichando para meu rosto seus olhos meigos da noite não dormida. - Ah, sim, maravilhosa! Principalmente para se curtir depois de ser arrancado, aos sobressaltos, dos braços de Morfeu. - Desculpa amor, não foi por querer – cochicha à vozinha fina: É que achei tão caliente. Sabe quem está cantando?

- Como consegue gostar de uma música, ou melhor, amar uma canção que desconhece quem a está cantando?!... - Acontece, amor. – Diz num acesso de arrebatamento jubiloso. - Nunca passou por uma situação assim? Asseguro que é deveras constrangedor, mas, ao mesmo tempo, inebriante, avassalador – completa PP espalhando, por tudo, em redor, a doçura do seu entusiasmo. - Concordo com você. Mas, PPzinha, como pode ver, essas bobeiras não me acontecem nem quando entro em alfa. Sabe, ao menos, o nome da bendita cantora? - Nem imagino...!!!

- Sei. - Nossa, amor, que bom. Hoje então será meu dia de sorte. Nosso dia, melhor dizendo. Diz ai: quem é a deusa dessa voz venturosa? - Você daqui a cem anos.

- PP, PPzinha, me explica de novo: como se deixar envolver por uma simples canção que toca no rádio, se você acabou de me dizer que desconhece o principal, que é nome da artista? - A isso, seu bobinho, se dá o nome de amor a primeira vista. Despertei com ela, me enamorei. Ela


65 mexeu comigo. Desculpe, me esqueci: você não é nem um pouquinho romântico – conclui a guisa de resmungo.

anormal. Entro em outra loja, logo adiante, e me dirijo também à primeira funcionária que se destaca, não só pelo brilho do rosto, como pela beleza de seu uniforme impecável. Mando a pergunta, na bucha:

- Sou romântico sim. - Me poupe. Se fosse romântico, ao menos carinhoso, estaria, agora, grudado em meu peito, curtindo juntinho ao meu corpo essa belíssima canção angelical. - O fato de não estar colado em você não quer dizer que não seja romântico. Sou mais do que possa imaginar. - Aposto que não se deu conta. Pare um minuto, ouça a letra, sinta a melodia, se ligue nos acordes, procure viajar na orquestração, na voz, enfim, cadê seu lado zen...? -... Em...???

- Que música é esta? – Aventuro incontido. - Sabe dizer que música é esta? - Ou quem canta, pelo menos? Diante da negativa da jovem volto a carreira, o rádio executando a música que me acordou às quatro horas da manha. Outra loja e mais gente balançando a cabeça contraria a resposta que busco, embalde. Finalmente, me deparo com uma discoteca enorme, sofisticada, bem sortida. “ - Ufa! Até que enfim...” Murmuro com meus botões – “Alguém, nesta joça, me dará a resposta que procuro”. Dito e feito: - Essa musica ai se chama “Canção do amor verdadeiro”, temos em estoque, e quem canta é Mariza da Ximbica Cor de Rosa. O senhor quer ouvir???

-... Zen...!!! -... Ah, meu amor, deixa isso pra lá: vem pra mim, vem!... Centro de São Paulo horas depois, na avenida movimentadíssima, em direção ao meu trabalho, perto do prédio onde fica o escritório da empresa, ao passar em frente duma loja de eletroeletrônicos, deparo, sem querer, com a tal da musica tocando em vários aparelhos ao mesmo tempo. Pergunto para a moça que se apressa ao meu encontro com um sorriso aberto de um canto a outro da boca: - Pois não, senhor? Em que posso ajudá-lo? - Que música é esta? - Berro trovejando vertente ansiedade. - Não sei senhor! Tomado por um impulso movido a doidera momentânea, passo a mão em um dos aparelhos que servem de mostruário ao público. Na verdade, arranco do meio dos outros um três em um pequeno, movido a pilha e luz, e, saio correndo em direção à movimentação da cidade barulhenta. Os seguranças deitam em meu encalço. O gerente chama a policia. Na calçada, esbarrando em transeuntes açodados, desembesto o trocinho tocando, numa altura

Agradeço, viro as costas e me disponho a ganhar o dia lindo de céu azul e ensolarado. Todavia, ao meter os pés no frontispício da giratória, percebo uma galera a minha recepção, lá fora. Vislumbro a vendedora, o dedo em riste apontado em minha direção, os seguranças imbuídos de um forte apetite bestial, e, em meio a esse quase surto histérico, capturo os semblantes de poucos amigos de dois policiais militares, um dos quais, com as algemas ameaçadoras e prontas para encaixarem em meus braços. - “... É ele...!!! ... É ele...!!!...” - Escuto a alta voz. – “... Foi ele...” - Fulmina uma branquelinha com uma soberba vivacidade de discrição – “... Olha a prova do crime nas patas sujas do sujeito...” -, instiga outra notívaga, que a acompanha, enquanto cerra a meio os seus macios olhos de míope. “... Cana no meliante, sargento...!!!”. Saio preso e algemado em flagra, depois de levar uns belos catiripapos pelas ventas. Contudo, feliz, realizado. Sei, agora, o nome da porcaria da música e quem a interpreta. Depois de me livrar do delegado, poderei adentrar numa dessas lojinhas existentes ai pela cidade e comprar o cd para a PPzinha, minha doce e esfuziante cara metade. Fonte: Texto enviado pelo autor


66

Inoema Nunes Jahnke Poesias IMORTAL

CORPO E ALMA

Procuro uma canção Em que meu amor se reconheça, Apenas uma melodia Capaz de alegrar o dia, Fácil de cantarolar Como é amar, Um solo de violão Que bata na batida do coração, Que pra se reconhecer Não tenha que prestar atenção, Onde até os desatentos Possam sentir a alegria do amor, Amor imortal como a vida, Que renasce a cada batida.

Sou como um belo jardim de flores do campo Cercado por uma bela cerca de madeira Toda pintada de branco...

CORAÇÃO GUERREIRO Na tua ira recai impiedosa maldade Dissoluto do amor guerreiro, Esgotado, vencido... Se faz pesado o fardo De amar sem ser notado, Amor só de um lado, Amor renegado, Guerreiro vencido em batalha, Surrado, abatido, cansado, Desmorona em meu peito Acalenta em meu seio Retorna a mim Coração guerreiro, Tua luta é minha luta, Tuas dores são minhas lágrimas, Tua saudade é minha agonia, Tua história é minha vida, Teu desespero é minha salvação, Pois retorna à Deus O coração que amou, E a alma que sofreu Só aprendeu.

No jardim à vida tem razão pra existir Pra alegrar os olhos de quem o refletir, Das margaridas o perfume, impossível confundir Que mesmo longe dali é capaz de se sentir. A cerca é a moldura de paisagem tão serena Contida em seu jardim... A alma dentro de mim. Um dia, toda amadeira perecerá Por mais cuidado que se tenha Por melhor que seja a lenha, Um dia se extinguirá. O jardim não mais contido Pela cerca de madeira, Lançará ao vento seu pólen Fecundará outra terra, -Viverá em outro jardimA moldura será outra Branca, amarela, vermelha Outra, bela cerca de madeira! Que emoldura o jardim Que hoje... Desabrocha dentro de mim ESPERANÇA Eu sou o sorriso sincero, Sou o medo na solidão, Sou a dúvida sussurrada, E a resposta encontrada, Sou a saída, e a chegada, Na mesma estrada, Sou a luz na escuridão,


67 A ternura no coração, Sou o sorriso da criança, Eu sou...A própria esperança. SAUDADE Se do nada uma lágrima Rolar no seu rosto... Não tente entender, Se mesmo, sem você querer, Outra lágrima teimar Em embaçar teu sorriso... Não procure nem tente entender, Com certeza e teu coração, Com vontade de me ver. REFÚGIO Só estou, e só fico A solidão é meu refúgio, Meu instante de meditação, De escutar meu coração, No silêncio mudo Transcendo o mundo, Em absoluta união Numa contemplação, Que foge a qualquer compreensão. LASCIVA Sou madrugada que chora sozinha, Chuva que se perde em poças E escorre pelos bueiros A despertar a madrugada... Em teus olhos vejo-me refletida Ofuscada na retina do teu olho Feito água na poça d’água Escorrendo no teu corpo... As linhas que traçam teu rosto Revelam um sorriso jocoso, Talvez, teus braços sejam o bueiro Que desnuda minha alma E recebe o meu corpo... Ali, meu corpo se acalma Repousando no teu peito Feito rio e leito... JANELA DA EMOÇÃO Beijar eu já beijei Alguns morrerão na boca

Outros queimarão em vão, Já dei beijos de despedida Que marcaram minha vida, Beijar eu já beijei Alguns mornos, mas, nunca frios Uns deram tremedeira, outros arrepio, ...O beijo que não esqueço Deu choque na janela da emoção E trancou o amor dentro do meu coração! É PRECISO É preciso que a saudade machuque de verdade, Que leve ao vento as lágrimas Envoltas em pensamentos, É preciso, que a ausência seja sentida...doída Que se relembre a partida E se anseie o retorno, É preciso sentir a inquietude do desejo Que não cessa e arranca o sossego, A vida assim, jamais cansa... Renova-se na esperança! COMPAIXÃO PELA VIDA Do nada uma freada, Uma trombada... E num segundo Tudo se apaga. Bebida, velocidade... Imprudência, fatalidade... Culpados e inocentes Vidas perdidas simplesmente. Acabou a vida promissora, Acabou o futuro brilhante, Mais um na estatística Desta tragédia constante. Partisse uma família, Acabou a alegria, Acabou o sorriso do pai... Acabou o sorriso da filha. Acabou mais uma vida, Desperdiçada nas estradas, Acabou!... E não se faz nada? Acabou, acabou, acabou...


68 Então, porque não ter A mesma intensidade, A mesma força, E eis minha esperança, Que o inevitável fim... Seja pra você, e pra mim. ==========================

Choram os pais... Choram os filhos, Choram os amores... Choram as dores, Choram os amigos... Choram comigo!

Inoema Nunes Jahnke (1971) O FIM

Inoema Nunes Jahnke gaúcha de Pelotas, nasceu no dia dezesseis de agosto em 1971, empresária na área de software atualmente reside em Cachoeirinha, Rio grande do Sul, esposa e mãe, a escritora dedica boa parte do tempo à poesia, em 2008 publicou seu primeiro livro"Imortal", em 2009 publicou o segundo, autora de poesias consagradas como “Orgulho gaúcho” e “Compaixão pela vida”, acredita no amor e no poder da poesia de emocionar e inspirar os corações!

Percebo o fim; mas tenho medo, É tão triste!... A idéia assusta, É minha a culpa!... Sua? Não importa!... São tantos beijos Tantos anos, Tanta vida jogada fora... Vira um nada, um passado, Chorar não adianta, Mas como não chorar, Lutar pra que, Contra o que? O tempo ninguém para, nada muda... Mas eu sinto!... Pressinto o inevitável,

Fontes: http://inoemaescritora.blogspot.com/ http://www.poesias.omelhordaweb.com.br/ http://www.artistasgauchos.com.br/

Luís Fernando Veríssimo Vitor e seu irmão Não era prevenção. A professora tinha o cuidado de tratar todos os seus alunos da mesma maneira.

— Por que, Vitinho? — Minha mãe teve um filho esta semana.

Pelo menos, se esforçava para isto. Mas, com o Vitor, ela sempre estava com um pé atrás. O Vitinho era um caso à parte.

Uma risadinha correu pela sala, mas o Vitor ficou sério. Estava sempre sério.

— Qual é a população do Brasil? Um aluno levantou a mão e leu a resposta que estava no livro.

— Quantos filhos a sua mãe teve, Vitor? — Até agora? — Não, desta vez. — Um. Mas dos grandes.

— Cento e vinte milhões.

Outra risadinha, como marola na superfície de um lago.

O Vitor levantou a mão. A professora sentiu um vazio na barriga. Lá vinha ele.

— Então não são cento e vinte e um milhões. São cento e vinte milhões e um.

— O que é, Vitinho? — Cento e vinte e um milhões. (*)

E a professora escreveu o número no quadro-negro. Depois apontou para o um no fim do número e disse:


69 — Brasília?! — É, Alice. Por quê? — Nada.

— Este aqui é o seu irmãozinho, Vitor. Depois, antes mesmo do Vitor falar, ela se deu conta de como aquele um parecia solitário, no fim de tantos zeros. — Coitadinho do meu ermão. — Irmão, Vitor. E é claro que este número não é exato. Tem gente nascendo e morrendo a todo momento... — Lá no hospital tava cheio de crianças. Será que já contaram? — Não sei, Vitor, eu... — Bota mais uns dois ou três pra acompanhá meu ermão, tia. Ela teve que rir junto com os outros. — Você, hein, Vitinho? Com você eu tenho que ficar sempre com um pé atrás. — Cuidado pra não caí pra frente, tia. — Chega, Vitor! Outro caso era o da Alicinha, que se espantava com tudo. Era só a professora dizer, por exemplo, que a capital do Brasil era Brasília e a Alicinha arregalava os olhos e exclamava:

Depois ficava com aquela cara de que só ela era certa no mundo de loucos, onde se viu a capital do Brasil ser Brasília, mas era melhor deixar pra lá. Um dia a professora disse que o Brasil tinha 8.000 km de costa marinha e ficou esperando a reação da Alicinha. Nada. — O Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. — Atlântico?! — É, Alice. — Desde quando? — Desde sempre, Alice. — Eu, hein? "Eu, hein" era mortal. "Eu, hein" era de matar, mas a professora precisava se controlar. Entre o Vitinho e a Alicinha ainda acabaria louca. (*) É claro que este livro foi escrito há alguns anos. Hoje são mais de cento e sessenta milhões. Fonte: VERISSIMO, Luis Fernando. O Santinho. Ed. Objetiva, 2002.

Livro de Sonetos Héron Patrício (São Paulo – SP) COLHEITA É no riscar do solo, no trabalho que torna o chão estéril em fecundo; é na escolha do bom e melhor talho que o arado irá ferir, de leve ou fundo… É, do nascer do sol que seca o orvalho até depois que o dia, moribundo, busca da noite o fúnebre agasalho, que o lavrador não pára, um só segundo…

E é, juntando esperanças às sementes, com chuva certa e sol – sempre presentes -, que a recompensa vem, mais que perfeita, pois o plantio, para Deus, é prece que tem resposta pronta… quando a messe transborda no celeiro, na colheita!…

Cecim Calixto (Curitiba – PR) COLHEITA DA FÉ É pouca chuva! E o sol sem dó castiga a terra arada que semente espera.


70 A luta insana não lhe traz fadiga e nem fenece a singular quimera. A vocação não lhe sugere briga e nem o ódio o coração verbera. Chuva madrinha há de lhe dar a espiga que no paiol o dissabor supera. Vai à capela e de emoção se agita e ao Lavrador que lá no céu habita em pranto implora tudo a nova empreita. E a chuva cai… tão silenciosa veio… para alegria do celeiro cheio e à gratidão pela integral colheita.

Maurício Cavalheiro (Pindamonhangaba – SP) COLHEITA PARA DEUS Enquanto o sol, no repousar, se atrasa asseverando a seca que prospera, o sertanejo, em vão, se desespera ao ver o filho delirar em brasa. A fome e a sede expostas pela casa ceifam-lhe a fé, enquanto à cruz, pondera: “Plantei e o chão rachado não coopera… por que a miséria, a minha vida, arrasa?” Nisso uma lágrima, do Cristo, escorre no mesmo instante em que o menino morre sem que pudesse dar, ao pai, adeus. E um anjo chega nesse anoitecer envolto em luz para no amor colher mais uma flor para o jardim de Deus.

Thereza Costa Val (Belo Horizonte – MG) COLHENDO VERSOS O pensamento enchi de lindos versos colhidos em leituras fascinantes; dentro do coração, deixei imersos meus sonhos de poeta, fervilhantes. Na mente e no papel, tracei diversos esboços de poemas, incitantes… O tempo foi passando… e pôs dispersos meus sonhos, ideais e os planos de antes,

mas nunca reneguei esta magia que, em mim, exerce ainda a Poesia. E vi chegado o dia da colheita! Vesti-me de emoções – a idéia feita – e, no papel em branco que escolhi, o soneto nasceu… e eu o colhi!

Roberto Resende Vilela (Pouso Alegre – MG) MOMENTOS DE REFLEXÃO Quem acha caro o que produz a roça nada sabe de lá. Também ignora quem, já no alvorecer, deixa a palhoça e volta quando o Sol se foi embora! Nem pode avaliar o que destroça (o estio… a enchente…) sem marcar a hora; e às vezes leva tudo… até a carroça!… - Só não carrega o coração que chora! Tais momentos exigem reflexão; que não se faça a mínima desfeita àquele que do solo tira o pão que mata a fome da família e a fome de quem nunca fez parte da colheita, não conhece, não viu, nem sabe o nome!

Edmar Japiassú Maia (Rio de Janeiro – RJ) O TOLO E O SÁBIO - O que colheste nesta vida, amigo?… pergunta o tolo ao sábio que o escuta. Só te vejo empenhado na labuta, como se a vida fosse o teu castigo. - E o que colhes na tua, ele refuta, se tens na ociosidade o teu abrigo? Quem busca o florescer de um Bem antigo, semeia o fértil solo que desfruta… O amor é um grão que o humano fertiliza, que faz brotar a floração precisa, para a divina graça da colheita… E conclui, ante o tolo, com paciência: - Um coração plantado de indulgência,


71 por amor, a Seu jeito, Deus ajeita!

Prof.Garcia (Caicó – RN) SENTIMENTOS

terá colheita farta, garantida, e, lá, no céu, terá o seu lugar. Sejamos, pois, fraternos lavradores; sem esperar por glórias ou louvores, plantemos, na existência, o bem-querer.

Quando o dia se apressa e vai embora, num silêncio que fere e que angustia, a tristeza me invade e me devora, nas horas sepulcrais, do fim do dia. Como quem diz adeus e triste chora, vai-se o sol delirando de agonia, e a cortina da noite, Deus decora, com luz tênue, de vã melancolia. Distante, bem distante, muito além, a tristeza me acena, como quem se despede de alguém, que já morreu, foi apenas a luz de um dia lindo, que cansada, acenou quase dormindo e nos braços da noite adormeceu!

Alba Helena Corrêa (Niterói – RJ) SEMEADURA DO BEM

Qual árvores deixemos sombra amiga; talvez o nosso esforço alguém bendiga ao estender as mãos para colher!

José Tavares de Lima (Juiz de Fora – MG) TEMPO DE COLHEITA Semeia a benquerença pelo mundo, indiferente ao tanto da colheita… O solo semeado é mais fecundo se a plantação só por amor for feita! Perdoa, que o perdão quando oriundo de uma fonte sincera, a Deus deleita. Mata no peito o teu rancor profundo, e, com sorrisos, tua vida enfeita. Estende tua mão à dor alheia; reparte com famintos tua ceia; ampara contra o frio o descoberto…

Imita o agricultor em tua vida; verás o quanto é nobre semear. Repara – sempre a terra agradecida, com flores, frutos, vai recompensar. O ser humano que na sua lida espalha o bem sem disso se ufanar,

Mas segue, atentamente, esta sentença: não ajudes pensando em recompensa, que a colheita virá no tempo certo! Fonte: Academia de Letras de Maringá

Juliana Boeira da Ressurreição A Importância dos Contos de Fadas no Desenvolvimento da Imaginação Resumo: O presente artigo trata da “Importância dos contos de fadas: no desenvolvimento da imaginação”. Neste artigo, procurei destacar os seguintes tópicos: A fantasia nas histórias infantis; O herói em desenvolvimento; Os contos infantis e a educação; Imaginando o que foi imaginado; e, por

último, relacionei, usando a metodologia da pesquisa exploratória, a teoria estudada com as informações obtidas em entrevista realizada com uma professora que atua na hora do conto em uma escola estadual no município de Terra de Areia/RS.


72 Palavras-chave: imaginação, educação, criança, encantamento, magia, emoções

suave e docemente que se despertam consciência”. (Jean de La Fontaine, século XVII )

Introdução

As histórias infantis são contos bem antigos e ainda hoje podem ser consideradas verdadeiras obras de arte, lembrando sempre que seus enredos falam de sentimentos comuns a todos nós, como: ódio, inveja, ciúme, ambição, rejeição e frustração, que só podem ser compreendidos e vivenciados pela criança através das emoções e da fantasia. Os contos de fadas funcionam como instrumentos para a descoberta desses sentimentos dentro da criança (ou até mesmo de adultos), pois os mesmos são capazes de nos envolver em seu enredo, de nos instigar a mente e comover-nos com a sorte de seus personagens. Causam impacto em nosso psiquismo, porque tratam das experiências cotidianas, permitindo que nos identifiquemos com as dificuldades ou alegrias de seus heróis, cujos feitos narrados expressam, em suma, a condição humana frente às provações da vida.

Falar sobre literatura é, sem dúvidas, falar sobre a imaginação. Sosa (1982) assinala a importância da literatura infantil como etapa criadora dentro do problema geral da imaginação, uma vez que não se sabe bem em que idade, nem em que forma e circunstâncias ela aparece na criança. O mesmo autor afirma que a imaginação é a “faculdade soberana” e a forma mais elevada do desenvolvimento intelectual. Se em outros componentes curriculares atenta-se a conteúdos significativos para as crianças, na literatura infantil encontra-se o espaço privilegiado para estimular o sujeito como elemento gerador das hipóteses mágicas. A fantasia dos contos de fadas é fundamental para o desenvolvimento da criança. Há significados mais profundos nos contos de fadas que se contam na infância do que na verdade que a vida adulta ensina. É por meio dos contos infantis que a criança desenvolve seus sentimentos, emoções e aprende a lidar com essas sensações. É encantador para mim, hoje adulta, relembrar as histórias contadas por meus pais. Quando criança, ao ouvir, por exemplo, a historinha do Patinho Feio, sentia pena dele, ficava triste. Hoje enxergo a mesma história de uma outra forma; quantas vezes nos sentimos um Patinho Feio, ou ainda, quantos patinhos feios existem por aí excluídos e discriminados. O mundo infantil é realmente encantador e surpreendente. Este artigo resulta de uma pesquisa exploratória, em que se buscou compreender como o professor percebe que os contos de fadas têm contribuído no desenvolvimento da imaginação infantil. A coleta de informações foi realizada por meio de uma entrevista com uma professora que atua com a Hora do Conto, em uma escola estadual no município de Terra de Areia/RS. 2. A fantasia nas histórias infantis “Se se quiser falar ao coração dos homens, há que se contar uma história. Dessas onde não faltem animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim

Histórias como: Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Cinderela, o Lobo Mau e todos os seus companheiros continuam sendo os antídotos mais eficientes contra as angústias e temores infantis. Quando essas histórias são apresentadas às crianças, os personagens podem ajudá-las a se tornar mais sensíveis, esperançosas, otimistas e confiantes na vida. A fantasia é fundamental para o desenvolvimento emocional da criança. Nessas histórias, a criança se identifica mais facilmente com os problemas dos personagens. Ao mergulhar com prazer no faz-de-conta, as crianças dão vazão às próprias emoções. Os contos começam de maneira simples e partem de um problema ligado à realidade como a carência afetiva de Cinderela, a pobreza de João e Maria ou o conflito entre filha e madrasta em Branca de Neve. Na busca de soluções para esses conflitos, surgem as figuras “mágicas”: fadas, anões, bruxas malvadas. E a narrativa termina com a volta à realidade, em que os heróis se casam ou retornam ao lar. Bettelheim, em seu livro A psicanálise dos contos de fadas (1980, p.19), diz: “Só partindo para o mundo é que o herói dos contos de fada (a criança) pode se encontrar; e fazendo-o, encontrará também o outro com quem será capaz de viver feliz para sempre; isto é, sem nunca mais ter


73 de experimentar a ansiedade de separação. O conto de fadas é orientado para o futuro e guia a criança – em termos que ela pode entender tanto na sua mente inconsciente quanto consciente – a ao abandonar seus desejos de dependência infantil e conseguir uma existência mais satisfatoriamente independente”. A fantasia facilita a compreensão das crianças, pois se aproxima mais da maneira como vêem o mundo, já que ainda são incapazes de compreender respostas realistas. Não esqueçamos que as crianças dão vida a tudo. Para elas, o sol é vivo, a lua é viva, assim como todos os outros elementos do mundo, da natureza e da vida. Ainda de acordo com Bettelheim (1980, p.13), para que uma estória realmente prenda a atenção da criança, deve entretê-la e despertar sua curiosidade. Mas para enriquecer sua vida, deve estimular-lhe a imaginação, ajudá-la a desenvolver seu intelecto e a tornar claras suas emoções; estar harmonizada com suas ansiedades e aspirações; reconhecer plenamente suas dificuldades; e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que a perturbam. Resumindo, deve de uma só vez relacionar-se com todos os aspectos da personalidade da criança e isso sem nunca menosprezá-la, buscando dar inteiro crédito a seus predicamentos e simultaneamente promover a confiança nela mesma e no seu futuro. Penso que um dos meios mais preciosos que existe de se falar ao coração é a literatura; ela é encantadora, capaz de nos mover sem sairmos do lugar. É fascinante reconhecer o quanto uma leitura é capaz de explorar a nossa imaginação, mexer com nossos sentimentos mais íntimos e contribuir no desenvolvimento da imaginação, da fantasia e até mesmo da personalidade humana. 2.1 O herói em desenvolvimento O que salva o herói é seu grau de amadurecimento, e este é alcançado sempre fora da casa paterna. A mensagem oculta é a de que precisamos de nossos pais, mas para crescer, temos de nos libertar da dependência deles. Bettelheim (1980, p.16) destaca que “Para dominar os problemas psicológicos do crescimento – superar decepções narcisistas,

dilemas edípicos, rivalidades fraternas, ser capaz de abandonar dependências infantis; obter um sentimento de individualidade e de autovalorização, e um sentido de obrigação moral – a criança necessita entender o que está se passando dentro de seu inconsciente. Ela pode atingir essa compreensão, e com isto a habilidade de lidar com as coisas, não através da compreensão racional da natureza e conteúdo de seu inconsciente, mas familiarizando-se com ele através de devaneios prolongados – ruminando, reorganizando e fantasiando sobre elementos adequados da estória em resposta a pressões inconscientes, o que capacita a lidar com este conteúdo. É aqui que os contos de fadas têm um valor inigualável, conquanto oferecem novas dimensões à imaginação da criança que ela não poderia descobrir verdadeiramente por si só. Ainda mais importante: a forma e estrutura dos contos de fadas sugerem imagens á criança com as quais ela pode estruturar seus devaneios e com eles dar melhor direção à sua vida.” Condiz com o que comenta a professora em sua entrevista: “Através dos contos de fadas, podemos levar as crianças a compreender que na vida real, devemos estar preparados (as) para enfrentar as coisas difíceis com coragem e otimismo para a conquista da felicidade”. O maravilhoso sempre foi, e continua sendo, um dos elementos mais importantes na literatura destinada as crianças. Através do prazer ou das emoções que as estórias lhes proporcionam, o simbolismo que, está implícito nas tramas e personagens, vai agir em seu inconsciente, atuando pouco a pouco para ajudar a resolver os conflitos interiores normais nessa fase da vida. A psicanálise afirma que os significados simbólicos dos contos maravilhosos estão ligados aos eternos dilemas que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional. É durante essa fase que surge a necessidade da criança em defender sua vontade e sua independência em relação ao poder dos pais ou à rivalidade com os irmãos ou amigos. Lembra a psicanálise que a criança é levada a se identificar com o herói bom e belo, não devido à sua bondade ou beleza, mas por sentir nele a própria personificação de seus problemas infantis: seu


74 inconsciente desejo de bondade e beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e proteção. Pode assim superar o medo que a inibe e enfrentar os perigos e ameaças que sente à sua volta, podendo alcançar gradativamente o equilíbrio adulto.

O herói sofre a perseguição do mal – a bruxa -, o que faz aumentar o conflito até o final, quando a virtude triunfa e o ser malévolo é impiedosamente castigado. Assim, tudo termina com final feliz.

Se o aspecto principal na definição do conto popular, enquanto gênero literário, é a organização do motivo e das motivações dos personagens, no conto maravilhoso é necessário acrescentar um outro elemento: o encantamento provocado pela ação de um ser sobrenatural. Num momento de grande conflito, um ser sobrenatural intervém no destino do herói e modifica totalmente sua vida. É isto que define o conto de fadas, tornando-o distinto das demais narrativas literárias.

Infelizmente, muitos pais desejam ver seus filhos com a cabeça funcionando racionalmente como a deles, e acreditam que a sua maturidade depende exclusivamente do ensinamento oferecido pela maioria das escolas que, via de regra, em nossa sociedade moderna, pouco fazem além de repassar um conteúdo pedagógico desprovido de maiores significados para a vida. Esquecem-se de explorar os sentimentos como integrante fundamental da formação do caráter e, ainda que bem alfabetizem, algumas escolas desconsideram os contos de fadas como se esses só gerassem confusões quanto aos conceitos sólidos de realidade que devem ser ensinados às crianças.

“Herói é o personagem que vive grandes aventuras e consegue vencer todos os problemas que surgem à sua volta. Por isso ele é considerando o personagem principal, cujas ações, pensamentos e sentimentos acompanhamos com maior interesse. O herói é também chamado protagonista da história. Nem sempre o herói é um personagem com qualidades positivas. Existem heróis que são atrapalhados, malandros e vivem grandes situações de embaraço, mas continuam sendo protagonistas. Estes são conhecidos como anti-heróis”. (MACHADO, 1994, p. 45) Nos contos de fadas, pode-se encontrar o modelo básico de qualquer narrativa literária, em toda narrativa literária existem episódios, ou seja, situações de equilíbrio e desequilíbrio, que se modificam, provocando a passagem de uma situação a outra. É nessa cadeia de episódios que se situam os conflitos e as soluções aos problemas que tanto nos prendem a atenção. A diferença é que, nos contos de fadas, a transformação é provocada pela intervenção uma ação mágica. Assim, os seres mágicos são tão importantes para o desenvolvimento da história quanto para o comportamento do herói. Logo, todos os contos de fadas apresentam histórias de príncipes e princesas – heróis – que vivem situações terríveis criadas por seres malévolos – as bruxas - , mas, felizmente, contam com os seres mágicos: fadas, magos, anões. Por isso, os conflitos são provados por uma intenção maldosa contra uma pessoa de bem e só se resolve pelo encantamento.

2.2 Os contos infantis e a educação

A sabedoria, afinal, não é coisa que nasça pronta como a deusa Palas Atena, que, inteiramente formada, pulou fora da cabeça de Zeus; é, antes, algo delicado, que se constrói desde os tenros anos da infância e que passa necessariamente por um estágio de extraordinário potencial, o qual só se desdobrará convenientemente num bem explorado e maduro psiquismo. Obrigatoriamente, isso leva à necessidade de lidar com os sentimentos. O mundo interior, desconhecido pela consciência intelectualizada, encerra segredos legítimos, guarda metade de nós mesmos, e sua assimilação é imprescindível para todo aquele que deseje conhecer-se melhor ou que esteja buscando respostas honestas para os enigmas da existência. Nesse particular, os contos de fadas cumprem relevante papel. São expressão cristalina e simples de nosso mundo psicológico profundo. De estruturas mais simples que os mitos e as lendas, mas de conteúdo muito mais rico do que o mero teor moral encontrado na maioria das fábulas, são os contos de fadas a fórmula mágica capaz de envolver a atenção das crianças e despertar-lhes sentimentos e valores intuitivos que clamam por um desenvolvimento justo, tão pleno quanto possa vir a ser o do prestigiado intelecto. Não fossem assim tão verdadeiros ao simbolizar nosso caminho pessoal de desenvolvimento,


75 apresentando-nos as situações críticas de escolha que invariavelmente enfrentamos, não despertariam nem sequer o interesse nas crianças que buscam neles, além da diversão, um aprendizado apropriado à sua segurança. Nesse processo, cada criança depreende suas próprias lições dos contos de fadas que ouve, sempre de acordo com seu momento de vida. Elas extraem das narrativas, ainda que inconscientemente, o que de melhor possa aproveitar para ser aí aplicado. Oportunamente pedem que seus pais lhe contem de novo esta ou aquela história, quando revivem sentimentos que vão sendo trabalhados a cada repetição do drama, ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os por outros mais eficientes, conforme suas necessidades do momento. Os contos de fadas nos impressionam, porque sempre foram populares como tradição oral, mas, antes, porque suas histórias são instigantes. Não há como alcançar completamente seu sentido em termos puramente intelectuais, fato que nos desperta a percepção intuitiva. A fantasia irracional a ponto de permitir que a Vovó, engolida pelo Lobo Mau, permaneça viva em sua barriga até ser salva; que Bela Adormecida durma enfeitiçada um sono de cem anos; e que João suba num pé de feijão até alcançar no céu o castelo de um gigante. Justamente pelo inverossímil que expõe, provoca uma reviravolta em nosso mundo psíquico, o qual estimula, aguça-se na tentativa de compreendê-la. E não há como explicá-la pelos padrões da razão metódica. A história de fadas é por si sua melhor explicação, do mesmo modo que as obras de arte encerram aspectos que fogem do alcance do intelecto, já que suscitam emoções capazes de comover os que fogem do alcance do intelecto; já que suscitam emoções capazes de comover os que diante delas se colocam. O significado desses contos está guardado na totalidade de seu conjunto, perpassado pelos fios invisíveis de sua trama narrativa. Claro que, diante desse mistério, muitas formas de abordá-lo são possíveis e igualmente válidas, posto que acrescentam luz à sua compreensão. A literatura dirigida ao público infantil foi produzida a partir do século XVII, uma vez que antes desta data, a sociedade feudal não reconhecia que as crianças possuíam características próprias da infância. Com a queda do sistema feudal, a família tornou-se unicelular, ou seja, mais unida e privada, e a criança

é tida como frágil (biologicamente), distanciada dos meios produtivos; e então, como conseqüência, é um ser dependente do adulto, de quem precisa ajuda para agir na sociedade. Segundo o modelo familiar burguês que surgiu na Idade Moderna, a criança passou a ser valorizada, e juntamente com as idéias para seu desenvolvimento intelectual surge a necessidade de manipulação de suas emoções. É neste contexto que a escola e a literatura aparecem para atender a essas questões. Prova disto é que os primeiros textos para as crianças são de caráter educativo. O cunho educativo é dotado de um pragmatismo que não aceita a literatura como arte, mas como atividade de dominação da criança, ou seja, de cunho exclusivamente moralista e ditadora de regras. Essa idéia de dominação é incorporada pela escola como objetivo, uma vez que esta introduz a criança na vida adulta, mas ao mesmo tempo, protege-a contra as agressões do mundo exterior, separando-a de seu coletivo (família, sociedade) e a fazendo esquecer o que já sabe. “O sistema de clausura coroa o processo: a escola fecha suas portas para o mundo exterior [..]. As relações da escola com a vida são, portanto, de contrariedade [...] É por omitir o social que a escola pode se converter num dos veículos mais bem sucedidos da educação burguesa; pois a partir desta ocorrência, tornou-se possível a manifestação dos ideais que regem a conduta da camada do poder, evitando o eventual questionamento que revelaria sua face mais autêntica.” (ZILBERMAN, 1985, p. 19). As relações entre literatura e escola possuem aspectos comuns e divergentes. Comuns pois as duas são de natureza formativa e divergentes pois a escola busca transformar a realidade viva e sintetizá-la nas disciplinas. Nesse processo de síntese, interrompem-se os vínculos com a vida atual. Já a literatura infantil sintetiza, por meio dos recursos de ficção, uma realidade que tem amplos pontos de contato com o que o leitor vive cotidianamente. O professor precisa estar consciente dessas questões e trabalhar para que a relação literatura e escola aconteça de forma harmônica. Um dos passos que precisa ser bem construído refere-se a


76 escolha dos textos e a adequação dos mesmos ao leitor. O mais importante que resta disso tudo é que nunca esqueçamos a lição, crianças, jovens ou adultos no mundo das fadas, todos seguimos encantados e felizes para sempre! 3. Imaginado o que foi imaginado O maravilhoso dos contos de fadas faz com que aos poucos a magia, o fantástico, o imaginário deixem de ser vistos como pura fantasia para fazer parte da vida diária de cada um, inclusive dos adultos que já se permitem em muitos momentos se transportar para este mundo mágico, onde a vida se torna mais leve e bem menos operativa. Imaginação s. f. ( lat. imaginatio, imaginationis). 1. Faculdade que permite elaborar ou evocar, no presente imagens e concepções novas, de encontrar soluções originais para problemas. 3. Faculdade de inventar, criar, conceber”. (Dicionário CULTURAL. 1992, p. 604) As situações reproduzidas no conto maravilhoso acontecem num espaço redigido por leis totalmente diferentes daquelas que dominam nosso mundo cotidiano, embora haja uma preferência muito grande pelos bosques e florestas. Quer dizer, neste espaço, onde dominam as leis do sobrenatural e do imaginário, não existem distâncias e os personagens podem deslocar-se com grande facilidade da terra para o céu e deste para o mar. Com isso, o conto maravilhoso pode até introduzir a situação inicial com a famosa frase “Era uma vez, num reino muito distante...”; contudo, num mundo imaginário e sobrenatural, o que menos importa é a localização temporal. Tudo acontece de repente e a duração dos acontecimentos não é cronometrada pelas mesmas unidades temporais que vivenciamos. Por exemplo, se o autor diz ‘dia’, ele está se referindo a um momento sideral preciso que altera o dia e a noite. O tempo é apenas uma paisagem da situação vivida pelos personagens. Num espaço e num tempo assim constituídos, não se poderia esperar que habitassem seres como a gente. Pelo contrário, este é o mundo habitado pelos seres maravilhosos: fadas, magos, bruxas, anões, gigantes, gênios, gnomos, ogros, dragões, duendes

e outros seres criados pela natureza. Todos eles convivem com grande naturalidade e nada que lhes ocorre é considerado estranho. Também não conhecem o processo do crescimento biológico. São crianças e adultos, mas não sofrem a ação do tempo, já que este não existe. A velhice ou a juventude faz parte do caráter do personagem. “No espaço sobrenatural não existe tempo real, tudo acontece de repente e justamente, com total arbítrio do acaso. Os personagens existem, mas não foram criados por leis humanas. São, antes, fenômenos naturais. Por isso são seres encantados”. (MACHADO, 1994, p. 43) Todo conto popular revela uma tendência muito grande para o encantamento: aquelas situações em que ocorrem transformações provocadas por algum tipo de magia, que não são explicadas de modo natural. Há aquele tipo de história em que o encantamento ocorre em qualquer circunstância, pois o elemento mágico está presente em toda parte. Mas há também, um tipo de conto maravilhoso em que as transformações são privilégios de alguns seres encantados, dotados de poderes sobrenaturais. As narrativas mais significativas deste modelo são as histórias dos contos de fadas. São as histórias que, como o próprio nome diz, se concentram nos poderes mágicos das fadas, dos magos ou de algum outro ser dotado de poderes sobrenaturais. “Fadas: são os seres que fadam, isto é, orientam ou modificam o destino das pessoas. Fada é um termo originado do latim fatum, que significa destino”. (MACHADO, 1994. p. 44) Ainda que não se possa localizar no tempo a origem desses seres, a nossa tradição cultural se encarregou de definir as fadas como seres simbólicos, dotados de virtudes positivas e poderes sobrenaturais, concentrados em suas varinhas mágicas. Por isso, elas sempre aparecem nos momentos de grandes conflitos, quando as pessoas pensam que seu destino está tomado por uma fatalidade da qual é impossível fugir. Assim sendo, o conto de fadas torna-se uma manifestação valiosa na representação dos sonhos e dos desejos humanos, os mais profundos e significativos.


77 A professora com a qual realizei a entrevista diz que “o importante é que o maravilhoso acontece no mundo da magia, do sonho e da fantasia, onde tudo escapa às limitações da vida humana e onde tudo se resolve por meios sobrenaturais”. Foi bastante interessante ouvi-la contando sobre a reação das crianças nos momentos em ela conta as histórias, como trabalha com a entonação da voz e como as crianças reagem às situações vividas pelos personagens. Ela contou que é muito fácil perceber as emoções sentidas pelas crianças através de um olhar, de um sorriso, de um olhar de medo e até mesmo pela torcida de que, no final da história, o bem vença e os problemas se acabem e que sejam felizes. Durante o relato, ela também contou: “Tenho observado, no meu fazer pedagógico, satisfação e encantamento de crianças que variam dos 6 aos 10 anos de idade, cada vez que trabalhamos com contos de fadas. Ouvem com atenção, participam, opinam, contam estórias, etc. Através da fantasia, da imaginação, transmite-se à criança, valores que poderão auxiliá-la na sua formação, ajudando-a a superar medos, a enfrentar situações difíceis, enfim encorajando-a para alcançar o equilíbrio”. Após leituras e comentários com a professora fiquei a pensar neste processo encantador pelo qual passa a nossa imaginação; o escritor, ao escrever, trabalha com sua imaginação para que o leitor venha a imaginar aquilo ele escreveu, e talvez o que o escritor imaginou pode não ter nada a ver com o que o leitor imaginou. É incrível o quanto a nossa imaginação é livre; ao ouvirmos uma história ou ao lermos um livro, podemos viajar pelo mundo todo, por lugares nunca vistos, imaginando seres e situações nunca vividas antes. Por meio da imaginação podemos resolver nossos problemas, viver nosso presente, planejar nosso futuro e aprimorar nosso passado. Imagino como é mágica a imaginação das crianças; para elas tudo parece tão real, mesmo no mundo imaginário. Quantas crianças possuem um amigo imaginário, com o qual brincam, conversam, cantam e até mesmo contam histórias imaginadas por elas mesmas. E este se torna um ser “real”, vem a ser uma realidade que vive somente no imaginário da

criança. A professora acrescenta “um conto bem narrado ativa e intensifica toda uma série de experiências na criança, pois através da fala, dos gestos, da entonação da voz, o narrador atribui sentido ao que está sendo narrado”. Comparo a imaginação infantil ao planejamento por meio de sonhos que alguns adultos se permitem passar; a diferença é que, em alguns casos, os sonhos podem se tornar realidade, e isto é o que faz com que a vontade de sonhar continue viva. 4. Hora do Conto na escola A literatura infantil é algo que me encanta, me interessa; seguidamente converso com meus alunos do Ensino Médio sobre a relação que existe entre eles e as histórias infantis. Hoje percebo o quanto eles gostam de relembrar os momentos da infância e o quanto alguns personagem se tornaram inesquecíveis em sua vida. No entanto, considerei imprescindível compreender como se efetiva esse contato pedagógico do professor com a criança e os contos de fada, até mesmo para compreender mais o que os jovens manifestam de lembranças dessas vivências, e para poder disponibilizar este estudo aos professores que desempenham este papel. Decidi-me, pois, por desenvolver uma pesquisa exploratória, analisando a bibliografia pertinente e conversando com uma professora que atua com a Hora do Conto. A pesquisa exploratória é vista como o primeiro passo de todo o trabalho científico. Este tipo de pesquisa tem por finalidade proporcionar maiores informações sobre determinado assunto; facilitar a delimitação de uma temática de estudo; definir os objetivos ou formular as hipóteses de uma pesquisa, ou, ainda, descobrir um novo enfoque para o estudo que se pretende realizar. Pode-se dizer que a pesquisa exploratória tem como objetivo principal o aprimoramento de idéias ou a descoberta de intuições. Através dessa metodologia de pesquisa avalia-se a possibilidade de se desenvolver um estudo inédito e interessante, sobre uma determinada temática. Sendo assim, proporciona maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito. De um modo geral, esta pesquisa constitui um estudo preliminar ou preparatório para outro tipo de pesquisa.


78 O instrumento de coleta de dados que utilizei foi uma entrevista semi-estrutura, a partir da qual apresento uma análise descritiva. A Hora do Conto, nesta escola, é realizada uma vez por semana para alunos de pré à 4ª série. É uma atividade do laboratório de aprendizagem que oferece ainda a visita do “carro da leitura” (biblioteca ambulante que visita salas de aula uma vez por semana). Durante a visita do “carro da leitura”, todas as turmas de pré à 4ª série param outras atividades para poder ler, seja contos ou histórias em quadrinhos. Sempre que possível, a Hora do Conto é realizada de acordo com o projeto que está sendo desenvolvido pelo currículo - contos, histórias, poesias, músicas são apresentados tanto pelas professoras responsáveis pelo Laboratório de Aprendizagem, como também pelos alunos. Algumas vezes, a Hora do Conto é enriquecida com trabalhos em dobradura, colagem, desenho e formação de textos, poesias e dramatizações. Existe também a preocupação com o desenvolvimento da sociabilidade e desenvoltura dos/as alunos/as para se apresentarem em Horas Cívicas e festas comemorativas na escola, através de pequenas dramatizações de contos infantis, danças, músicas ou declamações de poemas. Na conversa com a professora entrevistada, ela comentou sobre a importância do maravilhoso dos contos de fadas que concretiza imagens, símbolos, etc. como mediadores de valores eventualmente assimilados pelos ouvintes; esses valores contribuem e influenciam à formação da personalidade da criança. A capacidade de simbolizar é fundamental para a nossa natureza psíquica e emocional, e é um atributo desejável para um desenvolvimento intelectual pleno, saudável e criativo. A professora acredita que os contos de fadas são a chave para ajudar as pessoas a desembaraçar os mistérios da realidade, e diz que talvez a resposta esteja na linguagem simbólica de que os contos de fadas se revestem, pois está ligada aos dilemas que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional.

Concordo com a professora entrevistada, quando a mesma diz que “Os contos de fadas têm formas diferentes de expressar idéias, mostrando sentidos profundos e inesperados às crianças e as auxiliam a compreender a sua condição humana e a lidar com os conflitos a ela inerentes”, pois os contos de fadas, de uma forma mágica, têm o poder de mexer com os nossos sentimentos mais íntimos e verdadeiros. Por meio deles as crianças se identificam com as situações vividas pelos personagens como se fosse sua própria vida; de acordo com os acontecimentos no decorrer da história, são perceptíveis as reações das crianças. E esses conflitos, vividos por meio do imaginário, são capazes de auxiliar muito no desenvolvimento emocional e humano das crianças, ajudando-as a entender, de forma mais acessível, os acontecimentos de sua vida real. Considerações finais Durante cada leitura que realizei para escrever este artigo mais me encantava e vibrava com cada novas descobertas. Os contos de fadas são enriquecedores e satisfatórios, eles ensinam sobre os problemas interiores dos seres humanos e apresentam soluções em qualquer sociedade. A fantasia ajuda a formar a personalidade e por isso não pode faltar na educação. Durante os estudos, relembrei momentos de minha própria infância: o medo de alguns personagens, como a bruxa; a ansiedade para saber o que aconteceria com a Cinderela no final da história e qual seria o destino da madrasta malvada e de suas filhas. Foi muito interessante, pois hoje todas estas sensações se transformaram em lembranças encantadoras. Percebo também essas sensações quando meus alunos relatam algumas lembranças da infância: observo as expressões do rosto, do olhar, dos gestos... É impressionante como podemos aprender, criar, sonhar, imaginar por meio de nossas leituras e recordações. Por isso, saliento a importância dos contos de fadas e da leitura no desenvolvimento da imaginação infantil: os mesmos contribuem muito na formação da personalidade, ajudam as crianças a entenderem um pouco melhor este mundo que as cercam. Se no processo de ensino se desse uma atenção especial ao emocional que existe em cada uma das crianças, este mundo seria bem melhor!


79 Referências Bibliográficas AZEVEDO, Ricardo. Literatura infantil: origens, visões da infância e certos traços populares. Disponível em http:// www.ricardoazevedo.com/artigo07.htm. Acessado em 17-07-2005. BARCO, Frieda Liliana Morales, RÊGO, Zíla Letícia Goulart Pereira, FICHTNER, Marília Papaléu. Era uma vez ... na escola: formando educadores para formar leitores. Belo Horizonte: Formato, 2001. BETTLLHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. CAGNETI, Sueli de Souza. Livro que te quero livre. Rio de Janeiro: Nordica, 1986. COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000. DOHME, Vania. A atividade lúdica como mídia educacional.... Disponível em http://www.uebdf.org.br/artigo0.asp?art=11, acessado em 17/07/2005.

FACHIN, Odília. Fundamentos de metodologia. – 3.ed.- São Paulo: Saraiva, 2001. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. – 3. Ed.- São Paulo: Atlas, 1991. MACHADO, Irene A. Literatura e redação. São Paulo: Scipione, 1994. SOSA, Jesualdo. A literatura infantil. Literatura Infantil: autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1982. ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 1995 ====================== Juliana Boeira da Ressurreição, pós-graduanda do curso de Novas Abordagens em Língua Portuguesa e Literatura da Língua Portuguesa -Faculdade Cenecista de OsórioFACOS/RS Orientadora Profa. Dra. Cristina Maria de Oliveira Fonte: www.monografias.com

João Justiniano da Fonseca Poesias A BELEZA DA VIDA

A MORTE DO SONHO

A beleza da vida está na própria vida, nas flores do jardim, no fruto do pomar. No amanhecer do dia, o sol vindo do mar, ou da várzea, da serra - eterno na subida.

Era o sustento e a crença, a fé, o arrimo em que me equilibrava para a luta. Veio a ser desespero e dor - cicuta que a esperança levou à morte e ao limo.

A beleza da vida está no conjugar os rios, a floresta, e a comprida avenida... Pista e velocidade, os pneus a rolar! Ou, no espinho e na rosa? Ou na idade vivida?

Assim mesmo o bendigo - ao sonho ardente que, infinito, vivemos cem por cento e ao ocaso passou. Gemia o vento quando o sonho descia no poente...

A beleza da vida – o homem no trabalho, no campo ou na cidade. A enxada. A pena. O malho. Mover de sonho e fé, de luz, de cabedais.

Hoje, que tudo foi, direi apenas, que as tuas rosas, dálias e açucenas, murchas, guardei-as com o maior carinho...

A beleza da vida – o todo na impulsão de tudo que se move. O amor, o coração... O destino da paz, a paz. A íntima paz!

Morreu, morreu! Vamos adiante, eu me erga, ator no palco da tragédia grega busque outro sonho, siga outro caminho...


80 AS PLANTAS DO SERTÃO É um milagre do Eterno; não sei de onde vem, a potente força com que vinga a planta no Sertão, por mais que a ronde e roa, da canícula a língua! O umbuzeiro sagrado, na caatinga, alarga, entrança e reentrança a fronde, para se proteger do sol; e à míngua da chuva, a água na raiz esconde. Macambira, umburana, xiquexique, têm as raízes ou o caule aquosos, para que o sol não os seque e mumifique. Em outras plantas, troncos mal porosos, pode ser que a dureza justifique a resistência aos raios venenosos. CORAÇÃO DO VELHO O coração do velho é a mansidão do lago, a angústia do passado, a lembrança do sonho... Roída pelo tempo, é uma raiz, suponho, exposta, ressequida, à procura de afago. O amor que se lhe dê, pesa tanto em conforto, que sendo uma migalha, é por milhões que vale... Se quer vê-lo feliz, do futuro lhe fale, se quer vê-lo sofrer, lembre o passado morto... Consente em rir e é sol, tão só porque lhe apontem a gota de ilusão que a velha angústia acalma, chora o belo perdido, as mágoas que se contem... O coração do velho é a sensitiva da alma, que marca desolada e triste, o riso do ontem, tem lembrança e não fé, já não espera a palma... O ESQUECIMENTO Não dá para esquecer: Um sonho. Nos seus braços Corria mansa a vida. O amor de adolescente Ensejava a esperança e a fé. Primeiros passos De um mundo idealizado – o futuro da gente. Eu e você. A casa erguida na colina No mais alto do topo. A fonte. O minadouro. Um córrego descendo. A água cristalina Banha meu corpo e o seu. Aqui nosso tesouro. Vem o primeiro filho, agora somos três.

As vacas no curral. As cabras. As galinhas. Crescia a vida. O tempo andava mês a mês. E fomos quatro, cinco... O tempo, ano a ano Levou a mocidade. Os filhos e as vizinhas... De nós o esquecimento, em nós o desengano... O TECELÃO DA VIDA O tempo tece a vida fio a fio, sem pressa e sem recuo na memória. Como o curso das águas, vão, em rio, um para o mar, o outro para a história. Não pára o tecelão. A sua glória, é a força do tear. E, como em cio, a si se soma subtraindo a escória. Ao fim da era é fósforo e pavio. Explode em chamas ou submerge, ou oculto, sobe ao espaço aéreo e aí se planta por milênios sem pôr à mostra o vulto. Renasce na pesquisa e se suplanta. É o passado remoto. Cresce, e adulto, às novas gerações empolga e espanta.

João Justiniano da Fonseca (1920) Poeta e ficcionista, com incursões na historiografia e na biografia. Nasceu em Rodelas, Estado da Bahia, a 30 de junho de 1920, filho de Manoel Justiniano da Fonseca e Eufrosina Maria de Almeida. Servidor Público, João tem um longo percurso de trabalho. Serviu ao Exército Nacional entre 1940 e 1944, tendo aí realizado o curso de formação de graduados - sargento. Preparou-se para a vida por via de cursos intensivos, para realizar concursos públicos. Nesses cursos estudou, além da matéria de conhecimentos gerais, matemática, contabilidade geral e pública, geografia, voltada especialmente para informações sobre portos marítimos e fluviais, direito tributário, direito administrativo, direito comercial, direito civil e direito penal na área de crimes contra a administração pública. Tem aprovação nos concursos públicos então realizados pelos extintos - Departamento


81 Administrativo do Serviço Público (DASP) e Departamento Estadual de Serviço Público (DSP\BA), para Escrivão de Coletoria Estadual (Bahia) Fiscal de Rendas do Estado (Bahia), Escrivão de Coletoria Federal e Agente Fiscal do Imposto de Consumo, cargos reestruturados com denominação outra. Exerceu, por concurso público, os cargos de Auxiliar de Coletoria Federal, Escrivão de Coletoria Federal e Agente Fiscal do Imposto de Consumo, correspondente, na atual nomenclatura, a Auditor Fiscal da Receita Federal. Em comissão, passou pelos cargos de Inspetor de Coletorias Federais, Fiscal do Selo nas Operações Bancárias, Inspetor Fiscal do Imposto de Consumo e Inspetor Fiscal de Rendas Internas na área federal; Assessor Técnico de Planejamento na área estadual (Bahia) e Diretor Administrativo Financeiro da extinta COHAB/SALVADOR, na área municipal. Aposentou-se como Auditor Fiscal da Receita Federal com redução de tempo de serviço, como participante de operações bélicas. Nomeado posteriormente para o cargo vitalício de Conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia, renunciou a aposentadoria federal para exercer o novo cargo, no qual veio a aposentar-se em 1990, encerrando, então, sua carreira no serviço público. Exerceu, ainda, o mandato eletivo de Prefeito de sua terra natal no período 1967/1971 e posteriormente o mandato de vereador. Obra Literária: Safiras e Outros Poemas (poesia lírica), Sonhos de João (poesia lírica), Brados do Sertão (poesia épico-social), Sonetos de Amor e Passatempo, Rio Grande do Sul (poesia vária).

Luiz Rogério de Sousa - Educador Emérito (resumo biográfico e coroa de sonetilhos), Cacimba Seca (romance), Terra Inundada (romance), Grilagem (romance), Aquele Homem (romance), Rodelas - Curraleiros, Índios e Missionários (história da colonização na região das corredeiras do Rio São Francisco), Sertão, Luz e Luzerna (contos), Cantigas de Fuga ao Tédio (poesia lírica), Memórias de Pedro Malaca (romance). É editor da Revista da POEBRAS SALVADOR, no 4o número em 2002. Instituições culturais a que pertence 1 - Academia Rio-grandense de Letras, acadêmico correspondente; 2 - Academia Goianiense de Letras, cadeira nº 47; 3 - Academia Petropolitana de Letras, sócio correspondente, cadeira nº 103; 4 - Academia Petropolitana de poesia Raul de Leoni, sócio correspondente; 5 - União Brasileira de Trovadores, seção de salvador; 6 - Casa do Poeta Rio Gradeasse - C.A.P.O.R.I., sócio correspondente nº 761; 7 - Clube baiano de Trova - CBT, sócio efetivo nº 12; 8 - POEBRAS - Casa do poeta Brasileiro em Salvador, presidente e editor da revista. É verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho, 1990 e 2001, verbete no Dicionário de Poetas Contemporâneos, de Francisco Igreja, 2a edição, 1991. Fonte: http://www.joaojustiniano.net/

Leon Eliachar A Outra Amâncio tinha outra mulher. Toda a vizinhança sabia, menos ela, Iracema, que era a verdadeira. Chegara a duvidar se a mulher verdadeira é a que é

casada, com juiz de paz e tudo direitinho, ou se é a outra, que aparece sem mais nem menos e toma o marido das outras. Sempre fora uma boa esposa,


82 econômica, doméstica, não era dada a extravagâncias — no fim deu nisso que todo mundo dizia. Não sabia até que ponto um homem pode fingir dentro de casa, sem que a mulher perceba. Amâncio continuava, aparentemente, o mesmo homem. Em casa não faltava nada, nem mesmo carinho. Talvez fosse veneno das amigas: — Deixa de ser boba, você não quer acreditar porque é ingênua. Todo mundo sabe que seu marido não é fiel. Segue até mulher na rua. Uma amiga mais íntima chegou a dizer frontalmente: — Não tenho nada com a sua vida, só lhe digo isso porque somos amigas há mais de doze anos. Mas o seu marido tem outra mulher. E digo mais: se você bobear, ele vai trocar você pela outra. Iracema não queria dar ouvidos. Sempre viveu bem com o marido, não era agora que ia dar trela pras fofoquices dos invejosos. “É despeito de quem fala”, pensava consigo mesma. Mas no íntimo, muito lá no íntimo, não se mostrava assim tão conformada.

Ouviu dezenas de casos, todos semelhantes. Não agüentava mais ouvir as histórias das outras, sempre atribuídas a uma amiga ou uma conhecida. Nunca era com elas mesmas. — Vivo muito bem com o meu marido, mas se isso que está acontecendo com você fosse comigo, não sei não. Iracema não resistiu à pressão. Uma tarde, bateu o telefone pra uma agência dessas que resolvem problemas: “Serviço rápido e eficiente, mantendo completo sigilo”. Nem sequer deu o seu nome, inventou um qualquer, o próprio detetive disse que assim era melhor, que a agência não fazia questão, pra inspirar mais confiança. — Às oito está bom? — Não, senhor, às oito meu marido está em casa. Prefiro às quatro. — Qual o endereço, por favor? — Prefiro num lugar distante da minha casa.

— Que é que posso fazer? — Compreendo, minha senhora. Até o porteiro do edifício já olhava pra ela como se ela fosse uma boboca, passada pra trás pelo marido. Talvez até ele estivesse levando algum pra ficar na moita, mas o seu ar zombeteiro, quando ela o cumprimentava, já estava atravessando os limites da sua paciência. Os tormentos não paravam: — Faz macumba, sua boba. Ela fez tudo que podia fazer: macumba, prece, cartomante, pitonisa, promessa, nada deu certo. Chegou ao cúmulo de dar trotes pelo telefone e de fazer ameaças com cartas anônimas. Estava se sentindo ridícula ante a certeza dos outros e a sua dúvida. Por mais que quisesse se afastar da idéia de que o marido a traía, os boatos e os cochichos acabaram vencendo e trazendo à tona o seu amorpróprio. Era preciso tomar uma atitude e só tendo provas concretas poderia ter coragem pra falar com o marido. — Põe um detetive atrás dele. Uma vez aconteceu isso com uma conhecida minha e. . .

— No barzinho Lagoa, que ele nunca passa por lá. — Combinado, às quatro em ponto. Como é que a senhora vai vestida? — Bem simples. Uma saia cinza e uma blusa branca, com um broche do lado esquerdo. — Perfeito. Eu vou de terno cinza. Iracema foi viva, achou melhor ir toda de verde, pra despistar. Às quatro em ponto, lá estava ela, tomando um guaraná, quando entrou o marido: — Você aqui, Amâncio? Ele puxou uma carteirinha do bolso: — Nunca lhe disse nada, mas nas horas vagas sou detetive particular. E começou a bronca:


83 — E você? Que é que está fazendo aqui a esta hora da tarde? Iracema não teve saída. Voltaram discutindo o caminho todo, ele acusando, ela se defendendo.

Fonte: ELIACHAR, Leon. A mulher em flagrante. Círculo do Livro. Digitalizado, revisado e formatado por Susana Cap

Jacy Pacheco Poemas AMBIÇÃO DO PINGO D'ÁGUA

e as rosas se abrirão todas vermelhas.

A noite esqueceu no côncavo de uma folha vizinha de um riacho, um pingo d’água.

Mas chegarás! E extirparás a tirania e todos os princípios egoístas. E as máquinas da paz revolverão o solo redimido pelo sangue de irmãos idealistas.

Veio o sol como uma rosa grande ardendo em febre envolveu a pequenina gota num punhado de cores. Pingo d’água acordou, olhou para baixo, gostou do riacho... Sonhou ser assim, ser riacho também...

Primavera do mundo, eu te entrevejo numa nesga de sol recém-nascido, anunciando o bem dos homens livres, a vitória do amor, do ideal fecundo! Aguardo o teu instante triunfal primavera do mundo! O ATEU

E correr, e crescer, ir além... ser um rio bem grande, maior do que ninguém... veio o vento de repente e desgarrou da folha o pingo d’água. Pingo d’água morreu. Pingo d’água perdeu-se no riacho. Pingo d’água sou eu.

Era médico e jovem. Dizia impropérios ao Deus que adoramos: - Terra e mar, sol e sal, penedia, vales, rios, e peixes, e ramos, são produtos do acaso. Eu queria defrontá-lo onde está, onde estamos. Se existisse, por certo O veria. Ora, Deus! Na ciência creiámos! Mas, um dia, se viu a tratar de seu filho... Que esforço gigante! Tudo fez na aflição de o salvar!

PRIMAVERA DO MUNDO Primavera do mundo, tu virás! Talvez não venhas na tranqüilidade de um dia claro e musical. Trarás as mãos ensangüentadas

E, prevendo-lhe o último adeus, o doutor, a buscar céu distante, suplicou: - Ajudai-me, meu Deus!


84 publicação dos poemas "Planície" (1939) e "Bancário, Misérias de Uma Profissão" (1942).

CONFORMISMO Lembrar é bom... Já não me abraso ao suscitar recordações: glórias colhidas ao acaso e as mágoas, Vida, que me impões!

Em 1955, publicou suas memórias do primo famoso (seus avós são irmãos), às quais se somaram as de Hélio Rosa, irmão de Noel, que na época morava com Jacy em Niterói. Trata-se da primeira biografia em livro de Noel Rosa. A boa recepção pelo público incentivou-o a lançar um segundo volume, O Cantor da Vila, em 1958. Publicou ainda um terceiro livro (de bolso) sobre o cantor, A Vida e os Amores de Noel Rosa. João Máximo e Carlos Didier, ao escreverem Noel Rosa: Uma Biografia, considerada a mais completa biografia sobre Noel, usaram os livros e o testemunho de Pacheco como base. Em seu Noel Rosa e sua Época acha-se o único registro sobre o encontro do compositor com Sinhô, em 1926.

Uns me trataram com descaso, ungiram-me outros de atenções. E mergulhei no meu ocaso de frios sonhos e paixões... Lembrar, após longa jornada... Sustar um pouco a caminhada. revendo a etapa percorrida... Lembrar é bom.., deixando em paz glórias e mágoas para trás, para aceitar melhor a vida.

Jacy Pacheco (1910 – 1989) Jacy de Freitas Pacheco (Duas Barras, 27 de novembro de 1910 — Niterói, 13 de julho de 1989) foi um bancário, escritor e poeta brasileiro. Era primo de Noel Rosa. Jacy Pacheco passou sua juventude em Campos dos Goitacazes. Estudou pistom no Colégio Salesiano de Campos e trabalhou na Casa Pratt, loja onde vendiam-se máquinas de escrever e pianos. Foi ali que Pacheco aprendeu informalmente a "tocar teclados", e ganhava alguns trocados acompanhando ao piano a exibição de filmes (mudos) no cinema local. Foi o autor de músicas e letras jamais gravadas, e só começou a ter reconhecimento artístico com a

Obras • Noel Rosa e sua Época, Rio, G.A. Pena Editor, 1955 • O Cantor da Vila, Rio, Minerva, 1958 • A Vida e os Amores de Noel Rosa (s/d) • Planície, poemas, Rio, Pongetti, 1939 • Bancário - Misérias de Uma Profissão, romance, Rio, Editora Getúlio Costa • Quando a Primavera Chegar, poemas, 1950 • Quatro Caminhos, com Cid Andrade, Celio Grunewald e Lourival Passos, poemas, 1951 • Éramos Dois, poemas, Rio, Minerva • Paisagem Fluminense, Niterói, Imprensa Oficial, 1969 • Itinerário, poemas, Niterói, INDC, 1973 • Haicais, poemas, Rio, Cultura Contemporânea, 1981 Fonte: Wikipedia J.G . de Araujo Jorge. Antologia da Nova Poesia Brasileira- 1a ed. 1948

Nilton Manoel Haicai – O Poema de Três Versos Aproveitei-me deste final de semana chuvoso, para colocar em ordem minha estante de arte-poética, separando os volumes que me servirão de ponto de

referência no correr deste ano ímpar. Em meio desta tarefa encontrei o “Itinerário” – livro de autoria de Jacy Pacheco, premiado em 1.972, pela secretaria


85 da Cultura,Esporte e Turismo da Guanabara e, editado no ano seguinte elo Instituto Niteroiense de Cultura. O volume foi-me ofertado pelo autor, durante a minha estada em Nova Friburgo –RJ, participando dos Jogos Florais da localidade. O Itinerário tem 66 páginas, sendo que 51 estão divididas entre trovas, sonetos, poemas e haicais. No verso de uma das páginas de apresentação, encontrei um haicai de Luiz Antônio Pimentel; “ Que é um haicai? É o cintilar das estrelas, Num pingo de orvalho!” Daí resolvi envolver-me um pouco mais neste poema e parti para a mineração da arte indo até Hêni Tavares ( Teoria Literária, Ed. Itatiaia, BH,1971) onde consegui a afirmação de que “ poema é o nome gerérico de toda composição com intenção poética”. Folheando Aurélio B. Holanda encontrei: “ Haicai – poema japonês formado de três versos dos quais dois de cinco sílabas e um ( o 2º ) de sete sílabas poéticas. Além, na Antologia Luso Brasileira de Wagner Ribeiro- FTD, Adelino R. Ricciardi (irmão do Sílvio Ricciardi, da ARL) diz-me que Guilherme de Almeida jurava que esse gênero tinha sido criado especialmente para nós. Eis um exemplo: “ Noite. Um silvo no ar; Ninguém na estação. E o trem passa sem parar” ( Guilherme) Na mesma antologia, em crônica extraída do jornal dos Municípios, 1959, Altino de Castro informa que, coube a Guilherme de Almeida, a introduzir rimas (1º e 3º) na composição. Adiante escreve: “ Quando foi eleita em Long Beach, miss Universo, a japonesa Akiko Kojima – nome que significa “ alegre pequena ilha, eu me lembrei que não existia melhor modo de homenageá-la, do que compondo, à feição do Oriente, um colar de haicais, para o seu lindo pescoço pagão”. Do colar prendo-me em duas das sete contas: “Agora são ricos quimponos, leques, o sonho, os olhos oblíquos...” “Na concha do verso alegre pequena ilha, o sol do Universo.”

