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FEARLESS

Antes, é preciso voltar e explicar o começo para que possa entender que ainda não cheguei a fonte nenhuma. Eu me chamo Omar, nome escolhido por meu pai, para homenagear um dos grandes homens de sua família. Sou o quarto Omar na família, o segundo ainda vivo. Omar, na nossa tradição, significa viver muito – “O homem que tem uma vida longa”. Mas, para manter esse significado eu precisei abdicar da minha crença, herança, família, amigos, história, casa e até do meu país. Precisei deixar de ser Omar para ser o ambulante “muçulmano” ou “o homem bomba” da Rua Vinte e Cinco de Março.

Um dia, Jamal disse que não poderíamos nos encontrar mais. Alguma criança tinha dito para Iza que o pai dela merecia ser jogado do prédio mais alto da cidade para nunca mais praticar sodomia. Jamal estava com medo de que boatos sobre nós dois chegassem aos ouvidos de algum jihadista. Ele tinha medo e eu passei a temer também. Decidimos que não iríamos mais nos encontrar publicamente. Em algumas noites eu o visitava, mas o deixava muito antes do amanhecer.

Poucos dias se passaram e tudo piorara. Meu pai me ignorava. Eu não podia mais trabalhar em sua loja, nem me alimentar enquanto ele estivesse na mesa. Vivia em clausura no meu quarto para não o ofender. Essa situação teve fim quando minha mãe entrou correndo no quarto, pegando algumas roupas, documentos e me dizendo para fugir. Segundo ela, meu pai me entregaria ao Tribunal Islâmico. Iriam procurar Jamal também. Se quiséssemos viver, era melhor esquecermos daquele lugar e recomeçar tudo uma vez mais. Consegui encontrar Jamal antes dos jihadistas. Avisei o que iria acontecer e decidimos fugir. Junto com Iza, deixamos aquele vilarejo. Foi uma jornada difícil até conseguirmos deixar o país. Consideramos muitas opções, mas a que parecia ter menos chance de dar errado era o Brasil. Aqui, não cometeríamos nenhum crime em ficar juntos, pelo menos era o que pensávamos. Nossa primeira tentativa aqui foi no Rio de Janeiro. Ficamos lá até nosso visto vencer. Não conseguimos nenhum emprego,

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TOUCH THIS SKIN

Isso tudo começou quando eu me apaixonei por Jamal. O conheci em uma mesquita em que meu pai, meu irmão e eu frequentávamos. Jamal mudou-se para o nosso bairro após o falecimento da mulher. Ele tinha uma filha, a pequena Iza. Acabei por me tornar um grande amigo dele, até cheguei a arrumar um emprego para ele em uma das lojas de tapetes do meu pai. Ficamos muito próximos, muito mesmo. Tão próximos que nossa amizade passou a ser questionada. Lembro que meu pai me questionava sobre Jamal e nossa amizade. Lembro de quando ele tentou nos afastar um do outro. Lembro de minha mãe chorando e dizendo que estávamos ferindo a Sharia.

Naquele mesmo mês, meu pai demitiu Jamal. Em uma tarde, enquanto eu negociava a venda de um tapete, meu pai entrou em nossa loja completamente furioso. Expulsou o comprador, fechou a loja e me obrigou a segui-lo até uma praça. Lá, junto a uma enorme multidão, me obrigou a assistir dois homens sendo lançados de um prédio de nove andares. Antes de serem jogados, um homem encapuzado anunciou o crime dos dois homens e suas sentenças: morte. Gays, foram acusados e confessaram manter relações íntimas e sexuais. Por ofenderem o Islamismo e a Sharia, não teriam perdão. Quando seus corpos tocaram o chão, me virei para deixar o lugar. Ainda conseguia ouvir o som de pedras sendo atiradas violentamente nos dois rapazes enquanto me afastava.

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FEARLESS Mag // Edição No2 - Touch This Skin  

Com três opções de capa, a segunda edição da FEARLESS traz questionamentos sobre o significado da arte LGTBQ+, a representatividade com pink...

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