Voltando ao Itinerário de Jacy Pacheco releio alguns deles com rimas ou sem elas: “Livre é o pensamento, é porém à flor dos lábios pássaro detento”. No exemplo acima o primeiro verso rima com o terceiro e, neste outro, há rima paralela no primeiro com o segundo verso: “ Com sabedoria, tu pouparás alegria, para as horas más”. Já este outro não tem rimas: “ Lagartas e tanques, apagam sulcos de arados e semeiam sangue”. Finalmente, no Pequeno Dicionário de Arte Poética de Geir Campos, entre os 618 verbetes, encontro uma definição mais ampla:”Haicai – tipo de poema japonês (Hokku) de forma fixa, formado de 17 sílabas, distribuídas em três versos ( 5-7-5) sem rima como toda poesia nipônica. Em princípio, o haicai deve sugerir uma das estações do ano, e o gênero foi imortalizado por Bachô. Na segunda metade do século XVII. No Brasil Guilherme de Almeida, houve por bem fazer rimarem os versos 1 e 3 e introduzindo a rima leonina no segundo, como este exemplo do livro Poesias Várias: “ Uma folha morta, um galho no céu grisalho. Fecho a minha porta”. O verso leonino, como o segundo deste haicai, é o que tem rima nos hemistíquios ou nos membros métricos. Sendo o haicai pequeníssimo poema, o poeta se obriga a um grande poder de síntese para que dentro dessa forma possa revelar com originalidade, mensagem poética que cative o leitor e, perpetue-se através dos tempos. -------------------------DIARIO DA MANHÃ 6/1/83 Fonte: O Autor


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João Justiniano da Fonseca Haicais 1 É ter paciência Para deixar que a tormenta Ceda à calmaria. 2 Reabrindo o sol A gente tem segurança E pode voar. 3 Jamais espera A dependência da terra, Da água e do sol. 4 Quero crer que a sorte Não nos dispensa o trabalho Que oferece o pão. 5 Tenho sempre em mente Que chuva, sol e semente Dão sustento a vida. 6 A prosperidade Sempre acompanha o trabalho Se este é inteligente. 7 Nenhum luxo vale Se falta a mulher amada, Que preenche a vida. 8 O lar sem mulher Vem a ser quatro paredes De prisão e fel. 9 Ora, meu amigo, Não faz mal bater a cara, Se fica a lição! 10 Acerca da vida Foi o tempo que ensinou Tudo quanto sei. 11 No jogo da vida A inteligência só vence

Se mantém a calma. 12 Levanta com o sol Estica as pernas, caminha, Para ser longevo. 13 Os deuses do sonho Fazem parelha comigo No vôo infinito. 14 É sábia a manhã. Caminha o dia inteirinho, Descansa à tardinha. 15 Já sei. Demorou. Mas aprendi direitinho! A insônia é um grilo. 16 Que coisa fatal! O mundo sempre desaba nas costas do pobre?... 17 Meu grande inimigo Tem sido o excesso de papo. Amigo? O silêncio. 18 Se o bem que te faço Me pagas em inversão, O mal não é meu. 19 Quem põe cobra em casa, Pode esperar que algum dia Recebe a picada. 20 A luz do arrebol Batendo sobre a semente, Muda o sol em planta. 21 Vidrada no brilho E na ovação das platéias, Esqueces de ti... 22 Exercito a mente


87 pensando e compondo haicais, sem pressa nenhuma. 23 A morte do sonho é o pior dos tormentos do homem, suponho. 24 Tenha firme o leme, e deixe, que o barco vá, aos ventos do sonho... 25 Cuidado, que a intriga, da mulher não te conduza da amizade à briga! 26 Quem lamenta a dor De não ser o bem amado, Mata o próprio amor. 27 Se o ódio atrai ódio, E a maldição maldição, O perdão perdoa... 28 Quem pensa que a vida É o simples hoje e o agora, Não ganha a partida. 29 O fulgor dos olhos Sendo azul verde, céu mar, Tem brilho de estrelas! 30 Eu queria ver A Providência Divina Dando espaço a todos. 31 Que o diabo invente Coisa pior que política, Eu estou por ver. 32 Foi superciente quem inventou a ilusão que segura a gente. 33 Morrerás de mágoa, Se o que queres é a igualdade, Antes de alcançá-la. 34 O pão que te sobra, com certeza está faltando à mesa de alguém. 35 Repare a formiga,

Depois o boi e o elefante. Que é o homem, me diga? 36 Por que isso agora? Levantar de madrugada, Escrever haicai? 37 Dois dedos de prosa, um de mel, três de cachaça, espírito forte. 38 A poça de sangue é uma faixa colorindo o negro do asfalto. 39 Quem quer que ofereça, exatamente por isso um dia recebe. 40 Um guarda, o apito, atrito de ferros, gritos a morte anda solta. 41 Solta a brida, as rédeas, deixa o ginete ir à frente. A vitória ou a morte. 42 Só um grão de areia bastará a quem pretenda construir seu mundo. 43 A erva daninha na roça do preguiçoso acabou com tudo. 44 Se tens a verdade, falarás só, ninguém mais. Outro, para quê? 45 O tempo que passa encarquilhando meu rosto, é igualzinho a traça. 46 Assim como o sol pertence a todos os homens, a terra também. 47 O que dói no outro, se fosse em você doeria muito mais que nele. 48 Toda sina é boa


88 se lhe ajuda o portador a vencer o mau. 49 Não maldigo a sorte, mas trabalho, sonho, espero sem pensar na morte. 50

Quem muito conversa, acaba não tendo tempo de pensar em si. Fonte: http://www.joaojustiniano.net

Vicência Jaguaribe A Decisão Não valia a pena ficar batendo boca. Ela via o mundo de maneira diferente. Tinha uma vida para fora. Tinha outra vida para dentro. A vida para fora, ela a vivia de acordo com as normas sociais e com os valores da família. A vida para dentro, ela a vivia seguindo suas próprias leis. O diabo era quando essas duas vidas se chocavam. Abria-se um campo de batalha. Mas ela sabia que logo logo precisaria decidir. O conflito maior ela travava com o noivo, que desejava casar sem demora. Era juiz em começo de carreira, fora nomeado para uma cidadezinha nos confins do estado e queria assumir a comarca já com a esposa do lado. Ela terminava o Curso Médio e queria ingressar na universidade. Mas, pelo que estava vendo, era uma coisa ou outra. Gostava do noivo, isto é, gostava de conversar com ele, de estar com ele, mas não sentia a paixão de que as amigas falavam. Nem se imaginava em uma cidadezinha do interior, limpando a casa, cozinhando para o marido e, um pouco mais adiante, cuidando de filhos. Quando via uma família feliz – pai, mãe e filhotes –, arrepiava-se. Não. Não nascera para isso. Podia até ser que, mais adiante, encontrasse alguém com quem pudesse dividir alguns momentos da vida. Dividir a vida toda, não, muito menos a casa. Seria cada um no seu muquifo. Mas o namorado tinha pressa, e os pais – meu Deus! – não admitiam nem em sonho que rejeitasse aquele partido. Partido! Por que chamam as pessoas casadouras de partido? O bom e o mau partido! Pelo que ela sabia, essa palavra se originara, por derivação imprópria

ou conversão, do adjetivo partido, isto é, algo quebrado, fragmentado, que se dividiu em partes. Vem a palavra da fonte latina – part/us, que significa “que partilhou, que tomou o seu quinhão”. Isso pode querer dizer que em um casamento os cônjuges devem partilhar tudo: o material e o imaterial; o que é bom e o que é ruim. Mas pode significar também que devem tomar para si parte do outro. Não, ela não queria dividir-se como se divide um espólio, para que alguém se tornasse dono de uma parte do seu ser. Ela se queria inteira, para tomar suas decisões, para resolver o que fazer de sua vida. Fora criada ouvindo que o destino da mulher é o casamento. É a procriação. Uma mulher sem marido e sem filhos é uma mulher incompleta. Ela não pensava assim. É verdade que não desejava viver sozinha, mas ainda não era hora para tomar uma decisão tão radical. Acabara de completar dezoito anos e ia prestar vestibular, disputando uma vaga no curso de História. Tinha certeza de que seria aprovada. Aí, então, largaria tudo, para casar e morar longe dos centros intelectuais? Para que, então, estudara tanto, dedicara-se tanto aos livros. Não fazia sentido. A mãe já dissera que, se ela decidisse pelos estudos e despachasse o noivo, teria que arranjar um emprego para se sustentar enquanto fizesse a faculdade. Contasse somente com casa, comida e roupa lavada e engomada. Mais nada. A mãe apostava no seu gosto por roupas e sapatos caros, na sua ânsia de comprar, principalmente livros e discos. Jurava que ela não seria capaz de renunciar à vaidade, à vida fácil; trabalhar e privar-se das coisas de que gostava. Mas a mãe se


89 enganava. Mostraria aos pais que tinha um objetivo na vida, que desejava crescer como pessoa, por seus próprios méritos. O casamento ficaria para depois. Queria falar com o noivo pessoalmente. Não lhe daria a notícia por carta nem por telefone, por isso esperou que ele fizesse uma de suas viagens periódicas para visitar a família e revê-la. Por mais que temesse sua reação, preferia falar cara a cara. Sabia que ele sofreria, pois sempre a amara muito. Tinha certeza de que ele tentaria o impossível para dissuadi-la. Mesmo assim, preferia enfrentá-lo. E tiveram a conversa definitiva. A reação do rapaz foi surpreendente. Parecia até que já aguardava aquele desfecho. Agiu como se ela fosse mais uma namoradinha de fim de semana, com quem não tivesse nenhum compromisso mais sério. Desejou-lhe boa sorte nos estudos. Deixou-a perplexa, mas ao mesmo tempo tranquilizada. O problema a enfrentar não seria tão grande quanto pensara. Teria que entender-se somente com os pais. Mas no fundo achava que a reação dele não fora normal. Havia alguma coisa de que ela não sabia naquela história. Ah! se havia!

Não foi surpresa nem para ela nem para ninguém sua aprovação no vestibular. Também não foi surpresa para ela – mas só para ela – a notícia de que ele estava de casamento marcado com a filha única de um fazendeiro rico da região. Bem que desconfiara de que havia alguma coisa por trás daquela sua reação, melhor dizendo, da sua falta de reação ao fim do compromisso com ela. Dizer que ela não sentiu nada quando soube seria mentir. Sentiu, sim, uma leve mordida em seu amor próprio, mas foi coisa de momento. Logo mergulhou de cabeça nos estudos, conheceu gente nova, fez amizades e sentiu que tomara a decisão certa. Logo se engajou em pesquisas e assim que o tempo permitiu candidatou-se a uma bolsa de iniciação científica, que lhe rendia algum dinheiro todos os meses. Lembrava-se do ex-namorado? Cada vez menos. E, sempre que isso acontecia, a lembrança vinha acompanhada de uma sentença que ouvira muitas vezes de uma pessoa da família: Coração de homem é terra que ninguém pisa. Fonte: Texto enviado pela autora

Roberto Pinheiro Acruche Meus Poemas no 8

ELA E A JANELA Continuamente eu ficava olhando para a janela, na esperança que ela ali viesse chegar. E quando chegava, a janela a emoldurava; enquanto eu, distante, fitava sua figura encantadora. O coração sorria tomado de alegria de vê-la, como queria, radiante e feliz. Era um quadro admirável

uma escultura notável, lindo momento de amor! Assim, era a cada dia os nossos encontros! Não via à hora, de pertinho ouvir a sua voz, afagar as suas mãos, sentir as batidas de seu coração. Queria senti-la num abraço... E isso, não aconteceu por mais que almejássemos... Nossos encontros marcados, só eram realizados, quando ela, divinamente... bela... Postava-se, naquela janela!


90 que estava sobre a escrivaninha e comecei a escrever, no bloco que estava ao lado, a carta de despedida.

PERCEPÇÃO Sinto alguma coisa indeterminada, agitando-me, querendo ser exposta, sem que eu compreenda e saiba como agir.

Havia tomado uma decisão! Um amor de tantos anos, vivido com tamanha intensidade, com total cumplicidade, estava nos seus derradeiros momentos.

É uma sensação incômoda, perceptível, complexa. Quero olhar para fora, mas o que adianta... se o que sinto permanece por dentro, na alma!

A impressão, é que seria eterno, indissolúvel, inquebrantável... Mas acabou! Sim... acabou definitivamente... Não dava mais para continuar.

PASSARINHO Passarinho bate asa Cantarola e faz o ninho Do amor vêm os ovinhos Ampliando a criação... Com esmero incomum Sustenta os filhotinhos De biquinho a biquinho Perpetrando a alimentação. Passarinho que bate asa Que nunca abandona o ninho Até que os filhotinhos Batam azas e gorjeando Saiam por aí voando Construindo novos ninhos Ampliando a criação...

Porém, mais difícil que acreditar era iniciar a missiva. Rasguei a primeira folha... Rasguei a segunda, e adentrei a madrugada desfolhando o bloco sem conseguir dar início ao texto que pudesse explicitar a razão. No alvorecer, na última folha, em estado dúbio,sem saber começar, escrevi apenas... Não sei o que dizer... PONTO FINAL. Fonte: Colaboração do Poeta

PONTO FINAL Apanhei a caneta,

Folclore do Brasil ALAMOA Belíssima mulher, loura, misteriosa, olhos neons, que podem ser verdes ou azuis, cabelos lisos e compridos, vestida numa túnica muito transparente que chega quase a tocar o chão.

Assim a chamam porque loria é “alamoa” (alemã) para os habitantes de Fernando de Noronha, onde ela reside, nos altos picos dessa ilha.


91 À noite, surge nas praias, às vezes dança, nua, iluminada pelos raios que coincidem com sua aparição. Deslumbra, fascina, enche de desejo os desavisados que com ela se defrontam – e de medo os pescadores que já a conhecem e dela correm, espavoridos, pois o apaixonado que ao seu namoro não resiste e se põe a segui-la, nunca mais é visto. Dizem que a Alamoa atrai com seu fascínio os que por ela se apaixonam, guiando-os para os picos da ilha, onde se transforma numa medonha caveira. (A ela já se referiram como “lenda da Alamoa” e como “mito da Alamoa”, cf. “Alamoa”, Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Casculdo.) ANA JANSEN Assombração de uma mulher deformada pelo fogo que aparece de madrugada nas ruas de São Luís do Maranhão, conduzindo velozmente uma carruagem em chamas, puxada por enormes cavalos sem cabeça. Conta-se que, quando viva, foi uma perversa mulher que sentia prazer ao fazer seviciarem seus escravos. Ela mandava arrancar os dentes e as unhas de crianças, filhos de escravos, que visse apanhando frutas em seus pomares. Ordenava que açoitassem cruelmente os escravos, às vezes por nenhum motivo. Tendo em vista uma das distinções entre mito e lenda, segundo a qual esta última seria mais localizada – não obstante a dúvida quanto à extensão territorial que um ou outra precisa alcançar para ser classificado como tal ou qual – atrevemonos a dizer que se trata de uma lenda a história de Ana Jansen, pois na bibliografia consultada dela não encontramos referência; tomamo-lhe conhecimento por meio de informantes maranhenses por ocasião do Festival do Folclore de Olímpia/SP, realizado anualmente, em Agosto. ANHANGÁ Mito geral no Brasil, o Anhangá é criatura assustadora, um grande veado cujos olhos são lança-chamas. Ele representa um grande pesadelo para os caçadores, que, quando com ele se defrontam, ao tentarem baleá-lo, vêem seus tiros serem desviados em direção a entes queridos e pessoas amigas.

Sua fúria contra os caçadores se amplia quando as vítimas são animais lactantes ou filhotes que ainda precisam ser amamentadas. Conta uma lenda que um índio perseguia implacavelmente uma veada que amamentava seu filhotinho, tendo sido este gravemente ferido por uma certeira flechada, e depois seguro pelo caçador, que a torturava, atrás de uma árvore, para atrair a veada com os gritos do filhote. Caindo na emboscada, o animal é trespassado por uma mortífera flecha do índio. No entanto, ao contemplas sua presa, o índio, desesperado, viu-se vítima de uma ilusão engendrada pelo Anhangá. Era o corpo de sua mãe. ARRANCA-LÍNGUA Macacão gigante que atacava os gados em Goiás, matando-os a murros e arrancando-lhes somente a língua, com a qual se alimentava. Câmara Cascudo informa que a imprensa goiana, carioca e mineira registraram esse mito em várias matérias sobre os assombrados depoimentos de fazendeiros. Regina Lacerda o catalogou como lenda em “Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso”. BARBA RUIVA Piauiense dos mais famosos, o Barba Ruiva é um homem encantado, de barba e cabelos ruivos, alto, viril, muito branco, que faz morada na Lagoa do Paranaguá, onde teria sido jogado ao nascer, e salvo por uma mãe d´água, diz a lenda. À margem da já mencionada lagoa, costuma ser visto a repousar, quando da água se farta, despertando a curiosidade das mulheres que lá vão lavar roupa – a cujas perguntas não responde. Quando dele se aproximam percebem que, fora da água, sua barba, unhas e peito estão em brasa. Correm, então, assustadas, enquanto ele as persegue querendo abraçá-las e beijá-las.


92 À vista disso, nenhuma mulher lava roupa sozinha às margens daquela lagoa. Algumas gotas de água benta na cabeça do Barba Ruiva poderiam quebrar seu encanto. Mas, apesar de ser ele inofensivo, ninguém ainda teve coragem. (Registrado como mito e como lenda) BICHO-HOMEM Outro gigantesco antropófago, de um olho só, e que também só tem uma perna, cujo pé tem forma redonda, deixando pegadas que lembram o fundo de uma garrafa. Pode derrubar até uma montanha com seus possantes murros e é capaz de beber um rio inteiro. Vive oculto nas serranias. Mito corrente, em variantes, em quase todo o Brasil. Muito se confunde com o chamado Pé-de-Garrafa. Alguns autores, aliás, registram-nos como sendo manifestações de uma mesma entidade: “o mítico Bicho-Homem é também chamado Pé-de-Garrafa” (Câmara Cascudo, “Dicionário do Folclore Brasileiro”). Entretanto, alguns relatos sobre o Pé-de-Garrafa (df. p. 47), em que se lhe dão outras características, levam-nos a defender que sua existência, na imaginação do povo, se não era, passou a ser independente da do Bicho-Homem.

lhe algum objeto de ferro ou, então, ficar quieto, prender a respiração e fechar os olhos. Dizem que se transformar nesse monstro é o castigo para purificar as almas dos amantes compadres que em vida traíam seus respectivos cônjuges, e daqueles que mantiveram relações incestuosas. Explica-nos Theobaldo Miranda dos Santos (em “Lendas e Mitos do Brasil”) que “o mito do Boitatá parece ter se originado do fogo-fátuo ou santelmo, pequeno penacho luminoso, que aparece nos mastros dos navios devido à eletricidade, ou, à noite, sobre os pântanos e cemitérios, e que são apenas emanações de fosfatos e hidrogênios, produtos de decomposição de substâncias animais”. Alguns autores, a exemplo de Crispim Mira (em “Terra Catarinense”), registram uma variante, dentre as inúmeras desse mito geral no Brasil, segundo a qual o Boitatá é um boi ou um touro “com patas como a dos gigantes e com um enorme olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo”. Amadeu Amaral (“Tradições Populares”) retrata essa variante como exemplificativa do fenômeno que se convencionou denominar “etimologia popular”, que designa “as alterações dos vocábulos por efeito de uma errôneas e imaginosa compreensão da respectiva origem”. No caso dessa variante, a palavra “boi” (mboi), segundo o eminente folclorista, representou o elemento transformador do aludido mito.

BOITATÁ

BOTO SEDUTOR

Um dos primeiros mitos registrados no Brasil, segundo nos informa Câmara Cascudo, é uma grande serpente de fogo que habita as margens dos rios, mata animais e lhes devora os olhos, vindo daí o seu intenso brilho.

Costumam dizer que a maior protagonista das lendas sobre a fauna amazonense, famoso em todo o Brasil, “ele, o Boto”, ao chegar a noite, transformase num belíssimo rapaz, alto, branco, robusto, bem vestido, mas sempre de chapéu para esconder o orifício que tem na cabeça, através do qual respira.

Do tupi mboi, cobra, e tatá, fogo: cobra de fogo, o fogo em forma de cobra. Há versões de que o Boitatá destrói com o fogo dos seus olhos, fazendo arder em combustão, aqueles que incendeiam os campos. A aparição do Boitatá traz cegueira, loucura ou a morte. Para escapar de seu ataque, é preciso atirar-

O Boto, quando toma a forma humana, comparece triunfalmente aos bailes, onde, com as moças ribeirinhas, conversa, bebe, dança, namora. Conquistador infalível, adivinha os segredos, os pensamentos e desejos de suas “vítimas”.


93 Antes que amanheça, porém, ele se retira furtivamente, mergulha num rio, e torna-se de novo em boto. Às vezes é implacavelmente perseguido ou cercado em emboscadas tramadas por homens enciumados, mas ele nunca se deixa apanhar pois tem um faro mais possante que o de cães caçadores e é rápido como um tiro. Muitas mulheres costumam também a ele atribuir a paternidade de filhos espúrios e naturais, os denominados “filhos do Boto” (muitas vezes injustamente). Noutras palavras, quando moças solteiras das populações ribeirinhas engravidam, dir-se-á que o filho é do boto. Para finalizar, dentre algumas superstições acercado boto, lembremos esta: o olho seco de um boto, para os índios é poderoso instrumento de feitiços amorosos, depois de bem preparado, de acordo com os ritos do pajé-a pajelança, a feitiçaria amazônica. “Não há mulher que resista sendo olhada através do olho de um boto”. (A ele já se referiram classificando-o como lenda e como mito) CABEÇA-DE-CUIA Homem magro, alto, que habita o rio Parnaíba, no Piauí. O nome deriva de sua cabeça que lembra o formato de uma cuia. A cada sete anos, devora uma mulher de nome Maria, e também meninos que brincam nas águas daquele rio. As mães, temerosas, proíbem seus filhos de ali nadarem. Amaldiçoado por sua mãe, a quem muito maltratara, foi condenado a viver no mencionado rio durante 49 anos. Após comer sete Marias, retomaria seu estado natural. CABOCLO-D´ÁGUA Homem pequeno, musculoso, sisudo, da cor do cobre, com mãos e pés de pato, ele habita as águas do Rio São Francisco, aparecendo também em outras localidades fluviais. Atormenta os pescadores, vira embarcações, alaga cargas,

provoca ondas, atrapalha pescarias, assombra, mata. Para afugenta-lo é preciso fincar uma faca no fundo da canoa, ou então nela desenhar um signo-desalomão. (Vale registrar aqui a figura do CAVALO-DO-RIO, cavalo encantado que também habitaria o Rio São Francisco exercendo efetivamente o mesmo papel do Caboclo-d´água.) CAIPORA “É o Curupira tendo os pés normais. De caá, mato, e porá, habitante, morador”, segundo Câmara Cascudo. Diz-se que é um caboclinho coberto de pêlos que anda sempre montado num porco-do-mato, protetor dos animais e inimigo dos caçadores (descrição mais comum). As inúmeras versões sobre o Caipora possibilitam que se apresentem ele e o Curupira (sempre associados e confundidos) como manifestações transformadas de uma mesma entidade, ao mesmo tempo que se admite a coexistência de ambos. Ruth Guimarães, por exemplo, em “Quatro Histórias do Curupira”, acrescente um parêntesis a esse título: “(Ou Caipora ou Caapora, o Pai do Mato)”. Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”), diz que o Curupira e o Caipora “constituem a mesma personificação do gênio das florestas.”. Pessoalmente, acreditamos que quando não se trata de simples diversidade nominal, alguns mitos – se não tinham – passaram a adquirir identidade própria e personalidades distintas. No presente caso, embora aparentemente se trate de simples diferença de nome, a figura do Caipora tal como aqui descrita já se criou efetivamente no imaginário popular, desvinculada da do Curupira. CANHAMBORA Homem negro, grandalhão, feio, com cabelos compridos até os pés. Às vezes é citado como tendo, ao mesmo tempo, forma humana e animal, metade cavalo e metade homem.


94 Ele é detentor de poderes capazes de ressuscitar os animais mortos pelos homens brancos, a quem persegue e agride. Diz o povo que o Canhambora é assombração de escravos mortos a pancadas a mando de seus senhores, aos quais, posteriormente, volta para assombrar. Mais conhecido em Minas Gerais e em São Paulo. CAPELOBO Criatura fantástica, com corpo de homem, cabeça de tamanduá ou de anta, é pés redondos. Cães e gatos recém-nascidos são seu alimento principal. Mas ele também ataca humanos, “chupando-lhes o miolo”, ou seja, sorvendo-lhe a massa cefálica. O ponto vulnerável desse monstro é o seu umbigo, através do qual pode ser abatido. Ìndios muito velhos transformar-se-iam nesse monstro a que costumam chamar de Lobisomem dos índios. Popular no Maranhão e na região do Araguaia.

CHIBAMBA De origem africana, e conhecido em São Paulo e Minas Gerais, é um negro velho que se veste com folhas de bananeira, ronca como um porco e está sempre a dançar, em ritmo compassado. Ele amedronta crianças choronas: “Olha esse choro, que a Chibamba vem te pegar; ele papa criança”. Acredita-se que ele foi um velho escravo que morreu no tronco, de tanto chicotada. Informa-nos Rossini Tavares de Lima que ao Chibamba também se atribuía a fama de suprimir a dor dos escravos açoitados, atraindo-a toda para si quando o invocaram. CHUPA-CABRAS É relevante registrarmos esse, haja vista sua atualidade. “Novo ser mitológico”, segundo Hitochi Nomura. O Chupa-cabras teria aparecido nas áreas rurais de municípios vizinhos à cidade de Campinas, por volta de 1997. Os habitantes da mencionada região atribuíram súbitas e misteriosas mortes de ovelhas e bois a uma estranha criatura notívaga.

CAVALO BRANCO É um fogoso cavalo branco que em noites enluaradas é visto a pastar as relvas marginais do Valo Branco, em Iguape. As mães sempre advertem suas filhas para não passarem pelas relvas marginais do Valo Grande porque o Cavalo Branco, ao ver uma moça virgem, faz com que ela caia naquelas águas e depois desaparece com ela. Quando novamente há lua cheia ele volta para buscar outra moça para viver com ele no fundo do Valo Branco. CAVALO DAS ALMAS Segundo a Profª Palmira M. Degásperi Rodrigues (em “Mito, Folclore e Filosofia”), “é um animal miraculoso, que percorre as estradas à procura dos mortos recentes, que o esperam nos moirões das porteiras. As almas vão engarupadas nesse cavalo”.

O jornalista Paulo San Martin, na edição de 8 de junho de 1997 do jornal A Tribuna, de Campinas, relata na matéria intitulada “Chupa-cabras: agora ele se tornou histeria coletiva” que as marcas deixadas pelo bicho não se confundem com a de nenhum predador conhecido, não encontrando o seu ataque referência na zoologia e na biologia. “Praticamente todo o sangue é drenado e as feridas são inconfundíveis, como se tivessem sido feitas por garras longas e afiadas, semelhantes a navalhas. Em alguns casos são retirados, com precisão cirúrgica, órgãos e glândulas nobres”. A história foi, na época, muito divulgada pelos meios de comunicação. Uma babalorixá campinense, que afirma tê-lo visto, o descreve como uma criatura peluda apenas da cintura para cima, com poucos pelos nas pernas, e com focinho semelhante ao de um lobo.


95 COBRA GRANDE Réptil repugnante que atemoriza o homem desde sempre, na ficção e na vida real, a cobra não poderia deixar de inspirar no Brasil esse monstro amazônico: A “Cobra Grande”, também chamada ~Boiúna~. Gigantesca, de olhos que semelham enormes faróis, ela faz naufragar até mesmo grandes embarcações, devorando, após, a tripulação e os passageiros. Na capital paraense, informa-nos Walcyr Monteiro, existe a crença de que essa cidade foi fundada sobre a casa de uma enorme cobra: “Se a Cobra Grande se mexe, Belém estremece”. “Se a Cobra Grande sair de seu lugar, Belém vai se afundar”(“Visagens e Assombrações de Belém”).

cabeça da cobra, derramando-se-lhe, após, a boca, três gotas de leite materno. Mas, ao ver a cobra, todos perdiam a coragem, até que um soldado impávido, com quem Norato fizera amizade, conseguiu quebrar esse encanto, libertando o amigo. (Do norte do Brasil, especialmente do Pará). CORPO SECO Criatura perversa que em vida semeou o mal cometendo toda sorte de crueldades, inclusive a de fustigar a própria mãe. Ao morrer, sua alma foi recusada tanto por Deus como pelo Diabo, e seu corpo nem a terra o quis, ficando este, depois de reunido a sua alma, a putrefazer-se insepulto.

COBRA-JABUTI Catalogada como lenda por Domingos Vieira Filho (“Folclore Brasileiro-Maranhão”) é um cágado que depois de tomado como bicho de estimação revelase um monstro de cujos cascos saem horripilantes cabeças de cobras. COBRA NORATO Engravidada pela Cobra Grande, uma índia deu ä luz dois bebês encantados, que não tinham forma humana. Atirou-os no rio, a conselho do pajé. Eram Cobra Norato (ou Honorato) e Maria Caninana. Esta era má, virara embarcações, matava náufragos e animais. Norato era bondoso e sempre procurava interceptar as maldades da irmã. Certa feita, num duelo para salvar uma vítima da Maria Caninana, acabou matando esta última. Assim, graças ä sua bondade, Norato adquiriu o dom de poder desencantar-se durante à noite, tornando-se homem bonito, simpático e elegante. Nas ocasiões de festa nos povoados ribeirinhos, Norato deixava seu couro de serpente e ia bailar com as moças. Ao amanhecer, porém, retomava a forma de serpente. Para quebrar definitivamente o encanto era preciso que se dessem pancadas com ferro virgem na

O Corpo Seco é corpo e alma penados – de quem nem os insetos se aproximam – que perambulam, vagabundos, pelos cemitérios e pelas ruas, assombrando os viventes. CUCA Mulher velha e feia, espécie de bruxa, tal qual é está descrita nos contos de fadas. Bicho-papão feminino mencionado para se assustar crianças. “Velha feia e esfarrapada que vive a intrigar os casais, despertando-lhes o “ciúme”, sempre acompanhada de “sapos, lacraus, cobras e aranhas venenosas”, na descrição da folclorista Gilda Helena em “Lendas da Nossa Terra”. É muito citada em acalantos: “Dorme, nenê, que a Cuca vem pegar, papai foi na roça, mamãe foi trabalhar. Bicho-papão, sai de cima do telhado, deixa o nenê dormir sossegado”. É válido lembrar que a Cuca foi muito popularizada na série de televisão “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, baseada na obra de Monteiro Lobato, na qual, aliás, se verifica a citação de muitos dos nossos mitos, a exemplo do Saci, do Boitatá, da Mula-sem-cabeça, do Lobisomem, etc. Na aludida série, tal como nas ilustrações de livros do consagrado autor, a Cuca era apresentada como uma jacaroa bípede e falante,


96 feiticeira poderosa, cercada de bichos peçonhentos. Dada a fora da propagação televisiva, quando se fala em Cuca, a imagem que se nos afigura é a da jacaroa da referida série.

perverso. “O demônio das Florestas”. Mas sobrelevam as lendas que fazem dele o protetor das matas. FAMALIÁ

CURAGANGA Tal qual ocorre com o Lobisomem, a Curaganga ou Cumanganga, é no que se torna a sétima filha de um casal. É uma errante cabeça de fogo, em forma de bola. Nas horas mortas, a cabeça da portadora desse mal separa-se-lhe do corpo e sai em chamas a vagar pelas matas. Apavora os que a encontram. Às vezes ataca a dentadas. É chamada Curacanga, no Maranhão, e Cumacanga, no Pará. Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”) nos informa que para evitar esse horrível fadário “’e tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da ultimogênita. CURUPIRA De procedência tupi-guarani (de curu, curruptela de curumim + pira, corpo = corpo de menino), o Curupira tem ligações originárias com o homem primitivo e atributos heróicos na proteção da fauna e da flora. Ele tem como principal característica a direção contrária dos pés em relação ao próprio corpo, o que constitui um artifício natural para despistar os caçadores, colocando-nos numa perseguição a falsos rastros. Possui extraordinários poderes e é implacável com os caçadores que matam pelo puro prazer de fazelo; quando estes não acabam mortos, ficam loucos. Dizem também que quando os caçadores não acertam seu alvo ou quando se perdem na mata, é certo que foi uma intervenção do Curupira.

Originário da tradição européia de fabricar uma espécie de demônio caseiro, “familiar” (acabou famaliá para os sertanejos) é um pequenino diabinho guardado dentro de uma garrafa. Para cria-lo é preciso chocar na axila esquerda, durante toda a quaresma, um ovo de galo (!), que, segundo o povo, com muita persistência pode ser encontrado (às vezes leva anos). Desse ovo nascerá, ao final da quarentena, um diabinho que atenderá a todos os pedidos de quem o produziu. Não se pode, todavia, dar esmolas aos pobres com dinheiro vindo do Famaliá. Quem o detiver, no entanto, pagará com sua alma pelos benefícios obtidos, pois criar um Famaliá. Quem o detiver, no entanto, pagará com sua alma pelos benefícios obtidos, pois criar um Famaliá não deixa de ser um pacto com o Diabo. Já registrado como mito e como lenda, essa história muito se popularizou quando da exibição, e da reprise, da telenovela global “Paraíso”, em que um dos protagonistas, - dizia a população da fictícia cidade de Paraíso – tinha um diabinho guardado em uma garrafa, produzindo tal como aqui dissemos. GORJALA Negro gigantesco, com um único e grande olho, que habita as serras cearenses. Implacável perseguidor dos humanos, coloca-os sob o braço, quando os captura, devorando-os a dentadas. GRALHA AZUL

É descrito de várias maneiras: como um curumim, um duende, um anão, um caboclinho, dentes verdes, cabelos vermelhos, mas sempre com os pés contrário (calcanhares para a frente).

Para o povo paranaense a gralha azul é a responsável pelo agrupado reflorestamento de pinheiros, tendo-se em vista a estranheza que causava o fato de estes aparecerem em grupos, em pontos afastados, sem que o homem os plantasse.

Existem, no entanto, variantes que divergem dessas idéias, em que o Curupira é um ser medonho e

Diz o povo que essa ave encontrada nos planaltos do Paraná se alimenta de sementes dos pinheiros, e


97 que, precavida, enterra-os, em pontos diversos e em considerável quantidade, para posteriormente saciar sua fome. Como nem todos os pinhões enterrados se consomem, estes germinam e fazem surgir os amplos pinhais agrupados. Assim se explicam as grandes florestas só de pinheiros. Por isso, as armas dos caçadores negam fogo, ou, pior, os tiros saem pela culatra, se a ave contra a qual miram é a gralha azul. Lenda paranaense. IARA Outra celebridade nacional, a Iara é apresentada como uma esplêndida sereia das águas amazônicas (mulher cujo corpo, da cintura para baixo é uma cauda de peixe) linda, de pele alva, olhos verdes e cabelos cor de ouro. Seu canto, de uma encantadora voz, enfeitiça e atrai índios e pescadores enamorados que, sem a menor possibilidade de lhe resistirem, mergulham nos rios e são por ela arrastados para o fundo das águas. Nem seus corpos são encontrados. Deve-se fechar os olhos e tapar os ouvidos assim que se notar a presença da Iara nos rios e lagos. Um talismã feito com escama de boto vermelho também pode livrar seu portador da sedução da Iara.

Luiz Caldas Tibiriçá, em “Contos e Lendas Brasileiras”, narra até um casamento da Mãe D’Água com um índio no conto “O Marido da Mãe D’Água”. Domingos Vieira Filho, em “Folclore do Maranhão”, ao falar da lenda da Praio do Olho-d’água, cujas nascentes de água teriam se originado das lágrimas de uma índia que perdera o seu amor para a linda sereia, relata: “Sucede que pelo mesmo índio se apaixonara a mãe-d’água. Um belo dia, a iara traiçoeira empolga o rapaz e o leva para o fundo das águas, deixando o cunhatã alucinada de dor”. Pescadores, que garantem que ela existe, costumam contar que já houve casos de se fisgarem chumaços de cabelos louros com mais de um metro de comprimento. Obs: A Iara ou Uiara é também comumente chamada “Mãe d’Água”, mas preferimos a denominação Iara, tendo em vista que quando se fala em “Mãe d’Água”, nas inúmeras lendas, há outros aspectos além da sensualidade e da sedução (as grandes marcas desse mito), enquanto que tais características representam o cerne das descrições narrativas se o nome mencionado for Iara JOÃO GALAFOICE

No entanto, nem toda as narrativas sobre a Iara retratam-na dessa forma. Em algumas, há finais felizes, como essa registrada por Theobaldo Miranda dos Santos em “Lendas e Mitos do Brasil”, na qual o índio Jaraguari desaparecera depois de mergulhar num rio encantado pela linda sereia. Foi ele posteriormente visto abraçado com ela a namorar. “Tia Regina”, em “Histórias e Lendas do Brasil”, conta uma versão semelhante, na qual a Iara vive um forte romance com o índio Jaraguari e acaba por leva-lo para viver com ela em seus palácios subaquáticos. Seus poderes sobrenaturais mantê-loiam vivo debaixo d’água. Outras lendas falam de índios que com a Iara mantinham relacionamentos amorosos, a exemplo de Inaiê: “Diziam-no manorado da Iara, pois desprezava as belas cunhantãs, que lhe ofereciam seu amor” (Gilda Helena em “Lendas da Nossa Terra”).

Semelhante ao Papa-Figo, é um preto velho. Ele ronda as residências à procura de crianças que se encontram fora de suas casas pra leva-las embora consigo. Alfredo Brandão (“Os Negros na História de Alagoas” ) informa que a lenda do João Galafuz (veja abaixo), em Alagoas, foi alterada na história de João Galafoice, esse “nego véio”raptor de crianças. JOÃO GALAFUZ Duende que habita as águas dos mares e se manifesta como um facho luminoso e colorido que rutila sobre as ondas. Os pescadores acreditam que é o espírito de um caboclo que morreu sem ser batizado. De Pernambuco e Sergipe.


98 LABATUT Homenzarrão monstruoso, de pés redondos, conhecido nos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte. Tem pés redondos, longos e revoltos cabelos, só um olho na testa, mãos compridas, corpo cabeludo como o do porco-espinho, dentes como as presas de elefante. Devora crianças. Conta-se que se transformou nesse monstro um sanguinário general francês que, no Ceará, promoveu uma verdadeira carnificina quando da repressão à insurreição de Joaquim Pinto Madeira. LOIRA DO BANHEIRO O horror das crianças nas escolas era uma mulher que, diziam, costumava aparecer nos banheiros. Era loira, cabelos compridos, com as cores próprias dos defuntos e com algodões em suas narinas: um cadáver ambulante, distinguindo-se o aspecto deste apenas pelo fato de escorrer sangue de seus lábios. O encontro de pedaços de algodão no chão do banheiro, sujos de sangue, era sinal de que a “Loira” estivera por ali. O medo de encontrá-la era tanto que as crianças não iam ao banheiro desacompanhadas. Quem conta sobre a “Loira”diz que ela era uma jovem que foi violentada e morta num banheiro de uma escola pública. (Lenda?) LOBISOMEM Meio bicho, meio humano, o Lobisomem é mito universal que protagoniza muitas narrativas populares desde a Antiguidade, trazido às terras brasileiras pelos europeus, que morriam de medo dos lobos. O lobisomem abrasileirado pode ser o sétimo filho homem de um casal; o que nasceu depois de sete filhas; o que não foi batizado; o filho de comadre e compadre, padrinho e afilhada, ou de união incestuosa. Enquanto homem é sempre magro, pálido, que nunca adquire aspecto de pessoa saudável. A transformação acontece nas noites de lua cheia e nas noites de quinta para sexta-feira: seu corpo começa a se cobrir de pêlos espessos; seu

semblante toma a forma do de um morcego; suas orelhas crescem; as mãos se tornam garras; corre com os joelhos e cotovelos, que, pela manhã, após a transformação, se vêem feridos e ensangüentados. Ao metamorfosear-se, sai em busca de sangue. Suas vítimas, se viverem, podem contagiar-se dessa maldição. O lobisomem é morto através de uma bala de prata. O encanto do monstro, por sua vez, pode ser desfeito por meio de algum ferimento que lhe arranque sangue, mas o autor do ferimento que evite se sujar com o sangue; senão se contagiará da triste sina. Segundo Oliveira Martins (em “Sistema dos Mitos”) “os sacerdotes do Sorano Sabino, nos bosques da Itália primitiva, vestiam-se com as peles do lobo, animal do deus; a imagem confunde-se com o objeto da imaginação infantil, o sacerdote com o deus, a profissão com o fado. Por ventura o mito nasceu do rito”. MÃE-DO-OURO Senhora das minas, a Mãe-do-Ouro é um mito multiforme: no Paraná, é uma mulher sem cabeça; “no Rio Grande do Sul é informe, agindo com trovões, fogo, vento, dando o rumo da mudança (...) a Mãe-do-Ouro passeia luminosa, pelos ares, mas vive debaixo d’água, num palácio” (Câmara Cascudo, em “Mitos Brasileiros”); formosa mulher, de pele branca como a neve e com uma linda cabeleira cor de fogo, segundo Ruth Guimarães, em “Lendas e Fábulas do Brasil”; “fada formosíssima, filha do sol e irmã da aurora” (Luiz Caldas Tibirçá, “Folclore – Contos e Lendas Brasileiras”); em São Paulo é descrita como uma grande bola de fogo de ouro que atravessa o céu; onde ela cair, há ouro (Alceu Maynard Araújo, em “Folclore Nacional”). “Mito ígneo, informe, pertence ao número dos fenômenos metereológicos, confundindo com a estrela cadente (...)esconjurada e tida, num só tempo, como capaz de satisfazer votos formulados durante sua trajetória cintilante”(Câmara Cascudo, op. Cit.). De acordo com o consagrado autor, esse mito também infiltrou-se no ciclo das Mães-d’Água,


99 assimilando-lhe o poder sensual: “os homens deixam a família e amigos, arrastados pela Mãe-doOuro”(talqualmente as perigosas sedutoras Iara e Alamoa). Há muitas lendas sobre a Mãe-do-Ouro, uma das mais conhecidas fala de sua intervenção para ajudar um escravo a encontrar ouro para entregar ao seu senhor, homem mau e ganancioso, a fim de assim evitar duro castigo. A Mãe-do-Ouro, no entanto, lhe impôs a condição de não revelar a ninguém o lugar onde encontrou ouro. O Fazendeiro torturava-o no tronco para lhe arrancar o segredo, até que a Mãedo-Ouro permitiu ao escravo que o revelasse. O fazendeiro, fascinado diante de tanta riqueza, começou ele próprio a cavar aquela vastidão de ouro. Tanto cavou que morreu soterrado.

tribo, no entanto, interveio, e disse ao índio que a mulher era inocente, o que seria muito castigo se tentasse qualquer coisa contra as duas. A criança, a que deram o nome Mani, cresceu, linda, inteligente, querida por todos na tribo. Mas ela não viveu muito tempo. Seus pais a sepultaram dentro de sua própria maloca e a regavam todos os dias com suas lágrimas. No local, nasceu uma planta que, descascada, era branca como a pele de Mani. Os índios julgaram ter sido um milagre de Tupã (deus dos índios), pois a planta revelou-se saboroso e nutritivo alimento, e de suas raízes se vez um vinho delicioso. Deram-lhe, então, o nome “mandioca” ou “manioca”, que significa “corpo de mani”.

MANI (A LENDA DA MANDIOCA) Numa tribo indígena, uma mulher deu à luz uma menina de pele muito alva. Seu marido, desconfiado e com raiva, queria matar a ambas. O feiticeiro da

Fonte: http://www.folcloreolimpia.com.br/?pagina=folclore=mitoselendas

Américo Facó Poesias NOTURNO Quando jamais na ausência escura, Na imensa noite sem memória, Há de repetir-se a aventura Da antiga floresta ilusória? Dormência lunar vaga e pura, Flores, folhas, troncos, raízes, Revivas de extinto mistério... Quando na tépida espessura Há de tornar o sono aéreo, Os límpidos sonhos felizes? Mimar de múrmura magia! Remansear de sombra fremente! Magia e sombra pesam onde Se ouvia a voz de um deus presente... De ouvir a terra estremecia, O céu profundo se acendia, Noturnamente, brandamente!

Depois... Depois a voz sombria Se velou na treva, que a esconde, Atrás do universo silente. Ó tempo em flor e folha, menos Amarga fora esta lembrança, O mais sutil de teus venenos, Se cansasse do que não cansa... Lembrança! filtro acerbo e quente, Que eu bebo, e quero mais! – espelho, Mágico espelho contemplado, Miragem de cristal vermelho Que fixa o tempo eternamente, E faz presente do passado! Imagem nunca mais perdida, Surta na sombra, que demora! Noturno ardor, boca de aurora Que oferta a fruta apetecida! Forma de si mesma despida,


100 Imagem sempre a mesma – embora Paire suspensa além da vida, Penso que a vejo viva agora, Não porque a veja revivida, Só por sonhá-la a igual de outrora. Sonho! É sonho, minha alma! Vede O avito engano em que se agita Para matar a própria sede, Aumentando a própria desdita... É sonho! Traz no riso mudo Certeza e dádiva de tudo... Sonho!... E sonho, por ele a nua Negra floresta reverdece; Por ele, outra vez, no ar flutua A Presença, que não esquece. Odor e flor a terra, estuante, Trescala, arrouba-se no espaço, Esto que impele ansiosa amante A procurar no ansiado abraço, Maviosa vertigem do instante, A unidade do ser disperso; E o deus aspira a morna essência Por que se desvela, diverso, Múltiplo e solto na consciência Predestinada do universo. De novo a Lua, mãe propícia, Derrama o leite de seu seio; A vida, a vida esponsalícia, Vibra total no que era alheio! Desce de novo a claridade Por nova confusa carícia, Enquanto o gesto de bondade Da vestal dourada derrama Em lábios eleitos a flama Da mais que perfeita delícia. Delícia eterna sempre nova! Porque a merece a alma sincera Nem se teme do mal que prova Nem teme a dor que desespera... Respiro da noite sonora, Cujo segredo o dia ignora! Repouso ao fim de escusas trilhas! Recompensa de estranho rito, Maravilha das maravilhas, Dom do Infinito, – indefinito! Em teu limiar, porta secreta, Onde a imensidade começa,

Ressoa a resposta completa, Murmúrio florido em promessa... Livre, – livre da aérea bruma Por que o mistério azul inquieta, Cria o sonho de si a suma Graça, a ingênua suma surpresa, A novidade que perfuma Esta promessa de beleza. Fecham-se os braços sobre a escolha Sem nome, nata do desejo; De flor a flor, de folha a folha, A selva salva o suave ensejo, Encontro prometido e lento, Ou sonho ou destino, composto Em um só beijo, – claro intento, Um mel de música no gosto, Rosto abismado em outro rosto, Forma prima de pensamento. Eu beijo o beijo e abraço o abraço, Meu raro instante luminoso, Que se exclui do tempo e do espaço Na eternidade de um regaço, A dar-me sem medir seu gozo... Mago instante que não refaço! Divino instante que me adverte! Fugiu-me cedo... – Onde ir a esmo, Alma ferida, corpo inerte, Buscar a ilusão de mim mesmo? AR DA FLORESTA NOTURNA Sumida sombra, secreta espessura, – A noite em meio, ou lembrança do dia, Selva! selva abismal do tempo, escura, Onde a força renasce, que não dura, E fulge a imagem, forma fugidia: Selva – assombro, sombrio fundo emerso! Ardor indene, força fria e mansa! Ventre que gera a suma do universo! – Tornas o sonho múltiplo, diverso, O tempo em sonho tornas, sem mudança. Ou tempo ou sonho, em teu seio, sozinha, Perdeu-se uma alma, e sozinha consulta A sombra e, sombra ela mesma, caminha... Acaso busca, alma enganosa e minha, Atrás da sombra a maior sombra oculta.


101 Eu mesmo, o mesmo, bebo neste engano, E outro, que sou, indago, diferente, Se a aparência me engana, ou se me engano, Ao pensar dispartir-me ao desengano Que faz sentir mais grave o que se sente. Perdidos evos, quem vos acha o traço? Existe um norte onde não adivinho? Qual nume ou nome procuro de espaço? Importa apenas o gesto que faço? – No chão noturno escondeu-se o caminho. Muda-se o mudo momento em surpresa, Ambíguo pasmo, ao vir de outro momento... Jamais se muda a sutil incerteza, Jamais! jamais! – porta de ouro defesa Da Fábula, que alerta um mundo isento. O perpassar de uma sombra ligeira Corta a noite, vai onde a noite a some... Assim perpassa a doce mensageira Saudade, que não sinta quem não queira, E a noite acorda a música de um nome! Talvez de novo a dileta presença, Atando enleios de amorosa trama, Ora tornasse, eterna amante infensa, Para fugir quando menos se pensa... E volta, e parte, e quer, e ilude, e chama! E chama! E vem de novo, como vinha, A meu desejo, adorada visita, Perdida para sempre, e mais vizinha, A minha toda bela, a minha minha; Meu bem! meu mal! minha amante infinita! Ela, e não ela, imagem dela ainda, Certeza dela, e divina conquista, Veste as rosas da noite, e vem, bem-vinda... Florido engano! E o doce engano finda, E se deflora sobre a imagem vista. Bem longe estais, meus tesouros de outrora, – Carícias de sol, palores de lua, Cúmplice olhar ofertando o que implora, Vermelho riso esparzido na aurora Da paisagem de linho branca e nua! Nomais a mim, nomais de mim suponho Rever-me a ver renovar-se de opressa Pena de amor um tumulto risonho! Na sombra a Sombra desfez-se... Foi sonho,

Mal acabou... – Novo sonho começa. Como se aspira a presença ignorada De uma flor – pura flama de mil vidas, Que tanto mais esparsa mais agrada, Aqui se ouve o silêncio... Ó tudo! ó nada! Silêncio – voz de harmonias perdidas! Silêncio – trama infinita do instante! No afastamento, onde a memória alcança, Move-se imensa tua vaga, avante, Inunda, vai, sorve a noite de amante, Até morrer na inconcessa lembrança... Lembrança inútil, silêncio indiviso! Espelho de arremedos e de mágoas! Sepultou-se na treva um paraíso, Entre águas negras... Treva! nem me aviso Do espírito que voga sobre as águas. Luz, mas luz presa no abismo indistinto, O pensamento furta-me o que penso, Outro abismo... Atro abismo! – E cedo! e sinto, Imagem dupla de mim mesmo, o instinto, Meu ser de treva entre dois caos suspenso. A mão de leve se alonga, palpita, Procede lenta no ar soturno e quedo, Procura... – Que procura a mão aflita? Quem guarda a sombra assombrosa onde habita O instante, imoto, eviterno segredo? Não sou? não fui? – A unânime verdade Se faz ínvio jardim de ausência pura; E no aroma selvagem que as invade, Gêmeas fatais, a noite e a soledade Respiram sós de impossível doçura... Respira livre a noite sem destino, Sem limite... Respira, ignota e calma, Respira sobre um delírio divino, Transmuta-se em temor quando imagino, E a magia do Sol me extingue na alma! Recresce o caos... Onde a purpúrea argila Se turba, tombam as rosas que dantes Frescas sangravam da manhã tranquila... E tomba a flor de sonho, que cintila, – Ouro sutil das estrelas distantes! Eu cego! Eu só! E a negra plenitude No ausente espaço urde a surpresa enorme


102 De um mundo esconso, ermo, repulso, rude... Não mente a noite, a mente não se ilude, É teu, minha alma, este mundo que dorme. É tua a noite, a voragem secreta, Fora do tempo, alheia ao tempo insonte, E as aves torvas do fundo sem meta, – Lascívias idas, que a palavra inquieta, Imagens, nuvens de inviso horizonte: É tua a soledade em que te apagas, Imane mar de morte sonolento... E elas revoam de inauditas plagas, Informes, – formas dissolutas, vagas, Flutuantes entre a noite e o pensamento. Meu pensamento – minha noite escura! Desejos, iras, penas, alegrias, Foram de novo insuspeita amargura Se foram mais que a sombra, que perdura No abismo das memórias erradias... Dormi, lembradas iras! Dormi, penas, Desejos baldos que nunca dormistes! As alegrias passaram apenas Como as furtivas mágoas mais serenas... Dormi, sombras! Dormi, fantasmas tristes!

Américo Facó (1885 – 1953) Américo Facó (Beberibe, CE 21 de outubro de 1885 — Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 1953) foi um poeta e jornalista cearense, viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Publicou poemas em vários períodicos de seu tempo, como o Jornal do Ceará e o Álbum Imperial, de São Paulo. Considerado pela crítica literária como surrealista, seus primeiros versos (em torno de 60 poemas) foram publicados no periódico Jornal do Ceará, de Fortaleza, entre 1907 e 1908. Lá publicou também artigos políticos de oposição ao governo de Nogueira Acioly ("um dos mais poderosos oligarcas do Norte", segundo Edigar de Alencar). Por causa desses artigos, em "21 de dezembro de 1908, dois ou três soldados da polícia à paisana deram violenta surra no poeta nas imediações da Praça Marquês do Herval", segundo afirma Gustavo Barroso, que diz ainda que "salvou-lhe talvez a vida a intervenção do Capitão do Exército Castelo Branco, morador na casa da esquina, atraído pelos seus gritos".

Em 1910, mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1911, já fazia parte dos círculos literários mais importantes do país. Sua obra, porém, só seria publicada em livro em 1946, com Sinfonia Negra. Em 1951, publicou Poesia Perdida, renegando tudo o que produzira no Ceará. Seus poemas revelam o cultivo da forma e das rimas raras, talvez reflexo da leitura dos clássicos portugueses. Foi diretor da parte literária da revista Fon-Fon. Trabalhou no Instituto Nacional do Livro e no Senado Federal. Foi grande amigo de Carlos Drummond de Andrade, que dedicou a Américo Facó o livro Claro Enigma. Em O Observador no Escritório, Drummond escreveu: "Na casa da rua Rumânia, durante três noites, confiei-lhe os originais do meu livro Claro Enigma e ouvi suas opiniões de exímio versificador. Eu 'convalescia' de uma amarga experiência política [...]. Paciente e generoso, Facó passou um mínimo de nove horas, contando as três noites seguidas, a aturar minhas dúvidas e indecisões. Se não aceitei integralmente suas observações, a verdade é que as três vigílias me deram ânimo a prosseguir [...]. E me fizeram sentir a nobreza do seu espírito de autêntico homem de letras, mais preocupado com a linguagem e seus recursos estéticos do que com a fácil vida literária das modas e dos bares." Segundo Vagner Camilo, no livro Drummond: da rosa do povo à rosa das trevas, "a interlocução Facó-Drummond merece e deve ser considerada marcante na composição do livro de 1951" (ou seja, Claro Enigma). A convite de Américo Facó, Drummond trabalhou na frustrada remodelação do Departamento Nacional de Informações, antigo DIP. Após a morte do amigo, Drummond iniciou uma campanha para que a biblioteca de Américo Facó fosse doada à Fundação Biblioteca Nacional. A família, no entanto, optou por vender os livros. Segundo José Mindlin, eles foram comprados por Libano Calil, proprietário da Livraria Calil Antiquária, o sebo mais antigo de São Paulo. A venda dos livros provocou, na época, grande discussão na imprensa. A Fundação Casa de Rui Barbosa tem em seus arquivos carta de Elda Facó Marchese, filha do Gen. Edgar Facó, em que comenta crônica de Drummond sobre "a dissolução


103 da biblioteca de Américo Facó, por iniciativa de um dos 'seus primos generais'. Nos arquivos da casa de Rui Barbosa, consta que há anotações de Carlos Drummond de Andrade no corpo da carta.

Américo era irmão da Doutora Aglaêda Facó Ventura, professora de Teoria Literária na Universidade de Brasília. Fontes: Wikipedia FACÓ. Américo. Poesia Perdida. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1951.

Waldomiro Waldevino Peixoto O Tempo na Ficção Não é possível entender uma obra de ficção sem perceber todos os fundamentos de sua estrutura formal. Entre eles está o tempo. “É o tempo, sem dúvida, que detém a essência da vida, e talvez de toda a realidade” já nos disse Bérgson. Essa importância do tempo o fez tema global e predominante na literatura recente. Se a literatura espelha a natureza humana e se o homem é cada vez mais consciente da penetrante e precária natureza do tempo, essa consciência tem sido cada vez mais, também, refletida nas obras literárias. A sociedade moderna instituiu a ditadura do tempo cronológico, sujeito a relógio, calendário e planejamento. Há uma obsessão por planejamentos em quase todas as atividades humanas. Mas o tempo interior do homem não é rigoroso, não se mede por relógios e calendários, não obedece a planos pré-estabelecidos. O tempo cronológico consiste num esforço para opor uma barreira ao tumulto subjetivo, presenças da memória, duração interior, aspectos humanos imprevisíveis e incontroláveis. A literatura tem o poder de tirar de sintonia os elementos marcados pelo relógio e criar outros que são representações do espírito humano. A ficção trata do tempo cronológico, mas fundamentalmente trabalha com o tempo psicológico, porque sua essência está intimamente relacionada ao conflito humano e este é a pedra fundamental da literatura de qualidade. Luiz de Toledo Machado afirma que “nas sociedades arcaicas e antigas o homem percebia o tempo como

um fenômeno cíclico, repetitivo, como um eterno retorno. Na cultura ocidental o conceito de tempo foi alterado, passando a ser entendido como sucessão, continuidade e consecutividade (...) Contudo o homem moderno traz dentro de si, inerente à sua realidade psicológica, tanto o tempo cíclico enraizado na inconsciente, que é a morada dos símbolos, mitos e arquétipos, como o temposucessão, idéia que contém valores culturais e históricos”. O tempo integra a essência da vida e do ser humano. Faz parte deles. A literatura – como a música – é manifestação temporal por excelência. O fato literário expressa, com palavra sugestiva e transubstanciadora, uma experiência real ou imaginária, num instante do viver. Enquanto fazemos alguma coisa, um milhão de outras acontecem simultaneamente. Essa simultaneidade não é possível apreender na obra literária. No máximo, consegue sugeri-la, pois o poder expressivo da palavra faz-se pela sucessão natural. Quando o escritor codifica sua linguagem para reproduzir fatos, ele fica preso a essa sucessão. Quando o leitor decodifica a linguagem do escritor e toma conhecimento dos fatos por este narrado acaba por se submeter, também, ao mesmo fenômeno da sucessão. Os fatos podem estar potencializados na mente do escritor como ocorrência simultânea, nos moldes da vida, mas, ao submetê-los à impressão na folha de papel, troca-se a simultaneidade da realidade “real”


104 pela sucessão da realidade “transfigurada” pela literatura. “No momento em que escrevo estas linhas, tenho diante de mim o papel e a pena que nele desliza; ouço rumores de crianças que brincam no parque; penso no problema que expresso; um rádio distante transmite notícias; ouvem-se buzinas de automóveis. A ficção do fluxo de consciência e do monólogo interior cuidou de expressar, com recursos indiretos, essas coexistências, mas a instantaneidade e simultaneidade, perseguidas em tais intentos, somente se realizaram através de referências sugeridas, não de fatos concretos”. (Raúl Castagnino)

Como podemos perceber, a arte literária está impregnada de tempo: no conteúdo – porque faz parte do conflito humano – e na forma – porque sua matéria-prima, a linguagem, está umbilicalmente presa ao fenômeno da sucessão. E talvez o grande desafio do escritor resida no conflito entre a simultaneidade dos fatos narrados, o conteúdo (tempo narrado) e a sucessão narrativa (tempo de narração). Ler e escrever estão presos à sucessão, portanto a literatura é uma arte temporal em todas as suas instâncias, tanto da criação do autor quanto na recriação do leitor. Fonte: Academia Ribeiraopretana de Letras. Ribeirão Preto , SP - Ano III - Nº 8 - Março/2004

Academia Ribeiraopretana de Poesia Haicais, 1996 Em 1.996, realizou importante concurso nacional de Haicai sob os temas: Luz e Noite. Foram vencedores:

O inseto se olhou no espelho da gota de orvalho. 5- Darly O. Barros

LUZ - NACIONAL/INTERNACIONAL 1-Arthur Francisco Baptista

À luz da manhã a borboleta amarela leva o sol nas asas.

A luz do farol no mar sem ter quem buscar adormece ao sol.

Menções Honrosas: 1- Morais Lopes -(Portugal)

2- Geraldo Lyra Balão colorido qual esteira de fogueira vai de luz vestido.

Eis a luz e a vida; ser primavera é ser luz, ser luz é ser vida. 2-Maria Thereza Cavalheiro

3-Dercy Alonso de Freitas Um raio de luz carinho em nosso caminho o amor de Jesus.

Deus apaga o sol, e acende luzes de estrelas em todas as árvores. 3-Arthur Francisco Baptista

4-Sérgio Bernardo Na luz da manhã

Encontro no mar. O abraço nosso é um pedaço


105 da luz do luar. 4-Napoleão Valadares

As luzes do dia varrem com raios de sol as sombras da noite.

Eu quero sonhar enquanto tiver o encanto da luz desse olhar.

NOITE - MUNICIPAL vencedores:

5- Sérgio Bernardo No infinito, o sol chora lágrimas de luz dando adeus ao dia. 6-Arthur Francisco Baptista O sol do poente da vidraça, a luz embaça desejo dormente. 7- Izo Goldman Olho arregalado no escuro do azul profundo, a luz de lua cheia.

1- Lila Ricciardi Fontes É chuva sem fim! É goteira, a noite inteira, solfejando em mim! 2- Lila Ricciardi Fontes Na noite silente da mata,o luar de prata, passeia imponente! 3– Silvio Ricciardi

Menções especiais:

Foi a noite embora... e a passarada acordada já festeja a aurora.

1- Darly O.Barros

Menções Honrosas:

Sobre a Bíblia aberta, a branca luz de luar faz sua oração.

1- Branca Marilene Mora de Oliveira

2- Neide Rocha Portugal Sem discriminar o raio de luz penetra na velha tapera. 3- Darly O. Barros A luz da lareira... Coreografia perfeita de um baile de sombras... 4- Dercy Alonso de Freitas A fome rodeia, falta comida na mesa à luz da candeia. 5- Edmar Japiassu Maia

Lá vem a saudade! Junto com a noite chegando. esta dor me invade 2– Lila Ricciardi Fontes O vento em açoite, martela minha janela, assustando a noite. 3- Sílvio Ricciardi Um preito ao luar!... A dama da noite emana perfume invulgar. 4– Sílvio Ricciardi Que "show" de pernoite! Quantas estrelas...êm vê-las enfeitando a noite.


106 noite de poesia. 5– Rita Marcianp Mourão 7- Silvio Ricciardi Noite.Mil segredos! Surge a luz bela e nua a enganar os medos.

Que noite!...E o cansaço é tanto...eu busco acalanto no teu meigo abraço.

6– Lila Ricciardi Fontes Fonte: Nilton Manoel

A luz que irradia do luar,faz singular,

Vicência Jaguaribe Por uma nota de dez reais Quando a menina chega do colégio, a mãe manda-a trocar a roupa: tire a farda e vista o vestido mais novo que encontrar. Quer levá-la à casa de um amigo, que deseja conhecê-la. A menina ainda objeta: tem que ir para a casa da dona Railda, ajudála, como faz toda tarde. A mãe grita com ela e diz que, a partir daquele dia, ela não precisa mais ajudar aquela exploradora de menores. A menina assustase com o grito e tem medo do que a mãe está planejando. Só pode ter alguma coisa em mente para querer sair com ela naquele horário. Ela tem nove anos, no entanto parece bem mais nova. Seu corpinho raquítico e seu rostinho de feições miúdas não permitem que lhe deem mais de seis anos. Mora com a mãe em um barraco perto da linha do trem e estuda na escola pública do bairro. Logo que foi morar ali, acordava todas as vezes que o trem passava e tinha medo que ele descarrilhasse e caísse sobre o barraco. Com o tempo, porém, acostumou-se, e nem o apito da locomotiva nem o barulho que ela provoca ao deslocar-se a perturbam mais. Agora, em vez de ter medo, ela fantasia em torno do trem. Aquele é um trem mágico, que vai levá-la a uma terra distante, onde não existe bebida, nem droga, nem mãe violenta, com namorado asqueroso. Acorda cedo, come alguma coisa, quando há o que comer em casa. Sai na ponta dos pés para não acordar a mãe, que chegou de madrugada, com cara de quem andara usando aquelas porcarias, que

a menina bem sabe o que são, mas evita dizer o nome. Ainda bem que há o colégio onde ela passa a manhã inteira, e lá ela pode contar com a merenda escolar. Enquanto está na escola, esquece-se da mãe, do barraco, da fome e do namorado da mãe, que de vez em quando tentava agarrá-la. Mas nem sempre fora assim. Ela se lembra, ainda que vagamente, do tempo em que moravam em uma casa de verdade e sua mãe saía para trabalhar, deixando-a na creche. Passava para pegá-la à tardinha e iam as duas para casa. Ela não tinha aquela cara que tem hoje, nem aquelas crises de violência que a aterrorizam. Era divertida e carinhosa. E a menina adorava ouvi-la cantar e contar histórias. A mudança começou quando ela arranjou um namorado com cara de marginal. Levava-o para dormir em casa e o que ganhava acabava na mão dele. Aí começou a faltar tudo, e a mãe passou a agir de maneira esquisita. Às vezes, o namorado nojento chamava-a e queria abraçá-la, beijá-la, fazê-la sentar-se em seu colo. Mas a menina fugia dele, corria para os barracos dos vizinhos e só voltava quando, já bêbados ou drogados, os dois adormeciam. Até que a mãe perdeu o emprego e não mais pôde dar dinheiro a ele. Um dia, o maldito simplesmente desapareceu. Foi quando sua mãe resolveu vender a pequena casa onde moravam. Ela precisava de dinheiro para comprar comida e... aquelas porcarias, cujo nome a menina evitava pronunciar.


107

Ultimamente, quando volta da escola, vai para a casa de uma senhora que mora perto e tem um filhinho pequeno. Ela passa a tarde ajudando com a criança, em troca do jantar. Mas gosta de ficar ali, de brincar com o menino. O ruim era que, agora, só pode preparar os deveres do colégio à noite. Mas, naquela tarde, a dona Railda ia pensar o que dela? Que era uma irresponsável. E não iria mais querer que ela trabalhasse na sua casa. A mãe arranca-a do barraco puxando-a pelo braço e, sem explicar nada, vai caminhando apressada, entrando em umas ruas que ela não conhece. Até que para em frente a uma casa de muro alto e bate no portão. Um latido de cachorro responde à batida. Logo em seguida, um homem não muito jovem, segurando o cachorro pela coleira, abre o portão e manda-a entrar. Ela puxa-o para um lado e conversa com ele, apontando de vez em quando para a filha.

Ele mete a mão no bolso e lhe entrega uma cédula, que ela amassa e depois mete no bolso do vestido. Despede-se do homem e dirige-se ao portão, seguida pela menina. Sem olhar para trás, grita para a filha: ela deve ficar naquela casa, por uns dias. Aquele senhor cuidará dela. Empurra-a para longe do portão e sai quase correndo. O homem tranca o portão, pega na mão da menina, que chora gritando pela mãe, leva-a para dentro de casa e fecha a porta. A mulher, caminhando apressadamente, só deixa de ouvir os gritos da filha, quando dobra a esquina. Aí, então, tira de dentro do bolso a nota amassada: dez reais. Dá para comprar somente duas pedras de crack, o suficiente para aquela noite. Na manhã do dia seguinte, arranjará outra coisa para vender. Fonte: A Autora

Paraná Trovadoresco Saboreando a lembrança das artes de um meninote, me sinto outra vez criança roubando doces de um pote. ADILSON DE PAULA - JOAQUIM TÁVORA O meu humilde barquinho, à praia eu fiz aportar. Vim procurar o caminho que teimas em me negar. ALBERTO PACO - MARINGÁ Sempre que ponho em meus versos as coisas do coração, os pensamentos, dispersos, tomam forma de oração! †ALDO SILVA JÚNIOR–CURITIBA Deus nos deu inteligência, arbítrio e também saber. Não inverta esta sentença:

Viva... e deixe-me viver! ANGELO BATISTA-CURITIBA A natureza protesta sempre que alguém a maltrata. Se matas uma floresta, vem o deserto e te mata! A.A. ASSIS – MARINGÁ Se de barro fomos feitos nesta olaria divina, somos dois corpos perfeitos, partilhando a mesma sina! + ANTÔNIO FACCI – Maringá/PR Eu vejo a terra cansada a cada passo mais linda sofrendo golpes de enxada e dando frutos ainda. †ANTÔNIO SALOMÃO-CURITIBA


108 A mulher, eu sei, confesso, é luxo da natureza... Fruir seu corpo é acesso às loucuras da beleza! APOLLO TABORDA FRANÇA-CURITIBA E na escalada da vida tenho uma grande ambição: de ser a amiga escolhida pra te levar pela mão. ARACELI FRIEDRICH-CURITIBA Diz um sábio singular este aforismo, a valer: Deus criou o bem e o mal compete à gente escolher. +ARGENTINA DE MELLO E SILVA-CURITIBA Pinheiros ou araucárias, com formas de belas taças dão pinhas extraordinárias e ao pinhão rendemos graças! +ARIANE FRANÇA DE SOUZA-CURITIBA As minhas mãos calejadas, plantam sementes de amor, que nascem e são cuidadas, e se transformam em flor. ARLENE LIMA - MARINGÁ Velha foto esmaecida deixou lágrima de herança! Hoje a vejo colorida pelo cristal da lembrança! ÁTILA SILVEIRA BRASIL – CORNÉLIO PROCÓPIO Tudo o que é bom, por um lado, pelo outro tem um custo. Mesmo Deus em se reinado antes de ser bom foi justo! CAMILO BORGES NETO - CURITIBA No comércio, o cidadão, nunca vive sossegado. Quando escapa do ladrão, cai no golpe do fiado. CASSIANO SOUZA ENNES - CURITIBA Sol e chuva, distinção, desta Cidade Sorriso sob qualquer condição, me sinto no paraíso!!!

CECÍLIA SOUZA ENNES - CURITIBA Não seja bobo, sorria das coisas que vê na vida. Faça uma trova por dia, que é saúde garantida. CECILIANO JOSÉ ENNES NETO – CURITIBA É verdade, neste inverno, vou dar tudo a quem não tem, porque sei que para o inferno nunca vai quem faz o bem. +CECIM CALIXTO – TOMAZINA Trovador é “gente” esperta e só faz rima de artista, põe todos de boca aberta, mais do que eu... Que sou dentista! CRISTIANE BORGES BROTTO - CURITIBA Salve Ano Novo! Risonho, feliz, tranquilo a chegar! Vem, como meu grande sonho: de a tudo e a todos amar! CYROBA BRAGA RITZMANN - CURITIBA Tem meu avô que não mente, foi um pescador de escol. Já lutou contra a corrente, com tubarão no anzol... DINAIR LEITE – PARANAVAÍ Vassoura de bruxa arrasa, é enorme a sua ação, depois de limpar a casa, inda vira condução! FERNANDO VASCONCELOS - PONTA GROSSA Quem no lar planta o carinho sempre colhe muito mais: o filho molda o caminho pelas pegadas dos pais! GERSON CEZAR SOUZA - SÃO MATEUS Hei de te fazer, mulher, a mais feliz companheira. Não por um dia sequer, senão pela vida inteira. GILBERTO FERREIRA - CURITIBA Explode no firmamento um sol de raro esplendor,


109 JANETE DE BANDEIRANTES

espargindo pelo vento, eflúvios de eterno amor! GLYCÍNIA DE FRANÇA BORGES - CURITIBA Minha mãe, que orava aqui, é nos céus que reza agora; foi no meu sonho que a vi aos pés de Nossa Senhora! +HARLEY CLOVIS STOCCHERO–ALMIRANTE TAMANDARÉ Minha mãe que eu adorava, para mim tão boa e linda com tanto amor me falava que lhe escuto a voz ainda! †HEITOR BORGES DE MACEDO-CURITIBA

Numa espera doce e mansa, qual zelosa tecelã, bordo rendas de esperança, para enfeitar nosso amanhã. JEANETTE DE CNOP – Maringá Ao perder-se um grande amor nosso coração dá um brado: – Por favor, tire essa dor! Oh, pranto! Fique calado!!! JOSÉ FELDMAN – MARINGÁ

Se toda literatura, fosse obra de certos críticos, carecia sepultura pra enterrar versos raquíticos. LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE - PINHALÃO

Nasci onde o vento bate e junto a um grande terreiro, ao lado um pé de erva-mate e um majestoso pinheiro. HELY MARÉS DE SOUZA - UNIÃO DA VITÓRIA

No mundo por onde andei, nestes anos que vivi, as minhas culpas paguei, tudo o que semeei – colhi! + LEONARDO HENKE – CURITIBA

Saibamos as leis de cor, Façamos do lar um templo, Mas nada educa melhor Do que o nosso bom exemplo. HILDA KOLLER - CASTRO

Mãe... és luz do meu olhar! És minha flor preferida, induz meu ser a sonhar, até o fim da minha lida. LIGIA CRISTINA DE MENEZES – PINHAIS

A Justiça para todos tem que ter rumo perfeito, sem artimanhas e engodos, prevalecendo o Direito. HORÁCIO PORTELLA - PIRAQUARA

Cartas de amor escondidas, no meu baú de esperança, são testemunhas de vidas que ficaram na lembrança.

GUERRA

Faça a criança feliz! Ensine a mesma a pensar. Dê-lhe na ponta do giz razão pra não fracassar! JOSIAS DE ALCÂNTARA - CURITIBA

Confesso, é no teu perfume e no sabor do teu beijo, que para mim se resume a volúpia do desejo. †HEITOR STOCKLER DE FRANÇA - PALMEIRA

As lembranças de nós dois fui guardando nas caixinhas... Para descobrir depois... Que em verdade... Eram só minhas! ISTELA MARINA GOTELIPE BANDEIRANTES

AZEVEDO

Bandeira da minha terra lindo pendão de esperança. O teu pavilhão encerra luta, heroísmo e bonança. +LORYS MARCHESINI - CURITIBA LIMA

É na tarde que desmaia, é numa canção dolente que a saudade se atocaia para apunhalar a gente. †LOURDES STROZZI - CURITIBA


110 Por nunca amar quem me ama e amar quem nunca me quis, as feridas do meu drama deixam dupla cicatriz... LUCÍLIA TRINDADE DECARLI - BANDEIRANTES Poesia estado de graça, chama da alma em delírio. É prazer que nos abraça mas, também nos traz martírio. + LÚCIO DA COSTA BORGES - MORRETES Brincava feliz menina com a boneca na mão hoje cresceu, triste sina, brinca com meu coração. LUIZ HÉLIO FRIEDRICH - CURITIBA Só, eu vivo bem comigo, pois sou boa companhia; nem preciso de um amigo para sentir harmonia. LYGIA LOPES DOS SANTOS – CURITIBA Numa manhã de domingo li versos de muita gente. Disse: Eu agora me vingo... e escrevo os meus finalmente! M. MACHADO-CURITIBA Arrisca um olho no amor, nessa incerteza em que vais. Na vida, o maior perigo é precaver-se demais. MANOEL CLARO ALVES NETO - CURITIBA Ante as leis, às vezes, penso dessa Justiça que aceito, que embora exista um consenso, nem sempre o certo é o direito. MANUEL M. RAMIREZ Y ANGUITA-CURITIBA Longe vão minhas andanças e,em meu trêmulo cansaço, tento fazer das lembranças ... bastão... e assim firmo o passo. MARIA CONCEIÇÃO FAGUNDES - CURITIBA Ao longo desta jornada percorri "sobes e desces", mas sempre bem humorada envolvida em minhas preces!

MARIA DE LOURDES AKEL - CURITIBA Para a alma aliviar na dor, conflito, paixão, a lágrima acalma o olhar, um poema, o coração. MARIA ELIANA PALMA - MARINGÁ Em meus rascunhos guardados, não há mistérios… Porque nos versos que são lavrados o tema é sempre… você! MARIA LÚCIA DALOCE BANDEIRANTES

CASTANHO

É fácil de fazer trovas quando se tem grande amor. Mil idéias sempre novas descem dos céus em louvor! †MARITA FRANÇA-CURITIBA Glória que tenho na vida, ninguém pode duvidar: foi vencer os contratempos, sem aos outros melindrar. + MARIA NICÓLAS-CURITIBA Sobre a vida do vizinho, o porteiro argumenta... já faz dele um picadinho... se puder... joga pimenta! MARIZA SOARES DE AZEVEDO – CURITIBA O amor chega de mansinho como quem está brincando… Mostra a flor, esconde o espinho, e acaba nos machucando! MAURÍCIO LEONARDO – IBIPORÃ Minhas trovas são singelas, sem marcas nem pedantismo, pois eu faço, assim, com elas, arautos do romantismo. MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH - CURITIBA A melhor sogra do mundo, que não é uma qualquer, encontrei-a num segundo e a dei pra minha mulher. NEI GARCEZ - CURITIBA .

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111 Não me peças esperanças perdidas em vendavais, se eu não posso ter lembranças do que eu já nem lembro mais! NEIDE ROCHA PORTUGAL - BANDEIRANTES . Há pessoas que nem notam... Mas, no mundo, há mais beleza, quando as folhas novas brotam, renovando a natureza. OLGA AGULHON – MARINGÁ Se a saudade em mim subisse como me sobe a pressão, o dia em que eu não te visse me explodia o coração. ORLANDO WOCZIKOSKY-CURITIBA Curitiba, ninguém mais, não importa aonde eu vá, pode dar-me o que me dás: És a Flor do Paraná! RALF GUNTER ROTSTERN – CURITIBA Carros? Jóias? Bens? Dinheiro? Isso também é importante! Mas um amor verdadeiro... torna o viver mais vibrante! ROSE MARI ASSUMPÇÃO – PR Depois da aviária e a suína, mais folga o aluno cobiça: quer que venha, repentina, a gripe bicho-preguiça! ROZA DE OLIVEIRA – CURITIBA À primeira claridade, da manhã fresca e bonita, a nossa bela cidade desperta alegre e se agita. + SERAFIM FRANÇA-CURITIBA A verdade só proclama quem pouco sabe, de fato. O mundo é um grande anagrama: movem-se as letras e os atos. SINCLAIR POZZA CASEMIRO - CAMPO MOURÃO. A Trova é tão pequenina mas quanta Beleza encerra, feliz de quem tem a sina de espalhá-la pe la Terra!...

SÔNIA DITZEL MARTELO – PONTA GROSSA Da vida no grande coro, eis nosso destino atroz: Seguirmos de chôro em chôro, até que chorem por nós. + TASSO DA SILVEIRA Pelo bem, lute na terra, com garra: seja tenaz; Pois é através da guerra que só se consegue a paz. VANDA ALVES DA SILVA-CURITIBA Certas trovas são tão belas, dão tal encanto e prazer, que eu vejo, pensando nelas, quanto preciso aprender! VANDA FAGUNDES QUEIROZ–CURITIBA Saudade vive e contesta, me acorda de madrugada, faz lembrar-me o fim da festa... o beijo... e a noite estrelada! VÂNIA MARIA SOUZA ENNES – CURITIBA Estudar é necessário quanto o alimento tomar. Saber é chave do armário pra experiência acumular. + VASCO TABORDA RIBAS-CURITIBA Angústia é isto: este anseio, pássaro aflito, doente. Nem se sabe de onde veio pra sofrer dentro da gente! + VERA VARGAS – PIRAÍ DO SUL Quando chora um trovador não é o seu pesar somente, canta, sofre e chora a dor colhida de toda gente. + VICTORINA SAGBONI-CURITIBA Seja estrela sorridente no seu modo de viver, e com força transcendente faça o bem acontecer! VIDAL IDONY STOCKLER-CURITIBA


112 Quando encontram-se as amigas, mil fofocas vão pro ar... Sob a transa das intrigas, se divertem: tudo ao par! WALDEREZ DE ARAÚJO FRANÇA-PARANAGUÁ

Passa o tempo... e a mocidade vai deixando, em seu lugar, pegadas para a saudade, um dia, me procurar! WANDIRA F. QUEIROZ –CURITIBA

No caminhar, vença o atalho da vida, exercite a messe, veja o exemplo do carvalho, demora a crescer, mas cresce! WALNEIDE FAGUNDES S. GUEDES - CURITIBA

A Trova, chispa divina Bem igualzinha ao amor; É sublime, é bela, fina... Nos lábios do Trovador. WELLESLEY NASCIMENTO-A. TAMANDARÉ

Amosse Mucavele Carta do aniversariante no dia em que não se fará a festa Ontem foi o dia do meu aniversário, comemorei com as 4 paredes que ladeiam o meu quarto, E hoje, dia em que os Astros advogaram sem uma causa justa, mas com um aviso prévio sendo este o verdadeiro dia do meu aniversário 24 anos completam-se em mim, e eu nem estou ai, neste instante procuro refúgio na imensidão deste poema-assim o julgo eterno. Tal como a as palavras que o guiam, eu deambulo no vazio do suco que refresca o bolo que vos ofereço Desculpe a todos que esperavam uma festa. Agora vos digo – eu não sei organizar uma festa, assim sendo tenho da vossa companhia motivos suficientes para estarmos em festa. Que zanguem os homens das gargantas abertas, os das barrigas vazias, pois não há mais nada a dizer, por isso sintetizo – eu não sei organizar uma festa, Depois de uma conversa afiada com a minha mãe no cemitério, onde ,eu fui lhe dar uma água, uma flor, um beijo, e jurar perante ela que eu já sou homem crescido e novo,

Já não sou aquele menino tal como o pai que destruía lares e eu, sendo filho de peixe, sabia nadar até no arreal, e em contrapartida desmanchava prazeres das meninas, brincava com os sentimentos delas. Agora sou um novo homem, 24 poemas me esperam,,, desde já, juro fidelidade às garrafas e aos livros. E mulheres preciso daquelas divorciadas, humilhadas, mal amadas, pois ontem á noite recebi o antídoto para este veneno chamado traição, e as minhas namoradas do passado que o presente tornou-as Ex. Nem sei onde foi o buscar este prefixo e o futuro chama-as por amigas, elas me amaram e eu as violentei domesticamente no meu pobre quarto de madeira e zinco.,No momento diziam me machucar, eu puxava-lhes as mechas, dava-lhes palmadas, e não tinham onde queixar pois pediam que as machucasse. Ponto final! Eu já não quero brincar ou fazer orgias com os virgens sentimentos destas miúdas. O que me espera agora é viajar no silêncio de uma garrafa de whisky Old Pascas. Fonte: Texto enviado pelo autor


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Ademar Macedo Trovas Engraçadas Trabalho só é bacana se tiver, por sua vez, uma folga por semana e férias de mês em mês! Sempre que eu vou me deitar acompanhado na cama; já que eu sei que vou tirar... – Pra que botar o pijama? A minha sogra, assanhada, no barracão da mangueira, foi muito mais apalpada do que laranja na feira!... Você pode acreditar no que eu digo pra você: Dívida é pra se pagar... mas quando se tem com quê!... Por agir sem ter cautela um grande mico eu paguei, investi numa donzela que na verdade era um gay!... Visita pra meter medo, que nem vassoura adianta, é aquela que chega cedo e só sai depois que janta! Adotei o isolamento, feito um ermitão qualquer. Pra fugir do casamento e das manhas de mulher!... Teve um chilique o Oscar ao ver seu filho, um nissei, ser o primeiro lugar numa passeata gay.

Com sua língua de trapo, disse, ao ser mandado embora: – É moleza engolir sapo; o duro é botar pra fora! Todo mundo me cobrando, parece um alto relevo; a dívida vai aumentando, quanto mais pago, mais devo! Pra poder me atazanar, por vingança ou por castigo, minha sogra vem morar parede e meia comigo!... Inimigo do trabalho, é meu primo o “Paraíba;” seu emprego é no baralho: buraco, truco e biriba. Pelas “coisas” que fazia, vive o malandro enjaulado; usando de noite a dia o seu “pijama listrado”. Chega a causar agonia, uma visita sacana, que vem pra passar um dia, passa mais de uma semana! Plantei um pé de tomate e fiz tanta adubação, que ele está dando abacate, alho, cebola, e melão... Fonte: O Autor


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João Scortecci Eu sou um livro Eu sou um livro. Um exemplar do romance de nome Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor Joaquim Maria Machado de Assis que nasceu no dia 21 de junho de 1839 e morreu em 29 de setembro de 1908, considerado o maior nome da literatura brasileira. Fui impresso no ano de 1881, nas Oficinas da Tipografia Nacional, na Cidade do Rio de Janeiro. Tenho pouco mais de 127 anos, muitas páginas e uma belíssima encadernação de luxo. Uma unanimidade em primeira edição com autógrafo e dedicatória em bico de pena. Estou catalogado no acervo da biblioteca de um importante bibliófilo apaixonado por leitura. Tive sorte, muita sorte na sua escolha dele por mim. Não sei se vocês sabem, somos nós “livros” que escolhemos leitores. Antes de ganhar notoriedade e referência de obra rara passei um longo tempo em um sebo jogado literalmente às traças. Já escapei de um incêndio, de vazamento de água bem na minha cabeça e de uma ameaça de reciclagem imprudente. Minha morte seria um crime. Felizmente escapei com a sorte de poucos. Um livro precisa de amigos. Sofremos com destruição por fanatismo religioso e político, roubos, falsificações, reciclagem e contaminação por fungos e bactérias. Não sou forte e resistente como antigamente. Minhas páginas estão amareladas. É o desgaste

natural causado pelos excessos à luz, umidade, temperatura inadequada e inimigos predadores como cupins, traças e roedores. Gostamos de ficar em prateleiras em local afastado das paredes, ordenados verticalmente, sem acúmulo excessivo. Ventilação e limpeza são indispensáveis para nossa sobrevivência. Não gostamos de muito calor e aperto. 22° C está perfeito. Não precisa também exagerar! Temperatura excessiva faz com que as fibras de celulose percam as suas propriedades de Elasticidade, Flexibilidade e Resistência. A umidade relativa do ar não deve ultrapassar 60%. Iluminação ambiental de 50 watts é a correta. A luz artificial mais utilizada é a fluorescente. Nunca utilizar luz ultravioleta. Os segredos e mistérios de um livro estão no seu conteúdo. Dia 29 de outubro é o meu Dia Nacional. Foi escolhido por ser a data de aniversário da fundação da Biblioteca Nacional, que nasceu com a transferência da Real Biblioteca portuguesa para o Brasil. Um dia de todos os dias e de todos nós. Não se ama um livro vez por outra e muito menos com lapsos de memória. Eu sou um livro. E você? Fonte: Amigos do Livro

Ademar Macedo Mensagens Poéticas 101 Uma Trova Nacional Amor é... um quase nada, poucos sabem perceber,

é brincar de madrugada sem pensar no amanhecer. (OLYMPIO COUTINHO/MG)


115 Uma Trova Potiguar

...E Suas Trovas Ficaram

Um dia ela me olhou, por mera casualidade; daí nasceu nosso amor para toda a eternidade. (CARMO CHAGAS DE OLIVEIRA/RN)

Na luta contra a cobiça, mantendo na alma a esperança, meu desejo de justiça é maior que o de vingança! (ALOÍSIO ALVES DA COSTA/CE)

Uma Trova Premiada

Estrofe do Dia

1994 > Belo Horizonte/MG Tema > OÁSIS > Menção Honrosa

Todo poeta se inspira Na vibração de seu canto, Embora, às vezes, o pranto Em seu caminho interfira; Afeito ao toque da lira, O som das canções o encanta, Mas, se um dia a musa santa De seus sonhos vai embora, O poeta também chora, Mas chora como quem canta. (JOSÉ LUCAS DE BARROS/RN)

Quando a aflição nos alcança, o Bom Deus, sempre por perto, planta o oásis da esperança no coração do deserto! (MARCELO ZANCONATO PINTO/MG) Simplesmente Poesia MOTE: (Ademar Macedo) Em cada cabelo meu tem um verso pendurado. GLOSA: Finge que já me esqueceu, chora no canto a coitada. Diz que a vida é complicada e, em cada cabelo meu, amarra um cabelo seu dando um nó bem caprichado pra impedir o mau olhado. Sem meus versos não sossega e até na porta da adega tem um verso pendurado. (GILSON MAIA/RJ)

Soneto do Dia Francisco Macedo/RN UM SONETO FILHO DO SOL Foi um Raio de sol... Chegou silente! Engravidou a folha onde escrevia, e a gestação se fez tão de repente, ... de repente, nasceu essa poesia. Se fez soneto, tão surpreendente, sem tema, assunto, assim à revelia, e crescendo se fez incandescente, pleno de amor e luz no novo dia.

Uma Trova de Ademar

Filho do sol amando a liberdade, responsável, lhe dei paternidade, vou educá-lo para ser moderno.

Ninguém jamais colhe flores, plantando ódio e maldade; só faz colheita de amores quem planta amor de verdade!... (ADEMAR MACEDO/RN)

E com ele vou ter cumplicidade, para vê-lo atingir posteridade, conquistar o leitor, e ser eterno! Fonte: Ademar Macedo


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Cilza Carla Bignotto Duas leituras da infância, segundo Monteiro Lobato Emília. O nome de uma boneca provavelmente é a primeira “palavra-chave” que a memória puxa do fundo dos arquivos pessoais quando o assunto é Monteiro Lobato. A palavra Emília certamente abrirá algumas gavetas empoeiradas, onde a memória guarda O Sítio do Picapau Amarelo e todos os seus habitantes. Pode ser que, além de histórias infantis lidas e assistidas na tv, as gavetas também guardem Jecas Tatus, um artigo chamado Paranóia ou Mistificação, ou quem sabe, algumas histórias envolvendo petróleo. O que for lembrado depois de Emília pode variar bastante de leitor para leitor. De qualquer forma, a boneca, sempre metida onde não é chamada, estará sentada no topo de tudo o que estiver arquivado com a etiqueta “Monteiro Lobato”. Clichê maior que começar artigo sobre Lobato falando de Emília não há. A força da boneca, porém, é grande: se Gustave Flaubert disse “Madame Bovary sou eu”, Emília poderia muito bem ter dito, em suas Memórias, “Monteiro Lobato sou eu”. Mas Emília só começou a falar em 1921, ano de lançamento de Narizinho arrebitado, livro que iniciou a série de aventuras dos habitantes do Sítio. Antes disso, Lobato já havia escrito três livros de contos: Urupês, Cidades Mortas e Negrinha. É deste último livro o conto homônimo sobre uma menina que, como Narizinho, tem sua vida transformada por uma boneca. No conto Negrinha, o cenário é uma fazenda. Esta fazenda pertence a uma velha senhora, Dona Inácia, que cria uma menina órfã, a Negrinha do título. As Reinações de Narizinho acontecem em um sítio, que pertence a outra velha senhora, Dona Benta, que cria a menina órfã e reinadora do título. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas - Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. Dona Inácia é ótima (...) mas não admitia choro de criança (...) Assim mal vagia, longe, na cozinha, a

triste criança [Negrinha], gritava logo nervosa: Quem é a peste que está chorando aí? Narizinho, a encantadora, é neta da dona do sítio. Negrinha, a peste, é filha de escrava da dona da fazenda. Uma menina é apresentada como Lúcia, e depois como Narizinho. A outra é apresentada como Negrinha, e se tem nome, não é dito no conto. O apelido Narizinho tem origem em uma característica física, o nariz arrebitado. A menina tem sete anos, é morena como jambo, gosta muito de pipoca e já sabe fazer uns biscoitos de polvilho bem gostosos. Negrinha também tem sete anos, e seu apelido também tem origem em uma característica física. Preta? Não, fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados (...) seus primeiros anos vivera-os pelos cantos da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. O nome “inicia a existência religiosa e civil da criatura. O pagão é apenas uma perspectiva de direitos até que lhe imponham o nome”, afirma Luiz da Camara Cascudo. Sem nome, não há batismo, documentos, identidade social ou identidade individual. O que é imposto a Negrinha é um apelido que, dentro dos costumes de tratamento brasileiros poderia até ser considerado afetivo. Essa possibilidade desaparece algumas linhas depois: Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa (...) - não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Seu corpo “era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo.” O narrador entra nas casas pela cozinha, cômodo em que nos são apresentadas as meninas. Em seguida, descreve-as fisicamente. As primeiras informações que se lê sobre Negrinha e Narizinho lembram dados de Censo do IBGE: nome, filiação, idade, cor. Essas “fichas” das crianças servem para mostrar o lugar que ocupavam na sociedade


117 brasileira. O fato de aparecerem pela primeira vez na cozinha, mostra o espaço que ocupavam dentro de casa, na família. A cozinha era o lugar das mulheres. Narizinho sabe cozinhar, e isso funciona como mais um atributo, porque saber cozinhar bem era ato valorizado na educação das mulheres da época. Seu papel ativo na cozinha revela que ocupa um lugar importante dentro da família. Negrinha vive “pelos cantos”, como um “gato sem dono”. Seu papel passivo, dentro de um grupo duplamente passivo (criadas negras), num lugar consagrado ao sexo “frágil”, torna-a ainda mais “coisa”. Portanto, Negrinha não tem nome - tem apelido; não tem família - tem dona, que não cuida dela; não tem cor definida - é mulatinha escura; não tem lugar dentro da cozinha, dentro da casa, dentro da sociedade. Não é à toa que parece “um gato sem dono” - sua condição é quase a mesma de um animal. “Aprendeu a andar, mas quase não andava”. Apesar de todas essas diferenças, as duas garotas vão encontrar na companhia de bonecas as experiências que trasnformarão suas vidas. Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma - na princezinha e na mendiga. E para ambas é a boneca o supremo enlevo. Este trecho é de Negrinha. Duas sobrinhas de Dona Inácia vem passar férias na fazenda. Trazem, entre outros brinquedos, uma boneca. Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial. - É feita? ...- perguntou, extasiada. As meninas deixam que ela se aproxime e ficam admiradas com seu assombro. “- Nunca viu boneca?” E Negrinha repete: “Boneca? Chama-se boneca?” As meninas, depois de rirem-se “de tanta ingenuidade”, perguntam o nome da companheira. “Negrinha”. Mais risos, e Dona Inácia, comovida, deixa que Negrinha vá para o jardim brincar com “a criancinha de cabelos amarelos...que falava “mamã”...que dormia...” e suas louras donas. Acontece, então, o despertar da consciência da menina.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia que tinha uma alma. Divina eclosão! (...) Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa - e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava! Assim foi - e essa consciência a matou. A imaginação de Negrinha, que só ousava acompanhar os movimentos de um relógio-cuco da patroa, liberta-se durante o ato de brincar. E irrompe de forma tão forte em seu “doloroso inferno” que, quando as meninas vão embora e a vida volta “ao normal”, Negrinha vai definhando e morre em sua esteirinha, rodeada de “bonecas, todas louras, de olhos azuis”. Sua humanidade, restaurada pela imaginação, só encontra liberdade na morte. Antes de tudo se esvair “em trevas”, a imaginação, na forma mais dolorosa de delírio, a rodeia de brancas bonecas e anjos de olhos azuis. Narizinho vive sua primeira aventura na companhia da boneca Emília. As duas vão ao Reino das Águas Claras, convidadas pelo príncipe Escamado. A boneca é de pano, e foi feita por tia Nastácia “com olhos de retrós preto e sombrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa.” Emília toma uma pílula do Dr. Caramujo e começa a falar. A primeira coisa que diz não é o óbvio “mamã”, mas: “Estou com um horrível gosto de sapo na boca! E falou, falou, falou, mais de uma hora sem parar”. Narizinho “viu que a fala de Emília não estava bem ajustada” e “viu também que era de gênio teimoso e asneirenta, pensando a respeito de tudo de um modo especial todo seu”. Qualquer semelhança com Monteiro Lobato... O ato de falar é fundamental nessas histórias. Negrinha não pode dizer asneiras, sob pena de ser torturada. Quando chama de “peste” uma criada que lhe roubara um pedaço de carne, é torturada por Dona Inácia, que põe um ovo quente em sua boca. Aliás, não pode falar nada. Talvez por isso seja tão fascinada pela “bocarra” do cuco e seu único passatempo, antes da boneca, seja vê-lo “cantar as horas”. A iniciativa da conversa cabe às sobrinhas de Dona Inácia. A boneca delas fala “mamã”. Narizinho tem liberdade para falar com quem quiser, seja tia Nastácia ou um Príncipe Escamado. E Emília passa a participar ativamente da história a partir do momento em que começa a falar. Boa deixa


118 para se fazer uma abordagem, agora, do conceito de infante - palavra que, na origem latina, significa “aquele que não fala”. Quem fala sobre, para e pela infância são os adultos. Que, através dos séculos, têm esticado, espremido e torcido o conceito infância, de acordo com visões de mundo peculiares a cada época e a cada povo. “Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la. É difícil crer que essa ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para a infância nesse mundo”, afirma Philippe Ariès. É só a partir do fortalecimento da burguesia como classe, com intenções políticas e ideológicas a firmar, que a categoria criança, como a conhecemos hoje, passa a designar um grupo específico, com necessidades específicas quanto à roupas, comida, educação, lazer. Mercados são criados para suprir essas necessidades familiares; é quando a literatura passa a ter seu ramo infantil. Não é para pessoas de uma determinada idade que são escritos livros infantis; mas para pessoas de uma determinada idade que fazem parte das classes média e alta, que vão à escola e que são cuidadas por gente que se preocupa com sua educação e pode comprar seus livros. Portanto, os dados iniciais das duas narrativas são muito significativos. Ao mostrar como as meninas são fisicamente e qual a sua condição familiar e social, as narrativas permitem que se possa situá-las dentro de um contexto histórico. E a partir daí, analisar como as representações do que seja ou não uma criança podem mudar de acordo com vários fatores, todos externos. No momento em que aparecem as bonecas, o foco narrativo das duas histórias passa a se concentrar no interior das meninas, em sua imaginação, ou “alma”, como escreve Lobato. E então elas se mostram iguais, com as mesmas potencialidades e desejos. Mas primeiro vamos olhar mais de perto estes fatores externos. Negrinha é filha de escrava. Dona Inácia “nunca se afizera ao regime novo - essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia!” Qualquer coisinha, no caso, é “uma mucama assada no forno porque se engraçou dela o senhor”. O que

são alguns espancamentos em uma pessoa que até pouco tempo atrás era considerada oficialmente mera mercadoria? Delso Renault, em seu livro Indústria, Escravidão e Sociedade: Uma pesquisa historiográfica do Rio de Janeiro no século XIX, apresenta vários anúncios de jornal que demonstram claramente a condição de “coisa” dos escravos negros. Um exemplo é o anúncio publicado no Jornal do Commercio em 29/01/1851: Na rua do Ouvidor vendem uma negrinha muito bonita e elegante, muito própria para presente, sabendo coser bem e andar com crianças, a qual é muito carinhosa Vende-se uma negrinha como se fosse uma boneca, para dá-la de presente e deixá-la andar com crianças. O leitor contemporâneo de Lobato, assim como o leitor de hoje, estão inseridos em um mundo ideologicamente diverso daquele em que viviam as crianças negras no século XIX. O horizonte de perspectivas do leitor atual abrange conceitos como o de “direitos da criança”, conceito este que serve, pelo menos em teoria, para todas as crianças. Diferente era o modo de pensar de alguém que fosse senhor de escravos - e esse modo de pensar não desapareceu com a abolição da escravatura, infelizmente. Lobato situa a história de Negrinha em um tempo em que a escravidão havia sido abolida por lei - mas leis não têm força para abolir costumes culturais entranhados em pessoas que conheceram uma época em que a lei era outra. O mundo (ou o Brasil, a vida, o “certo”) para Dona Inácia ainda é aquele da escravidão. A ideologia da ex-senhora de escravos choca-se violentamente com a nova ideologia decretada no 13 de maio. Para o narrador Negrinha é uma criança, e é assim que ele a apresenta ao leitor - não é à toa que a palavra criança aparece 8 vezes no conto, sempre ligada à menina. Mais: ele mostra o interior da menina, diz que ela tem alma portanto é gente. É natural para Dona Inácia que Negrinha seja “boa para uns croques”, viva dentro de sua casa como um enfeite da sala e, a princípio, não possa brincar com suas sobrinhas. Negrinha é a boneca de Dona Inácia, que a conserva como “remédio para os frenesis” - daí as marcas de espancamentos no corpo da menina, como as marcas que as crianças deixam em alguns brinquedos. Boneca que não


119 corresponde, porém, ao ideal físico imaginado para as bonecas da época. Razão pela qual, talvez, receba apenas os croques, e não carinhos. O culto das bonecas louras e de olhos azuis entre as meninas da gente mais senhoril ou rica do Império deve ter concorrido para contaminar algumas delas de certo arianismo; para desenvolver no seu espírito a idealização das crianças que nascessem louras e crescessem parecidas às bonecas francesas; e também para tornar a francesa o tipo ideal de mulher bela e elegante aos olhos das moças em que depressa se transformavam nos trópicos aquelas meninas. Este comentário de Gilberto Freire reforça a idéia de que uma criança negra não era considerada uma criança na época de Negrinha. E mesmo para uma boneca, ela estava longe do ideal, e portanto dos cuidados, que “o culto” das meninas deveria proporcionar às bonecas loiras. Aliás, no final do século passado era famosa uma cantiga de roda com os seguintes versos: Quem são estes anjos Que estão me rodeando? (...) Somos filhos de um Conde e netas de um Visconde Negrinha, ao morrer, vê-se rodeada de anjos e bonecas, todos louros. Como se queriam louras as crianças filhas da elite brasileira. Quem faz brinquedos, e os dá às crianças, são os adultos. Brinquedos são objetos nada ingênuos. Carregam informações sobre a ideologia de seus produtores e compradores. Quem dá o brinquedo à criança pela primeira vez são os adultos, que fazem representar no objeto o seu ideal de infância. Walter Benjamin comentou a respeito: E mesmo que a criança conserve uma certa liberdade de aceitar ou rejeitar, muitos dos mais antigos brinquedos (...) de certo modo terão sido impostos à criança como objeto de culto, que somente graças à sua imaginação se transformam em brinquedos. É, portanto, um grande equívoco supor que as próprias necessidades infantis criem os brinquedos. A boneca é um brinquedo cuja origem se confunde com a própria origem humana. Miniaturas de seres humanos têm sido usadas, há milênios, como objeto

de culto, representações de deuses e demônios, anjos e musas. Quando produz o objeto boneca, o homem projeta e modela nele a imagem de ser humano ideal que traz dentro de si, de acordo com os horizontes históricos, sociais, religiosos e estéticos de sua cultura. A boneca representa, portanto, não uma criança, mas o ideal de criança ou de adulto de um determinado grupo social; é a projeção, em forma de roupas e aparência física, dos valores deste grupo. Negrinha percebe que a boneca das meninas louras é “uma criança artificial”. Usando de um certo exagero, poderíamos fazer um exercício imaginário e enxergar a pequena escrava no momento em que contempla a boneca. Uma criança real, brasileira, pobre e sofrida contempla a forma que deveria ter para ser considerada criança pelos adultos que ditavam os valores ideológicos no país. Valores esses importados da Europa, juntamente com estilos literários, modelos de leis e vestidos. Quando Monteiro Lobato entra em cena, o modelo europeu de um “projeto educativo e ideológico que via no texto infantil e na escola (e, principalmente, em ambos superpostos) aliados imprescindíveis para a formação de cidadãos” havia sido apropriado por vários escritores e educadores e adaptado à realidade brasileira. Com a industrialização, algumas crianças pobres puderam passar a frequentar escolas. A literatura infantil da época, no entanto, se pudesse ser traduzida em forma de brinquedo, seria muito mais parecida com a boneca loira do que com Emília. Basta lembrar o sucesso dos livros Le Tour de France par deux garçons (1877), de G. Bruno, e Cuore (1886), de Edmundo de Amicis. Em 1901, Afonso Celso publicaria Por que me ufano de meu país, proclamando em português o patriotismo tematizado pelos escritores europeus. Em 1930, quando Narizinho e Emília já eram sucesso, Cuore continuava best-seller no Brasil: é desse ano a 39ª edição da tradução brasileira do livro. O subtítulo do primeiro livro de Lobato para crianças, Narizinho Arrebitado, é “segundo livro de leitura para uso das escolas primárias”. O autor visava, mais do que as crianças, os “escolares” 12. Dentro do Sítio do Picapau Amarelo, porém, ele encontrou espaço não só para um projeto estético ou pedagógico, mas para um projeto político que envolvia inúmeros setores da vida brasileira. Mostrou idéias sobre literatura, história, economia, política, religião...


120 Idéias que nem sempre estavam de acordo com o que queria o tal projeto educativo brasileiro. Seus livros sofreram campanhas. Não era “recomendável” que a futura elite lesse, nas Memórias da Emília, que “a verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia”, entre outras “inconveniências”.

juntos crianças e bichos mágicos, políticos e sabugos falantes, o Brasil e o mundo. Essa boneca não tem forma, é única. Por isso mesmo não é um anjo. “O mau romance é aquele que visa a agradar, adulando, enquanto o bom é uma exigência e um ato de fé”. Aí está a força da literatura de Lobato e a raiz das polêmicas causadas por seus livros.

A maior inconveniência, porém, era a existência, ainda, de gente como Negrinha. Ela não tem nome porque é uma multidão. Quantas meninas brasileiras foram chamadas assim? Quantas foram analfabetas, maltratadas, tratadas como coisas? Quantas são assim? Negrinha é o símbolo de uma grande parte da população brasileira, criança e mulher, da época de Lobato e da nossa época. Negrinha é a criança real.

A boneca loira chegou às mãos de Negrinha por meio de uma mulher branca e rica - Dona Inácia. Emília chega às mãos de Narizinho por meio de uma mulher negra e pobre - Tia Nastácia. Esse fato singular, que passa quase despercebido no meio do imenso desfile de narrativas maravilhosas que compõe o universo do Sítio do Picapau Amarelo, é importantíssimo.

A boneca de olhos azuis também não tem nome. É o símbolo da criança ideal, modelo europeu. A fôrma dessa criança ideal, branca e virtuosa como um anjo, só existiu no mundo das idéias. Dela só era possível saírem bonecas e personagens, crianças artificiais, como percebeu Negrinha; não gente de verdade. As louras sobrinhas de Dona Inácia não são virtuosas; riem-se da miséria intelectual e material de Negrinha. Também elas não têm nome. Mas são crianças reais: brancas, ricas, filhas de uma elite dominante, que se espantam ao perceber a existência de crianças como Negrinha. Quantas meninas poderiam se encaixar nessa descrição? Esse conto põe para brincar juntas crianças símbolos de duas classes sociais, separadas por um abismo econômico e ideológico, e unidas por um modelo de ser ideal, pretendido para “o país do futuro”. No começo deste século, a literatura para crianças no Brasil era importada, como a boneca loura. Traduzia-se o francês maman para mamã e as mamães compravam o produto. Ou emprestava-se a forma estrangeira para fabricar aqui mesmo as bonecas e histórias européias. Monteiro Lobato, quando escreveu esse conto, com certeza não pensou em tal comparação. Isso é trabalho para Viscondes de Sabugosa. Ele simplesmente criou Lúcia-Narizinho e Emília. A família da menina tem um ramo europeu e outro africano, como a maioria das crianças reais brasileiras. A boneca nasceu de uma mistura de vários objetos: macela, pano de saia velha, retrós. Como a literatura infantil de Lobato, que costura

A boneca que iria virar mania infantil, símbolo da obra de Lobato e portanto símbolo da literatura infantil brasileira, foi feita por uma velha negra. Levando em conta o que foi dito acima a respeito dos valores ideológicos que uma boneca representa, e que o “público-alvo” de Lobato era formado por escolares, ou seja, pelas crianças de melhor condição social, é simples entender o que isto significa. A criança não é nenhum Robinson, as crianças não constituem nenhuma comunidade separada, mas são partes do povo e da classe a que pertencem. Por isso, o brinquedo infantil não atesta a existência de uma vida autônoma e segregada, mas é um diálogo mudo, baseado em signos, entre a criança e o povo. Enquanto os adultos conceituavam de diversas maneiras a infância, num mundo de idéias que o tempo foi modificando, e a representaram de acordo com esses diferentes conceitos, no mundo real gente continuava a nascer, crescer, aprender, amadurecer. Durante todo esse tempo, os brinquedos foram um elo entre adultos e crianças, a representação de um diálogo mudo. Ao dar o dom da fala a Emília, Monteiro Lobato estava usando essa espécie de “transmissor de sinais” que é o brinquedo para mandar suas mensagens, sua visão de mundo, para as crianças. Da boca de pano fez sair uma resposta pessoal, singular, para a “ordem mundial” e brasileira de seu tempo. Sua verdade pessoal personificou-se em Emília, e por meio desse outro diálogo mudo que é a


121 literatura, tornou-se uma verdade compartilhada por milhões de leitores. A grande ironia é que, anos depois, quando o Sítio do Picapau Amarelo virou seriado na televisão, a boneca feia e ordinária virou brinquedo caro, ganhou olhos azuis e foi parar nas mãos de crianças ricas. Mas isso já é outra história.

Cilza Carla Bignotto É graduada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1993). Fez mestrado em Teoria e História Literária na Universidade Estadual de Campinas (1999) e doutorado, também em Teoria e História Literária, na mesma instituição (2007), sob orientação da

professora Marisa Lajolo. É professora de Teoria Literária e Literatura Brasileira na Universidade Federal de Ouro Preto. Já prestou serviços como professora e autora de materiais didáticos para a Unicamp, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, o Instituto Itaú Cultural e o Ministério da Educação, entre outros. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária e Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: História do Livro e da Leitura, Monteiro Lobato, Modernismo, Literatura Infanto-Juvenil, Crônica. Fontes: http://www.monografias.com http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=P472201

Carlos Drummond de Andrade Balada do amor através das idades Eu te gosto, você me gosta desde tempos imemoriais. Eu era grego, você troiana, troiana mas não Helena. Saí do cavalo de pau para matar seu irmão. Matei, brigámos, morremos. Virei soldado romano, perseguidor de cristãos. Na porta da catacumba encontrei-te novamente. Mas quando vi você nua caída na areia do circo e o leão que vinha vindo, dei um pulo desesperado e o leão comeu nós dois. Depois fui pirata mouro, flagelo da Tripolitânia. Toquei fogo na fragata onde você se escondia da fúria de meu bergantim.

Mas quando ia te pegar e te fazer minha escrava, você fez o sinal-da-cruz e rasgou o peito a punhal... Me suicidei também. Depois (tempos mais amenos) fui cortesão de Versailles, espirituoso e devasso. Você cismou de ser freira... Pulei muro de convento mas complicações políticas nos levaram à guilhotina. Hoje sou moço moderno, remo, pulo, danço, boxo, tenho dinheiro no banco. Você é uma loura notável, boxa, dança, pula, rema. Seu pai é que não faz gosto. Mas depois de mil peripécias, eu, herói da Paramount, te abraço, beijo e casamos.


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Cecília Meireles Poesias CANÇÃO De Viagem (1939) Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca: bateu-me o vento na boca, e depois no teu ouvido. Levou somente a palavra, deixou ficar o sentido. O sentido está guardado no rosto com que te miro, neste perdido suspiro que te segue alucinado, no meu sorriso suspenso como um beijo malogrado. Nunca ninguém viu ninguém que o amor pusesse tão triste. Essa tristeza não viste, e eu sei que ela se vê bem... Só se aquele mesmo vento fechou teus olhos, também... De Viagem (1939)

BALADA DAS DEZ BAILARINAS DO CASSINO Dez bailarinas deslizam por um chão de espelho. Têm corpos egípcios com placas douradas, pálpebras azuis e dedos vermelhos. Levantam véus brancos, de ingênuos aromas, e dobram amarelos joelhos. Andam as dez bailarinas sem voz, em redor das mesas. Há mãos sobre facas, dentes sobre flores, e com os charutos toldam as luzes acesas. Entre a música e a dança escorre uma sedosa escada de vileza. As dez bailarinas avançam como gafanhotos perdidos. Avançam, recuam, na sala compacta, empurrando olhares e arranhando o ruído. Tão nuas se sentem que já vão cobertas de imaginários, chorosos vestidos.

MOTIVO Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou se desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno e asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

As dez bailarinas escondem nos cílios verdes as pupilas. Em seus quadris fosforescentes, passa uma faixa de morte tranqüila. Como quem leva para a terra um filho morto, levam seu próprio corpo, que baila e cintila. Os homens gordos olham com um tédio enorme as dez bailarinas tão frias. Pobres serpentes sem luxúria, que são crianças, durante o dia. Dez anjos anêmicos, de axilas profundas, embalsamados de melancolia. Vão perpassando como dez múmias, as bailarinas fatigadas. Ramo de nardos inclinando flores azuis, brancas, verdes, douradas. Dez mães chorariam, se vissem as bailarinas de mãos dadas.


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De Retrato Natural (1949) CANÇÃO Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; — depois, abri o mar com as mãos, para meu sonho naufragar.

Andar... — enquanto consente Deus que a noite seja andada. Porque o poeta, indiferente, anda por andar — somente. Não necessita de nada. De Vaga Música (1942) CANÇÃO DO CAMINHO

Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre dos meus dedos colore as areias desertas. O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio... Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça. Depois, tudo estará perfeito: praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e minhas duas mãos quebradas. De Viagem (1939) CANÇÃO DE ALTA NOITE Alta noite, lua quieta, muros frios, praia rasa. Andar, andar, que um poeta não necessita de casa.

Por aqui vou sem programa, sem rumo, sem nenhum itinerário. O destino de quem ama é vário, como o trajeto do fumo. Minha canção vai comigo. Vai doce. Tão sereno é seu compasso que penso em ti, meu amigo. — Se fosse, em vez da canção, teu braço! Ah! mas logo ali adiante — tão perto! — acaba-se a terra bela. Para este pequeno instante, decerto, é melhor ir só com ela. (Isto são coisas que digo, que invento, para achar a vida boa... A canção que vai comigo é a forma de esquecimento do sonho sonhado à toa...) De Vaga Música (1942)

Acaba-se a última porta. O resto é o chão do abandono. Um poeta, na noite morta, não necessita de sono. Andar... Perder o seu passo na noite, também perdida. Um poeta, à mercê do espaço, nem necessita de vida.

CANÇÃO No desequilíbrio dos mares, as proas giraram sozinhas... Numa das naves que afundaram é que certamente tu vinhas. Eu te esperei todos os séculos sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto.


124 a voz que o vento abraça e leva. Quando as ondas te carregaram, meu olhos, entre águas e areias, cegaram como os das estátuas, a tudo que existe alheias. Minhas mãos pararam sobre o ar e endureceram junto ao vento, e perderam a cor que tinham e a lembrança do movimento. E o sorriso que eu te levava desprendeu-se e caiu de mim: e só talvez ele ainda viva dentro dessas águas sem fim.

Repara a canção tardia que oferece a um mundo desfeito sua flor de melancolia. É tão triste, mas tão perfeito, o movimento em que murmura, como o do coração no peito. Repara na canção tardia que por sobre o teu nome, apenas, desenha a sua melodia.

De Viagem (1939)

E nessas letras tão pequenas o universo inteiro perdura. E o tempo suspira na altura

GUITARRA

por eternidades serenas.

Punhal de prata já eras, punhal de prata! Nem foste tu que fizeste a minha mão insensata.

De Viagem (1939)

Vi-te brilhar entre as pedras, punhal de prata! — no cabo, flores abertas, no gume, a medida exata, a exata, a medida certa, punhal de prata, para atravessar-me o peito com uma letra e uma data. A maior pena que eu tenho, punhal de prata, não é de me ver morrendo, mas de saber quem me mata. De Viagem (1939) SERENATA Repara na canção tardia que timidamente se eleva, num arrulho de noite fria. O orvalho treme sobre a treva e o sonho da noite procura

PÁSSARO Aquilo que ontem cantava já não canta. Morreu de uma flor na boca: não do espinho na garganta. Ele amava a água sem sede, e, em verdade, tendo asas, fitava o tempo, livre de necessidade. Não foi desejo ou imprudência: não foi nada. E o dia toca em silêncio a desventura causada. Se acaso isso é desventura: ir-se a vida sobre uma rosa tão bela, por uma tênue ferida. De Retrato Natural (1949) Fonte: Meireles, Cecília. Obra Poética. Volume Único. RJ: Nova Aguilar, 1987.


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Artur de Azevedo Uma aposta Se o Simplício Gomes não fosse um rapaz do nosso tempo, se não usasse calças brancas, paletó de alpaca, chapéu de palha e guarda-chuva, daria idéia de um desses quebra-lanças que só se encontram nos romances de cavalaria. De outro qualquer diríamos: "Ele gostava da Dudu"; tratando-se, porém, do Simplício Gomes, empregaremos esta expressão menos familiar: "Ele amava Edviges." O seu amor tinha, realmente, alguma coisa de puro e de ideal, que não se compadecia com os costumes de hoje. Começava por ser discreto; Dudu adivinhou, ou antes, percebeu que era amada, mas ele nunca lho disse, nunca se atreveu a dizer-lhe, não por timidez ou respeito, mas simplesmente porque não tinha confiança no seu merecimento.

- Aposto que hoje chove! - Que idéia! o dia está bonito! - Pois sim, mas o calor é excessivo: temos água com toda certeza! - Não temos! - Façamos uma aposta! - Valeu! se chover eu perco uma caixa de charutos. - E eu aquela blusa que você viu na vitrina da Notre Dame e cobiçou tanto. - Quem lhe disse que cobicei? - Ora, esses olhos não me enganam... No dia seguinte Dudu recebia a blusa. A velha costumava dizer com muita ingenuidade:

Estava bem empregado, poderia casar-se e viver modestamente em família, mas era tão feio, tão pequenino, tão insignificante e ela tão linda e tão esbelta, que o casamento lhe parecia desproporcionado. Ele não se sentia digno dela, não acreditava que a pudesse fazer feliz, e isso o desgostava profundamente. Ela, por seu lado, não concorria para que a situação se modificasse: fingia ignorar que ele a amava, e atribuía toda aquela solicitude a um afeto desinteressado.

- Você faz mal em apostar, Simplício! E muito caipora, perde sempre, e então, em se tratando de mudança de tempo, é uma lástima!

Dudu vivia com a mãe, uma pobre viúva sem outro recurso que não fosse o do meio soldo e montepio deixados pelo marido, brioso oficial do Exército que viveu sempre desprotegido, porque não sabia lisonjear nem pedir; mas o Simplício Gomes, sem fumaças de protetor, e dando a esmola com ares de quem a recebia, achava meios e modos de fazer com que naquela casa faltasse apenas o supérfluo. Como era parente, embora afastado, das duas senhoras, estas consideravam os seus favores simples atenções de família.

Dudu impressionou-se por um cavalheiro muito bem trajado, que começou a rondar-lhe a porta quase todos os dias, cumprimentando-a, depois sorrindolhe, e finalmente escrevendo-lhe graças à cumplicidade de um molecote da casa.

O caso é que o Simplício Gomes parecia adivinhar os menores desejos de Dudu e nessas ocasiões recorria ao ardil de uma aposta:

Conquanto não se atrevesse a falar em casamento, o pobre rapaz sofria, oprimido pela idéia de que quando menos se pensasse, Dudu teria um namorado... um noivo... um marido e efetivamente, não se passou muito tempo que os seus receios não se realizassem.

Depois de receber três cartas, Dudu contestou, convenceu-se de que as intenções do namorado eram as melhores e mostrou a correspondência à mãe, que imediatamente consultou o Simplício Gomes sem saber o desgosto que lhe causava. Este, que já havia notado as idas e vindas do transeunte suspeito, disfarçou o mais que pôde, os seus sentimentos, limitando-se a dizer que Dudu não deveria casar-se com aquele homem sem ter


126 primeiramente certeza de que ele a amava deveras. A velha, com toda a sua simplicidade, pediu-lhe que se informasse da idoneidade do pretendente, e o mísero logo se transformou de quebra-lanças em quebra-esquinas. Foram desanimadoras (para ele) as informações que obteve: o rival chamava-se Bandeira, era de boa família, de bons costumes, funcionário público de certa categoria, estimado, e tinha alguma coisa. O seu único defeito era ser um pouco genioso. O Simplício, que não tinha o altruísmo heróico de Cirano de Bergerac, não avolumou as qualidades do outro, mas foi leal: não as diminuiu. Em suma: o Bandeira pediu a mão de Dudu; e começou a freqüentar a casa. O coitado não articulou uma queixa, mas começou desde logo a emagrecer a olhos vistos; perdeu o apetite, ficou macambúzio, fúnebre... Dudu, que tudo compreendeu, teve muita pena, teve quase remorsos; mas a velha nem mesmo assim desconfiou que a filha fosse adorada pelo infeliz parente. Entretanto, o Simplício Gomes começou a ser assíduo em casa de Dudu; o seu desejo oculto era não deixá-la sozinha com o tal Bandeira enquanto não se casassem. O noivo tinha, efetivamente, boas qualidades, mas era não só genioso, mas de uma arrogância, de uma empáfia, de um autoritarismo que começaram a inquietar Dudu. Uma bela tarde em que se achavam ambos sentados no canapé, e o Simplício Gomes, afastado, num canto da sala, folheava um álbum de retratos, o Bandeira levantou-se dizendo:

- Vou-me embora; tenho ainda que dar umas voltas antes da noite. - Ora, ainda é cedo; fique mais um instantinho, replicou Dudu, sem se levantar do canapé. - Já lhe disse que tenho que fazer! Peço-lhe que vá desde já se habituando a não contrariar as minhas vontades! Olhe que depois de casado, hei de sair quantas vezes quiser sem dar satisfações a ninguém! - Bom; não precisa zangar-se... - Não me zango, mas contrario-me! Não me escravizei; quero casar-me com a senhora, mas não perder a liberdade! - Faz bem. Adeus. Até quando? - Até amanhã ou depois. O Bandeira apertou a mão de Dudu, despediu-se com um gesto do Simplício Gomes, e saiu batendo passos enérgicos, de dono de casa. Dudu ficou sentada no canapé, olhando para o chão. O Simplício Gomes aproximou-se de mansinho, e sentou-se ao seu lado. Ficaram dez minutos sem dizer nada um ao outro. Afinal Dudu rompeu o silêncio. Olhou para o céu iluminado por um crepúsculo esplêndido, e murmurou: - Vamos ter chuva. - Não diga isso, Dudu: o tempo está seguro! - Apostemos! - Pois apostemos! Eu perco uma coisa bonita para o seu enxoval de noiva. E você? - Eu... perco-me a mim mesma, porque quero ser tua mulher! E Dudu caiu, chorando, nos braços de Simplício Gomes. Fonte: Histórias brejeiras, 1962. In AZEVEDO, Artur de. Contos. SP: Editora Escala. s/d

Folclore Parlendas As parlendas são brincadeiras antigas e fazem parte do folclore brasileiro, são formas literárias tradicionais, rimadas com caráter infantil, de ritmo fácil e de forma rápida. Não são cantadas e sim

declamadas em forma de texto, estabelecendo-se como base a acentuação verbal. São versos de 5 ou 6 silabas recitadas para entender, acalmar, divertir as crianças, ou mesmo em brincadeiras para


127 escolher quem inicia a brincadeira ou o jogo, ou mesmo aqueles que podem brincar.O motivo de uma Parlenda é apenas o ritmo como ela se desenvolve, o texto verbal é uma série de imagens associadas e obedecendo apenas o senso lúdico, ela pode ser destinada a fixação de números ou idéias primarias, dias da semana, cores, dentre outros assuntos Atualmente as Parlendas têm sido muito utilizadas pelos educadores de infância em sala de aula, é uma brincadeira que toda criança gosta e se interessa, já que estimula a imaginação de cada um. As parlendas podem ser utilizadas para memorização de números, dias da semana, meses, nomes de cidades e outros temas diversos; o professor pode criar a sua própria parlenda que mais se adeque ao momento educacional da criança. Parlendas: Amanhã é domingo, pé de cachimbo. O cachimbo é de ouro, bate no touro. O touro é valente, bate na gente. A gente é fraco, cai no buraco. O buraco é fundo, acabou-se o mundo. ============ -O Papagaio come milho. periquito leva a fama. Cantam uns e choram outros Triste sina de quem ama. ============ -Um, dois, feijão com arroz, Três, quatro, feijão no prato, Cinco, seis, falar inglês, Sete, oito, comer biscoito, Nove, dez, comer pastéis. ============ -Eu sou pequena, Da perna grossa, Vestido curto, Papai não gosta ============ -Por detrás daquele morro, Passa boi, passa boiada, Também passa moreninha, De cabelo cacheado ============ -Tropeiro fala de burro, Vaqueiro fala de boi, Jovem fala de namorada, Velho fala que foi. ============

-Era uma bruxa À meia-noite Em um castelo mal-assombrado com uma faca na mão Passando manteiga no pão ============ -A sempre-viva quando nasce, toma conta do jardim Eu também quero arranjar Quem tome conta de mim ============ -Batatinha quando nasce, Se esparrama pelo chão, Mamãezinha quando dorme, Põe a mão no coração. ============ -Palminha Palma, palminha, Palminha de Guiné Pra quando papai vié, Mamãe dá a papinha, Vovó bate cipó, Na bundinha do nenê. ============ - Homem com homem Mulher com mulher Faca sem ponta Galinha sem pé ============ - Enganei um bobo Na casca do ovo! ============ - Vá à … Já fui e já voltei! Burro que nem você nunca encontrei ============ - Zé Capilé! Tira bicho do pé Pra tomar com café! ============ - Aparecida! (ou Cida!) Come casca de ferida Amanhecida! ============ - Cala a boca! Cala a boca já morreu Quem manda em você sou eu! ============ - Coco pelado Caiu no melado Quebrou uma perna


128 Ficou aleijado ============ -Uni, duni,tê Uni, duni, tê, Salamê, mingüê, Um sorvete colorê, O escolhido foi você! ============ - O cochicho Quem cochicha, O rabo espicha, Come pão Com lagartixa ============ - Rei Capitão Rei, capitão, Soldado, ladrão. Moça bonita Do meu coração ============ - Fui à feira Fui à feira comprar uva. Encontrei uma coruja, Pisei no rabo dela. Ela me chamou de cara suja ============ -Os dedos Dedo mindinho, Seu vizinho, Pai de todos, Fura bolo, Mata piolho.. ============ - Chuva e sol, casamento de espanhol. Sol e chuva, casamento de viúva. ============ - Meio dia Meio dia, Panela no fogo, Barriga vazia. Macaco torrado, Que vem da Bahia, Fazendo careta, Pra dona Sofia.

============ - PAPAGAIO LOURO Papagaio luoro Do bico dourado Leva essa cartinha Pro meu namorado Se tiver dormindo Bate na porta Se tiver acordado Deixe o recado. ============ -O cemitério No portão do cemitério, Tério, tério, tério, Duas almas se encontraram, Traram, traram, traram. Uma disse para a outra, Outra, outra, outra, Você é uma vagabunda, Bunda, bunda, bunda, Mas que falta de respeito, Peito, peito, peito Mas que peito cabeludo, Ludo, ludo, ludo ============ Andando pelo caminho Fui andando pelo caminho. Éramos três, Comigo quatro. Subimos os três no morro, Comigo quatro. Encontramos três burros, Comigo quatro. ============ - Perna de pato Entrou pela perna do pato, Saiu pela perna do pinto. O rei mandou dizer Que quem quiser Que conte cinco: Um, dois, três, quatro, cinco ============ -A mulher morreu Lá na rua vinte e quatro, a mulher matou o gato, com a sola do sapato, o sapato estremeceu a mulher morreu o culpado não fui eu.


129 ============ -La em cima do piano tem um copo de veneno Quem bebeu, morreu O azar foi seu. ============ -Agá, agá A galinha quer botar Ijê, Ijê Minha mãe me deu uma surra fui parar no Tietê Alô,Alô O Galo já cantou Amarelo, amarelo Fui parar no cemitério Roxo, roxo, Fui parar dentro do cocho ============ - Cadê o toucinho que estava aqui? O Gato comeu Cadê o gato? No mato Cade o mato? O fogo queimou Cadê o fogo? A água apagou Cadê a água? O Boi bebeu Cadê o boi? Amassando o trigo Cadê o trigo? A galinha espalhou Cadê a galinha? Botando ovo Cadê o ovo? O padre bebeu Cadê o padre? Rezando missa Cadê a missa? Tá na capela Cadê a Capela? Ta aqui......... ============ -BÃO BALALÃO Bão, babalão, Senhor Capitão, Espada na cinta, Ginete na mão. Em terra de mouro Morreu seu irmão, Cozido e assado No seu caldeirão

============ Ou Bão-balalão! Senhor capitão! Em terras de mouro Morreu meu irmão, Cozido e assado Em um caldeirão; Eu vi uma velha Com um prato na mão, ============ -Quem é? É o padeiro E o que quer? Dinheiro Pode entrar que eu vou buscar O seu dinheiro Lá embaixo do travesseiro ============ -O Macaco foi á feira Não sabia o que comprar Comprou uma cadeira Pra comadre se sentar A comadre se sentou A cadeira escorregou coitada da comadre foi parar no corredor ============ -Batalhão Batalhão, lhão, lhão, quem não entrar é um bobão. Abacaxi, xi, xi quem não sai é um saci. Beterraba, aba, aba, quem errar é uma diaba. Borboleta, leta, leta , quem errar é uma capeta. ============ -PEDRINHA Pisei na pedrinha, A pedrinha rolou Pisquei pro mocinho, Mocinho gostou Contei pra mamãe Mamãe nem ligou Contei pro papai, Chinelo cantou. Fontes: http://www.qdivertido.com.br/verfolclore.php?codigo=21 http://www.bigmae.com/o-que-sao-parlendas/ http://www.brasilfolclore.hpg.ig.com.br/parlenda.htm


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Carlos Drummond de Andrade Debaixo da ponte Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte. À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne. Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta

bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência. Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte. Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores. Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte. Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond de. Obra Completa. RJ: José Aguilar Ed., 1967.

Rachel de Queiroz Os dois bonitos e os dois feios Nunca se sabe direito a razão de um amor. Contudo, a mais frequente é a beleza. Quero dizer, o costume

é os feios amarem os belos e os belos se deixarem amar. Mas acontece que às vezes o bonito ama o


131 bonito e o feio o feio, e tudo parece estar certo e segundo a vontade de Deus, mas é um engano. Pois o que se faz num caso é apurar a feiúra e no outro apurar a boniteza, o que não está certo, porque Deus Nosso Senhor não gosta de exageros; se Ele fez tanta variedade de homens e mulheres neste mundo é justamente para haver mistura e dosagem e não se abusar demais em sentido nenhum. Por isso também é pecado apurar muito a raça, branco só querendo branco e gente de cor só querendo os da sua igualha — pois para que Deus os teria feito tão diferentes, se não fora para possibilitar as infinitas variedades das suas combinações? O caso que vou contar é um exemplo: trata de dois feios e dois bonitos que se amavam cada um com o seu igual. E, se os dois bonitos se estimavam, os feios se amavam muito, quero dizer, o feio adorava a feia, como se ela é que fosse a linda. A feia, embalada com tanto amor, ficava numa ilusão de beleza e quase bela se sentia, porque na verdade a única coisa que nos torna bonitos aos nossos olhos é nos espelharmos nos olhos de quem nos ame. Vocês já viram um vaqueiro encourado? É um traje extraordinariamente romântico e que, no corpo de um homem e delgado, faz milagres. É a espécie de réplica em couro de uma armadura de cavaleiro. Dos pés à cabeça protege quem a veste, desde as chinelas de rosto fechado, e as perneiras muito justas ao relevo das pernas e das coxas, o guardapeito colado ao torso, o gibão amplo que mais acentua a esbelteza do homem e por fim o chapéu que é quase a cópia exata do elmo de Mambrino. Aliás, falei que só assenta roupa de couro em homem magro e disse uma redundância, porque nunca vi vaqueiro gordo. Seria mesmo que um toureiro gordo, o que é impossível. Se o homem não for leve e enxuto de carnes, nunca poderá cortar caatinga atrás de boi, nem haverá cavalo daqui que o carregue. Os dois heróis da minha história, tanto o feio como o bonito, eram vaqueiros do seu ofício. E as duas moças que eles amavam eram primas uma da outra — e apesar da diferença no grau de beleza, pareciam-se. Sendo que uma não digo que fosse a caricatura da outra, mas era, pelo menos, a sua edição mais grosseira. O rosto de índia, os olhos amendoados, a cor de azeitona rosada da bonita, repetidos na feia, lhe davam uma cara fugidia de

bugra; tudo que na primeira era graça arisca na segunda se tornava feiúra sonsa. De repente, não se sabe como, houve uma alteração. O bonito, inexplicavelmente, mudou. Deixou de procurar a sua bonita. Deu para rondar a casa da outra, a princípio fingindo um recado, depois nem mais esse cuidado ele tinha. Sabe-se lá o que vira. No fundo, talvez obedecesse àquela abençoada tendência que leva os homens bonitos em procura das suas contrárias; benza-os Deus por isso, senão o que seria de nós, as feiosas? Ou talvez fosse porque a bonita, conhecendo que o era, não fizesse força por sustentar o amor de ninguém. Enquanto a pobre da feia todos sabem como é — aquele costume do agrado e, com o uso da simpatia, descontar a ingratidão da natureza. E embora o seu feio fosse amante dedicado, quanto não invejaria a feia a beleza do outro, que a sua prima recebia como coisa tão natural, como o dia ser dia e a noite ser noite. Já a feia queria fazer o dia escuro e a noite clara — e o engraçado é que o conseguiu. Muito pode quem se esforça. O feio logo sentiu a mudança e entendeu tudo. Passou a vigiar os dois. Se esta história fosse inventada poderia dizer que ele, se vendo traído, virou-se para a bonita e tudo se consertou. Mas na vida mesmo as pessoas não gostam de colaborar com a sorte. Fazem tudo para dificultar a solução dos problemas, que, às vezes, está na cara e elas não querem enxergar. Assim sendo, o feio ficou danado da vida, e nem se lembrou de procurar consolo junto da bonita desprezada; e esta, se sentindo de lado, interessou-se por um rapaz bodegueiro que não era bonito como o vaqueiro enganoso, mas tinha muito de seu e podia casar sem demora e sem condições. Assim, ficaram em jogo só os três. O feio cada dia mais desesperado. A feia, essa andava nas nuvens, e toda vez que o "primo" (pois se tratavam de primos) lhe botava aqueles olhos verdes — eu falei que além de tudo ele ainda tinha os olhos verdes? — ela pensava que ia entrar de chão adentro, de tanta felicidade. Mas o pior é que os dois vaqueiros ainda saíam todo o dia juntos para o campo, pois eram campeiros da mesma fazenda e se haviam habituado a trabalhar de parelha, como Cosme e Damião. Seria impossível se separarem sem que um dos dois


132 partisse para longe, e, é claro, nenhum deles pretendia deixar o lugar vago ao outro.

peixeira nova do rival. E, sendo do seu natural taciturno, continuou calado e fechado consigo.

Assim estava a intriga armada, quando a feia, certa noite, ao conversar na janela com o seu bonito que lá viera furtivo, colheu um cravo desabrochado no craveiro plantado numa panela de barro e posto numa forquilha bem encostada à janela (era uma das partes dela, ter todos esses dengues de mulher bonita) e enquanto o moço cheirava o cravo, ela entrefechou os olhos e lhe disse baixinho:

E o outro — nós mulheres estamos habituadas a pensar que todo homem valente é bonito, mas a recíproca raramente é verdade, e nem todo bonito é valente. Este nosso era medroso. Era medroso mas amava, o que o punha numa situação penosa. Não amasse, ia embora, o mundo é grande, os caminhos correm para lá e para cá. Agora, porém, só lhe restava amar e ter medo. Ou defender-se. Mas como? O rival não fazia nada, ficava só naquela ameaça silenciosa; as juras de morte que fizera — se as fizera — de juras não tinham passado ainda. Meu Deus, e ele não era homem de briga, já não disse? Tinha a certeza de que se provocasse aquele alma fechada, morria.

— Você sabe que o outro já lhe jurou de morte? Falei que o desprezado jurara de matar o traidor. Seria verdade? Quem sabe as coisas que é capaz de inventar uma mulher feia improvisada em bonita pelo amor de dois homens, querendo que o seu amor renda os juros mais altos de paixão? O belo moço assustou. Gente bonita está habituada a receber da vida tudo a bem dizer de graça, sem luta nem inimizade, como seu direito natural, que os demais devem graciosamente reconhecer. As mulheres o queriam, os homens lhe abriam caminho. E não é só em coisas de amor: de pequenino, o menino bonito se habitua a encontrar facilidades, basta fazer um beiço de choro ou baixar um olho penoso, todo o mundo se comove, pede uni beijo, dá o que ele quer. Já o feio chora sem graça, a gente acha que é manha, mais fácil dar-lhe uns cascudos do que lhe fazer o gosto. Assim é o mundo, e se está errado, quem o fez foi outro que não nos dá satisfações. Pois o bonito assustou. Deu para olhar o outro de revés, ele que antes vivia tão confiado, como se adiasse que a obrigação do coitado era lhe ceder a menina e ainda tirar o chapéu. Passou a ver mal em tudo. De manhã, ao montar a cavalo, examinava a cilha e os loros, os quatro cascos do animal. Ele, que só usava um canivete quando ia assinar criação, comprou ostensivamente uma faca, afiou-a na beira do açude, e só a tirava do cós para dormir. E quando saía a campo com o companheiro, em vez de irem os dois lado a lado, segundo o costume, marchava atrás, dez braças aquém do cavalo do outro. O feio não falava nada. Fazia que não enxergava as novidades do colega. Como sempre andara armado, não careceu comprar faca para fazer par com a

Bem, as juras eram verdadeiras. O feio jurara de morte o bonito e não só de boca para fora, na presença da amada, mas nas noites de insônia, no escuro do quarto, sozinho no ódio do seu coração. Levava horas pensando em como o mataria — picado de faca, furado de tiro, moído de cacete. Só conseguia dormir quando já estava com o cadáver defronte dos olhos, bonito e branco, ah, bonito não, pois, quando o matava em sonhos, a primeira coisa que fazia era estragar aquela cara de calunga de loiça, pondo-a de tal modo feia que até os bichos da cova tivessem nojo dela. Mas como fazer? Não poderia começar a brigar, matá-lo, sem quê nem mais. Hoje em dia justiça piorou muito, não há patrão que proteja cabra que faz uma morte, nem a fuga é fácil, com tanto telégrafo, avião, automóvel. E de que servia matar, tendo depois que penar na prisão? Assim, quem acabaria pagando o malfeito haveria de ser ele mesmo. O outro talvez fosse para o purgatório, morrendo sem confissão, mas era ele que ficava no inferno, na cadeia. Aí então teve a idéia de uma armadilha. Botar uma espingarda com um cordão no gatilho... quando ele fosse abrindo a porta. Não dava certo, todo o mundo descobriria o autor da espera. Atacá-lo no mato e contar que fora uma onça... Qual, cadê onça que atacasse vaqueiro em pleno dia? E a chifrada de um touro? Difícil, porque teria que apresentar o touro, na hora e no lugar... Lembrou-se então de um caso acontecido muitos anos atrás, quase no pátio da fazenda. O velho Miranda corria atrás de uma novilha, a bicha se meteu por sob um galho baixo de mulungu, o cavalo acompanhou a novilha, e em cima do cavalo ia o vaqueiro: o pau o apanhou bem no meio


133 da testa, lá nele, e quando o cavalo saiu da sombra do mulungu, o velho já era morto... Poderia preparar uma armadilha semelhante? Como induzir o rival?... Levou quatro dias de pesquisa disfarçada para descobrir um pau a jeito. Afinal achou um cumaru à beira de uma vereda, onde o gado passava para ir beber na lagoa. O cumaru estirava horizontalmente um braço a dois metros do chão, cobrindo a vereda logo depois que ela dava uma curva. A qualquer hora passariam de novo os dois por ali. E como só um passava pela vereda estreita, bastaria ele ficar atrás, apertar de repente o passo, meter o chicote no cavalo da frente; o outro, assustado com o disparo do cavalo, se descuidava do pau — e era um homem morto. Mas não deu certo. Isto é, deu certo do começo ao fim — só faltou o fim do fim. Pois logo no dia seguinte se encaminharam pela vereda, perseguindo um novilhote. O bonito na frente, o feio atrás, como previsto. Quando chegaram à curva que virava em procura do cumaru, o de trás ergueu o relho, bateu uma tacada terrível na garupa do cavalo da frente, que já era espantado do seu natural, e o animal desembestou. Mas o instinto do vaqueiro salvou-o no último instante. Sentiu um aviso, ergueu os olhos, viu o pau, deitou-se em cima da sela e deixou o cumaru para trás. Logo adiante acabava a caatinga e começava o aceiro da lagoa. O bonito sofreou afinal o cavalo. Podia ser medroso, mas não era burro, e uma raiva tão grande tomou conta dele, que até lhe destruiu o medo no coração. Sem dizer palavra, tirou a corda do laço debaixo da capa da sela, e ficou a girar na mão o relho torcido, como se quisesse laçar o novilho que também parará várias braças além, e ficara a enfrentá-los de longe. O companheiro espantou-se: será que aquele idiota esperava laçar o boi, a tal distância? Claro que não entendera como andara perto da morte... Mas o laço, riscando o ar, cortou-lhe o pensamento: em vez de se dirigir à cabeça do novilho, vinha na sua direção, cobriu-o, apertou-se em redor dele, prendeu-lhe os braços ao corpo e, se retesando num

arranco, atirou-o de cavalo abaixo. Num instante o outro já estava por cima dele, com um riso de fera na cara bonita. — Pensou que me matava, seu cachorro... Açoitou o cavalo de propósito, crente que eu rebentava a cabeça no pau... Um ele nós dois linha de morrer, não era? Pois á assim mesmo... um de nós dois vai morrer. Enquanto falava, arquejando do esforço e da raiva, ia inquirindo na corda o homem aturdido da queda, fazendo dele um novelo de relho. Dai saiu para o mato, demorou-se um instante perdido entre as aves e voltou com o que queria — um galho de imburana da grossura do braço de um homem. Duas vezes malhou com o pau na testa do inimigo. Esperou um pouco para ver se o matara. E como lhe pareceu que o homem ainda tinha um resto de sopro, novamente bateu, sempre no mesmo lugar. Chegou à fazenda, com o companheiro morto à sela do seu próprio cavalo, ele à garupa, segurando-o com o braço direito, abraçado como um irmão; com a mão esquerda puxava o cavalo sem cavaleiro. Ninguém duvidou do acidente. Foi gente ao local, examinaram o galho assassino, estirado sobre a vereda como um pau de forca. Fincaram uma cruz no lugar. E o bonito e a feia acabaram casando, pois o amor deles era sincero. Foram felizes. Ela nunca entendeu o que houvera, e remorso ele nunca teve, pois, como disse ap padre em confissão, matou para não morrer. E a moral da história? A moral pode ser o velho ditado: faz o feio para o bonito comer. Ou então compõe-se um ditado novo: entre o feio e o bonito, agarre-se ao bonito. Deus traz os bonitos de baixo da Sua Mão. Fonte: SANTOS, Joaquim Ferreira (organizador). As cem melhores crônicas brasileiras. RJ: Ed. Objetiva, 2007.

Jandi Fabian Barbosa e Tania M. K. Rosing A literatura infanto-juvenil: do acesso ao livro até a formação do leitor RESUMO: O presente trabalho – A Literatura Infanto-Juvenil: Do acesso ao livro até a formação

do leitor – reúne reflexões acerca de um tema com linha tríplice, ou seja, o estudo de algumas


134 particularidades referentes ao desenvolvimento da literatura infanto-juvenil em sala de aula. Em primeiro plano a abordagem segue a linha que envolve a problematização de acesso a obra literária. Em segundo momento a questão da formação de mediadores de leitura e, a importância desse mediador consolidar-se como um eu - leitor e, assim, construir uma fortuna literária adequada para realizar sua função de formar leitores literários críticos. Assumindo o leitor um papel de pronunciar sua percepção sobre o que encontrou por meio da leitura e e/ou ampliar sua organização intelectual a respeito do contingente social que o cerca. PALAVRAS - CHAVE: Acesso – mediadores – leitura – leitor. 1- Introdução O presente trabalho – A Literatura Infanto-Juvenil: Do acesso ao livro até a formação do leitor – reúne reflexões acerca de um tema com linha tríplice, ou seja, o estudo de algumas particularidades referentes ao desenvolvimento da literatura infantojuvenil em sala de aula. Em primeiro plano a abordagem segue a linha que envolve a problematização de acesso a obra literária, não somente dos livros tradicionais, mas também, a inclusão das novas e mais diversas ferramentas como: Hqs, Dvds, quadrinhos, entre outros que servem como suporte de alto grau de interesse dos jovens estudantes. Em segundo momento a questão da formação de mediadores de leitura e, a importância desse mediador consolidar-se como um eu - leitor e, assim, construir uma fortuna literária adequada para realizar sua função de formar leitores literários críticos. Por fim o objetivo primordial que alimenta essa proposta cientifica é demonstrar as possibilidades em que o mediador de leitura pode desenvolver o seu trabalho buscando debruçar a ênfase na forma de apresentar a obra literária aos leitores, pois é por meio de seu entusiasmo, de sua paixão e dedicação que essas novas peças do mundo da leitura conseguirão desenvolver a capacidade de conhecer e lidar com as realidades que convivem. Nesse sentido procura-se principalmente em evidenciar os recursos que podem ser retirados da obra escolhida e a forma de aplicação que consiste em uma ferramenta extremamente eficaz no processo de emancipação intelectual e cultural desse individuo.

2- Por onde caminha a literatura infanto-juvenil É costume de qualquer cidadão manifestar opiniões sobre os mais diversos temas que transitam entre nossa sociedade, informações de um conhecimento empírico que na maioria das vezes não são sistematizados e muito menos críticos. No entanto, quando nos deparamos com professores, responsáveis pela boa formação e informação daqueles que logo formarão os pensamentos da futura sociedade, manifestando opiniões dispersas e sem qualquer embasamento teórico sobre as reais condições da propagação da literatura infantojuvenil; acabamos por perceber as dificuldades que esse profissional tem de assimilar as realidades e condições que circulam em seu ambiente de trabalho e/ou o próprio descomprometi mento com a função de formar um cidadão capaz, leitor, critico e emancipado das grades da ignorância. O contexto é outro e novas atitudes precisam ser traçadas como mostra o excerto: A movimentação pela formação de leitores no Brasil identifica uma primeira necessidade: reconhecendose, na atualidade, a importância da instituição escola como centro de difusão educacional, cultural e tecnológica, onde deve ocorrer o processo de formação de dados em informações e de informações em conhecimento entre professores e alunos, impõe-se urgentemente a formação de professores leitores no exercício da docência a partir de novos parâmetros. (ROSING, 2009, p.129). Tânia Rosing afirma no trecho supracitado a necessidade de o professor agregar em sua vida mais uma atividade que na verdade já deveria fazer parte de seu cotidiano, a um bom tempo. Ou seja, a importância do educador ir alem dos limites da sala de aula e configurar-se como um leitor competente, integrado e conhecedor da capacidade de envolver o aluno que recai sobre sua função; assim capacitando-se para dialogar com competência sobre as diversas obras que fazem parte de sua fortuna literária. Experiências de leitura que provavelmente formarão junto com o entusiasmo do professor e sua vontade de romper barreiras um mecanismo eficiente contra a atual situação em que se encontra a escola e os jovens, esses sem interesse algum pelo conhecimento literário, muito provavelmente


135 originado pelas maneiras arcaicas e pouco interessantes em que à literatura e suas obras são apresentadas em sala de aula. A criança, o jovem, enfim, o aluno precisa ser cativado, ser conquistado, direcionado para o caminho da leitura, se a pessoa se sente pouco à vontade em

agregar com competência a importância de apropriar-se do titulo de professor-leitor; e dessa forma conseguir despertar a criança para leitura e conseguir desenvolver esse gosto e crescimento intelectual por toda sua carreira escolar. Zilberman (2009) já afirmava que a crise da leitura é igualmente uma crise da escola, e vice-versa. 3- O Livro ao alcance do leitor

aventurar-se na cultura letrada devido à sua origem social, seu distanciamento dos lugares do saber, a dimensão do encontro com um mediador, das trocas, das palavras “verdadeiras”, é essencial. (PETIT, 2008). Muito provavelmente o ato de despertar para o mundo da leitura, do conhecimento acontece por meio de certo amor, de uma admiração resultante do contato com uma bibliotecária, professor, pai, mãe, amigo que independente do grau de aproximação mostra-se como um cidadão comprometido com o conhecimento letrado e demonstra sua satisfação de tal forma que acaba contagiando muitos daqueles que o cercam. Como evidencia o relado da jovem Bopha em pesquisa realizada por Michele Petit. Lembro-me muito bem como foi que tomei gosto pela leitura: apresentando um livro a meus colegas de classe (tinha uns onze anos). Escolhi Ratos e homens, de Steinbeck. Era a historia de um retardado mental, a historia da amizade entre dois homens. Esse livro me marcou muito, e a partir dele comecei realmente a ler outras coisas, a ler livros sem figuras, a ler autores. Comecei a freqüentar bibliotecas, acompanhando minha irmã, para ver livros, folhear, olhar. (PETIT, 2008, p. 154). A criança, o jovem precisa estar em contato com o livro, com as revistas, enfim, com todo acervo de leitura possível e realizar ação desde um simples folhear páginas até as leituras, mas intensas. No entanto, acaba sendo na escola que o leitor deixa de ler ou não desenvolve suas leituras. Nas páginas seguintes essa pesquisadora francesa Michele Petit mostra que a jovem bopha que aos onze anos despertou para leitura quando entrou para o ensino médio devido o acumulo de atividades, de matérias e a obrigatoriedade de leitura de algumas obras que exigiam maior poder de compreensão ela acaba distanciando-se do prazer de ler. Essa informação remonta sobre a necessidade de desenvolver uma urgente reformulação no sistema de ensino nas escolas e também a adesão do professor em

Mais adiante retomaremos a questão de mediação de leitura, afim de, apresentar maneiras de desenvolver essa prática. Agora outro fator que aparece como grande problema para disseminação da leitura é o acesso que as crianças tem aos materiais, não somente o livro em sua forma tradicional, mas também, as mais novas e modernas tecnologias de acesso à leitura como: Quadrinhos, hqs, dvds, internet, televisão entre outros. É, contudo, pois, que Regina Zilberman, afirma que o livro didático exclui a interpretação e, com isso, exila o leitor [...] Consequentemente, a proposta de que a leitura seja enfatizada na sala de aula significa o resgate de sua função primordial, buscando, sobretudo a recuperação do contato do aluno com a obra de ficção. O estudo de trechos de obras literárias, o uso da literatura para conhecer a sintaxe, como realiza a maioria os livros didáticos, pouco oferecem para o desenvolvimento da leitura. Limitando-se a atividades de cunho estritamente pragmático. O contato com o livro, em sua integridade, deve ser constante, as estimulações por meio das imagens, a criação de histórias, as comparações com a realidade, à leitura da obra pelo professor, juntamente com o ato de folhear e manusear o livro que conseguirão despertar a curiosidade e instigar o estudante a disseminar o gosto pela leitura. É de suma importância o contato com o objeto, com a obra de ficção, essas devem estar a todo o momento ao alcance dos pequenos leitores, para que assim consigam busca-las sempre que desejarem e acabem como afirma o trecho abaixo realizando uma descoberta: Com efeito, o recurso à literatura pode desencadear com eficiência um novo pacto entre estudantes e o texto, assim como entre aluno e professor. No primeiro caso, trata-se de estimular uma vivência singular com a obra, visando ao enriquecimento pessoal do leitor, sem finalidades precípuas ou cobranças ulteriores. Já que a leitura é


136 necessariamente uma descoberta de mundo. (ZILBERMAN, 2009, p.36).

criatividade, do raciocínio lógico e, principalmente, para a criação do hábito da leitura entre as crianças.

A constante aproximação dos alunos com a obra literária como antes evidenciado é imprescindível, mas, se faz necessário nesse novo contexto, de constantes descobertas tecnológicas, da televisão, da internet, em que esta envolvida a escola e a educação apresentar para os alunos as outras ferramentas que hoje facilitam o acesso ao mundo da leitura. Ferramentas essas que muitas vezes proporcionam um envolvimento mais rápido e cativante para os pequenos em processo de apropriação da leitura.

A preocupação dos editores da programação do Mundo da Leitura mostra como essa mídia, a televisão, pode ser extremamente relevante no processo de formação e acesso á leitura dos estudantes. Somente se faz necessário à habilidade do professor em escolher as obras, os programas, as atividades que realmente poderão proporcionar o enriquecimento das aulas e do prazer em conhecer a literatura. Da mesma forma pode o educador utilizar-se das inúmeras páginas na internet que fazem referências as obras infantis, ao despertar da curiosidade, trabalhando as imagens em conjunto com o texto escrito. Transitar pelos quadrinhos, pelas hqs, que por suas diversas cores e formatos despertam intensa curiosidade dos alunos. Ou seja, os materiais disponíveis para facilitar a compreensão da literatura e desenvolver o gosto pela leitura são os mais variados, mas, relembramos a necessidade de estarem absolutamente ao alcance dos alunos, devem fazer parte de seu dia-a-dia na escola e principalmente da mediação realizada pelo professor entre esses materiais e os jovens leitores.

Um grande exemplo dentre as novas mídias que cativam de forma gigantesca os jovens, crianças e o público de forma geral é a televisão, que acaba sendo duramente criticada pela pedagogia devido à qualidade de sua programação e seu poder de deformação de caráter, no entanto, assistir televisão é um grande hábito da sociedade contemporânea. E existem programas diversos que o educador pode levar para sala de aula e juntamente com o livro desenvolver um trabalho pedagógico de ensinoaprendizagem altamente produtivo. Ocupar um espaço na televisão com um programa educativo infantil também despertou, na equipe responsável pelo Mundo da Leitura (*), o cuidado de não reduplicar e reforçar a cultura de massas, tão fortemente enraizada nessa mídia. Em contraposição a isso, elegeu-se como foco do programa a difusão das produções literárias e artísticas provenientes da cultura erudita e da cultura individual criadora e dos conhecimentos gerados pelas ciências modernas; por outro lado, buscou-se resgatar as manifestações da cultura popular, depositária da sabedoria secular do povo iletrado. (BECKER, 2009, p.261). (*) Mundo da Leitura é um programa de TV produzido pela Universidade de Passo Fundo e exibido nacionalmente no Canal Futura. As aventuras de Gali-Leu e sua turma são elaboradas por uma equipe interdisciplinar que envolve os cursos de Letras, Artes e Comunicação , Educação, Ciências Exatas, e a UPFTV. De forma lúdica e dinâmica, as diversas linguagens apresentadas manipulação de bonecos, leitura e encenação de textos infantis, artes gráficas, música, entre outros servem de incentivo para o desenvolvimento da

4- Transmitir literatura com amor: Formação de Mediadores de leitura A escritora Michele Petit em seu livro, Os Jovens e a Leitura – Uma nova perspectiva, afirma que o mediador, ou no termo utilizado pela autora, o iniciador aos livros, é aquele que pode legitimar o desejo de ler. Que ajuda a ultrapassar os umbrais em diferentes momentos, que acompanha o leitor no momento difícil de escolher o livro, aquele que possibilita fazer descobertas por meio de seus conselhos sem pender para uma mediação pedagógica. Ë evidente a importância da atuação continua do mediador, entusiástica, mantendo-se de forma persistente ao lado desse jovem que começa a desenvolver o prazer pela leitura. No entanto, não é esse profissional que encontramos na grande maioria das escolas brasileiras, é comum encontrar educadores voltados às reclamações sobre má remuneração, carga excessiva de aulas, indisciplina dos alunos, e bitolados as mais arcaicas formas de promover o encontro com o conhecimento. Em sua grande maioria, e não falo somente do professor de língua portuguesa, mas também de matemática. Física,


137 geografia, história, química, biologia, entre outras, que não se configuram como leitores assíduos, em que parece terem abandonado o hábito da leitura juntamente com o final de suas graduações. O professor independente da disciplina que leciona precisa posicionar-se como um cidadão literalmente emancipado em termos de leitura, e todos os tipos de leitura como diz Celso Sisto: Para se chegar a reconhecer um bom livro, é preciso ter lido maus livros! É preciso ter lido livros mais ou menos. É preciso ter descoberto bons livros. É preciso estar atento ao que esta aí no mercado, freqüentar livrarias, mexer nos livros, fuçar nas estantes das bibliotecas. Seja qual for à experiência de escolha dos livros (a táctil não deveria estar descartada, como em algumas bibliotecas!), o histórico das leituras esta lá, latente, guardado (e grudado!) no leitor, e se põe em movimento cada vez que se começa a ler um livro. (SISTO, 2009, p.123). É, contudo, pois, ainda utilizando-se dos apontamentos de Sisto que se o leitor alcança o estágio de leitor crítico, ele não deixara, ou seja, não é possível voltar atrás, abandonar a leitura e esquecer sua fortuna literária, mas lembra, existe apenas um caminho para atingir esse ideário, lendo! Reflexões dessa magnitude nos levam a imaginar que os educadores que compõe o quadro de trabalho das escolas de hoje, como não desenvolvem o hábito da leitura e apresentam enorme dificuldade em indicar as obras aos alunos; encaminhá-los por um caminho interessante, recheado de descobertas, de reconhecimento de si e do mundo que o cerca, evidencia que esse profissional nunca chegou a se tornar um leitor. Procuramos demonstrar a necessidade do educador se converter em uma pessoa leitora, em um cidadão leitor e principalmente em professor leitor. E para atingir esse objetivo considera-se prioritário atentar as seguintes questões: a) Criar o hábito da leitura diária. b) Desenvolver o letramento necessário para a leitura das diversas fontes existentes na contemporaneidade. c) Conhecer as novidades em autores e obras da literatura.

d) Participar de encontros de leitura, mesas redonda, congressos, seminários, entre outros. e) Trocar experiências e apontamentos com os professores das outras áreas do conhecimento. f) Favorecer a interatividade entre as matérias. g) Proporcionar o desenvolvimento de uma biblioteca pessoal h) Ser freqüentador assíduo de bibliotecas, livrarias e revistarias. Permitindo-se participar dessa grade de recomendações muito provavelmente o professor alcançara um ritimo de trabalho e de leitura capaz de contagiar inúmeras almas que estão lá nas salas de aulas esperando um mediador, um contador de histórias, alguém que desenvolva um caminho perspicaz em direção a construção do cidadão emancipado, dono de suas ideologias, recheado de argumentos, e que chegara a sua vida adulta já consolidado como um leitor crítico e com uma visão próxima ao que vislumbra Teresa Colomer: Como quem aprende andar pela selva notando as pistas e sinais que lhe permitirão sobreviver, aprender a ler literatura dá oportunidade de se sensibilizar os indícios da linguagem, de converterse em alguém que não permanece à mercê do discurso alheio, alguém capaz de analisar e julgar, por exemplo, o que se diz na televisão ou perceber as estratégias de persuasão ocultas em um anúncio. [...] se alude isso com a aquisição de uma capacidade crítica de “desmascaramento” da mentira, um meio para não cair nas armadilhas discursivas da sociedade.(COLOMER, 2007, p. 71). Esse é o ideal de mediador de leitura que carece nosso Brasil, capaz de reconhecer as grandes estratégias discursivas nos mais diversos meios de comunicação, por isso a importância do letramento, e dessa forma conseguir encantar os estudantes que à medida que conseguem reconhecer a eles próprios entendem a complexidade do contexto social ao qual estão inseridos. É evidente que o governo poderia propiciar inúmeros projetos para formação de mediadores de leitura, afim de que, os professores conseguissem alcançar


138 os níveis de conhecimento e habilidades até aqui comentados, no entanto, esse capitulo priorizou demonstrar como o educador pode por uma atitude sua, independente tornar-se um mediador competente e, quem sabe, contaminar com sua energia e entusiasmo aqueles que o cercam, e provavelmente quando o sistema político de nosso país acordar para a necessidade de embalar com mais dedicação à leitura e educação, esse mediador já estará preparado para aplicar com gigante eficiência o trabalho de formar leitores, uma vez que já é um professor-leitor, um mediador de leitura. 5- Como e o que explorar no livro A necessidade de saber “mais” para entender “melhor” é algo próprio a qualquer processo de compreensão, inclusive, é claro, a leitura. No entanto, para crianças menores, o livro se cria em suas mãos. (COLOMER, 2007). É uma afirmação interessante para começarmos a desenvolver reflexões sobre como apresentar e o que explorar nos livros de literatura infanto-juvenil. Como já mencionado no inicio deste trabalho o contato com livro e as outras formas de leitura, o ato de manusear, folhear é imprescindível, a criança precisa desenvolver gradativamente o gosto por esse conhecimento. Inicialmente o reconhecimento das imagens, daquilo que ela possa relacionar com o seu mundo, para depois integrar imagem e texto e futuramente preocupar-se com o nome do autor, características, estilo, crítica e demais especificidades, ou seja, a criança precisa despertar o interesse em saber essas questões, que no momento certo são apresentadas pelo mediador. Certamente além do contato imediato do aluno com a obra de ficção a contação de histórias, a leitura em voz alta pelo mediador de poemas que vislumbrem situações possíveis de serem reconhecidas pelos pequenos leitores despertam a vontade de continuar escutando e muitas vezes de compartilhas histórias, vejamos um exemplo: Este pequeno mundo Sei que o mundo é mais que a casa, Mais que a rua, mais que a escola, Mais que a mãe e mais que o pai. Vão alem do horizonte, Que eu desenho no caderno Como linha reta e preta,

Que separa o azul do verde. Sei que é muito, sei que é grande, Sei que é cheio, sei que é vasto. Me disseram que é uma bola Que flutua pelo espaço, Atirada pelo chute De um gigante poderoso; Vai direto para um gol Que ninguém sabe onde é. Mas para mim o que mais conta É este mundo que eu conheço E que cabe direitinho Bem debaixo do meu pé! (BANDEIRA, Pedro. Cavalgando o arco-íris. São Paulo: Moderna, 2002. ) A riqueza da linguagem literária deve aqui ser ressaltada pelo mediador, fazer o aluno perceber as dessemelhanças entre as falas do cotidiano e apreciar o enriquecimento que a linguagem elaborada acarreta ao texto. Sem necessidade de trabalhar com os clássicos da literatura inicialmente, pois existem inúmeras formas de textos modernos que podem suprir essa necessidade inicial. (ROSING, 2009). Cada verso do poema de Pedro Bandeira pode ser transfigurado e transformado pelas crianças, no entanto, exige do professor um real comprometimento com o conhecimento, que de ser literalmente dominado, estar integrado com as novas formas de leitura e principalmente comas novas tecnologias que permitem uma interação mais rápida e instigante para os alunos. Essa ampliação dos mecanismos que pode o professor estar utilizando em sala de aula proporciona uma efetiva elaboração de encontros realmente produtivos e, voltados ao comprometimento do texto literário não mais de forma aleatória e sim a utilização do texto integral. Após ler o poema e analisar com os alunos, sob a orientação do professor, pode esse propor a fim de evidenciar o gosto pelo texto, um pequeno questionário de forma oral mesmo, simplesmente envolvendo todos em uma brincadeira de compreensão utilizando-se das seguintes questões: a) Como é o mundo que vocês imaginam?


139 b) Ele é maior que a escola e a casa mesmo? c) Que coisas fazem parte do mudo? d) O mundo é igual a uma bola? e) O que tem debaixo de seu pé? Ao responderem questionamentos como estes, o aluno aciona seus referentes culturais e seu conhecimento de mundo, que passa a ser compartilhado com os demais colegas e o professor, o qual facilita o processo de compreensão realizando pontes entre o mundo cotidiano e o mundo figurado apresentado pelo poema. Gerando uma atmosfera extremamente interessante para aluno, em que ele conseguira desenvolver habilidades para interar-se com os demais texto que possa encontrar, muitos desses que logicamente serão apresentados pelo professor. 6- Considerações finais Um bom livro é aquele que agrada, não importando se foi escrito para crianças ou adultos, homens ou mulheres, brasileiros ou estrangeiros. E ao livro que agrada se costuma voltar, lendo-o de novo, no todo ou em parte, retornando de preferência àqueles trechos que provocaram prazer particular." (ZILBERMAN, 2005). Essa definição ressalta a importância da boa formação do mediador de leitura, pois é através de suas indicações que o aluno vai encmainhar-se para o processo de desenvolver o gosto pela leitura. Conseguir reconhecer a riqueza de linguagem que oferece o texto literário. Enquanto um texto didático procura uma convergência, todos os leitores chegando a uma mesma resposta, apontando para um único ponto, o texto literário procura a divergência. Quanto mais diversificadas as considerações, quanto mais individuais as emoções, mais rico se torna o texto. Digo sempre que o livro é um objeto, e o leitor um sujeito. (QUEIRÓS, 2005, p.171). Sendo assim o leitor assume o papel de pronunciar sua percepção sobre o que encontrou por meio da leitura, ou seja, não é o que o texto quis dizer e sim aquilo que o leitor, emancipado e crítico, percebeu, conseguiu captar, e dessa forma pode utilizar esse

conhecimento apreendido para melhorar e/ou ampliar sua organização intelectual a respeito do contingente social que o cerca. A formação desse futuro leitor certamente enfrente um contexto de enormes contradições e desafios, em meio a tecnologias e resistências do passado, mas cabe principalmente ao professor conscientizarse como um cidadão leitor e inserido no mundo literário apresentar as portas do saber e da viagem maravilhosa que representa a leitura na vida de todos. Referências bibliográficas BANDEIRA, Pedro. Cavalgando o arco-íris. São Paulo: Moderna, 2002. COLOMER, Teresa. Andar entre Livros. A leitura literária na escola. 1. ed. São Paulo: Ed. Global, 2009. PETIT, Michele. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. São Paulo: Editora 34, 2008. QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Leitura, um diálogo subjetivo. In: O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?: com a palavra o escritor. São Paulo: DCL, 2005. ROSING, Tânia M.K. Do currículo por disciplina à era da educação – cultura-tecnologia sintonizadas: processo de formação de mediadores de leitura. In: Mediação de Leitura – discussões e alternativas para a formação de leitores. São Paulo: Global, 2009. SISTO, Celso. A pretexto de se escrever, publicar e ler bons textos. In: O que é qualidade em literatura infantil e juvenil? Com a palavra o escritor. São Paulo: DCL, 2005. ZILBERMAN, Regina. A leitura na escola. In: ROSING, M.K. e ZILBERMAN, Regina (Org.). Escola e Leitura: velha crise, novas alternativas. São Paulo: Global, 2009. ZILBERMAN, Regina. Como e por que ler a literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

––––––––––––––– Sobre as autoras Jandi Fabian Barbosa, Mestrando em Letras – Concentração em Estudos Literários – Universidade de Passo Fundo – UPF – jandibar@hotmail.com Tania M. K. Rosing, Graduada em Letras (UPF, 1969) e Pedagogia (UPF, 1977), Mestre em Teoria Literária (PUCRS, 1987), Doutora em Teoria da Literatura (PUCRS, 1994). Professora do PPGL e do Curso de Letras, atua na linha de pesquisa “Leitura e formação do leitor”. Fonte: II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade, Ensino e Linguagem 06 a 08 de outubro de 2010 - UNIOESTE - Cascavel / PR


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Lendas Indígenas O Guaraná Vênus e Sirius O GUARANÁ O guaraná para o homem civilizado significa apenas uma simples bebida. Muitos o chamam até de bokemoko. Mas para os índios do vale dos rios Andirá e Maués (AM), tinha valor de um precioso tesouro. Servia de alimento e remédio. Como o bago do guaraná é parecido com o olho humano, surgiu a lenda que correu de boca em boca por toda a região amazônica. Outrora, vivia na selva um casal de índios muito estimado pela tribo. Apesar da felicidade que o unia, faltava-lhe um filho para ser completamente feliz. Tupã (Deus supremo) com pena, deu ao casal um menino que logo passou a ser adorado pelos indígenas. Um dia, Jurupari, o invejoso gênio do mal, ao ver o indiozinho brincando com os animais, ficou furioso, transformando-se numa grande cobra. Os animais, quando o notaram, fugiram apavorados. O garoto continuou na floresta sem perceber a presença do invisível Jurupari que mordeu o menino, matando-o imediatamente. A tribo ficou aos prantos. De repente, um raio interrompeu as lágrimas. Em seguida, fez-se silêncio. Só a mãe do pequeno entendera o sinal: — Tupã deseja que plantemos os olhos do meu filho. Deles brotarão uma planta milagrosa que dará muitos frutos e nos farão felizes para sempre! Os índios enterraram os olhos da criança. Pouco depois, surgia o guaraná. Guará, na língua indígena significa o que tem vida, gente; e ná, igual, semelhante. A palavra guaraná, assim traduzida, quer dizer bagos iguais a olho de gente. Fenômenos da natureza sempre atraíram a atenção dos indígenas que procuraram dar, a seu modo, as mais diversas interpretações, surgindo, assim, inúmeras lendas.

Os índios Cauaiua-Parintins, do Vale do Rio Madeira, contam uma história ingênua sobre o aparecimento da noite, mostrando o alto grau imaginativo do silvícola brasileiro. Um velho querendo dormir perguntou à coruja: — Como é que a gente dorme? A coruja respondeu-lhe que só ela conhecia a noite e se ele a quisesse teria de arranjar-lhe milho preto. O velho trouxe o milho preto, colocou-o numa cabaça e levou à coruja. Esta, ao recebê-la, tratou de tapar a boca da vasilha com barro e cantou: Nós andamos a noite toda, caçando E de dia dormimos Tu já viste coruja de dia? Mas tu dormirás durante a noite Acordarás de madrugada E trabalharás todo o dia. Quando acabou de cantar a cabaça partiu e a noite apareceu. Cinco Cauaiua-Parintins foram viajar por terras desconhecidas. Iam munidos de arco e flechas, um atrás do outro. Ao chegarem à beira de um lago, pararam para descansar. Um deles resolveu separar-se do grupo para ver como era a noite. Armou a rede e dormiu profundamente. No dia seguinte, os companheiros foram chamá-lo e lá estava ele morto no fundo da rede. Os companheiros falaram: — Bem feito. E continuaram a viagem.


141 Mais adiante viram uma árvore alta e ouviram vozes de mulheres banhando-se no porto e o toque-toque de pica-pau, mordendo o tronco de uma árvore.

No dia seguinte, bem cedo, o companheiro foi chamar o amigo, encontrando-o morto. Então, voltou sozinho para sua maloca.

Um dos companheiros disse:

Para esses índios, os curiosos deveriam morrer.

— Ninguém deve espiar as mulheres e os pica-paus. Vamos de cabeça baixa, em fila.

VÊNUS E SIRIUS

Um deles quis espiar o pica-pau e as mulheres. Os outros continuaram andando. De repente, a árvore grande caiu em cima do curioso. Os companheiros ouviram os gritos, entendendo o que acontecera.

Havia três irmãos: dois solteiros e um casado, contam os índios makuchys, do território de Rio Branco, atual Roraima. Daqueles dois, um era feio e o outro, bonito. O casado e o bonito não gostavam do feio, sendo que o segundo procurava a todo custo matar o irmão feio. Em determinada ocasião, aguçou um pau, apontou-o bem e depois de preparar um plano, chamou o feio.

— Bem feito, comentaram. E continuaram a viagem. Mais à frente, ouviram o inhambu cantar. Um deles falou:

— Meu mano, vamos apanhar urucu (substância de tinta) para pintar nosso corpo? — Vamos, respondeu o outro.

— Ninguém deve espiar o inhambu cantar. Eles foram ao urucueiro e o bonito falou: O homem foi espiar e acabou ficando doido. Andava desnorteado de um lado para o outro até que morreu. O corpo dele ficou seco e de baixo da pele lhe saía um pó esbranquiçado, como o que tem a pele do inhambu.

— Sobe para apanhar urucu para nós. O feio subiu e o irmão matou-o com o pau. Cortou as pernas, deixou o cadáver e foi embora.

— Bem feito, concluíram os outros.

Logo depois chegava a cunhada.

A essa altura só havia dois Cauaiua-Parintins. Eles andavam sem parar, durante todo o dia.

— Como estás, meu cunhado? — Como hei de estar? Bem.

À tardinha um disse: — Como está o outro meu cunhado? Vamos buscar bastante lenha para fazer uma boa fogueira para espantar os bichos que este lugar deve ter. Foram para o mato. Mas apenas um trouxe paus para a fogueira. O outro só apanhou ramos e gravetos. Não queria fogueira grande porque fazia muito calor e ele queria ver como eram os morcegos do local. O outro deitou-se sozinho, bem perto de uma grande fogueira. Mais tarde vieram muitos morcegos-grandes. Apagaram o fogo e chuparam o sangue do pescoço do curioso.

— Está lá fora, passeando. — Ah! Pode ser. A cunhada indo passear atrás da casa, achou o corpo com as pernas cortadas e separadas. Em seguida, apareceu o irmão bonito. — Para que me servem estas pernas cortadas? Para nada. Agora só estão boas para os peixes comerem. O irmão pegou as pernas e as colocou no rio. Elas viraram surubim (peixe). O corpo ficou na terra, mas


142 a alma subiu ao céu. Chegando lá transformou-se em estrela. O corpo ficou no centro e as pernas postas uma de cada lado. O irmão assassino, por sua vez, transformou-se na estrela Caiuanon (Vênus) e o irmão casa na estrela Itenha (Sírius). Ficaram os dois fronteiros ao irmão morto por castigo, a fim de serem obrigados a olharem sempre o irmão.

A velha estava sempre aborrecida, pedindo ao sobrinho cada vez mais lenha. Um dia o rapaz trouxe muita muirapiranga (madeira parecida com o pau-brasil) e para acabar com aquele trabalho pediu a tia que o deixasse beber todo o urucu. A velha pensando que ele morreria disse: — Bebe, bebe logo.

Assim nasceu Vênus e Sírius. SOL Segundo os índios Tucuna e Uitoto (AM), antigamente havia um moço forte e bonito naquela região. Sua tia preparava o urucu para pintar os tucunas nos dias de festa de Moça-Nova. O sobrinho partia a lenha para a fogueira, onde a velha punha a panela para ferver urucu.

O rapaz bebeu e foi ficando vermelho como o urucu e a muirapiranga. Depois subiu ao céu, meteu-se entre as nuvens, transformando-se no Sol, o índio vermelho. Fonte: Quatro séculos de lendas. Revista Petrobras, Rio de Janeiro, setembro/outubro de 1972. Disponível em Jangada Brasil. Revista Almanaque. Abril 2010 - Ano XII - nº 135.

Fernando Sabino A mulher vestida Eu estava num centro comercial de Copacabana e era sábado, pouco depois do meio-dia. Às tantas, comecei a ouvir uma martelação de ensurdecer. O dono de uma lojinha de sapatos para senhoras chegou-se à porta, assustado:

- O professor levou - respondeu a voz.

- Que será isso?

- Espere que eu vou buscar o zelador- arrematou o homem, solícito.

E saiu pelo corredor a investigar. Caminhávamos na mesma direção e logo descobrimos que o ruído vinha de uma sala fechada, um curso de ginástica. Batiam desesperadamente na porta, lá dentro - com um haltere, no mínimo.

- Que professor? - O professor de ginástica.

E se voltou para mim : - O senhor podia fazer o favor de procurar o zelador para soltar a mulher? Não posso abandonar a minha loja sem ninguém.

- Que está acontecendo? - o sapateiro gritou do lado de cá.

Não tive outro jeito senão sair à procura do zelador.

Uma voz chorosa de mulher explicou que a porta estava trancada, que ela não podia sair.

Era delicado e solícito, mas infelizmente não podia fazer nada: não tinha a chave da sala.

- Quede a chave? - berrou o homem.

Voltei ao corredor, vencendo a tentação de cair fora de uma vez, deixar que a mulher se arranjasse. A


143 bateção recomeçara, ela parecia disposta a botar a porta abaixo: - Abre essa porta! Pelo amor de Deus! - Calma, minha senhora - berrei do lado de cá: Vamos ver se a gente dá um jeito. No corredor ia-se juntando gente, e várias sugestões eram aventadas: abrir um buraco na parede, chamar o Corpo de Bombeiros, retirá-la pela janela.

Não havendo mais nada a fazer, resolvi tomar o caminho de casa - mas a curiosidade me arrastou mais uma vez até ao centro comercial. O interesse conquistara todo o andar, espalhava-se aos demais, ganhava a rua : gente se acotovelava diante do prédio, agora era uma multidão de verdade que acompanhava os acontecimentos : - Por que não arrombam a porta de uma vez?

- Deve ser uma mulher forte.

- O que a mulher está fazendo lá dentro?

- Eu se fosse ela aproveitava e quebrava tudo lá dentro.

- Dizem que ela está nua.

Pensei em transferir a alguém mais a tarefa que o sapateiro me confiara, não encontrei ninguém que parecesse disposto a aceitar a responsabilidade: todos se limitavam a fazer comentários jocosos, estavam é se divertindo com o incidente. De súbito me ocorreu perguntar à mulher o número de telefone do professor. Foi um custo fazê-la cantar de lá a resposta, algarismo por algarismo. Saí para a rua à procura de um telefone - tive de andar um quarteirão inteiro até uma farmácia, onde fiquei aguardando na fila. Chegou afinal a minha vez. Atendeu-me uma voz de criança, certamente filha do professor. Que ainda não havia chegado em casa, pelo que pude entender: - Escuta, meu benzinho, diga para o papai que tem uma mulher trancada na sala lá do curso dele, está me entendendo? Repete comigo : uma mulher trancada...

A palavra mágica correu logo entre a multidão : nua, uma mulher nua! E cada vez juntava mais gente, ameaçando interromper o tráfego : - Mulher nua! Mulher nua! - gritavam os moleques. Dois soldados da polícia militar, passaram correndo, cassetete em riste, sem saber para onde se dirigir. A multidão se abriu, precavidamente. Um homem de ar decidido pedia licença e ia entrando pelo centro comercial adentro, como quem vai resolver o problema. Devia ser algum comissário de polícia. Era o professor, que comparecia com a chave. Em pouco a porta do curso de ginástica se abriu e a mulher saiu, ressabiada - completamente vestida. Era baixinha e meia gorda, estava mesmo precisando de ginástica. Fonte: SABINO, Fernando, Deixa o Alfredo Falar. RJ: Record, 1976.

Carlos Drummond de Andrade Poema das Sete Faces Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas.


144 Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. Análise do Poema das Sete Faces Publicado em seu primeiro livro, Alguma poesia, de 1930, no Poema de sete faces, de Carlos Drummond de Andrade, o poeta retoma a passagem bíblica referente à morte de Cristo. Ele fala de vários assuntos: da infância, do desejo sexual desenfreado dos homens, questiona sobre o seu próprio eu e faz uma cobrança a Deus. Ele mostra de modo metafórico uma só realidade, a sua visão desesperançada diante do mundo. Ele se via injustiçado diante do mundo e do abandono de Deus, firmando com isso a fala do anjo: “vai ser gauche na vida”. As “setes faces” do título são trabalhadas nas sete estrofes que compõem esse primeiro texto, que pode ser lido como um perfil autobiográfico do poeta, como indicia o uso do próprio nome no verso 3. Ou seja, trata do indivíduo desajustado, gauche (palavra em francês; lê-se 'gôx'), em desacerto com o mundo. O EU em conflito com o mundo. No poema são apresentados tanto seu discurso quanto sua gênese, numa estrutura marcada pela ambivalência: a cada estrofe intercalam-se harmonia e desarmonia, ainda que a linguagem pretenda-se impessoal e casual. O

tom do poema é o do observador e sua poética nos é apresentada como a do incomunicável. Nas sete estrofes do poema exibem as sete faces da poesia de Drummond, nos tons e nos temas: a conversa quase prosa, a fala, o ritmo exato, a prece, o retrato falado, a caricatura, o humor, a oralidade. E o indivisível indivíduo que se multiplica fraco e forte, tímido e “voyeur”, irônico e solidário, confidente e mineiramente arredio. Não por acaso, o poema foi escrito no dia de natal, em 1928, o que pode explicar o anjo embora torto e a invocação bíblica da 5ª estrofe. Algumas dessas sete faces podem ser facilmente reconhecidas ao longo de sua obra. O poeta se via como “gauche”, “torto”, “canhestro”, em face de si e do mundo, ele não consegue se situar em um contexto social. O seu referencial é o seu próprio eu insatisfeito, buscando, desejando, retraindo-se. Por isso ele cobra: “Meu Deus, por que me abandonaste/ se sabias que não era Deus/ se sabias que era fraco”. Ele é esquecido por Deus e termina o poema “comovido como o Diabo”, depois de beber e de relembrar sua triste realidade. No entanto, antes de finalizar ele afirma que apesar de se chamar Raimundo que significa: “protetor, poderoso, sábio, indica uma pessoa que tende a se isolar, pois é muito rigorosa consigo mesma e supervaloriza as virtudes dos outros. Mas, quando se conscientiza da sua própria importância, torna-se capaz de dar apoio e conselhos valiosos a todo mundo”, só serviria para rimar com o mundo, não para solucionar seu problemas. Dá para entrever Drummond, no que se refere ao momento histórico em que se situa o Poema de Sete Faces, como um poeta conflituado com o mundo, buscando na própria dialética existencial a explicação do sem-sentido da vida. Seu drama começa ao ser lançado nos adversidades do mundo sob as ordens de um “anjo torto”: anjo que representa as desarmonias entre o poeta gauche e o mundo. Para o gauche visualista, o mundo é um espetáculo que passa, assim como o bonde citado no poema, à revelia de qualquer indagação ou explicação. Na oscilação entre o real e o irreal, na busca entre essência e aparência é que a cena se movimenta. O poeta gauche é um contemplador orgulhoso que se considera maior que o mundo num mesmo momento em que se vê quebrantado pela realidade,


145 pelo dualismo do Eu menor que o Mundo, sente-se fraco e não vacila em apelar: “Meu Deus, porque me abandonaste”.

Fontes: http://www.passeiweb.com/ ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma Poesia. 1930.

Ademar Macedo Mensagens Poéticas 104 Uma Trova Nacional Vida – viagem sem pressa por estradas desiguais – sabemos onde começa, mas, quando acaba... jamais! (CAROLINA RAMOS/SP) Uma Trova Potiguar A saudade é a tortura, que amofina muitas vidas, escravas das desventuras, de algumas paixões perdidas. (PEDRO GRILO/RN) Uma Trova Premiada 2009 > Belo Horizonte/MG Tema > DESPREZO > Vencedora Desprezo eu senti de fato ao ver em seus escaninhos “aquele” nosso retrato rasgado em mil pedacinhos. (OLYMPIO COUTINHO/MG) Simplesmente Poesia DÉCIMA- (REDONDILHA MENOR) É nossa missão Fazer o reparte Zelar nossa arte Pensar no irmão Agir com razão Frear a ruptura Da forte censura Soltar as algemas Vencer os problemas

Saudar a cultura. (DJALMA MOTA/RN) Uma Trova de Ademar Descobri no envelhecer, em meus momentos tristonhos, que eu não tive, em meu viver, nada mais além de sonhos!... (ADEMAR MACEDO/RN) ...E Suas Trovas Ficaram . Meu túmulo, belo ou feio, será pequeno, suponho, para guardar tanto anseio, para enterrar tanto sonho! (LUIZ OTÁVIO/RJ) Estrofe do Dia O poeta é portador das grandes mágoas da vida, seu peito é uma ferida que nunca se acaba a dor. Sofre por causa de amor, menosprezo e fingimento, desgosto no casamento e ingratidão de colega; todo poeta carrega um fardo de sentimento. (JOSÉ ZILMAR/PB) Soneto do Dia – Rogaciano Leite/PE – IMPOSSÍVEL. Tudo findo. Deixaste-me e seguiste o primeiro que veio ao teu caminho;


146 não pensaste sequer que fiquei triste, preso à desgraça de viver sozinho!

que eu vá viver contigo novamente, pois só contigo poderei ter paz!”

Dois longos anos!...Nunca mais me viste! Foram-se as aves, desmanchou-se o ninho!... Hoje, me escreves: “Meu viver consiste na mistura de lágrimas e vinho!”

Eu te perdôo... mas o empecilho é este: eu amava aquela alma que perdeste... alma que nunca reconquistarás!...

E me imploras: “Perdoa-me e consente

Fonte: Ademar Macedo

Enéias Tavares dos Santos A briga de dois cegos por causa de uma esmola Eu volto agora à poesia com a mente aperfeiçoada contando mais um gracejo que o povo dar gargalhada... uma briga de dois cegos que eu achei muito engraçada. Aconteceu em Rio Largo no estado das Alagoas; esta cena interessante vista por muitas pessoas pois eu só conto o passado não conto coisas atoas! De Maceió, em um trem para Rio Largo rumei quando saltei na estação para a feira me encaminhei e lendo livros para o povo o dia todo passei. Lá para as tantas da tarde a feira já terminado eu então fechei a mala e fiquei assim, conversando olhando o que se passava e algum transporte esperando. Nisso passaram dois cegos um na frente o outro atrás talvez um guiando o outro por caprichos naturais pararam assim adiante junto à banca dum rapaz.

Imploraram uma esmola ele calado ficou eles tornaram a pedir ele atenção não prestou, os cegos iam saindo quando o rapaz lhe falou: — Esperem mais um pouquinho. Onde vão nessa jornada? Botem as mãos para cá Que a banca está recuada Tomem para vocês dois Porém a nenhum deu nada. Passando-se alguns segundos um encolheu logo a mão e disse ao seu companheiro: — Anda para cá seu João, se ele te deu foi trocado me dá logo o meu quinhão. O outro disse: Tá doido! Já quer me lubridiar? ele deu foi a você Vá cuidar logo em trocar Tire o seu e de cá o meu para a gente viajar. O outro um tanto alterado logo respondeu: seu João; ele deu foi pra nós dois não quero tapeação o senhor já é um cego


147 além de cego ladrão! — Ladrão não! gritou o outro repare bem quem sou eu, o homem deu a esmola você foi quem recebeu agora quer tapear só para não dá o meu. Nessa altura os curiosos Pra perto foram chegando para ver o resultado; e os dois cegos se alterando o rapaz, um ar de riso fazendo de vez enquando. Um cego disse: É por isto que gosto de andar sozinho tanto que eu tenho rezado mas meu destino é mesquinho, só encontro com fantasma cruzando no meu caminho. Disse o outro: Essa é que é boa você sim que é trapaceiro veja bem que foi você que encolheu a mão primeiro então já está bem provado que recebeu o dinheiro. Disse o outro: Não senhor eu só puxei minha mão porque vi bem que o senhor tinha melhor condição de receber, porque estava mais perto do cidadão! O outro gritou eufórico: Eu já sei que estou de azar, você recebe o dinheiro agora quer me enganar ou você me dá o meu ou o pau vai "trovejar". — Eu tenho medo de pau? Diz ele serrando o cenho, de pau eu não tenho medo porque pau eu também tenho hoje aqui vai correr sangue igualmente a mel de engenho. Como é que um "cabra" deste

sai pela feira mais eu, recebe aqui uma esmola que eu vi quando o rapaz deu, mete toda no bisaco e diz que não recebeu! O outro muito zangado de raiva estava "cinzento" Logo levantou o pau e gritou: ladrão nojento tome este na cabeça para não ser avarento. Perto estava uma mocinha com uma panela na mão, olhando a briga dos cegos com tanta admiração que chegava até fazer toda gesticulação. O cego com toda raiva quando o cacete baixou bateu foi a mão na moça que a panela se quebrou em mais de vinte pedaços nisso o povo gargalhou! A moça logo saiu correndo pela calçada foi para casa ligeiro da feira não levou nada, ficou com a mão doente e a panela arrebentada. Outro cego também tempo nenhum não perdeu, levantou logo o bastão gritando, lá vai o meu... bateu na testa de um velho que o sangue logo desceu. Um gritava: Tome pau para não ser mais ladrão, o outro então respondia aguente lá meu rojão; nisso rodava o cacete com toda força da mão. A meninada gritava gente pulava e corria, e os dois cegos danados fazendo grande arrelia,


148 metendo o pau adoidado sem saber em quem batia.

para você nunca mais roubar esmola de cego.

Um menino foi por trás na calça de um puxou ele rodou-lhe o cacete, quando a pancada soou foi num carro de refresco todos os litros quebrou.

O rapaz da banca viu que era grande a confusão chegou pra perto e gritou: Epa, assim de faca não! Eles soltaram os dois paus correram sem direção.

Os dois cegos enraivados não escutavam razão, metia o pau um no outro como quem tinha visão, porém sem enxergar nada toda pancada era em vão.

Porém é que nessa altura um cidadão educado foi correndo ao distrito e deu parte ao delegado ele veio a toda pressa trazendo mais um soldado.

Uma mulher foi pra perto pra ver os cegos brigando, foi na hora que um deles o cacete ia baixando bateu-lhe no pé do ouvido que ela caiu espumando.

O delegado chegou no local da confusão perguntou logo: quem foi o autor desta questão mostraram logo o rapaz um sujeito brincalhão.

Com dez minutos de luta já tinha banca virada miudezas pelo chão lona de corda rasgada mangalho por toda parte peça de barro quebrada.

O delegado o prendeu ele saiu escoltado e lá dentro do distrito levou de bolo um bocado depois indenizou tudo que os cegos tinham quebrado.

Um cego dizia ao outro: aguente lá meu "baião" O homem deu a esmola você roubou meu quinhão, agora paga no pau para não ser mais ladrão.

Passou a noite trancado sem ver o clarão da lua deitado no chão molhado lastimando a sorte crua, de manhã fez a faxina para então sair para a rua.

Aí meteu o cacete como quem está roçando foi nas pernas duma velha que ela caiu lá gritando: tá doido cego da peste repare quem vai passando!

Enquanto o mundo for mundo Não falta "cabra de peia" É desses que enganam cegos Ilude a filhinha alheia, Abusa o povo e no fim Só vai parar na cadeia.

O outro cego gritava: daqui pra noite eu lhe pego o serviço que lhe faço quem me perguntar eu nego

Fonte: SANTOS, Enéias Tavares dos. A briga de dois cegos por causa de uma esmola. Aracaju: Gráfica J. Andrade, 1970.


149

Carlos Drummond de Andrade Adeus a Sete Quedas Sete damas por mim passaram, E todas sete me beijaram. Alphonsus de Guimaraens Aqui outrora retumbaram hinos. Raimundo Correia Sete quedas por mim passaram, e todas sete se esvaíram. Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele a memória dos índios, pulverizada, já não desperta o mínimo arrepio. Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes, aos apagados fogos de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se os sete fantasmas das águas assassinadas por mão do homem, dono do planeta. Aqui outrora retumbaram vozes da natureza imaginosa, fértil em teatrais encenações de sonhos aos homens ofertadas sem contrato. Uma beleza-em-si, fantástico desenho corporizado em cachões e bulcões de aéreo contorno mostrava-se, despia-se, doava-se em livre coito à humana vista extasiada. Toda a arquitetura, toda a engenharia de remotos egípcios e assírios em vão ousaria criar tal monumento. E desfaz-se por ingrata intervenção de tecnocratas. Aqui sete visões, sete esculturas de líquido perfil dissolvem-se entre cálculos computadorizados de um país que vai deixando de ser humano para tornar-se empresa gélida, mais nada. Faz-se do movimento uma represa, da agitação faz-se um silêncio

empresarial, de hidrelétrico projeto. Vamos oferecer todo o conforto que luz e força tarifadas geram à custa de outro bem que não tem preço nem resgate, empobrecendo a vida na feroz ilusão de enriquecê-la. Sete boiadas de água, sete touros brancos, de bilhões de touros brancos integrados, afundam-se em lagoa, e no vazio que forma alguma ocupará, que resta senão da natureza a dor sem gesto, a calada censura e a maldição que o tempo irá trazendo? Vinde povos estranhos, vinde irmãos brasileiros de todos os semblantes, vinde ver e guardar não mais a obra de arte natural hoje cartão-postal a cores, melancólico, mas seu espectro ainda rorejante de irisadas pérolas de espuma e raiva, passando, circunvoando, entre pontes pênseis destruídas e o inútil pranto das coisas, sem acordar nenhum remorso, nenhuma culpa ardente e confessada. (“Assumimos a responsabilidade! Estamos construindo o Brasil grande!”) E patati patati patatá... Sete quedas por nós passaram, e não soubemos, ah, não soubemos amá-las, e todas sete foram mortas, e todas sete somem no ar, sete fantasmas, sete crimes dos vivos golpeando a vida que nunca mais renascerá. Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond. Jornal do Brasil, Caderno B, 09 de setembro de 1982


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Maria Rosa Moreira Lima A lenda dos tatus brancos A lenda dos tatus brancos, na opinião de Afonso Arinos, pertence ao folclore paulista e teve início da seguinte maneira: Alguns bandeirantes audaciosos, buscando novos descobrimentos acompanhavam o traçado do rio Tietê e depois de longa jornada resolveram adentrar a mata bravia. Caminharam dias seguidos quando lhes veio a idéia de procurar ouro e pedras preciosas. Dirigiram-se, então, para as terras das Minas Gerais. Desta maneira chegaram a um local desconhecido, onde os campos ficavam perto de cavernas e furnas imensas, escuras, tenebrosas. Apesar do local agreste, as tendas foram armadas para repouso merecido. Acocorados em torno do lume, saboreando alguma bebida, os viajantes escutavam as mais curiosas e absurdas histórias contadas pelos caboclos nativos embora, ao mesmo tempo, insistissem para que levantassem acampamento o quanto antes pelo fato daquela região ser dominada por uma espécie de índios conhecidos como tatus brancos, habitantes das cavernas adjacentes e, enxergando tão bem dentro da escuridão como se tivessem olhos de coruja. Além desta qualidade excepcional, havia uma outra e esta verdadeiramente de apavorar pois as citadas criaturas davam um valor inestimável à carne humana, preferindo-a mesmo a qualquer caça ao alcance de suas flechas. Além da predileção absurda, tinham um faro especial sentiam o cheiro do alimento favorito, logo se aprestavam para caçálo. O chefe paulista, sendo o mais interessado nos relatos concernentes à sanha antropófaga dos vampiros da tribo dos tatus brancos, prometeu a si mesmo desvendar o mistério. Daí não querer escutar os conselhos do mais experimentado caboclo, cujas palavras eram endossadas pelos outros guias também confirmando casos de pessoas sumidas, provavelmente levadas para as vastidões sombrias e jamais tornaram a aparecer. Mesmo assim, o moço insistia em ficar no local, dizendo somente partir depois de certificar-se quanto à veracidade das histórias contadas por aqueles homens que, embora reconhecidamente valentes,

manifestavam grande pavor ao ouvir o menor ruído. Audacioso, o chefe da expedição sozinho começou investigando e, para isso penetrava nas furnas mais tenebrosas, examinando rastros, atento ao mais insignificante rumor. Certa noite de escuridão cerrada, a tropa descansava numa clareira. O silêncio era profundo, perturbado apenas pelo bater de asas de algum pássaro retardatário buscando o aconchego do ninho. Pouco a pouco os homens foram percebendo um clamor estranho. Eram muitas vozes juntas, inicialmente confusas pela distância mas, aproximando-se rapidamente, enquanto um tropel diferente como se incalculável quantidade de animais pequeninos corressem desenfreados pelas quebradas em direção ao acampamento e, suas vozes, foram discernidas à medida que se aproximavam. Os componentes do grupo paulista puseram-se de sobreaviso com as armas engatilhadas. Súbito, uma horda de pigmeus, saindo da escuridão, iniciou o ataque. O imprevisto do acontecimento impossibilitou uma defensiva eficiente. Mesmo assim a luta foi renhida mas rápida. Era a força dos homens grandes contra a astúcia e agilidade assombrosa dos assaltantes. Os pequenos seres arrastavam para as trevas os corpos dilacerados e sem vida dos vencidos inclusive os agonizantes e, nem escapou ao massacre o chefe da escolta. Este, ferido levemente, em companhia dos subalternos foi levado para uma das cavernas dos agressores. Mas aconteceu o seguinte: A princesa da tribo já vira o moço paulista e por ele se apaixonara, propiciando-lhe este fato, o direito de dispor da vida do prisioneiro. No âmago da caverna o valente bandeirante passa algum tempo desacordado e quando recupera os sentidos vê, junto de si, um pequeno vulto de mulher. Quando seus olhos vão se acostumando às trevas nota e com horror o restante dos companheiros devorados pela horda sinistra que, comemorando a vitória dançavam satisfeitos dando por terminado o banquete macabro. Naquele antro


151 escuro, o detido permaneceu por muito tempo sempre vigiado pela jovem apaixonada. Certa noite a malta assassina parte para os cerrados buscando alimento humano. Aproveitando a oportunidade, o moço deixa-se envolver pela turba apressada dos pigmeus e, sem ser notado, consegue sair também das cavernas mas, sempre vigiado pela amorosa companheira. Enfraquecido, não consegue chegar a saída da gruta e, exausto pela falta de alimentação, sentindo-se desfalecer, faz um sinal para descansar. Deitam-se no chão. Ele apesar de tudo, alimentando a esperança de alcançar a liberdade, finge adormecer, enquanto a jovem a seu lado, é, na verdade dominada pelo sono. Disfarçadamente o prisioneiro atento, aguarda o nascer do sol para ver onde se encontrava e quando os clarões da madrugada iluminaram a terra, levanta-se com muito cuidado e tenta fugir. No mesmo instante a moça acorda e, mal desperta, atordoada com a claridade, num esforço tenta arrastar o homem para o negrume

da caverna. E naquele momento de aflição ele conseguiu observá-la. Era uma pequenina mulher e como os seus irmãos, mal atingindo a metade da altura de um homem de baixa estatura, pele clara de quem nunca sentiu os raios solares, os cabelos longos de um louro sem vida. Quanto aos olhos eram de um azul esbranquiçado e ela gemendo procurava conservá-los fechados ou protegê-los da claridade com uma das mãos, enquanto com a outra buscava o companheiro, desta maneira caminhando às tontas como se fosse inteiramente cega. O moço desvencilhando-se da criatura que fazia ingentes esforços para detê-lo, foge em desabalada carreira, daquele local maldito dominado pela tribo dos tatus brancos, considerados os mais ferozes canibais que infestavam aquela região do ouro. Fonte LIMA, Maria Rosa Moreira. A lenda dos tatus brancos. Diário de São Paulo, São Paulo, 09 de agosto de 1975.

Solano Trindade Poesias POEMA AUTOBIOGRÁFICO Quando eu nasci, Meu pai batia sola, Minha mana pisava milho no pilão, Para o angu das manhãs... Portanto eu venho da massa, Eu sou um trabalhador...

nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue das utópicas novas ordens de napoleônicas conquistas mas o canto da liberdade dos povos e do direito do trabalhador... CONVERSA

Ouvi o ritmo das máquinas, E o borbulhar das caldeiras... Obedeci ao chamado das sirenes... Morei num mucambo do ""Bode"", E hoje moro num barraco na Saúde...

- Eita negro! quem foi que disse que a gente não é gente? quem foi esse demente, se tem olhos não vê...

Não mudei nada... CANTA AMÉRICA

- Que foi que fizeste mano pra tanto falar assim? - Plantei os canaviais do nordeste

Não o canto de mentira e falsidade que a ilusão ariana cantou para o mundo na conquista do ouro

- E tu, mano, o que fizeste? Eu plantei algodão nos campos do sul pros homens de sangue azul


152 que pagavam o meu trabalho com surra de cipó-pau. - Basta, mano, pra eu não chorar, E tu, Ana, Conta-me tua vida, Na senzala, no terreiro - Eu... cantei embolada, pra sinhá dormir, fiz tranças nela, pra sinhá sair, tomando cachaça, servi de amor, dancei no terreiro, pra sinhozinho, apanhei surras grandes, sem mal eu fazer. Eita! quanta coisa tu tens pra contar... não conta mais nada, pra eu não chorar E tu, Manoel, que andaste a fazer - Eu sempre fui malandro Ó tia Maria, gostava de terreiro, como ninguém, subi para o morro, fiz sambas bonitos, conquistei as mulatas bonitas de lá... Eita negro! - Quem foi que disse que a gente não é gente? Quem foi esse demente, se tem olhos não vê. EU GOSTO DE LER GOSTANDO Eu gosto de ler gostando, gozando a poesia, como se ela fosse uma boa camarada, dessas que beijam a gente gostando de ser beijada.

Eu gosto de ler gostando gozando assim o poema, como se ele fosse boca de mulher pura simples boa libertada boca de mulher que pensa... dessas que a gente gosta gostando de ser gostada. NEGRA BONITA Negra bonita de vestido azul e branco Sentada num banco de segunda de trem Negra bonita o que é que você tem? Com a cara tão triste não sorri pra ninguém? Negra bonita É seu amor que não veio Quem sabe se ainda vem Quem sabe perdeu o trem Negra bonita não fique triste não Se seu amor não vier Quem sabe se outro vem Quando se perde um amor Logo se encontra cem Você uma negra bonita Logo encontra outro bem. Quem sabe se eu sirvo Para ser o seu amor Salvo se você não gosta De gente da sua cor Mas se gosta eu sou o tal Que não perde pra ninguém Sou o tipo ideal Pra quem ficou sem o bem... REFLEXÃO Vieste acender o meu fogo poético, E minh’alma se abriu pras grandes festas, A música dos teus poemas, Faz-me dançar o bailado, Da primeira mocidade... Eu sinto vontade de não ser sexo, Para brincar contigo como criança, E brincar de cirandinha com tu’alma. Mas como sou sexo, Vou assistir um espetáculo humano; A confecção de bandeiras iguais, Para seres que parecem diferentes. POEMA DO HOMEM Desci à praia Para ver o homem do mar,


153 E vi que o homem É maior que o mar Subi ao monte Pra ver o homem da terra, E vi que o homem É maior que a terra Olhei para cima Para ver o homem do céu, E vi que o homem É maior que o céu. O CANTO DA LIBERDADE Ouço um novo canto, Que sai da boca, de todas as raças, Com infinidade de ritmos... Canto que faz dançar, Todos os corpos, De formas, E coloridos diferentes... Canto que faz vibrar, Todas as almas, De crenças, E idealismos desiguais... É o canto da liberdade, Que está penetrando, Em todos os ouvidos... MEU CANTO DE GUERRA Eu canto na guerra, Como cantei na paz, Pois o meu poema É Universal. É o homem que sofre, O homem que geme, É o lamento Do povo oprimido, Da gente sem pão... É o gemido De todas as raças,

De todos os homens. É o poema da multidão! ABOLIÇÃO NÚMERO DOIS Parem com estes batuques, Bombos e caracaxás, Parem com estes ritmos tristes e sensuais Deixem que eu ouça Que eu veja Que eu sinta O grito A cor E a forma da minha libertação... QUEM TÁ GEMENDO? Quem tá gemendo, Negro ou carro de boi? Carro de boi geme quando quer, Negro, não, Negro geme porque apanha, Apanha pra não gemer... Gemido de negro é cantiga, Gemido de negro é poema... Gemem na minh'alma, A alma do Congo, Da Niger, da Guiné, De toda África enfim... A alma da América... A alma Universal... Quem tá gemendo, negro ou carro de boi? Fontes: http://www.antoniomiranda.com.br http://colecionadordepedras.blogspot.com/2006/01/trs-poemas-de-solanotrindade.html http://brazilianmusic.com/aabc/literature/palmares/solano.html


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Ricardo Faria Um poeta chamado Solano Trindade Tempos de Teatro de Arena, Redondo, TBC, TAIB, do Teatro das Nações, inaugurado com uma ópera para mais de mil pessoas vestidas a rigor. A gente se reunia no Ponto de Encontro, uma livraria no subsolo da Galeria Metrópole, em frente à Praça da Biblioteca, na então Paulicéia Desvairada dos anos sessenta. Que bom ter conhecido tantas pessoas especiais. Aquele negrão era cativante, mais ainda quando declamava e se repartia. Solano Trindade, pernambucano de Recife, filho do sapateiro Manuel Abílio e da quituteira Emerenciana, cresceu dançando o Pastoril e Bumba-meu-boi. Participou dos Congressos Afros dos anos trinta, especialmente quando Gilberto Freyre lança seu Casa Grande & Senzala. Em 1936, Solano funda o Centro Cultural AfroBrasileiro e a Frente Negra Pernambucana, uma extensão da Frente Negra Brasileira. Publica os seus Poemas Negros. Inquieto, viaja para Minas Gerais e depois para o Rio Grande do Sul, onde cria, em Pelotas, um Grupo de Arte Popular. Aquele homem de andar manso, cabeça cheia de planos e energia inabalável foi depois para o Rio de Janeiro. Em 1944 publicou o livro Poemas de uma Vida Simples. Em 1945, junto com Abdias Nascimento, criou o Comitê Democrático AfroBrasileiro. Com Haroldo Costa fundou o Teatro Folclórico. Atuou em filmes como A hora e a vez de Augusto Matraga e O Santo Milagroso. Na cidade maravilhosa, Solano gostava do Café Vermelhinho freqüentado por intelectuais, políticos, jornalistas, escritores e atores teatrais. Era amigo de pessoas como o Barão de Itararé e Santa Rosa. Solano filiou-se ao Partido Comunista, as reuniões da Célula Tiradentes ocorriam na sua residência e, durante a perseguição aos comunistas, empreendida

pelo governo Dutra, entram em sua casa. Seu filho, Liberto, está deitado, doente. A polícia vira o colchão, à procura de armas. Exemplares de seus livros são apreendidos. A filha Raquel lembra: "Papai jamais esconderia armas. Sua luta era feita com idéias". Preso, não se abala. Raquel e a mãe, Margarida, percorrem as cadeias até encontrá-lo. Quando sai, Solano parece fortalecido. Embora com os olhos tristonhos, seu otimismo é contagiante, nasce do seu amor pela arte e pela vida. Continua escrevendo, fazendo teatro e espalhando sonhos e esperanças por onde passa. Preocupava-se com o que chamava de folclore, com as danças populares. Dizia ser necessário pesquisar nas fontes de origem e devolver ao povo em forma de arte. Sua experiência mais bem sucedida neste sentido foi o Teatro Popular Brasileiro, criado por ele, por sua esposa Margarida Trindade e pelo sociólogo Édison Carneiro em 1950 Com Haroldo Costa fundou o Teatro Folclórico. Atuou em filmes como A hora e a vez de Augusto Matraga e O Santo Milagroso. Na cidade maravilhosa, Solano era freqüentador do Café Vermelhinho, onde se reuniam intelectuais, políticos, jornalistas, escritores e artistas de teatro. Ali era amigo de pessoas como o Barão de Itararé e Santa Rosa. O Embu é um agradável município distante cerca de uma hora do centro de São Paulo. Embora tão próxima à metrópole, a cidade guarda um clima bucólico, aconchegante. Quem chega no Embu aos domingos, quando é grande o movimento de turistas, não imagina estar diante da concretização do sonho de artistas negros, dentre eles o poeta Solano Trindade, pesquisador das nossas tradições populares, teatrólogo, pintor e boêmio; um ser humano de grande carisma e visão,


155 para quem a arte representava parte essencial da vida. Solano vem a São Paulo e é convidado pelo escultor Assis para apresentar-se no Embu e leva o seu grupo. Dormem no barracão de Assis nos finais de semana, quando mostram sua arte para um número cada vez maior de pessoas. Participam da peça "Gimba", de Gianfrancesco Guarnieri. Em 1967, apresentam-se para um dos criadores da Negritude: Leopold Senghor. Solano apaixona-se pelo Embu, muda-se para lá e sua casa torna-se uma núcleo artístico. Na cidade já havia um movimento com artistas como Sakai e Azteca, mas a atividade de Solano e Assis faz surgir a feira de artesanato e revoluciona o local, aumentando o fluxo turístico. Solano chegou a ser conhecido como "o patriarca do Embu". A casa e o coração de Solano estavam sempre prontos para receber, na panela, havia comida para quem chegasse a qualquer hora. Ironicamente, no final da vida, vários desses amigos se afastaram, mas talvez este seja o cruel destino dos grandes criadores, de profetas e poetas assinalados. A poesia de Solano o marcou. Orgulhava-se ser chamado de “poeta negro”; - “Sou negro, meus avós foram queimados pelo sol da África minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs.” Casou-se três vezes e teve quatro filhos. Raquel Trindade, que hoje continua o trabalho do pai, no Embu, descreve-o: "Existem artistas que aparentam ser uma coisa e, no fundo, são outra. Papai mostrava-se como era, um pai fantástico". Último ato: esse poeta dava-se completamente à arte e à vida sem se importar com bens materiais, ainda que seu trabalho tenha favorecido a muitos. A partir de 1970, sua saúde começou a apresentar problemas. Morreu no Rio de Janeiro, em 1974. Em 1976, voltou aos braços do povo como tema da escola de samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha Raquel. Os versos do samba de Geraldo Filme ainda ecoam: “Canta meu povo, vamos cantar em homenagem ao poeta popular Vai-Vai é povo, está na rua saudoso poeta, a noite é sua.”

Palavras escritas num poema à filha Raquel se tornam proféticas: “Estou conservado no ritmo do meu povo Me tornei cantiga determinadamente, nunca terei tempo para morrer.” Um de seus trabalhos mais famosos, intitulado "Tem gente com fome", foi musicado e gravado por Nei Matogrosso: Trem sujo da Leopoldina correndo, correndo, parece dizer tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome. O ritmo é o de um trem em movimento. No final, quando vai parando, a voz ouvida pelo poeta exige: se tem gente com fome, dá de comer. Solano também cantou continuamente o amor. - Fonte Márcio Barbosa Em tempos de Beto Carneiro, o Vampiro Brasileiro, e Emílio Surita com seu Pânico na TV, vale a pena homenagear Solano Trindade: Tem gente com Fome Trem sujo da Leopoldina correndo correndo parece dizer tem gente com fome tem gente com fome tem gente com fome Piiiiii Estação de Caxias de novo a dizer de novo a correr tem gente com fome tem gente com fome tem gente com fome Vigário Geral Lucas Cordovil Brás de Pina Penha Circular Estação da Penha Olaria Ramos Bom Sucesso Carlos Chagas Triagem, Mauá trem sujo da Leopoldina correndo correndo parece dizer


156 tem gente com fome tem gente com fome tem gente com fome

quando vai parando lentamente começa a dizer se tem gente com fome dá de comer se tem gente com fome dá de comer se tem gente com fome dá de comer

Tantas caras tristes querendo chegar em algum destino em algum lugar Trem sujo da Leopoldina correndo correndo parece dizer tem gente com fome tem gente com fome tem gente com fome

Mas o freio de ar todo autoritário manda o trem calar Psiuuuuuuuuuuu Fonte: Revista Entrementes

Só nas estações

Serafina Ferreira Machado A imagem do negro na poesia de Solano Trindade Este artigo mantém a grafia original de quando foi escrito. Na época, afro-brasileiro era da raça negra. RESUMO: Este artigo se propõe a revisar o processo da formação da identidade do negro: da subalternidade à luta pelo reconhecimento, na esfera histórica e literária. Na obra de Solano Trindade, o poeta cede sua voz ao oprimido (o homem negro ou branco) para denunciar as injustiças sociais. O discurso de Trindade convida o leitor a uma revisão da condição do negro e, ao ressaltar o caráter humano em sua poética, questiona as imagens fixas, revestidas por estereótipos que estigmatizam. A obra deste poeta se propõe, pois, a uma (re)leitura das imagens impingidas ao negro na diáspora, confrontando-se com valores morais, políticos e sociais da elite, no intuito de reconhecer o caráter humano do negro. PALAVRAS-CHAVE: poesia, negro, humanização. Na produção literária brasileira, apesar da referência ao negro, é comum encontrar sua imagem marcada por preconceitos e estereótipos construídos numa tentativa de apagar sua representatividade cultural. E hoje, em pleno século XXI, as discussões em

torno de medidas compensatórias para sanar as consequências comprovam o resultado desastroso desta lógica. Ou seja, embora o Brasil traga marcas de várias etnias, nota-se que o cânone literário fez sua opção pelo modelo europeu durante um longo tempo. Nesta opção, reconhece-se a tentativa de dominar o caráter humano do negro, retratando-o pelo crivo da inferioridade, a partir da lógica maniqueista que ora o apresenta como dócil, ora como selvagem e quase sempre zoomorfizado. Portanto, muitas foram as formas de violências pelas quais o negro foi submetido. A sua verdadeira humanidade foi, aos poucos, sendo substituída por imagens que, com o passar do tempo, alicerçaramse na cultura nacional. Imagens estas que refletiam as ideologias adotadas e cobravam do “sujeito brasileiro” uma “boa aparência”, isto é, assimilação dos modelos da sociedade branca europeia. Assim sendo, justifica-se a exclusão do negro, denunciada no poema “Civilização Branca”, de Solano Trindade: . Lincharam um homem entre os arranha-céus (li num jornal) procurei o crime do homem


157 o crime não estava no homem estava na cor de sua epiderme... (Trindade 1961: 37) A ideologia branca, ao longo da história, tentou enfraquecer a participação do negro na vida social, por isso o poeta busca um verbo forte (lincharam) para definir a violência contra este homem que figura em seu poema. A “boa aparência” cobrada pela época representava o oposto da negrura da pele, dos cabelos pixains, do nariz achatado... Diante desta questão de “aparência”, observa-se que, embora a cultura negra seja, hoje, visível, tolerada, respeitada e integrada nos símbolos constitutivos da cultura nacional, os homens e as mulheres negras, produtores dessa cultura são “invisibilizados”, “linchados”. Desta forma, diante da civilização branca, Trindade reconhece que a passagem de ser “o outro” apagado, para um “Eu”, requeria o resgate da experiência histórica do ser negro. Assim, ele utiliza a poesia como arma contra as opressões e marginalização social. Mantém um diálogo com a sociedade atual e se insere numa produção que busca incluir as classes marginalizadas. A palavra foi a arma de Solano Trindade contra a opressão de seu tempo. No poema “Canto de Palmares” ele relata uma batalha onde muitos de seus irmãos foram mortos, mas o poema, arma do eu lírico, permaneceu. E ao revelar “meu poema é cantado através dos séculos/ minha musa esclarece a consciência” percebe-se ainda mais o poder da palavra que pode agir na consciência, como agiu na consciência dos mais jovens como Cuti, Oubi, Adão Ventura etc, que continuaram o canto simples de Trindade. Através da poesia negra, em que a palavra poética configura-se como arma contra a opressão, pode-se reconhecer a resistência do escritor afrodescendente contra as formas de descriminação racial. Na obra de Solano Trindade, por exemplo, há a cobrança por um reconhecimento, na tentativa de visibilizar e re-apresentar esta categoria marginalizada. A escrita negra faz exatamente isto: rasura a identidade mumificada pela negação e faz emergir um “eu” que reivindica sua voz e seu lugar de agente de/no processo histórico.

Ter consciência de si mesmo é o processo necessário para que o negro efetivamente construa sua identidade. Ou seja, através da conscientização o afro-descendente pode negar os símbolos de estereotipias que foram anexadas a sua real imagem. Na poética é possível verificar o comprometimento do “eu” negro com sua própria identidade como pessoa, aceitando-se e assumindo a própria cor. Solano Trindade, em diversos momentos, faz menção à tentativa da literatura canônica de “dilaceração” da produção do autor afro-brasileiro. A presença do opressor é, desta forma, constante em “Canto dos Palmares” e as armas são diversas: dinheiro, flechas, os ideais de escravagismo, o sadismo... Mas, a arte poética mostra-se superior a estas formas coercitivas: “...eu os faço correr”. O sangue foi derramado, amadas foram mortas, canta o eu lírico. No entanto, ressalta-se por diversas vezes “Ainda sou poeta e meu poema/ levanta os meus irmãos”. Reiterando, a resistência é marca constante na obra deste poeta pernambucano. A poesia configura-se como uma oportunidade histórica para se aclamar a negritude, uma negritude que resistiu às diversas formas de coerção, e que agora, incendeia-se para o mundo, consumindo as imagens de negro mau, primitivo, submisso, invisível... Fica no leitor a visão de uma uma brecha por onde o afro-descendente pode atravessar e mostrar-se ao mundo, obrigar-se a ser visto e ouvido: a poesia. A obra de Trindade adquire este sentido e o eu lírico busca transformar o seu status social através do discurso poético. Roger Toumson, em “La littérature antillaise d’expression française”, define essa crise da consciência do sujeito dominado que exige a voz da seguinte forma: “Sua enunciação tem por objetivo arrancá-lo do nada em que a opressão o manteve por tão longo tempo, testemunhar sua presença no mundo e sua verdadeira experiência da história. Polêmico, o discurso afro-antilhano se propõe a restabelecer uma verdade até então deliberadamente abafada” (Bernd 1988: 29). O olhar do eu lírico nas poesias de Trindade, assim, reconstrói a trajetória do homem, apreendendo um outro sentido nas “mercadorias humanas” trazidas da África, como se pode verificar no poema abaixo: Lá vem o navio negreiro


158 Lá vem sobre o mar Lá vem o navio negreiro Vamos minha gente olhar... Lá vem o navio negreiro Por água brasiliana Lá vem o navio negreiro Trazendo carga humana... Lá vem o navio negreiro Cheio de melancolia Lá vem o navio negreiro Cheinho de poesia... Lá vem o navio negreiro Com carga de resistência Lá vem o navio negreiro Cheinho de inteligência... (Trindade 1961: 44) O poeta inicia uma luta pelo reconhecimento da história dos marginalizados, no entanto, convoca o povo para que se junte a ele, para que redescubra as verdades sufocadas pelo preconceito. Para isso, mergulha sem medo no passado histórico e encontra neste mergulho não múmias marcadas pelas ferrugens de um cárcere, ou por pedras de muralhas, mas o ser humano. E ao buscar o humano, ao invés de carga ou mercadoria a ser vendida, o poeta denuncia uma situação política e social que ainda não fora extinta: o afro-descendente continua psicológica e economicamente escravo, oprimido, sem chances reais de alcançar melhores condições de existência humana. Desta forma, é necessário retornar ao passado, visualizar o navio negreiro e perceber o que está contido neste símbolo que até então marcara a dor, o desenraizamento, o apagamento. E a primeira descoberta de Trindade é que neste navio havia carga humana: “Lá vem o navio negreiro/ Trazendo carga humana”. No entanto, o adjetivo “carga” é utilizado com um sentindo deliberadamente pejorativo, referindo-se à condição do transporte de escravo. Por isso, ele convoca todos para que olhem o navio, que redescubram o conteúdo destas embarcações: o negro e sua possível humanidade. Logo à primeira leitura, o poema chama a atenção para o aspecto visual. A figura do navio negreiro se impõe ao leitor desde o início, como um objeto que deve ser observado: “Vamos minha gente olhar....” Ele é visualizado durante todo o poema, situado no espaço, apresentado por sua função geral (trazer carga humana), o interior do meio de transporte

(“cheio de melancolia/ cheio de poesia”) e o interior de seus passageiros: a resistência e a inteligência. A primeira referência do poeta em relação ao navio é o seu aspecto externo. Através deste ponto de vista destaca-se, no navio, a função de transporte de escravos; em seguida, é captado seu interior e os seres nele transportados. Sobressai a integração dos diferentes ângulos deste mesmo objeto, que se une numa idéia geral de resistência e inteligência. A última palavra, que finaliza o poema harmoniza-se com o vocábulo resistência. A inteligência é símbolo do homem que pensa, que resiste à condição de besta de carga. Por isso, a ausência de ponto final no poema é significativa para demonstrar uma luta iniciada, deixando uma ideia de continuidade. O efeito geral do poema é de um quadro, mas um quadro que se movimenta de acordo como o olhar do poeta conduzindo o do leitor. Desta forma, é compreensível a insistência nos fonemas [m] e [n] devido o valor expressivo que possuem dentro do poema. Ao reiterar estes fonemas, assim como a frase “Lá vem o navio negreiro”, realiza uma operação ondeante que aproxima o movimento do poema ao movimento do mar. A repetição insiste no retorno, no olhar novamente. Mas, além disso, insiste no prosseguir, num novo passo, ou numa nova visão sobre o objeto que apresenta conteúdos que se diferenciam a cada olhar: carga humana, melancolia, poesia, resistência e inteligência. Cada novo verso equivale a um retorno, a uma retomada do olhar a partir de um ângulo novo sobre o mesmo navio, justapondo-se as faces deste objeto como um recomeço sempre nascente da percepção, até completar-se a imagem real do objeto: um navio que transporta pessoas que sofrem, sentem, se indignam e agem com discernimento. Nota-se, pois, uma atração do apelo musical que parece vir do mar, do marulho das águas, do som sempre recomeçado das ondas, cujo movimento repetitivo vem representado pela reiteração do verso “Lá vem o navio negreiro”. Além disso, não se pode deixar de perceber a relação entre a música e a poesia, assim como o seu vínculo com a natureza, com a simplicidade. O paralelismo traz de volta a frase de convocação, ao lado dos outros versos, todos livres, sem qualquer pontuação a não ser o ponto final da quadra. Esta liberdade permite classificar as


159 quadras, do ponto de vista sintático, como uma construção paratática, ou seja, é composta por orações coordenadas absolutas, livres, sem qualquer vínculo conjuntivo ou mesmo sinal de pontuação. O ritmo, apoiado pela construção paralelística, vincula os versos fazendo ondular, ao mesmo tempo, as ondas do mar e a subjetividade do sujeito que olha, mas, retoma o olhar, no desejo de partilhar a sua visão. As construções verbais, feitas com palavras corriqueiras e repetitivas, em ritmo encantatório, servem para mobilizar alguns elementos temáticos. São motivos tomados do espaço natural (o mar, a água) ou da interioridade humana (melancolia, resistência, inteligência). A mobilidade fortifica o ritmo que, no poema, passa a ideia de retorno à origem (o verso e a unidade rítmica é uma forma de voltar). Ao mesmo tempo, o navio avança (sempre mais próximo do receptor, desnudando-se, mostrando-se internamente). Com um ritmo tão marcado, tão repisado, o poema parece preparar o leitor para uma dissolução da consciência. Isto faz com que o poema se assemelhe a certas formas de músicas primitivas, de rítmica rebatida e incisiva, como é o caso, por exemplo, da música dos cultos afro-brasileiros e/ou da poesia lírica medieval. Verifica-se, no poema, a mesma força hipnótica da música popular. No movimento incessante do navio negreiro, um novo ponto de vista vai se revelando. O navio negreiro que se movimenta por águas brasileiras traz sim o sofrimento, a dor, a melancolia; mas, nesse passado de revolta, de exploração, de desaculturação, o poeta encontra a fonte de uma poesia de denúncia: denúncia de um passado de violência, denúncia de um presente de repressão camuflada. Neste poema que imita o movimento do mar (retorno e avanço) o eu lírico retorna à época de tráfico de escravos. É o retorno necessário para a fonte da poesia e para sugerir um re-olhar. O navio negreiro não representa apenas a embarcação de transporte de carga para o trabalho escravo, perpetuando uma história de humilhação. Se olhado novamente, podese reconhecer no navio negreiro o expoente de resistência. O eu lírico, assim, convoca “sua gente” a se auto-reciclar, a se autodescobrir. E deste descobrimento, percebe-se que o navio negreiro

trazia uma carga “cheinha de inteligência”, cheinha de história a ser contada, a ser retomada. No entanto, a inteligência a que se refere o eu lírico não é a inteligência racionalista e unilateral, mas, a inteligência ancorada em outros saberes e registros. A prova é que a história é para ser contada e não para ser imposta por leis da grafia. A poética de Solano Trindade, como se pode perceber, torna-se uma convocação contra as diversas formas de opressão sofridas pelo afrodescendente. Além disso, expressa um convite para o ingresso a um outro universo de sentido, outra forma de apreender, significar e organizar o espaço/mundo. Em sua obra, busca o reconhecimento do negro e propõe um olhar novamente. Para alcançar este re-conhecimento explicita a diferença entre cada pessoa. Uma diferença expressa nas palavras de Fanon: “Por que não a tentativa simples de tocar o outro, de sentir o outro, de explicar o outro a mim mesmo?... Na conclusão deste estudo, quero que o mundo reconheça, comigo, a porta aberta de cada consciência” (1983: 177). Nas palavras acima se observa a despersonalização imposta pelo sistema colonial, fechado em seu narcisismo, reconhecendo apenas a sua imagem e negando o diferente. É preciso, no entanto, re-olhar o “outro” que se apresenta como o diferente, que mostra sua subjetividade. Ao olhar novamente o “outro”, pode-se reconhecer “a porta aberta de cada consciência”, a individualidade de cada agente social que detém um saber resultante de uma experiência. O poema aponta para a necessidade de olhar novamente a história desse povo tantas vezes ignorado e que tem muito a revelar. Por isso, em outro poema, “Canto da América”, o poeta pede que a América cante a verdadeira história, não a versão da supremacia de uns em detrimento dos outros, mas sim, o canto da liberdade. Desta forma, reconhece-se, na obra de Solano Trindade, a resistência às formas de marginalização, valorizando a voz negra e, ao mesmo tempo, identificando-se com os oprimidos, sejam negros ou brancos. Este aspecto da poesia de Trindade pode ser reconhecido no poema “Cantiga”, onde é possível verificar a necessidade de o negro identificar-se com a Negritude a fim de dar valor a si mesmo e à sua produção cultural. Pois, a negritude – como tomada de consciência da descriminação e a


160 busca de uma identidade negra - permite que o negro volte a ter orgulho do patrimônio africano que foi perdido no transporte para a América. Desta forma, no poema, ele assume com orgulho: “Negro bom que sou / que bom / Como noite sem lua sou / Negro bom! / ...que bom!”. O eu lírico sente-se feliz em ser negro e encontra o lado positivo dessa negritude, assumindo-se plenamente, como uma noite sem lua, totalmente escura, mas cuja presença ou ausência já não pode ser ignorada. No desejo de transmitir as mensagens escondidas, ignoradas pela mentalidade vigente, forma-se a alma de poeta social. Assim, é com orgulho que ele também assumirá: “Poeta e negro sou”. Num processo de pleno acolhimento de si mesmo, o eu lírico reconhece-se como poeta, mas como um poeta negro, que não tem vergonha de enunciar-se como tal. Há, porém,uma procura de não se fechar em si mesmo e, por isso, a voz no poema declara que qualquer cor serve para a sua obra poética, para o assumir-se como pessoa capaz de amar o outro independente da cor da pele. Assim, de forma prognóstica o eu lírico conta que num mundo de igualdade, a cor não terá importância, não diferenciará as pessoas e nele servirá, portanto, qualquer cor. E quando este tempo chegar: “Que bom! / ... que bom!” Há no poema um efeito admirável, pois Trindade aproveita-se dos valores fônicos, criando uma orquestração onomatopeica que traduz o som do batuque e simboliza também a intensidade do desejo do eu lírico em ver os homens unidos, ao mesmo tempo em que aponta para um fluxo vital de recuperação, recriação e reinterpretação de valores fundamentais para a afirmação da individualidade e da coletividade do afro-descendente. Desenham-se contornos mais coerentes com as verdadeiras raízes históricas e culturais do Brasil. O negro passa por um processo em que ele descobre a própria história perdida e, nesta história, logrou preservar, reelaborar e sustentar sua cultura e desdobrar a herança africana. Com isso, Trindade restabelece em suas poesias uma identidade humanizada. É necessário, desta forma, reconhecer a particularidade de cada cultura, pois, ela faz parte do processo de afirmação do ser humano como agente social no mundo. Desta forma, o poeta imprime ao longo de sua obra o desejo de um projeto integrador de todas as culturas, sem perder

de vista o reconhecimento da particularidade de assumir-se, como fica evidente no poema “Sou negro”. Nesse poema, ele se refere à História, mas do ponto de vista de quem recupera a escravidão como condição de vida e não através da visão do senhor de engenho. É preciso destacar, igualmente, o valor da oralidade na literatura trindadiana: “Contaram-me que meus avós vieram de Loanda/ como mercadoria de baixo preço”. É a herança africana que não se perdeu totalmente. O poeta, assim sendo, conta a história de seu povo, que também é sua: ele é negro, é descendente de africanos e herdeiro do som dos “tambores/ atabaques, gonguês e agogôs”. Todos estes instrumentos ligando o negro-escravo à sua terra origem, a África. O ritmo do tambor, ritmo de vida, torna mais estrondosa a voz de Trindade proporcionando um som forte, já que a obra do poeta deve alcançar outros ouvidos. O som dos instrumentos que ficam na alma do poeta atravessa o espaço, leva a mensagem de união entre os povos, o ritmo da fraternidade. Pode-se perceber, ainda, que o eu lírico relata sobre a exportação forçada de homens para serem escravos, vendidos como mercadoria. O trabalho do negro para enriquecimento do senhor novo também não é esquecido: “plantaram cana pra senhor de engenho novo”. Mas, apesar de toda exploração humana, apesar de distantes do país de origem, os negros fundaram o primeiro Maracatu, uma dança dramática afrobrasileira. O ritmo novo do povo negro resistiria em terra brasileira. No avô, o eu poético destaca o reconhecimento da não alienação do homem negro, refutando a ideia de escravos totalmente submissos e até felizes em servir. De certa forma, o estereótipo do pai João foi construído na tentativa de encobrir esta luta negra pela liberdade. Mas Trindade une a imagem do avô à imagem de Zumbi, referencial de conscientização e resistência. Sabe-se que a mulher negra e escrava, no período colonial, foi símbolo do mais baixo nível de poder e vontade própria. No entanto, a avó retratada pelo eu lírico também desmente esta visão de submissão.


161 Sua atuação na guerra dos Malês, obscurecida pela oficialidade vigente, é exemplar para se perceber o papel de mulher consciente, guerreira, altiva, sofrida, e que nem todas as mulheres negras foram mucamas passivas.

e querendo ou não, faço parte desta sociedade. O eu poético primeiramente olha para si próprio e é este olhar que permite a identificação com a cultura, com a etnia e, por fim, com o continente em que está inserido.

Com uma história de luta, de resistência, de exemplos a serem seguidos, na alma do eu lírico fica não a marca do escravo, para sempre escravo, mas elementos simbólicos de sua origem, de sua identidade como homem negro: “o samba, o batuque e o desejo de libertação”.

Pode-se verificar, no projeto de Trindade, a necessidade de aceitação da participação histórica de todas as culturas, ou seja, a luta pelo fim do maniqueismo branco/negro, num processo essencial para o reconhecimento do Ser Humano que existe em cada ser. Teve, no entanto, que passar pelo olhar europeu sobre as culturas africanas para redescobrir-se e, a partir daí, com voz poética, recusar ser um tipo, para ser negro e homem. O resultado deste processo de reconhecimento pode ser notado em seu poema “Negros”:

No poema “Sou Negro” é possível perceber como o eu lírico rejeita a idéia de um negro servil, mas destaca e deposita na imagem dos avós o empenho em conquistar a humanização, a identidade apagada pela história, o desejo de serem livres. Através do conhecimento do passado o negro conhece a si mesmo e a sua cultura e, por isso, a cor da pele deixa de ser motivo de desonra e ele pode assumir com “Orgulho”: Sou filho de escravo Tronco senzala chicote gritos choros gemidos Sou filho de escravo (Trindade 1961: 43) Bernd afirma que a marca registrada da poesia de Solano Trindade é a “obsessão da reconstituição histórica” (1988: 89). Esta reconstituição do passado negro do ponto de vista de quem sofreu os efeitos da História tornou-se uma importante ferramenta para a sua produção, ao mesmo tempo que trazia o propósito de, ressignificando a História, valorizar aqueles a quem foram impostas as mais duras experiências. Através da reconstituição do passado, este homem passaria a ter um “espelho” no qual ele poderia reconhecer a sua cultura, assumindo um orgulho pelo passado africano que se perdeu com a chegada na América. A história de escravidão, desta forma, não o envergonha mais, ao contrário servelhe como arsenal de experiências e ele aprende, afinal, a se olhar como sujeito e reconstrói-se como homem. Assim, pode-se entender o reconhecimento: sou filho de escravo, fui violentado humana e historicamente, mas a humanização resistiu em mim

Negros que escravizam e vendem negro na África não são meus irmãos negros senhores na América a serviço do capital não são meus irmãos negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos Só os negros oprimidos escravizados em luta pela liberdade são meus irmãos Para estes tenho um poema grande como o Nilo. (Trindade 1981: 15) A escolha do tema negro, além de encontrar-se em consonância com os ideais que o poeta defendeu, é um dos exemplos mais explícitos do processo de desumanização que se delineia ao longo da história oficial. Na primeira estrofe do poema, com uma economia de recursos irretocável, o eu lírico traz para a sua poesia o passado. Assim, os dois primeiros versos dão conta de três séculos de escravidão na América. Há que se destacar que os dois verbos que indicam esse processo de exploração da força física do outro – “escravizam” e “vendem” – apontam como sujeitos os próprios negros. Fica evidente já nesta primeira estrofe a lucidez e o olhar isento do poeta quando identifica alguns negros com o senhor de escravos; negros servindo um sistema que, ao escravizar,


162 desumanizou e transformou o homem negro em mercadoria a ser vendida e explorada. Na segunda estrofe há um passado mais recente. O colonialismo cede lugar a outro tipo de exploração humana: o capitalismo. Os agentes são os mesmos: negros. Não se enfoca, porém, o negro operário, mas sim “negros senhores na América”. A crítica que se pode abstrair é que os próprios negros serviram a mercantilização do homem, favorecendo a exploração do trabalho humano a preços baixos. A desumanidade do sistema colonial é substituída pela desumanidade do sistema capitalista. Na estrofe que se segue, o poeta sai do particular para alcançar uma visão universal da exploração e da opressão sócio-política do trabalhador. Através desta estrofe, há uma ligação de indivíduos oprimidos em qualquer parte do mundo. Os opressores novamente são alguns negros. Ao longo das três primeiras estrofes, o poeta desmistifica a visão do negro vitimizado, identificando o negro ao senhor, ao capitalista e ao opressor. No entanto, ao final destas estrofes, a voz do eu lírico negará esses negros: “Não são meus irmãos”. É o gesto de recusa que se repete diante dos negros que servem às diversas formas de exploração. Tem-se, pois, ao final destas estrofes uma expressão direta e indignada. O projeto de Solano Trindade consiste no amor incondicional pelo povo e pela vida, e na confiança no progresso da humanidade. Assim sendo, há no poeta uma íntima adesão aos problemas próprios de sua época, criticando a desumanidade da vida capitalista. Em “Negros”, o poeta condena algumas atitudes individualistas que impedem o ser humano de se identificar consigo mesmo e com os outros. O poema é ordenado de modo a revelar a relação entre opressores e oprimidos, como consequência óbvia da superioridade de força de uns sobre os outros. No entanto, faz-se necessário replicar com uma indignação genuína: “Não são meus irmãos”. O eu lírico propõe uma ruptura com todos os negros que operam no nível da opressão humana, separando os negros (senhor, capitalista, explorador), dos negros (escravo, operário, explorado).

A quarta estrofe é iniciada com o advérbio “só”, com a finalidade de delimitar a relação com os homens negros do mundo, mas moldando esta relação de acordo com as as convicções marxistas do eu lírico: “só os negros oprimidos/ escravizados” que, como ele compartilham o mesmo ideal de liberdade, são seus irmãos. Esta identificação pode ser notada no uso do artigo “o” com um valor afetivo, aproximando o eu lírico destes negros que representam seu projeto de irmandade. Este desejo de que todos os homens sejam livres fica expresso no terceiro verso da quarta estrofe: “em luta pela liberdade”. A liberdade que o poeta expressa vai além da condição de não ser mais escravo no sistema colonial. A liberdade expressa no poema é o uso dos direitos de homem livre e, principalmente, a condição de igualdade. No último verso da quarta estrofe, porém, a ideia de recusa expressa no advérbio “não” desaparece e o eu lírico reconhece os oprimidos e escravizados: “São meus irmãos”. Esta identificação com o oprimido constitui uma das bases temáticas de Trindade, afastando-se momentaneamente do foco de afirmação do “ser negro”, a fim de buscar matizes universais. A opressão, desta forma, é o denominador comum de luta para os homens, brancos ou negros. E para estes homens, ligados ao eu lírico por um laço de irmandade, há um presente, que é também uma arma, um poema grande como o Nilo, rio extremamente simbólico para os africanos. Ao longo do poema, desmistifica-se o estereótipo sociológico. Mussa define o estereótipo sociológico como a observação do comportamento do negro em relação ao branco: o negro bom e o negro ruim (1989: 24). A relação é excludente, ou o negro é fiel, submisso, ou é selvagem, fujão, vingativo, perigoso para a sociedade. O estereótipo sociológico se configura com uma grande violência, pois retira do negro a humanidade, marmorizando-o em uma pedra de apenas uma dimensão, (ou bondade, ou maldade) esquecendo que o ser humano é um ser contraditório, complexo, e que traz em si ambos sentimentos. É esta a verdadeira dialética da realidade humana que o poeta apresenta no poema “Negros”. A negação, (não são meus irmãos), encontrada ao longo do poema, torna-se essencial para a compreensão do processo de humanização: o


163 espírito negador transcende a indiferença narcísica. Ao negar, o eu lírico, que se identifica com o excluído, impõe a identidade destes marginalizados, desestruturando a forma fixa de ser visto. Através da leitura do poema fica patente que o negro não foi apenas vítima e que serviu ao opressor. Assim fazendo, o poeta descongela as estereotipias em que foi plasmada a figura do negro. Como bem expressa Lacan, o “outro é uma matriz de dupla entrada” (Bhabha 1998: 87). Ou seja, o ser humano é ambíguo, antagônico em seus desejos e, por isso, jamais homogeneizado, fixo. A leitura do poema revela, pois, uma crítica à obsessiva reconstituição de uma identidade supostamente estável, fixa, imobilizada como uma fotografia. A dinamicidade complexa é que deveria constituir o jogo necessário para uma distinção entre alteridade e diferença, uma vez que a cultura póscolonial supõe extirpar as raízes únicas e deixar aflorarem as estratégias alternativas de representação para articular as diferenças históricas e os valores em construção. Através da explicitação da diferença entre os negros (irmãos e não-irmãos), recupera-se uma ordem identitária de representações ethoetnoculturais que expressam uma matriz contaminada pelo processo de assimilação colonial, mas possibilitando a afirmação da alteridade na diferença, cujo paradigma foi aberto por Frantz Fanon, Aimé Césaire e Léopold Senghor, como resposta identitária étnica ao excludente universalismo colonialista. Através do poema “Negros”, o poeta evidencia que é necessário visualizar a diferença, a identidade heterogênica, a fim de perceber o entre-lugar da subjetividade pós-colonial, em que se evidencia a permanência do outro, a falta, a perda, a não

coincidência dos sujeitos. Ao apresentar o negro em sua diferença, o poeta explicita o fato de o próprio negro optar por sua subjetividade, ou seja, ele escolhe servir ao opressor ou unir-se ao negro oprimido. Essa opção é o caminho e o meio para que o Negro se manifeste como um ser humanizado, desvelando-se e opondo suas várias faces diante da imagem fixa, estereotipada. No poema o eu lírico rejeita o olhar maniqueísta presente nas estereotipias na qual o negro era a vítima, ou o negro bestial, o selvagem fadado à extinção. Desta maneira o projeto poético de Solano Trindade se concretiza, ou seja, ele concede a sua ARMA poética um caráter humanizador. ----Obras citadas ARAÚJO, Ari. 1986. “Por um pensamento negro-brasileiro; a reversibilidade do espelho”. Estudos afro-asiáticos (Rio de Janeiro) 12 (ago.): 63-79. BERND, Zilá. 1988. Introdução à Literatura negra. São Paulo: Brasiliense. BHABHA, Homi. 1998. O local da cultura. Tradução de Myrian Ávila et al. Belo Horizonte: Editora da UFMG. FANON, Franz. 1983. Pele negra, máscara branca. Tradução de Adriano Caldas. Rio de Janeiro: Fator. FONSECA, Maria Nazareth Soares, org. 2000. Brasil afrobrasileiro. Belo Horizonte: Autêntica. GIACOMINI, Sônia Maria. 1988. Mulher e escrava: uma introdução histórica ao estudo da mulher negra no Brasil. Petrópolis: Vozes. MUSSA, Alberto Baeta Neves. 1989. “Estereótipos de negro na literatura brasileira: sistema e motivação histórica”. Estudos Afro-asiáticos (Rio de Janeiro) 16 (jan.-jun.): 70-87. TRINDADE, Solano. 1944. Poemas de uma vida simples. Rio de Janeiro: [s.e.]. ——. 1961. Cantares ao meu povo. São Paulo: Fulgor, 1961. ——. 1988. Tem gente com fome e outros poemas. Rio de Janeiro: Departamento Geral da Imprensa Oficial, 1988. Fontes: Revista de Estudos Literários Terra roxa e outras terras. volume 17-A . Londrina; UEL, dez. 2009


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A bica do maldizente Que vive de reprovar; É igual à boca da noite, Que ninguém pode fechar. Afirmação que interessa Tanto ao fraco quanto ao forte: Quem açambarca a fortuna, Desconhece a lei da morte. Ante a Lei de Causa e Efeito Que nos libera ou detém, Há muito bem que faz mal, Muito mal produz o Bem. A pessoa ponderada Aceita o dever, age e pensa; Não exagera perguntas, Falar demais é doença. As minhas trovas de agora; Não guardam nada de novo, São pensamentos dos sábios; Com pensamentos do povo. Até que haja na Terra Limpeza de alma segura, Todos nós carregaremos Um pouco de loucura. Computador é progresso, Facilidade de ação, Prodígio da inteligência, Mas precisa direção. Convidado para a festa Não se adianta, nem demora, Nunca surge tarde ou cedo,

Dará presença na hora. Da multidão dos enfermos Que sempre busco rever O doente mais doente É o que não sabe sofrer. Diz o mundo que a nobreza Nasce de berço opulento, Mas qualquer pessoa é nobre, Conforme o procedimento. Em questões de livre-arbítrio, Discernimento é preciso; Todos temos liberdade, O que nos falta é juízo. Eis uma dupla correta Que na vida é sempre clara: O sofrimento nos une, A opinião nos separa. Estes versos me nasceram Na intimidade do peito, Se alguém lhes der atenção; Fico grato e satisfeito. Existem casos ocultos Nos corações intranqüilos Que, a benefício dos outros, Não se deve descobri-los. Existem homens famosos, E muitos deles ateus, Esquecidos de que moram No grande Mundo de Deus. Fenômeno admirável


165 Para os crentes e os ateus; Notar em cada pessoa A paciência de Deus. Não te irrites, nem fraquejes; Quando mais te desconfortas, A tua vida é uma casa Com saída de cem portas. Não te revoltes se levas Uma existência sofrida, A provação, quando chega, Age em defesa da vida. No corre-corre dos homens Há quadros fenomenais. Anota: Quem sabe menos; É fala muito mais. No que fazer e fizeste Registra em paz o que tens; Há muitos bens que são males, Muitos males que são bens

Age fora do juízo. Sem sofrimento em nós mesmos, Não se sabe o que se é, Não se sabe da ingenuidade Nem se sabe se tem fé. Silêncio é um amigo certo, Guardando virtudes raras, No entanto, a palavra livre, Às vezes, tem muitas caras. Sociedade é um jardim De expressão risonha e bela; Entretanto, a convivência Exige muita cautela. Vinha do enterro do avô, Mas jogou na loteria; Ganhando cem mil reais, Antônio chorava e ria.

Cornélio Pires (1884 – 1958)

Observando a mim mesmo, Anoto em linhas gerais; Os nossos irmãos mais loucos Estão fora de hospitais.

Cornélio Pires (Tietê, 13 de julho de 1884 — São Paulo, 17 de fevereiro de 1958) foi um jornalista, escritor, folclorista e espírita brasileiro. Foi um importante etnógrafo da cultura caipira e do dialeto caipira.

O orgulho é uma enfermidade Na pessoa o que se aferra, Doença que a vida cura Usando emplastros de terra.

Cornélio Pires nasceu na cidade de Tietê, Estado de São Paulo, no dia 13 de julho de 1884, e a sua desencarnação aconteceu na cidade de S. Paulo, no dia 17 de fevereiro de 1958.

Provérbio antigo que achei, Entre nobres companheiros: "O avarento passa fome Para luxo dos herdeiros ".

Homem de personalidade inconfundível, tornou-se figura popular e de bastante destaque em todo o Brasil, graças ao trabalho, por ele encetado, de viajar pelas cidades do Interior do Estado de S. Paulo e outros Estados, estreando na condição de caipira humorista.

Quem quiser auxiliar De qualquer modo auxilia; Quem não quer, manda fazer Ou deixa para outro dia. Quem quiser saber o início Das grandes obras do Bem, Procure ajudar aos outros, Nem fale mal de ninguém.

Em 1910, Cornélio Pires, apresentou no Colégio Mackenzie hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, um espetáculo que reuniu catireiros, cururueiros, e duplas de cantadores do interior. O Colégio Mackenzie foi fundado e sempre mantido pela Igreja Presbiteriana, à qual Cornélio Pires pertencia.

Sabedoria só age No que for justo e preciso; Mas a Ciência, por vezes,

Em sua juventude aspirava participar de um concurso de admissão numa Faculdade de Farmácia. Animado desse propósito viajou de Tietê


166 para S. Paulo, a fim de se inscrever como candidato a um desses concursos, porém, apesar do seu desempenho não logrou êxito nesse seu intento. Ambicionando cursar a Faculdade de Farmácia, deslocou-se de Tietê para a cidade de São Paulo, a fim de prestar concurso de admissão. Não teve sucesso em seu intento. Tomou então a deliberação de dedicar-se ao jornalismo, passando a trabalhar na redação do jornal O Comércio de São Paulo, em cujo cargo desenvolveu um aprendizado bastante estafante. Posteriormente passou a exercer atividades nos jornais O São Paulo e O Estado de São Paulo, tradicional órgão da imprensa paulista, onde desempenhou a função de revisor e, finalmente, no ano de 1914, passou a dar a sua contribuição ao órgão O Pirralho. Numerosos escritores teceram comentários sobre a personalidade de Cornélio Pires e, para ilustração, passemos a citar Joffre Martins Veiga, que em seu trabalho A Vida Pitoresca de Cornélio Pires, escreveu " Ninguém amou tanto a sua gente como Cornélio Pires; ninguém se preocupou tanto com seus semelhantes como esse homem, que foi, antes de tudo, um Bom". O famosos poeta Martins Fontes, por sua vez, escrevendo sobre ele, afirmou: "é um bandeirante puro, um artista incansável, enobrecedor da Pátria e enriquecedor da língua". Admirado também pelo grande jornalista Amadeu Amaral, este deu-lhe a sugestão de tornasse um dos maiores divulgadores do folclore brasileiro. Pelos idos de 1910, Cornélio Pires lançou o livro Musa Caipira, obra que foi largamente saudada pela crítica, graças ao seu conteúdo tipicamente brasileiro. Sílvio Romero tornou-se um dos seus mais salientes críticos, comentando da seguinte forma o lançamento dessa obra: " Apreciei imensamente o chiste, a cor local, a graça, a espontaneidade de suas produções que, além do seu valor intrínseco, são um ótimo documento para o estudo dos brasileirismos da nossa linguagem". Foi autor de mais de vinte livros, nos quais procurou registrar o vocabulário, as músicas, os termos e expressões usadas pelos caipiras. No livro "Conversas ao Pé do Fogo", Cornélio Pires faz uma descrição detalhada dos diversos tipos de caipiras e,

ainda no mesmo livro, ele publica o seu "Dicionário do Caipira". Na obra "Sambas e Cateretês" recolhe inúmeras letras de composições populares, muitas das quais hoje teriam caído no esquecimento se não tivessem sido registradas nesse livro. A importância de sua pesquisa começa a ser reconhecida nos meios acadêmicos no uso e nas citações que de sua obra faz Antonio Candido, professor na Universidade de São Paulo, o nosso maior estudioso da sociedade e da cultura caipira, especialmente no livro Os Parceiros do Rio Bonito. Foi o primeiro a conseguir que a indústria fonográfica brasileira lançasse, em 1928, em discos de 78 Rpm, a música caipira. Segundo José de Souza Martins, Cornélio Pires foi o criador da música sertaneja, mediante a adaptação da música caipira ao formato fonográfico e à natureza do espetáculo circense, já que a música caipira é originalmente música litúrgica do catolicismo popular, presente nas folias do Divino, no cateretê e na catira (dança ritual indígena, durante muito tempo vedada às mulheres, catolicizada no século XVI pelos padres jesuítas), no cururu (dança indígena que os missionários transformaram na dança de Santa Cruz, ainda hoje dançada no terreiro da igreja da Aldeia de Carapicuíba, em São Paulo, por descendentes dos antigos índios aldeados, nos primeiros dias de maio, na Festa da Santa Cruz, a mais caipira das festas rurais de São Paulo). A criação de Cornélio Pires permitiu à nascente música caipira comercial, que chegou aos discos 78rpm libertar-se da antiga música caipira original, ganhar vida própria e diversificar seu estilo. Atualmente a música caipira é chamada de música raiz para se diferenciar da música sertaneja. A música caipira dos discos 78rpm nasce, no final da década de 1920, como o último episódio de afirmação de uma identidade paulista após a abolição da escravatura, em 1888, que teve seu primeiro grande episódio na pintura, especialmente a do piracicabano Almeida Júnior, expressa em obras como "Caipira picando fumo", "Amolação interrompida", dentre outras. A ironia e a crítica social da música sertaneja originalmente proposta por Cornélio Pires, situa-se na formação do nosso pensamento conservador, que se difundiu como crítica da modernidade urbana. O melhor exemplo disso é a "Moda do bonde camarão", uma das primeiras músicas sertanejas e uma ferina ironia sobre o mundo moderno.


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No início do presente século, Cornélio Pires começou a freqüentar a Igreja Presbiteriana, entretanto não conseguiu conciliar os ensinamentos dessa religião com o seu modo de pensar. Ele não admitia a existência das penas eternas e de um Deus que desse preferência aos seguidores de determinadas religiões. O demasiado apego aos formalismos da letra, na interpretação dos textos evangélicos fez com que ele quase descambasse para o materialismo. Nessa época ele desconhecia o que era Espiritismo, entretanto, durante as suas viagens ao Interior, aconteceram com ele vários fenômenos mediúnicos, inclusive algumas comunicações do Espírito Emilio de Menezes, as quais muito o impressionaram. Como conseqüência ele passou a estudar obras espíritas principalmente as de Allan Kardec, Leon Denis, Albert de Rochas e alguns livros psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier. Dali por diante integrou-se decididamente no Espiritismo, interessando-se muito pelos fenômenos de efeitos físicos. Nos anos de 1944 a 1947 ele escreveu os livros Coisas do Outro Mundo e Onde estás, ó morte?, tendo desencarnado quando escrevia Coletânea Espírita. De sua vasta bibliografia destacamos: Musa Caipira, Versos Velhos, Cenas e Paisagens de minha Terra, Monturo, Quem conta um conto, Conversas ao Pé do Fogo, Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho - O Queima Campo, Tragédia Cabocla, Patacoadas, Seleta Caipira, Almanaque do Saci, Mixórdias, Meu Samburá, Sambas e Cateretês, Tarrafas, Chorando e Rindo, De Roupa Nova, Só Rindo, Ta no Bocó, Quem conta um Conto e outros Contos..., Enciclopédia de anedotas e Curiosidades, além dos dois livros espíritas acima citados. Num de dos seus escritos sobre o Espiritismo, dizia ele: " O Espiritismo, mais cedo ou mais tarde, fará aos católicos romanos, aos protestantes e aos adeptos de outros credos, a caridade de robustecerlhes a Fé, com os fatos que provam a imortalidade da Alma, que se transforma em Espírito ao deixar o invólucro material" e mais adiante " O Espiritismo nos proporciona a FÉ RACIOCINADA, nos arrebata ao jugo do dogma e nos ensina a compreender DEUS como Ele é".

Pouco antes de sua morte, Cornélio Pires, demonstrando que havia assimilado o preceito de Jesus Cristo: " Amai ao próximo como a ti mesmo", voltou para a cidade do Tietê e ali comprou uma chácara, onde fundou a " Granja de Jesus", lar destinado a crianças desamparadas. Infelizmente ele não chegou a ver a conclusão da obra. Cornélio Pires chegou a organizar o " Teatro Ambulante Cornélio Pires" perambulando de cidade em cidade, sendo aplaudido por toda a população brasileira por onde passava. Esse intento foi concretizado após ter abandonado a carreira jornalística. Causos sobre Cornélio Cornélio foi descendente de Bandeirantes, era filho de Raimundo Pires de Campos e de Ana Joaquina de Campos Pinto, (D. Nicota), nasceu antes do tempo, pois Tia Nicota, grávida de Cornélio, escorregou em uma casca de laranja, caiu sentada e passou a sentir fortes dores, acabou indo para a cama por volta das 11 horas. Quando Tio Raimundo chegou da roça, teve que cortar o cordão umbilical do recém nascido. Como vê, nascido antes do tempo e ainda com o nome trocado. E o próprio escritor diz: "Meu nome tem a sua historia". Uma de minhas tias maternas andava de namoro com um parente chamado Rogério Daunt, e foi ela que me levou a Pia Batismal. Ao me batizar, Padre Gaudêncio de Campos, que era nosso parente, e nesta época já bem velho e muito surdo, pergunta: "Como se chama o inocente?". Ao que responde sua Tia, "Rogério". E o Padre – "Eu te batizo, Cornélio...". E Cornélio crescia, porém desde cedo revelou-se um chorão de primeira, por qualquer motivo soltava as lágrimas. Certa feita, sua mãe o levou para visitar alguns parentes, e em meio a conversa com os adultos, ele começou a chorar sem nenhuma razão. A dona da casa, muito preocupada, desdobrou-se para acalmá-lo dizendo: -Que é isso Cornélio..., o que você tem? – Perguntou ela com ternura, alisoulhe os cabelos loiros e deu-lhe uma moeda de alguns reis. – Tá, tome este presentinho pra calar o bico. Coitadinho! O menino parou de chorar, limpou as lágrimas com as costas das mãos e exclamou. – Ah! A senhora pensa que eu choro por dinheiro? E


168 bem rápido, agarrou o níquel, enfiou no bolso da calça de brim e iniciou outra choradeira. De outra feita, um outro tio, muito zombeteiro, sempre que o encontrava, dava-lhe amáveis e doidos piparotes na cabeça. A brincadeira tornou-se monótona pela repetição. O menino não gostava dos gracejos, porém, nunca se queixou aos pais. D. Nicota, contudo, soube dos que se passava e recomendou ao filho, entre divertida e indignada. – Quando ele bater outra vez, você responda que não foi batizado por Cabeçudo. Certo domingo, o garoto se dirigia ao jardim, quando se encontrou com o parente e este repetiu o gesto e usou da mesma expressão. Cornélio, pensando no que sua mãe lhe disse, foi logo dizendo todo atrapalhado. – "Não fui BATIZUDO por CABECADO! E saiu de cara amarrada entre risos dos presentes. Outra passagem, ocorreu em uma das tentativas de alfabetização de Cornélio. Seus pais já cansados em tentativas frustradas, conheceram um grande sábio dinamarquês, Alexandre Hummel, um professor ideal para o filho, pensavam os pais. Hummel era pobre, solteiro, sóbrio, vivia em hotéis quando podia, altivo de caráter. Vivia baixando em fazendas, lecionando quase que só a troca de cama e mesa. Ensinava tudo o que lhe pediam e dominava muito bem o português. Com a morte de Ruy Barbosa, o jornal "O Tietê" encomendou-lhe uma reportagem. O sábio Dinamarquês, sentou-se a mesa da redação e redigiu um bonito artigo sobre Ruy Barbosa, sem consultar livros ou biografias. Hummel era dono de uma memória prodigiosa, dominador de vários idiomas, tinha um bom senso de humor, porém não era humorista, no sentido popular. Isto não lhe deixava entender ou tolerar um menino gordo, muito feio, cheio de vontades. Talvez no seu íntimo, vendo a desatenção do caipirinha, às vezes o tachasse de burro. Mas não foi o que disse um dia irritado. – "CORRRNELIO PIRRES", você e muito "INTELICHENTE, mas e muito "IGNORRANTE"!. Já crescido, por volta de 1907, conhecido como Tibúrcio, este apelido, ele ganhou na passagem de um circo pela cidade, que possuía um orangotango chamado de Tibúrcio, seus amigos achando alguma semelhança, passaram então a chamá-lo de Tibúrcio. Cornélio foi trabalhar, a convite de um tal Dr.Vieira, na redação do jornal "O Movimento", semanário político que circulava na cidade de São Manoel, em S.P. Certa noite, alguém lançou um

concurso de feiúra e divulgou pela cidade. Poucas semanas depois, o redator do jornal de Dr. Vieira, anunciou que, Cornélio Pires, ele mesmo, ganhara o concurso – por unanimidade! - O tieteense sempre brincalhão, achou graça e cooperou no certame para sua melhor performance. No dia da entrega do premio, lá estava o vencedor pronto para receber seu premio: "Uma corda para se enforcar"! Esta outra ocorreu pelo ano de 1933, já beirando os 49 anos, com a afamada superstição do numero 13. Um grande amigo das noitadas de Cornélio o encontrou sentado em um banco na Praça do Patriarca muito pensativo. Começaram a conversar e em pouco tempo estava formada a tradicional roda em volta dos dois. Alguém fez referências ao acaso de certas pessoas serem perseguidas pelo numero 13. Cornélio com aquele jeitão, achando sempre um "a propósito" para todos os casos, chamou a atenção da roda. – Pois saibam vocês que tenho grande predileção pelo número 13, e sou por ele fartamente retribuído. E Cornélio começou sua descritiva: Cornélio Pires – 13 letras. Vi a luz em Julho – 13 letras. Nasci no dia treze – 13 letras. Século passado – 13 letras. Eu sou paulista – 13 letras. Sou brasileiro – 13 letras. Nasci no Brasil – 13 letras. Sul de São Paulo – 13 letras. Cidade de Tietê – 13 letras. D.Anna Joaquina (minha mãe) – 13 letras. Raimundo Pires (meu pai) – 13 letras. Poeta e caipira – 13 letras. Poeta e "conteur" 13 letras. Conferencista – 13 letras. Escrevo livros – 13 letras. Sou muito pobre – 13 letras. Sou muito feliz – 13 letras. Eu sou solteiro – 13 letras. Amei treze "emes" (o M e a 13 letra do alfabeto) – 13 letras. E o escritor regionalista concluiu: Não cito os nomes das minhas 13 namoradas, porque, vocês compreendem... E com esta, até logo. – Para aonde vais? - Vou tomar Bonde! – E note uma coisa, que sua pergunta e minha resposta, ambas tem 13 letras! Até doente Cornélio ainda mostrava sua veia de humorista. Esta aconteceu no hospital que Cornélio estava internado, em São Paulo. Ele recebia visitas de parentes, em seu quarto, quando entrou uma enfermeira com sua medicação diária. Era composta de comprimidos e de uma injeção. Tomou os comprimidos enquanto a enfermeira preparava a seringa. Virou-se ela e perguntou. – Sr. Cornélio, aonde quer que aplique esta injeção? Cornélio olhou para os braços já todos picados, olhou para cima,


169 para os lados e sem cerimônia disse: - Pode aplicar ali na parede mesmo!

tinha 74 anos incompletos. Foi enterrado de pijamas e descalço, conforme sua vontade.

Algum tempo depois, em 17 de Fevereiro de 1958, as 2:30 h , falecia Cornélio Pires no Hospital das Clínicas de São Paulo, vítima de câncer na laringe. Seus restos mortais foram trasladados no mesmo dia para sua cidade natal e sepultados no cemitério local. Faleceu solteiro convicto e em plena lucidez,

Fontes: http://www.widesoft.com.br/users/pcastro4/biogrcp.htm http://www.espiritismogi.com.br/biografias/cornelio.htm http://pt.wikipedia.org/ PIRES, Cornélio. "Alma Do Povo" – Médium: Francisco Cândido Xavier, 1995.

Machado de Assis Um homem célebre — AH! o SENHOR é que é o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: — Desculpe meu modo, mas. .. é mesmo o senhor?

a saracotear a polca da moda. Da moda, tinha sido publicada vinte dias antes, e já não havia recanto da cidade em que não fosse conhecida. Ia chegando à consagração do assobio e da cantarola noturna.

Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano, enxugando a testa com o lenço, e ia a chegar à janela, quando a moça o fez parar. Não era baile; apenas um sarau íntimo, pouca gente, vinte pessoas ao todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875... Boa e patusca viúva! Amava o riso e a folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a última vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca viúva! Com que alma e diligência arranjou ali umas danças, logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez minutos, a viúva correu novamente ao Pestana para um obséquio mui particular.

Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira à mesa de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rapé, cabelo negro, longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo Pestana compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do piano, acabada a polca. Daí a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu aborrecido e vexado. Nem assim as duas moças lhe pouparam finezas, tais e tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as cada vez mais enfadado, até que, alegando dor de cabeça, pediu licença para sair. Nem elas, nem a dona da casa, ninguém logrou retê-lo. Ofereceram-lhe remédios caseiros, algum repouso, não aceitou nada, teimou em sair e saiu.

— Diga, minha senhora. — É que nos toque agora aquela sua polca Não Bula Comigo, Nhonhô. Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos, derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram às damas, e os pares entraram

Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; só afrouxou, depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas aí mesmo esperava-o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta, à direita, a poucos metros de distância, saíam as notas da composição do dia, sopradas em clarineta. Dançava-se. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar caminho, mas dispôsse a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se perdendo, ao longe, e o nosso homem entrou na Rua do Aterrado, onde morava. Já


170 perto de casa, viu vir dois homens: um deles, passando rentezinho com o Pestana, começou a assobiar a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na música, e aí foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da peça, desesperado, corria a meter-se em casa. Em casa, respirou. Casa velha. escada velha. um preto velho que o servia, e que veio saber se ele queria cear. — Não quero nada, bradou o Pestana: faça-me café e vá dormir. Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o preto acendeu o gás da sala, Pestana sorriu e, dentro d'alma, cumprimentou uns dez retratos que pendiam da parede. Um só era a óleo, o de um padre, que o educara, que lhe ensinara latim e música, e que, segundo os ociosos, era o próprio pai do Pestana. Certo é que lhe deixou em herança aquela casa velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns motetes o padre, era doudo por música, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no moço, ou também lhe transmitiu no sangue, se é que tinham razão as bocas vadias, cousa de que se não ocupa a minha história, como ides ver. Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns, gravados, outros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven. Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a peça, depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o à meia-noite e à segunda xícara de café. Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar à janela e olhar para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando ia ao piano, e, de pé, dava uns golpes soltos no teclado,

como se procurasse algum pensamento mas o pensamento não aparecia e ele voltava a encostarse à janela. As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no céu à espera de alguém que as fosse descolar; tempo viria em que o céu tinha de ficar vazio, mas então a terra seria uma constelação de partituras. Nenhuma imagem, desvario ou reflexão trazia uma lembrança qualquer de Sinhazinha Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia, pensando nele, famoso autor de tantas polcas amadas. Talvez a idéia conjugal tirou à moça alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta não cuidava nem da polca nem da moça, mas das velhas obras clássicas, interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso ao diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais? Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de idéia: ele corria ao piano para aventá-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em vão: a idéia esvaía-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart: mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se estar dormindo. Se acaso uma idéia aparecia, definida e bela, era eco apenas de alguma peça alheia, que a memória repetia, e que ele supunha inventar. Então, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar carroça: mas daí a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imitá-lo ao piano. Duas, três, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado, desanimado, morto; tinha que dar lições no dia seguinte. Pouco dormiu; acordou às sete horas. Vestiu-se e almoçou. — Meu senhor quer a bengala ou o chapéu-de-sol? perguntou o preto, segundo as ordens que tinha. porque as distrações do senhor eram freqüentes. — A bengala. — Mas parece que hoje chove. — Chove, repetiu Pestana maquinalmente. — Parece que sim, senhor, o céu está meio escuro. Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente: — Espera aí.


171

Correu à sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mãos no teclado. Começou a tocar alguma cousa própria, uma inspiração real e pronta, uma polca, uma polca buliçosa, como dizem os anúncios. Nenhuma repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa compunha e bailava a um tempo. Pestana esquecera as discípulas, esquecera o preto, que o esperava com a bengala e o guarda-chuva, esquecera até os retratos que pendiam gravemente da parede. Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene. Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos, quando voltou para jantar: mas já a cantarolava, andando, na rua. Gostou dela; na composição recente e inédita circulava o sangue da paternidade e da vocação. Dois dias depois, foi levála ao editor das outras polcas suas, que andariam já por umas trinta. O editor achou-a linda. — Vai fazer grande efeito. Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis dar-lhe um título poético, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabeça, e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade, ou por alusão a algum sucesso do dia, — ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois: A Lei de 28 de Setembro, ou Candongas Não Fazem Festa. — Mas que quer dizer Candongas Não Fazem Festa? perguntou o autor. — Não quer dizer nada, mas populariza-se logo. Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações e guardou a polca, mas não tardou que compusesse outra, e a comichão da publicidade levou-o a imprimir as duas, com os títulos que ao editor parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante. Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao título, o editor acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele lhe

apresentasse, título de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora Dona, Guarde o Seu Balaio. — E para a vez seguinte, acrescentou, já trago outro de cor. Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações compositor bastava à procura; mas a obra em si mesma era adequada ao gênero, original, convidava a dançá-la e decorava-se depressa. Em oito dias, estava célebre. Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da composição, gostava de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvi-la tocar em alguma casa, e zangava-se quando não a tocavam bem. Desde logo, as orquestras de teatro a executaram, e ele lá foi a um deles. Não desgostou também de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia a Rua do Aterrado. Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e mais depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de remorsos. Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera consolar tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fácil e graciosa. E aí voltaram as náuseas de si mesmo, o ódio a quem lhe pedia a nova polca da moda, e juntamente o esforço de compor alguma cousa ao sabor clássico, uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann. Vão estudo, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado. Noites e noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo de que a vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse mão da música fácil... — As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo, disse ele um dia, de madrugada, ao deitar-se. Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pestana, à própria sala dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha mais que o tempo de as compor, imprimi-las depois, gostá-las alguns dias, aborrecê-las, e tornar às velhas fontes, donde lhe não manava nada. Nessa alternativa viveu até casar, e depois de casar. — Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivão que lhe deu aquela notícia. — Vai casar com uma viúva. — Velha?


172 — Vinte e sete anos. — Bonita? — Não, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque a ouviu cantar na última festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi também que ela possui outra prenda, que não é rara, mas vale menos: está tísica. Os escrivães não deviam ter espírito, — mau espírito, quero dizer. A sobrinha deste sentiu no fim um pingo de bálsamo, que lhe curou a dentadinha da inveja. Era tudo verdade. Pestana casou daí a dias com uma viúva de vinte e sete anos, boa cantora e tísica. Recebeu-a como a esposa espiritual do seu gênio. O celibato era, sem dúvida, a causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo, artisticamente considerava-se um arruador de horas mortas; tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim, é que ia engendrar uma família de obras sérias, profundas, inspiradas e trabalhadas. Essa esperança abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou à primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, dá-me o que não achei na solidão das noites, nem no tumulto dos dias. Desde logo, para comemorar o consórcio, teve idéia de compor um noturno. Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um princípio de inspiração; não querendo dizer nada à mulher, antes de pronto, trabalhava às escondidas; cousa difícil porque Maria, que amava igualmente a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na sala dos retratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com três artistas, amigos do Pestana. Um domingo, porém, não se pôde ter o marido, e chamou a mulher para tocar um trecho do noturno; não lhe disse o que era nem de quem era. De repente, parando, interrogou-a com os olhos. — Acaba, disse Maria, não é Chopin? Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e ergueu-se. Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum esforço de memória, executou a peça de Chopin. A idéia, o motivo eram os mesmos; Pestana achara-os em algum daqueles becos escuros da memória, velha cidade de traições. Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiuse para o lado da ponte, caminho de S. Cristóvão.

— Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas. . . Viva a polca! Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como para um doudo. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre a ambição e a vocação. . . Passou o velho matadouro; ao chegar à porteira da estrada de ferro, teve idéia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o esmagasse. O guarda fê-lo recuar. Voltou a si e tornou a casa. Poucos dias depois, — uma clara e fresca manhã de maio de 1876, — eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um frêmito particular e conhecido. Ergueu-se devagarinho, para não acordar Maria, que tossira toda noite, e agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente que pôde, extraiu uma polca. Fê-la publicar com um pseudônimo; nos dois meses seguintes compôs e publicou mais duas. Maria não soube nada; ia tossindo e morrendo, até que expirou, uma noite, nos braços do marido, apavorado e desesperado. Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acréscimo, porque na vizinhança havia um baile, em que se tocaram várias de suas melhores polcas. Já o baile era duro de sofrer; as suas composições davam-lhe um ar de ironia e perversidade. Ele sentia a cadência dos passos, adivinhava os movimentos, porventura lúbricos, a que obrigava alguma daquelas composições; tudo isso ao pé do cadáver pálido, um molho de ossos, estendido na cama... Todas as horas da noite passaram assim, vagarosas ou rápidas, úmidas de lágrimas e de suor, de águas-dacolônia e de Labarraque , saltando sem parar, como ao som da polca de um grande Pestana invisível. Enterrada a mulher, o viúvo teve uma única preocupação: deixar a música, depois de compor um Requiem, que faria executar no primeiro aniversário da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer cousa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda. Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação, e até os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Requiem deste autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a


173 incompleta. não lhe sentia a alma sacra, nem idéia, nem inspiração, nem método; ora elevava-se-lhe o coração e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o Requiem não estava concluído. Redobrou de esforços, esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria concluí-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco... A aurora do aniversário veio achá-lo trabalhando. Contentou-se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer se todas as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do marido, ou se algumas eram do compositor. Certo é que nunca mais tornou ao Requiem. "Para quê?" dizia ele a si mesmo. Correu ainda um ano. No princípio de 1878, apareceu-lhe o editor. — Lá vão dois anos, disse este, que nos não dá um ar da sua graça. Toda a gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito? — Nada. — Bem sei o golpe que o feriu; mas lá vão dois anos. Venho propor-lhe um contrato: vinte polcas durante doze meses; o preço antigo, e uma porcentagem maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar. Pestana assentiu com um gesto. Poucas lições tinha, vendera a casa para saldar dívidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso. Aceitou o contrato. — Mas a primeira polca há de ser já, explicou o editor. É urgente. Viu a carta do Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder, vão fazer a reforma eleitoral. A polca há de chamar-se: Bravos à Eleição Direta! Não é política; é um bom título de ocasião. Pestana compôs a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de silêncio, não perdera a originalidade nem a inspiração. Trazia a mesma nota genial. As outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos e os repertórios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para não cair em novas tentativas. Já agora pedia uma entrada de graça, sempre que havia alguma boa ópera ou

concerto de artista ia, metia-se a um canto, gozando aquela porção de cousas que nunca lhe haviam de brotar do cérebro. Uma ou outra vez, ao tornar para casa, cheio de música, despertava nele o maestro inédito; então, sentava-se ao piano, e, sem idéia, tirava algumas notas, até que ia dormir, vinte ou trinta minutos depois. Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composições a diferença é que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio. Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o estado do Pestana , de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que lhe dissesse o que era, o editor obedeceu. — Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu. — Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana. Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se. — Adeus. — Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais. Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo. Fonte: ASSIS, Machado de. Várias Histórias. Ed. Martin Claret


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Dodora Galinari Trovas No calor do seu abraço, se é inverno... não importa; que o frio, num embaraço, vai saindo e fecha a porta!

Dodora Galinari

O lago, num doce amplexo, como prova de paixão, criou, da lua... o reflexo em forma de coração!

Psicóloga. Pós-graduada em Pedagogia. Tem 30 anos de experiência na área da Educação: Magistério,do Ensino Fundamental ao Superior; Supervisão e Inspeção Escolar; Direção de Escola de Ensino Médio;Especialização em Superdotação.

Meu coração é uma rua bem fechada, já se vê por onde transita... nua, a lembrança de você. Retire a noite do olhar... deixe o dia amanhecer - toda alvorada ao chegar, alegra o nosso viver. Cupido entrou em descrença... O AMOR, sofrendo sem fala... - eu fingindo indiferença você... negando notá-la. Enquanto existir criança e seu olhar de inocência, pode-se ter esperança de um mundo sem violência. De costas, nessa apatia, ficaste ao me ver voltar; mas, pelo espelho, eu bem via um brilho no teu olhar! As montanhas, de mãos dadas enfeitam nosso horizonte... São princesas encantadas, que os astros beijam na fronte!

Dodora Galinari - nome literário e artístico de Maria Auxiliadora Galinari Nascimento - é membro da UBT-seção Belo Horizonte,onde reside.

Na chamada Melhor Idade,dedica-se às Artes cênicas como Atriz,Manequim,Modelo Fotográfico. Natural de Dom Silvério/MG. Desde adolescente,estudando interna em Ponte Nova/MG,diversas vezes foi premiada por seus trabalhos literários,tendo sido a 1" Presidente do Grêmio literário Pio XII - fundado na época. Em meados de 2003,iniciou-se na UBT/BH e,na sua primeira participação em Concurso Interno obteve o 6º lugar – 2004. Em 2005 e 2006,sucessivamente,obteve o 1º lugar AnualConcursos Internos, Novos Trovadores. Ao término de 2006, classificada em Concurso Nacional/lnternacional, passou para a categoria Veteranos. Outros Prêmios: . 2004: Conc. interno Anual-Medalha de Bronze; . 2005: Conc. Crueilandia-Menção Honrosa ; Conc. Hum/BH-3º lugar; Comunidade Luso-Brasileira-Menção Honrosa; . 2006: Concurso Hum/BH-3º lugar; Concurso Nac/lnternac. Pindamonhangaba-Menção Especial; Concurso Nac/lnternac. Cidade Belo HorizonteMenção Especial; . 2007: Concurso Hurn/BH-2º lugar; Conc. Internos/BH-Menção Especial ;


175 . 2008: Concurso Nac/lnternac. Univerti-Menção Especial; Concurso lnterno BH-Menção Especial; 2009: Concurso Intersedes Cidade BH-Menção Honrosa; Concurso Hurn/BH-Vencedor; Concurso Interno/BH-Medalha Participação:

2006:"Rosas de Cristal"; 2008:"Mosaico de Trovas". Coletânea Coordenação Paulo 2009/10:"Mineirices e Mineiridades".

Viotti:

Dodora Galinari é a atual Vice-Presidente de Administração da UBT - seção Belo Horizonte (biênio 2009/2010). Fonte: UBT Nacional

Coletâneas de Trovas, UBT/BH: 2004:"Caleidoscópio";

Folclore Brasileiro A Tartaruga e o Gavião Contam que, nos tempos primitivos, uma tartaruga matara um gavião, que deixou mulher e um filho pequeno. Sempre que o filho ia caçar camaleões, achava penas de pássaros. Chegando em casa perguntou à sua mãe:

- Vou experimentar minhas forças.

- De quem são as penas que acho sempre no mato, quando vou caçar?

- Não tenho ainda forças.

- Meu filho, são de teu pai, que morreu. Calou-se ele e concentrou-se. Cresceu e estava quase moço. Um dia foi caçar e encontrou umas tartaruguinhas. Estas disseram-lhe:

Dizem que experimentou-as no grelo do meriti. Chegou e meteu as unhas para o arrancar. Experimentou, puxou e não o arrancou. Disse:

Foi outra vez experimentá-las. Então arrancou o grelo e disse: - Agora já tenho força. Agora vou deveras vingar meu defunto pai. Esperarei a saída da avó das tartarugas.

- Vamos nos banhar?

Dizem que um dia, aquela espalhou paracá em cima de uma esteira. Houve depois chuva com vento, e ela disse às netas:

Ele disse:

- Vocês vão ajuntar para recolher da chuva o paracá.

- Vamos.

As tartaruguinhas não foram, por ser aquele pesado, e por isso chamaram:

Dizem que se banharam e no banho, ele queria pegá-las com as unhas. Então elas disseram-lhe:

- Minha avó, venha ajudar-nos.

- Por isso minha avó matou teu pai.

A avó subiu e foi ajudar as netas.

– Agora sei quem verdadeiramente matou meu pai.

O gavião estava vigiando e, vendo-a sair, saltou-lhe em cima e a carregou para um galho de piquiá.

Cresceu e, quando já grande disse: Então a velha tartaruga disse ao gavião:


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- Como vou morrer agora, manda chamar teus parentes para que venham me ver morrer.

Assim acabaram as tartarugas assassinas; assim se acabaram.

Vieram, então, todos os parentes do gavião. Chegaram todos os pássaros e ajudaram a matar a velha tartaruga. Os pássaros que a mataram ficaram sarapintados. Outros ficaram vermelhos. Aqueles que beliscaram o casco ficaram com o bico preto; outros que beliscaram o fígado ficaram verdes.

Desde então os pássaros ficaram pintados. Fontes: Barbosa Rodrigues. Revista Selva. Rio de Janeiro, nº 1, setembro de 1946. In MELO, Anísio (org.). Estórias e lendas da Amazônia. São Paulo, Livraria Literat Editora, 1962. Antologia ilustrada do folclore brasileiro. Disponível em Jangada Brasil.

Ademar Macedo Mensagens Poéticas 108 Uma Trova Nacional No meu baú de lembranças onde a rotina enterrei, restaram minhas andanças e os prantos que derramei... (REJANE COSTA/CE) Uma Trova Potiguar Os quadros que já pintei, usando a tinta da vida, foi o modo que encontrei pra torná-la colorida. (MARCOS MEDEIROS/RN) Uma Trova Premiada 2010 > Niterói/RJ Tema > PALAVRA > Vencedora

Eu fiz um jardim suspenso com terra bem adubada, planta selecionada e flores de muito incenso, depois fiquei muito tenso numa noite de São João, no céu zoou um Trovão que o mundo se sacudiu, meu belo jardim ruiu e a terra caiu no chão! (ZÉ DE SOUSA/PB) Uma Trova de Ademar A promessa quando é feita num altar da santa sé, no céu, só será aceita se ela for feita com fé! (ADEMAR MACEDO/RN) ...E Suas Trovas Ficaram

Tu chegas de madrugada, cabisbaixo e sempre mudo... E o silêncio da chegada, sem palavras, já diz tudo! (SELMA PATTI SPINELLI/SP)

Gotas de amargas vivências, ou de alegria incontida, lágrimas são reticências no texto frio da vida... (WALDIR NEVES/RJ)

Simplesmente Poesia Estrofe do Dia MOTE. E a terra caiu no chão! GLOSA:

Vejam aquele rapaz sentado naquele banco, com um traje que já foi branco


177 mas está sujo demais; na minha mente ele traz uma caneta na mão, e dos olhos desse cristão vejo descer pingos d’água; aquilo é alguma mágoa que ele tem no coração. (JOSÉ TOMAZ/PB)

deixando o coração apaixonado. Sussurra a meiga chuva no telhado sussurra docemente, ao vento, a palma... Deus ouve a confissão, o homem acalma, e, sussurrando, absolve o seu pecado. Também sussurra o mar em seu marulho o sol desponta sem fazer barulho, e, na oração, em tom menor, eu clamo...

Soneto do Dia

Por isso, o que eu queria, em voz pequena era ouvir tua boca tão serena bem fundo em meu ouvido a dizer: "Te amo!"

– Renato Alves/RJ – SUSSURROS Tudo o que é bom na vida é sussurrado as melhores verdades vêm com calma penetram devagar em nossa alma

Fonte: Ademar Macedo

Abílio Pacheco Cheiro de café Não há nada que mais me pareça com a crônica que o cheiro do café. É uma metáfora olfativa, sinestésica; não deveria explicá-la. Fico tentado a encerrar o texto por aqui. Continuo.Afinal posso até escrever contos curtos, mas ainda não optei por treinar as crônicas curtas, embora elas pareçam correr no meu dia a dia. Quem sabe eu tente ainda escrevê-las. O cheiro do café: matutino, fresco, suave, de leve amargor… Caminhando pelo condomínio pela manhã, fazendo academia, assistindo ao noticiário matutino ou tentando se fechar do mundo num escritório/gabinete é sempre esse gostinho que chega às narinas trazendo um novo dia, as novidades do dia. Mesmo os barulhos da cidade chegam com o café e, antes dele, o seu cheiro.

A crônica seria esse agradável sabor de fragrância noviça e breve. Relativamente pontual e tão ligada ao presente. Logo surgindo e logo esvaecendo, mas sempre retomada. A crônica, a despeito de ser chamada gênero menor, tem seu mistério. Mesmo quem não gosta de café, gosta de seu cheiro, mesmo quem não aprecia literatura ou não tenha hábito de ler, curte uma crônica. Se bem usada, a crônica traz para literatura o leitor iniciante, como o cheiro do café chama para a mesa, convida para uma boa conversa e, mesmo não o bebericando, a mesa fica rodeada e o diálogo flui. A crônica, atrativa… logo o leitor prova de toda literatura: haicais, sonetos, poemas mais longos, contos, romances… Fonte: Colaboração do Autor


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Lubarrel Poesias AS FADAS Seres iluminados Cheios de bondade São como anjos encarnados Repartindo caridade. Quem quiser ser uma fada é tão fácil como o soprar do vento Basta ter sempre na alma o amor doando a todo o tempo. Fada que se presa não empresta doa o coração sem espera pois seu galardão é seguro Quando o seu sentimento é puro. Fadas no mundo são poucas mas valem por uma multidão pois repartindo a bondade vai ganhando coração. A cada coração conquistado Sua aura resplandece Seu esplendor se enaltece e o céu sutilmente , agradece. Procure em seu interior a fada então adormecida. Desperte-a cheia de fulgor e sejas feliz por toda a vida. TRIBUTO AO MAR Quando chego à praia Fico a observar, Como é revolto O crepúsculo do mar. O inefável murmurar das ondas Induz meu peito a palpitar. Dilacera a minh’alma, Faz meu corpo trepidar. O negrume da noite Em contraste com a luz do luar,

Adorna, reluz e inebria Essa imensidão salutar. E eu fico a observar O quase inexorável, Adorável e infinito Esplendor divino. Oh, doce paz! Ameaçada pelo ser audaz Que se diz inteligente E polui...Polui...Somente. PLACIDEZ NOTURNA Sento-me embaixo do arvoredo Sob a sombra plácida e noturna. Observo atentamente e percebo Que a sublimidade não se desfigura. Ainda em meu olhar atento Pressinto que não estou só. A altivez da folha farfalhando ao vento Dá-me a certeza do que há ao redor. As nuvens que povoam o céu Não são as que me povoam por dentro. Dentro, minhas nuvens fazem escarcéu E as do céu incitam o meu sentimento. O arrebol que a pouco se findara, Aliciou a terra e debelou o momento. Cheia de fulgor a terra se depara Com a mágica transformação do tempo. Aos poucos a natureza adormece E os vigias soturnos sobrevoam ao léu. Ouço sons suaves que enaltecem A beleza inexprimível desse imenso véu. REFÚGIO Amo a noite cálida. Inebriada fico a vagar, Por entre as sombras plácidas, Acalentadas pela luz do luar.


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Noites de amores e súplicas, Eternos e afoitos desejos, Propicia a um amor encontrar. Oh, noite! Irás me ajudar? Procuro um amor saliente Que preencha o meu coração. Aplaca a minha sede, Invada a minha existência E suga a minha razão. Na noite ardilosa, Razões e incertezas Caminham lado a lado. Na aurora do porvir, Quem vencerá de fato? Sentimentos que me afloram São incertos devaneios. Tento vencer o medo, Buscando fins através dos meios Pra sair da solidão. E por isso me refugio Sob o véu negro do céu, Que toca o meu ego. Oh, noite! Tira-me desse ardor, Dessa dúvida... Não me deixe ao léu. ODE A IARA Doce veneno Entorpece o meu ego, Aniquila a minha razão, Esmaga o meu coração Que sedução! Debruço-me sobre o teu olhar Que me inebria e enlouquece. Ponho-me a admirar Tua cauda escamada A sacolejar ao léu, Mostrando-me os recôncavos do céu. Musa de meus sonhos Desvairados e inconseqüentes. És onisciente presente Com teus lábios tão eloqüentes.

De teus lábios as notas que saem Chegam suaves aos ouvidos meus. Um dia, hei de sagrar o teu canto Deixarei os meus prantos E me entregarei aos encantos teus. REENCONTRO Quando os meus olhos se detêm aos seus Em apenas um milésimo de segundo O tempo perde-se no infinito, A razão não tem mais razão de ser... As entranhas de minh’alma se estremecem Quando estou perto de você. Meus pensamentos se põem a vagar Em busca dos pensamentos seus. Diga-me onde poderei lhe encontrar Para o meu sol se pôr junto ao seu. Procuro no ar, nas estrelas e no luar, Solução para os anseios meus. Sua presença em mim é salutar, Reaviva o meu ego, inebria o meu “eu”. Quero encontrar novamente Você no íntimo do meu ser Para que eu possa finalmente, Ver o amor em mim, florescer.

Luciene Barrel (Lubarrel) Autobiografia Lubarrel nasceu em Governador Valadares, situada a leste de Minas Gerais. Quando pequena, ativa e conversadeira, se dava bem com todas as coleguinhas do meio em que vivia. Gostava de ficar horas e horas lendo um livro de literatura que sua irmã mais velha estudava no curso superior de Letras. Fato esse que a ajudou muito. Hoje, é professora primária, graduada no curso Normal Superior, Magistério de 2º grau , Adicional de Pré-escolar, Curso Técnico em Administração de Empresas. Apaixonada pela literatura e pela arte de forma geral, teve duas poesias classificadas em 6º lugar, no X Concurso Internacional de Primavera promovido por Arnaldo Giraldo, as quais foram publicadas no livro "A Forja da Liberdade". Tem uma


180 poesia publicada na 16ª e outra na 21ª antologia, do CBJE (Clube Brasileiro dos Jovens Escritores). Suas poesias encontram-se registradas na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Escreveu vários contos: Renascimento, que retrata a vida de uma conhecida; Uma pequena peça de

teatro “O Debate Ecológico” que fala sobre a fotossíntese e repassa a mensagem de amizade; “Perdão Assustador” que retrata uma realidade vivenciada por um antepassado, e outros. Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/lubarrel.html

Machado de Assis Trio em Lá Menor I ADAGIO CANTABILE MARIA REGINA acompanhou a avó até o quarto, despediu-se e recolheu-se ao seu. A mucama que a servia, apesar da familiaridade que existia entre elas, não pôde arrancar-lhe uma palavra, e saiu, meia hora depois, dizendo que Nhanhã estava muito séria. Logo que ficou só, Maria Regina sentou-se ao pé da cama, com as pernas estendidas, os pés cruzados, pensando. A verdade pede que diga que esta moça pensava amorosamente em dous homens ao mesmo tempo, um de vinte e sete anos, Maciel — outro de cinqüenta, Miranda. Convenho que é abominável, mas não posso alterar a feição das cousas, não posso negar que se os dous homens estão namorados dela, ela não o está menos de ambos. Uma esquisita, em suma; ou, para falar como as suas amigas de colégio, uma desmiolada. Ninguém lhe nega coração excelente e claro espírito; mas a imaginação é que é o mal, uma imaginação adusta e cobiçosa, insaciável principalmente, avessa à realidade, sobrepondo às cousas da vida outras de si mesma; daí curiosidades irremediáveis. A visita dos dous homens (que a namoravam de pouco) durou cerca de uma hora. Maria Regina conversou alegremente com eles, e tocou ao piano uma peça clássica, uma sonata, que fez a avó cochilar um pouco. No fim discutiram música. Miranda disse cousas pertinentes acerca da música moderna e antiga; a avó tinha a religião de Bellini e da Norma, e falou das toadas do seu tempo, agradáveis, saudosas e principalmente claras. A neta

ia com as opiniões do Miranda; Maciel concordou polidamente com todos. Ao pé da cama, Maria Regina reconstruía agora tudo isso, a visita, a conversação, a música, o debate, os modos de ser de um e de outro, as palavras do Miranda e os belos olhos do Maciel. Eram onze horas, a única luz do quarto era a lamparina, tudo convidava ao sonho e ao devaneio. Maria Regina, à força de recompor a noite, viu ali dous homens ao pé dela, ouviu-os, e conversou com eles durante uma porção de minutos, trinta ou quarenta, ao som da mesma sonata tocada por ela: lá, lá, lá… II ALLEGRO MA NON TROPPO NO DIA SEGUINTE a avó e a neta foram visitar uma amiga na Tijuca. Na volta a carruagem derrubou um menino que atravessava a rua, correndo. Uma pessoa que viu isto, atirou-se aos cavalos e, com perigo de si própria, conseguiu detê-los e salvar a criança, que apenas ficou ferida e desmaiada. Gente, tumulto, a mãe do pequeno acudiu em lágrimas. Maria Regina desceu do carro e acompanhou o ferido até à casa da mãe, que era ali ao pé. Quem conhece a técnica do destino adivinha logo que a pessoa que salvou o pequeno foi um dos dous homens da outra noite; foi o Maciel. Feito o primeiro curativo, o Maciel acompanhou a moça até à carruagem e aceitou o lugar que a avó lhe ofereceu até a cidade. Estavam no Engenho Velho. Na carruagem é que Maria Regina viu que o rapaz trazia a mão ensangüentada. A avó inquiria a miúdo se o pequeno estava muito mal, se escaparia; Maciel disse-lhe que os ferimentos eram leves. Depois


181 contou o acidente: estava parado, na calçada, esperando que passasse um tílburi, quando viu o pequeno atravessar a rua por diante dos cavalos; compreendeu o perigo, e tratou de conjurá-lo, ou diminuí-lo. — Mas está ferido, disse a velha. — Cousa de nada. — Está, está, acudiu a moça; podia ter-se curado também. — Não é nada, teimou ele; foi um arranhão, enxugo isto com o lenço. Não teve tempo de tirar o lenço; Maria Regina ofereceu-lhe o seu. Maciel, comovido, pegou nele, mas hesitou em maculá-lo. Vá, vá, dizia-lhe ela; e vendo-o acanhado, tirou-lho e enxugou-lhe, ela mesma, o sangue da mão. A mão era bonita, tão bonita como o dono; mas parece que ele estava menos preocupado com a ferida da mão que com o amarrotado dos punhos. Conversando, olhava para eles disfarçadamente e escondia-os. Maria Regina não via nada, via-o a ele, via-lhe principalmente a ação que acabava de praticar, e que lhe punha uma auréola. Compreendeu que a natureza generosa saltara por cima dos hábitos pausados e elegantes do moço, para arrancar à morte uma criança que ele nem conhecia. Falaram do assunto até a porta da casa delas; Maciel recusou, agradecendo, a carruagem que elas lhe ofereciam, e despediu-se até à noite.

Maciel ouvia sorrindo. Tinha passado o ímpeto generoso, começava a receber os dividendos do sacrifício. O maior deles era a admiração de Maria Regina, tão ingênua e tamanha, que esquecia a avó e a sala. Maciel sentara-se ao lado da velha. Maria Regina defronte de ambos. Enquanto a avó, restabelecida do susto, contava as comoções que padecera, a princípio sem saber de nada, depois imaginando que a criança teria morrido, os dous olhavam um para o outro, discretamente, e afinal esquecidamente. Maria Regina perguntava a si mesma onde acharia melhor noivo. A avó, que não era míope, achou a contemplação excessiva, e falou de outra coisa; pediu ao Maciel algumas notícias de sociedade. III ALLEGRO APPASSIONATO MACIEL era homem, como ele mesmo dizia em francês, très répandu; sacou da algibeira uma porção de novidades miúdas e interessantes. A maior de todas foi a de estar desfeito o casamento de certa viúva. — Não me diga isso! exclamou a avó. E ela? — Parece que foi ela mesma que o desfez: o certo é que esteve anteontem no baile, dançou e conversou com muita animação. Oh! abaixo da notícia, o que fez mais sensação em mim foi o colar que ela levava, magnífico… — Com uma cruz de brilhantes? perguntou a velha. Conheço; é muito bonito. — Não, não é esse.

— Até a noite! repetiu Maria Regina. — Esperou-o ansiosa. Ele chegou, por volta de oito horas, trazendo uma fita preta enrolada na mão, e pediu desculpa de vir assim; mas disseram-lhe que era bom pôr alguma coisa e obedeceu.

Maciel conhecia o da cruz, que ela levara à casa de um Mascarenhas; não era esse. Este outro ainda há poucos dias estava na loja do Resende, uma cousa linda. E descreveu-o todo, número, disposição e facetado das pedras; concluiu dizendo que foi a jóia da noite.

— Mas está melhor! — Estou bom, não foi nada. — Venha, venha, disse-lhe a avó, do outro lado da sala. Sente-se aqui ao pé de mim: o senhor é um herói.

— Para tanto luxo era melhor casar, ponderou maliciosamente a avó. — Concordo que a fortuna dela não dá para isso. Ora, espere! Vou amanhã, ao Resende, por curiosidade, saber o preço por que o vendeu. Não foi barato, não podia ser barato.


182 — Mas por que é que se desfez o casamento? — Não pude saber; mas tenho de jantar sábado com o Venancinho Corrêa, e ele conta-me tudo. Sabe que ainda é parente dela? Bom rapaz; está inteiramente brigado com o barão… A avó não sabia da briga; Maciel contou-lha de princípio a fim, com todas as suas causas e agravantes. A última gota no cálice foi um dito à mesa de jogo, uma alusão ao defeito do Venancinho, que era canhoto. Contaram-lhe isto, e ele rompeu inteiramente as relações com o barão. O bonito é que os parceiros do barão acusaram-se uns aos outros de terem ido contar as palavras deste. Maciel declarou que era regra sua não repetir o que ouvia à mesa do jogo, porque é lugar em que há certa franqueza. Depois fez a estatística da rua do Ouvidor, na véspera, entre uma e quatro horas da tarde. Conhecia os nomes das fazendas e todas as cores modernas. Citou as principais toilettes do dia. A primeira foi a de Mme. Pena Maia, baiana distinta, très pschutt. A segunda foi a de Mlle. Pedrosa, filha de um desembargador de São Paulo, adorable. E apontou mais três, comparou depois as cinco, deduziu e concluiu. Às vezes esquecia-se e falava francês; pode mesmo ser que não fosse esquecimento, mas propósito; conhecia bem a língua, exprimia-se com facilidade e formulara um dia este axioma etnológico — que há parisienses em toda a parte. De caminho, explicou um problema de voltarete. — A senhora tem cinco trunfos de espadilha e manilha, tem rei e dama de copas… Maria Regina ia descambando da admiração no fastio; agarrava-se aqui e ali, contemplava a figura moça do Maciel, recordava a bela ação daquele dia, mas ia sempre escorregando; o fastio não tardava a absorvê-la. Não havia remédio. Então recorreu a um singular expediente. Tratou de combinar os dous homens, o presente com o ausente, olhando para um, e escutando o outro de memória; recurso violento e doloroso, mas tão eficaz, que ela pôde contemplar por algum tempo uma criatura perfeita e única. Nisto apareceu o outro, o próprio Miranda. Os dois homens cumprimentaram-se friamente; Maciel demorou-se ainda uns dez minutos e saiu.

Miranda ficou. Era alto e seco, fisionomia dura e gelada. Tinha o rosto cansado, os cinqüenta anos confessavam-se tais, nos cabelos grisalhos, nas rugas e na pele. Só os olhos continham alguma cousa menos caduca. Eram pequenos, e escondiamse por baixo da vasta arcada do sobrolho; mas lá, ao fundo, quando não estavam pensativos, centelhavam de mocidade. A avó perguntou-lhe, logo que Maciel saiu, se já tinha notícia do acidente do Engenho Velho, e contou-lho com grandes encarecimentos, mas o outro ouvia tudo sem admiração nem inveja. — Não acha sublime? perguntou ela, no fim. — Acho que ele salvou talvez a vida a um desalmado que algum dia, sem o conhecer, pode meter-lhe uma faca na barriga. — Oh! protestou a avó. — Ou mesmo conhecendo, emendou ele. — Não seja mau, acudiu Maria Regina; o senhor era bem capaz de fazer o mesmo, se ali estivesse. Miranda sorriu de um modo sardônico. O riso acentuou-lhe a dureza da fisionomia. Egoísta e mau, este Miranda primava por um lado único: espiritualmente, era completo. Maria Regina achava nele o tradutor maravilhoso e fiel de uma porção de idéias que lutavam dentro dela, vagamente, sem forma ou expressão. Era engenhoso e fino e até profundo, tudo sem pedantice, e sem meter-se por matos cerrados, antes quase sempre na planície das conversações ordinárias; tão certo é que as cousas valem pelas idéias que nos sugerem. Tinham ambos os mesmos gostos artísticos; Miranda estudara direito para obedecer ao pai; a sua vocação era a música. A avó, prevendo a sonata, aparelhou a alma para alguns cochilos. Demais, não podia admitir tal homem no coração; achava-o aborrecido e antipático. Calou-se no fim de alguns minutos. A sonata veio, no meio de uma conversação que Maria Regina achou deleitosa, e não veio senão porque ele lhe pediu que tocasse; ele ficaria de bom grado a ouvi-la. — Vovó, disse ela, agora há de ter paciência…


183 Miranda aproximou-se do piano. Ao pé das arandelas, a cabeça dele mostrava toda a fadiga dos anos, ao passo que a expressão da fisionomia era muito mais de pedra e fel. Maria Regina notou a graduação, e tocava sem olhar para ele; difícil cousa, porque, se ele falava, as palavras entravam-lhe tanto pela alma, que a moça insensivelmente levantava os olhos, e dava logo com um velho ruim. Então é que se lembrava do Maciel, dos seus anos em flor, da fisionomia franca, meiga e boa, e afinal da ação daquele dia. Comparação tão cruel para o Miranda, como fora para o Maciel o cotejo dos seus espíritos. E a moça recorreu ao mesmo expediente. Completou um pelo outro; escutava a este com o pensamento naquele; e a música ia ajudando a ficção, indecisa a princípio, mas logo viva e acabada. Assim Titânia, ouvindo namorada a cantiga do tecelão, admiravalhe as belas formas, sem advertir que a cabeça era de burro. IV MINUETTO DEZ, VINTE, trinta dias passaram depois daquela noite, e ainda mais vinte, e depois mais trinta. Não há cronologia certa; melhor é ficar no vago. A situação era a mesma. Era a mesma insuficiência individual dos dous homens, e o mesmo complemento ideal por parte dela; daí um terceiro homem, que ela não conhecia. Maciel e Miranda desconfiavam um do outro, detestavam-se a mais e mais, e padeciam muito, Miranda principalmente, que era paixão da última hora. Afinal acabaram aborrecendo a moça. Esta viuos ir pouco a pouco. A esperança ainda os fez relapsos, mas tudo morre, até a esperança, e eles saíram para nunca mais. As noites foram passando, passando… Maria Regina compreendeu que estava acabado. A noite em que se persuadiu bem disto foi uma das mais belas daquele ano, clara, fresca, luminosa. Não havia lua; mas nossa amiga aborrecia a lua, — não se sabe bem por que, — ou porque brilha de empréstimo, ou porque toda a gente a admira, e pode ser que por ambas as razões. Era uma das suas esquisitices. Agora outra.

Análise realizada por Maria Inês Werlang Ghisleni (Mestre em Letras pela Universidade de Santa Cruz

Análise do Conto Tinha lido de manhã, em uma notícia de jornal, que há estrelas duplas, que nos parecem um só astro. Em vez de ir dormir, encostou-se à janela do quarto, olhando para o céu, a ver se descobria alguma delas; baldado esforço. Não a descobrindo no céu, procurou-a em si mesma, fechou os olhos para imaginar o fenômeno; astronomia fácil e barata, mas não sem risco. O pior que ela tem é pôr os astros ao alcance da mão; por modo que, se a pessoa abre os olhos e eles continuam a fulgurar lá em cima, grande é o desconsolo e certa a blasfêmia. Foi o que sucedeu aqui. Maria Regina viu dentro de si a estrela dupla e única. Separadas, valiam bastante; juntas, davam um astro esplêndido. E ela queria o astro esplêndido. Quando abriu os olhos e viu que o firmamento ficava tão alto, concluiu que a criação era um livro falho e incorreto, e desesperou. No muro da chácara viu então uma cousa parecida com dous olhos de gato. A princípio teve medo, mas advertiu logo que não era mais que a reprodução externa dos dous astros que ela vira em si mesma e que tinham ficado impressos na retina. A retina desta moça fazia refletir cá fora todas as suas imaginações. Refrescando o vento recolheu-se, fechou a janela e meteu-se na cama. Não dormiu logo, por causa de duas rodelas de opala que estavam incrustadas na parede; percebendo que era ainda uma ilusão, fechou os olhos e dormiu. Sonhou que morria, que a alma dela, levada aos ares, voava na direção de uma bela estrela dupla. O astro desdobrou-se, e ela voou para uma das duas porções; não achou ali a sensação primitiva e despenhou-se para outra; igual resultado, igual regresso, e ei-la a andar de uma para outra das duas estrelas separadas. Então uma voz surgiu do abismo, com palavras que ela não entendeu. — É a tua pena, alma curiosa de perfeição; a tua pena é oscilar por toda a eternidade entre dois astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: lá, lá, lá… Fonte: ASSIS, Machado de. Várias Histórias. São Paulo: Escala Educacional, 2008. O livro foi publicado pela primeira vez em 1896.

do Sul (UNISC)) , sob o título Machado de Assis e a Música: Uma Análise do Conto “Trio em Lá Menor”


184 A TEORIA MUSICAL NO CONTO “TRIO EM LÁ MENOR” No conto “Trio em lá menor”, Machado de Assis utiliza elementos da teoria musical no título, subtítulos e em toda a seqüência narrativa, relacionando a linguagem musical ao significado do próprio conto. Percebe-se ainda o intuito do autor de traduzir o que se passa no interior das personagens nas diferentes partes do texto através da música. Segundo Kiefer (1987,) nas escalas musicais, há tons maiores e tons menores. Os tons maiores, como, por exemplo, lá maior (Lá M) ou dó maior (Dó M) transmitem alegria, júbilo, são festivos, cheios, harmônicos. Já os tons menores, como lá menor (Lá m) ou dó menor (Dó m), são tristes e traduzem sentimentos de melancolia e tristeza. Com o título “Trio em lá menor”, Machado de Assis quer nos adiantar a informação de que o conto vai tratar de uma história cujo desfecho não será feliz. Para o leitor menos avisado, poderá parecer que não há relação entre o texto e as expressões da teoria musical que Machado usou em todo o percurso da sua narrativa. Entretanto, a cada ocorrência de um desses signos, corresponde um sentido no desenrolar das ações. O título e os subtítulos são marcadores de significado musical que direcionam o pensamento do leitor para o que vai acontecer a seguir. As expressões musicais presentes no texto nos apontam características da personalidade e também dos sentimentos de Maria Regina, protagonista da história, ilustrando seu estado de espírito em cada um dos momentos da seqüência narrativa. “Trio em lá menor” narra o que poderia ter sido uma história de amor, mas não chegou a se concretizar. Maria Regina amava dois homens ao mesmo tempo: Maciel com 27 anos e Miranda, de 50 anos. Com esse cenário, surge o triângulo amoroso, o que já se poderia imaginar a partir das idéias que o título sugere. Ao levarmos em consideração a teoria musical da qual Machado magistralmente se serve, poderemos antever que esse será um conto com um triângulo amoroso marcado pela tristeza, cujo final será, possivelmente, também infeliz.

ADAGIO CANTABILE Machado introduziu a primeira parte do conto com o subtítulo de Adagio cantabile. Nessa primeira parte, o problema é apresentado e, após a visita dos dois homens que estavam enamorados por ela, Maria Regina sozinha, em seu quarto, põe-se a pensar em ambos. Há para este cenário um fundo musical, cantarolado pela personagem enquanto reconstitui, de memória, cada palavra da conversa ocorrida. É a melodia da sonata por ela executada ao piano momentos antes na sala, durante a visita. Em linguagem musical, conforme Cosme (1959), Adagio refere-se a um andamento lento. Andamento é o grau de velocidade com que um trecho musical é executado. Uma composição pode conter várias partes que são chamadas de movimentos. Cada um poderá ser escrito para uma velocidade diferente. Os andamentos podem ser lentos, moderados ou rápidos. Dentro da sua categoria, Adagio é o menos lento, já próximo ao moderado. A primeira parte de uma música sempre mostra o tema, isto é, a melodia que vai ser desenvolvida a seguir. Por exemplo: a introdução, em música, é um movimento não muito longo, que costuma apresentar variações sobre o fraseado melódico que a peça contém no seu corpo principal. Na primeira parte, portanto, aparece uma pequena amostra do tema. É o caso do Adagio cantabile no conto “Trio em lá menor”. Segundo Kiefer (1987), outra característica do Adagio é que permite ornamentos. Em música, ornamentos são sons extras com o objetivo de embelezar sem, no entanto, modificar ou se sobrepor ao tema melódico. Esses significados de Adagio para a música podem ser aplicados para explicar essa primeira parte do conto. Sendo Adagio cantabile, o subtítulo significa um andamento lento que pode ser cantado, isto é, o tema deve ser interpretado como se estivesse sendo cantado. O fraseado melódico é executado com esse espírito para causar essa mesma sensação em quem ouve. Fica nítido para quem escuta que a música ainda não terminou. Não contém som conclusivo. É um movimento para o qual haverá seqüência. Poder-se-ia dizer que haverá solução. De acordo com Harnouncourt (1990), na música, essa solução chama-se resolução, que é o som que finaliza.


185 Ao ler a primeira parte descobrem-se pistas do que vai ser tratado. Tal como na música, são apresentadas pinceladas sobre o assunto principal do conto. Como no Adagio cantabile, os eventos surgem um tanto lentos, mas carregados de sentimentos como se estivessem sendo cantabile. A história começa enfeitada por detalhes de beleza da personagem e dos seus sentimentos de amor, respeito e busca da perfeição. Já que também o Adagio pode conter floreios, essa é uma relação direta com a apresentação do triângulo amoroso nesse início do conto: ressaltando o que é bom e belo. ALLEGRO MA NON TROPPO Na segunda parte do conto, chamada de Allegro ma non troppo, inicia o desenvolvimento da história. Há um fato envolvendo um dos homens. Maciel arrisca sua vida jogando-se na frente dos cavalos de uma carruagem para salvar um menino que imprudentemente atravessara a rua. Na carruagem, estão Maria Regina e sua avó. A tragédia é evitada, com ferimentos inexpressivos para ambos: vítima e salvador. A partir desse episódio, são ressaltados atributos positivos da personalidade do novo herói, Maciel. Maria Regina reconhece nele tantas qualidades que chega a se perguntar onde arranjaria melhor noivo. Nessa segunda parte não aparece Miranda e nem Maria Regina menciona ter lembrado dele. Esse fato inclina o leitor a pensar que ela poderia ter se decidido a escolher Maciel, colocando fim ao triângulo amoroso, já predizendo um clássico final feliz, mas tal não acontece. Analisando pela teoria musical, podemos referir dois significados. O primeiro seria em relação ao andamento dos eventos no conto. Allegro é um andamento rápido. Essa segunda parte chama-se Allegro ma non troppo, isto é, rápido, mas não muito. O desenrolar das ações acontece exatamente como a música descreve esse andamento. O fato concreto, ou seja, o salvamento protagonizado por Maciel, ocorre no início e logo Maria Regina devotalhe profunda admiração. Em seguida, transfere indevidamente seu deslumbramento pela atitude do rapaz para os sentimentos que nutria por ele, confundindo o

próprio coração. Tal falta de discernimento deixa o leitor em dúvida sobre o futuro do triângulo amoroso. A direção dos acontecimentos, no relato de Machado, aponta para um lado, vai mais rápido do que no Adagio, que é a primeira parte, mas não com muita velocidade. Em seguida, no final desse segmento, ficamos com uma concreta sensação de que os fatos não estão se encaminhando para a resolução do problema. O segundo significado, de acordo com Wisnik (2004), o qual também pode ser relacionado com a música é a alegria no real sentido da palavra. Allegro ma non troppo começa com um ato heróico. A mocinha fica feliz, como que inebriada pela coragem do seu herói e, na seqüência, há demonstrações de contentamento. Em cada acontecimento, ela vai sendo tomada por uma satisfação comparável à alegria. Tal sentimento, porém, não é consistente, o que pode ser referido ao significado de ma non troppo porque, já no início da parte seguinte, seu encantamento por Maciel vai enfraquecendo até tornar-se insuficiente. ALLEGRO APPASSIONATO Allegro appassionato, terceira parte do texto, é a continuação da visita que Maciel estava fazendo a Maria Regina na noite do mesmo dia do salvamento. A conversa entre Maciel e a avó sobre futilidades corre solta e os sentimentos de Maria Regina vão passando de interesse para indiferença pelo rapaz. Ela tentava se prender na admiração ao belo gesto dele, mas tudo era insuficiente. Logo se descobria entediada de sua presença. Recorria, então, a um singular expediente: criava um personagem que existia só na sua imaginação. Construía uma combinação entre o presente (Maciel, na sua frente) e o ausente (Miranda que não a estava visitando naquele momento). Olhava para um, escutando o outro, de memória. Sua imaginação era tão eficaz que ela conseguiu, por algum tempo, contemplar uma criatura perfeita e única, porém inexistente, pela qual se via completamente apaixonada. Sua paixão era por uma pessoa ficcional. Mais tarde, quando chegou Miranda, o seu segundo enamorado, Maciel se retirou. Maria Regina, então, na ordem inversa recorreu ao mesmo artifício. Voltou a construir na sua imaginação a complementação de um pelo outro. Na sua frente agora estava Miranda,


186 que, embebido, a escutava na execução de uma sonata ao piano. Nele encontrava a expressão de uma porção de idéias que dentro dela lutavam vagamente sem forma. Tinham o mesmo gosto artístico: amavam a música. Ao contemplá-lo, sentiu nele uma expressão de pedra e fel. Lembrava-se, então, do Maciel franco, meigo e bom. E, no seu pensamento, um ser irreal tomava forma, mais uma vez, reunindo o que a encantava em cada um deles. Voltando-se para a interpretação através do que a música apresenta, Allegro appassionato, conforme Kiefer (1987) e Cosme (1959), é um andamento de certa velocidade, mas com claro tom apaixonado. Traduz paixão, move-se pela paixão. É executada apaixonadamente. A paixão é marca forte capaz de transmitir e despertar esse sentimento em quem a ouve. Enquanto Maria Regina tocava ao piano a sonata ouvida por Miranda, ia formulando mentalmente a figura que amava: juntava este (Miranda) com o outro (Maciel). Amava as idéias e gostos do Miranda com a imagem e a bondade de Maciel. Estava apaixonada por esse terceiro homem, que ela não conhecia. Ele representava o objeto da sua espera e motivo da sua indecisão. Com o fragmento “... e a música ia ajudando a ficção, indecisa a princípio, mas logo viva e acabada“ (p.135), confirma-se a intenção de Machado em se servir da teoria musical para explicar o conto como um todo, cada uma das partes separadamente e, dentro delas, os eventos que vão se entrelaçando rumo ao final do texto ou em busca de solução.

buscava, procurou dentro de si mesma, fechando os olhos. Ao penetrar em seu interior, viu ali dentro a estrela dupla e única. Separadas, valiam bastante, juntas, davam um astro esplêndido. Ela queria o astro esplêndido. Ao abrir os olhos, percebeu a imensa distância que a separava do céu. E se desesperou porque teve consciência da impossibilidade de alcançar o astro escolhido. Notou que estava visualizando fora de si os astros que edificara em sua mente, então deitou e dormiu. Em seu íntimo, transitavam sentimentos de insaciedade, ambição, não contentamento e exigência de perfeição. Maria Regina sonha. No seu sonho, voa na direção de uma bela estrela dupla. O astro desdobra-se e ela fica vagando entre as duas porções em busca do sentimento de satisfação. Foi então que surgiram do abismo palavras incompreensíveis para ela, mas não para o leitor. A voz disse que a pena de Maria Regina seria oscilar, por toda a eternidade, entre dois astros incompletos. No mesmo instante, a voz afirma que a eterna busca da personagem será sempre acompanhada pelo som da sonata do absoluto: lá, lá, lá... . O leitor entende que as palavras que a protagonista ouviu em sonhos reforçam a idéia do triângulo amoroso na sua vida. Ou ela não encontra o que idealiza ou então não se satisfaz com os valores de um único personagem, não conseguindo assumir uma escolha. Persiste, portanto, a insatisfação que gera o triângulo, antes caracterizado pelos dois homens e agora concretizado na busca por duas estrelas. Continua, porém, na vida de Maria Regina a constante companhia da música que, nesse momento, é registrada pelo fundo musical proveniente da “velha sonata do absoluto: lá, lá, lá” (p.138).

MINUETO Minueto, a quarta parte do conto “Trio em lá menor”, inicia com incerteza de tempo transcorrido e reconhecimento da insuficiência individual dos dois homens. A indecisão de Maria Regina aborreceu-os até que, perdidas as esperanças, saíram para nunca mais. Após várias noites transcorridas, quando se convenceu de que estava tudo acabado, Maria Regina foi até a janela observar os astros. Procurou no céu a confirmação de uma notícia lida no jornal, informando haver estrelas duplas que parecem ser um só astro. Não encontrando no firmamento o que

Ao dizer velha, Machado quer se referir à sonata que a personagem central costumava tocar ao piano desde o início do texto. Ao referir-se a essa composição como “absoluto”, o autor quer defini-la como completa, perfeita, significando que, embora a vida das personagens possa ter tomado um rumo sem final feliz, o mesmo não acontece com a música cujo final repousa sobre um som harmônico. Tentando entender essa quarta parte pela teoria musical, precisamos lembrar que Minueto é uma peça composta em compasso de três por quatro ao


187 qual chamamos ternário. Conforme Cosme (1959), surgiu em 1650 e serviu para acompanhar uma dança francesa de mesmo nome na corte do rei Luís XIV. É importante registrar que há outra composição musical em compasso de três tempos chamada valsa. Embora possua certa semelhança, há características que a diferenciam do Minueto, sendo que a valsa popularizou-se através dos tempos, ficando conhecida, especialmente, como composição musical de três tempos para dança de salão. Os episódios aqui relatados mostram eventos marcados por três personagens. Há uma tentativa de solucionar o problema do triângulo amoroso na segunda parte (Allegro ma non troppo), porém, nas seqüências descritas, percebe-se que tal situação é insolúvel já que a possibilidade de resolvê-lo é ficção: foi edificada no plano da imaginação. Quando dois personagens saem da história finalmente se desfaz o triângulo amoroso e Maria Regina continua sua busca. Duas estrelas tornam-se seus dois objetos de interesse. A personagem passa a se movimentar de uma para outra sem conseguir sentir satisfação com uma ou outra. Há, portanto, a manutenção de uma situação em que três elementos estão novamente em jogo. Podemos relacionar tais fatos com os três tempos da composição chamada Minueto. Do início ao fim da peça, as notas se sucedem sempre obedecendo ao compasso ternário. Exatamente como no conto. Inicialmente com três personagens e, no final, com Maria Regina entre dois astros, os eventos vão seguindo seu percurso, mantendo o ritmo de três tempos como acontece com as notas musicais nos tempos do Minueto. É importante também mencionar que Minueto é uma composição musical completa e não um andamento da música como são as outras partes do conto. Da mesma forma, Machado, na quarta parte do conto, não se refere a um andamento do romance, pois extinguiu-se. Fala, porém, da vida de Maria Regina, que se move entre dois objetivos. Aborda o tema da eternidade, afirmando que, para a personagem exigente de perfeição e incapaz de sentir satisfação, o ritmo da vida será sempre de três tempos tal qual o Minueto. Na dança de mesmo nome, os pares se deslocam em movimentos variados. Tomam direções diversas, ora para um lado, ora para outro e a dança, como os dias, as semanas e a vida, vai

transcorrendo. O som da música acompanha todos os movimentos da dança. Assim também ocorre no texto de Machado de Assis. Durante todo o conto há a presença da música no enredo, todas as vezes em que a personagem executa a sonata ao piano. E, em outros momentos, a sonata aparece como pano de fundo enquanto a protagonista relembra fatos e conversas. No final do conto, há o registro de que a sonata do absoluto é um fundo musical permanente para a vida daquela que, não conseguindo satisfazer-se com o que encontrou de bom num ponto, continua a oscilar entre dois objetos. A única companhia absoluta, completa que lhe restou foi a da sonata. Machado de Assis se serve da teoria musical com muita propriedade e não por acaso usa a sonata para sugerir perfeição, porque sonata é uma composição musical em três ou quatro movimentos destinada a um instrumento de teclado. Suas diferentes partes têm começo, meio e fim, revelando-se completa. Movimentos são cada uma das partes que compõe a sonata. Os movimentos são escritos em diferentes andamentos, pois, dentro do mesmo tema, cada um deles tem algo diferente a comunicar. Formam um conjunto harmoniosamente belo, completo, perfeito e absoluto. O som da sonata, sempre presente no pano de fundo, complementa o clima significativo dos eventos. Também no conto “Trio em lá menor”, as partes são individuais, com características próprias. Juntas formam, como na sonata, um todo completo, com início, desenvolvimento e fim. Diante de tudo o que foi descrito pode-se dizer que não foi acidentalmente que Machado utilizou a linguagem musical para descrever o conto. Ficou demonstrado que o autor era profundo conhecedor da teoria musical, pois a música referendou o significado de cada uma das partes do conto em particular. Esteve presente no decorrer de toda a narrativa, deixando marcada sua função em todos os momentos. E, mais especialmente, quando a personagem principal colocava-se em silêncio para recordar. Nesses momentos as palavras calavam, mas o som musical continuava a ser escutado por Maria Regina como acompanhamento para seus pensamentos, acrescentando-lhes maior significância. Essa é uma amostra da intensa ligação


188 de Machado e das suas personagens com a música e, nesse conto, com a sonata, em particular.

Revela uma visão da vida, em as pessoas da sociedade de sua época têm ambições desmedidas em busca da perfeição numa sociedade imperfeita.

CONCLUSÃO No título “Trio em lá menor”, e em todo o desenrolar dos acontecimentos percebe-se claramente que a teoria musical, permeia os eventos, agregando significado ao desenrolar da trama e oferece ao leitor uma oportunidade extra de conhecimento, que o torna capaz de melhor entender a personalidade que o autor pretende para a personagem central de sua obra. A narrativa assume uma maior significância, não ficando limitada ao enredo em si, pois desvenda muito mais do que os simples fatos. O leitor, ao enxergar através do véu, que é o texto de Machado, abre um leque de interpretações e descobre a música. “Trio em lá menor” é mais uma obra machadiana em que o autor se releva como grande analista da alma humana. Pouco importam as circunstâncias que envolvem a protagonista, a não ser para perscrutar o que se passa em seu íntimo. A ânsia de perfeição que Maria Regina busca em seus namorados reflete a intenção de Machado em mostrar que a criatura humana jamais vai alcançar seus intentos, ficando irremediavelmente só, nesse caso, com sua música.

Ao utilizar-se da música como complemento do texto, Machado revelou seu profundo conhecimento e admiração por ela. Em cada momento em que se percebeu a presença da música entrelaçada ao conto, ela colaborou para que o leitor sentisse maior prazer na leitura. A música vai além dos limites que as palavras impõem. Seu entendimento é amplo e, principalmente, subjetivo, outra marca machadiana. REFERÊNCIAS ASSIS, Machado de. Trio em lá menor. In:__. Várias histórias. São Paulo: Mérito, 1961, p.125138. COSME, Luís. Introdução à música. 2. ed. porto Alegre: Globo. 1959. HARNONCOURT, Nikolaus. O discurso dos sons. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. KIEFER, Bruno. Elementos da linguagem musical. 5. ed. Porto Alegre: Movimento, 1987. TOMÁS, Lia. Ouvir o lógos: música e filosofia. São Paulo: UNESP, 2002. WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Fonte: Santa Cruz do Sul, v. 33 n especial, p. 88-98, jul., 2008. http://online.unisc.br/seer/index.php/signo/index

Ademar Macedo Mensagens Poéticas 111 Uma Trova Nacional “A bolsa ou a vida” – eu ouço e retruco as ironias: - Que leve as duas, seu moço, pois ambas estão vazias. (ROBERTO MEDEIROS/MG) Uma Trova Potiguar Nessa vida de rancores, de fatos imprevisíveis, coragem faz vencedores, concórdia faz invencíveis. (FABIANO WANDERLEY/RN)

Uma Trova Premiada 1999 > Niterói/RJ Tema > TIMIDEZ > Menção Honrosa Sou tímida, na verdade, e você já percebeu. Porém... me beije à vontade porque a tímida sou eu... (ALCY RIBEIRO S. MAIOR/RJ)


189 Simplesmente Poesia

Estrofe do Dia

– Eduardo A. O. Toledo/MG – POR SOBRE AS NUVENS.

Por decreto de um pai onipotente e por ordem expressa de Jesus, eu carrego pra sempre a minha cruz que de Deus eu ganhei como presente; e agradeço por eu ser tão contente sem ter mágoa, sem dor, sem fantasia, a minha vida é um poema de alegria que eu me sinto feliz em declamar; no “cotoco” da perna de Ademar Deus plantou a semente da poesia. (ADEMAR MACEDO/RN)

Por sobre as nuvens, meu sonho vai dedilhando, disperso, as ilusões que componho na pauta azul do universo. Por sobre as nuvens me ponho, preso às estrelas, imerso, como se fosse um risonho canteiro cheio de versos. Por sobre as nuvens, são tantos devaneios e acalentos, que o céu parece um coreto de estrelas doidas, vadias, declamando poesias sob as nuvens de um soneto!!!

Soneto do Dia – Sônia Sobreira/RJ – EU GOSTO DA CHUVA. Gosto da chuva, do seu marulhar, dos pingos caindo com precisão, do vento alegre que teima em soprar folhas molhadas caídas no chão.

Uma Trova de Ademar Vejo sentadas no chão, trajadas de desamor; crianças comendo pão amanteigado de dor! (ADEMAR MACEDO/RN)

Gosto da chuva, do seu gotejar, águas rolando, enxurrada em roldão deixando nas pedras brilho sem par, como o trabalho de fino artezão.

...E Suas Trovas Ficaram

Gosto da chuva a cair sobre mim, névoa de prata a envolver meu jardim, que todo encharcado, em brilhos reluz!

A morte não me intimida... Perfil de dor que eu descarto. A morte é somente a vida fazendo um segundo parto! (PAULO CESAR OUVERNEY/RJ)

Eu gosto de ouvir o som que ela faz, qual retinir dos mais finos cristais jorrando do céu, pedaços de luz! Fonte: Ademar Macedo

Elisabeth Souza Cruz Poesias MISSÃO TERRESTRE Não vim ao mundo para um breve passo, trouxe roteiro e amor dentro da mala...

Deus me mandou... e me estendeu Seu braço, deu-me os conselhos e eu sei bem da fala... Deus me disse assim: - “- Pega o teu espaço,


190 usando... o amor, o teu traje de gala... Prossegue o bom destino que eu te traço e faz teu rumo, azul, em alta escala!!”

É plantação... estio com fartura, É sensatez vestida de loucura... É breu... é noite... é Sol de meia dia!!!

E muito atenta à fala do bom Deus, estou na Terra e... esses caminhos meus são adornados pelo verbo amar...

BACHAREL

Porque eu tenho uma Rosa que viceja, não pego o lugar de quem quer que seja... eu me assumo e... conquisto o meu lugar! SEGREDO Viver a vida é parte de um mistério na encenação da qual somos atores, sem ter ensaio, sem qualquer critério, misto de sombra e luzes multicores... E nesta vida há sempre um revertério, um dissabor, espinhos entre as flores... Mas há segredos, sempre há um refrigério, há muita luz atrás dos bastidores! Então... comece a desvendar segredos, descubra o sol brilhando entre os seus medos... e ante a tristeza não se entregue ao léu! Ouvir estrelas no breu da tormenta é o grande alento de quem se alimenta do Pão da Vida... o Pão que vem do céu! AMOR DE EXTREMOS O nosso Amor é um mar cheio de extremos... Mar perigoso de navegação... Às vezes... temo e abandonar os remos parece a diretriz... a solução. Eu me amedronto, mas, ante o que temos, dou meia volta... vejo a salvação nos tempos de prazer... tantos... supremos, e eu sigo em frente, atrás dessa emoção... O nosso Amor é uma cumplicidade... é todo feito de diversidade.... é guerra... é fogo... é paz... é rebeldia...

Não entristeço a folha de papel que ela merece uma canção feliz... Então, eu pego um sonho, o meu batel, mudo o roteiro e inverto a diretriz!!!! Meu sonho é diplomado... é um bacharel contorna os desenganos com seu giz... Conhecedor da vida, em seu farnel, tem sempre uma ilusão... pedindo bis... Meu sonho... faz a vez de um navegante, pega a alegria, o seu farol constante, e adentra os mares onde houver tristeza... Eu sei que o mar nem sempre é meu amigo, mas eu me exponho às ondas do perigo, porque a esperança é sempre uma certeza! DIA DE RESGATE O caos, a fome, o medo, a frustração... e os trinta e três guerreiros no combate... dia após dia... a espera... a indecisão da vida, por um fio, em xeque-mate! Uma Esperança vence a escuridão, porque o mineiro bom, jamais se abate e enfrenta a fúria da Mineração para esperar o Dia de Resgate! O Chile comprovou a sua fibra e o mundo, em energias, todo vibra para trazer à Luz esses guerreiros! E o Atacama emerge para a história e escreve no deserto a trajetória da inesquecível saga dos Mineiros! Fonte: 1a. Antologia Poética Momento Litero Cultural


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Plínio Linhares Trovamando V - Helena A HELENA (minha musa inspiradora) As forças da natureza, Venham todas em amparo; Que haja maior riqueza, Para musa que preparo. Que ela tenha as virtudes, De um anjo divinal; E venha com atitudes, De uma dama bem formal. Desejo que seja linda, Num corpo escultural; Espírito na berlinda, Rainha universal. Veja o bem nos irmãos, Ampare o deserdado; Estenda sempre as mãos, A alguém desamparado. Que sorria e mais encante, O adulto e a criança; Doando, sempre avante, A paz e a esperança. E com um simples olhar, Faça o doente são; O aflito acalmar, Ao acenar de sua mão! Precisa o trovador, Receber a sua parcela; Deste anjo salvador, Do bem e paz, que ele sela. Presentes eu lhe darei, E todo dia bela rosa; Amor, afeto, farei, Pra ficar rindo e prosa. Pra ela, como fiz outrora, E deixando-a bem grata; Na noite, em qualquer hora,

Farei linda serenata. Passou bela, flutuante, Fui, perguntei-lhe o nome; E com voz estonteante, Disse só o seu prenome: - HELENA, a sua criada, Vejo que é bom rapaz; Só serei a sua amada, Se a trova for capaz! Andar firme, bem andante, Olhar doce e suave; Fala macia, bem galante, Linda, soberana ave. HELENA, musa perfeita, Ornamento, belo brinco; Deusa mor de gala seita, És, no TROVAMANDO CINCO... Por seu passado seguro, Pelo presente bem são; Para um feliz futuro, HELENA, quero sua mão! Lavarei seus pés com flores, Ao recebe-la por minha; Demonstrando meus amores, Mesmo quando não a tinha. Pra poder lhe merecer, Erradicarei defeitos; Farei puro o meu ser, E verás cantar meus feitos... Cercar-lhe-ei de afetos, Como mar cerca a terra; Tal qual avós aos netos, Como neblina na serra. Amparo eu lhe darei, E amor compreendido; O afeto que farei, Há de ser correspondido.


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Haverá companheirismo, E um trato fraternal; Dose de cavalheirismo, União no ideal. Dois corpos a caminhar, E as almas siamesas; Impossível separar, Nem com doutas sutilezas. DON QUIXOTE DE LA MANCHA, Eu, a derribar moinhos; Terei a grata ensancha, De mostrar os meus carinhos. Eu, andante cavaleiro, Montado no ROCINANTE; Para ser-lhe prazenteiro, E tornar apaixonante. És estrela que me guia, De luz deveras brilhante; Clara noite, como dia, Você é o meu calmante... Meu amor, por que mantém? Seu querer adormecido; O meu ser só se sustem, Com seu beijo aquecido. Que coisa linda o beijo! Exalta todo meu ser; Põe cérebro em lampejo, Dá vontade de viver... Aquele abraço doce, Que você me deu um dia; Não esqueço nem que fosse, O rei momo da folia!... Seu arfar, no meu ouvido, Nele, seu beijo ardente; Ao chamar-me de querido, Diz verdade, ou me mente? No dia em que me levou, Provar sua intimidade; A minh’alma se lançou, No orgasmo da verdade. Você me deu o maná,

Que dado ao prometido; E ainda o fará, Com amor arremetido. Seu afago, carinhoso, O olhar mais dardejante; Meu querer fica formoso, O meu ser eletrizante! Dançando, rostos colados, E corpos em conjunção; Ficam cupidos corados, E anjos em aflição... Você me põe no espaço, Naquele, o sideral; Sempre ledo no regaço, Do seu bom manancial. Me ame, minha querida, Deixe-me amar também; Extinga minha ferida, Meu amor, meu forte bem! O céu, dar-lhe-ei em verso, Pois na prosa, se esvai; Mas o grande universo, Pra lhe dar, só nosso PAI! Fundo extrato d’amor, Perfumarei meu querer; Far-lhe-ei do meu fulgor, Como o amanhecer. Para seu luxo, a teia, Tecerei com fios d’ouro; De amor, será a ceia, Imortal e porvindouro. Adorná-la e vestir-lhe, Faze-la mais preciosa; Do mar, pérolas roubar-lhe, Do jardim, mais bela rosa... Vamos, na realidade, HELENA, meu bem querer; Dar-lhe-ei a faculdade, Em mi’a fala escolher. Quero fazer, como dantes, Amar-lhe na velha forma; Sermos os finos amantes,


193 Na melhor, perfeita norma. Prazeirar a natureza, Atirar pedras no lago; Sentir a lua benfazeja, E acreditar em mago... Em todas as coisas belas, Igualá-las à você; E a mais bonita delas, Nunca há lhe merecer! Agrupar as nossas almas, Na mais doce lua de mel; Pairar sobre nuvens calmas, Sob bênçãos de lindo céu. Vindo fundo sentimento, Com amor forte, seguro; Dar-lhe-ei enlaçamento, De agora ao futuro... Qualidade de amor, Terá nosso matrimônio; Afeto e esplendor, Será o nosso binômio. Ajuda lhe prestarei, E você me cuidará; Bom amor receberei, Mais ternura hei de dar. O amor é como luz, E nas trevas ilumina; Fortalece e seduz, A sua saga, contamina. Os casais indiferentes, Ao verem nosso exemplo; Tornar-se-ão firmes crentes, E virão ao nosso templo. Que bom, é o bem viver, Que maldade, é discórdia; Ore muito pra não ter, Que pedir misericórdia. Para viver desta forma, E Ter essa harmonia; Há de se seguir a norma: Só com DEUS, em sintonia!

No jantar a luz de velas, Com a paz dos querubins; Comporei trovas mais belas, Na lira, dos serafins. Suave música de fundo, Aflorando sentimento; Dar-lhe-ei do mais fecundo, Amor e desprendimento. O casamento perfeito, Há de ter a BOA discórdia; Pois, de rosas, não há leito, Nem a forçada concórdia. Ter bom senso de ouvir, Mais a arte de calar; Para tudo discernir, E a vida aclamar. A fala mansa, macia, O cenho descontraído; Forma a paz e sacia, De bênçãos, um lar caído. Um casal prenhe de paz, Faz do lar, foco de luz; Qualquer treva se desfaz, Pois ali, está Jesus! O amor não tem espécie, É amor sem discussão; É natural de sua messe, E não tem comparação. Não existe confusão, Há de ter contentamento; Sem amor, é ilusão, O perfeito casamento. A relação em conflito, Só bem querer modifica; Faz bendito o maldito, E amor solidifica! Quer viver fatal inferno? É em casa atritar; Ampare e seja terno, Chegue até lisonjear. Casamento com problema, Já são muitos o da vida;


194 Só o amor como lema, Há de faze-la querida! Se no lar houver disputa, E só uma eu admito: De amor e de labuta, Pois a paz não é um mito. Com uma linda atafona, Lavarei seus pés com flores; Bem, que a fada abona, Prometendo meus amores... Enxugar com alvo linho, Com sândalo perfumado; Que fará do nosso ninho, Aposento consagrado. Enfim, ó bela HELENA, Você é minha gracinha; É a mais linda pequena, Entre moças da pracinha. Com HELENA, há certeza, De perene bem viver; A sua alma de beleza, Seu eterno bem querer. Você é o douro trigo, Saciando minha fome; É caminho que eu sigo, HELENA, sublime nome. Bela de TRÓIA, viesse, Mi’a HELENA, visitar; A sua beleza fenece, Se a minha comparar! Adjetivo gentílico, HELENA, igual à grego; Povo culto e idílico, Pelo amor têm apego. HELENA, larga estrada, Caminhou a minha vida; De sedenta na parada, É a água mais querida. Com um sexo respeitoso, Sempre, sempre sublimado; No sagaz harmonioso, Do OLIMPO, consagrado.

E será sempre assim, Pois és deusa que encanta; Muito mais que um jasmim, Minha musa, minha mantra! Eu tivesse um harém, Amaria a todas elas; Somente você porém, É a bela, das mais belas!... Sonho em ser um sultão, Dono de gema formosa; Todos reis invejarão, Você, pedra preciosa! A fausta tiara rica, Que orna cabeça nobre; Em vossa mercê, que fica, Para quem o sino dobre. E como agradecer, Inspiração de HELENA; Me fez mais enternecer, Com sua beleza serena. Despeço emocionado, Minha musa, minha luz; Sou o seu apaixonado, Com auspícios de JESUS! ANA PAULA, também AMANDA, VALQUIRIA, linda pequena; MARIA, a mais veneranda, A Quinta, bela HELENA... Digo sempre o que sinto, E inspiro em SUAS, leis; Para terminar o CINCO, E a começar o SEIS. O trovador sempre faz, Consigo auto-ajuda; Deseja ao LEITOR – PAZ! Mais amor, que tudo muda. Ao meu querido LEITOR, Sou grato em profusão; Minhas trovas de amor, Em você, INSPIRAÇÃO!... Fonte: http://blogdodegasdc.blogspot.com/2010/04/trovamando-v-helena.html


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Machado de Assis Adão e Eva UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo algumas pessoas íntimas à mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso. Não foi preciso mais; daí a pouco estavam todos discutindo a curiosidade, se era masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do paraíso devia caber a Eva ou a Adão. As senhoras diziam que a Adão, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora, que não dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da casa, D. Leonor: — Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e não mentia, porque era insigne na viola e na harpa, não menos que na teologia. Consultado, o juiz-de-fora respondeu que não havia matéria para opinião; porque as cousas no paraíso terrestre passaram-se de modo diferente do que está contado no primeiro livro do Pentateuco, que é apócrifo. Espanto geral, riso do carmelita que conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era também jovial e inventivo, e até amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada; nas cousas graves, era gravíssimo. — Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faça calar o Sr. Veloso. — Não o faço calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca há de sair tudo com boa significação. — Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo João Barbosa. — Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o Sr. Veloso conhece outros livros... — Conheço o autêntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce que D. Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se não mandam o contrário. — Vá lá, diga.

— Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus que criou o mundo, foi o Diabo... — Cruz! exclamaram as senhoras. — Não diga esse nome, pediu D. Leonor. — Sim, parece que... ia intervindo frei Bento. — Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu no pensamento, deixou-lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra, a fim de que ao próprio mal não ficasse a desesperança da salvação ou do benefício. E a ação divina mostrou-se logo porque, tendo o Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz, e assim se fez o primeiro dia. No segundo dia, em que foram criadas as águas, nasceram as tempestades e os furacões; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino. No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas só os vegetais sem fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porém, criou as árvores frutíferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o Tinhoso cavado abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto dia. No quinto foram criados os animais da terra, da água e do ar. Chegamos ao sexto dia, e aqui peço que redobrem de atenção. Não era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa. Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso não podia dar, e só com ruins instintos. Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros e grandes. Nem parou nisso a misericórdia divina; fez brotar um jardim de delícias, e para ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo. Um e outro caíram aos pés do Senhor, derramando lágrimas de gratidão. "Vivereis aqui", disse-lhe o Senhor, "e comereis de todos os frutos, menos o desta árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal."


196 Adão e Eva ouviram submissos; e ficando sós, olharam um para o outro, admirados; não pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons sentimentos, cogitava de armar um laço a Adão, e Adão tinha ímpetos de espancá-la. Agora, porém, embebiam-se na contemplação um do outro, ou na vista da natureza, que era esplêndida. Nunca até então viram ares tão puros, nem águas tão frescas, nem flores tão lindas e cheirosas, nem o sol tinha para nenhuma outra parte as mesmas torrentes de claridade. E dando as mãos percorreram tudo, a rir muito, nos primeiros dias, porque até então não sabiam rir. Não tinham a sensação do tempo. Não sentiam o peso da ociosidade; viviam da contemplação. De tarde iam ver morrer o sol e nascer a lua, e contar as estrelas, e raramente chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como dous anjos. Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. Não podia ir ao paraíso, onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; mas ouvindo um rumor no chão entre folhas secas, olhou e viu que era a serpente. Chamou-a alvoroçado. — Vem cá, serpe, fel rasteiro, peçonha das peçonhas, queres tu ser a embaixatriz de teu pai, para reaver as obras de teu pai? A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o Tinhoso deu-lhe a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a mandasse, — às estrelas, se lhe desse as asas da águia — ao mar, se lhe confiasse o segredo de respirar na água — ao fundo da terra, se lhe ensinasse o talento da formiga. E falava a maligna, falava à toa, sem parar, contente e pródiga da língua; mas o diabo interrompeu-a: — Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem à terra, mas tão-somente ao jardim de delícias, onde estão vivendo Adão e Eva. — Adão e Eva? ��� Sim, Adão e Eva. — Duas belas criaturas que vimos andar há tempos, altas e direitas como palmeiras? — Justamente. — Oh! detesto-os. Adão e Eva? Não, não, mandame a outro lugar. Detesto-os! Só a vista deles fazme padecer muito. Não hás de querer que lhes faça mal... — É justamente para isso.

— Deveras? Então vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda, dize depressa o que queres que faça. Que morda o calcanhar de Eva? Morderei... — Não, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrário. Há no jardim uma árvore, que é a da ciência do Bem e do Mal; eles não devem tocar nela, nem comer-lhe os frutos. Vai, entra, enrosca-te na árvore, e quando um deles ali passar, chama-o de mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que é a mais saborosa fruta do mundo; se te responder que não, tu insistirás, dizendo que é bastante comêla para conhecer o próprio segredo da vida. Vai, vai... — Vou; mas não falarei a Adão, falarei a Eva. Vou, vou. Que é o próprio segredo da vida, não? — Sim, o próprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do mal, e se te saíres bem, juro que terás a melhor parte na criação, que é a parte humana, porque terás muito calcanhar de Eva que morder, muito sangue de Adão em que deitar o vírus do mal... Vai, vai, não te esqueças... Esquecer? Já levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraíso, rastejou até a árvore do Bem e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu daí a pouco, caminhando sozinha, esbelta, com a segurança de uma rainha que sabe que ninguém lhe arrancará a coroa. A serpente, mordida de inveja, ia chamar a peçonha à língua, mas advertiu que estava ali às ordens do Tinhoso, e, com a voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu. — Quem me chama? — Sou eu, estou comendo desta fruta... — Desgraçada, é a árvore do Bem e do Mal! — Justamente. Conheço agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida. Anda, come e terás um grande poder na terra. — Não, pérfida! — Néscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que te digo, e serás legião, fundarás cidades, e chamar-te-ás Cleópatra, Dido, Semíramis; darás heróis do teu ventre, e serás Cornélia; ouvirás a voz do céu, e serás Débora; cantarás e serás Safo. E um dia, se Deus quiser descer à terra, escolherá as tuas entranhas, e chamar-te-ás Maria de Nazaré. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por uma estulta obediência. Nem será só isso. Toda a natureza te fará bela e mais bela. Cores das folhas verdes, cores do céu azul, vivas ou pálidas, cores da


197 noite, hão de refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, virá brincar nos teus cabelos. Os filhos do teu seio tecerão para ti as melhores vestiduras, comporão os mais finos aromas, e as aves te darão as suas plumas, e a terra as suas flores, tudo, tudo, tudo... Eva escutava impassível; Adão chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada valia a perda do paraíso, nem a ciência, nem o poder, nenhuma outra ilusão da terra. Dizendo isto, deram as mãos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa para dar conta ao Tinhoso. Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel: — Vai, arcanjo meu, desce ao paraíso terrestre, onde vivem Adão e Eva, e traze-os para a eterna bem-aventurança, que mereceram pela repulsa às instigações do Tinhoso. E logo o arcanjo, pondo na cabeça o elmo de diamante, que rutila como um milhar de sóis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Adão e Eva, e disse-lhes: — Salve, Adão e Eva. Vinde comigo para o paraíso, que merecestes pela repulsa às instigações do Tinhoso. Um e outro, atônitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obediência; então Gabriel deu as mãos a ambos, e os três subiram até à estância eterna, onde miríades de anjos os esperavam, cantando:

maléficos, às plantas daninhas e peçonhentas, ao ar impuro, à vida dos pântanos. Reinará nela a serpente que rasteja, babuja e morde, nenhuma criatura igual a vós porá entre tanta abominação a nota da esperança e da piedade. E foi assim que Adão e Eva entraram no céu, ao som de todas as cítaras, que uniam as suas notas em um hino aos dous egressos da criação... ... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros, embasbacados; em vez de explicação, ouviam uma narração enigmática, ou, pelo menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira que falou: — Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. Não foi isso que lhe pedimos, nem nada disso aconteceu, não é, frei Bento? — Lá o saberá o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo. E o juiz-de-fora, levando à boca uma colher de doce: — Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas também, D. Leonor, se tivesse acontecido, não estaríamos aqui saboreando este doce, que está, na verdade, uma cousa primorosa. É ainda aquela sua antiga doceira de Itapagipe? Fonte: ASSIS, Machado de. Várias Histórias. Ed. Martin Claret.

— Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue às obras do Tinhoso, aos animais ferozes e

J. B. Xavier O Camelô Tá vendo esse vidro, seu moço? Ele é meio esverdeado, Mas num é que foi pintado, É que lá dentro ele tinha Mastruço de qualidade, Misturado com Arnica

Com essa nem vô rimá, Mas só quero te alembrá Que esse chá muda a idade Do véio mais incapais, E depois de dois, três gole Ele aumenta sua prole


198 Como se fosse um rapais! Pois te digo ainda mais: Tenho Gengibre Moída, Pomada prarca caída, Cipó Mil Home também! Tenho chá de Erva Cidrêra, Chá de Boldo e Agrião, Chá de Losna e de Alfavaca E chá para dor nas cadêra. Remédio pro coração? Tenho de tudo, variado, Um oleozinho dormido Que tu tem que acreditá Que é o meu mais vendido. Com ele já vi curá As cicatriz das chifrada De muito home traído. Veja só esse outro aqui Noutro dia até vendi Pruma madame embuchada Que queria se livrá Daquela baita enrascada. Tu sabe que isso é difícir! E que bom é só fazê Mais depois da coisa feita Quem fica assim, na suspeita Costuma se escafedê. Tasquei esse óinho nela! Depois dei um chá de Losna Arrematei com Alecrim, Misturei então Banchá Depois botei Camomila E de Alcachofra um pouquinho, E fui picanu miudinho A Folha de Abacateiro Cum folha de laranjêra. Dei uma esquentada ligêra, Misturei Erva do Bicho Com Raiz de Carrapicho Mais Erva de Macaé, Juntei um pouco de Guaco E pus mais Alho Moído, Te digo, tava fedido, E prá mode miorá Aquele fedor disgramado, Misturei com Guaçatonga E um pouco de Guaraná. Bati tudo com Canela Tornei batê e dei préla. E esperei ela tomá.

A mulé saculejô, Saiu fumaça do ovido, E dispois fumaceou, Como o trem da minha terra Fumaceia quanu sobe As rampa daquelas serra. E ficô toda amarela, Depois foi ficanu inchada Pensei que fosse morrê. E deu três passo prá trais Arregalô bem os zóio, Como quem viu satanais Depois pegou esse óio Pagô e deitô a corrê. Não tenho curpa de nada, Porque foi ela que quis, Mas daquela infeliz Nada mais há de nascê. Tenho tamém Carobinha Depurativo do sangue, Que é bom tamém pro intestino, Tamém tenho Cavalinha Que prá mim é como ouro, Mió que o Carapiá! Tenho até Chapéu de Couro Que melhora até o fel, E que diz que cura tudo. Tenho tamém esse Mel Que é santo se for tomado Com chá de Cipó Cabeludo. Prá quem tem o sangue doce, Eu faço a combinação: Pata de Vaca, Ipê Roxo, Pedra ume e Graviola, Com carqueja e com Gervão. Tá tudo nesse potinho Que mermo pequenininho Prá diabete é a solução! Gervão, é tamém pros figo! Vô te contá como amigo: Não fica perto de gente Quando tomá o Gervão, Se tu tem prisão de ventre. Tamém tenho Quina-Quina E Casca de Romã Seca, Tenho Salvia e Sabugueiro Sassafrás, Salsaparrilha Que combate até a gota. E se tu tem dor na vrilha


199 Ou tem bolinha na boca Leva aqui Sete Sangria Toma um pôco todo dia Que tu há de miorá. Mas presta muita atenção, Tu não vá me errá a mão Na hora de misturá. Mió levá Unha de Gato, Que pode sê reumatismo, Mais se o pobrema fô sangue Ou até dor de barriga Mió tu levá Urtiga E dela fazê um chá! Mais ó, prestenção e num teima Num vai nela se encostá Porque essa danada queima! Vai levá? Pois pêra aí, Que a bula eu vô buscá Onde está as instrução De como se misturá! E o sinhô, que tá tossinu? Chega mais perto mermão! E pode tirá o capuz! Essa gripe vai embora Assim que o sinhô comprá Esse chá de Alcaçus! O seu pobrema é de pele? Meu amigo, não se afoba, Veja aqui nesse vidrinho Um chazinho de Andiroba. Esse acaba inflamação, E acaba as doença no cerne, Pois mesmo assim, diluidinho Ele acaba até com verme. Tenho Óleo de Aroeira, Chá de Arruda e Assa-Peixe, Só te peço que não deixe De tomá na hora certa. Tenho Chá de Cajueiro, Pomada de Boldo Chileno, Cana do Brejo e Carqueja . Tarvez, quem sabe tu teja Precisanu de um laxante, Que é prá mode tu sortá! Cipó de Cascara Sagrada, É que faz dá uma sortada... Então tenho aqui prá tu Essa bebida arretada Que vai te sortá o...pé! Ô será que teu pobrema

É só dá uma levantada Para podê namorá? Tenho aqui a solução, Que co teu pobrema acaba, Contra a falta de tesão Tome chá de Catuaba. Eu tenho Cordão de Frade Que é pramode tu mijá, Tenho Garra do Diabo, Capim Cidrão, Fayuiá, Tem Erva de Macaé, Passiflora, Pitangueira, E Semente de Butiá. Tenho Calêndula e Tília Milefólio e Douradinha, Tenho Artemísia e Bardana Que é prá boa digestão, Pirapora e Carobinha, E Erva de São João. Chegue mais perto seu moço, Prás moça não escuitá. Mas tenho tamém picão! Que apesar do nome feio Só serve prá digestão! E ainda tenho solução Feita só para quem ama, Seu nome é marapuama Que deixa forte e machão! E tu, de mão levantada Pode falá, senhorita! No que posso lhe servi? Como? Repete a pergunta E chega mais perto, se junta Aqui, com esse povão. Isso! Agora me diga Prá o que a minha amiga Deseja uma solução? “Ouvi que o senhor tem remédio para quem está amando! Pois eu to amando, seu moço, Sofrendo no coração! Eu tô no fundo do poço! Tô querendo alguma erva Que acabe co que me enerva E me tire desse fosso!” Pois óia aqui senhorita, A erva mais milagrosa A menina já tomô.


200 Nunca vi erva mais forte do que a erva do amô... O amô não vem em vidrinho, As veis vem devagarinho, Otras veis num furacão. Depois ele toma conta E arrasa co coração! O amô foi Deus que inventô Quando o mundo Ele criô Prá vida ficá bonita! E dessa remediarada Que tenho aqui nessa mala Se não quizé num acredita, Não tem nenhum pro seu caso. Num vá pensá que é descaso De camelô deslexado! É que o amô foi inventado

Lá pelo sexto dia. Deus tava em grande euforia Quando acabô de inventá, Mas tamém tava cansado, E parô prá descansá. Aí veio o sétimo dia, Que fez virá feriado! No oitavo dia o Senhor Foi embora deste mundo Deixando o amô criado,Esperando vê ele crescê. Mas Deus, muito atarefado, Se foi sem ter ensinado Como um amô desfazê! Fonte: http://www.jbxavier.com.br

Ialmar Pio Schneider Outra época e um poeta inesquecível Esses dias estava percorrendo os livros de minha biblioteca nas prateleiras e encontrei um volume de saudosa memória, autografado pelo autor, intitulado Bom Dia, Juventude ! Trata-se da obra do inspirado poeta de Caçapava do Sul – RS, hoje falecido, Francisco Guarany De Bem. O autógrafo é de 17 de maio de 1982, quando ele já andava beirando os 80 anos, pois sua data natalícia é 16 de abril de 1903. Lembro-me que o conheci na sede da Casa do Poeta-Riograndense, que naquela época funcionava nos Altos do Mercado Público, Sala nº 119, que bem poderia continuar até hoje naquele local, s.m.j., pois ele já escreveu naquela ocasião: “Em agradecimento aos relevantes serviços prestados pelo nosso incansável Fachinelli, inclusive a sua incessante batalha para que tenhamos um salão próprio, e que este salão nos seja doado pela Prefeitura de Porto Alegre. Espero que muito em breve vejamos a nossa bandeira tremulando sob o caloroso aplauso dos Srs. Vereadores e hasteada pelas mãos do nosso digno Prefeito.” Todavia, como escreveu no prefácio o literato Hugo Ramírez, ilustre membro da Academia Rio-

Grandense de Letras, a respeito, num texto lapidar, o seguinte: “São versos tocados de simplicidade e pureza de alma. Inspirados por distintos momentos e motivos, inebriam-se de romantismo e saturam a atmosfera de todo o volume com seu aroma amoroso. Os versos de amor são os mais significativos do caráter e da experiência do autor. Atingir a seu estágio com esta exuberância de bem querer é privilégio que Deus a poucos concede, tão sáfaros são freqüentemente os corações que muito viveram, eivados de amargura.” O ponto máximo de sua criação literária, está nas páginas 34 e 35, que aqui transcrevo como uma homenagem ao saudoso poeta amigo: “Pedra do Segredo – Prólogo – “Lá na escarpada da serra, ao lado da altaneira cidade de Caçapava do Sul, meu querido torrão natal, há uma pedra lendária em seus assombros. Lembro-me, quando pequenino ainda, passava as noites sem poder dormir pelo medo que eu sentia, horrorizado das assombrações que no galpão um pardo velho me contava dela. Hoje, para me redimir do mal que ela me fez sem ter nenhuma culpa, aqui


201 estou eu convidando a todos para oportunamente se dignarem conhecê-la. E, tenho a certeza absoluta que, ao defrontarem-se com aquela grandiosidade que lá está encravada, assim como eu o fiz quando a conheci, também todos vós ao conhecê-la primeiro se curvarão, respeitosamente, para depois beijá-la.”” E para complementar, transcrevo abaixo também, o soneto que ele dedicou ao saudoso amigo poeta e declamador Hugo Britto, e com o qual ficou conhecido como o poeta da Pedra do Segredo: “Muito longe daqui, lá em Caçapava, Há uma pedra lendária em seus assombros. Ouviam nela um arrulhar de pombos, Ou os gemidos de uma antiga escrava. Na medida que a serra se desbrava, A lenda morre num montão de escombros. Sonhando, um peso me saiu dos ombros: A história dela mal contada estava. E lá está a pedra majestosa e bela ! Ninguém sabe dizer que pedra é aquela, Todos a chamam Pedra do Segredo.

É um diamante engastado lá na serra, Que Deus, olhando para minha terra, Deixou por gosto lhe cair do dedo.” Hoje, decorridos tantos anos, ainda me assaltam aqueles dias em atropelo na lembrança do que não volta mais. Mas este viver me ensinou que a convivência poética permanece, como naquele autógrafo: “Para o prezado amigo…, com um caloroso abraço, subscrevo-me. Ass. … Porto Alegre, 17-5-82”, em sua letra tremida e miúda prestes a octogenário. Que Deus vele por ele, enquanto eu recito minha quadra: Os versos que a gente escreve, mesmo que sejam banais, é um pouco da vida breve que não volta nunca mais ! Até outra oportunidade. Fonte: http://ialmarpioschneider.blogspot.com/

José Geraldo Martinez Lendas da Infância Um dia me contaram uma lenda .

Fui correndo comprar .

Existem nas matas, a Caipora, meio gente e meio bicho, com os pés ao contrário. Adora fumar. Só permite que alguém entre mata à dentro se, antes, colocar fumo ou cigarro no pé de qualquer árvore .

Para me garantir, comprei logo cinco maços de cigarros e um pedaço de fumo .

Aquilo de certa forma me causou expectativa, mesmo porque, papai havia me convidado para pescar e justamente num córrego margeado por pequena mata. Chegado o dia , preparei toda tralha de pesca: anzóis, iscas , varinhas, picuá , lanches e guloseimas… Não podia me esquecer do cigarro da Caipora .

Seguimos pela manhã que se abria quente , ensolarada e de poucas nuvens . Conosco levamos um amigo , “Girico”, este apelido lhe foi dado por seu tamanho . Era franzino , miúdo , a ponto de mostrar as costelas todas . “Girico” é o nome dado ao jegue tão usado e querido pelos nortistas ! Ele era pequeno porém, forte .Garoto astuto e destemido, criado a vida toda no mato, nas fazendas da região, até que seu pai acometido de séria


202 doença teve que abandonar a vida no campo e voltar para cidade.

Quis continuar o assunto, mas papai logo me interrompeu com os dedos nos lábios . - Psiuu ! Tem peixe mordendo a isca !

Chegamos finalmente . Logo de cara, Girico fisgou um piau, peixe típico da região e com ele fazia festa, como se desafiando a mim e meu pai. Engraçado que seguidamente , Girico fisgava algum peixe , enquanto a gente já desanimava de molhar as minhocas . E a cada fisgada, a mesma festa. Lembrei-me finalmente da Caipora , depois de escutar um assobio vindo da mata .

O dia passou, voltamos para casa felizes. Com alguns pequenos peixes, menos Girico que estava com um farto bornal de piaus grandes. Não dormi pensando no jardim da minha casa. Lembrei-me de algumas vezes que escutara assobiar e achava que podia ser alguma pessoa passando pela rua.

Nem perguntei ao meu pai o que seria. Fui logo correndo ao pé de uma velha figueira e lá colocando todos os maços de cigarro, inclusive o pedaço de fumo .Vai se a tal Caipora era do tempo do meu avô ?

No dia seguinte, fui correndo comprar cigarros. Claro! dos mais baratos, afinal minha mesada era pequena e não podia consumí-la em cigarros para Caipora. Gostava de sorvetes , cinemas , enfim… guloseimas muitas. Aprendi a lição e coloquei apenas um maço de cigarros no meio dos antúrios da mamãe .

Passamos o dia alí pescando, brincando e nos banhando nas águas do rio Baguaçu , no oeste paulista . A noite chegava e já nos preparávamos para dormir, depois de um farto lanche servido pelo meu pai. Girico comia feito louco ! O que tinha de magrinho, tinha de guloso. Comeu quatro pães com presunto e queijo tomou uma guaraná de dois litros inteiras, três bananas nanicas ! Arrumamos as camas improvisadas com velhos cobertores, dormimos . A noite foi de certa forma longa, não parava de pensar na tal Caipora. Tremia de medo à qualquer barulho na mata. Girico, aparentemente, dormia que chegava a roncar. O dia amanheceu, voltamos à pescaria. Curiosamente fui olhar os cigarros colocados para Caipora . Para minha surpresa, estava só o pedaço de fumo! Os cigarros em maço desapareceram. Voltei correndo contar para meu pai me que deu pouca atenção, ironicamente brincou dizendo que aquela Caipora deveria ser urbana, acostumada à cidade .

Nosso jardim era farto de plantas e arbustos e muito verde, com samambaias, pinheiros e uma enorme laranjeira. Era do tipo lima, que papai não deixou cortar dado a doçura da fruta e os anos que estava ali. No outro dia bem cedo, mal tomei o café, fui olhar se o cigarro estava entre os antúrios . Viva ! Não estava ! Havia mesmo no jardim ,uma Caipora . Sai correndo contar aos amigos , feliz da vida. Os dias se passaram . A cada amanhecer era um maço de cigarros, depois doces , frutas , assim por diante … Até que um dia, contando para mamãe, ela indignada, resolveu comigo ficar escondida para vermos a tal Caipora .

Criança, ainda, perguntei :

Ficamos no quarto, com a janela levemente aberta, que mal cabiam meus olhos, metade da minha face. Pouco respirava e o coração acelerado à medida que as horas iam passando. De repente ,um barulho… Parei de respirar, mas a minha curiosidade era maior. Permaneci de olhos na fresta da janela. Qual foi minha surpresa ! Girico comia tranquilamente as frutas e doces todos , guardava os cigarros e saia.

- E na cidade pai, onde a Caipora moraria ? - Nos jardins das casas, em meio às folhagens .

Assim deve ter sido à beira do rio . Ele seria a Caipora urbana que meu pai falava .

Fiquei pensando, preocupado. Será que no jardim da minha casa existe alguma Caipora ?

Muita decepção! O engraçado era que quando chegava em nosso jardim, pressentindo alguma coisa, assobiava como a Caipora colocando-me rapidamente embaixo das cobertas .


203

Passados os dias, na casa de uma tia, ela me contava sobre a lenda de um tal “boto cor de rosa”, que encantava as mulheres com seu canto! Dias depois, minha prima desapareceu e voltou grávida . Saí correndo pela rua esparramando a notícia, gritando : -Tem um boto no jardim da minha tia, minha prima está grávida ! Quem será ? quem será ? Esta foi a última surra que tomei naquele ano. Afinal, chegavam as festas natalinas e me preparava para receber papai-noel. José Geraldo Martinez (1958) Músico, arranjador, produtor fonográfico, escritor, poeta, cronista, compositor com mais de cento e cinquenta obras gravadas e editadas Ninguém melhor que a nossa mãe para fazer a nossa biografia ! Então lá vai : Chegava a primavera . Os flamboyans floridos enfeitavam as praças de nossa cidade . Araçatuba: “Terra dos Araçás , “Capital do Boi Gordo “. 14/09/58. Nascia ele , José Geraldo, das mãos habilidosas de Dr. Creso Machado Pinto. Alegria só no lar, pais professores : José Martins Rodrigues e Mercilia Rodrigues .

Louro , olhos azuis, a alegria de ser gente manifestava-se no choro forte da criança nascida. Cresceu conhecendo cada pedacinho da terra. Cada pedacinho de chão . Trocava gatos por pombos . Pescava no “Machadinho”. Nadava no ribeirão . Ouvia as histórias contadas , cantadas , Se deixassem as madrugadas. Artes ? quantas ! Mas cresceu … Homem feito . Faculdade fez . Filhos dele e de outros, porque também adotou. Casado e descasado . Amar, isto ele amou ! Teve muito a receber . Mas também muito doou . Se canta a melodia De seu grande coração É porque lá , algum dia Alguém lhe estendeu a mão Bem feito , Sem jeito , Alegre , Bonachão Traça riscos , Arabescos Com toda ternura . É filho da terra . É cheiro do chão . Amor e candura Tamanha leveza Do seu coração Mercilia Rodrigues Fonte: http://www.josegeraldomartinez.hpg.ig.com.br

Cecília Meireles Romanceiro da Inconfidência Romanceiro da Inconfidência é uma coletânea de poemas da escritora brasileira Cecília Meireles, publicada em 1953, que conta a História de Minas

dos inícios da colonização no século XVII até a Inconfidência Mineira, revolta ocorrida em fins do século XVIII na então Capitania de Minas Gerais.


204

Em 85 “romances”, mais quatro “cenários” e outros de prólogo e êxodo, Cecília evoca primeiro a escravidão dos africanos na região central do planalto em episódios da exploração do ouro e dos diamantes no século 18; logo o centro da coletânea é dedicado ao destino dos heróis da chamada “Inconfidência Mineira” – Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Tomás Antônio Gonzaga, sua noiva e amada Marília de Dirceu bem como de outras figuras históricas implicadas no acontecimento, como D. Maria I a louca, na altura Rainha de Portugal. Mais lírica do que narrativa, a obra assume o lado dos derrotados (transformados depois em heróis da Independência do Brasil) denunciando o sistema colonial que favorece a exploração dos desvalidos: A terra tão rica e – ó almas inertes! – o povo tão pobre… Ninguém que proteste! (…) (in: Do animoso Alferes, Romance XXVII) Estes branquinhos do Reino nos querem tomar a terra: porém, mais tarde ou mais cedo, os deitamos fora dela. (in: ‘Do sapateiro Romance XLII) A reinterpretação da história serve no entanto de ponto de partida para uma reflexão filósofica e metafísica sobre a condição humana. Surgindo Tiradentes como um avatar de Cristo e sofrendo o sacrifício do bode expiatório, ele se torna num redentor do Brasil, que abriria a nova era da liberdade. “Construindo com o Romanceiro da inconfidência um mosaico em que cristalizariam vibrações captadas na terceira margem da memória coletiva, Cecília consolidava uma teia de mitos suscetíveis de fortalecer o sentimento da identidade brasileira“(Uteza, 2006 : p. 294). Podemos dividir os fatos que compõem o Romanceiro em três partes ou ciclos:

Aí parece haver uma ouro/diamante/liberdade.

gradação

proposital:

Como o ouro e o diamante, a liberdade brilhou intensamente nas Minas Gerais, mas como o ouro e o diamante, a liberdade só trouxe desgraças, masmorras e mortes…. a) Ciclo do ouro O cenário colocado para o ciclo do ouro prenuncia também o ciclo da liberdade, no qual “a mão do Alferes de longe acena” como a querer dizer: Adeus! que trabalhar vou para todos!… Mas essa mão que acena à liberdade e ao homem livre será enforcada mais tarde. Por enquanto, vejamos o alvorecer do ouro que vai brilhar intensamente nas Minas Gerais, despertando a cobiça e ganância dos homens e, quem sabe, o sonho de liberdade dos inconfidentes que nasceria também do ouro da terra. Descobre-se o ouro e, por causa dele, o homem vai matando animais, pessoas, florestas e tudo que lhe atravessa o caminho. Desbrava-se a mata. Surgem montanhas douradas de ouro e de cobiça que despertam uma verdadeira alucinação: Selvas, montanhas e rios estão transidos de pasmo. É que avançam, terra adentro, os homens alucinados. (Romance I) E gerações e mais gerações de netos afundariam nesse abismo: Que a sede de ouro é sem cura, e, por ela subjugados, os homens matam-se e morrem, ficam mortos, mas não fartos. (ib .ib)

b) ciclo do diamante;

Como o ouro que brota da terra, brotam também “as sinistras rivalidades”, ladrões e contrabandistas, – um clima de intranqüilidade:

c) ciclo da liberdade ou inconfidência com sua ascensão e queda.

todos pedem ouro e prata, e estendem punhos severos,

a) ciclo do ouro;


205 mas vão sendo fabricadas muitas algemas de ferro.

O ouro lhe tiraria o “t” da terra e o “s” da serra e ele erra cativo, sem liberdade, com os elos de ferro da escravidão…

(Romance II) E por amor, pelo ouro, uma donzela é assassinada pela mão de seu pai. O ouro não permitia que a donzela acenasse a enasse a um amor “de condição desigual” o seu lencinho” de sonho e sal” Surge Felipe dos Santos, que assanha a fúria do Conde de Assumar. É morto e esquartejado, mas o herói que tomba no Arraial do Ouro Podre ficará como exemplo perene de força e de coragem para os que virão. O tirano conde haveria de chorar porque quem ri, chora também. O Brasil ainda era criança – um “menino” apenas. Nasceriam outros como Felipe dos Santos: Dorme, meu menino, dorme, - que Deus te ensine a lição dos que sofrerem neste mundo violência e perseguição Morreu Felipe dos Santos; outros, porém, nascerão. (Romance V) Cria-se o quinto do ouro, cobrado a ferro e fogo: a Coroa precisava de ouro. Há logros: D. Rodrigo César e Sebastião Fernandes enviam para a coroa caixotes selados com “grãos de chumbo” em vez de grãos de ouro. Ai, que o Monarca procura os que vão ser castigados. E o “quinto falsificado” se tornaria o décuplo de forcas e degredos para a dourada colônia! Pela madrugada fria, rompe o canto do negro no serviço de catar o ouro, enquanto o patrão dorme e sonha. O negro pena e chora, canta e ri na saudade da serra, na imensidão da terra. E na sua vida escrava, ele erra sem terra, sem serra, sem nada: (Deus do céu, como é possível! penar tanto e não ter nada!) (Romance VII)

Mas o ouro que brotava da terra não cativara apenas o preto, como Chico, que também já fora rei “lá na banda em que corre o Congo”: também os brancos foram atirados naquela lama que alimentava a ganância de reis e rainhas: Hoje, os brancos também, meu povo, são tristes cativos. (Romance VIII) Santa Ifigênia, princesa núbia, protetora dos negros, desce às minas “vira-e-sai”, depois de amenizar o sofrimento deles. As pessoas, por causa do ouro, iam-se embrutecendo: movido pelo ódio, um contratador, quase assassinou um ouvidor, dentro de uma igreja, porque este, enamorado, arremessara uma flor a uma donzela. Os filhos do almotacé (inspetor de pesos e medidas), sete crianças, rezam diante de Nossa Senhora da Ajuda. Joaquim José é uma delas. As crianças pedem à Virgem que o salve “do triste destino que vai padecer”. Será em vão. A virgem não poderá atendê-los, mesmo sendo crianças. Mais forte do que um pedido de criança é o destino traçado para um homem! Mesmo sendo seis e irmãos do sentenciado! (Lá vai um menino entre seis irmãos. Senhora da Ajuda, pelo vosso nome, estendei-lhe as mãos!) (Romance XII) O pedido agora (entre parênteses) é da poetisa à Virgem. Não será atendida: mais forte do que o pedido de um poeta é o destino traçado para um homem! Mas, por enquanto, reina a bonança: “os tempos são de ouro”. A tempestade virá depois, em 1792, com a execução.


206 Antes de chegar a forca, porém, outro metal brilhará intensamente nas Minas Gerais: os diamantes do Tejuco, depois Diamantina. b) Ciclo do diamante Continua a corrida alucinante. Agora é a vez do diamante nas regiões do Serro Frio e do Tejuco, onde vive o contratador João Fernandes, “dono da terra opulenta”. Chega às suas terras, com o fim de persegui-lo, o Conde de Valadares, homem enganoso e fingido. Hospeda na casa de João, que lhe abre a casa e o coração das mulatas, menos o de Chica da Silva. Sua riqueza é imensa e o fingido conde suspira de cobiça: Deste tejuco não volto sem ter metade das lavras, metade das lavras de ouro, mais outro tanto das catas; sem meu cofre de diamantes, todos estrelas sem jaça, - que para os nobres do Reino é que este povo trabalha!

Maldito o conde, e maldito esse ouro que faz escravos, esse ouro que faz algemas, que levanta densos muros para as grades das cadeias, que arma nas praças as forças, lavra as injustas sentenças, arrasta pelos caminhos vítimas que se esquartejam! (Romance XVII) Os velhos do Tejuco, na sua experiência, pensam com a amargura na “febre que corta o Serro Frio”. João Fernandes, que até então era senhor opulento, fora levado num navio “igual a um negro fugido”, o que dá margem a esta reflexão da autora: (Que tudo acaba! Quem diz que montanha de ouro não desaba?) (Romance XVIII) Acabara-se o tempo de João Fernandes e de Chica da Silva, cravejada de brilhantes. Mas:

(Romance XIII) O romance XIV apresenta Chica da Silva no seu império de luxo, resplandecente de ouro e diamante. Comparada à rainha de Sabá, ela tinha mais brilho que Santa Ifigênia, a princesa núbia, em dias de festa:

Sobre o tempo vem mais tempo. mandam sempre os que são grandes: e é grandeza de ministros roubar hoje como dantes vão-se as minas nos navios… Pela terra despojada, ficam lágrimas e sangue.

(Coisa igual nunca se viu. Dom João Quinto, rei famoso, não teve mulher assim!)

(Romance XIX)

Vendo o conde tão interessado pelo João, Chica cisma nessa falsa amizade e previne a João Fernandes: Hoje, todo o mundo corre, Senhor, atrás de riqueza. (Romance XV) Dito e feito: o conde, traindo a hospedagem de João Fernandes, leva-o preso, como Chica da Silva pressentira. É a ambição do ouro (ou do diamante, que é sempre a mesma coisa) que a todos embriaga e corrói:

Mas o ouro e o diamante, que brilharam tão intensamente nas Minas Gerais, eram apenas prenúncio de um brilho maior. Um sonho milenar, um ideal de um sol que despertaria – o sol da liberdade que a todos iluminaria e que nem rei nem rainha, por mais despóticos que sejam, podem tirar do homem! Não importa que haja eclipses de vez em quando: o sol sempre volta a brilhar depois de um eclipse… c) Ciclo da liberdade A poesia apresenta o cenário onde vão se desenrolar os fatos: enumeração, sobretudo, dos lugares e


207 fixação na névoa que chega às ruas, move a ilusão de tempo e figuras e que trará, fatalmente, o pranto e a saudade: A névoa que se adensa e vai formando nublados reinos de saudade e pranto. O “país da Arcádia”, sediado na Vila Rica de outrora (Ouro Preto), com seus pastores e rebanhos, Nises, Marílias e Glauceste não passou de um ideal na literatura. Pelos céus, nuvens negras de ódio e ambições ameaçam a doutorada terra de Ouro Preto: uma “nuvem de lágrimas” está prestes a desabar sobre “o país da Arcádia” – a “pastoral dourada”:

Com pouco mais surgirá a bandeira da liberdade… “Atrás de portas fechadas”, os líderes de “fardas e casacas (= militares, poetas), junto com batinas pretas” discutem e planejam a inconfidência. A bandeira com seu lema é escolhida e há um sobressalto, quando se fala em liberdade: E os seus tristes inventores já são réus – pois se atreveram a falar em Liberdade (que ninguém sabe o que seja), Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda!)

O país da Arcádia, súbito, escurece, em nuvem de lágrimas. Acabou-se a alegre pastoral dourada: pelas nuvens baixas, a tormenta cresce.

(Romance XXIV)

(Romance XX)

E na “semana santa de 1789″, enquanto na França a liberdade rompia os grilhões da Bastilha, nas terras douradas de Minas, a mesma idéia se fermentava para ser depois enforcada, na pessoa de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes:

E a Arcádia serena ficava cada vez mais carregada: agitação, correrias, ódio, ambições, países que se libertam, “a Europa a ferver em guerras”. Portugal com uma rainha louca: - um imenso tumulto humano. As idéias fervilhavam as mentes de padres e poetas. Mas, por trás das janelas, ouvidos que escutam…

Por causa dessa palavra – espinha dorsal do homem de todos os tempos – um rio de sangue está iminente: uma carta anônima que se recebeu “fala de rios propínquos / rios de lágrimas e sangue / que vão correr por aqui”.

Deus, no céu revolto, seu destino escreve. Em baixo, na terra, ninguém o protege; é o talpídeo , o louco, - o animoso Alferes.

O país da Arcádia estava carregado de “idéias”. (Romance XXVII) Um príncipe que morre, filho de D. MariaI, a rainha louca, em 1788, é também uma esperança que morre. Nas exéquias do príncipe, muita agitação. Alguma coisa está sendo tramada – “já ninguém quer ser vassalo” e: A palavra Liberdade vive na boca de todos: quem não a proclama aos gritos, murmura-a em tímido sopro. (Romance XXIII)

Mas “no grande espelho do tempo”, a poetisa vê também “o impostor caloteiro” Joaquim Silvério : (quem em tremendos labirintos prende os homens indefesos e beija os pés dos ministros!) (Romance XXVIII) No “riso dos tropeiros” está colocado um aspecto de Tiradentes que a tradição confirma (inclusive um lira de Gonzaga), a loucura, pois:


208

falava contra o governo, contra as leis de Portugal. (Romance XXX)

Quem more, para dar vida? Quem quer arriscar seu sangue?) E é exatamente esse comodismo, dos bons que é a força dos maus, dos traidores, dos déspotas da liberdade:

Sem dúvida, essa loucura deve ser entendida de outra forma: a audácia de um homem que se levanta, sem força e sem armas, contra um governo despótico e tirânico. É o que parece querer dizer a poetisa, no Romance XXXI:

Mas os traidores labutam nas funestas oficinas: vão e vêm as sentinelas passam cartas de denúncia…

(Pobre daquele que sonha fazer bem – grande ousadia quando não passa de Alferes de cavalaria!)

Na “noite escura” de 10 de maio de 1789, prenderam o Tiradentes com seus pensamentos de liberdade. Há um lamento profundo de desespero e dor por estar sozinho na luta pela liberdade:

É certamente por isso que “o povo todo seria”, porque o povo nunca ri sem razão… Aliás, neste sentido, é preciso também o depoimento do “cigano que viu chegar o Alferes”, quando diz no Romance XXXIII:

Minas da minha esperança, Minas do meu desespero! Agarram-me os soldados, como qualquer bandoleiro. Vim trabalhar para todos, e abandonado me vejo. Todos tremem. Todos fogem. A quem dediquei meu zelo?

(Fala e pensa como um vivo, mas deve estar condenado. Tem qualquer coisa no juízo, mas em ser um desvairado.) o Romance XXXIV, confrontando o delator Joaquim Silvério com Judas, a escritora conclui que aquele levou a melhor, pois ele (Judas) encontra remorso / coisa que não te (= a Silvério) acontece. Fechando o romance, entre parênteses, há uma reflexão poética profunda, quando fala da “força de vermes”, ou seja, dos delatores, dos maus, enquanto os bons apenas “sonham”. (Pelos caminhos do mundo, nenhum destino se perde: há os grandes sonhos dos homens e a surda força dos vermes.) Aliás, é o que ocorre também no romance “do suspiroso Alferes”, onde há, igualmente, um lamento profundo sobre o comodismo do homem face à situação que o envolve: (Todos querem liberdade, mas quem por ela trabalha?) (O humano resgate custa pesadas carnificinas!

(Romance XXXXVII) E o medo e a ansiedade se espalham por toda Minas Gerais. No fim do mesmo maio, prendem os outros suspeitos: Andam as quatro comarcas em grande desassossego: vão soldados, vêm soldados; tremem os brancos e os negros. Se já levaram Gonzaga e Alvarenga, mas Toledo! Se a Cláudio mandam recados para que se esconda a tempo! Outros implicados menores vão sendo presos. Há “conversas indignadas” – há também “testemunha falsa”. Há até mesmo um “embuçado” envolto em panos e mistério que pretende salvar o poeta Cláudio Manuel da Costa. Mas todos terão seu fim. O padre Rolim, famoso por suas safadezas, estava na iminência de ser preso. O problema era determinar o seu crime, já que, além da suspeita de


209 inconfidente, era culpado também, segundo o falatório:

eternos” como um eco sombrio que chama ao ajuste de contas e à condenação eterna:

por ter arrombado a mesa de um juiz, em certa devassa; por extravio de pedras; por causa de uma mulata; por causa de uma donzela; por uma mulher casada.

O vós, que não sabeis do Inferno, olhai, vinde vê-lo, o seu nome é só – PULSILANIMIDADE.

(Romance XLV) Mas o padre, que não era nada bobo, enquanto as autoridades discutiam a sua prisão, “pulando cercas e muros”, fugiu, levando consigo os seus sete pecados ou setenta -e sete… Nos “seqüestros” das casas e bens, “tudo é visto e resolvido” pelos executores da lei, havia de tudo, até mesmo: as sugestões perigosas de França e Estados Unidos Mably, Voltaire e outros tantos, que são todos libertinos… (Romance XLVII) Antes de prosseguir no trabalho de dar fim aos inconfidentes, a autora interrompe a narrativa para fazer uma belíssima reflexão na Fala aos Pusilânimes, na qual condena os que não tiveram a coragem, a audácia de acender o pavio da chama da liberdade; os que sonharam e deixaram que seus sonhos fossem pelos espaços infindos, como bolhas etéreas… Mas o fenômeno é eterno e universal – a estirpe dos pusilânimes sempre existiu e existirá na face da terra: - só por serdes os pusilânimes, os da pusilânime estirpe, que atravessa a história do mundo em todas as datas e raças, como veia de sangue impuro queimando as puras primaveras, enfraquecendo o sonho humano quando as auroras desabrocham! E a liberdade que foi traída pela pusilanimidade dos que sonhavam com ela ficará gravada nos “céus

mistério paira sobre o fim do poeta Cláudio, que é também a versão da história. Suicídio? Fuga? Rapto? – As dúvidas parecem justificáveis: Cláudio era secretário do governo e afilhado de João Fernandes. Daí o interesse por livrá-lo da masmorra e do desterro. De qualquer modo paira o mistério: Entre esta porta e esta ponte, fica o mistério parado. Aqui, Glauceste Satúrnio , morto, ou vivo disfarçado, deixou de existir no mundo em fábula arrebatado. (Romance XLIX) Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu da Marília, também tem fim sombrio na masmorra da Ilha das Cobras, interrompendo, assim, o enxoval de Maria Dorotéia (Marília) de quem era noivo. Depois foi desterrado para as terras da África negra (Moçambique), onde se casa com Juliana Mascarenhas , deixando do outro lado do mar e da vida a pobre e inconsolável Marília a quem celebrara em inúmeras e ardentes liras de amor, em Marília de Dirceu. Enfim, em questões amorosas, o homem é sempre um pombo enigmático… Há dúvidas quanto à sua real participação na Inconfidência como procura demostrar Rodrigues Lapa em estudo a seu respeito. Aliás, o próprio Gonzaga em uma das liras de Marília de Dirceu procura se inocentar junto ao Visconde de Barbacena. Cecília Meireles também deixa transparecer a mesma dúvida, ao indagar: Inocente, culpado? Enganoso? Sincero?


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(Romance LV) Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado a 21 de abril de 1792, três anos depois de ser preso. Como atestam diversas passagens do Romantismo, era considerado louco por causa das idéias que tinha. Depois de morto, virou herói: Que os heróis chegam à gloria só depois de degolados. Antes, recebem apenas ou compaixão ou desdém. (Romance XLIV) A passos lentos, ele caminha sereno para o cadafalso onde o espera, um tanto aflito, o negro Capitania, que o executará. E diz o mártir: Ò, permita que te beije os pés e as mãos…Nem te importe arrancar-me este vestido… Pois também na cruz, despido morreu quem salva da morte! E o negro Capitania lamenta a sua sorte de carrasco oficial do grande sonho humano – a liberdade: Vede o carrasco ajoelhado, todo em lágrimas lavado, lamentar a sua sorte! (Romance LVIII) Só um carrasco lavou-se em lágrimas! Os outros seriam lavados com o sangue daquele mártir que tombava… O cenário agora era desolador e triste: nada mais restava dos sonhos e ideais pretéritos. Tudo fora destruído pelas mãos dos delatores da vida, porque a vida está na liberdade.

prisioneira do seu próprio destino: ela que executava tantos, com masmorras , desterros, forcas, torna-se prisioneira da loucura que é pior que qualquer masmorra, desterro ou morte de forca. O destino agora se voltava contra a grande déspota da liberdade! Ai, que a filha da Marianinha jaz em cárcere verdadeiro, sem grade por onde se aviste esperança, tempo, luzeiro… prisão perpétua, exílio estranho, sem juiz, sentença ou carcereiro… Terras de Angola e Moçambique, mais doce é vosso cativeiro! (Romance LXXIV) Pela “comarca do Rio das Mortes (= S.João Del-Rei), Dona Bárbara Eliodora, “a estrela do norte” do poeta Alvarenga Peixoto, naufragava em lágrimas e mágoas: seu doce Alceu também fora desterrado para as longínquas terras d´África, em Angola (Ambaca). Agora as amenas colinas de outrora, onde o gado pastava, onde as flores sorriam, onde os regatos corriam, onde os pássaros cantavam, eram um montão de ruínas e desolação ante o olhar magoado e amargurado da rica e poética Eliodora. Pela “comarca do Rio das Mortes” também dormia o padre Toledo, “paulista de grande raça / mação, conforme o seu tempo”. Pela “comarca do Rio das Mortes” também passara e se fora Maria Ifigênia, fruto primaveril do casal Bárbara – Alvarenga: Vai ver sua mãe demente Vai ver seu pai degredado… (Romance LXXVII)

Tudo agora estava reduzido a “um chão sem ouro nem diamante”. Nada mais brilhava nas terras douradas de Minas Gerais!

Também Marília se desfigurou pelo tempo e pela Inconfidência. O seu retrato agora é o de uma mulher macerada pela dor:

Também os tiranos tiveram o seu fim. A rainha D. Maria I, que mandara executar os inconfidentes da sua coroa, acaba se tornando

já não pertence mais à terra: é só na morte que está viva


211 Agora, tudo jaz em silêncio: amor, inveja, ódio, inocência, no imenso tempo se estão lavando, declara a poetisa na Fala aos inconfidentes mortos.

Quais os que tombam, em crimes exaustos, quais os que sobem

No horizonte eterno há de ficar sempre o anseio de liberdade, e só o purgatório do tempo está apto às ações vis e nobres dos homens da terra:

Fontes: http://www.resumosdelivros.com.br/ http://pt.wikipedia.org/wiki/Romanceiro_da_Inconfid%C3%AAncia

Lino Mendes Conversas curtas com Fernando Máximo Falar com FERNANDO MÁXIMO é, pelo menos na nossa região mas não só, falar com alguém que trata por tu a “poesia popular”, e esta pequena “conversa” é disso mesmo elucidativo. Mas entremos na “conversa”, não sem antes lembrar que “ a quadra é o vaso que o Povo põe à janela da sua alma” (Fernando Pessoa). Amigo Fernando, hoje falemos apenas de Poesia – de Poesia Popular. E a começar, o que caracteriza para si um género poético como popular? Eu, por mim, caracterizo um género poético como popular, todo aquele que sem se servir de palavras muito rebuscadas consegue transmitir de uma forma fácil, simples e perfeitamente perceptível uma mensagem. Que géneros populares existem e como os caracteriza? Para mim existem duas modalidades de poesia que são essencialmente populares: a quadra e as décimas. As quadras e as décimas eram feitas por gentes sem estudos, por gentes do campo que nas suas poucas horas de ócio as desenvolviam. As cantigas à desgarrada não eram mais que improvisação de quadras, feitas na altura sempre em resposta a uma provocação, a um desafio. As décimas, mais elaboradas, eram feitas pelos homens do campo quando sós, pelas planícies, atrás dos gados, iam matutando na vida e conseguiam de modo soberbo, traduzir em verso os seus anseios, os seus medos, a dura realidade da vida de então.

Qualquer destes géneros, a quadra e a décima, são expoentes cimeiros da poesia popular. Estará a poesia popular a ser devidamente divulgada junto dos jovens? As ambições dos jovens actuais não passam pela aprendizagem da poesia e muito menos da poesia popular. Talvez que se devesse e pudesse ir junto da juventude ler-lhe poesias que os seus familiares mais chegados – tios, avôs – tenham feito e tentar incutirlhe o espírito de que se eles, sem terem habilitações literárias conseguiam fazer trabalhos tão bem feitos, os jovens, letrados, melhor ainda poderiam dar seguimento à poesia. Mas, sinceramente, acho muito difícil… Muitos consideram a quadra popular como um produto menor, de fácil elaboração. Em minha opinião porém, as “quadras ao gosto popular” de Fernando Pessoa, estão longe de ter a qualidade das quadras de Aleixo. O que pensa sobre o assunto? As quadras jamais poderão ser consideradas um produto menor se elas forem feitas com cabeça, tronco e membros. Uma quadra tem que transmitir em quatro versos apenas, uma mensagem, uma crítica, seja ela positiva ou negativa. E tanto quanto mais simples for a sua elaboração quanto mais fácil se tornará a sua percepção. As quadras do António Aleixo, pela sua profundidade, pela sua sábia elaboração, pelo facto de atingirem perfeitamente os seus objectivos, apesar de serem feitas por um simples cauteleiro,


212 guardador de rebanhos, quase analfabeto, e talvez até mesmo por isso, têm para mim um valor muito maior do que as quadras de Fernando Pessoa, pese embora todo o respeito que tenho por este grande vulto da cultura Nacional. Como define o actual momento quanto aos Jogos Florais? Pessoalmente dou grande importância aos Jogos Florais pois eles demonstram uma enorme vontade de escrever por parte daqueles que respondem afirmativamente a esses desafios. A verdade é que são sempre muitos os poetas e prosadores que concorrem a estes eventos culturais. No entanto preocupa-me uma situação que passo a partilhar: a organização de uns Jogos Florais requer muita dedicação, muita entrega, muitas horas de trabalho. O meu receio é que, quando os “carolas” que agora estão á frente da organização destes eventos não possam mais colaborar, não haja quem lhes dê continuidade e estes concursos literários acabem abruptamente. Sei bem do que estou a falar, pois tenho conhecimento de situações em que tal já se verificou. Que projecto gostaria fosse elaborado para uma preservação da poesia popular portuguesa? A poesia não é coisa que se possa ensinar. Menos ainda a poesia popular. Ela é genuína, nasce com a pessoa. No entanto penso que as Associações Culturais devem ter um papel determinante nesta matéria, promovendo encontros de poetas e poetisas, não só na área de acção onde estão inseridas, mas trazendo até si poetas e poetisas doutras regiões para troca de impressões e experiências. Em Avis, há cinco anos que, com assinalável êxito, a Amigos do Concelho de Aviz – Associação Cultural (ACA) – www.aca.com.sapo.pt promove encontros de poetas, percorrendo em cada ano uma freguesia e trazendo até ao concelho de Avis, de cada vez, cerca de 40 poetas que vêm de terras tão distantes como por exemplo Évora, Portalegre, Entroncamento, Alandroal, Vila Viçosa e Ervidel, no Baixo Alentejo, além, é claro, da prata da casa. É este espírito que deve prevalecer para que a poesia popular não se acabe de todo. Não será que a décima é uma modalidade em vias de extinção?

A experiência de pertencer á organização dos Jogos Florais de Avis, leva-me a concluir que quem faz poesia em décimas são as pessoas de mais idade. As décimas são de difícil execução, têm regras fixas para serem elaboradas e para serem umas décimas bem feitas, não chega colocar as palavras que rimam no sítio onde é preciso rimar. Além de rimar as palavras têm que fazer sentido, têm que ter uma certa consistência de raciocínio e por vezes isso é difícil de acontecer. Partindo de uma quadra, o mote, este é depois desenvolvido por mais quarenta versos, o que leva a que as décimas também sejam conhecidas pelos mais idosos como “obras de quarenta pontos”. Como disse atrás, as décimas antigamente eram feitas por quem passava o dia no campo com o gado e sozinho ia pensando nas agruras da vida. A maior parte desses fazedores de décimas não sabiam ler nem escrever. Mas sabiam as regras das décimas. E faziam-nas. E decoravam-nas. Ainda hoje há por aí muito poeta, infelizmente analfabetos, que sabem muitas décimas de cor e que se encontram apenas registadas nas suas memórias. Cabe-nos a nós, os amantes deste tipo de poesia, fazer uma recolha junto dessa gente para que, um dia, quando eles morrerem, não se perca essa preciosidade que é a sua poesia. No sentido de preservar precisamente algumas destas situações, a ACA, está a elaborara um livro de recolha de poesia popular de 40 poetas nascidos ou residentes no concelho de Avis, que estima editar em Outubro aquando da 2ª Edição dos “Escritos e Escritores”. Todos nós temos um papel importante na preservação deste modo de poesia e podemos, fazendo recolhas, evitar que as décimas sejam uma modalidade em extinção, e que se extingam mesmo mais depressa do que o expectável. Eu por mim estou a fazer a minha parte: tenho recolhidas mais de uma centena de décimas de diversos poetas do meu concelho que contactei e que me deram os seus trabalhos, muitos deles apenas decorados pelos autores. E você? Vai ficar indiferente? Fonte: Colaboração de Lino Mendes/Portugal


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J. G. de Araújo Jorge Uma Casa na Lembrança Com a mecanização avassalante da vida moderna, muitas vezes me pergunto qual será a imagem do lar do futuro?

perspectivas desse poético mundo prosaico que é o mundo de nossas casas, tão rico de belezas singelas em seu aconchego e em sua tranqüilidade.

A dona-de-casa trabalha fora, absorvida por mil e uma preocupações estranhas ao seu tradicional mundo doméstico; desaparecem as empregadas; os apartamentos se resumem a cubículos, com peças únicas, escamoteáveis, armários embutidos, sofás e poltronas-camas, quitinetes; aparelhos elétricos capazes de improvisar papas liquidificadas à guisa de refeições. Os filhos amontoam-se em camasbeliches, em espaços exíguos de camarotes de navio.

A casa do futuro talvez acabe tornando o homem mais solitário que o faroleiro, montado numa penha perdida, em mar alto.

Amanhã, numa sociedade-síntese, em que se unirão as conquistas do conforto capitalista ao sistema de vida socialista, como sobreviverão o homem, a mulher e os filhos?

Não acredito que a dona-de-casa feliz seja a donade-casa sem casa, sem empregadas, para quem os afazeres naturais que constituem a sua vida e a sua alegria se transformem em gestos mecânicos, em atos frios e automáticos.

Francamente, não sei se serão agradáveis as casas dos nossos tetranetos. E quando digo casa, na me refiro apenas ao espaço onde nos recolhemos depois da luta de cada dia, mais justamente aos elementos humanos que a compõem e que, somados, transforma a casa em lar. Confesso que não gosto de imaginar essa casa solitária, despojada de tantos valores tradicionais, espécie de robô habitado, onde as coisas acontecem sumariamente, a simples toques mágicos, sem a presença necessária e o calor da convivência humana. Lembro-me de como me senti, certa vez, num pósoperatório, imobilizado num leito de hospital, ligado por tubos que me alimentavam e satisfaziam necessidades, numa cama que se mexia por mim. Temo que a casa do futuro desumanize o homem. Tire-lhe uns restos de paisagem que ainda resistem como decoração. A intromissão da máquina em nossa vida particular vai reduzindo ao mínimo as

E como será esse homem que prescinde de seus semelhantes, que vive cercado de instrumentos, alimentando-se de pastilhas, procriando por inseminação artificial, em companhia de seres que estarão mais longe de seu espírito que os planetas de seu universo?

Eu, por mim, gosto das casas grandes, antigas, impregnadas de histórias, de tradições. Numa delas deixei minha infância, minha adolescência. E quando falo de casas antigas, lembro-me da casa de meu avô, o casarão dos Tinoco, na Rua da Piedade, em Bota-fogo. Está num poema: “Me lembro da minha rua velha rua da Piedade Mudou pra Clarice Índio Clarisse Índio do Brasil; o nome de alguma dama muito importante, quem sabe? Muito importante, quem viu?” (A Outra Face). Bem que o guardo na memória, abrindo suas janelas altas, com grades de ferro, para a rua; o jardim lateral, a grande amendoeira, as acácias; e ao fundo, como uma vaga reminiscência das senzalas, as casas das empregadas. E me ocorrem visões de nossa velha aristocracia patriarcal.


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Os romances de Manuel de Macedo e de Alencar fixaram para sempre os aspectos e a paisagem dessa sociedade de fins do século passado. Casas com telhados coloniais; janelas com gelosias românticas; amplas varandas com cadeiras de balanço, com redes preguiçosas, arrastando franjados no assoalho; quintais com uma infinita variedade de árvores, cada vez mais raras: abieiros, caramboleiras, sapotizeiros; salas-de-visitas com lustres e candelabros como jóias cintilantes, espelhos bisotês, estofados rococós; uma quantidade de quadros, salas, corredores, onde os filhos dos senhores brancos andavam de cambulhada com toda uma gama de mulatinhos vivos, filhos das escravas, das mucamas, às vezes com o senhor branco, cuja elástica moral era a do “faça o que eu digo e não o que eu faço...” O casarão do meu avô Tinoco era, evidentemente, mais recente, mas recendia a sociedade patriarcal, quase ao tempo dos “sinhôs” e das “sinhás”, quando os maridos tratavam respeitosamente as esposas por Vossa Mercê... Lá estava, junto ao quarto de dormir, o oratório dedicado a Nossa Senhora da Conceição, com a candeia de azeite sempre acesa, as jarras com flores, a palha benta. E a copa e a cozinha, enormes, fervilhantes de empregadas e tias (nesse tempo eu tinha 16!) nos dias de festas, onde pontificava a Maria Cozinheira e seus quitutes! Minha infância está presa à memória pelo paladar. Falar nela é ficar com água na boca, e lembrar-me da hora do lanche, quando a grande mesa da sala-de-jantar (nosso reino encantado!) ficava rodeada por minha avó, tias, primos, primas e suas amigas. Lá estavam os biscoitos de polvilho, os

rocamboles, os pãezinhos de minuto, de bolos, as tortas, por entre bules fumegantes de chocolate, café, chá, leite. E nos aniversários e festas vinham os quindins, canudinhos de coco, baba-de-moça, as ameixas recheadas, bolos de nozes, que sei eu? Sim, ficou-me no coração a nostalgia das casasgrandes, povoadas pelo bulício e a algazarra de tantos parentes e amigos, numa época em que as próprias empregadas como que faziam parte da família também. Até hoje com a carapinha algodoada, ainda vive a Maria Cozinheira, mãe-preta de nossa infância, que recorda com os olhos marejados de lágrimas aquele tempo. E não me esqueci também da Juventina, da Conceição, da Adriana, e até das babás, moças e roliças, que me ajudaram em algumas primeiras “lições de coisas...” Não sei como serão as casas do futuro, cada vez mais apartamentos, ou “apertamentos”. Mas não trocaria, por nada deste mundo, algumas das casas da minha infância, intactas, de pé, nas ruas da memória e do coração. As casas são como seres que nos envolvem, com suas paredes, nos abrigam e protegem; nos falam; partilham de tantos dos nossos momentos; nos amam e passam, e às vezes morrem, como entes queridos. Assim ficou o velho casarão de meu avô Tinoco: não como uma casa comum, mas como a lembrança de um primeiro amor, ideal que nunca se esquece e que não morre nunca! Fonte: JG de Araujo Jorge. "No Mundo da Poesia " Edição do Autor -1969

Aparecido Raimundo de Souza Caminho sem volta “A jornada através das sombras que agora vamos acompanhar poderia ser a nossa jornada” Rod Serling. ANA ANGÉLICA SENTE SUA ALMA RÉS AO CHÃO. A mente rodopia por fronteiras indistintas

numa bagunça incontrolável. A cabeça parece cindida em mil pedaços. As vistas estão enfermas embaixo dos óculos de grau vencido. No peito, o coração teima acelerar descompassado, como se alguma coisa anormal o estivesse agitando. As pernas bambeiam, os dedos dos pés doem


215 apertados dentro dos sapatos de coriáceo vagabundo. Até as roupas que lhe cobrem a nudez pesam sobre o corpo magro. Atrelado a isso, estranho mal súbito, insistindo dominar o ambiente, como se o universo fosse acabar no próximo minuto. Nessa agonia sem par, se põe a perguntar: por que a modorra apática, e a desagradável sensação de fadiga lhe transformando a carcaça em estrupício? Se fosse uma pessoa madura, vivida, experiente, ainda vá lá. Contava somente dezenove anos de idade, e, diante disso, não tinha uma explicação plausível para tanto e tamanho sofrimento. O dia transcorreu pesado e frio, com a mesma miscelânea circense de sempre. As horas lhe enterraram num sepulcro hostil e inviolável, tal como se a vida lhe tivesse tamponado num buraco fundo e sem retorno. E aquele maldito quarto de pensão, desgraçadamente mal iluminado, completava o quadro dantesco da sua triste e malfadada sina. Tentara, por diversas vezes, dominar o astral, escapar da turbulência repulsiva; fugir da alienação inconcebível e poderosa. Não conseguira. O espírito, perturbado demais, a colocava em posição inferior, num patamar que lhe deixava totalmente sem forças, carente e muito só. Outras ninfetas, indiferentes a dor sentida, zombavam da sua cara, escarneavam pontos frágeis, motejavam, na verdade, da sua posição ridícula. No fundo, dava a impressão que aguardavam, pacientemente, sua entrada nos labirintos obscuros da neurastenia. Com os pensamentos embaralhados e, em tumulto desordenado, perguntava a si mesma, aflita, como caíra tão rapidamente naquela incúria, deixando-se levar pelo injustificado das incertezas e das horas tediosas da solidão? Onde ficara a vontade de vencer os obstáculos, o desejo de transpor barreiras e saltar infortúnios inesperados? Sem obter respostas à altura dessas indagações, Ana Angélica, praticamente encurralada sobre os infortúnios da sua própria desgraça, lamentava ter deixado pequenos contratempos dominarem sua existência, a ponto de vegetar ao deus-dará. Afinal de contas, qual o motivo, ou melhor, o que ensejou toda essa transformação em sua tão curta jornada? Pôs-se, de repente, a lembrar o passado. Fazia pouco mais de cinco meses, seu pai lhe colocara no olho da rua. Motivo? Uma indesejável gravidez. Até

então, Ana Angélica era a melhor filha do mundo. Com a revelação do exame laboratorial feito às pressas, perdeu a posição de “princesa” para aquele cidadão que gozava de alta reputação na cidade. Na verdade, a autoridade máxima do judiciário local: o juiz! Como representante da lei, o cabeça da família precisava dar exemplo. Assim, o velho genitor viroulhe as costas, mostrando, com esse gesto, a porta da rua e escancarando a crueldade que começava do portão que se abria, como um leque, para as intempéries da sorte. A decadência da moça tornouse maior, praticamente se fez mais pesada, a partir do instante em que, ao procurar abrigo na casa do namoradinho que lhe jurara amor eterno, este lhe virara as costas. Leandro, descendente de tradicional família e de renome no campo médico, ao saber da novidade, jogou para o alto os anos de medicina em boa faculdade, o consultório ricamente montado, a clínica cardiológica e o comodismo de viver às expensas paternas. Na calada da noite o doutorzinho deixou o lugarejo a horizontes ignorados. Em povoados de extensão limitada, não é preciso muito esforço para cair na boca do povo. Envergonhada, sem comida e teto, e, ainda, com a agravante da fuga do pai da criança, a solução plausível para Ana foi embarcar no primeiro trem. Aportou em São Paulo, ou mais precisamente na Estação da Luz. Sem condições de sobrevivência, não demorou encontrar os degraus mal cheirosos do submundo da prostituição. E nesse ambiente árido e infértil, Ana mergulhou de cabeça. Bonita, formosa e gentil, não lhe faltavam noitadas regadas a cervejas e bebidas baratas. Os fregueses variavam: ora saia com um marginal, outra carregava para a cama um gringo desses bem nojentos. Às vezes dormia com almofadinhas elegantes, casquilhos vestidos a rigor ou efeminados. A maioria deles drogados e viciados em crak, maconha e cola de sapateiro. A tempo igual, o espaço que mediava entre a concepção e o nascimento não interrompia a hora derradeira, ao contrário, diminuía, diminuía, diminuía... Nessa pressa de vida fácil o tempo sempre corre com rapidez impossível. Voava, para Ana Angélica como um Pégaso desgovernado, trotando atabalhoadamente na direção do precipício fatal. Atiçada pela elevada valorização do corpinho esbelto


216 e garboso, a matrona, dona do bordel não perdia clientes, longe disso, multiplicava o conjunto de paroquianos como fiéis num culto religioso. Os que frequentavam a casa só queriam desfrutar daquela elegante bem proporcionada e sensual, caída dos céus, como um anjo em forma de gente. Por essa razão a cafetina conhecida como ”Maria Padilha”, em menos de três semanas, adquiriu dois bons apartamentos quitinetes no edifício “Balança Mais Não Cai,” na Rua Major Sertório, perto da antiga rodoviária e comprou um carro novo para desfilar. Com a mente ainda em desalinho, e sem um policiamento ostensivo para conter a avalanche de desgraças que a atormentava, Ana Angélica continuava a se questionar dessas mudanças bruscas, quando, entrementes, lembrou da arma que a colega de quarto guardava na prateleira. Resoluta, caminhou até lá. Precisava agir rapidamente. Logo a parceira chegaria do programa que saíra para fazer. Abriu a gaveta. Um trinta e oito cano curto, cabo em madre pérola, municiado, descansava entre as calcinhas e sutiãs. Apanhou, o revólver, decida, firme, resoluta, feições contraídas, o coração quase a saltar peito a fora. Lentamente se acomodou na banqueta diante do espelho com um pedaço de vidro faltando numa das extremidades: -“Adeus, mundo. Adeus, vida. Pai, mãe, me desculpem!...” Num último ímpeto materno, alisou a barriga carinhosamente. Cinco meses. Cinco longos meses...

Nesse instante amargo, somatizado a tantos outros percalços, dos seus olhos de menina mulher caíram algumas lágrimas ligeiras. Lembrou-se do pai, e da ultima conversa que tiveram antes de acontecer toda essa bagunça em sua vida: -“Filha, disse ele a certa altura - aequam memento rebus in arrudas servare mentem, aconteça o que acontecer. Jamais entregue os pontos. Seja forte, lute pela vida, brigue, esperneie, mesmo que todo seu eu interior transpire solidão e agonia”(*). Todavia, agora, era tarde demais. Das palavras sábias do velho pai, só recordações distantes agonizando no peito despedaçado. - “Perdoe a mamãe, meu neném querido, seja você quem for. Não está certo o que vou fazer. Não tenho o direito de tirar sua vida. Você não vai entender esse gesto, mas... Mas... Será melhor... Será melhor que você não conheça esse lado mau e negro. Mamãe ama você... Mamãe ama você... Mamãe aaa...”. O tiro ecoou forte, viajou certeiro em busca do alvo fácil, e, num instante dolorido, virou uma espécie de loopem tremendamente perverso dentro do aposento mal iluminado. Pessoas danaram a gritar. “Maria Padilha” esmurrou a porta com vigor. Um homem berrou para que alguém acionasse a polícia. Enquanto isso, dobrada sobre si mesma, deixando escapar desejos mal resolvidos e envolta numa enorme possa de sangue, Ana Angélica, a querida e desejada dama da noite, agora metida numa via de mão única e sem retorno, soltava o derradeiro e lancinante grito de estertor.

Seria um menino ou uma menina? Sem assistência médica e condições de visitar um ginecologista, o feto sobrevivia desidratado e a trancos e barrancos. Que nome lhe daria? Como seria o rostinho? Com quem pareceria? Talvez, quem sabe, com ela, ou...

(*) “Lembra-te de manter o ânimo justo nos momentos difíceis”. Fontes: Texto enviado pelo autor


217

Dalton Trevisan Em busca da Curitiba perdida Curitiba, que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja. Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de lenço colorido na cabeça – galiii-nha-óóóvos – não é a protofonia do Guarani? Um aluno de avental discursa para a estátua do Tiradentes. Viajo Curitiba dos conquistadores de coco e bengalinha na esquina da Escola Normal; do Jegue, que é o maior pidão e nada não ganha (a mãe aflita suplica pelo jornal: Não dê dinheiro ao Gigi); com as filas de ônibus, às seis da tarde, ao crepúsculo você e eu somos dois rufiões de François Villon. Curitiba, não a da Academia Paranaense de Letras, com seus trezentos milhões de imortais, mas a dos bailes no 14, que é a Sociedade Operária Internacional Beneficente O 14 De Janeiro; das meninas de subúrbio pálidas, pálidas que envelhecem de pé no balcão, mais gostariam de chupar bala Zequinha e bater palmas ao palhaço Chic-Chic; dos Chás de Engenharia, onde as donzelas aprendem de tudo, menos a tomar chá; das normalistas de gravatinha que nos verdes mares bravios são as naus Santa Maria, Pinta e Nina, viajo que me viaja. Curitiba das ruas de barro com mil e uma janeleiras e seus gatinhos brancos de fita encarnada no pescoço; da zona da Estação em que à noite um povo ergue a pedra do túmulo, bebe amor no prostíbulo e se envenena com dor-de-cotovelo; a Curitiba dos cafetões – com seu rei Candinho – e da sociedade secreta dos Tulipas Negras eu viajo. Não a do Museu Paranaense com o esqueleto do Pithecanthropus Erectus, mas do Templo das Musas, com os versos dourados de Pitágoras, desde o Sócrates II até os Sócrates III, IV e V; do expresso de Xangai que apita na estação, último trenzinho da Revolução de 30, Curitiba que me viaja. Dos bailes familiares de várzea, o mestre-sala interrompe a marchinha se você dança aconchegado; do pavilhão Carlos Gomes onde será HOJE! só HOJE! apresentado o maior drama de todos os tempos – A Ré Misteriosa; dos varredores na madrugada com longas vassouras de pó que nem os vira-latas da lua.

Curitiba em passinho floreado de tango que gira nos braços do grande Ney Traple e das pensões familiares de estudantes, ah! que se incendeie o resto de Curitiba porque uma pensão é maior que a República de Platão, eu viajo. Curitiba da briosa bandinha do Tiro Rio Branco que desfila aos domingos na Rua 15, de volta da Guerra do Paraguai, esta Curitiba ao som da valsinha Sobre as Ondas do Iapó, do maestro Mossurunga, eu viajo. Não viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro é uma taça de luz; de Alberto de Oliveira do céu azulíssimo; a de Romário Martins em que o índio caraíba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tostão; essa Curitiba não é a que viajo. Eu sou da outra, do relógio na Praça Osório que marca implacável seis horas em ponto; dos sinos da igreja dos Polacos, lá vem o crepúsculo nas asas de um morcego; do bebedouro na pracinha da Ordem, onde os cavalos de sonho dos piás vão beber água. Viajo Curitiba das conferências positivistas, eles são onze em Curitiba há treze no mundo inteiro; do tocador de realejo que não roda a manivela desde que o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que passam chispando no carro vermelho atrás do incêndio que ninguém não viu, esta Curitiba e a do cachorro-quente com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo. Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidadão misterioso morreu nos braços da Rosicler, quem foi? quem não foi? foi o reizinho do Sião; da Ponte Preta da estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo, esta Curitiba viajo. Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar – esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.

Dalton Trevisan (1925) (O Vampiro de Curitiba)


218 Nascido em 14 de junho de 1925, o curitibano Dalton Jérson Trevisan sempre foi enigmático. Antes de chegar ao grande público, quando ainda era estudante de Direito, costumava lançar seus contos em modestíssimos folhetos. Em 1945 estreou-se com um livro de qualidade incomum, Sonata ao Luar, e, no ano seguinte, publicou Sete Anos de Pastor. Dalton renega os dois. Declara não possuir um exemplar sequer dos livros e “felizmente já esqueci aquela barbaridade“. Entre 1946 e 1948, editou a revista Joaquim, “uma homenagem a todos os Joaquins do Brasil“. A publicação, que circulou até dezembro de 1948, continha o material de seus primeiros livros de ficção, incluindo Sonata ao Luar (1945) e Sete Anos de Pastor (1948). A publicação tornou-se porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais. Reunia ensaios assinados por Antonio Cândido, Mario de Andrade e Otto Maria Carpeaux e poemas até então inéditos, como O caso do vestido, de Carlos Drummond de Andrade. Além disso, trazia traduções originais de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e era ilustrada por artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. Já nessa época, Trevisan era avesso a fotografias e jamais dava entrevistas. Em 1959, lançou o livro Novelas Nada Exemplares – que reunia uma produção de duas décadas e recebeu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro – e conquistou o grande público. Acresce informar que o escritor, arisco, águia, esquivo, não foi buscar o prêmio, enviando representante. Escreveu, entre outros, Cemitério de elefantes, também ganhador do Jabuti e do Prêmio Fernando Chinaglia, da União Brasileira dos Escritores, Noites de Amor em Granada e Morte na praça, que recebeu o Prêmio Luís Cláudio de Sousa, do Pen Club do Brasil. Guerra conjugal, um de seus livros, foi transformado em filme em 1975. Suas obras foram traduzidas para diversos idiomas: espanhol, inglês, alemão, italiano, polonês e sueco. Já no começo dos anos setenta Trevisan é incluído na famosa antologia O conto brasileiro contemporâneo, organizada por Alfredo Bosi, ao lado de Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Clarice Lispector, Rubem Fonseca e outros treze autores. Bosi, na apresentação, chama a atenção para o fato de que nos contos de Trevisan a concisão é uma obsessão do essencial que parece

beirar a crônica, “mas dela se afasta pelo tom pungente ou grotesco que preside à sucessão das frases, e faz de cada detalhe um índice do extremo desamparo e da extrema crueldade que rege os destinos do homem sem nome na cidade moderna“. E se nos primeiros livros Trevisan já chama a atenção pela estética de feitio minimalista, com Ah, é? , de 1994, o autor leva o conto a uma espécie de limite e praticamente inaugura o miniconto contemporâneo brasileiro. São esses três Trevisans, o poeta, o contista e o minicontista, além de um curioso Trevisan cronista e crítico literário, que se reúnem em Dinorá, também datado de 1994 mas publicado um ano depois de Ah, é?, tornando o volume extremamente interessante, verdadeiro ponto de partida para se compreender a obra do vampiro “iconoclasta ou alienado, que abomina o social e o político”, como se define o próprio autor em “Quem tem medo de vampiro?”. O poeta, pouco conhecido, bebe do mesmo sangue que o prosador, exibindo seres violentos, velhinhos tarados e tipos pervertidos em versos secos e sem espaço para rimas ou outras gracinhas literárias. Em “Dinorá”, por exemplo, texto que dá título ao livro, uma mulher revela ser espancada e maltratada por um homem que a “queima de cigarro e corta de faca”. Em “Curitiba Revisitada”, o pessoal dá lugar ao social, mas o tom pungente é mantido, criando uma espécie de ode ao avesso de sua cidade natal, “cidade irreal da propaganda/ ninguém não viu não sabe onde fica”. Mesmo sem grande variação de estilo, o contista é o que mais chama a atenção, sem dúvidas. Alternando contos mais longos, de até dez páginas, com contos de menos de uma página, Trevisan demonstra domínio técnico e segurança temática em textos como “O afogado” e “Iniciação”, permitindo-se até um tom amoroso e sentimental em “Tiau, Topinho”, quando narra em primeira pessoa a volta para a casa de um homem que precisou sacrificar seu cãozinho. Entre a prosa e a poesia, numa espécie de hibridismo de ambas, surge também o minicontista, o mesmo que assinou sozinho Ah, é?, dono de um estilo em formação e então ainda chamado de “haicai”, mas que preferimos chamar de narrativas mínimas, ou minicontos. Há três coleções deles no livro, “Dez haicais”, “Nove haicais” e “Oito haicais”, o que totalizam 27 mínis (em Ah, é? são 187, todos


219 também sem títulos). E se alguns deles se parecem anedotas, como “Toda noiva goza duas vezes a luade-mel: uma, quando casa, e outra, ao ficar viúva“, outros preservam muitas características do conto, revelando história oculta, história aparente, conflito e tensão:

em unidade se ganha em originalidade e graça, graça que revela um Trevisan mais humano, sem tantos “passinhos iguais” e conhecedor profundo de teoria e história literárias. Que, se não tornam ninguém melhor escritor, estão por trás de toda bemsucedida carreira literária.

Parentes e convidados rompem no parabéns pra você. De pé na cadeira, a aniversariante ergue os bracinhos: ― Pára. Pára. Pára. Na mesa um feixe luminoso estraga o efeito das cinco velinhas: ― Mãe, apaga o sol.

Dedicando-se exclusivamente ao conto (só teve um romance publicado: “A Polaquinha”), Dalton Trevisan acabou se tornando o maior mestre brasileiro no gênero. Em 1996, recebeu o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura pelo conjunto de sua obra. Mas Trevisan continua recusando a fama. Cria uma atmosfera de suspense em torno de seu nome que o transforma num enigmático personagem. Não cede o número do telefone, assina apenas “D. Trevis” e não recebe visitas — nem mesmo de artistas consagrados. Enclausura-se em casa de tal forma que mereceu o apelido de O Vampiro de Curitiba, título de um de seus livros.

Numa primeira leitura, o que temos aqui é a história de um aniversário de criança. Mas, indo um pouco além da superfície, veremos o sem-limite dos quereres de uma criança, possivelmente uma criança mimada da classe média, exigindo da mãe mais do que bolos, parabéns e velinhas, exigindo a alteração da natureza para satisfazer seus caprichos. Mas o mais curioso Trevisan de Dinorá é o cronista/crítico literário. Tal qual um senhor sem papas na língua, escreve sobre Machado de Assis, sobre os críticos de má fé que questionam a traição de Capitu em Dom Casmurro, ironiza Borges e, em “Quem tem medo de vampiro?”, brinca com sua própria produção: “Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João e a sua bendita Maria. Peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens“. Em “Cartinha a um Velho Poeta” e “Cartinha a um Velho Prosador”, sobram conselhos e alfinetadas a pretensos escritores: “Escrever bem é pensar bem, não uma questão de estilo. Os bons sabem de seus muitos erros, os medíocres não sabem coisa alguma. O que há de ser, para você já foi. Não se finge o talento ― falto de engenho, vento é vento e pó. As letras roubadas são falsas.” Não é leitura fácil, sem dúvida: a colagem de textos tão diferentes pode confundir o leitor e dissolver o efeito obtido, tão caro ao conto. Mas o que se perde

Inspirado nos habitantes da cidade, criou personagens e situações de significado universal, em que as tramas psicológicas e os costumes são recriados por meio de uma linguagem concisa e popular, que valoriza os incidentes do cotidiano sofrido e angustiante “O “Nélsinho” dos contos originalíssimos e antológicos, é considerado desde há muito “o maior contista moderno do Brasil por três quartos da melhor crítica atuante“. Incorrigível arredio, há bem mais de 35 anos, com um prestígio incomum nas maiores capitais do País. Trabalhador incansável, fidelíssimo ao conto, elabora até a exaustão e a economia mais absoluta, formiguinha, chuvinha renitente e criadeira, a ponto de chegar ao tamanho do haicai, Dalton Trevisan insiste ontem, hoje, em Curitiba e trabalhando sobre as gentes curitibanas (“curitibocas”, vergasta-as com chibata impiedosa) e prossegue, com independência solene e temperamento singular, na construção e dissecação da supra-realidade de luas, crianças, amantes, velhos, cachorros e vampiros. E polaquinhas, deveras.” Além da literatura, Trevisan exerce a advocacia e é proprietário de uma fábrica de vidros. Em 2003, divide com Bernardo Carvalho o maior prêmio literário do país — o 1º Prêmio Portugal


220 Telecom de Literatura Brasileira — com o livro “Pico na Veia”. Livros Publicados: - Abismo de Rosas - Ah, É? - A Faca No Coração - A Guerra Conjugal - A Polaquinha - Arara Bêbada - A Trombeta do Anjo Vingador - Capitu Sou Eu - Cemitério de Elefantes - 111 Ais - Chorinho Brejeiro - Contos Eróticos - Crimes de Paixão - Desastres do Amor - Dinorá – Novos Mistérios - 234 - Em Busca de Curitiba Perdida - Essas Malditas Mulheres - Gente Em Conflito (com Antônio de Alcântara Machado) - Lincha Tarado - Meu Querido Assassino - Morte na Praça - Mistérios de Curitiba - Noites de Amor em Granada - Novelas nada Exemplares - 99 Corruíras Nanicas - O Grande Deflorador

- O Pássaro de Cinco Asas - O Rei da Terra - O Vampiro de Curitiba - Pão e Sangue - Pico na veia - Primeiro Livro de Contos - Quem tem medo de vampiro? - 77Ais - Vinte Contos Menores - Virgem Louca, Loucos Beijos - Vozes do Retrato – Quinze Histórias de Mentiras e Verdades - Macho não ganha flor Livros renegados pelo autor: - Sonata ao Luar - Sete Anos de Pastor (Primeiros livros publicados, que o autor renega. Editores desconhecidos). Filmes: - A Guerra Conjugal – histórias e diálogos do autor, roteiro e direção de Joaquim Pedro de Andrade, 1975. Fontes: – PAES, José Paulo e ANTÔNIO, João. Jornal O Estado de São Paulo. 20 de julho de 1996. - TREVISAN, Dalton. Mistérios de Curitiba. RJ: Record, 1979. – SPALDING, Marcelo. O Melhor de Dalton Trevisan. http://www.digestivocultural.com/ . 27 de março de 2008. – http://pt.wikipedia.org/ – http://educacao.uol.com.br/

Alba Krishna Topan Feldman A Identidade da Mulher Indígena na Escrita de Zitkala-Ša e Eliane Potiguara RESUMO: O estudo de crítica feminina tem se desenvolvido para abarcar mulheres de diferentes etnias e também de diferentes formações culturais e épocas. Este trabalho tem por objetivo discutir como a identidade de gênero e etnia se apresenta na escrita de duas autoras de origem indígena, uma brasileira contemporânea, Eliane Potiguara, e outra Estadunidense do início do século XX, Zitkala-Ša. As duas autoras estudadas misturam de forma vivaz a ficção, a escrita jornalística de informação com

relação à situação indígena, além de poesia e narração com moldes na oralidade, reafirmando o papel da mulher indígena como contadora de histórias e como educadora. Ambas buscaram por caminhos às vezes diferentes, e muitas vezes conflitantes pela diferença de cultura e objetivo final com relação aos leitores, mas muitas vezes similares, mostrar aspectos desconhecidos e calados dos sentimentos e angústias vividas pela mulher indígena diante de uma sociedade opressora retomando fatos históricos e também as condições


221 contemporâneas de suas tribos e do povo indígena como um todo. PALAVRAS-CHAVE: Literatura étnica comparada; Eliane Potiguara; Zitkala-Ša; escrita feminina. 1 – Introdução Eliane Potiguara é descendente de índios Potiguaras do Recife, escritora brasileira contemporânea, enquanto Zitkala-Ša é Yankton Dakota, e viveu no final do século XIX e início do século XX, nação Sioux, Estados Unidos. O foco de estudo deste artigo recairá nas estratégias utilizadas pelas duas autoras como forma de manter e questionar sua condição como mulher e como indígena em períodos igualmente marcados pela violência e repressão em seus respectivos países. Ashcroft (2002), Hall (2002), e Trinh (1989) fornecerão a base teórica para a análise. Uma breve intervenção biográfica das duas autoras será seguido do estudo de excertos que demonstram seus estilos e suas estratégias para tornarem-se agentes de suas etnias e de seu gênero. A primeira parte da análise se focará na etnia e na reafirmação do indígena procedido pelas duas autoras, enquanto a segunda discutirá o corpo indígena e o corpo feminino. 2 – As autoras: vidas e obras Zitkala-Ša, nascida Gertrude Simmons (1876-1938), em uma das reservas mais pobres dos EUA era filha de mãe indígena e pai provavelmente branco, do qual quase nada se sabe. A autora enfrentou momentos amargos na história indígena americana, como as marchas forçadas, chamadas de trilhas de lágrimas, a aculturação em massa exercida pelas boarding schools, escolas indígenas que trouxeram doenças, trauma e morte, além das chamadas guerras índias, que dizimaram os indígenas no século XIX e início do século XX. Seus contos autobiográficos, poemas e artigos foram publicados em periódicos de renome na época, como o Atlantic Monthly Magazine, em 1900 e mais tarde transformada em dois livros, entre 1920 e 1922. Tornou-se Gertrude Bonnin pelo casamento, mas optou pelo nome indígena Zitkala-Ša como escritora, da língua Dakota, que significa “Pássaro Vermelho”. Ela tornou-se um dos raros Nativos Americanos que conseguiram chegar ao Ensino Superior, musicista, escritora e ativista pela causa indígena, autora da

única ópera com tema indígena e composta por um indígena. Porém, mesmo com todas as suas realizações, caiu no esquecimento após sua morte. Seus escritos foram recuperados no final do século XX, quando os estudos da crítica feminina, do pósmodernismo e do pós-colonialismo questionaram a construção do cânone literário. Sua obra American Indian Stories aborda momentos de sua infância, na reserva Yankton, seus momentos de aluna em uma boarding school dirigida por missionários e também como professora de outra boarding school, a conhecida Carlisle School. Old Indian Legends recupera as estórias que ouvia enquanto criança, ao redor da fogueira (LISA, 1996). Eliane Potiguara é brasileira, 56 anos, Conselheira do Impbrapi, Instituto Indígena de Propriedade Intelectual e Coordenadora da Rede de Escritores Indígenas na Internet e do Grumin – grupo de mulheres indígenas/ Rede de Comunicação Indígena. Nascida com outro nome, adotou Eliane Potiguara para homenagear a tribo de onde veio, da Paraíba, os Potiguares (Comedores de Camarão). É formada em Letras e participa de diversas ONGs. Foi indicada, por seu trabalho como ativista, como representante do Brasil na campanha “Mil Mulheres Para o Prêmio Nobel da Paz 2005”. Foi nomeada uma das 10 mulheres do ano em 1988, pelo Conselho das Mulheres do Brasil, por ter criado o GRUMIN. Participou durante anos, da elaboração da ”Declaração Universal dos Direitos Indígenas”, na ONU em Genebra. Recebeu em 1996 o título de “Cidadania Internacional”, concedido pela filosofia Iraniana Baha‟i, que trabalha pela implantação da Paz Mundial. Foi premiada pelo Pen Club da Inglaterra pelo seu livro A Terra é a Mãe do Índio. Sua última obra publicada é Metade Cara, Metade Máscara, que mescla informações sobre a situação indígena atual, confissões e histórias autobiográficas, além da narrativa poética ficcional de Cunhataí e Jurupiranga, um casal que se separa na época da colonização, e passa os séculos pelo sofrimento de seu povo, para se reencontrar no presente. 3 – A identidade fragmentada e reafirmada A etnia indígena que vivia nos EUA na época de Zitkala-Ša passaram por diversos problemas que comprometiam suas identidades, que incluíam: - a invasão cultural europeizante, que procurava aculturar e “assimilar” o indígena em um projeto bem


222 planejado e que assumia diversas formas, algumas inclusive disfarçadas em “pele de cordeiro”, como a distribuição de terras aos índios através do Dawes Act, de 1887, que possibilitava aos brancos um roubo legalizado das terras das reservas indígenas, ou as boarding schools, internatos religiosos ou militares que traumatizaram as crianças, fazendo com que elas perdessem sua tradição étnica, sua linguagem, mas ao mesmo tempo não conseguissem se adaptar à sociedade euro-americana; - as teorias secundárias às idéias darwinianas, que estabeleciam as raças não européias como inferiores, e o hibridismo como degeneração. No caso de Zitkala-Ša, há uma forte possibilidade de que seu pai seja um homem branco, o que ela nunca deixou transparecer em sua escrita. Mesmo assim, sua educação e criação acabou por representar nela o dilema existencial que fazia parte da vida da maioria do povo indígena na época: “Mesmo a natureza parecia não ter lugar para mim. Eu não era uma menina pequena, nem grande. Não era uma índia selvagem, nem domada” (ZITKALA-ŠA, 2003, contracapa). A identidade fragmentada é apontada por Hall (2002) ao afirmar que, a partir de certos movimentos que tiveram início no final do século XIX, como a Psicologia (que cindiu a mente em consciente e inconsciente), o marxismo (que cindiu a sociedade em classes), Foucault e o feminismo, que questionaram o posicionamento de poder e de gênero, a identidade deixa de ser um todo, um “bloco” uno, com um único centro, e passa a ter diversos centros, ou seja, a identidade vista sob o prisma dos estudos pós-modernos vai variar de acordo com os sistemas culturais que a interpelam. A questão da pluralidade de identidades está presente em Zitkala-Ša de diversas formas: ela assume, publicamente, sua condição de índia, abandonando sua hibridez física, mas utiliza sua hibridez cultural ao fazer uso de sua educação e conhecimento da língua inglesa para escrever, inclusive mostrando sua erudição, contra a cultura branca e seus efeitos devastadores dos processos de assimilação aos indígenas de sua época. Por outro lado, assume os dois papéis destinados às mulheres índias na época. O primeiro é a a squaw, palavra para “vagina” em algumas línguas indígenas e “moça” em outras, usada desdenhosamente pelos brancos para designar as mulheres indígenas que,

são forçadas a se prostituírem e abandonarem suas aldeias para servirem aos homens brancos. O segundo estereótipo é a princesa, personificada pela filha do chefe Powhatan, a famosa Pocahontas, que, além de servir de mediadora entre brancos e índios, arrisca sua vida pelo homem branco, muitas vezes às custas da destruição de seu próprio povo. ZitkalaŠa deixa em suspenso o fato de que seria ou não neta de Tatanka Yotanka (O famoso chefe indígena Touro Sentado, místico e ativista, que participou da troupe circence do velho oeste de Buffalo Bill e venceu o general Custer na batalha de Little Big Horn), assumindo, portanto, o papel de princesa, neta do chefe. Também é chamada de squaw na forma de um cartaz quando ganha um concurso de oratória na faculdade, sendo a única concorrente indígena. Pode-se, então, observar que a autora subverte os dois papéis, uma vez que é comprovado através da análise dos anos de nascimento, que é impossível para Zitkala-Ša ser neta biológica de Touro Sentado. Por outro lado, ela usou esse expediente para ter acesso aos corredores do poder como ativista em Washington D.C.. Ela também subverte o estereótipo de squaw, porque recebe este nome não pela sua subordinação aos brancos, e nem por favores sexuais, mas por ousadia em competir em um ambiente cultural não-indígena, e sua por competência em ganhar. Potiguara também deixa entrever o hibridismo e a fragmentação em sua história, quando afirma, narrando a própria história em terceira pessoa: “Foi impactante porque eram todas mulheres, as quatro filhas do índio X, mais a mãe Maria da Luz. Sua avó, a menina Maria de Lourdes, com apenas 12 anos, já era mãe solteira, vítima da violação sexual praticada por colonos que trabalhavam para a família inglesa X”(POTIGUARA, 2004, p. 27). A história reticente e muitas vezes imprecisa quanto a dados históricos, que são apenas entrevistos é utilizada pelas duas autoras, como forma de generalização e representação da identidade indígena como um todo: não são apenas elas ou suas famílias que passaram por situações parecidas, mas toda uma população indígena. Ambas as autoras hibridizam também suas literaturas: fazem um resgate dos acontecimentos e as tradições de seus respectivos povos utilizando a linguagem do dominante, porém, também de forma híbrida: misturam diversos gêneros literários, como ensaio reflexivo, narrativa e poesia. Enquanto


223 Potiguara se afirma diretamente e denuncia as violências sentidas por seu povo, Zitkala-Ša o faz de maneira velada, mas não menos incisiva, como quando, por exemplo, ao narrar o corte de seu cabelo no internato, considerada desonra para seu povo, ela o faz com as tintas de um estupro: Eu me lembro de ter sido forçada e puxada, mesmo resistindo com chutes e unhadas selvagens. Totalmente contra minha vontade, fui carregada pela escadaria abaixo e amarrada com força a uma cadeira. Eu gritava alto, balançando minha cabeça o tempo todo até sentir as lâminas geladas da tesoura contra meu pescoço e as ouvir destruírem uma de minhas grossas tranças. Então, perdi meu espírito. (ZITKALA-ŠA, 2003, p. 69, tradução nossa). A doçura da infância na reserva convivendo com o carinho da tribo contrasta com o tratamento desumano recebido na escola. E esta era a realidade de milhares de crianças indígenas na época de Zitkla-Ša, proibidas de usar as roupas e adereços das tribos, sua linguagem e qualquer elemento de suas tradições sob pena de surras e todo tipo de violência. Potiguara mistura uma escrita informativa, ensaística e poética: “Em 18 de abril de 1997, o líder indígena Marçal Tupã-y, assassinado em 25 de novembro de 1983, esteve nas terras do Sul do Brasil e disse: ‘Eu não fico quieto não…⁄ Eu reclamo…⁄Eu falo… ⁄ Eu denuncio’.” (POTIGUARA, 2004, p. 47). Uma das formas de resistência, segundo Ashcroft (2002), é o testimonio, ou seja, a narrativa de histórias do cotidiano dos povos dominados, a escrita autobiográfica. Esta é uma forma não apenas de auto-expressão e de arte literária, mas também uma forma de o dominado denunciar o que ocorre em seu mundo. Desta forma, o dominado também se apropria das armas do dominante, seja na forma da linguagem, ou de sua negação, seja através de mímica, de ironia, entre outros recursos, para a formação de seu próprio espaço e, fugindo ao controle do dominador, mescla sua cultura. O testemunho é usado pelas duas autoras em suas escritas autobiográficas e também na recuperação de tradições e da filosofia indígena. Uma das provas da insistência na cultura dominada é a utilização, por parte de ambas, da arte de contar histórias. Esta é apontada por elas como o método

de educação das crianças indígenas. Ambas as autoras o fazem por meio de suas narrativas autobiográficas e ficcionais, subvertendo a erudição e o uso da linguagem dominante aprendida como forma de chamar a atenção dos não-indígenas para a problemática indígena, e também como forma de recuperação da auto-estima alquebrada de seus povos. Potiguara aponta para caminhos mais esperançosos: ao final de sua saga de seu livro Metade Cara, Metade Máscara, Cunhataí e Jurupiranga se reencontram e juntos criam presenciam o renascimento da cultura; da união de suas lágrimas, produzem a felicidade para si e para seu povo. Enquanto isso, Zitkala-Ša oscila entre uma esperança febril e o desânimo ante os poucos resultados de sua luta. No início de sua obra, em diversos contos, ela entrevê índios dançando felizes, como nunca havia visto: O presente era uma coisa fantástica, a textura muito mais delicada que a teia brilhante de uma aranha. Era uma visão! Uma figura de uma aldeia indígena, não pintada em tela, nem mesmo escrita. Era feita de sonhos, suspensa no ar, enchendo a área do baú de cedro. Quando ela olhou para dentro, a figura ficou mais e mais real, ultrapassando as dimensões do baú, Enquanto observava a figura, esta crescia mais. Era tão suave que parecia que uma respiração poderia tê-la destruído; ainda assim, era real como a vida – um acampamento circular, cheio de tendas brancas em forma de cone, viva com o povo indígena. [...] Ela ouviu distintamente as palavras Dakota que ele proclamava ao povo. “Alegrem-se, fiquem felizes! Olhem e vejam o novo dia nascendo! A ajuda está próxima! Ouçam-me todos.” Ela sentiu as ondas de alegria e ficou emocionada com nova esperança para seu povo” (ZITKALA-ŠA, 2003, p. 142, tradução nossa). Porém, em algumas obras, como no conto Search of Bear Claws, the lost schoolboy, (em busca de Garras de Urso, o estudante perdido), onde ela conta a história de um menino que foge da repressão do internato, seu final não é feliz. A tribo usa sua tradição para encontrá-lo, na figura do Medicine Man, o curandeiro, mas isso não é suficiente, pois a morte aparece como a libertação para o pequeno fugitivo: “Ali, sob o manto da neve, eles encontraram o corpo do estudante fugitivo: o pequeno Garras de Urso fugira para onde os internatos não poderiam torturálo mais.” (IDEM, 2001, p. 96, tradução nossa) 4


224 Imagens como a reunião da tribo em volta de uma fogueira para contar histórias ou dançar, em ZitkalaŠa, o uso das ervas para Potiguara, a comunhão com a natureza e a aldeia, seja ela física ou simbólica em ambas, procuram estabelecer aspectos de identidade do índio e lembrar as tradições. Porém, ambas mostram-se conscientes de que é necessário o conhecimento do idoso e a ação do jovem para que a cultura indígena sobreviva, de forma a não ficarem presas ao passado, mas procurarem a resolução dos problemas no presente. A relação respeitosa e simbiótica do indígena com a natureza também está presente nas autoras, como pode ser mostrado nesse excerto: “Quando o espírito penetra meu peito, gosto de andar calmamente entre as montanhas verdes; ou, às vezes, sentada às margens do Missouri sussurrante, eu me maravilho com o grande azul acima.” (IDEM, 2003, p. 114) No poema “Eu não tenho minha aldeia”, Potiguara coloca a aldeia como símbolo da própria identidade indígena para aqueles que a perderam: Eu não tenho minha aldeia / Minha aldeia é minha casa espiritual / Deixada pelos meus pais e meus avós / A maior herança indígena [...] Ah, Já tenho minha aldeia / Minha Aldeia é Meu Coração ardente / É a casa dos meus antepassados / E do topo dela eu vejo o mundo (POTIGUARA, 2004, p. 131-132). Desta forma, as duas autoras, por mais que estejam forçadamente no limiar de duas culturas, a cultura branca imposta e a cultura indígena perdida, fazem a opção pela cultura indígena, utilizando-se de expedientes da cultura e do conhecimento do dominante para transmitir seu conhecimento e sua indignação com a situação em que vivem suas respectivas etnias, hibridizando seus conhecimentos e o uso que fazem dele. A identidade fragmentada e a opção pela indianidade (o desaparecimento das origens brancas) aparece propositadamente nas duas escritas autobiográficas. A união da modernidade e da tradição são patentes nas duas obras. No conto A dream of her grandfather, de Zitkala-Ša, a neta ativista recebe de presente do avô, um medicine man, uma visão. No mesmo sentido, Potiguara afirma que Jurupiranga “Percebeu a comunhão da nova e avançada

tecnologia utilizada por alguns indígenas com as tradições indígenas, onde o diálogo jovens versus velhos era uma realidade” (POTIGUARA, 2004, p. 129). Outros símbolos, como o cobertor e a fogueira do centro da aldeia (para Zitkala-Ša) e a pintura (para Potiguara) também representam a afirmação do índio e a busca de sua identidade, mas o choque entre a cultura branca e indígena procura ser resolvido pelas autoras de uma forma suave, não violenta, com respeito mútuo. Esta tentativa é mais forte em Zitkala-Ša, enquanto Potiguara é mais incisiva na apresentação e na busca da resolução dos conflitos em a que a solução aparece pela união da mulher indígena e do homem indígena. 4 – O corpo e o gênero O corpo marca as diferenças visíveis entre etnias e entre gêneros, além de oferecer terrenos seguros para essencialismos, generalizações e ideologias sexistas e racistas. Os temas de outremização e identidade também estão presentes no corpo, pois a diferença gera hierarquias e dominação (TRINH, 1989). Zitkala-Ša não é direta sobre questões sexuais, talvez pela educação rígida que recebera, pelos veículos nos quais publicou, ou pelas próprias limitações da época em que viveu, mas ela tem uma escrita que contrasta e ressalta sensações corporais, cores, e contrasta o corpo branco e indígena, além de reiterar exaustivamente a agência feminina. Metaforicamente, o conto the snow episode mostra uma outra faceta da relação índio/ branco: as meninas índias brincam de marcar a neve com seus corpos e são duramente repreendidas, pois é inconcebível que deixem as marcas de seu corpo vermelho na pureza da neve branca (mais uma vez, a neve representando o branco – como em outros contos da autora, a frieza e o motivo da dor do índio). Ao marcarem o branco da neve com seus corpos vermelhos, as crianças estariam indo contra a proposta assimilacionista, que era “embranquecer” o índio, e não “avermelhar” o branco. O homem indígena em Zitkala-Ša é respeitável e amado, mas geralmente está perdido, louco, ou trata-se de um nobre antepassado já morto. A mulher tem a agência, no entanto, o homem indígena serve de inspiração à mulher, que sempre será a guerreira


225 e portadora da tradição, utilizando-se de diferentes armas, como a personagem Tusee, do conto The Warrior’s daughter, que liberta o amado da tribo inimiga com sua inteligência e seu conhecimento da linguagem. Impressions mostra o tio da personagem narradora como um guerreiro honrado enterrado nas montanhas da reserva. A terra é mãe do índio, motivo de inspiração e contato com a divindade e a mulher é aquela que liberta o homem. A escrita é sensorial em Zitkala-Ša – os sentidos são aguçados a todo o momento, e as descrições são vivazes neste sentido – gostos e cheiros da aldeia dentro da reserva são suaves e coloridos e é sempre verão ou primavera, enquanto a escuridão, o frio e a opressão da prisão são vivazes na escola e o inverno impera. Enquanto isso, a escrita de Potiguara além de profundamente sensorial, como a de Zitkala-Ša, é também sensual: a terra não é apenas a mãe do índio, mas sua esposa prometida: a cunhã. A mulher é consciente de seu poder, mas está no aguardo de um momento para quebrar o silêncio: Que faço com a minha cara de índia ? E meus espíritos / E minha força / E meu Tupã / E meus círculos ? Que faço com a minha cara de índia? / E meu sangue / E minha consciência / E minha luta / E nossos filhos ? Brasil, o que faço com a minha cara de índia? Não sou violência / Ou estupro / Eu sou história / Eu sou cunha / Barriga brasileira / Ventre sagrado / Povo brasileiro / Ventre que gerou / O povo brasileiro / Hoje está só … / A barriga da mãe fecunda / E os cânticos que outrora cantava / Hoje são gritos de guerra / Contra o massacre imundo (POTIGUARA, 2004 p. 34-35). O índio de Potiguara está fraco (Jurupiranga), mas é também um guerreiro nobre e está em vias de despertar, se levantar e voltar a usar as tintas de sua tradição, em consonância com a modernidade. “Então tomaremos o mel da manhã, / Pra que todos os antepassados renasçam / E olharemos pro céu do amanhã / Pra que nossos filhos se elevem / E beberemos a água do carimã / Pra suportar a dor da Nação acabada / E os POTIGUARAS, comedores de camarão / Que HOJE – carentes / Nos recomendarão a Tupã / E te

darão o anel do guerreiro – parceiro. / E a mim? / Me darão a honra do Nome / A ESPERANÇA – meu homem! / De uma pátria sem fim” (IBIDEM, p. 138139). As mulheres nas obras das duas autoras podem ser empurradas e sofrerem pelas circunstâncias, mas são fortes e questionam o mundo que as cerca. Ela salva o homem em quase todas as obras, mesmo que seja uma salvação simbólica, pequena, como a avó que opta por ficar para trás num período de guerra, mesmo sabendo que ia morrer, para procurar seu netinho (Zitkala-Ša), ou Cunhataí, que faz Jurupiranga renascer, na obra de Potiguara. As personagens femininas são fortemente retratadas dentro das obras das duas autoras, sejam elas o eu narrador autobiográfico, as parentes, como a mãe (no caso de Zitkala-Ša) ou a avó, no caso de Potiguara, ou personagens fictícias. Ambas autoras enfatizam o choque das culturas, mas apostam na sua resolução de maneira menos invasiva e violenta. O homem indígena não é superior ou inferior à mulher, mas reforça sua identidade (no caso de Potiguara) ou é fonte nobre e inspiradora de ação independente por parte da mulher (no caso de Zitkala-Ša). 5 – Considerações finais As duas autoras misturam de forma vivaz a ficção, a escrita jornalística de informação com relação à situação indígena, poesia e narração com moldes na oralidade indígena, oferecendo uma hibridez e resistência tendo como uso a linguagem dominante subvertida. Ambas buscaram por caminhos às vezes diferentes, e muitas vezes conflitantes, pela diferença de cultura e por seu objetivo final com relação aos leitores, mas muitas vezes similares, mostrar aspectos desconhecidos e calados dos sentimentos e angústias vividas pela mulher indígena diante de uma sociedade opressora. A principal diferença nas formas está na denúncia direta por parte de Potiguara, com nomes e situações históricas comprovadas e claras contra o modo velado de Zitkala-Ša aludir a situações como as marchas forçadas, o massacre de índios em Wounded Knee e às guerras, com outros assuntos explorados de forma mais dramática, como o tratamento cruel recebido nos internatos.


226 As duas também fazem uma retomada dos mitos e tradições para esclarecerem às outras etnias e lembrarem os próprios indígenas de seu passado. Potiguara mistura a escrita acadêmica e sóciohistórica, com poesias que discutem a posição da mulher e do índio na sociedade e perante si mesmo, além da escrita autobiográfica, enquanto Zitkala-Ša recupera as histórias e a oralidade de seu povo, que ouvia quando criança, apostando na captura do leitor através da identificação do mesmo com o sofrimento e a bravura das personagensa, além de narrativa ficcional e também escrita autobiográfica. Eliane Potiguara e Zitkala-Ša partiram de uma realidade até certo ponto parecida, mas não totalmente igual: os índios americanos nos século XIX não eram considerados cidadãos, não tinham direito a voto e muito menos representatividade política. Eram exterminados por doenças e pela fome, por marchas forçadas, por guerras e ataques do exército, além de estarem circunscritos ao bel prazer do governo em reservas, onde recebiam parcas rações de subsistência. Enquanto isso, os índios brasileiros passam por lutas parecidas com relação ao preconceito, à luta pela demarcação de suas terras, e a ONU, entre outros órgãos mundiais procuram garantir sua liberdade e tratamento humano, mesmo que essa não seja uma realidade. As duas autoras não deixaram que a ânsia e a necessidade de dizerem suas identidades ou a identidade da mulher indígena fosse maior que a forma de talento literário que se apresenta em suas obras, mas procuraram negociações de suas

identidades, de forma que pudessem viver em um mundo de culturas e corpos híbridos sem caírem no identitarismo vazio. Referências Bibliográficas ASHCROFT, Bill. Post-colonial transformation. London and New York: Routledge, 2002. HALL, Stuart. Identidade cultural na pósmodernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 7. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. LISA, Laurie. The life story of Zitkala-Ša: Gertrude Simmons Bonnin: writing and creating a public image. 227 p. Dissertation of requirement for the Degree Doctor of Philosophy. USA: Arizona State University. may 1996. POTIGUARA, Eliane. Metade Cara, Metade Máscara. São Paulo: Global, 2004 TRINH, T. Minh-ha. Woman, Native, Other: Writing Postcoloniality and Feminism. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 1989. ZITKALA-ŠA. American Indian Stories, legends and other writing. (with introduction and notes by DAVIDSON, Cathy and NORRIS, Ada). USA: Penguin Classics, 2003. ______. Dreams and Thunder: Stories, Poems, and The Sun Dance Opera: Introduction by Jane Hafen. Lincoln: University of Nebraska, 2001. Fonte: II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: Diversidade, Ensino e Linguagem UNIOESTE – Cascavel, 06 a 08 de outubro de 2010

Amaury Nicolini Uma Vida de Poesia CALENDÁRIO Tantos janeiros tenho em meu diário, tantos verões passaram, eu me lembro, que da minha vida agora o calendário só tem mais uma folha: a de dezembro

que até as suas pedras sei de cor; já não lhes volto a vista fatigada e agora presa a uma aflição maior.

NO CAMINHO

O que farei no fim deste caminho? Que contas a ajustar terei, não pagas, se depois de toda a vida andar sozinho só guardo do que fui lembranças vagas?

Há tanto tempo ando nesta estrada

Terei pecados que são imperdoáveis,


227 momentos de maldade ou covardia ainda vivos depois de tantos anos?

em busca do que eu mais quis na minha vida. VELHOS CARNAVAIS

Ou será que os defeitos mais notáveis foram os de colocar, sempre em poesia, tudo que está nos corações humanos? MEMÓRIAS

Por incrível que pareça, é um confete que descobri num bolso desta calça, e que a vários anos atrás logo remete meu pensamento, que esse vôo alça.

Eu sei que, no futuro, estas poesias ficarão abandonadas numa estante, retratos do passado, de outros dias de quem a vida fez sofrer bastante.

Deve estar aí perdido fazem anos, é roupa que não uso há muito tempo, e carnaval está fora dos meus planos, num canto da memória, como exemplo

Serão somente papéis amarelados, histórias a que o tempo trouxe fim, talvez por consideração guardados de uma maneira displicente assim.

de que eu também já alegrei meus dias, brincando ao som de antigas melodias que cantavam foliões em algum salão.

A ninguém vai importar o conteúdo, saber quem um dia amou alguém ou o desfecho que teve essa paixão. Será nada o que um dia já foi tudo, e os versos que pensavam ir além só estarão vivos num velho coração. PASSAGEIROS A BORDO A que horas sai o trem para a saudade? Quero um lugar já nos primeiros bancos para chegar mais depressa ao que perdi, voltar aos sonhos da minha mocidade quando não tinha estes cabelos brancos e não pensava em sofrer o que sofri. Quero um lugar no trem que está partindo e que sai desta estação rumo ao passado em cima de infindáveis e invisíveis trilhos, onde quem hoje chora vai sorrindo, quem dorme para sempre está acordado e quem já é até avô não tinha filhos. Quero um lugar no trem antes que parta e eu não tenha outro modo de rever tanta coisa que ainda guardo na lembrança: uma foto amarelada, um lenço, a carta, o perfume que nunca mais pude esquecer e o lugar onde ficou minha esperança. Por favor, dê-me logo essa passagem, pois já escuto o sinal e até o apito que avisa a todos que é hora da partida. Eu não posso perder essa viagem, talvez a última que faço, ansioso e aflito,

E que uma voz interior ainda repete, enquanto eu tiro da roupa este confete e o guardo dentro do meu coração.

AMAURY NICOLINI (1941) Carioca. Publicou seus primeiros trabalhos poéticos na revista do Colégio Militar e em jornais da época. Concluindo o curso e não desejando seguir a carreira militar, iniciou-se no que seria a sua verdadeira vocação, como redator publicitário e criador de comerciais para TV. Os anos seguintes foram uma escalada de trabalhos escolhidos pela crítica especializada e pelo público como os melhores de cada período. Sem abandonar a redação, passou a ser Diretor de Criação em algumas das principais agências de propaganda do eixo Rio - São Paulo - Belo Horizonte. Especializou-se em varejo, e criou a propaganda de redes nacionais como Mesbla, Bemoreira, Ducal, Casa Masson, Brastel e outras. Sua especialização em varejo levou a uma variante profissional. Foi contratado como Gerente de Desenvolvimento Técnico da Confederação Nacional dos Lojistas, passando a coordenar simpósios, seminários e convenções em todos os estados brasileiros, além de editar a revista Diretor Lojista, voltada para o empresário do comércio. Foi alguns anos depois contratado como Diretor Executivo do Clube de Diretores Lojistas de Fortaleza, permanecendo aquela capital nordestina por 3 anos.


228

De volta ao Rio, e após temporada como Coordenador de Marketing da TV Manchete, criou sua própria empresa de propaganda, que durante 10 anos foi extremamente atuante na praça do Rio de Janeiro. Após retirar-se do mercado, passou a prestar serviços eventuais de planejamento e redação, e desenvolvendo sua produção literária, que hoje já alcança um total de 33 livros publicados, abrangendo poesia, prosa e temas técnicos. Conquistou vários prêmios em concursos literários, participou de diversas antologias e escreve artigos para revistas especializadas em comércio. Por sua contribuição à cultura, foi distinguido com a Cruz de Cavaleiro da Ordem do Mérito do Instituto dos Docentes do Magistério Militar. Recebeu igualmente a Comenda do Mérito Literário, outorgada pela Academia de Letras.

Poesia Mínima Quinquilharias Velhos Carnavais Passagem Secreta Céus e Terras Dicotomia Vale o Escrito Pela Janela Os Astros Não Mentem Tempus Fugit Há Muito Tempo... Uma Vida de Poesia e outros. Ocupa, como membro vitalício, a cadeira n°10 da Academia de Letras do Brasil, tendo como patrono o poeta J.G.de Araújo Jorge. Foi agraciado com a medalha de Mérito Literário, outorgada pela Academia de Letras do Brasil. É Acadêmico-Correspondente da Academia de Letras e Artes de Valparaíso (Chile) Fontes: NICOLINI, Amaury. Uma vida de poesia. RJ: Fundação Gutemberg (SENAI-RJ), 2011. http://www.amaurynicolini.prosaeverso.net/perfil.php

Entre seus livros, incluem-se: Salada de Poesia Um Verso Viajante

Concursos Literários Inscrições Abertas CONCURSO LITERÁRIO PADRE JOÃO MAIA 2012 'VILA DE REI: ROSTOS E OLHARES' Premiação: I) Cheque-prenda no valor de € 75,00 para o autor de cada trabalho premiado Prazo: 15 de Maio de 2012 Organização: Câmara Municipal de Vila de Rei (Portugal) / Centro de Estudos Padre João Maia Biblioteca Municipal José Cardoso Pires Telefone: 351 274 890 000 E-Mail: biblioteca@cm-viladerei.pt Regulamento: Art.º 1.º - Âmbito

Este concurso destina-se a promover a produção literária, estimulando o envolvimento da população, através da realização de textos em prosa ou em poesia. Art.º 2.º - Objectivos São objectivos deste concurso: a) Incentivar a criação literária; b) Promover a escrita criativa; c) Criar hábitos de leitura e de escrita na população. Art.º 3.º - Entidade promotora A entidade promotora é a Câmara Municipal de Vila de Rei. O concurso será dinamizado pelo Centro de Estudos Padre João Maia. Art.º 4.º - Destinatários O concurso destina-se a qualquer pessoa de


229 nacionalidade portuguesa, que não tenha nenhum livro publicado na área da literatura. Art.º 5.º - O trabalho 1. Cada participante pode apresentar apenas um trabalho; 2. O mote do trabalho a apresentar deverá ser “Vila de Rei: rostos e olhares”, sob qualquer perspectiva ou interpretação do autor alusivo ao concelho de Vila de Rei; 3. Os participantes podem constituir-se por grupos; 4. O texto não deverá ultrapassar as 10 páginas A4 (incluindo ilustrações), com margens de 2,5 centímetros, espaçamento 1,5 entre as linhas, com letra Times New Roman, tamanho 12; 5. As ilustrações utilizadas deverão ser acompanhadas de informação sobre a sua fonte. Art.º 6.º - Entrega dos trabalhos 1. Os trabalhos deverão ser entregues até às 18:00 horas do dia 15 de Maio de 2012, do edifício Biblioteca Municipal José Cardoso Pires, ou por correio para: Biblioteca Municipal José Cardoso Pires – Rua da Biblioteca - 6110/174 Vila de Rei; 2. Os trabalhos enviados por correio devem ser registados e com aviso de recepção. Será entregue uma declaração comprovativa, a quem entregar os trabalhos pessoalmente, na Biblioteca Municipal; 3. Não serão aceites trabalhos cuja data do carimbo dos correios seja posterior à data limite; 4. Os trabalhos deverão, obrigatoriamente, ser entregues num envelope, contendo no seu interior outros dois envelopes: num deles deve constar o trabalho original em formato papel não encadernado, e no outro (devidamente fechado) deve constar uma disquete ou um CD (identificado com o pseudónimo e ano de nascimento) contendo um documento com o texto e outro documento separado onde conste as indicações do autor, nomeadamente: nome, morada, número contribuinte, contacto telefónico, pseudónimo, género literário do trabalho, e-mail (se tiver) e ano de nascimento. No exterior de todos os envelopes, deverá constar apenas o pseudónimo e o ano de nascimento do autor. Art.º 7.º - Critérios de apreciação 1. Todos os textos apresentados têm de fazer alusão a “Vila de Rei: rostos e olhares”, ficando o mesmo ao critério do autor, sendo apreciados de acordo com o seguinte: a) Criatividade; b) Qualidade literária;

c) Organização; d) Coerência e coesão do texto. 2. Só serão aceites textos a concurso em Língua Portuguesa, que nunca tenham sido editados; 3. A Câmara Municipal de Vila de Rei reserva o direito da reprodução dos trabalhos apresentados a concurso, mencionando sempre o seu autor. Art.º 8.º - Júri 1. Compete à Câmara Municipal nomear o júri composto por três elementos, sendo o presidente do júri, um representante da autarquia; 2. Caberá ao júri decidir sobre os casos omissos nestas normas de concurso. Art.º 9.º - Prémios 1. Será premiado o melhor trabalho em prosa e o melhor trabalho em poesia; 2. Ao autor de cada trabalho premiado será atribuído um cheque-prenda no valor de € 75,00 (setenta e cinco euros); 3. O júri reserva-se ao direito de nomear Menções Honrosas; 4. Os trabalhos premiados serão publicados, em suplemento, do Boletim Informativo da Câmara Municipal de Vila de Rei. Fonte: http://www.biblioteca.cmviladerei.pt/public/files/Normas_2012(1).pdf III CONCURSO LITERÁRIO DA ACADEMIA TAUBATEANA DE LETRAS Premiação: I) 03 primeiros lugares: R$200,00 Prazo: Os trabalhos enviados pelos correios devem ser entregues na Academia Taubateana de Letras até o dia 30 de Maio de 2012 Organização: Academia Taubateana de Letras Telefone: (12) 3621-3251 Regulamento: O Concurso é destinado às pessoas maiores de 18 anos, excluídas as que forem membros da Academia Taubateana de Letras, qualificadas como membros titulares, honorários, correspondentes e beneméritos.


230 O Tema a ser abordado é EMÍLIA (personagem da obra infantil de Monteiro Lobato). MODALIDADE: POESIA ( soneto, poesia clássica ou poesia livre). Apenas UM TRABALHO por autor.

sessão de premiação. Premiação: os 03 primeiros lugares receberão R$ 200,00. As 03 primeiras Menções Honrosas receberão Diplomas. Taubaté, 01 de março de 2012 José Paulo Pereira – Presidente da ATL

O texto não deverá ultrapassar 30 linhas e ser apresentado em 03 vias, papel A4, digitado em ARIAL, corpo 12, espaço simples.

Em caso de dúvidas, ligar para: (12) 3621-3251

Colocar, no alto da página: o tema, o gênero de poesia escolhido e o pseudônimo do autor.

Fonte: http://lij-pe.blogspot.com.br/2012/03/la-vem-emiliaconcurso-de-poesias.html

O trabalho deve ser INÉDITO. Colocar, no mesmo envelope de remessa do trabalho, um envelope menor, contendo uma pequena folha de identificação, com os seguintes dados: nome e endereço completos do autor, ( não esquecer do CEP ), RG, pseudônimo, telefone para contato, e-mail (se tiver) e assinatura. Na face externa do envelope, escrever o pseudônimo e o gênero da poesia. Colar as abas deste envelope. Enviar o trabalho pelo Correio, endereçando assim: III Concurso Literário Externo “Acadêmica Judith Mazella de Moura” – A/C de Angelica Villela SantosRua Francisco Xavier de Assis, 36-Jardim MorumbiTaubaté-SP-12060-460. Como remetente, colocar: Emilia de Lobato e o mesmo endereço de remessa. Os concorrentes não podem ser identificados externamente. Só receberemos trabalhos enviados pelo Correio e chegados ao destino até o dia 30/05/2012. ( exceto em caso de alguma eventualidade, como por exemplo, greve dos Correios). A Comissão Julgadora será composta por Acadêmicos da Academia Taubateana de Letras.

XV CONCURSO NACIONAL DE CONTOS 'PRÊMIO JORGE ANDRADE' Premiação: I) 1º lugar: R$ 1.200; 2º lugar: R$ 800; 3º lugar: R$ 600; e 4º ao 10º lugar: diplomas de menção honrosa II) Os trabalhos premiados farão parte da Coletânea de Contos "Prêmio Jorge Andrade" Prazo: 31 de Agosto de 2012 Organização: Academia Barretense de Cultura - Barretos/SP Regulamento: Art. 1º O XV Concurso Nacional de Contos "Prêmio Jorge Andrade" promovido bienalmente pela Academia Barretense de Cultura terá a seguinte premiação: 1º Lugar: R$ 1.200,00 2º Lugar: R$ 800,00 3º Lugar: R$ 600,00 Art. 2º Os demais classificados até o 10º lugar receberão diplomas de "Menção Honrosa".

Os trabalhos que não estiverem de acordo com as especificações deste Regulamento, não serão considerados.

Art. 3º Os contos deverão ser inéditos, datilografados (espaço dois) ou digitados (fonte 12) em três vias, de um só lado, em papel ofício com no máximo 05 páginas.

As decisões da Comissão Julgadora serão soberanas e irrecorríveis.

Art. 4º Cada concorrente poderá se inscrever com até três contos.

Os autores premiados serão avisados por carta ou email, contendo também a data, o local e o horário da

Art. 5º Será obrigatório um pseudônimo literário diferente dos outros já usados. O candidato deverá


231 remeter juntamente com seu trabalho, em envelope lacrado: título do conto, seu pseudônimo, sua identificação completa, com endereço postal, telefone e e-mail (se tiver) e curriculum vitae resumido. No lado de fora do envelope de identificação, constar apenas o pseudônimo. Art. 6º Remeter para – Academia Barretense de Cultura – ABC no seguinte endereço: Rua 18 nº 431 – apt 6 - Centro - Ed. Camilo Ferreira Barretos/SP CEP: 14780- 060 Art. 7º Não poderão concorrer Membros da ABC. Art. 8º Serão rejeitados os trabalhos que não enquadrarem nas exigências deste regulamento. Art. 9º Os contos recebidos valerão como inscrição automática. O prazo encerra-se em 31 de agosto de 2012, valendo como comprovante, em caso de atraso, a data do carimbo postal da agência emissora. Art. 10º Uma "Comissão Julgadora" nomeada por portaria da presidência, composta de cinco membros da ABC, sendo um coordenador, terá até 31 de outubro do corrente ano para concluir os trabalhos de julgamento dos contos inscritos. Art. 11º Os trabalhos premiados farão parte da Coletânea de Contos "Prêmio Jorge Andrade", de distribuição gratuita aos autores, bibliotecas públicas e entidades culturais. Art. 12º Os contos classificados serão do acervo da ABC, respeitados os direitos autorais de cada um. Os contos inscritos premiados ou não, não serão devolvidos aos seus autores. Art. 13º Os dez primeiros classificados serão notificados diretamente, por e-mail, telefone ou ofício (se necessário), logo após a proclamação dos resultados. A outorga dos prêmios e certificados será em sessão solene, em local e data a serem estabelecidos. Art. 14º As decisões da Comissão Julgadora serão soberanas e irrecorríveis, inclusive os casos omissos. Fonte: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=26

6647&tid=5721458958901029401 PRÊMIO PROFESSOR MÁRIO CLÍMACO ALEPON Premiação: I) Medalhas Prazo: 10 de Agosto de 2012 (31) 3881-1697 / 3881-3455 e 3881-2663 Organização: Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova Regulamento: Prêmio “Professor Mário Clímaco” 1º) – A Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova – ALEPON, fará realizar o VII CONCURSO LITERARIO - Prêmio “Prof. Mário Clímaco”, que constará de duas categorias – Poesia e Crônica, de âmbito nacional. 2°) – Podem concorrer pessoas de ambos os sexos, com a idade mínima de 15 anos completos até a data do encerramento das inscrições. 3º) – As inscrições, gratuitas, estarão abertas a partir de 1º / 03 / 2012 e se encerrarão em 10 / 08 / 2012, valendo o carimbo do correio. Os membros da ALEPON não podem concorrer. 4º) – Nas duas categorias os trabalhos, com TEMA LIVRE, deverão ser de até 2 (duas páginas), em papel A4, fonte 12, Times New Roman ou Arial. 5º) – Para inscrever-se, basta que o concorrente envie até três trabalhos inéditos, de sua autoria, em cinco vias, datilografados ou impressos em computador (não serão aceitos manuscritos), além de CD contendo os trabalhos, para a Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova – ALEPON, Rua Cantidio Drumond, 92 - sala 1 - 35430-001 – Ponte Nova (MG). 6º) – Será usado o sistema de envelopes: o maior, com o endereço da ALEPON e do remetente, conterá os trabalhos, com o pseudônimo do autor (o mesmo para cada trabalho) e o envelope menor, devidamente lacrado; o menor guardará a identidade do concorrente: nome, RG, CPF, endereço completo,


232 telefone e data do nascimento (ou a declaração:“Tenho mais de quinze anos de idade”), além de data e assinatura. 7º) – Os vencedores receberão medalhas e diplomas. A critério da comissão julgadora poderão ser concedidas até 3 (três) menções honrosas. São irrecorríveis as decisões dos julgadores. 8º) – Os 10 (dez) primeiros classificados poderão ter seus trabalhos publicados no Informativo ALEPON, publicação autorizada, automaticamente, com o ato da inscrição, sem direitos autorais, assim como os demais participantes. 9º) – Os membros da Comissão Julgadora serão designados pelo Presidente da ALEPON, anunciados somente na data da divulgação dos resultados do concurso, uma vez que seus nomes ficarão em sigilo. 10º) – O resultado do Concurso será divulgado na Sessão Solene comemorativa do aniversário de Ponte Nova, no dia 26 de outubro de 2012. OBS. – Outras informações poderão ser obtidas pelos telefones 3881.1697 - 3881.3455 e 38812663. Fonte: http://bit.ly/regulamento_alepon 15º PRÉMIO LITERÁRIO FERNANDO NAMORA (PORTUGAL) Premiação: I) € 25.000 Prazo: 30 de Abril de 2012 Organização: Estoril-Sol Tel: 21 466 78 20/78 98 | Fax: 21 466 79 90 gabimprensa.cestoril@estoril-sol.com Regulamento: 1. Está aberto concurso para atribuição do “Prémio Literário Fernando Namora”, instituído pela EstorilSol em 1988 e que realiza, este ano, a sua 15a edição. 2. Este Prémio destina-se a galardoar uma obra de ficção (romance ou novela), de autor português,

editada em 2011, desde que o escritor não tenha sido premiado nas três edições anteriores. 3. Por se considerar fora do seu âmbito, não serão admitidas a concurso publicações especialmente dirigidas a públicos infantis ou infanto-juvenis. O Prémio não poderá, também, ser atribuído a título póstumo. 4. O “Prémio Literário Fernando Namora”, tem, no presente ano, o valor de € 25.000 (vinte cinco mil euros). 5. O Júri terá como presidente de honra o escritor e ensaísta Vasco Graça Moura, a quem caberá o voto de qualidade em caso de empate na votação, e será constituído por representantes das seguintes instituições: Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas; Centro Português da AICL – Associação Internacional dos Críticos Literários; APC Associação Portuguesa de Escritores; CNC – Centro Nacional de Cultura; além de duas personalidades independentes de reconhecido mérito e de representantes da Estoril-Sol. 6. As decisões do Júri serão registadas em acta e em livro próprio, não sendo admitidas abstenções, atribuição do prémio ex-aequo ou Menções Honrosas. 7. Para participar na décima quinta edição deste Prémio, deverão ser enviados 9 (nove) exemplares das obras concorrentes, em correio registado, ou serem entregues por protocolo até 30 de Abril de 2012, no seguinte endereço: “Prémio Literário Fernando Namora” – Assessoria de Comunicação da Estoril-Sol – Gabinete de Imprensa – Casino Estoril – Av. Dr. Stanley Ho – 2765-190 Estoril. § Único – Os exemplares das obras submetidas à apreciação do Júri não serão devolvidos. 8. Os romances publicados em 2011 podem ser apresentados a concurso pelos seus autores, suas editoras ou outras entidades. Está vedado o concurso às obras da autoria dos elementos que venham a integrar o Júri. 9. Em reunião preliminar, o Júri poderá elaborar e divulgar uma short-list das cinco obras concorrentes que seleccionar com vista ao apuramento do vencedor.


233 10. As edições subsequentes da obra premiada deverão referenciar, em lugar destacado do volume ou em cinta exterior, o “Prémio Literário Fernando Namora” bem como a Estoril-Sol, empresa patrocinadora.

Fonte: http://bit.ly/regulamento-fernandonamora

11. Caberá à Estoril-Sol proceder à revisão do Regulamento sempre que tal seja necessário.

Mais concursos literários em http://concursos-literarios.blogspot.com/

12. As questões omissas neste Regulamento serão resolvidas pelo Júri e das suas decisões não haverá recurso. Contactos: Tel: 21 466 78 20/78 98 | Fax: 21 466 79

90 E-mail: gabimprensa.cestoril@estoril-sol.com


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